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0 ESTUDO DA LINGUAGEM NO CONTEXTO SOCIAL Objetivos gerais do Conhecendo a Sociolinguística - o objeto de estudo e conceitos básicos da A variação vista de dentro da - os níveis linguísticos em que ocorre variação e os condicionadores internos à língua; A variação vista de fora da lingua - os tipos de variação linguistica e sua relação com os condicionadores externos à lingua. 1. CONHECENDO A SOCIOLINGUÍSTICA Neste capítulo, vamos dar os primeiros passos no conhecimento da Começamos apresentando algumas ideias que funda- mentam esse conhecimento, e para isso nos referiremos constantemente ao mundo das pesquisas feitas nessa área, pois é através dele que vamos elencar alguns conceitos necessários para as discussões que teremos ao longo de todo este livro. Antes mesmo de tomarmos contato com esses estudos, é preciso nos desfazermos de algumas eventuais noções pré-concebidas. É necessário, por exemplo, abandonar a ideia de que a língua é uma estrutura pronta, acabada, que não é a variar e a mudar. É necessário também entender que a realidade das pessoas que usam a os falantes tem uma influência muito grande na maneira como elas falam e na maneira 11PARA estudo da no social como avaliam a que usam e, especialmente, a língua usada pelos um gesto, por exemplo. Isso quer dizer que elas falam da mesma maneira. outros. Para conhecer a é necessário, antes de mais nada, Contudo, cada grupo social apresenta características no seu falar que são "abrir a cabeça" para aceitar a que está sendo usada à nossa volta condicionadas por sua origem, sua idade, sua escolaridade, entre outros fato- como um objeto legítimo de estudo. res. Isso quer dizer que as pessoas à nossa volta falam de diferentes À primeira vista, pode parecer dificil imaginar que a lingua, com As conclusões que podemos tirar dessa aparente "pegadinha" são seu caráter variável e mutável, como estamos afirmando, seja um objeto que, primeiramente, a língua é um sistema organizado tão organizado de estudo já que estudos são, em geral, baseados que seus falantes se comunicam perfeitamente entre si, não importando em sistematizações, em resultados concretos, no estabelecimento de re- se um mora no interior de São Paulo e o outro na capital do Rio Grande gras. Mas esperamos que, ao fim deste capítulo, fique evidente que pro- do Sul, se um tem 6 anos de idade e o outro 60, se um tem curso superior curar regras que muitas e muitas vezes se diferem das regras prescritas e o outro ensino fundamental. Em segundo lugar, podemos concluir que em gramáticas normativas e manuais de "bom uso" da lingua é um dos a língua varia, e essa variação decorre de fatores que estão presentes na objetivos da Sociolinguística, e que é possível depreender regras da lin- sociedade além de fatores que podem ser encontrados dentro da própria gua, mesmo diante de todas as suas mudanças e lingua, conforme veremos mais adiante. Iniciemos o exame dessa área de estudos pensando no seu nome: So- A se ocupa desses fatores, da pressão que eles exer- ciolinguistica. Quando ouvimos essa palavra, possivelmente imaginamos cem sobre a que falamos e da maneira que as pessoas percebem e que ela tenha algo a ver com Linguistica e também com social. De fato, avaliam a lingua. É dessa forma que os sociolinguistas estudam a relação como o nome sugere, a Sociolinguística é uma área da que entre língua e sociedade. estuda a relação entre a que falamos e a sociedade em que Notemos que as duas conclusões a que chegamos não são incompatíveis Vamos refletir um pouco sobre essa Pensemos nas pessoas entre si: na entendemos a língua como um sistema de regras, à nossa volta, aquelas que pertencem à nossa família, aquelas que encon- mas algumas regras são categóricas (regras que sempre se aplicam da mesma tramos na universidade, no trabalho, no supermercado. Elas falam todas forma) e outras são variáveis (regras que se aplicam de modo variado). da mesma maneira? É com essas questões, fundamentalmente, que vamos nos deparar ao Se pensarmos bem, talvez tenhamos duas respostas a oferecer para longo deste livro. Para lidar com vamos primeiro nos equipar com essa pergunta. Uma delas é sim, as pessoas à nossa volta falam todas da algumas ideias e conceitos básicos. mesma forma. Tanto é verdade que elas se entendem perfeitamente. Todas (à exceção das estrangeiras, e olhe lá!) falam Se for o caso, até 1.1 Que Sociolinguística é essa? podemos especificar: todas elas falam o Ou então não, falam todas de maneira diferente. Umas pronunciam Quando começamos este capítulo, dissemos que a Sociolinguística é uma todos os 'S' (provavelmente aquelas que passaram mais anos na escola), área da que estuda a relação entre a que falamos e a socieda- outras têm sotaques diferentes e outras ainda usam palavras cujo significado de em que vivemos; não afirmamos que a Sociolinguística é a área que estuda talvez não conheçamos, por se tratar de expressões de uma determinada re- essa Existem outros campos dentro das ciências da linguagem que se gião do país ou que são usadas por uma geração diferente da nossa. dedicam, de alguma forma, ao estudo da língua no contexto social, como a Pois bem, as duas respostas estão corretas. As pessoas à nossa volta Linguistica Histórica, a Análise do Discurso e a Linguística Aplicada. se comunicam sem maiores problemas; mais do que isso, a lingua falada é, Além de perceber que a não é a única área da Linguística muitas vezes, o maior e melhor instrumento que têm para se entender, que se ocupa da relação entre e sociedade, é importante que tenhamos um instrumento capaz de desfazer mal-entendidos causados por um olhar ou consciência de que Sociolinguistica é um termo bastante amplo, que engloba 12 13estudo da contexto social PARA diferentes formas de olhar para essa relação. É importante ter em mente que, tes que acessam determinada rede social na internet com frequência, por neste livro, trataremos da teoria e do método de uma em es- exemplo). Podemos, ainda, combinar diferentes critérios para chegar às a Sociolinguística Variacionista. Essa área atende também por outros variedades: pode-se falar na variedade dos pescadores de Florianópolis, na nomes: (i) Sociolinguística Laboviana, porque seu principal expoente é o variedade das donas de casa do interior do estado de São Paulo, na varie- linguista norte-americano William (ii) Sociolinguística Quantitati- dade dos jovens rappers da cidade do Rio de Janeiro e assim por va, porque, a princípio, os pesquisadores dessa área costumam lidar com uma É importante destacar que temos uma variedade específica a que os grande quantidade de dados de usos da lingua, o que requer normalmente uma sociolinguistas se referem com certa frequência: a variedade análise estatística; e (iii) Teoria da Variação e Mudança Linguística, por conta de suas principais preocupações: a variação e a mudança na lingua. Variedade culta Para avançarmos em nosso estudo sobre essa à qual A variedade culta normalmente associada às camadas mais nos remeteremos por todos os seus rótulos indistintamente vamos come- altas da É, em geral, a língua usada pelos falan- apresentando as noções de variedade, variação, variável e variante. tes mais escolarizados, com maior remuneração e que moram em Em seguida, veremos que, em se tratando de tudo o que acontece centros Essas pessoas, por seu status, comumente gozam tem uma explicação, que encontramos dentro ou fora dela existem forças de social, e esse prestigio é transferido para a sua fala. que agem sobre a língua e a influenciam É evidente que não se trata de uma delimitação exata de um grupo de Se considerarmos a realidade brasileira, vere- mos que há pessoas com alta remuneração e pouca escolaridade, 1.2 Primeiras noções: variedade, variação, variável e variante outras com alta escolaridade e baixa remuneração, moradores de áreas rurais com propriedades de alto valor e assim por diante. Para entender o conceito de variedade, voltemos a pensar na fala das Como qualquer outra variedade, a variedade culta também apre- pessoas de nossa família, de nossa universidade, de nosso trabalho e do su- senta variações basta pensar que as variedades, ainda que agre- permercado que frequentamos. Já concluímos que elas falam de uma única guem falantes com (geográficas, sociais etc.) em maneira, e também que falam de maneiras Mas o que faz a fala comum, não são Por esse motivo é que podemos considerar a existência de algumas variedades cultas é essa a dessas pessoas parecer igual ou diferente? perspectiva que adotamos daqui por diante neste livro. Certamente, o que une a fala das pessoas em quem pensamos é o fato de elas falarem português. Observamos também que, embora todas elas falem a mesma existem algumas características que diferenciam a Na Sociolinguistica Variacionista, dialeto e falar são sinônimos de varie- fala de um determinado grupo social da fala de outro grupo. dade. É importante observar que dialeto, aqui, não corresponde a uma varieda- Damos o nome de variedade à fala característica de determinado gru- de "inferior" ou estigmatizada de uma língua, mas sim como é equivalente a po. A partir de critérios podemos isolar, por exemplo, a varie- variedade ao falar característico de determinado grupo social e/ou regional. dade a variedade manauara e a variedade da Zona Leste da cidade Vamos agora tratar de outros conceitos a partir da reflexão sobre al- de São a partir de critérios sociais, podemos pensar, por exemplo, guns fenômenos variáveis no português do Brasil, que são muito mais fre- na variedade dos falantes mais escolarizados, na variedade dos falantes quentes do que se pode imaginar. mais jovens e na variedade das mulheres; também podemos escolher ou- Um em variação bastante perceptivel é o da tros critérios, como a ocupação/profissão (a variedade dos advogados, por entre os pronomes pessoais e para a expressão pronominal de exemplo) ou algum hábito que unifique os falantes (a variedade dos falan- segunda pessoa (P2). 15PARA Sociolinguistica estudo da no contexto social É essa realidade que o sociolinguista tenta captar, sem qualquer tipo de Utilizamos neste livro a nomenclatura de Mattoso Camara Jr. (1987 [1970]) para nos referirmos às pessoas do discurso: P1 ideia pré-concebida, tanto como linguista erroneamente considerando, por para P2 para P3 para P4 para exemplo, que a variação é mero acidente na que não pode ser estu- para e P6 para As formas dada com rigor quanto como cidadão equivocadamente acreditando, por identificadas como e P4 correspondem ao eixo do falante exemplo, que um falante que diz tem menos capacidade de pensar (ou daquele que as formas P2 e P5 correspondem ao eixo do ouvinte (ou daquele que e as formas P3 e P6, aos e de se expressar do que o falante que diz A postura aberta à que estão fora do eixo falante-ouvinte. pesquisa e isenta de preconceitos é, como este livro busca demonstrar, uma das maiores contribuições que a tem a nos fazer quando tra- balhamos com o ensino de materna e quando tentamos compreender e, sobretudo, combater o preconceito em nossa sociedade. Se prestarmos atenção, veremos que, dependendo da origem de uma Esse é o olhar sobre a língua e sobre a variação linguística que um socio- pessoa ou, por vezes, do grau de formalidade com o qual ela nos trata, pode- linguista adota ao trabalhar com dados produzidos por falantes em uma comu- mos ouvi-la se referindo a nós tanto por quanto por A alternância entre as duas formas pode ser percebida, por exemplo, em entrevistas na TV nidade. Seu objetivo é descobrir quais os mecanismos que regulam a variação, ou quando conversamos online com amigos num chat. As formas são dife- como ela interage com os outros elementos do sistema linguístico e da matriz rentes, mas não há dúvida de que ambas estão sendo usadas com o mesmo social em que ocorre e como a variação pode levar à mudança na propósito: o de referir à segunda pessoa (P2). O que ocorre ai nada mais é do E quais são os meios pelos quais atingimos esses objetivos? a que o fenômeno que discutimos até agora: a variação linguística. pesquisa sociolinguística variacionista envolve uma metodologia refinada, A variação linguística é o processo pelo qual duas formas podem ocorrer com etapas bem definidas, cujo objetivo é colher corretamente os dados no mesmo contexto com o mesmo valor referencial/representacional, isto é, que servirão como fonte das análises e tratá-los de modo adequado para com o mesmo significado. Para um sociolinguista, o fato de em uma comu- que cheguemos a resultados e conclusões confiáveis como veremos no nidade, ou mesmo na fala de um único indivíduo, conviverem tanto a forma capítulo "Metodologia da pesquisa 'tu' quanto a forma não pode ser considerado acidental ou Retomemos nosso exemplo de variação para estabelecermos uma distin- irrelevante em termos de pesquisa e de avanço de conhecimento. A variação ção importante: aquela entre variável e Comumente chamamos de é inerente às e não compromete o bom funcionamento do sistema variável o lugar na gramática em que se localiza a variação, de forma mais abs- linguístico nem a possibilidade de comunicação entre os falantes o que po- trata; no exemplo visto anteriormente, em que mencionamos a variação entre demos perceber quando observamos que as pessoas à nossa volta falam de os pronomes a variável com a qual estamos lidando é a "expressão maneiras diferentes, mas sempre se entendendo perfeitamente. pronominal de Chamamos de variantes as formas individuais que "dispu- De fato, palavras ou construções em variação, em vez de comprome- tam" pela expressão da variável no caso, os pronomes terem o mútuo entendimento, são ricas em significado social e têm o poder de comunicar a nossos interlocutores mais do que o significado referencial/ Variantes representacional pelo qual "disputam". As diferentes formas que emprega- mos ao falar e ao escrever dizem, de certo modo, quem somos: dão pistas a Dois requisitos devem ser cumpridos para que duas ou quem nos ouve ou sobre o local de onde viemos, o quanto estamos inse- mais formas possam ser chamadas variantes: ridos na cultura letrada dominante de nossa sociedade, quando nascemos, 1. Elas devem ser intercambiáveis no mesmo 2. Elas devem manter o mesmo significado referencial/ com que grupo nos identificamos, entre várias outras informações. 16PARA CONHECER estudo da linguagem no contexto social Como ilustração, vejamos mais um fenômeno variável do falado no Brasil: a monotongação dos diton- Variantes padrão e não padrão: uma ressalva gos decrescentes. Pensemos na palavra Temos duas Observamos que a variante padrão tende a ser prestigiada para essa palavra: peixe e pexe. Note-se que, inde- e conservadora, ao passo que a variante não padrão tende a ser pendentemente da o significado referencial/repre- estigmatizada e inovadora. Vale ressaltar, contudo, que essas sentacional da palavra se mantém: tanto peixe quanto pexe se são tendências nem sempre a realidade que observamos re- referem a um animal vertebrado, aquático, que respira por flete essas Vejamos o caso, por exemplo, da variável quias. Logo, nesse exemplo, estamos diante de duas variantes "expressão pronominal de cujas variantes são, atualmente, de uma variável: o ditongo [ey] e a vogal Elas são intercam- os pronomes e gente*. Claramente, a variante padrão é ou seja, podem ser trocadas uma pela outra, sem preju- Ela goza de prestigio e é a forma conservadora, que está izo da manutenção do significado referencial/representacional há mais tempo na Por sua vez, é a variante não Se pensarmos no ditongo [ey] na palavra será padrão, que sofre mais estigma e é Note-se, contu- que temos o mesmo caso? do, que o estigma de tem se perdido e que essa va- Vejamos. Se pronunciarmos (e) no lugar de [ey], teremos riante tem sido usada também em contextos mais formais, nos a palavra que não tem o mesmo significado de quais figurava apenas a forma Estamos vendo, portanto, de acordo com o dicionário Houaiss, tem quatro acep- a tendência que mostramos anteriormente sendo relativizada. ções e nenhuma delas coincide com o significado de que é uma parte do corpo. Nesse caso, portanto, o ditongo (ey) e a vogal [e] não são variantes de uma mesma variável, Mais um aspecto importante relacionado à variação é o fato de que ela pois se trocarmos uma pela outra não manteremos não está limitada a apenas um dos níveis da quando tratamos da o mesmo significado referencial/representacional dimensão interna da variação linguística, encontramos variação no nível fo- nológico, bem como no morfológico, no sintático, no lexical e no discursivo. Ocorrem, ainda, fenômenos variáveis situados no que podemos chamar de Em um caso de variação, as formas variantes costumam receber interfaces de níveis, como o nível e o morfofonológico. valores distintos pela comunidade. Trabalharemos com o significado Agora que já tratamos dos conceitos de variação, de variedade, de social das variantes no capítulo seguinte, mas por enquanto vale es- variável e de variante, passemos ao exame dos meios pelos quais as for- tabelecermos a diferença entre variantes padrão e não padrão. As mas variantes de uma variável entram em disputa pela expressão de um variantes padrão são, grosso modo, as que pertencem às variedades significado: os condicionadores linguísticos e sociais. cultas da língua; já as variantes não padrão costumam se afastar dessas variedades. Mesmo que não seja a variante mais usada por uma comu- nidade, a variante padrão é, em a variante de enquanto 1.3 As forças que agem sobre a os condicionadores a não padrão é muitas vezes estigmatizada pode haver comentários Já sabemos que a variação ocorre em todos os níveis da gramática e negativos à forma ou aos falantes que a empregam. Ademais, as varian- que falantes pertencentes a grupos diferentes (determinados por questões tes padrão tendem a ser fazendo parte do repertório sociais e entre outras) irão apresentar diferentes variedades. A linguístico da comunidade há mais tempo, ao passo que as variantes essa altura, é pertinente nos a variação linguística é alea- não padrão tendem a ser tória, acontece por acaso? Ou existe algo que motive um grupo ou mesmo um a falar da maneira como fala? 18PARA 0 estudo da no social A primeira resposta é não, a variação linguística não é aleatória, não a variável dependente, também como o nome sugere, depende acontece por acaso. Existem regras que a regem e é por isso que os falan- de sua relação com as variáveis independentes, afinal, são es- tes se compreendem entre si, mesmo que sua fala seja variável. A segunda tas que condicionam a forma de realização resposta é que existem forças dentro e fora da lingua que fazem um grupo de pessoas ou um único indivíduo falar da maneira como fala. A essas for- ças damos o nome de condicionadores. Com o controle refinado da frequência de ocorrência das variantes, e Os condicionadores, em um caso de variação, são os fatores que re- em função dos condicionadores linguísticos e extralinguísticos seleciona- gulam, que condicionam nossa escolha entre uma ou outra variante. É o dos para nossa análise, podemos traçar um quadro respaldado por resultados controle rigoroso desses fatores que nos permite avaliar em que tipo de am- quantitativos precisos de quais condicionadores favorecem ou desfavorecem a ocorrência das formas que concorrem para a expressão de uma biente, tanto linguístico quanto extralinguístico, uma variante tem maior probabilidade de ser escolhida em detrimento de sua(s) "rival(is)". Para mostrarmos isso de modo mais claro, retomemos o exemplo da varia- ção entre e Que aspectos do próprio sistema linguístico da so- Os condicionadores ajudam o analista a delimitar quais são os con- ciedade que o emprega poderiam influenciar a escolha de uma das duas formas? textos mais propícios para a ocorrência das variantes em estudo. Eles são A região de origem do falante parece ser decisiva nesse caso: há diversas divididos em dois grandes grupos, em função de serem mais ligados a as- regiões do país cujos falantes empregam apenas outras em que o 'tu' pectos internos da lingua ou externos a ela. No primeiro caso, são também é predominante e outras em que as duas formas havendo uma di- chamados de condicionadores linguisticos. Como exemplos, temos a or- ferenciação no uso por conta de outros fatores o grau de intimidade entre os dem dos constituintes em uma sentença, a classe das palavras envolvidas interlocutores e o grau de formalidade da situação comunicativa, por exemplo. no fenômeno em variação, aspectos etc. No segundo caso, são Temos ai três condicionadores externos ao sistema linguístico (a região, o grau também chamados de condicionadores Entre os con- de intimidade e o grau de formalidade), os quais, numa pesquisa dicionadores de natureza social, os mais comuns são o ca, são pistas essenciais ao analista para desvendar os mecanismos da variação. sexo/gênero, o grau de escolaridade e a faixa etária do informante. E quanto aos fatores intrinsecos ao sistema linguístico? Que condicio- nadores internos considerar em um estudo sobre essa variável? Um pouco de terminologia Pesquisas sociolinguísticas têm mostrado que o traço semântico do pro- Mencionamos que a pesquisa em geral, nome pode favorecer o uso de uma das variantes: mais utilizado com lida com uma quantidade considerável de dados, o que requer caráter genérico e com traço mais específico. Muitas vezes usamos um uma análise estatística. linguajar próprio do método estatis- pronome de segunda pessoa para referirmos não ao nosso mas tico é, por vezes, incorporado à terminologia que adotamos na a qualquer pessoa esse é um uso genérico. Por exemplo, em "Hoje em dia Variacionista. você tem água encanada e luz elétrica em quase todas as residências do Os condicionares linguísticos e extralinguísticos, numa certamente esse você não se refere ao interlocutor; poderia, inclusive, ser pesquisa sociolinguistica, são também chamados de variáveis independentes (ou grupos de fatores), enquanto a variável trocado por outras estratégias de indeterminação, como "Hoje em dia tem- propriamente dita (ou seja, aquela que corresponde ao lugar se água encanada e luz elétrica em quase todas as residências do Brasil" ou da gramática em que ocorre a variação, como a "expressão mesmo "Hoje em dia tem água encanada e luz elétrica em quase todas as pronominal de por exemplo), também pode ser tratada residências do Brasil". Já em "Eu me esforço para agradar você", temos um por variável dependente. uso cujo referente é apenas o interlocutor. As variáveis independentes, como o nome sugere, ideal- É essa, em suma, a postura investigativa que se adota no trabalho com a mente não apresentam uma relação de dependência entre si. Já Com ela, identifica-se uma variável no uso corrente da língua0 estudo da no social de uma comunidade; identificam-se, a seguir, as variantes dessa a americano. objetivo é examinar a variação linguística em sua dimensão partir das hipóteses que elaboramos quanto aos condicionadores que possam interna na qual verificamos os níveis gramaticais de análise (lexical, fo- estar em jogo no favorecimento ou desfavorecimento das variantes, prossegue- nológico, morfológico, sintático e discursivo) e os condicionadores inter- se à coleta de dados reais de fala e, posteriormente, à sua análise, para confir- nos e em sua dimensão externa na qual observamos a interação dos mação ou refutação das hipóteses Mas essa é somente uma condicionadores externos com os fenômenos Uma pesquisa sociolinguistica deve in muito além disso se quiser efetivamente esclarecer um pouco mais sobre a complexa relação que há entre língua e so- 2. A VARIAÇÃO VISTA DE DENTRO DA LÍNGUA ciedade através do estudo da variação e da mudança linguística. A Sociolinguística assume, portanto, que existe uma forte correlação A partir de agora, vamos tratar da variação em função dos diferentes entre os mecanismos internos da língua e fatores externos a tanto de níveis linguísticos em que ocorre: uma ordem envolvendo nosso grau de contato e de identificação variação lexical; com os grupos com os quais interagimos no dia a dia, quanto de uma or- variação fonológica; dem "macro", relacionada a uma estratificação social mais ampla. variação morfofonológica, morfológica e morfossintática; variação Sintese dos primeiros passos variação Para entendermos a perspectiva da Sociolinguistica so- Em seguida, veremos como os condicionadores internos, aqueles que bre a língua, é necessário abandonar alguns (pré)conceitos e são inerentes à língua, atuam nos fenômenos em variação. Ao longo de aprender a ver a língua não como uma estrutura pronta, es- tanque e mas como uma estrutura que aceita varia- nossa discussão, vamos percorrer alguns estudos realizados sobre fenôme- ções, que não se concretiza sempre da mesma forma. Nossos nos variáveis no do Brasil, primeiros passos, até agora, buscaram criar familiaridade com algumas ideias, dentre elas as de que: a lingua é um sistema dotado de 2.1 0 lugar da variação dentro da língua: sendo um sistema, a lingua é por um conjunto os de análise linguística estruturado de regras (categóricas e as variantes que disputam pela expressão de uma variável Observando com atenção os fenômenos em variação que temos visto até podem ser mais ou menos usadas, dependendo do ambiente agora, percebemos que existem diferenças com relação ao lugar da gramática e/ou explicações para as escolhas dos falantes por uma ou outra ocupado pelas variáveis e à natureza de suas A partir deste momen- variante linguística são buscadas pelo controle de fatores to, veremos um a um esses lugares, que equivalem aos níveis da gramática, e condicionadores (variáveis assim progrediremos em nosso conhecimento sobre a Sociolinguística. a natureza do sistema é o que pressupõe o Vamos começar tratando da variação lexical, que, em geral, apre- emprego de técnicas quantitativas para a observação das senta fenômenos bastante e muitas vezes até divertidos de regularidades que o serem observados. É certo que, quando se fala em variação linguística, os exemplos que Nas próximas seções, vamos conferir a aplicação dos conceitos que costumam vir primeiro à mente dizem respeito ao nível do léxico, ou seja, acabamos de apresentar na análise de fenômenos em variação no portu- das palavras que compõem uma dada lingua, quase sempre associados à falado no Brasil, assim como de alguns fenômenos variáveis no variação regional. A mesma realidade é representada, conforme a região,PARA CONHECER 0 estudo da linguagem no contexto social por palavras diferentes. Mas há também usos variados conforme a situa- A coleta de dados para a formação dos atlas linguísticos é feita, em geral, a ção, mais formal ou menos formal, em que se está falando, associados, por- partir de respostas a questionários, como, por exemplo, os questionários tanto, à variação estilística. Listamos alguns casos de variação no nível le- tico-lexicais (QSL), compostos de perguntas distribuídas em campos note-se que temos sempre duas ou mais variantes para cada variável: diferentes. A divisão do QSL em campos é uma tentativa de captar a diversidade lexical de cada microrregião dos estados do Brasil, tendo em vista Exemplos de variação lexical fatores históricos de colonização e particularidades relativas aos diversos cam- abóbora, pos da atividade humana (economia, política, trabalho, cultura etc.). bergamota (ou vergamota), tangerina, laranja-cravo, mimosa; que a análise da distribuição geográfica de formas lexicais tem permiti- mandioca, aipim, macaxeira; do, portanto, é a delimitação de áreas lexicais, ou seja, de zonas de um território pão pão de trigo, cacetinho, que se caracterizam por apresentarem vocábulos que não ocorrem em outras. banheiro, toalete, casinha; As áreas lexicais, contudo, não são delimitadas por fronteiras fixas e imutáveis; coisa, troço, trem: estojo, penal; elas se na medida em que os diferentes falares se interseccionam. pandorga, pipa, Vale ressaltar que, na classificação dos dialetos em geral, os aspectos le- vaso, bacio, xicais são menos sistematizáveis do que os fonético-fonológicos, morfológicos ou sintáticos, visto que esses últimos são regulados por condicionadores inter- As maiores contribuições para o estudo da variação no nível do léxico nos, além dos externos, enquanto os lexicais estão intimamente ligados a fatores têm sido oferecidas a partir de estudos geolinguísticos de diferentes regi- extralinguísticos, de caráter cultural, sobretudo etnográficos e históricos. do Brasil. Esses estudos, já desde os trabalhos pioneiros do filólogo Tendo observado alguns exemplos de como se dá a variação no nível Antenor Nascentes, na década de 1950, têm como propósito a elaboração lexical, vamos passar a outro linguístico: o fonológico. de um atlas linguístico do Brasil, com o mapeamento das diferentes áreas Vários estudos atestam variação fonológica em di- linguísticas do português brasileiro. versos fenômenos do português do Para exemplificar esse tipo de variação, observe a troca de por nas palavras A e a elaboração de mapas muié (por 'mulher') Atualmente, temos em formação o ALIB (Atlas Lin- veia (por foia (por trabaio (por do Brasil), um projeto de grandes proporções que Esse fenômeno chamado de despalatalização consiste na perda conta com a participação de dialetólogos de diferentes regiões do Há também atlas linguísticos regionais, como o de palatalização passa para palha > palia), seguida de iota- ALERS (Atlas Linguístico-Etnográfico da Região Sul), o cismo (evolução de um som para a vogal ou para a semivogal cor- ALIMA (Atlas Linguístico do Maranhão) e o ALIPA (Atlas respondente: palia > paia). Existe uma aproximação entre os pontos de Linguístico do articulação da palatal IN (que na escrita representamos por e da Nesta década, estudos que unem a metodologia semivogal o que justifica linguisticamente essa variação. Assim, em de pesquisa da e a da Sociolinguística, chama- certos contextos, o traço palatal passa a ser articulado como alveolar ou dos de geossociolinguísticos, têm sido bastante comuns, tanto como uma semivogal. A despalatalização é apenas um exemplo de varia- para dar conta de fenômenos lexicais como de fenômenos fo- nológicos, morfofonológicos e em variação. ção fonológica verificado no do Brasil; no quadro a seguir, há Você pode ainda ampliar esse quadro pesquisando sobre outras variáveis fonológicas.PARA CONHECER Sociolinguistica o estudo da no contexto social Pensemos no caso do em que temos o fenômeno fonológico Exemplos de variação fonológica da assimilação: Sincope: supressão de um segmento sonoro no interior cantano (por correno sorrino (por da palavra. Há uma tendência de as proparoxitonas se igualarem às paroxitonas, que são muito mais frequentes Sabemos que é o morfema verbal que indica Nos três na língua portuguesa. Como exemplos, temos casos como exemplos, esse morfema sofre uma redução para com a queda do fo- relampo (por fosfro (por abobra nema E agora: será um caso de variação fonológica ou morfológica? (por arve (por figo (por etc. Na passagem do latim para o temos casos como A mesma indagação pode ser feita em relação aos seguintes fenôme- insula ilha, littera > letra etc.; nos em variação, muito frequentes no português do Brasil: Monotongação: transformação ou redução de um ditongo a. andá (por (por parti (por em uma vogal. Podemos ter a transformação do ditongo /ow/ para /o/, como poco (por ropa (por b. eles anda (por eles eles vendi (por eles eles cenora (por de /ey/ para /e/, como em parti (por eles mantega (por bejo (por brasilero c. tu anda (por tu tu vende (por tu tu parte (por (por para como em caxa (por tu baixo (por 'baixo') d. você anda (por anda(s)') e a gente anda (por Alçamento das vogais médias pré-tônicas: elevação das vogais pré-tônicas por influência de uma vogal em Em (a), temos a supressão que marca o infinitivo nos Trata- sílaba subsequente. É o caso, por exemplo, de minino (por se, pois, de um morfema verbal. Nesse caso, temos claramente a falta do mor- curuja (por piru (por tisoura fema de infinitivo nas realizações Podemos concluir subrinho (por que há uma coincidência: representa um fonema e também um morfema Epêntese vocálica: emissão de uma vogal entre É o que encontramos em obiter (por nesses dados. Se opusermos esses casos à palavra (por pineu ou peneu (por adivogado ou adevogado (por por exemplo, veremos que neste último exemplo a queda do é um fato ape- (por etc.; nas fonológico, pois não é um morfema, e sim parte do radical da palavra. Rotacismo: troca da consoante [I] pela consoante Em (b), a não realização de uma desinência verbal que indica P6, como ocorre em pranta (por Framengo (por representa uma alternância Já em casos como (por probrema (por bicicreta (por 'viagi' só um fonema. Nas duas situações etc. Embora seja um estigmatizado, um fonema deixou de ser pronunciado: na primeira esse fonema é também é bastante frequente não só no português falado atualmente um morfema, e na segunda trata-se apenas de um fonema. no Brasil como na trajetória do latim para o em que encontramos os exemplos duplu > dobro, blancu > Em (c), a não realização uma alternância pois branco, ecclesia > igreja, entre uma desinência (um morfema, portanto) que representa a segunda pessoa do discurso (P2) nos três verbos. Em casos como "vendemo", (por a desinência verbal Outro nível linguístico em que podemos verificar variação é o morfológico. que indica P4 Houve queda de restando a marca -mo. Apenas Comecemos esta conversa relembrando a definição clássica de mor- o fonema deixou de ser pronunciado. mesmo acontece em palavras fema: unidade significativa. Vamos considerar como variação como e (por por exemplo: a queda do morfológica aquela alteração que ocorre num morfema da palavra. Parece é apenas fonológica. não é? Vamos examinar alguns 27PARA CONHECER 0 estudo da no contexto social Sabemos que quando a variação está só no âmbito do fonema, te- estudo sobre a variação nas orações relativas realizado por Fernan- mos uma variação fonológica, mas quando vai também para o âmbito do do Tarallo na década de 1980 foi um dos primeiros trabalhos de Sociolin- morfema, que tipo de variação encontramos ai? Morfológica? Talvez fosse guística no âmbito da variação na sintaxe feitos no Tarallo mostrou mais interessante dizer que, nesses casos, o que temos é uma variação que as três construções ilustradas anteriormente em (a) estão em variação morfofonológica uma vez que os morfemas que caem são também fo- no português falado no Brasil e são condicionadas principalmente por fato- É um caso, portanto, de interface, que ocorre quando um caso de res extralinguísticos. Seus resultados indicaram que a relativa padrão ("O variação dois ou mais níveis filme a que me referi é muito bom") parece estar deixando de ser usada Mas quando dizemos que a referência a P2 em anda' e a referência na linguagem espontânea; sua substituta é a chamada "relativa cortadora" a P6 em é dada na relação que se estabelece entre pronome e ("O filme que me referi é muito bom"), enquanto a relativa com pronome verbo é o pronome que carrega o significado de pessoa do verbo já lembrete ("O filme que me referi a ele é muito bom") é geralmente usada mos do campo da morfologia e vamos para o campo da sintaxe, ou melhor, por falantes menos escolarizados e sofre estigma na sociedade. da morfossintaxe. Temos aqui, portanto, um caso de variação morfossin- tática outra situação de interface. Outro fenômeno de variação na sintaxe que tem levantado muitos questionamentos é a posição do em relação ao verbo, como nos Por outro lado, se a variável escolhida for, por exemplo, a alternância entre os pronomes 'tu' e ou entre e 'a como vimos em exemplos "Eu vi-o no cinema"/ "Eu o vi no cinema". No primeiro caso, (d). temos um caso de variação morfológica e não um caso de interface. temos (posição pós-verbal) e, no segundo, temos próclise (posição Afinal, é uma alternância de forma pronominal, apenas. pré-verbal). Estudos têm mostrado que a próclise ("Eu o Note-se, pois, que os fenômenos em variação morfológica são, em vi no cinema") é mais frequente no português falado no Brasil, especial- sua maioria, casos de variação morfofonológica ou morfossintática. Res- mente quando o sujeito está anteposto ao verbo (seja esse sujeito um nome saltamos, dentre os estudos em interfaces, os trabalhos pioneiros dos socio- ou um pronome sujeito nominal e pronominal, respectivamente), e não a linguistas Anthony Naro e Marta Scherre sobre a variação na concordância ("Eu vi-o no cinema"), embora esse último uso, do ponto de vista nominal e verbal, com dados do Sudeste. Com relação à variação morfo- do senso comum, seja mais bem avaliado. lógica, destacam-se, entre outros, trabalhos do grupo de sociolinguistas da Até agora, examinamos fenômenos variáveis no âmbito do léxico e UFRJ, como os de Lopes sobre variação pronominal, com dados de dos níveis gramaticais morfológico (e suas interfaces) e sin- fala e de escrita também do Sudeste. tático. Dependendo da visão de gramática assumida, o nível de análise pode Passamos agora à variação linguística no da Vamos ser expandido para além da frase, de modo a abarcar também porções tex- mostrar, brevemente, certos que estão em variação sintática tuais ou discursivas Nesse caso, aspectos para discutirmos posteriormente. (que envolvem a significação e o contexto situacional) também são consi- derados. Apresentamos, a seguir, alguns fenômenos variáveis na dimensão textual/discursiva, casos que enquadramos como variação discursiva. Exemplos de variação sintática Dados interessantes são encontrados com relação às palavras que en- a. Construções relativas: "O filme a que me referi é muito cadeiam trechos discursivos, desempenhando o papel de conectores, como bom"/"O filme que me referi é muito filme que conjunções etc.), expressões de natureza me referi a ele é muito adverbial ('ai', b. Posição do "Eu vi-o vi no cinema". outro etc.), marcadores discursivos dizer', 'digamos as- etc.), entre outros, usados na fala e na escrita. 28Sociolinguistica estudo da no social conjunto de exemplos a seguir, produzido por informantes (que e conjunção dai advérbios de então advérbio de são os sujeitos de uma pesquisa) florianopolitanos, ilustra usos variáveis coordenativa dos itens e na função de em relação lugar tempo de continuidade e estabelecendo uma relação coesiva entre Isso mostra o quanto é importante se considerar o contexto real de uma informação precedente e outra subsequente dentro de um texto. Os ocorrência dos dados que queremos analisar. dados, extraídos da tese de Maria Alice Tavares (2003), são provenientes Vejamos outro exemplo de variação no nível discursivo. Os dados, de amostras orais do Varsul (Variação na Região Sul do Brasil). produzidos por informantes da cidade de Lages, em Santa Catarina, são Mais adiante, serão apresentados alguns bancos de dados brasileiros, de também oriundos de amostras orais do Varsul e foram da tese de onde provêm as amostras de fala e escrita que muitos sociolinguistas anali- Cláudia Rost Snichelotto (2009). Vejamos: sam em suas pesquisas; o Varsul é um desses bancos de dados. (4) Então, dai são confeccionados colchões, [são ] são confeccio- (1) a minha mãe: "Ah! pois é, mas eu tenho que dar baixa nessa car- nados cobertores, né? pra enfrentar o frio dessa terra Porque olha, teira." o cara falou: mas a senhora não quer nada?" E a minha é frio mesmo no Pode ver a lareira, ainda não foi Ainda tem o mãe disse: "Quer nada o quê?" porque nós somos obrigados a do inverno porque não foi lavada ainda. vender um ônibus desses pra pagar ele, porque a- a carteira dele não (5) Daquele dia em diante ele não fumou mais. [Ele não foi mais] ele está dando baixa, ninguém deu baixa, né?" não entrou nem num bar mais. Eu fiquei. Agora você vê, (2) A costureira não quis fazer, então eu e a minha irmã A minha né? a gente. Por isso que eu digo: "Deus, o que ele tem pra gente, não sabe costurar muito bem, dai ela disse pra ele assim: "Não, mas pra vida da gente, pra pessoa eu acho que, né?" eu acho que ele es- quando que nós vamos fazer A minha irmã disse pra ele: colhe decerto a pessoa, né? A pessoa é escolhida, por Deus, né? Esse "Como nós vamos fazer esse serão, se não tem costureira?" Dai ele foi escolhido, porque ele chegou de lá, aquele dia mesmo ele não disse: "Ah, vocês não querem fazer, então dá a carteira que eu dou deitava sem se ajoelhar [na] assim na beira da cama dele, orar, ler a as contas." E ao meio dia assim no almoço e tudo, às vezes os pais preci- (3) Mas ele insistiu e disse: "Olha, tem uma equipe de São Paulo, lá, do sam estar dizendo ore ou, né? faça uma Nunca mais Professor Odair Pedroso, se for necessário nós podemos lhe mandar ele deixou isso orar hora da] antes [de] do almoço, quando pra São Paulo fazer um curso." Então eu disse: "Se é assim, se de- senta na mesa. [...] sejam assim, eu posso tentar, se não decepcionar." Então eu fiquei Os marcadores discursivos são elementos que servem não apenas à realmente três meses em treinamento com a equipe do Professor organização da fala e à manutenção da interação entre falante e ouvinte, Odair Pedroso num- no Hospital Celso mas também que atuam no encadeamento coesivo das partes de um texto. Em todos os casos, os elementos em variação e Os itens destacados são usados para chamar a atenção do in- estão no mesmo contexto, o de introdução de discurso direto (precedendo os terlocutor sobre a informação que está sendo veiculada. Eles têm caráter verbos falaridizer), dando sequência, de modo coesivo, ao texto. Note-se que, textual-interativo, pois ao mesmo tempo em que chamam a atenção do nessa função, eles são intercambiáveis, atuando, portanto, como variantes que interlocutor também auxiliam no estabelecimento de relações coesivas constituem uma mesma variável linguística. No entanto, se vistos isoladamen- de causalidade, inclusive com a presença do conector 'porque' nos dois te, dificilmente que seriam variantes. Provavelmente, seria feita a se- Os itens e funcionam como variantes, nesse caso. Observe-se que ambos são marcadores discursivos derivados de verbos guinte classificação, baseada nas gramáticas normativas tradicionais: de percepção visual. 30PARA 0 estudo da no contexto social Existem ainda expressões de caráter discursivo como tor constatou que, no caso do ditongo há 96% de redução para /o/ cara, rei', entre outras, que são facilmente associadas independentemente de qualquer condicionador a falantes cariocas, paulistas e respectivamente, consti- Para os ditongos /ey/ Cabreira verificou que existe um forte con- tuindo-se em variantes regionais. Muitas vezes, ainda, os marcadores dis- dicionador para a redução: o contexto fonológico seguinte. Quando é se- cursivos são chamados de vícios de linguagem nas gramáticas guido de -r fraco há 98% de monotongação. Quando Agora que já vimos exemplos de variação nos diferentes níveis da são seguidos de consoante palatal surda ou sonora gramática, vamos passar aos condicionadores linguísticos. 'beijo' > 'bejo'; o percentual de monotongação na fala é de Praticamente não existe monotongação nesses ditongos 2.2 As forças de dentro da os condicionadores internos quando seguidos de outros contextos fonológicos. que podemos concluir? A monotongação dos ditongos decrescentes /ey/ e /ay/ é condicionada por Como vimos anteriormente, os condicionadores, em um caso de va- pressões fonológicas no caso, pelo contexto seguinte. Em outras palavras, riação, são os fatores que regulam a escolha do falante entre uma ou outra o condicionador interno "contexto seguinte" é relevante para a escolha entre variante. Assim como os fenômenos variáveis se situam em diferentes uma e outra variante no fenômeno de veis linguísticos, também os condicionadores que atuam sobre as variáveis Mas os condicionadores fonético-fonológicos não atuam somente em podem ser de diferentes A partir de agora, vamos examinar alguns fenômenos do fonológico. Vejamos, por exemplo, o caso da variação desses condicionadores, começando pelos do nível fonético-fonológico. na concordância verbal de P6 um fenômeno morfossintático. As ocorrên- É esperado que forças de um nível linguistico operem sobre fenôme- cias e os resultados mostrados a seguir são do trabalho de Marta Scherre e nos do mesmo ou seja, nesse caso, que condicionadores fonético- Anthony Naro (1997), que analisaram amostras de fala do banco de dados fonológicos influenciem o uso de uma ou de outra variante Censo/PEUL do Rio de Retomando o exemplo da monotongação dos ditongos decrescentes; ob- (6) Eles conhece Roma. Conhece Paris servemos as seguintes palavras: (7) Ceis conhecem? (8) Ai, veio aqueles cara correno atrás couve caixa baile beijo seiva peixe primeiro peito (9) Vieram os ladrões... Todas elas apresentam um dos seguintes /ow/, /ay/, Se Os verbos 'conhecer' e ora apresentam desinência pronunciarmos cada uma delas procurando perceber se é possível fazer a soal marcada ora não que redução do ditongo, ou seja, se é possível omitir a semivogal, iremos notar estaria condicionando essa variação? que em algumas palavras podemos facilmente fazer a redução Entre os condicionadores linguísticos, os autores constataram que a sa- e em outras, não liência fônica se mostra um forte condicionador da concordância verbal. Que condicionador estaria atuando sobre esse uso variável? Vejamos os pares de variantes: e Em Vários estudos sociolinguísticos já foram realizados descrevendo qual par existe mais diferença entre a forma singular e a plural? Note-se esse fenômeno de variação, dentre eles o de Sílvio Cabreira (2000), na que, no primeiro par, a oposição se dá em átona e ocorre apenas o região Sul, os de Maria Conceição Paiva (1996, na cidade do Rio acréscimo de elemento no segundo, a oposição singular/plural se dá de Janeiro, e o de Fabiana de Souza Silva (2004), em João Pessoa. Vamos em sílaba tônica, além de haver outras mudanças como o timbre da vogal e exemplificar com os resultados de Cabreira, que analisou dados de fala mesmo uma mudança na raiz do verbo. Então, é notório que o primeiro par de Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, pertencentes ao au- apresenta menor saliência do que o segundo. Pois bem, os resultadosPARA Sociolinguistica o estudo da no contexto social da pesquisa apontaram que os falantes marcam mais a concordância quando Portanto, a classe morfológica da palavra é um condicionador interno a diferença singular/plural é mais saliente (88%); e marcam menos quando a relevante para explicar a variável "realização do /r/ diferença é menos saliente (44%). Logo, conclui-se que "saliência é Já vimos exemplos de condicionadores fonético-fonológicos e morfo- um importante condicionador interno que atua na escolha por uma ou outra lógicos. Vamos ver agora um condicionador sintático: a ordem dos consti- variante da variável "concordância verbal de tuintes (ou posição) na sentença. Retomemos o fenômeno de concordância Vimos, portanto, um condicionador fonético-fonológico atuando so- verbal de Vejamos novamente alguns dados expostos anteriormente: bre um fenômeno variável de natureza Consideremos, (6) Eles conhece Conhece Paris agora, as seguintes palavras: (8) Ai, aqueles cara correno atrás andar beber escolar melhor porque tarde que podemos notar quanto à posição do sujeito? É importante per- Se pronunciarmos essas e outras palavras em que o ocorre em po- ceber que no primeiro exemplo o sujeito está anteposto e no segundo está sição de coda, isto é, em final de (podendo ser no interior ou no final posposto ao Os resultados dos autores apontam 82% de presença da palavra), veremos que é possível que não produzamos igualmente o de marca verbal de concordância quando o sujeito está imediatamente à em todas elas. Trata-se, como já vimos, de outra regra variável do português esquerda do verbo, como em e apenas 26% de marca verbal quando o falado no Brasil: a "realização do /r/ pós-vocálico" ou a "realização do /r/ em sujeito está posposto, como em (8). Esses resultados são corroborados em coda silábica". cujas variantes são a presença e a ausência do Que condi- vários outros trabalhos que tratam da concordância verbal em amostras do cionadores linguísticos podem estar atuando sobre esse fenômeno? português brasileiro de outras regiões. Vamos comentar, brevemente, alguns resultados de duas pesquisas socio- Examinemos, a seguir, um condicionador a animacidade. linguísticas: a primeira, desenvolvida por Dinah Callou, João Moraes e Yonne A animacidade corresponde a uma propriedade atribuída a um referen- Leite com dados do Nure (Norma Linguística Urbana Culta) de cinco ca- te, que pode apresentar o traço [+animado] ou [-animado]. Por [+animado] pitais brasileiras (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife), entendem-se humanos, animais e objetos personificados, e por [-animado] segunda realizada por Valeria Monaretto (2000) com amostras do Varsul das três entendem-se os referentes que não se enquadram em nenhuma dessas três ca- capitais da região Sul. Entre os condicionadores testados nessas pesquisas, va- Vamos ilustrar esse tipo de condicionamento com o estudo de Maria mos destacar a classe morfológica um condicionador morfológico, portanto. Eugênia Duarte (1989), que observou uma amostra de fala paulistana para ana- Nos dados do Nurc foram consideradas duas classes de palavras lisar a variável "realização do objeto direto Vejamos as possibilida- verbos e nomes. Vejamos alguns resultados mais significativos: em Porto des de realização do objeto anafórico em dados fornecidos pela autora: Alegre, os autores encontraram 49% de apagamento do [r] em verbos e 14% em em São Paulo, 66% de apagamento em verbos e apenas (9) Ele veio do Rio só pra ver. Então eu fui ao aeroporto buscá-lo. 5% em nomes. Nos dados do Varsul, reunindo as três capitais do Sul, Mo- (10) Eu amo o seu pai e you fazer ele feliz. naretto considerou três classes de palavras verbos, não verbos (nomes) e (11) Ele vai ver a Dondinha e o pai da Dondinha manda a Dondinha en- palavras funcionais (itens como 'porque' etc.). A autora encon- trar... [Sintagma nominal (SN)] trou os seguintes 81% de apagamento da vibrante em verbos, (12) No cinema a ação vai e volta. No teatro você não pode fazer [SN] 5% em nomes e 20% em palavras que podemos concluir? (13) [O Sinhozinho Malta está tentando convencer o Zé das Medalhas a Vemos que existe um comportamento diferenciado com respeito à su- matar o Roque...] Mas é muito medroso. Quem já tentou matar 0 pressão do [r] em função da classe de palavras: nos verbos (em que é um mor- foi o empregado da Ontem ele quis matar a empregada é fema) a vibrante tende a cair bem mais do que nos nomes (em que é apenas um que salvou 0. [SN vazia]PARA CONHECER 0 estudo da linguagem no contexto social Ao testar a atuação condicionadora do traço semântico animacidade so- oração adverbial junto à principal mostram que o escopo temático favore- bre a forma de realização do objeto, os resultados obtidos evidenciam que o ce a anteposição da oração com 89% das ocorrências, do que o traço do referente está associado à realização do objeto na forma de escopo com apenas 54%. pronome lexical, como em (10), com uma taxa de ou na forma de como em (9), com um percentual de 78% Por outro lado, o traço [-animado] Condicionadores e seu papel do objeto favorece a sua realização como categoria vazia (13), com ou como SN (11) e (12), com um percentual de Logo, o uso do e do Os dados expostos nesta seção atestam que a variação linguística não é pelo contrário, é ordenada e pode ser pronome lexical é condicionado pelo traço [+animado] do objeto, enquanto o descrita criteriosamente a partir de Focali- uso da categoria vazia e do SN é condicionado pelo traço [-animado] do zamos aqui os condicionadores linguísticos, que atuam como A seguir, expandimos a área de abrangência dos condicionadores para forças dentro da língua. Vimos que cada fenômeno variável o nível textual/discursivo. Analisando a ordenação de orações adverbiais funciona em conformidade com certos condicionadores, que temporais introduzidas por em amostra do Varsul, Edair Görski podem ser diferentes em cada caso, Vimos também que, as- (2000) testou a atuação de um condicionador discursivo: o tipo de escopo sim como os fenômenos linguísticos podem estar em variação em diferentes níveis gramaticais, também os condicionadores da oração. Observe os seguintes dados, produzidos por informantes floria- atuam em diferentes níveis da língua. Cabe ao pesquisador nopolitanos e do referido sociolinguista descobrir as "regras de cada jogo". (14) [...] Não, não tem clima, né? Dona Ana, o que que é isso? Ele fez muito! Tratamos, até agora, daquilo que podemos chamar de dimensão inter- E: Sim, falando em carnaval, tu pulaste carnaval também das escolas- na da variação linguística. Vamos passar, a partir deste momento, a olhar entre as escolas? para a variação em sua dimensão externa, em que observamos os tipos de I: Pulei. Quer ver ó, só voltando Na época que eu mais precisei variação e os condicionadores dele, que eu mais precisava de um apoio, foi quando a minha mãe 3. A VARIAÇÃO VISTA DE FORA DA LÍNGUA (15) ele estava com o rosto- ele estava horrivel! Ele estava horrivel! Es- tava assim irreconhecível. quando ele se assim, que ele se Os próximos tópicos de nossa conversa serão dedicados aos seguintes levantou em cima da cama, Deus que me perdoe, parecia uma cobra. tipos de variação linguística: exemplo em (14) representa um contexto em que a oração temporal variação regional ou geográfica; variação social; é identificada como tendo escopo mais localizado, relacionado variação estilística; à oração principal. Nesse caso, a informante recupera um assunto anterior variação na fala e na desenvolvido em torno do marido e não atende ao estímulo do entrevis- tador, que tenta trazer o tema "carnaval" para a conversa. A ocorrência Vale observar que essa classificação por tipos não implica que eles ocor- (15) apresenta um escopo temático mais abrangente, relacionado tanto à ram separadamente nem que sejam independentes da dimensão interna da oração principal quanto ao contexto precedente. A informante relata uma variação. Normalmente, o que ocorre é uma combinação dos fatores que con- visita feita ao marido no hospital e a constatação das consequências de um dicionam a forma como Na dimensão externa da variação, vamos acidente que ele sofrera. Os resultados percentuais em relação à ordem da estudar também os condicionadores aqueles que, como oPARA estudo da no contexto social nome sugere, encontram-se fora da estrutura da Os condicionadores durante a atuação incorporam à sua fala marcas linguísticas extralinguísticos estão estreitamente relacionados aos tipos de variação; estes do suposto lugar de origem de seu são decorrentes do controle desses Para a Exemplos de caricaturas baseadas na língua dos falantes os fatores extralinguísticos são tão importantes quanto os linguísticos. podem ser encontrados com certa frequência em novelas e em programas É necessário, no entanto, olhar para Por fim, mais adiante, ao apresentarmos o estudo que Labov fez na essas caracterizações com alguma ressalva: em certos casos, ilha de Martha's Vineyard, nos Estados Unidos, evidenciaremos que a va- a construção de um personagem como uma caricatura regio- riação linguística está, algumas vezes, relacionada à identidade que os fa- nal pode servir para reforçar um estereótipo negativo sobre as lantes têm com as formas pessoas de determinada região, como o do "nordestino pregui- o do "caipira ignorante" etc. 0 lugar da variação fora da lingua e as forças externas: os tipos de variação e os condicionadores extralinguísticos A variação regional pode ser estudada ao se oporem diferentes tipos de unidades espaciais: podemos dizer que existe variação regional entre Bra- Vamos conhecer que tipos de variação podem resultar da influência sil e Portugal (dois entre o Nordeste e o Sul do Brasil (duas regiões de condicionadores extralinguísticos. Comecemos com a variação que de- de um mesmo país), entre Paraná e Santa Catarina (dois estados de uma corre da localização geográfica dos mesma entre e Florianópolis (duas cidades de um mesmo É a variação regional, também conhecida por variação estado) e mesmo entre falantes do centro de Florianópolis e falantes do Ri- ou ainda variação diatópica, a responsável por podermos identificar, às ve- beirão da Ilha (dois bairros de uma mesma É comum também que se zes com bastante precisão, a origem de uma pessoa pelo modo como ela fala. analise variação regional entre zonas urbanas e zonas rurais ou do interior. Através da lingua, é possível saber que um falante é mineiro ou no, por exemplo. Mas o que exatamente nos permite fazer essa distinção? Variação regional e colonização aparato teórico-metodológico da Sociolinguística nos equipa A variação regional está associada, algumas vezes, à etnia para que possamos sair de um nível (e, às vezes, caricato) colonizadora de uma comunidade. Isso ocorre porque a lingua da variação geográfica e descobrirmos quais são exatamente as marcas lin- do povo colonizador acaba influenciando a da região co- guísticas que caracterizam a fala de uma região em relação à de outra. Em lonizada. No Brasil, apesar de o território ter sido largamente geral, itens lexicais particulares, certos padrões entoacionais e certos traços colonizado por portugueses, tivemos um grande fluxo imigra- fonológicos respondem pelo fato de que falantes de localidades diferentes tório de diversos povos italianos, açoria- apresentem dialetos (ou seja, variedades) diferentes de uma mesma nos, japoneses e eslavos, entre outros sem contar os povos africanos que foram trazidos como mão de obra escrava e os povos indigenas que aqui já habitavam. Esse grande fluxo mi- o falante, a caricatura e preconceito gratório é um dos fatores que fazem do nosso país um espaço pluridialetal um "prato cheio" para a pesquisa sociolinguis- A variação geográfica é, muitas vezes, bastante saliente tica. Devemos ter cautela, no entanto, pois nem toda variação aos nossos ouvidos. Podemos dizer que a fala, assim como a regional pode ser explicada pelo fator vestimenta e outros hábitos culturais, são elementos impor- tantes na identificação do povo de determinado lugar. Por esse motivo, é natural que encontremos, no campo das artes cêni- Um exemplo de variação regional é a pronúncia das vogais cas, atores que, para dar maior veracidade à sua interpretação, /o/ pré-tônicas em palavras como em alguns dialetosPARA CONHECER 0 estudo da no contexto social da região Nordeste, elas são pronunciadas abertas e e em principais condicionadores sociais que usualmente são correlacionados à alguns dialetos do Sudeste e do Sul do Brasil são pronunciadas fechadas variação linguística são o grau de escolaridade, o nível socioeconômico, o teca e A pronúncia do fonema em final de sílaba (coda silábica), sexo/gênero e a faixa etária, conforme exemplificamos a como na palavra também é bastante variada. No interior de São Paulo, temos o retroflexo que é comumente chamado de embora essa Grau de Por terem um contato maior com a cultura letrada terminologia não seja muito apropriada, pois traz certa conotação negativa; e com o uso das variedades cultas da lingua, supõe-se que, em geral, fa- na capital do mesmo estado, por outro lado, é possível ouvir na mesma lantes altamente escolarizados dificilmente produzirão formas como "nós posição. Ainda temos a fricativa velar [x] e a fricativa glotal normalmente vai" ou "a gente que são típicas de falantes pouco ou não esco- associadas ao dialeto carioca e ao mineiro, respectivamente. É mais provável que eles falem "nós vamos" e "a gente Dentre os estudos sociolinguisticos sobre esse tipo de variação, des- Vamos ver agora exemplos de como o condicionador grau de esco- taca-se o de Maria Bernadete Abaurre e Emilio Pagotto (2002), em que laridade pode atuar sobre fenômenos em No estudo realizado analisam a variável fonológica "palatalização das oclusivas dentais diante em 1996 por Marta Scherre sobre a variável linguística "concordância de Utilizando dados do verificaram as ocorrências da variante nominal de na fala carioca, a autora investigou a alternância africada (como em em oposição à não africada [t] (como em entre a variante com marca de concordância padrão e a variante sem Como resultado geral, eles chegaram à seguinte distribuição: em Recife, marca de concordância padrão meninas'/'as por exemplo) apenas 7% dos dados foram realizados com a variante africada; em Porto nos dados do Como resultados, observou que os falantes Alegre, 40% das ocorrências foram com essa variante; na cidade de São que haviam completado quatro anos de escolaridade realizavam a con- Paulo, esse número cresce para em Salvador, 85% das ocorrências cordância nominal padrão em 40% das ocorrências. Essa taxa aumen- foram realizadas com a africada; e na capital do Rio de Janeiro, tava para os falantes com 8 anos de escolarização: 57%. Por fim, os chegou-se à impressionante frequência de 100% de uso dessa variante. falantes com 11 anos de escolarização realizavam concordância padrão Nota-se, assim, que a palatalização das consoantes oclusivas dentais em 73% das ocorrências. diante de /i/ apresenta uma distribuição geográfica diferenciada na totali- dade das cinco capitais observadas pelos autores. Trata-se, portanto, de um Perceba-se que, nesse estudo, os de concordância nominal pa- caso de variação regional. drão (em oposição à ausência de concordância nominal padrão) vão cres- Vale observar que os estudos geolinguísticos, apresentados inicial- cendo conforme aumentam os anos de escolarização dos falantes, indican- mente como um importante aparato para a investigação da variação lexical do que os que passaram mais tempo em ambiente escolar produzem em (quando tratamos da dimensão interna da variação são uma rica maior número a variante considerada padrão. fonte de dados para o exame da variação regional. Além dos já mencionados Nível socioeconômico. É um condicionador muito estudado nos tra- questionários há questionários fonéticos e balhos de Labov e seu grupo de pesquisa sobre o nova-iorqui- cos, que permitem, através de sua organização em atlas, que se identifiquem no. Seus resultados apontam que o grupo social menos privilegiado diferentes aspectos da variação regional. Não custa lembrar que os mapas favorece o uso de variantes não padrão da lingua, enquanto os mais resultantes das respostas aos questionários podem compreender desde pe- privilegiados optam pela variante padrão. Mas essa constatação, em quenos espaços, como uma cidade, a espaços maiores, como um país geral, é também correlacionada com a ocupação dos falantes e com Da mesma forma que a fala pode carregar marcas de diferentes re- uma diferenciação efeito de indicadores sociais sobre também pode refletir diferentes características sociais dos o perfil sociolinguístico dos falantes não é nada Na opi- A essa propriedade dá-se o nome de variação social ou diastrática. Os nião de Maria Mollica origem social, renda, acessoo estudo da linguagem no contexto social a bens materiais e culturais e ocupação são alguns dos indicadores Labov registrava todos os dados, ou seja, todas as ocorrências de pre- No Brasil, ainda há poucos estudos que levam em conside- sença e de ausência de /r/ em posição pós-vocálica na expressão ração esses tanto na resposta casual quanto na resposta Os resultados Existem várias formas de se controlar a classe social em uma pesqui- da estratificação do por loja mostraram que 62% de empregados da sa Aqui, veremos um estudo realizado por Labov em três Sacks, 51% da Macys e 21% da Klein usaram /r/ em pelo menos uma das lojas de departamento da cidade de Nova York no ano de 1964 e um estudo duas respostas ao inquérito. Note-se que a presença do /r/ era a variante do sociolinguista brasileiro Luis Amaral, realizado na cidade de Pelotas nova e de do e a variante conservadora e estigmati- (RS) em 2003, que adotam metodologias diferentes. zada era a ausência de /r/, dado que, na época, a tradição anglófila ensinava Labov buscou investigar a variável "presença/ausência de /r/ em po- que a do era um traço provinciano e que a pronúncia "corre- sição pós-vocálica" no inglês (como em ta" era o apagamento do /r/, de acordo com o em três lojas de departamento da cidade de Nova York, classificadas de Os resultados quanto ao uso do /r/ dispõem os funcionários numa ordem acordo com sua localização status dos jornais em que fazem idêntica à gerada pelo das três lojas: quanto mais alto o seus anúncios, listas de preços de mercadorias, espaço fisico da loja, seu nível socioeconômico da loja (ou, melhor dizendo, dos clientes que frequen- prestígio e condições de trabalho dos funcionários: Sacks Fifth Avenue tam a loja), mais se observa o uso e quanto mais baixo o nível, menos se (frequentada pela classe média alta), Macy's (frequentada pela classe mé- observa esse uso. Pode-se dizer que Labov verificou, assim, a correlação entre dia baixa) e S. Klein (frequentada pela classe baixa). Seu objetivo era ve- um fenômeno linguístico e o nível socioeconômico dos rificar se o uso de /r/ se mostrava um diferenciador social na fala da cidade Ainda com relação a estudos que levam em consideração esse de Nova York e se eventos de fala rápidos e anônimos podiam ser usados condicionador, no Brasil, temos a tese de Luis Amaral (2003), sobre a como base para um estudo sistemático da linguagem. "concordância verbal com o pronome de P2 (como em "tu falas" procedimento de coleta método chamado de inquérito breve e anó- vs. "tu fala" e em "tu falaste" vs. "tu autor adotou uma meto- baseou-se numa metodologia simples. entrevistador (que foi o pró- dologia diferente da de Labov para identificar o nível socioeconômico prio Labov) perguntava aos seus informantes, os funcionários do local, onde dos falantes, baseada em três condicionadores: "ocupação/profissão", ficava determinada seção da loja, a fim de obter como resposta a expressão "renda/patrimônio" "escolaridade" do falante. Unindo esses três con- fourth floor ("quarto andar") em dois momentos: como resposta casual (a dicionadores, Amaral chegou a uma classificação do nível primeira resposta do informante) e resposta (a segunda resposta do mico dos entrevistados e obteve a seguinte distribuição: os falantes de informante, que, ao perceber que não havia sido pronuncia a classe média alta realizaram concordância padrão em 12% dos dados, expressão fourth floor mais cuidadosamente), como descrito a seguir: os falantes de classe média baixa em 7% e os de classe baixa, em 4%. Nota-se, então, que os falantes de classe mais alta fizeram Entrevistador: Excuse me, where are x? cia mais vezes do que os de classe mais baixa. Com licença, onde fica x? Observe-se que não são números muito altos de concordância verbal. Informante: Fourth floor. [estilo casual] Isso se deve ao fato de Amaral ter realizado seu estudo utilizando dados do No quarto VarX (Banco de Dados Sociolinguísticos Variáveis) da cidade de Pelotas, Entrevistador: Excuse me? no Rio Grande do Sul lugar onde é muito comum o uso do pronome 'tu' Como? Informante: sem marca de concordância padrão. Se esse estudo fosse realizado em ou- Fourth floor. [estilo cuidado e acento tra localidade, possivelmente os resultados seriam No quarto0 estudo da no social Sexo/gênero. Quanto à variação social relacionada ao sexo/gênero dos por outra. Para alguns autores, a variação condicionada pela faixa etária informantes, alguns estudos mostram que as mulheres são mais conser- dos falantes tem um nome próprio: variação diageracional. vadoras do que os homens: em geral, elas preferem usar as variantes Um exemplo de estudo em que a faixa etária se mostrou um condiciona- valorizadas É como se as mulheres fossem mais recep- dor relevante foi o que Emilio Pagotto (2001) realizou em sua tese, com dados tivas à atuação normatizadora da escola. Esses resultados, no entanto, do Varsul e da amostra Brescancini. autor verificou como se dava a requerem cautela, afinal, os papéis feminino e masculino, nas diversas cia de consoantes oclusivas alveolares diante de na fala de florianopolitanos, sociedades, estão, a todo momento, sofrendo transformações. considerando três variantes: a não africada (como em a africada não É bem possível que a explicação sobre as diferenças linguísticas entre palatal (como em [ts]ia) e africada palatal (como em sendo que as duas os sexos/gêneros esteja relacionada com o papel que a mulher tem na vida últimas variantes são consideradas "inovadoras" e a primeira é a mais antiga e pública. comportamento conservador é muitas vezes espelho da história é também considerada uma marca de identidade de Florianópolis. particular e das histórias culturais das diferentes regiões. Segundo Labov Os resultados de Pagotto revelaram a seguinte distribuição, com re- (1982), as mulheres nas sociedades ocidentais em geral são mais conserva- lação à variante [t]: os falantes de 15 a 23 anos a realizaram em 42% das doras do que os homens, mas em sociedades asiáticas, por exemplo em ocorrências, os falantes de 25 a 50 anos em 66% das ocorrências, e os que elas, em geral, não têm um papel de destaque as mulheres reagem falantes com mais de 50 anos em 69% dos dados. É possível notar, nesses menos fortemente às normas da cultura Nesse caso, o compor- resultados, uma tendência dos falantes mais velhos a preferirem a forma tamento conservador seria observado na fala dos mais antiga, ao passo que os mais novos preferem a forma nova. Outra consideração importante acerca da variável sexo/gênero é que Vale ainda salientar que, na análise da variação linguística em sua dimen- tem se verificado resultados mais significativos quando se correlaciona são externa, o nível de escolaridade, o nível socioeconômico e o sexo/gênero essa variável com a faixa etária da população e, se com a história dos falantes não devem ser considerados isoladamente e podem explicar, entre social das diferentes comunidades investigadas, de modo que as transfor- outras coisas, o fato de um dialeto se enquadrar em maior ou menor grau entre mações culturais e as mudanças comportamentais das faixas mais jovens as variedades Com relação à faixa etária, estudos têm mostrado que ela da população possam ser observadas também. não pode ser estudada sem que se leve em conta uma correlação entre indivi- Um estudo que levou em conta o condicionador em questão foi o de duo e comunidade, e entre esse fator e os demais condicionadores sociais. Scherre sobre a concordância nominal, já mencionado. Como resultado, Além disso, é importante observar que esses não precisam ser os temos a seguinte distribuição: as mulheres realizaram concordância no- cos condicionadores sociais controlados em uma pesquisa sociolinguística; minal padrão em 65% das ocorrências, enquanto os homens o fizeram em o papel do falante dentro de uma comunidade ou dentro de uma rede social 46% dos dados. Veja-se que, nesse caso, pode-se dizer que as mulheres se e seu grau de exposição à entre outros, são condicionadores que mostram mais conservadoras. podem se mostrar significativos na análise de um fenômeno em variação. Faixa A relação entre variação linguística e idade do falante tem Já vimos que a região onde uma pessoa nasceu e/ou mora pode influen- suscitado muitas reflexões entre os sociolinguistas no Brasil e no mundo, ciar o modo como ela fala, assim como diferentes fatores de ordem social. pois, em geral, no controle desse condicionador entra em jogo a questão Agora, vamos ver que um mesmo falante pode usar diferentes formas lin- da mudança linguística. Tornaremos a tratar de mudança adiante; por ora, guísticas dependendo da situação em que se encontra. Basta pensarmos que basta saber que variação implica duas ou mais formas que concorrem a maneira como falamos em casa, com nossa família, não é a mesma como para expressar um mesmo significado referencial/representacional, en- falamos em nosso emprego, com o chefe. que está em jogo ai são os dife- quanto mudança implica processo de substituição gradual de uma forma rentes "papéis sociais" que as pessoas desempenham nas interações de que 44PARA 0 estudo da no contexto social participam em diferentes "domínios sociais": na escola, na igreja, no traba- Apesar da classificação entre registro formal e informal, normalmente lho, em casa, com os amigos etc. Esse tipo de variação linguística, resultante nossa fala não apresenta somente esses dois extremos. mais apropriado dos diferentes papéis sociais que desempenhamos nas diferentes situações pensarmos que existe um continuum que perpassa situações de maior ou me- comunicativas, recebe o nome de variação estilística ou nor formalidade, correspondendo a registros mais ou menos formais, entre Nossos papéis sociais se alteram conforme as situações comunicativas esses dois polos. Eventualmente, falantes vão apresentar uma escala maior das quais participamos por exemplo, entre professor e aluno, patrão e em- ou menor de possibilidades de registro, dependendo de seu desempenho lin- pregado, pai e filho, entre irmãos etc. e estão intimamente relacionados aos guístico. As crianças, por exemplo, usualmente não apresentam uma escala tipos de relações que ocorrem entre o locutor e seu interlocutor (as chamadas grande e, portanto, têm menor possibilidade de variar relações de poder e solidariedade, que remetem às relações sociais de hie- Um importante estudo sobre variação em que se perceberam influências rarquia e intimidade/proximidade que existem entre os participantes de uma estilísticas é o trabalho clássico de Labov a respeito da variação do no in- situação comunicativa), ao contexto ou dominio social em que se dá a intera- Ele realizou cinco coletas de dados distintas, que apontaram uma grada- ção, como já mencionado, e até mesmo ao assunto sobre o qual se conversa. ção entre, num extremo, um estilo menos monitorado/informal e, noutro, um Esses são fatores relacionados à variação estilística, que decorre, mais monitorado/formal, nessa ordem: conversa informal, entrevista com o em suma, da adequação que os interlocutores fazem de sua fala ao informante, leitura de um texto, leitura de palavras e leitura de pares contexto geral em que ocorre a comunicação. Certamente, em situações formais, usamos uma linguagem mais monitorada, ou seja, prestamos Labov atestou a correlação entre o emprego das variantes de prestigio nos esti- mais atenção à forma como falamos, enquanto que, em situações mais los mais formais e o das variantes de menor nos estilos mais casuais. informais, usamos uma fala mais coloquial. Essas duas linguagens são No Brasil, o trabalho de Miriam Lemle e Anthony Naro (1977) sobre a va- chamadas, respectivamente, de registro formal e registro informal. Assim riação na concordância verbal foi pioneiro na consideração de fatores estilisti- como escolhemos uma roupa para cada situação, também escolhemos cos. Eles chegaram ao resultado de que, em contextos familiares e em situações (consciente ou inconscientemente) a que vamos usar em diferen- menos formais, os falantes eram menos propensos a realizar a marca de concor- tes contextos comunicacionais. dância verbal padrão de P6 do que em contextos não familiares e em situações mais formais, em que era favorecida a marcação de concordância padrão. Outro estudo que buscou investigar a variação estilística foi o de Joa- A e a moda na Arduin e Izete Lehmkuhl Coelho (2006) sobre a variação nos "pronomes A lingua, no que diz respeito à variação estilística, pode possessivos de Com o objetivo de observar a distribuição das variantes ser comparada à moda. Para nos adequarmos à moda, da mes- e em Florianópolis e Porto Alegre, as autoras selecionaram, dentre ma forma como não vamos à praia de terno e gravata ou de sapato alto, também não vamos a um tribunal em trajes de as entrevistas do Varsul, os trechos de discurso reportado. Nesses trechos das E assim é com a não falamos com o chefe, entrevistas, temos relatos de histórias que aconteceram com o falante, com no trabalho, da mesma forma como falamos em casa, com os pessoas de sua família, de seu trabalho, entre amigos etc. Esses relatos nos per- familiares, ou num bar, com os mitem, muitas vezes, detectar o tipo de relação que há entre os interlocutores. Pode parecer uma comparação um tanto óbvia, mas Elas classificaram as relações entre os interlocutores como sendo de muitas pessoas não se dão conta de que é tão inadequado tipos: (i) relação assimétrica de superior para inferior (descendente): es- usar linguagem coloquial em uma situação formal quanto é inadequado usar uma fala muito monitorada em tabelecida na fala de pai para filho, de patrão para empregado, de falante mais um contexto informal velho para falante mais novo etc.: (ii) relação simétrica entre iguais: estabe- lecida na fala entre amigos, entre irmãos etc.; e (iii) relação assimétrica de 46PARA CONHECER Sociolinguistica 0 estudo da linguagem no contexto social inferior para superior (ascendente): estabelecida na fala de filho para pai, mento, revisões e e um pouco menos de empregado para patrão, de falante mais novo para falante mais velho etc. pois em geral está mais vinculada à produção de gêneros sobre Como resultado, as autoras encontram a seguinte distribuição: nas rela- os quais há maior pressão de regras normativas e maior monito- ções em que o locutor era considerado hierarquicamente superior ao seu in- Essas diferenças devem ser relativizadas, uma vez que a relação entre fala e escrita, assim como entre registro formal e terlocutor (ou seja, assimétricas descendentes), o pronome foi preferido registro informal, não é mas em 91% das ocorrências; nas relações em que o locutor é hierarquicamente Vale ressaltar que, dadas as diferenças entre as modalidades igual ao seu interlocutor (isto é, simétricas), essa variante teve, igualmente, falada e escrita, não é aconselhado olhar para os dados de fala e 91% da preferência dos falantes; e nas relações em que o locutor era consi- escrita juntos e tratar os dois meios como condicionadores de um derado hierarquicamente inferior ao seu interlocutor (ou seja, assimétricas fenômeno variável. Uma abordagem mais adequada seria aquela ascendentes), a forma atingiu a marca de 44% de uso, em que é feita uma análise de uma amostra de fala e outra de uma amostra de escrita e, depois, se for o caso, uma comparação entre Observe que o pronome possessivo é mais frequente nos dois os resultados das duas análises, considerando-se as particulari- primeiros tipos de relação, o que pode indicar que essa variante é aquela dades dos dois tipos de Um bom exemplo é a dissertação mais associada ao registro informal, considerando o continuum de que de Silva-Brustolin em que a autora observou a variação falamos anteriormente. entre os pronomes nós e a gente na fala e na escrita de alunos Além da variação regional, da variação social e da variação estilística, do ensino fundamental de escolas públicas de Florianópolis (sc). é comum encontrarmos em trabalhos sociolinguísticos um outro tipo de variação: a variação entre a fala e a escrita ou diamésica. Vimos até aqui a atuação de diferentes condicionadores extralinguísti- cos em fenômenos variáveis no do Brasil e no americano. Variação diamésica importante observar que os condicionadores externos são controlados conjuntamente numa pesquisa e que os resultados mais A palavra diamésica se relaciona etimologicamente à interessantes são aqueles em que podemos perceber várias forças atuando ideia de vários meios; no contexto da os meios juntas. fato de apresentarmos um ou outro condicionador externo como ou códigos a que nos referimos são a fala e a É impor- sendo relevante em determinado estudo não quer dizer que o pesquisador tante notar que este é um tipo de variação linguística um tanto diferente dos que vimos até agora, pois concerne a caracteris- não tenha investigado a interação desse condicionador com outros. Vale ticas de dois códigos distintos enquanto os outros tipos dizem lembrar também que é necessário relativizar os resultados quando trata- respeito a que se manifestam no mesmo código mos de influências externas à língua. Cada comunidade é diferente e, por- geralmente o da fala (embora de uns anos para cá haja cada tanto, apresenta condicionadores externos atuando de maneira diferente. vez mais estudos sociolinguísticos em que a escrita é o meio analisado). 3.2 Variação e identidade: 0 caso de Martha's Vineyard Para estudar a variação diamésica, é necessário entender que existem diferenças entre o meio falado e o meio Po- Os condicionadores extralinguísticos foram o alvo do estudo pioneiro demos dizer que, salvo em situações excepcionais, a produção de Labov de 1962, realizado na ilha de Martha's Vineyard (Massachusetts, de um texto falado é uma atividade improvisada e Estados Unidos). A motivação desse estudo foi sua percepção de que os di- suscetivel à variação nos diversos Já a escrita constitui- tongos /ay/ e (como em right e house, respectivamente) poderiam ser se como uma atividade artificial (não ensaiada pronunciados de diferentes Além das variantes padrão, [ay] e [aw], (no sentido de que reservamos tempo e espaço para planeja- havia outras que tendiam à centralização da primeira vogal. Cada variávelo estudo da linguagem no contexto social controlada por Labov apresentava variantes: /ay/ poderia ser pronunciado sendo que os mais altos índices foram encontrados entre os habitantes de como [ay], e e /aw/ poderia ser pronunciado como [aw], [aw] e [ew]. um lugarejo chamado Chilmark, onde a maior parte da economia está con- Labov foi, então, em busca de explicações para a variação fonológica centrada na pesca. E foi exatamente o grupo dos pescadores, no controle do que observou e chegou a resultados que indicaram que a identidade dos condicionador que apresentou os maiores indices de centrali- falantes, em termos de sentimento de pertencimento a um local, a um povo zação. Já quanto à "etnia", foram os descendentes de ingleses que se desta- ou a uma cultura (entre outros fatores), pode se mostrar como um condicio- caram. Além disso, houve outro condicionador que se revelou significativo nador extralinguístico que motiva a variação linguística. nos juízos de valor dos informantes: a questão da identidade e da atitude. sociolinguista procurou dados dos ditongos e /aw/ em diferentes Esses resultados fazem muito sentido quando associados à história situações: na fala casual, através da observação da interação entre falantes na social da ilha. A região de Chilmark, na Up-Island, é habitada por des- rua, em bares etc.; na fala com acento emocional, através de questionários cendentes de ingleses que, como dissemos, têm na pesca sua principal que requeriam dos informantes de valor sobre formas linguísticas; na ocupação. Eles são conhecidos por se diferenciarem dos demais habitan- fala cuidada, através de entrevistas; e na leitura, pedindo aos informantes para tes da ilha, por serem independentes e por defenderem seu modo de que lessem uma história em voz alta. As entrevistas foram realizadas com 69 Acontece que, época, Martha's Vineyard vinha passando por gran- nativos, estratificados socialmente, de acordo com os seguintes condiciona- des transformações econômicas e sociais. A prática da pesca, uma ativi- dores: (i) região: up-islanders (provenientes da Up-Island, uma região rural) dade tradicional, vinha decaindo e a atividade turística estava crescendo, e down-islanders (provenientes da Down-Island, uma região urbana que abri- invadindo a ilha não só espacialmente como também culturalmente. Esse gava 75% da população da ilha à época); (ii) ocupação: pescadores, agricul- processo resultou em uma divisão: de um lado, ficaram os que, na tentativa tores, operários de construções, comerciantes, profissionais liberais, donas de de preservar sua cultura e identidade, reagiram negativamente à ativida- casa e (iii) grupo étnico: descendentes de ingleses, de portugueses de de outro lado, aqueles que reagiram positivamente ou não se e de (iv) sexo/gênero: homens e mulheres; e (v) faixa etária: 14-30 importaram com as mudanças, buscando integração com a nova atividade anos, 31-25 anos, 46-60 anos, 61-75 anos e acima de 75 anos. econômica e com as diferenças culturais trazidas por ela. Os habitantes de Foram além dos condicionadores extralinguísticos, os Chilmark incluiram-se majoritariamente no primeiro grupo. seguintes condicionadores internos: a) ambiente fonético: quais eram as Por conta do perfil dos habitantes de Chilmark é que dizemos que o consoantes precedentes e subsequentes aos ditongos /ay/ e b) fato- estudo de Labov em Martha's Vineyard tem seus resultados amparados na res prosódicos: a tonicidade das formas linguísticas em que apareciam os identidade e na atitude dos falantes com relação à ilha. Aqueles que se iden- ditongos; c) influência estilística: as diferentes situações em que os dados tificam com a ilha e são avessos aos turistas centralizam mais os ditongos foram coletados (fala casual, fala com acento emotivo, fala cuidada e lei- /ay/ e /aw/ para preservarem sua marca de identidade, como os habitantes de tura); e d) considerações lexicais: em que palavras esses ditongos tendiam Chilmark; aqueles que são "neutros" ou reagem positivamente ao turismo a ser pronunciados Os condicionadores linguísticos, nessa apresentam em menor escala essa centralização ou não a apresentam. pesquisa, mostraram-se pouco ou não significativos. Os resultados de Labov indicaram que a centralização dos ditongos Vejamos primeiramente os resultados da pesquisa para depois enten- /ay/ e /aw/ estava atrelada à estratificação social dos informantes, muito dermos as conclusões a que Labov mais do que aos fatores de natureza interna. Em outras palavras, podemos Quanto ao condicionador "faixa etária", considerando-se todos os dizer que as explicações encontradas não estavam na estrutura da falantes entrevistados, o grupo que mais favoreceu a centralização dos di- não havia quase nada no contexto linguístico que condicionava um falante e /aw/ foi o da faixa de 31 a 45 anos. Com relação à localidade, a pronunciar de uma maneira ou de outra os ditongos pesquisados mas a região Up-Island (área rural) foi a que mais apresentou centralização, sim fora da língua, no contexto social dos informantes da pesquisa. 50PARA CONHECER Sociolinguistica estudo da linguagem no contexto social 4. FECHANDO ESTE CAPÍTULO Exercícios Neste demos os primeiros passos no estudo da disciplina Socio- 1. Leia os trechos de uma entrevista transcrita (dados de fala) e da linguística, uma subárea da Linguistica que se ocupa da relação entre lingua e produção escrita (dados de escrita) de duas alunas de ano (retira- sociedade. Tratamos, em primeiro lugar, de apresentar conceitos fundamentais dos de Silva-Brustolin, 2009), depois responda as questões a) e b) que fazem parte da terminologia da Sociolinguistica, e em seguida partimos para a análise da dimensão interna da língua, em que contemplamos os níveis propostas a seguir. linguísticos em que ocorre variação: lexical, morfológico, sintático e discursivo, e os condicionadores internos; e da dimensão externa, em que TEXTO 1: DADOS DE FALA vimos os seguintes tipos de variação: regional, social, estilistica e entre fala e Bom, a minha história é que um dia, quando eu tinha seis anos, é, eu escrita, e os condicionadores externos. Fizemos essa análise a partir da discus- fui passeá na fazenda de uma amiga minha. Era sábado de manhã e são de diferentes regras variáveis e de conjuntos de variantes que se alternam a gente de casa. Mais quando a gente lá, eu fiquei muito de acordo com motivações internas e Trouxemos também conside- animada e a gente quis i vê os animais, então a gente foi vê as gali- rações a respeito da relação entre e identidade, quando apresentamos o nha. Dai quando eu entrei lá dentro meu chinelo ficou entalado, clássico estudo de Labov realizado em Martha's Vineyard. a minha amiga, o nome dela é Sofia, ela foi lá tentá tirá meu chinelo, ai eu fiquei tão animada quando eu vi o chinelo na mão dela, qu'eu peguei e larguei a porta e fui pegá meu chinelo e as galinha fugiro. Leituras complementares: (Informante A) livro Sociolinguistica, de Izete Lehmkuhl Coelho et (2010), elaborado TEXTO 2: DADOS DE ESCRITA para uso em cursos de ensino a distância, apresenta aspectos lógicos da Sociolinguistica Variacionista e é finalizado com reflexões sobre Pra mim uma das coisas mais importante é a Pois a minha vó e mora num sitio em petrolandia e todos meses a gente aluga um oni- a relação entre variação/mudança e ensino de lingua. bus e vamos toda a familia deis de filhos, tios e netos. No livro o da a lingua que estudamos, a lingua que fala- Fomos pra la esse mês pro aniversario dos meus la nós dançamos, Rodolfo e Renato Basso (2011) oferecem um panorama da lingua eu dirigi a moto do meu tio, andamos de cavalo, fizemos quentão resu- portuguesa, abordando sua origem no latim, passando por sua expansão de mindo fizemos uma festa de arromba e o mais importante é que a família Portugal a América e chegando a características atuais do falado no estava toda unida e felizes. (Informante B) Brasil, a tipos de variação e a considerações a respeito do ensino de lingua. Sociolinguistica parte de Roberto Camacho (2006), é um capítulo de a. Identifique, nos Textos 1 e um fenômeno variável para cada livro que introduz conceitos-chave e postulados teóricos da linguístico (fonético-fonológico, morfológico, e discursivo autor também analisa fenômenos em variação no português brasileiro, sinta-se à vontade para identificar casos de interface!) e descreva cada apontando condicionadores internos e externos. um desses fenômenos, conforme o exemplo no quadro a seguir: volume Introdução à o tratamento da variação, orga- nizado por Maria Cecilia Mollica e Maria Luiza Braga (2008), traz conside- Descrição Variante encontrada linguístico rações a respeito de questões teórico-metodológicas, como a relevância dos do fenômeno variável nas narrativas condicionadores externos e internos nos de variação e algumas Inserção de vogal Mais (em vez de Fonético-fonológico etapas da pesquisa 52 53PARA b. Escolha um dos fenômenos variáveis que você identificou nos Tex- tos 1 e e: identifique as variantes dessa levante um grupo de fatores linguístico e outro como condicionadores do uso de uma das variantes. 2. A tabela a seguir foi retirada do estudo que Labov desenvolveu na ilha A TEORIA DA VARIAÇÃO de Martha's Vineyard. Nela, vemos a frequência de centralização da primeira vogal dos ditongos /ay/ e /aw/ em oposição à pronúncia não E MUDANÇA LINGUÍSTICA centralizada e a correlação do uso dessas variantes (a pronúncia cen- tralizada de /ay/ e a centralizada de /aw/) com a avaliação dos falantes em relação à ilha (positiva quando se identificam com a cultura local e desaprovam o turismo, negativa quando não se identifi- cam com a cultura local e aprovam o turismo, e neutra quando não têm Objetivos gerais do capítulo posição definida). Da Linguística à um breve apanhado histórico do Tabela 1: Avaliação e uso da variante centralizada dos ditongos /ay/ e /aw/ na surgimento e desenvolvimento da Teoria da Variação e Mudança; ilha de Martha's Vineyard (adaptada de 1972: 39). Pressupostos teóricos uma introdução aos princípios básicos da Teo- Número Avaliação Centralização Centralização ria da Variação e Mudança; de falantes de /ay/ de Problemas para uma Teoria da Variação e Mudança ques- 40 Positiva 63% 62% tões que norteiam a pesquisa 19 Neutra 32% 42% 06 Negativa 09% 08% 1. DA LINGUÍSTICA À SOCIOLINGUÍSTICA Com base nos dados apresentados na Tabela e no seu conhecimento No capítulo anterior, apresentamos o fenômeno da variação sobre esse estudo de Labov, discuta a importância de se considerarem tica. Vimos como a que falamos nos à disposição diferentes os condicionadores externos na análise de um fenômeno linguístico formas para expressar os mesmos significados, sem perder sua sistematici- em dade ou seu poder como instrumento de comunicação. Apontamos também que a é a subárea específica da Linguística com teoria e métodos voltados à compreensão da variação e da mudança nas Para entender melhor os pressupostos teóricos dessa área, vamos em termos gerais, os estudos da linguagem do século XIX e do início do século Começamos falando rapidamente dos estudos histórico-comparativos e dos neogramáticos, para em seguida tratarmos das perspectivas do linguista Ferdinand de Saussure e do linguista americano Noam Chomsky.PARA A teoria da variação mudança Os estudos linguísticos no século XIX foram marcados por duas gran- objeto da Linguística, para o autor, não era a fala dos mas as des tradições: a do método histórico-comparativo e a neogramática. A intuições do pesquisador acerca da e seus julgamentos sobre a grama- primeira tinha como propósito estabelecer correspondências sistemáticas ticalidade das frases. Nessa perspectiva, o individuo é tido como um falante- entre duas ou mais linguas ou entre dois ou mais estágios da mesma lin- ouvinte ideal, situado numa comunidade de fala homogênea e abstrata. gua. Na tradição neogramática, consolidada principalmente na obra de Tanto a abordagem neogramática como a estruturalista saussureana e Hermann Paul, encontram-se pressupostos de uma teoria da mudança que a gerativista concebiam seu objeto de estudo como uma entidade teve grande impacto nas discussões linguísticas posteriores. A hipótese nea. Além do mais, a relação desse objeto com a sociedade que dele fazia principal de Paul sobre a mudança leva em consideração a de um uso era considerada algo teoricamente irrelevante ou, até mesmo, intangí- falante-ouvinte individual (o idioleto), uma realidade fundamentalmente vel. Havia, porém, pesquisadores que, diferentemente de Paul, Saussure e psicológica, homogênea, dissociada das relações Chomsky, postulavam uma concepção efetivamente social de É aos neogramáticos que devemos o da regularidade mecânica Antoine Meillet foi um deles. Na passagem do século XIX para o e a noção de analogia, vigentes ainda hoje nos estudos linguísticos. princi- o pesquisador enfatizava, em seus textos, o caráter social e evolutivo da pio da regularidade mecânica aplicava-se a mudanças que incidiam sobre os lingua. Segundo ele, como a lingua é um fato social, deve-se recorrer ao sons da lingua automaticamente, atingindo todas as palavras de modo abrupto, social para a compreensão da dinâmica linguística. Assim, do independentemente de sua classe, sem exceção são as chamadas leis ponto de vista de Meillet, toda e qualquer variação na língua é motivada Quando as leis fonéticas não se aplicavam, a mudança passava a ser estritamente por fatores sociais. explicada pelo processo de analogia, compreendido como a regularização de Além de Meillet, podemos apontar outros pesquisadores com uma novas formas à semelhança de padrões gramaticais preexistentes. concepção social de também no do século Na perspectiva No início do século Saussure, marco da corrente linguística de- da Linguística para Nicolai Marr, por exemplo, as línguas são nominada estruturalismo, rompe com a tradição de estudos históricos e instrumentos de poder, refletindo a luta de classes sociais, ao passo que o comparativos vigente no século anterior e delimita, como objeto de estudo filósofo Mikhail Bakhtin criticava a perspectiva saussureana, defendendo da Linguística, a lingua (langue) tomada em si mesma, vista como um sis- um enfoque da lingua na interação verbal historicamente situada. tema de signos que estabelecem relações entre si formando uma estrutura Foi em meio a essa diversidade de orientações teóricas que aconteceu, em autônoma, desvinculada de fatores externos sociais e foco 1966, nos Estados Unidos, o "Direções para a Linguística Histórica". na mudança, que era uma preocupação do século é desviado para um Em especial, o debate proposto por Uriel Weinreich, William Labov e Marvin recorte no tempo em que interessam apenas as relações internas estabele- Herzog (aos quais nos referiremos, neste livro, como WLH) resgatou a discussão cidas simultaneamente entre os elementos do sistema linguístico. Assim, sobre os estudos da mudança linguística e, principalmente, sobre as suas moti- a perspectiva diacrônica (histórica e dinâmica) no estudo da cede vações sociais. Seu objetivo era propor um novo conjunto de fundamentos para lugar à sincrônica (atemporal e estática). o estudo da mudança. Para isso, os autores consideraram minuciosamente as Nos Estados Unidos, a visão estruturalista cede na década de propostas dos neogramáticos, estruturalistas e gerativistas em relação ao tema. 1960, ao gerativismo, fundado por Noam Para essa corrente, uma Quanto à tradição neogramática, criticam principalmente a natu- é um sistema abstrato de regras para a formação de sentenças, deri- reza psicológica, homogênea e associal do idioleto, bem como a premissa vado do estado inicial da faculdade da linguagem, um componente inato à de que é nesse que se dá a mudança. Da proposta dos neogramáti- espécie Assim como o estruturalismo, o gerativismo considerava a cos, acolhem a noção de que a mudança é regular, embora não reconheçam um sistema homogêneo desvinculado de fatores históricos e o radicalismo do de que as leis fonéticas se aplicam sem exceção. 57PARA A teoria da variação mudança Em Saussure, WLH criticam principalmente a visão de lingua como espalhando-se pelas diferentes regiões do país e gerando um grande volum uma estrutura autônoma e homogênea, desvinculada de fatores externos, e de estudos a respeito de diversas variedades do português. a separação entre diacronia e sincronia. Da proposta saussureana, os auto- Qual é, então, a proposta da Sociolinguistica? Os pontos res assumem a noção de língua como sistema, embora rejeitem a implica- nessa abordagem são a presença de um componente social na análise li ção direta entre sistematicidade e guística e a noção de língua como sistema Abandona-se, po Quanto à proposta chomskyana, criticam a concepção de lin- tanto, a língua do indivíduo (idioleto) como objeto de análise, passando-se gua como um sistema homogêneo, desvinculado de fatores históricos e considerar a do grupo social no âmbito da comunidade de fala. Alé sociais, assim como a noção de comunidade de fala abstrata, homogênea, disso, as análises da língua deixam de contar apenas com elementos composta por falantes-ouvintes ideais. Da mesma forma, criticam o fazer ao sistema e passam a considerar fatores extralinguísticos para a cientifico com base em dados linguísticos correspondentes às intuições do de fenômenos de variação e mudança. Em suma, a se ocup pesquisador e/ou dos falantes. Por outro lado, compartilham o postulado de da relação entre língua e sociedade e do estudo da estrutura e da que a língua é um sistema abstrato de regras. linguísticas dentro do contexto social da comunidade de fala. É nesse contexto que Weinreich, Labov e Herzog lançam os fundamen- tos de uma teoria da variação e mudança empiricamente orientada a nossa 2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS conhecida Sociolinguística. Além disso, os autores retomam as contribuições de estudiosos que viam a lingua como um fenômeno social. Desse modo, A contextualização histórica apresentada na seção anterior já apon como herança de Meillet, volta a ganhar força a noção de língua como fato para os principais pressupostos teóricos da proposta A partir social dinâmico, cuja variação é explicada por forças externas ao sistema. A agora, passaremos a apresentá-los de maneira Sociolinguística bebeu, ainda, de outras fontes teóricas, como os estudos de Dialetologia, de Linguística Histórica e de Bilinguismo, desenvolvidos na 2.1 A como sistema heterogêneo Europa e nos Estados Unidos na primeira metade do século Algumas obras foram fundamentais para a proposição e consolida- Retomemos a reflexão feita no deste livro sobre a fala das ção desse novo programa de estudos: Fundamentos para uma soas à nossa volta. Vimos que, mesmo apresentando diferenças, elas se en teoria da mudança (Empirical Foundations for a Theory of tendem perfeitamente, e que isso é possível porque a língua é um sistema Language Change), publicado em 1968 por Padrões sociolinguisticos ganizado, formado por regras categóricas e regras Podemos dize (Sociolinguistic publicado por Labov em e Building on Em- portanto, que uma ao mesmo tempo em que possui estrutura, pirical Foundations, do mesmo autor, de 1982. A partir de então, Labov é dotada de variabilidade, ou seja, trata-se de um sistema heterogêneo. desenvolveu inúmeros trabalhos voltados para o estudo da língua em seu Além disso, não se concebe a variação como uma propriedade que contexto social, focalizando especialmente a variação fonético-fonológica sa levar o sistema linguístico ao caos. Mesmo que a princípio se possa per na língua Seu grupo de pesquisa, sediado na Universidade da Pen- sar que heterogeneidade implica ausência de regras, a Sociolinguística silvânia (EUA), tomou-se o centro irradiador dessa nova e instigante aborda- a como um objeto dotado de heterogeneidade estruturada logo gem da língua, e Labov é tido até hoje como a grande referência da área. No há regras, sim. Decorre dai que, enquanto a lingua concebida como Brasil, as pesquisas no campo da Sociolinguística Laboviana tiveram homogêneo contém somente regras categóricas, que sempre se aplicam na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na década de 1970, sob a orien- mesma maneira, a lingua concebida como um sistema heterogêneo compo tação de Anthony Naro. Desde então, as linhas de pesquisa que se ocupam da ta, ao lado de regras categóricas, também regras variáveis, condicionadas descrição de fenômenos variáveis no do Brasil se multiplicaram, fatores tanto do contexto linguístico quanto do extralinguistico.CONHECER A teoria da variação e mudança Um exemplo de regra categórica no português é o da colocação do artigo caso o morfema verbal de pessoa e número é zero, ou seja, é não marcado relação ao nome que ele determina o artigo sempre aparece antes do morfologicamente. Esses exemplos mostram, portanto, que há regras na ome: dizemos 'a casa', mas nunca Do mesmo modo, sabemos que regendo a variação, isto é, que a variação é sistematicamente é possível uma construção como este podemos dizer apenas 'o Para entendermos melhor como os conceitos teóricos apresentados ou sem pronome demonstrativo e artigo na mesma se relacionam com o funcionamento da regra variável, continuemos exa- osição. A Sociolinguistica considera esse tipo de regra, mas este não é o seu minando nossos exemplos. A variável linguística de que tratamos é a con- interesse primordial. Seu foco são as regras variáveis da aquelas que cordância verbal de P4 esse é o "lugar" da língua em que a variação em ermitem que, em certos contextos linguísticos, sociais e falemos questão ocorre. Nesse caso, -mos, -mo e zero são variantes que coocorrem le uma forma, e, em outros contextos, de outra forma - ou seja, que alter- e concorrem para a expressão da concordância de P4, isto é, são opções de emos duas ou mais variantes (formas que devem ter o mesmo significado dizer a mesma coisa de maneiras diferentes que se alternam e entram em eferencial/representacional e ser intercambiáveis no mesmo contexto). disputa na sociedade. A escolha entre uma ou outra das variantes é motiva- A regra variável é uma regra gramatical, e, sendo assim, não é qual- da por fatores internos ou externos à língua os condicionadores. quer forma linguística que pode assumir o papel de uma das variantes, uma Observar que há condicionadores internos e externos que explicam a que elas sofrem restrições do próprio sistema linguístico. Um caso des- escolha por uma ou outra variante é outra maneira de atestar a sistematici- se tipo de regra pode ser observado nas seguintes ocorrências de variação dade da variação. Pensemos primeiramente em algumas forças internas que marcação da concordância verbal de P4, citadas por Zilles et al. (2000: nos ajudam a entender as tendências encontradas na variação da 200 e a partir de uma amostra de fala do Varsul: cia verbal em questão. Em vários estudos sociolinguísticos feitos no Brasil, dois grupos de fatores têm se mostrado bastante significativos na escolha da (1) Nós falamos corretamente forma zero no lugar de -mos/-mo na variação da concordância verbal de P4: (2) tá, ai fomo pro restaurante, mas um restaurante lindo, dois pisos. "posição do acento no verbo" e "posição do sujeito na sentença". No primei- (3) Então muitas vezes nós cansava de jogar um com o outro em apostas pra nós subi as escadas de joelhos, quem chegasse primeiro, né? ro caso, resultados indicam que falantes preferem cortar a última sílaba de palavras favorecendo a omissão de -mos/-mo cansá- (4) Fica só nós. > Essa variação segue o curso da tendência geral Como podemos observar, há três maneiras de assinalar a concordância do desde o latim, de evitar No segundo caso, a verbal nesses dados: com o morfema padrão de P4 -mos com o ordem posposta do sujeito, como em tem se mostrado um am- morfema de P4 sem o /s/ final -mo e com morfema zero biente sintático menos favorável à marcação explicita de concordância ver- Essas três formas em variação têm uma propriedade em co- bal no português tendência verificada também na variação da concordância mum: a manutenção do significado referencial/representacional de que nos com outras pessoas do discurso (P2 e P6, por exemplo). É como se nessa dois primeiros casos está dada pelo morfema -mos/-mo ordem (verbo-sujeito) o sintagma nominal posposto não fosse mais reconhe- e, no último caso, pelo pronome Notemos cido como sujeito da sentença, mas sim como objeto, e não se espera haver também que a relação de concordância variável desses sintagmas plurais difi- concordância entre verbo e objeto. Os fatores e "ordem pos- cilmente poderia ser estabelecida de uma maneira diferente. pronome posta do portanto, mostram-se fortes condicionadores internos da por exemplo, não poderia se combinar com verbo em como em can- não marcação explicita da concordância de P4. uma vez que o morfema marca distintivamente a primeira pessoa do Com relação aos condicionadores externos, eles desempenham um pa- singular. Em porém, não há conflito de referência, pois nesse pel importante na manutenção da das formas variáveis naSociolinguistica A teoria da variação mudança Enquanto as variantes linguísticas são opções de dizer a mesma coisa de Estreitamente relacionado ao da língua como um sistema várias maneiras, elas podem se distinguir em sua significação social es- dotado de heterogeneidade ordenada está outro, ligado à natureza da com- tilística. Ao controlar grupos de fatores sociais que atuam no favorecimento petência linguística dos falantes frente a esse sistema: ou desfavorecimento de uma das variantes na marcação da concordância de A COMPETÊNCIA DO FALANTE COMPORTA estudos mostram que "escolaridade" é uma variável bastante significa- A HETEROGENEIDADE DA tiva: a desinência padrão -mos é fortemente favorecida com o aumento da escolaridade, enquanto falantes menos escolarizados tendem a usar prefe- Esse princípio é facilmente inferível a partir do anterior afinal, se rencialmente o morfema zero. Nota-se aqui também uma sistematicidade de o sistema é heterogêneo e comporta tanto regras categóricas quanto vari- comportamento social com relação ao uso de determinadas regras variáveis. áveis, a competência linguística do falante envolve o para lidar Do ponto de vista de adaptação das formas em variação ao contexto imediato com a heterogeneidade do sistema. Em outras palavras, a comporta do ato de fala, entendida aqui como "estilo", a variação na concordância de regras variáveis que permitem que um falante A aprenda uma forma usada P4 também é atestada, mostrando comportamento linguístico por um falante B e a adote como sua, sem abandonar a forma que Há uma preocupação muito maior de marcação da concordância Ora, se tanto o sistema linguístico quanto a competência dos falantes em situações de mais formalidade, em que o grau de atenção à fala está abrem espaço para estruturas heterogêneas e se o comportamento linguístico ativado, e uma tendência a um uso menor de marcação explicita quando o fa- variável dos falantes pode ser entendido como o de diversos estilos, lante se envolve com o que está relatando e se esquece de monitorar sua fala. chegamos naturalmente a mais um princípio da Teoria da Variação e Mudança: Desse modo, as regras variáveis da lingua são indicando NÃO EXISTE FALANTE DE ESTILO ÚNICO padrões linguísticos e padrões sociais e estilísticos de comportamento. termo padrão, nesse caso, é entendido como um uso regular e frequente Antes de seguirmos a outra série de princípios da TVM, relacionados às re- de uma dada variante, isto é, como uma tendência de comportamento lin- lações entre e sociedade, vamos ver rapidamente uma discussão a respeito É nessa acepção que deve ser compreendido o título do clássico de níveis em que se manifestam as regras variáveis, enfatizando o Padrões de Labov (2008 que ficou conhecido na área como a polêmica Labov versus Lavandera. Chegamos, pois, a mais um dos princípios centrais da Teoria da Va- riação e Mudança (TVM): Problematizando a noção de variante A UM SISTEMA INERENTEMENTE HETEROGÊNEO E ORDENADO sociolinguistico de que a variação ocorre No inicio deste capítulo, vimos que as principais teorias dos em todos os níveis linguísticos já foi fortemente contestado. Quando os estudos variacionistas começaram, trabalhava-se séculos XIX e concebiam a lingua como um sistema homogêneo e a varia- predominantemente no campo da fonologia, no qual a noção ção como um "acidente", algo sem grandes implicações Ora, com a de variação como a competição entre duas ou mais formas de Sociolinguística, a variação e a mudança passam a ocupar um papel central nos mesmo significado se aplica com clareza. estudos e sua sistematicidade deixa de ser um mito para ganhar No entanto, a partir da década de 1970, alguns estudos se o status de fato Assim, o principio da heterogeneidade linguística é voltam à variação na sintaxe. primeiro deles foi conduzido um importante marco estabelecido pela TVM desde o seu surgimento, e a ado- por Labov e Judith Weiner (1977), a respeito da variação entre ção desse trouxe consequências não só à disciplina, mas aos estudos as construções passivas sem agente ("A vidraça foi quebrada") acerca do ensino de e a outras subáreas da e as ativas com sujeito genérico ("Quebraram a vidraça") doPARA CONHECER A teoria da variação e mudança Eles verificaram que a escolha de uma ou outra varian- concordância variável entre verbo e No entanto, algo parece nos dizer te não era motivada socialmente (ou seja, não havia influência de condicionadores externos), mas apenas que elas não são totalmente idênticas na manifestação desse fenômeno: para Lavandera (1977) pôs em xeque o trabalho dos autores, muitos falantes do sul do Brasil, por exemplo, as duas últimas sentenças são questionando (i) a ampliação dos estudos variacionistas para menos aceitáveis que a Isso reflete uma face da variação pela qual níveis além do fonológico a autora argumenta que, para além a Sociolinguistica também se interessa: a do significado social das desse cada forma tem um significado, o que bloquearia A concordância apesar de não fazer parte de determinadas variedades a e (ii) o fato de os condicionadores extralinguísti- cultas do no sul do país já se encontra amplamente difundida na fala cos não terem se mostrado relevantes nesse de diversas camadas Por sua vez, as construções gente Em sua resposta às de Lavandera, Labov acabou e nessa região ainda se encontram fortemente associadas por relativizar a noção de "mesmo significado", ao estabelecer que o conceito de variável deveria ser aplicado a "dois a certos grupos de falantes especialmente, os pertencentes a camadas com enunciados que se referem ao mesmo estado de coisas e que têm baixa renda pouca escolaridade. Contudo, não há nada intrinseco ao o mesmo valor de verdade" (entendendo "estado de coisas" como meno observado nos três exemplos que torne um "melhor" que o outro tanto "significado representacional"). Além disso, Labov argumenta que é que essa avaliação difere em grande medida em outras regiões do país. o que ao realizarmos estudos sociolinguísticos não estamos somente pre- distingue as sentenças é o valor a um estrato da sociedade que usa ocupados em verificar a relevância dos fatores sociais, mas, antes (ou que imaginamos que usa) certas construções e não disso, em obter um retrato da estrutura gramatical da lingua. Essa confusão entre fazer julgamento à língua e julgamento ao falante é Esse debate abriu caminho não só para estudos de variação como também de variação Muitos um dos fatores que permitem a existência e a perpetuação do preconceito lin- pesquisadores entenderam que a quantificação de fenômenos guístico em nossa sociedade. Com o falso argumento de que uma construção e discursivos pode, além de nos fornecer bons é, em si, "errada", abre-se espaço para que marginalizemos os falantes que fa- indicadores da relevância de diversos condicionadores, ser um zem uso dessa construção. Uma das contribuições da Sociolinguistica é justa- instrumental útil inclusive para se verificar a ausência de mente a de desmascarar esse argumento: incontáveis pesquisas já constataram que não há nada nas formas variáveis de uma que permita afirmar que umas sejam melhores ou mais corretas do que as outras, ou que o uso de uma 2.2 As formas variantes como portadoras de significado social ou outra forma tenha qualquer relação com a capacidade cognitiva do Segue portanto, que o julgamento (ou, em termos mais claros, o Prosseguimos nosso contato com a Sociolinguística discutindo um tema preconceito) é social. Dizer que tal pessoa ou tal grupo é inferior porque bastante caro à área: trata-se do significado social ou valor social das for- fala de uma forma e não de outra é apenas mais um mecanismo de afirma- mas Consideremos as sentenças a seguir, extraídas de redações ção e de perpetuação desse preconceito, que se manifesta como preconcei- de alunos do ensino fundamental de uma escola pública de Florianópolis: to linguístico, mas que nunca deixou de ser social. (5) Mais é troxa Felizmente, não é apenas para a manutenção do preconceito linguístico (6) Depois, a gente saimos do shopping e fomos no parque de que se prestam os significados sociais da variação. Vimos que as formas (7) Nós tava andando de Bike. da língua não veiculam apenas seu significado referencial/representacional; elas denunciam em grande medida quem somos: a região de onde viemos, que difere as três quanto à ocorrência de um fenômeno variável? A nossa idade, nossa inserção na cultura dominante, nossas atitudes em relação principio, nada, pois em todas há manifestações de um mesmo o da a determinados grupos... E nada mais adequado (e interessante!) que incor-PARA CONHECER Sociolinguistica A teoria da variação mudança porar o valor do significado social das formas ao programa de estudos da 3. Indicadores São elementos linguísticos sobre os quais há pouca força de Sociolinguística. Adicionamos, desse modo, mais um a nossa lista: avaliação, podendo haver diferenciação social de uso dessas formas corre- lacionada à idade, à região ou ao grupo social, mas não quanto a motiva- AS FORMAS DA ALÉM DE SIGNIFICADOS SIGNIFICADOS SOCIAIS ções Em outras palavras, indicadores são traços não sujeitos à variação estilística, com julgamentos sociais Um exemplo Como veremos mais adiante, o ou o estigma que uma co- de indicador é a monotongação dos ditongos /ey/ e /ow/ no fala- munidade associa a uma determinada variante tem o poder de acelerar ou do atual, em palavras como de barrar uma mudança na Essa não é uma afirmação banal. Espe- isenta de valor social e ramos que ainda esteja fresca na sua memória a breve história dos estudos linguísticos que traçamos anteriormente. Até poucas décadas atrás, afirma- Vale salientar que, a depender da região, uma variante pode ser inter- va-se que a mudança não era passível de estudo rigoroso, que não era per- pretada tanto como marcador quanto como Exemplos disso são ceptivel, e muito menos se considerava importante buscar fora do sistema (além do uso pronominal já mencionado) as construções e No explicações para esse processo. Na abordagem sociolinguística, Rio Grande do Sul, essas formas comportam-se como marcadores e não como como podemos acompanhar, o quadro é justamente o oposto. pois não são estigmatizadas, constituindo-se em elementos carac- Reconhecendo que há julgamentos sociais conscientes e inconscien- terizadores de identidade local. Contudo, essa possivelmente não é a situação tes sobre a lingua, Labov formula três categorias de significado social das em outras localidades, que avaliam essas construções de modo negativo. formas em variação, baseadas no nível de consciência que o falante tem A classificação de variáveis em estereótipos, marcadores e indicado- sobre determinada variável: res é uma ferramenta relevante para a Sociolinguística, pois nos auxilia a compreender, por exemplo, o processo de mudança linguística e a escorre- 1. Estereótipos São traços socialmente marcados de forma consciente. Alguns gadia definição de comunidade de fala, como veremos neste capítulo. deles podem ser estigmatizados socialmente, o que pode conduzir à mudança linguistica rápida e à extinção da forma estigmatizada. Outros podem ter um pres- 2.3 A comunidade como locus do estudo da língua tigio que varia de grupo para grupo, podendo ser positivo para alguns e negativo para outros. Os estereótipos são comumente explorados, com certo exagero, na Embora a TVM reconheça a dimensão individual do uso da língua, não composição de personagens de programas em piadas e mesmo em é este o seu interesse maior. Para essa teoria, a variação e a mudança só se novelas e filmes. Exemplos de estereótipos são as consoantes /d/ e pronun- revelam em sua sistematicidade quando o pesquisador considera o contexto ciadas como [d] e [t] (e não como e diante de [i]. como em dia, social em que a é usada, analisando a estrutura e evolução da língua das variedades florianopolitana e recifense, por exemplo. a partir de sua interação com a sociedade. Na proposta laboviana, portanto, 2. Marcadores São traços social e estilisticamente estratificados, que podem ser diagnosticados em certos testes de avaliação. Os resultados de o LOCUS DO ESTUDO DA LINGUA É A COMUNIDADE DE FALA, NÃO o INDIVÍDUO alguns testes têm mostrado que, apesar de os falantes rejeitarem certas variantes, isso não significa que não fazem uso delas: o julgamento social, assim como o Em outras palavras, embora seja evidente que o indivíduo opera com uso, nem sempre é consciente. Um exemplo de marcadores é a variação entre os regras e categorias gramaticais, a Sociolinguística se preocupa essencialmente pronomes e em certas regiões do Brasil. uso desses pronomes, em com a gramática geral da comunidade de fala, e não com o sistema específico geral, não é estigmatizado, mas está correlacionado a variáveis (grau de um ou outro Ora, se a comunidade de fala ocupa um papel tão de intimidade, por exemplo) e sociais (como a faixa etária dos falantes). central na proposta cumpre, então, definirmos esse termo. SegundoSociolinguistica A teoria da variação mudança uma comunidade de fala não é apenas um grupo de falantes que usa Convém mencionar ainda, brevemente, a noção de comunidades de mesmas formas da mas um grupo de falantes que, além disso, com- prática como locus dos fenômenos linguísticos. Essa noção diz respeito a prá- tilha as mesmas normas a respeito do uso dessa língua o que pode ser ticas sociais compartilhadas por indivíduos que se regularmente em servado tanto em "comportamentos avaliativos explicitos" como "pela uni- torno de uma meta comum, e envolvem desde crenças e valores até formas de midade de padrões abstratos de variação" (Labov, 2008 [1972]: 150). Nesse realizar certas atividades e de falar. Podem ser caracterizadas como comuni- so, é preciso considerar que a uniformidade das normas compartilhadas pelo dades de prática reuniões de pais e professores, rotinas familiares e escolares, ocorre quando a variável linguística possui marcas sociais comunidades de hackers, entrevistas médicas, comunidades de pescadores etc. significa que muitas vezes os falantes têm consciência desses usos e são Penelope Eckert propõe que o estudo da variação seja centrado nas co- pazes de emitir juízos de valor sobre as formas linguísticas variáveis. munidades de pois nelas as variantes linguísticas assumiriam significa- A noção de comunidade de fala suscitou alguns questionamentos, re- ção social, havendo relação direta entre e identidade. Nesse contexto, os cionados principalmente ao papel da avaliação das formas variantes, que estilos individuais, como marcas de identidades sociais, ocupariam um lugar se dá apenas conscientemente (como nos estereótipos), mas também central no estudo da variação linguística. Tal enfoque se aproxima do de redes conscientemente (no caso dos marcadores e indicadores) e à sua opera- onalização (por exemplo, existe um número determinado de formas lin- sociais (ambos de nível "micro" e mais qualitativo) em oposição ao de comu- variáveis frente às quais os falantes teriam uma atitude uniforme nidades de fala (de nível "macro" e predominantemente quantitativo). ie permita a identificação de uma comunidade de fala?). Reelaborando a concepção laboviana de comunidade de fala, Gregory As três ondas da Sociolinguística uy (2001) propõe uma definição a partir de três critérios: Uma das contribuições recentes de Eckert à área é a pro- Os falantes devem compartilhar traços linguísticos que sejam diferentes de posta de dividir as práticas dos estudos sociolinguísticos ao longo de sua história em "ondas". outros A primeira onda trabalha com a variação objetivando Devem ter uma frequência alta de comunicação entre si; estabelecer correlações amplas entre categorias sociais e Devem ter as mesmas normas e atitudes em relação ao uso da linguagem. variáveis linguísticas. Um exemplo seria o estudo de Labov Além do conceito de comunidade de fala, há pesquisadores que trabalham sobre o /r/ pós-vocálico em lojas de departamento de Nova om outros conceitos relacionados ao locus dos fenômenos linguísticos investi- York, discutido no capítulo anterior; A segunda onda busca in mais a fundo nas categorias sociais Um desses pesquisadores é Lesley Milroy, que situa seus falantes em re- envolvidas na variação, empregando métodos etnográficos les sociais redes de relacionamento dos individuos estabelecidas na vida coti- para desvendar quais processos locais constituem essas liana, que variam de um indivíduo para outro e são constituídas por ligações de categorias mais Destudo de Labov na ilha de Martha's liferentes tipos, envolvendo graus de parentesco, ocupação (ambiente Vineyard é um exemplo de análise nessa perspectiva; de trabalho) etc. Quanto maior o número de pessoas que se conhecem umas às A terceira onda busca olhar para a variação como um sistema outras numa certa mais alta será a densidade dessa rede. complexo de significados sociais em potencial dentro de Uma análise sociolinguística baseada em redes sociais procura captar uma comunidade, que pode ser manipulado localmente pelos dinâmica dos comportamentos interacionais dos falantes e possibilita o indivíduos na construção de estilos identitários (apresentaremos estudo de pequenos grupos sociais, como grupos étnicos minoritários, mi- um exemplo de estudo nessa onda no a seguir). grantes, populações rurais etc., favorecendo a identificação das dinâmicas Eckert nos alerta para que não vejamos as três ondas como estágios que se sucederam ao longo da história da So- sociais que motivam a mudança Ela defende que, embora os achados das duasPARA CONHECER Sociolinguistica A da variação e mudança primeiras ondas sejam fundamentais para a área, a manipula- Para melhor compreender a proposta de WLH, vamos retomar uma das ção dos significados sociais da variação deve ocupar um lugar dicotomias postuladas por Saussure: a separação entre sincronia e diacro- de destaque nas pesquisas da nia. Para ele, enquanto a Linguística sincrônica se ocupa das relações entre elementos simultâneos que "formam sistema" entre si, a diacrônica estuda Nota-se, portanto, que o sociolinguista pode situar seu estudo em do- as relações entre elementos sucessivos, ou seja, que se substituem uns aos mínios A depender de seu objeto e de seus interesses de pesquisa, outros de maneira isolada, sem "formar sistema" entre si. Portanto, a pers- ele pode considerar a atuação da língua em uma comunidade de fala, em pectiva sincrônica é estática, aplicando-se a apenas um estado de ao redes sociais ou em comunidades de prática. Essas opções não são mutua- passo que a diacrônica é mutável e dinâmica. mente excludentes: um mesmo fenômeno pode ser analisado, num primei- A feita por WLH a essa concepção é de que ela impede que ro momento, sob a ótica da comunidade de fala, que permite um olhar mais se considerem fatores sociais agindo sobre a e que se incorpore a amplo e panorâmico sobre o objeto, e, num momento posterior, ser anali- mudança ao sistema linguístico em outras palavras, a abordagem saussu- sado em redes sociais e/ou comunidades de prática, permitindo uma visão reana retira da lingua a sua dimensão histórica. mais detalhada, mais "micro" do fenômeno. Apesar de terem caracteristi- Para construir uma teoria que rompesse com o axioma da homogenei- cas diferentes e de configurarem pesquisas com feições específicas, o que dade e concebesse a língua como um sistema dotado de heterogeneidade une todas essas abordagens é o foco na lingua em seu contexto social - e ordenada, foi necessário que neutralizassem a separação entre sincronia não individual, como faziam as teorias apresentadas no do e Os autores precisavam explicar como a lingua, que é um sistema estruturado, muda sem que as pessoas tenham problemas de comunicação. 2.4 As relações entre variação e mudança Eles apresentam sua hipótese nos seguintes termos (2006 [1968]: 35): Passamos a outro conjunto de e conceitos básicos da TVM. Nos parece bastante inútil construir uma teoria de mudança que aceite Se até aqui nos concentramos em princípios mais relacionados à variação como seu input descrições desnecessariamente idealizadas e linguística, ao caráter heterogêneo do sistema e relações entre dos estados de lingua. Muito antes de se poder esboçar teorias preditivas e sociedade, vamos nos voltar agora a outro grande interesse da teoria: a da mudança linguística, será aprender a ver a seja de mudança linguística. um ponto de vista diacrônico ou sincrônico como um objeto constituido Como sabemos, cada estado da língua é resultado de um longo e con- de heterogeneidade processo histórico. As mudanças ocorrem a todo momento, ainda que nos sejam imperceptiveis. Como o do século XV é diferente do inglês Para a língua é heterogênea, e essa heterogeneidade é observa- do século o português do século XV também não é idêntico ao do século da tanto na sincronia como na diacronia, ou seja, a lingua não passa por Da mesma forma, o inglês e o português do futuro serão diferentes dos menos ainda que esteja em constante mudança. atuais. E isso ocorre com todas as humanas. Desse modo, retoma-se o de que a associação entre estrutura pensar que durante um processo de mudança a estrutura e homogeneidade é uma ilusão. das fique comprometida, o que leva à seguinte questão: como é que Basta pensarmos em como ocorre um processo de mudança. Vimos as pessoas conseguem se entender enquanto a muda? Essa é uma que é possível que, em seu repertório linguístico, um falante disponha de das grandes questões discutidas por A resposta dos autores foi que mais de uma forma para expressar o mesmo significado temos ai a varia- a mudança não afeta o caráter sistemático da isto é, ela continua ção Ocorre que, dentro do repertório linguístico desse falante, estruturada enquanto as mudanças vão pode acontecer, também, um desfavorecimento gradual da forma original 70PARA CONHECER Sociolinguistica A teoria da variação e mudança em prol da nova, de modo que a forma antiga assuma o estatuto de arcaica A conciliação entre sincronia e diacronia permite observar as mu- ou obsoleta e, aos poucos, deixe de ser usada. Nesse caso, estamos diante danças linguísticas no momento em que acontecem, ou seja, elas não de um processo de mudança linguistica. ficam "escondidas" entre os estados de língua, e são observadas justamente A mudança é, como dissemos, um dos grandes interesses de WLH, e os na comunidade de pela análise de padrões de variação e pela dinâmica autores buscaram estabelecer uma série de básicos para a investi- desses padrões ao longo do gação desse processo. Um deles diz respeito ao desenrolar da mudança com Retomemos, agora, o pressuposto de que os fenômenos da variação o tempo e novamente diverge das abordagens tradicionais da e da mudança estão intimamente relacionados. Para não é possível conceber a mudança sem que ela reflita um estado de variação, assim como A GENERALIZAÇÃO DA MUDANÇA ATRAVÉS DA ESTRUTURA LINGUÍSTICA a variação é sempre um gatilho para uma possível mudança. Chegamos, UNIFORME NEM assim, a mais um princípio da TVM: Para mostrar que as formas convivem num determinado espaço geográ- NA NEM TUDO QUE VARIA SOFRE MAS TODA MUDANÇA fico, num grupo social e até num mesmo indivíduo e que a mudança não é PRESSUPÕE VARIAÇÃO abrupta, e os autores trazem estudos gicos e que oferecem exemplos da oposição Isso significa que o fato de existirem duas variantes competindo pelo dor, bem como de alternâncias sociais e estilísticas dentro do comportamen- mesmo contexto não quer dizer que uma delas vai se tornar obsoleta e que to linguístico da comunidade de fala. Esses estudos serviram de base para a a outra vai se tornar a forma usual. Duas formas podem conviver em va- formulação dos problemas empíricos que serão abordados na seção seguinte, riação durante anos sem que haja a substituição de uma pela outra, ou seja, Também a perspectiva imanentista de Saussure na qual a língua é um sem que haja mudança completada, numa situação de variação Lembremos, por exemplo, do fenômeno do as formas 'pran- sistema que vale estritamente por suas relações internas, ou seja, os fatos ta' convivem em nossa marcando uma diferença entre a fala linguísticos somente podem ser explicados por outros fatos linguísticos é de um indivíduo possivelmente oriundo de zona rural pouco escolariza- rejeitada pelos autores na forma como entendem a mudança linguística. Nos do e a fala de um individuo de zona urbana escolarizado, convenciona estudos saussureanos, possivelmente por conta da necessidade de se delimi- da como variedade que se nota é que entre as formas concorrentes tar cientificamente o objeto de estudo da Linguística, os fatores de natureza existe variação, mas não existe indicativo de mudança. foram desprezados. Passemos a outro exemplo. Sabemos que no português do Brasil Por sua vez, WLH incorporam no estudo da os fatores sociais, pronome foi praticamente por para indicar P5: apontando uma correlação entre a estrutura linguística e a social, o que co- ele pode ser visto, atualmente, apenas em algumas linguagens específicas, o contexto social como palco da mudança linguistica. Este é outro dos como a religiosa ou a jurídica, e não mais na fala comum das pessoas, em fundamentais da teoria, e mais um de seus grandes diferenciais que somente usado. Observamos, portanto, uma mudança lin- em relação às teorias linguísticas dominantes nos séculos XIX e guística basicamente completada na expressão de uma forma pronominal. FATORES E SOCIAIS INTIMAMENTE É importante ressaltar que um processo de mudança em curso implica RELACIONADOS NO DESENVOLVIMENTO DA MUDANÇA necessariamente que há competição entre duas ou mais formas EXPLICAÇÕES APENAS DE UM OUTRO ASPECTO AO DESCREVER No início desse processo, a forma inovadora é de uso menos recorrente AS REGULARIDADES QUE PODEM SER OBSERVADAS NOS ESTUDOS EMPÍRICOS DO aparece em contextos À medida que os contextos de uso vão se COMPORTAMENTO expandindo, a frequência dessa forma vai aumentando, até que ela ultra- 73PARA Sociolinguistica A teoria da variação e mudança passe a da forma antiga. Num gráfico, uma mudança dessa natureza pode os FATORES QUE PRODUZIRAM MUDANÇA NA FALA ANOS NÃO ser representada por uma curva em S: ESSENCIALMENTE DIFERENTES DAQUELES QUE ESTÃO OPERANDO ENTENDIMENTO DE PROCESSOS QUE OPERARAM NO PASSADO PODE SER INFERIDO Gráfico 1: Frequência (em %) de próclise ao verbo simples DA OBSERVAÇÃO DE PROCESSOS EM CURSO NO PRESENTE em amostras de peças teatrais catarinenses, por ano de nascimento dos autores (adaptado de Martins, 2009: 187). Considerando esse principio, as pesquisas se orientam do presente para o passado. Assim, parte-se de análises sincrônicas da atualidade Próclise ao verbo simples empiricamente bem assentadas para, então, buscar gradualmente a reconstitui- 120% ção diacrônica dos fenômenos em estudo. A ressalva que deve ser feita a essa 100% perspectiva é de que há uma limitação em relação aos fatores sociais implica- 80% dos nas diferentes épocas, uma vez que esses fatores podem variar de acordo 60% com as especificidades de cada cultura e de cada período 40% 20% Sintese 0% 1829 1841 1953 1855 1855 1856 1884 1898 1927 1939 1949 1961 1969 Nesta seção, apresentamos e discutimos alguns dos prin- Sujeito SN Sujeito pronominal basilares da TVM, que se referem à natureza do sistema ao lugar desse sistema no dominio social e às re- No Gráfico vemos a frequência crescente de próclise ao verbo sim- lações entre os da variação e da mudança. Juntos, ples nos dois contextos com sujeito pronominal o e com eles nos dão um panorama de qual é a orientação que a So- sujeito nominal o A próclise com sujeito pronominal já era segue em suas análises e nos preparam para as uma estratégia bastante utilizada pelos autores nascidos no século XIX os discussões que vêm a seguir. percentuais mais baixos estão na casa dos Com respeito à próclise A lingua é um sistema inerentemente heterogêneo e A competência linguística do falante comporta a com sujeito nominal, esta apresenta baixissimos no mesmo heterogeneidade da nesse momento histórico, a taxa de na amostra analisada é quase Não existe falante de estilo categórica. A partir da segunda metade do século XIX, observa-se uma curva As formas da língua veiculam, além de significados ascendente a passa a competir mais substancialmente com a va- referenciais/representacionais, significados riante rival (a próclise). Por fim, percebe-se um uso categórico da próclise, locus do estudo da lingua é a comunidade de fala, não estabilizando-se como a forma majoritária depois do pico de frequência. o A generalização da mudança através da estrutura linguistica No estudo da mudança, frequentemente o pesquisador se depa- não é uniforme nem instantânea; ra com a necessidade de acessar e explicar usos linguísticos de épocas Fatores linguísticos e sociais encontram-se intimamente passadas e de reconstruir percursos de variação/mudança dos fenômenos relacionados no desenvolvimento da mudança linguística. investigados. Isso traz uma implicação de ordem metodológica, relacio- Explicações apenas de um ou outro aspecto falharão ao nada à definição da perspectiva assumida para a análise: a reconstrução descrever as regularidades que podem ser observadas nos deve ser feita do passado para o presente ou do presente para o passado? estudos do comportamento linguístico; Para dar conta desse questionamento, a TVM toma emprestado da geolo- Na nem tudo que varia sofre mudança, mas toda mudança pressupõe gia o princípio do uniformitarismo: 74 75PARA CONHECER A teoria da variação e mudança Fatores que produziram mudança na fala anos atrás não são Problema da implementação: A que fatores se pode atribuir a implementa- essencialmente diferentes daqueles que estão operando na ção das mudanças? Por que uma mudança ocorre em uma em uma lingua hoje. entendimento de processos que operaram no época e não em outra lingua e em outra época? passado pode ser inferido da observação de processos em curso no 0 problema da restrição objetivo desse problema é investigar o conjunto de mudanças pos- 3. PROBLEMAS EMPÍRICOS PARA UMA TEORIA DA MUDANÇA e de condições para que essas mudanças ocorram numa dada estru- tura. Em outras palavras, buscam-se generalizações, e mesmo princípios Weinreich, Labov e Herzog apresentam uma teoria de mudança que universais, que governam a estrutura e a mudança e a partir dos explica como a estrutura linguística de uma comunidade de fala se trans- quais é possível prever direções de uma mudança. A busca por restrições forma no curso do tempo de modo que tanto a quanto a comunidade linguísticas de caráter universal, no entanto, não implica que se considere permanecem ordenadas, embora a língua mude. a faculdade da linguagem como uma propriedade isolada, que independe Para encontrar explicações plausíveis sobre a mudança, o pesquisador da estrutura linguística e social. Isso seria conflitante com a abordagem deverá levar em consideração a descrição de dados empíricos variáveis fon- empirica da que se ocupa de fenômenos variáveis, inseri- tes necessárias para se confirmar que as possibilidades de diferenciação das dos na matriz social e sujeitos à ação de fatores de natureza diversa que formas em variação estão dispostas ordenadamente na língua, isto que a heterogeneidade é sistemática e Descrever dados empíricos em va- podem, inclusive, ser desfavoráveis a essas generalizações. Nesse sentido, riação/mudança não é uma tarefa Entretanto, a Sociolinguística fornece os princípios não são absolutos, aplicados categoricamente, mas apontam ferramentas próprias para guiar uma pesquisa dessa natureza, estabelecendo para regularidades ou tendências gerais. A busca por condições para as mudanças estruturais não uma ponte entre a teoria e a empiria. Essas ferramentas estão relacionadas a se restringe ao estudo de fenômenos isolados numa dada Vários um conjunto de problemas empíricos que devem orientar os estudos da área. fenômenos em mudança precisam ser analisados e correlacionados, se Postulados por WLH, os problemas empíricos são questões gerais que o possível intra e interlinguisticamente, para chegarmos a ge- pesquisador deve responder em uma pesquisa Apresentamos rais. ponto de partida para observar as condições motivadoras de varia- agora os problemas empíricos e, a seguir, tratamos de cada um individualmente. no entanto, é o exame de fenômenos linguísticos particu- Problema da restrição: Qual é o conjunto de mudanças e de con- lares. Vejamos como podemos identificar condições para uma determinada mudança. dições para mudanças que podem ocorrer em uma determinada estrutura? Sabemos que a concordância verbal é um variável no por- Problema do encaixamento: Como as mudanças estão encaixadas na es- falado no Brasil. Um estudo sobre a variação da concordância trutura e social? verbal de P6 foi realizado por Monguilhott (2009), analisando a fala de moradores de Estabeleceu-se como variável dependente a Problema da transição: Como as mudanças passam de um estágio a outro? "concordância verbal de P6", buscando verificar os contextos favorece- Problema da avaliação: Como as mudanças podem ser avaliadas em termos dores para cada uma das variantes com marca verbal de concordância de seus efeitos sobre a estrutura linguística, sobre a eficiência comunicativa e e sem marca verbal de concordância conforme vemos em (8a/9a) e sobre o amplo espectro de fatores não representacionais envolvidos no falar? (8b/9b), respectivamente. 76 77Sociolinguistica A da variação e mudança linguistica (8) a. Todas as minhas amigas namoravam vinham às festas aqui. tramos com esse exemplo se aplica a qualquer fenômeno em b. As pessoas não sai do Ribeirão todo dia pra vim no centro. ça. É o controle de grupos de fatores linguísticos e extralinguísticos aplicado (9) a. Não eram colunas assim como tá hoje. a inúmeros fenômenos variáveis que vai nos permitir responder à pergunta b. Comia o pai e a mãe na mesa, os filho no central deste problema empirico: Qual é o conjunto de mudanças possíveis e de condições para mudanças que podem ocorrer em uma determinada es- Interessa-nos discutir neste momento uma variável independente que trutura? No caso em questão, a concordância verbal, é prever que no se mostrou significativa na pesquisa: "posição do sujeito em relação ao português do Brasil sujeitos pospostos ao verbo tendem a restringir a marcação verbo". Vejamos, verbal de concordância; e prever ainda que uma possível mudança seguirá na direção de não marcação verbal de concordância quando o sujeito estiver Tabela 2: Frequência de marcação verbal de P6, segundo a variável "posição do sujeito em relação ao verbo" (Monguilhott, 2009: 125). posto ao verbo, sendo o sujeito, nesse caso, reinterpretado como objeto. Convém salientar que as condições para variação/mudança de determi- Posição Apl./Total % nado fenômeno não são apenas de natureza linguistica. Elas são atravessadas Sujeito anteposto 464/546 84% por fatores sociais, já que a língua se manifesta no contexto social. Isso nos Sujeito posposto 23/67 34% leva novamente à definição do problema da restrição apresentada anterior- Total 487/613 79% mente, segundo a qual os linguísticos não devem ser tomados de Notamos que, dos 613 dados encontrados na pesquisa, 487 (79%) forma isolada. A concepção de "princípios gerais" que considera a estrutura correspondem ao de aplicação da regra (Apl.) em estudo nesse da lingua no contexto social levou Labov (1982) a rever a formulação inicial caso, a marcação verbal de concordância. Olhando para os fatores, vê-se o do problema da restrição e a propor que ele poderia ser fundido ao problema seguinte: há 546 dados com sujeito anteposto (como em (8a) e (8b)), dos do encaixamento linguístico e social, a ser visto a seguir. quais 464 (84%) apresentam marca verbal de concordância, e há 67 dados com sujeito posposto (como em (9a) e (9b)), dos quais 23 (34%) apresen- 3.2 0 problema do encaixamento tam marca verbal de concordância entre o sujeito e o verbo. A Tabela 2 evidencia uma tendência: a marcação verbal de concordância o problema do encaixamento diz respeito a como um fenômeno lin- é maior quando o sujeito fica anteposto ao verbo e menor quando o sujeito fica guistico em variação/mudança é encaixado na estrutura linguística e na so- posposto ao verbo. Note-se, porém, que somente resultados relativos a certos cial. A ideia de "estar está ligada a como um condicionadores de um fenômeno particular de uma língua não autorizam a variável se relaciona com outro(s) que fatores linguísticos, formulação de generalizações e predições acerca do funcionamento daque- estilísticos e sociais condicionam (favorecendo ou inibindo) determinadas le fenômeno. No caso da concordância verbal, é preciso levar em conta, por variantes, quais são as causas e os efeitos de uma mudança, quais as possi- exemplo, resultados de outras análises voltadas às demais pessoas do discurso, veis direções de linguísticas, entre outros aspectos. Apesar de ser que têm apontado tendências na mesma direção para a variável "posição do considerado um problema de amplas frentes de investigação, de acordo com sujeito em relação ao verbo". A convergência de resultados quanto ao papel Labov (1982), o estudo do encaixamento é a área que mais avança na com- dos mesmos condicionadores é um indicativo de generalização. preensão das causas e dos efeitos da variação/mudança linguística. Podemos dizer que a marcação verbal da concordância de P6 não é pro- As primeiras palavras de WLH sobre o encaixamento na estrutura lin- duto de aleatoriedade, mas é motivada pela posição posposta do sujeito em guística, em 1968, traziam dois enfoques gerais: i) o de que a noção de va- relação ao verbo, entre outros fatores condicionadores. que ilus- riável como um elemento do sistema, pertencente à competência 79CONHECER A teoria da variação mudança ca de uma comunidade de fala, eliminava a existência de "flutuações" fora Gráfico 2: Frequência de preenchimento do objeto direto pronominal do sistema vemos a implicação do principio de que a língua é um obje- comparada à de sujeito posposto a verbo transitivo e de sujeito posposto a verbo bitransitivo ao longo de cinco momentos históricos to dotado de heterogeneidade ordenada, o que faz cair por terra a visão da (adaptado de Tarallo, 1993: fala como caótica e impossível de ser sistematizada; ii) o de que a mudança 100 linguística raramente é um movimento de um sistema inteiro para outro, 90 mas de um conjunto de fenômenos variáveis dentro de um mesmo sistema. 80 70 de sujeito Com relação ao segundo enfoque, pensemos que, se a mudança ocor- posposto verbo 60 transitivo resse em bloco, teríamos uma transformação abrupta de uma em 50 de sujeito 40 outra através de uma única mudança. No entanto, o que se observa é que posposto a verbo 30 os fenômenos em mudança se encaixam no sistema sem que ele preci- 20 de se mudar por completo, ou seja, o sistema continua estruturado enquanto 10 de objeto pronominal o muda, de forma que os falantes continuam se comunicando sem prejuízo. metade metade metade metade Corpus XVII foco principal da TVM são as variações/mudanças dentro de uma língua, (1981) mas, mesmo quando observamos a passagem de uma a outra, o que temos é um conjunto de mudanças (e não uma única mudança, em bloco) No Gráfico notamos que os três fenômenos variáveis, embora dis- que nos inclusive, identificar estágios entre as duas tintos, fazem curvas semelhantes, apresentando um número considerável o caso, por exemplo, do latim dando origem ao português: entre estágios de ocorrências na segunda metade do século XVIII (com frequência de uso mais próximos (entre o latim clássico e o latim vulgar e entre o português maior de preenchimento do objeto direto pronominal em detrimento das arcaico e o português clássico, por exemplo), temos diferenças mais sutis; frequências de uso dos demais fenômenos) e tendo uma queda significativa entre estágios extremos (entre o latim clássico e o português atual, por de uso nos últimos momentos históricos (com a frequência de posposição exemplo), temos completamente de sujeito para ambos os tipos de verbo praticamente Da mesma Para ilustrar essa discussão, vejamos o Gráfico 2, adaptado de um forma, encontrar outros fenômenos desenhando uma curva se- estudo de Tarallo (1993), em que o autor faz um apanhado de resultados melhante por exemplo, com relação à variável "preenchimento do sujeito referentes a três fenômenos em mudança no português do Brasil. Vemos veriamos a frequência de sujeitos nulos caindo ao longo dos a frequência de uso de sujeito posposto a verbo transitivo direto séculos, tal qual as variantes aqui apresentadas. Dessa maneira temos, con- tu de sujeito posposto a verbo bitransitivo eu o livro na forme postulado por WLH, uma mudança que afeta não o sistema em bloco, estante") e de preenchimento do objeto direto pronominal mas um conjunto de variáveis, sem comprometer a estruturalidade do sis- Os três fenômenos são representados pelas linhas contendo losangos, qua- tema, garantindo condições de comunicação entre os drados e triângulos, respectivamente, e são retratados em seu percurso de Outra questão importante dentro do problema de encaixamento é a mudança ao longo de cinco momentos históricos, começando no século noção de que mudanças podem ser explicadas pela covariação, isto é, XVIII e chegando ao ano de 1981. pela relação entre o fenômeno variável e os condicionadores linguísticos e que atuam como contextos de restrição, favorecendo ou desfavorecendo a aplicação de determinada regra. As restrições relacionadas aos condicionadores linguísticos podem ser de diferentes níveis (fonológico, morfológico, sintático, semântico ou discur- 80 81PARA A teoria da variação e mudança sivo de natureza ou funcional) e operam simultanea- Vale lembrar que, sem encaixar a variação/mudança no quadro das rela- mente. aumento ou decréscimo da atuação de restrições sobre o variável é um indicativo de possível mudança em Em geral, uma ções sociais, vamos ter uma visão parcial do seu condicionamento, uma vez mudança começa nos contextos linguísticos que mais favorecem a aplicação que só os fatores linguísticos estariam sendo considerados. Por esse motivo, da regra e se difunde progressivamente aos demais contextos. dentro do problema do encaixamento tratamos, além do encaixamento lin- guístico, também do social, que pode ser observado quando estudos atestam O fenômeno variável da expressão pronominal de P4, em que se al- o grau de correlação entre o fenômeno em variação/mudança e a estrutura ternam as formas ilustra bem as restrições anteriormente descritas. Como pronome, 'a gente' é usado primeiramente com referên- social (grupo faixa etária, sexo/gênero, escolaridade, etnia etc.). Um bom exemplo dessa correlação é o trabalho de Labov realizado cia indeterminada (indicando qualquer um) e lentamente se expande para referência determinada (indicando + alternando-se com o na ilha de Martha's Vineyard a respeito da centralização da primeira vogal dos ditongos /ay/ e /aw/, já discutido no capítulo precedente. Em termos de pronome Hoje, é comum encontrarmos o emprego de gente' como genérico gente colhe o que planta'), com referência a: 'eu + grupo de encaixamento social, pode-se dizer que a centralização dos ditongos se apre- a gente jogá com alguma outra senta naquela comunidade como uma "marca exagerada pelos seus e minha mãe, a gente tava em casa'), 'eu + perguntei membros de etnia inglesa cuja ocupação é a pesca e que residem na região alta da ilha, para que estes demarquem seu espaço e sua identidade pro João: a gente vai jogá futebol e até mesmo com referência À medida que a TVM foi explorada e revista, expectativas que WLH a 'eu' trabalho, a gente vai fazer uma discussão sobre os pronomes de Essa expansão de contexto de uso pode ser observada na não tinham em 1968 apareceram na obra de Labov em 1982, Building on alternância entre os dois pronomes observe-se que em todos os exemplos Empirical Foundations, em que o autor revisita os problemas empíricos podemos substituir o pronome por apresentados em 1968. Ele afirma que, através de estudos sociolinguisti- cos realizados ao longo dos anos, foram identificadas cinco dimensões da Considerando os condicionadores da alternância entre esses pronomes, estudos sincrônicos apontam os grupos de fatores linguísticos "paralelismo estrutura social que se mostraram relevantes para os processos de mudança formal" e "saliência entre outros, como estatisticamente significativos linguística: classe ou status social, ou etnia, idade, sexo/gênero e loca- lidade. Sobre esse conjunto de dimensões, Labov atesta, por exemplo, que para a expressão pronominal de P4. Em relação ao primeiro grupo, o 'a mudanças linguísticas são, em geral, originadas em camadas sociais inter- na função de sujeito é favorecido em contextos com paralelismo, em que essa mediárias, ou seja, raramente se originam na classe mais alta ou na classe forma leva ao uso de outra forma igual, seja ela explicita ou nula gente mais baixa. Aponta-se, sobretudo, para a classe média baixa e os estratos estuda, 0 trabalha, e no final de semana a gente Por outro lado, 'a mais altos da classe trabalhadora como locus de origem da mudança. Além é desfavorecido em contexto sem paralelismo estudamos, 0 tra- disso, dentre esses grupos, os inovadores são pessoas com alto status local balhamos, e no final de semana a gente Quanto ao segundo grupo, e papel central nas relações da comunidade, com alta densidade de intera- a menor saliência fônica do verbo (fala/falamos) se correlaciona ao uso de ção social e maior número de contatos fora da vizinhança local. gente' como sujeito, ao passo que a maior saliência ao uso de Dos exemplos que viemos apresentando, depreende-se que, para res- Uma leitura dessa análise sob a ótica do problema do encaixamento ponder pergunta relacionada ao problema do encaixamento (como as permitiria a conclusão de que a variação na expressão pronominal de P4 danças estão encaixadas na estrutura linguistica e social?), é necessário está assim encaixada no sistema linguístico: o pronome gente' é en- perceber a relação entre os diferentes fenômenos em variação/mudança e a contrado com maior frequência em construções paralelas e quando estiver relação entre os fenômenos e seus fatores condicionadores internos e exter- associado a formas verbais cuja saliência é menor. Somente a partir da observação sistemática de diferentes fenômenosPARA A da variação mudança variáveis e de diferentes condicionadores atuando sobre um mesmo da regularidade mecânica que a unidade da mu- meno é que poderemos avaliar como uma mudança se encaixa na estrutura dança é o condicionado por fatores fonéticos. Todas as palavras linguística e na social. que contenham determinado som são atingidas do mesmo modo e ao mesmo Nesse sentido, as mudanças seriam foneticamente 3.3 0 problema da transição graduais e lexicalmente princípio da difusão lexical pressupõe que a unidade da mudança é Este problema envolve a transmissão e a incrementação de uma a palavra e não o som. Nesse caso, o modelo prevê que as mudanças forma A transição diz respeito à maneira como uma mudança pro- sonoras sejam foneticamente abruptas, mas o léxico vai ser atingido gride ao longo de sucessivas gerações, e a incrementação é o mecanismo gradualmente: primeiro um item (ou classe de palavras), depois outro pelo qual a mudança avança. Com este problema procura-se compreen- e assim der como as formas em variação/mudança se propagam, passando de um estágio a outro, pela expansão dos contextos linguísticos de uso das for- Quanto ao princípio da regularidade mecânica, um bom exemplo é a mo- mas, pela sua transmissão entre gerações, pela sua difusão ao longo do notongação do ditongo decrescente [ow], como nas palavras roupa > tempo e entre grupos sociais. pouco > poco, trouxe > troxe, etc., pois não há restrições lexicais que A troca de uma forma por outra pode ocorrer entre grupos impeçam essa mudança. Já o da difusão lexical pode ser ilustrado de faixas etárias diferentes e entre comunidades diferentes, e o caminho atra- pela queda do [r]. Pela frequência de uso, pode-se imaginar que, com relação à do qual uma forma é substituida por outra depende de pressão queda do os infinitivos (andar > andá, comer partir parti) foram estrutural e/ou utilidade funcional. importante ressaltar, ainda, que a carac- as formas atingidas primeiramente na língua, seguidos de nomes derivados mais evidente da transição é o fato de a mudança não ser discreta, (namorador namorado) e nomes simples (doutor > douto, mar > Nesse isto é, ela se dá de forma contínua: as formas antigas não são abruptamente caso, a mudança atinge gradualmente categorias pelas novas, mas há fases intermediárias em que as variantes de TRANSMISSÃO DA DE UMA GERAÇÃO A OUTRA um fenômeno variável coexistem e concorrem, diminuindo aos poucos o uso de uma variante em relação a outra, até que a mudança se complete. A transmissão está diretamente implicada na aquisição da linguagem. Vejamos algumas situações que ilustram estágios do processo de mu- Nesse sentido, estudos apontam para a seguinte condição geral: as crianças dança de diferentes naturezas envolvidos no problema da transição. adquirem o vernáculo (isto é, a fala espontânea) diferentemente de seus e sofrem influência direta dos pares pré-adolescentes, provocando EXPANSÃO DOS CONTEXTOS LINGUÍSTICOS DE USO DA uma reorganização vernacular que dura até que se dê a estabilidade do Durante o em que as formas variantes se em geral, sistema linguístico do indivíduo (mais ou menos na adolescência). Esse os contextos linguísticos de uso de uma das formas em relação a outra vão processo segue a mesma direção a cada geração. Nesse caso, é natural e se expandindo gradativamente, rompendo barreiras ou restrições esperado que os vernáculos de pais e filhos apresentem diferenças. cas, espalhando-se de um contexto a outro como uma onda. Segundo a hipótese "clássica" sobre a mudança linguística na sincro- Esse tipo de expansão remonta a dois principios opostos de mudança nia, conhecida como mudança em tempo aparente, cada pessoa preserva linguística: o de regularidade mecânica (hipótese dos neogramáticos) e o durante a vida o sistema vernacular que foi adquirido durante seus primei- de difusão lexical (hipótese de Wang e Cheng): ros anos de formação até a puberdade (de 5 a 15 anos, aproximadamente). Assim, na maturidade e mesmo quando envelhecemos, em geral nossa fala 84 85A da variação e mudança reflete o vernáculo desses anos Dessa forma, podemos perceber É importante ressaltar, entretanto, que um resultado como esse, que indícios de mudança linguística ao comparar uma geração a outra. Da ob- leva em consideração a faixa etária, é normalmente interpretado como um servação sincrônica de faixas etárias diferentes, pode-se ver, por exemplo, indicativo de mudança. Para que uma mudança seja efetivamente atestada, quais as mudanças linguísticas que estão em curso (ou em progresso). estudos em tempo aparente são em geral complementados com estudos de A mudança em tempo aparente pode ser identificada em trabalhos mudança em tempo real, que ainda veremos neste capítulo. empíricos pelo controle da variável "faixa num recorte transversal de uma amostra sincrônica, quando se observa uma distribuição gradativa Mudança no e mudança na comunidade das diferentes formas linguísticas em variação correlacionadas com as su- Em pesquisas que levam em consideração o condicio- cessivas faixas etárias da população. Esse tipo de mudança pode ser mais nador "faixa duas dimensões da mudança devem ser bem visualizado na Tabela que representa a variação na realização do consideradas: a mudança no e a mudança na comu- fonema seguido de /i/ contexto sujeito à palatalização em amostra de nidade. desejável que um estudo possa responder se está ha- fala de informantes de Florianópolis de etnia vendo mudança nessas duas dimensões, em apenas uma delas, ou mesmo em A relação entre mudança no indivi- Tabela 3: Percentual de palatalização do em Florianópolis, duo e mudança na comunidade ainda não está plenamente ex- segundo a faixa etária (Pagotto, 2001: 317). plicada. Atualmente, segundo Anthony Naro (2008), há duas posições teóricas que se a dar conta dessa relação. Palatalização do A primeira delas é a que vimos há pouco: a hipótese Faixa etária dos falantes [t]] sica", que é assumida pelos que acreditam que o processo de 13 a 23 anos 42% 29% 30% aquisição da linguagem se encerra mais ou menos na puberda- 25 a 50 anos 66% 18% 17% de, e que a partir desse momento o do individuo fica Acima de 50 anos 69% 19% 12% basicamente estável ou seja, o indivíduo não muda sua no decorrer dos anos. Nesse caso, adultos Nota-se que cada uma das três variantes apresenta uma distribuição estariam refletindo o estado da lingua adquirida quando tinham percentual gradativa no que se refere à faixa etária dos falantes. Enquanto a cerca de 15 anos de Assim sendo, a fala de uma pessoa de variante conservadora [t] é mais frequente na fala dos informantes mais ve- 70 anos estaria refletindo a fala usada 55 anos Ao compa- caindo gradualmente pela faixa intermediária até a mais jovem, as va- rar a fala desse adulto de 70 anos e a fala de um jovem que nos riantes inovadoras [ts] e apresentam um comportamento contrário: são dias atuais tem 15 anos de idade, podemos dizer que estamos mais frequentes na fala dos mais jovens, decrescendo na dos mais velhos. enxergando uma mudança em tempo aparente. A mudança pode Observa-se, pois, um aumento regular e progressivo no uso das variantes ser atestada, nesse caso, na comparação entre as diferentes fai- xas etárias e não na fala de um mesmo Temos, então, inovadoras [ts] e diretamente correlacionado ao decréscimo da faixa variação na comunidade e estabilidade no individuo. As gírias etária, o que caracteriza um indicio de mudança em curso na sincronia, ou (antigas e novas) são exemplos de mudança em tempo aparente. seja, de mudança em tempo aparente. Por outro lado, além de a fala do permanecer estável, a A possibilidade de captar empiricamente uma mudança em curso comunidade também pode refletir essa é um importante pressuposto teórico de WLH, pois se ao postulado A segunda resposta é que a falada pelo saussureano de que a mudança só poderia ser verificada diacronicamente. pode mudar no decorrer dos Naro mostra que nem toda Além disso, reafirma o caráter heterogêneo e ordenado do sistema variação na fala representa mudança em tico visto sincronicamente em evolução. Existem casos em que o uso linguístico diferenciado pelas faixas 86 87PARA A teoria da variação mudança etárias não revela mudança, mas variação estável. Essa variação Gráfico 3: Frequência de preenchimento pronominal pode ser observada, em quando jovens e velhos apresen- (adaptado de Tarallo, 1985: 140). tam o mesmo comportamento linguístico, e esse comportamento 120 se contrasta com o exibido pela população de meia idade, prin- cipalmente pela população que estiver no mercado de trabalho. 100 Esta costuma usar uma linguagem mais monitorada, mais con- 80 dizente com as variedades Isso significa dizer que os in- Sujeito preenchido podem mudar sua lingua no decorrer dos anos, e esse 60 comportamento pode se mostrar estável na comunidade. Nesse Objeto direto caso, o muda seu comportamento linguístico durante a 40 preenchido sua vida, mas a comunidade à qual pertence permanece estável. 20 Alguns estudos sobre a concordância verbal e nominal têm ates- tado esse processo. Por outro lado, além de a fala do indivíduo o mudar, a comunidade também pode refletir essa 1725 1775 1825 1880 1981 Em sintese Gráfico 3 mostra que o percentual de sujeito preenchido, que ficava A correlação entre faixa etária e variação/mudança lin- na faixa aproximada de 20% no século XVIII (1725 e 1775) e no do guistica no e na comunidade pode revelar os se- século XIX (1825), sobe para 32,7% no final do século XIX (1880) e, no final guintes processos: do século (1981), chega a Quanto ao preenchimento do objeto a. A fala do permanece estável e a comunidade muda; direto, o gráfico mostra justamente o contrário: de 1725 a 1825, o objeto é b. A fala do permanece estável e a comunidade preferencialmente preenchido (acima de em 1880, o preenchimento também permanece cai para 60,2% e, em cai ainda mais, chegando a uma faixa inferior c. A fala do indivíduo muda e a comunidade permanece estável; a Ambos os fenômenos evidenciam, portanto, uma mudança em pro- d. A fala do muda e a comunidade também muda. gresso ao longo do tempo, mas em direções opostas: enquanto a posição do sujeito vai ficando cada vez mais preenchida, a posição do objeto vai ficando cada vez mais DIFUSÃO DA EM TEMPO REAL Um estudo em tempo real fornece evidências mais robustas de um Diferentemente da mudança em tempo aparente, que é observada processo de mudança do que um estudo em tempo aparente. Enquanto o pelo comportamento linguístico de gerações distintas num mesmo interva- último oferece de mudança, o primeiro permite que se verifiquem lo de tempo (abordagem sincrônica), a mudança em tempo real é captada estágios mais ou menos avançados desse processo. Entretanto, estudos em pelo comportamento linguístico retratado ao longo de diferentes tempo real requerem a análise de dados diacrônicos, normalmente de tex- (abordagem diacrônica). tos escritos, que nem sempre são encontrados facilmente, ao passo que es- Vejamos um caso concreto de mudança que se verifica na passagem tudos em tempo aparente se beneficiam de dados sincrônicos vernaculares de um a outro. Gráfico 3 mostra resultados do comportamento mais prontamente disponíveis, sobretudo aqueles provenientes de bancos de dois fenômenos variáveis, "realização do sujeito pronominal" e "reali- de dados organizados para esse fim. zação do objeto direto pronominal (ou ao longo dos séculos XVIII, XIX e no português do Brasil. 88 89PARA CONHECER A teoria da variação mudança DIFUSÃO DA DE UM GRUPO SOCIAL A OUTRO Com relação à difusão da mudança de uma localidade a outra, há mais chances de propagação de formas novas quando o número populacio- Por grupo social entendemos aqui tanto aqueles que constituem uma nal das localidades é expressivo, quando são geograficamente próximas e dada comunidade de fala como os que se distribuem geograficamente em quando há densidade de interações verbais mediante contato. Vale lembrar, localidades Para explicar a transição na estrutura social, é necessário considerar as porém, que as localidades em contato não mantêm uma uniformidade de direções das mudanças no que concerne às características sociais dos falan- comportamento. Na região Sul, por exemplo, os três estados apresentam tes e ao valor atrelado formas em variação. Formas de maior um comportamento linguístico diferenciado em relação ao uso dos pro- na sociedade costumam agir como uma espécie de acele- nomes de P2 e enquanto no Rio Grande do Sul e em Santa rando a difusão da mudança. Como elas geralmente fazem parte do Catarina predomina o uso de 'tu', no Paraná o uso de é praticamente rio linguístico de indivíduos pertencentes a classes dominantes, as mudanças Observa-se que o pronome atinge a fala catarinense e nesse caso se dão de cima para Um exemplo de mudança desse tipo com mais e menos intensidade, respectivamente. Como nos lembra é a difusão da palatalização do /s/ na fala carioca, que alguns estudiosos atri- Faraco (2005: "[...] a difusão da mudança, tanto no interior da lingua, buem à influência da fala trazida de Portugal pela família real no século quanto no espectro social e no espaço não se dá Quando a nova forma se expande na lingua a partir da fala vernacular, te, mas em ritmos e direções temos o tipo de mudança identificado como de baixo para Nesse Para responder à principal questão do problema da transição (como as caso, a forma não carrega estigma na sociedade e por vezes vem associada mudanças passam de um estágio a o pesquisador precisa estar atento a traços identitários do grupo. O pronome gente' ilustra esse tipo de mu- aos estágios de natureza linguística e extralinguística envolvidos no processo dança. De uso inicialmente predominante na fala casual, esse pronome tem de variação/mudança. Com relação aos estágios de natureza vimos se difundido para contextos de maior formalidade, aparecendo inclusive já o caso da queda do final, que se difunde de um contexto a outro, afetando em certos gêneros de primeiro palavras da classe dos verbos e passando sucessivamente a afetar palavras de outras classes. No que se refere aos estágios de natureza extra- Algumas características da mudança linguística, observamos que a mudança se propaga paulatinamente entre um de cima para baixo: grupo social e outro (como no caso da variação entre e na região a. Apresenta um nível relativamente alto de consciência Sul), entre pessoas de uma faixa etária e outra (como no caso da palatalização b. É introduzida pela classe dominante; do [t] em e entre um período de tempo e outro (como nos casos c. É emprestada de comunidades de fala de maior do preenchimento do sujeito e do objeto pronominal no do Brasil). d. Aparece primeiro em estilo de fala mais cuidada, não Algumas características da mudança 3.4 0 problema da avaliação de baixo para cima: Este problema diz respeito à atitude subjetiva e consciente do falante a. Tem abaixo do nível de em relação às formas linguísticas em variação/mudança. A atitude do fa- b. Pode ser introduzida por qualquer classe social; c. É motivada por fatores internos e/ou por traços identitários lante se manifesta em dois um relacionado à avaliação linguistica e do grupo social; outro à avaliação social. A avaliação linguística das formas variantes está d. Inicia no associada à eficiência comunicativa na interação social, isto à utilidade funcional das formas. Os sistemas linguísticos em variação/mudança dis- 90 91PARA Sociolinguistica A da variação mudança ponibilizam aos falantes um leque de possibilidades para expressar uma consciência social é um fator determinante na mudança linguística: a atitude dada informação e os falantes têm competên- social positiva ou negativa em relação às formas que estão em variação/mu- cia para compreender e usar as diferentes variantes de acordo com sua dança pode ser medida a partir de respostas fornecidas por individuos em tes- significação social, com o contexto e com as do interlocutor. tes de atitude/avaliação acerca de diferentes usos linguísticos na comunidade. Pensemos, como exemplo, na construção disponível no sistema É comum observarmos uma correlação entre uso linguístico e valor linguístico do português do Supondo-se que a construção faça parte social nos seguintes termos: da gramática de uma comunidade de fala como expressão de futuridade (as- 1. Variantes de maior estão associadas, quase sempre, a estilos de fala sim como sair' e ela será interpretada como uma forma mais formais, ao passo que variantes de menor se associam a estilos perifrástica composta por um verbo auxiliar (vou) mais um verbo pleno (ir). de fala mais informais (ao Já se a construção não for entendida como perifrase que expressa futuridade 2. Variantes mais conservadoras em geral, mais prestigiadas) são usadas na gramática de outra comunidade, e sim como resultante do uso redundante majoritariamente no trabalho, enquanto as mais inovadoras são preferidas na do verbo pleno de movimento ela poderá ser rejeitada. A interação com os amigos (e familiares) e nas brincadeiras. aceitação ou a rejeição dessa construção depende, entre outros fatores, de uma avaliação linguística a respeito de seu significado referencial/representacional, A partir dessa correlação, é possível apontar condições favoráveis e o que se reflete diretamente no nível de eficiência comunicativa da interlocu- desfavoráveis à mudança linguística: são favoráveis quando a forma inova- ção. A avaliação linguística é, geralmente, permeada por uma avaliação social. dora é prestigiada na sociedade e desfavoráveis quando a forma inovadora A avaliação social das formas variantes é observada no comporta- é estigmatizada, por exemplo. mento do grupo: os membros de uma comunidade de fala atribuem signi- Para responder à principal questão do problema da avaliação (como as ficado social às formas linguísticas. Conforme vimos na seção sobre co- mudanças podem ser avaliadas em termos de seus efeitos sobre a estrutura munidade de os indivíduos partilham atitudes em relação à língua, sobre a eficiência comunicativa e sobre o amplo espectro de tendendo a convergir em sua É no âmbito da avaliação social fatores não representacionais envolvidos no o pesquisador deve ter que se inserem as noções de indicador, marcador e estereótipo, que podem em mente que a atitude do falante tem um caráter individual relacionado ser correlacionadas a diferentes estágios de uma mudança linguistica. a suas escolhas nas situações de comunicação e também social relacio- início de uma mudança se situa, muitas vezes, abaixo do nível de consci- nado às reações do grupo frente aos fenômenos medida que social, portanto não sofre avaliação do grupo. Num estágio posterior dada forma linguística passa a ser considerada pouco eficaz do ponto de de mudança, as formas linguísticas começam a ser motivadas por fatores vista comunicativo e/ou desprestigiada no grupo, pode cair em desuso; em sociais e/ou Por fim, as formas podem vir a receber um reco- contrapartida, se dada forma vai ganhando carga funcional nhecimento social consciente e explícito é nesse que aparecem os sua ocorrência pode ser intensificada e seu uso generalizado. Tanto estereótipos, normalmente associados a reações negativas (tanto em re- em um caso como no outro há reflexos na estrutura e social bem lação à forma como em relação ao indivíduo que a usa) e a correções na como na função representacional, responsável pela eficiência comunicativa. direção da forma mais conservadora. Em geral, a mudança se inicia em um determinado grupo associada a certo valor social e, gra- 3.5 0 problema da implementação dativamente, se expande para outros grupos até se completar. É importante ressaltar que o surgimento e a intensificação de reações Sabe-se que o processo global de mudança linguística pode envolver negativas podem retardar ou até mesmo impedir a mudança Isso motivações e restrições tanto da sociedade quanto da estrutura da lingua. significa que os falantes podem acelerar ou reter processos de mudança numa Com relação a esse problema, é interessante investigar a que fatores se comunidade, à medida que se identificam com eles ou os rejeitam. nivel de pode atribuir a implementação (ou atuação) da mudança e por que ela ocor- 92 93PARA Sociolinguistica A da variação e re em determinados contextos linguísticos ou em determinados lugares. linguísticas do vernáculo local até que assumam algum papel importante na Em suma, procura-se entender como a estrutura linguística de uma comu- rede socioeconômica daquela O que os estudos apontam é que, nidade se transforma no curso do tempo. para um melhor entendimento das razões pelas quais uma mudança ocorre Estudos mostram que podemos explicar a implementação a partir de num dado tempo e lugar e não em outros, não basta observar apenas a resultados referentes a condicionadores linguísticos e sociais, relacionan- mica social de grupos locais; explicações de ordem devem do-a ao encaixamento linguístico e social. À medida que identificamos os ser buscadas no estudo da estrutura social mais ampla, considerando fatores fatores que agem sobre a mudança, podemos dar uma explicação sobre as como identidade, configuração da hierarquia social, entre causas que a desencadeiam e sobre a forma como ela vai se im- Para responder as questões norteadoras desse problema (a que fatores plementando nos diferentes contextos estruturais e nos diferentes estratos se pode atribuir a implementação das mudanças?; por que uma sociais. É provável, contudo, que explicações mais consistentes a respei- ocorre em uma lingua em uma época e não em o pesquisador deve to da implementação só possam ser fornecidas depois do fato ocorrido, a estar atento à necessidade de identificar condições para a mudança posteriori quando a mudança for completada. Nesse caso, há em geral a (problema da os fatores condicionadores e o encaixamento estru- perda da significação social que a forma tural e social do fenômeno em variação/mudança (problema do encaixamen- Quanto à estrutura linguística, tomemos novamente o exemplo da re- to) e os estágios de transmissão e incrementação (problema da transição) alização do sujeito pronominal, um fenômeno de mudança em curso no atravessados pelas atitudes subjetivas dos falantes (problema da avaliação). português do Brasil rumo ao preenchimento gradativo do sujeito. Análises Deve ter em mente, ainda, que as mudanças na são sendo variacionistas têm evidenciado que a implementação da variante inovado- possível captá-las em etapas mais ou menos avançadas, e que uma mudança ra, ou seja, do sujeito expresso, é dependente de grupos de fatores como supostamente completada pode se constituir também em gatilho para o traço [+/- e acessibilidade do referente. de uma nova mudança. Nesse sentido, admitindo a dificuldade em tratar de traço [+humano] condiciona fortemente o preenchimento do su- mudanças implementadas, Labov propõe como alternativa que o problema jeito, enquanto o traço [-humano] mantém-se ainda como contexto de re- da implementação seja abordado através de sua contraparte aquilo que o sistência à inovação, ou seja, é o espaço preferencial do sujeito Com autor chamou, anos depois, em de "problema da cujo relação à acessibilidade, quando o antecedente correferencial (isto é, o ele- foco principal é a mudança em curso, e não a mudança completada. mento anterior cujo referente é o mesmo do sujeito) estiver em posição sintática diferente da de sujeito ou quando houver material interveniente Vimos nesta seção que a TVM oferece ferramentas para guiar entre um referente e outro que possa provocar ambiguidade na interpre- uma pesquisa empirica na busca de explicações acerca de como tação referencial, a tendência é de preenchimento do sujeito pronominal. a estrutura de uma comunidade de fala se transforma Desse modo, do ponto de vista linguístico, pode-se considerar que o ponto no curso do tempo de tal modo que tanto a língua quanto a de partida da implementação do preenchimento do sujeito no português do comunidade permaneçam sistematicamente ordenadas. Essas Brasil são os contextos de traço [+humano] do referente e de menor aces- ferramentas assumem a forma de "problemas" que orientam o pesquisador em suas investigações e podem ser sintetizadas sibilidade ao nos tópicos a seguir: No que diz respeito à estrutura social, como já vimos, numa comunida- de de fala grupos de podem exercer papel na emergência e acelera- Busca de tendências gerais a partir da identificação de restrições sobre fenômenos em variação/mudança. ção de uma mudança, ao passo que novos grupos que se integram à comu- Investigação do encaixamento linguístico e social de nidade (em casos de migração, por exemplo) não interferem em mudanças fenômenos em variação/mudança. 94 95PARA A teoria da variação e mudança Busca de estágios de transmissão e incrementação de correta para se dizer cada coisa, e tudo está descrito nas A fenômenos em variação/mudança. pesquisa dele em portanto, seria direcionada a des- Identificação da avaliação e social de fenômenos cobrir o que faz as pessoas se equivocarem tanto e a desenvolver um em plano de ação para que todos falassem corretamente. Averiguação da implementação de fenômenos em variação/ Explique para o seu amigo que, ao contrário do que ele pensa, a Socio- mudança. linguística não costuma observar a dessa forma e mostre o que, então, o sociolinguista faz com relação a essas diferenças que percebe- mos na Lance mão dos conceitos teóricos que lhe foram apresen- tados neste capítulo e exemplos concretos de estudos Leituras complementares: clássico Fundamentos para uma teoria da mudança linguisti- 2. Weinreich, Labov e Herzog, no texto clássico Fundamentos empiricos ca, de Weinreich, Labov e Herzog (2006 estabelece as bases teóri- para uma teoria da mudança iniciam suas reflexões acerca co-metodológicas do que se conhece hoje como da mudança com a seguinte questão: nista. Por seu caráter fundador e por levantar temas ainda atuais, sua leitura Afinal, se uma língua tem de ser estruturada, a fim de funcionar é indispensável que buscam um contato maior com a área. eficientemente, como é que as pessoas continuam a falar enquanto Em Preconceito linguístico: o que é, como se faz, Marcos Bagno (1999) a muda, isto enquanto passa por de menor siste- discute alguns dos mitos presentes no senso comum a respeito da lingua em maticidade? (Weinreich, Labov e Herzog, 2006 [1968]: 35) nosso país e sugere caminhos para que se rompa o circulo vicioso composto por ensino tradicional, gramáticas tradicionais e livros didáticos que ajuda a a. Como os autores respondem a essa pergunta? b. A resposta oferecida pelos autores rompe com alguns pressupostos perpetuar o preconceito linguístico. teóricos do estruturalismo saussuriano. Quais são eles? Em Mudança linguistica em tempo real, organizado por Maria da Concei- ção Paiva e Maria Eugênia L. Duarte analisam-se distintos nos de mudança no português falado no Brasil, como a monotongação de [ey], a concordância de número, o uso do sujeito pronominal, entre outros, na perspectiva da mudança em tempo real de curta duração. Exercícios 1. Um amigo seu sabe que você está estudando Sociolinguística e diz que tem um grande interesse pela área e que sempre se admirou com o fato de as pessoas falarem de modos tão motivo do interesse, nas palavras de seu amigo, é que ele não consegue entender "como as pessoas conseguem errar tanto quando falam Segundo ele, as regras da são claras, de existe uma forma 96 97METODOLOGIA DA PESQUISA SOCIOLINGUÍSTICA Objetivos gerais do capítulo fazer passos iniciais - busca de informantes e constituição de amostras; Projeto de pesquisa definição do envelope de variação, formulação de questões e hipóteses, definição de grupos de fatores, coleta e codifica- Resultado: descrição do funcionamento de um fenômeno em variação no português do 1. COLOCANDO A MÃO NA MASSA: 0 FAZER EMPÍRICO Ao apresentarmos os conceitos de comunidade de fala, redes sociais e comunidade de práticas no capítulo anterior, vimos que não é propria- mente o individuo que interessa ao pesquisador sociolinguista, mas o gru- po social no qual ele vive e com o qual ele interage, de modo que o locus para a busca de dados linguísticos é a comunidade. A língua deve, pois, ser estudada em seu contexto social. Em suas pesquisas, Labov opera basicamente com a noção de comu- nidade de fala, derivando-se dai a tradição de considerarmos essa noção como norteadora da constituição de bancos de dados para realização de pesquisas São, pois, as metodologias de pesquisa centra- das nas comunidades de fala que vamos priorizar neste livro. Nesta seção, 99Metodologia da pesquisa sociolinguistica vamos abordar os seguintes seleção dos informantes; coleta de caso dos estereótipos possa haver algum grau de manipulação consciente). No dados; identificação do envelope de levantamento de questões e que diz respeito à estratificação da amostra, é preciso considerar as dimensões hipóteses; e codificação de dados e análise estatística. sociais relevantes para a variação, pois elas vão se refletir no tamanho e na constituição da amostra, isto na constituição das células Em busca dos informantes Entendemos por "célula social" um conjunto de individuos agrupados 1.1 pelas mesmas sociais relevantes para a de fenômenos Como já mencionamos, o que interessa ao sociolinguista é a em de variação e mudança As caracteristicas sociais a serem contem- uso nas diversas situações comunicativas, especialmente na fala cotidiana; pladas na montagem das células não são aleatórias, mas seguem os critérios mais do que o individuo, o que interessa é o grupo social. Mas, obviamente, de estratificação social que têm se mostrado relevantes nos estudos sociolin- só podemos chegar ao grupo através do contato com os os in- guísticos, a saber, idade, escolaridade, sexo, nível socioeconômico, além de formantes que nos fornecerão os Tendo em vista que comunidades de outros fatores extralinguísticos como região de etnia etc. fala, em geral, são compostas por centenas ou mesmo milhões de recomendado, em termos do número ideal de informantes, é de não temos outra opção a não ser coletar os dados referentes ao comportamento cinco por célula, de modo a garantir a representatividade da amostra; linguístico de uma comunidade apenas a partir de alguns de seus componentes; contudo, nem sempre alcançamos a quantidade de cinco informantes por célula social. Há bancos de dados linguísticos com quatro informantes como vamos ver, isso não chega a ser uma limitação à pesquisa, pois na ver- dade uma quantidade pequena mas representativa da comunidade é tudo por célula, e mesmo com Quanto menor o número de informantes o que precisamos. É muito importante que os informantes selecionados para por célula, mais cautela precisamos tomar na análise dos resultados esta- tísticos concernentes aos fatores sociais. serem entrevistados sejam representativos da comunidade de fala a que perten- Vejamos como funciona essa Se vamos considerar as cem. Vale lembrar, ainda, que, como toda pesquisa que envolve informantes, a variáveis sociais "idade" (três faixas etárias) e "escolari- pesquisa sociolinguistica também está sujeita à aprovação prévia pelo dade" (três por exemplo, podemos ter a seguinte distribuição dos de Ética da instituição à qual se vincula o pesquisador. informantes por células sociais: Alguns procedimentos devem ser seguidos quanto à definição do uni- verso da amostra e ao tamanho estratificação da amostra. Na definição do Quadro 1: Distribuição dos informantes (Total 90 universo da amostra, partimos do seguinte ponto: Qual a comunidade de fala que desejamos investigar? Trata-se de uma comunidade da zona urbana, da Escolaridade Até 4 anos De 5 a 8 anos De 9 a 11 anos Idade M F M F M F periferia ou da zona rural? Um grupo linguisticamente minoritário na região? a 24 anos 5 5 5 5 5 Uma comunidade Uma comunidade de pescadores? Uma resposta 25 a 49 anos 5 5 5 5 5 5 precisa a essas perguntas é pois a definição da comunidade de 5 5 5 5 5 5 fala a ser investigada vai se refletir na maneira de selecionar os Total 15 15 15 15 15 15 Quanto ao tamanho da amostra, as pesquisas têm apon- tado que não há necessidade de amostras tão grandes como as usadas em ou- À medida que aumentarmos ou diminuirmos as variáveis sociais con- tras pesquisas de natureza social (de intenções de voto, por exemplo) para se troladas, vai aumentar ou diminuir, proporcionalmente, o número de infor- analisar fenômenos variáveis, uma vez que o uso linguístico é mais homo- mantes de nossa pesquisa, em função do preenchimento das células sociais. gêneo do que o comportamento humano acerca de outros fatos, em virtude próximo passo é saber como localizar informantes com essas carac- de não estar tão sujeito à manipulação consciente (com a ressalva de que no A orientação é que a amostra seja (também chamada de 100 101PARA CON ECER Metodologia da pesquisa que vem a ser isso? Cada sujeito de uma população/comunida obter esses dados através da observação Labov apresenta uma de tem igual chance de ser escolhido para fazer parte da pesquisa trata-se de proposta para tentar neutralizar esse paradoxo, como veremos a seguir. uma amostra cujos resultados podem, depois, ser projetados A melhor forma de coletar bons dados que reflitam de forma fidedigna para a comunidade de fala como um todo. Parte-se, então, para uma loca- e em boa qualidade sonora o é a gravação de entrevistas indivi- lização aleatória dos informantes, desde que se contemplem as caracteris- duais, procurando sempre minimizar a interferência de externos. No ticas sociais já definidas nas células. Uma busca pode ser feita decorrer da entrevista, os dados mais interessantes provêm de narrativas de a partir de listas telefônicas, catálogos de endereços, registros eleitorais, experiências Ao envolver o falante em tópicos que recriem emoções dados de censos, escolas, grêmios, associações de bairros etc. fortes vividas no passado (por exemplo, fazendo perguntas como "Você já pas- É recomendado que se utilize uma ficha social para cada informante, sou por uma situação em que correu risco de vida? Como o entrevista- registrando dados de identificação (local de nascimento e de residência, ida- dor faz com que o informante desvie a atenção de sua própria fala, deixando de, escolaridade, profissão e escolaridade dos pais etc.), informações relati- o emergir. falante deixa de prestar atenção no como diz para ficar vas ao contexto da entrevista (tais como descrição do local e do tipo de inte- atento a o que Outros desse tipo podem ser: "Conte um fato ração ou outras observações julgadas relevantes. (história) que tenha acontecido com você e que tenha sido muito engraçado (ou muito triste, ou muito constrangedor)..." nome que se dá a esse formato 1.2 À cata de dados específico de interação, cuja finalidade é a composição de um banco de dados para estudos sociolinguísticos, é entrevista sociolinguistica. As pesquisas sociolinguísticas são de base empirica, desenvolvidas a Um roteiro de entrevista sociolinguistica não se restringe, contudo, à partir de dados linguísticos efetivamente produzidos. Como já foi enfatiza- elicitação de narrativas de experiências pessoais. Os fenômenos variáveis do, as amostras mais representativas para esse tipo de pesquisa são as de fala que podem ser analisados são de diversos tipos, podendo envolver, por espontânea. Não dispomos, no entanto, de registros orais de épocas distan- exemplo, tempos e modos verbais, uso de operadores argumentativos, for- tes no tempo. Por isso, para pensarmos em termos de mudança linguística, mas de tratamento etc. problema é que dificilmente vamos encontrar ver- especialmente a partir de usos de séculos passados, precisamos consultar bos no tempo futuro, ou no modo subjuntivo, ou no modo imperativo em textos Como, então, coletar dados para pesquisa sociolinguística? relatos de fatos passados. Do mesmo modo, nesses relatos serão escassos os Que métodos podemos utilizar? É disso que tratamos nesta seção. operadores argumentativos e diferentes formas de tratamento usadas para se principal método para a investigação sociolinguística é, segundo dirigir ao interlocutor. Então, o pesquisador precisa estar atento para, de um Labov, a observação direta da falada em situações naturais de in- lado, obter dados vernaculares e, de outro, obter dados pertinentes ao estudo teração social face a face. Essa lingua é o vernáculo estilo em que o que deseja desenvolver. Por isso, é importante que se diversifiquem os esti- mínimo de monitoração ou atenção é dispensado à fala. É a língua que mulos oferecidos ao longo da entrevista. Nas entrevistas, além de estimular usamos em nossas casas, com nossos amigos, nas reuniões de lazer, longe narrativas, o entrevistador pode conduzir perguntas como: dos locais de trabalho, por exemplo, onde se requer uma fala mais cuidada. Fale sobre o local onde você mais gosta de ficar ou passear Mas como coletar o Como conseguir que os informantes falem que você acha sobre: a escola; relacionamentos afetivos (amizade, livremente em entrevistas gravadas? namoro...); pressões sociais (família, escola, igreja...); vocação; poli- Esse problema consiste no chamado paradoxo do observador: o ob- tica interna do país etc. Ou: fale sobre algo que lhe incomoda, ou pro- jetivo da pesquisa linguística na comunidade é verificar como as pessoas fa- voca, ou agrada. Ou: o que você faria se... lam quando não estão sendo sistematicamente observadas; mas só podemos que você sabe, ou gosta de fazer? Como se faz isso? (procedimentos). 102 103Metodologia da pesquisa Apresentamos, a seguir, alguns dados do projeto Varsul, Trecho com citação: para ilustrar tipos de sequências textuais presentes no corpus. Observe-se [...] eu não estava mais querendo saber de brincar as- que a transcrição é permeada de sinais e acompanhada de Nos tre- sim de ficar o tempo todo com as minhas Eu estava chos destacados, E e F significam entrevistador e falante, respectivamente; querendo fazer aquilo ali. Ai ela achou assim que não, que as (est) significa do representa pausa. gurias eram menorzinhas, não sei que podia me atrapa- e tal. Dai ela foi cortando tipo: "Não vão fazer aqui, não sei Ou então foi me botando na cabeça: olha Trechos de entrevistas sociolinguísticas só, tu já estás nessa idade, essas pirralhas ai atrás de ti todo Trecho argumentativo: tempo, não sei Aquelas Ai fui me desligando, [...] E: E que, que, como é que a senhora sente assim a e a minha família muito] principalmente, muito voltada cidade de Curitiba, a senhora gosta daqui? assim pro esporte, né? Então, nessa época, meus doze anos, F: Gosto, gosto, sempre gostei. Apesar que eu estava toda família começou a jogar né? achando agora Curitiba muito suja. E: Suja? Trecho com procedimentos: F: Suja. Curitiba é um cartão postal, é muito bonita, e agora está muito suja. Está suja e relaxada, mas isto acho que (descrição de passos necessários na realização de deter- o culpado mesmo é o governo pela falta de Porque você minadas tarefas) veja eu acho, eu sempre pego uma casa de uma família, eu [...] Mas, pode não/ se não quiser, também não faço uma comparação com o governo. Se numa casa não há precisa colocar que salada fica ótima do mesmo jeito sem sa- boa administração então [as] as coisas não vão bem. E assim lame... E tem o molho também pra salada que é: meia xica- é o governo, se não tem administração boa o país não pode ra de maionese... sabe? Tu pegas a maionesezinha, o suco de [né?] meio limão... pimenta e um pouquinho de açúcar... tá? Isso é o que vai. Trecho [...] Ai eu tava dormindo, tudo eu tava com uma dor Outro tópico que costuma ser explorado numa entrevista sociolin- de cabeça, a minha mãe saju pra pegar um óleo de ungir, guística, geralmente ao final, diz respeito a aspectos metalinguísticos. não e assim, na minha cabeça, orou, tudo. "Pelo Tem-se observado que, quando os informantes vão comentar sobre fatos amor de Deus, (est) que cure o meu filho, que tal." Ai chegou da própria sua fala se torna mais cuidada. De modo geral, assun- num dia pro outro eu [t-] fui dormir e curou, assim, passou a tos como relatos de experiências pessoais são os que mais propiciam a dor, passou a dor de cabeça assim, na hora. fala menos monitorada; por outro lado, perguntas que requerem a opinião do informante, e seu posicionamento mais comprometido, favorecem um Trecho maior monitoramento da fala. Também as perguntas de natureza metalin- [...] Bem, é assim: a diretoria é composta de seis pesso- guística acabam por ativar a atenção do falante sobre o como as coisas as: tem a presidente, a vice-presidente, a primeira secretária, a são Nesse bloco da entrevista, voltado a fatos linguísticos, podem segunda secretária, a primeira tesoureira, a segunda tesourei- emergir aspectos interessantes relacionados à Os informantes ra. Quer dizer que a presidente é eleita pelas sócias do Apos- tolado, que nós somos quase em né? podem identificar traços regionais e socioculturais, por exem- plo, caracterizadores de diferentes grupos: como veem ou percebem a fala 104 105Sociolinguistica Metodologia da pesquisa típica do carioca, do mineiro, do do da sua própria 8. Participa de algum grupo (futebol; de jovens; de idosos; a fala de pessoas urbanas ou de zonas rurais; a fala de mais e na na comunidade; na escola...)? Qual o seu/teu envolvimento com menos escolarizados etc. esse grupo? Um roteiro de entrevistas abrangente tem um papel importante tanto 9. Acha que o morador daqui fala diferente das pessoas de outros bairros, ou de para garantir diferentes tipos de assunto e, consequentemente, dados linguis- outras cidades, ou estados? ticos de natureza diversificada, como para uniformizar, em certa medida, os 10. Conhece y ou Z (informantes que já haviam sido ou viriam a ser entre- tipos de dados de vários informantes para comparação posterior, seja dentro vistados na localidade)? Qual é o de relacionamento entre de uma mesma comunidade, seja entre comunidades distintas. Cabe ao pes- Perguntas direcionadas a redes sociais estabelecidas na vida cotidiana quisador, porém, adaptar o roteiro de entrevista a cada grupo dos informantes colhem informações relevantes acerca de noções como Nas entrevistas sociolinguisticas, o entrevistador deve tentar: neutrali- mobilidade (grau de deslocamento dos e localismo (sentimen- zar a força inibidora de sua presença (já que ele é, normalmente, uma pessoa to do indivíduo em relação ao local em que vive) que podem interferir estranha à comunidade) e do gravador, mostrando-se interessado, de fato, nas significativamente nos usos linguísticos desses indivíduos. histórias que os informantes vão e realizar o mínimo de interferências Entrevistas sociolinguísticas também podem ser realizadas para o es- no momento em que o informante estiver discorrendo sobre os assuntos que tudo da variação entre individuos que compartilham práticas so- despertem o seu interesse. Tomando esses cuidados, o pesquisador estimula ciais ligadas ao processo de constituição de suas identidades, ou seja, sob o informante a "soltar" seu vernáculo e busca garantir textos com unidade o enfoque da noção de comunidades de prática, também já apresentada no discursiva e não fragmentados, ou, pelo menos, pouco fragmentados. No âmbito da Sociolinguística Laboviana, as entrevistas se constituem no me- capítulo anterior. Pressupõe-se que é através de práticas sociais que ocorre Ihor material de análise de fenômenos linguísticos em variação. a produção de significados sociais, não só compartilhados pelos membros do grupo, mas também difundidos para outros grupos na dinâmica de di- Ainda em se tratando de entrevistas, pesquisadores que abordam a ferentes espaços interacionais. Os significados sociais que constituem a questão das redes sociais, conceito que vimos no capítulo anterior, podem identidade dos membros das comunidades de prática se agregam também inserir no seu roteiro perguntas específicas para colher informações rele- à linguagem do grupo. Assim, do ponto de vista metodológico, podem-se vantes a essa abordagem, como sugerido a seguir. identificar diferentes grupos sociais e gravar entrevistas com os individuos 1. senhor(a)] mora aqui neste bairro há quanto tempo? que participam desses grupos: grupo de adolescentes da escola mem- 2. Gosta do lugar onde mora? Por É um bom lugar para se criar os filhos? bros de determinada associação de moradores; integrantes da de 3. Trocaria este bairro por outro desta cidade? Qual? Por pescadores de certo local; e assim por 4. [Se morador de área não urbana) que acha das pessoas que moram no Um bom exemplo de trabalho que focaliza comunidade de prática centro? Gostaria de morar no centro? é o realizado por Penelope Eckert (1996). A autora estudou a realização 5. [Se morador de área que acha das pessoas que moram nas localida- variável do ditongo /ay/, que pode ter a semivogal eliminada, ou a vo- des/bairros da periferia (tais como...)? Gostaria de morar num desses lugares? gal alçada no inglés, mostrando que suas diferentes realizações veiculam 6. Sobre encontros em família: Costumam se encontrar frequentemente? Conte valores sociais distintos de acordo com valores socioculturais do grupo. como são alguns desses encontros. Eckert fez um estudo etnográfico com 49 adolescentes americanos brancos 7. Tem muitos amigos aqui no bairro? Eles moram aqui perto? se encon- de uma escola pública de de Detroit. Ela analisou dados de fala tram com frequência? de dois grupos de um mesmo nível de escolaridade, identificados como 106 107PARA CONHECER Metodologia da pesquisa sociolinguistica jocks e controlando em cada grupo o sexo dos informantes. Ela A variação intrafalante corresponde à variação na fala de um mesmo in- acompanhava os adolescentes pelos arredores da escola, no pátio, na cafe- já a variação interfalante corresponde à variação linguística entre teria, em atividades extracurriculares etc., gravando suas conversas sobre e grupos de A primeira costuma ser associada à va- diversos assuntos: problemas escolares, problemas com amigos, amizades riação estilística e a à chamada variação social. e inimizades, diversões, cigarro e bebida, entre outros. Essa pesquisa ilus- Entre as premissas metodológicas depreendidas por Labov a partir de tra a abordagem que Eckert define como a "terceira onda" dos estudos pesquisas de campo, encontramos as seguintes: como apontado no capítulo precedente. não existe falante de estilo Os grupos apresentavam valores distintos. Os jocks eram ca- os estilos podem ser dispostos ao longo de uma dimensão medida racterizados por incorporar uma cultura de classe média, manter redes sociais pelo grau de atenção dispensado à fala (monitoramento); no âmbito da escola, aceitar as normas institucionais e permanecer no subúr- ao longo da entrevista, o falante alterna estilos de fala mais formal e bio por considerar a área urbana perigosa, embora desejassem se afastar dali menos futuramente. Os burnouts eram caracterizados por incorporar uma cultura de é no vernáculo que encontramos os dados mais sistemáticos para a classe trabalhadora, manter frouxas relações no universo escolar, resistir às análise da estrutura linguística. normas institucionais e ultrapassar os limites do em direção à área urbana, embora se mostrassem bastante ligados a sua comunidade de origem. Para captar níveis distribuidos num gradiente, Labov de- Os resultados do estudo de Eckert sobre a realização do ditongo senvolve dois modelos de análise: um que envolve a aplicação de diferen- mostraram que as variantes carregam valores sociais distintos, especial- tes testes durante a entrevista, outro chamado de árvore de decisão. Co- mente entre as meninas dos dois A autora explica esse resultado mentaremos brevemente essas abordagens a seguir. pela sujeição das meninas do grupo jock às normas locais socialmente acei- primeiro modelo segmenta a entrevista em cinco tipos de estilos contex- tas em termos de comportamento feminino, e pela rejeição das do grupo tuais, num continum de graus de atenção ou de monitoramento: burnouts a essas mesmas No caso, os jovens burnouts estariam fala casual > fala monitorada > leitura texto > leitura listas de palavras leitura pares construindo um significado social dentro da comunidade de práticas à qual estilo estilo [+tenso/formal] pertencem: um conjunto de pessoas agregadas em torno de um objetivo comum, compartilhando não apenas crenças, valores e modos de agir, mas Os contextos são assim definidos: também modos de falar. Dessa forma, o uso das variáveis linguísticas é vis- fala casual trechos de fala espontânea que escapam à entrevista for- to como parte da prática das comunidades, adquirindo ai significado social. Como já vimos nos capítulos precedentes, os fenômenos variáveis como interrupções do informante para atender telefone, servir um café, dirigir-se a uma terceira trechos em que o informan- podem ser condicionados por fatores linguísticos e/ou Entre os condicionadores externos à temos os grupos de fatores te divaga, desviando o foco da entrevista para seus próprios interes- sociais que estratificam o falante (como observado no Quadro da seção relatos de episódios que envolvem risco de vida; fala monitorada fala mais cuidada, correspondente à situação predo- anterior), fatores associados a redes sociais ou a comunidade de práticas, e também fatores de natureza E é da variação estilistica no âmbi- minante ao longo da entrevista; leitura de texto trecho lido pelo informante, que apresenta as to da entrevista sociolinguística que vamos tratar agora. veis fonético-fonológicas de interesse do pesquisador em Antes de apresentarmos algumas premissas metodológicas, convém fazer uma distinção entre variação intrafalante e variação interfalante. diferentes parágrafos; 108 109