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Capítulo 2 Capa: ANDRÉIA CUSTÓDIO TELMA CUSTÓDIO Noções preliminares Diagramação: Revisão: Marcos Imagem da capa: 123RF.COM sobre 0 texto e suas propriedades CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ A672 Antunes, Irandé, Análise de textos fundamentos e práticas / Irandé São Paulo 2.1 conceito de textualidade Parábola Editorial, 2010. (Estratégias de ensino 21) omo fundamento para a compreensão do que é o tex- Inclui bibliografia ISBN 978-85-7934-022-2 1. Língua portuguesa Composição e exercícios Estudo e ensino. 2. Análise do C to, tem-se desenvolvido o conceito de textualidade, a qual pode ser entendida como a característica estru- discurso. 3. Linguagens e línguas Estudo e ensino. 4. Linguística Estudo e tural das atividades sociocomunicativas (e, portanto, ensino. II. Série. também linguísticas) executadas entre os parceiros da comuni- 10-3916. CDD: 469.8 CDU cação. Logo, todo enunciado que porta sempre uma função comunicativa apresenta necessariamente a característica da textualidade ou uma "conformidade textual". Quer dizer, em qualquer língua, e em qualquer situação de Direitos reservados à interação verbal, o modo de manifestação da atividade comuni- PARÁBOLA EDITORIAL Rua Dr. Mário Vicente, 394 Ipiranga cativa é a textualidade ou, concretamente, um gênero de texto 04270-000 São Paulo, SP qualquer. Daí que nenhuma ação de linguagem acontece fora da pabx: 5061-8075 fax: [11] 2589-9263 home page: textualidade. "Desde que ela exista, a comunicação se dá de for- e-mail: parabola@parabolaeditorial.com.br ma textual" (Schmidt, 1978: 164). Na mesma direção, afirmou Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reprodu- Marcuschi em uma de suas aulas: "No momento em que alguém zida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema abre a boca para falar, começa um texto". ou banco de dados sem permissão por escrito da Parábola Editorial Ltda. Perde sentido, então, aquela perspectiva ascendente da lin- ISBN: 978-85-7934-022-2 guagem, segundo a qual, primeiro, se aprendem as palavras, de- reimpressão: janeiro de 2016 pois as frases, para enfim, se chegar ao texto. Todos os segmentos do texto: Irandé Antunes de nossa atividade de linguagem, desde os primeiros balbucios, da edição brasileira: Parábola Editorial, São Paulo, setembro de 2010 29CAPÍTULO 2 Noções preliminares sobre 0 texto e suas propriedades são entendidos e classificados como partes funcionais de um todo integrado: o texto. eminentemente funcional, no sentido de que a ele recorremos com Fazer da textualidade o objeto de ensino não é, pois, ceder às uma finalidade, com um objetivo específico, nem que seja, simples- teorias da moda, ou um jeito de como dizem alguns deixar as mente, para não ficarmos calados. aulas mais motivadas, mais prazerosas, menos monótonas. É mui- Assim, nada do que dizemos é destituído de uma intenção. O to mais que isso: é uma questão de assumir a textualidade como o sentido do que dizemos aos outros é parte da expressão de um princípio que manifesta e que regula as atividades de linguagem. ou mais objetivos. Falamos com a intenção de "fazer algo". Ocorre que essa textualidade não acontece de forma abstra- sucesso de nossa atuação comunicativa está, sobretudo, na iden- ta. Acontece sob a forma concreta de textos, linguística e social- tificação dessa intenção por parte do interlocutor com quem inte- mente tipificados, conforme veremos a seguir. ragimos. Por isso mesmo é que, no percurso da interação, vamos dando as instruções necessárias para que o outro vá fazendo, com eficácia, essa identificação. Como diz Schmidt (1978: 80), o texto 2.2 O conceito de texto é um "conjunto ordenado de instruções". O princípio de que falamos sempre para cumprir determi- O mais consensual tem sido admitir que um conjunto aleató- nado objetivo é sobejamente referido por todos os autores que rio de palavras ou de frases não constitui um texto. Mesmo intui- se ocupam do texto. Por exemplo, Adam (2008: 107) declara tivamente, uma pessoa tem esse discernimento, até porque não é que texto não é uma sequência de palavras, mas uma sequên- muito difícil tê-lo, uma vez que não andamos por aí esbarrando cia de atos". Halliday e Hasan (1989: 52) definem texto como a em não textos. Por mais que esteja fora dos padrões considerados "linguagem que é funcional. Por linguagem funcional, queremos cultos, eruditos ou edificantes, o que falamos ou escrevemos, em referir aquela linguagem que cumpre alguma função em algum contexto". Na mesma linha, Schmidt (1978: 170) define o con- situações de comunicação, são sempre textos. ceito de texto como "um Também não é difícil explicitar essas intuições, se nos fi- Consequentemente, todo texto é expressão de uma atividade xarmos na análise de como acontece a interação verbal entre as social. Além de seus sentidos linguísticos, reveste-se de uma rele- pessoas nas diferentes situações de sua vida social. Vamos tentar vância sociocomunicativa, pois está sempre inserido, como parte apresentar fundamentos teóricos dos pontos que pretendemos constitutiva, em outras atividades do ser humano. Nas palavras analisar, embora o façamos, neste ponto do livro, de uma forma de Marcuschi (2008: 23), "não existe um uso significativo da lín- muito sumária, uma vez que, nos sucessivos capítulos de análise, gua fora das inter-relações pessoais e sociais situadas". vamos desenvolvê-los um pouco mais. Assim, compreender um texto é uma operação que vai além 2.2.1. Primeiramente, poderíamos começar por lembrar que de seu aparato linguístico, pois se trata de um evento comunica- recorremos a um texto quando temos alguma pretensão comu- tivo em que operam, simultaneamente, ações linguísticas, sociais nicativa e a queremos expressar. Oomen, conforme citação de e cognitivas. Schmidt (1978: 167), afirma que "não se instaura um texto sem 2.2.2. Um segundo aspecto que deriva desse primeiro ponto uma função comunicativa"; propõe ainda que texto tem seu é o fato de que o texto, como expressão verbal de uma atividade fluxo controlado pela respectiva função comunicativa que exerce. social de comunicação, envolve, sempre, um parceiro, um inter- Dessa forma, todo texto é a expressão de algum propósi- locutor. Não, simplesmente, pelo fato de que temos uma com- to comunicativo. Caracteriza-se, portanto, como uma atividade panhia quando falamos e, assim, não o fazemos sozinhos. Mas, 30 31Análise de textos fundamentos e práticas IRANDÉ ANTUNES CAPÍTULO 2 Noções preliminares sobre texto e suas propriedades sobretudo, pelo fato de que construímos nossa expressão verbal Mamífero voraz com outro, em parceria, a dois; de maneira que o texto vai tendo um fluxo conforme acontece a interação entre os atores da É preciso 100 pontos para ganhar um relógio de plástico. Teremos imenso prazer ação de linguagem. em lhe mostrar 0 nosso Já está nas lojas Tok & Stok a Linha Garden Verão Dizemos o que julgamos ser de interesse do outro escutar. Dizia-se lá em casa que éramos de origem francesa. Tenho um pequeno museu Pressupomos esse interesse e arriscamo-nos a responder a ele. Daí em casa. o dialogismo reconhecido por Bakhtin (1995) como característi- Seu próximo passo é ter um cartão com 6 meses de anuidade grátis. ca fundamental da linguagem. Não dizemos as coisas gratuita- Jamais abandonarei a senhora. mente ou Esforçamo-nos, quase sem notar, para Bom mesmo é viver numa cabana no meio do mato. 0 próprio banco ajuda a des- cobrir quais são os melhores produtos para montar sua carteira de investimentos. sermos, em cada contexto, relevantes, dizendo que supomos ser da necessidade, do interesse ou do gosto do outro. Em última instância, é isto mesmo: não falamos sozinhos, no sentido de que Daria para perceber em alguma dessas passagens uma unida- Criei essas passagens, simplesmen- o texto que construímos é uma resposta ao de semântica, ou reconhecer qualquer núcleo de sentido? Daria te, juntando palavras e frases que fui que supomos ser a pergunta do outro. para dizer sobre quê é cada uma? Daria para fazer, a partir delas, recolhendo numa revista. Em con- 2.2.3. Um terceiro aspecto a se consi- um resumo, uma síntese? Alguém poderia reconhecer aí uma fun- tatos com professores e alunos, fui testando a estranheza que causava derar sumariamente diz respeito ao fato de ção comunicativa pertinente a determinado contexto? 'sem de ambas as peças. que o texto é caracterizado por uma orienta- Como se vê, são passagens construídas a partir de palavras As justificativas para a hipótese de ção temática; quer dizer, texto se constrói que não constituíam textos centra- ou de frases soltas, o que nos faz voltar aos termos com que ini- vam-se na "falta de uma unidade a partir de um tema, de um tópico, de uma ciamos esta seção: um conjunto aleatório de palavras ou de frases de sentido possível". É curioso que, ideia central, ou de um núcleo não constitui um texto. durante muito tempo, os alunos fize- que lhe dá continuidade e unidade. ram atividades de formar frases sol- Com base nos pontos até aqui levantados, podemos recapitular tas, sem que ninguém questionasse a Para explicitar esse princípio (tão pre- em seguida o que tem sido proposto na linguística de texto como distância entre isso e exercício real da linguagem. É que, de o texto sente às nossas intuições), vejamos, por as propriedades do texto, ou seja, como critérios que nos permitem não "estava previsto no programa". exemplo, as seguintes passagens, que têm, reconhecer um conjunto de palavras como sendo um texto. naturalmente caras de Em síntese, a questão seria: que um conjunto de palavras precisa ter para funcionar e ser identificado como um texto? Religiosidade A resposta a essa questão já se encontra definida na literatura sobre a linguística de texto. Por exemplo, Beaugrande e Dressler Monstro planos sexo cantor pela denúncia de polêmico paguei fazer sobre pre- (1981) propõem como propriedades ou critérios da textualida- tendem enfermeira menino milhões presente viva-voz telefone estar risco com de: a coesão, a coerência, a intencionalidade, a aceitabilidade, a mercado 0. Computador completo ficar frontal você veloz se para esperar doméstico brincando informatividade, a intertextualidade, a situacionalidade. São, na mamífero visão deles, sete propriedades, portanto. Relógios cartas sobre expectativa inteiro promoção empregadas sabatina campa- Nos estudos que tenho feito, na sequência dessa e de outras nha novo queijo compra Brasil meninos. propostas, optei por fazer uma pequena reordenação no qua- dro dessas sete propriedades, concedendo certa saliência àquelas 32 33Análise de textos fundamentos e práticas IRANDÉ ANTUNES dar uma justificativa, uma ordem, fazer o relato de um fato, convencer, expressar um 3 Sobre a coesão e a coerência, 2 É muito comum o entendimento propriedades que, mais diretamente, perten- sentimento, apresentar um plano, uma pes- apresentei em Lutar com palavras: dessa intencionalidade como um cem à construção mesma do texto. Assim, coesão e coerência (São Paulo: Pa- conceito equivalente à questão soa, um lugar, fazer uma proposta, ressaltar rábola Editorial, 2005), além de proponho, como propriedades do texto, a das intenções com que usamos a as qualidades de um produto, pedir ou ofe- explicações bem acessíveis, um far- linguagem. Não é bem assim. A coesão, a coerência, a informatividade e a in- to conjunto de exemplos. Sobre as recer ajuda, fazer um desabafo, defender-se, intencionalidade de que se trata tertextualidade. Proponho, como condições propriedades da intencionalidade e aqui corresponde à disposição do protestar, reivindicar, dar um parecer, sinte- da sugiro a leitura de efetivação do texto, a falante de somente dizer coisas que têm sentido, que são coerentes. A a aceitabilidade e a situacionalidade. tizar uma ideia, expor uma teoria; enfim, fa- do capítulo 4 de meu livro: Língua, texto e ensino (São Paulo: Parábola outra questão a da com Para justificar essa reordenação, alego zemos, dia todo e todos os dias, inúmeras Editorial, 2009). Sobre a proprie- que falamos' tem a ver com a di- que a intencionalidade e a aceitabilidade re- ações de linguagem, cada uma, parte consti- dade da informatividade, pode-se mensão pragmático-funcional da ver capítulo 7 desse mesmo livro. metem aos interlocutores e não ao texto pro- tutiva de uma situação social qualquer. linguagem, no sentido de que todo priamente. Quer dizer, pela intencionalida- Em resumo, proponho para o texto, es- 4 Volto a justificar por que, neste ato de linguagem é um fazer, pois ponto do livro, faço apenas uma é carregado de uma intenção ou de uma finalidade. São diferentes, de, propõe-se que interlocutor que fala se pecificamente, as propriedades da coesão, da sumária apresentação das proprie- pois, os dois conceitos. Para uma dispõe a dizer somente aquilo que tem senti- coerência, da informatividade e da intertex- dades do texto: nos capítulos desti- nados à análise, pretendo desenvol- revisão desses e de outros conceitos do e é, portanto, coerente. Pela aceitabilida- As outras são condições funda- ver com mais detalhe esses e outros da textualidade, sugiro a leitura de Costa Val (2000), bem como a de de, admite-se que o ouvinte, simultaneamen- mentais para que os textos se efetivem. pontos. Aqui, trago apenas o que Antunes (2009). te, empreende todo o esforço necessário para Retomando o absolutamente básico para considero essencial para a compre- ensão das questões. processar os sentidos e as intenções expres- a compreensão dessas quatro propriedades, sas. Como se vê, essas duas propriedades não são propriamente lembramos os seguintes pontos4: do texto. Embora lá se reflitam, remetem para a disponibilidade a coesão concerne aos modos e recursos gramaticais e cooperativa das pessoas envolvidas na interação. lexicais de inter-relação, de ligação, de encadeamento O mesmo cabe afirmar da situacionalidades uma condição entre os vários segmentos (palavras, orações, períodos, para que o texto que é parte de uma atividade social aconte- parágrafos, blocos superparagráficos) do texto. Embora ça. Nenhum texto, como sabemos, ocorre no vazio, em abstrato, seus recursos transpareçam na superfície, a coesão se fun- fora de um contexto sociocultural determinado. Todo ele está an- damenta nas relações de natureza semântica que ela cria corado numa situação concreta ou, melhor dizendo, está inserido e, ao mesmo tempo, sinaliza. Ou seja, pela coesão se pro- num contexto social qualquer. Uma conferência, por exemplo, move a continuidade do texto que, por sua vez, é uma das é parte da programação de um evento e é por ela regulada em condições de sua unidade; todos os detalhes. Uma simples conversa é parte de um relaciona- a coerência concerne a um outro tipo de encadeamento, mento interpessoal que prevê variadas finalidades. encadeamento de sentido, a convergência conceitual, Essa inserção da linguagem em nossa atividade social é tão aquela que confere ao texto interpretabilidade local óbvia que até mesmo temos dificuldade de percebê-la. O absoluta- e global e lhe dá a unidade de sentido que está sub- mente evidente é que falamos sempre em um lugar, onde acontece jacente à combinação linear e superficial dos elementos determinado evento social, e com a finalidade de, intervindo na presentes ou pressupostos. A coerência vai além do com- condução desse evento, executar qualquer ato de linguagem: ex- ponente propriamente linguístico da comunicação verbal, por, defender ou refutar um ponto de vista, fazer um comentário, 34 35CAPÍTULO Análise de textos fundamentos e práticas IRANDE ANTUNES 2 Noções preliminares sobre 0 texto e suas propriedades ou seja, inclui outros fatores além daqueles puramente Nesse caso, a intertextualidade assume um aspecto dinâ- linguísticos, fatores que estão implicados na situação em mico, na medida em que significa mais do que o simples que acontece a atuação verbal; daí que a coerência decor- trânsito do outro texto ou da outra voz. Quem recorre à re não só dos traços linguísticos do texto, mas também de palavra do outro, o faz ou para apoiar-se nessa palavra, outros elementos constituintes da situação comunicativa; ou para confirmá-la ou para refutá-la. Ou seja, o recurso a informatividade concerne ao grau de novidade, de im- à palavra do outro responde sempre previsibilidade que, em um certo contexto comunicativo, a alguma estratégia É de grande relevância a consul- texto assume; concerne ainda ao efeito interpretativo De qualquer forma, propriedades e condi- ta à obra de Koch et al., intitulada Intertextualidade diálogos pos- que caráter inesperado de tais novidades produz. Essa ções devem centralizar os estudos e as análises síveis. São Paulo: Cortez Editora, que fazemos em torno do texto. É fundamen- 2007. Além de considerações teó- novidade decorre, portanto, da quebra do que era previsí- vel, do que era esperado para aquela situação de comuni- tal ampliar nosso repertório acerca do que ricas, as autoras apresentam fartos exemplos de gêneros textuais, onde cação, seja em relação a aspectos ligados à forma (decor- procurar ver nesses materiais. Quando falta são explorados diferentes aspectos rentes de maneiras diferentes de se dizer o já dito), seja em uma visão clara dos elementos que são neces- da intertextualidade. sários para se constituir um texto (e é muito 6 Minha pretensão com este livro relação a aspectos ligados ao conteúdo (decorrentes de provável que tais elementos faltem para mui- é, exatamente, oferecer elementos ideias e conceitos novos). De qualquer forma, todo texto, para que os professores possam tos professores!), vamos a ele, simplesmente, em alguma medida, comporta algum grau de informati- ampliar essa compreensão do que é para reconhecer classes e categorias da gramá- um texto e possam, assim, intervir vidade. O contexto de uso é que determina um teor mais tica, sem que procuremos averiguar em que no desenvolvimento da competên- alto ou mais baixo de informatividade. Logo, nem sempre cia dos alunos para a produção, re- tais classes e categorias intervêm para fazer, cepção e análise de textos de forma o texto melhor e mais adequado é aquele com um grau de daquele conjunto de palavras, uma unidade relevante e significativa. informatividade mais alto. Os avisos, como: "Trânsito in- de sentido comunicativamente terrompido", "Devagar. Escola", "Reduza a velocidade" Mesmo numa abordagem sumária como esta, dá para per- e outros semelhantes são de baixa informatividade, mas, ceber que um texto não se constitui apenas de elementos gra- por isso mesmo, é que são adequados ao seu contexto de maticais e lexicais. O texto é um traçado que envolve material funcionamento; linguístico, faculdades e operações cognitivas, além de diferentes a intertextualidade concerne ao recurso de inserção, de en- fatores de ordem pragmática ou contextual. trada, em um texto particular, de outro(s) texto(s) já em Possivelmente, uma das maiores limitações que tem aconteci- circulação. Na verdade, todo texto é um intertexto di- do em nossas aulas de línguas tem sido a pressuposição ingênua zem os especialistas - no sentido de que sempre se parte de que um texto resulta apenas de um conjunto de elementos de modelos, de conceitos, de crenças, de informações já linguísticos. Ou seja, nessa suposição reduzida, as palavras bas- veiculados em outras interações anteriores. Ou seja, dada tam; a gramática basta. Por isso, ficamos tateando por sobre elas, a própria natureza do processo comunicativo, todo texto como se todo sentido expresso estivesse na cadeia dessas pala- contém outros textos prévios, ainda que não se tenha intei- vras e na sua gramática de composição. ra consciência disso. Mas há uma intertextualidade explí- O conjunto de propriedades que mencionamos possibilita-nos cita, que tem lugar quando citamos ou fazemos referência olhar para o texto seja do aluno, seja de um outro autor e direta ao que está dito em outro texto, por outra pessoa. perceber aí, por exemplo: 36 37Análise de textos fundamentos e práticas ANTUNES CAPÍTULO 2 Noções preliminares sobre 0 texto e suas propriedades texto é qualquer passagem, de qualquer extensão, desde que recursos de sua coesão, constitua um todo unificado e cumpra uma determinada função fatores (explícitos e implícitos) de sua coerência (linguística e pragmática), pistas de sua concentração temática, comunicativa. aspectos de sua relevância sociocomunicativa, Na verdade, essa compreensão não é tão 8 Halliday e Hasan (1989) chamam a traços de intertextualidade, infundada assim, pois pode ter como supor- atenção para esse tipo de textos ("os critérios de escolha das palavras; te a tradicional diferenciação, feita em quase textos mínimos"), absolutamente sinais das intenções pretendidas, marcas da posição do autor em relação ao que é dito, todas as gramáticas e manuais didáticos, en- funcionais, e curtos, porque adequa- dos a seus contextos de circulação. estratégias de argumentação ou de convencimento, tre oração e frase. Segundo essa discrimina- Pela funcionalidade que apresen- efeitos de sentido decorrentes de um jogo qualquer de ção, por exemplo, pedido de auxílio feito tam, tornaram-se comuns às transa- ções sociais, sobretudo na complexi- adequação do estilo e do nível de entre muitos outros elementos. por alguém, mediante o grito Socorro!, mes- dade dos contextos urbanos. Por sua mo numa situação comunicativa concreta, é dimensão assim reduzida, bem que 7 Frequentemente, falo em O fato de apenas nos fixarmos em ques- classificado como frase. Assim, também, os poderiam prestar-se a atividades de linguagem nas primeiras séries do relevantes e É que, tões de gramática, sobretudo naquelas liga- avisos: Atenção, desvio à esquerda!; Curva ensino fundamental. Assim, seriam ao lado da coerência, dois outros das à norma-padrão, nos fez deixar de ver perigosa; Propriedade privada e tantos ou- deixados de lado os exercícios com critérios são fundamentais para tros exemplares do que Halliday e Hasan frases inventadas e fora de qualquer emprestar qualidade aos textos, a muitos outros componentes também fun- contexto comunicativo. saber: sua relevância texto deve damentais para a comunicação (1989) chamaram de "textos fugir a obviedades e ao já sabido e adequada socialmente. É hora, portanto, Como se vê, as funções implicadas nesses enunciados não sua adequação contextual tex- to deve conformar-se às condições de abrir nossa capacidade de percepção e de contavam e, assim, aquilo que, de fato, constituía um texto era da situação social de que faz par- procurar encontrar nos materiais que lemos visto como uma frase. O texto inclusivamente aquele de geo- te. Dessa forma, são bons textos aqueles que apresentam coerência, e ouvimos traços de sua coerência global e grafia, biologia, história, que os alunos liam se localizava fora relevância comunicativa e adequa- de sua funcionalidade comunicativa. da sala e, portanto, não era considerado objeto de estudo. ção contextual. Nesse tripé, cabem 2.2.4. Merecem um comentário também A centralização na frase levou a escola a outra redução: a todas as outras propriedades, in- dois aspectos do texto: de conceber o texto como uma espécie de super-sentença, algo clusivamente a coesão e a correção gramatical. (a) a modalidade falada ou escrita; como uma unidade gramatical mais ampla, uma espécie de perío- (b) e a extensão em que ele se realiza. do grande, que se forma juntando-se unidades menores, em vistas É comum, até mesmo entre alguns professores, a impressão à formação de uma unidade maior. de que a fala não é textual; ou seja, texto é apenas escrito. Daí, Compor um texto, conferir-lhe unidade, supõe uma integra- uma outra suposição: a de que a língua falada não é regulada pela ção estrutural bem diferente daquela pensada para unir as várias gramática. A fala seria qualquer coisa fora das normas morfos- partes de um período. Desde a configuração convencionada para sintáticas. Algo meio As regras e muitas! - seriam cada gênero, até os detalhes de como responder às determina- privativas da escrita; por isso, elas é que serviriam de parâmetro ções pragmáticas de cada situação, a habilidade de promover a para a avaliação da fala. Há quem acredite que fala bem, em sequenciação das partes de um texto ultrapassa as injunções esta- qualquer situação, quem fala conforme a escrita belecidas pelas estruturas gramaticais. Depende do que se tem a Outra compreensão infundada diz respeito à crença de que dizer, a quem dizer, com que finalidade, com que precauções, em texto, para ser reconhecido como tal, tem que ser grande. Ora, função de quais resultados etc. 38 39CAPÍTULO 2 Noções preliminares sobre 0 texto e suas propriedades Análise de textos fundamentos e práticas IRANDE ANTUNES Ninguém aprende, pois, a ler ou a escrever cartas, por exem- os professores contra uma visão demasiado linguística da plo, com o exercício de analisar e compor frases, nem mesmo municação verbal. O de uma transação verbal resulta de aquelas mais complexas, assim como, para aprender a falar, não uma série de fatores, que se inter-relacionam e se integram em treinamos, como iniciação, a junção de palavras ou de frases. As sistemas amplos e complexos. leis do texto são outras e, embora sejam previsíveis, estão sujeitas Ou seja como temos mostrado em outras oportunidades às condições concretas de cada situação. Noutras palavras, mais para o processamento textual, em hora de fala ou de escrita, previsível para o texto é que sua coerência e relevância socioco- de escuta ou de leitura, ativamos quatro grandes conjuntos de municativa são dependências contextuais, e muito do que deve ser conhecimento, a saber: dito e feito vai sendo decidido na hora mesma de sua realização. (a) 0 conhecimento linguístico (compreendendo aqui 0 lexical e 0 gramatical); Essas observações não significam que não estejam definidos (b) 0 conhecimento de mundo, 0 conhecimento geral, ou 0 que se conhece com 0 os termos ou as condições de uma competência textual. Já mos- nome de 'conhecimento (que inclui os protótipos, os esquemas, tramos, nas referências às propriedades e condições da textuali- os cenários, ou os modelos de eventos e episódios em vigor nos grupos a que dade, que é requisitado para que se constitua o objeto texto. pertencemos); Queremos chamar a atenção, no entanto, é para a natureza dessa (c) 0 conhecimento referente a modelos globais de texto (que inclui as regularidades de construção dos tipos e gêneros); competência, que é bem diferente daquelas estabelecidas para o (d) 0 conhecimento sociointeracional, ou 0 conhecimento sobre as ações verbais nível da oração ou do período. Em termos bem simples, quere- (que inclui 0 saber acerca da realização social das ações verbais ou de como as mos ressaltar que, para compor um texto, as regras da boa for- pessoas devem se comportar para interagir em diferentes situações sociais). mação de orações e períodos são insuficientes, embora um texto que não aqueles textos mínimos compostos de uma ou duas Numa visão bem ampla, esses sistemas de conhecimento en- palavras seja formado com orações e períodos. Assim, o texto, volvem o conhecimento das operações cognitivas, das estratégias suas leis, suas regularidades de funcionamento, seus critérios de e dos procedimentos que fazem a rotina das pessoas em seus sequenciação e boa composição precisam ser centro dos pro- eventos de interação verbal. gramas de ensino de línguas, se pretendemos, de fato, promover Desse pequeno esquema, pode-se concluir que um programa a competência das pessoas para a multiplicidade de eventos da de ensino de línguas restrito às classes de palavras e às suas fun- interação social. ções sintáticas é, incontestavelmente, pobre e irrelevante. Insisto em lembrar que, tradicionalmente, temos olhado o Talvez por isso os resultados de nossas aulas de línguas não texto como uma criação puramente linguística, formada com tenham convencido a sociedade de que professor de línguas palavras, apenas de diferentes classes gramaticais reuni- sobretudo o professor de língua materna é uma figura muito das, conforme certas regras sintáticas, em orações e períodos. significativa para a elevação dos padrões de desenvolvimento da Tem toda relevância, portanto, ressaltar que a construção e a sociedade. As imensas desigualdades sociais que marcam a reali- compreensão dos sentidos expressos resultam de vários siste- dade brasileira têm um grande reforço na escola que não alfabe- mas de conhecimento e de várias estratégias de processamento. tiza, na escola que não forma leitores críticos, na escola que não O conhecimento do sistema linguístico, se é necessário, não é, desenvolve o poder de argumentar oralmente e por escrito contudo, suficiente para dar conta de todas as operações que de criar, de colher, de analisar e relacionar dados, de expressar, precisam ser feitas. Pretendemos com essa observação advertir em prosa e em verso, os sentidos culturais em circulação. 40 41CAPÍTULO 2 Noções preliminares sobre 0 texto e suas propriedades Análise de textos fundamentos e práticas ANTUNES Na verdade, que temos mesmo são textos em classes de gê- Mesmo sabendo da não onipotência da escola, acreditamos neros, uma vez que, por exemplo, dentro do gênero carta, temos que sua atuação constitui um fator de grande peso na resolução diferentes perfis, conforme também diferentes propósitos: carta dos problemas sociais de uma comunidade e na sua ascensão a de apresentação, de convite, de cobrança, de solicitação, de agra- níveis mais altos de realização humana. decimento, de congratulação etc. Representa muito pouco, na economia dos valores sociais De qualquer forma, é relevante lembrar que todos os gêneros e éticos, centrar-se na discriminação de classes e categorias gramaticais. correspondem a modelos convencionais de comunicação, social- Infelizmente, ainda é preciso fazer esse alerta. mente estabelecidos (nunca, porém, modelos rígidos!), os quais 2.2.5. Na alínea (c) do esquema apre- regulam nossa atividade social de uso da linguagem. Compor um 9 Conforme já adverti, limito-me, sentado, fizemos menção ao texto, assim, corresponde a uma operação de cumprir um certo neste ponto do trabalho, a trazer referente a modelos globais de texto (que in- modelo textual, e, por outro lado, compreender um texto supõe noções bem gerais acerca do ponto clui as regularidades de construção dos tipos o enquadramento desse texto em determinado gênero. Daí por em questão, uma vez que, nos capí- tulos seguintes, destinados às análi- e que, em geral, frente à tarefa de produzir um determinado gê- ses, retomo tais pontos, embora faça de forma não muito aprofunda- Noções relativas a essa questão dos ti- nero, seguimos, praticamente, mesmo modelo. Uma carta que da. A questão dos textuais pos e gêneros textuais têm ganhado espaço escrevemos, por exemplo, tem a mesma cara que a de outros de é demasiado complexa e exigiria um nos estudos e nas pesquisas sobre a lingua- nosso grupo, de nosso tempo. Por outro lado, o entendimento do espaço que a natureza deste trabalho não permite. Sugerimos, no entanto, gem, sobretudo no âmbito dos programas gênero textual é, à partida, condição de sua interpretabilidade. aos professores que procurem am- de pós-graduação. Muitas dissertações e te- Uma historinha que tem seguinte começo: Tudo aconteceu no pliar o estudo da questão (leiam, por exemplo, a segunda parte do livro de ses têm se debruçado sobre tais questões e tempo em que os bichos falavam... já regula a sua compreensão, Marcuschi, 2008). têm proposto alternativas de incluí-las nas no sentido de que traz as marcas convencionais do quadro em 10 Propostas de exploração dos programações de ensino. Também alguns que deve ser percebido: uma narrativa de ficção. gêneros textuais em atividades de manuais didáticos principalmente aqueles ensino podem ser vistas em Olivei- Em geral, os diferentes contextos sociais os chamados ra (2010), Antunes (2009), Moço destinados ao ensino médio já exploram domínios discursivos são marcados por determinadas rotinas (2009). Marcuschi (2008), Guedes tais aspectos do mundo comunicativas, pois, costumeiramente, utilizam um mesmo con- (2008), Schneuwly e Dolz (2004), Costa (2000, 2008), Dionísio et De fato, entendendo que a ampliação da junto de gêneros. Assim, o domínio jurídico, domínio jornalís- al. (orgs.) (2010), Faraco e Tezza competência textual dos alunos representa tico, domínio religioso, entre outros, costumam servir-se dos (2002). Alguns livros didáticos um dos objetivos centrais do ensino, é neces- também já exploram a questão dos mesmos gêneros, dentro, é claro, da natural flexibilidade que a gêneros [ver, por exemplo, Faraco sário ultrapassar nível das considerações prática da linguagem implica. (2003), Faraco & Tezza (2002, teóricas para chegarmos ao campo concre- 2003); Abaurre et al. (2008)]. A questão dos tipos de texto é mais simples, pois está me- to das ações de linguagem. Nesse campo, o nos sujeita a fatores de ordem pragmática do que os gêneros. que existe é gênero de texto; quer dizer, no De fato, os tipos são marcados por características linguísticas e âmbito das atividades concretas de linguagem, que temos são estruturais, como, por exemplo, modo de seleção lexical, a es- os gêneros: crônicas, contos, poemas, cartas, avisos, entrevistas, anúncios, declarações, atestados, atas, editoriais, notícias, arti- colha dos tempos verbais. Distribuem-se em cinco categorias, ou gos, notas de esclarecimento etc. seja: os tipos narrativo, descritivo, expositivo, dissertativo e in- juntivo. Cada um desses tipos pode acontecer na composição de 42 43Análise de textos - fundamentos e práticas IRANDÉ ANTUNES diferentes gêneros. Por exemplo, no tipo narrativo, se inserem os gêneros notícias, fábulas, contos, romances, crônicas etc. Vale advertir, no entanto, que um mesmo texto pode conter sequências narrativas e descritivas, ou um outro, sequências ex- positivas e descritivas etc. De qualquer forma, todo texto é re- gulado por determinações do tipo e do gênero que realizam. É a convicção desse princípio que nos faz perguntar, por exemplo, diante de uma situação concreta de comunicação: como é que se faz uma notícia? Como se faz um requerimento? Convém advertir ainda que os tipos e gêneros não são cate- gorias dicotômicas, antagônicas; mantêm uma relação comple- mentar, no sentido de que "os textos realizam gêneros e todos os gêneros realizam sequências tipológicas diversificadas", segundo observação de Marcuschi (2008: 160). Mais uma vez parece oportuno lembrar a pertinência de uma programação de estudo centrada nas questões textuais. O exer- cício de formar frases serve para isso mesmo: aprender a formar frases soltas, o que equivale a atrofiar conhecimento explícito do que se deve fazer para interagir verbalmente. Eleger o fun- cionamento da linguagem - que somente acontece em textos como uma das prioridades do estudo significa promover a possibilidade da efetiva participação da pessoa, como indivíduo, cidadão e trabalhador. Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. Sem uso, Ela nos espia do aparador. (Drummond, Poemas) 44