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Pasta 36 ROSELI A. C. FONTANA Capítulo 4 Bacharel e licenciada em Pedagogia pela UNICAMP Mestre em Psicologia Educacional pela UNICAMP Docente de Prática de Ensino na Escola de grau na Faculdade de Educação da UNICAMP A abordagem piagetiana MARIA NAZARE DA CRUZ Bacharch e licenciada ein Psicologia pela FFCL-USP "Papai, por corte este pinheiro - o vento. Depois que Ribeirão Preto - SP você tempo vai ficar bom a me para um Mestre em Psicologia Educacional pela UNICAMP Docente de Psicologia Educacional na Universidade quem você cu? Federal de - MG A cm Ouvir crianças pequenas dizerem coisas como essas do trecho trans- crito acima normalmente nos desconcerta. ao mesmo tempo que nos en- canta e Nossa atenção se volta então para o modo peculiar que criança tem de pensar sobre as coisas e de estabelecer relações entre elas. As peculiaridades do pensamento e da lógica das crianças desper- taram o interesse de Jean Piagel, que se preocupou principalmente com a questão de como o ser humano elabora seus conhecimentos sobre a chegando a no decorrer de sua sistemas científicos complexos com alto nível de abstração. Ele acreditava que da resposta a essa indagação poderia ser encontrado no estudo do TRABALHO desenvolvimento do pensamento da criança. Quem Piaget? Jean 1896, em na Suíça, e fale- PEDAGOGICO ceu cm 1980, aos 84 anos de idade. Desde menino Piaget interessou-se por questões científicas, estudando moluscos, pássaros. conchas marinhas e Aos 10 anos, publicou as observações que fez sobre pardal parcialmente albino e, aos 11 anos, começou a trabalhar como assistente do diretor do Museu de História Natural de sua cidade. EDUCADOR Concluiu estudos em Ciências Naturais em 1915 cm doutorou-se nessa mesma área. EM Interessado lambém por filosofia, leitura da ATUAL obra de Bergson, A evolução criadora, elementos que o ajudarant EDITORA a formular a quesião à qual se dedicaria por a vida: explicar 43a forma pela qual o homem atinge o conhecimento lógico-abstrato Na década de 70, já trabalhando exclusivamente nas pesqui- que o distingue das outras espécies animais. sas do Centro de Epistemologia, dedicou-se à investigação Embora se tratasse de uma questão tipicamente a dos mecanismos de transição que impulsionam a evo- interessava abordá-la cientificamente. Ao longo de sell traba- lução do desenvolvimento cognitivo. lho, então, o desafio de construir uma teoria do conheci- Sua vasta produção é um marco de importância para mento baseada na biologia e em que as especulações filosóficas esti- a psicologia para os estudos do homem século XX. vessem ancoradas na pesquisa empírica. que Piaget entre a filosofia e a biologia foi a psicologia do desenvolvimento. Procurando compreender como o homem elabora o conhecimento, A elaboração da teoria explicativa da géne- Piaget desenvolveu o que chamou de psicologia genética. A palavra gené- se do conhecimento no homem Piaget a que ele próprio aplicou à sua psicologia. refere-se à busca das origens formular propostas e metodológicas e dos processos de formação do pensamento e do conhecimento. inovadoras quanto à natureza dos processos de A infância é considerada como um período particular do processo desenvolvimento da criança e que de formação do pensamento. que só se completa na idade adulta. É im- as teses do e do com- portante. não confundir as contribuições dadas por Piaget à com- preensão do desenvolvimento cognitivo da criança com uma portamentalismo. fundamento básico de sua concepção do gia da Ele não se dedicou a estudar o pensamento infantil funcionamento do desenvolvimento motivado por um interesse pela infância em si e também não elaborou cognitivo i o de que as relações entre organismo sua psicologia genética movido pelo interesse por questões propria- mente O centro de seu trabalho e de todos os seus e o meio são relações de troca, pelas quais o orga- é o desenvolvimento do conhecimento. nismo adapta-se an meio ao mesmo A formação de Piaget em Naturais levou-o a buscar com- assimila, de acordo com suas mm pro- cesso de equilibrações sucessivas. Determinar as preender conhecimento com base na biologia. Em sua concepção. contribuições das atividades do indivíduo e das conhecer é organizar. e explicar a realidade a partir daquilo restrições do ambiente na aquisição do conheci- que se vivencia nas experiências com os objetos do conhecimento. No entanto. experiência não é a mesma coisa que conhecimento. Este mento foi o foca do seu trabalho experimental. No período de 1921 a 1925, Piaget na coleta pressupõe a organização da num sistema de relações. Por exemplo. "a humanidade atravessou alguns milênios sem a rela- de dados que permitissem esboçar os princípios E fundamen- ção entre vida calor do sol; conhecer algo a respeito do calor solar seria tos de sua teoria do conhecimento. Abordou temas gerais, como inserir o calor sentido na pele num sistema de relações que permite a relação entre pensamento e linguagem (1923), desenvolvi- compreendê-lo como condição de existência da vida" (Chiarottino. 1988). mento, do julgamento do raciocínio (1924), da re- presentação do (1926), da causalidade física (1927) e do julgamento moral (1927). Esses estudos foram retomados, revis- 105 e aprofundados ao longo das décadas seguintes. Conhecimento e adaptação: os processos de No período de 1925 a 1931, com o nascimento de seus três assimilação e acomodação filhos, dedicou-se à observação meticulosa do desenvolvi- mento dos bebês, elaborando análises sobre a construção do real Mas como se dá a inserção de um objeto de num e o desenvolvimento da inteligência. sistema de relações? Segundo Piaget, isso ocorre fundamentalmente Na década de 30, ajudado por seus colaboradores, concentrou por meio da ação do indivíduo sobre o objeto. Ao agir sobre o meio, a pesquisa na gênese das noções de quantidade, número, tempo, indivíduo incorpora si elementos que pertencem ao meio. Através des- espaço, velocidade, movimento, mensuração, lógica probabili- se processo de incorporação. chamado por Piaget de as dade. Na década de 40, abordou desenvolvimento da coisas e os fatos do meio são inseridos em um sistema de relações e A partir dos anos 50, Piaget voltou-se para a sistematização adquirem significação para teórica da epistemologia deixando a seus colaboradores Ao estas por exemplo. você está assimilando o que está estudos em psicologia. Em 1955 fundou o Centro Internacional escrito (objeto de conhecimento). conforme vai estabelecendo relações de Epistemologia Genética, onde cientistas de diferentes com as idéias os conhecimentos que já possui. As idéias e os conceitos áreas (matemáticos, biólogos, psicólogos, lógicos) interessados do texto são organizados e estruturados a partir do que você já conhece. 45 44 em problemas epistemológicos. Só assim o texto tem algum sentido para você.Mas, ao mesmo tempo que, as e os conceitos do texto são das características que permitem chamá-la de pegar e que a diferenciam incorporados ao sistema de idéias e conceitos que você possui, essas de outras como balançar ou empurrar. esquema de ação idéias e conceitos já existentes são modificados por aquilo que leu é. o que é generalizável em uma ação, o que permite (assimilou). Esse processo de modificação que se opera nas estruturas reconhecê-la diferenciá-la de outras ações, independentemente do de pensamento do indivíduo é chamado por Piaget de acomodação. objeto a que se aplica. Tal modo de conceber o funcionamento cognitivo é decorrente do É por meio dos es- modelo biológico em que Piaget se baseou. Segundo esse modelo, a quemas de ação que a inteligência é um caso particular de adaptação biológica. Um organis- criança começa a mo adaptado ao meio é aquele que mantém um equilíbrio em suas tro- a realidade. assi- cas com o meio. Ou seja. é aquele que interage com o ambiente manten- milando-a e atribuindo- do um equilíbrio entre suas necessidades de e as dificul- the significações. Quan- dades e restrições impostas pelo Essa adaptação torna-se possível do pega a graças aos processos de assimilação de (que. juntos. ela a relaciona a seu es- constituem o mecanismo adaptativo). comum a todos os seres vivos. quema e atribui- Assim. a é assimilação por permitir ao indivíduo incor- o sentido de um obje- porar os dados da experiência. É também acomodação. pois os novos to "que se Mas a dados incorporados acabam por produzir modificações no funciona- criança também aplica à mento cognitivo da Logo. adaptação como qual- mamadeira o esquema quer adaptação. é exatamente o equilíbrio progressivo entre mecanis- Essas assimila- mo assimilador e a acomodação complementar" (Azenha, 1994: 26). ções provocam transfor- Ao mesmo tempo que. por meio do processo de come mações nos esquemas o indivíduo adapta-se ao meio (elaborando seu conhecimento sobre "pegar" e "sugar". à medida que eles são acomodados 00 objeto mamadei- possibilium o seu próprio funcionamento cognitivo vai se se organi- ra. Os esquemas "pegar" e acabam então por se A organização do com zando. Uma das primeiras formas de organização cognitiva é o esquema. real. por meio der Vê-se que. mediante sucessivas assimilações e acomodações. o ação. bebê vai conhecendo de seu mundo Eles são orga- A noção de esquema nizados em objetos "para olhar". "para pegar". "para sugar", "para em- cognitivo da purrar". morder". "para olhar e pegar", "para pegar sugar", A ao é dotada de reflexos que são "para pegar C e assim por diante. automáticas desencadendas por certos estímu- A organização do real por meio da ação marca início do desenvolvi- los. Esses reflexos (como o de sucção e o de preensão) mento cognitivo da criança. De acordo com Piaget. os esquemas de ação possibilitam ao bebê lidar com ambiente. É através ampliam-se, coordenam-sc entre si, diferenciam-se e acabam por deles que elementos do meio ambiente (como a interiorizar, transformando-se em esquemas mentais e dando origem ao o seio materno. a o patinho de borracha. pensamento. Esse desenvolvimento contínuo dos esquemas SC dá no sen- etc.) vão sendo assimilados pela criança. A tido de uma adaptação cada vez mais complexa e diferenciada à realidade. como vimos, provoca uma transformação dos reflexos, que gradativamente vão se diferenciando e se tornando mais complexos e flexíveis. deixando de ser simples res- A noção de equilibração postas estereotipadas a estímulos determinados. Esse processo dá origem a esquemas de ação. tais como pe- processo de desenvolvimento na perspectiva piage- gar. puxar, sugar, etc. tiana. de fatores internos ligados à maturação. da adquirida Para entender o que é um esquema de ação, pense- pela criança em seu contato com o ambiente e, principalmente, de um mos no esquema de preensão. Um bebê pode pegar, processo de auto-regulação que ele denomina equilibração. por exemplo, um pequeno cubo de madeira, uma bola, Para Piaget, a equilibração é uma propriedade e consti- a mamadeira ou dedo de alguém. Relativamente a da vida mental. Por meio dela é que se mantém um estado de cada um desses objetos, a ação de pegar apresenta pe- equilíbrio ou de adaptação em relação ao meio. Toda vez que. em nossa quenas diferenças quanto aos movimentos que a criança realiza. No en- 46 relação com o surgem conflitos. contradições ou outros tipos de 47 todas essas situações a ação da criança apresenta determina- dificuldade. nossa capacidade de auto-regulação ou equilibração entraem ação, no sentido de superá-los. Quando, por exemplo, um bebê tenta pegar um objeto pendurado sobre o berço, o objeto pode oferecer algu- anos de aproximadamente. 3 criança passa do nível mar- ma resistência a seu esquema de que. em desequilíbrio, obriga-o cado pelo funcionamento dos reflexos inatos, para outro em que ela já é a modificá-lo ou a coordená-lo com outro esquema, como o de puxar. capaz de uma organização perceptiva e dos fenômenos do meio. Essa atividade da criança a acomodação ou coordenação de seus De início, inatos respondem aos estímulos do meio. Luz, esquemas de ação é graças à sua capacidade de auto- sons. contrações faciais. A cabeça volta-se para a direção de onde vêm regulação, com objetivo de compensar a resistência oferecida pelo os sons. Calor, frio. fome. cheiros, choros. corpo reflete o mundo e objeto e alcançar novo estado de ainda não se diferencia dele. Quando falamos em alcançar um novo estado de equilíbrio, quere- A criança age sobre mundo. Ela repetidamente chupa o dedo. mos que o processo de equilibração não consiste numa volta ao suga a pontinha da manga da roupa: movimentos não intencionais. cen- estado anterior, mas leva a um estado superior em relação ao inicial. No tralizados no seu próprio corpo. se rellexo inato de caso de nosso exemplo, o fato de a criança não conseguir pegar objeto sugar assimila, incorpora novos elementos do meio (o dedo. a roupa) e já indica que seus esquemas precisam ser A reequilibra- ao mesmo tempo vai sendo transformado por eles (acomodação). pois ção. por meio da acomodação ou da coordenação de seus esquemas, sugar é diferente de chupar o dedo. que é diferente de implica uma ultrapassagem da situação anterior. uma abertura para no- sugar própria roupa. vas possibilidades de ação. "Para conhecer os objetos. o sujeito tem que agir sobre eles e. por conseguinte, transformá-los: tem que com- separá-los e afirma Piaget (1983: 14). A A concepção sobre estágios de desenvolvimento cia da criança sobre o meio ex- terno se expande Poderíamos dizer. que o na concepção conforme suas ações se deslo- é fundamentalmente um processo de equilibrações sucessi- cam de seu próprio corpo para vas que conduzem a maneiras de agir e de pensar cada vez mais comple- os A mão ache- xas e elaboradas. Esse processo apresenta períodos ou estágios definidos. ga o objeto ao corpo. à boca que caracterizados pelo surgimento de novas formas de organização experimenta, empurra-o para Os estágios se sucedem numa ordem fixa de sendo longe de As pernas agitam-se um estágio sempre integrado Além cada estágio se ca- em Puxar. empur- racteriza por uma maneira típica de agir e de pensar constitui uma forma rar. contrair. distender. apanhar. particular de equilíbrio em relação ao meio. A passagem de um estágio a largar. juntar, espalhar. outro se dá através de uma equilibração cada vez mais completa. Ou a passa de um estágio a outro de seu desenvolvimento são ações que também quando seus modos de agir e pensar mostram-se insuficientes ou inade- se repetem. Os olhos acompa- os movimentos. quados para enfrentar as novos problemas que surgem em sua relação com o meio. Essa é compensada pela atividade da O centro não é mais o corpo da criança, já que por intermédio des- que acaba por engendrar modos mais elaborados de ação e pensamento. sas ações a criança manipula os elementos As ações agora são A criança O modelo de desenvolvimento cognitivo de Piaget destaca quatro repetidas devido aos efeitos interessantes que produzem. analisa devido períodos principais: sensório-motor (do nascimento até aproximada- Aos meios e fins vão sendo diferenciados e as ações começam -a ganhar A descoberta casual de que a argola agarrada mente os ? anos de idade). o pré-operatório (dos aos 7 anos). operatório (dos 7 aos 11 anos) e o operatório formal (dos 11 aos 15 anos). produz movimentos e sons num brinquedo suspenso acima do berço leva 3 criança repetir o movimento. Ela age para um propósito. Os movimentos ficam mais mais amplos. como Os estágios do desenvolvimento cognitivo pôr-se de Nesse percurso o o mundo tornam-se progressivamente dis- indivíduo e os objetos diferenciam-se e organizam-se no pla- O período sensório-motor no das ações exteriores. e a permanência dos objetos vai sendo construída. O brinquedo. que'ao ser retirado da criança deixava de 48 O desenvolvimento cognitivo se inicia a partir dos que gra- existir para cla, passa a ser procurado. A criança começa a perceber dualmente se em esquemas de ação. Do nascimento até os 2 que os as pessoas, continuam existindo mesmo quando estão fora do seu campo de visão. 49as primeiras imagens mentais dos objetos ausentes do meio imediato. São elas que possibilitam desenvolvimento da função Como a noção de permanência dos objetos, que leva muito tempo mecanismo comum aos diferentes sistemas de representação para ser elaborada no nível os processos de raciocínio (jogo, imitação. imagens Com o desenvolvi- lógico e os conceitos demoram também um longo tempo para se desen- mento da função a partir do segundo ano de o eu volver, a partir desses primeiros raciocínios (pré-lógicos) de que a mundo reorganizam-se num novo plano: o plano representativo. criança se torna capaz com a representação. final A criança reproduz. ou imita, utilizando gestos ou onomatopéias. o periodo comportamento e os sons de um modelo ausente, de O período das operações concretas operatório. pensamento do alguma forma simbólica no jogo do Por meio de uma ima- gem mental. um começa a imaginar fatos, objetos, É apenas ao final do período pré-operatório. após equilibrações criança começa assumir acontecimentos que ocorreram em outras ocasiões. procurando sucessivas, que pensamento da criança assume forma de operações forma de espaço e tempo se ampliam. à medida que o desenvol- As operações são ações mentais voltadas para a cons- operações vimento da função simbólica a libera de agir somente em situações do tatação e a explicação. A classificação e a por exemplo. são meio imediato. Ela torna-se capaz de imaginar ações ou sem ações mentais. Essas ações são sempre reversíveis. ou seja, têm a propriedade de voltar ao ponto de partida. O período pré-operatório A criança torna-se capaz de compreender o ponto de Representando mentalmente o mundo externo e suas próprias vista de outra pessoa e de ações. a criança os interioriza. É nesse período que ela se torna capaz de conceitualizar algumas rela- tratar os objetos como símbolos de outras coisas. O desenvolvimento da ções. é nessa fase representação cria as condições para a aquisição da linguagem, pois a que são estabelecidas as bases capacidade de construir símbolos possibilita a aquisição dos significa- para o pensamento lógico. dos sociais (das palavras) no contexto em que vive. próprio do período final do de- Nesse momento, a criança deverá reconstruir no plano da repre- senvolvimento cognitivo. sentação aquilo que já havia conquistado no plano da ação prática. Assim, a diferenciação entre e o mundo, que já tinha se completa- PROFESSORA MANDOU VÁRIOS ALLINOS QUE QUE PARA do no plano da ação. deverá ser elaborada no plano da representação. NOS DOIS QUATRO! NUNCA ME DOIS MAIS DOIS IGUAL A QUATRO 2+2=4 SENTI Centrada no seu próprio ponto de a criança ainda não é capaz de LONGE DE se colocar no lugar do outro nem de avaliar seu próprio pensamento. Ela não considera mais de um aspecto de um problema ao mesmo tem- po. fixando-se sempre em apenas um deles. Ao repartir o refrigerante com a criança considera a partilha justa se o líquido ficar em altura igual nos dois copos, mesmo que um deles seja visivelmente mais Ela considera apenas uma dimensão do problema (a altura do líquido no copo), a mais evidente em termos perceptivos. Não é ainda capaz de raciocinar levando em conta Fonte: Abril Cultural 1970 as relações entre as várias dimensões envolvidas (a largura e o formato do copo), e lipo de percepção que tem dos objetos determina tipo de A reversibilidade do pensamento possibilita à criança construir raciocínio que faz sobre eles. noções de conservação de massa, volume, etc. pensamento reversível Nas explicações que o seu ponto de vista prevalece sobre as pode ser definido como a capacidade de levar consideração uma relações lógicas. Ela diz coisas como "Ficou de noite porque o sol foi série de operações que, conduzem ao estado inicial. É o que "Quem fez aquele rio foram os homens que moravam ocorre, por exemplo, com a noção de conservação de líquidos: uma Ações humanas explicam os fenômenos naturais. elementos da nature- criança, num nível operatório. é capaz de compreender que a quantida- 50 za praticam ações humanas. são dotados de intencionalidade e quali- de de refrigerante contida em um copo permanece a mesma quando dades humanas. despejada em outro mais alto e mais estreito, embora o nível do líquido 51 se torne mais elevado. Essa capacidade está relacionada à possibilidadede ela representar mentalmente a operação inversa o líquido retornando ao copo original desse modo, compreender que a quan- Pesquisando a criança: o método clínico se mantém invariável. a despeito das alterações As- sim, se for repartir o com o despejando-o em dois Em 1919. trabalhando com Simon na padronização dos testes de copos de formatos diferentes. essa criança terá condições (diferente- Piaget voltou sua atenção para as respostas como er- menic de uma criança menor) de considerar as múltiplas dimensões en- radas dadas pelas crianças que participavam dos testes. Começou a se volvidas no problema. estabelecendo relações entre altura e largura do preocupar com quais seriam as razões das falhas das crianças em com- copo e quantidade de líquido. preender determinadas coisas. com qual seria o tipo de raciocínio Assim, por meio das operações inicialmente só aplicáveis a ob- cito em suas respostas. jetos concretos e presentes no ambiente os conhecimentos cons- Indagando-se sobre os processos de pensamento que estariam por truídos anteriormente pela criança vão se transformando em conceitos. trás das respostas Piaget desenvolveu um de obser- vação que consiste em criança anotando-se a maneira O período das operações formais pela qual ela desenvolve o seu pensamento A novidade consiste em deixar a criança falar. seguindo suas respostas: guiada por elas. crian- Apenas na adolescência é que o indivíduo se capaz de pensar ça é encorajada a falar cada vez mais livremente. Dessa forma. é pos- refletindo sobre situações de maneira lógica. sível obter em cada domínio da inteligência um procedimento clínico As operações mentais que aplicava só a objetos podem ser aplicadas. de exame que é análogo ao que adotaram como meio agora. também formuladas em palavras. para a elaboração do diagnóstico. É a resposta da criança que deter- pensamento sobre possibilidades, sobre acontecimentos mina parcialmente próximo do experimentador` sobre conceitos abstratos apresenta-se cada vez mais adoles- 1994: 105). cente não tem mais necessidade de estar diante dos objetos concretos ou de Piaget chamou esse tipo de procedimento de método Em operar sobre eles para Ele transforma os dados da cia em formulações organizadas e desenvolve conexões lógicas entre algumas investigações. a criança era incentivada a agir sobre objetos e depois a falar sobre o que havia feito. adolescente enfim. capaz de pensar sobre seu próprio pensamento. ficando cada vez mais consciente das operações mentais Uma das situações mais famosas utilizadas por Piaget que realiza ou que pode ou deve realizar diante dos mais variados pro- com duas bolas iguais feitas com massa de Pedia-se à blemas. Essa consciência a propósito do próprio pensamento "pode ser que as segurasse e perguntava-se se havia ou não a mesma quantidade de massa nas duas bolas. presumida pelo seguinte tipo. muito citado, de perguntas de adolescen- 'Eu me surpreendi pensando acerca do futuro e então comecei Quando a criança respondia mudava-se a forma a pensar por que estava pensando no futuro. e aí comecei a pensar por de uma das bolas, passando-a para a forma de uma salsicha, por que eu estava pensando sobre por que eu estava pensando no meu futu- e novamente se perguntava à criança se havia na salsicha a (Evans, 1980: 116). mesma quantidade de massa que na bola. Algumas crianças diziam que sim, explicando que havia a mesma quantidade porque se se fi- zesse de novo uma esta seria igual à primeira. Outras, mais novas, davam explicações como tem mais porque é mais com- nox referindo-se à tornamos de Por meio de situações desse tipo. Piaget procurava compreender a sobre de pensar da criança em diferentes idades. Para ele. não inte- ressava se a criança acertava ou errava ao responder. mas sim a maneira como pensava no problema Seu objetivo era apreender o tipo de operação mental que a criança realizava (no caso desse exemplo, ele investigava as noções de conservação e a reversibilidade do pensamen- to da criança). Assim. com base nas pesquisas realizadas através do método clíni- também na observação de seus próprios filhos, especialmen- nos dezoito primeiros meses de vida. Piaget: auxiliado por inúmeros 52 foi gradativamente elaborando sua sobre o desen- 53 volvimento cognitivo da criança.Desenvolvimento, aprendizagem e educação: a influência da abordagem piagetiana na escola Sugestão de atividades Vimos que, na concepção piagetiana, o desenvolvimento da crian- é um processo que depende essencialmente da equilibração. que é a capacidade natural de auto-regulação do indivíduo. As estruturas cog- Organizando as informações do texto nitivas da criança são elaboradas e reelaboradas continuamente a partir da sua ação (física ou mental) sobre o meio. 1. Abaixo estão relacionados os principais conceitos da teoria pia- De acordo com esse quadro a aprendizagem praticamente Dê significado de cada um deles. não interfere no curso do A nos processos adaptação: internos e na atividade construtiva da própria criança resulta em uma assimilação; concepção que considera a aprendizagem como dependente do pro- acomodação; cesso de desenvolvimento. Ou seja. aquilo que a criança pode ou não aprender é determinado pelo nível de desenvolvimento de suas estru- turas cognitivas. esquema; Segundo Piaget. tudo o que é transmitido à criança sem que seja estágio de desenvolvimento. compatível com seu estágio de desenvolvimento cognitivo não é de 2. as principais idéias de Piaget acerca do processo de desen- fato incorporado por ela. A criança pode mecânica e externa- volvimento. mente adulto, mas não compreende (e. não conhece) que está fazendo. 3. Faça uma comparação, apontando as semelhanças e diferenças, entre As formulações de Piaget têm tido grande influência sobre a práti- as maneiras como desenvolvimento é visto pelas abordagens pia- ca pedagógica, inclusive no Brasil. Ao destacarem papel ativo da getiana. e comportamentalista. Compare sua criança no processo de elaboração do conhecimento, têm sido responsá- resposta com as de seus colegas, num debate que envolva a classe toda. veis por como: papel fundamental da escola é dar à criança oportunidades de agir sobre os objetos de conhecimento; professor Refletindo sobre as informações do texto não deve ser aquele que transmite conhecimentos à criança, mas sim um agente facilitador e desafiador de seus processos de elaboração; a Comente uma das afirmações abaixo: criança é quem constrói seu próprio conhecimento. "Pelo próprio fato de todo conhecimento ser, ao mesmo tempo, acomodação ao objeto e assimilação do sujeito, progresso da inteligência (desenvolvimento psicológico) opera no duplo senti- do da exteriorização e da interiorização, e seus dois pólos serão domínio da experiência e a conscientização do próprio fun- cionamento intelectual" (Piaget, A construção do real na criança). "Para conhecer os objetos, o sujeito tem que agir sobre eles e, por con- seguinte, transformá-los: tem que deslocá-los, agrupá-los, combiná- los, separá-los e juntá-los. Nesse sentido, conhecimento não é nem uma cópia interior dos objetos ou acontecimentos do real, nem o mero reflexo desses objetos e acontecimentos que se imporiam ao sujeito. Ele é uma compreensão do real. construída a partir de modos de ação do sujeito sobre meio, dependendo dos dois sujeito e objeto- ao mesmo tempo" A epistemologia "Cinqüenta anos de experiência ensinaram-nos que não existem conhecimentos resultantes de um simples registro de observações, 54 uma devida às atividades do indivíduo. Mas, tampouco, existem estruturas cognitivas a priori ou inatas: só o 55