Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

TEORIA GERAL DOS 
CONTRATOS
UNIASSELVI-PÓS
Autoria: Gabriela Wolff
Indaial - 2019
1ª Edição
CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI
Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito
Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC
Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090
Reitor: Prof. Hermínio Kloch
Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol
Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: 
Carlos Fabiano Fistarol
Ilana Gunilda Gerber Cavichioli
Jóice Gadotti Consatti
Norberto Siegel
Julia dos Santos
Ariana Monique Dalri
Marcelo Bucci
Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais
Diagramação e Capa: 
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Copyright © UNIASSELVI 2019
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri
 UNIASSELVI – Indaial.
W855t
 Wolff, Gabriela
 Teoria geral dos contratos. / Gabriela Wolff. – Indaial: UNIAS-
SELVI, 2019.
 106 p.; il.
 ISBN 978-85-7141-382-5
 ISBN Digital 978-85-7141-383-2
1.Contratos. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.
CDD 346.8102
Impresso por:
Sumário
APRESENTAÇÃO ............................................................................5
CAPÍTULO 1
Teoria Geral dos Contratos: Fundamentos Elementares ......7
CAPÍTULO 2
Desenvolvimento Contratual: da Forma à
Extinção dos Contratos ............................................................41
CAPÍTULO 3
Das Espécies de Contratos .......................................................69
APRESENTAÇÃO
O Direito enquanto ciência apresenta sua base no desenvolvimento da 
racionalidade humana. A base de toda a Teoria Geral dos Contratos possui 
seu fundamento último nos autores Hobbes, Locke e Rousseau, criadores 
do Contratualismo Moderno, movimento que permitiu aos seres humanos o 
desenvolvimento de suas capacidades sociais através do nascimento das 
instituições modernas.
Embora muito se estude a natureza intrínseca da Instituição Estado como 
a grande e complexa instituição político-jurídica, na qual todos nós de alguma 
maneira nos submetemos a sua série de obrigações de natureza contratual em 
função na nossa própria manifestação de vontade, são as instituições modernas 
que dão impulso para o desenvolvimento da economia. São por elas que se 
assume muitas vezes o risco de toda e qualquer natureza empreendedora. 
Quem assume esses riscos da atividade econômica empreendedora são as 
pessoas, porque sem elas, não há negócio jurídico a ponto de gerar obrigações 
contratuais. Essas pessoas, no plano jurídico, podem ser de dois tipos: as pessoas 
físicas, identificadas como cada ser individual com um registro de capacidade 
civil e as pessoas jurídicas, que seriam, de forma geral, mas não exclusiva, a 
identificação das empresas, para que elas também em sua atividade econômica 
sejam capazes de contrair obrigações civis. 
A liberdade concedida às pessoas, através do princípio da autonomia da 
vontade, tem função essencial para o empreendedorismo e o fomento da atividade 
econômica, já que a natureza da obrigação contratual, seja ela qual for, tem como 
objetivo ser a preservação da própria liberdade, mas isso também não significa 
que seja irrestrita a qualquer objeto, tendo em vista que a ordem pública deve ser 
preservada. 
Assim, há limitações quanto à preservação do interesse público em razão 
da autonomia da vontade. O ordenamento jurídico brasileiro prevê, dentre outros 
limitadores, que todo contrato, obrigatoriamente, deve ter alguma função social ou 
então o objeto dele deve ser lícito, por exemplo. 
Essa restrição à autonomia da vontade (liberdade) vem de um processo 
histórico que possibilita a proibição de contratos que ofendam a dignidade da 
pessoa humana, como a automutilação em razão de dívida contratual utilizada na 
Idade Média (muito conhecida pela novela “O Mercador de Veneza”, de William 
Shakespeare), qualquer tipo de escravidão, ou em exemplos práticos e atuais, em 
que um contrato com alguma obrigação atinja o direito de terceiros ou desequilibre 
as partes contratuais. 
No primeiro capítulo serão estudados os elementos essenciais da Teoria 
Geral dos Contratos, em que, além de abordar o método e a técnica utilizada 
no capítulo, também estudaremos a composição da teoria. Serão estudados 
neste capítulo: a função dos contratos, sua formação e correlação com o direito 
obrigacional, seus conceitos e formas. Conseguinte, os principais princípios que 
norteiam o direito contratual e obrigacional, sua importância para a matéria e, por 
fim, as características dos tipos de contratos.
O segundo capítulo focará no desenvolvimento contratual, em que 
conheceremos os elementos necessários para a formação da relação contratual, 
os elementos de execução e alteração contratual, além dos elementos de extinção 
e dissolução dos contratos.
No terceiro capítulo, o foco será o estudo das principais espécies de 
contratos, suas características e definições, a título de exemplo, estudaremos 
as aplicações do contrato de compra e venda, suas características, obrigações 
legais, forma etc. 
Ao final de cada capítulo, as questões objetivas têm como propósito a melhor 
compreensão e fixação do conteúdo para auxiliar na didática do conhecimento. 
Bons estudos!
CAPÍTULO 1
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: 
FUNDAMENTOS ELEMENTARES
A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 Conhecer os elementos fundamentais da Teoria Geral dos Contratos. 
 Analisar a natureza jurídica dos contratos.
8
 Teoria Geral dos Contratos
9
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
1 CONTEXTUALIZAÇÃO
O contrato não existe sem deveres e obrigações envolvidos na negociação, 
qualquer que seja o seu objeto. Em linhas gerais, pode-se defi nir como um 
instrumento que registra os deveres e as obrigações entre as partes, devendo 
exercer e garantir uma série de princípios que norteiam qualquer tipo de relação 
obrigacional em prol da execução deste acordo. Conforme veremos a seguir, 
existem diversos tipos de contratos e, consequentemente, regramentos para cada 
um deles. 
Neste capítulo serão apresentadas a teoria e a função dos contratos, tendo 
por base a Teoria da Escada Ponteana, elaborada por Fábio Tartuce (2017), com 
base nos escritos do grande civilista Pontes de Miranda, gerando assim a visão 
sobre os quesitos de validade e efi cácia, os princípios contratuais, que dispõem 
sobre a autonomia, o consensualismo e, principalmente, a boa-fé, que regem a 
maior parte da teoria sobre contratos e, por fi m, a classifi cação dos contratos, que 
explanam as formas em que eles podem ser trabalhados. 
Os contratos têm como parâmetro o Código Civil (CC) vigente, Lei nº 10.406, 
de 10 de janeiro de 2002, juntamente aos doutrinadores civilistas que dispõem 
sobre eles. 
2 FONTES DAS OBRIGAÇÕES: 
FUNÇÕES E TRANSFORMAÇÕES DA 
TEORIA DOS CONTRATOS
Na Teoria Geral dos Contratos, busca-se compreender a força de propulsão 
ou causa, a qual denomina-se fonte das obrigações contratuais. O direito dos 
contratos trata de uma das fontes das obrigações: o contrato. Desta forma, dá-se 
início aos contratos e aos seus desdobramentos.
A fonte das obrigações contratuais “é o fato jurídico que dará origem aos 
direitos subjetivos que concretizam as normas de direito e impulsionam a criação 
da relação jurídica contratual” (DINIZ, 2015. p. 3).
O fato jurídico para o direito contratual, em linhas gerais, é todo 
ato jurídico em sentido amplo, ou seja, todo fato natural ou 
humano, que produz juridicamente algum efeito civil, seja ele 
extintivo, modifi cativo ou constitutivo, que a doutrina moderna 
denomina atualmente como negócio jurídico (GAGLIANO, 
2017, p. 128). 
10
 Teoria Geral dos Contratos
Assim, a defi nição de negócio jurídico propriamente qualifi cado que nos 
interessa ao estudo de contratos “é a declaração de vontade destinada a produzir 
efeitosjurídicos desejados pelos agentes”, dependendo, então, da vontade 
humana e da lei (MELLO, 2017, p. 33). 
Neste sentido, a doutrina explica o surgimento da criação jurídica contratual, 
porque é imprescindível ao contrato um fato humano decorrente de lei, que o 
disciplina, reconhece, sanciona e garante. “A vontade humana é uma fonte 
mediata, enquanto a lei é uma fonte imediata, pois só ela produz efi cácia ao fato 
humano” (DINIZ, 2015, p. 4).
No sistema jurídico brasileiro, “não basta apenas um mero acordo de 
vontades para que o contrato seja sancionado e garantido, também dependerá 
de sua previsão legal, pois a lei é que garantirá a efi cácia de qualquer negócio 
jurídico” (DINIZ, 2015, p. 4-5).
Esse conceito de negócio jurídico, aplicado em tempos atuais, vem de um 
histórico de construção do pensamento com fortes infl uências Kantianas na Teoria 
Geral dos Contratos, com a necessidade capitalista de inovação dos acordos, que 
levaram a evidenciar a liberdade contratual como consequência da autonomia da 
vontade e, por conseguinte, não colocando o indivíduo como o simples fi m em si 
mesmo, deixando-o em posição social (COELHO, 2012). 
Assim, os negócios jurídicos produzem direitos subjetivos: 
Os direitos subjetivos então, antes invioláveis, passam a ser 
entendidos através de sua função social e a vontade que cria 
direitos e deveres passa a ser instrumento para o interesse 
social, além disso, temos ainda a substituição do contrato 
como negócio jurídico independente do contrato social (DINIZ, 
2015, p. 5).
A partir dessa prévia recapitulação do direito das obrigações, que são 
as fontes e as origens dos contratos, nosso estudo caracterizará o contrato 
abrangendo todos os negócios jurídicos resultantes de acordos de vontades: 
unilateral, bilateral ou multilateral (também referenciado como plurilateral).
2.1 CONCEITO E ELEMENTOS 
ESSENCIAIS
Para uma melhor compreensão, antes de entrarmos a fundo nos aspectos 
específi cos dos contratos, precisamos conceituá-lo. Os doutrinadores geralmente 
11
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
chegam num consenso através da conceituação clássica de que um contrato é um 
acordo de vontades, entre duas ou mais partes, que a partir dele, cria, modifi ca ou 
extingue relações jurídicas. 
Para fi ns de registro, há divergência na doutrina nessa defi nição, como 
a questão de o contrato não poder ser unilateral, o que na prática comercial é 
comum atualmente. Quanto a essa divergência: 
Certas tecnologias consideram descabido operacionalizar-
se, hoje em dia, com um conceito unitário desse tipo. Para 
elas, não é correta a reunião numa única categoria conceitual 
de relações jurídicas tão díspares, como as derivadas 
dos seguros, fornecimentos de energia elétrica, locações 
residenciais e empresariais, ao lado das decorrentes de uma 
compra e venda ou empreitada detalhadamente negociadas 
entre as partes (COELHO, 2012, p. 55).
Na ordem jurídica brasileira, quem melhor defi ne contratos de 
forma simples e sem rodeios é Pablo Stolze Gagliano. Para ele, “um 
negócio jurídico, por meio do qual as partes declarantes, limitadas 
pelos princípios da função social e da boa-fé objetiva, autodisciplinam 
os efeitos patrimoniais que pretendem atingir, segundo a autonomia 
das suas próprias vontades” (GAGLIANO, 2017, p. 385).
Traremos exemplos das duas correntes, mas para fi ns gerais deste 
estudo e também mais comuns de contratos na prática jurídica, fi xa-
se a defi nição de Gagliano, já que no Brasil os contratos são restritos 
a uma série de princípios, como função social e boa-fé objetiva, para 
atender sua função social. 
Assim, de uma forma geral, tem-se que o contrato é um 
instrumento que repousa sobre a vontade das partes reconhecida em 
norma jurídica, permitindo às partes conduzirem, uma em face da outra, 
a seu modo, seus interesses, podendo constituir, modifi car ou extinguir 
vínculos jurídicos de caráter patrimonial, permitindo a estes sujeitos de 
direito autorregulamentarem seus interesses, dentro dos limites legais. 
O contrato é um 
instrumento que 
repousa sobre a 
vontade das partes 
reconhecida em 
norma jurídica, 
permitindo às 
partes conduzirem, 
uma em face da 
outra, a seu modo, 
seus interesses, 
podendo constituir, 
modifi car ou extinguir 
vínculos jurídicos de 
caráter patrimonial, 
permitindo a estes 
sujeitos de direito 
autorregulamentarem 
seus interesses, 
dentro dos limites 
legais.
12
 Teoria Geral dos Contratos
2.2 REQUISITOS DE VALIDADE DO 
CONTRATO
Para os contratos terem validade, eles necessariamente precisam ter 
elementos estruturantes, que são essenciais para a sua constituição e validade 
na esfera jurídica, sem eles não há como produzirem efeitos. 
Quem defi ne esses elementos estruturantes é o Código Civil, mas antes de 
estudarmos esses elementos de forma específi ca, é necessário que essa análise 
dos requisitos de validade seja feita de forma “negativa”, o que signifi ca que tudo 
que não for proibido, ou seja, causa de nulidade ou anulabilidade do negócio 
jurídico, é permitido. 
O Código Civil não traz consigo todas as permissões, o que 
seria impossível, ele traz de forma restritiva as causas de nulidades 
e anulabilidades. Assim, nos seus arts. 166 e 167, ele apresenta as 
causas de nulidades e no art. 171 as causas de anulabilidade. Sendo 
elas: 
Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando:
I - celebrado por pessoa absolutamente incapaz;
II - for ilícito, impossível ou indeterminável o seu objeto;
III - o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito;
IV - não revestir a forma prescrita em lei;
V - for preterida alguma solenidade que a lei considere 
essencial para a sua validade;
VI - tiver por objetivo fraudar lei imperativa;
VII - a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, 
sem cominar sanção.
Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o 
que se dissimulou, se válido for na substância e na forma.
§ 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando:
I - aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas 
daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem;
II - contiverem declaração, confi ssão, condição ou cláusula não 
verdadeira;
III - os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós-
datados.
§ 2º Ressalvam-se os direitos de terceiros de boa-fé em face 
dos contraentes do negócio jurídico simulado.
[...]
Art. 171. Além dos casos expressamente declarados na lei, é 
anulável o negócio jurídico:
I - por incapacidade relativa do agente;
II - por vício resultante de erro, dolo, coação, estado de perigo, 
lesão ou fraude contra credores (BRASIL, 2002).
13
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
A forma mais efi ciente de entendermos a diferença entre nulidade e 
anulabilidade é justamente comparando um conceito com o outro. A “nulidade” 
é quando, por conta de um vício insanável, seus efeitos retroagem desde a sua 
criação; enquanto a “anulabilidade” poderá ser uma causa de anulação dos 
efeitos, desde que sejam observados os elementos subjetivos que envolvem o 
caso em concreto. 
2.3 REQUISITOS OBJETIVOS DOS 
NEGÓCIOS JURÍDICOS
No que se refere à desconformidade com o ordenamento jurídico, as 
invalidades dependem de previsão legal expressa. Deste modo, quando não 
atendidas as previsões do Art. 104 do Código Civil, temos por inválido o negócio 
jurídico e, por consequência, a presença de nulidade ou anulabilidade (FARIAS; 
ROSENVALD, 2015). O art. 104 do Código Civil elenca, portanto, os requisitos 
objetivos do negócio jurídico: 
Art. 104. A validade do negócio jurídico requer:
I - agente capaz;
II - objeto lícito, possível, determinado ou determinável;
III - forma prescrita ou não defesa em lei (BRASIL, 2002).
Desta forma, temos como elementos essenciais a capacidade do agente, 
o objeto lícito e possível, determinado ou determinável, a forma que ele será 
prescrito e o consentimento dos interessados(arts. 106 e 110 do Código Civil), 
sendo estes os requisitos objetivos para a constituição de um contrato válido. 
Preenchendo esses requisitos objetivos dos negócios jurídicos, temos 
também que considerar os requisitos formais dos contratos, que podem ser 
também objetivos ou subjetivos, para assim serem considerados válidos pela 
legislação brasileira.
2.4 REQUISITOS SUBJETIVOS DOS 
CONTRATOS
Por requisitos subjetivos do contrato, entende-se que seja a manifestação de 
vontade de duas ou mais partes, bem como sua capacidade genérica, a aptidão 
específi ca para contratar e o consentimento, conforme veremos a seguir. 
14
 Teoria Geral dos Contratos
• Capacidade genérica
A capacidade genérica está elencada no começo do Código Civil, nos arts. 
03 e 04, que determinam as três hipóteses de capacidade civil: a capacidade 
plena, a capacidade relativa e a incapacidade absoluta. Cabe lembrar que, em 
matéria contratual, na ausência de capacidade, dependendo do caso em questão, 
o contrato pode ser nulo ou anulável, conforme os arts. 120, 166, I, e 171, I, do 
Código Civil. 
Com relação à capacidade relativa, o art. 105 do Código Civil prega que a 
incapacidade relativa de uma das partes não pode ser invocada pela outra em 
benefício próprio ou de interessados, quando o objeto do direito for indivisível ou 
da obrigação de ambas as partes.
Portanto, os absolutamente capazes podem contrair contratos e negócios 
jurídicos desde que representados conforme a legislação, da mesma forma os 
relativamente incapazes nos casos legais. 
Quanto à pessoa jurídica, sua capacidade deverá ser avaliada. De forma 
geral, quando a empresa é de pequeno/médio porte, os próprios administradores 
costumam contratar diretamente por existir uma cláusula padrão em quase todo 
contrato social. Contudo, para as empresas grandes ou até mesmo pequenas/
médias com diversos departamentos, aconselha-se sempre ter a cautela de 
solicitar o contrato social ou o regramento da empresa para verifi car se a pessoa 
contratante/representante da empresa tem legitimidade (como veremos a seguir) 
e a capacidade civil de contratar o objeto do contrato em seu nome. 
• Legitimação
A legitimação é o requisito subjetivo que a legislação civilista dispõe para 
denominar a autenticidade do poder da parte de contrair um contrato. Assim, 
traduz-se no poder de em nome próprio ou em nome de terceiro representado, 
ser legítimo detentor do direito de assumir ou dispor da obrigação contratual. 
As empresas correspondem à maioria das pessoas jurídicas, portanto, a 
legitimação do negócio jurídico deverá ser verifi cada pela previsão no contrato 
social de que aquele representante da empresa tem poderes para assinatura do 
contrato, seja por previsão estatutária ou por mandato. 
Em se tratando de pessoa física, como mencionamos anteriormente sobre 
a capacidade civil genérica, os absolutamente incapazes e os relativamente 
incapazes (este para o caso que a lei exigir) deverão ser representados por uma 
pessoa civilmente capacitada. 
15
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
Contudo, quando falamos em representação, essa pessoa só será legítima 
para contratar se o Estado a reconhecer como representante legal e legítima 
daquele incapaz (relativo ou absoluto). Por exemplo, se a criança absolutamente 
incapaz for representada em algum negócio jurídico por seu irmão mais velho que 
é civilmente capaz, este só será legítimo representante em três hipóteses, a priori: 
se obtiver a guarda legal da criança; um mandato (público quando a lei exigir e 
particular quando desnecessário o rito formal) do responsável legal (quem detém 
a guarda legal) concedendo o poder para a representação no negócio jurídico ou 
então autorização judicial para o respectivo ato. 
Ressalta-se que, após realizado o negócio jurídico pelo representante 
legítimo, seus efeitos recaem automaticamente sobre o representado (art. 116, do 
CC), sejam estes concernentes a direitos adquiridos ou a obrigações assumidas.
O Código Civil, no art. 118, consigna que o negócio jurídico contraído por 
representante deve ser comprovado, sendo dever deste de fazê-lo, quanto à 
qualidade e extensão dos poderes, podendo este ser responsabilizado por atos 
que excederem seus poderes. 
Há uma ressalva quanto aos negócios jurídicos realizados entre o 
representado e o representante: quando não for autorizado pela lei ou pelo 
representado, este negócio jurídico pode ser anulável, conforme o art. 117 do 
Código Civil. Assim, como prevê o art. 119, a realização de negócio jurídico 
pelo representante, que confl ita com os interesses do representado, é anulável 
quando de algum modo o interessado não foi informado sobre as consequências 
do negócio jurídico. Nesse caso, o representado terá 180 dias, decadenciais, 
contados a partir da conclusão do negócio jurídico ou da cessão da incapacidade 
civil, para requer a nulidade do negócio (Parágrafo Único do art. 119 do CC). 
• Consentimento ou manifestação da vontade das partes contratantes
Um requisito importante dos negócios jurídicos que devemos observar é 
quanto ao consentimento ou à manifestação da vontade das partes contratantes, 
porque o negócio jurídico e, consequentemente, os contratos, em sua defi nição 
clássica, são acordos de vontades entre as partes. 
Desta forma, garantido o consentimento ou a manifestação da vontade, não 
há como existir vício de consentimento ou vícios sociais com relação à natureza 
do contrato ou o contrato em si em seu objeto e suas cláusulas. 
Destaca-se que o consentimento ou a manifestação da vontade pode ser 
feita de forma expressa ou tácita. 
16
 Teoria Geral dos Contratos
Pode ser ele expresso ou tácito desde que o negócio, por sua 
natureza ou por disposição legal, não exija forma expressa 
(CC, art. 432). Será expresso se declarado, por escrito ou 
oralmente, de modo explícito. Será tácito se resultar de um 
comportamento do agente, que demonstre, implicitamente, 
sua anuência. Até mesmo o silêncio é fato gerador de negócio 
jurídico, quando em certas circunstâncias e usos indiciar um 
comportamento hábil para reproduzir efeitos jurídicos e não for 
necessária a declaração expressa da vontade (CC. Art. 111). 
Caso contrário não terá o silêncio a força da manifestação 
volitiva (DINIZ, 2012, p. 467).
No entanto, para que o consentimento seja válido, a manifestação da 
vontade deve corresponder com a exteriorização do agente, podendo, caso isto 
não ocorra, ser anulado o negócio jurídico, dentro do prazo decadencial de quatro 
anos, de acordo com o disposto nos Arts. 178, I e II, e 171, I, do Código Civil 
(DINIZ, 2012).
ο Vícios de consentimento
As hipóteses de anulabilidade e nulidade decorrentes dos vícios de 
consentimentos são: o erro, o dolo, a coação, a lesão e o estado de perigo. 
Erro: o erro é sem dúvida um dos vícios mais comuns que podem ocorrer 
nos negócios jurídicos, por exemplo, a interpretação errônea por parte do 
intérprete do contrato. No direito civil, o erro signifi ca a noção incorreta sobre a 
coisa ou a pessoa, que possa surtir efeitos na formação da vontade, impedindo a 
manifestação da verdadeira motivação, ou seja, que na ciência deste erro, teria 
se manifestado de forma diversa no negócio jurídico (DINIZ, 2012). 
Assim, a legislação civilista trata uma vasta gama de hipóteses de 
anulabilidades desses negócios viciados, regidos entre os arts. 138 a 144, 
inciso I do Código Civil. Contudo, o erro só será considerado como causa de 
anulabilidade do negócio jurídico quando ele for essencial (substancial) ou 
escusável (perdoável) (GAGLIANO, 2017).
O erro essencial ou substancial, de acordo com o art. 138 do Código Civil, 
só será incidente da substância/essência do ato praticado, quando, por exemplo, 
compra-se determinado produto de material A, mas na verdade, mesmo tendo a 
mesma aparência/estética, é de material B (GAGLIANO, 2017). 
O Código Civil, no art. 139, elenca as hipóteses de erro essencialou 
substancial: 
Art. 139. O erro é essencial ou substancial quando:
17
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
I - interessa à natureza do negócio, ao objeto principal da 
declaração, ou a alguma das qualidades a ele essenciais;
II - concerne à identidade ou à qualidade essencial da pessoa 
a quem se refi ra à declaração de vontade, desde que tenha 
infl uído nesta de modo relevante;
III - sendo de direito e não implicando recusa à aplicação da 
lei, for o motivo único ou principal do negócio jurídico (BRASIL, 
2002).
Assim, deve haver uma razão plausível para se tornar anulável o negócio 
jurídico por erro substancial, no sentido que qualquer pessoa seria capaz de 
cometer o mesmo erro, visto que o direito não deve amparar o negligente (DINIZ, 
2012; GAGLIANO, 2017). Assim: 
O erro invalidante há que ser, ainda, escusável, isto é, 
perdoável, dentro do que se espera do homem médio que atue 
com grau normal de diligência. Não se admite, outrossim, a 
alegação de erro por parte daquele que atuou com acentuado 
grau de displicência. O direito não deve amparar o negligente. 
Ademais, a própria concepção de homem médio deve levar em 
consideração o contexto em que os sujeitos estão envolvidos. 
Afi nal, a compra de uma joia falsa pode ser um erro escusável 
de um particular, mas muito difi cilmente de um especialista em 
tal comércio (GAGLIANO, 2017, p. 138).
Há também o que a doutrina defi ne como erro de direito, que é aquele 
que consiste na ignorância sobre revogação de norma jurídica, bem como 
falso conhecimento e interpretação errônea desta. De todo modo, não se deve 
confundir com a ignorância da lei, até porque ninguém pode alegar isso em 
território brasileiro. Tem-se, portanto, que, em regra geral, erro de direito não é 
passível de anulabilidade do negócio, devendo ser ponderada a boa-fé no caso 
em questão (GAGLIANO, 2017).
Temos no Código Civil, no art. 142, a fi gura do “erro acidental”. Conforme 
a doutrina, “é aquele que recai sobre qualidades secundárias ou acessórias da 
pessoa ou objeto, não induz a anulação do negócio, uma vez que não incide 
sobre a declaração da vontade” (DINIZ, 2012, p. 473).
 Assim, o erro de indicação de pessoa ou objeto, conforme dispõe o art. 
142 do Código Civil, não viciará o negócio jurídico quando pelo contexto ou 
circunstância a que se referir à declaração da vontade, se puder identifi car a coisa 
ou a pessoa cogitada. 
Também há a existência do dito “erro de cálculo”, com a previsão legal do art. 
143 do Código Civil que, por sua vez, afasta a possibilidade de anulabilidade do 
contrato por conta do erro de cálculo (erro sobre peso, medida ou quantidade do 
objeto), mas prevê a possibilidade de retifi cação do negócio jurídico. 
18
 Teoria Geral dos Contratos
Há também a espécie de erro que a doutrina chama de “erro quanto ao fi m 
colimado” ou “erro ao falso motivo”, previsto no art. 140 do Código Civil, ele em 
si não gera anulabilidade ao negócio jurídico, dependendo do critério subjetivo de 
fi gurar como razão determinante do vício (DINIZ, 2012).
Por fi m, tem o “erro quanto à forma na transmissão da vontade”, previsto no 
art. 141 do Código Civil. A transmissão errônea da vontade por meios interpostos 
é anulável nos mesmos casos em que o é a declaração direta, devendo a pessoa 
que errou se dar conta de seu erro. 
Dolo: o dolo pode ser defi nido enquanto emprego de artifício ou expediente 
astucioso, o qual induz alguém à prática de ato que prejudica o autor do dolo 
ou a terceiro, sugerindo o falso ou sumindo o verídico, através de mentiras ou 
omissões (DINIZ, 2012).
Aqui, cabe nos atentarmos às espécies de dolo, devendo tomar cuidado para 
não confundir com a fraude, “ele pode ser extensível ao negócio jurídico quando 
principal (essencial, determinante ou casual) ou acidental” (GAGLIANO, 2017, p. 
140). O dolo principal será o motivador da invalidação do ato jurídico (tornando 
nulo), enquanto o acidental apenas gerará a obrigação de indenização, conforme 
os arts. 145 e 146 do Código Civil.
Há também de nos atentarmos à intenção na conduta do agente, ela poderá 
ser positiva ou negativa. A distinção das defi nições de condutas positivas ou 
negativas é explicada de forma didática por Gagliano (2017, p. 140): 
O primeiro decorre de uma atuação comissiva, a exemplo do 
expediente ardiloso do vendedor que engana o adquirente 
quanto à natureza do produto colocado no mercado. O segundo, 
fruto de uma omissão, traduz uma abstenção maliciosa 
juridicamente relevante. É o caso do silêncio intencional de 
uma das partes, levando a outra a celebrar negócio jurídico 
diverso do que pretendia realizar.
Outro exemplo de dolo negativo é dado pelo próprio Código Civil, no art. 147, 
que consigna: “nos negócios jurídicos bilaterais, o silêncio intencional de uma das 
partes a respeito de fato ou qualidade que a outra parte haja ignorado constitui 
omissão dolosa, provando-se que sem ela o negócio não se teria celebrado” 
(BRASIL, 2002).
Para sintetizar os diversos tipos de dolo, a seguir, no Quadro 1, o 
organograma e seus conceitos.
19
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
QUADRO 1 – TIPOS DE DOLO
DOLO PREVISÃO LE-
GAL
ANULABILIDADE DEFINIÇÃO
Dolo tolerável Não, desde que não 
ofenda os arts. 37 e 38 
do CDC e o art. 442 do 
Código Civil. 
Artifícios utilizados sem fi nali-
dade de prejudicar as partes, 
como o exagero quanto à qual-
idade dos produtos na hora da 
venda, não induz à anulabilidade 
do negócio jurídico. 
Dolo intolerável É causa de anulabili-
dade. 
Consiste no emprego de 
manobras astuciosas destinadas 
a prejudicar alguém. Provoca a 
anulabilidade do negócio, uma 
vez que este provoca prejuízo 
a alguém. A diferenciação entre 
estas duas espécies de dolo não 
são dadas por norma absoluta, 
cabendo ao órgão judicante a 
análise de cada caso concreto. 
Dolo principal Art. 145 do 
Código Civil.
É causa de anulabili-
dade.
É aquele dolo sem o qual o 
negócio jurídico não ocorreria, 
ou seja, é o que lhe dá causa 
e, conforme prevê o art. 145 do 
Código Civil, é sujeito de anula-
bilidade. 
Dolo acidental Art. 146 do 
Código Civil. 
Não é causa de anulab-
ilidade.
É aquele em que se coloca a 
vítima em condições menos van-
tajosas ou mais onerosas, não 
afetando sua declaração da von-
tade, acarretando a obrigação de 
satisfação de perdas e danos ou 
redução da prestação acordada.
Dolo positivo 
(comissivo)
É causa de anulabili-
dade. 
É aquele que se dá por 
comissão, levando a outra parte 
a contratar mediante afi rmações 
falsas sobre a qualidade da 
coisa.
Dolo negativo 
(omissivo)
Art. 147 do 
Código Civil. 
É causa de anulabili-
dade.
É constituído por omissão do-
losa, quando informações que 
deveriam ser sabidas pelo co-
contrante são ocultadas com a 
intenção de induzir a prática do 
negócio jurídico.
Dolo de terceiro Art. 148 do 
Código Civil.
É causa de anulabili-
dade. Devendo a ação 
judicial ser promovida 
pelo prejudicado (art. 
171, II, e 178, II, do Códi-
go Civil).
Trata de dolo realizado por ter-
ceiro estranho à relação jurídi-
ca, podendo ser anulado caso 
haja o conhecimento de uma 
das partes, ou se a parte a que 
aproveite dele devesse ter con-
hecimento. 
Dolo do repre-
sentante legal ou 
convencional
Art. 149 do 
Código Civil. 
Não é causa de anulab-
ilidade, mas é causa de 
responsabilização civil 
pelo eventual dano. 
Sujeita o representado às re-
sponsabilidades civis nos limites 
da importância, tira em proveito 
do negócio no caso de repre-
sentação legal, pois, quando 
no caso do convencional, este 
responderá solidariamente, me-
diante ação regressiva. 
20
 Teoria Geral dos Contratos
Dolo de ambas as 
partes
Art. 150 do 
Código Civil.
Não é causa de anulab-
ilidade.
Confi gura torpeza bilateral, ocor-
rendo, portanto, neutralização do 
delito, havendo compensação 
entre os ilícitos, não sendo an-
ulável o negócio jurídico. 
FONTE: Diniz(2012, p. 503-509)
Coação: é aquele ato manifestado por meio da violência, diferentemente do 
dolo, que é manifestado pelo meio ardil. Entende-se que a coação é o ato capaz 
de viciar o consentimento através de violência física ou psicológica pessoal ou 
de sua família, ou, ainda, contra seus bens ou honra, apta a infl uenciar a vítima 
a realizar o ato jurídico, sem que ela tenha vontade de realizar, conforme os arts. 
151 e 152 do Código Civil (DINIZ, 2012; GAGLIANO, 2017).
Quando a coação é física, tem-se que o negócio jurídico jamais existiu, 
ele nem chega a ser anulável, porque é nulo desde o princípio da ausência 
da autonomia da vontade, conforme vimos anteriormente. No entanto, 
quando a coação for moral, será apenas anulável, pois, por mais que houve o 
embaraçamento da vítima do receio de sofrer algum dano, não se tem a ausência 
total da autonomia da vontade, mas sim a relativa na autonomia e de interesse no 
negócio jurídico, desta forma, poderá ser anulável em momento posterior. 
Na ameaça do exercício normal de um direito, ou seja, o possível prejuízo 
decorrente do próprio ato, bem como o simples temor reverencial, que seria 
aquele clássico exemplo que a pedido do fi lho o pai realiza a contragosto algum 
negócio jurídico que possa lhe trazer prejuízo, achando que sua relação de 
afi nidade possa ser abalada, tem-se que as coações não são capazes de viciar 
negócio jurídico (arts. 153 e 154 do Código Civil).
 Por fi m, temos a previsão no art. 154 do Código Civil da coação exercida 
por terceiro, que apenas viciará o negócio jurídico, caso aquele a quem se 
aproveitou possua conhecimento ou o devesse possuir, respondendo coator e 
contratante benefi ciado solidariamente pelas perdas e danos causados. O art. 
155 do Código Civil afi rma que subsistirá o negócio jurídico, respondendo sozinho 
o coator quando o contratante benefi ciado não possuir o conhecimento nem o 
dever de conhecer a coação. 
Lesão: a lesão qualifi cada (como também é chamada pela doutrina) é um 
instituto do direito civil que tem previsão legal no art. 157, caput, do Código 
Civil. Ele visa proteger a pessoa que diante de iminente necessidade, ou por 
inexperiência, se obriga à prestação desproporcional com relação à proposta, 
gerando aproveitamento indevido da outra parte da relação negocial. 
21
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
Essa proporção será verifi cada conforme os valores vigentes ao tempo em 
que foi celebrado o negócio jurídico (§1º do art. 157 do CC), bem como não se 
decretará anulação do negócio quando for oferecido suplemento sufi ciente ou 
chegou ao acordo com a parte favorecida na redução do proveito decorrente da 
lesão (§2º do art. 157 do CC). 
Estado de perigo: o instituto é previsto no art. 156 do Código Civil e, como o 
próprio nome sugere, trata da situação em que há grande dano moral ou material 
ao contratante, ou ao parente. Seu parágrafo único determina que quando for 
alguma pessoa que não faça parte da família, o juiz decidirá de acordo com o 
caso concreto.
A título de exemplo, se uma parte constrangida fechar negócio jurídico 
assumindo prestação excessivamente onerosa, será um caso que poderá ser 
anulado, desde que a outra parte tenha conhecimento do dano e dele se aproveite. 
Cabe salientar ainda que a manifestação do estado de perigo se faz com o 
simples estado da parte vulnerável no negócio jurídico, ou seja, basta que a parte 
prejudicada acredite estar, ou que o parente em questão esteja, em estado de 
perigo (DINIZ, 2012).
o Vícios sociais
Os vícios sociais são a simulação e a fraude contra credores.
Simulação: a simulação está prevista no art. 167 do Código Civil, que 
compõe parte do capítulo que dispõe sobre as nulidades do negócio jurídico. 
Cumpre destacar que na ordem cronológica de nosso estudo, ela foi trazida para 
esta sequência para melhor aproveitamento do item seguinte, que é a fraude 
contra credores. 
A simulação é uma espécie de vício social, sua confi guração seria uma 
enganosa declaração que visa produzir efeito diverso do que realmente seria 
o objeto ou intenção do ato jurídico ou negócio jurídico, simulando um negócio 
jurídico que não existe, ou seja, diferente do que seria desejável à situação ora 
simulada. 
A doutrina declara a simulação como uma falsa declaração bilateral da 
vontade, em que a vontade manifestada não condiz com a real intenção das 
partes, sendo ajustada intencionalmente em desacordo com a vontade interna e 
declarada, tendo por fi m gerar ilusão a terceiro (DINIZ, 2012).
Existem duas espécies de simulação: a absoluta (simulação) e a relativa 
22
 Teoria Geral dos Contratos
(dissimulação). “A simulação absoluta seria a criação de um negócio jurídico 
fi ctício que gera danos a terceiros interessados, sendo causa de nulidade 
absoluta” (GAGLIANO, 2017, p. 144), enquanto “a simulação relativa seria a 
dissimulação que oculta ao conhecimento de outrem uma situação existente”, 
neste caso, será nula a parte simulada, mas subsistirá o que se dissimulou se 
for válido na sua substância e forma, conforme a segunda parte do art. 167 do 
Código Civil (DINIZ, 2012, p. 524).
Fraude contra credores: por fi m, é apresentado o instituto da fraude 
contra credores. Esse tipo de fraude é considerado um ilícito civil, basicamente 
é o ocultamento ou a simulação/dissimulação do patrimônio do devedor. Para 
que não haja execução da dívida, o devedor tem a obrigação de cumprir com o 
pagamento. A satisfação do crédito do credor está justamente no patrimônio do 
devedor, logo, não pode este praticar atos da vida negocial que ponham em risco 
este patrimônio (VENOSA, 2009).
Há dois elementos que compõem a fraude a credores: o primeiro elemento é 
o conluio fraudulento, que é subjetivo porque não é elemento essencial do vício, 
mas seria a insolvência do devedor, enquanto o critério objetivo seria o prejuízo 
causado pela ação (GAGLIANO, 2017). Por exemplo: a doação de patrimônio 
(contrato gratuito) ou venda do imóvel em garantia, ou qualquer outra ação, com 
objetivo de fraudar o credor, já que em ambos os casos a má-fé seria presumida.
Um adendo quanto à questão processual, que não é objeto desta disciplina, 
porém é necessária sua menção: ao pedido de anulabilidade de tais negócios, 
somente será realizado mediante ação judicial popularmente conhecida no meio 
jurídico como “Ação Pauliana” ou “Ação Revocatória”, as quais devem conter 
prova da insolvência do devedor e a presunção da intenção de fraudar (tendo em 
vista a consciência do estado de insolvência, conforme dispõe os arts. 161 e 163 
do Código Civil). 
O requisito da ação pauliana é justamente o critério objetivo, ou seja, além 
do crédito do autor ser anterior ao ato fraudulento, também é fraude quando 
causa prejuízo ao credor. Tais ações poderão ser ingressadas contra o devedor 
insolvente, a pessoa que com ele celebrou a estipulação fraudulenta, ou terceiro 
de má-fé, nos termos do art. 161 do Código Civil. 
Por fi m, destaca-se que os credores perdem sua legitimação para mover tais 
ações quando os bens de objeto da fraude são depositados em juízo pela parte 
que os adquiriu ou, sendo o valor deste maior que o da dívida, realize o adquirente 
o depósito do valor real, é o que prevê o art. 160 do Código Civil. Deste modo, 
tem como principal objetivo revogar o negócio lesivo aos interesses dos credores, 
de acordo com o art. 165 do Código Civil (DINIZ, 2012, p. 539). 
23
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
2.5 REQUISITOS OBJETIVOS DOS 
CONTRATOS
Acerca dos requisitos objetivos dos contratos, conforme visto no começo 
do nosso estudo, um negócio jurídico deve constituir, modifi car ou extinguir uma 
obrigação e o contrato é a forma pelo qual se concretiza, sendo, portanto, as 
mesmas regras dos negócios jurídicos que estudamos anteriormente. 
Vale lembrar então que a obrigação gerada a partir do objeto do contrato deve 
ser lícita (conformea legislação) e, de acordo com a lei, a moral, os princípios 
da ordem pública e os bons costumes nos termos do art. 166 do Código Civil, 
inobstante, é necessária que a obrigação seja possível de existir no momento 
da constituição do contrato (podendo esta ser absoluta ou relativa, esta última 
condicionada à possibilidade de indenização por perdas e danos (arts. 104, II, 
389, 403 e 404 do Código Civil). 
Por fi m, faz-se a ressalva que, em matéria contratual, o objeto do contrato 
deve ser determinado ou determinável, bem como deve ter algum valor 
econômico, direto ou indireto (GONÇALVES, 2012, p. 39).
2.5.1 Requisitos Formais dos Contratos
Os contratos, como regra geral, não têm requisitos formais de constituição, 
pois, para constituir um negócio jurídico, basta a manifestação da vontade e o 
objeto ser lícito e possível. Inclusive, para o bem do desenvolvimento econômico 
e empresarial, não é aconselhável que as constantes dinâmicas contratuais do 
mundo prático sejam engessadas. Contudo, há exceções para determinados 
objetos, que seja seguida uma forma estrutural, sob pena de nulidade devido a 
sua invalidade, nos termos dos arts. 108, 215 e 166, inciso IV do Código Civil. 
Existem três espécies de formas contratuais: a forma livre ou geral, a forma 
especial ou solene e a forma contratual. A seguir, no Quadro 2, o conceito de cada 
uma.
24
 Teoria Geral dos Contratos
QUADRO 2 – ESPÉCIES DE FORMAS CONTRATUAIS
LIVRE OU GERAL A forma livre ou geral é o con-
trato constituído de forma livre, 
sem regulamentação, bastando 
apenas o registro de alguma 
forma da autonomia da vontade. 
É a regra geral, não tendo regu-
lamentação específi ca.
ESPECIAL OU SOLENE A forma especial ou solene ex-
ige diversas solenidades como 
requisitos para a sua validade. 
O exemplo mais característico 
dessa espécie seria o contrato 
de compra e venda com os req-
uisitos legais de formação nos 
arts. 481 a 536 do Código Civil 
e art. 52 do CDC, bem como o 
contrato de doação, art. 538 e 
seguintes do Código Civil. 
CONTRATUAL OU LEGAL A forma contratual é a forma 
que determinará a existência 
do negócio jurídico, sem ela o 
negócio não teria validade.
Conforme o art. 109 do Código 
Civil, quando a lei exigir, a for-
ma deverá ser pública, em caso 
de omissão, subsistirá qualquer 
uma das formas (pública ou 
privada). 
FONTE: Gonçalves (2009, p. 41)
Por fi m, cabe salientarmos uma questão importante atinente à diferenciação 
entre a forma e a prova, porque muito embora haja uma íntima relação entre elas, 
é comum que a forma do contrato seja utilizada enquanto meio de prova (como 
no caso da exigência de instrumento público, por exemplo, no qual este será o 
único meio de prova). No entanto, tratam-se de coisas distintas, porque a prova 
seria a organização das cláusulas, num documento, sendo esse documento, 
independentemente da mídia empregada, considerado a prova, enquanto a forma 
seria a burocracia legal e a autenticidade cartorária para dar fé pública ao ato. 
3 FUNÇÃO DOS CONTRATOS 
Inicia-se agora a terceira parte deste capítulo, que concerne no estudo da 
função social dos contratos. Trata-se de um princípio previsto no Código Civil 
através do art. 42, que traz a seguinte redação: “a liberdade de contratar será 
exercida em razão e nos limites da função social do contrato”. Tal dispositivo 
inicialmente nos soa como genérico, mas coloca em consonância dois princípios 
da Teoria Contratual: o da liberdade (em sentido amplo, sobretudo da livre 
manifestação de vontade) e da solidariedade (consequência dos atos ao meio 
comum da sociedade). 
Podemos dizer que a função social do contrato vem na contramão do 
estado de coisas que tem como centro a vontade e o trânsito de riquezas, isto 
é, a função social do contrato busca uma composição entre estes e o interesse 
social (FARIAS; ROSENVALD, 2015). Neste sentido, a doutrina explica o princípio 
25
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
da função social do contrato na atualidade e o seu impacto na mudança de 
paradigmas: 
A função social do contrato representa mais uma das diversas 
facetas da funcionalização das situações jurídicas subjetivas 
e, especialmente, da funcionalização dos negócios jurídicos. 
O perfi l estrutural e neutro do negócio jurídico restringia-se 
a questionar quem seriam os contratantes (identifi cação das 
partes) e o que postulavam com o contrato (identifi cação 
do objeto). O atendimento às regras de capacidade dos 
intervenientes, a licitude e a possibilidade da prestação 
eram os únicos fatos justifi cadores da juridicidade da relação 
obrigacional. Não se questionava as razões do negócio jurídico, 
o porquê, ou o para quê. Enfi m, a dogmática civil clássica é 
anticausalista (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 185).
Tendo em vista que a liberdade privada é delimitada a partir dos valores 
constitucionais, o negócio jurídico torna-se espaço de promoção aos fi ns 
reconhecidos enquanto valorosos ao corpo social, pois a liberdade de contratar 
deve estar em sintonia com os valores sociais e fundantes de uma comunidade 
(MELLO, 2017, p. 75).
Deste modo, o direito deixa de ser simplesmente sancionatório e passa a 
incentivar o diálogo em ordem econômica e as fi nalidades do próprio ordenamento 
jurídico (FARIAS; ROSENVALD, 2015). Assim, a função social do contrato surge 
para legitimar a liberdade contratual, pois não restringe o ato de contratar, mas 
busca conciliar o bem comum dos contratantes e da ordem social. 
Em decorrência da função social do contrato, a conduta dos contratantes 
submete-se a padrões objetivos de controle social de legitimidade, pelo menos 
é o que se deduz do art. 187 do Código Civil, que prevê a conduta do ato ilícito 
do abuso da liberdade contratual, que ocorre quando excede manifestamente os 
limites impostos pelo seu fi m econômico ou social. 
Destaca-se que a ausência da função social do contrato, por força legal, gera 
a sua invalidade, conforme a regra de caráter transitório do Código Civil prevista 
no art. 2.035, parágrafo único, no qual é explicitado que qualquer contrato sem 
função social é nulo por contrariar norma de ordem pública, sem prejuízo do dever 
de indenização pelos prejuízos causados (COELHO, 2012).
Assim, em todo contrato cuja execução possa comprometer, lesar ou 
extinguir de qualquer modo o direito de terceiros, gerando um ato ilícito é nulo 
de pleno direito, por não atender à função social no qual o contrato deveria ser 
destinado. 
26
 Teoria Geral dos Contratos
“A função social aparece enquanto fundamento para o exercício meritório 
da liberdade contratual, preconizando-a com as aspirações solidárias do 
ordenamento, colocado em razão da função social que o contrato atenderá” 
(FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 186-187).
Não menos importante, destaca-se que a doutrina costuma bipartir a efi cácia 
da função social dos contratos em interna e externa. “A efi cácia interna se dá entre 
as partes contratantes, uma vez que atua entre elas assegurando contratos mais 
equilibrados e garantindo uma igual dignidade social aos envolvidos” (FARIAS; 
ROSENVALD, 2015, p. 187). 
Assim, a correlação existente entre a função social interna 
do contrato e a dignidade da pessoa humana (lembrando 
que está é irrenunciável), uma vez que a liberdade tem como 
limitação a dignidade da pessoa humana, sendo a primeira um 
valor pessoal e a segunda um valor universal, que não pode 
ser aferido por padrões individuais, é concernente ao próprio 
gênero humano (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 190-191).
A efi cácia externa, por sua vez, se dá perante a comunidade, tratando 
sobre a cooperação entre os contratantes e os “terceiros”, prevenindo ofensas 
recíprocas através de um ambiente de cooperação que promova a confi ança nas 
relações sociais, tendo em vista que, por vezes, as relações creditícias alcançam 
estranhos que podem ser ofendidos por elas (FARIAS; ROSENVALD, 2015).
3.1 PRINCÍPIOS CONTRATUAIS
Os princípios contratuaisregem majoritariamente os contratos, sejam 
estes escritos ou não escritos, e sempre devem ser observados. Sua arguição é 
necessária quando ocorrer uma violação dos princípios contratuais. Para tanto, 
tem-se como parâmetro as regras destes princípios para entender o fato típico 
adotado por uma ou mais partes presentes nos contratos. 
3.1.1 Princípio da Autonomia da Vontade
Este princípio norteia a vontade de contratar e a liberdade contratual de 
acordo com a espontaneidade da parte contratante. Inclusive, vimos anteriormente 
que a sua ausência por vícios ou erros pode gerar a anulabilidade ou a nulidade 
do negócio jurídico. 
É possível conceituar, portanto, que tal princípio é o poder concedido pelo 
27
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
Estado ou sociedade aos sujeitos para a criação de normas individuais limitadas 
pelo ordenamento jurídico. Sendo o contrato, deste modo, localizado pela 
autonomia da vontade enquanto voluntária submissão do indivíduo à limitação de 
sua liberdade de contratar. 
Diante disso, são três os princípios basilares à autonomia da 
vontade: a liberdade contratual, enquanto livre estipulação 
do conteúdo do contrato; a intangibilidade do pactuado 
(que signifi ca obrigação de não alterar o acordado), o pacta 
sunt servanda (brocardo latino que signifi ca cumprir com o 
acordado), juntos consistem na ideia de que aquilo que está 
estabelecido no contrato e assinado pelas partes deve ser 
cumprido; e a relatividade contratual que, por sua vez, dispõe 
que o vínculo do contrato é restrito às partes, não podendo 
afetar terceiros, os quais têm vontade estranha à relação 
contratual (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 120-121). 
Em suma, salvo disposição legal contrária, esse princípio também autoriza 
a contratação e a confecção de quaisquer obrigações, forma do contrato, 
valores, seu objeto, porém este não é irrestrito, pelo contrário, está limitado pela 
supremacia da ordem pública, devendo ser observados para a sua formulação os 
bons costumes e a boa-fé. 
Deve-se entender qual a cultura presente e, assim, interpretar os bons 
costumes de cada região. Outrossim, a boa-fé sempre visa à intenção dos 
contratantes, portanto, em quaisquer circunstâncias, precisa-se salientar a 
intenção das partes. 
3.1.2 Princípio do Consensualismo
No que concerne ao princípio do consensualismo, basicamente, é o 
consenso (comum acordo) entre as partes para o aperfeiçoamento dos contratos. 
O consensualismo é autoexplicativo, pois, enquanto existir a vontade de uma só 
parte, o contrato não é deferido, sendo necessário que as partes estejam cientes, 
livres e em concordância para que o contrato seja considerado válido. 
A respeito do princípio do consensualismo:
Pelo princípio do consensualismo - salvo nos contratos que 
exigem a forma como substância do ato -, o acordo de proposta 
e aceitação é bastante para o aperfeiçoamento do negócio 
jurídico bilateral. O consentimento mútuo é pressuposto de 
existência do contrato, à medida que sem ele não há o suporte 
fático para que o fato ingresse no mundo jurídico. [...] o contrato 
não se constitui de duas vontades declaradas isoladamente 
28
 Teoria Geral dos Contratos
consideradas, mas da fusão desses elementos: vontade 
declarada na proposta e vontade declarada na aceitação 
(FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 57).
Os contratos em regra são livres e estipulados de forma consensual, podendo 
ser celebrados pelos meios: escrito, verbal, público ou particular, desta forma, “o 
consensualismo é a regra enquanto o formalismo é a exceção” (GONÇALVES, 
2012, p. 47).
3.1.3 Princípio da Obrigatoriedade da 
Convenção
Certamente, em algum momento dos seus estudos, você já ouviu o brocardo 
latino “Pacta sunt servanda”, ele é, sem dúvida, um dos brocardos mais famosos 
do mundo jurídico, sua aplicação aparece nos direitos obrigacionais e contratuais, 
direito internacional, entre outras áreas. 
O princípio da obrigatoriedade da convenção, ou também chamado de 
princípio da vinculação entre as partes, signifi ca que o que foi estipulado no 
negócio jurídico, deverá ser realizado nos termos pactuados, sob risco de 
penalização. Claro que não é absoluto, poderá ser rescindido o contrato em caso 
de inadimplência por caso fortuito ou força maior (arts. 393 e 492 do Código Civil). 
Destaca-se que num contrato, cada sujeito contratual planeja-
se com a presunção de cumprimento do contrato em suas 
cláusulas de forma integral, assim, a vinculação das partes ao 
contrato é importante para além da moralidade. O cumprimento 
do acordo, corresponde, portanto, a um elemento estruturante 
da economia de forma geral (COELHO, 2012, p. 69).
3.1.4 Princípio da Relatividade dos 
Efeitos do Contrato
Este princípio tem por sua concepção geral que os efeitos do contrato serão 
vinculados apenas às partes contratantes, não sendo irradiados a terceiros, 
alheios excetuados casos previstos em lei. 
Contudo, o Código Civil relativa esse princípio, principalmente nos arts. 436 
a 440 do Código Civil, no qual é possível estipular obrigações a terceiros, desde 
que esta parte integrante do contrato anua com a obrigação que lhe foi concebida. 
29
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
Como é o caso de um avalista num contrato de locação, por exemplo, em que 
fi gura como terceiro ao contrato e põe seu patrimônio em garantia de crédito do 
contratante. 
Assim, deve-se ter atenção com os casos em que a lei exige a transmissão 
da obrigação a terceiros, como a herança do negócio jurídico celebrado por de 
cujo (art. 1.792 do Código Civil), o que é muito comum em contratos de locação 
imobiliária, seja em caso de locatário ou de avalista, por exemplo, no qual o 
contrato geralmente não perde seu efeito com a morte do contratante e o crédito 
é herdado pelos herdeiros.
3.1.5 Princípio da Boa-fé
A previsão legal do princípio da boa-fé aparece em diversos artigos, mas em 
matéria contratual, tem-se o mais emblemático e generalista nos arts. 133 e 422 
do Código Civil, que dispõe a obrigatoriedade da colaboração e de mútuo auxílio 
na elaboração, vigência e execução do contrato. 
O princípio da boa-fé seria uma espécie de análise da intenção do agente 
com base na moral e ética. Quando o ato jurídico a ser analisado for de cunho 
moral, trata-se de boa-fé subjetiva, enquanto que a análise pelo viés da ética, 
trata-se da boa-fé objetiva. 
Na boa-fé subjetiva, procura-se analisar o estado de 
consciência do agente no momento da produção do ato 
jurídico, ou seja, procura-se analisar as intenções do agente. 
Já a boa-fé objetiva é uma norma de conduta esperada dos 
parceiros contratuais, ou seja, é um dever jurídico imposto às 
partes contratantes. 
Em linhas gerais, o que se espera dos contratantes é uma 
conduta de recíproca cooperação, um respeito mútuo, um agir 
legal e honesto que dignifi que o exercício de sua capacidade 
civil com vistas à construção de uma sociedade justa, fraterna 
e solidária (MELLO, 2017, p. 76).
“A boa-fé é a regra de conduta que consiste na exigência de atuação sem 
dolo por parte dos contratantes, seguindo o critério de relações leais, no qual 
exige-se um comportamento honesto positivo”, distinguindo-se da má-fé. A 
análise de boa-fé é regra geral e natural à relação social, enquanto a má-fé seria 
antinatural à relação social (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 57). 
Na construção do contrato, ou seja, na sua formação, deve-se ter o cuidado 
para descrever de forma clara e objetiva quais são as regras de comportamentos 
30
 Teoria Geral dos Contratos
que geram obrigações de cumprimento para cada uma das partes, assim, a partir 
dessas regras, pode-se ter clara noção de qual é a boa-fé necessária para a 
execução dessas obrigações. 
4 CARACTERÍSTICAS DOS 
CONTRATOS 
As características dos contratos costumam classifi car os diversos tipos de 
contratos de acordo com as suas próprias peculiaridades. Esse tópico tem muitarelevância, pois as decisões dos tribunais com frequência delimitam determinada 
tese para algum tipo de caraterística. 
4.1 UNILATERAIS, BILATERAIS OU 
MULTILATERAIS
Há pelo menos três características relativas à forma, conforme o número 
de agentes contratantes. O contrato tradicional geralmente é composto por pelo 
menos duas partes ou mais (bilateral ou plurilateral), contudo, também existe o 
contrato unilateral de apenas uma parte. 
A doutrina, conforme destaca Coelho (2012), é divergente quanto à 
denominação propriamente dita de contratos a essas espécies, costuma-se 
utilizar o termo “atos unilaterais”, por isso, ele conclui que algumas doutrinas 
denominam o título de seus livros como “Contratos e Atos Unilaterais”. 
O conceito desse tipo de contrato seria um negócio jurídico decorrente 
de declaração de uma só parte, sendo apenas esta parte forçada a cumprir a 
obrigação. Exemplos desse tipo de contrato seriam os testamentos, os mandatos, 
a instituição de fundação, os holdings, o contrato social de empresa unipessoal 
etc.
O contrato será bilateral quando é basicamente composto por duas partes 
contratantes com obrigações principais. Exemplos desses contratos seriam os 
contratos de compra e venda de mercadorias, contratos de confi ssões de dívidas, 
contrato de doação etc. O contrato bilateral é a forma mais comum de contrato.
No entanto, quando envolvidas mais partes, tem-se que os contratos são 
31
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
chamados de plurilaterais (ou “multilaterais”), que envolvem pelo menos três ou 
mais contratantes. Exemplos de contrato multilateral são os contratos societários 
(art. 981 do Código Civil) ou os contratos de leasing. 
Não existindo contratos de uma parte apenas, percebe-se que 
a sua classifi cação como unilateral ou bilaterais não tem a 
quantidade de partes por critério de distinção. O contrato gera 
obrigações para os contratantes, mas não necessariamente 
para todos. Posto que, há algumas espécies de contrato em 
que somente uma das partes se obriga. É, por exemplo, o 
caso de doação pura (sem encargos para o benefi ciário). O 
contrato, assim, é unilateral quando apenas uma das partes 
está obrigada, e bilateral quando todas se obrigam. São 
unilaterais a doação pura, o comodato, a fi ança, a venda em 
consignação e o mútuo (COELHO, 2012, p. 99-100).
Só é preciso atenção para não confundir o número de contratantes para 
defi nir se o contrato é bilateral ou multilateral, deve-se ter em vista que tipo de 
obrigação as partes contraíram. Por exemplo, um contrato simples de confi ssão 
de dívida em que fi gura um casal de cônjuges como devedores e um credor, 
tiramos desse exemplo que o contrato tem três pessoas envolvidas, porém este 
será bilateral, porque o casal contraiu de forma conjunta as obrigações principais. 
4.2 SINALAGMÁTICOS OU DÍSPARES 
A doutrina costuma classifi car os contratos bilaterais em dois subgrupos: 
os sinalagmáticos e os díspares. O primeiro se caracteriza pelas obrigações 
assumidas pelas partes, sendo equivalentes entre si. Essa equivalência será 
objetiva ou subjetiva (COELHO, 2012). 
Os contratos díspares são aqueles que não precisam conter equivalência nas 
obrigações contratuais, desde que contenham expressamente essa previsão no 
texto contratual. Um exemplo retirado de Coelho (2012, p. 102) é do “contrato de 
compra e venda, onde um se obriga exclusivamente à obrigação de dar (pagar), 
enquanto o outro se obriga a receber, ambas obrigações distintas”. 
Quanto aos contratos sinalagmáticos, há mensurações objetivas e subjetivas:
A mensuração subjetiva é a determinante para a celebração 
do contrato. Nota-se que, no contrato sinalagmático, pode 
ou não haver equivalência das obrigações assumidas pelos 
contratantes, quando não objetivamente mensuradas. Uma 
compra e venda não deixa de ser contrato sinalagmático 
quando o preço está acima ou abaixo do valor de mercado. 
Neste sentido, a causa da compra e venda é a transferência da 
32
 Teoria Geral dos Contratos
coisa versus preço; tal permutação é sua função econômico-
social e é, também, seu efeito essencial (COELHO, 2012, p. 
100).
A equivalência das obrigações é presumida pelo Código Civil no art. 476, 
que trata da exceção de contrato não cumprido, instituto aplicado apenas aos 
contratos bilaterais, sendo que uma parte não fi ca obrigada a cumprir a obrigação 
se a outra parte deixar de cumprir a obrigação contratual no qual também se 
obrigou. 
4.3 ONEROSOS OU GRATUITOS 
São aqueles contratos nos quais não há ônus correspondente à vantagem 
obtida. Somente uma das partes se obriga enquanto a outra só se benefi cia.
A fábrica de brinquedos pode doar alguns de seus produtos 
a crianças carentes no Natal, com o objetivo de fazer 
publicidade do gesto aparentemente desinteressado e, com 
isso, incrementar as vendas. A maioria pode ser onerosa 
ou gratuita, dependendo só da vontade das partes. Em 
geral, a empreitada é onerosa, porque o empreiteiro explora 
profi ssionalmente a atividade de construção. No entanto, se 
ele, por amor ou gratidão, concorda em prestar seus serviços 
ao pai sem qualquer remuneração, a empreitada será gratuita 
(COELHO, 2012, p. 108). 
Quem regulariza os contratos gratuitos é o próprio Código Civil em seus arts. 
114 (interpretação restritiva do instrumento contratual) e 393, primeira parte (dolo 
na confi guração do inadimplemento pela parte obrigada à liberalidade). 
São regras estabelecidas com objetivo de proteger o 
contratante liberal. Já que não auferirá com a execução do 
contrato, nenhuma vantagem econômica imediata, deve ser 
a parte mais protegida da relação contratual, para que se 
equilibrem os contratantes (COELHO, 2012, p. 59).
A contraposição ao contrato gratuito é justamente o contrato oneroso, em 
que há o interesse na persecução econômica, assim, tendo uma contraprestação 
equivalente de forma direta ou indireta, desde que seja imediata. Ex.: contrato de 
compra e venda de imóveis, contrato de mútuo etc. 
4.4 ALEATÓRIOS OU CUMULATIVOS 
Continuando o nosso estudo sobre as classifi cações dos contratos, temos 
33
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
dois tipos contratuais inusitados, os chamados aleatórios e cumulativos. O 
primeiro dessa classifi cação é dependente da sorte, também chamado de “álea” 
no meio jurídico, pondo-se as partes contratantes por vontade própria à sorte 
do destino ou às consequências dos fatos jurídicos futuros (COELHO, 2012), a 
regulamentação desse tipo de contrato está prevista no Código Civil entre os arts. 
458 e 461.
Álea é um termo jurídico que signifi ca literalmente a possibilidade 
de prejuízo simultaneamente à de lucro - ou, em outras palavras, 
risco.
“Quanto ao segundo tipo de contrato, retira-se da doutrina a defi nição de que 
os contratos cumulativos ocorrem quando todas as partes auferem vantagem no 
contrato, sendo as desvantagens a conta e o risco” (COELHO, 2012, 108). 
Os contratos onerosos comutativos ou pré-estimados são 
aqueles em que a correspectividade é fi xada pelas partes, 
infensa a variações. A prestação de ambas as partes é 
determinável de início, sendo os resultados econômicos 
previstos desde a formação, mantendo-se uma relação 
de equivalência imediata. Em contrapartida, nos contratos 
aleatórios ao menos uma das prestações é incerta quanto 
à exigibilidade da coisa ou do fato, ou mesmo de seu valor, 
demandando um evento futuro e incerto que dependerá do 
acaso (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 242).
Para fi nalizar esse subtópico, chama-se a atenção para uma possível 
confusão, alertando de que não se pode confundir os riscos de negócios com os 
contratos aleatórios ou cumulativos. Por exemplo, um investidor de Angel Capital
(espécie de investidor de “capital de risco”) ao investir em uma Startup (“Empresa” 
num estágio embrionário), tem-se que seu investimento é de risco, pode auferir 
resultado ou não, mas é o pressupostoda sua atividade econômica, logo um 
contrato de investimento (uma das partes dispõe de quantia em contrapartida ao 
fi nanciamento do produto ou serviço da empresa) não seria considerado aleatório.
34
 Teoria Geral dos Contratos
4.5 CONTRATO CONSENSUAL, 
FORMAL E REAL 
Os contratos consensuais são os contratos em que sua constituição apenas 
é necessária à vontade dos contratantes, de forma geral, todos os contratos 
inserem-se nesta categoria, é uma manifestação clara da autonomia da vontade.
Os contratos formais são aqueles contratos que a sua forma está prevista em 
lei para a sua constituição, além do consentimento das partes e da obrigatoriedade 
de sua forma escrita.
O contrato real, além do aperfeiçoamento, vontade entre as partes, conforme 
os requisitos dos contratos anteriormente citados, também tem necessidade legal 
de obrigar-se a entregar a coisa acertada (COELHO, 2012).
4.6 CONTRATOS SOLENES E NÃO 
SOLENES
Quando tratamos de contratos solenes e não solenes, estamos falando 
também de forma, uma vez que todo o contrato de autonomia privada pressupõe 
uma forma pela qual se exterioriza. 
Quando falamos em contrato solene, estamos tratando mais especifi camente 
dos contratos que, para a sua validade, a lei civilista exige uma determinada forma 
específi ca prevista legalmente. 
Por outro lado, quando tratamos de contratos não solenes, obviamente, 
estamos nos referindo àqueles que não dependem de uma forma específi ca que 
torne seu conteúdo social e juridicamente reconhecido.
O art. 107 do Código Civil nos traz a previsão legal acerca da validade 
dos contratos não solenes, dispondo que a validade da declaração da vontade 
somente dependerá de forma especial, em caso de previsão expressa em lei. 
Neste sentido:
A consideração da natureza solene ou não solene do contrato 
não só releva em termos de validade, como também da 
atividade hermenêutica sobre ele incidente. A existência de 
forma vinculada reduz a margem de liberdade do intérprete, 
levando-o a ater-se ao conteúdo expresso do contrato 
35
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
(declarado de acordo com a forma prevista em lei) em grau 
maior do que deveria, caso o contrato ostentasse forma livre. 
Há, consequentemente, uma redução do material interpretativo 
juridicamente relevante (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 253).
Por fi m, cabe destacarmos que a problemática referente à forma do contrato 
não se reduz à questão da validade do contrato ou na forma legal em si, porque 
a solenidade do contrato só se justifi cará na medida em que atenda interesses 
legítimos e coerentes com os valores da ordem pública em relação ao objeto 
contratual. 
4.7 CONTRATOS INSTANTÂNEOS E 
CONTRATOS DE DURAÇÃO
Os contratos instantâneos e os contratos de duração são conceituados de 
acordo com a sua realização temporal, geralmente são contratos específi cos 
para determinadas obrigações, podendo ser classifi cados em execução imediata, 
execução diferida e execução continuada (ou a termo). 
“O contrato instantâneo seria um contrato cuja prestação é executada 
imediatamente em um só momento, extinguindo a obrigação principal” (FARIAS; 
ROSENVALD, 2015, p. 254).
Este tipo de contrato é dividido em dois grupos: o de execução imediata ou 
execução diferida. 
No primeiro caso, a execução se dá ato contínuo à contratação. 
É o caso da compra e venda, quando não realizada a crédito 
(art. 491, CC). O comprador paga o preço e o vendedor entrega 
a coisa. Já na execução diferida, o cumprimento da obrigação 
ocorre algum tempo depois da contratação, mas também em 
um único momento. Em regra, a execução será protraída em 
função do estabelecimento de um termo. O negócio jurídico é 
válido, o credor já é titular de direito subjetivo ao crédito, mas a 
exigibilidade da obrigação é sustida até a verifi cação do evento 
futuro e certo (art. 132, CC) (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 
254).
Denota-se, portanto, que os contratos de execução diferida têm o 
cumprimento da obrigação liquidada de uma só vez, porém esta acontecerá 
apenas no futuro (TARTUCE, 2017). Os contratos de duração se dividem em 
contratos de execução periódica e de execução continuada. “O primeiro subtipo 
é caraterizado pela execução prolongada ao longo do tempo sem interrupção, 
enquanto o segundo subtipo se caracteriza pelas repetições periódicas, sem 
36
 Teoria Geral dos Contratos
regularidade exata (um exemplo seria o contrato de fornecimento de água)” 
(FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 254).
4.8 CONTRATOS PRINCIPAIS E 
ACESSÓRIOS
“Os contratos principais são aqueles que possuem existência original e 
autônoma” (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 256), ou seja, “são aqueles que 
não dependem de nenhum outro contrato ou obrigação para sua existência” 
(TARTUCE, 2017, p. 58).
Em contrapartida, “os contratos acessórios são justamente o oposto, nos 
quais precisam de um contrato principal para justifi car sua existência” (FARIAS; 
ROSENVALD, 2015, p. 256). Assim, “o contrato acessório segue o contrato 
principal e todos os acontecimentos deste, aplicam-se os efeitos ao contrato 
acessório” (TARTUCE, 2017, p. 58), mas é importante salientar, o inverso não 
ocorre, por força do artigo 184 do Código Civil. 
Para efeitos práticos, isso signifi ca que caso o contrato principal venha a ser 
anulado, o acessório também o será, por força do princípio da gravitação jurídica. 
Também é importante sabermos que o contrato acessório não pode trazer mais 
obrigações do que o contrato principal no qual é vinculado (TARTUCE, 2017).
A função principal do contrato acessório é garantir o cumprimento das 
obrigações contraídas no contrato principal (ex.: penhor, hipoteca etc.), ele 
não precisa ter as mesmas partes nos contratos, mas a obrigação tem que ser 
complementar ao principal (GONÇALVES, 2012). Neste sentido, destaca-se a 
importância de garantias especiais das obrigações nos contratos principais para 
garantir os acessórios: 
.
As garantias pessoais representam obrigações secundárias 
assumidas por devedores diferentes, como reforço da garantia 
geral, o que implica, consequentemente, a vinculação do 
patrimônio destas pessoas à satisfação do direito de crédito. 
Além disso, garante-se a obrigação assegurada, em caso de 
pagamento, ou o crédito, em resultado da sub-rogação, ou 
um direito de regresso contra o primitivo devedor (FARIAS; 
ROSENVALD, 2015, p. 256).
Desta forma, garante-se ao credor em um eventual contrato com obrigações 
fi nanceiras de que o compromisso prestado não o deixará em desvantagem 
contratual, nem extinguirá ambos os contratos. 
37
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
4.9 CONTRATOS INTUITU PERSONAE
E IMPESSOAIS
Os contratos personalíssimos, também conhecidos pelo brocardo latino como 
intuitu personae, condizem com a matéria de direito obrigacional, portanto, são os 
contratos celebrados que contêm a obrigação principal exclusiva à qualidade de 
uma pessoa, não podendo esta ser substituída por outra (GONÇALVES, 2012). 
O exemplo seria de um músico mundialmente famoso em que apenas contrai 
um contrato de prestação de serviços com determinado município e apenas este 
músico, por sua representatividade, é quem pode executar a obrigação. 
Os contratos impessoais são justamente o oposto dos contratos 
personalíssimos, nos quais qualquer pessoa inespecífi ca pode executar a 
obrigação, podendo as obrigações serem transferidas, inclusive, após a morte 
do contratante, enquanto os contratos personalíssimos são intransmissíveis 
mortis causa (FARIAS; ROSENVALD, 2015). Um exemplo seria a contratação por 
contrato de prestação de serviço a um pedreiro para construir um muro. Podendo 
essa atividade ser substituída por qualquer pessoa. 
“Serão impessoais os contratos em que é indiferente a pessoa com quem 
se contrata. Grande importância se aufere aos contratos personalíssimos quando 
o seu objeto compreende obrigações de fazer” (FARIAS; ROSENVALD, 2015,p. 259), porque, em regra geral, a obrigação de fazer tem como característica a 
impessoalidade, e conforme o próprio Código Civil, ela será fungível quando outra 
pessoa puder dar cumprimento à obrigação, contudo, se apenas esta estiver em 
condições de realizar, deverá indenizar o credor (art. 249 do CC).
Para melhor fi xação do conteúdo, preparamos uma atividade 
que corresponde a duas questões dissertativas, que deverão ser 
respondidas de forma assertiva conforme o conteúdo estudado. 
1 Disserte sobre o princípio da função social do contrato e por 
que ela é considerada limitadora do princípio da autonomia da 
vontade das partes. 
R.: ____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
38
 Teoria Geral dos Contratos
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
_______________________________.
2 Disserte sobre as partes contratuais e a sua importância para a 
formação do contrato, e responda se a quantidade de pessoas é 
relevante para determinar se o contrato é bilateral ou multilateral. 
R.: ____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
_______________________________.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Nesse primeiro capítulo estudamos a base introdutória da Teoria Geral dos 
Contratos, que é tão comum em nosso dia a dia, nos deparamos com assuntos 
e princípios complexos, que, contudo, foram devidamente destrinchados e 
explicados de forma educativa para melhor compreensão. 
Da Teoria Geral dos Contratos, estudamos, além da sua introdução, a 
matéria, a função dos contratos, para que servem, como se formam e o que é 
preciso para se formarem. Em seguida, aprendemos os princípios contratuais que 
norteiam todos os contratos brasileiros, importantes para a prática profi ssional, 
pois, em eventual discussão contratual, são eles que muitas vezes nortearão um 
eventual sucesso de ganho da lide. 
Por fi m, vimos as diversas caraterísticas dos contratos e suas classifi cações, 
e cada uma delas, por mais que possam parecer repetitivas, representam 
importantes defi nições no regramento legal e prático desses contratos. 
39
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS: FUNDAMENTOS ELEMENTARES Capítulo 1 
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso 
em: 6 jul. 2019.
BRASIL. Decreto-lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942. Lei de Introdução às 
normas do Direito Brasileiro. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
decreto-lei/del4657compilado.htm. Acesso em: 6 jul. 2019.
COELHO, F. U. Curso de Direito Civil: contratos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 
2012. 
DINIZ, M. H. Tratado teórico e prático dos contratos. São Paulo: Saraiva, 
2015. 
DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral do Direito Civil. 29. 
ed. São Paulo: Saraiva, 2012. 
FARIAS, C. C.; ROSENVALD, N. Curso de Direito Civil: contratos - teoria geral 
e contratos em espécie. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2015.
GAGLIANO, P. S. Manual de direito civil: volume único. São Paulo: Saraiva, 
2017.
GONÇALVES, C. R. Direito Civil Brasileiro, volume 3: contratos e atos 
unilaterais. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
MELLO, C. de M. Direito Civil: contrato. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos 
Editora, 2017.
TARTUCE, F. Direito Civil: teoria geral dos contratos e contratos em espécie. 12. 
ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017.
VENOSA, S. de S. Direito Civil: parte geral. 9. ed. São Paulo, Atlas, 2009.
40
 Teoria Geral dos Contratos
CAPÍTULO 2
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: 
DA FORMA À EXTINÇÃO DOS CON-
TRATOS
A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 Conhecer os elementos necessários para a formação da relação contratual.
 Conhecer os elementos de execução e alteração contratual, além dos 
elementos de extinção e dissolução dos contratos.
42
 Teoria Geral dos Contratos
43
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
1 CONTEXTUALIZAÇÃO
Neste segundo capítulo, o enfoque será no desenvolvimento contratual, 
nos elementos necessários para a formação da relação contratual e as suas 
caraterísticas, em seguida estudaremos os elementos necessários para a sua 
execução, bem como de alteração contratual e, por fi m, como o contrato tem seu 
fi m, estudando os elementos de extinção e dissolução dos contratos.
Neste capítulo trabalharemos os aspectos teóricos trazidos pela doutrina, 
mas também pincelando o entendimento utilizado nos tribunais e na prática 
profi ssional na elaboração contratual, fi cando um conteúdo bastante técnico que 
possibilitará o aprendizado para a elaboração, a interpretação e a execução dos 
contratos. 
2 ELEMENTOS FORMATIVOS DA 
RELAÇÃO CONTRATUAL
Conforme estudamos no primeiro capítulo, o contrato nasce com as partes 
exercendo a sua autonomia da vontade e em consenso negociam uma obrigação 
com contraprestação que tenha algum valor. Assim, temos que o primeiro passo 
para a formação do contrato é a expressão da livre e válida vontade entre as 
partes de realizarem um negócio jurídico. 
Esse primeiro passo divide-se, conforme Tartuce (2017), em quatro 
oportunidades, sendo a primeira delas a fase de negociação preliminar 
(puntuação), em seguida a fase de proposta publicitação ou oblação, a fase de 
contrato preliminar e a fase de contrato defi nitivo ou conclusão do contrato. 
Em paralelo também serão abordados os requisitos do Código de Defesa 
do Consumidor, que expõe de forma mais detalhada os requisitos específi cos 
para a formação contratual que envolvam bens e serviços consumeristas, sendo 
complementados subsidiariamente com os requisitos tratados na lei geral (Código 
Civil) nos contratos.
44
 Teoria Geral dos Contratos
2.1 FASE DE NEGOCIAÇÕES 
PRELIMINARES (PUNTUAÇÃO)
Destacamos de forma inicial que esta fase não está prevista no Código Civil, 
contudo, ela faz parte da prática cotidiana da formação contratual, porque seriam 
as primeiras conversas para a formação do negócio jurídico. Anteriormente a 
qualquer assunção de proposta, ela pode estar presente numa troca de e-mails, 
carta de intenções ou qualquer documento prévio à proposta do negócio jurídico. 
Conforme Tartuce (2017), essa fase não geraria obrigação, logo, 
responsabilização civil das partes, como ocorreria na proposta ou policitação nos 
termos do art. 427 do Código Civil. Isso não signifi ca dizer, entretanto, que é um 
debate pacifi cado. 
A mesma doutrina de Flávio Tartuce (2017), citada anteriormente, destaca 
que por mais que essa fase não vincule as partes a obrigações do contrato 
principal, por base no princípio da boa-fé objetiva que vincula todas as fases do 
negócio jurídico, vincularia possíveis obrigações acessórias ou perdas e danos, 
conforme deveriam as partes agir ou deixarem de agir, alinhando-se aos arts. 187 
e 422 do Código Civil.
Assim, para a confi guração da responsabilização civil na fase de puntuação, 
dependerá da análise do caso concreto e de critérios subjetivos, como a confi ança 
depositada na promessa, mas deve pressupor que essa confi guração será aferida 
quando a parte que rompe a confi ança na tratativa preliminar trair as expectativas, 
frustrando o negócio. 
Nesta fase, deve-se ter atenção ao Código de Defesa do Consumidor - CDC 
-, quando a matéria contratual for consumerista, porque a legislação especial, 
sobretudo entre os arts. 30, 38 e 52, prevê uma série de parâmetros quanto à 
oferta doserviço ou produto. Assim, tanto para a fase preliminar quanto para a 
fase seguinte, a fase da proposta (que estudaremos a seguir), é necessário seguir 
essas regras para não invalidar o contrato e ele ser considerado abusivo ou nulo/
anulável. 
Esses parâmetros dão amplitude ao conceito consumerista de oferta, que 
além de séria, clara, precisa e defi nitiva, acaba sendo mais ampla porque se dirige 
a pessoas indeterminadas, para contratação em massa, por exemplo. Devendo 
o fornecedor assegurar toda a proposta, não apenas o preço, mas também as 
quantidades das características dos produtos e serviços veiculados aos públicos 
(GONÇALVES, 2012).
45
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
2.2 FASE DE PROPOSTA, 
POLICITAÇÃO OU OBLAÇÃO 
A fase de proposta é a fase defi nida no artigo 427 do Código Civil, que seria 
a formalização da oferta, sendo classifi cada como uma declaração de vontade 
unilateral à outra parte e, em contrapartida, espera-se a concordância. 
Deve-se ter atenção na proposta, sobretudo em matéria consumerista, 
porque ela vincula o proponente à matéria proposta, sendo que, em matéria 
consumerista, a alteração da proposta ou retirada da oferta deverá ser feita por 
meio público e equivalente ao meio ofertado. 
Para que a proposta seja válida, ela deverá conter o objeto contratual, o 
preço ou valor, a forma de pagamento, o tempo de execução do contrato e os 
pontos essenciais para a formação do negócio jurídico, sendo fi rmado o contrato 
a partir da aceitação (MELLO, 2017).
O doutrinador Flávio Tartuce destaca que quando a matéria for direcionada ao 
público em geral, a promessa permanecerá até encerrar os requisitos essenciais 
do contrato: 
O caráter receptício da Declaração é mantido se a promessa 
for direcionada ao público, conforme consagra o art. 429 do 
Código Civil, hipótese em que o oblato é determinável, não 
determinado. Também nessa hipótese, a proposta vincula 
aquele que a formulou quando encerrar os requisitos essenciais 
do contrato, salvo se o contrário resultar das circunstâncias ou 
dos usos (TARTUCE, 2017, p. 193).
Obviamente, nenhuma proposta tem caráter absoluto, sendo possível revogar 
a oferta ao público nos termos do art. 429, parágrafo único do Código Civil, desde 
que se utilize da mesma via de divulgação (ressalvada as circunstâncias da 
divulgação), respeitando o dever de informar as partes interessadas.
A aceitação da proposta, segundo o Código Civil, deve ser séria, clara, 
precisa e defi nitiva (art. 427), contudo, como dissemos anteriormente, ela não tem 
caráter absoluto, podendo deixar de ser obrigatória nas hipóteses do art. 428, que 
determina: 
I - se, feita sem prazo à pessoa presente, não foi imediatamente 
aceita. Considera-se também presente a pessoa que contrata 
por telefone ou por meio de comunicação semelhante;
II - se, feita sem prazo à pessoa ausente, tiver decorrido 
tempo sufi ciente para chegar a resposta ao conhecimento do 
proponente;
46
 Teoria Geral dos Contratos
III - se, feita à pessoa ausente, não tiver sido expedida a 
resposta dentro do prazo dado;
IV - se, antes dela, ou simultaneamente, chegar ao 
conhecimento da outra parte a retratação do proponente.
Assim, tem-se em primeira hipótese, que é de não obrigatoriedade, e da não 
aceitação imediata, quando a proposta for feita sem prazo à pessoa presente, ou 
seja, imediatamente em sua presença (por meio físico, digital ou qualquer outro 
meio).
A segunda hipótese trata-se de quando a proposta tiver sido feita à pessoa 
ausente, sem prazo, mas com tempo sufi ciente para a resposta do proponente. 
A terceira hipótese de não obrigatoriedade ocorre quando a proposta tiver 
sido feita à pessoa ausente e após o prazo determinado não houver tido a 
resposta. Também há a hipótese de retratação (alteração da proposta) quando 
chegar antes ou em simultâneo à alteração/retratação da proposta ao oblato, 
sendo considerada inexistente a aceitação nessa hipótese (art. 433 do Código 
Civil). 
Há, ainda, uma quinta hipótese, que é condicionada às circunstâncias dos 
fatos, prevista no art. 430 do Código Civil. O artigo prevê que por meio alheio à 
vontade das partes (imprevisto), e a aceitação da proposta chegar tardiamente 
ao conhecimento do preponente, este deverá comunicar o fato ao aceitante sob 
pena de responder por perdas e danos, sendo que a aceitação da contraproposta 
fora do prazo, isto é, com as modifi cações, adições e restrições novas, será 
considerada para efeitos legais, como nova proposta e será de liberalidade do 
proponente aceitar ou não (art. 431 do Código Civil). 
Se o negócio for de costume não ter a aceitação expressa, como compra e 
venda de imóveis, ou houve a dispensa da aceitação expressa pelo proponente, 
a proposta se dará concluída caso não chegue a tempo a recusa, é o que dispõe 
o art. 432 do Código Civil. Contudo, Tartuce (2017) destaca que o referido artigo é 
controvertido pela doutrina, por não respeitar uma importante regra da parte geral 
do Código Civil: 
Enuncia o art. 432 do atual Código Privado que, se o negócio 
for daqueles em que não seja costume a aceitação expressa, 
ou o proponente a tiver dispensado, reputar-se-á concluído o 
contrato, caso não chegue a tempo a recusa. Esse dispositivo 
trata da aceitação tácita ou silêncio eloquente, que é possível 
no contrato formado entre ausentes. O dispositivo é criticado 
por parte da doutrina, pelo fato de contrariar a regra contida 
no art. 111 do Código Civil, pela qual quem cala não consente: 
“O silêncio importa anuência, quando as circunstâncias ou 
os usos o autorizarem, e não for necessária a declaração de 
vontade expressa” (TARTUCE, 2017, p. 194).
47
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
Os contratos entre ausentes, conforme mencionamos anteriormente, seriam 
aqueles em que a proposta é dada à pessoa que não está imediatamente diante 
do proponente. O Código Civil, no art. 434, dispõe que o contrato por pessoa 
ausente será perfeito a partir da aceitação da proposta, contudo, traz consigo três 
exceções em que eles não serão perfeitos (ausentes de qualquer tipo de vício). 
A primeira delas é o texto do art. 433 do Código Civil, que é o caso de 
retratação da proposta; a segunda exceção é a que o preponente tiver se 
comprometido em esperar a resposta e a última exceção é se a proposta não 
chegar no prazo convencionado. Um adendo a estas exceções é de no caso de 
falecimento da parte, os sucessores herdariam a obrigação contratual. 
O local da celebração do contrato será o local em que foi proposto (art. 435 
do Código Civil), na prática, elege-se o foro por convenção das partes. Essa 
regra do art. 435 do Código Civil não se aplica aos contratos internacionais, que 
conforme o art. 9, §2º, da Lei de Introdução ao Direito Brasileiro (LINDB), o local 
do contrato é o da residência do proponente, contudo, essa regra é muito criticada 
pelos doutrinadores internacionalistas de direito privado, como Maristela Basso 
(2013), porque em comparação a outros países, é uma regra que de certa forma 
atrapalha a composição dos contratos internacionais, sobretudo na questão da 
escolha do direito aplicado ao contrato internacional. 
 A denominação das partes envolvidas na fase de proposta pode aparecer de 
diversos modos, alterando sua posição de acordo com quem oferece a proposta 
ou contraproposta, nesse sentido, para simplifi car, a fi gura a seguir ajudará 
nessas defi nições.
FIGURA 1 – DENOMINAÇÃO DAS PARTES ENVOLVIDAS
FONTE: A autora
48
 Teoria Geral dos Contratos
2.3 FASE DE CONTRATO PRELIMINAR
A fase preliminar ao contrato, também conhecida como fase de pré-contrato, 
apesar de estar disciplinada no Código Civil, é uma fase facultativa às partes, não 
sendo obrigatória a sua realização. Contudo, é bastante comum a sua utilização 
para que não haja problemas no contrato principal.
É preciso ter atenção aos contratospreliminares, pois, como não são o 
contrato principal, podem acabar gerando obrigações extracontratuais de perdas 
e danos, se em decorrência deste contrato houver a promessa de celebrar o 
contrato defi nitivo. 
Os requisitos essenciais dos contratos preliminares deverão seguir os 
requisitos comuns a todos os negócios jurídicos, assim, é indispensável que seja 
indiciada a natureza do negócio e a modalidade será caracterizada pelo conjunto 
das cláusulas (NADER, 2018). Assim, destaca-se:
Para que a promessa alcance validade jurídica é indispensável 
que as partes, além de atenderem aos requisitos gerais dos 
negócios jurídicos, defi nam as cláusulas do futuro contrato. 
Tratando-se de negócio de compra e venda, a promessa haverá 
de indicar o objeto, o preço, a modalidade de pagamento e 
qualquer convenção especial que as partes pretendam, como 
a referente à preempção ou preferência. De acordo com a 
doutrina, não há necessidade de se fi xarem, previamente, 
todas as cláusulas e condições do futuro contrato. As 
principais devem fi car assentadas e as demais, embora não 
determinadas, necessitam ser determináveis, excluindo-se o 
arbítrio de uma só parte (NADER, 2018, p. 184).
O contrato preliminar pode ainda se limitar apenas à criação do contrato 
defi nitivo, mas também pode decidir quando iniciará a execução da obrigação, 
ou seja, a obrigação só será executada ou cumprida com o segundo contrato 
(principal) (NADER, 2018).
“Em se tratando de promessa de compra e venda, é possível as partes 
estipularem que a prestação se fará integralmente no ato da escritura defi nitiva ou 
a partir desta, podendo optar, todavia, pelo início de pagamento antes do contrato 
defi nitivo” (NADER, 2018, p. 180). 
Este tipo de contrato não necessariamente precisa de registro para a sua 
validade, mas é interessante o registro para precaver direito de terceiros que 
possam frustrar o negócio jurídico ora pactuado, sobretudo em contratos de mútuo 
e de compra e venda. Em caso de bens imóveis, o registro será feito no Cartório 
de Registro de Imóveis, no caso de bens móveis dependerá do bem; no caso 
49
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
de ser automóvel, o registro será feito no Departamento de Trânsito (DETRAN); 
embarcações marítimas, o registro será feito na Capitania dos Portos (Marinha) 
etc.
É bastante importante que o discente esteja consciente da diferenciação do 
contrato preliminar e oferta. Na prática negocial e contratual, às vezes a situação 
pode ser de difícil distinção. 
Estudamos anteriormente que a oferta se trata de uma fase pré-processual, 
uma tratativa em que não há vínculo entre as partes, apenas o oferecimento da 
formação do negócio jurídico. Em contrapartida, o contrato preliminar seria o 
vínculo pré-constituído entre as partes através de um negócio jurídico bilateral de 
forma inicial.
Esta fase tem previsão legal no Código Civil entre os arts. 462 a 466 e 
conta com pelo menos dois subtipos de contratos e um instituto, o contrato de 
compromisso unilateral (contrato de opção) e o contrato de compromisso bilateral 
e instituto do contrato com pessoa a declarar.
2.3.1 O Contrato de Compromisso 
Unilateral
O contrato de promessa unilateral é previsto no art. 466 do Código Civil 
e dispõe que, para ter efeito, o credor deverá se manifestar no prazo previsto 
da proposta ou na inexistência de prazo, o tempo que for razoável, desde que 
assinado pelo devedor.
Essa modalidade seria uma opção de contrato em que as duas partes 
assinam o contrato, mas apenas uma das partes assume o dever e a obrigação 
de fazer o contrato defi nitivo. Um exemplo prático deste tipo de contrato seria o 
de leasing, no qual o arrendatário tem a opção de compra após o fi nal do aluguel 
(TARTUCE, 2017).
2.3.2 O Contrato de Compromisso 
Bilateral 
O contrato de promessa bilateral é regido pelo art. 463 do Código Civil e 
dispõe dos mesmos deveres de um contrato normal (art. 104 do Código Civil), 
50
 Teoria Geral dos Contratos
assim, as partes ao mesmo tempo assumem a obrigação de celebrar o contrato 
defi nitivo, contudo, esse contrato de promessa bilateral somente terá efeito se 
não tiver cláusula de arrependimento. 
Uma observação importante quanto ao parágrafo único do art. 463 do Código 
Civil, ao falar que o contrato preliminar nessa modalidade deve ser levado ao 
registro competente, a doutrina destaca que essa interpretação deve ser dada de 
forma diferente da leitura literal do artigo, “a palavra ‘deve’, constante do comando 
legal em questão, merece ser interpretada como sendo um ‘pode’” (TARTUCE, 
2017, p. 199).
Com base nessa interpretação, tem-se que se o contrato bilateral de 
promessa não for registrado (no órgão competente, conforme o objeto do contrato) 
haverá a obrigação de fazer os efeitos obrigacionais entre as partes. Contudo, se 
houver o registro, dependendo do objeto, como uma compra e venda de imóveis 
com o registro no Cartório de Registro de Imóveis, poderá gerar uma obrigação 
de dar o direito real da coisa (TARTUCE, 2017). 
Entretanto, se o estipulante não der continuidade ao contrato de promessa, 
este será desfeito e poderá a parte não executante responder por perdas e danos, 
conforme o art. 465 do Código Civil. 
2.3.3 Instituto do Contrato com Pessoa 
a Declarar
A fi gura do instituto do “contrato com a pessoa a declarar”, em que pese não 
seja tecnicamente um contrato, aparece nos contratos preliminares e na seção 
seguinte do Código Civil nos arts. 467 e 471. “A fi gura do contrato com pessoa 
a declarar também é conhecida como a previsão de uma cláusula contratual pro 
amico eligendo” (TARTUCE, 2017, p. 201). 
O objetivo deste instituto, conforme o art. 467 do Código Civil, é de regular 
que uma das partes no momento da conclusão do contrato, poderá facultar/indicar 
outra pessoa que adquirirá os direitos e assumirá a partir do momento em que foi 
celebrado o contrato as obrigações decorrentes deste (art. 469 do Código Civil).
A indicação de outra pessoa deverá ser feita pelo prazo de até cinco dias 
após o encerramento do contrato, se não tiver outro prazo prescrito no contrato 
(art. 468 do Código Civil). A aceitação só será efi caz se for feita da mesma forma 
que o contrato de proposta, ou seja, se for uma proposta por escrito, a aceitação 
51
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
deverá ser por escrito (parágrafo único do art. 468 do Código Civil).
O Código Civil, no art. 470 e seus incisos, faz duas ressalvas quanto à 
inefi cácia da nomeação de pessoas para assunção das obrigações. A primeira 
delas é a não indicação dessa pessoa no prazo ou se a pessoa indicada negar 
sua nomeação. A segunda hipótese de inefi cácia é se a pessoa nomeada era 
insolvente e a pessoa desconhecia a situação da nomeada; em ambos os casos 
poderá haver a substituição do nomeado caso haja previsão contratual de reserva 
de nomeação. Neste sentido: 
A cláusula de reserva de nomeação pode incidir sobre a 
generalidade das espécies contratuais, tanto os que provocam 
efeitos pessoais, quanto reais. Para alguns autores os contratos 
estipulados intuitu personae não comportam a cláusula. Tal 
restrição não se justifi ca, pois cabe ao promittens avaliar o 
seu próprio interesse, julgando a conveniência de admitir a 
substituição da contraparte (NADER, 2018, p. 190).
Devemos nos atentar quanto à execução do contato, pois pode gerar uma 
incerteza em caso de não aceitação pelo terceiro, no qual permanecerá a oferta 
do estipulante. Assim “ao promitente a situação não se altera com a substituição, 
salvo quanto à pessoa da contraparte, perante a qual deverá exercer direitos e 
obrigações” (NADER, 2018, p. 190).
2.4 FASE DE FORMAÇÃO DO 
CONTRATO DEFINITIVO
A fase de formação do contrato defi nitivo é a fase mais esperada pelos 
contratantes, signifi ca a confecção do contrato principal que regera as regras de 
execução e nos termos e obrigaçõesdo negócio jurídico entre as partes, advindo 
à responsabilidade civil contratual. 
A responsabilização civil contratual está prevista no direito obrigacional, 
regulado pelos arts. 389 a 391, que trabalham o inadimplemento das obrigações, 
assim, não se pode confundir com a responsabilização civil extracontratual 
prevista no art. 186 do Código Civil, que é a responsabilidade em decorrência de 
atos ilícitos civis (TARTUCE, 2017).
Um aspecto importante da prática jurídica nesta fase de formação do contrato 
defi nitivo é ter atenção na elaboração desde os termos semânticos utilizados, que 
devem ser claros e objetivos, respeitando a cordialidade e a boa-fé.
52
 Teoria Geral dos Contratos
Além disso, é preciso observar as mais diversas hipóteses de frustração do 
contrato e os possíveis impactos econômicos do negócio, assim, será melhor 
prevenir problemas futuros aos contraentes. É interessante, para sugestão, que 
se faça uma pesquisa sobre o negócio jurídico, descobrindo o que a doutrina e 
sobretudo a jurisprudência têm adotado para o negócio jurídico e as principais e 
atuais divergências do caso.
Lembre-se: é muito melhor um contrato bem redigido, objetivo e 
honesto com cláusulas que previnam a frustração, do que contratos 
prolixos, grandes e com expressões abertas que deem margem para 
discussões. 
Se o objeto do contrato for consumerista, além dos requisitos dos arts. 30 
a 38 do CDC, também deve-se atentar ao artigo 52 do CDC, conforme destaca 
Tartuce (2017, p. 205):
Pelo art. 52 da Lei 8.078/1990, em sintonia com o dever de 
informação, um dos baluartes da boa-fé objetiva, no caso de 
outorga de crédito ou fi nanciamento a favor do consumidor, 
deverá o fornecedor informar ao consumidor prévia e 
adequadamente sobre:
a) O preço do produto ou serviço em moeda nacional corrente.
b) O montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de 
juros.
c) Os acréscimos legalmente previstos.
d) O número e a periodicidade das prestações.
e) A soma total a pagar, com e sem fi nanciamento.
Ressalta-se que o art. 52 do CDC também se aplicará a todas as fases pré-
contratuais. 
3 ELEMENTOS DE EXECUÇÃO 
E ALTERAÇÃO DA RELAÇÃO 
CONTRATUAL
Neste ponto do estudo, estudaremos os elementos de execução do contrato 
53
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
e as possibilidades extrajudiciais e judiciais de alteração da relação contratual. 
3.1 ELEMENTOS DE EXECUÇÃO DO 
CONTRATO
Rapidamente, para iniciarmos com o estudo da execução dos contratos, 
relembraremos que o contrato, para ter efeito, precisa: existir (agente, vontade, 
objeto, forma etc.), ser válido (capacidade do agente, liberdade, licitude, 
possibilidade, objeto determinado/determinável, adequação à ordem pública) e 
ter efi cácia (condição, termo, consequências do inadimplemento negocial etc.). 
Logo, os elementos de execução do contrato são os elementos do negócio 
jurídico, conforme visto no primeiro capítulo. 
Quanto à execução dos contratos, Coelho (2012) expõe que ela pode ser 
classifi cada de duas formas: a execução voluntária e a execução forçada. A 
execução voluntária seria a forma natural de um contrato, no qual o devedor de 
forma voluntária realiza a contraprestação ao credor nos termos do contrato. Já 
a execução forçada seria quando a execução da obrigação ou indenização pela 
não execução tiver que ser submetida ao Judiciário ou à Câmara Arbitral para a 
resolução do litígio.
A execução forçada pode ser distinguida como específi ca ou subsidiária. A 
execução forçada específi ca seria garantir através do Judiciário ou arbitragem os 
efeitos naturais do contrato, como se a execução tivesse sido voluntariamente. 
Enquanto a execução forçada subsidiária seria o resultado através do Poder 
Judiciário ou arbitral, decisão próxima ou simular da execução voluntária ou ainda 
indenização por danos decorrente da omissão obrigacional (COELHO, 2012).
Nos interessa neste momento do estudo justamente a efi cácia do contrato, 
porque é a partir desse plano que a exequibilidade trabalhará no limiar, 
dependendo do caso entre a execução voluntária e involuntária. Para isso, 
existem dois institutos do direito civil que abordam a exequibilidade contratual, 
são eles: a “exceção de contrato não cumprido” e o “direito de retenção”. Ambos 
decorrentes das obrigações descritas no contrato, provenientes das condições, 
do termo de negócio, das consequências do inadimplemento, entre outros. 
54
 Teoria Geral dos Contratos
3.1.1 O Instituto da Exceção de Contrato 
não Cumprido
Nos contratos bilaterais, em regra geral, as obrigações são recíprocas 
às partes contratantes, ou seja, quando ambas são credoras e devedoras ao 
mesmo tempo. Por isso, o instituto bastante antigo da “exceção do contrato não 
cumprido”, previsto no art. 476 e 477 do Código Civil, tem por objetivo garantir a 
autonomia da vontade, paridade das obrigações das partes. 
O instituto determina o seguinte: se uma das partes deixar de cumprir uma 
das obrigações (fi car em mora), a parte que está em mora com a obrigação não 
poderá exigir da outra que também cumpra a obrigação, porque ambas têm o 
dever de cumprir igualmente a obrigação contratual. As prestações não precisam 
ser necessariamente equivalentes, sendo requisito a existência de recíprocos 
crédito e débitos (COELHO, 2012). A doutrina ainda ressalta que essa exceção 
não se aplica aos contratos unilaterais: “A exceção do contrato não cumprido 
é estranha aos contratos unilaterais porque não há neles reciprocidade das 
posições ativa e passiva da obrigação. No contrato unilateral, um contratante é só 
credor, e o outro, apenas devedor” (COELHO, 2012, p. 213).
Assim, a legislação repudia a premissa de pressionar a execução do contrato 
com base na retenção de contraprestação. Por não ter função econômica, lógica 
ou jurídica, essa sistemática combatida pela exceção de contrato não cumprido 
visa manter a justiça e o equilíbrio fi nanceiro entre as partes (COELHO, 2012).
Por fi m, devemos nos atentar que a alegação da exceção de contrato não 
cumprido deve ser feita a partir da imediata constatação da mora, desde que 
ainda haja alguma prestação a entregar (COELHO, 2012). Em razão da mudança 
considerável de patrimônio decorrente da mora do devedor, o credor poderá 
postergar o adimplemento da obrigação após a contraprestação, conforme o art. 
477 do Código Civil. 
3.1.2 Direito de Retenção
O direito de retenção é aquele direito de apropriar, provisoriamente, de coisa 
ou bem, desde que de boa-fé e seja permitido por lei essa retenção. Esse direito 
surge das relações jurídicas estranhas aos negócios jurídicos bilaterais. 
Para melhor exemplifi car, retira-se do art. 1.219 do Código Civil, a seguinte 
situação:
55
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
Art. 1.219. O possuidor de boa-fé tem direito à indenização 
das benfeitorias necessárias e úteis, bem como, quanto às 
voluptuárias, se não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o 
puder sem detrimento da coisa, e poderá exercer o direito de 
retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis. 
Neste exemplo, Coelho (2012) explica que a benfeitoria (construção de 
melhoria, por exemplo) poderá fi car retida até que seja indenizada, desde que ela 
seja feita de boa-fé e seja necessária ou útil. 
Apesar de não estar prevista em lei, a hipótese de retenção em virtude 
contratual, que é a exceção, em detrimento da regra geral de ser regulada em 
hipóteses legais, enxerga-se com bons olhos a interpretação do art. 476 do 
Código Civil. 
O art. 476 do Código Civil dispõe que se prevenindo de dano ao seu 
patrimônio, o contratante adimplente poderá reter temporariamente a obrigação 
contratual até que o devedor regularize sua situação. A ressalva da afi rmação 
de Coelho (2012) quanto a esse instituto é que a retenção não será legítima se 
o contratante exercer sobre coisa ou bens do devedor que sejam estranhasao 
contrato que originou a relação contratual. 
3.2 ALTERAÇÃO CONTRATUAL
A alteração contratual pode ocorrer por diversos motivos, como alteração da 
política econômica, prejuízo imprevisto, aumento de tarifa, aumento de custo do 
serviço, entre outros motivos. Vimos no primeiro capítulo que uma das primeiras 
fontes dos contratos é a autonomia da vontade, em que as partes se expressam 
em querer realizar o negócio jurídico. Pode-se dizer que a alteração contratual se 
dará em duas principais formas: a forma consensual e a forma litigiosa. 
A alteração contratual de forma consensual agirá da mesma forma que a 
criação do contrato, em que as partes, em comum acordo, aceitam a adequação 
do contrato (renegociam as cláusulas), criando-se os aditivos contratuais, 
modifi cando o contrato para a realidade do fato, mantendo assim a relação 
contratual saudável para ambas as partes. 
Em contrapartida, a alteração contratual litigiosa ocorrerá quando as partes 
não chegarem ao consenso na renegociação e então a parte prejudicada moverá 
a discussão para a esfera jurisdicional do estado ou câmara arbitral a fi m de 
revisar o contrato.
56
 Teoria Geral dos Contratos
3.2.1 Da Renegociação Contratual 
O contrato é um acordo de vontades, essa fase de adequação do contrato 
pode ser vital para a manutenção das relações econômicas das duas partes 
contratantes. Sobre o tema, Coelho (2012, p. 226) destaca que a oportunidade 
pode ser interessante para ambas as partes contratantes:
A oportunidade e dimensão da renegociação são assuntos do interesse 
exclusivo dos contratantes. Em geral, decorre da iniciativa de um deles com o 
objetivo de reequilibrar a equação do cálculo de interesses. Pode, contudo, ser 
o resultado do intuito comum de ampliar os proveitos do contrato, por força da 
identifi cação de novas oportunidades de negócio havidas após a sua celebração.
A renegociação contratual visa reequilibrar a relação contratual das partes e 
ela tem como objetivo tanto prevenir a antecipação de eventual mora ou melhoria 
das oportunidades econômicas das partes ou então contornar a inexecução do 
contrato, culposa ou involuntária (COELHO, 2012).
A forma da renegociação contratual obedecerá às regras previstas aos 
contratos, podendo ser utilizada outra forma de prova para maior segurança 
contratual, quando a lei não exigir forma especial, podendo resultar na extinção 
da obrigação para dar viés à novação (renovação contratual) ou simplesmente 
ajuste das obrigações já existentes, tudo dependerá do acordo de vontade das 
partes (COELHO, 2012). 
3.2.2 Da Revisão Judicial ou Arbitral do 
Contrato
Essa é uma matéria controvertida tanto na doutrina quanto nos tribunais e 
encontra bastante resistência na prática jurídica para a alteração contratual. Isso 
porque se pararmos para pensar, uma das partes vai ao poder jurisdicional ou de 
foro para que um terceiro, alheio à relação, decida sobre a autonomia da vontade 
das partes contratantes e altere a liberalidade negocial contraída entre elas contra 
a vontade de uma das partes, sobretudo em um contrato bilateral.
No ordenamento jurídico brasileiro, a jurisprudência e a doutrina utilizam com 
frequência, em específi co, a teoria da imprevisão, com base nas previsões legais 
da revisão contratual que se encontram nos artigos 317, 478 e 480 do Código 
Civil. 
57
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
A teoria basicamente consiste em regular hipóteses restritivas que devam 
ser cumulativas para permitirem a alteração contratual. 
O órgão judicante deverá para lhe dar ganho de causa, apurar 
rigorosamente a ocorrência dos seguintes requisitos: a) 
Vigência de um contrato cumulativo de execução continuada; 
b) alteração radical das condições econômicas no momento 
da execução do contrato, em confronto com as do benefício 
exagerado para o outro; c) onerosidade excessiva para 
um dos contraentes e benefício exagerado para o outro; d) 
imprevisibilidade e extraordinariedade daquela modifi cação, 
pois é necessário que as partes quando celebraram o contrato, 
não possam ter previsto esse evento anormal, isto é, que está 
fora do curso habitual das coisas, pois não se poderá admitir 
a rebus sic santibus se o risco advindo for normal ao contrato 
(TARTUCE, 2017, p. 230).
Basicamente, são requisitos essenciais da teoria da imprevisão que o fato 
seja superveniente diante de uma imprevisibilidade somada a uma onerosidade 
excessiva decorrente deste fato (TARTUCE, 2017).
Se o fato for superveniente, que desequilibre a relação contratual no decorrer 
do cumprimento do negócio jurídico, esta lesão ao patrimônio não poderá subsistir, 
assim, a parte prejudicada poderá alegar a onerosidade excessiva e permitir a 
revisão do contrato (FARIAS; ROSENVALD, 2015). Ressalta-se que em que pese 
o art. 478 ao utilizar a expressão “invalidação do contrato”, a jurisprudência tem 
interpretado a norma - em conjunto aos arts. 317 e 479 do Código Civil - como 
“Revisão do contrato”, para evitar a extinção precoce de forma desnecessária 
(GONÇALVES, 2012). 
Por fi m, se o contrato for consumerista, o Código de Defesa do Consumidor 
não exige a comprovação da teoria da imprevisão, já que conforme o artigo 6º, 
inciso V do CDC, é direito básico do consumidor a revisão de cláusulas contratuais 
que tornem as prestações excessivamente onerosas (COELHO, 2012). 
4 EXTINÇÃO E INVALIDADE DO 
CONTRATO
Todo contrato tem um começo, um meio e um fi m, mesmo que este fi m 
não seja determinado ou possa ser determinável, logo, o destino natural de um 
contrato é a sua extinção, com o cumprimento de todas as obrigações e deveres 
que dele advieram. 
58
 Teoria Geral dos Contratos
Estudamos anteriormente que há diversas formas de extinguir um negócio 
jurídico, seja através da anulabilidade ou da nulidade. A depender do caso 
concreto, sequer haveria sua constituição ou já nascerá natimorto de pleno direito 
ou ainda por resolução e resilição decorrentes de fatos jurídicos supervenientes 
as suas formações (TARTUCE, 2017).
Há, segundo Tartuce (2017), três formas de extinção de contrato, sendo elas:
• Extinção normal do contrato. 
• Extinção por fatos anteriores à celebração. 
• Extinção por morte, que estudaremos em pormenores, nos subtópicos a 
seguir.
Os fatos posteriores à celebração do contrato serão trabalhados no tópico de 
dissolução, para melhor emprego da técnica jurídica.
4.1 EXTINÇÃO NORMAL DOS 
CONTRATOS 
Como dito anteriormente, todo contrato tem um começo, meio e fi m, e há 
a extinção e o fi m de todo contrato, mesmo que o prazo seja determinado ou 
determinável. O contrato, ao cumprir todas as suas obrigações, automaticamente 
se extinguirá. Assim, as partes devem colaborar para que o seu resultado seja 
atingido com excelência e da melhor forma possível. 
4.2 EXTINÇÃO POR FATOS 
ANTERIORES À CELEBRAÇÃO
A extinção por fatos anteriores à celebração está prevista nos arts. 165, 167 
e 171 do Código Civil, na parte geral do código. Eles trazem as hipóteses de 
nulidades e anulabilidades do negócio jurídico, assim, causas de extinção por 
fatos anteriores à celebração. 
Contudo, essa defi nição pode ser controversa se for analisada sob a ótica 
de negócio jurídico com uma nulidade absoluta, porque é requisito de existência 
não haver nulidade, então, se há nulidade, o negócio jurídico nunca existiu de 
fato. Desta forma, não haveria de se falar em extinção de algo que nunca existiu. 
Entretanto, para a doutrina majoritária, incorre o seguinte caso:
59
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
Os contratos são passíveis de extinção por nulidade absoluta 
ou relativa. Contrato nulo é o que, embora reúna os elementos 
essenciais à formação do negócio jurídico, contraria norma de 
ordem pública. Os efeitos jurídicos da nulidade retroagem à 
conclusão do contrato. Contrato anulável se distingue do nulo 
porque padece de vício social oude vontade e seus efeitos 
retroagem à citação (NADER, 2018, p. 200).
Assim, apesar da controversa nesta discussão, haveria uma lógica para se 
justifi car essa classifi cação de extinção por fatos anteriores à celebração. Porque 
os efeitos retroagem à conclusão do contrato e esses efeitos permanecerão até o 
reconhecimento da ofensa à ordem pública e nulidade. 
4.3 EXTINÇÃO POR MORTE DE UM 
DOS CONTRATANTES
Por fi m, das causas de extinção dos contratos, temos a extinção por morte 
de um dos contratantes, é uma situação do direito civil que envolve contratos 
personalíssimos, que são aqueles que apenas uma pessoa específi ca consegue/
pode cumprir com a obrigação contraída. 
Para outros tipos de contratos, em sua maioria e a título de exemplo, os 
contratos de locação residencial, no qual costumeiramente existe uma previsão 
contratual, de que em caso de morte do contratante a obrigação é repassada para 
seus herdeiros e sucessores se for possível (art. 11 da Lei nº 8.245/91) ou no 
limite da sua herança (art. 836 do Código Civil).
Caso não exista a quem transmitir a obrigação, o contrato se tornará inefi caz 
e resolvido tacitamente nos termos do art. 474 do Código Civil. 
4.4 DA INVALIDADE DO 
CONTRATO
Os requisitos mínimos para a validade do contrato são os requisitos do art. 
104 do Código Civil. Conforme estudamos na teoria geral do primeiro capítulo, 
são os mesmos requisitos do negócio jurídico, ou seja, quem contratou deve ser 
civilmente capaz, o objeto do contrato deve ser lícito, o objeto também deve ser 
possível e determinado ou determinável e observar a forma, quando for obrigatória 
pela legislação seguir alguma. 
60
 Teoria Geral dos Contratos
Além desses requisitos, o contrato tem que ser perfeito, livre de quaisquer 
vícios que possam ser causa de anulação (por anulabilidade ou nulidade). Temos, 
portanto, que os contratos inválidos são aqueles:
QUADRO 1 – CONTRATOS INVÁLIDOS
Contraídos por incapazes não representados Objeto sem observância da forma legal
Com objeto ilícito Com defeito de vício social
Com objeto impossível Firmado com fraude a credores
Com objeto indeterminável Firmado com simulação
Com defeito de consentimento Firmado por erro
Firmado com dolo Firmado com lesão
FONTE: A autora
Lembrando que um contrato inválido é aquele sem os requisitos de 
essencialidade, é causa de nulidade do negócio jurídico por ser vício insanável. 
5 DISSOLUÇÃO CONTRATUAL
A dissolução, muito confundida na prática com rescisão contratual, é a 
modalidade de encerramento do vínculo entre as partes. A rescisão contratual 
pode ser voluntária, em acordo entre as partes, sem submeter ao processo 
judicial ou arbitral, a depender do caso com pagamento de penalidade, bem como 
pode ser involuntária a uma das partes, devendo ser requerida através da ação 
de rescisão contratual que tem o rito comum conforme o Código de Processo Civil 
de 2015 ou em procedimento arbitral, a depender do negócio jurídico processual.
Existem duas espécies de dissolução contratual, as denominadas resolução 
e resilição. A resolução seria o encerramento do contrato por descumprimento 
contratual no decorrer do contrato, enquanto a resilição, dissolução por “vontade 
bilateral ou unilateral, quando admissível por lei, de forma expressa ou implícita, 
pelo reconhecimento de um direito potestativo” (TARTUCE, 2017, p. 315).
61
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
5.1 DA RESILIÇÃO 
Como mencionado outrora, a resilição é o encerramento do contrato por 
vontade unilateral ou bilateral, quando admissível em lei de forma expressa ou 
implícita. 
Quando unilateral, a previsão legal está no art. 473 do Código Civil, e a 
dissolução do contrato deriva de negócio jurídico unilateral, assim, a parte titular 
declarará o encerramento do vínculo contratual ou por lei. Segundo Coelho (2012, 
p. 250), destacam-se algumas hipóteses de resilição unilateral:
No Código Civil, estão previstas algumas hipóteses expressas 
de resilição unilateral: a) o adquirente de coisa locada pode 
denunciar a locação, a menos que do contrato registrado 
conste cláusula de vigência em caso de alienação (art. 576); 
b) o mandato cessa pela revogação do mandante ou pela 
renúncia do mandatário (art. 682, I); c) o passageiro pode 
desistir da viagem antes de iniciada, desde que comunique 
o transportador a tempo de viabilizar a renegociação da 
passagem (art. 740). Ademais, abriga uma hipótese em que a 
resilição unilateral é implícita, por se encontrar nos meandros 
da noção imprecisa de “suspensão do objeto do contrato”: 
trata-se do direito titulado pelo dono da obra de, a qualquer 
momento, desconstituir o contrato de empreitada, mediante 
indenização do empreiteiro (art. 623).
Por ser um exercício de direito previsto em lei, não há de se falar em multas 
penais ou compensatórias pela denúncia do contrato unilateral, pois não há 
previsão no próprio texto legal, não gerando obrigatoriedade, diferentemente da 
hipótese da previsão contratual de penalidade da denúncia. 
Quando a resilição for bilateral, o contrato será extinto por força do negócio 
jurídico fi rmado através do distrato exercido pela autonomia da vontade das partes, 
o que na prática seria um contrato acessório que determina o encerramento do 
contrato principal. No distrato também estarão os efeitos e as consequências da 
extinção do negócio jurídico principal; neste contrato, podem conter regras de 
indenização, negócios jurídicos processuais, encerramento do vínculo entre as 
partes, entre diversos tipos de possibilidades.
Quanto à distinção de resilição unilateral e bilateral:
A princípio, a resilição só pode ser bilateral. Em decorrência 
da vinculação das partes ao contrato, nenhuma delas pode, 
em regra, desvencilhar-se das obrigações contratadas por 
simples declaração unilateral de vontade. Equivaleria uma 
tal possibilidade à desfuncionalização completa do instituto 
contratual. Se fosse sufi ciente ao contratante interessado em 
62
 Teoria Geral dos Contratos
se desobrigar, em qualquer circunstância, mera declaração 
unilateral de vontade, o contrato simplesmente não cumpriria a 
função de gerar obrigações (COELHO, 2012, p. 248).
Assim, a regra seria a resilição bilateral, enquanto a unilateral seria exceção 
condicionada à previsão contratual ou expressa em lei, desde que haja prévia 
notifi cação à parte contratante denunciada. 
5.2 A RESOLUÇÃO DOS CONTRATOS
Existem quatro categorias de resolução tipifi cadas pela doutrina e agora 
estudaremos cada uma delas: a) a inexecução voluntária; b) a inexecução 
involuntária; c) a cláusula resolutiva tácita; d) a resolução por onerosidade 
excessiva. 
5.2.1 A Resolução por Inexecução 
Voluntária 
A resolução por inexecução voluntária estaria relacionada à impossibilidade 
da prestação por culpa ou dolo do devedor. Se por culpa, sujeitará a parte 
inadimplente ao ressarcimento de perdas e danos, conforme arts. 389, 390, 402 e 
404 do Código Civil.
Há de ser fazer uma ressalva ao art. 475 do Código Civil, que especifi camente 
a parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, se não 
preferir exigir o cumprimento e, mesmo assim, caberá a indenização pelas perdas 
e danos. Neste sentido, destaca-se: 
Especifi camente, enuncia o art. 475 do CC que a parte lesada 
pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, mas, 
se não preferir essa resolução, a parte poderá exigir da outra 
o cumprimento do contratado, de forma forçada, cabendo em 
qualquer uma das hipóteses, indenização por perdas e danos. 
No tocante a essas perdas e danos, prevê o Enunciado n. 31 
do CJF/STJ que dependem de imputação da causa da possível 
resolução. Em outras palavras, o enunciado doutrinário afi rma 
que a resolução em perdas e danos depende da prova de 
culpa do devedor, ou seja, que a responsabilidade contratual 
também é, em regra, subjetiva (TARTUCE, 2017, p. 316).
O dever de ônus da prova deverá ser invertidoem favor ao credor, se for 
compreendido que houve uma inadimplência contratual. Este entendimento tem 
63
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
sido melhor aceito na praxe jurídica.
Uma teoria interessante para essa parte do estudo e que é utilizada como 
fi ltro para a extinção antecipada por inexecução obrigacional, é a Teoria do 
Adimplemento Substancial, que visa cumprir a função social e evita a extinção 
precoce do contrato que está próximo de ser extinto naturalmente, bem como 
gerar uma lide no Judiciário (TARTUCE, 2017).
A teoria assim considera que quando quase todas as obrigações contratuais 
tiverem sido adimplidas, ou seja, o adimplemento de uma parte substancial das 
obrigações, não caberá a extinção do contrato, mas apenas a mutação para 
outros efeitos jurídicos que mantenham o contrato em vigência até o seu término 
(TARTUCE, 2017).
5.2.2 A Resolução por Inexecução 
Involuntária
Quando a inexecução do contrato ocorrer por fatores alheios às partes 
contratantes ou fatos extracontratuais, que são imprevisíveis (fortuito) ou 
previsíveis, mas não imutáveis (força maior), que não ocorram pela vontade 
das partes contratantes, tem-se que ocorre a extinção por inexistência de 
adimplemento de forma involuntária (TARTUCE, 2017). 
Nestes casos, não haverá responsabilização civil por perdas e danos, sendo 
devolvido o que foi pago e retornado a obrigação à situação originária. Contudo, 
Tartuce (2017, p. 321) elenca três hipóteses de indenização mesmo nesses 
eventos. São elas:
• Se o devedor estiver em mora, a não ser que prove ausência 
de culpa ou que a perda da coisa objeto da obrigação ocorreria 
mesmo não havendo o atraso (art. 399 do CC). 
• Havendo previsão no contrato para responsabilização por 
esses eventos por meio da cláusula de assunção convencional 
(art. 393 do CC), cuja validade é discutível nos contratos de 
consumo e de adesão.
• Em casos especifi cados em norma jurídica, como consta, 
por exemplo do art. 583 do CC, para o contrato de comodato, 
segundo o qual “correndo risco o objeto do comodato, 
juntamente a outros do comodatário, antepuser este a 
salvação dos seus abandonando o do comodante, responderá 
pelo dano ocorrido, ainda que se possa atribuir a caso fortuito, 
ou força maior”. 
64
 Teoria Geral dos Contratos
Atualmente, está cada vez mais comum ter esse tipo de previsão contratual 
para responsabilização de eventos alheios, sobretudo para resguardar o 
patrimônio que é objeto do contrato. 
5.2.3 A Resolução por Cláusula 
Resolutiva Tácita
A cláusula contratual resolutiva também pode ser expressa, ou seja, ter em 
previsão contratual a sua forma e condição, como se ocorrer determinado evento, 
automaticamente o contrato estará resolvido. Nesta hipótese, não carece de 
interpelação judicial, inclusive será aventada a falta de interesse de agir nesta 
ocorrência, caso seja levado ao Judiciário ou Câmara Arbitral. Neste sentido, 
Nader (2018, p. 204) destaca: 
Caracterizada a resolução expressa, a parte lesada não 
carece de ajuizamento de ação judicial, salvo se optar por 
exigir o cumprimento da obrigação, pleitear perdas e danos ou 
formular ambos pedidos. O litígio judicial pode ser instaurado, 
contudo, pelo acusado de inadimplência, pretendendo 
preservar o vínculo contratual, além de exigir o ressarcimento 
da contraparte, quando, naturalmente, deverá provar o 
cumprimento de sua obrigação. 
Se o confl ito vier a ser objeto de ação judicial, tratando-se 
de matéria de fato, o descumprimento deverá ser provado 
em juízo, a fi m de que produza os efeitos convencionais e os 
de lei. O princípio “o ônus da prova cabe a quem alega” nem 
sempre prevalece. Se a inexecução alegada refere-se a não 
pagamento, por exemplo, a prova caberá à parte acusada de 
inadimplemento. 
A resolução por cláusula resolutiva tácita, que é prevista no art. 474 do 
Código Civil, ocorre quando a resolução do contrato decorre em função da lei, 
e está presente todos os negócios jurídicos, porém é necessária a interpelação 
judicial para resolver o contrato. 
Neste caso, essa resolução pode estar relacionada, a depender do caso, com 
condição e termo que gerou o inadimplemento. Dependendo da análise do caso 
concreto através da interpelação judicial, gerará a extinção por fato superveniente 
à celebração. Ela está prevista em todo contrato bilateral, garantindo o equilíbrio 
econômico e ético dos negócios jurídicos (MELLO, 2017).
65
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
5.2.4 A Resolução por Onerosidade 
excessiva
A resolução por onerosidade excessiva é a inexigibilidade da prestação 
decorrente da alteração por circunstâncias extraordinárias, que desequilibram 
a relação entre as partes contratuais. Conforme explicam Farias e Rosenvald 
(2015, p. 540): 
A resolução por inexigibilidade da prestação decorrente da 
alteração de circunstâncias se diferencia da extinção do 
contrato por impossibilidade. Aqui, não há como efetuar a 
prestação, que se impossibilitou em si mesma, propiciando o 
inadimplemento absoluto. Na inexigibilidade, as circunstâncias 
supervenientes tornam excessivamente onerosa a continuação 
da relação, difi cultando a prestação; mesmo assim, esta ainda 
é “penosamente” realizável ainda que o objeto contratual tenha 
sido modifi cado, isto é, a princípio, não há inadimplemento 
absoluto.
É importante ressaltar que esse instituto visa como última alteração depois 
da tentativa de alteração contratual para equalizar as relações contratuais. Esse 
instituto seria uma espécie de exceção ou fl exibilização ao princípio do pacta 
sunt servanda, permitindo a modulação das cláusulas contratuais para a sua 
adequação ao equilíbrio da relação jurídica. 
Essa resolução não é aplicada também em razão da onerosidade para os 
contratos cumulativos e aleatórios, porque esse tipo de contrato depende da sorte 
e os contraentes assumem o risco do negócio para eles, logo não é aceito pela 
doutrina nem pela jurisprudência (FARIAS; ROSENVALD, 2015).
5.3 DISSOLUÇÃO PARCIAL 
O contrato não precisa ser extinto ou resolvido em sua totalidade. Ele 
pode ter apenas parte das obrigações contraídas resolvidas, permanecendo a 
manutenção do contrato com as demais obrigações. 
Coelho (2012) destaca que a dissolução parcial pode ser fruto derivado da 
resilição ou da resolução. Quando for da resilição bilateral, em que distrataram 
apenas parte do contrato, será uma espécie de renegociação do próprio contrato. 
Quando se tratar de resilição unilateral, a dissolução parcial só caberá se houve 
essa previsão expressa no contrato.
66
 Teoria Geral dos Contratos
Inobstante, a resolução também pode ser parcial quando as obrigações 
forem divisíveis, desde que se obtenha um prévio acordo com a outra parte 
contratante (COELHO, 2012).
Para melhor fi xação do conteúdo, preparamos uma atividade 
que corresponde a duas questões dissertativas, que deverão ser 
respondidas de forma assertiva conforme o conteúdo estudado.
1 Disserte sobre a possibilidade de responsabilização civil das 
partes provenientes de eventual dano causado por um contrato 
preliminar.
R.: ____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
_______________________________.
2 Disserte sobre o que é e quais são os elementos da exceção do 
contrato não cumprido, demonstrando o fundamento legal.
R.: ____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
___________________________________________________________________________________.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
O conteúdo de direito contratual é sem dúvida bastante complexo, porque 
além da matéria específi ca dos contratos, ele envolve diversas áreas do direito 
cível, como a parte geral ou o Código de Defesa do Consumidor. Assim, é 
imprescindível o estudo do direito obrigacional e dos requisitos básicos do direito 
civil para melhor compreensão do direito contratual. 
67
DESENVOLVIMENTO CONTRATUAL: DA FORMA À EXTINÇÃO DOS 
CONTRATOS Capítulo 2 
Percebemos que há também a problemática da interpretação dos artigos 
conforme a jurisprudência e a doutrina em consonância ao caso concreto, em 
parte a culpa é do legislador, que à época não pensou em todas as hipóteses, 
além, é claro, da evolução natural das interações sociais, que sempre deixa as 
leis defasadas com a velocidade de seu crescimento. 
No próximo capítulo, serão estudados os contratos em espécies, assim, todo 
esse conteúdo visto até então fará sentido e saberemos como aplicá-lo em cada 
tipo específi co de contrato.
68
 Teoria Geral dos Contratos
REFERÊNCIAS
BASSO, M. Curso de Direito Internacional Privado. 3. ed. São Paulo: Atlas, 
2013.
BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso 
em: 6 jul. 2019.
BRASIL. Lei n. 8.245, de 18 de outubro de 1991. Dispõe sobre as locações dos 
imóveis urbanos e os procedimentos a elas pertinentes. Disponível em: http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8245.htm. Acesso em: 6 jul. 2019.
BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do 
consumidor e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/l8078.htm. Acesso em: 6 jul. 2019.
BRASIL. Decreto-lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942. Lei de Introdução às 
normas do Direito Brasileiro. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
decreto-lei/del4657compilado.htm. Acesso em: 6 jul. 2019.
COELHO, F. U. Curso de Direito Civil: contratos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 
2012. 
FARIAS, C. C.; ROSENVALD, N. Curso de direito civil: contratos - teoria geral e 
contratos em espécie. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2015.
GONÇALVES, C. R. Direito Civil Brasileiro, volume 3: contratos e atos 
unilaterais. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
MELLO, C. de M. Direito civil: contratos. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos 
Editora, 2017.
NADER, P. Curso de Direito Civil, volume 3: contratos. 9. ed. Rio de Janeiro: 
Forense, 2018. 
TARTUCE, F. Direito Civil: teoria geral dos contratos e contratos em espécie. 12. 
ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017.
CAPÍTULO 3
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS
A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 Conhecer as principais espécies de contratos, suas características e defi nições.
 Estudaremos as aplicações do contrato de compra e venda, suas características, 
obrigações legais, forma etc.
70
 Teoria Geral dos Contratos
71
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
1 CONTEXTUALIZAÇÃO
Neste terceiro capítulo, o enfoque será nos principais contratos em espécie, 
estudando os elementos necessários para a formação da relação contratual e 
para a sua execução conforme suas características.
Assim, serão estudados os aspectos legais e práticos de sua formação e 
as relevâncias teóricas trazidas pela doutrina, demonstrando os elementos 
essenciais à prática forense, favorecendo o aprendizado em direito contratual, 
substanciado aos ensinos dos capítulos anteriores, assim, teremos uma vasta 
noção e aprendizado para a elaboração, a interpretação e a execução dos 
contratos em espécies. 
2 DO CONTRATO DE COMPRA E 
VENDA 
Para a legislação civilista, o conceito de contrato de compra e venda é aquele 
contrato “que o vendedor se obriga a transferir o domínio de algo e o comprador 
deve lhe pagar em dinheiro, sendo a sua forma pura e perfeita (simplifi cada) 
quando as partes acordarem no objeto e no preço” (arts. 481 e 482 do Código 
Civil). Contudo, é necessário realizar uma ressalva que “sobre imóveis de valor 
superior a 30 salários mínimos, classifi ca-se como contrato formal (aquele que 
tem elementos obrigatórios), por ser, nesse caso, a escritura pública indispensável 
à validade do negócio (art. 108 do Código Civil)” (COELHO, 2012, p. 311). 
Traduzindo este conceito, signifi ca dizer que os contratos de compra e venda 
são os mais comuns de se verifi car na prática jurídica. Sua abrangência é muito 
ampla, basicamente sua conceituação é o instrumento para consolidar a venda 
e, consequentemente, a compra de algo, através da troca de algum bem com 
algum tipo de contraprestação fi nanceira. Estes bens podem ser, por exemplo, um 
imóvel, ações de empresas, produtos alimentícios etc.
É importante relembrarmos que a aquisição de propriedade em regra geral 
e legal somente será efetiva para bens móveis (art. 1.276 do CC) quando houver 
a tradição (troca). Enquanto para os bens imóveis é necessário o registro do 
translado (contrato) no órgão competente (art. 1.245 do CC). 
Em termos de classifi cação, os contratos de compra e venda são 
bilaterais (geralmente), obrigatoriamente, sinalagmáticos e onerosos. Sendo as 
72
 Teoria Geral dos Contratos
contraprestações equivalentes à transferência do domínio do objeto, calculadas 
de forma subjetiva entre as partes (COELHO, 2012). 
A doutrina esclarece que há três possibilidades de status jurídicos (comercial, 
consumerista ou civil) para os contratos de compra e venda, que dependerão de 
acordo com a qualidade das partes:
Depende da qualidade das partes. Se o vendedor é legalmente 
fornecedor (CDC, art. 3º), como tal considerada a pessoa física 
ou jurídica que explora atividade econômica de fornecimento 
de produtos ao mercado, e o comprador é consumidor (art. 
2º), vale dizer, o destinatário fi nal destes, a compra e venda 
é contrato de consumo. Se, por outro lado, as duas partes se 
enquadram no conceito legal de empresário (CC, art. 966), e é 
exercente de atividade econômica de produção ou circulação 
de bens ou serviços, a compra e venda é empresarial quando 
tem a natureza de insumo da empresa. Não se verifi cando, por 
fi m, nenhuma dessas hipóteses, o contrato é civil (COELHO, 
2012, p. 311).
Desta forma, é muito importante, sobretudo em eventual lide contratual, 
identifi car quais são as partes e suas qualidades, para então direcionar o direito 
aplicável, de mesmo modo, na confecção do respectivo contrato. 
O Código de Defesa do Consumidor tem normas próprias para os contratos 
consumeristas, devendo ter em seu conteúdo, sobretudo, observância aos 
parâmetros dos arts. 53 e 54 do Código Civil. Essa obrigatoriedade serve para 
a proteção do comprador, que é a parte hipossufi ciente no contrato de compra e 
venda consumerista. 
Assim, os contratos empresariais (aqueles contratos atinentes ao negócio 
comercial das partes, como a compra de grãos, a compra e venda de safra etc.) 
tendem a ser mais complexos e detêm normas específi cas de acordo com o objeto 
do contrato, entretanto, as partes sempre serão consideradas em equivalentes 
posições de negociação. 
2.1 OS ELEMENTOS DO CONTRATO 
DE COMPRA E VENDA
Os elementos do contrato de compra e venda são divididos entre elementos 
objetivos (basicamente os elementos atinentes ao objeto do contrato) e elementos 
subjetivos (os elementos atinentes às partes do contrato) a depender da reação 
contratual entre as partes e do objeto do contrato. 
73
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
2.1.1 O Vendedor do Domínio de 
Determinado Bem
Não há restrição quanto ao sujeito do contrato, podendo ser qualquer um, 
desde que tenha capacidade processual e capacidade civil plena (ou parcial com 
representação legítima) para assumir o negócio jurídico de vender o bem em seu 
domínio. 
Coelho (2012) destaca o lado patrimonialistado Código Civil, no qual 
se deve ter atenção aos bens vendidos entre familiares, especialmente entre 
descendentes e ascendentes. Lembrando que nessa situação os demais 
herdeiros (se houver) e o cônjuge (em regime de casamento universal de bem 
e casamento parcial) deverão anuir com a venda (arts. 496 ou 1.829, I, ambos 
do Código Civil), sendo possível a venda e a compra feita entre os cônjuges nos 
casos em que o patrimônio à venda estiver excluído do patrimônio comum (art. 
499 do Código Civil). 
Desse modo, se o marido, antes do casamento em regime de 
comunhão parcial, era proprietário de um apartamento, esse 
bem não se comunica. É possível, então, sua venda à esposa, 
desde que ela possua, para pagar pelo imóvel, dinheiro 
também excluído da comunhão. Na venda entre cônjuges, o 
bem transita sempre da parte não comunicada do patrimônio 
de um deles para a do outro (COELHO, 2012, p. 316).
Assim, desde que os patrimônios não se comuniquem, é possível que as 
partes realizem o contrato de compra e venda. 
2.1.2 O Comprador do Domínio de 
Determinado Bem
Como destacamos anteriormente, o Código Civil tem um viés patrimonialista, 
visando garantir o patrimônio do vendedor, assim, impõe mais restrições a esta 
parte do que ao comprador. 
Isso signifi ca que qualquer sujeito de direito pode comprar algo, desde que 
tenha capacidade civil plena (ou por representação legal, nas outras hipóteses) 
e legitimidade à referida compra, sendo caso de nulidade ou anulabilidade do 
negócio jurídico em eventual incapacidade ou ilegitimidade. Diversos são os 
exemplos de nulidades, para fi ns didáticos, extraímos da doutrina: 
74
 Teoria Geral dos Contratos
Os administradores de bens alheios e os responsáveis por 
sua administração temporária ou destinação não os podem 
adquirir. Como se encontram relativamente a tais bens em 
situação privilegiada e, em alguns casos, têm a incumbência 
legal de representar o titular do domínio, poderiam locupletar-
se indevidamente com o contrato. Assim, o tutor, curador, 
testamenteiro e administrador não podem comprar os bens que 
administram; também os funcionários públicos estão impedidos 
de adquirir os da pessoa jurídica a que servem, assim como os 
juízes e outros serventuários ou auxiliares da justiça não têm 
o direito de comprar certos bens, nem os leiloeiros ou seus 
prepostos podem contratar a compra daqueles de cuja venda 
se encarregam (CC, arts. 497 e 498) (COELHO, 2012, p. 316).
Assim, deve-se atentar aos requisitos subjetivos de capacidade e legitimidade 
do comprador de modo a não levar o negócio jurídico à nulidade absoluta ou 
anulabilidade.
2.1.3 Da Coisa (Objeto do Contrato)
“A coisa é o objeto do contrato de compra e venda, podendo ser qualquer 
coisa móvel ou imóvel, certo ou incerto, corpóreo ou incorpóreo, desde que o 
sujeito que está vendendo tenha legitimidade e capacidade para a venda do 
objeto” (COELHO, 2012, p. 317). O objeto só terá validade no contrato se for lícito 
e determinado ou determinável (identifi cado pelo gênero e quantidade). 
Pode-se exemplifi car com um contrato de compra e venda de produção de 
safra de arroz; é um objeto lícito, porque é permitido por lei, não é um objeto 
determinado, porque não se sabe quanto a safra irá produzir, mas é determinável, 
porque determinou-se o gênero e a quantidade (mesmo que abstrata) do negócio. 
Conforme o Código Civil no art. 483, o objeto não precisa estar no patrimônio 
de quem vendeu no momento da assinatura do contrato, assim, ele pode ser atual 
ou futuro, porém este contrato será inexequível (sem efeito), se o objeto não vier 
a existir no futuro. 
Em caso de objeto futuro, o vendedor deverá ter meios de fabricar a coisa 
ou adquirir para disponibilizar a venda na data aprazada (COELHO, 2012), sendo 
vedada a herança de pessoa viva, por força do art. 426 do Código Civil. Portanto, 
quando for objeto futuro, deve necessariamente o contrato ter execução diferida 
(execução feita em apenas um ato, porém em momento futuro):
A compra e venda de coisa futura, porém, não pode ter execução 
imediata, sob pena de confi gurar-se ilicitude, eventualmente 
75
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
até mesmo para fi ns penais (crime de estelionato, tipifi cado 
pela transferência de mais direitos do que os titulados). O 
contrato, nesse caso, deve ser necessariamente de execução 
diferida (COELHO, 2012, p. 317). 
Numa classifi cação bem abrangente, temos que a coisa pode ser corpórea 
e incorpórea. Conforme destaca Pereira (2017, p. 77), a distinção entre eles é: 
“corpórea, como os imóveis, os móveis materiais, os semoventes. Incorpórea, 
como os valores cotados em Bolsa, os direitos de invenção, os direitos de autor e 
os que lhes são conexos, os créditos etc.”.
Coisa móvel é toda aquela coisa que seja deslocável ou que a lei considera 
deslocável, a exemplo dos carros, semoventes, aparelhos celulares etc.; e bens 
imóveis são todas aquelas coisas que não se movem, como uma casa, um terreno, 
uma estrada de ferro etc. Para o Código Civil, há bens deslocáveis, que são 
considerados para efeitos legais como bens imóveis, que são os casos previstos 
no art. 1.473, do Código Civil, destacando-se os incisos VI e VII, respectivamente, 
os navios e as aeronaves. 
Nas negociações das coisas incorpóreas não é incomum na prática forense 
utilizar o nome do contrato como cessão de direitos, mas nem por isso se afastam 
as características de um contrato de compra e venda, aplicando-se os princípios 
e as regras do respectivo título (PEREIRA, 2017). Um exemplo prático e didático 
seria a venda do direito de usufruto da propriedade, em que pese seja algo 
incorpóreo, cede-se o direito a outra pessoa, através do contrato de compra e 
venda. 
2.1.4 Do Preço (Valor do Contrato)
Para o contrato de compra e venda, necessariamente, deve-se haver a 
contraprestação pecuniária, sendo que a entrega de qualquer coisa diversa de 
forma exclusiva seria considerada um contrato de troca (mútuo). 
A avaliação do preço/valor será subjetivada pelas partes individualmente ou 
em comum acordo, conforme as características e as qualidades do objeto em 
negociação, devendo ambas as partes realizarem suas ponderações pessoais a 
respeito do preço e vantagem econômica que auferem ao negócio jurídico. 
O valor do objeto deve ser estipulado em moeda nacional corrente, que 
atualmente é o Real (excepcionalmente em moeda estrangeira quando a 
legislação permitir). Podendo ainda ser fi xado pela cotação diária em casos que 
envolvam valores mobiliários ou variação indexa do mercado internacional, ou 
76
 Teoria Geral dos Contratos
ainda índices ou parâmetros escolhidos entre as partes (COELHO, 2012). Neste 
sentido: 
Cumpre salientar que o preço pode ser cotado dessas formas, 
desde que conste o valor correspondente em Real, nossa 
moeda nacional corrente. Isso porque o art. 487 da codifi cação 
material consagra a licitude dos contratos de compra e venda 
cujo preço é fi xado em função de índices ou parâmetros 
suscetíveis de objetiva determinação, caso do dólar e de outro 
(preço por cotação).
O preço pode ser arbitrado pelas partes ou por terceiro de sua 
confi ança (preço por avaliação), conforme faculta o art. 485 
do CC. A título de exemplo, cita-se que é comum, na venda 
de bens imóveis, a avaliação por uma imobiliária ou por um 
especialista do ramo (TARTUCE, 2017, p. 361).
É importante nos atentarmos ao art. 488 do Código Civil, por sua disposição 
com relação ao preço, fi ca convencionado que em caso de não haver fi xação do 
valor do contrato ou critérios (convencionais ou legais) para a sua determinação, 
as partes estarão sujeitas ao preço corrente das vendas habituais do vendedor, 
e complementa em seu único parágrafo que se houver uma variedade de preços 
nessas vendas, será feito um termo médio para aferir o preço.
É nulo o contrato de compra e venda se a fi xação do preço for estabelecida 
a critério exclusivamente de uma das partes, conformeo art. 389 do Código Civil. 
Contudo, não se deve aplicar essa interpretação, por exemplo, ao contrato de 
adesão, que é um tipo de contrato unilateral em que a pessoa não negocia as 
cláusulas e aceita os termos propostos. O art. 389 do Código Civil é expresso 
em afi rmar que essa forma de fi xação do preço “só está proibindo o preço 
cartelizado, ou seja, manipulado por cartéis - grupo de empresas que se reúnem 
para estabelecer acordos sobre fi xação elevada de preços e cotas de produção 
para cada membro [...]” (TARTUCE, 2017, p. 363). 
2.2 AS OBRIGAÇÕES CONTRAÍDAS 
NO CONTRATO DE COMPRA E 
VENDA
O contrato de compra e venda gera obrigações recíprocas para todas as 
partes, por serem obrigatoriamente bilaterais ou multilaterais. Essas obrigações 
poderão ser divididas em obrigações principais e assessórias.
77
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
2.2.1 As Obrigações do Vendedor 
A principal obrigação do vendedor é a transferência do domínio da coisa 
(propriedade) para o comprador, porém, em decorrência do negócio jurídico, ele 
também acaba por contrair outras obrigações, como “arcar com as despesas de 
tradição e com os débitos que gravem a coisa, bem como responder por vícios 
ocultos e evicção” (COELHO, 2012, p. 321).
Quando o bem for móvel, o cumprimento da obrigação principal de 
transferência se dá com a simples tradição, enquanto dos bens imóveis com o 
respectivo registro de transferência. Em caso de descumprimento contratual do 
vendedor à obrigação de transferência do domínio, após a fi rmação do contrato, 
dará direito ao comprador de optar pela entrega da coisa ou a resolução do 
contrato, sem excluir o direito a perdas e danos decorrentes do inadimplemento 
(COELHO, 2012). 
A obrigação da entrega da coisa vendida (obrigação de dar e fazer), deve 
ser restrita à estipulada em contrato. A entrega de coisa diversa não extinguirá 
a obrigação principal contraída no pacto inicial. Contudo, se o comprador aceitar 
essa coisa diversa ao contrato como forma de quitação da obrigação, por óbvio, o 
negócio jurídico se dará por concluso. 
Sobre a estipulação da coisa, quando se tratar de bens imóveis, a doutrina 
costuma chamar a atenção para duas caraterísticas da estipulação da coisa, já 
que ela pode ser ad corpus ou ad mensuram. Neste sentido:
No primeiro caso, o imóvel é descrito pela designação por 
que é conhecido (fazenda “Veredas”, sítio “Antares” etc.) ou 
outro elemento diverso das medidas, como as confrontações, 
por exemplo. Aqui, qualquer menção no contrato à área a que 
corresponde é feita de forma meramente enunciativa, e não 
vinculativa. O vendedor está liberado da obrigação se entregar 
o imóvel indicado no contrato, ainda que as reais dimensões 
dele não correspondam às enunciadas.
Já na venda ad mensuram, o objeto do contrato é uma 
determinada extensão de terra. Nesse caso, se entre as 
dimensões referidas no instrumento e as entregues houver 
discrepância em prejuízo do comprador, ele pode exigir a 
complementação da área, se for isso possível ao vendedor 
(COELHO, 2012, p. 323).
Não há necessidade de uma cláusula contratual específi ca mencionando 
que a venda do imóvel é ad corpus, conforme o art. 500, §3º do Código Civil, 
porque se pressupõe na descrição do imóvel negociado. 
78
 Teoria Geral dos Contratos
Todas as despesas da tradição para bens móveis, como transporte, seguro, 
taxas etc., conforme o art. 490 do Código Civil, serão do vendedor, caso não haja 
estipulação em contrário no contrato de compra e venda, bem como não deve 
apresentar quaisquer vícios, sob pena de resolução do negócio ou abatimento 
proporcional do preço. 
Além das obrigações citadas anteriormente, outra obrigação assessória do 
vendedor é que ele responde por todos os débitos que o objeto do contrato estiver 
responsável até que se faça a tradição/transferência do bem, desobrigando 
apenas se convencionado pelas partes. É importante relembrar que em bens 
imóveis e alguns móveis, existem obrigações propter rem, como as geradas por 
tributos, em que estão vinculados a coisa e não a pessoa do domínio.
Por fi m, há a obrigação de receber o dinheiro equivalente ao ajustado 
em contrato na data aprazada no contrato. Por mais contraditório que possa 
parecer essa obrigação, ela realmente é importante. Por vezes, não raro, o 
vendedor se nega a receber o pagamento ou se encontra em local incerto para 
o pagamento, inviabilizando a consumação do contrato de compra e venda. A 
solução do comprador para essa situação é a resolução do contrato ou a ação de 
consignação em pagamento (a depender do objeto e contrato fi rmado). 
2.2.2 As Obrigações do Comprador
“Pode-se destacar as obrigações do comprador na mais pura e simples 
concretização da tradição, ou seja, pagar em dinheiro o preço ajustado e quando 
for o caso, arcar com as despesas de registro ou escritura” (COELHO, 2012, p. 
323).
O pagamento do preço acordado, se não houver estipulação contratual da 
modalidade, deverá ser à vista. 
O descumprimento da obrigação de pagar o preço dá ao 
vendedor o direito de optar pela resolução do contrato (com 
devolução da coisa entregue ou liberação da obrigação de a 
entregar) ou pela cobrança judicial, em qualquer caso com a 
indenização pelos prejuízos que o inadimplemento lhe tiver 
ocasionado (COELHO, 2012, p. 323).
Conforme citado anteriormente a respeito das obrigações do vendedor, 
as obrigações referentes ao pagamento das custas da tradição serão dos 
vendedores, com exceção a eventual determinação em contrário pela legislação 
ou ao fi rmado em contrato. No caso dos bens imóveis, a obrigação de escritura e 
registro é do comprador, salvo disposição contratual em contrário.
79
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
2.3 CLÁUSULAS CONTRATUAIS 
PECULIARES DO CONTRATO DE 
COMPRA E VENDA
O contrato de compra e venda tem uma vasta gama de peculiaridades de 
cláusulas contratuais especiais, aplicáveis apenas a este tipo de contrato, de 
acordo com diferentes tipos de negócios. Trabalharemos então com as cláusulas 
contratuais de vendas condicionais; retrovenda; preempção; reserva de domínio e 
venda sobre documentos. 
2.3.1 As Cláusulas Contratuais 
Condicionais
A venda condicional é aquela em que a obrigação se submete às 
cláusulas contratuais de suspensão ou resolução, a depender do objeto, tempo 
e negociação do contrato. A cláusula contratual será resolutiva quando, em 
decorrência de determinada ação, não lograr o êxito para concretizar a compra e 
venda, resolvendo (extinguindo) o contrato. 
Enquanto a cláusula contratual suspensiva será quando for necessário que 
determinada condição ou situação ocorra para que o negócio seja concretizado 
a contento (art. 506 do Código Civil), outra possibilidade pode ser a modalidade 
de sujeito à prova (art. 510 do Código Civil), em que é necessário experimentar, 
visualizar, utilizar etc., antes da compra. 
Sendo a entrega como teste por tempo determinado ou razoável, será 
equiparado ao comodato (art. 511 do Código Civil). Contudo, por previsão do 
art. 512 do Código Civil, caso haja uma demora demasiada para cumprimento 
da obrigação ou manifestação, o promitente vendedor deverá intimar num prazo 
razoável para que o promitente comprador devolva o produto ou compre-o. 
2.3.2 As Cláusulas Contratuais de 
Retrovenda 
A cláusula contratual de retrovenda é uma cláusula que permite a recompra do 
imóvel vendido, pelo vendedor, após determinável período estipulado em contrato, 
80
 Teoria Geral dos Contratos
por não mais de três anos (art. 505 do Código Civil). No valor da recompra deverá 
incidir a indenização da correção monetária da época da compra, indenização por 
benfeitorias necessárias e todas as aplicações mercadológicas ao imóvel. 
Caso o comprador se negue a receber a quantia paga, o vendedor poderá 
pagar por via judicial, executando o direito contratual de resgate do imóvel (art. 
506 do Código Civil).
Esse direito estipulado em contrato é suscetívelpor ato entre vivos, mas é 
um direito transmitido a herdeiros e legatários (art. 507 do Código Civil), podendo 
esse direito ser do vendedor ou outra pessoa (pois é transmissível) a quem cedeu 
o direito de forma onerosa ou gratuita (COELHO, 2012).
2.3.3 Cláusula Contratual de Preempção 
Esse tipo de cláusula contratual, apesar do nome incomum, trata-se de um 
direito de preferência, no qual o comprador se obriga com o vendedor a estipular 
um direito de preferência, caso venha a revender o objeto no futuro. Os prazos 
para o exercício desse direito, conforme Coelho (2012, p. 333) são os seguintes: 
O prazo de vigência da cláusula de preempção é o fi xado no 
contrato de compra e venda, não podendo ultrapassar cento e 
oitenta dias, se a coisa é móvel, ou dois anos, se imóvel (CC, art. 
513 e parágrafo único). Já o prazo para o exercício do direito, 
se não estipulado outro maior ou menor em contrato, será de 
três ou sessenta dias, conforme se trate respectivamente da 
recompra de bem móvel ou imóvel, contados da notifi cação 
feita ao vendedor (art. 516).
Este direito de preferência não é suscetível de cessão ou transmissão a 
herdeiros ou legatários, conforme o art. 520 do Código Civil, muito menos, objeto 
de ajuizamento da demanda específi ca. 
2.3.4 Cláusula Contratual de Reserva de 
Domínio
Esta cláusula é uma garantia ao vendedor, sobretudo quando o objeto é 
determinado, mas a forma de pagamento não é à vista. Assim, as partes pactuam 
que o domínio pleno do objeto será mediante a quitação completa das obrigações, 
podendo o comprador fi car com a posse precária do objeto comprado durante 
esse período.
81
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
Para que essa cláusula contratual tenha efi cácia contra terceiros, ela deverá 
constar em documento escrito e de forma expressa seu conteúdo e condições. 
Em se tratando de bens imóveis ou bens móveis que demandem registro público, 
apenas será efetivado se houver o registro da existência dessas cláusulas 
nos respectivos órgãos de registro do objeto (Cartório de Registro de Imóveis, 
DETRAN etc.).
2.3.5 Cláusula Contratual de Venda por 
Documentos
Na prática do direito interno brasileiro, não é comum que essa hipótese de 
termo ocorra. Esse tipo de venda é mais utilizado no comércio internacional, em 
decorrência das diferenças legislativas e burocráticas para validação de uma 
compra e venda. Assim, trata-se de instrumentos jurídicos que substituem a 
tradição, como um título representativo. 
Um exemplo seria a venda de um maquinário agrícola. Neste contrato de 
compra e venda há a previsão de que o próprio contrato serve de documento 
comprobatório para a tradição do maquinário, sem precisar de fato entregar o 
objeto imediatamente para fazer valer o negócio jurídico. 
2.4 DA TRADIÇÃO DO OBJETO 
CONTRATUAL
Estudamos anteriormente que uma das obrigações do vendedor é arcar 
com os custos da tradição, salvo disposição em contrário, conforme o art. 490 do 
Código Civil. Assim, nesta parte do estudo, trabalharemos mais especifi camente 
essa questão da tradição e as suas peculiaridades. 
Inicialmente, cumpre destacar que para que haja a entrega do objeto, é 
necessário que haja o pagamento da contraprestação pecuniária antes, sendo 
facultativo ao vendedor entregar o objeto antes do pagamento nos termos do art. 
491 do Código Civil.
Contudo, é preciso ter em mente que os riscos da coisa (ou seja, manutenção, 
depreciação, perda etc.) são de responsabilidade do vendedor, enquanto o risco 
do preço (variação do preço) é de responsabilidade do comprador, assim é como 
disciplina o caput do art. 492 do Código Civil.
82
 Teoria Geral dos Contratos
Essa previsão legal dos riscos atinentes ao preço e objeto, trazem uma série 
de hipóteses a serem reguladas nos parágrafos do respectivo art. 492 do Código 
Civil (TARTUCE, 2017, p. 368): 
Primeiramente, os casos fortuitos (eventos totalmente 
imprevisíveis) que ocorrerem no ato de contar, marcar ou 
assinalar coisas, que normalmente se recebem dessa forma 
(contando, pesando, mediando ou assinalando), e que tiverem 
já sido colocadas à disposição do comprador, correrão por 
conta deste (§1º). Em outras palavras, os riscos em situações 
tais serão por conta daquele que adquire a coisa. 
Além disso, correrão também por conta do comprador os 
riscos das referidas coisas, se este estiver em mora de recebê-
las, quando postas a sua disposição no tempo, lugar e pelo 
modo ajustado (§2º). A exemplo do que consta do art. 400 do 
CC, acaba-se punindo o credor pelo atraso no recebimento da 
obrigação. 
Ainda com relação aos riscos da tradição, há uma terceira hipótese, que 
ocorre na venda com reserva de domínio, em que segundo o art. 524 do Código 
Civil, os riscos serão assumidos pelo comprador na transferência da posse, como 
ocorre com a venda de imóveis e obrigações propter rem. 
Quanto ao local da tradição, como regra geral, será no local em que se 
encontra a coisa no momento da venda (art. 493 do Código Civil), contudo é 
possível estabelecer em contrato o local e as condições de entrega do objeto, 
mas é preciso ter cautela neste quesito, conforme a doutrina nos ensina: 
Complementando, é possível que as partes negociem a 
expedição da coisa por parte do vendedor, como é comum 
nas vendas realizadas fora do estabelecimento comercial. 
Em casos tais, se a coisa for expedida para lugar diverso, por 
ordem do comprador, por sua conta correrão os riscos, uma 
vez entregue a coisa a quem deva transportá-la, salvo se o 
vendedor não seguir as instruções dadas pelo comprador 
(art. 494 do CC). Em resumo, se o comprador determinou a 
expedição de forma errada e, em decorrência disso, ela veio 
a se perder, a responsabilidade será sua, ja que agiu com 
culpa por ação (culpa in comittendo). Por sua via, se o erro foi 
do vendedor, que desobedeceu às ordens do comprador, por 
sua conta ocorrerão os riscos pelo fato de ter agido como um 
mandatário infi el (TARTUCE, 2017, p. 368-369).
O Código Civil, no art. 495, prevê como uma espécie de garantia a tradição, 
em que o vendedor ou o comprador pode reter e sobrestar a entrega do objeto, 
independentemente do prazo estipulado em contrato, se antes da tradição o 
comprador ou o vendedor se tornar insolvente, podendo, ainda, exigir da parte 
insolvente, uma garantia real ou fi dejussória de pagamento (caução), garantindo 
a tradição no prazo estipulado em contrato. 
83
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
3 DO CONTRATO DE PERMUTA 
O contrato de troca, ou também chamado de permuta, é o contrato destinado 
a regulamentar a troca da propriedade de qualquer bem por qualquer outro bem 
com equivalências entre valores econômicos, pertencente a outra pessoa. O 
contrato pode ser classifi cado como bilateral ou multilateral, cumulativo, oneroso, 
consensual, não solene, instantâneo e típico (todas as defi nições foram estudadas 
no Capítulo 1).
É importante salientar as similitudes com o contrato de compra e venda, não 
é incomum numa negociação de compra e venda a troca de bens como parte 
do pagamento da compra. Nestes casos, a nomenclatura da prática forense, um 
pouco menos contemporânea, refere-se a contrato “com torna” (torna seria o 
equivalente a saldo), que é um objeto em dação em pagamento. 
Assim, para se caracterizar um contrato de permuta, não deve envolver a 
troca de dinheiro ou valores, mas, sim, de bens, sob pena de desnaturalização do 
contrato. Farias e Rosenvald (2014, p. 675) destacam que podem ser trocados: 
[...] Quaisquer bens alienáveis, de livre disposição pelo titular, 
sejam homogêneos ou heterogêneos. Assim, os objetos 
da troca podem ser coisas móveis ou imóveis, fungíveis ou 
infungíveis, corpóreas ou incorpóreas, umas pelas outras. É 
bastante que a coisa esteja no comércio (vale dizer, com livre 
disposição pelo titular), porque tudo o que pode ser objeto de 
uma venda pode ser trocado. 
“Convém anotar que não é admitido para o contrato de permuta a troca 
debens por serviços humanos, neste caso seria uma hipótese de um contrato 
inominado a ser regrado pelas normas gerais do direito civil brasileiro” (FARIAS; 
ROSENVALD, 2014, p. 676). 
A permuta que ocorrer com saldos desiguais, ou seja, quando um bem em 
troca tem maior valor pecuniário do que o bem permutado em contrapartida, tem-
se que essa diferença deva ser ressarcida em dinheiro. Observe que, neste caso, 
não se converterá em contrato de compra e venda, porque a intenção não é a 
venda, mas, sim, a troca dos bens (FARIAS; ROSENVALD, 2014).
O Código Civil, no art. 533, dispõe que todas as disposições aplicáveis aos 
contratos de compra e venda também poderão ser utilizadas quando necessárias 
ao contrato de permuta. Gonçalves (2012, p. 273) destaca que se deve ter cautela 
pelas peculiaridades do contrato:
Pouco efeito prático produz a distinção suprarreferida, pois 
o legislador, considerando a semelhança existente entre 
84
 Teoria Geral dos Contratos
a permuta e a compra e venda, determinou, no art. 533 do 
Código Civil, que se aplicassem àquela todas as disposições 
referentes a esta (as que concernem a vícios redibitórios, 
evicção, perigos e cômodos da coisa etc.), com apenas 
duas modifi cações: a) salvo disposição em contrário, cada 
um dos contratantes pagará por metade as despesas com o 
instrumento da troca; b) é anulável a troca de valores desiguais 
entre ascendentes e descendentes, sem consentimento 
expresso dos outros descendentes e do cônjuge do alienante. 
Assim, aconselha-se os bens permutados serem de valores iguais, 
dispensando a outorga dos demais e não onerando nenhum dos interessados. 
É interessante ressaltar que no caso da permuta, independente do regime de 
casamento (inclusive separação total), deverá ter a autorização do cônjuge, pois 
a regra do art. 496, parágrafo único do Código Civil, só determina para casos de 
compra e venda. 
4 CONTRATO DE DOAÇÃO
Essa espécie de contrato costuma ser polêmica entre os familiares, 
sobretudo, quando envolve casamentos, patrimônio e herdeiros. Inclusive, há 
quem critique o viés exacerbado do Código Civil na proteção patrimonial da 
herança do patrimônio da pessoa viva. 
A doação é uma espécie de contrato gratuito (art. 538 do Código Civil), ou 
seja, aqueles que não podem ter contraprestação, tendo apenas o ganho para 
quem recebe o objeto doado e este deve aceitar receber. Assim, ocorre a doação 
quando “o sujeito de direito pratica ato volitivo que não lhe dá nenhuma vantagem 
econômica e, eventualmente, acarreta mesmo uma perda patrimonial” (COELHO, 
2012, p. 457). 
O contrato de doação será sujeito às regras comuns do direito civil, apesar 
de ser peculiar. Em que pese não tenha uma contraprestação onerosa, o doador 
pode impor uma obrigação que limite a liberalidade da prestação. O donatário 
deverá cumprir com os encargos da doação, caso forem a benefício do doador, 
de terceiro ou de interesse geral, podendo este último ser exigido pelo Ministério 
Público, depois da morte do doador se estiver em mora (art. 553, caput e parágrafo 
único do Código Civil). 
A obrigação limitadora pode ser por “modo” ou “encargo” (que não pode ser 
superior ao valor do objeto doado), no qual a parte benefi ciada apenas poderá 
acessar o benefício se cumprir uma obrigação de dar, fazer ou não fazer, a 
depender da limitação imposta pelo doador.
85
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
Conforme o art. 539 do Código Civil, o doador pode fi xar um prazo para que o 
donatário declare se aceita ou não a doação da coisa, contudo, por incidir a regra 
geral do direito civil, na ausência de manifestação, pressupõe-se a presunção de 
aceitação. 
De qualquer forma, a doutrina tradicional sempre apontou que 
a aceitação não pode ser presumida sem que haja a ciência 
do donatário. Tem razão essa corrente, pois afi nal de contas 
ninguém está obrigado a aceitar determinado bem se não o 
quiser. Conclui-se, portanto, que a aceitação pode ser expressa 
ou presumida. Mesmo não sendo elemento essencial, não se 
presume de forma absoluta essa aceitação se o donatário não 
foi cientifi cado (TARTUCE, 2017, p. 441).
Sendo dispensada a aceitação na hipótese do art. 543 do Código Civil, quando 
for feita a doação em favor do absolutamente incapaz, utilizando a presunção do 
melhor interesse do incapaz e presunção de aceitação, curiosamente, a doação 
para o nascituro apenas valerá se o representante legal aceitar (art. 542 do 
Código Civil). 
A possibilidade de doação para ascendentes, descendentes, ou de um 
cônjuge a outro, importará no adiantamento de herança (art. 544 do CC), devendo, 
portanto, ter a anuência de todos para a legítima validade do ato. 
É possível que as doações sejam feitas de forma periódica, conforme o art. 
545 do Código Civil, por exemplo, uma quantia monetária mensal. Contudo, se 
o doador morrer, essa doação será extinta, salvo, se houver outro objeto a ser 
doado, condicionando nessa hipótese, exclusivamente à pessoa do donatário, 
não transferindo aos seus sucessores ou legatários. 
Em caso de falecimento do donatário, anteriormente ao doador, o bem doado 
poderá voltar ao patrimônio do doador se esta condição estiver estipulada no 
contrato. Contudo, nessa hipótese, não é permitido estipular que esse bem vá 
para um terceiro (art. 547, caput e parágrafo único). 
A modalidade de doação por contemplação é aquela modalidade em que 
é feita em contemplação de casamento futuro, com as pessoas defi nidas e a 
coisa certa a ser doada, podendo ser entre os nubentes ou por terceiros, para 
os nubentes ou futuros fi lhos que tiverem entre si. Para esse tipo de doação, é 
necessário o consentimento dos donatários e só não terá afeito se o casamento 
não se realizar nos termos do art. 546 do Código Civil. 
 
Ainda, o Código Civil, no art. 548, prevê que é nula a doação da totalidade de 
seus bens, sem a reserva de renda ou bens para a sua subsistência. 
86
 Teoria Geral dos Contratos
Subsequente ao artigo do Código Civil, vem a crítica ao patrimonialismo do 
Código Civil, porque no art. 549, ele prevê a impossibilidade de doação de seus 
próprios bens, para além da expectativa de herança patrimonial dos herdeiros, 
a chamada “nulidade da doação inofi ciosa”. “Para a ocorrência da nulidade é 
necessário que existam herdeiros necessários e ultrapasse o limite disponível” 
(FARIAS; ROSENVALD, 2014, p. 727). Neste sentido, segue a crítica da doutrina 
sobre este dispositivo legal: 
Por derradeiro, cumpre aludir a uma questão nova e pujante. É 
que, apesar de minoritário o nosso entendimento, confessamos 
não ter simpatia pela restrição sub occulis. É que, ao nosso 
viso, a impossibilidade de doação da legítima somente se 
justifi ca quando um dos herdeiros necessários é incapaz, 
em razão da necessidade de proteção integral do incapaz. 
Todavia, em se tratando de herdeiros necessários maiores e 
capazes, não vislumbramos motivo plausível para obstar o ato 
de disposição gratuito pelo titular.
Até porque o ofício do pai se impõe em razão do exercício do 
poder familiar - o que não haverá se todos os descendentes 
forem plenamente capazes. Cuida-se de uma interdição 
parcial na livre disposição de uma pessoa absolutamente 
capacitada para os atos da vida jurídica. Não nos parece, 
ademais, que um pai, por exemplo, seja obrigado a deixar 
patrimônio para o seu fi lho, em especial no momento em que a 
proteção do sistema jurídico se centra na essência da pessoa 
humana e em sua dignidade. Entendemos, pois, que o juiz, 
casuisticamente, poderá acobertar com o manto da validade 
e da plena efi cácia a doação feita pelo titular com invasão da 
legítima (ultrapassando o limite patrimonial disponível), quando 
os herdeiros necessários são maiores e capazes. Assim, 
resguardará a dignidade do titular, podendo dispor livremente 
de seu patrimônio (FARIAS; ROSENVALD, 2014, p. 729).
Um mito relacionado à matéria e que é muito comum de se ouvir no senso 
comum, inclusive alguns operadoresdo direito também acabam incidindo no 
erro, é que o idoso, geralmente falam em uma idade maior de 70 anos, não pode 
fazer doação ou se casar. O que é incorreto, porque enquanto ele tiver plena 
capacidade civil para exercer todos os atos da vida civil, ele é plenamente capaz 
de realizar doações ou contrair matrimônios, independentemente da idade. 
A lei dispõe de um prazo de 2 (dois) anos para a anulabilidade de doação 
de patrimônio para cônjuge adúltero (amante), que pode ser exercido pelo(a) 
cônjuge ou herdeiros necessários, após a dissolução da sociedade conjugal (art. 
550 do Código Civil). 
O contrato, se for omissivo quanto à proporção da divisão dos bens, quando 
se tratar de doação para mais de uma pessoa, será pressuposto que a divisão 
seja proporcional (art. 551, caput, do CC). Contudo, se a doação for para o 
87
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
cônjuge, subsistirá a totalidade do cônjuge (meação) sobrevivo (parágrafo único 
do art. 551 do CC).
Por fi m, a doação à entidade futura, terá um prazo máximo de 2 (dois) anos 
para que seja implementada essa entidade, caso contrário, caducará a doação, 
nos termos do art. 554 do CC. 
4.1 REVOGAÇÃO DA DOAÇÃO
Esta parte do estudo é mais centrada na revogação da doação, ela é bastante 
importante ao direito sucessório, bem como do direito contratual. A revogação 
pode ocorrer essencialmente por dois motivos, a ingratidão do donatário ou por 
inexecução do encargo (não pagamento das taxas de transferências ou condições 
impostas para a doação). 
As causas de ingratidão das doações são numerus clausus, ou seja, são 
as condições taxativas na lei, não podendo ser criadas outras causas, bem 
como o Código Civil é expresso ao determinar que não se pode renunciar 
antecipadamente ao direito de revogar a liberalidade por ingratidão do donatário 
(art. 556 do CC). 
Antes de adentramos nas causas de revogação por ingratidão, listemos as 
causas que não revogam por este motivo (art. 564 do CC), que são: a) as doações 
puramente remuneratórias; b) as oneradas com encargo já cumprido; c) as que 
se fi zeram em cumprimento de obrigação natural; d) as feitas para determinado 
casamento. 
As causas de ingratidão de doações são as mesmas causas de impedimento 
do direito de herança; elas estão elencadas no art. 557 do CC, em que seus quatro 
incisos dispõem o impedimento se: a) o donatário atentar contra a vida do doador 
ou cometer crime de homicídio doloso contra ele; b) cometer contra ele ofensa 
física (a ofensa deve ser grave); c) se o injuriou gravemente ou o caluniou; d) se, 
podendo ministrá-los, recusou o doador os alimentos de que este necessitava (ou 
seja, maltratou ou deixou de cuidar quando precisava). 
É importante salientar que essas causas se aplicam a qualquer pessoa 
que incorrer, conforme descrito no art. 557 do Código Civil, contra o doador ou 
de cujus, podendo ser um terceiro à família, ou ainda, o cônjuge, ascendente, 
descendente, ainda que adotivo, ou irmão do doador (art. 558 do CC). Esta 
previsão vem para combater os homicídios ou tramas para herdar o patrimônio, 
conforme casos famosos que são notórios e foram veiculados na mídia.
88
 Teoria Geral dos Contratos
O prazo para a revogação por quaisquer um desses motivos deverá ser 
pleiteado dentro de um ano, a contar de quando chegue ao conhecimento do 
doador o fato que a autorizar, e de ter sido o donatário o autor da reclamação (art. 
559 do CC). 
O direito de revogar a doação não se transmite aos herdeiros do doador, mas 
aqueles podem prosseguir na ação iniciada pelo doador, continuando-a contra os 
herdeiros do donatário, se este falecer depois de ajuizada a lide (art. 560 do CC). 
Em caso de homicídio doloso, a ação caberá aos herdeiros, se não tiver havido o 
perdão anterior do de cujus. 
A hipótese de revogação por ingratidão não prejudicará os direitos adquiridos 
por terceiros, nem obriga o donatário a restituir os frutos anteriormente à citação 
válida, contudo, estará obrigado a restituir o equivalente, e que for possível (nem 
que seja pelo valor médio), no momento posterior à citação. 
5 CONTRATO DE LOCAÇÃO
A locação é uma matéria bastante ampla, envolvendo temas complexos de 
direito material e processual. Assim, os contratos dessa espécie são, talvez, os 
contratos que contêm a forma e o conteúdo mais livres em termos de regulação, 
pois, jurisprudencialmente é pacífi co o entendimento da prevalência dos termos 
acordados (pacta sunt servanda), mas é preciso ter noção de alguns regramentos 
básicos de direito material que devem obrigatoriamente estar previstos 
contratualmente, para não ter problemas com a prática cotidiana. 
Basicamente, a locação tem duas principais leis em questão de direito 
material, o Código Civil, no capítulo V, com a sua generalidade e regulamentação 
de basicamente a locação de bens móveis. Enquanto a lei do inquilinato (Lei 
nº 8.245/1991) regulamentará as locações residenciais e não residenciais 
(comerciais), contudo, às locações residenciais e não comerciais, o Código Civil 
também será utilizado subsidiariamente por ser um regramento geral. 
A conceituação do contrato de locação é trazida no art. 565 do Código Civil, 
em que basicamente a parte que é proprietária ou detentora do domínio se obriga 
a ceder à outra, por tempo determinado ou indeterminado, o uso e gozo de coisa 
não fungível, mediante contraprestação pecuniária. 
Ao ceder mediante locação, o locador (quem põe o bem para locar) é 
obrigado a entregar ao locatário (quem aluga) com seus atributos em estado 
de uso em que se destina, bem como manter neste estado pelo tempo em que 
89
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
o contrato estiver estipulado, podendo transferir essa obrigação ao locatário. 
Além dessas obrigações, também deverá garantir o uso pacífi co da coisa, sem 
embaraços, turbações de terceiros que pretendam ter direitos à coisa alugada, e 
responderá pelos vícios ou defeitos anteriores à locação. 
Caso ocorra a deterioração da coisa alugada, sem culpa do locatário, este 
poderá pedir a redução proporcional do aluguel. Há também, a hipótese de o 
locatário resolver o contrato, mas restrito ao caso dessa coisa que deteriorou não 
servir mais para o fi m que prestava. 
Quanto às obrigações do locatário, ele deverá cumprir o rol exemplifi cativo, 
conforme a previsão contratual e na sua falta, o seguinte: a) a servir-se da coisa 
alugada para os usos convencionados ou presumidos, conforme a natureza dela 
e as circunstâncias, bem como tratá-la com o mesmo cuidado como se sua fosse; 
b) a pagar pontualmente o aluguel nos prazos ajustados e, em falta de ajuste, 
segundo o costume do lugar; c) a levar ao conhecimento do locador as turbações 
de terceiros, que se pretendam fundadas em direito; d) a restituir a coisa, fi nda a 
locação, no estado em que a recebeu, salvas as deteriorações naturais ao uso 
regular.
O locador tem o direito de rescindir o contrato e exigir perdas e danos, caso 
o locatário empregue uso diverso ao ajustado em contrato, ou ao que a coisa se 
destina ou ainda danifi cá-la em decorrência disto. 
O locador não poderá reaver a coisa alugada quando o contrato for por 
tempo determinado. Caso requeira a coisa antes do término do contrato, deverá 
ressarcir ao locatário as perdas e danos resultantes, bem como nem o locatário 
poderá devolver a coisa ao locador, senão pagando, proporcionalmente, a multa 
prevista no contrato (art. 570 do CC), podendo o locatário gozar do direito de 
retenção, enquanto não for ressarcido na hipótese anterior (art. 571 do CC).
A locação por tempo determinado cessa de pleno direito fi ndo o prazo 
estipulado, independentemente de notifi cação ou aviso (art. 573 do CC). Após 
esse prazo, se o locatário continuar na posse da coisa alugada, sem oposição do 
locador, se presumirá prorrogada a locação pelo mesmo valor fi xado em aluguel, 
mas sem prazo determinado (art. 574 do CC).
6 DO CONTRATO DE MÚTUO/
FINANCIAMENTO
O contratode mútuo tem sua previsão legal no art. 586 do Código Civil. 
90
 Teoria Geral dos Contratos
Trata-se de um instituto de contratos gratuitos e unilaterais, que preveem o 
empréstimo de coisas fungíveis com alguma contraprestação onerosa, a restituir 
o que recebeu em mesmo gênero, qualidade e quantidade. Junto à transferência 
do domínio da coisa emprestada, vem a obrigação de arcar com todos os riscos 
desde a tradição. A este respeito:
Constitui empréstimo para consumo, pois o mutuário não 
é obrigado a devolver o mesmo bem, do qual se torna dono 
(pode consumi-lo, aliená-lo, abandoná-lo, p. ex.), mas sim 
coisa da mesma espécie. É realmente o empréstimo de coisas 
que podem ser consumidas por aquele que as recebe. Se o 
mutuário puder restituir coisa de natureza diversa, ou soma em 
dinheiro, haverá respectivamente troca ou compra e venda, 
e não mútuo, salvo, no último caso, se o empréstimo for de 
dinheiro, que é bem fungível (GONÇALVES, 2012, p. 346).
Em se tratando de empréstimo de dinheiro ou observância de notória 
mudança da situação econômica do mutuário, o mutuante poderá exigir garantia 
de restituição (caução), presumindo também a aplicação de juros quando for 
pecuniário (arts. 589 e 591 do CC). Neste sentido da doutrina também destaca: 
O mútuo oneroso, mediante o pagamento de juros, é 
responsável pelo desenvolvimento do comércio bancário. 
Várias modalidades de empréstimo foram incrementadas, 
como o empréstimo por desconto de títulos à ordem, o contrato 
de fi nanciamento, a abertura de crédito e a conta corrente. 
No contrato de fi nanciamento, a instituição fi nanceira obriga-
se a fornecer numerário na medida das necessidades do 
empreendimento, como construção de edifícios, empreitadas, 
investimentos industriais e agrícolas etc. Na abertura de 
crédito o banco compromete-se a efetuar a cobertura de 
saques do devedor, até um determinado limite preestabelecido 
(GONÇALVES, 2012, p. 353).
Deve-se ter atenção ao se fazer o mútuo com menores de 18 anos, pois se for 
feito com essa pessoa, ele é inefi caz, sem a autorização de seu responsável legal, 
e ainda o objeto do empréstimo não poderá ser reavido, nem do mutuário, nem 
de seus fi adores (art. 588 do CC), existirá a dívida, “mas não há a correspondente 
responsabilidade” (TARTUCE, 2017, p. 678). 
Contudo, essa regra do art. 588 do CC tem exceções no artigo subsequente, 
que são as seguintes: a) se a pessoa, de cuja autorização necessitava o mutuário 
para contrair o empréstimo, o ratifi car posteriormente; b) se o menor, estando 
ausente essa pessoa, se viu obrigado a contrair o empréstimo para os seus 
alimentos habituais; c) se o menor tiver bens ganhos com o seu trabalho, mas, 
em tal caso, a execução do credor não lhes poderá ultrapassar as forças; d) se o 
empréstimo reverteu em benefício do menor; e) se o menor obteve o empréstimo 
maliciosamente.
91
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
Destaca-se a atenção ao item “a” citado anteriormente. Se houver posterior 
ratifi cação da pessoa cuja autorização era necessária ou o próprio mutuário após 
a maioridade ou emancipação ratifi cou o mútuo, entende-se que fi cou por sanado 
esta obrigação de haver um responsável legal, por conta de retroagir à data do 
ato (GONÇALVES, 2012).
7 DO COMODATO/USUFRUTO
O comodato é basicamente a defi nição antagônica do mútuo, esta espécie 
de contrato servirá para o empréstimo de coisas não fungíveis e se realiza com a 
tradição do objeto. É um contrato em que a pessoa entrega algum bem infungível, 
para que se use e posteriormente seja restituído, tendo que essa pessoa, 
necessariamente, ser proprietária do bem. Assim, a doutrina disserta sobre o 
conceito:
No comodato há uma transferência provisória da posse direta 
da coisa, mantida a propriedade com o comodante (o seu 
titular). Por isso, advindo o termo estabelecido para a avença, 
o bem tem de ser restituído, sob pena de caracterização de 
esbulho pelo comodatário, com a consequente possibilidade 
de pedido de reintegração de posse (ação possessória) pelo 
comodante.
Por não envolver a transferência de titularidade da propriedade, 
o comodante não precisa ser o proprietário da coisa, bastando 
que tenha o seu uso e fruição. Com isso, o usufrutuário, 
o enfi teuta e o superfi ciário podem celebrar contrato de 
comodato, apesar de não terem a propriedade, mas apenas 
direitos reais sobre a coisa alheia. Isto é possível na medida 
em que o comodatário tem o dever de restituir a própria coisa, 
não exaurindo a sua substância (FARIAS; ROSENVALD, 2014, 
p. 759).
Essa espécie de contrato é personalíssima, então, apenas poderá favorecer 
pessoalmente o comodatário, podendo os bens incorpóreos, suscetíveis de 
uso e posse, como o direito autoral, a patente de invenção, o nome ou marca 
comercial, a linha telefônica, entre outros, também serem dados em comodato 
(GONÇALVES, 2012). Além disso, são características do comodato: a gratuidade, 
determinado ou determinável, a infungibilidade e a necessidade de tradição. 
8 CONTRATOS DE PRESTAÇÃO DE 
SERVIÇOS 
A regulamentação dos contratos de prestação de serviços dependerá do tipo 
92
 Teoria Geral dos Contratos
de serviço e relação entre as partes em decorrência deste, quando não houver 
previsão em lei especial (Código de Defesa do Consumidor, por exemplo) ou leis 
trabalhistas, será regida pelo Código Civil (art. 593 do Código Civil). No Código 
Civil são regulamentadas cinco espécies de contratos de prestação de serviços: 
contratos de empreitada; contratos de corretagem; mandato; prestação de 
serviços; transporte de pessoas. 
Antes de abordar cada uma dessas cinco espécies de contratos de prestação 
de serviços, é necessário trabalhar o conceito de um contrato de prestação de 
serviço e as peculiaridades gerais desses tipos de contratos. 
A doutrina classifi ca de forma sucinta e generalista o conceito de que os 
contratos de serviços compreendem a todos os negócios jurídicos em que um 
dos contratantes assume uma obrigação de fazer qualquer espécie de serviço 
ou trabalho lícito, material ou imaterial, mediante retribuição (art. 594 do CC) 
(COELHO, 2012). A retribuição é obrigatória e será paga ao fi nal do serviço 
prestado, quando não por costume ou pagamento em prestação a depender 
da convenção do negócio (art. 597 do CC). Não se tendo estipulado as partes, 
ou chegado num consenso do preço, o valor a ser fi xado será pelo critério do 
costume do lugar, o tempo de serviço e sua qualidade. O arbitramento, em caso 
de divergência, será realizado por via judicial ou arbitral (art. 596 do CC).
Um exemplo de contrato de prestação de serviço seria o contrato de 
empreitada, em que o empreiteiro se obriga a fazer a obra contratada, ou um 
advogado que se obriga a fazer um parecer contratado pelo consulente. 
No instrumento de prestação de serviço, se uma das partes for não 
alfabetizada, este contrato poderá ser assinado a rogo (alguém que substitua a 
assinatura) somada a anuência de duas testemunhas (art. 595 do CC). Contudo, 
isso não signifi ca a obrigatoriedade de uma solenidade ou forma, a lei apenas faz 
uma recomendação para o caso em questão.
Os contratos de prestações de serviços têm um prazo máximo de vigência 
de quatro anos, independente se o serviço prestado foi concluído ou não (art. 597 
do CC), contudo, é possível a confecção de um novo contrato para a continuação 
do serviço. Não se conta neste prazo o tempo em que o prestador do serviço 
deixou de servir por sua culpa (art. 600 do CC). 
Será possível a resolução antecipada do contrato a qualquer uma das partes, 
diante da ausência de prazo estipulado, quando não for possível inferir a natureza 
do contrato, ou o costume do lugar, desde que mediante aviso prévio. O aviso 
prévio deverá ser feito com antecedência, sendo que no mínimo oito dias, quando 
se houver fi xada a contraprestação por tempo de um mês ou mais; em quatro 
93
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
dias, se acontraprestação tiver sido ajustada por semana ou quinzena; ou ainda 
na véspera se o prazo contratado for por menos de sete dias (art. 599 do CC).
Ainda, o prestador do serviço contratado por tempo certo, ou por obra 
determinada, não poderá se despedir, ou se ausentar antes do término do contrato 
ou conclusão da obra sem que haja uma justa causa a justifi car. Na ausência 
de justa causa, o prestador terá direito à retribuição das parcelas vencidas e 
ainda à indenização por perdas e danos (art. 602 do CC). Havendo demissão 
do prestador sem justa causa, o contratante será obrigado a pagar por inteiro a 
retribuição vencida e por metade o que seria vincenda até o término do contrato 
(art. 603 do CC).
O contrato de prestação de serviço é personalíssimo, não podendo ser 
transmitido a outra pessoa a prestação da atividade contratada (art. 605 do 
CC). Assim, com a morte de uma das partes, o contrato é extinto, assim como 
as demais hipóteses, que seriam: a conclusão da obra; o escoamento do prazo; 
a rescisão contratual; o inadimplemento das partes ou a impossibilidade de 
continuação do contrato (art. 607 do CC).
 
8.1 O CONTRATO DE EMPREITADA
O contrato de empreitada é uma espécie de contrato de prestação de serviço 
em sua forma especial, especifi camente para a construção de obras, podendo a 
construção ser contribuída pelo empreiteiro só com o seu trabalho ou com o seu 
trabalho e os materiais, o que dependerá do acordo fi rmado entre os contratantes, 
já que a obrigação de fornecimento dos materiais não se presume, deve ter 
previsão expressa. De mesma sorte, quando for a elaboração de um projeto, na 
qual não se presume a execução ou a fi scalização da execução, sem previsão 
expressa no contrato (art. 610 do CC).
Quanto aos riscos da atividade empreiteira, destacam-se duas situações, a 
primeira é caso de o empreiteiro escolher a opção de fornecer os materiais, este 
assumirá por sua conta e risco a qualidade, o estoque, a necessidade e qualquer 
outro risco atinente à atividade empregada até a conclusão da obra (art. 611 do 
CC). O preço global do material empregado poderá ser revisto a qualquer hora, 
conforme a variação de mercado (art. 620 do CC). 
A segunda é se o empreiteiro forneceu apenas a mão de obra, este 
responderá pelos riscos apenas da sua atividade laboral, os demais serão por 
conta do contratante (art. 612 do CC). É preciso ter atenção para a hipótese da 
contratação da mão de obra, para o caso do material se deteriorar, sem mora 
94
 Teoria Geral dos Contratos
do dono ou culpa do empreiteiro; o empreiteiro provando que a perda ocorreu 
por defeito dos materiais e que em outras oportunidades já havia reclamado da 
quantidade ou qualidade destes, não terá culpa e receberá pelo serviço prestado 
de qualquer forma (art. 613 do CC). 
A contraprestação do serviço de empreitada poderá ser paga de forma 
integral, parcelada ou ainda por partes, a depender da natureza da obra que se 
determina. Nesta última, o empreiteiro terá o direito a cobrar o equivalente a cada 
fase de construção na proporção da obra executada, presumindo-se que o que 
for pago foi verifi cado (métrica cobrada da execução), tendo o prazo máximo de 
30 dias a contar da medição, sem nenhuma denúncia de vícios ou defeitos pelo 
contratante ou seu representante (art. 614 do CC).
Para a conclusão do contrato de empreitada, é necessário que seja 
entregue a obra contratada de acordo com o ajuste, costume do lugar, sendo 
que o contratante será obrigado a receber. Tendo como exceção a hipótese 
da obrigatoriedade do recebimento de que a instrução e as normas técnicas 
executadas pelo empreiteiro não foram seguidas conforme os planos iniciais e 
requisitados à natureza da empreitada. (art. 615 do CC). 
O dono da obra, nessa hipótese de exceção, pode receber a obra com o 
abatimento proporcional do preço (art. 616 do CC), mas pode também requerer 
que no prazo de cinco anos, o empreiteiro corrija os defeitos e os vícios de sua 
mão de obra empregada, nos casos de construções edilícias ou consideráveis 
(art. 618 do CC), porque este se obriga a garantir a solidez, a segurança do 
trabalho, em razão dos materiais, bem como do solo. 
A correção não terá acréscimo de preço quando for destacado dentro 
do plano inicial de execução, bem como, em caso de modifi cação, esta tenha 
sido pela inobservância do empreiteiro (art. 619 do CC). Também o empreiteiro 
será obrigado a pagar por materiais que foram comprados, mas inutilizados por 
negligência e imperícia (art. 617 do CC). 
O dono da obra poderá suspender a construção, mesmo depois de iniciada, 
desde que pague aos empreiteiros as despesas e os lucros proporcionais aos já 
realizados, bem como uma indenização calculada em função do que seria ganho 
com a conclusão da obra (art. 623 do CC). O empreiteiro também pode suspender 
a obra, desde que haja justa causa, sob pena de responsabilização por perdas e 
danos (art. 624 do CC). 
Entende-se por justa causa o disposto no art. 625 do Código Civil:
Art. 625. Poderá o empreiteiro suspender a obra:
95
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
I - por culpa do dono, ou por motivo de força maior;
II - quando, no decorrer dos serviços, se manifestarem 
difi culdades imprevisíveis de execução, resultantes de causas 
geológicas ou hídricas, ou outras semelhantes, de modo que 
torne a empreitada excessivamente onerosa, e o dono da obra 
se opuser ao reajuste do preço inerente ao projeto por ele 
elaborado, observados os preços;
III - se as modifi cações exigidas pelo dono da obra, por seu 
vulto e natureza, forem desproporcionais ao projeto aprovado, 
ainda que o dono se disponha a arcar com o acréscimo de 
preço.
Dispõe a doutrina que o grande diferencial dos contratos de empreitada para 
os contratos de prestação de serviços gerais, é que eles não são personalíssimos, 
assim, em caso de morte de qualquer uma das partes, subsistirá o contrato, 
independentemente das partes contratantes (TARTUCE, 2017).
8.2 DO CONTRATO DE DEPÓSITO 
O contrato de depósito se caracteriza pelo fato jurídico de alguém 
(depositário) receber um objeto móvel e corpóreo, para guardar, até que o 
depositante resgate. Tartuce (2017) destaca que o depósito pode ser classifi cado 
como voluntário, que se origina da manifestação da vontade das partes em livre 
consenso; ou em depósito necessário/obrigatório, quando o depósito se origina 
da lei (depósito legal) ou depósito miserável (decorrência de calamidade pública). 
Outra classifi cação do depósito é referente à coisa depositada, pois se a coisa 
em depósito for fungível, diz-se que o depósito é irregular e quando a coisa for 
infungível, o depósito será regular. 
8.2.1 Do Depósito Voluntário
Essa espécie de contrato de depósito é proveniente da manifestação 
de vontade entre o depositante e o depositário, em que o “primeiro declara a 
vontade de confi ar ao segundo a custódia de um bem, enquanto esse manifesta a 
concordância em se responsabilizar por ele” (COELHO, 2012, p. 790).
Conforme o Código Civil, no art. 628, o contrato de depósito geralmente é 
unilateral e gratuito, mas é possível que ele seja bilateral e oneroso, a depender 
do negócio jurídico entre as partes e a relação comercial ou jurídica existente 
entre as partes. Os contratos de depósito serão onerosos ou sinalagmáticos, em 
caso de omissão quanto à precifi cação, será determinado com base no uso do 
lugar ou por arbitramento na falta deste (TARTUCE, 2017).
96
 Teoria Geral dos Contratos
Quem recebe a coisa para fi car em depósito, tem a obrigação de garantir a 
manutenção da coisa e a segurança como se o objeto lhe pertencesse, bem como 
restituir todos os frutos e acrescidos, desde que exigido pelo depositante (art. 629 
do CC). Sendo que a despesa de restituição será por conta do depositante e o 
local de entrega da coisa deverá ser o lugar em que tiver sido guardada, salvo 
disposição contrária (art. 631 do CC). 
O depositário, que por força maior houver perdidoa coisa e recebido outra 
no lugar, quando tiver que entregar a coisa ao depositante, deverá entregar 
essa segunda coisa, inclusive o direito de ação contra terceiro responsável pela 
restituição da perda (art. 636 do CC). 
Cumpre destacar que mesmo que tenha previsão contratual de um tempo em 
depósito, independentemente do período, caso o depositário exija a restituição, 
esta deverá ser feita a qualquer tempo (art. 633 do CC). No caso de depósito 
da coisa em favor do interesse de terceiro, a restituição da coisa deverá ser 
informada e consentida por este terceiro, para que não haja lesão ao interesse 
(art. 632 do CC), assim, este contrato visa única e exclusivamente à manutenção 
do bem e da propriedade do depositante. 
Pode haver a opção de depósito judicial da coisa, uma espécie de 
consignação em pagamento, só que de bens, quando, por motivo plausível, o 
depositante e o depositário não possam guardar a coisa e, neste último, caso o 
depositante não queira receber (art. 635 do CC). 
Há duas obrigações principais do contrato de depósito ao depositário, 
a primeira é a guarda e a manutenção da coisa depositada e a segunda é a 
obrigação do depositário restituir a coisa ao depositante. Se a coisa for divisível 
e houver dois ou mais depositantes, a entrega da coisa poderá ser equivalente à 
respectiva parte de cada um (art. 639). Assim, com exceção dos casos previstos 
nos arts. 633 e 634 do Código Civil, o depositário é obrigado a restituir a coisa 
sempre, não podendo alegar que esta não pertence ao depositante ou requerendo 
compensação (art. 638 do CC). 
O depositário não poderá vender a coisa em sua posse por não lhe pertencer 
e a posse ser precária, assim como não poderá utilizar da coisa sem a expressa 
autorização do depositário (art. 640 do CC), sendo que a obrigação da restituição 
da posse da coisa é transmitida com a herança aos herdeiros. Desta forma, em 
eventual hipótese da ocorrência da venda da coisa por seu herdeiro, mesmo de 
boa-fé, o art. 636 do Código Civil determina que este deverá desfazer o negócio e 
restituir o comprador pelo preço recebido e eventuais perdas e danos. 
97
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
8.2.2 O Contrato de Depósito Necessário
O contrato de depósito necessário ocorre quando há imposição legal nos 
termos do art. 647 do Código Civil, em que prevê duas situações, a primeira delas 
indicada no inciso I do mesmo artigo, que o depósito se faz em desempenho 
de obrigação legal, como a companhia aérea se torna responsável legal pela 
bagagem do viajante (inclusive é a equiparação expressa do art. 649 do Código 
Civil); e serão aplicados subsidiariamente os dispostos no depósito voluntário, 
quando aplicável (art. 648 do CC). 
A segunda situação é descrita no inciso II do art. 647 do Código Civil, que 
ocorre o depósito quando tiver situação por motivo de alguma calamidade, como 
incêndio, inundação, naufrágio ou saque. Por exemplo, a guarda dos bens de um 
navio que foi resgatado de um caso de naufrágio até que a situação se normalize 
e os bens sejam devolvidos. 
O depósito necessário não será presumidamente gratuito (art. 651 do CC), por 
exemplo, na hipótese do art. 649 do CC, que dispõe como necessário o depósito 
de bagagens de viajantes ou hóspedes de hotéis, há a possibilidade de incluir 
no preço a remuneração pelo depósito. A responsabilização no caso de furto ou 
deterioração de bagagens dependerá da comprovação da responsabilidade dos 
depositários, pois, se fi car comprovado que os próprios viajantes ou hóspedes 
deram culpa ou poderiam ter evitado, não terão direito à responsabilização do 
depositário (art. 650 do CC). 
8.2.3 Da Prisão do Depositário Infi el
A prisão do depositário infi el está prevista expressamente na Constituição 
Federal do Brasil no art. 9º, inciso LXVII, onde afi rma ser possível apenas dois 
casos de prisão civis, a do devedor de pensão alimentícia e do depositário infi el. 
O art. 652 do Código Civil disciplina que “seja o depósito voluntário ou 
necessário, o depositário que não o restituir quando exigido será compelido a 
fazê-lo mediante prisão não excedente a um ano, e ressarcir os prejuízos”. Assim, 
é obrigação do depositário ao fi nal do prazo, ressarcir o bem que estava em sua 
guarda para o depositante, sob pena de perdas e danos e ainda prisão civil. 
Em que pese a previsão da prisão civil na Constituição Federal e no Código 
Civil, trata-se de uma norma inconvencional, pois, o Brasil é signatário do Pacto 
de São José da Costa Rica, que disciplina a Convenção Interamericana de 
98
 Teoria Geral dos Contratos
Direitos Humanos, que expressamente em seu artigo 7º determina que ninguém 
poderá ser detido por dívidas, excetuando a prisão por verbas alimentícias. 
Em decisão emblemática, o Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu nos 
julgamentos dos recursos extraordinários de nº 349703, nº 466343 e Habeas 
Corpus nº 87585, e revogação da súmula 619 do STF, que a Convenção 
Interamericana de Direitos Humanos tem o status de supraconstitucionalidade, 
fi cando de acordo com as hierarquias das normas no direito brasileiro, abaixo da 
Constituição Federal, mas acima das normas infralegais. 
Pode-se dizer que foi uma espécie de “aberração” jurídica fi xada pelo STF, 
pois em matéria de Direito Internacional dos Direitos Humanos, regido pelo 
princípio pro homine, que é o princípio que determina a melhor interpretação 
dos direitos humanos em favor da vítima, independentemente de hierarquia 
de normas. Desta feita, a prisão civil por depositário infi el é constitucional e 
vigente no Brasil, mas não tem efeitos práticos e é proibida sua prática por ser 
inconvencional ao Pacto de São José da Costa Rica. 
8.3 DO CONTRATO DE MANDATO
O contrato de mandato é conceituado conforme o art. 653 do Código Civil 
como sendo aquele negócio jurídico que se trata pelo qual o mandante transfere 
poderes ao mandatário para que este, em seu nome, pratique atos ou administre 
interesses. Assim, a doutrina destaca:
É contrato consensual, derivado da convergência das vontades 
do mandante e mandatário. A do primeiro, no sentido de se 
fazer representar, num ou mais atos, pelo segundo; e a deste, 
no de aceitar a incumbência. A vinculação do mandatário ao 
contrato pode decorrer de declaração dele, feita por escrito 
ou oralmente (aceitação expressa), ou de qualquer ato de 
execução que pratique (tácita) (CC, art. 659) (COELHO, 2012, 
p. 647).
“É comum que se confunda pelo senso comum o termo “procuração” com 
mandato, mas a procuração não constitui um contrato, mas, sim, o meio pelo qual 
o negócio se instrumentaliza” (TARTUCE, 2017, p. 709), tanto que a segunda 
parte do art. 653 do CC é clara ao afi rmar que “a procuração é o instrumento 
do mandato”. A procuração se distingue do mandato por ter em sua essência 
o caráter unilateral, em que não há a necessidade de aceitação dos poderes 
concedidos à outra parte, enquanto o mandato é justamente o oposto, é um 
contrato bilateral, desta forma, deve-se haver o regramento e as condições para 
aceitação dos poderes ou do ato representativo. 
99
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
O objetivo do mandato é viabilizar a representação convencional ou voluntária 
do mandatário através da investidura da condição de representação do mandante 
para exercer qualquer negócio jurídico da vida civil. São vedados alguns casos 
específi cos, como destaca Coelho (2012, p. 645), “é proibido a investidura de 
mandato para o exercício de interesses transcendentes aos das partes, como o 
voto nas eleições constitucionais”.
O mandato, além de bilateral, pode ser tácito (por exercício de direito em 
nome de terceiro) ou expresso (autorização do mandante), escrito (público ou 
privado) ou oral (art. 656 do CC), ele também poderá ser gratuito ou oneroso. 
O mandato público deverá seguir a forma da lei, é utilizado especifi camente 
para casos que envolvam patrimônio, como compra e venda de imóveis, doação 
etc. Já osmandatos particulares são todos aqueles para atividades civis que não 
têm obrigatoriedade da forma e escritura pública em cartório notarial. Os requisitos 
da escritura particular estão previstos no art. 654 do Código Civil, que dispõe:
Art. 654. Todas as pessoas capazes são aptas para dar 
procuração mediante instrumento particular que valerá desde 
que tenha a assinatura do outorgante.
§ 1º O instrumento particular deve conter a indicação do lugar 
onde foi passado, a qualifi cação do outorgante e do outorgado, 
a data e o objetivo da outorga com a designação e a extensão 
dos poderes conferidos.
§ 2º O terceiro com quem o mandatário tratar poderá exigir que 
a procuração traga a fi rma reconhecida. 
O substabelecimento, que é a transferência de poderes por parte do 
mandatário para outro mandatário, mesmo que seja em mandato de instrumento 
público, poderá ser feito por instrumento particular (art. 655 do CC). 
Quando o contrato for gratuito, “o mandatário não terá direito a nenhuma 
remuneração pelo cumprimento da obrigação de fazer contraída pelo mandante” 
(COELHO, 2012, p. 647). Quando o contrato for oneroso, o mandatário terá direito 
a essa remuneração. 
No caso de omissão da informação, se o contrato de mandato é gratuito 
ou oneroso, o art. 658 do Código Civil presumirá onerosidade se o objetivo do 
mandato for o ofício do mandatário ou a atividade profi ssional lucrativa, exemplo 
disto seriam os advogados ou contadores. A outra presunção é da gratuidade, 
quando diante da omissão o objetivo do mandato não for seu ofício ou atividade 
profi ssional lucrativa, será considerado gratuito. 
Como o objetivo do contrato de mandato é a transferência de poderes a 
outrem, essa transferência pode ser classifi cada em duas, os chamados poderes 
100
 Teoria Geral dos Contratos
especiais para prática de ato específi co ou poderes especiais, ou poderes gerais 
(art. 660 do CC). 
Os poderes específi cos de um mandato, signifi ca dizer que as obrigações 
nunca serão ilimitadas. Diferentemente dos poderes gerais, que serão para o 
exercício de prática de ato jurídico previsto no contrato, que em termos gerais 
só conferirão poderes de administração (arts. 660 e 661 do CC). Para alienar, 
hipotecar, transigir ou praticar outros quaisquer que exorbitem da administração 
ordinária, depende a procuração de poderes especiais e expressos (§1, art. 661 
do CC). 
O contrato de mandato poderá ser personalíssimo quando expressamente 
estipulado em nome do mandante como o único responsável (art. 663 do Código 
Civil) e será um negócio jurídico intervivo, sendo as causas de extinção do 
mandato:
Art. 682. Cessa o mandato:
I - pela revogação ou pela renúncia;
II - pela morte ou interdição de uma das partes;
III - pela mudança de estado que inabilite o mandante a conferir 
os poderes, ou o mandatário para os exercer;
IV - pelo término do prazo ou pela conclusão do negócio.
Ressalvando os negócios jurídicos já iniciados (art. 674 do CC), mesmo 
que ocorra qualquer uma das hipóteses, será continuado o negócio jurídico. A 
revogação do mandato deverá ser feita mediante notifi cação ao mandatário, 
que não poderá se opor ou ignorar (art. 686 do CC), bem como será inefi caz a 
revogação do mandato quando houver cláusula de irrevogabilidade (art. 684 do 
CC). 
8.3.1 Da Obrigação das Partes no 
Mandato
Nesta parte do estudo, abordaremos as quatro obrigações no mandato 
disciplinadas no Código Civil: a) Cumprir a obrigação de fazer com diligência; b) 
Obedecer às instruções do mandante; c) Indenizar o mandante; d) Prestar contas. 
a) Cumprir a obrigação de fazer com diligência 
“O mandatário assume obrigação de fazer consistente em representar o 
mandante num ou em vários atos e negócios jurídicos” (COELHO, 2012, p. 656), 
devendo essa obrigação ser executada com toda diligência habitual, de mesmo 
101
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
modo que a executaria a si próprio, indenizando qualquer prejuízo causado por 
culpa sua ou daquele a quem substabelecer sem autorização (art. 667 do CC).
A diligência signifi ca atuar dentro dos poderes concedidos pelo mandante, 
não vinculando qualquer obrigação estranha ao contrato conferido pelo mandante. 
O mandatário não poderá comprar em nome próprio, coisa que deveria comprar 
para o mandante, quando constante no instrumento designado a ordem expressa 
para a compra, caso ocorra, o mandante terá direito à ação de entrega da coisa 
comprada (art. 671 do CC). 
b) Obedecer às instruções do mandante
O mandatário deverá seguir exatamente o que foi acordado no mandato, 
devendo seguir as instruções do mandante transmitidas no instrumento utilizado 
(escrito ou oral).
Assim, dispõe o art. 679 do Código Civil:
Art. 679. Ainda que o mandatário contrarie as instruções 
do mandante, se não exceder os limites do mandato, fi cará 
o mandante obrigado para com aqueles com quem o seu 
procurador contratou; mas terá contra este, ação pelas perdas 
e danos resultantes da inobservância das instruções.
Cumpre destacar para o caso de o mandatário contrariar as instruções do 
mandante, mas o fazendo nos limites do mandato, o mandante se responsabilizará 
por todas as obrigações contraídas decorrentes do negócio jurídico, sem prejuízo 
a demanda por perdas e danos. 
c) Indenizar o mandante 
 
Caso o mandatário exercite o direito em nome do mandante, mas o fi zer 
sem a diligência necessária e fora dos poderes a ele conferidos, o mandatário 
será obrigado a indenizar o mandante pelas perdas sofridas, devendo também 
indenizar se exorbitar os poderes e o negócio for prejudicial (art. 667 do CC). 
d) Prestar contas
“O mandatário dever prestar contas ao mandante de todos os atos praticados, 
sendo a periodicidade acordada entre as partes, na sua ausência, será feito ao 
fi nal do contrato ou quando o mandante solicitar” (COELHO, 2012, p. 658), sendo 
passível de pagamento de juros na mora da entrega da coisa ou da prestação de 
contas (art. 670 do CC). 
102
 Teoria Geral dos Contratos
Prestadas as contas e verifi cada qualquer vantagem que em decorrência da 
ação executada pelo mandatário tenha ocorrido, esta vantagem será do mandante 
(art. 668 do CC). Sendo vedado pelo art. 669 do Código Civil, a compensação 
de prejuízos do mandatário que deu causa às vantagens que proporcionaram a 
execução do mandato. 
A prestação de contas não existirá quando o mandato for outorgado com 
cláusula contratual em causa própria (art. 686 do CC), em que o mandante dispõe 
ao mandatário seu direito e o deixa exercer em causa própria do mandatário.
8.4 DOS CONTRATOS DE COMISSÃO 
DE CORRETAGEM 
Inicialmente, o contrato de comissão tem por objetivo a aquisição ou a venda 
de bens pelo comissário, em seu próprio nome à conta do comitente (art. 693 
do CC), sendo que o comissário fi cará diretamente obrigado com as pessoas a 
quem contratar (art. 694 do CC), devendo cumprir as ordens e as instruções do 
comitente (art. 695 do CC), com diligência necessária para a execução do serviço 
(art. 696 do CC). 
A remuneração do comissário será arbitrada conforme as normas correntes 
do local, quando não for estipulada em contrato (art. 701 do CC). 
Em contrapartida, o contrato de corretagem, “não ligada a outra em virtude 
de algum mandato, prestação e serviço, ou por qualquer meio de dependência” 
(art. 722 do CC), se obrigará a obter um ou mais negócios conforme a instrução. 
Para obter um ou mais negócios, o corretor (parte ativa do contrato de 
corretagem), deverá utilizar-se de mediação com diligência e prudência, atinentes 
ao negócio, se obrigando a ser transparente e informando espontaneamente e/
ou a pedido, todas as informações sobre o andamento, documento, negociação, 
vantagens e riscos do negócio jurídico, sob pena de responder por perdas e 
danos (art. 723 do CC).
A remuneração do corretor será ajustada entre as partes ou fi xada em lei, 
contudo, na sua ausência, serão utilizados os costumes locais (art. 724 do CC). 
Tem-se que estaremuneração é atribuída à comissão por seu serviço, utilizando 
subsidiariamente os dispostos no contrato de comissão, se será devida ao fi nal 
da mediação com o êxito no resultado pretendido, mesmo que ocorra em virtude 
de arrependimento das partes (art. 725 do CC). 
103
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
Para melhor fi xação do conteúdo, preparamos uma atividade 
que corresponde a duas questões dissertativas, que deverão ser 
respondidas de forma assertiva conforme o conteúdo estudado.
1 Disserte sobre a possibilidade ou necessidade do contrato de 
compra e venda ser oneroso e, se caso ele fosse gratuito, se 
confi guraria outra espécie de contrato.
R.: ____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
____________________________________________________
_______________________________.
2 Disserte sobre a possibilidade de prisão civil do depositário infi el 
que não entregou ou alienou o bem proveniente de contrato de 
depósito que estava em sua custódia.
R.: __________________________________________________
__________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________________________________________
_________________.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Neste capítulo estudou-se individualmente as espécies contratuais previstas 
no Código Civil.
Percebemos que há uma gama de possibilidades a ser estudada e abordada 
em matéria contratual, sendo cada vez mais frequente o uso dos contratos nas 
nossas relações interpessoais, requisitando como cidadãos e operadores do 
direito a melhor compreensão desses instrumentos.
104
 Teoria Geral dos Contratos
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso 
em: 13 jul. 2019.
BRASIL. Lei n. 8.245, de 18 de outubro de 1991. Dispõe sobre as locações dos 
imóveis urbanos e os procedimentos a elas pertinentes. Disponível em: http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8245.htm. Acesso em: 13 jul. 2019.
COELHO, F. U. Curso de Direito Civil: contratos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 
2012. 
FARIAS, C. C.; ROSENVALD, N. Curso de direito civil: contratos - teoria geral e 
contratos em espécie. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2015.
GONÇALVES, C. R. Direito Civil Brasileiro, volume 3: contratos e atos 
unilaterais. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
MELLO, C. de M. Direito civil: contratos. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos 
Editora, 2017.
NADER, P. Curso de Direito Civil, volume 3: contratos. 9. ed. Rio de Janeiro: 
Forense, 2018. 
PEREIRA, C. M. da S. Instituições de Direito Civil - Teoria Geral de Direito Civil 
- Vol. I. 30. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017.
TARTUCE, F. Direito Civil: teoria geral dos contratos e contratos em espécie. 12. 
ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017.
105
DAS ESPÉCIES DE CONTRATOS Capítulo 3 
106
 Teoria Geral dos Contratos

Mais conteúdos dessa disciplina