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Teoria Geral do Direito Civil Do Direito Civil, Direito Privado e da Pessoa Natural 1 Direito civil e Direito privado O ser humano é um ser eminentemente social. Não vive isolado, mas em grupos. A convivência impõe uma certa ordem, determinada por regras de conduta. Essa ordenação pressupõe a existência de restrições que limitam a atividade dos indivíduos componentes dos diversos grupos sociais. “O fim do direito é, precisamente, determinar regras que permitam aos homens a vida em sociedade” (MAZEAUD, H. E. L. et al, 1994, p.33). Ainda que não exista um consenso sobre o conceito de “direito”, hoje é utilizado para se referir ao conjunto de regras que disciplinam a sociedade, podendo estas ser de caráter público ou privado. Conforme preceitua Caio Mário da Silva Pereira (2018, p. 13), “direito privado é o que disciplina as relações entre pessoas singulares, nas quais predomina imediatamente o interesse de ordem particular”, sendo o Direito Civil o que rege as relações entre os particulares (WALD, 1995, p. 15). 1.1 Origem e fontes Segundo a doutrina civilista, a palavra “fonte” pode ter dois sentidos principais: origem (“de onde vem”) e manifestações jurídicas (“formas de expressão do direito”). As fontes do Direito se dividem em fontes formais e fontes não formais. Fontes formais As fontes formais, conforme a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), subdividem-se em fontes primárias e secundárias. Fontes não formais As fontes não formais não constam na LINDB, constituindo-se basicamente de doutrina, jurisprudência e equidade. As fontes formais primárias, são as normas jurídicas, um imperativo autorizante, que detém obrigatoriedade, não podendo o cidadão alegar ignorância de seu conteúdo, conforme exposto no artigo 3º da LINDB. Já as fontes formais secundárias são as aplicadas na falta de lei, isto é, quando a lei for omissa e existir uma lacuna normativa (BRASIL, 1942). No que tange às fontes não formais, tem-se a doutrina, que é a interpretação do direito feita pelos estudiosos (exemplos: manuais, enunciados das Jornadas de Direito Civil, teses de doutorado); tem-se ainda a jurisprudência, que é a interpretação do Direito feita pelos Tribunais (exemplos: súmulas dos tribunais superiores). Vale ressaltar que com relação à jurisprudência, o Código de Processo Civil (CPC) trouxe uma valorização substancial, ao atribuir-lhe força vinculativa: · Artigo 332, CPC Nas causas que dispensem a fase instrutória, o juiz, independentemente da citação do réu, julgará liminarmente improcedente o pedido que contrariar: I - enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça; II - acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos; III - entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; IV - enunciado de súmula de tribunal de justiça sobre direito local. · Artigo 489, CPC § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: [...] VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. · Artigo 926, CPC Tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente. · Artigo 927, CPC Os juízes e os tribunais observarão: I - as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; II - os enunciados de súmula vinculante; III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos; IV - os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional; V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados. Por fim, tem-se ainda as formas de integração da Norma Jurídica (artigo 4º, LINDB), onde se tem as analogias, costumes e princípios gerais do direito. As analogias consistem na aplicação de uma norma próxima ou de um conjunto de normas próximas na ausência de lei para determinado caso. Já os costumes são práticas ou usos reiterados com conteúdo lícito e relevância jurídica. E os princípios gerais são regramentos básicos aplicáveis a determinado instituto jurídico, podendo ser abstraídos de norma, doutrina, jurisprudência e de aspectos econômico e social. É importante ressaltar que, com a Constituição Federal de 1988, alguns dos princípios gerais do Direito ganharam status constitucional, tendo assim prioridade de aplicação. 1.2 Desenvolvimento, conceito e objeto A noção de Direito Civil - como Direito Privado - remonta ao Direito Romano, que, inicialmente, era um só que regulava as relações particulares, sem diferenciação. Posteriormente, o Direito Romano passou a fazer a distinção entre o direito aplicado aos súditos e o direito das gentes, aplicado aos estrangeiros e romanos. Tendo essa divisão evoluído para uma tripartição, em que se tinha o Direito Privado comum, aplicável dentro das fronteiras do Império Romano, o direito aplicável às nações estrangeiras e o Direito Natural, uma espécie de ideal jurídico para o qual deveriam evoluir os demais. “O Direito Civil é o direito comum, que rege as relações entre particulares” (WALD, 2015, p. 15). “Disciplina a vida das pessoas, desde a concepção (até mesmo antes dela) até a morte, e ainda depois dela, reconhecendo a eficácia pós morte do testamento, e exigindo respeito à memória dos mortos” (GONÇALVES, 2012, p. 33). No vasto campo do direito privado, destaca-se o Direito Civil, como direito comum a todos os homens, no sentido de disciplinar o modo de ser e de agir das pessoas. Costuma-se dizer que o Código Civil é a Constituição do homem comum, por reger as relações mais simples da vida cotidiana, os direitos e deveres das pessoas, na sua qualidade de esposo ou esposa, pai ou filho, credor ou devedor, alienante ou adquirente, proprietário ou possuidor, condômino ou vizinho, testador ou herdeiro, etc. Toda a vida social, como se nota, está impregnada do Direito Civil, que regula as ocorrências do dia a dia (GONÇALVES, 2012). Devido às complexidades e ao enorme desenvolvimento da vida civil, não é mais possível enfeixar o Direito Civil no respectivo Código. Atualmente, muitos direitos e obrigações concernentes às pessoas, aos bens e suas relações encontram-se regulados em leis extravagantes, que não deixam de pertencer ao Direito Civil, bem como na própria Constituição Federal. 1.3 Direito Civil no quadro geral do Direito O Código Civil possui duas partes: a geral, que, com base nos elementos do direito subjetivo, apresenta normas concernentes às pessoas, aos bens, aos fatos jurídicos, aos atos e negócios jurídicos, desenvolvendo a teoria das nulidades e princípios reguladores da prescrição e decadência. Já a parte especial, conforme Maria Helena Diniz (2012, p. 61), apresenta normas relacionadas ao: · Direito das obrigações Tendo como fulcro o poder de constituir relações obrigacionais para a consecução de fins econômicos ou civis, disciplinando os contratos e as obrigações oriundas de declaração unilateral de vontade e de atos ilícitos. · Direito de empresa Regendo o empresário, a sociedade, o estabelecimento e os institutos complementares. · Direito das coisas Referente à posse, à propriedade, aos direitos reais sobre coisas alheias, de gozo, de garantia e de aquisição. · Direito de família Normas relativas ao casamento, à união estável, às relações entre os cônjuges e conviventes, às de parentesco e à proteção de menores e incapazes. · Direito das sucessões Formulando normas sobre a transferência de bens por força de herança e sobre o inventário e partilha. O Direito Civil é, pois, o ramo do Direito Privado destinado a reger relações familiares, patrimoniais e obrigacionais,que se forma entre indivíduos como membros da sociedade (LOPES, 1995, p. 32). O Direito Civil rege as relações mais simples da vida cotidiana, estando toda avida social impregnada por este, que regula as ocorrências mais simples do dia a dia, como a aquisição de uma carteira (contrato de compra e venda) ou o uso de um ônibus (contrato de transporte). Conforme Diniz (2012, p.62), os princípios basilares que norteiam todo conteúdo do Direito Civil são: Personalidade Ao aceitar a ideia de que todo ser humano é sujeito de direitos e obrigações, pelo simples fato de ser homem. Autonomia da vontade Pelo reconhecimento de que a capacidade jurídica da pessoa lhe confere o poder de praticar ou abster-se de certos atos, conforme sua vontade. Liberdade de estipulação negocial Devido à permissão de outorgar direitos e de aceitar deveres, nos limites legais, dando origem a negócios jurídicos. Propriedade individual Pela ideia assente de que o homem, pelo seu trabalho ou pelas formas admitidas em lei, pode exteriorizar a sua personalidade em bens móveis ou imóveis que passam a constituir o seu patrimônio. Intangibilidade familiar Ao reconhecer a família como uma expressão imediata de seu ser pessoal. Herança e o direito de testar Pela aceitação de que, entre os poderes que as pessoas têm sobre seus bens, se inclui o de poder transmiti-los, total ou parcialmente, a seus herdeiros. Solidariedade social Ante a função social da propriedade e dos negócios jurídicos, a fim de conciliar as exigências da coletividade com os interesses particulares. 1.4 Código Civil Brasileiro Desde a independência do Brasil, várias foram as tentativas feitas, mas, somente após a Proclamação da República, com a indicação de Clóvis Bevilaqua, o projeto de Código Civil, por ele elaborado, foi encaminhado para o presidente da República, que o remeteu ao Congresso Nacional, em 1900. Na Câmara dos Deputados, o Projeto Beviláqua sofreu algumas alterações, sendo aprovado em janeiro de 1916, e entrou em vigor em 1º de janeiro de 1917. O Código Civil de 1916 tratava-se de um Código de acentuado rigor científico, aclamado internacionalmente pela sua clareza e precisão. O CC de 1916, que sofreu influência dos Códigos francês de 1804 e o alemão de 1896, possuía 1.807 artigos e era precedido pela Lei de Introdução ao Código Civil. Continha uma Parte Geral, da qual constavam conceitos, categorias e princípios básicos aplicáveis a todos os livros da parte Especial, esta dividia em quatro livros, Direito de Família, Direito das Coisas, Direito das Obrigações e Direito das Sucessões. A evolução social, o progresso cultural e o desenvolvimento científico, pelas quais passou a sociedade brasileira no decorrer do século passado, provocaram transformações que exigiram do direito uma contínua adaptação, mediante crescente elaboração de leis especiais, que trouxeram modificações relevantes ao Direito Civil, sendo o Direito de Família o mais afetado. Vale ressaltar o Estatuto da Mulher Casada (GONÇALVES, 2012) Lei do Divórcio (BRASIL, 1977) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), como exemplos de tais alterações. Foram feitas diversas tentativas de atualizar o Código de 1916, sem muito sucesso. A Constituição Federal de 1988 é um marco importante no que tange o Direito de Família e as alterações feitas em função da evolução social vivida à época. Os princípios elencados na Constituição de 1988, como a pluralidade de formas de família, a igualdade jurídica dos cônjuges, a igualdade jurídica de todos os filhos, dignidade da pessoa humana, melhor interesse da criança, função social da propriedade e proteção do consumidor, exerceram forte influência sobre o novo código, o que, dessa forma, configurou um avanço e assegurou a aplicação dos princípios constitucionais às relações jurídico-privadas. “Desse modo, teve-se o deslocamento do centro da disciplina jurídica das relações privadas, permanecendo o Código Civil como fonte residual e supletiva nos diversos campos abrangidos pela legislação extravagante e constitucional” (DINIZ, 2012, p.50). Após algumas tentativas frustradas de promover a atualização e revisão do Código Civil de 1916, foi nomeada em 1967 uma nova comissão de juristas sob a supervisão de Miguel Reale. O Código Civil de 2002 surgiu abruptamente, com base no anteprojeto de Reale, e foi uma compilação de obras feitas, elaboradas, principalmente, com base na Constituição. Como foi pensado na década de 60, o Código Civil de 2002 nasceu anacrônico e conservador. Por essa razão, o novo código também não promoveu a renovação do direito civil. O debate entre seus destinatários aconteceu apenas nessa época, e, quando da promulgação, não houve esforço parlamentar em rever o texto, mas somente em adequá-lo à Constituição de 1988. Além disso, o anteprojeto de Reale comprometia-se a incluir no novo código toda a legislação especial promulgada após 1916, portanto, não apresentou muitas inovações em relação à realidade do direito civil brasileiro do século XXI. O Código de 2002 não enfrenta, por exemplo, a rápida evolução social, que levanta questões relacionadas, principalmente, à internet e à genética. Apresentou, porém, inovações na parte geral em relação ao primeiro Código: o tratamento dos direitos da personalidade, a previsão expressa do abuso do direito e a previsão de lesão contratual. Na parte especial, a maior inovação foi a unificação das regras sobre obrigações civis e mercantis, o que já era feito na prática, mas não havia sido codificado. 1.5 Constitucionalização do direito privado A expressão “constitucionalização do Direito Privado” é comumente utilizada pelo fato de importantes institutos do direito privado como a propriedade, a família e o contrato, terem, hoje, as suas vigas mestras assentadas na Constituição Federal, processo esse que contribuiu para a fragmentação do Direito Civil. Conforme salientam Cristiano Chaves de Faria e Nelson Rosenvald (2011, p. 12-13): Ao reunificar o sistema jurídico em seu eixo fundamental (vértice axiológico|), estabelecendo como princípios norteadores da República Federativa do Brasil a dignidade da pessoa humana (art. 1º, II), a solidariedade social (art. 3º) e a igualdade substancial (arts. 3º e 5º), além da erradicação da pobreza e redução das desigualdades sociais, promovendo o bem de todos (art. 3º, III e IV), a Lex Fundamentalis de 1988 realizou uma interpenetração do direito público e do direito privado, redefinindo os seus espaços, até então estanques e isolados. Tanto o direito público quanto o privado devem obediência aos princípios fundamentais constitucionais, que deixam de ser neutros visando ressaltar a prevalência do bem estar da pessoa humana. Sendo assim, tem-se o surgimento de uma nova disciplina, que passa a estudar o Direito Privado à luz das disposições constitucionais. O direito privado-constitucional está baseado numa visão unitária do sistema, em que ambos os ramos são interpretados isoladamente, mas dentro de um todo, mediante uma interação simbiótica entre eles. Conforme Gonçalves (2012, p.44), “tem-se como fonte primária do Direito Privado a Constituição Federal, realçando apenas a necessária releitura do Código Civil e das leis especiais à luz da Constituição, redefinindo as categorias jurídicas civilistas a partir dos fundamentos principiológicos constitucionais”. 2 Da pessoa natural O conceito de personalidade está intrinsicamente ligado ao de pessoa. “Todo aquele que nasce com vida torna-se pessoa, ou seja, adquire personalidade. Esta é, portanto, qualidade ou atributo do ser humano” (GONÇALVES, 2012, p.92-93). Pode ser definida como aptidão genérica para adquirir direitos e contrair obrigações ou deveres na ordem civil. É pressuposto para inserção e atuação da pessoa na ordem jurídica. A personalidade é, portanto, o conceito básico da ordem jurídica, que estende a todos os homens, consagrando-a na legislação civil e nos direitos constitucionais de vida, liberdade e igualdade. Todavia, nemsempre foi assim. No direito romano o escravo era tratado como coisa, sem faculdades de ser titular de direitos. Na relação jurídica, a sua situação era de objeto, não de sujeito. “O reconhecimento hoje, dessa qualidade a todo ser humano, representa, pois, uma conquista a toda civilização jurídica” (GONÇALVES, 2012, p. 92), reconhecida pelo Código Civil de 2002, que estabelece no art. 1º que “toda pessoa” é capaz de direitos e deveres na ordem civil. 2.1 Conceito O Código Civil de 1916 prescrevia em seu artigo 2º que “Todo homem é capaz de direitos e obrigações na ordem civil”. A expressão ‘todo homem’ já era empregada em sentido amplo, garantindo a tutela da ordem jurídica a todos, independente de sexo, raça, cor, etnia ou nacionalidade. O título I do Livro I do Código Civil de 2002, concernente às pessoas, dispõe sobre as ‘pessoas naturais’, trazendo em seu artigo 1º uma redação distinta do artigo, que traz em sua redação que “Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”. Sendo assim, a partir das alterações feitas, tem-se que, conforme reconhece a doutrina geral, “pessoa natural é o termo utilizado para fazer referência ao ser humano, com todos os predicados que integram sua individualidade”. 2.2 Personalidade jurídica O artigo 2º do Código Civil prescreve: “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”. Conforme o exposto no referido dispositivo legal, tem-se o nascimento como o marco inicial da personalidade respeitando-se, porém, os direitos do nascituro. Lembrando-se que nascituro é aquele que foi concebido, mas ainda não nasceu. A respeito da situação jurídica do nascituro, existem três correntes doutrinárias: natalista, concepcionista e a da pesonalidade condicional. A teoria natalista, defendida por doutrinadores como Silvio Rodrigues, Caio Mário da Silva Pereira, Santiago Dantas, civilistas clássicos, sustenta que o nascituro não é pessoa humana, pois a personalidade começa do nascimento com vida. A teoria da personalidade condicional, que tem como expoentes Washington de Barros Monteiro, Serpa Lopes e Arnaldo Rzzardo, é muito semelhante à teoria natalista, defende que o nascituro é pessoa se nascer com vida. A teórica concepcionista, por outro lado, sustentada por Silmara Chinellato, Francisco Amaral, Maria Helena Diniz, Álvaro Villaça, Giselda Hinoraka, Pablo Stolze, Rodolfo Pamplona, Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald defende que o nascituro é pessoa humana, tendo direitos da personalidade desde a concepção. O posicionamento adotado recentemente pelo Superior Tribunal de Justiça (BRASIL, 2015), entende-se pela prevalência da teoria concepcionista. Não obstante, no mesmo sentido tem-se o Enunciado 1, aprovado na I Jornada de Direito Civil, que dispõe: “A proteção que o Código defere ao nascituro alcança o natimorto no que concerne aos direitos da personalidade, tais como: nome, imagem e sepultura”. 2.3 Capacidades e incapacidades: o sujeito do direito A personalidade e a capacidade se completam. De nada valeria a personalidade sem a capacidade jurídica que se ajusta assim ao conteúdo da personalidade, na mesma e certa medida em que a utilização do direito integra a ideia de ser alguém titular dele. No que tange a capacidade, tem-se um indivíduo pode ser considerado absolutamente incapaz, relativamente incapaz e capaz. Os absolutamente incapazes (art. 3º, CC) são os menores de dezesseis anos, sendo estes incapazes de exercer os atos da vida civil (BRASIL, 2015, on-line). Sendo assim, tem-se que os absolutamente incapazes devem ser representados, sob pena de nulidade absoluta do ato praticado (art. 166, I, CC). Já os relativamente incapazes, (artigo 4º, CC) são os maiores de 16 anos e menores de 18 anos, ébrios habituais e viciados tóxicos, pessoas que, por causa transitória ou definitiva, não puderem exprimir sua vontade e pródigos, que são aqueles que gastam de maneira destemperada seu patrimônio, podendo reduzi-los a penúria. Para os relativamente incapazes há o instituto da assistência, sob pena de nulidade relativa dos atos praticados (artigo 171, CC). 2.4 Emancipação A emancipação, é o Instituto pelo qual o direito declara um menor capaz. Conforme estabelece o artigo 5º do CC, a menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada a todos os atos da vida civil. No entanto, existem exceções, casos nas quais se cessa a incapacidade para menores, estes considerados então emancipados. Existem três tipos de emancipação. A legal, a voluntária e a judicial. A legal ocorre pelo casamento (a partir de 16 anos podem se casar os menores, mediante autorização dos pais), pelo exercício de emprego público efetivo, pela colação de grau em curso de ensino superior, pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria. Além disso, tem-se a emancipação voluntária, que ocorre pela concessão dos pais, que deverá ser feita mediante instrumento público. Tem-se também a emancipação judicial, que ocorre pela sentença do juiz, sendo ouvido o tutor e se o menor tiver dezesseis anos completos É importante ressalvar que o emancipado continua menor, mas passa a ser um menor capaz. Com a emancipação se tem a antecipação dos efeitos da maioridade para data anterior aos 18 anos, somente para efeitos civis. 2.5 Domicílio e residência Conforme determina o artigo 70 do Código Civil, o domicílio da pessoa natural é o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo. Percebem-se, então, dois elementos importantes na definição de domicílio: um material/objetivo, que é a residência, e outro psíquico/subjetivo, que é a vontade de permanecer, ou, como colocado no Código Civil, ânimo definitivo. Na doutrina brasileira, o aspecto psíquico faz da residência um domicílio. “No entanto, resta a dúvida, o que é considerado como ‘residência’? Residência é um elemento componente do conceito de domicílio, constituindo apenas estado de fato, corresponde a radicação de um indivíduo em um determinado lugar” (GONÇALVES, 2012, p. 154). Uma pessoa pode ter só um domicílio e mais de uma residência e é possível também que se tenha mais de um domicílio. O Código Civil de 2002 aceita o princípio da pluralidade de domicílios, conforme estabelece o artigo 71 do CC, retomando a tradição romana. A justificativa para esse princípio é o fato de que não há nenhuma impossibilidade material em que uma pessoa se desdobre por mais de uma residência e mais de um centro de atividades. Além disso, o Código Civil de 2002 introduziu o conceito de domicílio profissional, exposto no artigo 72, associando o conceito de residência definitiva com o centro de interesses. O CC também aceita que uma pessoa não tenha domicílio certo. Consoante com o artigo 73, aquele que não possui residência habitual ou empregue a vida em viagens, sem ponto central de negócios, terá́ por domicílio o lugar onde for encontrado. Existe, também, a possibilidade de mudança do domicílio, que pode ser voluntária (efetuada com arbítrio próprio) ou compulsória (decorre de imposição legal). No caso da mudança voluntária, o artigo 74 do CC traz dois requisitos: objetivo (transferência material) e subjetivo (comunicação às autoridades). 2.6 Ausência O instituto da ausência está exposto no artigo 22 do CC, que ocorre quando a pessoa desaparece fora do domicílio, sem deixar representação. Desaparecendo uma pessoa do seu domicílio sem dela haver notícia, se não houver deixado representante ou procurador a quem caiba administrar-lhe os bens, o juiz, a requerimento de qualquer interessado ou do Ministério Público, declarará a ausência, e nomear-lhe-á curador (BRASIL, 2002). #PraCegoVer: na imagem, vemos o funcionamento do instituto da ausência, que está representado por uma linha do tempo. Acima dessa linha do tempo, há o título "Sentença: após 180 dias da publicação", que descreve as fases do instituto de ausência. Na primeirafase, chamada curadoria, ocorre, a partir do desaparecimento da pessoa, a nomeação de um curador, que passa a tomar as providências para administrar os bens de quem representa. Depois que o nome do curador é publicado em edital, tem-se até três anos para que o ausente em questão reapareça. Caso isso não aconteça, acontece a posse de bens aos herdeiros do ausente, que são representados pelo curador. Esse representante é quem passa, a partir de então, a administrar esses bens - esta fase, conforme a imagem, é chamada de sucessão provisória. Dá-se início, então, à terceira fase, chamada sucessão definitiva, que acontece quando passam dez anos da posse dos bens pelos herdeiros. O ausente, conforme consta na linha do tempo, tem até dez anos para voltar e recuperar seus bens. A primeira fase baseia-se na ação de qualquer interessado (cônjuge ou companheiro, pais e descendentes) de requerer a ausência perante a um juiz, nomeando-se curador. Com a nomeação do curador, este passará a tomar todas as providências para administrar os bens de quem representa. A curatela do ausente acontece em três fases: caracterização da ausência, sucessão provisória e sucessão definitiva. Após a nomeação do curador, o nome do ausente é publicado em edital e, passado um ano da publicação sem que se saiba do ausente, e não tendo comparecido seu procurador ou representante no prazo de três anos, poderão os interessados (BRASIL, 2012, on-line), conforme estabelece o artigo 26, do CC, requerer que se abra provisoriamente a sucessão, dando início à segunda etapa do processo. A sentença que determinar a abertura da sucessão provisória somente produzirá efeito 180 dias após a publicação. O sucessor provisório difere do curador por administrar bens que no futuro serão seus. Aos cônjuges, descendentes e ascendentes cabem os frutos e rendimentos dos bens. Os demais sucessores provisórios devem capitalizar, em benefício do ausente, metade deles. Caso o ausente reapareça, cessam os privilegio do sucessor provisório. No caso do requerimento de ausência pelo MP, passado o prazo legal, sem que apareça qualquer interessado na sucessão, o MP promoverá a citação por edital dos possíveis herdeiros interessados. No caso da ausência destes, será nomeado curador e, em 10 anos, serão os bens incorporados ao Município, Distrito Federal, ou União. Decorridos dez anos do trânsito em julgado, ou quando o ausente completar 80 anos (se de cinco anos datam suas últimas notícias), os interessados podem requerer a sucessão definitiva, conforme estabelece os artigos 37 e 38 do CC, dando início à terceira fase do processo. Deferida a sucessão definitiva, os sucessores dispõem, livremente, dos bens recebidos. Caso esse sujeito volte antes de passados dez anos da abertura da sucessão definitiva, ele só recebe de volta o que for possível, vide artigo 39 do CC. Os herdeiros, neste caso, não deverão se desfazer de suas aquisições. Caso ele volte depois de vencido o prazo, não terá direito a nada. 2.7 Registro Civil, morte e ausência Conforme estabelece o artigo 6º do CC, a morte gera o fim da personalidade jurídica, salvo os direitos da personalidade do morto e o direito à imagem. A morte pode ser classificada como morte real ou morte presumida. A morte real é aquela considerada com o “corpo presente”, a morte é cerebral e não a coronária. Conforme alteração trazida pela Lei 13.484/17, o laudo médico tornou-se dispensável para o atestado de óbito. Já a morte presumida é aquela “sem corpo presente”, é uma dedução lógica feita pela lei ou pelo aplicador do direito, que parte de um fato conhecido para chegar no desconhecido. A morte presumida pode ocorrer sem declaração de ausência, como já exposto ou com a declaração de ausência. Conforme estabelece o artigo 7º do CC, poderá ser declarada a morte presumida sem declaração de ausência, caso se tenha o desaparecimento da pessoa, sendo extremamente provável a sua morte, pois estava em perigo de vida (exemplo: acidentes, desastres, catástrofes, inundações) ou caso, alguém desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra. É importante ressaltar também que a morte pode acontecer em momento certo ou incerto. Pequenas diferenças, nesse caso, são irrelevantes para o direito. Há um problema, porém, quando há incerteza em relação ao momento da morte de duas ou mais pessoas com vínculos sucessórios, dado que os direitos de sucessão são executados de forma diferente. Pai morre um minuto antes do filho: nesse caso, o filho se torna herdeiro instantaneamente e depois, toda a herança do filho (inclusive acrescida pela herança do pai) é transferida para seus herdeiros (filhos e/ou cônjuges). Caso ocorra o contrário, ou seja, caso o filho morra antes do pai, sua herança é toda transferida para o cônjuge; o pai não recebe nada. Quando o pai morre, o filho não existe mais, e a herança é transferida para o avô. No caso de incerteza do momento de morte nesses casos, o CC Brasileiro adota a teoria da Comoriência, ou seja, presume-se que ambos morreram ao mesmo tempo, conforme estabelece o artigo 8º do CC. Sendo a morte real ou presumida, deverá ser registrada no registro civil de pessoas naturais o óbito, conforme determina o artigo 29 da Lei de Registros Públicos. O artigo 4º, inciso III, do CC, determina que são relativamente incapazes pessoas que, por causa transitória ou definitiva, não puderem exprimir sua vontade. Nesse caso, tem-se um problema quando se trata de pessoas em coma profundo ou em estado vegetativo, pois ambas são relativamente incapazes. O PL 757/2015 visa solucionar esta questão. É ISSO AÍ! Nesta unidade, você teve a oportunidade de: · aprender que as fontes do direito civil se dividem em fontes formais e não formais. As fontes formais primárias são as normas jurídicas e as secundárias são aquelas aplicadas na falta da lei, quando a lei for omissa ou existir uma lacuna normativa; · compreender que as fontes não formais são: doutrina, jurisprudência, analogias, costumes e princípios gerais; · conhecer que o Direito Civil é, pois, o ramo do Direito Privado destinado a reger relações familiares, patrimoniais e obrigacionais; · identificar que os princípios basilares que norteiam o Direito Civil são: personalidade, autonomia da vontade, liberdade de estipulação negociar, propriedade individual, intangibilidade familiar, legitimidade da herança e do direito de testar e solidariedade social; · entender que a expressão “constitucionalização do Direito Privado” é comumente utilizada pelo fato de importantes institutos do direito privado como a propriedade, a família e o contrato, terem, hoje, as suas vigas mestras assentadas na Constituição Federal; · estudar que a personalidade é pressuposto para inserção e atuação da pessoa na ordem jurídica; · descobrir que a pessoa natural é o termo utilizado para fazer referência ao ser humano, com todos os predicados que integram sua individualidade; · conhecer que a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro; · aprender que os absolutamente incapazes são os menores de dezesseis anos, sendo estes incapazes de exercer os atos da vida civil; · conhecer que os relativamente incapazes são os maiores de 16 anos e menores de 18 anos, ébrios habituais, viciados tóxicos, pessoas que, por causa transitória ou definitiva, não puderem exprimir sua vontade e pródigos, que são aqueles que gastam de maneira destemperada seu patrimônio, podendo reduzi-los à penúria; · estudar que a emancipação, é o Instituto pelo qual o direito declara um menor capaz; · compreender que ausência se caracteriza quando uma pessoa desaparece do seu domicilio, sem deixar representação. A curatela do ausente acontece em três fases: caracterização da ausência, sucessão provisória e sucessão definitiva; · assimilar que a morte gera o fim da personalidade jurídica, podendo ser presumida ou real. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasilde 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Decreto-lei 4.657, de 4 de setembro de 1942. Lei de Introdução às normas de Direito Brasileiro. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del4657compilado.htm. Acesso em: 02 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 13.484, de 26 de setembro de 2017. Altera a Lei 6.015, de 31 de dezembro de 1973, que dispõe sobre os registros públicos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13484.htm. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 13.146, 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da pessoa com deficiência). 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Lei n. 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6015consolidado.htm. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 4.121, de agosto de 1962. Dispões sobre a situação jurídica da mulher casada. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1950-1969/L4121.htm. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Projeto de Lei do Senado 757, de 2015. Autoria: senador Antonio Carlos Valadares (PSB/SE), senador Paulo Paim (PT/RS) e outros. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124251. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 399028 SP 2001/0147319-0. Recorrente: Antônio Nival Leonidas e outros. Recorrido: Companhia Brasileira de Trens Urbanos CBTU. Relator: Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, Brasília, 26 fev. 2002, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJ 15.04.2002 p. 232 RSTJ v. 161 p. 395 RT v. 803 p. 193; STJ - AgRg no AgRg no AREsp: 150297 DF 2012/0041902-2, Relator: Ministro Sidnei Beneti, 19 fev. 2013, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 7 maio 2013; STJ - REsp: 1.487.089 - SP (2014/0199523-6), Relator: Ministro Marco Buzzi- QUARTA TURMA, julgado em 23 jun. 2015. DJe 28 out. 2015. DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral do Direito Civil. 29 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. FARIAS, C. C.; ROSENVALD, N. Direito civil: teoria geral. Rio de Janeiro: Lumen Juris Ltda, 2011. GONÇALVES, C. A. Direito Civil Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2012. LOPES, M. M. S. Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1995. MAZEAUD, H. E. L. et al. Leçons de droit civil. Paris: Montchrestien, 1994. PEREIRA, C. M. S. Instituições de direito civil, v. 1. São Paulo: Forense, 2018. VALADÃO, H. 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