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EDUCAÇÃO NUTRICIONAL EDUCAÇÃO NUTRICIONAL ORGANIZADORA ALINE ROCHA RODRIGUES ORGANIZADORA ALINE ROCHA RODRIGUES Educação Nutricional GRUPO SER EDUCACIONAL Educação nutricional é um livro direcionado para estudantes dos cursos da área de nutrição e nutrologia. Além de abordar assuntos gerais, o livro traz conteúdo sobre educação em nutrição, educação alimentar e nutricional, nutricionistas, e planejamento de ações de educação alimentar e nutricional. Após a leitura da obra, o leitor vai dominar o signi�cado de educação nutricional, educação alimentar e nutricional; aprender sobre as bases da educação, os princípios morais e éticos que estão em consonância com a Constituição Federal Brasileira; aprofundar conceito de educação nutricional por meio de documentos o�ciais e norteadores de ações; explorar elementos didáticos e correlacioná-los com as ações de EAN, investigando termos e conceitos, correntes da educação e suas respectivas metodologias e didáticas; entender o signi�cado e as aplicações das dinâmicas de grupo, conceito proveniente da psicologia, que pode ser bem aproveitada nos trabalhos de educação nutricional; compreender as fases da vida, divididas em pré-escolar e escolar, jovens e adultos e terceira idade, as especi�cidades em cada uma delas e suas relações com a alimentação e a EAN; observar como ocorre a avaliação dos processos de ensino-aprendizagem com os formatos aplicados, as metodologias ativas e como adaptar estes meios de aval- iação às atividades de EAN; saber como elaborar outros materiais educativos de apoio, seus conteúdos, as buscas por informações e fundamentos, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! gente criando futuro I SBN 9786555581607 9 786555 581607 > C M Y CM MY CY CMY K EDUCAÇÃO NUTRICIONAL Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Rodrigues, Aline Rocha. Educação nutricional / Aline Rocha Rodrigues. – São Paulo: Cengage – 2020. Bibliografia. ISBN 9786555581607 1. Nutrição 2. Nutrologia Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Aline Rocha Rodrigues Nutricionista, Especialista em Nutrição com ênfase em Alimentação Escolar, Mestranda em Desenvolvimento Territorial Sustentável, pela Universidade Federal do Paraná. Formada há mais de 15 anos, com a carreira focada em políticas públicas de alimentação e nutrição, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Membro dos conselhos de Alimentação Escolar e Segurança Alimentar e Nutricional de Curitiba, sendo coordenadora da Câmara de Acesso aos Alimentos. SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Educando em nutrição ...............................................................................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1 O estudo da educação nutricional ..................................................................................................... 11 2 Histórico dos estudos de educação nutricional ................................................................................. 11 3 Correlação entre a educação e a nutrição ......................................................................................... 13 4 Fundamentos da educação I: considerações gerais, evolução do conceito de ensino, aprendizagem e motivação ................................................................................................................... 14 5 A evolução do conceito de ensino ..................................................................................................... 15 6. Fundamentos da educação II: educação em valores, classificação da educação, construção do conhecimento ............................................................................................................... 18 7. Classificação da educação ................................................................................................................. 19 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................23 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................24 UNIDADE 2 - Bases da educação alimentar e nutricional ................................................................25 Introdução.............................................................................................................................................26 1 Bases da Educação Nutricional: nomenclaturas, conceitos, princípios e objetivos da educação nutricional ........................................................................................................ 27 2 Pedagogia e didática: elementos didáticos ........................................................................................ 31 3 Didática: importância e elaboração de objetivos ............................................................................... 36 4 Métodos e técnicas de ensino ........................................................................................................... 38 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................42 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................43 UNIDADE 3 - Nutricionistas e a educação .......................................................................................45 Introdução.............................................................................................................................................46 1 Elementos didáticos ........................................................................................................................... 47 2 Aplicabilidade dos elementos didáticos em Nutrição ........................................................................483 Como aprimorar os conhecimentos didáticos ................................................................................... 49 4 Aprofundando as discussões: uma reflexão didática .........................................................................53 5 Educação nas diversas fases da vida .................................................................................................. 57 6 Grupos básicos da alimentação ......................................................................................................... 60 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................64 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................65 UNIDADE 4 - Planejando ações de educação alimentar e nutricional .............................................67 Introdução.............................................................................................................................................68 1 Planejamento: elementos básicos, plano de ensino, elaboração ......................................................69 2 Conceitos do plano de ensino ............................................................................................................ 70 3 Áreas de atuação do nutricionista em EAN ........................................................................................ 74 4 Avaliação do processo de ensino-aprendizagem ............................................................................... 77 5 Como aplicar os tipos de avaliação em EAN ...................................................................................... 80 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................85 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................86 O livro Educação nutricional traz ao leitor, além de informações básicas da área, o conteúdo parcialmente descrito a seguir distribuído em suas quatro unidades. Para começar, a primeira unidade, Educando em nutrição, introduz o conceito de educação nutricional, forte aliada para uma dieta adequada e saudável em todas as idades. Bases da educação aplicada, conceitos referentes às metodologias de ensino e aprendizagem, seu aprimoramento, os principais valores da educação, suas classificações e outros fatores também são discutidos aqui. A segunda unidade, Educação alimentar e nutricional, apresenta as bases desta ciência que busca auxiliar no processo de ensino-aprendizagem dos assuntos relacionados à educação nutricional, as nomenclaturas, os principais conceitos, os princípios e os objetivos deste mote de educação ligado à nutrição. A terceira unidade, Nutricionistas e a educação, trata das ferramentas pedagógicas que podem auxiliar na criação de ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN). Concluindo a obra, a quarta e última unidade, Planejando ações de educação alimentar e nutricional (EAN), aborda os fundamentos do planejamento de ações educacionais, seus elementos básicos, dados sobre plano de ensino, sua elaboração com base na EAN, o planejamento de ações de EAN, suas fases de elaboração, áreas de atuação do nutricionista e as correlações com a educação. Esta é apenas uma pequena amostra do que o leitor aprenderá após a leitura do livro. Agora é com você! Sorte em seus estudos! PREFÁCIO UNIDADE 1 Educando em nutrição Olá, Você está na unidade Educando em Nutrição. Conheça aqui o conceito de educação nutricional, uma ferramenta forte aliada da nutrição para a construção conjunta de uma dieta adequada e saudável em todas as idades. Entenda as bases da educação aplicada, conceitos referentes as metodologias de ensino e aprendizagem e seu aprimoramento com o decorrer do tempo. Compreenda também os principais valores da educação, suas classificações e como ocorre a construção do conhecimento através de técnicas de aprendizagem, com foco na educação alimentar e nutricional que será a pratica diária em diversas áreas de atuação da Nutrição. Bons estudos! Introdução 11 1 O ESTUDO DA EDUCAÇÃO NUTRICIONAL A educação em nutrição, ou seja, Educação Alimentar e Nutricional (EAN) é considerada uma das atribuições do nutricionista, prevista na Resolução Conselho Federal de Nutricionista n. 600, que trata das atribuições do nutricionista. Esta resolução cita que “[...] a execução da prática de ações de Educação Alimentar e Nutricional e contempla a responsabilidade do nutricionista na aplicação destas ações enquanto recurso terapêutico em indivíduos ou grupos sadios ou com algum agravo ou doença” (CFN, 2018, online). Dentro desta seara de atuação, o profissional irá conduzir sua prática através de conjunção de dois saberes: a prática nutricional na busca de uma alimentação adequada e saudável e a busca por metodologias de ensino aprendizagem que possam comunicar estes ensinamentos ao seu público-alvo. Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, a educação alimentar e nutricional pode ser realizada em qualquer idade. Não sendo um advento somente capaz de ser aplicado na infância. Costuma-se chamar de reeducação o processo realizado em adultos, mas ele está contido no escopo da educação alimentar e nutricional. O conhecimento e a emancipação do ser humano, em qualquer uma das fases de sua vida, a respeito de sua alimentação, poderá gerar bons frutos em relação a sua saúde. Veremos, a seguir, o início dos estudos de educação nutricional, no Brasil, e como os avanços trouxeram ferramentas de trabalho, cada vez mais interessantes para as ações de EAN. 2 HISTÓRICO DOS ESTUDOS DE EDUCAÇÃO NUTRICIONAL A educação nutricional está baseada na experiência humana pela alimentação. Os saberes se acumulam, em relação a alimentação e a saúde humana, e são repassados, em verdadeiras experimentações de erro e acerto. Para além de uma postura de quem aprende e quem ensina, a construção da EAN perpassou por saberes populares, didáticas, metodologias e pesquisas científicas que buscaram, em conjunto, aprimorar a experiência humana entre sua alimentação e seu bem-estar. As questões que relacionam saberes alimentares, dietas e cultura alimentar alteram-se com o passar do tempo e, ainda, podem ser fortemente influenciadas pela cultura e pelos costumes locais. Quando falamos em educação em nutrição, podemos falar de maneira genérica, mas sempre com foco nas tradições e nos hábitos alimentares de cada uma das populações ao redor do mundo. 12 Os parâmetros mundiais, como aqueles discutidos e propagados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), auxiliam na elaboração de manuais quantitativos e qualitativos na busca por uma alimentação saudável e adequada. Mas se coadunam com relações alimentares que cada um dos países em volta do globo desenvolve, em uma troca constante de informações. Segundo Cervato-Mancuso, Vincha e Santiago (2016, p. 226), “[...] no Brasil, as primeiras intervenções governamentais no campo da alimentação, motivadas pelas preocupações da ciência de nutrição, ocorreram na década de 1940”. Estas intervenções ocorreram de modo que se pudesse associar, em uma mesma política pública, questões relativas à alimentação e também à educação. A busca era pelo fornecimento de alimentos que, além de sanar a fome, pudessem contribuir para melhorar a educação nutricional do público-alvo. Ao mesmo tempo, florescem inúmeras tentativas de vincular a alimentação em outras instâncias, que podem ser consideradas educativas, como cursos de economia doméstica, que buscavam uma equalização entre gastos financeiros e alimentação adequada das famílias brasileiras (BRASIL, 2012). Algumas instituições de ensino superior propagaram este curso com foco nas donas de casa,para que pudessem contribuir de maneira positiva tanto na economia doméstica quanto na economia do país, através de programações e compras que visassem, além do bom uso das escassas verbas salariais, a compra racional de alimentos de qualidade (AMARAL JUNIOR , 2014). Este modelo foi usado até a década de 1980, quando surgiram altercações sobre o fato de que uma má alimentação estava diretamente correlacionada à renda de cada uma das famílias. Fortaleceram-se, então, as questões de como aliar uma alimentação de qualidade e rendas menos abastadas, considerando as políticas públicas que pudessem contribuir mais do que somente para educação nutricional, mas com fornecimento de alimentação para as populações mais carentes (BOOG, 1997). O histórico dos primeiros programas de segurança alimentar e nutricional brasileiros denotavam maior preocupação com a quantidade de alimentos e calorias que eram fornecidas e menor importância a qualidade desta alimentação. As primeiras políticas públicas neste campo denotam o uso de alimentos processados e ultraprocessados em grande demanda, e baixa adesão a produtos de origem vegetal como frutas e verduras. A centralização do modelo de gestão, em parte, responsável pela compra e distribuição dos insumos, seria a grande responsável por este comportamento. Nesse sentido, tanto documentos internacionais quanto nacionais, voltados para a grande preocupação da desnutrição que assolava a população brasileira, traziam a educação nutricional 13 como chave para melhoria do perfil nutricional e, ainda, como um dever de todos. Os estudos de Josué de Castro, que tiveram início na década de 1940, também tiveram forte influência no aumento da preocupação com a alimentação dos brasileiros (GAMBA, 2010). No auge das décadas de 1970 e 1980 várias frentes de trabalho foram “[...] disseminadas para diferentes trabalhadores, incluindo agrônomos, economistas, médicos e trabalhadores sanitários em geral, que recebiam treinamento e orientação sobre métodos de ensino para atuarem junto à população” (CERVATO-MANCUSO; VINCHA; SANTIAGO, 2016, p. 226-227). As frentes de trabalho incluíram os nutricionistas, porém não eram estes profissionais os únicos a prestar ações de EAN na época. Já as mudanças no perfil epidemiológico ocorridas por volta da década de 1990, no Brasil, despertaram novamente os olhos das autoridades em saúde para a educação nutricional, pois no momento iniciava-se o aumento exponencial da obesidade e sobrepeso na população brasileira, mesmo com a manutenção dos números de desnutridos, convivendo as duas situações em uma mesma região. Foram intensificados documentos e estudos a respeito da dieta dos brasileiros, bem como houve a intensificação na formação do nutricionista em EAN. Os anos de 2000 até os dias atuais seguiram na efetivação tanto de políticas públicas, que combinassem o escopo da EAN aliado as estratégias de SAN, quanto na reformulação da formação e competência de nutricionistas e demais profissionais de saúde para atuação no setor da educação, que carrega consigo tanto características pedagógicas quanto de saúde e alimentação. Diversos documentos foram discutidos e alimentados durante as décadas anteriores, como: a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (2006) e o Sistema Nacional de Alimentação e Nutrição (SISAN), que deu origem ao Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) e a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PNSAN). 3 CORRELAÇÃO ENTRE A EDUCAÇÃO E A NUTRIÇÃO No decorrer da história da alimentação e do ensino de técnicas de nutrição, percebeu-se que era necessário que a educação em nutrição ultrapassasse os conceitos dos nutrientes, para que pudesse comunicar de maneira pedagógica e eficiente, os conteúdos esperados, para seus destinatários. Segundo Cervato-Mancuso, Vincha e Santiago (2016, p. 227), “[...] a educação nutricional inclui, além do processo de ensino e aprendizagem, técnicas de planejamento e avaliação”. Durante os primeiro ano de educação nutricional, as demandas relacionadas aos hábitos alimentares da população, questões culturais, tabus alimentares, entre outros assuntos, fizeram com que os profissionais, que viam a nutrição somente sob o prisma da obtenção de nutrientes para sanar as necessidades biológicas do organismo, tivessem entraves e dificuldades na aplicação 14 destes conceitos junto à realidade da população. Tanto emissores do conteúdo quanto receptores tinham dificuldades em consolidar os conhecimentos acerca de EAN. O processo não ocorre de forma precoce, sendo necessário o planejamento para o fluir do ensino, sendo assim “[...] a construção do conhecimento acontece através do tempo, o indivíduo recebe a informação e constrói o saber, salientando que há o aprendizado, mas os indivíduos aprendem de formas diferentes (MARTINS; MOURA; BERNARDO, 2018, p. 420). Os conceitos de educação emancipatória, ou seja, aqueles nos quais há um protagonismo do ator social foco das demandas de saúde pública foram investigados e implementados em documentos norteadores, que pudessem atender tanto as demandas biológicas do ato de se alimentar quanto as demais instâncias, como: social, financeira, cultural, de saúde, entre outras. A educação e a saúde passaram a caminhar cada vez mais próximas, na busca por soluções para a educação nutricional da população brasileira. 4 FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO I: CONSIDERAÇÕES GERAIS, EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE ENSINO, APRENDIZAGEM E MOTIVAÇÃO Quando pensamos em educação, é parecido ter em mente vários atores sociais envolvidos, que facilitam todo o processo. Existem diversas propostas metodológicas de ensino, com diferentes abordagens, mas todas têm como foco a transmissão de conhecimento e as trocas entre quem desempenha o papel de professor e os que desempenham o papel de estudantes. Os documentos nacionais foram desenvolvidos e aprimorados desde os primórdios da educação, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, que prevê um padrão mínimo a ser atingido nas instituições de ensino públicas ou particulares, com características da educação que é aplicada, métodos e ferramentas. Esta lei é fundamentada na Constituição Federal Brasileira de 1988, que prevê a educação como um direito fundamental a todos os FIQUE DE OLHO Você conhece o Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas? Um documento norteador do Mistério do Desenvolvimento e Social e Combate a Fome, de 2012, com estratégias de EAN que orientam as ações em políticas públicas relacionadas a alimentação saudável e adequada. 15 cidadãos e respeito a cidadania e democracia. Além disso, outro documento nacional norteador importante, ao falarmos em educação, é os Parâmetro Curriculares Nacionais (PCN), que orienta disciplina, os currículos escolares de todo o país, sendo obrigatório para rede pública de ensino e facultativo de cumprimento pelas instituições particulares. O estabelecimento de parâmetro nacionais favorece a padronização de um modelo nacional de ensino, dando acesso igualitário. Sendo assim, [...] os Parâmetros Curriculares Nacionais (1988) ressaltam que os estudantes devem ser capazes de: entender que a cidadania implica em exercer os direitos e deveres e no seu cotidiano ser solidário, justo e respeitar o próximo; diante de situações sociais, posicionar-se de maneira crítica sempre dialogando para resolver conflitos e tomar decisões; valorizar a pluralidade rejeitando qualquer tipo de discriminação; sentir-se parte do meio ambiente e contribuir para a melhoria do mesmo; cuidar do corpo, seguindo hábitos saudáveis; usar as diferentes linguagens com a finalidade de expressar suas ideias; saber manusear equipamentos tecnológicos com a finalidade de adquirir conhecimento (MARTINS; MOURA; BERNARDO, 2008, p. 419). Inúmeros autores e pensadores somaram nesse processo histórico de construção da educação, entre eles podemos citar ícones brasileirosque trouxeram suas contribuições durante anos de pesquisas, como: Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Bertha Lutz e Leonardo Boff. Estes pensadores nacionais até hoje fazem parte na construção e na busca por uma educação crítica e solidária. Dentre autores internacionais, podemos elencar nomes, como: Maria Montessori (educação montessoriana), Rudolf Steiner (pedagogia Waldorf de 1919), Ivan Illich (e seu famoso livro Sociedades sem escolas), Jean Piaget (pai dos estudos cognitivos), Johann Pestalozzi (aprendizagem autônoma), entre outros. O foco de todas estas discussões é uniformização de padrões para a Educação Básica, que, por ocasião, se estendem as demais instancias até o Ensino Superior, prevendo que todos os que, por direito, tem acesso à educação, o façam dentro de parâmetros seguros dos objetivos da aprendizagem. 5 A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE ENSINO Desde os primórdios da humanidade, as relações de sociedade e de educação estiveram em franca expansão. Vincular a história dos seres humanos à educação faz todo sentido, na medida que as demandas da sociedade foram ditando os padrões de educação, ora feita por meio da explicação oral não concentrada em uma instituição formal, ora especializada na passagem de conteúdos com vista a formação ética e profissional dos humanos. Chefes de famílias ou clãs, sacerdotes, filósofos e pensadores já figuraram no papel de 16 professores. Estabelecendo meios de comunicação com função que ia além da mera informação, mas do aprendizado aplicado as necessidades da vida. Os assuntos eram diversos e difusos no início, tornando-se cada vez mais segmentados e especializados no decorrer da história. Figura 1 - Evolução no processo da história Fonte: Altmodern, Istock, 2020. #ParaCegoVer: Na imagem um quadro de giz em que está desenhado o modelo evolutivo do macaco até o homem. Os períodos históricos também foram marcados por diversas esferas da educação, passando por modelos orientais, gregos, romanos, católicos/cristãos, entre outros. A educação sempre esteve dividida por castas ou classes sociais, como foi o caso da educação burguesa, fortemente ligada 1a condição social do estudante e que disseminou conceitos de literatura e línguas como sua mais forte marca. Na elaboração de seus currículos, a respeito das diretrizes da Constituição Federal relacionadas à educação, prevê alguns pontos essenciais na educação democráticas. Vejamos a seguir. Primeiro ponto Ética, autonomia, responsabilidade, solidariedade e bem comum (o que é de uso comum a todos, como a natureza, por exemplo). Segundo ponto Direitos e deveres da cidadania, criticidade e ordem democrática. Terceiro ponto Sensibilidade, criatividade, diversidade de manifestações artísticas e culturais brasileiras. 17 5.1 Bases da aprendizagem e motivação Uma das forças motrizes da aprendizagem é a motivação. A maioria dos professores dispende horas de pensamentos, buscando estratégias para sanar a falta de interesse dos alunos. A desmotivação do estudante pode, inclusive, gerar desmotivação do professor, causando graves problemas nas salas de aula. A máxima de que certos assuntos por si só causam desmotivação deve ser superada, tendo em vista que as técnicas de ensino devem se manter atuais, promovendo aos estudantes o engajamento necessário para uma boa aprendizagem. [...] A motivação é um dos conceitos fundamentais da psicologia, exerce influência na aprendizagem e consequentemente no desempenho escolar do aluno, por isso o crescente interesse dos profissionais da educação principalmente professores, que visam o crescimento de seus alunos, fazendo-os alcançar os objetivos estabelecidos no planejamento anual. Tendo em vista a importância da motivação no processo ensino-aprendizagem é possível notar que a ela predispõe à pessoa a ação desejada, promovendo a busca e a conquista do conhecimento. Sem motivação a aprendizagem torna-se quase impossível. Mesmo que existam diversos recursos favoráveis, se não há motivação a aprendizagem sem dúvida fica comprometida (PEREIRA, 2014, s/p). Por isso, respeitar as velocidades de aprendizagem, que podem não ser homogêneas, em um ambiente escolar, e buscar técnicas para tornar o ambiente escolar agradável podem gerar bons frutos nas relações de ensino-aprendizagem. Estudos mostram que o cérebro humano varia em termos de concentração, apreensão e motivação de acordo com o tempo em que é exposto a certas atividades. De acordo com as teorias de Glasser (2001), cada atividade pode desempenhar um papel diferente no aprendizado, sendo necessário variar as maneiras do emissor (professor) na passagem dos conteúdos. FIQUE DE OLHO A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB n. 9394 de 1996) é o instrumento legal para ações em educação em todos país. Ela traz as diretrizes para o ensino, em todas as etapas do aprendizado, tanto para rede pública quanto privada. E está baseada em fundamentos da Constituição Federal de 1988. 18 Figura 2 - Pirâmide do aprendizado Fonte: Elaborado pelo autora, 2020. #ParaCegoVer: Pirâmide dividida com os estratos de atividades que podem ser aplicadas ao ensino e as porcentagens de apreensão do indivíduo e aproveitamento do conteúdo. Contendo sete divisões, cada uma classificada com uma cor diferente. Uma metodologia de ensino e aprendizagem em que o estudante é colocado no centro do processo, com forte protagonismo, poderá atuar de maneira eficaz na captação motivacional deste público. Atrelando a experiência do professor em sala de aula, busca por metodologias ativas e foco na aprendizagem, desenvolvimento e humanização deste momento de troca de vivências e conhecimentos. 6. FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO II: EDUCAÇÃO EM VALORES, CLASSIFICAÇÃO DA EDUCAÇÃO, CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO Questões morais e éticas permeiam a educação, desde os tempos em que as aulas eram realizadas em pequenos grupos familiares ou em reuniões com pensadores, nas antigas Ágoras. A expansão ocorreu no decorrer do tempo, para necessidades vitais, que incluem questões biológicas, de ciências e matemáticas, bem como, expressão na língua materna e o conhecimento de línguas estrangeiras. A arte também fez parte da educação desde seus primeiros momentos, se mantendo na educação formal. 19 Ao imaginarmos uma educação baseada em valores, alguns conceitos devem estar presentes, fortificando a formação de cidadãos conscientes de seu papel na sociedade de maneira ampla. Os valores que podem ser considerados na formação são: respeito, igualdade, pensamento crítico, empatia e solidariedade. Estes conceitos irão balizar as decisões dos estudantes a todo momento, fazendo com que seus pensamentos não incluam, somente, suas vontades ou desejos, mas façam parte de um panorama maior, que inclui as relações e o meio ambiente, por exemplo. Esta formação baseada em valores traz ao estudante a capacidade de tornar-se um ser ativo, pensante, crítico e um ente político-social. Este método de educação deverá permear todas as áreas de conhecimento, não sendo diferente na educação nutricional. Ao pensarmos em EAN, temos a interrelação de conhecimentos e constantes capacitações dos atores envolvidos. O professor é habilitado a entender as tomadas de decisão dos nutricionistas, no momento da escolha dos alimentos e elaboração dos cardápios, bem como tornar-se apto a incluir os alimentos nas disciplinas que leciona. Por outro lado, o nutricionista torna-se capaz de compreender as técnicas pedagógicas e metodologias de ensino que melhor possam auxiliar na atividade com os estudantes ou pacientes foco de ações de EAN. E ambos correlacionam estes saberes com o protagonismo do estudante e a troca de experiências baseada em valores éticos. Sendo assim, incluir atividades que estimulem a democracia, a participação de todos, trabalhos em grupo, cidadania e colaboração, poderão despertar nos estudantes muito mais do que o simples aprendizado do conteúdo. Poderão trazer até eles a necessidadede reflexão a respeito de suas ações. Valores como a igualdade, o respeito ao meio ambiente, o cuidado com a saúde e a criação de oportunidades poderão ser engajados neste sistema de aprendizado participativo. 7. CLASSIFICAÇÃO DA EDUCAÇÃO A educação brasileira atual é dividia em quatro fases: Educação Básica, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Após este período temos a apresentação de Ensino Superior e cursos de pós- médio (que poderão ser de caráter técnico ou profissionalizante). Sabe-se que algumas fases da educação são de obrigação da rede pública, sendo dividida entre a federação, Estados e municípios. Em seguida poderemos compreender melhor como se dá essa divisão por etapas. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996), podemos classificar as etapas da aprendizagem em: Educação Infantil; Ensino Fundamental; Ensino Médio; e Cursos pós-médio e Superior. Vejamos suas definições a seguir. 20 Educação Infantil Este período contempla as chamadas creches (de 0 a 3 anos) e pré-escolas (de 4 e 5 anos), sendo gratuita, mas não obrigatória e a cargo dos municípios. A expansão do número de creches e pré-escolas se dá através da participação popular e ministério público, dada a crescente demanda no número de alunos e necessidade de pais e mães trabalharem fora. Ensino Fundamental Esse ciclo inclui do 1º ao 5º ano, do 6º ao 9º ano, obrigatório e gratuito, ficando a cargo dos municípios os primeiros anos do aprendizado e aos Estados os anos finais. A previsão é que gradativamente os municípios recebam a transferência de todos ciclo fundamental a seu cargo, deixando os Estados de prestar esta competência. Ensino Médio Compreende do 1º ao 3º ano, podendo apresentar cursos técnicos profissionalizantes, sendo de responsabilidade dos Estados. Curso Pós-Médio e Superior Os cursos de pós-médio são aqueles que fornecem formação profissionalizantes após a conclusão do ciclo médio de formação, ficando a cargo do Estado ou de Institutos Federais. Já a formação superior fica a cargo de instituições federais ou estaduais, podendo ser gratuita, porém sem atendimento de toda. 7.1 Construção do conhecimento O conhecimento depende de quem ensina e de quem aprende, em um processo de transformação constante. As metodologias podem ser semelhantes, mas a maneira de ensinar é característica de cada um dos professores, assim como a recepção por parte dos estudantes. Cada aluno irá receber e processar as informações e conteúdo de forma distinta, assim como assimilá- las dentro de si e aplicá-las a prática. Nesse sentido, podemos falar em construção do conhecimento, como uma ação contínua de estudantes e professores na busca por ciência e formação. Segundo Piaget (1972, p. 59, apud MARTINS; MOURA; BERNARDO, 2008, p.411): [...] de acordo com Piaget, a aprendizagem vem em função da experiência que a criança vai obtendo de modo ordenado, o desenvolvimento é o responsável pela formação dos conhecimentos. A afetividade e a interação social também contribuem para o aprendizado do estudante, por isso, é muito importante a escola trabalhar para que essas duas características fundamentais contribuam para o processo da construção do conhecimento. 21 Logo, a construção do conhecimento é materializada através de ações múltiplas de criação de um ambiente proveitoso para professores e estudantes. Perpassando afetividade, conhecimento, experiência, metodologias, entre outras questões relacionadas a este processo que é a aprendizagem. Autônomos é uma palavra que frequentemente é citada quando se reúnem pensadores modernos das metodologias de ensino aprendizagem, já que o conceito de professor como mero ‘passador’ de conteúdos foi superada, favorecendo abordagens que levem o estudante a reflexão e criatividade na busca por soluções para as questões apresentadas em sala de aula, ou seja, autonomia no modo de pensar e agir. O avanço na tecnologia também permitiu ao estudante se espraiar em outras searas do conhecimento, através de plataformas que hoje se tornaram bastante comuns nos processos de ensino-aprendizagem. Mas se engana quem imagina que com as novas tecnologias e maior acesso à informação, o papel dos professores tenha sido superado. Cabe aos mestres, dar norte a toda essa informação, como um barco navegando por um mar repleto de aventuras e perigos. Encontrar informação tornou-se muito mais fácil, porém escolher quais informações são válidas perante ao meio científico, e como fazer bom uso tanto das informações como das expostas pelas tecnologias ainda é uma das funções dos professores, bem como gerar reflexões acerca delas. Segundo Vygotsky (1972, p. 59, apud MARTINS; MOURA; BERNARDO, 2018, p.412) “[...] Vygotsky menciona que o conhecimento se dá através da interação social”. Sendo assim, a relação entre os humanos capaz de despertar o conhecimento. As formas de analisar a construção do conhecimento podem ser diferentes, como Piaget que acreditava que em primeira instância vinha o desenvolvimento humano e depois a aprendizagem ou Vygotsky, que pensava exatamente o contrário, o aprendizado é que trazia o desenvolvimento. Mas, independente, da ordem dos fatores, o conhecimento, o desenvolvimento e o avanço dos seres humanos estão intrinsicamente ligados, e fortemente relacionados à aprendizagem. Para tal construção, podemos elencar alguns fatores que podem influenciar ou ainda, facilitar o processo ensino-aprendizagem. Vejamos a seguir. Assimilação Descobertas e estímulos são capazes de fomentar a aprendizagem através de capacidades cognitivas do estudante. Compartilhamento Compartilhamento: de acordo com a pedagogia desenvolvida por Freire, “[...] os homens se educam entre si mediatizados pelo o mundo”. (FREIRE, 1974, p. 63). Sendo o compartilhamento, 22 que ocorre em via de mão dupla (do professor para o estudante e do estudante para o professor), o processo de ensino-aprendizagem se faz completo; Metodologias Apesar de cada professor ter sua maneira de repassar o conhecimento e cada estudante ter seus meios de assimilar o conteúdo, ter em vista o uso de metodologias cientificamente válidas poderá fazer deste processo mais proveitoso. Este estabelecimento passa por definições e discussões nos currículos escolares, na formação dos professores e nas diretrizes que deverão ser seguidas para que todos possam ter acesso a uma educação de qualidade. Socialização do conhecimento O uso de metodologias é fundamental no processo de ensino-aprendizagem, mas garantir que todo o conhecimento seja sociabilizado significa ir além. É preciso dar a todos os estudantes a oportunidade de se expressarem e expressarem seus anseios mediante a educação, compreendendo que não há um meio único de passar o conhecimento, assim como não há uma maneira única de recepcioná-lo e aplicar estes conhecimentos. O respeito a diversidade humana é a base para um conhecimento sólido e que possa ser agente transformador da realidade. Afetividade Tornar-se afetivo, ser tratado de forma afetiva, conceitos que foram construídos nas demonstrações de afeto, perpassam pelas palavras “afetar” e “ser afetado” pelo outro. A afetividadenão responde somente a atributos das emoções e sentimentos, mas transpassa vontades e tendências do ser humano. Sendo assim, ponto fundamental na construção de um espaço de escuta e fala, com estudantes agentes de transformação, que ultrapassam notas, conceitos e mera transferência de conhecimento. As relações que envolvem ensino-aprendizagem, como um processo, estão intrinsecamente ligadas com ambiente domiciliar, relações parentais e sociais, formação de professores e demais agentes do ambiente escolar, metodologias, práticas de saberes e se dão em constante relação e transformação (LINDEN, 2005). Cada sociedade é formada pelos valores que escolhemos ensinar. Em EAN não é diferente, já que não somos somente o que comemos, mas todas as relações que desenvolvemos no entorno deste ato multifacetado de se alimentar. 23Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • conhecer mais sobre o significado de educação nutricional, entendo que ela poderá ser chamada de educação alimentar e nutricional e mais do que uma atribuição do nutricionista é parte do processo de ensino-aprendizagem de todo ser humano, nas mais diversas fases da vida; • compreender o histórico da educação e da EAN, através dos eventos e nomes que circundaram os processos de evolução das metodologias de ensino, marcos teóricos e marcos jurídicos; • aprender sobre as bases da educação, princípios morais e éticos que estão em consonância com a Constituição Federal brasileira, praticando a ética e promovendo a democracia, assim como conceitos de motivação e aprendizagem; • explorar a educação baseada em valores, com protagonismo e aplicação de conceitos como respeito, igualdade, pensamento crítico, empatia e solidariedade. E ainda, saber mais sobre a classificação da educação formal brasileira; • aprofundar conhecimentos sobre a construção do conhecimento, suas teorias e técnicas, uso de novas tecnologias e metodologias ativas que poderão ser aplicadas a EAN. PARA RESUMIR AMARAL JUNIOR, J.C. do. Questões contemporâneas sobre o ensino de Economia Do- méstica no Brasil: 61 anos depois. Revista espaço acadêmico, [s.l], n. 155. abr./2014. Ano XIII. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei n. 9394, 20 de dezembro de 1996. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasí- lia, MEC/SEF, 1998. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Marco de referência de educação alimentar e nutricional para as políticas públicas. Brasília, DF: MDS; Secreta- ria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, 2012. BOOG, M.C.F. Educação nutricional: passado, presente, futuro. Revista de Nutrição. PUC- CAMP, Campinas, v.10, n.1, p. 5-19, 1997. CERVATO-MANCUSO, A. M.; VINCHA, K. R. R.; SANTIAGO, D. A. Educação Alimentar e Nu- tricional como prática de intervenção: reflexão e possibilidades de fortalecimento. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 26, p. 225-249, 2016. CONSELHO FEDERAL DE NUTRICIONISTAS – CFN. Resolução CFN n. 600, de 25 de feverei- ro de 2018. Dispõe sobre a definição das áreas de atuação do nutricionista e suas atri- buições, indica parâmetros numéricos mínimos de referência, por área de atuação, para a efetividade dos serviços prestados à sociedade e dá outras providências. Diário Oficial da União. 20 abr. 2018. Seção 1, n. 76, p. 157. Disponível em: https://www.cfn.org.br/ wp-content/uploads/resolucoes/Res_600_2018.htm. Acesso em: 30 abr. 2020. FREIRE, P. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. GAMBA J.C.M. O direito humano à alimentação adequada: revisitando o pensamento de Josué de Castro. rev. Jurídica da Presidência. 2010, v. 11, p. 52–81. GLASSER, W. Teoria da Escolha: uma nova psicologia de liberdade pessoal. São Paulo: Mercuryo, 2001. LINDEN, S. Educação nutricional: algumas ferramentas de ensino. São Paulo: Varela, 2005. MARTINS, E. D.; MOURA, A. A. de; BERNARDO, A. de A. O processo de construção do conhecimento e os desafios do ensino-aprendizagem. RPGE– Revista online de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v.22, n.1, p. 410-423, jan./abr. 2018. PEREIRA, G. de S. ; CERQUEIRA, G. M.de; MIGUELA, J. A. de F. S. A motivação como fer- ramenta de aprendizagem significativa. Recanto das Letras, Irará, 2014. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-educacao/4887270. Acesso em: 30 abr. 2020. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 2 Bases da educação alimentar e nu- tricional Você está na unidade Educação Alimentar e Nutricional. Conheça aqui quais são as bases desta ciência que busca auxiliar no processo de ensino-aprendizagem dos assuntos relacionados à educação nutricional. Além disso, aprenda sobre as nomenclaturas, os principais conceitos, os princípios e os objetivos deste mote de educação ligada à nutrição. Compreenda, ainda, recursos pedagógicos e didáticos e seus conceitos fundamentais, que poderão facilitar a elaboração de ações em diversos meios da educação alimentar e nutricional, como: hospitalar, saúde pública, educação. Ressaltando a importância da didática, métodos e técnicas de ensino para a formação de nutricionistas. Bons estudos! Introdução 27 1 BASES DA EDUCAÇÃO NUTRICIONAL: NOMENCLATURAS, CONCEITOS, PRINCÍPIOS E OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO NUTRICIONAL Conhecer a estrutura básica de educação alimentar e nutricional poderá trazer ao estudante uma perspectiva ampla de que conceitos e terminologias são importantes para construção do tema. A própria titularidade da disciplina nos propõe este olhar, partindo da informação de que a evolução do assunto trouxe o acréscimo da palavra nutricional à educação alimentar. Acrescentamos, portanto, um conceito que amplia a competência, aliando tanto os ramos biológicos quanto alimentares do ato de comer. A Resolução CFN n. 600, que traz as atribuições da profissão de nutricionista, também traz a definição deste ramo de estudo da nutrição. [...] Educação Alimentar e Nutricional (EAN) – é um campo de conhecimento e de prática contínua e permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis. No contexto que envolva indivíduos ou grupos com alguma doença ou agravo, as ações de EAN são responsabilidade de profissionais com conhecimento técnico e habilitação em EAN (CFN, 2018, online). Vejamos, identificamos no trecho anterior palavras importantes que desvendam a Educação Alimentar e Nutricional (EAN). Essa área do conhecimento é definida como um campo de conhecimento, foco de pesquisas, saberes e estudos científicos, além de ser compreendida como de prática, ou seja, aplicação dos conhecimentos adquiridos e troca de saberes. Desse modo, por ser uma prática contínua e permanente, esse modelo de educação é baseado na formação continuada, que deve ser praticado e aprimorado durante todas as fases da vida ou da profissão. A transdisciplinaridade, intersetorialidade e multiprofissionalidade respondem pela troca e somatória de experiências que cada uma das áreas pode trazer a este conceito, que propaga a adesão a uma alimentação saudável e adequada. Profissionais múltiplos, de diferentes áreas poderão contribuir com seus conhecimentos e complementá-los com o conhecimento de outros, em um amplo processo de construção de conceitos. Podemos exemplificar este momento com a troca que ocorre entre nutricionistas e professores no ambiente da alimentação escolar. Os conhecimentos sobre nutrição e alimentos são a contribuição dos nutricionistas, que aliados a práticas pedagógicas fornecidas pelos professores geram ações complexas, que colaboram para o processo de ensino-aprendizagem, além de fornecer ferramentas para uma alimentação saudável e adequada. Por fim, a definição refere-se à adoção voluntária a práticas alimentares saudáveis, 28 demonstrando que o objetivo dessa prática está na emancipação do indivíduo para que o mesmo possa, em sua vida cotidiana, ter consciência de suas escolhas e práticas alimentares na busca por qualidade de vida e saúde. 1.1 Educação Alimentar e Nutricional: principais conceitos Logo, quando pensamos em nomenclatura relativa a EAN, alguns conceitos são fundamentais. Passaremos a explorar melhor esses termos, iniciando com a própria palavra título da disciplina. Efetivamente, o significado de uma educação alimentar e nutricional visa dar aos indivíduos informações para que possam ser construídos conhecimentos acerca dos alimentos, suas funções no organismo, as necessidades de nosso corpo em relação aos nutrientes, as imbricações sociais e as relações da cultura alimentar. O desenvolvimento desse conteúdo objetiva que cada ser humano possa saber as opções que tem quando se trata da alimentação, e que consequências estas escolhas podem gerar, sempre com vistas a saúde,ou seja, uma alimentação promotora de um estilo de vida saudável e que seja adequada as relações que este ser humano desenvolve. Um ótimo exemplo para esta questão são as discussões sobre a adoção da dieta mediterrânea, considerada por muitos como saudável. Ela pode não ser adequada em diversas partes do mundo, com costumes e hábitos alimentares diferentes dos ali praticados. Alimentos comuns nesse tipo de dieta podem não ser encontrados em outros lugares e as substituições podem gerar outros resultados. Além de que as evoluções metabólicas de cada ser humano, em cada país ou região podem ser distintos. Logo, padronizar um tipo de dieta para todo o mundo não é melhor caminho da EAN. Ao passarmos para outras definições, trazemos dados do marco de referência de EAN, publicado pelo governo federal, com diretrizes sobre o assunto, voltado para as políticas públicas de segurança alimentar e nutricional. O documento define EAN como: [...] educação Alimentar e Nutricional, no contexto da realização do Direito Humano à Alimentação Adequada e da garantia da Segurança Alimentar e Nutricional, é um campo de conhecimento e de prática FIQUE DE OLHO Você sabia que antes da década de 1980 a educação nutricional era chamada de Educação Alimentar? Este conceito foi alterado devido aos diversos estudos científicos que se desenvolveram na área de Nutrição, mudando a nomenclatura deste campo do conhecimento. 29 contínua e permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis. A prática da EAN deve fazer uso de abordagens e recursos educacionais problematizadores e ativos que favoreçam o diálogo junto a indivíduos e grupos populacionais, considerando todas as fases do curso da vida, etapas do sistema alimentar e as interações e significados que compõem o comportamento alimentar. (BRASIL, 2012, online) Este conceito amplia a definição vista anteriormente, retirada da Resolução CFN n. 600. Citando termos como o Direito Humano à Alimentação Adequada, um direito fundamental, garantido através de Emenda Constitucional n. 64 de 2010, que traz a palavra ‘alimentação’ ao nosso texto constitucional e como garantia para uma vida digna. A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) também é citada, estipulando as dimensões de alimento saudável, seguro, diversificado, que não cause danos à saúde ou ao meio ambiente, entre outros conceitos. Outro ponto importante de analisarmos nessa definição é a inclusão de diálogos com os grupos populacionais, outra dimensão da segurança alimentar e nutricional que se relaciona com a soberania alimentar e nos diz que os conceitos relativos a uma alimentação saudável e adequada deve estar em constante relação com as populações para as quais são destinados. Esse conceito também está previsto na definição de SAN, sendo trazida na contextualização do Guia Alimentar para População Brasileira, documento publicado em 2014, pelo Ministério da Saúde. As considerações sobre as especificidades da comensalidade são um outro aspecto interessante de ser compreendido. As fases da vida e suas demandas diferenciadas, as relações que se estabelecem através da alimentação, os inúmeros significados que os alimentos podem ter, entre outros componentes do comportamento alimentar dos seres humanos devem ser considerados. O que nos chama a atenção para o fato de que falar de alimentação, nutrição, alimentos, comida, pode ter interações e significados distintos e complexos e que a EAN deve estar em sintonia com todos esses contextos. Outro documento bastante relevante que pode ser citado quando pensamos em EAN é a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), que traz em seu texto a seguinte definição de Educação Nutricional, [...] processos de diálogo entre profissionais de saúde e a população, de fundamental importância para o exercício da autonomia e do autocuidado. Isso pressupõe, sobretudo, trabalhar com práticas referenciadas na realidade local, problematizadoras e construtivistas, considerando-se os contrastes e as desigualdades sociais que interferem no direito universal à alimentação (BRASIL, 2013, online) Percebemos que as definições são complementares, trazendo diversas visões sobre o mesmo assunto, a alimentação e nutrição, sob o viés da educação, como uma proposta emancipatória que objetiva uma alimentação saudável e adequada acessível a toda população, consequente melhorias na saúde e diminuição tanto de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) quanto da fome. 30 1.2 Princípios de ação e objetivos A pedagogia teve um papel fundamental no conceito de educação nutricional e nas suas transformações de ação e objetivos. Freire foi um pensador basilar nesse processo. O inicio das ações, além de repleto de preconceitos, estimavam uma educação e alimentação baseadas em binômios (BIZZO, 2005). Um deles foi o da informação – educação, e na seara da alimentação, o binômio era dinheiro – comida saudável. Os estudos pedagógicos de Freire foram fundamentais para mudanças na educação relacionada à saúde. O slogan “educação para saúde” foi alterado para “educação em saúde”, transferindo o eixo educador (FAQUETI, 2019). Atuando na obtenção da construção do conhecimento nas relações com o bem-estar e a saúde. As alterações na concepção de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) também se alteraram, no sentido de contemplar outras instâncias que não somente a não existência de doenças, tornando-se multifatorial. Quanto aos objetivos da educação nutricional, não podemos fugir ao estudo aprofundado do marco de referência de EAN, publicado pelo governo federal. Vejamos quais as palavras trazidas por este documento orientador sobre os objetivos de EAN, [...] o ato de comer, além de satisfazer as necessidades biológicas é também fonte de prazer, de socialização e de expressão cultural. [...] o poder e a autonomia de escolha do indivíduo são mediados por estes fatores sendo que as ações que pretendam interferir no comportamento alimentar devem considerar tais fatores e envolver diferentes setores e profissionais (BRASIL, 2012, p. 14). Uma questão interessante para apontarmos em relação ao marco de EAN, é sua atitude de promoção de ações interdisciplinares. Ele foi construído para que diversos profissionais possam basear-se nas informações ali contidas, para aplicá-las em suas vivências diárias. Por ocasião de seu lançamento, os maiores apontamento eram relativos a uma suposta fragilidade do documento, sendo esperado que ele trouxesse modelos de atividades prontas a serem aplicadas pelos profissionais, e este tipo de informação não foi encontrada. Neste sentido a justificativa diz respeito às [...] características dos modos de vida contemporâneo influenciam o comportamento alimentar, com oferta ampla de opções de alimentos e preparações alimentares, além do aspecto midiático, da influência do marketing e da tecnologia de alimentos. [...] Compreende-se que a EAN terá maiores resultados se articulada a estratégias de caráter estrutural que abranjam aspectos desde a produção ao consumo dos alimentos, pois sua capacidade de gerar impacto depende de ações com aquelas que o ambiente determina e possibilita (BRASIL, 2012, p. 14). Ele foi desenvolvido com a intenção de ser um documento em constante construção, para diálogo, reflexão e práticas nas mais diversas áreas, baseados em conceitos comuns, que possam ser efetivos para obtenção de SAN. E não um modelo de recorte e cole para simples aplicação de 31 ações prontas. Quanto aos princípios de ação, o marco de EAN é bastante didático, pois divide os assuntos em pequenas categorias. Vejamos, a seguir. • Sustentabilidade social, ambiental e econômica; • Abordagem do sistema alimentar, na sua integralidade; • Valorização da cultura alimentar local e respeito à diversidade de opiniões e perspectivas, considerando a legitimidade dos saberes de diferentes naturezas; • A comida e o alimentocomo referências; Valorização da culinária enquanto prática emancipatória; • A promoção do autocuidado e da autonomia; • Educação enquanto processo permanente e gerador de autonomia e participação ativa e informada dos sujeitos; • Diversidade nos cenários de prática; • Intersetorialidade; • Planejamento, avaliação e monitoramento das ações. Traçando assim um amplo campo de discussões e assuntos que podem ser aplicados em todas as áreas de conhecimento, por nutricionistas, professores, pedagogos e outros profissionais, na busca por emancipação alimentar saudável e adequada. 2 PEDAGOGIA E DIDÁTICA: ELEMENTOS DIDÁTICOS Os elementos didáticos são ponto importante nas discussões de EAN. Eles serão os responsáveis pela construção do conhecimento nesse campo. A comunicação entra em cena e esse conceito é analisado no marco de EAN. Trata-se não apenas de comunicar um conteúdo, mas de buscar estratégias na criação de um campo profícuo de aprendizagem. FIQUE DE OLHO O Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para Políticas Públicas é um documento importante quando se fala de estratégias de EAN, nele você pode saber mais sobre os tópicos apresentados acima. 32 Em relação à comunicação nas ações de EAN, Faqueti (2019, p. 164) aponta para os seguintes fatores: “[...] as relações de poder, as relações dialógicas e a coerência entre a teoria e a prática”. Ao esmiuçarmos esses termos podemos verificar que as relações de poder, nas ações de construção do processo de ensino-aprendizagem, podem estabelecer um distanciamento não eficiente para estas ações. Poderá ocorrer, inclusive, um processo de bloqueio e desconstrução de saberes através da intimidação. Relações dialógicas dizem respeito ao diálogo constante entre estudantes e profissionais educadores. Estabelecer esse diálogo é um fator determinante na construção do conhecimento, quem somente ouve, sem ter oportunidade de se expressar, pode não se adquirir autoconfiança através do conhecimento, se desestimulando a aprender. Figura 1 - Construção do conhecimento Fonte: Photo Mix, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: figura demonstrando uma escada desenhada em um quadro negro, um estudante subindo os degraus, demonstrando o crescimento através da educação, que está formando o ultimo patamar da escada. Por fim, a coerência entre a teoria e a prática é fundamental, já que ela faz a ponte entre o conhecimento científico e a realidade da vida das pessoas. Imagine que dentre as recomendações de EAN seja repassada a informação de que você deve consumir frutas vermelhas ao menos uma vez na semana. Em seu íntimo você poderá questionar quais são essas frutas e até mesmo perceber que você não tem acesso a este tipo de alimento. Se não houver uma adaptação entre o que preconizam as orientações oficiais e a realidade vivida por cada população, o fio do conhecimento poderá se romper. Por isso, tanto os saberes populares quanto os saberes científicos podem contribuir na construção da EAN é um dos primeiros passos para que profissionais se coloquem em relação com os atores sociais para os quais destinam suas ações educativas. O amalgama das ações deve ocorrer tanto entre estudantes/atores sociais e profissionais/professores quanto entre os profissionais de diferentes áreas que atuam de maneira conjunta para maior efetividade (PEREIRA, 2003). 33 2.1 A busca por uma educação nutricional didática A solução de problemas é um ponto de partida interessante para reflexões a respeito da EAN. Quando falamos em uma educação nutricional didática, solucionar problemas de construção do conhecimento, por profissionais múltiplos, com públicos-alvo que podem ser bastante diferentes, pode parecer um dilema. A formação do nutricionista passa, a cada dia, ter maior foco no fornecimento de ferramentas para que os futuros profissionais possam desempenhar suas atividades munidos do conhecimento de que necessitam. As trocas de conhecimento, nesse sentido, podem ampliar ainda mais a gama de atuação. Mas não se trata de trazer para si todas as funções ou ações de EAN. Com uma formação generalista, que significa capacitar nutricionistas para atuação em áreas diversas, como cozinhas industriais e alimentação coletiva, politicas públicas de abastecimento e assistência social, saúde pública e coletiva, pesquisas relacionadas à alimentos, vigilância sanitária, entre outros, pode gerar a impressão de que detemos todos os conhecimentos de todas as áreas. Esse comportamento pode causar frustrações nos momentos de colocar em prática as atividades vistas na formação acadêmica. Ao se deparar com grupos de atores sociais, em unidades de saúde básicas, por exemplo, a construção de conhecimento conjunto em relação à alimentação pode demorar a surtir efeito, ou os atores sociais podem se sentir desestimulados, devido a vários fatores, como: falta de autonomia econômica; falta de tempo ou habilidades culinárias; entre outros fatores, para seguir as recomendações, abandonando as capacitações de EAN. A busca por conhecimentos que possam agregar outras capacidades deve ser constante, mas deve também estimular a troca entre diversas áreas. Não são poucos os autores que se referem à educação como o caminho para a libertação. A Organização Pan-americana de Saúde, defende que a educação é a transformação do indivíduo, e, que ao se transformar, transforma seu entorno (OPAS, 1995). Mas não se trata nem de um processo rápido e curto, nem tampouco de um processo individual. Por este motivo a palavra construção participa de maneira fundamental nas ações de EAN. 2.2 Aplicabilidade dos elementos didáticos Os elementos didáticos visam despertar toda a potencialidade que existe no ato de ensinar. Transportar estes elementos para as ações de EAN pode ser o caminho para uma troca efetiva e duradoura, e que gere resultados no dia a dia das comunidades participantes. Como já vimos, anteriormente, nesse capítulo, existem documentos norteadores que são fundamentais para as ações de EAN. 34 Vamos relembrar? Marco de Referência para ações de EAN, Guia Alimentar para População Brasileira, Política Nacional de Alimentação e Nutrição são alguns deles. Nesse tópico, iremos esmiuçar os elementos didáticos, que, associados aos marcos teóricos poderão gerar um conhecimento amplo e aplicável as ações de EAN, seja no ambiente escolar ou fora dele. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Cabe ressaltar que existem inúmeras correntes de pensamento diferentes quando falamos em didática e educação, e a escolha por modelos participativos tem mostrado maiores resultados na busca por ações efetivas de EAN junto as comunidades (escolares ou não), mas existem outras maneiras de ver e pensar a educação. Algumas podem ser mais tecnicistas, outras depositantes de conteúdos e conhecimentos. Nesse material, a didática de Freire, considerada relacional, será a base para as propostas pedagógico-didáticas aplicadas. Segundo Freire (1996), é necessário que se estabeleça uma relação na construção do saber, ele não se dá em via única, ou seja, do professor para o estudante, mas em via de mão dupla, que tanto faz o conhecimento vir do professor quando do estudante, em uma troca constante e construção, como a prática pedagógica participativa. Essa escolha metodológica está em consonância com a própria definição de EAN que vimos anteriormente, supondo uma prática multidisciplinar e multiprofissional (BRASIL, 2012). Segundo Faqueti (2019, p.168), este conceito é formado pelos seguintes eixos estruturadores: “[...] a escuta; a valorização do saber do outro; e as metodologias ativas”. Segundo a autora, a escuta perpassa pelos momentos em que deixamos de falar, e assim repassar ou depositar os conteúdos da disciplina aos ouvintes ou estudantes e nos preocupamos em estabelecer uma escuta ativa. A escuta ativa pressupõe que aquele que se destinou a ser o mediador da ação está atento as demandas provenientes do público, com uma escuta que se preocupa coma solução dos problemas apresentados. 35 Já na valorização do saber do outro, a construção se dá de maneira muito clara, levando em consideração que os conhecimentos levados pelo mediador não são os únicos a serem valorizados. Eles são colocados lado a lado com os saberes de todos, formando uma malha de conhecimentos que será tecida em conjunto. Se os atores sociais se sentem alheios e ignorados em relação à ação que está ocorrendo, seu interesse rapidamente desaparece e eles passam a ser meros depósitos de palavras e conceitos. Por fim, as metodologias ativas, parte prática e de suma importância no processo e ensino- aprendizagem. Faqueti (2019) cita os principais métodos ativos que podem ser utilizados na EAN. Vejamos, a seguir. Roda de conversa Roda de conversa: em que educador e educando sentam em roda para construir o conhecimento. Aprendizagem Aprendizagem baseada em problema: com base em um caso real ou fictício. Problematização Problematização: aquela realizada com base em diagnóstico. Arco de Maguerez Arco de Maguerez exige o desenvolvimento de cinco passos: observação da realidade, pontos- chave, teorização, hipótese de solução e aplicação na realidade). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 36 A junção desses três conceitos poderá trazer maiores resultados em ações de EAN, e ainda, ressaltando que quando falamos em resultados não estamos focando em aumento da adesão a dietas saudáveis e adequadas, em menores índices de DCNT ou outros parâmetros, mas na efetividade de um processo de educação emancipatória, que paramente o indivíduo e as coletividades das quais participam na construção de um futuro melhor. 3 DIDÁTICA: IMPORTÂNCIA E ELABORAÇÃO DE OBJETIVOS Segundo o Dicionário digital, a palavra didática (substantivo feminino) significa arte de transmitir conhecimentos; técnica de ensinar. Todos estes aspectos da didática estarão envolvidos na construção das ações de EAN, seja por profissionais que tiveram a disciplina de didática em seu currículo escolar ou aqueles que a tiveram incluídas em outras disciplinas. A didática participa em todas as fases do processo, seja na elaboração dos objetivos da ação ou no momento de efetivação da mesma. 3.1 Conceitos de didática Ter didática é uma expressão comum quando se fala em educação, é comum ouvir que uma aula foi muito boa, pois o professor tem muita didática. Mas quais são os conceitos de didática que podem nos auxiliar no processo de ensino-aprendizagem? A didática pode representar os materiais que serão utilizados durante o processo, como materiais didáticos ou livros didáticos. Eles seguem padrões estabelecidos em documentos e leis relativos à educação, no Brasil. Segundo Sforni (2015, p.8), podemos elencar os conceitos didáticos que favorecem o processo de ensino-aprendizagem como: “1. princípio do ensino que desenvolve; 2. princípio do caráter ativo da aprendizagem; 3. princípio do caráter consciente; 4. princípio da unidade entre o plano material (ou materializado) e o verbal; 5. princípio da ação mediada pelo conceito”. Vamos analisar cada um destes tópicos. O principio do ensino que desenvolve participa do conceito de que o desenvolvimento dos atores sociais alvo das ações deve ocorrer a todo momento. Não bastaria uma educação tecnicista, que somente desenvolva habilidades técnicas, mas que elas possam participar do desenvolvimento global do ser humano. O princípio do caráter ativo da aprendizagem nos traz a assimilação reflexiva dos conteúdos, aproximando os conceitos das disciplinas dos estudantes através de metodologias que sejam 37 participativas, com foco na solução de problemas através do pensamento ativo. Unidade entre linguagem e pensamento deve estar presente, bem como a participação efetiva dos estudantes. O princípio do caráter consciente traz aos estudantes a percepção de que estão ali em busca de conhecimento, mas vai além, capacita cada um deles para ter a consciência do que estão aprendendo e como transferir os ensinamentos ali ministrado para sua vida. Trata-se de não somente conhecer uma formula, mas saber aplicá-la, bem como conhecer seus componentes desmembrados. Já o princípio da unidade entre o plano material (ou materializado) e o verbal versa sobre a tradução dos conceitos em termos e exemplos que são mais facilmente assimilados pelos estudantes. Ela é crescente e pode passar de conceitos menos complexos para termos científicos, por exemplo. Após o domínio de ambas as linguagens, será mais fácil transitar entre elas. O princípio da ação mediada pelo conceito traz a contextualização de conceitos técnicos ou científicos, ampliando o saber a respeito do assunto que está sendo tratado. Essa conjuntura, em que os termos e conceitos participam, formam um conceito maior, que pode justificar diversas situações. As ciências e o ensino estão presentes em todos os momentos históricos, e se alteram com eles, e essas são as conjunturas analisadas para mediar o conceito. 3.2 Como elaborar os objetivos de ações de EAN O primeiro passo para esta construção ocorre no momento da eleição dos objetivos de uma ação. Objetivar significa escolher entre os possíveis resultados das ações aqueles que desejemos que sejam efetivados. Ou seja, ao propor uma ação é necessário pensar o que de fato queremos com ela. Ao imaginarmos uma ação de EAN com um grupo de gestantes de uma unidade de saúde, por exemplo, quais são nossos objetivos com esta ação? Já vimos anteriormente, que conhecer o público-alvo facilita a ação. Mas desconhecê-lo também não é um impeditivo para que as ações tenham objetivos claros. Ter em mente que favorecer uma alimentação adequada e saudável, e que para isso existem norteadores publicados por entidades governamentais e ações práticas que podem auxiliar, pode ser um bom ponto de partida. Tanto na educação como na saúde temos documentos auxiliares que, após explorados com atenção, podem compor uma base sólida para escolha dos objetivos das ações de EAN. Na educação podemos citar que a inclusão dos assuntos relacionados à alimentação no currículo escolar, o qual pode ser um bom ponto de partida para disseminação das ações de EAN. E na saúde, trabalhar grupos específicos, como gestantes, hipertensos, diabéticos, alimentação na infância, entre outros, pode nos levar a ações precisas. 38 4 MÉTODOS E TÉCNICAS DE ENSINO Alguns pontos didáticos devem ficar claros na elaboração de ações de EAN. Eles podem auxiliar tanto na produção de conteúdo quanto no momento da ação. Observe, a seguir, a lista de conceitos didáticos que serão de grande valia. • Objetivos claros: a ação de ensino é ampla, apenas com desígnios claros o processo se dará de maneira utilitária, ou seja, atingindo os objetivos para os quais foi proposta a ação; • Conhecimento do assunto: a troca de saberes é bastante relevante na didática, mas um bom conhecimento prévio do assunto promove trocas mais interessantes, já que estabe- lece confiança e permite ampla escuta ativa; • Teoria e prática aliados: apenas conceitos puros podem não gerar engajamento para todos os estudantes, as práticas e exemplos poderão contribuir de maneira significativa para adesão e aprendizagem de um número maior de pessoas. Além de aproximar os conceitos da realidade vivida; • Referencial teórico atualizado: assim como tudo, os conceitos mudam e se alteram com o passar do tempo. Falar de um assunto com base somente em referências antigas pode gerar o repasse de conceitos que não estão de acordo com o tempo vigente; • Mapas conceituais ou organogramas: ter claro o caminho que será seguido durante o processo de ensino, principalmente em relação aos assuntos que serão esboçados, criar mapas de conceitos ou organogramas poderá inclusive fornecer aos estudantes uma visão geral; • Clareza de termos: esclarecer todo e qualquer termo que é usado no momento das ações educativas poderá deixar o momento fluido, dando acesso a todos a informação; • Tempo x Conteúdo: um excesso deconteúdos para um determinado tempo pode causar ansiedade e ainda deixar determinados assuntos num trato superficial, não dando aos estudantes a oportunidade de refletirem a respeito de tudo o que foi tratado; • Atividade Avaliativa: avaliar o conteúdo ministrado poderá gerar bons momentos de reflexão sobre a ação desenvolvida. A percepção de cada um dos atores sociais partici- pantes pode ser distinta e ainda se mesclar com as expectativas em relação ao momento de aprendizagem. Esta avaliação poderá ser usada para realizar mudanças em ações que não foram bem recebidas ou ficaram confusas; • Rememorando o conteúdo total: finalizar atividades com uma rememoração de todo o conteúdo que foi discutido pode ser uma boa maneira de tirar dúvidas ou suscitar discus- sões que podem dar fechamento e auxiliar no processo de aprendizagem. 4.1 Aplicação de métodos e técnicas pedagógicas em EAN Para colocar em práticas as metodologias ativas didático-pedagógicas nas ações de EAN, 39 podemos nos pautar nos seguintes parâmetros, [...] a) elaboração de situações problema que permitam inserir o estudante no horizonte investigativo que deu origem ao conceito; b) previsão de momentos em que os alunos dialoguem entre si e elaborem sínteses coletivas, mesmo que sejam provisórias; c) orientação do processo de elaboração de sínteses conceituais pelos estudantes (SFORNI, 2015, p. 13). Analisando novamente cada um dos passos, podemos perceber que a elaboração de situações que aproximem os estudantes ou atores sociais dos assuntos abordados pode gerar maior engajamento e, ainda, melhor aceitação dos assuntos. O chamado trazer para a realidade contribui para este processo, inserindo o sujeito da aprendizagem nos conceitos-chave. Os momentos de diálogo, além de mudarem o clima da ação, ainda permitem entender a visão que o outro está tendo acerca do problema. Causando mais empatia ao assunto estudado e entre os próprios atores sociais. Durante esse momento, cabe ao professor manter sua escuta ativa, pois desse passo poderão surgir assuntos e dúvidas que precisam ser esclarecidas. E, por fim, as sínteses conceituais que permitem que o estudante ou ator social expresse o que obteve de conceitos e didática, sobre um determinado assunto. Esta síntese, em ambientes de aprendizagem podem ser feitas através de escrita, resumos ou textos, e em formações em outros ambientes, um breve relato poderá cumprir estar função. 4.2 Exemplos práticos de EAN Vamos passar para a prática? Ilustrar a experiência de ensino-aprendizagem com ações de EAN que vem sendo desenvolvidas em diversos ambientes de trocas será rico para alimentar as ideias, depois de todas as discussões teóricas que ocorreram nos tópicos anteriores. Como mencionado antes, diversos norteadores e documentos oficiais podem ser um recurso de busca de conhecimento e experiências para que o nutricionista possa criar suas práticas de EAN, independente da área em que esteja atuando. Aqui, iremos trazer exemplos de ações tanto na educação quanto na saúde, e ainda, sabendo que esses exemplos podem ser adaptados para serem aplicados na ação social, alimentação coletiva e outros ambientes em que se faça necessário estimular a EAN. Nas escolas, ‘Educando com a Horta Escolar’ é uma iniciativa que partiu de atores sociais ligados às escolas, baseada nas práticas da agricultura familiar, e que virou um programa governamental, com material instrutivo e metodologias próprias. Através desta ação, uma horta em ambiente escolar, os estudantes e professores são levados a pensar o alimento de diversas maneiras, além de ampliar o consumo de alimentos considerados saudáveis (FNDE, 2013). Outra ação de EAN nas escolas é a inclusão dos assuntos relacionados à alimentação no 40 Projeto Político Pedagógico (PPP) da entidade. Esse procedimento poderá gerar ações de EAN realizadas por professores e pedagogos e, quando necessário, incluirá a visita de uma nutricionista na unidade escolar. O intuito é que os alimentos passem a fazer parte de todas as disciplinas, sendo abordado de diversas maneiras. A semana dos alimentos, que acontece em outubro, junto ao dia mundial da alimentação (ONU, 2019), pode ser foco de uma grande concentração de ações de EAN. Nesse evento podem ser feitas atos educacionais como feiras de alimentos orgânicos, apresentações teatrais, aulas de culinárias, entre outros. Aliás, práticas culinárias são uma ação de EAN que pode ser realizada em diversas fases e que podem contribuir consideravelmente para a adoção de uma alimentação saudável e adequada no ambiente escolar, se expandindo para fora das escolas, sendo os estudantes multiplicadores dos conhecimentos ali adquiridos. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Já na área da saúde ações de EAN realizadas com grupos de atores sociais específicos podem parecer mais complicadas. Neste sentido o caderno do Ministério da Saúde, chamado ‘Instrutivo: Metodologia de trabalho em grupos para ações de alimentação e nutrição na atenção básica’ (BRASIL, 2016) pode se rum bom norteador. Rodas de conversa tem sido uma alternativa para as antigas palestras, na qual o profissional expõe seus conhecimentos e os atores sociais somente ouvem. O diferencial nesse modelo é que não há apenas um ente que detém o conhecimento, e sim um mediador, que tendo uma pauta e assuntos específicos, conduz a conversa entre os participantes. Praticas culinárias também podem ser estimuladas, não sendo possível a prática da produção das receitas, um livro de receitas e a degustação dos alimentos ali contidos pode se transformar numa ação desmistificadora de que alimentos saudáveis são ruins ou sem gosto. 41 Uma metodologia ativa chamada ‘Eu aprendo, eu ensino’ também pode ser fonte de boas trocas de saberes (FAQUETI, 2019). Nela a comunidade é convidada a participar ensinando suas práticas de alimentação saudável, com base em seus saberes, mediadas por profissionais de saúde. Grupos de trabalho multidisciplinares podem também ser boas ações de EAN, se agregarmos além de um profissional da nutrição, um profissional da atividade física, podemos trazer dois conceitos na prática e estimular não somente uma alimentação saudável e adequada, mas a prática de atividade física que contribui para a saúde em geral. Todas as ações citadas são exemplos práticos de como colocar a didática e metodologia em prática através da EAN, elas podem ser adaptadas a diversos grupos, faixas etárias e escolaridades diferentes, bem como aplicadas em outras áreas da nutrição distintas das que foram citadas. 42 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • conhecer melhor as definições de educação nutricional, inclusive. na transformação do conceito em Educação Alimentar e Nutricional e todos os termos envolvidos neste processo de ensino-aprendizagem; • aprofundar conceito de educação nutricional através de documentos oficiais e nor- teadores de ações, com vistas a emancipação através da educação e conteúdos de didática e pedagogia na busca por melhores formas de construção do conhecimento em EAN; • explorar elementos didáticos e correlacioná-los com as ações de EAN, investigando termos e conceitos, correntes da educação e suas respectivas metodologias e didáticas; • conhecer o passo a passo do processo de ensino-aprendizagem baseado em meto- dologias ativas que instigam o estudante ou ator social a praticar, na busca por uma alimentação saudável e adequada, bem como auxiliar profissionais educadores no planejamento e execução de suas ações de EAN; • compreender melhor todo o conteúdo através de exemplos práticos de atividades de EAN que podem ser realizadas nas mais diversas áreas de atuação do nutricionista. PARA RESUMIR BEZERRA, J. A. B. Educação alimentar e nutricional: articulação de saberes. Fortaleza: Edições UFC, 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Universidade Federal de Minas Gerais. Instrutivo: metodologia de trabalho em grupos para ações de alimentação e nutrição na atenção básica./ Ministério da Saúde, Universidade Federal de Minas Gerais. – Brasília: Ministério da Saúde, 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Marco de referência de educação alimentar e nutricional para as políticas públicas. Brasília: MDS, 2012. BIZZO, M.L.G.; LEDER, L. Educação nutricional nos parâmetros curriculares nacionais para o ensino fundamental. Rev. Nutr., Campinas, v.18, n.5, p.661-667, set./out. 2005. BOOG, M.C.F. Educação nutricional: passado, presente, futuro. Rev. Nutr., Campinas, v. 10, n.1, p. 5-19, jan/ jun. 1997. BOOG, M.C.F. Educação nutricional: por que e para quê? Jornal da UNICAMP, 2005. FAQUETI, A. Segurança alimentar e nutricional com enfoque na intersetorialidade [recurso eletrônico] / Universidade Federal de Santa Catarina, Núcleo Telessaúde Santa Catarina; Alini Faqueti. – Dados eletrônicos. – Florianópolis: CCS/UFSC, 2019. p. 199. FNDE. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Projeto “Educando com a Horta Escolar”. Notícia. 2013. Disponível em: https://www.fnde.gov.br/index.php/ acesso-a-informacao/institucional/area-de-imprensa/noticias/item/4683-projeto- educando-com-a-horta-escolar-recebe-inscri%C3%A7%C3%B5es. Acesso em: 08 abr. 2020.FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD. La administración estratégica: lineamento para su desarollo: los contenidos educacionales. Washington, DC, 1995. ONU – Organização das Nações Unidas. Dia Mundial da Alimentação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Notícia. 2019. Disponível em: < https://nacoesunidas.org/?post_ type=post&s=%22Dia+Mundial+da+Alimenta%C3%A7%C3%A3o%22> Acesso em: 08 abr. de 2020. PEREIRA, A.L.F. As tendências pedagógicas e a prática educativa nas ciências da saúde. Cad Saude Publica. [periódico on-line]. 2003 set/out; 2019. SFORNI, M.S. de F. Interação entre Didática e Teoria Histórico-Cultural. Educação & Realidade, Porto Alegre: Ahead of print, 2015. UNIDADE 3 Nutricionistas e a educação Introdução Você está na unidade Nutricionistas e a Educação. Conheça aqui as ferramentas pedagógicas que poderão auxiliá-lo no momento da criação de ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN). Elementos didáticos, uso de audiovisuais e dinâmicas de grupo serão apresentadas e poderão ser boas escolhas para atividades de EAN em todas as fases da vida. O conhecimento sobre os alimentos também será uma das propostas de aprendizagem desta unidade, já que, conhecendo os alimentos e guias alimentares que favorecem as práticas de alimentação saudável e adequada, você poderá expandir seus conhecimentos e preparar atividades de EAN que contribuirão para a saúde. Bons estudos! 47 1 ELEMENTOS DIDÁTICOS Os elementos didáticos auxiliam na construção de vários campos de ensino-aprendizagem, e na Educação Alimentar e Nutricional (EAN) não é diferente. Dominar as técnicas de ensino, seus elementos didáticos e conhecer a metodologia escolhida para atuação favorece o aprendizado. A postura do educador diz muito sobre sua didática, e ela pode tanto ser uma potencialidade no processo de ensino-aprendizagem quanto uma fragilidade, obstando o fluxo de conhecimento. Analisar didaticamente faz parte da jornada do ensino, lembrando que “não nascemos prontos”, mas podemos nos aperfeiçoar durante a caminhada. Neste sentido, podemos utilizar dos elementos didáticos, que tem sua base na comunicação, para aperfeiçoar as atuações em EAN, programando as ações que serão realizadas, analisando os materiais que serão utilizados e, no momento da atividade, utilizando nosso senso crítico, praticar a escuta ativa e observação para verificar se um ambiente de aprendizagem está se construindo e se o processo de ensino-aprendizagem está sendo aproveitado tanto pelo estudantes quanto pelo próprio mediador. Fazendo um gancho, mediador é uma palavra-conceito que pode auxiliar nesta construção. A postura dessa figura tem relação com a maneira com que o profissional/educador se coloca diante dos atores sociais/estudantes. Quando esta postura é de mediador, ao invés de um detentor de toda sabedoria, o processo é facilitado, já que estabelece uma relação entre quem está mediando e quem está participando ativamente. Vamos rememorar? Então, os elementos didáticos são aqueles que tem relação com as práticas educacionais e são considerados por Faqueti (2019) como sendo: relações de poder; relações dialógicas e relações entre a teoria e a prática. E todos estes elementos trabalhados juntos, de maneira positiva, de modo que promovam as metodologias ativas, criarão um ambiente promissor para a construção do conhecimento em EAN. FIQUE DE OLHO Você percebeu que ao falarmos de EAN utilizamos termos como estudantes e atores sociais, e muitas vezes, como sinônimos? Este termo “atores sociais” é utilizado para identificar qualquer pessoa que tenha uma participação numa ação de cidadania. Ou seja, o estudante, sendo um cidadão que participa de uma ação de EAN em uma Unidade Básica de Saúde, é um ator social. E vice-versa! (SOUZA, 1991). 48 2 APLICABILIDADE DOS ELEMENTOS DIDÁTICOS EM NUTRIÇÃO Após refletir sobre os elementos didáticos, nos interessa compreender como eles podem ser aplicados nas ações de EAN. Neste sentido, vamos separar cada um deles e relacioná-los com as práticas de Educação Nutricional que possam promover o processo de ensino-aprendizagem. Começamos nossa incursão pelas relações de poder: elas ditam regras em muitas esferas da sociedade, e na alimentação não é diferente. Sempre que profissionais de saúde demonstram um grau de superioridade em relação aos atores sociais com os quais estão desempenhando seus trabalhos, a tendência é de obediência, inferiorização do ator social e subserviência. Este modelo pode gerar o afastamento do ator social das ações propostas, pois ele se sente inferiorizado, sem meios de contribuir ou atingir as metas propostas, ou, por vezes, sequer acessa os assuntos que estão sendo discutidos. Aproximar os conhecimentos científicos dos saberes populares é um elemento didático. Quebrando este paradigma de poder nas relações de ensino-aprendizagem. Não somente na saúde, mas, também, na educação, ação social e diversos outros campos. A ideia do professor como um arcabouço de saber e poder, e dos estudantes como meros espectadores está ultrapassada, pois é unilateral e não permite uma didática participativa. Sendo assim, romper com estes modelos e se tornar mediador das ações pode criar campos de aprendizagem e conhecimento. As relações dialógicas respondem da mesma maneira, se colocar em relação é um dos objetivos dos elementos didáticos. Não se trata de uma competição de quem sabe mais, ou tem conhecimentos melhores, mas de um troca constante entre atores sociais interessados em um mesmo assunto. Durante as ações de EAN, a liberdade de pensar e expressar suas opiniões, deve ser levada em consideração. Desta maneira a troca irá ocorrer e a abertura para os conceitos- chave de cada um dos assuntos ou campos do conhecimento poderá se efetivar de maneira ampla e ativa. O diálogo, ou as relações dialógicas, não são um lugar para manifestação de verdades absolutas, fato que costuma estar presente quando se trata de alimentação. São então, um lugar de trocas e adaptações, onde o conhecimento trazido pelos atores sociais é acolhido, ressignificado e se adere as práticas promotoras de saúde. Desta maneira, aprendemos e ensinamos no mesmo momento, e aproveitamos para conectar o próximo elemento didático: relações entre a teoria e a prática.Assim como acolher os saberes dos atores sociais pode representar a efetivação de um dos elementos didáticos, assim ocorre com as relações entre teoria e prática. Para muitas pessoas, 49 o conhecimento puro pode não representar uma forma de aprendizado. Cabe ao mediador estabelecer uma relação entre o que o conhecimento cientifico diz e o que a realidade percebe. Dando assim exemplificações e modos de aplicação que poderão fazer esta ponte. Pode parecer simples, mas este elemento exige uma reflexão profunda a respeito dos modos de vida das populações com as quais trabalhamos. Falar em três grandes refeições diárias pode parecer coerente, não é mesmo? Mas pode ser um ponto delicado junto a populações que não tem acesso aos alimentos de maneira adequada. Conhecimento e sensibilidade trabalham juntos nessa construção do processo de ensino, percebendo a realidade que nos cerca e adaptando os ensinamentos e práticas nas atividades propostas. 3 COMO APRIMORAR OS CONHECIMENTOS DIDÁTICOS O conhecimento não é dado, ele se constrói no decorrer do tempo e das experiências vividas. Assim como mediamos, podemos também ser mediados, na busca por conceitos e materiais e métodos de ensino que possam favorecer o processo de ensino-aprendizagem. As metodologias ativas são um bom foco de busca de práticas pedagógicas que podem contribuir positivamente para aprimorar os conhecimentos e aplicá-los na EAN. Cursos online, cartilhas, documentos norteadores e artigos sobre os processos de educação podem auxiliá-los nessa busca. Alguns assuntos, no entanto, podem entrar no rol de favoritos e facilitar a procura, já que com a era da informação lidamos com um mar de materiais que podem ser acessados de qualquer lugar, através de um computador ou celular. Palavras-chave, como: educação; alimentação; nutrição; educação alimentar e nutricional; metodologias ativas e pedagogia podem ser uma boa combinação para buscas. As rodas de conversa ou discussão mediada, também podem ser um desses assuntos. Através desta metodologia participativa, o próprio formato em que os atores estão dispostos já nos diz alguma coisa: estamos todos no mesmo patamar de aprendizagem! Existem diversas discussões pedagógicas bastante positivas em relação a esta metodologia ativa e eles podem ser fonte de busca para aprimorar conhecimentos em EAN. 50 Figura 1 - Roda de conversa Fonte: Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra uma roda de pessoas de mãos dadas, composta por jovens, adultos e idosos. Segundo Afonso e Abade (2008, apud Figueiredo, 2013, p.2), as rodas de conversa podem ser um instrumento pedagógico múltiplo. Sendo assim, [...] as rodas de conversa são utilizadas nas metodologias participativas, seu referencial teórico parte da articulação de autores da psicologia social, da psicanálise, da educação e seu fundamento metodológico se alicerça nas oficinas de intervenção psicossocial, tendo por objetivo a constituição de um espaço onde seus participantes reflitam acerca do cotidiano, ou seja, de sua relação com o mundo, com o trabalho, com o projeto de vida. Para que isso ocorra, as rodas devem ser desenvolvidas em um contexto onde as pessoas possam se expressar, buscando superar seus próprios medos e entraves. A aprendizagem baseada em problemas e a problematização são outras ferramentas metodológicas que poderão ser foco de busca de novos saberes. Artigos e livros de Paulo Freire e todos aqueles que desdobraram suas pesquisas são uma boa fonte para buscas. Os estudos baseados na Aprendizagem Baseada em Problemas (Problem Based Learning – PBL) tem sido bastante utilizada na área da saúde. A metodologia da problematização, que engloba estes dois elementos didático, permeia o ensino, o estudo e o trabalho, fato que colabora para a formação e prática (BERBEL, 1996). 3.1 Recursos audiovisuais No primeiro momento podemos esclarecer que recursos audiovisuais são todos aqueles que fazem uso do som e da imagem, e que podem ser amplamente utilizados na educação. Este recurso tecnológico, tem a facilidade de poderem ser utilizados tanto presencialmente quanto 51 a distância. E os meios pelos quais são veiculados também são abundantes: celulares, tabletes, computadores, projetores, televisões, streamings e rádios. No caso da EAN o uso de recursos audiovisuais pode ser aproveitado massivamente, sem limite de idade ou escolaridade. Sendo um dos recursos mais democráticos quando se fala em educação. Uma figura, um podcast, um vídeo ou um jogo interativo podem auxiliar na construção do conhecimento relacionado a uma alimentação saudável e adequada. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Cabe aos profissionais conhecer essas tecnologias, mas também os meios de propostas de atividades que englobem as plataformas audiovisuais. O simples encaminhamento de um link de vídeo pode ser interessante, mas para uma construção mais sólida de conhecimento, as discussões que se seguem ao recurso escolhido podem gerar bons frutos. 3.2 Como melhorar o aproveitamento dos recursos audiovisuais Os recursos audiovisuais podem modificar a maneira com que comunicamos uma mensagem. Em práticas de EAN já foram desenvolvidos diversos materiais para complementar as atividades, e estes materiais podem ser usados em todas as idades. Mas aproveitar melhor este recurso pode ser um desafio. Vamos refletir a respeito? FIQUE DE OLHO Vídeos podem ser uma ótima ferramenta para a EAN. Neste material, a alimentação escolar é o foco das ações de EAN. Ele pode ser uma boa opção para trabalhar EAN em sala de aula. 52 A percepção de cada um dos seres humanos é diferente, ainda que existam pontos em comum. Os conceitos de signo, significante e significado, provenientes da Semiótica, trazem esclarecimentos relacionados a esse assunto. O signo tem relação com a unidade fundamental do entendimento, e se correlaciona com o significante e o significado. Significante é a parte material do signo e o significado com a parte abstrata ou conceito do signo. Todos juntos traduzem uma palavra ou imagem. A partir destes conceitos podemos perceber que as relações que cada um desenvolve com aquilo que lê, ouve ou vê pode variar. E neste sentido é que são estabelecidos padrões para os signos. Quando vemos uma maçã, por exemplo, sabemos que ela é signo de uma fruta. Mas o que esta fruta pode significar para cada um de nós pode ser diferente. Alguns vão relacioná-la com o pecado, ou seja, a maçã ofertada no paraíso, outros com a gravidade de Newton, outros com alimentos saudáveis, outros com a infância, ao lembrar de uma maçã do amor, e assim por diante. Para o melhor aproveitamento dos recursos audiovisuais devemos nos preocupar com duas instancias importantes: as condições para a apresentação do material e a recepção e significados que o material pode gerar. No primeiro foco, uma estrutura de tecnologia pode ser necessária e dominá-la pode auxiliar na atividade. Imagine uma projeção de um ótimo vídeo, com conteúdo que pode gerar diversas discussões sobre a EAN, mas que no momento da atividade só consegue ser reproduzida a imagem, sem som e sem legenda. A atividade ficará incompleta, não é mesmo? Elencar as tecnologias que serão necessárias para a ação e testar o vídeo antes da apresentação, pode ser um bom caminho. O segundo foco é a recepção, os significados que o vídeo pode despertar nos mais diversos atores sociais. Não temos controle sobre este fato, mas podemos conferir algumas questões. Mensagens simples, sem uso de termos estritamente técnicos, em linguagem de fácil compreensão, livre de preconceitos ou direcionamentos, pode ser uma boa lista de verificação na escolha do material. Ultrapassadas estas etapas, outra questão interessante a se pensar sobre o uso de audiovisuais, são as discussões que podem ser fomentadas após a atividade. Elencar elementos- chave dos recursos, relacioná-los com a realidade e sugerir problematizações são meios de obter boas discussões sobre os assuntos correlatos.Isto além de instigar os atores sociais a participar ativamente, ainda poderá fornecer dados sobre a relação que eles estão estabelecendo com a proposta. 53 4 APROFUNDANDO AS DISCUSSÕES: UMA REFLEXÃO DIDÁTICA Conforme mencionamos anteriormente, aprofundar o uso de recursos audiovisuais através de propostas de discussão, podem ser uma forma didática de explorar melhor esse recurso. Mas muitas vezes pode existir um bloqueio inicial para que a discussão ocorra. Ter em mente este fato pode auxiliar o mediador, e neste sentido, um breve roteiro dos assuntos discutidos pelo material é um agente facilitador. Agente facilitador também é o papel do profissional durante este momento. Mas o que significa este elemento didático? Agente facilitador tem relação com o fato de sermos mediadores das ações. Uma postura que provoque as reflexões, que motive os atores a se manifestarem e defenderem suas ideias, baseadas no material e em seu próprio conhecimento e a problematização aliada à realidade podem ser movimentos de um facilitador. Este processo não prevê posturas bastante comuns, a conhecida pergunta que já vem acompanhada da resposta. Ele é um processo que instiga os participantes a refletir sobre tudo o que já foi estudado e relacionar com o momento presente, levando ainda em consideração as opiniões dos demais participantes. Outro ponto interessante no uso de recursos audiovisuais é a busca por materiais que possam colaborar com o processo de ensino-aprendizagem. O uso de palavras-chave com boa relação ao assunto pode contribuir de maneira positiva. Educação, alimentação, nutrição e processo de ensino-aprendizagem, por exemplo, podem gerar bons resultados nas buscas. 4.1 Dinâmica de grupos: conceito, importância no processo de ensino Uma das propostas do Marco de EAN é que o trabalho seja realizando visando atuação em diversos cenários, relacionando diversos atores sociais e setores. Esta proposta faz com que a visão a respeito das práticas alimentares não seja isolada, mas colaborativa, já que os diversos locais, setores e atores sociais podem contribuir com suas diferentes experiências. E este fator se torna viável através dos trabalhos de dinâmica em grupo. A articulação é um dos pontos fundamentais para que atividades em grupo possam surtir o efeito desejado, ou seja, a troca de saberes e o aprofundamento dos conhecimentos (FAILDE, 2007). Caso haja, por exemplo, apenas um grupo de atores sociais reunidos aleatoriamente, sem uma mediação ou proposta de trabalho, o contexto da ação pode se perder. Neste sentido podemos diferir grupos de agrupamentos (PINHEIRO, 2014). A intersetorialidade, promove que o assunto seja tratado de várias perspectivas diferentes 54 e desta maneira poderá cumprir com maior facilidade a função de aproximar atores sociais com vivências diferentes, aproximar os conhecimentos da realidade e promover o autocuidado e as práticas alimentares saudáveis e adequadas. Outro motivo para que sejam adotadas ações em grupo, além das já citadas, é o fato de que neste formato poderemos atingir um número maior de atores sociais numa mesma ação. Claro que as ações de EAN podem ser realizadas de maneira individualizada, em uma consulta nutricional, por exemplo. Mas quando for possível realizá-la em grupos de trabalho, a tendência a adesão, troca de experiências e motivação dos atores pode ser maior. 4.2 Conceitos de dinâmicas de grupos É importante pontuarmos as atividades em grupo, conhecidas como dinâmicas. O termo dinâmica agrega o fato de que não será uma atividade estática, como uma palestra, por exemplo. A tendência ao programar uma dinâmica, é que todos possam participar, de diferentes maneiras, em momentos distintos ou durante toda a atividade (GAYOTTO, 2001). A psicologia faz uso das dinâmicas de grupo em diversos momentos, e talvez o mais conhecido destes momentos são os processos de contratação de profissionais. Elas são utilizadas com a finalidade de observar o comportamento dos atores sociais, neste momento identificados como candidatos, em relação a situações que podem ocorrer no dia a dia das empresas (TARADEL, 2007). Da mesma maneira, é interessante conceituarmos grupos. Nesse sentido, cabe mencionar que, segundo Pinheiro (2014), grupos são agrupamentos de pessoas que interagem entre si, caso contrário, se estes agrupamentos apenas coabitam momentaneamente o mesmo espaço, não são considerados grupo. Nas açõs de EAN o intuito das dinâmicas de grupo são outras, não relacionadas a observar o comportamento dos atores sociais, mas com a intenção de utilizar a metodologia da problematização. Você lembra desta metodologia? Falamos dela nos tópicos anteriores deste capítulo. Conceituar um grupo, então, parte da reunião de três pessoas ou mais, com intuito de desenvolvimento de qualquer tipo de interação entre os atores sociais envolvidos (PINHEIRO, 2014). Nas atividades de EAN, com uso de metodologias ativas, a problematização de questões relacionadas com a alimentação humana, sempre na busca por práticas que auxiliem a adoção voluntária a uma alimentação saudável e adequada. 55 4.3 Como elaborar dinâmicas de grupos voltadas ao processo de ensino da EAN Com conceitos mais claros do que se trata uma dinâmica de grupos, podemos então estabelecer um roteiro de como realizar estas atividades e de que critérios utilizar para o bom desempenho desta atividade. Vamos separar este roteiro em duas partes: planejamento das ações e execução das atividades. No momento do planejamento da atividade de dinâmica de grupos algumas questões tem que ser levantadas, para que esta atividade de EAN possa obter êxito. Número de pessoas participantes, questões de mobilidade, espaço disponível, material necessário são algumas destas questões. Vamos pensar em cada uma delas? O número de participantes é um dado importante para o desenvolvimento de uma dinâmica de grupo, pois as dinâmicas podem variar de acordo com este número, alterando assim seu formato. Esta questão tanto se encaixa com o espaço físico da atividade, quanto com outros atributos do grupo que será trabalhado. Se temos um grupo de crianças, por exemplo, uma atividade repleta de movimentação pode ser bastante interessante. Mas para que isto ocorra de maneira agradável a todos os participantes, temos que avaliar se o espaço disponível comportará esta movimentação. Se temos uma sala, com muitas mesas e cadeiras ou equipamentos que podem cair e causar acidentes, talvez a movimentação não seja a melhor opção. Da mesma maneira, se nosso publico alvo forem idosos, correr pelo gramado pode não ser a melhor escolha. Como citamos nos exemplos anteriores, as questões de mobilidade devem ser avaliadas cuidadosamente. De acordo com o público alvo e o local, podemos tomar as melhores decisões sobre como propor as atividades que gerarão maiores interações e trocas entre os participantes. Empatia É um dos fundamentos deste momento. Se colocar no lugar dos outros e imaginar como a atividade poderá se apresentar para todos, auxilia na solução de possíveis problemas. Espaço A partir da determinação do local a ser utilizado, podemos verificar se poderemos fazer uma roda de cadeiras, se teremos mesas, caso sejam necessárias, se a movimentação será favorável ou se atividades paradas serão melhores. Fechamento 56 Um fechamento dos assuntos, apontamentos de como os trabalhos se deram e relembrar conceitos que nortearam a dinâmica pode ser de grande valia. O quesito espaço fica claro, também, nos exemplos citados. A partir da determinação do local a ser utilizado, podemos verificar se poderemos fazer uma roda de cadeiras, se teremos mesas, caso sejam necessárias, se a movimentação será favorável ou se atividades paradas serão melhores. O material que será utilizado também é um ponto importante de verificação durante o planejamento. Caso a atividade seja feita em uma escola, teremos disponíveis todos os materiais necessários para a atividade? Caso não hajaalgum material, ele pode ser substituído ou a atividade pode ser feita sem ele? Estas são perguntas importantes para que a atividade não seja inviabilizada por falta de materiais. Após o momento de respostas de todas as perguntas elencadas, passaremos para a fase de execução da atividade, que também merece atenção. Devemos prever cada um dos passos da atividade e imaginar os possíveis problemas que podem surgir. Problematizar a atividade que será realizada pode fazer com que, no surgimento de problemas inesperados, já tenhamos algumas respostas para resolver a situação. Empatia é um dos fundamentos deste momento. Se colocar no lugar dos outros e imaginar como a atividade poderá se apresentar para todos, auxilia na solução de possíveis problemas. Vamos colocar algumas situações exemplo? Imagine que seja elaborada uma proposta de atividade com bastante movimentação, e no momento da atividade haja um ator social portador de necessidades especiais, um cadeirante. Seria possível que ele realizasse a atividade, ele teria acesso ao local de realização? Se o caso for de um ator com deficiência auditiva ou visual? Há como adaptar a dinâmica? Outra questão interessante é tem uma estrutura de condução da dinâmica. Saber os passos da atividade, como ela começa, se desenvolve e finaliza, saber repassar aos atores sociais as demandas relativas às atividades com clareza e de maneira que todos compreendam pode gerar bons resultados. O fechamento da atividade também é importante. Muitas vezes ao chegar ao fim de uma dinâmica pode ficar a sensação de que ela está incompleta. Um fechamento dos assuntos, apontamentos de como os trabalhos se deram e relembrar conceitos que nortearam a dinâmica pode ser de grande valia. Ouvir os participantes também se mostra muito válido, pois isto faz da atividade uma verdadeira ação participativa (PINHEIRO, 2014). 57 5 EDUCAÇÃO NAS DIVERSAS FASES DA VIDA As bases da EAN pautam-se na construção do conhecimento, autocuidado e autonomia do individuo e grupos de atores sociais, baseada na adoção voluntária, ou seja, autonomia, de conhecimentos que colaborem para uma alimentação saudável e adequada. É uma ferramenta promotora de saúde. As demandas para a promoção da saúde podem variar em cada uma das etapas da vida. Sendo assim, importa saber para qual público alvo, em termos de faixa etária, as atividades que serão desenvolvidas, estão voltadas. Somente assim teremos a garantia de que o conteúdo é adequado as necessidades alimentares daquela fase. Certamente existem conceitos chave que podem ser utilizados em todas as fases da vida, por exemplo, a orientação de que devemos fazer a base da nossa alimentação composta por alimentos in natura ou minimamente processados (BRASIL, 2014). Mas a maneira como esta alimentação é oferecida durante a primeira infância e a fase adulta, são totalmente diferentes. São estas as adaptações que deveremos fazer para que os materiais e as atividades de EAN sejam bem aproveitadas em cada um dos públicos trabalhados e que os conceitos construídos possam favorecer a adoção de práticas que promovam uma alimentação saudável e adequada para este público em especifico. Para este fim, dividimos os grupos de trabalho em três grandes faixas etárias, que podem ser subdivididas de acordo com as suas especificidades. 5.1 Primeira infância, fase pré-escolar e escolar As fases pré-escolar e escolar, possivelmente, são as que merecem mais atenção, já que nelas o inicio da alimentação se dá e traz traços por todas as outras fases (KRAUSE, 2012). A evolução alimentar nessas duas fases é rápida e com grandes mudanças, logo, as ações de EAN podem representar um ganho substancial em qualidade alimentar. Para potencializar o entendimento, podemos separar as duas fases em etapas: aleitamento, introdução alimentar e alimentação na infância. Vamos explorar cada uma dessas etapas? Durante a fase de aleitamento as ações de EAN não se darão diretamente sobre as crianças, ou lactentes, e sim serão efetuadas com suas mães, pais, familiares e cuidadores (em ambiente escolar ou domiciliar). Um documento bastante interessante para elaborar as ações de EAN nessa fase, é o Guia Alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Nele encontraremos todas as recomendações sobre a alimentação neste momento da vida. 58 Durante o período de aleitamento, podemos ter situações diferentes: amamentação realizada exclusivamente pelo leite materno e o aleitamento através de leite materno e fórmulas lácteas ou somente por formulas lácteas e outros leites que não o materno (leite de vaca, cabra e outros). As orientações de aleitamento já começam durante o período de gestação e pré-natal, nas unidades básicas de saúde e devem se manter após o parto, para que todas as dúvidas sejam sanadas. Já na fase final do aleitamento e inicio da introdução alimentar, provavelmente as crianças estejam junto às mães nos trabalhos de grupo nas unidades de saúde. Ainda que tenham, apenas, uma pequena participação ativa nas ações, experimentações de papas de frutas ou legumes e verduras, familiarização com os alimentos in natura, já podem ser estimulados. O trabalho acontece de maneira conjunta, entre as mães, pais ou acompanhantes e os bebês. Esta fase inicia aos 6 meses e vai até os 2 anos. Depois dos 2 anos até os 6, consideramos a fase pré-escolar propriamente dita, esta fase inclui a introdução dos alimentos e a alimentação na infância. As habilidades que vão sendo adquiridas pelas crianças a cada momento refletem em sua alimentação. Assuntos como comer com talheres, escolhas alimentares, birra, seletividade alimentar passam a se trabalhadas. Em casos de crianças que já participam da comunidade escolar, as atividades podem ser realizadas neste ambiente, nos grupos das salas de aula e tem como maior foco a interatividade e a ludicidade. Após os 6 anos a criança entra na fase escolar, apesar de sua plena capacidade de se alimentar sozinha, as escolhas alimentares passam a ficar mais complexas, sendo fortemente influenciadas por inúmeros fatores. O convívio com as outras crianças, perdas de dentes, alimentação no ambiente doméstico, alergias e intolerância, todos estes fatores podem influenciar (KRAUSE, 2012). Por outro lado, as atividades também podem trazer novas propostas, que não eram possíveis anteriormente. Jogos, desenvolvimento de peças teatrais, leituras e confecção de materiais já podem ser ações de EAN. A plena adesão a escola também é um agente facilitador, já que a reunião dos grupos de crianças fica mais facilitada neste ambiente do que na unidade de saúde. Adaptar as atividades a cada uma das demandas de cada faixa etária faz com que a participação seja maior, o aproveitamento do conteúdo melhor e a construção do conhecimento aconteça sem ferir as especificidades de cada um dos indivíduos. 5.2 Fase de jovens e adultos Passada a fase pré-escolar e escolar, ou seja, ensino berçário, maternal, pré-escola e fundamental, passamos a fase de jovens, que podem ainda estar vinculados a comunidade escolar, ou não. Nesse sentido, o fato de não estar vinculado a comunidade escolar pode ser uma dificuldade na efetivação de ações de EAN junto a este público. Ampliar a intersetorialidade pode 59 ser uma maneira eficiente de atingir mais pessoas nesta faixa etária. Atividades interativas, que mesclam tecnologia e participação, grupos temáticos, entre outros, podem ser boas propostas nesta fase. Os jovens tem uma grande capacidade de aprender a utilizar novas tecnologias, mas um bloqueio quanto a se manifestar em público e interagir com desconhecidos. Logo estas questões devem ser avaliadas quando são planejadas ações para estes atores sociais. Muitas vezes as ações de EAN serão feitas através de veículos de comunicação, como as redes sociais e nas consultas de rotina que ocorrem na puberdade. O público adulto também tem o agravante de estar espalhado, não sendo fácil de imaginar ações de EAN somente na educaçãode jovens e adultos ou nas unidades básicas de saúde. Logo também é sugerida a busca por intersetorialidade, ou seja, ações desenvolvidas na ação social, saúde, educação, esportes, ambiente de trabalho, entre outros. O foco e o tempo restrito é outro ponto para levar em consideração na formulação de atividades para este público, pois o tempo disponível para participar de atividades pode ser bastante restrito. Ações curtas e que promovam interação entre os participantes podem ser mais efetivas do que aquelas que dia inteiro. A diversidade é outro fator que devemos levar em consideração. Entre os adultos, podemos ter diversas especificidades, alguns podem ser escolarizados, outro não, alguns podem ter facilidade de trabalhos em grupo e outros mais restritos. Diferenças de geração entre o mesmo grupo, dificuldade de manejo de tecnologias, são exemplos que podemos dar da heterogeneidade dos grupos adultos. Conhecer seu público e pautar a elaboração de ações neste sentido é bastante importante. Pensar nos hábitos alimentares dos adultos também nos fará refletir a respeito de ações de EAN. A maneira como os adultos se alimentam é resultado de experiências na infância e adolescência, e pode ter lastros de cultura, hábitos familiares, e muitos outros fatores. Por este motivo, alguns profissionais trabalham com o conceito de reeducação alimentar. Mas se pensarmos que estamos sempre em processo de aprendizagem, talvez o conceito de reeducação possa não fazer tanto sentido. Mas perceber os hábitos alimentares de populações adultas, prever os empecilhos que podem existir na rotina diárias para adoção de praticas alimentares mais saudáveis e adequadas, pode ser fonte de inspiração e sucesso nas ações de EAN para este público. 5.3 Terceira Idade A fase da terceira idade traz alterações tanto na alimentação como no modo de vida da maioria das pessoas. Questões relacionadas a possíveis doenças, dificuldades motoras ou intelectuais (como a memória), hábitos de longa data e dependência de outras pessoas na compra e preparação dos alimentos devem ser o norte para a preparação de atividades para este público. 60 Se durante o processo de introdução alimentar vamos alterando a consistência e forma de servir os alimentos até que as crianças adaptem-se plenamente a alimentação da família, durante a terceira idade algumas adaptações podem ser necessárias. Estes assuntos também merecem atenção nas ações de EAN, seja para os próprios idosos ou ainda para familiares e cuidadores. Dificuldades de mastigação, deglutição, digestão, comorbidades, e outros tanto fatores, podem alterar a rotina alimentar dos idosos. Estes assuntos necessitam ser abordados em ações de EAN para que os atores sociais sintam que o conteúdo esta adaptado as suas necessidades. Como vimos, anteriormente, respeitar as populações para as quais se destinam e fazer conexão com a realidade vivida são pilares de uma educação participativa. 6 GRUPOS BÁSICOS DA ALIMENTAÇÃO Os grupos de alimentos são outro conceito que colabora na construção de conhecimento acerca da EAN. A partir destes grupos temos noção das funções de cada um dos alimentos e podemos discernir entre as escolhas alimentares que fazemos. Este conceito pode parecer bastante técnico, logo, cabe ao nutricionista fazer a tradução de termos e conceitos mais complexos para que eles possam ser aplicados às ações de EAN. Os alimentos são divididos em grupos, que juntos formam a alimentação humana. Estes grupos fornecem os nutrientes, elemento fundamental para a manutenção da vida. Você já deve ter ouvido falar que a pessoa está se sentindo sem força, muitas vezes esta falta de força está relacionada com a fome, por exemplo. Ingerir alimentos pode trazer a energia de que precisamos para desempenhar as necessidades diárias. Mas pense bem, somente um tipo de alimento pode fornecer energia ao organismo? Não. Exceto alimentos que não possuem calorias, todos os demais são capazes de fornecer ao menos uma parte da energia de que necessitamos para viver. Ao conhecer os grupos de alimentos e saber relacioná-los com uma alimentação saudável, podemos ter a base para as orientações que serão usadas para as atividades de EAN. 6.1 Conhecendo os alimentos Os grupos de alimentos podem ser divididos de várias maneiras. Há quem divida entre construtores, energéticos e reguladores. Entre os tipos de alimentos que os compõem, como carboidratos, fibras, proteínas (KRAUSE, 2012). E, ainda, aquelas classificações que levam em consideração o processamento dos alimentos (BRASIL, 2014). Todas essas formas de dividir os alimentos em grupos são interessantes na construção do conhecimento para a EAN. Os documentos norteadores podem ser uma ótima fonte de conhecimento neste sentido. Se há alguns anos atrás usávamos a pirâmide dos alimentos como um norteador de consumo no 61 Brasil, a gradual substituição e atualização de conceitos e saberes nos trouxe os Guias Alimentares (BRASIL, 2014; 2019). Estes documentos serão foco de nosso estudo nos próximos tópicos. Mas por hora utilizaremos as classificações de grupos de alimentos contidas no Guia Alimentar para população brasileira (BRASIL, 2014) para realizar nossa reflexão acerca do assunto. Os alimentos, no Guia, são classificados como: grupo dos feijões, grupo dos cereais, grupo das raízes e tubérculos, grupo dos legumes e das verduras, grupo das frutas, grupo das castanhas e nozes, grupo do leite e queijos, grupo das carnes e ovos, água, óleos, gorduras, sal e açúcar. Vamos conhecer cada um dos grupos? O grupo dos feijões traz todas as variedades de feijões e leguminosas existentes no Brasil, entre eles preto, mulatinho, carioca, fradinho, feijão-fava, feijão-de-corda (BRASIL, 2014, P. 66), lentilhas, entre outros. O grupo dos cereais contempla arroz, milho (e suas variações), aveia, trigo e centeio. O grupo das raízes e tubérculos é composto pela mandioca, batatas, mandioquinha, cará e inhame. Trazendo inclusive as variações de nomenclatura existentes no Brasil, como: mandioca; aipim e macaxeira. O grupo dos legumes e verduras são formados por todas as variedades destes alimentos em território nacional, sendo citados alguns, como: abóboras; alface; quiabo; repolho e inclusive Plantas Alimentícias não convencionais (PANCS) como a ora-pro-nóbis. Este grupo contempla ainda temperos como a cebola, cheiro-verde, alho. No grupo das frutas temos a grande variedade de frutas existentes no País, incluindo algumas regionais, por exemplo, murici, pequi e bacuri. O grupo das castanhas e nozes inclui produtos brasileiros como a castanha de baru, do-brasil ou do-pará, nozes, amêndoas e amendoim. Leite e queijos representam o grupo do leite e derivados, que incluem também queijos, iogurtes e coalhadas. Carnes e ovos compõem o grupo que traz todos os produtos de origem animal, menos leite e derivados já citados no grupo anterior. São divididos em carnes vermelhas, carnes de aves, pescados e ovos. Por fim o grupo da água, na qual não entram sucos e outras bebidas adoçadas, mas somente água, em seu estado natural. Sendo citada como água pura, mas também aquela contida na forma de café ou chá. E o grupo dos óleos, gorduras, sal e açúcar, que entram como um grupo usado para “[...] temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias” (BRASIL, 2014, p. 33). Todos estes grupos são aliados na obtenção de uma alimentação saudável e adequada, usados durante as refeições, normalmente não de modo isolado, mas em conjunto, respeitando a proporcionalidade e variedade dos alimentos para que possamos obter todos os nutrientes de que necessitamos e ainda possamos respeitar nossa cultura alimentar. 62 6.2 Guia Alimentar para população brasileira e a EAN Cabe aqui conhecer as partes que compõem este Guia e como ocorre seu funcionamento na obtenção de uma alimentação saudável e adequada. Como mencionamos anteriormente, o Guia Alimentar surge como resultado de pesquisas na área da alimentação e nutrição,de diálogos com as comunidades e de mudanças ocorridas através do tempo. A alimentação deixa de ser baseada na Pirâmide Alimentar e passa a seguir um fluxo dinâmico e regionalizado, respeitando tradições alimentares, saberes populares e os hábitos alimentares da população brasileira. Um foco bastante interessante é dado aos alimentos de acordo com seu grau de processamento e a sugestão de que a alimentação dos brasileiros seja baseada em alimentos in natura, ou seja, aqueles provenientes diretamente da natureza, sem alterações e os minimamente processados, que saem da natureza e passam por pequenos processos de industrialização que não alterem totalmente sua composição ou característica. Nesse sentido, a base da alimentação deixa de ser concentrada em carboidratos, por exemplo, e passa a ser composta por todos os alimentos de todos os grupos, desde que respeitando a mínima industrialização. As três refeições características dos brasileiros são elencadas, sendo café da manhã, almoço e jantar e ainda os pequenos lanches que podem ser feitos durante os intervalos. Sendo assim, o Guia traz informações de fácil assimilação, que podem ser adaptadas a todas as regiões do Brasil e a todas os cidadãos brasileiros. Ele é um documento do Ministério da Saúde que deve servir como base para as ações de EAN, assim como sua associação as informações contidas no Marco de EAN. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 63 6.3 Guia alimentar para menores de 2 anos e a EAN Já o Guia Alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos tem como intuito fornecer informações de qualidade para a alimentação saudável e adequada de crianças menores de 2 anos. Entende-se que após este período (os 2 anos) a criança já poderá estar apta a se alimentar da comida da família, ou seja, todas as refeições, seguindo as orientações do Guia Alimentar para população brasileira, podem ser fornecidas as crianças maiores. Este é o motivo principal para o Guia abordar até os 2 anos de idade, pois neste período a alimentação passa por grandes modificações até que se aproxime da alimentação da família. Sendo assim, após os 2 anos podem ser seguidas as recomendações do outro Guia, mesmo para crianças. Este Guia contém informações sobre a fase de aleitamento materno, as indicações de quais são os outros tipos de aleitamento e seus manejos, como realizar a introdução dos alimentos após os 6 meses de idade, tanto para crianças em que mantém o aleitamento quanto para as que não mantém. Traz ainda informações sobre o ato de cozinhar em casa, grupos de alimentos, direitos relativos à alimentação na infância e os 12 passos para uma alimentação saudável. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Ambos os guias são a fonte oficial e atual de recomendações do Ministério da Saúde para a adoção de uma alimentação saudável e adequada, seguem os preceitos da emancipação e participação social e merecem a atenção tanto de nutricionistas quanto de outros profissionais envolvidos na EAN, na busca por informações cientificas, acessíveis aos mais diversos públicos e validadas por instituições confiáveis. 64 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • conhecer mais sobre o uso de recursos auxiliares para atividades de EAN, como os recursos audiovisuais e rodas de conversa, recursos como áudio, vídeo ou combina- ção entre os dois servem para aprofundar discussões a respeito de uma alimentação saudável e adequada; • entender o significado e as aplicações das dinâmicas de grupo, conceito proveniente da Psicologia, que pode ser bem aproveitada nos trabalhos de Educação Nutricional, bem como a sua aplicabilidade prática através de passo a passo; • compreender as fases da vida, divididas em pré-escolar e escolar, jovens e adultos e terceira idade, as especificidades em cada uma das fases e suas relações com a alimentação e a EAN; • conhecer os grupos de alimentos, contidos no Guia Alimentar para População Brasi- leira, suas divisões e os alimentos que contém, além das recomendações de consu- mo dos alimentos; • explorar um pouco mais tanto o Guia citado acima quanto o Guia Alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos e suas recomendações para uma alimentação saudável e adequada aliada as ações de EAN; PARA RESUMIR BERBEL, N. A. N. Metodologia da Problematização no Ensino Superior e sua contribuição para o plano da praxis. Semina: v.17, n. esp., p.7-17, 1996. BEZERRA, J. A. B. Educação alimentar e nutricional: articulação de saberes. Fortaleza: Edições UFC, 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2.ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretária de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia Alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília: Ministério da Saúde. 2019. 265 p. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 84 p. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Marco de referência de educação alimentar e nutricional para as políticas públicas. Brasília: MDS, 2012. 68 p. BIZZO, M.L.G.; LEDER, L. Educação nutricional nos parâmetros curriculares nacionais para o ensino fundamental. Rev. Nutr., Campinas, v.18, n.5, p.661-667, set./out. 2005. BOOG, M.C.F. Educação nutricional: passado, presente, futuro. Rev. Nutr., Campinas, v. 10, n.1, p. 5-19, jan/ jun. 1997. BOOG, M.C.F. Educação nutricional: por que e para quê? Jornal da UNICAMP, 2005. FAQUETI, A. Segurança alimentar e nutricional com enfoque na intersetorialidade [recurso eletrônico] / Universidade Federal de Santa Catarina, Núcleo Telessaúde Santa Catarina; Alini Faqueti. – Dados eletrônicos. – Florianópolis: CCS/UFSC, 2019. 199 p. FIGUEIRÊDO, A. A. F. de; QUEIROZ, T. N. de. A utilização de rodas de conversa como metodologia que possibilita o diálogo. Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2012. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. GAYOTTO, L. Trabalho em grupo: ferramenta de mudança. Petrópolis: Editora Vozes, REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 2001. KRAUSE: alimentos, nutrição e dietoterapia. L. Kathleen Mahan, Sylvia Escott-Stump, Janice L. Raymond; [tradução Claudia Coana et al.]. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. 1227p. ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD. La administración estratégica: lineamento para su desarollo: los contenidos educacionales. Washington, DC, 1995. PEREIRA, A.L.F. As tendências pedagógicas e a prática educativa nas ciências da saúde. Cad Saude Publica. [s.l]. 2003 set/out; 2019. PINHEIRO, Â. F. So. Técnicas e dinâmicas de trabalho em grupo. Montes Claros: Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, 2014. SFORNI, M. S. de F. Interação entre Didática e Teoria Histórico-Cultural. Educação & Realidade, Porto Alegre, Ahead of print, 2015. SOUZA, H. J. Como se faz análise de conjuntura. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. TARADEL, L. N. 83 jogos psicológicos para dinâmica de grupos: um manual para psicólogos, professores, animadores socioculturais. Lisboa, Portugal: Paulus, 2007. UNIDADE 4 Planejando ações de educação ali- mentar e nutricional Você está na unidade Planejando ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN). Conheça aqui os fundamentos do planejamento de ações educacionais, seus elementos básicos, dados sobre plano de ensino e sua elaboração, sempre baseando-se na EAN. O planejamento de ações de EAN também será contemplado, com suas fases de elaboração, as áreas de atuação do nutricionista e as correlações com a educação. Você poderá explorar mais os conceitos sobre a avaliação das ações de EAN, seu auxilio no aprimoramento dessas atividades e o uso de documentos e materiais de apoio, fundamentais na elaboraçãodas ações educativas relacionadas à alimentação e nutrição em todas as fases da vida. Bons estudos! Introdução 69 1 PLANEJAMENTO: ELEMENTOS BÁSICOS, PLANO DE ENSINO, ELABORAÇÃO Planejar em educação tem um sentido amplo, prevendo que as ações educativas possam permear o processo de ensino-aprendizagem, verificar as condições em que elas se estabelecem, físicas, sociais e conjunturais, antecipando problemas que possam ocorrer, tentando buscar alternativas para eles. Segundo o documento norteador “Instrutivo Metodologia de Trabalho em grupo para ações de alimentação e nutrição na Atenção Básica” temos a seguinte informação: “[...] a educação em saúde deve estimular, portanto, a reflexão dos indivíduos sobre sua vida, percebendo a saúde como um direito social (conquistado pela participação da sociedade); por conseguinte, deve ser pautada na reflexão crítica dos problemas” (BRASIL, 2016, p. 17). Além de um contexto educacional no ambiente escolar, devemos adaptar e planejar as ações de EAN a outros contextos pertinentes as demais áreas de atuação dos nutricionistas, sempre com foco nos direitos humanos, entre eles a alimentação como direito básico. E ainda, essas ações sempre serão pautadas na pedagogia, utilizando ferramentas e conceitos provenientes deste campo de conhecimento, a educação. Devemos elaborar este planejamento de ensino, [...] articulando as metas aos objetivos, os fundamentos, os conteúdos e as estratégias metodológicas, considerando os contextos comunitário e escolar, as condições e o clima, os sujeitos envolvidos, a qualidade, a habilidade e a experiência dos educadores(as) e o processo de avaliação e acompanhamento (SILVA;ZENAIDE, s.d., p. 2, grifo nosso). Vamos analisar cada um desses itens que compõem o planejamento das ações educacionais? Esta análise poderá ser eficiente na formulação de um plano de ação, ou ainda, um plano de ensino que contemple as ações de EAN. FIQUE DE OLHO A Lei de Diretrizes e Bases da Educação é uma fonte importante de saberes a respeito das práticas educacionais brasileiras. Conhecê-la amplia seus conhecimentos sobre a educação. 70 2 CONCEITOS DO PLANO DE ENSINO Principiamos, então, nossa incursão pelos objetivos: ter em mente quais os objetivos que gostaríamos de atingir com uma ação educacional promove que sejam delimitados assuntos, abordagens e metodologias que possam favorecer o processo de ensino-aprendizagem, coincidindo com o cumprimento desses objetivos. Enquanto objetivos, devemos ter em mente que eles devem ser claros, levar a uma condução e finalização de assuntos e cumprir etapas no processo de educação (PEREIRA, 2003). A fundamentação pode nos ajudar a justificar nossos objetivos, já que nos traz as bases para as ações educacionais. A ciência e seus estudos podem nos amparar na fundamentação dos nossos objetivos, assim como os documentos norteadores também o fazem. Os conteúdos tem profunda ligação com a fundamentação, é nos conteúdos que buscamos os conceitos que fundamentam nossos objetivos. Relacionar estes conteúdos e fundamentações aos saberes populares deve ser uma preocupação das metodologias da problematização. Esta ponte estabelece confiança, comunicação e valorização dos atores sociais e os saberes que carregam consigo. E por fim aliamos as estratégias metodológicas, que serão a maneira de efetivação dos objetivos traçados e dos conteúdos associados. A partir de estratégias podemos realizar a escolha das ferramentas didáticas que melhor se adaptem as situações em que irão ocorrer as formações e aos conteúdos que serão discutidos. 2.1 Planejando ações de EAN Ao realizar o planejamento das ações de EAN, baseadas na elaboração de um plano de ensino, cabe relacionar algumas questões importantes. Uma visão crítica da educação e dos assuntos que por ela serão abordados pode favorecer a construção de ações de emancipação. Mas por falar em emancipação, vamos nos aprofundar nesta palavra? Ela tem estado presente em boa parte das nossas discussões, tanto de educação, quanto em políticas públicas, e ainda na alimentação e nutrição. Então, quando falamos em emancipação ligada aos conceitos de educação, estamos falando no conhecimento que transforma, que torna o indivíduo independente e capacitado para tomar suas decisões e discernir sobre os diversos aspectos de sua existência (FREIRE, 1996). Agora que já estamos munidos de informações sobre a importância e os elementos que devem compor um plano educacional, passamos a agregar estes conceitos a elaboração de um plano de ensino. Utilizando as experiências em educação, através de um diagnóstico do foco das ações, chegaremos ao planejamento da EAN. 71 2.2 Elaboração do plano de ensino As experiências em educação irão participar no momento da elaboração de nosso plano de ensino, seja na busca por metodologias ou até mesmo na definição de uma corrente de pensamento. Segundo Silva e Zenaide (s.d.), alguns pontos são fundamentais neste estabelecimento: visão crítica, visão politica da educação, ética e cultura democrática, universalidade de conceitos, possibilidade de uso de metodologias e ações múltiplas, definições de metodologias e materiais de acordo com a fase de ensino, promoção do diálogo, localização histórica, com vistas na interrelação entre passado, presente e futuro, e por fim, contemplar as instâncias de sensibilização, problematização, construção coletiva e acompanhamento sistemático dos processos educacionais em suas duas faces (professor e estudante). Em termos práticos, não existem modelos prontos para elaboração de um plano de ensino para EAN, mas o uso de exemplos de planos de educação básica e um passo-a-passo baseado em conceitos podem auxiliar em sua elaboração. Estruturalmente o plano de ensino (Figura 1) irá conter: assuntos a serem abordados, podendo ser apresentados em tópicos (com breve explicação dos tópicos); métodos e materiais a serem utilizados (elencados brevemente); referências bibliográficas (FUNDESCOLA, 1999). Métodos estão relacionados as metodologias aplicadas e materiais aos que serão utilizados para efetivação das ações. Caso as ações sejam a longo prazo, um cronograma das atividades poderá ser benéfico para uma visão geral das atividades. Figura 1 - Exemplo de plano de ensino Fonte: Elaborada pela autora, 2020. #ParaCegoVer: figura contendo uma tabela com modelo de plano de ensino aplicado a EAN, com título – Plano de ensino em educação nutricional, seguido por: assuntos, objetivos, metodologias e recursos educacionais, metas de ensino, recursos materiais, cronograma de atividades, responsável e referências, contendo campos em branco para preenchimento das atividades em cada uma das colunas. 72 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Caso deseje organizar um plano de ensino mais elaborado, o público-alvo, metas e resultados esperados, bem como os responsáveis pelas ações e monitoramento são possibilidades de ampliação deste documento. Lembrando ainda que este documento pode ser uma atividade conjunta, promovendo a intersetorialidade. 2.3 Planejamento de programas de EAN De acordo com cada uma das áreas as necessidades do público-alvo podem variar, deste modo, as ações devem ser planejadas contemplando as demandas especificas. O tempo das ações também é outro fator que pode variar, assim como a heterogeneidade dos atores e a estrutura física. Há também as ações que podem ser planejadas, porém sem um grupo focal especifico, seria o caso das ações genéricas que podem ser trabalhadas com diversos públicos, fazer parte de documentos norteadores e materiais didáticos ou, ainda, participar da formação de outros profissionais (professores, agentes de saúde, enfermagem etc.), em equipes de trabalho de EAN mistas. A prática de EAN atravessa saberes através de sua interdisciplinaridade, e este ponto deve ser levado em consideração no planejamento das ações, colocando a intersetorialidade e o multiprofissionalismo em foco. Essa questão nos levaa outra, a formação pode ser diferenciada entre a profissional ou a educacional. Quando se tratam de ações que visam formar outros profissionais para as práticas de EAN, nossa abordagem deve levar em consideração os saberes dos profissionais e suas práticas. Já na abordagem educacional, muitas vezes, iremos partir de um panorama inicial de saberes, onde a escuta ativa vai ser a ferramenta para ouvir, compreender e esclarecer os pontos 73 de conflito ou dúvidas. A articulação é a palavra fundante, nela conseguiremos basear nossas ações, desenvolver objetivos, traçar metas e promover atividades de EAN que cumpram o papel emancipatório da educação. Em seguida, passaremos para as fases deste planejamento, que poderão ser muito uteis na preparação das ações de EAN. 2.4 Fases do planejamento de EAN As fases do planejamento podem ser distintas, primeiramente sobre como se dará este plano. O Marco de EAN preconiza que as ações sejam realizadas de maneira interdisciplinar, intersetorial e participativas (BRASIL, 2012). Mas existem momentos em que o desenvolvimento de planos de ensino poderá ficar a cargo somente do nutricionista. Cabe esclarecer que a busca constante de todos os profissionais que atuam em EAN é pela multiplicidade de visões acerca da alimentação. Buscando incluir atores e profissionais diversos, ainda que em alguns momentos o trabalho ocorra de maneira isolada, o objetivo é sempre o coletivo. Segundo Bezerra (2018, p. 23), “[...] o planejamento deve ser prioritariamente participativo para que possa ser legítimo e conduza a um processo de decisão adequada ao diagnóstico no qual se baseia e aos objetivos que busca atingir”. Logo, podemos trazer os seguintes passos para elaboração de um planejamento de ações de EAN. Vejamos, a seguir. • Equipe participante; • Diagnostico da realidade a ser abordada; • Objetivos das ações; • Avaliação das metas. Vamos nos aprofundar? A observação da equipe participante e os diálogos que se estabelecem neste planejamento conjunto pode se estabelecer em diferentes momentos. Reuniões, distribuição de tarefas e rodas de conversa ou grupos de trabalho focais podem ser instrumentos para que esta ocasião possa colaborar no planejamento das ações. O diagnóstico da realidade trará a coesão entre o conhecimento e a vida, realizando a tradução dos conhecimentos científicos e conceitos, acolhendo os saberes populares e fazendo a interpelação entre eles nas ações educacionais. Esta ação originará as atividades de EAN para a comunidade, que se sentirá ainda mais participante. É aquela sensação de que a atividade foi feita sob medida. Os objetivos das ações são o fator determinante para o bom andamento das atividades, como vimos anteriormente. Eles podem ser elencados em conjunto, ou em cada uma das áreas atuantes e juntos formarão um bloco de objetivos comuns a educação nutricional. 74 Figura 2 - Ações para a educação nutricional Fonte: Demaerre, Istock, 2020. #ParaCegoVer: na figura mãos segurando uma salada vegetariana fresca saudável em uma tigela, vegetais crus frescos no fundo, vista superior. Os objetivos estão diretamente relacionados as metodologias e aos materiais de trabalho que serão utilizados, assim como a definição de tempo e espaço que serão necessários a esta formulação. Fato que poderá ocorrer ao contrário, o tempo disponível para a atividade e local onde será realizada poderão influenciar na escolha dos objetivos que visam ser atingidos através de uma ação de EAN. E finalmente a avaliação das metas, este momento é multilateral, podendo ser realizado pelos profissionais participantes, de acordo com os objetivos que estabeleceram anteriormente, e ainda pelos próprios atores sociais alvo da ação. Sendo assim a avaliação se torna completa e posteriormente poderá ser utilizada para aprimorar as ações. 3 ÁREAS DE ATUAÇÃO DO NUTRICIONISTA EM EAN Conectando ao tópico anterior, saber quais são as áreas de atuação do nutricionista e como funciona o planejamento de ações de EAN, nestas respectivas áreas, é outro dado importante. Ainda que todas as áreas tenham em comum o uso de recursos educacionais e bases pedagógicas e metodológicas, as demandas podem ser distintas. Podemos eleger que são campos de trabalho da nutrição: saúde; assistência social; segurança alimentar e nutricional; educação; agricultura; abastecimento; esporte e lazer; trabalho (através da alimentação coletiva) e comércio (através da indústria de alimentos e restaurantes comerciais). Mas ressaltando que o nutricionista pode estar presente nas ações em áreas que habitualmente não trabalha, ou que as ações planejadas por estes profissionais podem ser aplicadas por outros profissionais nestas mesmas áreas de atuação. 75 3.1 Ações base em cada área Em cada uma das áreas haverão diferentes possibilidades de ensino para as ações de EAN. Elas diferem em público-alvo, local de desenvolvimento, tempo de duração, sendo possível inter-relacionar materiais e métodos. Cabe salientar que nem todas as áreas terão a educação nutricional como foco, mas sim a possibilidade de desenvolvimento de ações que auxiliem a EAN. Na área da saúde, as ações de EAN na saúde o objetivo de promover a alimentação saudável e adequada para público considerados sem enfermidades quanto para os grupos específicos, como diabéticos, hipertensos, gestantes e parturientes, crianças, entre outros. Para os grupos focais, o principal objetivo é a busca do equilíbrio entre as ações para controle ou cura das doenças/ condições especiais e a manutenção de uma alimentação saudável. Na área de assistência social, a realidade das condições de vida são o foco das ações de EAN na assistência social, fontes de obtenção de alimentos de qualidade, programas sociais que possam promover uma alimentação adequada a populações que não tenham acesso aos alimentos, aproveitamento total dos alimentos e receitas nutritivas podem ser o mote das ações de EAN. No âmbito da segurança alimentar e nutricional, as ações de EAN e a SAN são inteiramente correlatas, ambas buscam promover uma alimentação que seja agente de saúde, que melhore a qualidade de vida das populações. Já na educação, o papel da educação junto a alimentação é uma associação comum. O público da educação pode ser facilmente identificado como o infantil, foco de ações relativas à alimentação, ainda a introdução de assunto em disciplinar do currículo escolar. Mas adultos também estão inseridos neste contexto e sua alimentação também é foco de EAN. No campo da agricultura, o estímulo a práticas agroalimentares que possam promover a saúde, diversidade de produção, respeito a cultura alimentar do país são os focos principais das práticas de EAN na agricultura. Através da agricultura, temos boa parte dos produtos alimentícios que são consumidos diariamente pela população, e este plantio pode ditar o consumo. Já o abastecimento, através de alimentos promotores de saúde, é o foco das ações de EAN neste ramo. Tanto em políticas públicas de acesso aos alimentos, que devem levar em consideração alimentos saudáveis e adequados, quanto as que regulam o mercado de alimentos FIQUE DE OLHO O Caderno de Princípios e Práticas para Educação Alimentar e Nutricional, do Ministério do Desenvolvimento Social, de 2018 é uma excelente fonte de informações para a EAN. 76 devem ser pautadas nos conceitos de EAN. Alimentação coletiva A elaboração de um cardápio que promova o consumo de alimentos in natura e minimamente processados pode ser citada como uma ação que colabora para a EAN. Campo da agricultura Através da agricultura, temos boa parte dos produtos alimentícios que são consumidos diariamente pela população, e este plantio pode ditar o consumo. Abastecimento Tanto em políticas públicas de acesso aos alimentos, que devem levar em consideração alimentos saudáveis e adequados, quanto as que regulam o mercado de alimentos devem ser pautadas nos conceitos de EAN. Comércio Promoção da agricultura familiar,alimentos orgânicos e agroecológicos, informações sobre ultraprocessados, acesso a feiras livres, podem ser ações de EAN nesta área. No âmbito do esporte e lazer, muitas atividades esportivas estão associadas à alimentação. Atletas e praticantes amadores de atividades físicas podem ser foco de ações de EAN para que essas atividades sejam aliadas a alimentação saudável. A ideia da alimentação coletiva tem uma importante participação nas ações de EAN, tanto em atividades em grupos de trabalhadores, quanto orientadores de consumo que possam ser geradores de práticas saudáveis de alimentação. A elaboração de um cardápio que promova o consumo de alimentos in natura e minimamente processados pode ser citada como uma ação que colabora para a EAN. Por fim, o comércio (indústria de alimentos, comércio e restaurantes comerciais), políticas reguladoras de alimentos saudáveis e adequados, em conjunto com outras áreas é uma forte ação de EAN. Promoção da agricultura familiar, alimentos orgânicos e agroecológicos, informações sobre ultraprocessados, acesso a feiras livres, podem ser ações de EAN nesta área. 77 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4 AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE ENSINO- APRENDIZAGEM A avaliação na educação fundamenta as ações que estão sendo realizadas, além de tem forte correlação com os objetivos estabelecidos para as atividades. É a partir da avaliação que podemos perceber se as escolhas metodológicas para os objetivos traçados estão cumprindo a sua função e se as relações educacionais estão se estabelecendo. A partir desta verificação, podem ser mantidos os mesmos métodos ou ainda realizar a adaptação do conteúdo a outro método, inclusive através da escuta ativa e avaliação dos próprios atores sociais/estudantes. Os métodos avaliativos podem variar, mas as metodologias ativas comportam avaliações de processos, ou seja, feitos em diversos momentos e de diversas maneiras, sendo uma avaliação contínua (LUCKESI, 2011). 4.1 Conceitos pedagógicos de avaliação de ações A avaliação dos processos de ensino-aprendizagem são fatores bilaterais, eles avaliam os objetivos propostos. Logo, os estudantes ou atores sociais são avaliados, além das metodologias escolhidas, observando se estão sendo bem aceitas por eles, e verificam a eficácia do uso dos elementos didáticos por parte do profissional educador. Elementos didáticos, práticas pedagógicas e plano de ensino caminham lado a lado neste momento, pois servirão de base para interpretar os resultados das avaliações. Estes pontos de pausa para verificação de como está se dando a construção do conhecimento podem ser realizados inclusive pelos estudantes, em um sistema de autoavaliação, promotora de emancipação (LUCKESI, 2011). 78 Segundo Silva e Zenaide (s.d., p. 8), “[...] a avaliação num Plano de Ação é um dos instrumentos de monitoramento e de planejamento do processo de implantação de um projeto elaborado”. Religando e estabelecendo conexão com os demais momentos do processo em si. Prever a avaliação, seu momento durante as atividades, que formato de avaliação será utilizado pode ser um dos passos do planejamento. Quanto mais ampla se der a avaliação, melhores os ajustes que podem ser feitos. Rever o que foi previsto no plano de ensino, avaliar questões como intersetorialidade, parcerias e o papel de cada um no processo pode ampliar o modo de ver a avaliação, numa proposta de emancipação (FREIRE, 1996). O engendramento dos processos de ensino-aprendizagem, culminam na construção do conhecimento nas mais diversas áreas, pois passando por planejamento, execução e avaliação mostram a circularidade da educação, que se transforma, se modifica para mudar os atores sociais, aprendendo com as experiências e se relacionando de forma contínua. Em termos de avaliação elas podem ser objetivas e subjetivas, qualitativas e quantitativas. Objetivas quando avaliam as relações estabelecidas entre a memória, a construção do conhecimento e o processo cognitivo dos estudantes. Nas avaliações subjetivas, ainda que exista um padrão de resposta, este tipo de avaliação permite visões distintas ou complementares de um mesmo assunto, demonstrando além da apreensão do conteúdo a possibilidade de elaborar um conceito e problematizar a questão. E segundo o Instrutivo de EAN as avaliações qualitativas e quantitativas podem ser definidas como, [...] a avaliação quantitativa pode ser escrita ou oral, com perguntas objetivas, no início e ao final de cada ação ou no fim de toda a intervenção nutricional, podendo avaliar conhecimentos, hábitos alimentares, percepções e satisfação com a atividade. [...] A avaliação qualitativa pode derivar de uma discussão final com os participantes, com o registro das falas, das dúvidas, dos sentimentos, das ansiedades, dos saberes e das impressões dos sujeitos e dos profissionais durante ou ao final das atividades. (BRASIL, 2016, p. 148, grifo nosso). Essa compreensão e conhecimento de métodos avaliativos colabora para que as modificações necessárias possam ocorrer em cada uma das áreas em que a EAN pode acontecer e que o processo avaliativo possa contribuir para a ressignificação do ato educacional. 4.2 Avaliando a EAN Como vimos anteriormente existem modos de avaliar o processo de educação nutricional, aplicando algum dos métodos ou uma combinação deles. Como já mencionamos, o interessante é que além de avaliar os conteúdos e seu aproveitamento, possamos avaliar os métodos, elementos pedagógicos e a dinâmica das ações de EAN. 79 Uma simples conversa com os atores sociais ou estudantes, após o período de dinâmica, poderá gerar avaliação do processo. Um resumo escrito das atividades, apontamento das informações que foram mais relevantes aos participantes, mapas conceituais ou esquemas dos principais pontos também são avaliações que poderão ser usadas. No âmbito da avaliação qualitativa da atividade, podemos pensar em um questionário com perguntas fechadas e abertas sobre a atividade. As percepções dos atores, o que sentiram em relação a abordagem, os materiais utilizados, as dinâmicas desenvolvidas e comentários abertos gerais podem fornecer o feedback para que a atividade em si seja avaliada. Promovendo ajustes e melhorias tanto para a continuidade do processo quanto para aplicação em novos grupos. 4.3 Processos de ajuste pós-avaliação: analisando os dados coletados Os processos de ajustes após as avaliações demandam sensibilidade, rememoração da escuta ativa e empatia. E ainda a verificação do plano de ensino, pois ele irá fornecer o norte dos objetivos da ação, sendo assim possível verificar a obtenção ou não dos mesmos. Vamos exemplificar? Imagine que tenhamos promovido uma metodologia de confecção de cartazes de matriz fofa. Você conhece esta atividade? Ela determina forças, oportunidades, fraquezas e ameaças a um processo, que no caso pode ser a alimentação saudável. Em uma cartaz os atores sociais seriam convidados a discutir cada uma das instâncias e elencar quatro forças, quatro oportunidades, quatro fraquezas e quatro ameaças para aderir a uma alimentação saudável, de maneira conjunta e não individual. Estipulando um tempo limite de 30 minutos para discussão, eleição dos apontamentos e confecção do cartaz, percebe-se que em 25 minutos a maior parte dos atores ainda está realizando a discussão de que elementos serão elencados. Após uma hora de atividade todos os grupos terminam, mas alguns estão com os cartazes incompletos. Esta observação já é um passo da avaliação do método escolhido para dinâmica. Solicitando aos presentes avaliar a atividade, muitos comentários de dificuldades relacionadas ao entendimento de como realizar a atividade, de confecção do cartaz, de discutir com os demais membros, discordância entre os grupos, pouco tempo para realização a atividade, entre outros. Como utilizar estes dados para melhorar a experiência da ação? Podemos desmembrar os resultados das avaliações e ligar aos passos da atividade: a explicação sobrecomo realizar a atividade está clara e simples? Acessível a todos os participantes? O tempo previsto pode ser modificado? É possível um mediador para as discussões? Podemos melhorar a experiência da confecção do cartaz? A atividade pode ser proposta de outra maneira, mais simples? Todas essas respostas poderão compor um panorama para ajustes da atividade, bem como 80 podem representar melhorias no aproveitamento das ações e da construção do conhecimento. Este processo é continuo, os ajustas são realizados, a atividade é novamente aplicada e podem surgir novos ajustes, numa metodologia ativa. Muitas vezes o processo flui e não são necessárias adaptações, logo, cada um dos casos de aprendizagem representa uma experiência. 4.4 Tipos de Avaliação Cabe então nos aprofundarmos nos tipos de avaliação em educação para que a partir disto possamos adaptar estes métodos as atividades de EAN. Segundo o Instrutivo de EAN, “é importante lembrar que a avaliação é a principal ferramenta para potencializar ações futuras e refletir sobre as ações realizadas” (BRASIL, 2016, p. 146). A avalição, em educação, se compõe de três pilares: eficiência dos métodos pedagógicos, da qualidade e das competências educativas. Cabe ao educador perceber e não ultrapassar a fina linha que a avaliação pode desempenhar em relação ao controle social do aprendizado, transformando a educação em um sistema de mera acumulação de dados. As avaliações de memorização são próprias de metodologias passivas de ensino, superadas, dando espaço a outras avaliações que melhor se adaptem aos processos de aplicação das metodologias ativas. Sendo a avaliação formativa a que mais se encaixa neste método. [...] A avaliação formativa é uma modalidade que acompanha permanentemente o processo de ensino-aprendizagem. Tal forma avaliativa dá importância aos saberes do aluno, motivando-o quanto a regularidade do seu esforço, a sua forma de entender e executar ações e a resolutividade aos problemas que utiliza (BELLAVER, 2019, p. 8). A mudança do eixo trata de práticas avaliativas, que refletem o processo em geral e interessam, em discussões, a toda comunidade da educação. Ainda que a avaliação conste como obrigatória na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em EAN estar motivado sobre o porquê do estabelecimento ou escolha de métodos avaliativos é fundamental. Diferindo, por exemplo, em termo da avaliação do círculo básico de educação, por exemplo, que qualifica o estudante para o avanço em outras etapas. 5 COMO APLICAR OS TIPOS DE AVALIAÇÃO EM EAN Segundo o Instrutivo de ações de EAN, o principal objetivo das avaliações em educação nutricional é a revisão dos métodos e os objetivos para melhorias nas próximas atividades. Diferente das avaliações em educação, elas não pretendem verificar quantitativa ou qualitativamente o grau de aprendizagem dos atores sociais, mas passam por esta percepção durante o processo (BRASIL, 2016). 81 As modificações na qualidade de vida da população, o engajamento dos atores sociais nas demais ações, e a adoção voluntária a práticas alimentares saudáveis e adequadas são os frutos da avaliação das ações de EAN. Boa parte deste resultado pode ser obtido através de acompanhamento da saúde nutricional, ou seja, avaliação do estado nutricional, antes e depois do início das ações. Em educação, saúde e assistência social é um procedimento que detém maior facilidade de ser obtido. Já nas demais áreas, medidores de consumo de alimentos in natura e minimamente processados e desperdício, bem como o engajamento as ações pontuais de EAN podem ser interpretados como resultados, passíveis de relatórios de avaliação das ações de educação nutricional. Os relatórios são bons métodos de registro dos resultados avaliativos das ações de EAN, através deste registro e arquivamento de dados é possível acompanhar o histórico do cumprimento dos objetivos das ações de educação nutricional junto aos atores sociais. Um ótimo exemplo de avaliação de ações de EAN pode ser o trabalho de desperdícios de alimentos em coletividade. Uma escola é um bom local para avaliar esta ação. Uma planilha com o peso total de desperdício de alimentos, pós refeição, de cada uma das turmas de alunos envolvidos na atividade e sua progressão após outras atividades de sensibilização pode demonstrar os resultados da ação. Se tivermos dois quilos de alimentos desperdiçados no início da ação, e depois de atividades de teatro, participação na horta escolar e atividade de confecção de cartazes sobre a alimentação saudável o desperdício diminuir para 500 gramas, temos uma avaliação positiva das atividades. 5.1 Adaptando avaliações para situações específicas de EAN Conhecer previamente os atores sociais e seus saberes em relação à alimentação pode ser um fator auxiliar na busca por avaliações que demonstrem a evolução do processo de construção do conhecimento acerca da alimentação. Em grupos com pouco ou nenhum acesso a alfabetização, uma avaliação escrita pode ser um fator de afastamento e constrangimento dos atores sociais. Uma escala hedônica pode ser uma ótima forma de avaliar as crianças pequenas em relação as atividades desenvolvidas. E um relato verbal das relações estabelecidas nas atividades em adultos com baixo acesso à escolaridade também podem cumprir a função de avaliação. A elaboração de questionários intuitivos, podem ser outro método avaliativo de EAN, podendo ser aplicado em uma grande fatia de atores sociais que tem acesso a escolarização. Já perguntas abertas podem ser uma forma eficiente de avaliar, em públicos que tiveram amplo acesso a escolarização ou profissionais multiplicadores, assim como resumos dos assuntos ou elaboração de organogramas. 82 A imparcialidade no momento de intepretação das avaliações, ou um olhar crítico que se avalia conjuntamente com os resultados da avaliação dos atores, pode estabelecer uma didática de melhoramento contínuo das ações de EAN nas mais diversas áreas de atuação dos nutricionistas. 5.2 Elaboração de materiais educativos Parte do trabalho educacional relacionado à EAN é a elaboração de matérias educativos. Eles tanto podem ser utilizados nas próprias atividades quanto podem fornecer aprofundamento para os atores sociais e estudantes nos assuntos relativos à alimentação e à nutrição. O que significa essa diferença entre se informativo e educativo? O texto informativo tem um único objetivo: informar. Ele traz informações ao leitor, sem cunho relacional com outras instancias. Já o conteúdo educativo tem por obrigação promover a reflexão entre as informações e a construção do conhecimento. Ou seja, ele leva o leitor a pensar e problematizar aquilo que está lendo, gerando um ato educacional. Vamos a um exemplo? Se estivermos elaborando um material sobre o aumento no consumo de frutas e diminuição do consumo de suco (natural ou artificial) entre crianças, trazer somente a informação de que devemos trocar um pelo outro e exemplos de frutas, o material pode ser ótimo informativo. Já se colocarmos nele um breve esclarecimento dos motivos pelos quais devemos priorizar, em crianças, o consumo de frutas in natura ao invés de sucos, exemplos de como as frutas podem ser consumidas e uma lista de frutas em uma determinada época ou região, o material se torna educativo. Como dissemos, anteriormente, levar em consideração os norteadores de consumo, leis, instrutivos e outros documentos oficiais, que já passaram por longo processo de validação e pesquisa, também é um excelente caminho para trazer as bases conceituais aos materiais educativos em EAN. Lembrando que a linguagem utilizada pode tanto favorecer quanto dificultar o acesso ao conhecimento. Termos técnicos em abundância, dados sem contextualização, falta de objetividade ou clareza com o que se pretende comunicar podem ser fatores decisivos na recepção deste material posteriormente. 5.3 Materiais gerais Assim como ocorre com as ações educacionais que serão aplicadas diretamenteaos atores sociais, pode acontecer da produção de materiais educativos ser realizada sem a ciência de público específico. Cabe ressaltar que não conhecer o público para o qual o material se destina não exclui o fato de termos ciência de que podemos ter um grupo focal. Elaborar materiais de EAN para adultos e para crianças é bastante distinto. Durante o processo 83 de elaboração, cabe realizar um plano de ensino, que deverá conter informações como a citada. O material também pode ser realizado para determinadas demandas, como doenças e condições de saúde especiais. Logo, esta informação ajudará a compor o corpo do material. Procurar variar os métodos de construção do material didático é um caminho que também é interessante. Dispomos de uma grande gama de formatos nos quais a construção do conhecimento se dá, com metodologias próprias e ativas para a elaboração de material de apoio. Jogos, caça-palavras, poemas, figuras, indicação de outros meios de obtenção de conhecimento (vídeos, livros, sites) podem quebrar o marasmo da leitura, estimulando os estudantes e pesquisas mais e se relacionar verdadeiramente com o material em suas mãos. Os objetivos do material ainda irão determinar a quantidade de conhecimento que será repassado naquela ação. Temos desde folders ou folhetos explicativos até livros, e de acordo com o tamanho do material iremos selecionar a quantidade de elementos didáticos e conteúdo que iremos utilizar para compor o material. 5.4 Materiais para públicos específicos Os materiais específicos podem tanto ser para as ações presenciais, em que temos um público já definido e conhecendo melhor este público temos condições de elaborar um material focado. Quanto para questões especificas, como o caso da gestação, introdução alimentar, doenças crônicas não transmissíveis, e outros tantos assuntos que podem ser foco de EAN. Todos estes materiais têm como ponto delicado a fundamentação. É nela que devemos contextualizar o que a EAN trata, mas sem ser genéricos demais. A correlação ao que se propõem uma educação nutricional e como ela se liga à situação chave do material é o ponto em que este material torna-se relevante. Os conceitos fundantes de cada uma dessas áreas específicas deve ser outro ponto de observação. Outra ligação importante, com a educação, é as bases da pedagogia e da metodologia, que devem sempre ser visitadas para fornecer respostas as perguntas corriqueiras na elaboração dos materiais. É através da educação e seus conceitos que poderemos traduzir o conhecimento que adquirimos e que possa ser bem recepcionado pelos atores sociais em geral. 5.5 Documentos e norteadores como base para elaboração de materiais educativos de EAN Após nossa excursão aos documentos educativos e como torná-los meios de construção do conhecimento acessível a todos, cabe citar e resumir os principais documentos norteadores que poderão fazer parte deste processo. 84 Levar em consideração a motivação das ações de EAN, é um norteador para saber que assuntos buscar nos materiais de apoio que possam auxiliar tanto nas atividades quanto na elaboração de outros materiais. Durante todo nosso material temos falado do Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas (BRASIL, 2012), sendo o principal documento oficial quando se fala em EAN. Os dois Guias Alimentares vigentes, Guia Alimentar para População Brasileira (BRASIL, 2014) e o Guia Alimentar para crianças menores de 2 anos (BRASIL, 2019) são os principais documentos quando as buscas são por conceitos relacionados à alimentação saudável e adequada. É nele que serão encontrados os meios de obter uma alimentação promotora de saúde, para todas as fases da vida, sendo focado especificamente na população brasileira, que faz a adaptação a realidade de que tanto falamos. O Instrutivo é uma metodologia de trabalho em grupos para ações de alimentação e nutrição na atenção básica (BRASIL, 2016) é um documento voltados as ações de EAN em unidades básicas de saúde, mas pode ser utilizado em diversas áreas, já que traz além de conteúdo exemplos de ações práticas de educação nutricional. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 85 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprofundar seus conhecimentos acerca do planejamento aplicado à EAN, conhecendo seus elementos básicos, o plano de ensino e os meios de realizar um plano voltado à educação nutricional; • conhecer as fases no processo de planejamento tanto do plano de ensino para a EAN quanto o planejamento de planos completos de atividades de educação nutricional, para diversos públicos e seus conceitos fundamentais aliados aos conceitos de educação e pedagogia; • explorar as áreas de atuação do nutricionista e aliar a estas áreas as possibilidades de ações de EAN, suas adaptações e os conceitos que permeiam todas as áreas; • observar como ocorre a avaliação dos processos de ensino-aprendizagem, com os formatos aplicados as metodologias ativas e como adaptar estes meios de avaliação as atividades de EAN; • compreender como elaborar outros materiais educativos de apoio, seus conteúdos, as buscas por informações e fundamentos, seus objetivos e o uso de outros materiais oficiais para este momento da EAN. PARA RESUMIR BELLAVER, E. H. Ferramentas para avaliação em metodologias ativas. Caçador: EdUNIARP: 2019. BEZERRA, J. A. B. Educação alimentar e nutricional: articulação de saberes. Fortaleza: Edições UFC, 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Universidade Federal de Minas Gerais. Instrutivo: metodologia de trabalho em grupos para ações de alimentação e nutrição na atenção básica. / Ministério da Saúde, Universidade Federal de Minas Gerais. – Brasília: Ministério da Saúde, 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 84 p. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Marco de referência de educação alimentar e nutricional para as políticas públicas. Brasília: MDS, 2012. 68 p. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei n. 9.395/96. Brasília: 1996. FAQUETI, A. Segurança alimentar e nutricional com enfoque na intersetorialidade [recurso eletrônico] / Universidade Federal de Santa Catarina, Núcleo Telessaúde Santa Catarina; Alini Faqueti. – Dados eletrônicos. – Florianópolis: CCS/UFSC, 2019. 199 p. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. FUNDESCOLA. Como elaborar o plano de desenvolvimento da escola. Brasília: MEC, 1999. LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem: componente do ato pedagógico. São Paulo: Cortez Editora, 2011. PEREIRA, A.L.F. As tendências pedagógicas e a prática educativa nas ciências da saúde. Cad Saude Publica. [s.l], set/out. 2003. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SFORNI, M. S. de F.. Interação entre Didática e Teoria Histórico-Cultural. Educação & Realidade, Porto Alegre, Ahead of print, 2015. SILVA, M. S. M.; ZENAIDE, M. de N. T. Plano de Ação em Educação em e para Direitos Humanos na Educação Básica, s.d. Disponível em: http://dhnet.org.br/dados/cursos/ edh/redh/02/modulo_2_3_plano_de_acao_naza.pdf. Acesso em: 16 abr. 2020. Educação nutricional é um livro direcionado para estudantes dos cursos da área de nutrição e nutrologia. Além de abordar assuntos gerais, o livro traz conteúdo sobre educação em nutrição, educação alimentar e nutricional, nutricionistas, e planejamento de ações de educação alimentar e nutricional. Após a leitura da obra, o leitor vai dominar o significado de educação nutricional, educação alimentar e nutricional; aprender sobre as bases da educação, os princípiosmorais e éticos que estão em consonância com a Constituição Federal Brasileira; aprofundar conceito de educação nutricional por meio de documentos oficiais e norteadores de ações; explorar elementos didáticos e correlacioná- los com as ações de EAN, investigando termos e conceitos, correntes da educação e suas respectivas metodologias e didáticas; entender o significado e as aplicações das dinâmicas de grupo, conceito proveniente da psicologia, que pode ser bem aproveitada nos trabalhos de educação nutricional; compreender as fases da vida, divididas em pré-escolar e escolar, jovens e adultos e terceira idade, as especificidades em cada uma delas e suas relações com a alimentação e a EAN; observar como ocorre a avaliação dos processos de ensino- aprendizagem com os formatos aplicados, as metodologias ativas e como adaptar estes meios de avaliação às atividades de EAN; saber como elaborar outros materiais educativos de apoio, seus conteúdos, as buscas por informações e fundamentos, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! Capa E-Book_Educação Nutricional_CENGAGE_V2.pdf E-Book Completo_Educação Nutricional_CENGAGE_V2.pdf