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Resposta à acusação criminal contra Wilson (art. 147‑A — perseguição). Narra que deu carona a um jovem, houve discussão por mensagem e encontro no Aeroporto de Viracopos; a vítima e o pai dispensaram a representação. Pede rejeição da denúncia e absolvição por decadência/ausência de representação.

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AO JUÍZO DA 1ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE CAMPINAS/SÃO PAULO
 
 
 
AUTOS Nº: ...
 
 
 
 
 
 
WILSON, devidamente qualificado nos autos em epígrafe, vem respeitosamente à presença de Vossa Excelência, tempestivamente, apresentar RESPOSTA À ACUSAÇÃO, com fundamento legal nos artigos 369, caput e 396-A, ambos do Código de Processo Penal, aduzindo os seguintes argumentos de fato e de direito
 
 
 
 
I – DOS FATOS
 No dia 20 de fevereiro de 2022, Wilson deu carona para seu amigo Roberto, adolescente com 17 anos de idade. Roberto estava indo até o Aeroporto de Viracopos, Campinas/SP, onde trabalha como estagiário no setor de informações de uma companhia aérea. Quando chegaram ao aeroporto, Wilson visualizou uma mensagem de Maria, sua namorada, no aparelho celular de Roberto, que estava ao alcance da sua visão. Posto isso, iniciou uma discussão com Roberto, encerrando a relação de amizade.
Ocorre que no dia seguinte, Roberto avistou Wilson no aeroporto, em frente ao local onde exercia o trabalho, ficando assustado, porque considerou que ele o estaria perseguindo. Diante disso, acompanhado do pai, Roberto foi até a Delegacia de Polícia, foi ouvido pela autoridade policial, e confirmou ter avistado Wilson somente naquele dia no aeroporto, ressaltando que se sentiu perturbado com a sua presença, mas que não pretendia o prosseguimento de procedimento criminal, tendo o seu pai, representante legal, concordado com a decisão do filho.
Após isso, Wilson compareceu para prestar depoimento na Delegacia. Durante o seu interrogatório, disse que esteve uma única vez no aeroporto no dia apontado por Roberto, e que olhou para o ex-amigo, acrescentando, no entanto, que estava no local para pegar três passageiros, Arnaldo, Mauro e Letícia, já que era motorista de aplicativo.
 O membro do Ministério Público ofereceu denúncia pelo crime previsto no artigo 147-A do CP e posteriormente foi recebida por este ilustre Juízo, que determinou a citação e a notificação do acusado para apresentação desta defesa.
 
II – DOS FUNDAMENTOS
a) Preliminarmente
DA REJEIÇÃO DA DENÚNCIA
Narra a denúncia que Roberto foi até a Delegacia de Polícia e confirmou ter avistado Wilson, ressaltando que se sentiu perturbado com a sua presença, mas que não pretendia o prosseguimento do procedimento criminal. Inclusive seu pai, ora representante legal, concordou com a decisão de Roberto.
Pois bem, o artigo 147-A, §3º é bem claro ao elencar que o crime de perseguição é de ação penal pública condicionada à representação.
Como narrado na própria denúncia, tanto Roberto, como seu pai, concordaram em não prosseguir com o procedimento criminal, faltando então o requisito essencial da representação para iniciar a ação, quer seja, a representação.
Ocorre que, nos termos do artigo 395, II do CPP, a denúncia deve ser rejeitada, haja vista que não há como condição para o exercício da ação penal, pois nesse caso, o crime de perseguição é de ação penal pública CONDICIONADA À REPRESENTAÇÃO.
Ademais, razão assiste o doutrinador Aury Lopes Jr (Direito Processual Penal, 2022, p. 301), onde diz que o MP não pode proceder contra alguém sem que exista autorização do ofendido, nem mesmo o inquérito pode ser formalmente instaurado sem ela.
Nesse sentido, também é entendimento do E. Tribunal de Justiça de São Paulo, senão vejamos:
Injúria, difamação e perseguição. Rejeição da queixa-crime com fundamento no art. 395, incisos II e III, CPP – Irresignação da querelante – Ilegitimidade ativa quanto ao crime de perseguição - Inexistência de elementos de convicção e de lastro probatório mínimo - Inobservância dos requisitos do art. 41 do CPP - Negado provimento. (TJ-SP - APR: 10005598820218260426 SP 1000559-88.2021.8.26.0426, Relator: Rodrigo Miguel Ferrari, Data de Julgamento: 31/03/2022, Turma Recursal Criminal, Data de Publicação: 04/04/2022) (grifei)
Diante o exposto, requer seja rejeitada a denúncia nos termos do artigo 395, II do CPP.
DA EXTINÇÃO DE PUNIBILIDADE DO AGENTE EM DECORRÊNCIA DA DECADÊNCIA
Como narrado acima, o crime do artigo 147-A é condicionado à representação, conforme exposto no §3º. Nesse caso, já se passaram mais de 01 (um) ano dos fatos. Posto isso, conforme artigo 38 do CPP, o prazo de oferecer representação decai em 06 (seis) meses, contados do dia em que vier a saber quem é o autor do crime.
Nesse sentido, o artigo 397, IV do CPP esclarece que o juiz deve absolver sumariamente o acusado quando extinta a punibilidade do agente, o que nesse caso concreto ocorre, pois mesmo que o acusado tivesse o dolo de perseguir a vítima, a mesma já perdeu o direito de oferecer representação criminal.
Assim, requer seja o acusado absolvido sumariamente, tendo em vista a decadência de representação nos termos do artigo 107, IV do CP e 397, IV do CPP.
DA POSSIBILIDADE DE OFERECIMENTO DA SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO
O representante do Ministério Público deixou de oferecer suspensão condicional do processo, em razão do réu registrar contra si sentença condenatória transitada em julgado pela contravenção penal de vias de fato.
Pois bem, sabe-se que a Lei 9.099/95 prevê que o Ministério Público ao oferecer a denúncia pode propor a suspensão condicional do processo, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime.
Ressalta-se então que não o acusado não pode ter sido condenado por crime, o que nesse caso não abrange condenação por contravenção penal, não impedindo de nenhuma forma a obtenção do benefício.
De mais a mais, nas palavras de Aury Lopes Jr (Direito Processual Penal, 2022, p. 983), presentes os pressupostos legais, não poderá o Ministério Público deixar de oferecer a suspensão condicional do processo.
Diante o exposto, requer a remessa do caso ao membro do Ministério Público para análise e possível oferta da referida proposta oferecida proposta de suspensão condicional do processo, tendo em vista que o acusado jamais foi condenado por outro crime.
b) Do Mérito
DA ATIPICIDADE OBJETIVA DA CONDUTA
Narra a denúncia que Roberto avistou Wilson no aeroporto Viracopos somente no dia 20 de fevereiro de 2020.
Diante disso, é sabido que o crime elencado no artigo 147-A do CP, necessita de conduta reiterada e obsessiva, o que de fato não ocorreu. Pelo contrário, Wilson jamais foi ao aeroporto com a finalidade de perseguir Roberto, mas sim para embarcar três passageiros, pois é motorista de aplicativo e ressalta-se - foi uma conduta única e isolada.
Com efeito, o E. Tribunal de Justiça de São Paulo, firma entendimento nesse sentido, a conduta isolada não caracteriza o crime de perseguição, senão vejamos:
APELAÇÃO. Dano qualificado. Perseguição ou Stalking. Recurso da defesa. Absolvição por atipicidade da conduta. Ausência de elementar do tipo. Delito previsto no artigo 147-A que exige a reiteração da conduta criminosa. Absolvição por fragilidade probatória em relação ao delito de dano qualificado. Ameaças proferidas pelo acusado que devem qualificar o crime de dano, não podendo ser utilizadas como tipo autônomo. Pleitos subsidiários: compensação integral entre a agravante da reincidência e a atenuante da confissão espontânea. 1. Do crime de perseguição ou Stalking. Ausência das elementares da figura penal típica que é dada pelo art. 147-A do Código Penal, com redação dada Lei 14.132/2021. Ação que teria se mostrado isolada. Não configuração de conduta reiterada e obsessiva. Ausência de configuração do elemento psicológico representado pela vontade e intenção de perseguir a vítima. Atipicidade que resta evidente. 2. Do crime de dano qualificado. Condenação adequada. Materialidade e autoria do delito comprovadas pelos elementos coligidos aos autos. Declarações da vítima e depoimentos das testemunhas coesos e harmônicos durante toda a persecução penal. Modelo probatório que não se filiou ao sistema da prova tarifada. Prova oral que deve ser confrontada com os demais elementos probatórios. Credibilidade que não foi afetada diante da ausência de prova em sentido contrário. Réu que confessou a prática do crime. 3. Dosimetria quemerece reparos. Ausência de circunstâncias judiciais desfavoráveis que permitem a fixação da pena base em seu mínimo legal. Agravante da reincidência que deve ser compensada, integralmente, com a atenuante da confissão espontânea. Causas de aumento ou de diminuição da pena. Inexistentes. 4. Manutenção do regime inicial semiaberto. Réu reincidente. Substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos. Inviável. Réu reincidente. 5. Recurso conhecido e parcialmente provido. (TJ-SP - APR: 15006078520218260556 SP 1500607-85.2021.8.26.0556, Relator: Marcos Alexandre Coelho Zilli, Data de Julgamento: 11/04/2022, 16ª Câmara de Direito Criminal, Data de Publicação: 11/04/2022) (grifei)
Portanto, requer seja o acusado absolvido sumariamente do crime denunciado pelo membro do Ministério Público, nos termos do artigo 397, III do CPP, em razão da atipicidade objetiva da conduta, tendo em vista que foi um ato isolado e não reiterado, como exige o artigo 147-A.
 
III – DOS PEDIDOS
Ante o exposto, é a presente resposta para requerer o quanto se segue:
a) A rejeição da denúncia, com fulcro no artigo 395, II do CPP;
b) A remessa dos autos para o Ministério Público para oferecimento de proposta de suspensão condicional do processo;
c) Caso Vossa Excelência assim não entenda, requer seja o acusado absolvido sumariamente com fundamento no artigo 397, III do CPP;
d) Caso ainda não seja o entendimento desse douto magistrado, requer seja o acusado absolvido sumariamente com fundamento no artigo 397, IV do CPP;
e) Caso Vossa Excelência entenda por não absolver sumariamente o acusado, protesta desde já pela produção de todas as provas admitidas em direito, especialmente a prova testemunhal, apresentadas no rol abaixo, em caráter de imprescindibilidade, que deverão ser oportunamente intimadas.
Termos em que,
Pede deferimento
 
Campinas, 27 de março de 2023.
ADVOGADO
OAB
 
ROL DE TESTEMUNHAS:
Arnaldo
Leticia
Mauro

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