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ARA0225 DIREITO PENAL - TEORIA DO CRIME 2025-1 
PROFESSOR: SAMUEL ALMEIDA COSTA 
AULA I - 26/02/2024 
Os procedimentos de avaliação contemplarão as competências desenvolvidas durante a 
disciplina por meio de provas presenciais, denominadas AV e AVS, sendo a cada uma delas 
atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10 (dez) no formato PNI Prova Nacional Integrada. 
 
Caso o aluno não atinja o resultado desejado na prova de AV, ele poderá recuperar sua nota na 
prova de AVS. Será composta por uma prova no formato PNI Prova Nacional Integrada, com 
total de 10 pontos, e substituirá a nota da AV, caso seja maior. 
 
Para aprovação na disciplina, o aluno deverá, ainda: atingir nota igual ou superior a 6 (seis) na 
prova de AV ou AVS; frequentar, no mínimo, 75% das aulas ministradas. 
1. CIÊNCIA PENAL 
1.1 O CONCEITO, AS FUNÇÕES E AS FONTES DO DIREITO PENAL 
1.2 O CONCEITO DE BEM JURÍDICO E O SENTIDO DO CONSTITUCIONALISMO PARA O 
SABER JURÍDICO PENAL 
1.3 OS PRINCÍPIOS EM ESPÉCIE NO DIREITO PENAL DESDE UMA PERSPECTIVA 
GARANTISTA 
2. TEORIA DA NORMA JURÍDICOPENAL 
2.1 AS CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS NORMAS PENAIS, SUAS ESPÉCIES, FONTES E 
TÉCNICAS DE INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO 
2.2 A APLICABILIDADE NO TEMPO DA LEI PENAL E OS PRINCÍPIOS REGENTES 
2.3 A APLICAÇÃO DA LEI PENAL NO ESPAÇO 
3. TEORIA DO DELITO 
3.1 OS CONCEITOS GERAIS DA TEORIA GERAL DO DELITO E SUAS CARACTERÍSTICAS 
FUNDAMENTAIS 
3.2 AS CARACTERÍSTICAS DO FATO TÍPICO 
3.3 A ILICITUDE E SUAS CAUSAS EXCLUDENTES 
3.4 OS ELEMENTOS DA CULPABILIDADE E AS MODALIDADES DE ERRO 
4. CONTROLE SOCIAL PENAL E ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO (ATIVIDADE 
PRÁTICA SUPERVISIONADA) 
4.1 MISSÕES E A SELETIVIDADE DO DIREITO PENAL COM O PODER PUNITIVO DO 
ESTADO 
4.2 SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS 
4.3 LEIS PENAIS SIMBÓLICAS 
 
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BITENCOURT, Cezar R. Tratado de Direito Pena-Parte Geral-Volume 1 - 31ª Edição 2025. 
31. ed. Rio de Janeiro: SRV, 2024. E-book. p.Capa. ISBN 9788553627592. 
Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788553627592/. 
Acesso em: 26 fev. 2025. 
 
ESTEFAM, André Araújo L. Direito Penal - Vol. 1. 11. ed. Rio de Janeiro: Saraiva Jur, 2022. 
E-book. p.1. ISBN 9786555596540. 
Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786555596540/. 
Acesso em: 26 fev. 2025. 
 
GRECO, Rogério. Direito Penal Estruturado - 3ª Edição 2023. 3. ed. Rio de Janeiro: Método, 
2023. E-book. p.3. ISBN 9786559647651. 
Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786559647651/. 
Acesso em: 26 fev. 2025. 
 
NUCCI, Guilherme de S. Manual de Direito Penal. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2025. 
E-book. p.1. ISBN 9788530988333MC. 
Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788530988333MC/. 
Acesso em: 26 fev. 2025. 
 
JUNQUEIRA, Gustavo Octaviano D.; FIGUEIREDO, Maria Patrícia V. Manual de Direito 
Penal: Parte Geral - 10ª Edição 2024. 10. ed. Rio de Janeiro: Saraiva Jur, 2024. E-book. p.i. 
ISBN 9788553620111. 
Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788553620111/. 
Acesso em: 26 fev. 2025. 
 
 
 
 
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O DIREITO PENAL COMO EXPRESSÃO DA CULTURA HUMANA 
“O Direito Penal é o rosto do Direito, no qual se manifesta toda a individualidade de um 
povo, seu pensar e seu sentir, seu coração e suas paixões, sua cultura e sua rudeza. Nele 
se espelha a sua alma. O Direito Penal dos povos é um pedaço da história da 
humanidade”1. 
Nada mais verdadeiro. 
Dentre os ramos jurídicos, o Penal traduz, em toda sua expressão, 
as virtudes e vicissitudes de um povo. Nele se expõem os valores culturais apontados 
como fundamentais para determinada sociedade (como a vida humana, o patrimônio, a 
saúde pública, a proteção do meio ambiente e da ordem econômica), o estágio 
civilizatório de uma nação (representado em princípios fundamentais acolhidos ou não 
por determinado modelo de Direito Penal) e, em algumas vezes, até mesmo a defasagem 
entre o que está prescrito e o que realmente acontece no cotidiano. 
Onde existe sociedade, há o crime (ubi societas, ibi crimen) e, bem por isso, deve haver o 
Direito Penal. Este, ainda que de modo primitivo, sempre se fez presente em todos os 
agrupamentos sociais (ubi societas, ibi crimen)2. 
Registram os historiadores que nas tribos, desde a Antiguidade, já se notava, incutida no 
espírito humano, a ideia do castigo por atos lesivos a terceiros, muito embora, em 
tempos remotos, era a vingança privada que imperava: “o ponto de partida da história da 
pena coincide com o ponto de partida da história da humanidade”3. 
Mesmo antes da existência do Estado, havia nas sociedades de estrutura familiar as 
penas infligidas aos membros da tribo e aos estranhos . Aos primeiros eram aplicadas 
penas quando praticavam atos que traduziam uma espécie de perturbação da paz e da 
vida em sociedade e, de regra, envolviam a proscrição do agente, o qual não 
podia habitare inter homines e, portanto, era morto ou, se pudesse (e lograsse), fugia. As 
sanções impostas aos estranhos, por outro lado, possuíam conotação de vindita ou 
vingança contra o estrangeiro (de outra raça ou origem) ou, ainda, de “vingança de 
sangue”. Em ambos os casos, a pena imposta revelava um caráter sacro, na medida em 
que, na consciência dos povos, a paz (fim maior) encontrava-se sob a proteção dos deuses, 
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de modo que a vingança (reação contra a perturbação da paz) fundamentava-se em 
preceito divino. 
O Brasil vivenciou fase semelhante. João Bernardino Gonzaga, em sua obra O direito 
penal indígena, aponta a mescla de costumes, mitos e tabus observados pelos silvícolas, 
assim como seus usos e regras jurídicas. O autor expõe o índio brasileiro como pouco 
misericordioso4 e vingativo. Cita que a retaliação, na cultura indígena brasileira, 
mostrava-se sempre obrigatória, “de cunho sagrado, e nada autoriza a crer que atendesse 
ao requisito da culpabilidade”. Em apoio à sua tese, cita, dentre outros, os relatos de 
Evreux e Thevet, os quais registram a índole vingativa dos nativos e sua indisposição para 
a reconciliação com seus inimigos5. A verdade, porém, é que a vastidão de etnias em 
terras brasileiras sugere ser temerário formar um juízo único acerca dos brasileiros pré-
Cabral. 
Com o evoluir das épocas, na história da humanidade, a pena passa a assumir, 
paulatinamente, uma nota de moderação, abandonando-se a ideia de reação desmedida 
e vigorosa, no lugar de uma sanção proporcional. Surgem, nesse compasso, outras penas, 
além da morte, como a mutilação, o banimento (perpétuo ou temporário) e a perda (ou 
confisco) de bens. 
Daí vem a pena de talião, um procedimento em que se buscava a justiça, fazendo-se com 
que o mal imposto deveria corresponder, tanto quanto possível, ao mal praticado (“olho 
por olho, dente por dente”). Registros do talião podem ser encontrados em documentos 
que datam de aproximadamente dois mil anos antes do início da era cristã. “Nas 
legislações da antiguidade, como a hebraica, a grega e a romana, observam-se sinais do 
largo emprego do talião. (...). E, mais recuado que o antiquíssimo Código de Manu, na 
Índia, o de Hamurabi, da Caldeia”6. 
Numa fase subsequente, é possível vislumbrar a utilização de um novo expediente: a 
composição pecuniária, uma forma de reparação, como preço pago à família vitimada. 
Antes de representar uma medida criada por razões justas ou mesmo humanitárias,tratava-se de buscar um mecanismo em que se abandonavam os nocivos e brutais 
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métodos de repressão (morte ou mutilação), os quais enfraqueciam os próprios grupos 
sociais em que adotados. 
É de registrar, ainda, que o surgimento do Estado contribuiu decisivamente para uma 
mudança de enfoque. É dizer, o poder público, em nome da convivência pacífica de seus 
cidadãos, colocou-se acima dos grupos familiares e retira dos particulares o exercício do 
direito de punir, transferindo-o a um representante imparcial e equidistante das 
pessoas diretamente envolvidas no conflito. 
De ver que o Estado, durante séculos que atravessaram a Idade Antiga e chegaram até 
muito próximo do fim da Idade Moderna e princípios da Idade Contemporânea7, utilizou-
se em larguíssima escala de castigos cruéis. As penas eram criadas com finalidade 
intimidativa. Vivia-se o “Direito Penal do Terror”. A morte era a pena mais comum entre 
as sanções penais e, ao seu lado, as penas de caráter corporal (açoite, mutilação etc.). 
Citem-se, como exemplo, as Ordenações do Reino de Portugal (Afonsinas, Manuelinas e 
Filipinas), as quais vigoraram no Brasil até a edição do Código Criminal do Império, 
em 1830. Tais diplomas prescreviam quatro espécies de pena capital, como relata 
Cândido Mendes8: morte natural cruelmente (“com todo o cortejo das antigas execuções, 
o que dependia da ferocidade do executor, e capricho dos Juízes, que neste ou em outros 
casos tinham arbítrio”); morte natural de fogo (“a queima do réu vivo, mas por costume 
e prática antiga primeiramente se dava garrote aos réus, antes de serem lançados às 
chamas”); morte natural (“expiava o crime, sendo enforcado no Pelourinho, seu cadáver 
era levado pela confraria da Misericórdia, e no cemitério sepultado”); e morte natural 
para sempre (“o padecente ia à forca da cidade, onde morria, e ficava pendente até cair 
podre sobre o solo do patíbulo, insepulto, despindo-se seus ossos da carne, que os vestia: 
ali se conservaram até a tarde do 1º de novembro, e conduzidos pela Confraria da 
Misericórdia em suas tumbas, para a Igreja, e no dia seguinte os soterravam”)9. 
No final do século XVIII, sobretudo a partir da publicação do “pequeno grande livro”, isto 
é, da obra magistral de Cesare Bonesana, o Marquês de Beccaria, intitulada Dos delitos e 
das penas (1764), incutiu-se no pensamento filosófico do Direito Penal a ideia de 
humanização e busca por Justiça. O autor postulava a distribuição da “máxima felicidade 
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dividida pelo maior número” e advertia, com propriedade, que: “um dos maiores freios 
dos delitos não é a crueldade das penas, mas sua infalibilidade. (...). A certeza de um 
castigo, mesmo moderado, sempre causará mais intensa impressão do que o temor de 
outro mais severo, unido à esperança da impunidade”10. 
Em nosso país, o primeiro reflexo das ideias humanitárias de Beccaria se fez sentir 
no Código Criminal do Império (1830), cuja parte geral, emblematicamente, dividia-se em 
duas partes: a primeira denominava-se “Dos delitos” e a segunda, “Das penas”. 
Oportunamente, analisaremos nesta obra a (rica) evolução que se seguiu no campo do 
Direito Penal (vide Capítulo 2). Por ora, numa apreciação à guisa de síntese, podemos 
dizer que o Direito Penal passou por diversos estágios: (i) a vindita; (ii) a compositio; (iii) o 
caráter misto (público e privado); (iv) a punição pública (fase atual). Em todos eles, 
entretanto, nota-se que sempre esteve indissociavelmente ligado à noção de manutenção 
do equilíbrio social e garantia da paz. 
1.1. Conceito de Direito Penal 
Numa formulação simples e despretensiosa, poder-se-ia conceituar o Direito Penal como 
o ramo do Direito encarregado de definir as infrações penais e cominar-lhes a respectiva 
sanção11. 
É preferível, registre-se, a denominação “Direito Penal”12 no lugar de “Direito Criminal”, 
haja vista que, além de contar com ampla aceitação, vincula-se ao fato de que possuímos 
um “Código Penal” e não, como outrora, um “Código Criminal”. 
Nossos penalistas, de regra, optam por uma definição calcada em duas vertentes: 
o Direito Penal subjetivo, assim entendido como o ius puniendi ou direito de punir do 
Estado, e o Direito Penal objetivo, o qual corresponde ao conjunto de normas jurídicas 
(princípios e regras), que se ocupam da definição das infrações penais e da imposição de 
suas consequências, sejam elas penas ou medidas de segurança13. Veja, por exemplo, 
Basileu Garcia14 e Damásio de Jesus15. 
Para nós, o Direito Penal é o ramo do Direito que se encarrega de regular os fatos 
humanos mais perturbadores da vida social, definindo-os quanto à sua extensão e conse-
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quências, de modo a assegurar, por meio da aplicação efetiva de suas prescrições, a 
garantia da vigência da norma e as expectativas normativas. 
Deve-se assinalar, nesse passo, que a prática da infração penal representa uma mensagem 
(uma carga cognitiva), qual seja, a de que a norma penal (isto é, “não matarás”, “não 
roubarás” etc.) foi violada e, deste modo, apesar de sua vigência formal, não teve vigência 
real. A aplicação da pena, por outro lado, responde ao ato com outra mensagem, a de 
que, apesar do ato, a norma permanece vigente (formal e materialmente). Torna-se, 
então, irrelevante para a estabilidade do sistema penal a atitude de quem cometeu o ato 
delitivo, pois, apesar do ato contrário à norma, esta permanece incólume. O Direito Penal 
não pode impedir que o ilícito seja cometido (embora fosse esse o ideal). Reale Jr. bem 
pondera que “o preço da liberdade é o eterno delito”16. O Direito Penal pode, entretanto, 
assegurar que as expectativas normativas (a esperança interna que todos têm nas normas 
jurídicas e a confiança de que elas serão respeitadas por terceiros) mantenham-se 
incutidas na mente das pessoas e, com isso, permitir o convívio de todos em sociedade. 
Como assinala Luhmann, “o Direito processa, de uma maneira como nenhum outro 
sistema pode fazer, as expectativas normativas capazes de manterem-se a si mesmas em 
situações de conflito. (...). O Direito não pode garantir que suas expectativas normativas 
não sejam defraudadas. Mas pode assegurar sua manutenção, como expectativas, 
inclusive quando violadas. (...). Do ponto de vista sociológico, a normatividade nada mais 
é do que a estabilidade contrafática. Com uma formulação diferente poderia se dizer que 
o Direito, ao proteger expectativas, nos libera da obrigação de aprender com as 
defraudações e nos adaptarmos a elas”17. 
 
2.1. Ocaráter científico do Direito Penal 
O Direito Penal retira sua cientificidade da busca por sua legitimidade . Esta deve ser 
deduzida da configuração da sociedade. É preciso construir o plexo normativo-penal a 
partir de uma determinada sociedade, no seu tempo e espaço, com seus respectivos 
valores. Kirchmann (1847), promotor de justiça alemão, no século XIX, fez ácida crítica aos 
que propunham o caráter científico do Direito. Em seu texto “O caráter acientífico da 
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Ciência do Direito”, o autor dizia que toda obra doutrinária, toda sentença bem elaborada, 
todo trabalho jurídico enfim tornava-se papel descartável com três palavras do legislador 
modificando a legislação. Equivocava-se, contudo, Kirchmann, seja por confundir o Direito 
(normas e princípios) com a Ciência do Direito (a busca pela legitimidade do ordenamento 
jurídico em uma dada sociedade). Na verdade, o trabalho que se ocupar do conceito do 
Direito até chegar ao fundamento de sua legitimação jamais se tornará letra morta com a 
modificação legislativa. Pelo contrário, se o legislador elaborar alguma disposição que não 
esteja de acordo com o fundamento do Direito, este sim é que não produzirá mais do que 
“leis descartáveis”21. 
Num breve histórico, pode-se dizer que a busca pelo fundamento de legitimidade do 
Direito Penal enfrentou quatro grandes fases. 
A primeira merecedora de registro, que remonta ao século XVII, é a fase em que 
a legitimidade do Direito Penal advinha da lei e da autoridade. Legítimo, portanto, era o 
Direito produzido pelos tribunais com autoridade coercitiva. 
Seguiu-se, depois, sob influência do Iluminismo, a fase da razão. A legitimidade do 
Direito Penal deixava de ser a obediência à autoridade, trasladando-se para a garantia da 
liberdade dos cidadãos. 
Em Hegel, o fundamento de legitimidade deslocara-se para a prevenção. A finalidade 
preventiva passara a ser a mola propulsora do Direito Penal, justificando-o enquanto 
ramo jurídico. A medida da pena passara a ser o desvalor do ato. 
No final do século XIX, nova mudança de enfoque: o Direito Penal, segundo propunha 
Binding, tinha como fundamento o Direito Positivo. 
Franz von Liszt constrói sua visão científica do Direito Penal sob as bases do naturalismo. 
Sua obra fora composta, como é cediço, em meio ao irromper das forças decorrentes da 
industrialização, demonstrando ele marcada preocupação em calcular e controlar os 
efeitos do Direito Penal. Para este autor, deve o Direito Penal ocupar-se, notadamente, 
da prevenção. Enfatizava-se, destarte, o direito penal do autor. 
Durante o século XX, notadamente em sua segunda metade, a tendência que avulta com 
maior ênfase é o finalismo, de Hans Welzel. O autor constrói um sistema com bases 
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ontológicas, fundado em realidades prévias, expostas como verdades absolutas e 
imanentes da Ciência Penal. Seu conceito de ação, fundamentado no sentido individual 
finalístico (toda “ação humana é o exercício de uma atividade final”) bem o demonstra. 
Welzel, contudo, não exprime sua teoria com arrimo em conceitos puramente individuas, 
mas também procura fazê-lo num sentido social (enfatizando a necessidade de o Direito 
Penal ocupar-se de fatos socialmente inadequados). 
No final do último milênio e no irromper do atual, vive-se uma nova fase na busca da 
legitimação da Ciência Penal, chamada “funcionalismo”. Seus maiores representantes são 
Claus Roxin e Günther Jakobs. 
O funcionalismo, em Jakobs, assenta a legitimidade do Direito Penal sob as bases das 
condições de existência da sociedade, normativamente estruturada. Em Roxin, por 
outro lado, o fundamento de legitimidade do Direito Penal é a proteção subsidiária de 
bens jurídicos. 
Dessa síntese brevemente exposta, uma conclusão se mostra certa e irrefutável. Não há 
como negar o caráter científico do Direito Penal, o qual está estreitamente vinculado à 
concepção e à configuração da sociedade, vigente num determinado momento 
histórico. Seja esse fundamento a liberdade dos homens, a proteção da convivência em 
sociedade das pessoas, a proteção subsidiária de bens jurídicos ou a garantia da vigência 
da norma, é certo que o jurista que se propõe a fazer Ciência deve ocupar-se dessa 
investigação, tendo seus olhos voltados obrigatoriamente ao horizonte social. 
O critério de cientificidade do Direito Penal, como de resto ocorre com qualquer ciência 
humana, não deriva da possibilidade de “explicações causais de fenômenos sensíveis”, 
mas da necessidade de se “compreender o fenômeno mesmo em sua concreção única e 
histórica”22. 
 
 
 
 
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CRIME 
FATO TÍPICO (Art. 121 - 359) 
CONDUTA (DOLO OU 
CULPA) + NEXO CAUSAL + 
RESULTADO 
TIPICIDADE FORMAL + 
MATERIAL 
 
 
ILÍCITO (Art. 23) 
LEGÍTIMA DEFESA 
ESTADO DE NECESSIDADE 
ESTRITO CUMPRIMENTO DO 
DEVER LEGAL 
EXERCÍCIO REGULAR DE 
DIREITO 
 
CULPÁVEL (Art. 26) 
IMPUTABILIDADE 
POTECIAL CONHECIMENTO 
SOBRE A ILICITUDE 
EXIGIBILIDADE DE CONDUTA 
DIVERSA 
 
 
FATO CUMPRIMENTO

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