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0 1 INTRODUÇÃO O diabetes mellitus (DM) é uma condição clinica que está presente na vida humana desde as civilizações antigas do Egito, Índia e Grécia. Era considerada a “doença do açúcar”, devido ao sabor adocicado na urina o sintoma clássico de poliúria. Antes de 1921 não havia tratamento eficaz para o diabetes, apenas eram prescritas dietas de inanição, pelo Dr. Frederick M. Allen, que, embora tenha deixado muitos pacientes subnutridos, foi creditada por ajudá-los a sobreviver até a introdução da insulinoterapia. A descoberta da insulina nessa década revolucionou a perspectiva de sobrevivência para os afetados pelo diabetes. A incidência e a prevalência dessa doença vêm crescendo exponencialmente ao longo dos anos. Enquanto no ano de 1985 a população mundial de pessoas com diabetes se restringia a apenas 30 milhões, esse valor subiu para 135 milhões no ano de 1995, para 250 milhões no ano de 2013 e 387 milhões em 2014. Entre as principais causas desse aumento no mundo estão os maus hábitos alimentares, a epidemia de obesidade e de sedentarismo e o aumento da expectativa de vida da população. FISIOPATOLOGIA DO DIABETES TIPO 2 O diabetes tipo 2 é uma condição complexa caracterizada principalmente pela resistência à insulina nas células periféricas, o que eventualmente se combina com a disfunção progressiva das células beta pancreáticas. Inicialmente, ocorre um aumento "relativo" de insulina, mas essa resposta torna- se insuficiente para controlar os níveis de glicose no sangue ao longo do tempo. Embora prevaleça em adultos obesos com mais de 45 anos, a doença está cada vez mais comum em jovens devido à epidemia de obesidade. A insulina, crucialmente produzida no pâncreas, facilita a entrada da glicose na corrente sanguínea nas células do corpo, onde é convertida em energia ou armazenada. Quando há falta de insulina ou as células não respondem adequadamente a ela, ocorre hiperglicemia, o indicador clínico do diabetes. A deficiência a longo prazo de insulina pode danificar órgãos, levando 2 a complicações graves e até fatais, incluindo doenças cardiovasculares, neuropatia, nefropatia, amputações, problemas oculares e cegueira. Contudo, com um tratamento adequado, essas complicações podem ser prevenidas ou atrasadas. LEGENDA: Funcionamento normal da insulina em um indivíduo sem resistência. (Fonte: HALUCH, Dudu; Emagrecimento e Metabolismo, 2021). O diabetes tipo 2 surge com resistência à insulina e deficiência secretora das células beta. Esses fatores geralmente se desenvolvem juntos, com a resistência à insulina surgindo primeiro e levando à exaustão secretora das células beta. Os pacientes podem ter níveis normais ou altos de insulina, mas ainda assim, é insuficiente para manter os níveis normais de glicose. O início da doença é mais comum em adultos, mas tem aumentado entre jovens. Fatores de risco incluem obesidade, inatividade física, histórico familiar de diabetes, hipertensão, triglicerídeos elevados e outros. A adoção de um estilo de vida mais ocidental, urbanização e fatores ambientais também contribuem para a prevalência crescente do diabetes tipo 2. O diagnóstico é baseado em critérios que incluem níveis elevados de glicose em jejum e após a ingestão de glicose, assim como valores elevados de hemoglobina A1C (HbA1C). CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICOS O diabetes é caracterizado pela hiperglicemia crônica, que a longo prazo causa danos em órgãos e pode levar a descompensações metabólicas agudas. 3 As causas subjacentes incluem deficiência de insulina e/ou resistência à insulina, levando a menor utilização periférica e maior produção hepática de glicose. LEGENDA: Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022). Para confirmar o diagnóstico, dois exames alterados são necessários. Em caso de um exame alterado, a repetição ou outros testes, como glicemia de jejum, hemoglobina glicada ou curva glicêmica, podem ser realizados para confirmar. Exceção é feita para glicemia plasmática randômica acima de 200 mg/dL em pacientes sintomáticos. O teste de tolerância à glicose é um critério sensível: após jejum de 12 horas, uma dose de 100 g de glicose é ingerida e os níveis de glicose no sangue são monitorados. No diabetes, a glicose é mal assimilada, resultando em níveis elevados que persistem. Indivíduos com níveis de glicemia alterados, mas abaixo dos critérios para diabetes, são considerados pré-diabéticos, com risco aumentado para o desenvolvimento da doença. 4 LEGENDA: Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022). GENÉTICA E DIABETES Indivíduos com predisposição genética enfrentam maior risco de desenvolver o diabetes tipo 2 quando expostos ao ganho de peso e falta de atividade física, fatores que levam à resistência à insulina. A hiperglicemia crônica e a hiperlipidemia agravam essa resistência, criando um ciclo vicioso de descompensação metabólica. A influência genética no diabetes tipo 2 é notavelmente mais forte do que no tipo 1, com uma concordância quase completa entre gêmeos idênticos. No entanto, é crucial reconhecer que o estilo de vida também afeta a evolução da doença, com obesidade e sedentarismo acelerando seu desenvolvimento. A herança genética para o diabetes tipo 2 é predominantemente poligênica, envolvendo genes como insulina, PPAR-gama, canal de K+ ATP- sensível e calpaína. Esses genes atuam no desenvolvimento do pâncreas, na mediação dos efeitos da insulina e na secreção da célula beta. Embora os defeitos genéticos subjacentes sejam variados entre os pacientes, o resultado é um fenótipo semelhante. A genética do diabetes tipo 2 é complexa, devido às interações entre variantes genéticas e fatores ambientais, incluindo dieta e estilo de vida. Cerca de 10 loci genéticos já foram associados ao diabetes tipo 2, e variações nesses "diabetogenes" aumentam ligeiramente a probabilidade de desenvolvimento da 5 doença. Por exemplo, variantes do PPAR-gama que substituem um resíduo de Ala por uma Pro na posição 12 estão associadas a um risco moderado, porém significativo, de desenvolver a doença. Voight, B.F. (2010) tem um trabalho onde identificaram cerca de 12 genes associados à predisposição para desenvolver diabetes. OBESIDADE CENTRAL E RESISTÊNCIA À INSULINA A resistência à insulina é o fator fisiopatológico inicial no desenvolvimento do diabetes tipo 2 e, na maioria das vezes, com início anos antes da consolidação da doença. A função da insulina é reduzir a glicemia no estado alimentado, aumentando a captação de glicose pelo músculo e tecido adiposo, inibindo a glicogenólise (quebra do glicogênio) e gliconeogênese (síntese de glicose a partir de outros substratos), além de sinalizar para a síntese de glicogênio (estoque de glicose muscular e hepático), síntese de ácidos graxos no fígado e de triacilglicerol no tecido adiposo. Não menos importante, sua função anti catabólica preservado a massa muscular e evitando que aminoácidos vire energia. Evidências recentes sugerem que, nos tecidos que captam glicose em resposta à insulina (ex.: músculo esquelético), ocorre uma menor incorporação de canais GLUT 4 na superfície celular, resultando em menor entrada de glicose no citoplasma. Também há um defeito na síntese do glicogênio, além de outras alterações bioquímicas. Um mecanismo plausível que explica todos esses fenômenos é a toxicidade dos ácidos graxos livres. Os depósitos de gordura visceral (abdômen e tórax) têm comportamento biológico diferente da gordura mais periférica (quadril e membros). A gordura central é mais lipolítica, e promove maior liberação de ácidos graxos livres na circulação. Estes, por sua vez, são captados e se acumulam em tecidos como o fígado e os músculos. O excesso de ácidos graxos livres dentro da célula seria capaz de alterar o funcionamento de enzimasrelacionadas à transdução do sinal da insulina, diminuindo a eficácia do processo (ex.: em vez de fosforilar resíduos 6 de tirosina, tais enzimas passariam a fosforilar resíduos de serina), resultando em ativação “parcial” dos substratos intracelulares que funcionam como “segundos-mensageiros”. Além de ácidos graxos, o tecido adiposo também libera citocinas inflamatórias na circulação, como o TNF-alfa, por exemplo, exercendo um efeito semelhante ao que acabamos de descrever para os ácidos graxos livres dentro da célula. O tecido adiposo visceral é do tipo naturalmente muito mais resistente à insulina do que o tecido adiposo subcutâneo. As células de gordura visceral são ricas em receptores adrenérgicos (ex: norepinefrina), além de serem mais ricas em receptores de cortisol e na enzima 11-beta-hidroxiesteroide desidrogenase (11-beta-HSD) tipo 1, que ativa localmente a cortisona em cortisol, que também é um hormônio sabidamente contrarregulador da insulina. O tecido adiposo visceral tem, portanto, alta concentração local de cortisol, o que faz com que seu metabolismo esteja sempre desviado para a lipólise. Por isso, as células de tecido adiposo visceral são menores e bastante lipolíticas. Liberam grande quantidade de ácidos graxos livres (AGL) para a circulação portal, que alcança diretamente o fígado. Sabe-se que quanto maior a quantidade de AGL que chega ao fígado, maior será sua resistência à insulina. Não apenas no fígado, mas em todos os órgãos periféricos em que houver depósito de gordura indesejável (ectópicas), haverá grande dificuldade da insulina em exercer a ativação adequada do seu receptor, uma vez que os AGL também são capazes de ativar enzimas estimuladoras das serinoquinases, como a PKC. 7 A idade afeta a proporção de gordura visceral, proteínas inflamatórias e acúmulo de triglicerídeos em idosos. A etnia também desempenha um papel, com grupos como latinos, ameríndios e negros apresentando maior risco de diabetes tipo 2 em relação aos brancos nos EUA. A genética contribui, mostrando que parentes de pessoas com diabetes tipo 2 podem ter resistência à insulina devido a reduções na captação de glicose e aumento de gordura intramuscular. O excesso de calorias, gorduras e carboidratos leva ao armazenamento de triglicerídeos nos adipócitos, resultando em inflamação sistêmica e resistência à insulina quando o estoque é excedido. RESISTÊNCIA À INSULINA E PÂNCREAS A exposição prolongada das células aos ácidos graxos livres devido à lipólise aumentada por resistência à insulina, leva a um quadro de hiperinsulinemia que, com o passar dos anos, provoca a secreção inadequada de insulina, alterando a glicemia em jejum e, finalmente, levando ao diabetes, além do risco aumentado de falência das células β-pancreáticas caso não seja tratado nos primeiros anos. 8 Conforme demonstrado no United Kingdom Prospective Diabetes Study (UKPDS), a deterioração progressiva da célula β é uma característica do diabetes mellitus tipo 2, independentemente do tratamento utilizado. Outro fator que contribuiria para uma menor resposta pancreática ao pico de glicose pós-prandial é a deficiência de incretinas (cuja causa é igualmente desconhecida). Os hormônios incretinas GIP e o peptídeo similar ao glucagon 1 (GLP-1) são liberados e atuam por antecipação para promover a liberação da insulina pelo pâncreas, permitindo que as células se preparem para receber a glicose que está para ser absorvida. Eles também retardam a entrada do quimo no intestino, diminuindo a motilidade gástrica e a secreção ácida. Em pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 2 ou portadores de outras condições que aumentam a resistência à insulina, a produção e a liberação de incretinas pelas células do íleo distal estão reduzidas, eliminando, portanto, esse mecanismo complementar de secreção insulínica, o que contribui para a patogênese do diabetes mellitus tipo 2. Nas fases mais avançadas, ocorre algum grau de destruição das células beta, momento em que costuma ser necessário insulinizar o paciente. A explicação é a seguinte: à medida que a resistência à insulina progride, forçando a célula beta a sintetizar mais insulina, ocorre acúmulo intracelular de uma substância cossintetizada: a amilina. Esta se precipita dentro da célula beta, formando depósitos amiloides patogênicos. 9 Acredita-se que a perda de células β no DM2 ocorra por apoptose e autofagia desregulada. O impacto funcional quantitativo das alterações estruturais nas ilhotas humanas de DM2 ainda não está totalmente definido. A resistência à insulina realimenta a célula β elevando seu ponto de ajuste (mais insulina é secretada em qualquer nível sérico de glicose). Essa adaptação crônica é provavelmente mediada por pequenos incrementos nos níveis de glicose circulante (como aqueles que ocorrem em indivíduos obesos normais tolerantes à glicose), bem como por outros fatores, como níveis elevados de ácidos graxos livres (AGL). Algumas pessoas são menos adaptadas geneticamente para lidar com essa carga de lipídeos ectópicos, sendo mais suscetíveis ao dano celular que leva ao desenvolvimento do diabetes tipo 2. Essa carga genética é o que explica, em partes, o porquê nem todos os indivíduos desenvolvem a doença, mesmo que passem a vida com uma resistência à insulina persistindo. HEMOGLOBINA GLICADA (HbA1c) A hemoglobina glicada é um exame que mede a glicose ligada à hemoglobina nos eritrócitos através de glicação. Diferente da glicemia em jejum, que avalia a resposta aguda à glicose após o jejum, e dos testes de tolerância oral à glicose, que variam em 15 a 20%, a hemoglobina glicada é um marcador mais crônico. Ela se baseia na meia-vida de três meses da hemoglobina, refletindo a glicação nesse período, especialmente nos últimos 30 dias, que predizem 50% dos valores de glicação, com 25% para os 60 dias anteriores e 25% para os 90 dias. A hemoglobina glicada, também chamada de hemoglobina A1C, é uma pequena fração da hemoglobina total que sofre uma reação de glicação não enzimática irreversível devido à hiperglicemia sustentada. Seu valor normal é até 6%, dependendo do método utilizado. A meia-vida da hemoglobina é igual à meia-vida da hemácia, cerca de 120 dias, tornando a dosagem da hemoglobina glicada valiosa para controlar a glicemia a longo prazo. Níveis acima de 7% estão associados a maior risco de complicações crônicas, especialmente microvasculares. 10 A hemoglobina glicada reflete médias de glicemia em um período, mas pode não detectar variações entre hiperglicemia e hipoglicemia. Algumas condições podem interferir na medida da HbA1C. A glicação ocorre quando moléculas de glicose se ligam à hemoglobina nos eritrócitos, tornando a HbA1C um marcador indireto da glicose nos últimos três meses devido à meia-vida da hemoglobina. Vantagens da hemoglobina glicada: • Reflete disglicemias crônicas • Dispensa o jejum em sua coleta • É o teste com menor variabilidade individual (menos de 2% de variabilidade), comparado com 5% de variabilidade na glicemia de jejum (GJ) e 15% de variabilidade no teste de tolerância de glicose oral (TTGO) • Maior reprodutibilidade • Menor variação nos períodos de estresse temporários (p.ex., infecções agudas) • Boa correlação com complicações microvasculares • Reflete a glicação intracelular (dentro das hemácias), enquanto a frutosamina reflete a glicação extracelular (da albumina sérica). 11 DIABETES E COMPLICAÇÕES O diabetes mellitus é fonte de inúmeras complicações sistêmicas, de origem microvascular (retinopatia, nefropatia e neuropatia) e macrovascular, relacionadas com aterosclerose acelerada, que resultam em grande morbidade e mortalidade atribuídas a distúrbios glicêmicos crônicos. O impacto das complicações diabéticas na saúde populacional eindividual é brutal, podendo ser resumido da seguinte maneira: • A retinopatia diabética é a principal causa de cegueira adquirida • A nefropatia diabética é a principal causa de insuficiência renal crônica dialítica • A neuropatia diabética e as complicações vasculares em membros inferiores são a principal causa de amputação não traumática destes membros • A presença de diabetes mellitus descompensado aumenta em 2 a 6 vezes o risco de eventos cardiovasculares. A principal ligação entre diabetes e complicações microvasculares é a hiperglicemia. Nos períodos de hiperglicemia plasmática, então, tem-se maior entrada de glicose, aumentando a glicemia intracelular, o que não acontece em outros tipos celulares nos quais a difusão da glicose é limitada. Ainda que todas as células do organismo estejam em contato direto com o plasma hiperglicêmico, as células renais, retinianas e vasculares são as que mais sofrem, uma vez que 12 o fator determinante de lesão celular é a concentração glicêmica no meio intracelular. Portanto, as complicações microvasculares dependem da intensidade e da duração da hiperglicemia sistêmica que se reflete nos valores de glicemia intracelular. A via do poliol envolve a conversão de glicose em sorbitol, levando ao acúmulo de sorbitol intracelular, causando dano celular osmótico e aumentando o estresse oxidativo. A via da hexosamina resulta na formação de produtos que influenciam a expressão de proteínas, incluindo fatores de crescimento e inibidores da fibrinólise, contribuindo para complicações microvasculares. A formação de produtos finais de glicação avançada (AGE) ocorre através de reações não enzimáticas, afetando proteínas e componentes da matriz, além de interagir com receptores celulares, causando estresse oxidativo. A ativação da proteinoquinase C (PKC) resulta em várias ações que aumentam a permeabilidade vascular, estimulam angiogênese e desencadeiam processos inflamatórios, amplificando o estresse oxidativo. Essas vias compartilham um mecanismo comum de aumento de radicais livres de oxigênio, ligado à produção de superóxido mitocondrial. Além disso, a variabilidade glicêmica intermitente, em contraposição ao estado hiperglicêmico sustentado, é identificada como um fator contribuinte 13 significativo para o estresse oxidativo e complicações, com a hiperglicemia induzindo esse estresse e exacerbando as complicações. As complicações crônicas do diabetes mellitus, sejam elas micro ou macrovasculares, são as principais causas de morbimortalidade relacionadas à doença. Elas também têm um grande impacto socioeconômico pelo comprometimento da produtividade, da qualidade de vida e da sobrevida de pessoas com diabetes. Diversos mecanismos estão envolvidos na patogênese das complicações microvasculares, incluindo fatores genéticos, mas a hiperglicemia crônica é o principal mecanismo. De fato, a hiperglicemia pode contribuir de forma independente, visto que se associa ao mecanismo de estresse oxidativo por meio de ativação da via do poliol, aumento do fluxo da via de hexosamina, acúmulo de produtos finais de glicação avançada (AGE) e pela ativação da via da proteinoquinase C (PKC). Um bom controle glicêmico, associado ao adequado controle da pressão arterial e dos lipídios, é considerado como a principal estratégia para prevenção 14 das complicações diabéticas microvasculares e deve ser objetivado em todas as pessoas que já estejam com diabetes. DIABETES E RISCO CARDIOVASCULAR As doenças do coração e dos vasos sanguíneos, como infartos (infartos do miocárdio) e acidentes vasculares encefálicos, têm papel relevante em mais da metade das mortes nos Estados Unidos. A American Heart Association prevê que em 2030 mais de 40% da população dos Estados Unidos terá doença cardiovascular. A relação entre diabetes e doença cardiovascular é bem estudada e estabelecida na literatura. Classicamente, o estudo de Framingham demonstra que a presença de diabetes mellitus provoca aumento de 2 a 3 vezes no risco de aterosclerose, caracterizando o paciente com diabetes, independentemente da evolução da sua doença de base, como paciente de alto risco cardiovascular. Em uma meta-análise de 102 artigos que avaliou quase 700 mil pessoas, foi examinado como o diabetes está relacionado a riscos aumentados de doenças vasculares, como doença cardíaca coronariana, acidente vascular cerebral (AVC) e mortes por causas vasculares. Notou-se que o diabetes possui uma associação forte e significativa com várias doenças vasculares, diferentemente do colesterol LDL (ou colesterol não-HDL), que está fortemente ligado à doença cardíaca coronariana, mas tem uma relação modesta com o AVC isquêmico e não tem relação com o AVC hemorrágico em estudos observacionais prospectivos. O diabetes parece estar mais fortemente relacionado a ataques cardíacos fatais do que não fatais, sugerindo formas mais graves de lesões coronárias em pessoas com diabetes. Além disso, o diabetes demonstrou ser um fator de risco mais acentuado em grupos com menor risco absoluto de doença vascular, como mulheres, pessoas mais jovens, não fumantes e aquelas com pressão arterial mais baixa. O risco cardiovascular em um paciente com diabetes está totalmente relacionado ao perfil lipídico prejudicado devido a resistência à insulina, porque: 15 A desinibição da lipase hormônio sensível (LHS) dos adipócitos aumenta a lipólise e consequentemente a liberação de triglicerídeos e ácidos graxos livres (AGL) para a circulação e redução na captação de AGL por tecido muscular e adiposo. Ainda, há uma redução na captação de AGL por tecido muscular e adiposo juntamente com a chegada de grande quantidade de AGL circulante no fígado; aumento da lipogênese de novo hepática e síntese hepática de lipoproteínas ricas em triglicerídeos; aumento da síntese hepática e redução na degradação periférica de apoliproteína B; aumento da síntese hepática de LDL; redução na atividade da lipoproteína lipase (LPL) endotelial, com menor metabolização das proteínas ricas em triglicerídeos e acúmulo de quilomícrons e VLDL no plasma, e consequentemente menor síntese de HDL 16 Aumento da atividade da enzima CETP (proteína de transferência do colesterol esterificado), trocando triglicerídeos e colesterol entre as partículas de VLDL, LDL e HDL; menor funcionalidade e menor meia-vida de HDL, pois as moléculas de HDL tornam-se mais ricas em triglicerídeos (após troca via CETP) e perdem a apoliproteína A-1 e, consequentemente, a capacidade funcional de realizar o transporte reverso do colesterol, além de serem mais facilmente captadas pela lipoproteína lipase hepática, passando a sofrer maior degradação Há uma maior concentração de partículas pequenas e densas de LDL, pois o LDL com maior concentração de triglicerídeos é mais facilmente captado pela lipoproteína lipase hepática (LLH), sendo metabolizado em partículas pequenas e densas, mais aterogênicas e mais facilmente oxidadas que as partículas de LDL normais. 17 Devido a todas essas mudanças na cascata de metabolização lipídica, o diabetes mellitus induz a quadro de dislipidemia característico, composto por aumento de triglicerídios, redução de HDL e maior concentração de partículas de LDL pequenas e densas. Consequentemente é mais aterogênico, tendo, por isso, indicação de tratamento mais rigoroso com o uso de estatinas, visando a alvos específicos para essa situação. Além de ampliar o risco cardiovascular, a associação entre hipertensão arterial (HAS) e diabetes mellitus aumenta também o risco de complicações microvasculares. Assim, o controle pressórico em paciente com diabetes tende a ser mais preciso e rigoroso. Da mesma maneira que o controle glicêmico interpretado pela hemoglobina glicada, diversos estudos demonstraram a necessidadede controle pressórico com alvos individualizados, garantindo benefícios ao evitar eventos cardiovasculares, sem promover maior risco secundário a eventos adversos de hipotensão em determinado grupo de pacientes. Assim, atualmente a ADA estipula que a meta pressórica de pressão arterial (PA) seja inferior a 140 mmHg de pressão sistólica e 90 mmHg de pressão diastólica de maneira geral. Pacientes jovens com maior tolerância a pressões mais baixas podem ter alvo de pressão mais rigoroso, inferior a 130x80 mmHg. A SBD sugere que o tratamento anti-hipertensivo medicamentoso só seja instituído para pacientes com diabetes com PA acima de 140x90 mmHg. 18 DIABETES E NEFROPATIA A doença renal do diabetes (DRD) ou nefropatia diabética é uma das mais frequentes complicações microvasculares do diabetes mellitus (DM), acometendo entre 25 e 40% dos pacientes, e geralmente começa a se manifestar após 5 a 10 anos do início da doença. A doença renal induzida pelo diabetes mellitus é caracterizada por alterações progressivas na função e arquitetura dos rins, que acabam levando, em muitos casos, à perda completa da função renal. A importância dessa complicação pode ser demonstrada por vários aspectos, como a maior mortalidade do portador de nefropatia diabética, quando comparado a outros pacientes sem nefropatia. A nefropatia diabética é reconhecidamente um fator de risco independente para doenças cardiovasculares. A função renal que nos interessa para essa discussão, é a reabsorção de solutos, como glicose e aminoácidos. A maior parte do transporte renal é mediada por proteínas de membrana e exibe saturação, especificidade e competição. Quando a concentração de glicose no sangue se torna excessiva, como ocorre no diabetes mellitus, a glicose é filtrada mais rapidamente do que os transportadores podem a reabsorver. Esses transportadores se tornam saturados e são incapazes de reabsorver toda a glicose que flui ao longo do túbulo. Como resultado, parte da glicose não é reabsorvida e é excretada na urina. 19 O principal fator de risco para o desenvolvimento da DRD é o controle glicêmico inadequado, conforme demonstrado no UKPDS, no DDCT e em outros grandes estudos. A duração do DM também se constitui em fator de risco para DRD, a qual, entretanto, raramente surge após 30 anos de doença. A hipertensão arterial (HAS) também tem importância fundamental no surgimento de microalbuminúria e parece ser o fator mais importante para a progressão da nefropatia clínica e o declínio da TFG (taxa de filtração glomerular). Estes pacientes costumam ser assintomáticos do ponto de vista renal, porém, já possuem uma glomerulopatia avançada que leva ao estado de rins terminais em menos de sete anos. As intervenções terapêuticas devem ser feitas nas fases mais precoces, uma vez que são bem menos eficazes quando já há proteinúria significativa ou insuficiência renal. O grande avanço na abordagem precoce está na identificação e tratamento da denominada microalbuminúria. Esta é definida como uma pequena quantidade de albumina eliminada na urina, incapaz de ser mensurada pelos métodos convencionais, porém acima dos valores normais. Considera-se microalbuminúria a presença de 30-300mg albumina na urina de 24h. Esse estágio é conhecido como nefropatia incipiente. A sua detecção pode ser feita de modo confiável em uma amostra aleatória de urina do paciente, medindo-se a relação albumina/creatinina. A microalbuminúria é uma fase precoce da nefropatia diabética que, se for tratada, pode prevenir a evolução para nefropatia manifesta (proteinúria franca). Os fatores determinantes da progressão da fase de microalbuminúria para a fase 20 da proteinúria franca são a hiperglicemia e a hipertensão arterial, como claramente constatado nos estudos DCCT para o DM tipo 1 e UKPDS para o DM tipo 2. Sem intervenção específica, 20 a 40% das pessoas com diabetes tipo 2 com microalbuminúria persistente tenderão a evoluir para macroalbuminúria ou albuminúria intensamente aumentada, em um período de 10 a 15 anos. Após o desenvolvimento de albuminúria persistente, a excreção urinária de albumina (EUA) aumenta em aproximadamente 20% ao ano. Tipicamente, sem tratamento, a taxa de filtração glomerular (TFG) começa a cair quando a EUA atinge cerca de 100 μg/min, declinando a uma velocidade em torno de 10 ml/min/1,73 m2. DIABETES E RETINOPATIA A visão é a tradução da luz refletida em uma imagem mental. Os fotorreceptores da retina transduzem energia luminosa em sinais elétricos, os quais são enviados ao córtex visual para processamento. A energia luminosa é convertida em energia elétrica nos fotorreceptores da retina. A retinopatia diabética é uma complicação microvascular frequente em indivíduos com diabetes, causada por alterações progressivas na microvasculatura da retina, que levam a áreas de má perfusão na retina, maior permeabilidade vascular, com exsudação (fluido proveniente de uma ferida) para a retina e proliferação patológica de neovasos retinianos, podendo causar importante perda visual ou até cegueira (primeira causa mundial de cegueira adquirida). A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira em indivíduos entre 20-74 anos nos países desenvolvidos, ocorrendo em 60% dos pacientes com diabetes tipo 2. Alguns já apresentam retinopatia quando do seu diagnóstico, devido ao atraso no reconhecimento do DM tipo 2, que pode variar em média de 4-7 anos. Estima-se que na pessoa com diabetes tipo 2 esta complicação apareça após cinco a oito anos do início da hiperglicemia, porém, há relatos de retinopatia diabética em pacientes com mera intolerância à glicose. 21 22 A Retinopatia Diabética (RD) é classificada em RD não proliferativa, RD proliferativa e maculopatia diabética. A RD não proliferativa é dividida em formas muito leve, leve, moderada e grave, esta última chamada de RD pré-proliferativa. A avaliação da retinopatia diabética inclui a medida da glicemia de jejum e da hemoglobina glicada (HbA1c). A nefropatia diabética, evidenciada por proteinúria e elevação dos níveis de creatinina e ureia, também é um excelente preditor de RD. Ambas as doenças são causadas por microangiopatia diabética, e a presença e gravidade de uma reflete na outra. O primeiro evento histológico no desenvolvimento da retinopatia diabética é a perda de pericitos (células que servem de suporte para o endotélio vascular da retina). Posteriormente, passa a haver espessamento da membrana basal do endotélio vascular, com consequente redução de fluxo sanguíneo para a retina. As modificações da barreira endotelial (mais frágil, membrana basal mais espessa, com conteúdo proteico diferente) levam a um aumento da permeabilidade vascular, culminando em extravasamento de proteínas e conteúdo lipídico para a retina, formando os exsudatos duros ou, até mesmo, extravasamento de sangue causando as hemorragias retinianas. Todos esses extravasamentos podem causar edema de retina. Se essas lesões se localizarem diretamente na mácula, pode ocorrer perda grave de visão. Caso os exsudatos e o edema atinjam a fóvea, esta perda passa a ser moderada. 23 DIABETES E NEUROPATIA A neuropatia diabética pode acometer nervos somáticos ou autonômicos, únicos ou múltiplos. Dessa maneira, manifesta-se de formas variadas. Sabe-se hoje que a síndrome metabólica e os estados que antecedem o diabetes, como glicemia de jejum alterada ou intolerância à glicose, já podem cursar com alterações que, a depender dos critérios diagnósticos adotados, já podem se caracterizar como neuropatia diabética. 24 Os mecanismos da neuropatia diabética (PND) variam entre os dois tipos de diabetes, com ênfase nos efeitos metabólicos da hiperglicemia crônica, estresse oxidativo e dislipidemia. A hiperglicemiadesencadeia lesão e disfunção neuroaxonal, impactando a célula nervosa. O acúmulo intracelular de glicose leva a fluxos metabólicos aumentados, como a via poliol e hexosamina, resultando em estresse oxidativo e inflamação. Os produtos finais de glicação avançada (AGE) e a ligação desses produtos a receptores extracelulares (RAGE) iniciam uma cascata inflamatória, prejudicando a função das proteínas biológicas. Além disso, a sinalização da insulina é afetada no DM2, resultando em resistência à insulina neuronal e disfunção mitocondrial, contribuindo para o agravamento da PND. A dislipidemia, especialmente no DM2, desempenha um papel relevante, visto que os ácidos graxos livres (AGL) causam dano às células de Schwann e desencadeiam resposta inflamatória. As LDL modificadas ligam-se a receptores extracelulares, levando ao estresse oxidativo. A sinalização da insulina 25 comprometida também contribui para a disfunção das fibras nervosas e o agravamento da PND. As neuropatias estão entre as complicações crônicas mais comuns do diabetes mellitus (DM) e afetam tanto o sistema nervoso (SN) somático, como o SN autônomo. As neuropatias autonômicas diabéticas resultam em comprometimento retiniano, cardiovascular, gastrintestinal, geniturinário e de membros inferiores. A exemplo das neuropatias diabéticas periféricas, elas podem resultar em elevada morbidade e comprometimento da qualidade de vida, além de aumento de mortalidade cardiovascular. PÉ DIABÉTICO O pé diabético representa uma das complicações mais devastadoras do diabetes mellitus e envolve infecção, ulceração e/ou destruição de tecidos profundos, associadas com anormalidades neurológicas e graus variados de doença arterial periférica. O desenvolvimento do pé diabético resulta da integração da neuropatia com a vasculopatia com ou sem a presença de infecção. A incidência de complicações iniciais, como úlceras, nos pés de pacientes com diabetes varia de 5 a 10% da população diabética. Dos indivíduos com úlcera, cerca de 1% necessita de amputação do membro acometido, 26 transformando o diabetes na principal causa de amputação não traumática de membros inferiores em adultos no mundo. A grande maioria das amputações, cerca de 80% dos casos, é precedida por úlcera. CONCLUSÃO Portanto, essa doença vai muito além do consumo de carboidratos. Um dos principais fatores é a obesidade central que pode levar à resistência à insulina, prejudicando a captação de glicose pelos órgãos e aumentando os níveis de glicose no sangue. Isso pode resultar em hiperglicemia, um fator chave na diabetes. Pontos principais: • Impacto na Captação de Glicose: A resistência à insulina dificulta a captação de glicose pelo músculo, contribuindo ainda mais para o aumento dos níveis de glicemia. • Lipólise e Acúmulo de Ácidos Graxos: A resistência à insulina aumenta a lipólise no tecido adiposo, liberando ácidos graxos no sangue e podendo acumulá-los nos órgãos. Isso também pode levar à inflamação. Além disso, com o excesso de lipólise, há o excesso de transporte de glicerol proveniente dos triglicerídeos (3 moléculas de ácidos graxos + 1 glicerol) que também irá formar glicose no fígado, contribuindo para o aumento da glicemia. 27 • Excesso de Insulina e Funcionamento Pancreático: O pâncreas trabalha para produzir mais insulina para reduzir os níveis elevados de glicose. Com o tempo, esse esforço excessivo pode levar ao declínio da função pancreática. • Desregulação Metabólica: A degradação de proteínas teciduais e o metabolismo anormal levam ao aumento de gliconeogênese e hiperglicemia. • Sensação de Fome e Perda Muscular: A baixa utilização da glicose pode levar o cérebro a interpretar inanição, causando polifagia (fome excessiva) e perda de massa muscular. • Hiperglicemia Crônica: Com o catabolismo estimulado e a predominação da beta-oxidação em relação à glicólise, a hiperglicemia crônica surge, afetando diversos tecidos, como o fígado e o tecido adiposo. Em conclusão, o tratamento do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é um desafio complexo que envolve várias abordagens para otimizar o controle glicêmico e reduzir o risco de complicações crônicas. A dieta, atividade física e educação são pilares fundamentais nesse tratamento. Para pacientes com DM2, é crucial personalizar as metas glicêmicas e terapias hipoglicemiantes, priorizando não apenas o controle da glicose (HbA1c