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Apostila I de Filosofia da 2º série: Filosofia medieval. Patrística - A matriz platônica de apoio à fé No período medieval, a partir do século IV os primeiros padres da igreja empenharam-se na elaboração de diversos textos sobre a revelação e a fé cristãs, cujo conjunto ficou conhecido como patrística (por terem sido escritos principalmente por esses grandes padres da igreja). Uma das principais correntes da filosofia patrística, inspirada na filosofia greco-romana, tentou munir a fé de argumentos racionais, ou seja, buscou a conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão. Seu principal expoente foi Agostinho, posteriormente consagrado santo pela igreja Católica. Aureliano Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste e faleceu em Hipona, ambas cidades da província romana da Numídia, na África, e que hoje pertencem à Argélia. Nessa última cidade viria a ocupar o cargo de bispo da igreja Católica. Professor de retórica em escolas romanas, Agostinho despertou para a filosofia com a leitura de Cícero (106-43 a.C.), orador e político romano que se caracterizou por seu ecletismo, tendência filosófica que buscava um acordo entre os ensinamentos de distintas escolas (platônica, aristotélica, hedonista etc.). Superioridade da alma - Em sua obra, agostinho argumenta em favor da supremacia do espírito sobre o corpo (a matéria). Para ele, a alma teria sido criada por Deus para reinar sobre o corpo, dirigindo-o para a prática do bem. O pecador, entretanto, utilizando-se do livre-arbítrio (liberdade de escolha), costumaria inverter essa relação, fazendo o corpo assumir o governo da alma. Provocaria, com isso, submissão do espírito à matéria, o que seria, para Agostinho, equivalente à subordinação do eterno ao passageiro, da essência à aparência. A verdadeira liberdade, para agostinho, estaria na harmonia das ações humanas com a vontade de Deus e seria obtida pelo caminho crescente, que vai do mundo exterior dos sentidos ao mundo interior do espírito. Ser livre é servir a Deus, diz o filósofo, pois o prazer de pecar é a escravidão. Ser livre é fazer o que se deve, inspirado no amor verdadeiro a Deus. Boas obras ou graça divina - Segundo o filósofo, o ser humano que trilha a via do pecado só consegue retornar aos caminhos de Deus e da salvação mediante a combinação de seu esforço pessoal de vontade e a concessão, imprescindível, da graça divina. Sem a graça de Deus, o ser humano nada pode conseguir. Essa graça, no entanto, seria concedida apenas aos predestinados à salvação. A questão da graça, como é colocada pelo filósofo, marcou profundamente o pensamento medieval cristão. E a doutrina da predestinação à salvação foi posteriormente adotada por alguns ramos da teologia protestante (reforma Protestante). Na mesma época de Agostinho, outro teólogo – Pelágio –, afirmava que a boa vontade e as boas obras humanas seriam suficientes para a salvação individual. Seus ensinamentos constituíram a doutrina do pelagianismo, contra a qual se colocou Agostinho. No concílio de Cartago do ano de 417, o papa Zózimo condenou o pelagianismo como heresia e adotou a concepção agostiniana de necessidade da graça divina, doada por Deus aos seus eleitos. A condenação do pelagianismo explica-se pelo fato de que conservava a noção grega de autonomia da vida moral humana, isto é, a noção de que o indivíduo pode salvar-se por si só (isto é, sendo bom e fazendo boas obras), sem a necessidade da ajuda divina. Essa noção chocava-se com a ideia de submissão total do ser humano ao Deus cristão, defendida pela igreja. Liberdade e pecado - Outro aspecto fundamental da filosofia agostiniana é o entendimento de que a vontade não é uma função específica ligada ao intelecto, conforme diziam os gregos: ela é um impulso que nos inclina, desde nosso nascimento, às paixões pecaminosas. Agostinho reiterava, assim, as palavras do apóstolo Paulo: “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, não sou quem age, mas o pecado que habita em mim” (romanos, cap. 7, vers. 19-20). Portanto, para o filósofo medieval, a liberdade humana derivaria de uma vontade viciada que alimenta o pecado – não da razão que tende a discernir o que é bom do que é mau. Agostinho contrapõe-se, dessa forma, ao intelectualismo moral, que teve sua expressão máxima em Sócrates (recorde que, no pensamento socrático-platônico, há uma hegemonia da alma racional e que a pessoa pode chegar ao bem por meio da ascensão dialética, isto é, pela razão e o conhecimento). Por isso, para agostinho, o ser humano não pode ser autônomo, isto é, deliberar livremente sobre sua conduta, pois sempre estará inclinado ao mal e a praticar o pecado. Somente com a graça divina ele poderá se salvar. Influência helenística - Vemos, assim, que o pensamento agostiniano reflete, em grande medida, os principais passos de sua trajetória intelectual anterior à conversão ao catolicismo, quando sofreu a influência do pensamento helenístico. Do maniqueísmo, o filósofo herdou uma concepção dualista no âmbito moral, simbolizada pela luta entre o bem e o mal, a luz e as trevas, a alma e o corpo. Nesse sentido, dizia que o ser humano tem uma inclinação natural para o mal, para os vícios, para o pecado. Insistia em que já nascemos pecadores (pecado original) e somente um esforço consciente pode nos fazer superar essa deficiência “natural”. Considerando o mal como o afastamento de Deus, defendia a necessidade de uma intensa educação religiosa, com a finalidade de reduzir essa distância. Do ceticismo, ficou a permanente desconfiança nos dados dos sentidos, isto é, no conhecimento sensorial, que nos apresenta uma multidão de seres mutáveis, flutuantes e transitórios. Do platonismo, agostinho assimilou a concepção de que a verdade, como conhecimento eterno, deveria ser buscada intelectualmente no “mundo das ideias”. Por isso defendeu a via do autoconhecimento, o caminho da interioridade, como instrumento legítimo para a busca da verdade. Assim, somente o íntimo de nossa alma, iluminada por Deus, poderia atingir a verdade das coisas. Da mesma forma que os olhos do corpo necessitam da luz do sol para enxergar os objetos do mundo sensível, para ele, os “olhos da alma” necessitam da luz divina para visualizar as verdades eternas da sabedoria. Escolástica - A matriz aristotélica até Deus Voltando ao contexto histórico, no século VIII, Carlos Magno, rei dos francos coroado imperador do ocidente em 800 pelo papa Leão III, organizou o ensino e fundou escolas ligadas às instituições católicas. Com isso, a cultura greco-romana, em boa parte guardada nos mosteiros, voltou a ser mais divulgada, passando a ter influência marcante nas reflexões da época. Era o período da renascença carolíngia. Com o ambiente cultural dessas escolas e o surgimento posterior das primeiras universidades (a partir do século XI), desenvolveu-se uma produção filosófico-teológica denominada escolástica (palavra derivada de escola). A escolástica não abandonou, em um primeiro momento, a filosofia platônica, especialmente o neoplatonismo. Mas, a partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico, marcando-o definitivamente. A filosofia de Tomás de Aquino (1226-1274) – o tomismo – também teve o objetivo claro de não contrariar a fé, empenhando-se em organizar um conjunto de argumentos para demonstrar e defender as revelações do cristianismo. Tomás de Aquino reviveu em grande parte o pensamento aristotélico em busca de argumentos que explicassem os principais aspectos da fé cristã. Assim, fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da solução dos problemas teológicos que enfrentava, ao mesmo tempo em que transformou essa filosofia em uma síntese original. A relação entre fé e razão - Muitos questionam se na filosofia tomista existe ou não uma razão separada e autônoma em relação à fé, se existeuma filosofia que se desvincula da teologia. Para Tomás de Aquino, o homem é racional e recebeu essa capacidade do próprio Criador. Dessa forma, a inteligência humana é um dom de Deus e deve ser colocada em prática. Diferente de Agostinho, para Tomás de Aquino, o homem pode e deve pensar por conta própria, inclusive podendo alcançar verdades sobre o mundo utilizando somente sua razão natural, sem a necessidade do auxílio de Deus. A filosofia tem sua autonomia, mas não pode dizer tudo sobre o que está investigando, isto é, ela não é capaz de exaurir o problema ou conhecer tudo o que se tem para ser conhecido. Provas da existência de Deus Outro aspecto importante da filosofia tomista são suas provas da existência de Deus. Em um de seus mais famosos livros, a Suma Teológica, Tomás de Aquino propõe cinco vias como provas, fundamentadas na existência do mundo e na experiência (ou seja, são provas a posteriori). A ideia básica é a de que, se existe o efeito (o mundo), existe a causa (um ser transcendente, Deus). Vejamos: O primeiro motor (1a prova) – tudo aquilo que se move é movido por outro ser. Esse outro ser, por sua vez, para se mover necessita também ser movido por outro ser, e assim sucessivamente. Se não houvesse um primeiro ser movente, cairíamos em um processo indefinido. Logo, conclui Tomás de Aquino, é necessário chegar a um primeiro ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus; A causa eficiente (2a prova) – todas as coisas existentes no mundo não possuem em si a causa eficiente de suas existências. Devem ser consideradas efeitos de alguma causa. Tomás de Aquino afirma ser impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes. Logo, é necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos. Essa causa primeira é Deus; Ser necessário e ser contingente (3a prova) – esse argumento, uma variante do segundo, afirma que todo ser contingente, do mesmo modo que existe, pode deixar de existir. Ora, se todas as coisas que existem podem deixar de ser, então em algum momento nada existiu. Mas, se assim fosse, também agora nada existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em função de algo que já existia. Então é preciso admitir que há um ser que sempre existiu, um ser absolutamente necessário, que não tenha fora de si a causa de sua existência, mas, ao contrário, que seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. Esse ser necessário é Deus; Os graus de perfeição (4a prova) – em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar que há graus diversos de perfeição. Assim, estabelecemos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira etc. Ora, se uma coisa possui “mais” ou “menos” determinada qualidade positiva, isso supõe que deva existir um ser com o máximo dessa qualidade, no nível da perfeição. Devemos admitir, então, que existe um ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade, sendo, portanto, um ser máximo e pleno. Esse ser é Deus; A finalidade do ser (5a prova) – todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, tal como a flecha orientada pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse ser é Deus.