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ESPAÇO, SOCIEDADE E NATUREZA AULA 1 Profª Rafaela Pacheco Dalbem 2 CONVERSA INICIAL Uma visão geral da disciplina Nesta etapa, apresentaremos uma visão geral desta disciplina, a qual também é um panorama do campo que você escolheu para seus estudos universitários. Inicialmente, vamos olhar para a ementa da disciplina, o que nos ajudará a entender a complexidade dessa área do conhecimento. Em seguida, vamos olhar para a gênese da Geografia como conhecimento acadêmico e, depois, vamos ver quais são as categorias de análise que estruturam as discussões na Geografia, porém, especialmente, vamos nos atentar para o fato de que a Geografia se constituiu como um campo mediado por uma dicotomia: geografia física versus geografia humana. Vamos também questionar essa dicotomia por meio da apresentação de iniciativas de pesquisa que aproximam essas duas formas de discussão. No entanto, é impossível não reconhecer que uma importante parcela de produção acadêmica não considera aspectos físicos ou humanos em suas pesquisas, o que ainda permite verificar uma dicotomia epistemológica dentro do campo de conhecimento geográfico. Para finalizar esta etapa, vamos estudar um pouco sobre as frentes de trabalho de um bacharel e um licenciado em Geografia, reforçando a versatilidade desse profissional que, em sua concepção, é formado para olhar e considerar aspectos físicos e humanos do ambiente em suas análises, especialmente nas sociedades em que está inserido. Os objetivos desta etapa, portanto, são: • Compreender a Geografia como uma ciência complexa por analisar sociedade e natureza; • Conhecer as categorias de análise geográfica; • Conhecer (e questionar) a dicotomia da geografia. TEMA 1 – EMENTA Antes de apresentar a ementa, propomos uma reflexão. Pegue um pedaço de papel e tente responder à seguinte pergunta: O que é estudar Geografia na universidade? 3 Se no colégio, a Geografia estudava relevo e hidrografia dos países, geopolítica do mundo, urbanização, geografia agrária e rural dos estados brasileiros, o que você imagina e projeta que será estudado em Geografia durante quatro anos na Universidade? Essa aproximação é para que você se lembre da quantidade de temas que se sucederam nos anos em que estudou Geografia na Educação Básica, e informá- lo de que essa diversidade advém da gama de discussões às quais o pensamento geográfico tem aderência. Essa grande gama de temas pode ser verificada também a seguir, em nossa ementa: • As diversas fases históricas da relação sociedade-natureza: as sociedades pré-históricas, agrárias e industriais; • A evolução do pensamento geográfico e suas diferentes concepções da natureza (a geografia da natureza ou a natureza da geografia?); • As diferentes formas de apropriação do ambiente natural e sua transformação em espaço social; Geografia Física versus Geografia Humana; • A produção do espaço geográfico no capitalismo. Vocês conseguem ver a dimensão disso? Atente-se para a quantidade de temas. Só o primeiro tema: “As diversas fases históricas da relação sociedade- natureza: as sociedades pré-históricas, agrárias e industriais” é, basicamente, a história da humanidade. A Geografia (e essa disciplina que estamos desenvolvendo juntos, de maneira introdutória) pretende – em resumo – estudar isso. Às vezes olhando para o solo, às vezes olhando para o ar, às vezes olhando para a relação entre os povos, às vezes olhando para os movimentos migratórios, às vezes olhando para transformação territorial, às vezes olhando para o corpo e, às vezes, olhando para as relações entre o corpo e o ar, a Geografia é uma ciência que busca explicar as relações sociedade-natureza. Talvez alguns geógrafos e geógrafas discordem disso e argumentem que a Geografia não estuda, apenas, a relação sociedade-natureza, acrescentando alguma especificidade, mas a literatura clássica da Geografia vai afirmar isso em alguns textos. Para cumprirmos a ementa e para que você tenha consciência do caminho que vamos percorrer, as aulas terão como principais temas e discussões a 4 organização a seguir: • Aula 1: Espaço, sociedade e natureza – uma visão geral da Geografia (e a dicotomia) o Geografia Física versus Geografia Humana • Aula 2: Região e regionalização o As diferentes formas de apropriação do ambiente natural e sua transformação em espaço social • Aula 3: Território e territorialidades o As diferentes formas de apropriação do ambiente natural e sua transformação em espaço social • Aula 4: Paisagem e lugar o As diversas fases históricas da relação sociedade-natureza: as sociedades pré-históricas, agrárias e industriais • Aula 5: Redes e a globalização o A produção do espaço geográfico no capitalismo • Aula 6: Espaço como metaconceito o A evolução do pensamento geográfico e suas diferentes concepções da natureza (a Geografia da natureza ou a natureza da Geografia?) TEMA 2 – GEOGRAFIA COMO CONHECIMENTO ACADÊMICO O campo de conhecimento geográfico é antigo, mas o estudo de Geografia é mais recente. Yves Lacoste, geógrafo francês em seu famoso livro A geografia: Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra (de 1976, no Brasil em 1988), coloca que “de fato, a profissão de geógrafo é bem anterior ao aparecimento da geografia entre as geografias universitárias”. O autor ainda coloca que Para que a geografia seja reconhecida pela comunidade científica como um saber no sentido definido acima, [...] é preciso que os geógrafos [...] estejam conscientes de que sua razão coletiva de ser na sociedade é de saber pensar o espaço para que ali se possa agir mais eficazmente. É somente isso que dá um sentido à sua profissão e que justifica, epistemologicamente, o número de empréstimos que eles fazem das outras ciências. (Lacoste, 1988, grigos nossos) Esse trecho ilustra a crítica que a Geografia sofreu na academia, uma vez que em alguns momentos seus objetos de pesquisa estavam mais ligados a questões da natureza e, em outros, estes estavam mais ligados a questões da 5 Sociologia. Outros estudiosos escreveram sobre o assunto, mas chamamos atenção para a compreensão proposta por Paul Claval (2004, p. 11, grifo nosso), geógrafo francês, abriu um artigo afirmando: Gostaríamos aqui de defender o seguinte ponto de vista: duas grandes concepções da Geografia foram imaginadas entre o final do século XVIII e os anos 70. A primeira insistia nas relações entre natureza e sociedade. A segunda se preocupava com o papel do espaço no funcionamento dos grupos humanos. Elas diferiam em muitos pontos, porém baseavam-se em um pressuposto comum: o da existência de realidades globais, fossem elas a natureza, a sociedade ou sociedades. As suas ambições consistiam em desenvolver propostas aceitáveis nestas escalas e em participar, desta maneira, dos conhecimentos úteis aos homens. Ou seja, o campo de conhecimento no qual você está iniciando os seus estudos, de modo geral e de acordo com dois importantes estudiosos da Geografia (Yves Lacoste e Paul Claval) se preocupa com questões úteis aos “homens”, seja seu estudo na área física, seja na área humana. O que é, então, um objeto de pesquisa da Geografia? Ou: o que é então, um objeto de estudo na Geografia? Acreditamos que você agora tem uma noção da abrangência de possibilidades e campos possíveis de estudo dentro do campo de conhecimento geográfico. Essas possibilidades serão exploradas posteriormente, quando formos também aprofundando outro olhar do campo de conhecimento geográfico: as categorias de análise. Ou seja, além das possibilidades de estudo na área mais física, ou estudos com características eminentemente sociais, algo importante é atentar para o fato de que qualquer que seja a sua pesquisa, ao aprofundar o estudo geográfico, o seu objeto de estudo estará mediadopor uma das categorias de análise estruturantes da Geografia. As categorias são várias, mas as principais serão abordadas a seguir. TEMA 3 – CATEGORIAS DE ANÁLISE Como abordamos anteriormente, a Geografia estuda uma série de fenômenos que figuram em estudos que ora se aproximam de estudos de natureza das ciências biológicas, ora se aproximam de estudos de natureza das ciências sociais e econômicas. Qualquer que seja sua natureza, uma característica dos estudos em 6 Geografia é que o estudo tem também, como uma das lentes, uma das seguintes categorias de análise: • Espaço; • Região; • Território; • Lugar; • Paisagem; • Redes. É importante ter em mente que essas categorias estão associdas a pesquisas da área física ou da área humana. Ou seja, é comum encontrar estudos da Geografia Humana associados à categoria de paisagem, e também é comum que um estudo de Geografia Física tenha essa mesma categoria como recorte. Isso se aplica com maior ou menor grau a todas as categorias. Ao longo do nosso estudo, vamos passar por essas categorias, trazendo também outras discussões. No entanto, adiantamos que o espaço será a categoria com maior tempo de discussão. Como ponto de partida, teremos uma definição inicial com base no trabalho da professora Júlia Adão Bernardes (1999, p. 244, grifo nosso): “a construção do espaço é, na aparência, um fato técnico, mas na essência um fato social”. O grifo é para destacar que o espaço é uma construção e, na Geografia, partimos do princípio de que o meio é construído e, portanto, o espaço, a região, o território, a paisagem e as redes também são construções humanas. TEMA 4 – DICOTOMIA DA E NA GEOGRAFIA Viemos falando que em alguns momentos os estudos de Geografia se aproximam mais de temas físicos e, em outros, de temas humanos. Tal característica é a que ilustra a dicotomia dentro desse campo do conhecimento. Dizer que existe uma dicotomia é afirmar que há uma bifurcação, uma cisão, o que evidencia uma aderência do corpus teórico da Geografia a uma quantidade significativa de objetos de pesquisa. O professor Francisco Mendonça, em seu livro Geografia Física: Ciência Humana? (1989, p. 15, grifos nossos) retomou as origens da dicotomia da Geografia e nos relembra que originalmente formada no encontro das ciências humanas, da terra e 7 biológicas, a geografia apresentou desde sua gênese científica uma forte complexidade quanto à sua definição conceitual, bem como a aplicação metodológica; isto sem falar na sua problemática enquanto possuidora de um objeto de estudo que reúne uma série de objetos de estudos de outras ciências. O mesmo autor ainda recorre a outro pensador da Geografia, o também brasileiro Carlos Augusto Figueiredo Monteiro (1978, p. 18), apresentando uma proposição da divisão dos campos do conhecimento e a posição da Geografia no meio deles (Figura 1). Mendonça comenta que essa proposição materializa as preocupações teóricas do campo acadêmico da Geografia uma vez que o vértice menor do triângulo estar mais afeto às ciências da terra e biológicas (naturais), sendo que os outros dois maiores vértices estão voltados às ciências econômicas e sociais, partes das ciências humanas. Tal esquema caracteriza a geografia física, como uma parte da geografia, assim como faz da geografia humana uma parte dela; um e outro estudo desenvolvidos independentemente e com um grau de especificidade muito elevado podem perder a qualidade de trabalho geográfico, ou serem questionados quanto a essa qualidade (Mendonça, 1996, p. 19) Figura 1 – Geografia física: ciência humana? Fonte: Monteiro, 1978, citado por Mendonça, 1996. Essa cisão advém do entendimento dos objetos de pesquisa e mesmo da adoção de métodos de pesquisa dentro das pesquisas geográficas. E como tal divisão ocorreu? Retomando à literatura já citada, Mendonça contextualiza a Geografia física e indica que mesmo que se relute em aceitar que é quase impossível trabalhar sociedade e natureza dentro de uma única ciência, deve-se, entretanto, aceitar que o processo de desenvolvimento e evolução destes dois componentes do planeta se dê de maneira completamente diferente. Se 8 por um lado, a natureza desenvolve-se e evolui de acordo com suas próprias leis, a sociedade, pela sua própria característica de entidade teleológica1, desenvolve-se e evolui de acordo com objetivos próprios, traçados por indivíduos e/ou grupos que, utilizando a faculdade de pensar, produzem as transformações sociais na busca de satisfazer desejos e necessidades humanas (Mendonça, 1996, p. 28) Mesmo com essa capacidade teleológica, as sociedades agem sobre a natureza de maneira mais predatória do que a própria natureza a faria, inclusive para satisfazer algumas necessidades – e desejos – humanos, como colocados pelo autor. Tal explanação é um breve relato desse antigo campo do conhecimento, mas podemos recorrer, em todos os momentos em que se questionar os motivos pelos quais, em determinados momentos da sua vida acadêmica na Geografia, estamos estudando disciplinas mais ligadas ao meio natural e, em outros, disciplinas mais ligadas ao meio social. Uma reflexão que podemos tirar dessas colocações de Mendonça é que o reconhecimento da diferença de métodos para se olhar para a Geografia Física e a Geografia Humana decorre do cuidado metodológico com os temas escolhidos. TEMA 5 – PESQUISAS QUE SUBLIMAM A DICOTOMIA Apesar de trazermos aqui a fala de Mendonça (1996, p. 28) de que é quase impossível trabalhar sociedade e natureza dentro de uma única ciência, a Geografia é um campo de conhecimento que proporciona tentativas. O próprio professor Francisco Mendonça trabalhou no desenvolvimento de uma epistemologia socioambiental, tentando agregar questões sociais e naturais em seus estudos. É possível observar isso na obra citada, de 1989, assim como trabalhos do início dos anos 2000, os quais trabalham a relação de clima com criminalidade, e estudos mais recentes, com a busca do entendimento da dimensão geográfica da Covid-19 ou da dengue nas cidades brasileiras. São muitos os trabalhos acadêmicos que o professor tem publicado nessas frentes, bem como estudos sistemáticos de mudanças climáticas em áreas urbanas. Mendonça colabora com pesquisas do professor Hugo Iván Romero Aravena, acadêmico chileno, que também atua em uma vertente crítica da Geografia Física, hoje utilizando termos e reflexões vindos da Sociologia (como gentrificação) para explicar as diferenças dentro do clima de Santiago. No artigo “La gentrificación de los climas urbanos y su influencia sobre las temperaturas de 1 Na Filosofia, teleológica é relacionado à capacidade de fazer projeção. 9 la superficie terrestre y el COVID-19 durante el año 2020 en Santiago de Chile” (2021), Aravena e Flávio Henrique Mendes propõem uma reflexão a partir do mapeamento das piores condições climáticas na cidade de Santiago do Chile durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19. A conclusão a que os autores chegaram foi de que, quanto mais conforto térmico e quanto maior a qualidade do ar, maior é o valor dos imóveis em Santiago, bem como maior é o rendimento médio por domicílio dentro do mesmo município. Levando em consideração que gentrificação é uma segregação urbana que ocorre após a revitalização de bairros historicamente ocupados por populações de baixa renda, a gentrificação climática é um conceito mais recente e que explora como as mudanças climáticas – e também as sensações térmicas – exacerbam desigualdades sociais, levando a casos extremos, como o deslocamento de populações vulneráveis por causa do clima. Assim como no conceito que surgiu nas Ciências Humanas, áreas mais seguras aos impactos climáticos tornam-se mais caras, atraindo moradores mais ricos e expulsando seus moradores tradicionais. Outro trabalho que poderíamosdestacar é o da professora Isorlanda Caracristi. A autora vem, desde sua tese de 2007, contribuindo com a teoria do estudo da climatologia e estudando mudanças climáticas, biodiversidade e combate à desertificação. A geógrafa em questão está ligada a uma linha de pensamento intitulada Geografia Física Crítica; no último Congresso Brasileiro de Geógrafos, em julho de 2024, ela participou de uma mesa redonda com Cris Faustino (Instituto Terramar), Lindberg Júnior (Universidade Federal de Santa Catarina), Nubia Beray Armond (Indiana University, USA) e Paulo Zangalli Junior (Universidade Federal da Bahia). A discussão, intitulada “Dinâmicas da paisagem, eventos climáticos extremos, racismo ambiental e vulnerabilização de lugares e gentes”, deixou evidente os métodos de trabalho atrelados aos seus campos do conhecimento e às análises multifatoriais dos docentes. Em linhas gerais, as discussões dessa mesa versaram sobre como a mudança climática global tem intensificado eventos extremos, como inundações, secas e furacões, e como isso impacta severamente o planeta e as populações. Esses eventos afetam de maneira desproporcional comunidades marginalizadas, reforçando as desigualdades sociais. Com isso, surge o conceito de racismo ambiental, evidenciando como as comunidades racializadas e de baixa renda são mais expostas a riscos ambientais. Além do recorte racial, apresentaram também 10 recortes de gênero. Na maioria dos espaços, políticas de planejamento urbano discriminatórias frequentemente relegam essas populações a áreas vulneráveis, como encostas instáveis ou zonas costeiras suscetíveis a desastres naturais. Quando ocorrem eventos climáticos extremos, essas comunidades enfrentam desafios maiores na evacuação, acesso a serviços de emergência e recuperação, agravando o ciclo de pobreza e exclusão. Assim, abordou-se o tema de justiça ambiental que exige equidade no acesso a recursos e participação ativa das comunidades afetadas nas decisões que impactam seu futuro, além de políticas que combatam as raízes estruturais da desigualdade. Em suma, ao acompanhar essas discussões do campo do conhecimento geográfico, percebemos que uma abordagem crítica, que considere tanto os aspectos físicos do meio ambiente quanto as injustiças sociais, é necessária para criar um futuro mais resiliente e equitativo para todos. Nosso intuito aqui é demonstrar que a Geografia possui uma gama de estudos tão ampla que pode ser identificada por meio de uma pesquisa rápida sobre as últimas discussões da área em periódicos científicos nacionais ou internacionais. Além dos professores e estudos citados, outros importantes estudos têm sido desenvolvidos na esteira de ligação entre as faces da Geografia. Neste contexto, as produções acadêmicas na Geografia que trabalham com episódios extremos (não só da Climatologia, mas também da Geomorfologia, por exemplo) e racismo ambiental são abordagens integradoras cuja associação da sociedade ao meio natural acaba sendo inevitável, e que pode ser do seu interesse ao longo do curso. Outras pesquisas que integram natureza e sociedade serão abordadas posteriormente, bem como teóricos de referência no campo de estudo geográfico e no uso das categorias de análise citadas anteriormente. NA PRÁTICA Campos de atuação de bacharéis e licenciados em Geografia A formação no bacharelado ou na licenciatura em Geografia, é multifacetada. Desde o primeiro semestre, o curso abrange um leque diversificado de disciplinas que permitem ao estudante transitar entre diferentes campos do saber. Além de se debruçar sobre as questões sociais, relacionadas às dinâmicas 11 da sociedade e da produção do espaço urbano e rural, o aspirante à geógrafo também explora as questões da natureza, envolvendo os processos físicos da Terra, como clima, relevo e biomas. Soma-se a isso uma destacada vertente instrumental, que inclui a cartografia digital, o uso de sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica (SIG), importantes para a comunicação da área com outros campos do saber: os mapas. Essa ampla formação prepara o geógrafo para atuar em alguns setores que vão além da pesquisa acadêmica e da docência, abrangendo campos inovadores e de crescente demanda no mundo contemporâneo. Para o bacharel em Geografia, uma das possibilidades de trabalho está relacionada ao planejamento territorial e urbano. Profissionais dessa área trabalham com o ordenamento espacial em prefeituras, secretarias de urbanismo e meio ambiente ou, ainda, em empresas de consultoria. Eles podem desenvolver planos diretores para cidades, pensar em estratégias de uso sustentável do solo e propor soluções para problemas como a expansão urbana desordenada, gentrificação e mobilidade. Outra área promissora para o bacharel é a análise de impactos ambientais, na qual o geógrafo atua no levantamento e mitigação dos efeitos de obras de infraestrutura, como rodovias, hidrelétricas ou mineradoras, sobre o meio ambiente e as comunidades locais. Nesse último caso, o profissional pode atuar tanto na confecção de produtos cartográficos, quanto diretamente com as comunidades para entender como estas podem vir a ser impactadas pelos projetos a serem desenvolvidos em seus territórios. Além disso, o bacharel pode ser crucial em atividades como o monitoramento de riscos ambientais e a prevenção de desastres naturais. Usando técnicas de geoprocessamento e SIG, esse profissional consegue mapear áreas vulneráveis a deslizamentos, inundações ou secas, e propor ações de prevenção e gestão de crises. Também há oportunidades no setor de geotecnologia, onde o geógrafo pode trabalhar no desenvolvimento de softwares e aplicativos de cartografia, ou na criação de mapas interativos para empresas de tecnologia, como Google Maps ou serviços de logística e transporte. Alguns órgãos públicos também usam dos conhecimentos de um geógrafo bacharel. É o caso, por exemplo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Instituto de Pesquisa em Economia Aplicada (IPEA), do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre outros. Já para o licenciado em Geografia, a atuação clássica na docência em 12 escolas públicas e privadas segue sendo uma via fundamental, na qual o educador tem o papel de formar cidadãos críticos e conscientes sobre as interações entre sociedade e natureza. Contudo, as possibilidades vão além da sala de aula. O licenciado pode atuar em projetos de educação ambiental, seja em ONGs, parques ou instituições de pesquisa, promovendo atividades que busquem sensibilizar diferentes públicos para a preservação do meio ambiente e o uso sustentável dos recursos naturais. Um exemplo são os projetos de trilhas interpretativas, em que o geógrafo conduz grupos em parques ou áreas urbanas e oferece explicações geográficas e ecológicas in loco, contribuindo para o turismo educativo. Outra área possível para o licenciado é o desenvolvimento de materiais didáticos digitais. Com a crescente digitalização da educação, muitos professores de Geografia têm se dedicado à criação de jogos, aplicativos e plataformas interativas que auxiliam no ensino de temas como cartografia, geomorfologia e geopolítica. Essas ferramentas são especialmente importantes em tempos de ensino híbrido e a distância, permitindo que o aprendizado ultrapasse as fronteiras da sala de aula física. O licenciado também pode atuar como consultor em museus e exposições, elaborando curadorias que explicam temas geográficos em exposições temporárias ou permanentes, como as que tratam de mudanças climáticas, biomas ou urbanização. Dois museus brasileiros que demonstram uma estreita ligação entre os conhecimentos geográficos e uma interface educativa em suas exposições permanentes são o Museudo Amanhã (na cidade do Rio de Janeiro) e o Museu da Língua Portuguesa (em São Paulo). Em resumo, a formação do geógrafo, de modo geral, permite uma atuação em diversos campos, muito além dos caminhos mais conhecidos da pesquisa e da docência. Esse profissional multifacetado está preparado para enfrentar os desafios contemporâneos nas mais diversas áreas, como planejamento urbano, gestão ambiental, educação formal ou em projetos inovadores de tecnologias educativas. A capacidade de transitar entre o entendimento das dinâmicas sociais, naturais e instrumentais faz do geógrafo um profissional de extrema relevância no mundo atual, com um leque de oportunidades que reflete a pluralidade de sua formação FINALIZANDO Encerrando esta etapa, percebemos como a Geografia se revela uma ciência complexa e multifacetada, capaz de integrar dimensões físicas e humanas 13 em suas análises. Aqui, exploramos a evolução da Geografia como campo acadêmico, abordando como ela historicamente lidou com a dicotomia entre a Geografia Física e Humana. Com base em autores como Francisco de Assis Mendonça e Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, discutimos a necessidade de ir além dessa separação, propondo uma visão integrada que possibilite uma compreensão mais abrangente e realista do espaço geográfico. Esta é apenas a introdução a um campo vasto e, ao longo da disciplina, teremos a oportunidade de aprofundar essas reflexões. Ao apresentar as categorias de análise da Geografia, enfatizamos que sua teoria trabalha por meio dessas categorias, independentemente de qual seja o seu objeto de análise. Autores como Paul Claval e Júlia Adão Bernardes nos ajudam a entender que o espaço geográfico é um reflexo das interações entre sociedade e natureza, e que essas relações se manifestam de maneira concreta no nosso cotidiano. Essa visão do espaço será explorada com mais detalhes posteriormente, especialmente quando discutirmos a categoria "espaço" como conceito central para a Geografia. Também refletimos sobre as Geografias Física e Humana, que, apesar de ser um debate clássico, ainda tem grande relevância nas discussões acadêmicas atuais. Como vimos nos estudos de Hugo Iván Romero e de Isorlanda Caracristi, a separação dos campos de estudos limita a nossa compreensão da realidade. Em vez de ver a natureza e a sociedade como elementos separados, veremos em breve que essas esferas são interdependentes, e só a partir dessa integração seremos capazes de enfrentar os desafios ambientais e sociais contemporâneos de forma mais efetiva. Outro ponto central desta etapa foi a formação dos profissionais de Geografia. Esta não é apenas uma ciência teórica, mas também prática, com implicações diretas nas políticas públicas e no planejamento territorial. Por fim, nesta etapa, lançamos as bases para uma reflexão mais aprofundada sobre a Geografia e suas inter-relações com a sociedade e a natureza. Questões centrais, como a categoria "espaço", serão revisitadas e ampliadas, permitindo uma compreensão mais detalhada e crítica. Acreditamos que, nesta jornada, você será capaz de desenvolver uma visão ampla da área do conhecimento que escolheu estudar, na qual as interações entre sociedade e meio ambiente sejam entendidas em sua totalidade e complexidade. 14 REFERÊNCIAS BERNARDES, J. A. Mudança técnica e espaço: uma proposta de investigação. In: CASTRO, I. E. de, GOMES, P. C. da C.; CORRÊA, R. L. (Org.). Geografia: conceitos e temas. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. p. 239-269. CARACRISTI, I. A natureza complexa da poiésis climática: contribuições teóricas ao estudo geográfico do clima. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. CLAVAL, P. A revolução pós-funcionalista e as concepções atuais da geografia. In: MENDONÇA, F.; KOZEL, S. (Org.). Elementos de epistemologia da geografia contemporânea. Curitiba: Ed. da UFPR, 2004. p. 11-43. FAUSTINO, C. et al. Mesa Redonda: Dinâmicas da paisagem, eventos climáticos extremos, racismo ambiental e vulnerabilização de lugares e gentes. VIII CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFAS E GEÓGRAFOS. Anais…, São Paulo 7 a 12 jul. 2024. Disponível em: https://www.cbg2024.agb.org.br/site/capa . Acesso em: 26 out. 2024. LACOSTE, Y. A geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Papirus, 1988. MENDONÇA, F. Geografia física: ciência humana? Dialética e geografia física – estudo da natureza e da sociedade afinal, o que é geografia? 4. ed. São Paulo: Contexto, 1996. (Coleção Repensando a Geografia). ROMERO, H.; MENDES, F. H. Comodificação dos climas urbanos e criação de injustiças socioclimáticas em Santiago do Chile. ENTRE-LUGAR, v. 11, n. 22, p. 40-56, 2020. Disponível em: https://ojs.ufgd.edu.br/entre-lugar/article/view/12868. Acesso em: 26 out. 2024.