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NÚCLEO COMUM
Fundamentos de Arqueologia e
Etnografia
UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS
Núcleo de Ensino a Distância
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Créditos e Copyright
Vanessa Laurentina Maia
Crb8 71/97
Bibliotecária UNIMES
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qualquer forma de expressão, em qualquer meio, seja ou não para fins didáticos.
É proibida a reprodução total ou parcial deste curso, em qualquer mídia ou formato.
N184o BONETTI, Charles...{et al}
Fundamentos de Arqueologia e Etnografia / Charles Bonetti e Adrian Ribaric.
Atualizado por Carlos Alberto Vieira Borba – Santos, 2023.
77 fls.
Universidade Metropolitana de Santos, Licenciatura em História, 2006.
1. Ensino a Distância. 2. História. 3. Fundamentos de Arqueologia e Etnografia.
CDD 658
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SUMÁRIO
Aula 01_A Arqueologia e Etnologia e sua relação com a História ............................. 4
Aula 02_Arqueologia: origens e conceitos ................................................................ 6
Aula 03_Especialidades da Arqueologia ................................................................. 14
Resumo Unidade I ................................................................................................... 17
Aula 04_ Breve História da Arqueologia Brasileira .................................................. 18
Aula 05_Sítios arqueológicos no Brasil - parte 1 ..................................................... 21
Aula 06_Sítios arqueológicos no Brasil - parte 2 ..................................................... 28
Aula 07_Patrimônio Cultural e Museologia .............................................................. 33
Resumo Unidade II .................................................................................................. 39
Aula 08_A Etnologia e o mundo .............................................................................. 40
Aula 09_O que é cultura? ........................................................................................ 46
Aula 10_Teorias da cultura - parte 1 ....................................................................... 50
Aula 11_Teorias da cultura - parte 2 ....................................................................... 55
Resumo Unidade III ................................................................................................. 60
Aula 12_ População tradicional e unidade de conservação .................................... 61
Aula 13_O Brasil Indígena ....................................................................................... 63
Aula 14_O Brasil Afro .............................................................................................. 67
Aula 15_Cultura e Meio Ambiente ........................................................................... 69
Aula 16_Multiculturalismo e identidade ................................................................... 73
Resumo Unidade IV ................................................................................................ 77
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Aula 01_A Arqueologia e Etnologia e sua relação com a História
Palavras-chave: arqueologia; etnologia; história.
As Ciências Sociais possuem papel significativo para os estudos históricos,
notadamente após o movimento francês que originou a Nova História e desembocou
em novas abordagens do passado, como a História das Mentalidades, História
Cultural ou História do Cotidiano.
Mais do que colocar a “cultura” como foco da investigação histórica, a História
das Mentalidades é o resultado, principalmente, da união entre a História e a
Antropologia.
Diversos e importantes estudiosos elegeram paradigmas de uma nova forma
de investigação e concentraram-se no cotidiano como “fio condutor” do processo
histórico. Dessa maneira, áreas de estudo, como a História Medieval, cresceram em
importância e novas luzes foram lançadas para o entendimento do processo
histórico.
A Arqueologia e a Etnologia são áreas de estudo pertencentes às Ciências
Sociais e que muito contribuíram para a História. Seu ponto em comum é o estudo
da cultura. A primeira privilegia a cultura material como fonte em sua produção de
conhecimento. A segunda privilegia o patrimônio intangível, isto é, aquilo que não se
registra em pedra ou papel, como alerta Strauss, mas que apresenta demasiada
importância no entendimento do processo histórico.
Este curso procura estabelecer, em linhas gerais, as bases destas duas áreas
de conhecimento humano e esclarecer o modo como essas ciências contribuem para
o entendimento do processo histórico. Com a utilização do carbono 14, como técnica
de datação, a partir de 1950, diversos acontecimentos históricos foram recalibrados
em sua antiguidade, novos dados e possibilidades de comparação surgiram
ampliando as possibilidades de construção de conhecimentos históricos. Na outra
ponta, a utilização da memória por meio de testemunhos e depoimentos de atores
do processo histórico serviram de subsídios para a fundação de uma nova
especialidade em História, a História oral.
Não há conflitos entre as três ciências, ao contrário, há um trabalho de
colaboração mútua, desembocando em especialidades novas como a
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Etnoarqueologia e a Etno-história. Portanto, o objetivo principal do nosso curso é
demonstrar as principais características de ambas as ciências a fim de proporcionar
aos alunos de História uma visão inicial desses estudos.
Ambas as ciências, Arqueologia e a Etnologia, trabalham o tempo todo com a
cultura, o que configura uma de suas principais contribuições aos estudos de
História. Segundo Santos (2002), a cultura “diz respeito a todos os aspectos da vida
social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros [...]
é uma construção histórica, não decorrência de leis físicas ou biológicas. (Santos,
2002).
REFERÊNCIA
SANTOS, J. L. O que é cultura. São Paulo. Brasiliense, 2002.
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Aula 02_Arqueologia: origens e conceitos
Palavras-chave: arqueologia; arqueólogo; cultura material.
O fascínio que as culturas do passado exercem sobre as populações do
presente é bem mais antigo do que se pode imaginar. Em civilizações arcaicas, não
são raras as citações de grandes coleções de objetos antigos que eram guardados
não apenas pelo seu valor — no caso de joias —, mas também por representarem
tradições ou origens do passado.
Geralmente, associa-se o fazer arqueológico às grandes descobertas, como
monumentos, câmaras mortuárias, tesouros, objetos em grande parte relacionados
às antigas e misteriosas civilizações da África ou do oriente próximo ou distante.
Entretanto, a aura de mistério que recobre essas civilizações, da mesma forma que
ajuda a divulgação destas culturas, também contribui para destruição do patrimônio
cultural, pois provoca uma espécie de “caça ao tesouro”, em que a perspectiva de
enriquecimento rápido e a fama súbita atraem pessoas despreparadas que acabam
comprometendo a integridade da cultura material contida nos sítios arqueológicos.
Muitas vezes, tais “aventureiros”, são confundidos com arqueólogos.
Há, ainda, ocasiões em que os estudos arqueológicos são ofuscados por
teoriasmuseal
caracteriza-se por uma estrutura específica, uma filosofia própria e uma ação prática.
Sua principal característica, assim como na Arqueologia, é a interdisciplinaridade.
Há acontecimentos que merecem destaque na história da museologia. Na
Revolução Francesa de 1789, folhetos revolucionários pediam “Museus para o
Povo!” Mas, talvez, o fato mais interessante para nós seja que, antes de existir uma
Faculdade ou Instituição de Ensino em nível Superior no Brasil, existiu um museu, O
Museu Nacional do Rio de Janeiro.
A seguir, observe três definições de Museologia:
[...] a Museologia apoia-se sobre uma base teórica do ponto de vista
gnosiológico e metodológico, pois só assim ela pode cumprir sua missão,
não apenas em relação à prática museal, mas, também, dentro do próprio
sistema da ciência. (Zbynek, S. apud Guarnieri, W. Museu, Museologia,
Museólogos e Formação. In: Revista de Museologia. SP. IMSP,1990, p.
10).
[...] uma disciplina científica em vias de formação, cujo objeto é o estudo da
relação específica homem realidade e isto em todos os contextos nos quais
esta se manifestou concretamente. (Gregorová, Anna. apud Guarnieri, W.
Museu, Museologia, Museólogos e Formação. In: Revista de Museologia.
SP. IMSP, 1990, p. 10).
Ciência nova e em formação, cujo objeto é o fato museal ou museológico,
relação profunda entre homem, sujeito que conhece, e o objeto, parte de
uma realidade da qual o homem também participa, num cenário
institucionalizado, o museu. (Guarnieri, W. Museu, Museologia, Museólogos
e Formação. In: Revista de Museologia. SP. IMSP, 1990, p. 10).
Serviço Educativo em Museus
Antes de discorrermos sobre a existência de um “serviço educativo em
museus”, precisamos tentar entender o “público” dos museus.
Inicialmente, o público dos museus na antiguidade era composto,
principalmente, por membros da aristocracia e “estudantes”, no caso do Museu de
Alexandria, pois havia um “protótipo” do que viria a ser um “centro universitário”.
Já no segundo momento, os Museus da Renascença eram frequentados por
aqueles que tinham acesso ou faziam parte do “séquito” dos reis ou príncipes,
principalmente nas cidades italianas. Ou seja, a aristocracia da antiguidade foi
substituída pela aristocracia renascentista.
O público dos museus pouco mudou em relação ao período vinculado à
ascensão da burguesia. Os museus desse período procuravam transmitir os ideais
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burgueses, sua visão de mundo e suas conquistas. Segundo Suano (1986), o público
do Museu Britânico em sua abertura em 1759, via em seu acervo extremamente rico,
o fruto de uma expropriação sofrida durante séculos.
Quanto ao acesso às exposições, é necessário lembrar que as visitações
eram pagas e o preço do ingresso bastante elevado, o que promovia uma certa
seleção. Em suma, a visitação era aberta, diferentemente do período anterior, mas
poucos tinham acesso.
No entanto, essa realidade foi mudando, mesmo nos museus da burguesia
que perceberam a necessidade de abrir suas coleções, não por uma motivação
“humanista”, e sim para exercer a dominação por meio da demonstração de seu
poderio, ideais e conquistas.
Com o avanço da industrialização, foram criadas muitas mostras e
exposições, feiras e eventos, mais acessíveis ao grande público, como o a “Mostra
de Todas as Nações”, em 1851, no, então, recém construído “Palácio de Cristal” de
Londres (Suano, 1986) ou o “Palácio da Eletricidade” em Paris no ano de 1900.
O serviço educativo especializado em museus é recente. Como vimos, a
mentalidade moderna em relação aos museus, no início da fase de industrialização
na Europa, corresponde muito mais a uma propaganda da superioridade nacional —
de acordo a visão técnico científica do período — após a verdadeira pilhagem do
patrimônio cultural da humanidade que foi feito na fase anterior e a partir da qual
foram constituídos os acervos dos museus nacionais. Tal é o caso do pilar do templo
egípcio de Luxor ou dos mármores Egim que revestiam o Parthenon da Atenas
Clássica e que hoje constituem o acervo de museus europeus, o que alimentou a
discussão sobre a devolução desses bens culturais aos lugares de origem.
A mudança do paradigma museológico começou a se dar com o surgimento
da ideia de Estado Nação. Os museus passaram a ser utilizados como propagadores
do ideal nacionalista e, assim, de certa maneira, nasceu a noção de que os museus
seriam a ilustração de uma ideologia, inclusive do ponto de vista educacional.
Desenvolveu-se, então, o trabalho especializado de visitas a museus, a fim de
orientar o público. O uso do museu como afirmação de uma nacionalidade ou cultura
não é exclusividade dos países europeus, mesmo porque, a partir do século XIX,
houve uma explosão no número de museus pelo mundo, impulsionada pelos
processos de independência das colônias latino-americanas. Os museus são
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também utilizados como afirmação da identidade nacional ou mesmo como pura
propaganda de Estado.
No Brasil, o caso do Museu Nacional é exemplar. Criado por D. João VI,
refletia o desejo do monarca de incutir no povo recém elevado à categoria de súdito
de um efêmero Reino Unido Brasil-Portugal, o significado de monarquia, história,
obediência, nobreza, entre outros conceitos tão estranhos ao povo da colônia. Seu
acervo era uma mistura de objetos de arte, zoologia, história natural e tudo mais que
despertasse a curiosidade dos responsáveis ou que ajudasse a cumprir o seu papel.
Foi acrescido de coleções de arqueologia clássica trazidas pela Imperatriz Tereza
Cristina em 1853 (Suano, 1986). Por fim, foi vinculado à Universidade do Rio de
Janeiro em 1946.
O aumento do número de museus no Brasil se deu de maneira oficial nas
décadas de 30 e 40 do século passado. Em São Paulo, os Museus Históricos e
Pedagógicos sofrem grande aumento nas décadas de 1950 e 1960.
Foi também nas décadas de 1960 e 1970 o início da tentativa de implantação
de fato de um serviço educativo em vários museus. Os primeiros pensamentos neste
sentido surgiram na década de 1930 com o movimento educacional da Escola Nova.
REFERÊNCIAS
GUARNIERI, W. Museu, Museologia, Museólogos e Formação In: Revista de
Museologia. SP. IMSP, 1990.
LEMOS, C.A.C. O que é Patrimônio Histórico. São Paulo: Brasilense, 1982.
SUANO, M. O que é Museu. São Paulo: Brasiliense, 1986.
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Resumo Unidade II
Esta unidade tratou da Arqueologia Brasileira por meio de um breve histórico
e dos tipos de sítios arqueológicos e componentes principais. Abordou, também, de
maneira introdutória, as áreas de atuação da arqueologia em território nacional,
as datações mais significativas e a antiguidade das ocupações, chegando a 50.000
anos antes do presente no sítio arqueológico “Boqueirão da Pedra Furada”, no Piauí,
também rico em pinturas rupestres.
Esta unidade abordou, ainda, os diversos campos de atuação da ciência
arqueológica no Brasil, uma descrição dos tipos de sítios mais significativos, traços
culturais importantes e datações mais expressivas.
Nesta unidade, abordamos também a história da Museologia e o conceito de
Patrimônio Cultural cuja evolução está relacionada ao modo de fazer os museus em
cada sociedade.
Também foi abordado o fazer museal, a relação com a instituição Museu e o
Serviço Educativo em Museus.
Essas abordagens foram feitas segundo a perspectiva da Arqueologia e da
Etnologia cujo desenvolvimento está intimamente relacionado ao desenvolvimento
dos museus.
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Aula 08_A Etnologia e o mundo
Palavras-chave: antropologia;etnologia; cultura.
O mundo moderno é cercado por acontecimentos tão espetaculares quanto
contraditórios. Por um lado, os avanços tecnológicos baseados na mecatrônica e na
genética que apontam para um futuro cada vez mais próspero e confortável; por
outro, um planeta que dá sinais evidentes de que não suportará por muito mais
tempo nosso modo de vida baseado no consumo excessivo e na produção
desproporcional de poluição.
Quanto mais estudamos os problemas de nossa época, mais nos damos
conta de que não podemos enfrentá-los de modo isolado, uma vez que são parte
integrante de um complexo sistema de relações.
No atual contexto das sociedades pós-industriais e globalizadas, os
fenômenos de natureza cultural vêm ganhando espaço e importância cada vez
maiores, não apenas nos debates acadêmicos e institucionais, como também nos
meios empresariais e nas instâncias mais ou menos organizadas da população
mundial. A decifração dos componentes de uma determinada ordem cultural tornou-
se peça fundamental na reorganização de métodos produtivos e de rotinas de
trabalho, ditada pelas novas tecnologias e pelo surgimento das corporações globais;
na criação de uma campanha publicitária qualquer destinada a determinado grupo
ou tribo; na elaboração de políticas de governo de combate à fome ou ao
aquecimento global.
A etnologia estuda os comportamentos dos grupos humanos, as origens da
religião, os costumes e as convenções sociais, o desenvolvimento técnico e os
relacionamentos familiares, pessoais ou intergrupais.
A etnologia ou antropologia cultural se conecta a outros campos de estudo
como a Arqueologia, a Linguística e a Antropologia aplicada. Como vimos
anteriormente, nas escavações, os arqueólogos encontram vestígios de prédios
antigos, utensílios, cerâmicas e outros artefatos pelos quais o passado de uma
cultura pode ser datado e descrito. Podem se concentrar também na análise
linguística que estuda a história e a estrutura da linguagem. A linguística é
especialmente valorizada, porque permite observar os sistemas de comunicação e
apreender a visão do mundo das pessoas.
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A Antropologia aplicada, com base nas pesquisas realizadas pelos
antropólogos, assessora os governos e outras instituições na formulação e
implementação de políticas para grupos específicos de populações. Ela pode, em
certa medida, ajudar governos de países em desenvolvimento a superarem as
dificuldades que as populações destes países enfrentam no embate com a
complexidade dos fluxos civilizacionais do século XXI. E pode também ser usada
pelos governos na formulação de políticas sociais, educacionais e econômicas para
as minorias étnicas no interior de suas fronteiras. O trabalho da antropologia aplicada
é frequentemente desenvolvido por especialistas nos campos da economia, da
história social e da psicologia.
Pelo fato de a Antropologia explorar amplo conjunto de disciplinas para
investigar diversos aspectos em todas as sociedades humanas, ela deve apoiar-se
nas pesquisas feitas por essas outras disciplinas para poder formular suas
conclusões. Entre as disciplinas mais próximas ou afinadas com a Antropologia,
encontramos a História, a Geografia, a Geologia, a Biologia, a Anatomia, a Genética,
a Economia, a Psicologia e a Sociologia, juntamente com as disciplinas altamente
especializadas, como a Linguística e a Arqueologia, anteriormente mencionadas.
Uma das metodologias de pesquisa mais importantes para a Antropologia é a
coleta de histórias orais do grupo focado, resgatando sua poesia, canções, mitos,
provérbios e lendas e reconstruindo sua trajetória histórica e identidade.
O etnógrafo é aquele que registra, reconstrói ou resgata as relações dos
homens com a natureza e entre si que, de outro modo, pela própria natureza volátil
e fugaz da memória, poderiam se perder sem deixar marcas aparentes. Deve-se
ressaltar que a tradição oral sobrevivia por séculos nas antigas culturas, mas não
resistiu ao dinamismo das inovações que caracterizam a sociedade contemporânea.
Não podemos também reduzir a etnografia a simples coleta de objetos
destinados a figurar nos museus. A cultura não é um objeto, fruto de algum
departamento estanque do nosso pensar, prisioneira de momentos e de agentes
predeterminados. A cultura é um universo amplo que reflete e incorpora o caráter
criativo característico da ação humana.
Esta perspectiva se torna bastante clara para nós aqui no Brasil, quando
observamos o crescente peso que as identidades étnicas e culturais têm conquistado
na elaboração das recentes políticas compensatórias e de inclusão, como a questão
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das cotas, da extensão de direitos civis às minorias ou como a garantia de posse de
territórios para as populações tradicionais (caiçaras, quilombolas...).
É impossível não notar o intenso movimento de fortalecimento das identidades
locais por meio da valorização das manifestações da cultura popular e da política de
patrimonialização de seu acervo imaterial. Isso acontece justamente num momento
em que globalização econômica proporciona um intenso movimento de comunicação
e, consequentemente, a mundialização dos modos de ser e de pensar que gera
grupos identitários de natureza cultural (Punks, góticos, skaters, clubbers são
personagens do mundo). Ao mesmo tempo em que se come sushi em Manaus com
a mesma naturalidade com que se toma milk shakes na Mongólia ou se come
cupuaçu no Japão reafirma-se a identidade local.
Poucas pessoas se dão conta de que a população indígena nas cidades está
crescendo vertiginosamente. Estima-se que, atualmente, cerca de 50 mil indígenas
vivam nas cidades brasileiras. Na cidade de São Paulo, maior aglomerado urbano
da América do Sul, há quatro aldeias guarani, onde vivem mais de 500 pessoas e
mais de 1.000 pankararus, índios originários do estado de Pernambuco que vivem
em favelas como a Real Parque e a Paraisópolis, no bairro de Morumbi.
Nossa época, tem a característica de ser complexa e contraditória. Novas e
antigas identidades e formas de viver se combatem e se compõem na construção
desta instigante e estranha realidade. Entender a cultura e sua dinâmica, assim como
compreender o mundo humano em toda sua complexidade é o objetivo da etnologia,
o estudo das culturas.
O que é Etnologia?
”Etnologia” é um termo originário do século XIX para designar estudos
comparativos dos modos de vida dos seres humanos. A Etnologia emergiu
juntamente com a Arqueologia, a Filologia, a Linguística histórica, a Paleontologia e
a Teoria geral da evolução em Biologia. Nesse período, os europeus ocidentais, em
expansão colonial, estavam descobrindo uma variedade imensa de ambientes
naturais e de sociedades desconhecidas e radicalmente diferentes.
O estudo da etnologia acompanhou a expansão do mundo europeu para o
Oriente, África, Austrália, Américas e Oceania. No início confundia-se com o estudo
das raças e dos povos conquistados. Aliás, a divisão da humanidade em raças foi
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uma invenção dos europeus do século XIX que estudavam a desigualdade das raças
para justificar seus objetivos colonizadores.
A etnografia desenvolveu-se como disciplina científica no final do século XIX
e início do século XX. Surgiu como uma tentativa de observação mais objetiva das
sociedades e culturas do que a que era feita pelos viajantes. Os relatos de viagens
passaram a ser criticados como portadores de preconceitos oriundos da ideologia
dos autores.
Classicamente, atribuía-se ao termo etno, a origem grega da palavra etnoe,
usada para designar os outros povos que não eram gregos — os elenoe. Mais
recentemente, mantida a origem grega, considera-se, entretanto, umaoutra
derivação para o termo, a partir do prefixo ethos, isto é, universo ético coparticipado
por um grupo ou sociedade. A etnologia é, portanto, o estudo sistemático ou científico
de outro universo (cultural) diferente do nosso.
Diferentes termos são usados para descrever os campos da antropologia, o
que acaba criando uma série de confusões terminológicas e mal entendidos. De uma
maneira geral, nos EUA, o termo Antropologia é usado para designar um amplo
conjunto de disciplinas divididas em Antropologia Cultural e Física. A Antropologia
Cultural é subdividida em histórica, pré-história ou arqueologia pré-histórica e
linguística. Na Europa Ocidental, é mais comum o uso do termo Antropologia Social,
pois a etnologia é a área encarregada da descrição histórica e comparada das
culturas.
Para os nossos estudos, utilizaremos a sistematização proposta pelo
antropólogo francês Claude Lévi-Strauss em seu livro Antropologia Estrutural II. Em
sua proposta, a etnografia é o estágio de pesquisa focado na descrição da
alteridade cultural através do registro das observações realizadas no trabalho de
campo. Representa o primeiro contato com a diversidade e com a tentativa de
registrar os modos de viver e pensar de sociedades não ocidentais.
O termo grafia vem do grego graf (o) e significa escrever ou escrito. Antes de
se iniciar qualquer tipo de análise ou estudo mais sistemático sobre uma determinada
sociedade, sua língua, seus costumes, manifestações religiosas, suas formas
particulares de caçar, plantar, casar, criar os filhos e cuidar dos idosos devem ser
descritos e registrados.
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Para o antropólogo norte americano Clifford Geertz, praticar etnografia não se
resume, no entanto, a estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever
textos, levantar genealogias, mapear campos ou manter um diário de campo. O que
define o tipo de esforço intelectual que o estudo etnográfico representa é a
perspectiva da elaboração de uma “descrição densa”, ou seja, a mais completa
possível sobre o que um grupo particular de pessoas faz e o significado das
perspectivas imediatas que eles têm sobre o que eles fazem.
Esta descrição deve sempre ser transcrita levando-se em conta a comparação
etnológica. O objeto da etnografia é o conjunto de significantes ao redor dos quais
os eventos, fatos, ações e contextos são produzidos, percebidos e interpretados, e
sem os quais não existiriam como categorial cultural. Etnografia é, antes de mais
nada, a escrita do visível e, portanto, depende das qualidades de observação, de
sensibilidade ao outro, do conhecimento sobre o contexto estudado, da inteligência
e da imaginação científica do etnógrafo.
Nesta perspectiva, a etnologia é um prolongamento da pesquisa etnográfica,
representa um passo em direção à síntese. Embora não exclua a observação direta,
ela tende para conclusões mais amplas e comparativas.
Esta síntese pode operar-se em três direções: a) geográfica, quando se
pretende integrar conhecimentos relativos a grupos vizinhos; b) histórica, quando
se visa reconstituir o passado de uma ou várias populações; c) sistemática, quando
se isola determinado tipo de técnica, de costume ou de instituição.
Por fim, teríamos a Antropologia como a grande disciplina encarregada de
reunir todas as outras disciplinas voltadas à compreensão do homem, como a
Etologia, estudo do comportamento animal, particularmente dos primatas superiores;
a Arqueologia, estudo dos ancestrais humanos; a Etnologia, estudo da diversidade
cultural do presente; a Sociologia, estudo da organização da sociedade urbana-
industrial; a Psicologia, estudo da pisque; a, Economia, estudo das relações de
produção e consumo. A Antropologia, nessa perspectiva, seria então a verdadeira
Ciência Humana.
Na moderna etnologia, o interesse não está mais centrado nas sociedades
diferentes da nossa ou no outro, mas também em nós mesmos, isto é, interessa-se
em analisar qualquer forma de variação existente no grupo focado. Se em uma
sociedade qualquer existe mais de uma maneira de organização ou manifestação
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em relação à linguagem, comportamento e visão de mundo, a etnologia empregará
seus instrumentos para tentar analisá-los e interpretá-los. Portanto, de certo modo,
a etnologia acaba por validar as diferenças em detrimento da cultura dominante.
Nesse sentido, o esforço da etnologia será sempre o de enfrentar ignorância e o
preconceito.
REFERÊNCIAS
AUGÉ, M. A Guerra dos Sonhos. São Paulo: Papirus, 1998. MORIN, E. O Enigma
do Homem. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
AUGÉ, M.A. Cultura de massas no século XX. Rio de Janeiro/São Paulo.
Forense, 1969.
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Aula 09_O que é cultura?
Palavras-chave: cultura popular; cultura erudita; relativismo cultural.
O termo cultura possui inúmeras acepções que são utilizadas para as mais
diversas finalidades. Quem não ouviu falar de: cultura erudita, cultura científica,
cultura popular ou cultura de massa em um concerto de música instrumental ou
em uma roda de samba. Diante de uma obra artística ou em uma guerra
experienciamos o fenômeno cultural.
Na verdade, poucos conceitos têm tantas definições; poucas palavras têm
tantos usos, poucos fenômenos têm tantas explicações. Tantas e tão diferentes que
correm o risco de se anularem. Como então estudar uma realidade que escapa às
nossas tentativas de definição? Por isso, torna-se necessário sistematizar alguns
esquemas gerais do conceito de cultura que nos permitam estabelecer categorias de
análise para o estudo dos fenômenos culturais.
Um primeiro esquema diz respeito aos sentidos de que o conceito de cultura
adquire nas diferentes perspectivas disciplinares e que, de certa forma, acabam
modelando as demais formulações teóricas a seu respeito.
O sentido mais comum é o sentido clássico encontrado nas humanidades
que atribui ao conceito a ideia de bom gosto artístico, cultivo estético, erudição “Ter
cultura”, de acordo com essa concepção, opõe-se a inculto, isto é, a uma pessoa
que não tem cultura. E, nesse sentido, cultura se torna um bem, algo que se acumula.
Existe um sentido antropológico de cultura que a entende como aquilo que se opõe
à natureza e engloba tudo o que não pertence ao comportamento inato. É o que
precisa ser aprendido e decorre da organização social. Um exemplo clássico de
comportamento cultural é a proibição ao incesto em oposição à promiscuidade
animal.
Como decorrência dessa definição, podemos desdobrar sua abrangência e
atribuir aos fenômenos culturais tudo aquilo que tem sentido. O exemplo maior
seria linguagem articulada, por meio da qual nomeamos o mundo e lhe atribuímos
significados.
Por meio da linguagem definimos o que é bonito, feio, certo ou errado etc. Os
valores de uma cultura podem não servir para outra. Alimentar-se de insetos pode
ser repugnante para algumas sociedades ou expressão de sofisticação
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gastronômica para outras. Esse é o fundamento do Relativismo Cultural que
abordaremos mais adiante.
A partir desta perspectiva podemos compreender o sentido etnográfico de
cultura: é tudo aquilo que se opõe ao natural. Regras sociais, normas, crenças e
valores, modelos de comportamento e de padrões morais transmitidos pela tradição,
pela oralidade ou pela educação.
Há também um sentido sociológico, mais ligado às expressões artísticas,
comunicacionais e psicoafetivas de uma organização social. Nesta perspectiva,
encontraremos as preocupações de ligar estas manifestações com as estruturas
socioeconômicas subjacentes e comas suas funções normativas. Além disso, nesse
sentido, podemos avaliar as dinâmicas de suas potencialidades comunicativas como
modo de expressão das características das sociedades complexas.
Três paradigmas culturais
Consideramos, até agora, alguns dos sentidos mais comuns que se tem
atribuído para o termo “cultura”. Na mesma perspectiva generalizante, podemos
agrupar as teorias da cultura em três grandes correntes ou paradigmas. Esses
paradigmas correspondem às correntes do pensamento social que surgiram com o
pensamento moderno no decorrer dos séculos XVII e XIX.
Em primeiro lugar está o paradigma conservador ou estrutural. Nesta
perspectiva, a cultura é tudo aquilo que se opõe à universalidade dos instintos, à
natureza e que torna possível a vida social. Sem cultura o homem não teria
conseguido organizar-se coletivamente e, portanto, não teria sobrevivido.
O exemplo clássico deste paradigma pode ser encontrado na obra
de Sigmund Freud, criador da psicanálise, para quem a cultura é responsável pela
imposição de regras repressivas aos instintos mais profundos e vitais do indivíduo,
tais como a sexualidade, a sobrevivência e a agressividade. Sem tais regras, toda
vida individual e coletiva seria impossível. E, ainda, de acordo com esse paradigma,
tais regras e normas são imperceptíveis ou inconscientes para os indivíduos que
agem como se seus padrões de comportamento fossem naturais.
Cabe lembrar que o termo “conservador”, neste paradigma, não tem o mesmo
significado daquele que é utilizado para o pensamento político, isto é, reacionário à
transformação ou ideólogo de tempos passados. Na teoria da cultura, o pensamento
é conservador, porque a cultura tem a função de conservar a vida, de organizá-la e
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normalizá-la (padrão de normalidade) em um conjunto de regras, instituições e
padrões de comportamento compartilhados por um grupo ou sociedade.
O paradigma conservador está presente nas correntes funcionalistas e
estruturalistas no pensamento etnológico.
Outro paradigma do pensamento etnológico é o liberal. Esta perspectiva se
funda no princípio da liberdade individual com base na ideia de propriedade privada,
entre outras: indivíduo só pode ser livre à medida que pode ser considerado
proprietário de seu próprio corpo e de seu próprio destino.
Nesta perspectiva, a cultura é entendida como acervo cognitivo e intelectual
que cada indivíduo é capaz de adquirir e elaborar ao longo de sua existência que lhe
permitirá desvendar o mundo e, a partir daí, agir conscientemente na sociedade.
Na moderna sociedade democrática, a ideia de liberdade é, talvez, a utopia
mais importante e que necessita de uma compreensão especial de ser humano para
se realizar, ou seja, um ser apto e disposto a tomar posse de si próprio, de seu corpo
e do conhecimento de sua época e civilização para, dessa forma, conscientemente
livre, ser capaz de participar da construção e consolidação do ideal de liberdade.
Qualquer sociedade que almeje viver em liberdade deve, necessariamente,
responsabilizar-se pela formação de seus indivíduos, tornando-os capazes de
enfrentar toda e qualquer forma de heteronomia e insignificância. De acordo com
essa concepção, a tarefa da reflexão intelectual é oferecer à sociedade uma forma
especialmente preciosa de conhecimento, capaz de acessar a totalidade de seu
patrimônio cultural e criar os fluxos de sua disseminação.
Assim como no paradigma conservador, nesse paradigma o termo “liberal”
guarda correspondências com o termo usado no âmbito político, mas não se
confunde com ele.
O que é importante registrar neste paradigma é a valorização do indivíduo
como agente de interpretação do mundo (do sentido do mundo) e o papel da cultura
como instrumento de esclarecimento e, portanto, de liberdade.
O terceiro paradigma modelador da Teoria da Cultura é o radical. Nesta
perspectiva, cultura é entendida como práxis ou processo dinâmico de elaboração
de formas coletivas de viver e de produzir existência material.
Suas origens remontam aos pensadores do século XVIII que, como
Rousseau, viam nas civilizações, um irremediável processo de alienação de boa
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parte da população, a partir do estabelecimento da propriedade privada. No
momento em que os recursos naturais passaram a ser apropriados por um grupo,
criou-se uma ruptura na humanidade. Criaram-se duas categorias de homens que,
a partir daquele momento, passaram a se compreender mutuamente como seres
diferentes.
Nesse sentido, os processos culturais foram se constituindo como estruturas
de reprodução dessa situação desigual.
Para a formação desse paradigma, teve grande influência o pensamento do
filósofo alemão Karl Marx, para quem a história é um processo determinado, em
última instância, pelo desenvolvimento das forças produtivas. Numa determinada
etapa do processo, as forças produtivas entram em contradição com as relações de
produção nas quais elas se desenvolveram. Essa contradição abre uma “época de
revolução social na qual os homens tomam consciência da contradição no campo da
ideologia e o resolvem através da luta de classes”.
REFERÊNCIAS
AUGÉ, M. A Guerra dos Sonhos. São Paulo: Papirus, 1998. MORIN, E. O Enigma
do Homem. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
AUGÉ, M.A. Cultura de massas no século XX. Rio de Janeiro/São Paulo. Forense,
1969.
FREUD, S. Sobre os sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1978.
GEERTZ, Clifford. Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura:
Pessoa, tempo e conduta em Bali. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro:
Zahar, 1978.
LARAIA. R. de B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
LÉVI-STRAUSS, Claude. A ciência do concreto. In: O pensamento selvagem. São
Paulo: Papirus,1997.
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Aula 10_Teorias da cultura - parte 1
Palavras-chave: história cultural; simbolismo; estruturalismo.
Historiografia cultural
Concomitantemente à construção de novos objetos, a história cultural, tal
como se desenvolveu no quadro de uma renovação historiográfica, a partir da
década de 1980, trouxe uma outra prerrogativa fundamental: a de fazer depender a
delimitação e a compreensão do objeto da operação historiográfica fazendo emergir
as noções de complexidade e multifatorialidade.
Falar sobre cultura e história cultural é falar sobre a categoria chave para a
compreensão do mundo contemporâneo que envolve até mesmo os níveis políticos
e ideológicos. Peter Burke, por exemplo, reconhece a atual dificuldade, até mesmo,
em definir os territórios, já que as tradicionais fronteiras de pesquisa foram
quebradas.
Ninguém defende hoje uma história da cultura que não leve em consideração
os entrecruzamentos com a história social. O mesmo pode ser dito em relação ao
pressuposto da existência de um “espírito da época” ou quanto à ingênua noção de
homogeneidade cultural. A própria noção de cultura alargou-se em direção a outras
dimensões e outros territórios.
A cultura passou a ser relacionada a uma totalidade histórica antes
desprezada: como se formaram os mecanismos de dominação e de exploração entre
os homens? Como estes mecanismos se confrontam, difundem e se perpetuam?
Assim, os símbolos, as imagens, as mentalidades, as práticas culturais foram
consideradas lugares de exercícios de poder, de dominação e de conflitos sociais.
Para Elias Thomé Saliba, a nova missão dos historiadores deve ser
compreender “como os homens do passado se compreendiam”, como eles
constituíam a si mesmos, à sua totalidade e à sua própria história. O passado é um
feixe de práticas discursivas, uma sucessão de versões que se sobrepõem numa
regressãoquase infinita.
A própria dimensão cultural ganhou novos contornos. A história cultural pode
ser redefinida como um estudo dos processos e práticas por meio das quais se
constrói um sentido e se forjam os significantes do mundo social. Com a perda da
confiança nas certezas da quantificação, com o abandono dos recortes ditos
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“clássicos”, sejam geográficos ou temáticos, com o questionamento das noções de
“mentalidades”, “cultura popular” etc. ou das categorias “classes sociais”, com a
desconfiança nos modelos interpretativos estruturalistas, marxistas, demográficos
etc., a História Cultural obriga-se hoje, cada vez mais, a buscar novos caminhos.
Também consideramos problemático descrever a abordagem da atual história
cultural como “antropologia histórica ou história antropológica” pelo simples fato de
que a noção de cultura e suas respectivas derivações teóricas envolvem uma
diversidade de abordagens tão, ou mais, polêmica entre os historiadores.
Os métodos etnográficos da antropologia cultural fundados na interpretação
dos elementos culturais, essencialmente como textos ou como atos simbólicos,
embalaram o trabalho de muitos historiadores. A extensão da noção de “texto” para
todos os objetos e temas da história cultural levou Geertz, um dos antropólogos mais
notáveis dessa corrente a falar numa “Nova Filosofia”, que ele definiu como estudo
da significação fixada e separada dos processos sociais que a engendraram.
Tudo passou a ser visto pela grade da textualização, tudo poderia ser tratado
como texto, ou seja, como um conjunto potencialmente significativo. Pretensamente
munidos do método da descrição densa, os historiadores acabam por passar ao
largo da singularidade dos objetos, produzindo generalidades.
Encontro cultural, circularidade entre cultura erudita e popular e processo de
cotidianização, apontados por Burke como índices de um ponto de vista novo para
seu estudo sobre o renascimento, constituem-se, na verdade, em desafios
heurísticos para o historiador da cultura que, atualmente, depara-se com o desafio
de realizar a busca empírica dessas pluralidades culturais.
O historiador deve se esforçar por superar duas das dificuldades mais comuns
dos estudos culturais: sair das prisões interpretativas dos “contextos” econômicos ou
sociais ou socioculturais que a tudo explicam (ou simplificam) e afinar seu diapasão
(e sua sensibilidade) para aquilo que Michel De Certau chamou de “artes de fazer”,
ou seja, para uma lógica específica de algumas manifestações “populares” — lógica
marcada pela contradição e pela ambiguidade e, não raramente, impermeáveis à
lógica racional.
A história cultural transformou-se, exatamente, na principal fronteira dos
estudos históricos na atualidade, porque não há entradas privilegiadas nem
exigências prévias para o estudo das culturas.
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Simbolismo
O foco principal da abordagem simbólica está nos modos pelos quais as
pessoas entendem e interpretam o seu ambiente, assim como nas ações e na
linguagem dos membros de uma sociedade. Essas interpretações formam um
sistema cultural de significados compartilhados, ou seja, de compreensões
compartilhadas em diferentes graus entre os membros da mesma comunidade.
A etnologia simbólica estuda os símbolos e os processos, como os mitos e os
rituais por meio dos quais os homens atribuem significados ao mundo e lhe
endereçam as perguntas fundamentais a respeito da existência e da vida social.
Dessa maneira, a cultura passa a ser entendida como um complexo sistema de
significados, uma teia que orienta as ações humanas oferecendo-lhes sentido.
Duas premissas principais orientam essa abordagem. A primeira é que as
ações humanas se tornam compreensíveis quando analisadas como parte de um
sistema cultural de significados. A segunda premissa diz respeito à possibilidade de
interpretação dos significados na decifração, não apenas do universo simbólico de
uma cultura, como também de suas atividades materiais que permitem compreender
o papel dos símbolos na vida cotidiana de um grupo ou comunidade.
A perspectiva simbólica pode ser compreendida como uma reação ao
estruturalismo, particularmente na formulação que lhe deu o antropólogo francês
Claude Lévi-Strauss. O foco estruturalista, baseado principalmente na linguística,
estabelece uma precedência do significante nos processos culturais o que,
portanto, retiraria do indivíduo a possibilidade de interferir conscientemente na
produção da vida social.
Rejeitam também as perspectivas radicais, em especial a marxista, que
definem a cultura em termos estritamente observáveis de comportamento e na
convicção de que fatores tecnológicos e ambientais são primários e fundantes da
ação cultural.
A etnologia simbólica, ao contrário, vê a cultura em termos de símbolos e
condições mentais e rejeita tanto as determinações históricas do estruturalismo
quanto às históricas do marxismo. A historicidade que lhes interessa é aquela que
embebe a existência de cada indivíduo e cada cultura em particular, isto é, como
veem, sentem e pensam o mundo.
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Estruturalismo
O paradigma estruturalista tem suas raízes históricas na obra do pensador
francês Èmile Durkheim e de seu sobrinho o antropólogo Marcel Mauss. De uma
forma geral, estes pensadores dedicam-se a compreender a existência de sistemas
culturais responsáveis pela organização e modelação da vida social.
O conceito de fato social, desenvolvido por Durkheim, sugere a existência de
uma espécie de inteligência coletiva acima dos indivíduos particulares que seria
responsável por criar e impor as normas de comportamento socialmente aceitas,
assim como as sanções determinadas àqueles que por ventura as ignorassem. São
exemplos clássicos de sua visão a divisão social do trabalho e as consequentes
formas de solidariedade desenvolvidas no interior de cada tipo de sociedade.
A partir dessa perspectiva, poderíamos explicar, por exemplo, por que em
sociedades não ocidentais, os papéis reservados aos sexos são tão diferentes e tão
rigidamente fixados. Em sociedades tribais, os homens plantam e caçam enquanto
as mulheres coletam e colhem. Poderíamos tentar explicar essa divisão pela suposta
competência orgânica de cada sexo: a fragilidade nas mulheres e a robustez nos
homens.
Para esta perspectiva, a explicação não está na biologia, mas na cultura
compreendida como sistema operacional social. A função da divisão sexual do
trabalho é, antes de mais nada, organizar a vida coletiva em direção a uma maior
eficiência do trabalho social. Qualquer ameaça a essa normatização colocaria em
risco toda a vida social do grupo. Por esta razão, as punições aos transgressores
devem ser rigorosas.
Sua formulação mais sistematizada foi realizada pelo antropólogo francês
Claude Lévi-Strauss e pode ser resumida da seguinte forma: em primeiro lugar deve-
se compreender que os fenômenos culturais têm a mesma natureza dos fenômenos
linguísticos e, portanto, podem ser estudados com a mesma metodologia. Ambos
são ao mesmo tempo universais (todas as sociedades têm linguagem) e singulares
(cada uma delas tem linguagem própria).
A explicação estruturalista sustenta-se em um tripé conceitual:
Em primeiro lugar está a atividade universal do espírito, ou seja, os
processos de operacionalização do pensamento humano são os mesmos para todas
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as culturas, e este processo se dá em forma de oposição binária. (sim/não,
cru/cozido, quente/frio, cultura/natureza);
Em segundo lugar, está o pensamento concreto. Isto significa que não existe
diferença entre o pensamentodo selvagem e o pensamento do homem moderno.
Ambos são pensamentos que seguem as mesmas regras cognitivas e operam da
mesma forma. A diferença deve ser procurada no estado deste pensamento, entre o
pensamento em estado selvagem (que opera a partir das qualidades sensíveis da
natureza – tato, paladar, cores...) e o que permanece em estado domesticado pela
educação (que opera através das suas qualidades inteligíveis ou abstratas). Desta
forma, o pensamento selvagem, ou concreto, está presente em todas as sociedades.
Basta observarmos como as pessoas se comportam nas atividades cotidianas ao
resolver problemas imediatos.
Por último, estaria o pensamento mitológico que, antes de ser uma narrativa
pré-religiosa e ignorante do mundo, exibe uma capacidade fabulatória na qual está
expressa uma outra forma de construção da realidade, não linear ou temporal. Seria
uma espécie de bricolagem, termo que designa o construtor que não tem projeto,
que faz aquilo que o material que tem nas mãos lhe oferece, retirando pedaços de
objetos, descontextualizando-os para utilizá-los como parte de outro completamente
diferente. O discurso mitológico operaria de modo semelhante.
REFERÊNCIAS
AUGÉ, M. A Guerra dos Sonhos. São Paulo: Papirus, 1998. MORIN, E. O Enigma
do Homem. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
FREUD, S. Sobre os sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1978.
GEERTZ, Clifford. Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura:
Pessoa, tempo e conduta em Bali. In: A interpretação das culturas. Rio de
Janeiro: Zahar, 1978.
LARAIA. R. de B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar,
1989.
LÉVI-STRAUSS, Claude. A ciência do concreto. In: O pensamento selvagem. São
Paulo: Papirus,1997.
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Aula 11_Teorias da cultura - parte 2
Palavras-chave: Evolucionismo; Materialismo; Pós-modernismo.
Cultura e personalidade
Os estudos de cultura e personalidade buscam compreender o surgimento e
o desenvolvimento de identidades individuais e coletivas em relação ao ambiente
sociocultural circundante. Por meio do exame de personalidades individuais podem
ser feitas correlações mais amplas, assim como generalizações sobre a cultura geral
do grupo do qual aqueles indivíduos fazem parte.
Esta perspectiva sustenta tanto os exames de caráter nacional como os
estudos a respeito dos mecanismos de configuração de personalidade.
Em sua origem, os estudos de cultura e personalidade representaram uma
tentativa de superar os modelos raciológicos e evolucionistas de cultura que
caracterizaram a Antropologia do século XIX. Se, durante aquela época, o debate se
dava entre cultura e biologia (raças humanas) e história (evolução cultural), nesta
perspectiva houve uma aproximação com a Psicologia.
Entre os principais expoentes dessa corrente podemos citar Ruth Benedict
(1887-1948), pois começou sua carreira documentando sociedades nativas norte-
americanas que se encontravam em rápido processo de desaparecimento ou
deterioração cultural.
Em seu trabalho mais conhecido, Padrões de Cultura, ela procurou definir
diferentes sociedades, isto é, culturas, em termos de quatro padrões: Apolíneo,
Dionisíaco, Paranoico e Megalomaníaco. Assim, representou os quatro modos de
viver ou as quatro configurações culturais possíveis.
Benedict cita quatro sociedades como representantes daqueles modelos: os
Pueblos do Novo México, as nações indígenas das planícies norte-americanas,
os Kwakiutls da Costa Noroeste e o povo Dobu da Nova Guiné. Mas admite que nem
todas as culturas se ajustam com perfeição a esses modelos que, no entanto, podem
ser usados como tipologia geral para a compreensão dos padrões de cultura.
Outro trabalho seu tornou-se um clássico para a etnologia: O crisântemo e a
espada (1946). Neste trabalho, procurou revelar o caráter nacional do Japão. Não
podemos esquecer de que os EUA acabavam de derrotar o Japão na II Guerra
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Mundial e de que enfrentavam sérias dificuldades na administração do país e em
compreender a sua cultura.
Embora jamais tenha visitado pessoalmente o Japão, ela utilizou textos que
retratavam a vida japonesa e entrevistas com imigrantes. Este trabalho se tornou
modelo para estudos de culturas nacionais centradas no ethos ou padrão moral
característico, tons estéticos e emocionais específicos.
Materialismo
O Materialismo, enquanto abordagem para compreensão de sistemas
culturais, pode ser definido por três princípios-chave, materialismo
cultural, evolução cultural e ecologia cultural. Embora existam diferentes vieses
de abordagens marxistas, com especificidades particulares, elas têm em comum o
fato de conceber a cultura como um sistema composto de três subsistemas:
tecnológico, sociológico e ideológico, dos quais o primeiro é primordial, pois
determina a conformação dos outros dois aspectos de cultura.
Há muitas variedades de materialismo dos quais podemos destacar o dialético
(Marx), o histórico (White) e o cultural (Harris). Embora possa ser localizado desde
os gregos, foi Marx o primeiro a aplicar as ideias materialistas às sociedades
humanas de uma maneira antropológica. Para Marx, o modo de produção da vida
material determina o caráter geral dos processos sociais, políticos e espirituais da
vida. Ele dizia que não é a consciência de homens que determina a sua existência,
mas, ao contrário, é a existência que determina a consciência. O aspecto materialista
da abordagem marxista se manifesta na ênfase colocada na infraestrutura como
determinante primário dos outros níveis.
Em outras palavras, as explicações para mudança e a diversidade cultural
serão encontradas na dimensão estrutural da sociedade: a econômica.
Utilizando e modificando o materialismo de Marx, Marvin Harris desenvolveu
o conceito de materialismo cultural. Tal como Marx e White, Harris também vê a
cultura composta em três níveis. A infraestrutura está composta do modo de
produção, ou “a tecnologia e as práticas empregadas para expandir ou limitar
produção de subsistência básica” e o modo de reprodução ou “a tecnologia e as
práticas empregadas para expandir, limitar e manter tamanho” da população (Harris,
1979:52). Harris acredita que o modo de reprodução também deveria estar inserido
no nível da infraestrutura, porque cada sociedade deve enfrentar culturalmente o
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problema de reprodução e evitar aumentos ou diminuições destrutivas. A estrutura
consistiria em dois âmbitos: a economia doméstica e política, e a superestrutura nos
produtos recreativos e estéticos e serviços.
Leslie White tornou-se conhecido por ter desenvolvido e refinado o conceito
de evolução cultural, fortemente influenciado pela teoria econômica marxista como
também pela teoria evolutiva darwiniana. Para White, o aparecimento de uma nova
tecnologia provoca mudanças profundas numa sociedade em todas as esferas:
psíquica, física e socioeconômica. Esse fenômeno pode ser observado ao longo de
toda a história da humanidade, desde o Homo Erectus até o Homo Sapiens. Foi
assim com as civilizações, na passagem da tradição oral para a escrita ou com a
invenção da imprensa, a difusão do livro e o surgimento dos jornais, da eletricidade
do telégrafo, do telefone, do rádio, da televisão, dos computadores e dos satélites
que permitem a comunicação a longas distâncias. Aliás, a evolução das tecnologias
nada mais é que evolução do pensar humano num esforço para criar formas de
vencer obstáculos, sendo o tempo e o espaço as dificuldades mais prementes a
serem vencidas.
O Determinismo Tecnológico é, atualmente, a teoria mais popular no que
se refere à relação entre tecnologia e sociedade. Ela tenta explicarfenômenos
sociais e históricos de acordo com um fator principal que no caso é a tecnologia. O
conceito de “determinismo tecnológico” foi criado pelo sociólogo americano
Thorstein Veblen (1857-1929) e cultivado e aperfeiçoado por Robert Ezra Park, da
Universidade de Chicago. Em 1940, Park declarou que os dispositivos tecnológicos
estavam modificando a estrutura e as funções da sociedade. Essa noção serviu de
ponto de partida para uma corrente teórica e inovadora em todos os aspectos.
Pós-modernismo
Costuma-se chamar de pós-moderna a condição sociocultural do capitalismo
avançado, pós-industrial e financeiro. Embora de uso corrente, este é um termo
bastante controverso para o qual existem diferentes concepções e definições
dependendo da corrente teórica do autor. Pensadores com Fredric Jamenson e
Jürgen Habermas consideram que a pós-modernidade é a lógica cultural do atual
estágio do capitalismo, de tendências conservadoras políticas e culturais, que
procuram combater os ideais iluministas, principalmente os de esquerda.
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O sociólogo polonês Zygmunt Bauman considera a pós-modernidade, que ele
prefere chamar de modernidade líquida, como a consequência sociológica inevitável
da modernidade criadora de uma realidade ambígua e multiforme. Para o francês
François Lyotard, a condição pós-moderna é aquela em que as metanarrativas
modernas foram desacreditadas, e a “ciência” não mais poderia ser considerada a
fonte definitiva da verdade, isto é, uma era em que o saber estaria novamente aberto
e em permanente construção.
Este modo de entender o pós-modernismo pode estar relacionado à visão de
fase histórica. O estado atual da vida social é caracterizado pela descentralização
das sociedades com uma mudança da política e ética de “global” para “local”, a
“saturação” de psiquês e imaginações por uma exibição impressionante de imagens
e escritos descontínuos. Para Lyotard, a época atual é marcada pela rejeição e pelo
desaparecimento das “grandes metanarrativas”, como o liberalismo e o marxismo.
O mundo da ciência se desenvolve ao longo de linhas que consideram o caos,
a incerteza e a indeterminação, mais do que com uma visão de estrutura unificada
da natureza e dos resultados previsivelmente otimistas (e utilitários) do
conhecimento científico. No chamado mundo pós-moderno, o indivíduo vagueia
entre imagens desconexas de escolhas aleatórias e necessidades imediatas, sem
perspectiva de futuro.
Para autores como Giles Lipovetsky ou Marc Augé, por exemplo, o termo pós-
moderno não é correto, porque pressupõe que a modernidade acabou ou foi
ultrapassada. Lipovetsky prefere o termo hipermodernidade caracterizada por uma
intensificação das características das sociedades ocidentais modernas, tais como o
individualismo, o consumismo, a ética hedonista, a fragmentação do tempo e do
espaço.
Augé, por sua vez, aposta na supermodernidade caracterizada pelas figuras
de excesso: superabundância factual concretizada no aceleramento da história
provocado pelo excesso de informações e pela interdependência do “sistema
mundo” que cria a necessidade de dar sentido ao presente, diferentemente da
perspectiva pós-moderna sobre a perda da inteligibilidade da história em função da
derrocada da ideia de progresso; a superabundância espacial constituída pelo
encolhimento do mundo por meio da concentração urbana, migrações populacionais
e produção de não lugares: aeroportos, vias expressas, salas de espera, centros
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comerciais, estações de metrô, campos de refugiados, supermercados etc.; e,
finalmente, na ideia de indivíduo que se crê o centro do mundo e torna-se referência
para interpretar as informações que chegam, o que constitui a terceira figura de
excesso. O processo amplo de singularização de pessoas, lugares, bens e
pertencimentos faz o contraponto com um processo de mundialização da cultura.
Finalmente, alguns autores como Morin, Maturana ou Atlan apostam na total
mudança paradigmática e propõem uma teoria da complexidade. A deterioração dos
ecossistemas, a diversidade dos problemas de saúde, violência, o crescimento
descontrolado das cidades, as mudanças nos sistemas produtivos, são alguns
exemplos de situações que demandam novas formas de enfrentamento científico.
De uma maneira geral, pode-se dizer que a teoria da complexidade se opõe às
teorias científicas da simplicidade, ou seja, àquelas fundadas na proposição
cartesiana, segundo as quais é preciso decompor uma realidade em unidades mais
simples a fim de entendê-la. O termo complexidade tem raiz na expressão plexus,
que significa conexão, entrelaçamento, tecido. Neste sentido, não é mais possível
decompor a realidade uma vez que ela é composta por relações sistêmicas.
REFERÊNCIAS
AUGÉ, M. A Guerra dos Sonhos. São Paulo: Papirus, 1998. MORIN, E. O Enigma
do Homem. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
AUGÉ, M.A. Cultura de massas no século XX. Rio de Janeiro/São Paulo. Forense,
1969.
FREUD, S. Sobre os sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1978.
GEERTZ, Clifford. Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura:
Pessoa, tempo e conduta em Bali. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro:
Zahar, 1978.
LARAIA. R. de B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
LÉVI-STRAUSS, Claude. A ciência do concreto. In: O pensamento selvagem. São
Paulo: Papirus,1997.
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Resumo Unidade III
Nesta unidade, vimos que o conceito de cultura ganhou nova importância
como instrumento de análise e de compreensão da realidade. Parte dessa
importância pode ser atribuída aos avanços dos estudos etnográficos e
antropológicos.
Vimos também que a Antropologia e a Etnografia mantêm relações
interdisciplinares com outras ciências ou áreas dos conhecimentos das quais retiram
informações e conceitos e para as quais fornecem iguais subsídios e materiais
teóricos.
Vimos, de modo mais detalhado, como se compõe o objeto de estudo
etnográfico e as relações com outras disciplinas, especialmente a História e
perpassando o conceito de cultura.
Vimos, finalmente, que, no âmbito da produção do conhecimento, as
diferentes visões de mundo geram diferentes teorias da cultura pautadas em
variadas concepções do conceito.
Nesta unidade, refletimos e apresentamos os diversos sentidos que o conceito
de cultura adquire, assim como as implicações teóricas destas definições. Três
grandes correntes ou paradigmas sustentam as principais correntes da teoria da
cultura, que correspondem, de certo modo, às correntes do pensamento social que
surgiram com o pensamento moderno: os paradigmas conservador ou estrutural,
liberal e radical.
Entre as teorias da cultura, estudamos o simbolismo, o estruturalismo, o
materialismo, o pós-modernismo e as teorias que enfocam a cultura, a personalidade
e a questão da sobrevivência das comunidades tradicionais.
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Aula 12_ População tradicional e unidade de conservação
Palavras-chave: população tradicional; unidade de conservação; meio ambiente.
O conceito de “população tradicional” e os direitos desses moradores em
áreas de preservação são motivos de divergências entre ambientalistas. Os debates
se acentuaram com o reconhecimento oficial dessa população principalmente após
a promulgação do Projeto de Lei n. 27, de 1999, que instituiu o Sistema Nacional
de Unidades de Conservação da Natureza, e do decreto 4887 de 20 de novembro
de 2003, que regulamentou o procedimento para identificação, reconhecimento,
delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentesdas
comunidades dos quilombos.
Leia a seguir algumas considerações da Política Nacional de
Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais:
A implementação de políticas direcionadas a esses segmentos requer uma
definição do conceito de comunidades tradicionais. No campo teórico são
várias as tentativas de conceituação, partindo da realidade diferenciada
desses grupos frente à sociedade envolvente. Busca-se definir em que
ponto exatamente a sociedade envolvente se diferencia de todos os povos
e comunidades tradicionais clarificando, assim, quais sinais poderiam servir
como diacríticos ou elementos identificadores desse conjunto heterogêneo.
Invariavelmente, a questão primordial é o acesso à terra, ou, no caso, ao
território. Sabe-se que assegurar o acesso ao território significa manter
vivos na memória e nas práticas sociais os sistemas de classificação e de
manejo dos recursos, os sistemas produtivos, os modos tradicionais de
distribuição e consumo da produção. Isso, além de sua dimensão simbólica:
no território estão impressos os acontecimentos ou fatos históricos que
mantêm viva a memória do grupo; nele também estão enterrados os
ancestrais e encontram-se os sítios sagrados.
O território também faz parte da cosmologia do grupo, referendando um
modo de vida e uma visão de Homem e de Mundo; ele é apreendido e
vivenciado a partir dos sistemas de conhecimento, portanto, encerra
também uma dimensão lógica e cognitiva. Além de assegurar a
sobrevivência dos povos e comunidades tradicionais, os territórios
constituem a base para a produção e a reprodução dos saberes
tradicionais3
___________________________
3 Texto de 01 de setembro de 2006, consolidado com as contribuições apresentadas pelos membros
da comissão para a 2a. Reunião Ordinária da CNPCT de 30, 31 de agosto e 01 de setembro de 2006
– Brasília – DF
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Outro ponto que marca a especificidade dos povos e das comunidades
tradicionais são as características do seu processo produtivo. Defende-se que tais
segmentos se situam num contexto em que a economia – com uma lógica específica
de produção e com noções singulares acerca da “necessidade” - está à mercê das
relações sociais, enquanto na sociedade envolvente, de tradição Ocidental e modo
de produção capitalista, as relações sociais é que estão subordinadas à economia.
A discussão sobre a permanência ou retirada das comunidades tradicionais
das áreas de preservação passou a ser parte integrante dos projetos que envolvem
essas áreas, como o projeto de ecoturismo na Área de Proteção Ambiental do Rio
Curiaú, no Macapá. O território é ocupado por descendentes de quilombolas, que
têm tido participação ativa nas discussões. Antonio Carlos Diegues, diretor do Núcleo
de Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas do Brasil (Nupaub) e
professor de pós-graduação em ciência ambiental da Universidade de São Paulo, é
a favor da preservação e garantia de território para as populações tradicionais:
É injusto e antiético retirar as populações tradicionais de seu local de
residência. Além disso, é burrice, porque elas garantem a diversidade e a
população não cresce, pois a tendência de migrar para as cidades
continua”, afirmou.
Para Diegues, ao contrário do que pensavam os defensores da concepção
do mundo natural, que tem a sua biodiversidade garantida pela
intocabilidade humana, a presença da população indígena foi essencial na
manutenção da Amazônia e da Mata Atlântica. “Eles manejavam com
cultivo itinerante introduzindo plantas frutíferas que deixavam para trás
quando se mudavam. A biodiversidade era humanizada e garantida pelas
populações tradicionais e diminuirá se estas populações forem expulsas”,
explicou.
Segundo Diegues, até meados dos anos 1980, o movimento ambientalista
ignorava as populações tradicionais, embora 84% dos parques e áreas
protegidas da América Latina tenham população moradora. “Este é um
conceito de unidade de conservação importado dos Estados Unidos, e não
serve para países do Terceiro Mundo (Rossi, 2001).
REFERÊNCIAS
DIEGUES, Antonio Carlos. Arruda, Rinaldo S.V. (Orgs.). Saberes tradicionais e
biodiversidade no Brasil - Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP,
2001.
ROSSI. Daniel Soeiro. Benchmark Amapá. Caderno Virtual de Turismo. Vol 1, nº
1, 2001.
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63
Aula 13_O Brasil Indígena
Palavras-chave: Indígenas; Diversidade étnica; Diversidade cultural.
O uso de um único termo – índios – para denominar a diversidade étnica,
cultural e sócio histórica dos habitantes do território brasileiro, na época da chegada
dos portugueses, já é indicativo de quão pouco sabemos sobre estes povos e
culturas. A expressão genérica “índio” tem muito pouco conteúdo, uma vez que
muitas tribos diferem tanto umas das outras como diferem os chineses dos
brasileiros.
A figura do índio no Brasil e o espaço que ele ocupa na sociedade têm sido
concebidos de diferentes modos, muitas vezes contraditórios, ao longo da história.
Os “índios” foram percebidos pelo discurso acadêmico de modo “ambivalente”. Ora
apresentados por imagens da felicidade pura e verdadeira, de uma humanidade boa
e livre em estado de natureza, ainda não deformada pela civilização. Ora por
imagens que se contrapõem a estas mostrando culturas atrasadas, mergulhadas na
ignorância e incapazes, portanto, de participar plenamente de um estado superior de
sociedade.
Somente a partir da segunda metade do século XX começou a haver uma
ideia da dimensão cultural, social, econômica e tecnológica dessas culturas e de sua
importância na formação da sociedade brasileira.
Esse momento se caracterizou pela perspectiva de uma sociedade em rápida
expansão para os territórios indígenas a oeste. Os estudos efetuados junto a
sociedades indígenas foram, nesta época, análises de culturas em transição, e em
que o principal fator de mudança derivava de uma situação de contato com as
populações rurais brasileiras.
Diante desta realidade, o objetivo da Antropologia não poderia se resumir
apenas à descrição das culturas indígenas que iam sendo encontradas no caminho,
mas sim o de desvendar a dinâmica e o funcionamento dos processos de mudança
cultural.
Surgiram, então, estudos que revelavam um universo muito mais complexo
que o registrado em nossa história. Os índios brasileiros formavam um conjunto de
nações, algumas com as dimensões e com a população equivalente às dos países
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64
europeus da época, com costumes, língua e hábitos tão variados como os
encontrados nesses países.
Apesar de secularmente perseguidos, caçados como animais selvagens,
mortos ou escravizados e de muitos deles terem se modificado radicalmente nestes
séculos pelo convívio e mestiçagem com a gente brasileira, os indígenas não
desapareceram totalmente. Algumas tribos mantêm alguns costumes, tradições e,
sobretudo, identidade.
Essa percepção tem sido enfatizada por mudanças recentes na sociedade
brasileira expressas especialmente na Constituição de 1988, que assegurou aos
povos indígenas o direito às terras e à diferença cultural. O grande crescimento
populacional indígena observado nos últimos anos, incluiu o reconhecimento de
etnias tidas como desaparecidas e o fortalecimento da identidade que fez com que
muitos indivíduos se reconhecessem como “índios”, em vez de “brancos” ou
“negros”.
A ideia da “sociodiversidade nativa” propõe a valorização das populações
indígenas como parte integrante da sociedade nacional que passa a ser concebida
não mais como uma comunidade culturalmente homogênea nem mestiça, mas
pluriétnica.
Projeções feitas pelo linguista Aryon Dall’Igna Rodrigues (2013) indicamque
na época do descobrimento havia cerca de 1.300 línguas indígenas diferentes,
muitas das quais desapareceram sem que tivéssemos oportunidade de registrá-las.
Embora bastante diversificadas entre si, existem semelhanças que permitem a
classificação de algumas dessas línguas em troncos e famílias linguísticas. Com
base nestas semelhanças, as línguas indígenas brasileiras foram classificadas em
dois grandes troncos linguísticos: o Tupi e o Macro-Jê; e em várias famílias
linguísticas não classificadas em troncos, como Karib, Pano, Maku, Yanoama, Mura,
Tukano, Katukina, Txapakura, Nambikwara e Guaikuru.
Outras línguas não puderam ser classificadas dentro de nenhuma família e
foram classificadas como isoladas, tais como a língua falada pelos Tükúna, a língua
dos Trumái, a dos Irântxe etc.
A importância do estudo linguístico deve-se ao fato de ser a língua um dos
mais evidentes indicadores de unidade cultural, fundamenta áreas culturais e
contribui para a compreensão do mundo indígena brasileiro uma vez que a intensa
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movimentação destes povos, antes e após a colonização portuguesa, favoreceu a
diluição de possíveis fronteiras ‘geográfico-culturais’, conforme Rodrigues (2013).
Povos de língua tupi
Segundo Diegues e Arruda (2001), a língua indígena mais conhecida e a que
teve mais palavras incorporadas ao idioma brasileiro foi o tupinambá, que hoje
nomeia lugares, acidentes geográficos e objetos até em regiões onde esses índios
nunca viveram. De uma amostra de 1.000 nomes populares de aves brasileiras, 350
são nomes tupinambá e entre quinhentos nomes populares de peixes, cerca da
metade é da mesma origem.
Os tupis acabaram sendo os índios brasileiros mais conhecidos, porque foram
os primeiros a entrar em contato com os europeus. Pela mesma razão, foram
também a população que mais violentamente sofreu as consequências do contato.
De todas as tribos Tupis existentes no litoral na época da chegada dos europeus,
restaram, no final do século XX, apenas algumas tribos pequenas em locais
esparsos. Além delas, sobreviveram alguns grupos Guarani, sobretudo na bacia do
Paraná e em pontos isolados do país.
É de se supor que, à época do descobrimento, as populações tupis estavam
fechando um movimento migratório que envolveu o Planalto Brasileiro numa espécie
de anel, habitando as matas que cobriam os vales dos grandes rios e também o
litoral. Viviam desde a costa do Amazonas e ocupavam toda a costa brasileira, com
poucas interrupções, até o Paraguai e o Rio da Prata, subiam pelo Paraguai acima
e pelo Guaporé acima até o Amazonas, novamente. Era uma massa imensa de
povos, falando línguas de um mesmo tronco, em grande parte compreensíveis umas
às outras, mas eram povos, entretanto, incapazes de se unificar, de acordo com a
instância histórica em que viviam. Entre as tribos Tupi mais conhecidas estão os
Tupinambá, Guarani, Cintas-larga e Gaviões.
Povos de línguas Jê
As línguas do tronco Macro-Jê, estão espalhadas desde o sul do Maranhão e
do Pará passando pelos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São
Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os povos do tronco Macro-Jê,
em especial os da família Jê, têm difusão mais limitada que os Tupi, habitando, com
frequência, o cerrado, ainda que explorassem intensamente as florestas próximas.
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Ao todo, já foram catalogadas doze famílias e cerca de quarenta línguas Jê.
As tribos mais conhecidas são os Bororó, Xavante, Carajá, Pataxó, Caiapó e Canela.
Os estudos sobre hábitos e costumes dos Jê só começaram a ser realizados no
século XX, mas ainda não foram disseminados no imaginário popular dominado
pelas imagens oriundas da cultura tupi.
As línguas Karib
As tribos que falam línguas Karib concentram-se, sobretudo, na região
setentrional da América do Sul. No Brasil, há alguns grupos no Amapá, Roraima,
norte do Amazonas e Pará e em áreas isoladas do Mato Grosso. Até hoje foram
identificadas 21 línguas desse tronco, e as tribos mais conhecidas são os Kalapalo,
Kuikuru e Waimiri- Atroari
Área de línguas Arúak
Constituída por cerca de duas dezenas de línguas, a família linguística Arúak
congrega falantes na região oeste do país e no extremo norte da Amazônia. Essa
família linguística foi identificada apenas no início do século atual. Entre as tribos
mais conhecidas que falam as línguas desse tronco estão os Terena (no Amazonas),
os Parecis (no Mato Grosso), Yawalapiti e Waurá.
REFERÊNCIAS
DIEGUES, Antonio Carlos. Arruda, Rinaldo S.V. (Orgs.). Saberes tradicionais e
biodiversidade no Brasil - Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP,
2001.
RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas indígenas brasileiras. Brasília, DF:
Laboratório de Línguas Indígenas da UnB, 2013. 29p. Disponível em:
http://www.laliunb.com.br Acesso em 10/04/2023.
http://www.laliunb.com.br/
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67
Aula 14_O Brasil Afro
Palavras-chave: cultura afro-brasileira; remanescente de quilombos; diversidade
cultural.
O quilombo constituiu questão relevante desde os primeiros focos de
resistência dos africanos ao escravismo colonial, reapareceu com a Frente Negra
Brasileira (1930/40) e retornou à cena política na década de 1980, durante a
redemocratização do país. Falar dos quilombos e dos quilombolas no cenário político
atual é, portanto, falar de uma luta política e, consequentemente, uma reflexão
científica em processo de construção.
Embora pareça pertinente igualar a questão das terras de quilombos às terras
indígenas, ambas são semelhantes apenas quanto aos desafios e embates já
visíveis no plano conceitual e no plano normativo. Não por acaso, há esta relação
emblemática entre as lutas indígenas pela demarcação de terras e a dos
afrodescendentes pela titulação das áreas que ocupam (Arruti, 2006), em alguns
casos, há mais de um século.
O traçado da fronteira étnico-cultural no interior do Brasil esteve sempre
marcado pela preservação do território invadido e ocupado no processo colonial e
por inúmeros conflitos de terra que remontam aos dias atuais.
Nesse sentido, é possível falar de uma antropologia das sociedades indígenas
que enfocou, durante todo o último século, como tema de reflexão a autonomia
cultural destes povos e a sua luta pela demarcação das terras.
Nos últimos vinte anos, os descendentes de africanos, organizados em
Associações Quilombolas, reivindicam o direito à permanência e ao reconhecimento
legal de posse das terras ocupadas e cultivadas para moradia e sustento, bem como
o livre exercício de suas práticas, crenças e valores considerados em sua
especificidade.
Em diversas situações, índios e negros lutaram contra os variados
procedimentos de expropriação de seus corpos, bens e direitos. Os negros,
diferentemente dos índios, enfrentaram muitos questionamentos sobre a
legitimidade de apropriarem-se de um lugar cujo espaço pudesse ser organizado
conforme suas condições, valores e práticas culturais.
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68
A repressão policial aos terreiros de Candomblé e aos bairros periféricos por
eles habitados constitui exemplos recentemente discutidos pela História e pela
Sociologia Política. A exclusão se deu, principalmente, em função das práticas
sociais que prefiguram o quadro de mobilidade, do que propriamente no imaginário
social da nação.
A primeira Lei de Terras, datada de 1850, exclui os africanos e seus
descendentes da categoria de brasileiros, situando-os numa outra categoria
separada denominadas “libertos”. Desde então, atingidos por todos os tipos de
arbitrariedades, os afrodescendentes foram sistematicamenteexpulsos ou
removidos dos lugares que escolheram para viver, mesmo quando a terra chegou a
ser comprada ou foi herdada de antigos senhores por meio de testamento lavrado
em cartório.
O quilombo, então, na atualidade, significa um direito a ser reconhecido e não
propriamente apenas um passado a ser rememorado. Inaugura uma espécie de
demanda na política nacional: afrodescendentes, partidos políticos, cientistas e
militantes são chamados para definir o que vem a ser a área remanescente de
quilombo e quem são os quilombolas e seus descendentes.
A partir da Constituição Federal, promulgada em 1988, o Artigo 68 das
Disposições Transitórias prevê o reconhecimento da propriedade das terras dos
remanescentes das comunidades dos quilombos. O debate ganhou o cenário político
nacional. Por trás de algumas evidências, pistas e provas surgem novos sujeitos,
territórios, ações e políticas de reconhecimento. Delineiam-se, desde então, novas
questões de identidade que perpassam as lutas por cidadania e sua versão, trágica
e festiva: a folclorização.
REFERÊNCIA
Arruti, José Maurício. 2006. Mocambo - História e Antropologia do Processo de
Formação Quilombola. Bauru/São Paulo: EDUSC/ANPOCS.
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69
Aula 15_Cultura e Meio Ambiente
Palavras-chave: destruição ambiental; industrialização; desenvolvimento
sustentável.
Na década de 1970, a ONU realizou várias conferências internacionais
centradas nas questões ambientais. As teses defendidas em Estocolmo (1972),
Belgrado e Tblisi (1977), entre outras, conhecidas como Relatório Meadows4,
defendiam a paralização imediata e total do crescimento econômico mundial como
único meio capaz de evitar uma catástrofe ambiental generalizada que se fazia
antever como resultado do modelo de desenvolvimento “a qualquer custo”.
Embora o diagnóstico estivesse essencialmente correto, a proposta
de crescimento zero era inadmissível tanto para os países industrializados, e,
portanto, para as grandes corporações transnacionais cujo único interesse era a
preservação de sua taxa de lucros,5 como para os países em desenvolvimento ou
mesmo para os subdesenvolvidos. As delegações do Terceiro Mundo defendiam o
direito de percorrer a mesma a trajetória de desenvolvimento econômico já trilhada
pelos países do mundo industrializado. Sem crescimento, como poderiam superar o
atraso e a miséria? Nesta perspectiva, era uma proposta no mínimo injusta daqueles
que só lembravam da natureza depois de tê-la destruído. Para os países em
desenvolvimento, a proposta do chamado Primeiro Mundo significava o
congelamento da desigualdade.
No entanto, iam se tornando cada vez mais evidentes as consequências do
desenvolvimento econômico mundial desnudado, não apenas pela poluição
industrial, mas também pelo crescimento da miséria e pela irracionalidade da
violência que pode ser vista em conflitos, como o do Vietnã e Biafra, por exemplo
Começou a ruir a “mitoideologia global de que as sociedades hiperindustriais
conduziriam ao bem-estar generalizado”6.
_______________
4Meaduss, D. et al. “Limites do Crescimento”. São Paulo. Perspectiva, 1972. Relatório de Meadows,
Relatório do Clube de Roma.
5Diegues. Desenvolvimento sustentável ou Sociedades Sustentáveis?
6Carvalho, Edgard de Assis. “Desordens e Reorganizações do Processo Civilizatório”
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70
Na década de 1980, o enfoque se deslocou para a sustentabilidade da
atividade humana. O problema ambiental não estaria no desenvolvimento em si, mas
no modelo de desenvolvimento (crescimento econômico) incapaz de satisfazer “as
necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras
satisfazerem as suas”7.
O relatório de Brudtland procurou sintetizar o que seria, afinal, o
desenvolvimento sustentável enquanto conciliação entre as teses de crescimento
zero e a dos desenvolvimentistas da década anterior. Os modelos atuais de
desenvolvimento foram considerados inviáveis, uma vez que seguem padrões de
crescimento econômico insustentáveis (biológica, econômica e socialmente) a longo
prazo.
Introduziu-se no debate uma dimensão ético-política. Desenvolvimento
pressupõe movimento e, portanto, um processo de mudança social e cultural. Por
outro lado, a sustentabilidade não pode ser pensada ou avaliada somente em termos
“ambientais”. Desenvolvimento sustentável seria, assim, uma espécie de correção
de rumo, “uma retomada do crescimento a fim de torná-lo menos intensivo” no
consumo de matérias-primas e mais equitativo para todos. Bastaria, para tanto, o
desenvolvimento e a implantação de políticas públicas e industriais de ajuste
baseadas nas chamadas “tecnologias doces” e na inversão do fluxo financeiro via
compensação e “ajuda” dos países ricos para os mais pobres.
No âmbito da sociedade civil, o movimento ambientalista surgiu como
manifesto pela sobrevivência de animais e ecossistemas ameaçados pela ação
destruidora do homem moderno. Enquanto movimento social, o discurso ecológico
contemporâneo se insere numa crítica mais ampla ao modelo civilizatório da
sociedade tecno industrial.
_______________
7 Relatório de Brundtland. “Nosso Futuro Comum”. CMMAS/ONU
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71
O processo de destruição ambiental está intrinsecamente ligado à natureza
da civilização, processo sócio-histórico no qual o Homem se considera Senhor da
Natureza, faz com ela o que bem entender. Nesse sentido, existe um laço de
identidade entre os diversos movimentos sócio-político-culturais contemporâneos.
Todos têm como base a crítica a um desenvolvimento civilizacional que não trouxe
o equivalente desenvolvimento para o homem nem representou as possibilidades de
superação dos seus pesadelos (guerras, violência, alienações). Pelo contrário, na
verdade, apenas os potencializou e instrumentalizou.
As lutas pela conservação da natureza, assim como pelos direitos humanos e
das minorias ou por melhores condições de trabalho e de vida, não se colocam como
movimentos contra o desenvolvimento ou contra o progresso, mas contra um certo
desenvolvimento e um certo progresso e contra um modelo de sociedade que produz
cada vez mais miséria e destruição.
É preciso transformar radicalmente os padrões de produção e consumo
da sociedade tecnoindustrial ao mesmo tempo em que devemos erradicar a miséria
a fim de diminuir exclusões e desigualdades sociais. O meio ambiente não é apenas
mais uma variável a ser incorporada às planilhas de custos ou aos “isocertificados”
industriais. Não é apenas mais uma disciplina a qual se possa delegar o
desvendamento da verdade científica.
Reverter o processo de “agonia planetária” pressupõe a construção de uma
nova ética, uma nova postura do homem diante da natureza e, portanto, de si
mesmo. A partir de então devemos formular alternativas e apontar caminhos que
imaginem formas outras de sociabilidade e desenvolvimento.
O debate ambiental é, antes de mais nada, a luta pela garantia ao direito a
outras formas de vida, bem como de ecossistemas, animais, homens e ideias. O
debate deve, ainda, inserir-se nas questões contemporâneas não como um retorno
a um passado imaginado, mas renovado diante desta perspectiva e projetado para
o amanhã.
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72
Procuramos atualmente por novos modelos de “desenvolvimento” baseados
em tecnologias menos agressivas, em modelos societários menos agressivos e em
uma visão renovada da natureza 8 como única forma de afastar as ameaças de
destruição que pairam sobre a vida no planeta. Sem a compreensão também
renovada da cultura e dos ensinamentos que ela pode nos oferecer, este desafio
será,especulativas que tendem a associar as antigas construções à presença de
seres extraterrestes no planeta ou a outras teorias de natureza esotérica. Entretanto,
enquanto ciência, a Arqueologia não se ocupa dessas teorias, pois dedica-se, antes,
a demonstrar as possibilidades e a tecnologia utilizada nessas construções feitas, no
seu entender, pelas mãos humanas.
Antes de mais nada, a Arqueologia é uma ciência preocupada com a
compreensão da cultura material dos povos do passado e do presente. Interessa ao
arqueólogo tanto o monumento de grande porte — tais como as construções
arquitetônicas mortuárias representadas pelas pirâmides — como também os
pequenos objetos de uso cotidiano pertencentes às pessoas comuns do passado.
Além dessas evidências arqueológicas, a Arqueologia também estuda os ecofatos e
biofatos. Os ecofatos são os vestígios do meio ambiente e restos de animais
associados aos seres humanos. E os biofatos são os elementos da natureza a que
se atribuem um valor religioso ou cultural.
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7
Portanto, a Arqueologia é uma ciência social que busca a compreensão das
culturas do passado e do presente por meio do resgate e da análise da cultura
material. O homem é um ser social que age em grupo e que interage com o meio
ambiente e produz vestígios, intencionais ou não, que constituem a matéria-prima do
arqueólogo. Para este cientista, interessa saber como os povos do passado se
relacionavam entre si, quais eram as estruturas sociais, como cultuavam a morte,
em que deuses acreditavam, a base de sua economia, as relações de parentesco,
sua arte, tecnologia, visão de mundo, como se relacionavam com outros povos, em
que época viveram, como era o meio ambiente no momento em que se processaram
as relações sociais, qual o tamanho da área de captação de recursos destes povos,
enfim, qual sua cultura.
Sabemos que a maior parte destas perguntas nunca serão respondidas com
absoluta precisão, pois o arqueólogo(a) tem acesso apenas a alguns fragmentos do
passado, o que torna impossível resgatá-lo em sua plenitude. Ademais, boa parte
dos restos materiais produzidos pelos grupos humanos do passado são de origem
orgânica (fósseis, palha, cestaria, penas, madeira), ou seja, de rápida
decomposição.
Mas, mesmo diante a essas adversidades, o arqueólogo(a), através de um
rigoroso trabalho científico, busca, através dos artefatos arqueológicos,
compreender como as sociedades que os produziram, se estruturavam, como eram
seus modos de vida. E, a cada nova resposta descoberta pelo arqueólogo(a), novas
perguntas são formuladas, e é nesse devir – movimento ininterrupto do tempo – que
se produz o conhecimento arqueológico.
Esse conhecimento é construído a partir das diferentes escolas
arqueológicas, das quais emergem diversas definições, objetivos e perspectivas, que
se aproximam em alguns pontos e afastam-se em outros. Entre essas escolas pode-
se destacar: a Escola Histórico-Culturalista, a Escola Processualista (ou nova
arqueologia) e a Escola Pós-Processualista.
Em face da complexidade que envolve a pesquisa e a produção do
conhecimento arqueológico, é importante apresentar alguns conceitos sobre a
definição de Arqueologia. Segundo o Arqueólogo Philip Rahtz (1989, p. 9):
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8
Arqueologia é o estudo da cultura material em sua relação com o
comportamento humano – as manifestações físicas das atividades do
homem, seu lixo e seu tesouro, suas construções e seus túmulos. Ela se
ocupa também do ambiente em que o humano se desenvolveu e no qual o
homem ainda vive. Isso pode incluir fatores sobre os quais ele tem pouco
ou nenhum controle, como as manchas solares, o clima e as marés; pode
incluir também o modo como o homem, entre outros animais (mas numa
extensão muito maior do que, por exemplo, os castores), transformou a
paisagem, o mundo animal e, recentemente, a atmosfera; e a química do
mar, dos lagos e dos rios.
E, nos dizeres de Gaspar (2000, p.7) de um modo mais sintético: “a
Arqueologia é a ciência que estuda as culturas e partir do seu aspecto material,
constrói suas interpretações através da análise dos artefatos, seus arranjos
espaciais e sua implantação na paisagem”. Já Funari (2003, p. 15), define que “[...]
a Arqueologia é o estudo da cultura material que busca compreender as relações
sociais e as transformações na sociedade”.
É importante dizer que a Arqueologia é uma ciência que já nasce
interdisciplinar. Portanto, o arqueólogo(a) deve saber dialogar com diversos ramos
do conhecimento durante os trabalhos de escavação, de laboratório, de análise dos
dados e de divulgação dos resultados. Dessa forma, conhecimentos de geologia,
geomorfologia, biologia, botânica, cartografia, física (datações), antropologia,
geografia, museologia e história são imprescindíveis para a Arqueologia. É claro que
o grau de conhecimento nestas diversas áreas é adequado ao tipo de trabalho ao
qual o arqueólogo se dedica, porém o mais importante é saber dialogar com estas
ciências e com os diversos especialistas, pois ninguém faz Arqueologia sozinho.
É verdade que o número de arqueólogos tem aumentado, mas a informação
aumenta muito mais rapidamente. As escavações e os achados fortuitos
contribuem para este crescimento, mas são, sobretudo, as técnicas
modernas que proporcionam a descoberta de informações inéditas,
particularmente, graças às ciências naturais. Esta situação é ainda
agravada pela desproporção, que parece difícil de ultrapassar, entre os
meios postos à disposição dos arqueólogos para reunir os dados e os meios
que se lhe atribuem para tratá-los e publicá-los. Este paradoxo deve-se a
uma superstição perniciosa corrente também entre os arqueólogos: pensar
que um resultado arqueológico consiste numa escavação ou num achado.
A verdade é muito diferente: um achado é apenas um começo, o início de
um processo pelo qual o arqueólogo é responsável, ou seja, a enorme
acumulação de dados inutilizáveis que caracteriza esta orientação científica
já tem efeitos paralisantes (Moberg, 1985, p. 70).
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Podemos então perceber que a Arqueologia é uma ciência de grande rigor,
interdisciplinar desde a origem, cujo principal objetivo é o entendimento das culturas
do passado e do presente por meio do resgate e da compreensão da cultura material.
Nas palavras de Louis Frédéric:
A fim de poder colocar, num dado contexto, a vida de um indivíduo ou de
um grupo, é preciso, com efeito, possuir conhecimentos extremamente
extensos em todos os domínios da atividade humana, tanto da evolução do
pensamento, como das condições materiais da existência, o que supõe uma
vida cheia de experiência e de reflexão. O arqueólogo deve ser um filósofo,
um homem “que conhece a vida”. Deve poder interpretar num sentido
humano a menor das suas descobertas [...] (Frédéric, 1989, p. 44).
E, um pouco mais adiante, diz o mesmo autor “são primordiais os
conhecimentos históricos que, necessariamente, têm de ser sérios, mas o são
igualmente os conhecimentos das línguas atuais e antigas da região estudada, bem
como uma formação geral de etnólogo”. (Frédéric, 1982, p. 44).
A Arqueologia se constituiu como ciência a partir da busca pela compreensão
racional do passado, que começou no Renascimento, na Idade Moderna, quando o
interesse pela cultura greco-romana e seus valores científicos foram revitalizados em
clara oposição ao pensamento teocêntrico vigente no período medieval. A busca por
vestígios materiais da antiguidade greco-romana se caracterizou pela tentativa de
encontrar os monumentos e locais descritos nos textos clássicos que, graças aos
árabes, foram preservados e voltaram a ser lidos na Europa. Em termos sociais, o
movimentosem dúvida, intransponível para a racionalidade pragmática.
REFERÊNCIA
Diegues, Antonio Carlos. Arruda, Rinaldo S.V. (Orgs.). Saberes tradicionais e
biodiversidade no Brasil - Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP,
2001.
_____________________
8 “une conception renouvelée de la Nature”. Déclaration de Venise. annexe 1, p. 275
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73
Aula 16_Multiculturalismo e identidade
Palavras-chave: multiculturalismo; globalização; identidades.
O multiculturalismo pode ser compreendido como um sintoma de
transformações sociais ocorridas no mundo após a Segunda Guerra Mundial. Pode
ser visto também como uma ideologia de uma sociedade mais justa e igualitária no
respeito às diferenças.
Consequência de múltiplas misturas raciais e culturais provocadas pelo
incremento das migrações em escala planetária, pelo desenvolvimento dos estudos
antropológicos, do próprio direito e da linguística, além das outras ciências sociais e
humanas, o multiculturalismo é, antes de tudo, um questionamento de fronteiras de
todo o tipo, principalmente da monoculturalidade e do conceito de nação nela
baseado.
O multiculturalismo é hoje um fenômeno mundial. Costuma, porém, ser
considerado um fenômeno típico dos países desenvolvidos, porque estes países têm
especificidades que são favoráveis à sua eclosão. Essa especificidade é “histórica,
demográfica e institucional”.
Enquanto ideal de sociedade, este fenômeno surgiu em alguns países
europeus, que há muito tempo estão tentando lidar com as diferenças étnicas, raciais
e culturais, a partir de um conjunto de medidas públicas. Esses países receberam
uma forte imigração, sobretudo a partir do segundo pós-guerra, formando as, assim
chamadas, sociedades multiculturais nas quais existe uma relação entre discursos,
leis e práticas multiculturais.
Segundo Lívio Sansone (2005), nas bases do multiculturalismo nesses países
encontram-se três fontes clássicas.
Pacto social: É o compromisso do Estado e de parte das elites cuidar dos
excluídos e dos pobres. Nesse sentido, os pobres são pensados como passíveis de
medidas legislativas particulares que visam sua incorporação às camadas médias
da sociedade.
Passado colonial: Pode-se falar de diferentes estilos de colonialismo: a) o
sistema britânico do indirect rule, ou governo indireto; b) o sistema das sociedades
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74
plurais como, por exemplo, a do Império holandês, que se baseia na existência de
um direito étnico. Assim, no Suriname, até os anos 1930, o direito civil e, em alguns
casos, o penal variavam segundo o grupo étnico. Um sistema não muito diferente
valia na África do Sul sob o regime do apartheid, não por acaso, uma palavra
holandesa; e c) no extremo oposto, existia a versão do colonialismo do Império
francês, que era baseada na noção de francité, de universalismo, e na atratividade
de uma ocidentalização possível para uma parcela da população “nativa”.
Todos esses estilos de colonialismo previam a institucionalização de algum
tipo de etnicidade dos direitos e deveres, embora muitas vezes associados a um
discurso de igualdade e de respeito à diferença. De qualquer forma, os três estilos
levaram a hábitos étnicos e culturais e a consensos que se mostraram tenazes e
capazes de influenciar bastante a época pós-colonial. Nos últimos anos, porém,
esses sistemas estão sendo colocados em discussão pelo contexto de
internacionalização que altera a relação entre colônia e metrópole, a partir das
grandes migrações e da globalização das culturas. Nas últimas duas ou três
décadas, a colônia passou a ir à metrópole e, ao mesmo tempo, a metrópole
permaneceu na colônia enraizando-se nela ainda mais. Nunca se falou tanto a língua
holandesa no Suriname ou a francesa no Mali como hoje em dia.
Regionalismo: Diz respeito às formas de lidar com as diferenças étnicas
e regionais internas desses países europeus. Trata-se do dito “regionalismo” de
alguns países que se afirmam como Estados-nação na Europa a partir de um
compromisso com as diferenças culturais regionalizadas, redistribuindo recursos e
poder político para minorias e “colônias” internas. Refiro-me aos catalães, bascos,
bretões, gauleses, sardos, corsos etc.
É evidente que nem todos os países da Europa são atingidos da mesma forma
por esses três fenômenos: pacto social, passado colonial e regionalismo. Um
determinado país pode dar prova de generosidade e tolerância com relação ao pacto
social, mas não ao regionalismo e vice-versa.
O Conselho da Europa, num esforço de pragmatismo e postura ecumênica,
optou por dividir, de outra forma, os países europeus com relação à
multiculturalidade salientando a variedade. Por um lado, haveria os países onde a
nacionalidade seria vista como o começo da integração, como a França. Por outro
lado, haveria países, como a Alemanha, em que a nacionalidade seria vista como o
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resultado final do processo de integração. Na Alemanha, Suíça e França, haveria
maior ênfase com relação à cidadania, enquanto na Holanda, Suécia, Noruega e
Dinamarca a ênfase estaria no pluralismo cultural. A Inglaterra é um caso à parte,
pois a ênfase não é no pluralismo cultural, mas na luta contra o racismo. Nesse
sentido, a Inglaterra é o único país europeu em que as agências governamentais
falam de relações raciais em lugar de relações Inter étnicas.
De qualquer forma, em todos esses países, a diversidade étnica, resultado da
imigração, apresentou-se como um choque, porque colocou em discussão o pacto
social. Nesse sentido, a imigração em massa tem tido um efeito quase revolucionário
sobre a realidade social dos países em questão.
Os estudos sobre a situação nos Estados Unidos mostram um descompasso
entre os discursos e as práticas, o risco de se utilizarem as bandeiras
multiculturalistas como forma de segregação. O multiculturalismo, assim, torna-se
paliativo. Isso é compreensível, sobretudo, no quadro histórico em que se deu, desde
o século passado, o tratamento da imigração nesse país através do chamado melting
pot de alguns povos e do desmantelamento das identidades de outros, considerados
inassimiláveis.
Outros países que não têm, necessariamente, as mesmas condições que os
Estados Unidos, ou seja, a existência de instituições democráticas de uma economia
pós-industrial em via de globalização e de forte entrada de imigrantes, também
apresentam esse fenômeno. Entre eles encontram-se Canadá, Austrália, México e
Brasil especialmente devido à presença de “minorias nacionais autóctones”, por
longo tempo, discriminadas.
Não podemos esquecer de que na América Latina, as nações não são
homogêneas e a modernidade não é linear, mas elas são palco de múltiplas
temporalidades. A identidade é fator enriquecedor. O múltiplo e, cada vez mais
múltiplo, pertencimento dos indivíduos representado pelas ambivalências e
identidades ambíguas que se combinam como a identidade continental, nacional,
regional, local, de idade, de gênero, étnica, profissional e de classe. A diversidade
cultural e étnica é vista como desafio para a identidade da nação, mas também como
fator de enriquecimento e abertura de novas e múltiplas possibilidades.
Reconhecer o peso das identidades culturais ou étnicas não significa
esquecer o apartheid econômico que compõe a triste realidade cotidiana. Persistem
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inúmeros obstáculos entre a integração formal dos negros, dos latino-americanos,
dos índios, das mulheres, dos homossexuais e outros grupos sistematicamente
discriminados na sociedade do bem-estar, da democracia e da integraçãoreal. O
alargamento da base social com a assimilação dos antes considerados
“inassimiláveis” provoca uma reconfiguração do quadro econômico e social do país.
A partir dos anos 1980, assistimos a um movimento de fortalecimento de
identidades étnicas como aglutinadores de movimentos sociais reivindicatórios. O
MST, o levante indígena de janeiro de 2000 no Equador, o Exército Zapatista de
Libertação nacional de Chiapas e a eleição de Evo Morales na Bolívia são alguns
indicadores de tentativas de transformação social e signos de uma nova
racionalidade que se constrói na América Latina e que procura fazer frente a
questões como igualdade, dignidade e respeito à diferença.
REFERÊNCIA
SANSONE, Lívio. O Estado e o multiculturalismo. Cienc. Cult. vol.57 nº.3 São
Paulo July/Sept. 2005.
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Resumo Unidade IV
Nesta unidade, estudamos as contribuições da arqueologia, da etnologia e da
antropologia para a compreensão das sociedades indígenas pré-coloniais e atuais.
Discutimos também as questões relativas à sua integração. Estudamos, ainda, as
contribuições dessas disciplinas para o aumento da compreensão da questão da
integração dos afrodescendentes na cultura brasileira.
Estudamos, finalmente, as principais consequências de múltiplas misturas
raciais e culturais provocadas pelo incremento das migrações em escala planetária
no desenvolvimento das ciências sociais e humanas. Em especial, estudamos o
multiculturalismo que é, antes de qualquer coisa, um questionamento de fronteiras
de todo o tipo, principalmente da monoculturalidade e, com esta, de um conceito de
nação nela baseado.de revalorização da cultura clássica antiga em seus escritos e produções
artísticas e arquitetônicas era um modo de criar sustentação ou justificativas
históricas para a proposta de um novo tipo de cultura centrada na razão e não mais
na fé, como fora na Idade Média.
Do ponto de vista material, o grande salto, viria séculos depois com a
descoberta das ruínas de Herculano (1738) e de Pompeia (1743), cidades italianas
que haviam sido soterradas pela erupção do Vesúvio, no primeiro século da era
cristã. Esta descoberta proporcionou aos arqueólogos uma visão bastante realista
de um modo de vida clássico em seu cotidiano: casas, utensílios domésticos, modos
de vida, roupas, adornos, tornando-se um patrimônio da humanidade e, ainda hoje,
bastante estudado.
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A Europa desse período vivia a época da expansão colonialista de dominação
de terras e mercados nos outros continentes. Tal expansão foi acompanhada de uma
onda de “expedições arqueológicas” europeias. É bastante famosa a espoliação do
Egito (1798) pelo exército napoleônico, inúmeros artefatos, obras de arte, até partes
de templos e palácios foram levados do Egito para a França. Tais objetos, hoje,
fazem parte do acervo dos principais museus do ocidente, o que, na
contemporaneidade, fez acender o debate sobre uma possível devolução de tais
objetos a seus países de origem.
As descobertas arqueológicas fizeram aumentar o conhecimento sobre o
tempo de existência humana na Terra, incitando a elaboração de diversas teorias
associando as ocupações humanas a glaciações. Os acalorados debates que se
seguiram desembocaram na elaboração da teoria das “três idades” — amplamente
utilizada para períodos pré-históricos e de grande valor para a Europa. As três idades
são: o período da pedra lascada (Paleolítico), o da pedra polida (Neolítico) e a Idade
dos Metais.
Segundo Carl-Axel Moberg:
O debate endureceu rapidamente e a resistência a estas ideias foi muito
forte até Boucher de Perthes. Foi efetivamente ele quem elaborou, em 1859,
a primeira teoria correta sobre a época das últimas glaciações, o período da
pedra antiga ou paleolítico (Moberg, 1985, p. 32).
A importância da teoria das três idades para o desenvolvimento da
Arqueologia é inegável, mas é igualmente importante perceber que esta é uma
formulação, de certo modo, ingênua, e não se aplica às outras regiões do globo, pois
as especificidades locais e das culturas envolvidas exigem outras interpretações e
técnicas para sua compreensão. Estas particularidades serão abordadas na próxima
unidade.
No entanto, estes estudos trouxeram progressos aos estudos arqueológicos
como as primeiras grandes classificações cronológicas, principalmente a partir dos
estudos de numismática (moedas), em que destacamos os trabalhos de Thomsen
(1824) no Museu de Copenhagen. O rigor científico do século XIX, a decifração dos
hieróglifos egípcios por Champolion, que estudou o “acervo” egípcio francês
“coletado” por Napoleão, fomentou o aparecimento de novas técnicas, novos
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arqueólogos e trabalhos arqueológicos produzidos fora da Europa, nos E.U.A,
Rússia, China, e América Latina, acompanhados de preocupações e mudanças de
conduta quanto à importância da preservação e musealização da cultura material.
Esse processo levou a que, no final do século XIX e início do século XX, a
Arqueologia se constituísse como disciplina científica, tendo como base um método
específico e um conjunto de procedimentos e conceitos que norteiam o ofício do
arqueólogo(a).
Citaremos apenas alguns exemplos dos termos mais comuns presentes no
trabalho de pesquisa do arqueólogo(a):
Cultura material
Todo produto, intencional ou não, é oriundo da interação do homem com o
meio ambiente. Inclui desde artefatos de uso cotidiano ou religioso até o lixo
produzido pelos grupos humanos.
Sítio arqueológico
Local em que se processaram as relações sociais do passado e no qual se
encontram a grande maioria dos vestígios arqueológicos.
Escavação
Técnica amplamente aplicada nas pesquisas arqueológicas e nos sítios
arqueológicos com finalidade de obtenção dos testemunhos das ocupações
humanas. Não busca apenas os objetos, mas todas as informações pertinentes à
coleta de dados, como análise das camadas estratigráficas, solo, rochas, entre
outras informações.
Decapagem
Técnica aplicada durante as escavações que consiste na retirada de camadas
por níveis estratigráficos artificiais (quando sua espessura é arbitrada pelo
arqueólogo, por exemplo, de 10 em 10 cm.) ou naturais (obedecendo às camadas
estratigráficas do solo).
Testemunhos
São os objetos materiais existentes nos sítios arqueológicos, como artefatos
de todos os tipos de matéria-prima orgânica ou inorgânica (lítico, metal, osso,
cerâmica).
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Vestígios
Objetos encontrados nos sítios arqueológicos, inclusive os fragmentos, como
estilhas (restos de rocha bastante pequenos produzidos no momento de lascamento
de um artefato, como um polidor, lâmina de machado...), lascas (restos líticos,
também produzidos no momento do lascamento; muitas vezes, as próprias lascas já
eram utilizadas como ferramentas pelos grupos humanos).
Sepultamentos
Enterramentos intencionais — podem ser individuais ou não. Muitas vezes, os
corpos sepultados são encontrados juntamente com material associado ao(s)
indivíduo(s), como ferramentas, armas ou objetos de adorno.
Indícios
Qualquer sinal que indique a existência de um sítio arqueológico: restos de
material que sofreram ações antrópicas (humanas) na superfície do solo, marcas de
estaca (bastante comum na arqueologia brasileira, indica a construção de
habitações, cabanas ou vestígios de antigas habitações), modificações na paisagem,
como sinais de derrubada de vegetação, marcas de fogueira entre outras.
Sondagem
Técnica de pequenas perfurações para determinar a extensão do sítio
arqueológico. Podem ser trincheiras, além de uma busca do evidenciamento de um
perfil arqueológico, o que permite ao arqueólogo a observação das camadas
estratigráficas do sítio, fundamental para entender o processo de ocupação do local.
Quadriculamento
Após a determinação da extensão do sítio arqueológico, seu devido
mapeamento com a determinação de sua cota altimétrica (altura em que se encontra
em relação ao nível do mar), orientação, inclinação, mapeamento, plotagem em
cartas, entre outros registros como fotos e filmagens. O sítio é quadriculado
artificialmente para auxiliar o processo de escavação.
Cada sítio arqueológico possui uma característica própria, e cabe ao
arqueólogo a escolha das melhores técnicas e procedimentos a serem utilizados em
função dos objetivos da pesquisa arqueológica que está sendo desenvolvida. Toda
escavação é uma destruição e, após a retirada de qualquer material arqueológico, o
processo é irreversível.
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Datações
Existem diversos métodos de datação: termoluminescência; comparativos —
quanto os estilos de fabrico de técnicas de fabrico: por provas textuais; estratigrafia;
ou cronologias relativas (com bases geológicas, petrográficas, paleontológica, bem
como através das amostras de guano, ou vermitídeos) etc. Dentre todos, o método
de datação absoluta para qualquer material orgânico é o Carbono 14.
Segundo Louis Frédéric:
Sabe-se que os vegetais, ao absorver o gás carbônico da atmosfera, CO,
transformam-no retendo nos seus tecidos um isótopo de carbono 12 [...]
chamado carbono 14, o qual é introduzido na atmosfera pela ação dos raios
cósmicos ao bombardear o azoto com nêutrons lentos, [...]. Este C 14
combina-se como oxigênio atmosférico para formar CO2 radiativo. Todos
os seres vivos são formados por carbono, tirado mais ou menos diretamente
das plantas [...] e contém, por isso, também, carbono 14 radiativo e,
consequentemente, sujeito a uma desintegração. Durante a sua vida, os
seres ou plantas absorvem C 14 com o CO2 atmosférico. À sua morte cessa
esta absorção e a quantidade de C 14 contida nos tecidos começa a diminuir
(desintegrar-se) enquanto a de carbono 12 permanece constante. A
desintegração do carbono 14 segue a de todos os corpos radiativos e é
calculada em 1 meia-vida’, o que quer dizer que perde metade do peso
atômico no espaço de cerca de 5700 anos. A metade restante leva ainda
5730 anos para se desintegrar, e assim sucessivamente até o
desaparecimento quase total. Ficam sempre traços infinitesimais, não
detectáveis (Frédéric, 1982, p. 262).
REFERÊNCIAS
FRÉDÉRIC, Louis. Manual Prático de Arqueologia. Coimbra: Livraria Almeida,
1982.
FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2012.
GASPAR, M. Sambaqui: Arqueologia do Litoral Brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar,
2000.
MOBERG, A.C. Introdução à Arqueologia. Lisboa, Edições 70, 1985.
RAHTZ, P. Convite à Arqueologia. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
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Aula 03_Especialidades da Arqueologia
Palavras-chave: Arqueologia pré-histórica; Arqueologia clássica; Arqueologia
histórica.
A Arqueologia possui áreas distintas de especializações, em função de
diferentes culturas, locais e épocas. Nesta aula, apresentamos um panorama de
algumas das principais áreas de atuação. Também apresentamos os principais
conceitos que, em linhas gerais, são adotados na maioria das especializações.
Arqueologia Pré-histórica
Arqueologia pré-histórica é a parte da Arqueologia que procura decifrar um
dos grandes dilemas da humanidade: a sua própria origem. As pesquisas nessa área
concentram-se na busca de evidências do aparecimento do homem na Terra. Até o
momento, os chamados hominídeos constituem a evidência mais antiga desse
aparecimento, há cerca de 12 milhões de anos.
Entretanto, no que se refere à cultura, principal característica do ser humano,
supõe-se que estes grupos tenham se tornado “produtores de cultura” há,
aproximadamente, 5,5 milhões de anos.
Além da existência de cultura, dois outros traços são fundamentais na
caracterização do ser humano e na sua distinção em relação aos outros primatas
superiores: o andar bípede e o polegar opositor que proporcionaram ao homem a
capacidade de construção de artefatos. Segundo André Leroi Ghouran, conta-se,
na verdade, com diferentes espécies de seres humanos:
Ramaphitecus: 12 milhões de anos. Trata-se do antropoide mais antigo e
habitante da África. Andava de maneira bípede e se acredita que foi o primeiro a
descer das árvores. Na verdade, pouco ou quase nada se sabe a respeito deste
primeiro ancestral.
Australopithecus: há 5 milhões de anos uma série de espécies recebem
este nome em função de diferenças anatômicas e genéticas. São classificados como
Australopithecus Bolsei, Australopithecus Africanus, Australopithecus Afarensis
entre outros.
Homo Erectus: 1 milhão de anos. Também conhecido como Pithecantro-pus,
é apontado como o responsável pela ocupação humana da Ásia e da Europa, a partir
da África.
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Homo Neanderthalensis: 250 mil anos. Foi encontrado no vale de Neander
na Alemanha. Durante muito tempo, foi considerado o antecessor imediato do Homo
sapiens. Atualmente, sabe-se que eram espécies distintas. Pereceu há apenas 30
mil anos, o que levantou hipóteses de que as duas espécies coabitaram em espaços
e época semelhantes. O dado mais interessante desta espécie é que pintavam as
paredes dos abrigos e cavernas e que sepultavam seus mortos.
Homo sapiens: 100 mil anos. É o homem moderno. A partir desta
espécie ocorreram as modificações geradoras da atual diversidade de tipos
humanos.
Egiptologia
Trata-se de outra especialidade da Arqueologia que estuda, especificamente,
o Egito antigo em todas suas fases. A decifração dos hieróglifos, ou seja, a forma de
escrita egípcia, contribuiu muito para o estudo de algumas épocas da civilização do
Nilo.
Arqueologia Clássica
Esta área estuda as culturas greco-romanas, em todas as suas fases,
inclusive a fase de Creta e das civilizações Micênica e Minoica.
A arqueologia clássica é uma das mais conhecidas e desenvolvidas, devido à
existência de uma grande quantidade de textos antigos, o que facilitou o cruzamento
de informações literárias, históricas, artísticas e filosóficas.
Arqueologia Pré-Colombiana
Este ramo da arqueologia engloba os estudos de todas as culturas do
continente americano antes do período da conquista. A exceção é a Arqueologia
Brasileira que possui uma especificidade própria. As principais culturas estudadas
são as do antigo vale do México: Tolteca, Olmeca, Chichimeca e a Asteca.
Na América Central, temos a cultura Maia. E, na América do Sul, na área
conhecida como o Peru Antigo, temos as culturas Mochica, Nazca e a Inca.
Arqueologia Histórica
Abarca o estudo de todas as civilizações que possuíam escrita, como a greco-
romana, egípcia ou bíblica. No Brasil, a arqueologia histórica se ocupa do período
posterior à chegada dos europeus e envolve estudos das construções históricas,
como engenhos, fortalezas, igrejas, casarios, entre outras.
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As áreas de estudo mencionadas nesta aula representam apenas algumas
especialidades da Arqueologia. Existem outras áreas como a Arqueologia Africana
ou a Chinesa.
REFERÊNCIAS
FRÉDÉRIC, Louis. Manual Prático de Arqueologia. Coimbra: Livraria Almeida,
1982.
FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2012.
MOBERG, A.C. Introdução à Arqueologia. Lisboa, Edições 70, 1985.
RAHTZ, P. Convite à Arqueologia. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
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Resumo Unidade I
Nesta unidade foi abordada a relação entre a História, Arqueologia e
Etnologia, bem como o nascimento da Ciência Arqueológica, suas especialidades,
principais áreas de atuação, dificuldades e interdisciplinaridade. Foi abordada
também a Arqueologia Internacional com suas principais especializações e seus
conceitos fundamentais.
Esta unidade abordou, ainda, as principais técnicas de tratamento da cultura
material, assim como os conceitos mais comumente encontrados em trabalhos
específicos da área, o que facilitará ao aluno o ingresso nesta fascinante área de
conhecimento humano.
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Aula 04_ Breve História da Arqueologia Brasileira
Palavras-chave: Arqueologia Brasileira; sítios arqueológicos; Peter Lund.
O fato de no Brasil não existirem monumentos ou construções antigas de
grandes proporções faz com que muitas pessoas ignorem o trabalho arqueológico
que, no entanto, tem sido realizado há algum tempo. Desde a época do império, a
arqueologia conquistou admiradores. D. Pedro II, que era um homem interessado
nos progressos das ciências, era um arqueólogo amador.
Nesta aula, estudaremos, sucintamente, alguns dos principais momentos do
trato com o patrimônio arqueológico do país.
Os primeiros registros de sítios arqueológicos foram encontrados nos textos
dos cronistas do séc. XVI e XVII. Evidentemente, tais registros eram desprovidos de
qualquer preocupação ou noção de arqueologia, apenas faziam menções à
existência de estruturas bastante antigas, anteriores aos “brasis indígenas” emque
esses cronistas conviveram.
Os registros mais comuns faziam referência aos sítios arqueológicos do tipo
sambaqui. Os relatos a respeito dos montes de conchas erguidos ao longo da costa
brasileira são tão antigos quanto as anotações acerca do próprio litoral do Brasil.
Todavia, como já dissemos, o interesse dos colonizadores não era de natureza
científica.
As conchas dos grandes morros construídos pelos grupos humanos que
habitaram o litoral do Brasil, desde tempos remotos, foram utilizadas pelos
colonizadores europeus para edificação das primeiras construções coloniais. Os
sambaquis constituíam-se em depósitos de cal utilizada na composição da
argamassa dos edifícios coloniais. Desta maneira utilitária, os sambaquis foram
inseridos no contexto de dominação-culturação do continente recém descoberto.
Nos séculos pós-conquista, o patrimônio arqueológico era registrado de forma
casual, sempre em função de seu caráter “exótico” ou associado aos relatos acerca
de outros assuntos: econômicos, religiosos ou sobre populações locais tratadas
como selvagens.
Contudo, o século XIX foi marcado pela diversificação da produção literária e
pelo aumento da curiosidade e do conhecimento sobre o Brasil e os brasileiros. Na
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história do pensamento arqueológico brasileiro houve um intenso debate acadêmico
a respeito da artificialidade ou da naturalidade dos sambaquis.
Em 1852, o Paleontólogo Lund foi consultado por uma comissão oficial para
opinar acerca da origem dos montes de conchas do litoral brasileiro. Na ocasião
comparou os “sambaquis” brasileiros — que reputava terem sido feitos pelos índios
— aos depósitos de conchas da Dinamarca, sobre os quais, em 1850, J.A. Worsaae
levantara a hipótese de serem, na realidade, depósitos de lixo humano —
Kjoekkmmondding (restos de cozinha).
A controvérsia poderia ter sido resolvida nessa época. Mas, infelizmente, isso
não ocorreu, pois alguns teóricos importantes do período insistiram na teoria da
origem natural dos “sambaquis”, mesmo depois do trabalho de Worsaae e da
corroboração de Lund, que reforçou a tese da origem humana. A insistência acabou
por atrasar, em algumas décadas, os estudos arqueológicos no Brasil.
A teoria sobre a definição dos Kjoekkmmondding de Worsaae foi aclamada
por Angyone Costa (1934) no primeiro manual de Arqueologia do Brasil, como sendo
a compreensão dos “sambaquis” em “seu justo significado científico” e como a
solução para problema cujo ensinamento “[...] Viera do norte da Europa” (Costa,
1934, p. 61).
Contudo, apesar do bom-senso de autores importantes do período, em pleno
século XIX, ainda era possível encontrar, nas publicações acadêmicas e
interdisciplinares, explicações sobre a origem natural dos sambaquis surgidos a
partir de uma hecatombe diluviana. Essa tese negava aos construtores dos
sambaquis o status de agentes históricos, produtores e possuidores de cultura.
Esse posicionamento teórico mudou radicalmente pouco mais de duas
décadas depois, em 1874, quando Carlos Rath admitiu a possibilidade de os
sambaquis serem cemitérios indígenas.
A partir da segunda metade do século XIX, ocorreu um grande
desenvolvimento nos estudos sobre Arqueologia. Nomes como os de Fritz Müller
(1868) e Virchov (1872), Karl von Steinen (1887), Carlos Wiener (1876), Cândido
Mendes de Almeida (1876), J.B. Lacerda (1885), Domingos Ferreira Penna (1880),
Von Iehring, Alberto Löfgren (1893) e Ricardo Krone (1911) apresentaram seus
estudos.
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Na modernidade, destacamos os trabalhos do PRONAPA, na segunda
metade do século XX. Entre os autores, destacamos os trabalhos de Ab`Saber,
Guidon, Pallestrini, Paulo Duarte, Paul Rivet (ROHR, 1959), Garcia, (1972), Uchôa
(1970 e 1973), Lina Maria Kneip, Tania Andrade Lima (1991), Maria Dulce Gaspar,
Prous e Piazza (1977), Neves (1988), Barreto (1988), Rohr (1973), entre outros.
“Dos moluscos aos peixes: um estudo zooarqueológico de mudança de
subsistência na pré-história do Rio de Janeiro”.
REFERÊNCIA
COSTA, Angyone. Introdução à arqueologia brasileira: etnografia e história. São
Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1934.
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Aula 05_Sítios arqueológicos no Brasil - parte 1
Palavras-chave: sambaquis; litoral; pescadores-coletores.
Sambaquis
Os sítios arqueológicos construídos por grupos de coletores pescadores são
chamados genericamente de sambaquis. O nome varia de acordo com a região em
que se localizam, tais como sernabis, concheiros ou casqueiras. Trata-se de um tipo
de sítio arqueológico caracterizado pelo acúmulo de material orgânico,
principalmente restos de conchas, ostras, carapaças de moluscos e berbigões, além
de restos de ossos de animais e de peixes e siris e caranguejos. Ultimamente, o
termo sambaqui é usado para os sítios arqueológicos com uma morfologia clássica,
colinar e de base oval. Os outros sítios caracterizados pelo acúmulo de conchas são
chamados de sítios conchíferos. Há, também, os sambaquis chamados de fluviais,
quando ocorrem ao lado de rios.
Do ponto de vista cronológico informa que a ocupação mais antiga do litoral
se iniciou, há, aproximadamente, 6000 anos, nos cinco atuais estados brasileiros
localizados mais ao sul. Essa data é uma aproximação e sobre ela pode haver
controvérsias. No Rio de Janeiro, existe um sítio arqueológico isolado com uma
datação de aproximadamente 8000 anos; em São Paulo, na ilha do Cardoso,
o “Sambaqui do Cambriú Grande” data de 5390 anos — no topo — e 7870 anos —
abaixo do cume (Demartini, 2003).
Com base nas datações disponíveis, Demartini supôs uma ocupação
continuada para o litoral do Brasil, sendo a mais antiga a situada no setor mais
setentrional, e as mais recentes localizam-se conforme se vai em direção ao sul.
Para ele, a abundância e tamanho dos acúmulos indicam que esta região “tenha sido
uma das áreas mais bem abastecidas do território, o que levou a uma densidade
populacional grande e poucas vezes atingida antes do neolítico” (Demartini, 2003, p.
11).
Atualmente, não há dúvidas de que os primeiros habitantes do litoral brasileiro
ocuparam a costa por cerca de sete mil anos, sendo que as datações mais antigas
conhecidas, até então, são as do Sambaqui de Camboinhas, no município de Niterói
no estado do Rio de Janeiro, com 7958 +/- 224 anos AP (KNEIP et al, 1981, 1994);
do Sambaqui Maratuá em Santos (São Paulo), com 7803 +/- 1300 e 7327 +/- 1300
http://campus20162.unimesvirtual.com.br/mod/quiz/view.php?id=66554
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anos AP1 (LAMING, EMPERAIRE, 1968); (MUEHE e KNEIP, 1995); do Sambaqui
Taperinha, baixo Amazonas, perto de Santarém no Estado do Pará com
impressionantes 10500 +/- 1500 anos AP (ROOSEVELT, 1991), a datação mais
antiga (KNEIP, 1998, p. 59). Somam-se a esses os dados do Sambaqui Cambriú
Grande — mencionado anteriormente — do Sambaqui do Prefeito em Iguape (São
Paulo) com 5820 anos AP a 2,1m do topo (BONETTI, 1997) e do Sambaqui do
Coveiro I, também em Iguape com 5790 +/- 70 anos AP para o topo (BONETTI,
2004).
Estes grupos de coletores-pescadores possuíam grande mobilidade. Os
sambaquis sugerem que possuíam uma base fixa de moradia. Mas, por outro lado,
a carência de matérias-primas para confecção dos artefatos líticos na região de
Iguape sugere que os grupos exploravam uma grande área de captação dos
recursos ou que mantinham contatos com grupos vizinhos, fazendo supor que tal
matéria prima poderia ter sido importada das margens próximas ao planalto ou à
encosta da Serra — havendo, ainda, um forte indício da disposição de algum tipo de
embarcação.Atualmente, a intencionalidade dessas construções feitas a partir de
carapaças de moluscos é pouco questionada. Além dos aspectos morfológicos,
revelam intenção à própria escolha do ambiente estuarino e à inserção destes sítios
arqueológicos na paisagem, sempre em locais elevados, nas encostas de morros,
numa cota altimétrica sempre maior que a do entorno. Tal disposição tem sido
entendida como uma estratégia para atender a uma função prática, como permitir a
observação da entrada de cardumes de peixes.
No entanto, é possível que a verdadeira motivação da disposição e inserção
do sítio arqueológico na paisagem, bem como a sua própria estrutura constituinte e
morfologia, esteja num ponto equidistante de uma função prática (econômica) e outra
cultural (simbólica).
A ideia de intencionalidade na construção dos sambaquis não é nova. Duarte
(1955, p. 614) já havia mencionado a:
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[...] própria importantíssima observação sobre a presença de moluscos
inteiros formando camadas completas” nas bases de certos sambaquis. Se
pensarmos na utilização das carapaças de moluscos como material
construtivo e que as áreas onde se localizam, sempre próximas a
estuarinos, rios, baías, teremos uma possibilidade de explicação para tal
constatação de Duarte, já que as conchas, como material de construção,
possibilitam um alto grau de drenagem num ambiente extremamente úmido,
o que facilitaria em muito a ocupação deste tipo de habitat.
O caráter monumental dos sambaquis constitui um traço cultural primordial,
configurando assim a possibilidade de se pensar sobre eles como artefatos.
Esta hipótese é reputada a Prouss (1992), que afirmou a possibilidade de
estudá-los como tal, construídos paulatinamente com técnicas construtivas
que refletem a intencionalidade de criação de uma estrutura que se
destacasse da paisagem. Tal ideia foi reformulada mais tarde por Gaspar &
De Blasis (1992) ao verem nestes sítios arqueológicos uma “arquitetura” ou
um sistema de edificação.
A litoraneidade dos grupos pescadores-coletores
Compreendemos o sítio arqueológico do tipo sambaqui como um artefato,
intencionalmente construído pelos grupos de coletores-pescadores ao longo de
séculos, com o intuito edificador de um marco territorial-costeiro que, além de se
destacar da paisagem, propiciaria aos seus habitantes um espaço multifuncional, ao
mesmo tempo moradia para os vivos e “casa do espírito”1. Nesse local se processaria
a maior parte das relações sociais, os ritos de comunhão com os antepassados,
sendo, portanto, o lugar onde se forjou o caráter identitário dessa cultura como
senhores do mar2.
A íntima relação com o mar faz com que os grupos coletores-pescadores
possam ser entendidos culturalmente como detentores de um universo simbólico
prenhe de significados a ele relacionados. Diegues (1993) reflete que, durante muito
tempo, os mares foram considerados erroneamente como “grandes espaços vazios”,
habitados somente por peixes e outros animais sem considerar a presença humana
de pescadores e navegadores que os habitam, há séculos, e sobre os mares criaram
símbolos culturais e míticos.
____________________
1 RATH, C. (1874), apud DUARTE, P. (1969), que considera a melhor tradução etimológica da palavra
sambaqui do que a de SAMPAIO, T. que considera tamba e qui como monte de ostras.
2 GASPAR, M. D., (2000).
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O conhecimento que os grupos de coletores-pescadores possuíam do mar é
indissociável do universo simbólico. Conhecer os fenômenos naturais como a
migração de peixes é tão importante quanto o domínio das técnicas para capturá-
los, e envolve o controle de zonas econômicas exclusivas, bem como formas
engenhosas de conservação destes habitats marinhos, tal como ainda fazem as
comunidades de pescadores tradicionais contemporâneas. Essas comunidades
costumam estabelecer áreas onde o próprio homem não pode penetrar por serem
consideradas sagradas, ou seja, “locais onde habitavam divindades que não
deveriam ser perturbadas” (Diegues, 1993, p. 13).
Desse modo, pensamos que os grupos coletores-pescadores podem ser
compreendidos como povos costeiros, como “gente do mar”, detentores de uma
cultura calcada no acúmulo de informações oriundas das observações e interações
com o mar e que se iniciou quando “o homem primitivo começou, da terra, a observar
o mar e os seres que nele viviam” (Diegues, 1993, p. 6).
No entanto, ressalve-se que não consideramos os grupos de coletores-
pescadores que inicialmente ocuparam o baixo vale do Ribeira de Iguape como
“pescadores marítimos”, mas como comunidades de pescadores litorâneos que
obtinham seus recursos por meio de incursões frequentes no ambiente estuarino
lagunar, utilizando frágeis embarcações e que, eventualmente, incursionavam por
mar aberto. Estamos tratando de comunidades recém chegadas ao baixo vale e que
encontraram um mar raso, salpicado de ilhas onde dispunham de grande quantidade
de alimento. Acredita-se que estes grupos desenvolveram algum tipo de “armadilha”
de espera, nos moldes do “cerco”, bastante eficiente e que aprisionava grande
quantidade de peixes que abundavam neste ecossistema, ou, ao menos, armas de
arremesso como lanças ou flechas.
Mais ainda, concebemos que toda prática social dos grupos coletores-
pescadores foi estruturada para uma sobrevivência costeira, e que a compreensão
da cultura que edificou propositadamente as estruturas sambaquieiras passa
necessariamente por um entendimento dessa litoraneidade.
O sambaqui, como local de moradia, proporciona a seus habitantes um
espaço ao mesmo tempo de posse, proibido a forças adversas, de refúgio seguro,
louvado e amado, isto é, uma casa, um lar. Bachelard (1957) em A poética do
espaço, destacou que a casa, além de ser o primeiro universo e o primeiro mundo,
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abriga o devaneio, protege o sonhador e lhe permite sonhar em paz, carrega em si
a imagem de um espaço feliz (topofilia), no qual convivem as lembranças e lendas
da casa natal com a consciência e o enriquecimento incessante de novas imagens.
No caso dos sambaquis, uma grande dificuldade é que trabalhamos com
restos de uma cultura material fortemente biodegradável inseridos numa área
extremamente úmida que destrói a maioria dos possíveis vestígios. Na realidade,
nosso maior testemunho é uma grande ausência de objetos vinculados à pesca,
como redes, ou mesmo pesos de rede, cestarias que podem ter sido utilizadas como
armadilhas, restos de canoas, armamentos de arremesso como lanças ou flechas.
Utensílios que ajudariam a explicar a imensa quantidade de peixes que foram
amplamente consumidos por estes grupos de coletores-pescadores, como atestam
os significativos restos ósseos de uma vasta fauna ictiológica.
Após a manutenção de um modo de vida que durou ao menos 5000 anos,
baseado inicialmente na coleta de moluscos e depois na pesca, constituiu-se uma
das economias mais estáveis de que se tem notícia. Os povos construtores de
sambaquis desaparecem, dando lugar a outras formas de sociedades na região do
baixo vale do rio Ribeira de Iguape.
Tradicionalmente, os grupos coletores-pescadores foram substituídos por
grupos ceramistas que chegaram ao litoral. Não se conhece o processo de
transformação de um modo de vida baseado na pesca e coleta para um modo de
vida horticultor, apenas podemos inferir, mediante dados existentes, a chegada de
novos grupos ao baixovale do Ribeira.
Os sítios arqueológicos com pinturas rupestres
São chamadas de “pinturas rupestres” as pinturas, desenhos ou inscrições
feitas em paredes sob abrigos rochosos e em cavernas.
Os motivos gravados nas pinturas rupestres são bastante variados. Desde
grafismos geométricos, passando por cenas como danças, cenas de caça, guerras,
sexualidade, representações da fauna e flora do local e da época em que foram
produzidos.
Um dos grandes problemas no estudo da arte rupestre está exatamente na
interpretação ou entendimento das cenas retratadas, pois a interpretação envolve a
“subjetividade” do arqueólogo, principalmente em função da(s) teoria(s) que
constituem a base de sua formação. Claro que se procura a compreensão destas
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cenas de uma maneira mais próxima da realidade, no entanto, sua real função ou
representação é de difícil entendimento.
No Brasil, André Prous (apud Madu Gaspar, 2003) sistematizou oito grandes
tradições de arte rupestre.
Tradição Meridional, localizada no sul do país e feita com a técnica de incisão
ou polimento. As cores principais são: preto, branco, marrom e roxo.
Tradição Litorânea Catarinense são testemunhos que vão do litoral até as
ilhas com quinze quilômetros de distância. É caracterizado por inscrições em rocha
(granito) com quatorze temas estudados por Prous que vão de antropomorfos aos
geométricos.
Tradição Geométrica: presente desde o planalto sul, atravessa Santa
Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso até o Nordeste. Dada sua
extensão, Prous os subdivide em Meridional e Setentrional.
Tradição Planalto: passa pelo Planalto Central, pelos estados de Minas
Gerais. Paraná até a Bahia. Inscrições principalmente de animais em vermelho, preto
amarela e raramente em branco. Nesta região, encontra-se o famoso sítio
arqueológico de Lagoa Santa (MG), local de origem do fóssil humano mais antigo do
território nacional e que foi escavado por Lund. O fóssil, conhecido como Luzia, foi
estudado principalmente por Walter Neves que, depois de estudos paleogenéticos,
atribui-lhe a origem negroide.
Tradição Nordeste: localizada nos estados de Minas Gerais, Bahia, Ceará,
Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Nesta tradição. São enquadradas as
pinturas encontradas no principal sítio arqueológico do Brasil, o Sítio Boqueirão da
Pedra Furada (PI), cuja ocupação foi pesquisada por Niéde Guidon e datada em até
cinquenta mil anos AP. Dada a complexidade destas representações, pesquisadoras
como Anne Marie Pessis e Gabriela Martin, além da própria Niéde Guidon,
estabeleceram subtradições nessa área.
Tradição Agreste: localizada nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do
Norte, Paraíba e Pernambuco. Possui pinturas geométricas e antropoides, além de
representações da fauna.
Tradição São Francisco: apresenta-se nos estados de Minas Gerais, Bahia,
Sergipe, principalmente o vale do Rio São Francisco, com formas humanas e de
animais como peixes, pássaros e répteis da região.
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E, finalmente, a Tradição Amazônica que é caracterizada por desenhos
antropomorfos e geométricos. Há representações nas margens dos rios Cuminá,
Puri e Negro.
Esta parte da Arqueologia Brasileira, muito estudada, possui grandes
dificuldades inerentes à sua especialidade. Muitas vezes, há uma clara
representação de algum tipo de cerimonial com cenas de dança e culto, mas é difícil
precisar a que cerimonial se refere.
Em geral, a compreensão dos significados é mais distante do que tem sido,
por exemplo, a identificação de espécies de fauna retratadas nos grafismos, inclusive
com suas variações. A datação também apresenta problemas, uma vez que, a
grosso modo, apenas os pigmentos de origem orgânica podem ser datados.
No entanto, a especialidade em pinturas rupestres é uma das mais
fascinantes da Arqueologia Brasileira.
REFERÊNCIAS
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1957.
DEMARTINI, C. M. C. Caracterização cultural e gerência do patrimônio
arqueológico do parque estadual da Ilha do Cardoso. Tese de Doutorado,
Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,
2003.
DIEGUES, A. C. Povos e mares: uma retrospectiva de sócio – antropologia
marítima. CEMAR – Centro de Culturas marítimas – USP. (Série Documentos e
Relatórios de Pesquisa) nº. 9. Apoio: Fundação FORD. São Paulo, 1993.
DIEGUES, Antonio Carlos. Arruda, Rinaldo S.V. (Orgs.). Saberes tradicionais e
biodiversidade no Brasil - Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP,
2001.
GASPAR, M. Sambaqui: Arqueologia do Litoral Brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar,
2000.
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Aula 06_Sítios arqueológicos no Brasil - parte 2
Palavras-chave: Sítio arqueológico lítico; Sítio arqueológico histórico; Sítios
cerâmicos.
Os sítios arqueológicos líticos
Esta aula é dedicada aos sítios arqueológicos cuja principal característica é a
presença de testemunhos materiais em rocha: os artefatos líticos. Nesse caso, fica
claro o porquê de a periodização clássica das três idades não se aplicar ao Brasil.
Há diversos sítios líticos onde há, simultaneamente, a presença de artefatos líticos
lascados e polidos.
Esses sítios foram produzidos por grupos de caçadores-coletores e possuem
cerca de onze mil anos. Ocupam, basicamente, todo o território nacional. Essa
indústria lítica é representada principalmente por pontas de flechas e uma variada
gama de raspadores.
Do ponto de vista cultural, podemos destacar quatro grandes grupos de
caçadores-coletores:
[...] a Tradição Umbu, nas florestas e planaltos do sul do Brasil, a Tradição
Itaparica, que caracteriza os caçadores-coletores do planalto central, os
caçadores-pescadores das dunas do litoral nordestino e a Tradição dos
Sambaquis, que é definida pelos remanescentes de culturas muito bem
adaptadas aos ambientes litorâneos (Blasis, 2001, p. 18).
Nota-se que os grupos pescadores-coletores, também chamados de
construtores de sambaquis, são considerados parte integrante destes sítios
arqueológicos de caçadores-coletores. Muitos autores consideram os construtores
de sambaquis como grupos de caçadores que se adaptaram ao ambiente litorâneo,
numa adaptação econômica e cultural ao ambiente de estuarinos-lagunares, ou,
como quer Madu Gaspar, sempre próximos a grandes corpos d’água.
Para a tradição arqueológica americana e brasileira, encontramos, em geral,
três grandes períodos:
Período Paleoíndigena: equivale aos vestígios arqueológicos provenientes
do final do período geológico chamado Pleistoceno cuja transição para o
período atual, o Holoceno, costuma situar-se entre 15 e 11 mil anos atrás.
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[...] Período Arcaico: corresponde, grosso modo, à maior parte do período
holocênico, quando os climas e paisagens adquirem, com algumas
variações, a configuração que tem hoje [...], corresponde a uma ampla
diversificação das sociedades de caçadores, ocupando até os mais remotos
rincões das Américas e adaptando-se às variadas feições ecológicas e
ambientais presentes através do continente [...] nos planaltos do centro e
do sul do Brasil, situa-se entre 10.000 e 2.500 anos atrás [...].
Período Formativo: a partir de aproximadamente dois mil anos atrás até a
chegada dos primeiros colonizadores europeus, o cenário arqueológico
brasileiro é marcado pelos vestígios de sociedades com uma economia não
mais baseada na caça e na coleta, mas plenamente agrícola [...] (Blasis,
2001, p. 18).
Os sítios arqueológicos líticos ocorrem em, praticamente, todoo Brasil e se
extinguem com a mudança para outra base econômica, a agricultura. Essa mudança
foi incipiente, inicialmente, mas depois, tornou-se a base da sobrevivência da
comunidade. As consequências foram brutais. A domesticação, principalmente, da
mandioca, fez com que os grupos humanos se tornassem sedentários, o que
aumentou a densidade demográfica. Como principal representante desta nova
cultura temos os tupis.
Sítios cerâmicos
Como vimos anteriormente, os grupos caçadores-coletores foram substituídos
por grupos de horticultores. Essa mudança econômica e cultural provocou a
alteração dos vestígios arqueológicos: o aparecimento da cerâmica, usada em
utensílios de uso cotidiano e em rituais. Vários cronistas descreveram essa
utilização. Destacamos a descrição de Hans Staden de ritos antropofágicos entre os
tupinambás — ritos nos quais ele mesmo participou como prisioneiro a ser
devorado.
Além da utilidade prática, a cerâmica permitiu aos horticultores o
desenvolvimento de técnicas de fabricação, cozimento, preparação da liga, servindo
também como suporte para manifestações artísticas, como a pintura.
Os vasos de Santarém e a cerâmica Marajoara, encontrados na região Norte,
contêm grande carga simbólica e são apontados por alguns autores como os mais
complexos do Brasil. Além da maestria em relação a sua feitura, eles apresentam as
figuras duais: representações antropomorfas e de animais, notadamente o urubu-rei.
Estas figuras possuem a particularidade de poderem ser contempladas em dois
sentidos, de lado e de frente, ou seja, uma mesma figura que, dependendo do ângulo
de observação, representa duas formas distintas.
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O grupo cultural mais representativo, nesse período de ocupação do Brasil,
foi o tupi. Os tupis ocuparam a maior parte do imenso litoral brasileiro e tiveram um
maior contato com os conquistadores europeus.
Acredita-se que a matriz cultural dos tupis tenha se formado há cerca de cinco
mil anos em algum ponto da Amazônia. Por volta de 2500 ou 2000 anos, passaram
a ocupar todo o território nacional, a partir de dois grandes braços, um rumo ao Leste,
descendo pela costa do Atlântico, e outro no sentido Sul até a região dos Pampas,
de onde subiram pela costa até algum ponto entre os atuais estados de São Paulo e
Paraná.
Nessa verdadeira diáspora pelo território nacional, os tupis foram dando
nomes a cada acidente geográfico, cada escarpa, serra, rios e, principalmente,
construindo caminhos, os peabirus, que tanto serviram aos conquistadores
europeus.
O contato dos povos sambaquieiros com os horticultores causou o seu fim.
Não se sabe se foram escravizados ou aculturados, o fato é que, a partir desse
encontro, o modo de vida dos povos coletores-pescadores definhou até
desaparecer.
Do ponto de vista dos artefatos encontrados no sítio cerâmico, sabemos que
a cestaria e os artefatos em madeira eram numerosos, ambos, porém, bastante
perecíveis. Há artefatos líticos, mas a cerâmica é o principal testemunho. Nestes
sítios tem sido encontrada uma grande gama de vasilhas, como tigelas, jarros, semi-
globulares, globulares e igaçabas.
O tipo de cerâmica mais importante em função de sua utilização era a
funerária. Entre os grupos da matriz tupi no interior e no sul sudeste do Brasil havia
o sepultamento de indivíduos em urnas funerárias. Provavelmente, descarnavam os
indivíduos antes do sepultamento. Tais urnas são decoradas, inclusive com incisões
feitas durante sua manipulação. Como exemplo destas incisões, temos o corrugado,
ungulado, serrilhado escovado entre outros.
Um dos traços culturais mais interessantes dos povos da matriz tupi são os
ritos antropofágicos. Entre os tupinambás, tal cerimonial foi amplamente descrito e
estudado, principalmente, por Florestan Fernandes, em seu célebre estudo A função
social da guerra na sociedade tupinambá.
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Como estes povos sofreram todo o processo da conquista, os relatos dos
cronistas, bem como os trabalhos etnográficos, são de grande valia no processo de
conhecimento e compreensão destas culturas.
Os sítios históricos
São todas as edificações datadas do período colonial ou dos períodos
posteriores que, além da arquitetura, guardam testemunhos arqueológicos em seu
interior e entorno. São exemplos de sítios históricos os engenhos, as fortalezas, as
Igrejas, os casarios, as ruas, vilas, as casas de Administração e até mesmo as
praças, largos e senzalas.
Este tipo de sítio arqueológico oferece excelente oportunidade de cruzamento
de várias áreas de conhecimento, como a Arquitetura, História, Artes Plásticas,
Antropologia, Geografia, entre outras.
No Brasil, muitas cidades possuem sítios históricos, alguns deles tombados
pelo Patrimônio Histórico. Os mais conhecidos talvez sejam: o Pelourinho em
Salvador, as cidades de Ouro Preto e Tiradentes em Minas Gerais e a cidade de
Parati, no Rio de Janeiro.
O interesse nesse tipo de sítio arqueológico, além das questões culturais,
históricas e até afetivas, reside nas informações que podem estar guardadas em seu
interior e que eventuais escavações podem revelar objetos de uso cotidiano, tais
como: telhas, cerâmicas, porcelanas, vidros ou pregos e objetos de uso pessoal.
Na análise histórica, existe uma tendência de considerar a influência da
cultura dominante quase com exclusividade. Essa tendência ignora que o processo
de conquista e o processo de aculturação possuem “mão dupla”. Da mesma forma
que a cultura local é modificada, a cultura do invasor também é. O resultado, em
geral, é uma nova cultura. No nosso caso, a nova cultura é a “brasileira”. Temos
exemplos claros na culinária, como o uso da mandioca, do milho e de muitas outras
frutas e modos de preparo dos alimentos.
No que se refere à preservação dos sítios históricos, uma recente Portaria do
IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) destaca a participação
da comunidade:
Art.2º - O Plano de Preservação de Sítio Histórico Urbano - PPSH Plano de
Preservação de Sítio Histórico Urbano - PPSH é um instrumento de caráter
normativo, estratégico e operacional, destinado ao desenvolvimento de
ações de preservação em sítios urbanos tombados em nível federal, e deve
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resultar de acordo entre os principais atores públicos e privados,
constituindo-se em processo participativo.
Sítios Subaquáticos
A Arqueologia subaquática é bastante recente no Brasil. Basicamente,
qualquer vestígio arqueológico que esteja submerso faz parte deste tipo de sítio
arqueológico.
Os naufrágios são as causas mais comuns de formação de um sítio
arqueológico subaquático, mas há também construções antigas que sofreram
destruição antrópica e natural e que submergiram, totalmente ou em parte. Os
sambaquis submersos são um exemplo interessante e raro.
A principal característica desse tipo de sítio arqueológico é o grande fascínio
que desperta, especialmente, nos chamados “caçadores de naufrágios”, cujas
atividades se tornaram uma ameaça para a preservação dos objetos históricos. Os
sítios arqueológicos subaquáticos são patrimônio da União e seu saque é crime.
Os procedimentos metodológicos são os mesmos de qualquer sítio
arqueológico. Envolvem topografia, quadriculamentos, escavações, datações e
todos os demais. Claro que a dificuldade é maior em função de sua característica,
mas trata-se de uma escavação com o mesmo rigor. Não é uma simples coleta, como
uma “caça ao tesouro”, é exatamente o oposto. O objeto de estudo da Arqueologia
Subaquática é a cultura material que se encontra submersa em águas interiores (rios,
lagos, represas), marítimas ou oceânicas. Por isso vale esclarecer que, embora semude o ambiente de pesquisa, não há mudança da ciência em questão. Apenas se
adaptam métodos e técnicas de investigação, e, evidentemente, o mergulho para o
arqueólogo torna-se imprescindível, pois passa a ser uma ferramenta de seu
trabalho.
REFERÊNCIA
BLASIS, Paulo Antonio Dantas de. Da Era das Glaciações às origens da
agricultura. In: Brasil: 50 mil anos: uma viagem ao passado pré-colonial. Catálogo.
Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Edusp, 2001, p.18).
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Aula 07_Patrimônio Cultural e Museologia
Palavras-chave: patrimônio cultural; museologia; setor educativo em museus.
É difícil determinar o que seja um patrimônio. Teoricamente, é tudo aquilo que
deve ser preservado e conservado para as gerações futuras.
No entanto, quem determina o que deve ser preservado? Quando vemos
algum monumento histórico, esquecemos que ele é o resultado de um processo
histórico e que, geralmente, conta a história dos vencedores e não a dos vencidos.
A História possui diversos exemplos disso. A destruição das imagens de Buda
talhadas na montanha no Afeganistão pelo grupo Taliban, pouco antes da invasão
norte americana neste país, demonstra que a preservação ou destruição do
patrimônio, em muitos casos, obedece ao jogo político — ressaltando que a próprias
guerras são razão de destruição do patrimônio histórico e cultural.
Entretanto, patrimônio não engloba apenas os monumentos históricos, mas
também o meio ambiente, o “saber fazer” das comunidades locais, os costumes e as
tradições de diversas culturas.
Para a Arqueologia brasileira, todo sítio arqueológico é patrimônio da União,
protegido por legislação federal, a Lei nº. 3924 de 26/7/1961. Esta lei foi o resultado
do esforço de vários estudiosos, principalmente do arqueólogo Paulo Duarte. No
entanto, a existência da lei não faz cessar a destruição do patrimônio. Para tanto, é
necessário que haja a combinação de esforços fiscalizadores do Estado, dos
pesquisadores e da comunidade local onde o sítio arqueológico está inserido. Caso
contrário, há proteção apenas no papel.
Hughes de Varine-Boham (apud Lemos, C.A.C., 1982) elaborou uma tipologia
para o Patrimônio Cultural que serviu de base para a classificação da UNESCO, na
qual o divide em três grandes categorias. A primeira engloba o patrimônio ligado à
natureza e ao meio ambiente. A segunda diz respeito às tradições culturais
relacionadas às técnicas de manufatura, ao saber e ao saber fazer de grupos
culturais que transmitem de pai para filho um conjunto de conhecimentos, cuja cadeia
não pode ser quebrada, sob o risco de perda de toda uma tradição e, por fim, os
bens culturais que se referem a todos os artefatos e objetos em geral, o que inclui
construções arquitetônicas.
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Segundo Lemos, o patrimônio cultural de um povo, englobando todos os bens
culturais, é incomensurável e não se pode confundir esse patrimônio com o
“patrimônio oficial”, que se refere a “aquele que legalmente reúne poucos e
escolhidos bens eleitos como preserváveis à posteridade”. (Lemos, 1982, p. 12).
Como vimos nas aulas anteriores, o artefato isolado de seu contexto revela
muito pouco sobre a cultura que o fabricou. Em nossa sociedade, existe o culto ao
objeto e a tendência à padronização. Porém, este nível de percepção do artefato
dissociado de uma visão cultural ampla é o resultado de um processo que remonta
ao nascimento da sociedade moderna — ou pós-moderna, segundo alguns. A partir
dos séculos XVI e XVII, na Europa, tornou-se comum a exibição de objetos
provenientes de lugares distantes e a sua admiração como “curiosidade” 2 ou objeto
exótico. No século XIX, essa prática atingiu o auge ao alcançar as exibições em
museus. Pouco interesse havia em relação à cultura que produziu tais artefatos.
Muitos acervos de museus tradicionais e, bastante antigos, foram montados
a partir de objetos “importantes” ou de caráter simbólico — civil ou religioso — que
deveriam ser expostos como afirmação de uma diferença cultural. Assim, havia os
“Gabinetes de curiosidades”, que exibiam “animais exóticos” juntamente com
utensílios particulares de heróis nacionais, ou livros raros, e toda a sorte de objetos.
A preservação do patrimônio deve seguir normas internacionais,
principalmente de órgãos como a UNESCO. Tais normas foram elaboradas a fim de
criar padrões de preservação coerentes com o objetivo de manutenção da
diversidade cultural e da própria unidade cultural de um povo, como garantia de
autoafirmação.
Museologia
Museologia não é “ciência dos museus”, assim como Medicina não é “ciência
dos hospitais”.
Como vimos anteriormente, o interesse em colecionar objetos que, de alguma
forma, despertam o interesse de povos e culturas distintas, remonta aos primórdios
da humanidade. Waldisa Guarnieri (1990) informa que na Antiguidade, a princesa
Bel Chalti Nannar da Caldeia registrou o primeiro inventário de objetos de uma
coleção de que se tem notícia: os objetos do palácio de seu pai, no século VI a.C.
Desde então, muitos acontecimentos relacionados à coleção, exposição e à
conservação de objetos têm permeado a história. A primeira especialização dessas
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coleções foi a pinacoteca: a primeira coleção de pinturas, em uma das alas dos
Propileus da Acrópole de Atenas, na Grécia Antiga. A partir de então, toda coleção
de pinturas recebeu esse nome.
Ainda na Antiguidade, temos o “Museu de Alexandria” e sua famosa
biblioteca. Há quem diga que os museus da época moderna buscam ser o que foi
este museu, com áreas de descanso e de exposição de objetos, anfiteatro, um
parque botânico, um centro de estudos (o embrião de uma universidade) e até um
zoológico. De acordo com Guarnieri (1990), o Museu de Alexandria representou o
primeiro dos cinco grandes momentos de desenvolvimento históricos dos museus.
Segundo Suano (1986), em Roma os museus, além de expressarem o
conhecimento, ou mesmo o “gosto” de uma camada privilegiada, tinham a função de
demonstrar o poderio do império, suas conquistas, saques, butins.
O segundo momento de desenvolvimento dos museus corresponde à
Renascença, em que encontramos um misto de “Galeria de arte” com o “Gabinete
de Curiosidades” — já mencionado anteriormente. Esse tipo de museu configurava
a manifestação do poder dos Príncipes. Os museus renascentistas contaram com
curadores como Donatello e Leornardo Da Vinci e com aulas numa nova
disciplina: História da Arte.
O terceiro momento corresponde à passagem do “Museu do Iluminismo” para
o “Museu do Romantismo”, ou seja, os museus abandonaram a ilustração
caracterizada pelo acúmulo de objetos sem divisões temáticas — como uma grande
enciclopédia — substituindo o acúmulo pelas coleções que expressavam os ideais
da burguesia. Nesse período, surgiram os grandes museus nas capitais europeias
(o Louvre, o Museu Britânico ou o Museu do Prado) como expressões do poderio de
grandes nações e impérios. Segundo Guarnieri (1990, p. 12), os “museus dos
príncipes” tornaram-se “museus das nações”.
O curioso é que este período marcou o início das primeiras preocupações com
a origem do acervo. Os acervos desses museus foram obtidos por meio de pilhagens
cometidas por Napoleão ou pelo Império Britânico. Este período caracterizou o fazer
museal como museografia. Era o domínio dos padrões estéticos burgueses.
O quarto momento foi caracterizado pela urbanização, pela especialização e
a profissionalização dos museus e a Museologia como uma disciplina acadêmica
com um corpo de conhecimentos formalizado.
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O quinto e último momento é a atualidade, em que a organização