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Sociolingüística – Linguagem e sociedade
Peter Trudgill
Todo mundo sabe o que se supõe que acontece quando dois ingleses que nunca se viram antes se encontram um diante do outro numa cabine de um trem: começam a falar do tempo. Em alguns casos, pode ser que isso aconteça simplesmente porque eles acham esse assunto interessante. Poucas pessoas, no entanto, estão interessadas na análise das condições climáticas, de modo que deve haver outras razões para conversas desse tipo. Uma explicação é que pode ser que seja muito embaraçoso estar só na companhia de alguém com quem nunca se esteve e não falar. Se ninguém conversa, a atmosfera pode tornar-se muito pesada. E, falando com a outra pessoa sobre algum assunto neutro como o tempo, é possível estabelecer uma relação com ela sem realmente ter que falar muito. Conversas desse tipo – e elas ocorrem, embora, claro, não sejam tão freqüentes como o mito popular supõe, são um bom exemplo da importante função social que é muitas vezes realizada pela linguagem. A linguagem não é simplesmente meio de comunicar informações – sobre tempo ou sobre outro assunto qualquer. É também um meio muito importante de estabelecer e manter relações com outras pessoas, Provavelmente, a coisa mais importante na conversa de nossos dois ingleses não são as palavras que estão usando, mas o fato de estarem falando.
Há ainda uma segunda explicação. É perfeitamente possível que o primeiro inglês, provavelmente de forma inconsciente, gostasse de saber algumas coisas a respeito do segundo – por exemplo, que tipo de coisas ele faz e que posição social ele tem. Sem esse tipo de informação, ele não estará seguro de como, exatamente, comportar-se. Ele pode, é claro, imaginar coisas inteligentes a partir da observação da roupa que o outro usa e de outros aspectos visuais, mas dificilmente pode lhe fazer perguntas diretas sobre seu background social, pelo menos neste estágio de relacionamento. O que ele pode fazer é engajá-lo numa conversa. Estará, então, em condições de descobrir muito facilmente algumas coisas sobre a outra pessoa. Aprenderá estas coisas não tanto a partir do que o outro fala, mas especialmente a partir de como ele fala, porque, quando falamos, não podemos evitar de dar a nossos ouvintes indicações sobre nossas origens e o tipo de pessoas que somos. Nosso sotaque e nossa fala geralmente mostram de que parte no país viemos, que tipo de passado temos. Podemos também fornecer certas indicações sobre nossas idéias e atitudes, e toda essa informação pode ser usada pela pessoa com quem conversamos para ajudá-la a formar uma opinião sobre nós.
Esses dois aspectos do comportamento lingüístico são muito importantes de um ponto de vista social: primeiro, a função da língua em estabelecer relações sociais e, segundo, o papel da língua em fornecer informações sobre o falante. Concentrar-nos-emos por enquanto no segundo tópico, mas é claro que ambos esses aspectos do comportamento lingüístico são reflexos do fato de que há uma estreita inter-relação entre língua e sociedade.
Para procurar os indícios de seu companheiro, nosso inglês está se utilizando do fato de que pessoas com background social geográfico diferente usam diferentes tipos de linguagem. Se o segundo inglês, por exemplo, vem de Norfolk, usará provavelmente um tipo de língua usada pelas pessoas dessa região. Se ele for também um negociante de classe média, usará o tipo de língua associada a homens desse tipo. "Tipos de língua" dessa espécie são freqüentemente chamados de dialetos, sendo o primeiro, nesse caso, um dialeto regional e o segundo, um dialeto social. O termo dialeto é familiar e muitas pessoas pensam que têm uma boa idéia do problema quando o ouvem. De fato, no entanto, não é um termo particularmente fácil de definir – e isso acontece também com os outros dois termos comumente utilizados já mencionados: língua e sotaque.
Vamos fixar nossa atenção, agora, nos termos dialeto e língua. Nenhum representa um conceito particularmente claro ou cristalino. No que se refere a dialeto, por exemplo, é possível falar do "dialeto de Norfolk" ou do "dialeto de Suffolk". Por outro lado, pode-se também falar de mais de um "dialeto do Norfolk" – 'Norfolk do Leste' ou 'Norfolk do Sul', por exemplo. A distinção entre "dialeto de Norfolk" ou "dialeto de Suffolk" também não é tão clara como alguns poderiam pensar. Se se viaja de Norfolk a Suffolk, investigando os dialetos rurais conservadores, à medida que se viaja, descobrir-se-á, pelo menos e em alguns pontos, que as características lingüísticas desses dialetos mudam gradualmente de um lugar para outro. Não há distinção lingüística clara entre os dialetos de Norfolk e Suffolk. Não é possível estabelecer em termos lingüísticos onde a pessoa pára de falar o dialeto de Norfolk e começa a falar Suffolk. Se escolhermos situar a linha divisória entre os dois no limite geográfico, estaremos baseando nossa decisão em fatos sociais (nesse caso, de política e governos locais ) mais do que em fatos lingüísticos.
O mesmo tipo de problema aparece com o termo língua. Por exemplo, holandês e alemão são conhecidos como duas línguas diferentes. Contudo, em alguns lugares ao longo da fronteira Holanda-Alemanha, os dialetos falados em qualquer lugar dos lados da fronteira são extremamente semelhantes. Se se decide dizer que as pessoas de um lado da fronteira falam alemão e as do outro lado, holandês, a escolha é de novo baseada em fatores políticos e sociais ao invés de lingüísticos. Esta questão é ainda realçada pelo fato de que a capacidade de entender-se dos falantes dos dois lados da fronteira é freqüentemente muito maior que a dos falantes alemães dessa área de entender falantes de outros dialetos alemães de partes distantes da Áustria e da Suíça. Então, tentando decidir que língua alguém fala, podemos dizer que, se dois falantes não conseguem se entender, falam línguas diferentes. De modo semelhante, se conseguem entender-se, podemos dizer que estão falando dialetos de uma mesma língua. Claramente, no entanto, isso levaria a alguns resultados estranhos no caso do holandês e do alemão, e também em muitos outros.
O critério da inteligibilidade mútua e outros critérios puramente lingüísticos são, portanto, de menor importância no uso dos termos língua e dialeto do que os fatores políticos e culturais, dos quais os mais importantes são a autonomia e a heteronomia. Podemos dizer que o holandês e o alemão são autônomos, dado que ambos são variedades de língua independentes, padronizadas, com vida própria. Por outro lado, os dialetos não padrões da Alemanha, Áustria, e Suíça alemã são todos heterônomos em relação ao alemão padrão, a despeito do fato de poderem ser muito diferentes entre si e alguns deles poderem ser muito semelhantes a dialetos do holandês. Isso porque os falantes desses dialetos do alemão vêem o alemão como sua língua padrão, escrevem e lêem em alemão e ouvem alemão no rádio e na TV. Falantes dos dois dialetos do lado holandês, da mesma forma, lerão jornais e escreverão cartas em holandês, e qualquer mudança padronizada que ocorra em seus dialetos será na direção do holandês padrão e não do alemão padrão.
Um caso mais extremo que ilustra a natureza sócio-política desses termos pode ser tomado da Escandinávia. Norueguês, sueco e dinamarquês são todas línguas autônomas, padronizadas, que correspondem a três países. Falantes educados das três, contudo, podem comunicar-se livremente entre si. Mas, a despeito dessa mútua inteligibilidade, não faria sentido dizer que o norueguês, o sueco e o dinamarquês são realmente a mesma língua. Isso constituiria uma contradição direta com os fatos políticos e culturais.
Essa discussão da dificuldade de usar critérios puramente lingüísticos para dividir variedades de língua distintas ou dialetos é nosso primeiro encontro com um problema muito comum no estudo de linguagem e sociedade – o problema da separação ou continuidade, o problema de saber se a divisão dos fenômenoslingüísticos e sociais em entidades separadas tem alguma base na realidade ou se é meramente uma ficção conveniente. É bom dizer-se que este é um problema, porque termos como cockney, sotaque de Yorkshire, dialeto negro, brooklinês, são freqüentemente utilizados como se fossem evidentes por si mesmos, contivessem variedades discretas com características bem definidas, óbvias. É freqüentemente conveniente falar como se esse fosse o caso, mas seria sempre bom lembrar que o verdadeiro quadro pode muito bem ser consideravelmente mais complexo do que isso. Podemos falar, por exemplo, em inglês canadense e de inglês americano, como se fossem duas entidades claramente distintas, mas é de fato muito difícil encontrar um só traço lingüístico que seja comum a todas as variedades do inglês do Canadá e que não esteja presente em alguma variedade do inglês americano.
Se voltarmos a fatos puramente lingüísticos, uma outra distinção é necessária. O termo dialeto refere-se, estritamente falando, a diferenças entre tipos de língua que são diferenças de vocabulário, gramática e pronúncia. O termo sotaque, por outro lado, refere-se somente a diferenças de pronúncia. É muito importante, freqüentemente, distinguir entre os dois, claramente. Isto é particularmente verdadeiro, no contexto do inglês, no caso do dialeto chamado inglês padrão. Em muitos aspectos importantes, esse dialeto é diferente dos outros dialetos do inglês e algumas pessoas podem surpreender-se em ver o inglês padrão chamado de dialeto. No entanto, na medida em que difere gramatical e lexicalmente de outras variedades do inglês, é legítimo considerá-lo um dialeto: O termo dialeto pode ser usado para aplicar-se a todas as variedades, não só às não-padrões (observe-se que estaremos empregando variedade como termo neutro para aplicá-lo a qualquer tipo de língua sobre o qual queremos falar sem nos definirmos).
O inglês padrão é uma variedade do inglês que é normalmente usada na imprensa e que é normalmente ensinada nas escolas e a falantes não nativos. É também a variedade normalmente falada por pessoas educadas e usada em programas de rádio e outras situações semelhantes. A diferença entre padrão e não-padrão não tem a ver, em princípio, com diferenças entre linguagem coloquial e formal, ou com conceitos como “má linguagem”. O inglês padrão tem variedades formais e não-formais e os falantes do inglês padrão praguejam tanto quanto os outros. ( ... ) Historicamente falando, a língua padrão se desenvolveu a partir dos dialetos do inglês falados e em torno de Londres na medida em que eles foram modificados através dos séculos por falantes da corte, por professores de universidades e outros escritores e, mais tarde, pelas escolas públicas. Com o passar do tempo, o inglês falado nas classes superiores da sociedade da capital começou a diferenciar-se muito marcadamente do usado por outros grupos sociais e começou a ser considerado modelo para todos que quisessem falar e escrever bem. Quando a imprensa cresceu, esta foi inevitavelmente a forma do inglês mais amplamente usada em livros e, embora tenha sofrido mudanças, sempre manteve o caráter de forma mais aceita da língua inglesa.
No inglês padrão há um pequeno número de diferenças regionais que tendem a chamar a atenção. O inglês padrão da Escócia não é exatamente o mesmo inglês padrão da Inglaterra, por exemplo, e o inglês padrão dos Estados Unidos é também um pouco diferente. As diferenças incluem alguns itens lexicais bem conhecidos, como o inglês lift, o americano elevator e alguns detalhes gramaticais:
	britânico: I have got.		inglês: It needs washing.
	americano: I have gotten.	escocês: It needs washed.
Há também algumas outras variações associadas a pequenas regiões como, por exemplo, partes do norte e do centro da Inglaterra, por oposição ao sul:
		norte: You need your hair cutting.
		sul: You need your hair cut.
Sem entrar em detalhes, contudo, pode-se dizer que o inglês padrão tem uma gramática e um vocabulário amplamente aceitos e codificados. Há um consenso geral, entre pessoas educadas, e em particular entre os que detêm posições de poder e influência, sobre o que não é inglês padrão. O inglês padrão é, enquanto tal, imposto de cima sobre os dialetos regionais e por isso pode ser chamado de variedade superposta da língua.
Esse consenso geral, contudo, não se aplica à pronúncia. Não há um sotaque padrão universalmente reconhecido para o inglês, e é, pelo menos em teoria, possível falar inglês padrão com qualquer sotaque regional ou social (na prática, há alguns sotaques muito localizados, associados a grupos que tiveram relativamente pouca educação, que não ocorrem com freqüência no inglês padrão, mas não há nenhuma conexão necessária entre inglês padrão e qualquer sotaque ou sotaques particulares). Há também um sotaque que só ocorre com inglês padrão. É o sotaque British English ou, mais apropriadamente, o sotaque British British, que é conhecido pelos lingüístas como RP (Received Pronunciation). É o sotaque que se desenvolveu largamente nas escolas públicas da Inglaterra e que era até recentemente exigido de todos os locutores da BBC. É coloquialmente conhecido sob vários nomes, como 'Oxford English' e 'BBC English' e é ainda o sotaque ensinado a falantes não nativos que estejam aprendendo a pronúncia inglesa.
(...........................................................)
Porque a língua, como um fenômeno social, está estreitamente ligada à estrutura social e aos sistemas de valor da sociedade, diferentes dialetos e sotaques são avaliados de forma diferente. O inglês padrão, por exemplo, tem muito mais status e prestígio que qualquer outro dialeto do inglês. É um dialeto que é altamente valorizado por muitas pessoas, e certos benefícios sociais, econômicos e políticos tendem a ser atribuídos aos que o falam ou escrevem. O sotaque RP também tem um prestígio muito grande, como alguns sotaques americanos. De fato, a "sabedoria convencional" de muitas comunidades de falantes do inglês vai muito além disso. O inglês padrão e os sotaques de prestígio têm tanto status que são geralmente considerados corretos, bonitos, finos, puros, etc. Outras variedades não padrões são freqüentemente tidas como erradas, feias, corruptas ou desleixadas. O inglês padrão, além disso, é freqüentemente considerado a língua inglesa, o que inevitavelmente leva à idéia de que outras variedades do inglês são algum tipo de desvio da norma. Desvio devido à indolência, à ignorância ou à falta de inteligência. Desta forma, milhões de pessoas que têm o inglês com língua materna são persuadidas de que não 'sabem' falar inglês.
	O fato é, na verdade, que o inglês padrão é apenas uma variedade do inglês entre muitas, embora uma variedade particularmente importante. Falando de um ponto de vista lingüístico, ele não pode ser considerado legitimamente melhor que as outras variedades. O estudo científico das línguas convenceu a maioria dos estudiosos de que todas as línguas e, correspondentemente, todos os dialetos são igualmente bons como sistemas lingüísticos. Todas as variedades de uma língua são sistemas estruturados, complexos e governados por regras que são totalmente adequadas às necessidades de seus falantes. Segue-se que esses juízos de valor relativos à correção e à pureza das variedades lingüísticas são sociais mais do que lingüísticos. Não há nada inerente às variedades lingüisticas não padrões que as faça inferiores. Qualquer variedade aparente é devida somente à sua associação com falantes de grupos não privilegiados, de status baixo. Em outras palavras, atitudes em relação a dialetos não padrões são atitudes que refletem a estrutura social de uma sociedade. Da mesma forma, valores sociais podem também ser refletidos em juízos relativos a variedades lingüísticas. Por exemplo, é muito comum que o inglês fortemente urbanizado, marcado por sotaques rurais, como os de Devonshire, Northumberland ou o Scotish Highlands, ser considerado agradável, charmoso.bonito ou divertido. Sotaques urbanos, por outro lado, como os de Birmigham, Newcastle ou Londres, são freqüentemente tidos como por feios, descuidados ou desagradáveis. Este tipo de atitude diante da fala rural não é tão difundido nos Estados Unidos, e esta diferença pode muito bem refletir a diferença de avaliação da vida rural nos dois países.
	O exemplo seguinte ilustra em que extensão os juízos relativos à correção e à pureza das variedades e dos traços lingüísticos são mais sociais que lingüísticos. Todos os sotaques do inglês têm um som / r / em palavras como rat e rich e muitas têm um / r / em carry, sorry. Por outro lado, há alguns sotaques que não têm / r / algum em palavras como cart e car. Estas palavras tiveram outrora um som / r /, como a escrita mostra, mas nesses sotaques o /r/ se perdeu, exceto quando ocorre antes de uma vogal. O /r/ em outros contextos – no fim de uma palavra (car) ou diante de uma consoante (cart) – pode ser chamado 'pós-vocálico' (Este termo não é muito exato, dado que de fato significa "/r/ depois de vogal", que também se aplica a carry, mas seu uso é difundido e continuaremos a mantê-lo aqui.). Sotaques que não têm /r/ pós-vocálico são alguns dos Estados Unidos e Índias Ocidentais, muitos da Inglaterra, Gales e Nova Zelândia e todos os da Austrália e África do Sul. Nesses sotaques, palavras como ma e mar são pronunciadas exatamente da mesma maneira. Mas, se compararmos os sotaques da Inglaterra e dos Estados Unidos em relação a esse traço, dá-se um fato surpreendente. Na Inglaterra, se as demais coisas forem iguais, sotaques sem / r / pós vocálico, têm mais status e são considerados mais 'corretos' que sotaques com o tal / r /. RP, o sotaque de prestígio, não tem esse /r/, e o /r/ pós-vocálico é freqüentemente usado em rádio, televisão e teatro para indicar característica rural, não educada, ou ambas. É freqüentemente empregado para produzir efeito cômico em séries de comédia radiofônica. Por outro lado, embora a situação nos Estados Unidos seja mais complexa, há partes do país em que se dá exatamente o contrário. Em Nova York, se as demais coisas forem iguais, sotaques com /r/ pós-vocálico têm mais prestígio e são considerados mais 'corretos' que os sem. A pronúncia de palavras car e cart sem esse/r/ é socialmente estigmatizada e, em geral, quanto mais alto na escala social estiver o falante, mais /r/ pós-vocálico ele usa. Em cidades inglesas onde os dois tipos de pronúncia são ouvidos, como Bristol e Reading, esse padrão é completamente inverso. Em outras palavras, juízos de valor sobre língua são, do ponto de vista lingüístico, completamente arbitrários. Não há nada inerente ao /r/ pós-vocálico que seja bom ou ruim, correto ou errado, sofisticado ou inculto. Juízos desse tipo são juízos sociais baseados em conotações sociais que um traço particular tem na área em questão.
	O fato de que isso seja assim, no entanto, não significa que o lingüista não reconheça que a sociedade avalia variedades lingüísticas diferentes de maneiras diferentes. Descrições lingüísticas observam a adequação (em vez de 'correção') das variedades a diferentes contextos e programas de ensino de língua estrangeira são normalmente desenvolvidos para ensinar ao aluno a variedade padrão de uma língua. Ao mesmo tempo, um número crescente de lingüistas está sugerindo que o tipo de atitude discutido acima pode em alguns casos ser pernicioso. Por exemplo, pode haver conseqüências sócio-psicológicas e pedagógicas indesejáveis se professores envolvidos no ensino de inglês padrão a falantes de variedades não nativas parecerem hostis diante da fala dos alunos.
	Os lingüistas prestam atenção às atitudes subjetivas diante da língua por outras razões. Elas são importantes, por exemplo, no estudo da mudança lingüística e podem freqüentemente ajudar a explicar porque um dialeto muda e quando muda. Uma pesquisa recente da fala de Nova York mostrou que desde a Segunda Guerra o / r / pós-vocálico cresceu muito na cidade na fala da classe média alta. O ímpeto para essa mudança pode ter vindo do afluxo à cidade, durante a guerra, de muitos falantes de áreas onde o / r / pós-vocálico era um traço padrão ou de prestígio, mas a mudança é devida mais claramente a uma modificação observada em atitudes subjetivas diante de pronúncias desse tipo por parte de todos os falantes de Nova York. Durante a pesquisa foram realizados testes sobre as atitudes subjetivas dos falantes para ver se eles reagiam ao / r / pós-vocálico como um traço de prestígio. ( ... ) Pôde-se ver que, para falantes de mais de 40 anos, houve um crescimento na avaliação favorável do / r / pós-vocálico. Houve, correspondentemente, um crescimento ainda maior desse / r / entre falantes mais jovens. Outra evidência sugere que a mudança nas atitudes subjetivas foi a causa, mais que a conseqüência, da mudança. A mudança nas atitudes subjetivas, então, levou a uma mudança nos padrões de fala, embora tenha sido de fato a classe média alta que fez uma mudança significativa em sua fala.
	Atitudes subjetivas diante de formas lingüísticas não têm sempre esse tipo de efeito. O exemplo ilustra que, se uma certa pronúncia vem a ser vista como um traço de prestígio numa comunidade particular, então ela tende a ser exagerada. Esse tipo de processo também pode ter lugar na direção oposta. Em Martha's Vineyard, outrora uma ilha relativamente isolada na costa da Nova Inglaterra, mudanças sociais dramáticas tiveram lugar como resultado de um número crescente de veranistas que iam para a ilha nos meses de verão. Essas mudanças sociais tiveram conseqüências lingüísticas. Pesquisas mostraram que o som vocal de palavras como house, mouth, loud têm dois tipos diferentes de pronúncia na ilha (o mesmo se dá com a pronúncia de palavras como ride e right). Uma é a pronúncia de baixo prestígio, fora de moda, típica da ilha, aproximadamente |h(us| , com o primeiro elemento do ditongo parecido com a vogal de shirt ou a primeira vogal de about |(b(ut|. A segunda pronúncia é mais recente na ilha, e parece mais próxima da vogal encontrada em RP e em alguns sotaques de prestígio no centro americano: |haus|, |(baut| . Bastante estranhamente, o trabalho realizado durante mais ou menos a década passada, mostrou que a forma ‘fora de moda’ parece estar em crescimento. A pronúncia |(u| está se tornando exagerada e está ocorrendo mais freqüentemente na fala de mais pessoas. Observou-se que esta mudança lingüística é devida às atitudes subjetivas que os falantes têm em relação a essa forma lingüística. Os nativos da ilha acabaram por se ressentir da invasão em massa de fora e da mudança e exploração econômica que vieram com ela. Assim, aquelas pessoas que mais estreitamente se identificavam com o modo de vida da ilha começaram a exagerar a pronúncia típica da ilha para assinalar sua identidade social e cultural separada e para sublinhar sua crença nos velhos valores. Isso significa que a pronúncia 'fora de moda' é de fato dominante em porções de comunidade mais jovem. A tendência é mais marcada entre as pessoas jovens que saíram para trabalhar no continente e voltaram, tendo rejeitado o modo de vida do continente. Este processo é até certo ponto consciente no sentido de que os falantes sabem que o sotaque da ilha é diferente, mas a consciência não chega ao reconhecimento da significação do próprio ditongo. Inconscientemente, contudo, os falantes sabem da significação social de sua pronúncia e suas atitudes diante dela são favoráveis por causa de suas atitudes sociais. Em outras palavras, a mudança lingüística nem sempre tem lugar na direção da norma de prestígio. Ao contrário, todos os tipos de outras atitudes diante da língua devem ser tomados em consideração. A língua pode ser um fator muito importante na identificação de um grupo, na solidariedade do grupo, e para assinalar uma diferença e, quando o grupo está sob ataque de fora, sinais de diferença podem tornar-se mais importantes e por isso são exagerados.
	No capítulo seguinte examinaremos algumas complexas interrelaçõesentre língua e sociedade, das quais as atitudes subjetivas são apenas uma faceta. As interrelações tomam várias formas. Em muitos casos, estaremos tratando com a co-variação de fenômenos lingüísticos e sociais. Em alguns casos, contudo, faz muito sentido considerar que a relação é unidirecional – a influência da sociedade na língua ou vice-versa. Podemos começar com um exemplo dessa relação unidirecional que supostamente envolve o efeito da língua sobre a sociedade. Há um ponto de vista, desenvolvido de várias formas por diferentes lingüistas, que é freqüentemente chamado de 'hipótese Sapir-Whorf', depois dos dois lingüistas, Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, com cujos nomes é mais freqüentemente associada. A hipótese, aproximadamente, é a que a língua nativa do falante estabelece uma série de categorias que agem como um tipo de grade da qual ele categoriza e conceptualiza diferentes fenômenos. Uma língua pode afetar uma sociedade, influenciando ou mesmo controlando a visão de mundo de seus falantes. Muitas línguas de origem européia são muito semelhantes a esse respeito, presumivelmente por causa de sua relação genética comum e o longo contacto cultural entre elas; as visões de mundo de seus falantes e de suas sociedades são, talvez por esta razão, não absolutamente distintas. Se, portanto, diferenças lingüísticas podem produzir diferenças cognitivas, teremos que demonstrar isso por uma comparação de conjuntos de línguas muito diferentes, culturalmente separadas.
	As línguas européias, por exemplo, usam o tempo. Seu uso não é idêntico, mas normalmente, não é muito difícil de traduzir, por exemplo, uma forma inglesa em sua equivalente francesa ou alemã. Algumas línguas americanas, por outro lado, não têm tempo, pelo menos não como nós os conhecemos. Elas conseguem, no entanto, distinguir, em suas formas verbais, entre diferentes tipos de atividades que os falantes europeus teriam de indicar de uma forma muito mais circunloquial. Formas verbais, por exemplo, podem ser diferenciadas segundo o falante está narrando uma situação ou esperando-a, e segundo uma duração, intensidade do evento, ou outras características. Não seria surpresa, portanto, se a visão de mundo de um povo cuja língua 'não tem tempos' fosse muito diferente da nossa: seu conceito de tempo, e talvez mesmo de causa e efeito, poderia ser um pouco diferente.
	Um exemplo mais detalhado poderia esclarecer a situação. Considerem-se as quatro sentenças do inglês:
1. I see that it is new.		3. I hear that is new.
2. I see that it is red.		4. I hear that is red.
Cada uma consiste de duas partes conectadas pela palavra that. Em hopi, língua indígena americana – uma das que levaram Whorf a formular sua hipótese – a situação é muito diferente. O equivalente da sentença 1 em hopi tem uma palavra that; o da sentença 2 tem outra e os das sentenças 3 e 4 utilizam ainda outra. Por que isso é assim? Nossa língua nativa, porque afeta a forma como pensamos, pode fazer com que nos seja difícil entender a razão da distinção em hopi. Nossa visão de mundo, devida a nossa língua nativa, não nos permite entender logo uma distinção que qualquer hopi faz automaticamente. De fato, as diferentes palavras hopi para that são usadas porque três tipos de "apresentação à consciência" estão envolvidos. Na sentença 1, a novidade do objeto em questão é inferida pelo número de indícios visuais e de sua experiência passada. Na sentença 2, por outro lado, o vermelho do objeto é recebido na consciência do falante como resultado direto de um estímulo visual. Os processos envolvidos são diferentes, e essa diferença reflete-se na língua. Falantes de hopi não têm dúvida de que uma tal diferença existe, enquanto aos falantes de línguas européias isso tem de ser explicado, e pode mesmo tomar algum tempo fazê-los compreendê-la. Em 3 e 4 a apresentação à consciência é ainda diferente: o vermelho e o novo são ambos percebidos como resultado de um estímulo auditivo direto. Nesse caso, contudo, ambas as características são estabelecidas exatamente da mesma maneira e, assim, somente uma palavra relacional está envolvida.
	A questão central desse exemplo é ilustrar que em alguns casos diferenças de língua podem levar a diferenças na percepção do mundo. Sugere que o hopi habitualmente percebe seu ambiente de forma completamente diferente da forma como o percebe o falante de inglês, que tem alguns problemas em entender a distinção normal do hopi. Contudo, é-nos perfeitamente possível entender a distinção. Além disso, a tradução do hopi para o inglês é um exercício perfeitamente factível. Isso indica que a formulação forte da hipótese Sapir-Whorf – digamos, que o pensamento é realmente restringido pela língua – não pode ser aceita. Pode-se considerar muito bem que o exemplo indica, contudo, que o pensamento habitual é até certo ponto condicionado pela língua. Falantes do inglês não estão normalmente conscientes dos diferentes tipos de apresentação à consciência ilustrados acima, mas limitações desse tipo podem ser superadas muito facilmente, se necessário.
A hipótese Sapir-whorf é relativa à possibilidade de que a visão que o homem tem de seu ambiente seja condicionada pela língua. Menos controversa é a relação unidirecional que opera na direção oposta – o efeito da sociedade sobre a língua e a forma como o ambiente é refletido na língua. Primeiro, há muitos exemplos do ambiente físico no qual uma sociedade vive sendo refletida em sua língua, normalmente na estrutura do léxico – a forma como distinções são feitas através de uma só palavra. Enquanto o inglês, por exemplo, tem uma só palavra para neve (snow; duas, se incluirmos sleet), o esquimó tem várias. O inglês, é claro, é perfeitamente capaz de fazer as mesmas distinções: fine snow, dry snow, soft snow, etc. (neve fina, neve seca, neve mole), mas no esquimó este tipo de distinção é lexicalizado – feito através de palavras individuais. Da mesma forma, as línguas lapônias da Escandinávia do norte têm muitas palavras associadas a rena e o árabes beduínos, um grande vocabulário relacionado a camelo.
	Em segundo lugar, o ambiente social pode também ser refletido na língua, e pode freqüentemente ter um efeito sobre a estrutura do vocabulário. Por exemplo, o sistema de parentesco da sociedade é geralmente refletido no vocabulário sobre parentesco e essa é uma das razões pelas quais os antropólogos tendem a interessar-se por este aspecto particular da língua. Podemos assumir, por exemplo, que as relações de parentesco importantes em sociedades de língua inglesa são as que estão assinaladas pelos itens lexicais únicos: son, daughter, grandson, granddaughter, brother, sister father, mother, husband, wife, grandfather, grandmother, uncle, aunt, cousin. Podemos, claro, falar de outras relações como eldest son, maternal aunt, great uncle, e second cousin – mas a distinção entre tio materno e paterno não é importante em nossa sociedade e não está refletida no léxico.
Este ponto pode er ampliado por referência ao vocabulário de parentesco de outras comunidades. Em Njamal, uma língua indígena da Austrália, há, como no inglês, quinze distinções de parentesco lexicalizadas, mas uma comparação desses termos com seus equivalentes ingleses revela muito sobre as diferenças entre as duas sociedades. O termo mama significa o que para o njamal é uma relação de parentesco única, mas que deve ser traduzido para o inglês de diferentes maneiras, conforme o contexto: father, uncle, male cousin of parent, etc. Em outras palavras, o termo é usado para todos os machos da mesma geração do pai. Para o falante de inglês, o fato mais espantoso é que as duas palavras inglesas father e uncle devem ser traduzidas para um só termo em njamal. Claramente, a distinção entre father e father's brother não tem na sociedade njamal a mesma importância que tem na nossa. Por outro lado, enquanto o inglês emprega o termo uncle para father's brother e mother's sister husband, o njamal usa mama para o primeiro par e outro termo, karna, parao segundo. Outros termos de parentesco em njamal distinguem não a geração, como em inglês, mas a distância de geração. Por exemplo, um homem pode usar o mesmo termo, maili, para seu father's father e sua daughter's son's wife's sister. A questão é que a pessoa em causa está distante duas gerações.
Como a sociedade está refletida dessa forma na língua, a mudança social pode produzir uma mudança lingüística correspondente. Se, por exemplo, a estrutura da sociedade njamal fosse radicalmente alterada de forma que viesse a se assemelhar mais estreitamente à dos australianos falantes de inglês, poderíamos esperar que o sistema lingüístico se alterasse de forma correspondente. Isso aconteceu na Rússia. De 1860 até os dias de hoje, a estrutura do sistema de parentesco da Rússia sofreu uma mudança muito radical como resultado de vários fatos muito importantes: a emancipação dos escravos em 1861, a Primeira Guerra Mundial, a revolução, a coletivização da agricultura e a Segunda Guerrra Mundial. Houve uma revolução social e política de mercado, e isso foi acompanhado por uma mudança correspondente na língua. Por exemplo, na metade do século passado, wife's brother era shurin, enquanto agora é simplesmente brat zheny, brother of wife. Em outras palavras, distinções que eram lexicalizadas, porque eram muito importantes, são feitas agora através de expressões. A perda da importância dessas relações particulares e as correspondentes mudanças lingüísticas são devidas ao fato de que as mudanças sociais na Rússia levaram à ascensão da família pequena, nuclear. No último século, muitos russos viveram em grandes residências de famílias patrilocais extensas. Esposas de irmãos, nesse tempo parte da família, agora vivem normalmente em residências diferentes. De modo semelhante, yatrov, significando husband's brother's wife, está inteiramente desaparecido. Antigamente, era termo muito importante, significando, para a mulher que o usava, uma pessoa do mesmo status social que ela – uma pessoa de fora casada na residência patriarcal. Como a significação desses status desapareceu (não a relação, claro), desapareceu também o item lexical.
Não são só termos de parentesco que podem refletir a estrutura das sociedades. Em inglês, como em várias outras línguas, uma das formas normais de pronominalizar nomes como pessoa para os quais o sexo não é especificado é através do pronome he, não she. Frases como The first person to finish his dinner pode referir-se a pessoas de ambos os sexos, mas The first person to finish her dinner pode referir-se só às mulheres. De modo semelhante, podemos falar sobre a speaker's use of his linguage sem implicar que só falantes masculinos estão envolvidos. O fato de que he pode ser usado dessa forma e she não pode muito bem refletir a estrutura de nossa sociedade tradicionalmente dominada pelo homem (a forma mais coloquial The first person to finish their dinner pode, talvez, também refletir o colapso parcial desse padrão dominante.). Em terceiro lugar, além do ambiente e da estrutura social, também os valores de uma sociedade podem ter efeito sobre a língua. A forma mais interessante de isso ocorrer é através do fenômeno conhecido como tabu. O tabu pode ser caracterizado como estando relacionado com um comportamento que é sobrenaturalmente proibido ou considerado imoral ou impróprio: ele tem a ver com o comportamento que é proibido ou inibido de uma forma aparentemente irracional. Na língua, o tabu é associado com coisas que não são ditas, e em particular com palavra e expressões que não são usadas. Na prática, claro, isso simplesmente significa que há inibições em relação ao uso normal de itens desse tipo – se não são absolutamente ditos, eles dificilmente podem ficar na língua.
Palavras-tabu ocorrem em muitas línguas e não aderir às regras freqüentemente restritas que governam seu uso pode levar à punição ou à vergonha pública. Muitas pessoas jamais empregarão palavras desse tipo e muitas outras só as usarão num conjunto restrito de situações. Para os que usam palavras-tabu, contudo, 'transgredir as regras' pode ter conotações de força ou liberdade que consideram desejáveis.
Geralmente, o tipo de palavra que é tabu numa língua particular será um bom reflexo de pelo menos parte do sistema de valores e crenças da sociedade em questão. Em algumas comunidades, palavras mágicas exercem um importante papel na religião e certas palavras vistas como poderosas serão usadas em feitiços ou encantamentos. Em diferentes partes do mundo, as palavras-tabu incluem as ligadas à mão esquerda, às relações com mulheres e a certos animais de caça. Algumas palavras, também, são tabus muito mais severos que outros. No mundo da fala inglesa, os tabus mais severos estão atualmente associados com palavras relacionadas a sexo, logo seguidas pelas relacionadas à excreção e à religião cristã. Isso é um reflexo da grande ênfase tradicionalmente posta na moralidade sexual em nossa cultura. Em outras culturas, particularmente a católica romana, os maiores tabus podem estar associados à religião e, na Noruega, por exemplo, algumas das expressões mais fortemente usadas são relacionadas ao diabo.
Até recentemente, as regras rigorosas associadas a algumas palavras-tabu em inglês receberam um reforço legal e social. Há não muito tempo, o uso na imprensa de palavras como fuck (foder) e cunt (boceta) podia causar um processo e mesmo acabar em cadeia e ainda não se podia usá-las livremente em jornais. Leis desse tipo foram relaxadas na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas há ainda algumas partes do mundo de língua inglesa onde não é o caso. Pode ser imprudente, mesmo atualmente, usar tais palavras em público na Inglaterra, embora pelo menos um magistrado tenha determinado que fuck não é mais obscena, isto é, não é mais tabu, legalmente.
Há claro, uma certa duplicidade diante de palavras desse tipo. Embora seu uso tenha sido, e ainda possa ser, tecnicamente ilegal em alguns casos, ocorrem muito freqüentemente na fala de alguns grupos da comunidade. Isso se dá em grande parte porque as palavras-tabu são freqüentemente usadas como blasfêmias (ou juramentos), o que se dá, por sua vez, porque são poderosas. Muitas pessoas nas sociedades modernas tecnologicamente adiantadas afirmariam que não acreditam em magia. Contudo, é ainda alguma coisa que se assemelha muito à magia o que cerca o uso de palavras-tabu em inglês. O uso de palavras-tabu em contextos proibidos, como a televisão, provoca violentas reações, aparentemente de choque e aborrecimentos muito reais. A reação, além disso, é uma reação irracional a uma palavra particular, não a um conceito. É perfeitamente permissível dizer "relação sexual" na televisão. São as palavras que são sentidas como impróprias e são, portanto, tão poderosas.
A força dessa magia pode ser ilustrada pela forma como a BBC, em algumas ocasiões, utilizou-se de sofisticações técnicas para garantir que as contribuições telefônicas do público em certos programas radiofônicos ao vivo pudessem ser cortadas se contivessem palavras-tabu. Pode-se inferir que deviam estar espantados com a expectativa em relação ao uso de certas palavras – ou ao efeito de seu uso. Sugeriu-se também que uma razão para exclusão geral de pessoas não educadas da participação aberta em programas radiofônicos é o medo de que “não conheçam as regras” relativas ao tabu. Palavras-tabu podem ser adequadas em certas situações, mas não são aceitas, em geral, na televisão.
A expressão "não são ainda" indica a rapidez com que padrões de tabu mudam em inglês. Sanções legais estão desaparecendo e há uma tendência crescente para desenvolver atitudes mais racionais, menos mágicas, diante dos tabus – "transgredir regras" é atualmente menos dramático do que tem sido, pelo menos em certas situações (um exemplo bem conhecido é o uso que Shaw faz de bloody – palavra relacionada com a menstruação – agora relativamente inofensiva, como uma palavra chocante no Pigmaleão. Aqui, também, a mudança social se reflete na mudança do comportamentolingüístico).
Um outro ponto interessante é o efeito secundário que o tabu pode ter na língua mesma. Por causa da grande relutância que têm os falantes em usar palavras-tabu, ou palavras parecidas com elas, em certas circunstâncias, palavras que são foneticamente semelhantes a palavras-tabu podem perder-se numa língua. Diz-se freqüentemente, por exemplo, que rabbit (coelho) substituiu a antiga palavra coney (pronunciada [k(ni] – parecida com cunt), em inglês, por essa razão. Uma explicação semelhante é dada para o uso difundido, nos Estados Unidos, de rooster (galo), em vez de cock (galo, mas também equivalente a caralho). No caso de indivíduos bilíngües, isso pode dar-se inclusive com palavras de uma outra língua, aparentemente. Moças indígenas americanas falantes de nootka, dizem seus professores, não queriam de forma alguma usar a palavra inglesa such por causa da semelhança fonética com a palavra vagina. de modo semelhante, estudantes thai na Inglaterra, diz-se, evitavam o uso de palavras thai como [kha: n] "to crush" quando falavam thai diante de falantes ingleses, crentes de que poderiam ofendê-los.
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In: Sociolinguistics: an introduction. Penguin Books, 1974.
(tradução parcialmente adaptada – cortes no original – de Sirio Possenti para uso interno, em cursos.
 Março de 1982)

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