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Unidade I Direito e políticas públicas para o Agronegócio Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial ALESSANDRA VANESSA FERREIRA DOS SANTOS Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria MARIA CLARA DONATO ALVES MARTIELE CORTES BORGES NATHALIA ELLEN SILVA BEZERRA AUTORIA Maria Clara Donato Alves Olá. Sou advogada, graduada em Direito na Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas (Facisa), com bolsa integral fornecida pelo Programa Federal Universidade para Todos (Prouni), pós-graduada em Inteligência Policial pela Faculdade Campos Elíseos (FCE) e curso Pós-Graduação em Direito Penal e Criminologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atualmente, atuo como assistente administrativo na FiberHome. Além disso, faço pesquisa na área de Direito Penal, Perícia Criminal, Psicologia Forense, Criminalística, Direitos Humanos, LGPD e GDPR e Compliance em Proteção de Dados. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! Martiele Cortes Borges Olá. Sou graduada em Administração, especialização em Marketing, mestra em Agronegócios e doutoranda em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Além disso, participo dos grupos de pesquisa em Estratégia, Internacionalização e Inovação (Gpei-UFRGS) e de pesquisa em Sustentabilidade (GPS). Tenho experiência docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul- Riograndense (IFSul), onde atuei como professora substituta, além de ter atuado como tutora a distância no curso de Desenvolvimento Rural pela UAB/Capes (2016) e facilitadora em maratonas de empreendedorismo em outras instituições. Nathalia Ellen Silva Bezerra Olá. Sou mestranda em Administração pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG); especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário pelo Centro Universitário de Patos (Unifip); e bacharela em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Além disso, atuo como conciliadora jurídica no Centro Judiciário de Solução de Conflitos V (CEJUSC V) do Tribunal de Justiça da Paraíba, na Comarca de Campina Grande (PB). Minhas principais áreas de interesse são: Direito Ambiental, Direitos Humanos, Direito Civil, Direito do Trabalho, Direito do Consumidor, Direito Previdenciário, Direito Constitucional e Direito Administrativo. Também atuo como advogada e sou membro da Comissão de Direito Previdenciário da Ordem dos Advogados do Brasil. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova competência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de apresentar um novo conceito; NOTA: quando necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; REFLITA: se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido; ACESSE: se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando uma competência for concluída e questões forem explicadas; SUMÁRIO Noções gerais do direito aplicado ao agronegócio ..................... 12 O que é Agronegócio? ................................................................................................................. 12 Direito e Agronegócio .................................................................................................................. 17 Importância do Direito para o Agronegócio ................................................................ 19 Desenvolvimento histórico do direito no agronegócio ...............22 A história do Direito Agrário .....................................................................................................22 O surgimento do Direito Agrário no Brasil .....................................................................25 Princípios do Direito Agrário ....................................................................................................28 Origem do Agronegócio .............................................................................................................29 Percursos do Direito do Agronegócio .............................................................................. 31 Fundamentos do agronegócio e segmentos agroindustriais .. 33 Fundamentos econômicos do Agronegócio ..............................................................33 Sistemas agroindustriais ........................................................................................................... 39 Segmentos do sistema agroindustrial ............................................................................ 40 Segmentos antes da porteira ............................................................................. 40 Segmentos dentro da porteira ...........................................................................42 Segmentos depois da porteira ...........................................................................42 Governo e políticas agrícolas ................................................................44 Política agrícola: conceito, características e história .............................................44 Políticas agrícolas no Brasil .................................................................................................... 50 Instrumentos da política agrícola ........................................................................................53 9 UNIDADE 01 Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 10 INTRODUÇÃO Você sabia que a área da Agricultura é de extrema importância para o desenvolvimento da Economia presente tanto no meio mundial quanto no cenário nacional? Considerando a importância da agricultura e do Agronegócio, ao longo deste capítulo, iremos estudar quais são os principais direitos e políticas públicas voltados para esse campo do saber. Nessa perspectiva, ao longo da desta Unidade, teremos como intenção definir e debater de forma crítica acerca dos conceitos gerais que são aplicados ao Agronegócio. Também, estudaremos quais são os marcos históricos relativos à evolução do Direito presente no Agronegócio, tanto no Brasil quanto no mundo. Além disso, destinaremos atenção para os sistemas agroindustriais e as políticas agrárias com a intenção de ampliar os nossos conhecimentos sobre o tema em pauta. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você vai mergulhar neste universo! Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 11 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1 – Direito e políticas públicas para o Agronegócio. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Definir e debater criticamente os conceitos gerais do Direito aplicado ao Agronegócio. 2. Identificar os marcos históricos da evolução do Direito relacionado ao Agronegócio no Brasil e no mundo. 3. Entender os segmentos dos sistemas agroindustriais à luz da classificação estabelecida pelas normas e pelo ordenamento jurídico. 4. Identificar e avaliar as políticas públicas e ações governamentais de fomento ao Agronegócio, compreendendo seus deveres e obrigações constitucionais. Legislação e normas técnicas aplicadas aonão tenham acesso ao crédito rural. Outra política agrária que merece atenção faz menção à agroenergia, tendo como finalidade a intenção de diminuir o uso dos combustíveis fósseis, buscando, ainda, incentivas a utilização dos biocombustíveis, por meio dos programas envolvendo o etanol e o biodiesel. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 52 Figura 12 – O etanol deriva da cana-de-açúcar Fonte: Freepik. Isso implica dizer que por meio da agroenergia é possível que uma série de impactos que podem atingir o meio ambiente sejam implementados. Dessa forma, serão utilizadas fontes mais baratas de energia. Além disso, os produtos agrícolas são encarados na atualidade como a segunda maior fonte de energia a nível mundial. Em terceiro lugar, são mencionadas as políticas agrícolas envolvendo o combate à seca, assim, existem vários tipos de métodos utilizados de maneira que os impactos relativos à seca sejam combatidos e dirimidos, sendo tais práticas aplicadas principalmente na região Nordeste. Algumas das medidas envolvem: linhas de crédito especial do Banco do Nordeste, bolsa de estiagem e a antecipação da garantia-safra, entre outros. Além das já mencionadas, existem outras leis que são importantes para o âmbito e o desenvolvimento das políticas agrícolas nacionais, sendo essas: • Lei nº 10.246, de 2 julho de 2001. • Lei nº 10.298, de 30 de outubro de 2001. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 53 • Lei nº 13.901, de 11 de novembro de 2019. • Decreto nº 4.623, de 21 de março de 2003. Nessa perspectiva, destaca-se que também existem determinações constitucionais que se referem a tais políticas, sendo esse o caso do disposto no art. 174 da Constituição da República Federativa de 1988. Instrumentos da política agrícola O Mapa e a Secretaria de Agricultura Familiar e Corporativismo (SAF) efetuam publicações anuais acerca dos seus planos, assim, são consideradas as principais orientações para os produtores, sendo destinadas aos investimentos agropecuários. Entre alguns dos instrumentos é possível destacar: O crédito rural é responsável por englobar os recursos que fazem menção tanto ao custeio quanto aos investimentos presentes no setor. Salienta-se que existem várias modalidades de crédito rural, sendo cada uma dessas relativas a um programa e ao atendimento de uma necessidade específica. No que se refere ao zoneamento agrícola, este pode ser compreendido como um instrumento presente no Decreto n° 9.841, de 18 de julho de 2019, que intenciona diminuir os riscos atrelados à agricultura, dando destaque para aqueles que mencionam questões climáticas. Por sua vez, o seguro rural funciona como uma apólice direcionada para a diminuição das perdas produtivas, possibilitando que parte do que foi investido possa ser recuperado. Um exemplo de seguro que atende com essas expectativas recebe o nome de “Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR)”. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 54 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que política agrícola, em conformidade com o exposto pela Lei nº 4.504/1964, é entendida como o conjunto de medidas que servem como orientadoras das atividades agropecuárias, levando em consideração os interesses da Economia Rural, a assistência ao produtor e o amparo à propriedade de terra. Aprendemos também que a Lei n° 8.171/1991 é a incumbida por dispor acerca da política agrícola. Diante disso, apresenta quais são os fundamentos, os objetivos e as competências institucionais atreladas a essas políticas, apresentando ainda quais são os recursos, as ações e os instrumentos específicos pertencentes a essas políticas e como elas se relacionam com questões relativas à agropecuária, às agroindústrias e ao planejamento das atividades pesqueira e florestal. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 55 REFERÊNCIAS ARIEIRA, J. O. Fundamentos do Agronegócio. Indaial: Uniasselvi, 2017. BATALHA, M. O. Gestão agroindustrial. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2010. BELANDI, C. IBGE retrata cobertura natural dos biomas do país de 2000 a 2018. Agência IBGE Notícias, 2020. Disponível em: https:// agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de- noticias/noticias/28944-ibge-retrata-cobertura-natural-dos-biomas-do- pais-de-2000-a-2018. Acesso em: 10 ago. 2022. BRASIL. Lei n° 12.651, de 25 de maio de 2012. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis n° 6.938, de 31 de agosto de 1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis n° 4.771, de 15 de setembro de 1965, e 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória n° 2.166-67, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 2012. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12651.htm. Acesso em: 31 jul. 2022. BRASIL. Lei nº 8.171, de 17 de janeiro de 1991. Dispõe sobre a política agrícola. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 1991. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8171.htm. Acesso em: 31 jul. 2022. BURANELLO, R. Manual do Direito do Agronegócio. São Paulo: Saraiva, 2013. CASTRO, A. C. S. O Direito é agro? uma análise sobre a produção do Direito do Agronegócio. Iesp, 2021. Disponível em: https://deciso-iesp. com/2021/03/19/o-direito-e-agro-uma-analise-sobre-a-producao-do- direito-do-agronegocio. Acesso em: 15 jun. 2022. CAMACHO, Rodrigo Simão. Por uma Agricultura Camponesa. Cadernos de Agroecologia, v. 11, n. 2, 2016. EXPORTAÇÃO do Agronegócio do Brasil tem recorde para mês de abril com alta de preços. Forbes, 2022. Disponível em: https://forbes.com. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 56 br/forbesagro/2022/05/exportacao-do-agronegocio-do-brasil-tem- recorde-para-mes-de-abril-com-alta-de-precos. Acesso em: 31 jul. 2022. MARQUES, B. F. Direito Agrário Brasileiro. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2015. PARRA, R. A. Direito aplicado ao Agronegócio: uma análise multidisciplinar. Londrina: Thoth, 2018. TRATADO de Tordesilhas | o que foi? | história. [S. l.: s. n.], 2020. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal Professor Baglini. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qV2y3s2v454. Acesso em: 31 jul. 2022. Legislação e normas técnicas aplicadas ao AgronegócioAgronegócio 12 Noções gerais do direito aplicado ao agronegócio OBJETIVO: Neste capítulo, vamos definir e debater criticamente os conceitos gerais do Direito aplicado ao Agronegócio. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! O que é Agronegócio? O Agronegócio é um setor pertencente ao campo da Economia, tido como de extrema importância no âmbito mundial, tendo em vista que por meio de sua aplicação, uma cadeia de produção alimentar surge e interliga setores como a agricultura, a pecuária e a indústria. Além disso, o comércio relativo aos produtos e aos serviços presentes nesse campo também são foco do Agronegócio. Nessa perspectiva, o Agronegócio também é conhecido por meio de sua outra nomenclatura, sendo essa o “agrobusiness”. Assim, de maneira geral, as atividades econômicas estão ligadas ao âmbito da agropecuária, isso implica dizer que também faz menção ao manejo da floresta, bem como ao comércio, aos serviços e ao extrativismo vegetal. VOCÊ SABIA? Diante desse cenário, também se relaciona ao Agronegócio o comércio vinculado a esse campo, assim, os aspectos relativos ao armazenamento, à logística, à distribuição e até mesmo ao marketing também estão inclusas no Agronegócio, por isso é correta a afirmação de que esse campo se relaciona com vários setores pertencentes à Economia, sendo esse um critério responsável por demonstrar o quanto é forte e importante a nível socioeconômico. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 13 Conforme Camacho (2016), entre as principais características do Agronegócio, podem ser citadas as médias e as grandes propriedades rurais, que são dotadas de alta produtividade quanto aos seus campos de produção, sendo essa uma realidade aplicada tanto à agricultura quanto à pecuária. Atrelado a essa característica, está o fato de as médias e grandes propriedade rurais serem capazes de desempenhar a modernização dos campos, e esse avanço faz menção à utilização de máquinas, sementes modificadas, técnicas de cultivo e até mesmo à criação de animais, além da alteração de aspectos que possam afetar o desenvolvimento de produtos relativos ao ciclo natural do plantio e ao crescimento das plantas e do gado, como é o caso dos alimentos transgênicos. Além disso, o autor ainda destaca que o agronegócio também é marcado por características como a monocultura, fator que fragiliza a biodiversidade e pode aumentar as pragas, o que gera uma maior necessidade do uso de agrotóxicos. O Agronegócio é marcado pela presença de três setores, conforme apresentado na Figura 1. Figura 1 – Setores do Agronegócio Setores do Agronegócio Primário Secundário Terciário Pecuária Agroindústrias Comércio: distribuição e venda dos produtos rurais Agricultura Fonte: Elaborada pelo autor (2022). Quanto ao seu ciclo, a divisão também ocorre em três etapas, sendo essas: Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 14 1. Produção rural. 2. Agroindústria. 3. Relação firmada com o setor de comércio e a logística. Ao pensar no Agronegócio a nível mundial, verifica-se que este é considerado uma das atividades mais lucrativas. No Brasil, é considerado uma das suas atividades mais lucrativas, sendo capaz de proporcionar impactos até mesmo em um cenário mundial. Figura 2 – Agronegócio Fonte: Freepik. Diversos são os produtos produzidos por meio do Agronegócio no Brasil, entre eles, aqueles que são dignos de maior destaque são: • Algodão. • Milho. • Soja. • Cana-de-açúcar. • Celulose, trigo e laranja. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 15 SAIBA MAIS: Recentemente, a exportação do Agronegócio presente no Brasil bateu recordes, tendo atingido alta de preço. Dessa forma, tais exportações chegaram a totalizar 14,86 bilhões de dólares em abril, em decorrência do aumento de preços de produtos como a soja, o café, frango e a carne bovina, conforme o disposto no link a seguir. Para acessar, clique aqui . Outro destaque importante a ser dado para o Agronegócio no cenário nacional dispõe sobre a pecuária, tendo em vista que o Brasil é tido como uma grande potência nesse assunto, pois por meio dela, cerca de um sexto da população mundial é devidamente alimentada. O Agronegócio é capaz de implementar vantagens e desvantagens nos setores fundamentais para a sociedade. Assim, uma das principais vantagens relacionadas a esse campo faz menção à modernização do campo, bem como ao aumento da produção de alimentos e produtos relativos ao campo em questão. No entanto, nem só de vantagens o Agronegócio é composto, sendo necessário também destacar alguns pontos negativos que estão relacionados aos impactos ambientais, visto que a maior parte destes são marcados por sua irreversibilidade, como é o caso de: • Desmatamento. • Queimadas nas áreas de preservação para que o pasto e a lavoura possam ser implementados. • Contaminação do solo em decorrência do uso excessivo de agrotóxicos e fertilizantes. Outras desvantagens que também são relacionadas com impactos ambientais perigosos e decorrentes do Agronegócio envolvem questões como a degradação dos solos e os processos erosivos. Contudo, os impactos relacionados ao meio ambiente não são os únicos que podem ser provocados pelo Agronegócio, assim, também é válido mencionar os impactos sociais que podem decorrer deste. São exemplos as seguintes situações: Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 16 • Desemprego e êxodo rural. • Doenças que tenham origem nos alimentos contaminados por agrotóxicos. • Aumento dos conflitos agrários em virtude da posse de terras. • Aumento da concentração de renda. • Aumento da desigualdade presente no meio rural. Diante do exposto, entende-se que o Agronegócio não estabelece uma relação tão benéfica com a proteção destinada ao meio ambiente, por isso é preciso que o Agronegócio, no setor nacional, forneça uma maior atenção para as questões ambientais. Para tanto, faz-se preciso que ocorra uma readequação das regras internacionais e das práticas que envolvem tanto o cultivo quanto a produção. Figura 3 – Relação entre Agronegócio e danos ambientais Fonte: Freepik. É fato que o Agronegócio é de extrema relevância para a vida humana e em sociedade, mas isso não implica dizer que ele pode ser praticado de qualquer maneira, pois deve objetivas o benefício de todos, e os seus danos podem gerar impactos negativos, como é o caso da ampliação do aquecimento global e dos impactos vinculados a ele. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 17 VOCÊ SABIA? Segundo pesquisa realizada pelo IBGE, entre os anos de 2000 e 2018, os biomas brasileiros perderam cerca de 500 mil km² de sua cobertura natural, sendo que parte dessa perda é impactada pelo avanços da agricultura, assim, o IBGE, por meio de sua gerente de Contas e Estatísticas Ambientais, aponta que o crescimento agrícola impactou, principalmente, os biomas da Amazônia e do Cerrado (BELANDI, 2020). Já no âmbito social, um dos seus principais danos faz menção ao aumento da desigualdade social dentro do país, pois o dinheiro que pertence a poucos permanece dessa maneira, assim, mais danos e dificuldades são gerados quando a intenção consiste em alcançar a qualidade e as condições de vida digna. É importante destacar que, por mais que a agricultura e o Agronegócio estejam relacionados, não podem ser entendidas como a mesma coisa. Dessa forma, a agricultura tem relação com o setor produtivo, que tem como base a atividade rural, assim, faz menção ao cultivo dos campos e das terras; por sua vez, o Agronegócio envolve as empresas que têm a sua produção de insumos agrícolas, também fazendo menção ao seu processamento e distribuição. A construção desse conceito se deu pela primeira vez no ano de 1957. Direito e Agronegócio Agora que já entendemos o que é Agronegócio, podemos entendero que é e quais são os principais aspectos do Direito relacionado a esse campo. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 18 DEFINIÇÃO: Buranello (2013, p. 35) define o Agronegócio como: O conjunto organizado de atividades econômicas que envolve todas as etapas compreendidas entre o fornecimento de insumos para a produção até a distribuição para consumo final de produtos, subprodutos e resíduos de valor econômico relativos a alimentos, fibras naturais e bioenergia; também compreendidas as bolsas de mercadorias e futuros e as formas próprias de financiamento. Quando falamos da relação firmada entre o Agronegócio e o Direito, é importante que seja destacada a incompatibilidade desse campo com o ramo do Direito Comercial, pois entende-se que essa área do Direito é a incumbida pela circulação, produção e distribuição de renda, contudo não contempla como foco de estudo a atividade agrícola, mesmo que a sua organização seja anterior à configuração do comércio ou da indústria. Em um momento inicial, o Direito Comercial envolvia as atividades comerciais e, a partir de sua evolução, também passou a abranger as operações de caráter industrial. Por volta de 1882 uma nova ampliação garantiu que esse campo também destinasse atenção para a especulação imobiliária, mas em nenhum momento os assuntos relativos à lavoura foram assunto desse ramo jurídico. Outro avanço importante foi a sua transformação de Direito Comercial para Direito Empresarial, o que acabou gerando uma certa aproximação com o Direito das Obrigações e, consequentemente, com o campo das atividades agrícolas e a sua vinculação com as atividades comerciais e industriais. As atividades agrícolas também podem estar relacionadas, de certa forma, com a visão jurídica atrelada às novas realidades econômicas e que têm vínculo tanto com o Direito Civil quanto com o Direito Agrário. A partir do exposto, afirma-se que à medida que a sociedade avança, o Direito tende a acompanhar esse percurso. Dessa forma, surgem ramos especializados do Direito com a intenção de atender a tais necessidades, Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 19 como exemplo desse cenário existem: o Direito do Trabalho e o Direito do Consumidor, que surgiram por volta do século XX, e o Direito Agrário, que surgiu na década de 1960. IMPORTANTE: Apesar da existência de um ramo jurídico destinado ao Direito Agrário, isso não implica dizer que o Direito do Agronegócio pode ser entendido como um ramo jurídico autônomo e independente, pois ainda não é dotado da devida autonomia didática, científica e até mesmo legislativa, segundo o apontando por Parra (2018). Nessa perspectiva, a autora defende que o mais correto é mencionar a existência do Direito aplicado ao Agronegócio do que nomear um ramo jurídico como Direito do Agronegócio. Importância do Direito para o Agronegócio O Agronegócio é um dos setores econômicos de maior destaque no Brasil, sendo que até mesmo em períodos difíceis, como foi o caso do proporcionado pela pandemia da covid-19, houve um certo avanço nesse campo. Então, o estabelecimento de mediações nas relações legais e empresariais presentes no âmbito do Agronegócio é tido como fundamental para o crescimento e avanços do setor econômico nacional. Como o Agronegócio no Brasil só cresce, também é comum e até mesmo esperado que os investimentos e as exportações presentes nesse âmbito cresçam, em decorrência dessas movimentações, principalmente quando o foco passa a ser relação que pode ser firmada entre o Agronegócio e as normas de caráter ambiental, sanitário e trabalhista. Mesmo que nem todos os doutrinadores entendam o Direito ao Agronegócio como um ramo jurídico, independente e autônomo, já existem aqueles que apoiam a sua relevância como um ramo que deriva do Direito Empresarial, tendo em vista criar regulamentações acerca das relações firmadas entre produtor rural, empresas agrícolas, fabricantes de Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 20 defensivos agrícolas, entre outros, tendo como objetivo proporcionar que nenhum dos envolvidos enfrente danos perante às suas negociações. VOCÊ SABIA? No Brasil existe um instituto que destina atenção específica ao Agronegócio, sendo este denominado Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio (IBDA), que foi criado com a intenção de estudar o Direito e a Economia, bem como as suas relações firmadas com a atividade agroindustrial, dando destaque para questões como o estudo, a regulamentação e a formulação das políticas públicas. Então, o Direito do Agronegócio e o Direito Agrário não podem ser entendidos como a mesma coisa, já que têm focos distintos, assim, a atenção do Direito do Agronegócio é destinada principalmente às relações empresariais presentes nos setores, buscando estabelecer determinadas regulamentações e vínculos com as instituições financeiras, dando um maior destaque para aquelas que mencionam a exportação, o financiamento e o câmbio da moeda, entre outras. Figura 4 – Direito Agrário e Direito do Agronegócio Direito Agrário Direito do Agronegócio Normas de Direito Público ou Privado. Normas relativas à produção, ao armazenamento, à comercialização e ao financiamento. Visam regular a atividade agrária. Destina atenção para as relações empresariais. Fonte: Elaborada pelo autor (2022). Segundo a definição apresentada por Buranello (2013, p. 46), o Direito do Agronegócio pode ser entendido como “o conjunto de normas jurídicas Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 21 que disciplinam as relações decorrentes da produção, armazenamento, comercialização e financiamento do complexo industrial”. Enquanto isso, o Direito Agrário pode ser entendido como o conjunto de normas de Direito Privado e Público, que são responsáveis por regular as relações que decorram da atividade agrária, sendo que nestas estarão inclusas a produção, o processamento e a agroindustrialização dos produtos agrícolas. As atividades desempenhadas nesse campo também irão destinar atenção para as questões envolvendo o desenvolvimento agrário sustentável, englobando a Economia, bem como os aspectos sociais e ambientais. RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o Agronegócio é considerado uma das atividades que mais fornece lucros no mundo todo, sendo também um destaque no cenário nacional. Entre as principais produções do Agronegócio no Brasil envolvem: algodão, milho, carne, cana-de-açúcar, soja, celulose, trigo e laranja. Assim, o Agronegócio pode ser compreendido como a junção das inúmeras atividades que envolvem, de forma direta ou indireta, as cadeias produtivas tanto da agricultura quanto da pecuária. Ainda que já existam normas importantes e que fazem menção à agricultura e à pecuária no Brasil, não é possível afirmar a existência de um Direito voltado para o Agronegócio, mas sim o Direito aplicado ao Agronegócio, assim, é necessário um maior arcabouço científico e jurídico para que essa área do Direito seja devidamente implementada; por outro lado, já existem os doutrinadores que entendem esse campo como autônomo. Nessa perspectiva, também destinamos atenção para os pontos de distinção entre o Direito Agrário e o Direito do Agronegócio, afinal, mesmo que sejam semelhantes, não podem ser entendidos como a mesma coisa, já que têm foco de atuação distintos. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 22 Desenvolvimento histórico do direito no agronegócio OBJETIVO: Neste capítulo, vamos entender os marcos históricos da evolução do Direito relacionado ao Agronegócio no Brasil e no mundo. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! A história do Direito Agrário Mesmoque o Direito do Agronegócio ou aplicação do Direito ao campo do Agronegócio não possa ser confundido com o ramo do Direito Agrário, as duas áreas se relacionam, por isso verifica-se a relevância do estudo da história e de alguns aspectos gerais sobre o Direito da Agricultura, para que a aplicação do Direito ao Agronegócio e a compreensão da possível área jurídica independente seja melhor analisada ao longo do nosso estudo. Desde os primórdios, a agricultura exerce importância marcante para o desenvolvimento e o crescimento da humanidade e das relações humanas firmadas, além de proporcionar acesso às condições únicas para os seres humanos, como o fornecimento dos insumos para a alimentação. Considerando a importância da temática relativa a essa discussão, compreende-se como imprescindível que sejam implementadas legislações na tentativa de regular as discussões e as problemáticas presentes nesse âmbito jurídico. Assim, justifica-se o surgimento e o estabelecimento do Direito Agrário. Nessa perspectiva, é correta a afirmação que apresenta o surgimento desse ramo jurídico como relacionado ao início da humanidade, levando em consideração o aparecimento das regras e exigências de determinadas condutas. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 23 IMPORTANTE: O tratamento destinado à terra, bem como a forma como se dá a sua utilização, quanto ao seu aproveitamento para a produção de riquezas, faz parte da agricultura, então, a origem do Direito Agrário pode ser confundida com a origem da própria humanidade, pois a agricultura e o homem sempre estiveram relacionados e, consequentemente, para o devido uso desse campo, também se faz necessário que sejam implementadas normas para a sua devida regulação. Figura 5 – Código de Hamurabi Fonte: Wikimedia Commons. Em um momento inicial, as normas acerca do Direito Agrário eram tidas apenas como critérios destinados à distribuição do seu uso perante aqueles que realizavam a sua ocupação. Um dos códigos mais antigos responsáveis por disciplinar essa temática era o Código de Hamurabi. Nessa perspectiva, Alcir Gursen apud Marques (2015, p. 2) enfatiza que: Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 24 As primeiras normas reguladoras dos povos antigos foram normas diferenciadas e que a relação do homem com a terra excedia os limites do jurídico, chegou à conclusão de que o Código de Hamurabi, [...] (século XVII a. C.), organizado em 280 parágrafos, continha nada menos do que 65 temas específicos de conteúdo marcadamente agrarista, podendo-se destacar, entre eles, os seguintes: o Cap. V, que tratava da locação e cultivo dos fundos rústicos; o Cap. XII, que cuidava do empréstimo e locação de bois; o Cap. XIV, que se referia à tipificação delituosa da morte humana pela chifrada de um boi; o Cap. XVI, que regia a situação dos agricultores; e o Cap. XVII, que tratava dos pastore. O Direito Agrário também tem relação com outras normas da Antiguidade, como é o caso das Leis Hebraicas, Leis de Licurgo na Grécia e a Lege Agrária, presente na Roma Antiga, entre outras legislações. No entanto, a sistematização dessas normas só ocorreu em momento posterior a partir do Código de Napoleão, tendo em vista a própria relevância vinculada à tal norma e ao destaque que essas atividades passaram a desenvolver no âmbito econômico, bem como a sua vinculação tanto com o setor secundário quanto terciário presente no momento em questão. Ainda que o surgimento da legislação agrária e do Direito Agrário estejam relacionadas com as mencionadas leis da antiguidade, não é possível dizer que a formação do Direito Agrário em seu sentido formal se deu nesse período, pois não existia um método científico apropriado para essa área, sendo que essa aplicação só surgiu durante a Modernidade. Nessa perspectiva, ao pensar no surgimento real do Direito Agrário a nível internacional, este está vinculado ao surgimento da criação do Instituto de Direito Agrário Internacional e Comparado e da Revista de Direito Agrário. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 25 IMPORTANTE: Já quanto a uma perspectiva nacional, esse surgimento se deu a partir da promulgação do Estatuto da Terra, implementado por meio da Lei n° 4.504, de 30 de novembro de 1964. A implementação dessa norma se deu poucos dias depois da inserção da Emenda Constitucional n° 10 da Constituição de 1964, que foi a responsável por fixar a competência de legislar e dispor sobre as questões agrárias. Assim, ao analisar a história do Direito Agrário, verifica-se que este surgiu a partir da necessidade de um ramo jurídico incumbido por regular a atividade agrária a partir das especificidades da atividade agrária, pois as normas vinculadas ao Direito Civil já não eram suficientes para dispor sobre essa matéria. O berço do surgimento do Direito Agrário é a Itália, país no qual ocorreu pela primeira vez a ruptura do Direito Civil e Comercial para a formação do Direito Agrário como um ramo jurídico autônomo e, portanto, dotado de independência legislativa, didática e científica. O surgimento do Direito Agrário no Brasil Agora que já entendemos qual foi o cenário do surgimento do Direito Agrário no mundo, já podemos visualizá-lo de forma mais específica, tratando do seu nascimento no ordenamento jurídico brasileiro. No Brasil, as primeiras evidências do Direito Agrário têm relação com o Tratado de Tordesilhas, pois desde esse momento já existia uma preocupação acerca das proteções relativas à terra e à sua divisão para que os países colonizadores tivessem direitos semelhantes e respeitados. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 26 SAIBA MAIS: O Tratado de Tordesilhas foi um acordo firmado entre Portugal e o reino de Castela, que foi celebrado em 1491. Por meio desse tratado ocorreu a divisão do mundo em um meridiano a 370 léguas a oeste do Arquipélago de Cabo Verde, na África. Dessa forma, a parte oriental pertencia à Portugal, enquanto a fatia ocidental era pertencente à Espanha, assim, para compreender melhor os principais aspectos desse tratado, confira o vídeo a seguir. Para acessar, clique aqui . Em decorrência da implementação desse tratado, surgiram os primeiros latifúndios, que, no momento da colonização, foram fundamentais para a criação das léguas das sesmarias. A colonização no Brasil foi marcada por um forte movimento de exploração, prova disso é que entre 1500 a 1530 os portugueses realizaram poucos investimentos e empreendimentos em nosso país, utilizando a nossa terra apenas para a realização de expedições no território litoral, ocorrendo a descoberta da presença do Pau-Brasil e da sua extração durante essas três décadas. Além disso, também foram feitas poucas feitorias a partir das expedições realizadas. VOCÊ SABIA? A partir de 1530, a ocupação dos portugueses passou a ganhar força no território brasileiro, sendo que a partir desse período o foco passou a ser o povoamento e a exploração, assim, um dos primeiros impactos provocados por essa mudança de pensamento foi a expulsão dos indígenas. Em decorrência dessa ocupação, eventos configuram um momento de intensas mudanças para o Brasil, sendo que muitas destas estavam ligadas à evolução histórica e ao fortalecimento do Direito Agrário presente nas terras nacionais. Nessa perspectiva, se faz importante a compreensão e a discussão acerca de três regimes, sendo estes apresentados na Figura 6. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 27 Figura 6 – Regimes agrícolas no surgimento do Direito Agrícola brasileiro Regime Sesmarial Regime de Posses (1822-1850) Regime da Lei de Terras (1850) Fonte: Elaborada pelo autor (2022). O instituto das sesmarias foi criado em Portugal em 1375 em decorrência dos impactos que a peste negra promoveu na população rural e o consequente êxodo rural, assim, esse instituto tinha como principalintenção solucionar os problemas decorrentes da crise do abastecimento presente no reino. Diante disso, o cultivo passou a ser obrigatório em todas as herdades. Esse instituto também foi utilizado durante a colonização no Brasil, nessa perspectiva, em 1534, D. João III fixou o sistema de administração territorial, conhecido como “capitanias hereditárias”, a partir do qual o território brasileiro ficou dividido em faixas de terra distribuídas para os particulares como uma forma de impulsionar e incentivar a ocupação das terras brasileiras, tendo em vista que nesse momento a Corte Portuguesa não contava com as condições necessárias para realizar essa ocupação de forma onerosa, uma vez que vinha de uma crise econômica em que não havia os recursos suficientes para a realização do devido investimento na colônia em questão, assim, os gastos com a terra eram de responsabilidade do donatário. IMPORTANTE: Salienta-se que mesmo com essa divisão, a terra continuava pertencendo a Portugal, assim, o donatário tinha apenas o direito de fazer uso daquela propriedade, mas não eram dotados dos direitos de donos, por isso que nesse aspecto dependia de obediência à Corte e estavam submetidos à monarquia absoluta. Assim, os capitães-donatários tinham o direito de cerca de de 20% da sua capitania, precisando distribuir os demais 80% em título de sesmarias, pois só assim seriam capazes de conservar os seus direitos sobre a capitania que havia lhe sido destinado. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 28 Então, diferentemente da aplicação das sesmarias em Portugal, no Brasil, não tinha como objetivo realizar o confisco das terras improdutivas, mas era visto como um mecanismo utilizado pela Coroa Portuguesa com a intenção de entregar o domínio útil da terra ao interessado sem que ficasse caracterizada a alienação dessa terra. A utilização desse sistema no território nacional ocorreu em 1822, a partir da implementação da promessa de regularização da posse. A partir de 1822 entrou em vigor o Regime de Posses, também conhecido como “Regime Extralegal”, tendo este sido o instituto responsável por substituir o Regime das Sesmarias ou Sesmarial. O novo sistema teve como principal característica a ocupação direta dos terrenos sem que houvesse a presença da regulamentação legal, tendo sido um dos grandes impulsionadores da marginalização das terras. O último regime a ser destacado nesse percurso histórico é o relativo ao regime da Lei de Terra, estabelecida por meio da Lei n° 601, de 18 de setembro de 1850, sendo essa a legislação incumbida por encerrar o caos que havia surgido perante o regime de posses, tendo como principal objetivo o apossamento das áreas, seja essa pública ou privada, sem que ocorra a devida regulamentação desse campo. Princípios do Direito Agrário Os ramos do jurídico são regidos por princípios, normas e costumes que podem estar tanto atrelados ao disposto na Constituição da República Federativa de 1988, quanto àquelas de caráter infraconstitucional relevantes para o campo específico. Nesse sentido, o Direito Agrário tem os seus princípios que derivam tanto do disposto na Lei Maior, quanto das disposições presentes no Estatuto da Terra. São diversos os princípios relativos ao Direito Agrário, assim, cada doutrinador apresenta princípios que entendem como mais importantes para o entendimento desse ramo jurídico. Além dos princípios mencionado, também é válido que seja ressaltada a presença e a importância do princípio da adequação da propriedade imobiliário ao progresso e ao desenvolvimento econômico, Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 29 sendo por meio deste que é determinado como o imóvel rural precisa e deve ser explorado; o outro princípio é relativo à redistribuição das propriedades imobiliárias inadequadas e a reestruturação das titularidades fundiárias do país. Nessa perspectiva, iremos abordar alguns dos princípios entendidos como de maior relevância: • Monopólio legislativo da União. • Utilização da terra sobre a titulação dominical. • Propriedade condicionada à função. • Dicotomia do Direito Agrário. • Interesse público sobre o individual. • Proteção à propriedade familiar e à pequena e média propriedades. • Fortalecimento da empresa rural. • Conservação e preservação dos recursos naturais e do meio ambiente. Outros princípios também relevantes para esse campo jurídico são listados a seguir: • Função social da propriedade. • Justiça social. • Prevalência do interesse coletivo sobre o interesse particular. • Reformulação da estrutura fundiária. • Progresso econômico e social. • Autonomia. Origem do Agronegócio A primeira menção feita ao termo “Agronegócio” ocorreu por volta do século XX nos Estados Unidos, e a intenção dessa implementação consistia na construção de uma política voltada para a participação da produção Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 30 familiar no mercado. Assim, um dos principais focos desse campo passou a ser a busca pelo desenvolvimento, tendo sido incorporada por meio dos interesses pertencentes às grandes empresas agroindustriais. Em outras palavras, o termo “Agronegócio” foi uma nomenclatura distinta utilizada para identificar o modelo de desenvolvimento econômico da agropecuária que havia sido implantado desde 1950. Inicialmente, esse modelo destinava atenção para o sistema agroexportador, no qual as propriedades eram utilizadas na produção para exportação. VOCÊ SABIA? Ao longo do tempo, o modelo passou por uma série de evoluções e enfrentou diferentes fases de desenvolvimento, o que implicou em modificações e adaptações, demonstrando um potencial mais forte e marcado da exploração e do campesinato. Assim, o Agronegócio também é responsável por representar a fase mais capitalista da agropecuária, sendo esta caracterizada por meio do conhecimento estratégico, da produção e do mercado, levando em consideração os aspectos que giram em torno do uso de tecnologias avançadas. Ainda que o Agronegócio e as noções em torno dele tenham surgido em um momento anterior, ele só começou a ser visto na América Latina em 1990, com a intenção de inserir mudanças quanto à imagem latifundiária que se fazia até então presente na Economia. Então, assim como a sociedade passou por evoluções, os processos relativos à agricultura também foram modificados, o que intensificou a necessidade de uma modernização nesse campo, visto que esta de diversas formas está atrelada ao Agronegócio e ao que esse campo do saber objetiva alcançar e promover para as questões agrícolas e a Economia relacionada a esse setor. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 31 Percursos do Direito do Agronegócio Uma das atividades mais importantes no Brasil é a agricultura, assim, em 2013, o nosso país foi reconhecido como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos a nível mundial, e boa parte dessa atribuição decorreu da implementação e da ampliação das funções relacionadas ao Agronegócio, que, diante desse cenário, poderia ficar conhecido como uma representação da “nova agricultura” no cenário nacional, conforme Castro (2021). Todavia, enquadrar o Agronegócio apenas como símbolo da presença de uma nova agricultura é uma visão errônea e limitativa desse campo do saber. Dessa forma, esse campo também estabelece relação com a presença de processos técnicos e financeirização. No Brasil, o Agronegócio ganhou mais relevância a partir de 1990, em decorrência de um projeto de caráter político-econômico que foi proposto e implementado por uma empresa brasileira, no qual, inspirado no modelo já existente nos Estados Unidos da América, as características do Agronegócio se relacionam com: • Determinismo tecnológico. • Complementariedade dos elos das cadeias produtivas. Em outras palavras, tem vínculo com a agricultura e outros campose setores vinculados ao aspecto econômico. O Agronegócio presente no Brasil também passa a ser visto como o conjunto das cadeias produtivas que compõem a coluna dorsal da atividade agropecuária. Salienta-se, ainda, que as mudanças e as evoluções relativas ao campo do Agronegócio ainda não acabaram, e que esse campo enfrenta constantes e frequentes modernizações, buscando integrar a cadeia agrícola e ser integrada às atividades do setor. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 32 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o surgimento da agricultura está relacionado com o próprio surgimento da humanidade, tendo em vista que os cuidados com a terra e as plantações são tidas como essenciais para a sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade, assim, ao ser reconhecida essa importância, foram implementadas legislações agrárias para a proteção e determinação do uso da terra, contudo as primeiras legislações por si só não podem estar vinculadas ao surgimento oficial do Direito Agrário como ramo jurídico autônomo, uma vez que esse aspecto só foi alcançado durante a modernidade, tendo como grandes impulsionadores ao surgimento da criação do Instituto de Direito Agrário Internacional e Comparado e da Revista de Direito Agrário. Já no Brasil, o Direito Agrário passou a ganhar força e a ser implementado por meio do Tratado de Tordesilhas, assim, os três regimes de destaque para a inserção desse ramo jurídico são: Regime Sesmarial, Regime de Posses e Regime da Lei de Terras. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 33 Fundamentos do agronegócio e segmentos agroindustriais OBJETIVO: Neste capítulo, vamos entender os segmentos dos sistemas agroindustriais à luz da classificação estabelecida pelas normas e o ordenamento jurídico. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! Fundamentos econômicos do Agronegócio O Agronegócio influencia a Economia de forma marcante, assim, passaremos a estudar quais são os seus fundamentos econômicos. Nesse sentido, é necessário que possamos compreender o cenário anterior à Revolução Industrial e aos impactos causados por ela. Antes da Revolução Industrial existiam apenas dois pilares principais no setor econômico, o primeiro referente à produção dos alimentos, ou seja, estava vinculado à agricultura; enquanto o segundo fazia menção ao comércio, sendo por meio deste que os produtos chegariam aos seus consumidores, assim, mesmo que a ideia da produção industrial ainda não estivesse difundida, existiam outras formas de processas os produtos, visto que essa etapa ocorria, predominantemente, por meio do artesanato e a sua venda ocorria em mercados públicos. IMPORTANTE: Diante das necessidades da época e até mesmo das limitações presentes na produção desse momento, a maior parte do processamento dos produtos de origem agrícola ocorria por meio destes, sendo exemplos: queijo, carnes, vinhos, cervejas, tecidos, produtos feitos com lã e couro, assim como outros produtos de caráter alimentício. Outro aspecto que ganhava destaque era o processamento dos produtos extrativistas, por exemplo, os tecidos, as madeiras e os perfumes, Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 34 assim como aqueles produtos vinculados ao âmbito da metalurgia, como era o caso de facas, joias, ferramentas e metais preciosos, entre outros. O comércio dos mencionados produtos foi essencial para o comércio, sendo que por meio deles tornou-se impossível o estabelecimento da interação e da distribuição dos produtos, tendo em vista o fortalecimento do sistema econômico como um todo, bem como a obtenção de lucro. Essa foi uma realidade que se estendeu durante vários anos, estando presente tanto no âmbito das economias locais quanto nacionais, em que as atividades principais partiam da exploração agrícola. No entanto, com a Revolução Industrial diversas foram as mudanças, assim, a industrialização implementou um novo setor no sistema, e este passaria a influenciar de forma determinante o setor econômico. Dessa forma, o setor derivado desse movimento é a indústria. Figura 7 – Indústria Fonte: Pixabay. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 35 VOCÊ SABIA? A Revolução Industrial foi um período marcante para a história, já que por meio dela as relações sociais, de trabalho e o aspecto produtivo foram modificados. Além disso, a partir desse momento novos padrões de consumo e utilização dos recursos naturais foram fixados. Nesse sentido, muitas foram as consequências que derivaram da industrialização dos países. Salienta-se, ainda, que a Revolução Industrial ficou marcada por quatro fases, sendo que cada uma delas tem características especificas. Entre os impactos promovidos pela Primeira Revolução Industrial, menciona-se a substituição do trabalho humano por máquinas, o crescimento acelerado e desenfreado das cidades, o aumento significativo das indústrias e a divisão da sociedade em burguesia e proletariado. Já a segunda fase da Revolução Industrial tem como características o aumento da produção em massa e em um curto espaço de tempo, aumento de doenças, aumento do desemprego e de mão de obra barata, surgimento das grandes cidades, avanços nos setores como saúde, transporte e telecomunicação. Por sua vez, a terceira fase foi a responsável pela implementação de avanços no campo da Medicina, criação de robôs, aumento significativo da quantidade de empresas multinacionais, aumento dos impactos e danos promovidos ao meio ambiente, entre outros. Por fim, menciona-se que a quarta fase da Revolução Industrial está relacionada com a ideia de transformação radical da realidade, e está acontecendo nos dias atuais, sendo representada pelas implementações tecnológicas e pelas rápidas transformações inseridas no nosso cotidiano, bem como nos impactos que podem ser provocados no meio social, econômico e político. Assim, quando falamos em indústria, estamos nos referindo ao conjunto de empresas e agentes econômicos cujo o objetivo consiste na transformação das matérias-primas básicas e componentes em produtos dotados de uma maior complexidade, também tendo como foco o atendimento das necessidades e dos interesses dos consumidores. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 36 Sob uma ótica geral, as indústrias podem ser entendidas como o conjunto de fábricas que são incumbidas pela produção e criação dos produtos por meio de um processo que agrega valores a estes. O destaque relativo ao setor industrial ficou mais marcado a partir dos séculos XIX e XX, momento em que se tornou o responsável pelo desenvolvimento econômico presente no âmbito da indústria moderna, trazendo modificações e avanços relevantes para o campo da inovação tecnológica e o desenvolvimento de certos produtos, bem como para o estímulo da melhoria da qualidade da mão de obra. A industrialização foi tão importante a nível mundial que passou a servir como critério de avaliação do desenvolvimento dos países. Isso implica dizer que quanto mais complexo for o setor industrial de um determinado Estado, mais desenvolvido ele será. Essa lógica também é utilizada no campo da Macroeconomia, como forma de fornecer uma explicação quanto à relação firmada entre o desenvolvimento econômico local e as suas respectivas consequências. Dessa noção, surgiu uma nova divisão a partir de estudos realizados por economistas, conforme o ambiente econômico passou a estar dividido em três setores. Figura 8 – Setores da Economia Setor primário Setor secundário Setor terciário • Vinculado à matéria-prima. • Agricultura, pecuária, extrativismo e mineração. • É o setor industrial. • Marcado por três momentos principais.• Setor de serviços. • Formado pelos prestadores de serviços e pelo comércio. Fonte: Elaborada pelo autor (2022). O primeiro setor é aquele que tem vínculo direto com a produção das matérias-primas que serão utilizadas e consumidas nos demais setores do sistema econômico. Dessa forma, fazem parte desses setores Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 37 a agricultura, a pecuária, o extrativismo e a mineração. A relação desse setor será firmada de forma direta com o setor secundário, por isso pode ser visto como motor essencial para que ocorra o desenvolvimento econômico e social. Já o segundo setor corresponde ao setor industrial, uma vez que o seu foco, de forma primordial, consistirá na utilização e transformação das matérias-primas obtidas por meio do setor primário, tendo como intenção atender às necessidades e aos interesses da população, que cada vez mais aumenta a sua necessidade de consumo, sendo mais exigentes quanto a aspectos envolvendo qualidade, marketing e tecnologia. IMPORTANTE: Três são os momentos atrelados à indústria que merecem atenção e destaque. Assim, o primeiro período a ser mencionado faz menção ao processo de expansão das indústrias presentes nos Estados Unidos da América e na Europa, em que países mais ricos fizeram investimentos importantes quanto à criação de redes de transporte e distribuição dotados de características mais modernas e competitivas. Já o segundo momento ocorreu no período entre as duas grandes guerras mundiais e depois da Segunda Guerra Mundial, pois em decorrência das consequências desses períodos catastróficos, alguns avanços e aspectos positivos também foram implementados, de maneira a proporcionar contribuições positivas para o campo dos processos industriais e do desenvolvimento da tecnologia, tendo como foco tanto questões bélicas, quanto evoluções e inovações aplicadas aos civis. Um destaque importante que decorreu desse cenário é a globalização e a expansão da industrialização para os países que ainda não eram industrializados no período anterior às guerras. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 38 Figura 9 – Mapa geopolítico da Guerra Fria Fonte: Wikimedia Commons. O terceiro momento a ser destacado se relaciona ao boom de desenvolvimento provocado pelas disputas no período da Guerra Fria (Figura 8), em que o lado capitalista, representado, principalmente, pelos Estados Unidos da América, e o lado socialista, representado de forma mais marcante pela União Soviética (URSS) competiam em busca de um maior destaque a nível mundial. Dessa guerra sem derramamento de sangue, importantes contribuições foram geradas para as pesquisas e o desenvolvimento da tecnologia, assim como para a sua aplicação no setor comercial. Mesmo que grande parte do foco dessa disputa tenha sido voltado para as questões bélicas e aeroespaciais, outras áreas também foram beneficiadas. Por fim, o setor terciário é também denominado como o setor de serviços, sendo composto por prestadores de serviços diversos e pelo comércio como um todo. Desta feita, destaca-se que os interesses da sociedade do século XXI, em sua maioria, têm relação com o âmbito da tecnologia e da inovação, sem deixar de lado os serviços, as atividades e os projetos envolvendo softwares, internet e os diversos meios de comunicação. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 39 Salienta-se que durante muito tempo esses setores foram estudados de forma separada e sem muita relação atreladas a eles, mas na atualidade esse é um cenário que já não funciona, pois ainda que a independência desses setores seja mantida, também é crucial que ocorra um relacionamento comercial entre eles, e que uma troca de recursos seja devidamente estabelecida, pois só assim poderá haver uma dinâmicas no âmbito das relações internas e das operações desempenhadas pelos agentes econômicos no dia a dia. IMPORTANTE: O Agronegócio é um setor marcado por sua dinamicidade, sendo capaz de fornecer força para o desenvolvimento amplo da Economia no meio social. Então, o Agronegócio pode ser utilizado como um elemento estratégico quando o assunto é o alcance do desenvolvimento e da soberania das nações espalhados em todo o mundo, por isso também pode ser vinculado a questões culturais e econômicas que um povo exerce sobre o outro, conforme Arieira (2017). Sistemas agroindustriais Antes que possamos adentrar nos segmentos dos sistemas agroindustriais, é primordial que entendamos o que são esses sistemas. Nessa perspectiva, esse setor pode ser compreendido como o conjunto de seis grupos de atores econômicos distintos, sendo eles: 1. Agricultura e pesca. 2. Indústrias agroalimentares. 3. Distribuição agrícola e alimentar. 4. Consumidor final. 5. Comércio internacional. 6. Indústria e serviços de apoio. O foco dos sistemas agroindustriais faz menções a aspectos presentes no âmbito das políticas públicas ao mesmo tempo em que Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 40 também trata da arquitetura das organizações e das formulações de estratégias corporativas. IMPORTANTE: Nesse sentido, Batalha (2010, p. 10) entende o sistema agroindustrial como “o conjunto de atividades que concorrem para a produção de produtos agroindustriais, desde a produção dos insumos (sementes, adubos, máquinas agrícolas etc.) até a chegada do produto final (queijo, biscoito, massas etc.) ao consumidor”. Isso implica dizer que o mencionado sistema se relaciona diretamente com o Agronegócio, já que pode ser encarado como a “soma integrada de todas as cadeias produtivas agroindustriais ou complexos agroindustriais presentes numa dada economia” (ARIEIRA, 2017, p. 189). Segmentos do sistema agroindustrial Três são os segmentos que compõem o sistema agroindustrial, sendo estes denominados como: segmentos antes da porteira; segmentos dentro da porteira; e segmentos depois da porteira. Segmentos antes da porteira O primeiro aspecto a ser destacado faz menção aos insumos agropecuários, sendo por meio destes que são apresentados quais são os insumos principais que são considerados como essenciais para a produção da agropecuária como um todo. Assim, nesse campo estão inseridos aspectos como: • Máquinas, implementos, equipamentos e complementos – as máquinas usadas com mais frequência no âmbito da agropecuária são tratores, colhedores e motores fixos, assim, cada uma delas têm os seus próprios implementos e complementos, que irão influenciar no exercício de suas funções. Diante disso, são vários os tipos e portes de equipamentos e máquinas que podem ser utilizadas. Assim, para que essa aplicação ocorra da forma correta, Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 41 é preciso envolver questões quanto à eficiência e à análise dos custos dos conjuntos, objetivando uma abordagem mais viável. • Água – insumo indispensável para a vida e o desenvolvimento da agropecuária. É importante que a sua utilização ocorra de forma consciente, para que os impactos ambientais não sejam tão severos. • Energia – aqui estão inclusas as diversas fontes de energia, como é o caso da energia solar, energia eólica, energia hidráulica, energia de biogás e energia térmica. • Corretivos de solos – utilizados com a intenção de que as deficiências nos solos possam ser corrigidas, tornando-o, assim, viável e eficaz para o âmbito da produção, bem como para as questões envolvendo as análises laboratoriais. São citados como exemplo: calcários agrícolas, gesso agrícola e adubos ou fertilizantes. • Fertilizantes. • Agroquímicos. • Compostos orgânicos. • Materiais genéticos – aqui estão inclusas as mudas e as sementes. Além desses critérios, também é possível enfatizar a presença de questões relativas às rações, aos inoculantes, aos sais comuns e aos sais minerais, bem como os produtos veterinários. Também é quanto aesses aspectos que são feitas interpelações com os fabricantes e os distribuidores dos insumos de natureza agropecuária. Ainda no que se refere ao segmento antes da porteira, menciona- se a atuação dos agentes econômicos, das empresas produtoras dos materiais genéticos e dos distribuidores dos insumos, bem como aquelas que fazem menção à presença dos serviços agropecuários, como é o caso das pesquisas agropecuárias, fomento, extensão rural e assistência técnica, envolvendo também os aspectos relativos à vigilância e à defesa agropecuária, o treinamento da mão de obra e aos incentivos fiscais etc. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 42 Segmentos dentro da porteira Por sua vez, os segmentos dentro da porteira são aqueles que fazem menção à produção agropecuária propriamente dita, sendo que estas são divididas em agricultura ou produção agrícola e em pecuária, uma vez que esta faz menção à criação de animais. IMPORTANTE: A produção agrícola vai considerar uma série de fases essenciais para esse processo, correspondendo ao preparo do solo, aos tratos culturais, à colheita, ao transporte, ao armazenamento dos produtos, à administração e à gestão perante as unidades produtivas, sendo necessário mencionar também as questões relativas às culturas vegetais. Já quanto à pecuária, algumas etapas e aspectos também precisam ser destacados, como é o caso das instalações, dos equipamentos e da produção dos alimentos, bem como aqueles cuidados que são necessários tanto para a manutenção quanto para a venda dos animais e dos produtos relacionados. Segmentos depois da porteira A última modalidade de segmento a ser destacada é a denominada como “segmentos depois da porteira”, que são formados pelas etapas ligadas ao processamento e à distribuição dos produtos agropecuários. Esse vínculo será observado até que os consumidores tenham acesso a esses produtos. Para tanto, tipos de agentes econômicos são analisados, bem como se leva em consideração aspectos vinculados ao comércio, à agroindústria, aos prestadores de serviço, ao Governo, entre outros. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 43 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que, em um momento inicial, a Economia era dividida e baseada em apenas dois setores, um derivado da agricultura e o outro do comércio atrelado a ele, contudo a Revolução Industrial foi um fenômeno incumbido pela inserção e implementação de diversas modificações na sociedade, mudando a forma de enxergar e de funcionamento do mundo. Dessa forma, também estudamos quais foram os principais impactos e consequências atrelados a cada fase da Revolução Industrial. Aprendemos também que o sistema agroindustrial é formado por um conjunto de seis grupos de atores econômicos, que incluem: agricultura e pesca; indústrias agroalimentares; distribuição agrícola e alimentar; consumidor final; comércio internacional; e indústria e serviço de apoio. Ao longo desta Unidade, destinamos atenção para o sistema agroindustrial e os seus segmentos. Dessa forma, pudemos entender que o sistema agroindustrial é composto pelo conjunto dos complexos agroindustriais que se fazem presentes em uma nação. Três são os segmentos que compõem o sistema agroindustrial, sendo eles denominados como: segmentos antes da porteira; segmentos dentro da porteira; e segmentos depois da porteira. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 44 Governo e políticas agrícolas OBJETIVO Neste capítulo, vamos identificar e avaliar as políticas públicas e as ações governamentais de fomento ao Agronegócio, compreendendo seus deveres e obrigações constitucionais. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! Política agrícola: conceito, características e história A Lei n° 4.504, de 30 de novembro de 1964, é responsável por apresentar as normas relativas ao Estatuto da Terra. Dessa forma, dispõe que a política agrícola pode ser compreendida como o conjunto das medidas que servem como forma de orientar as atividades agropecuárias, tendo em vista os interesses relativos à Economia Rural. Além disso, essas políticas também têm como intenção prestar assistência ao produtor e amparar a propriedade de terra. Isso implica dizer que a política pública tem em vista garantir o pleno uso da terra e a integração ao setor agropecuário, levando em consideração a presença e as relações que são firmadas perante o âmbito da Economia. Assim, ao exercer o planejamento da política agrícola, o Estado atua de maneira a promover, regular, fiscalizar e controlar, assim como avaliar as atividades e suprir as necessidades e os interesses que estejam relacionados aos incrementos da produção e da produtividade. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 45 IMPORTANTE: Também é correta a afirmação de que as políticas agrícolas intencionam dirimir e/ou eliminar as distorções que podem afetar o desempenho das funções econômicas e sociais vinculadas à agricultura, sem deixar de lado o atendimento da proteção e do meio ambiente, tanto na tentativa de evitar que danos importantes afetem o meio ambiente, quanto para garantir o seu uso racional e o estímulo da recuperação dos recursos naturais. Nessa perspectiva, o mencionado Estatuto da Terra entende que para que ocorra o devido funcionamento das políticas agrícolas, é necessário que algumas providências sejam atendidas, assim, tais providências podem estar relacionadas a contrapartidas do Governo e, entre elas, podem ser citadas: • Assistência e acesso mais fáceis ao crédito. • Garantia relativa aos preços justos, fazendo com que estes apresentem compatibilidade com o mercado e as commodities. • Progresso técnico às lavouras e à produção. • Assistência médica. • Acesso aos meios de comunicação. • Apoio às atividades de comércio. • Criação de programas voltados tanto para a construção das moradias quanto das escolas rurais. • Difusão do escoamento da produção e das redes de armazenamento. Ainda no que se refere a determinações e previsões legais, destaca- se que a Lei n° 8.171, de 17 de janeiro de 1991 é a incumbida por dispor acerca das políticas agrícolas no território nacional, assim, por meio desse instrumento legal, são apresentados os objetivos e as competências institucionais, bem como os recursos, as ações e os instrumentos vinculados à ideia de política agrícola. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 46 Desta feita, o art. 2° da Lei n° 8.171/1991 determina quais são os pressupostos fundamentais para as políticas agrícolas. Dessa forma, dispõe que: Art. 2° A política fundamenta-se nos seguintes pressupostos: I – a atividade agrícola compreende processos físicos, químicos e biológicos, onde os recursos naturais envolvidos devem ser utilizados e gerenciados, subordinando-se às normas e princípios de interesse público, de forma que seja cumprida a função social e econômica da propriedade. II – o setor agrícola é constituído por segmentos como: produção, insumos, agroindústria, comércio, abastecimento e afins, os quais respondem diferenciadamente às políticas públicas e às forças de mercado. III – como atividade econômica, a agricultura deve proporcionar, aos que a ela se dediquem, rentabilidade compatível com a de outros setores da Economia. IV – o adequado abastecimento alimentar é condição básica para garantir a tranquilidade social, a ordem pública e o processo de desenvolvimento econômico-social. V – a produção agrícola ocorre em estabelecimentos rurais heterogêneos quanto à estrutura fundiária, condições edafoclimáticas, disponibilidade de infraestrutura, capacidade empresarial, níveis tecnológicos e condições sociais, econômicase culturais. VI – o processo de desenvolvimento agrícola deve proporcionar ao homem do campo o acesso aos serviços essenciais: saúde, educação, segurança pública, transporte, eletrificação, comunicação, habitação, saneamento, lazer e outros benefícios sociais. (BRASIL, 1991, on-line) Já no que se refere aos seus objetivos, o art. 3° apresenta entre os objetivos dessa política: a) eliminação das distorções que afetam o desempenho das funções econômicas e social da agricultura; b) proteção ao meio ambiente, destinando atenção para a garantia do seu uso racional e estímulo da recuperação dos recursos naturais; c) estímulo ao processo da agroindustrialização perante as áreas de produção; d) promoção da saúde animal e da sanidade vegetal; e) fornecimento de apoio de caráter institucional ao produto rural, destacando a prioridade do atendimento Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 47 ao pequeno produtor e à sua família. Além disso, também são objetivos pertencentes à política agrícola a melhoria da renda e da qualidade de vida no meio rural e a promoção da concorrência leal entre os agentes que atuam nos setores rurais, bem como na proteção destes quanto à relação das práticas desleais e aos riscos das doenças e pragas exóticas do país, entre outros (BRASIL, 1991). SAIBA MAIS: Os objetivos abordados no presente tópico não são os únicos atrelados às políticas agrícolas, já que o dispositivo em destaque apresenta outras determinações que fazem menção a tais finalidades. Assim, para que você tenha uma compreensão mais completa sobre o assunto, faça a leitura completa do art. 3° da Lei n° 8.171/1991, presente no link a seguir. Para acessar, clique aqui . Por sua vez, o art. 4° apresenta quais são as ações e os instrumentos de política agrícola abordados por esses instrumentos, sendo alguns exemplos: a) planejamento agrícola; b) pesquisa agrícola tecnológica; c) habitação rural; d) eletrificação rural; e) crédito fundiário; f) mecanização agrícola; g) formação profissional e educação rural; h) defesa da agropecuária, entre outros listados nesse artigo (BRASIL, 1991). Diante desse contexto, muitas são as pessoas e os grupos que podem ser beneficiados por meio das políticas agrícolas, sendo que por meio delas é possível que alcançar um desenvolvimento sustentável de destaque. Assim, alguns desses beneficiários são apresentados na Figura 10. Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 48 Figura 10 – Beneficiários da política agrícola Pequenos, médios e grandes produtores População Governo • Todos são capazes de promover contribuições e, ao mesmo tempo, de usufruir do crescimeto econômico. • Benefi ciada por meio da segurança alimentar e consumo dos produtos de qualidade. • Busca diminuir os impactos ambientais, tendo em vista uma exploração mais consciente e responsável dos recursos naturais. • Integra as atividades agropecuárias com outras áreas importantes para a sociedade e o seu desenvolvimento, sendo esse o caso do ramo econômico. Fonte: Elaborada pelo autor (2022). Também é importante que seja destacado qual é a história e a importância atrelada às políticas agrícolas. Nessa perspectiva, sabemos que as atividades agropecuárias estão presentes no mundo e são fundamentais para o desenvolvimento da vida e das relações presentes nesse centro de diversas formas, também já sabemos que tais atividades compõem o setor primário da Economia. Um dos aspectos que tornam as atividades agropecuárias importantes a nível global e nacional fazem menção ao fato de que estas são capazes de alimentar bilhões de pessoas em todo o mundo, visto que servem como base de outros setores econômicos. Contudo, esses aspectos não reduzem e não limitam a importância da agropecuária, tendo em vista que por meio da prática dessa atividade Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 49 também é possível que ocorra a diminuição das desigualdades, assim, é possível que a pobreza extrema seja combatida e que a proteção ao meio ambiente seja aplicada de forma mais efetiva, de maneira que a qualidade dos ecossistemas possa ser alcançada de forma mais plena. IMPORTANTE: Mesmo que a agricultura esteja presente desde a Antiguidade, um avanço marcante nesse setor só foi visto a partir da segunda metade do século passado, uma vez que a partir desse momento as políticas agrícolas passaram a ter mais relevância no cenário nacional. Nesse cenário, a Comissão Nacional de Política Agrária foi criada por meio do Decreto n° 29.803, de 25 de julho de 1951, tendo esta sido implementada no segundo Governo de Getúlio Vargas, tendo como principal intenção e objetivo apresentar iniciativas voltadas para a organização e o auxílio no desenvolvimento da Economia agrícola e do bem-estar rural. Posteriormente a esse decreto, foi implementado o Estatuto da Terra, que durante vários anos foi a norma mais importante na regulação das políticas agrícolas do país, sendo a responsável por inserir inovações nesse âmbito legislativo, como é o caso das primeiras agroindústrias e técnicas responsáveis pelo aumento da produtividade. Outras mudanças e avanços foram registrados a partir do Estatuto da Terra, sendo exemplos: • Instituição do Sistema Nacional de Crédito Rural. • Ampliação da Política de Garantia de Preços Mínimos. • Criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Além disso, também foi por meio do Estatuto da Terra que foi elaborado o Código Florestal e que se deu a criação da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater). Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 50 VOCÊ SABIA? O Código Florestal foi instituído por meio da Lei n° 12.727, de 25 de maio de 2012, sendo a norma responsável pelo estabelecimento de normas gerais que abordem a proteção da vegetação, das áreas de preservação permanente e das áreas de reserva legal. Salienta-se também que essa legislação apresenta disposições acerca da exploração florestal, suprimento das matérias-primas florestais, a origem dos produtos florestais e o controle e a prevenção dos incêndios florestais, levando em consideração o objetivo primordial e o desenvolvimento sustentável. Nessa perspectiva, um novo avanço para o campo do Direito Agrícola e das políticas agrícolas foi a criação da Lei da Política Agrícola de 1991, que foi instaurada em decorrência da necessidade de atualizações e de reformulações imprescindíveis para esse campo. Essa norma é a incumbida por abordar as diretrizes e os objetivos dessa política até os dias atuais, sendo uma norma de extrema relevância dentro do ordenamento jurídico brasileiro. Políticas agrícolas no Brasil Diversas são as políticas agrícolas que se fazem presentes no Brasil, e cada uma delas pode ter os seus detalhes acompanhados, bem como as suas especificidades destacadas no site relativo ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Nessa perspectiva, serão destacadas as principais políticas agrárias brasileiras, sendo apresentadas as suas características de maior destaque (Figura 11). Legislação e normas técnicas aplicadas ao Agronegócio 51 Figura 11 – Tipos de políticas agrícolas brasileiras Políticas agrícolas Plano Safra Agroenergia Combate à seca Fonte: Elaborada pelo autor (2022). A primeira política agrícola brasileira a ser destacada é a denominada “Plano Safra”. Este consiste no apoio de crédito que tem como finalidade ajudar no desenvolvimento sustentável do setor agropecuário, uma vez que o seu objetivo está vinculado à intenção de modernizar o campo de forma tecnológica, levando em consideração a aplicação de técnicas mais inovadoras no mercado, devendo obediência às leis ambientais de caráter nacional. O mencionado Plano pode ser adotado pelos pequenos produtores, mesmo que estes