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1 UNIVERSIDADE POTIGUAR- UnP PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO E AÇÃO COMUNITÁRIA CURSO DE LETRAS GIOVANNIA ELAINE SANTOS DA SILVA NAYANNE KATELINE PEREIRA LOPES DE ALMEIDA A SUBVERSÃO DO IMAGINÁRIO LITERÁRIO E HISTÓRICO-SOCIAL NO ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS NATAL 2013 2 GIOVANNIA ELAINE SANTOS DA SILVA NAYANNE KATELINE PEREIRA LOPES DE ALMEIDA A SUBVERSÃO DO IMAGINÁRIO LITERÁRIO E HISTÓRICO-SOCIAL NO ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS Trabalho de conclusão de Curso apresentado à Universidade Potiguar – UnP, como parte dos requisitos para obtenção do título de graduada em Letras – Português e suas respectivas literaturas. ORIENTADORA: Profa. Esp. Luciana Medeiros Lucena NATAL 2013 3 GIOVANNIA ELAINE SANTOS DA SILVA NAYANNE KATELINE PEREIRA LOPES DE ALMEIDA A SUBVERSÃO DO IMAGINÁRIO LITERÁRIO E HISTÓRICO-SOCIAL NO ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS Trabalho de conclusão de Curso apresentado à Universidade Potiguar – UnP, como parte dos requisitos para obtenção do título de graduada em Letras – Português e suas respectivas literaturas. Aprovado em: ___/___/2013. BANCA EXAMINADORA ____________________________________ Profa. Esp. Luciana Medeiros Lucena Orientador Universidade Potiguar – UnP ____________________________________ Profa. Dra. Célia Maria Medeiros Barbosa da Silva Universidade Potiguar – UnP _____________________________________ Profa. Ms. Fabiola Barreto Gonçalves Universidade Federal do Rio Grande do Norte 4 Dedicamos à profa. Dra. Ana Santana Souza de Fontes Pereira, por nos ter apresentado o romance Úrsula. 5 AGRADECIMENTOS A Deus, pois sem Ele essa conquista não seria possível. Aos professores que me acompanharam desde o início da minha formação. Destaco aqui, em ordem cronológica, a profa. Maria da Conceição C. de M. G. Matos Flores que, sempre com seu amor pela literatura, fez-me amar mais essa área; a profa. Ana Santana Souza de Fontes Pereira, por ter apresentado o romance Úrsula; e a profa. Luciana Medeiros Lucena pela orientação, pelas enriquecedoras observações e sugestões, pelo carinho e respeito sempre. Gostaria de expressar minha profunda gratidão aos meus colegas de curso que durante esses anos não somente me acompanharam academicamente, mas se tornaram meus amigos e partilharam momentos da minha vida: Érica, Juliana, Valdete, Raquell, Polliana, Kleber, Milena, Vanessa Lins e Mayre Janne. Em especial a minha parceira nessa empreitada de construção do TCC: Nayanne; como ela mesma disse “não me imaginaria escrevendo com outra pessoa.” Não poderia deixar de agradecer à minha família, a base de tudo que sou hoje. Minha mãe Elita, pelo apoio. Meu irmão, amado e incentivador, Emanoel (sem você eu não teria galgado nem o primeiro degrau desse curso). Minha irmã, Emmanuela, linda, batalhadora e forte, que mesmo a distância está sempre ao meu lado (saudades constantes). Minha tia Beta, por me ouvir tantas vezes, em altos e baixos. Meu pai, Geraldo, que sei que se orgulha muito de mim. Às minhas amigas, mais que especiais, Ghislaine e Fabíola, irmãs que a vida me deu. A todos os amigos que, de alguma forma, contribuíram para meu crescimento, tanto intelectual quanto pessoal. Giovannia Elaine 6 AGRADECIMENTOS A Deus, “Porque nele eu vivo, nele eu movo e nele eu existo” Ao meu esposo, pela compreensão, carinho, atenção e amor que me dedicou durante todo período acadêmico e, principalmente, durante a produção do TCC. Aos meus pais e a minha irmã, por compreenderem minha ausência durante esta fase do curso e pelo grande amor que me dedicam. À professora Ana Santana, que nos fez conhecer o livro Úrsula e a temática da literatura afro-brasileira. À minha orientadora Luciana Medeiros Lucena, pela atenção e por ter acreditado em nosso projeto desde o início. À minha amiguinha Giovannia Elaine, por termos juntas desempenhado um trabalho tão bom de escrever e pesquisar. A todos os meus professores, que me transmitiram tantos conhecimentos relevantes neste período de graduação. E a todos que direta ou indiretamente cooperaram para que o meu sonho se tornasse realidade. Às vezes são pequenos gestos ou palavras que fazem a diferença quando estamos em um momento tão importante da nossa vida, que é a nossa formação acadêmica, e principalmente durante o processo de escrita do nosso TCC. Meus sinceros agradecimentos e que Deus abençoe a todos. Nayanne Kateline 7 A literatura nos oferece a oportunidade de apreensão de um imaginário construído acerca do sujeito negro na sociedade brasileira. Mesmo como fenômeno específico, percebemos um discurso literário que, coincidentemente, ao construir seus personagens negros, o faz sob a mesma ótica do pensamento e das relações raciais brasileiras, do Brasil colônia à contemporaneidade. Conceição Evaristo 8 RESUMO O presente estudo, a subversão do imaginário literário e histórico-social no romance Úrsula, de Maria Firmina dos reis, é uma análise do livro Úrsula, publicado em 1859. Nesse estudo, será abordada a subversão do imaginário literário e histórico-social presente na obra, em que a autora utiliza uma abordagem intimista e comprometida sobre a condição do negro, em nosso país, no século XIX. Por meio de pesquisas bibliográficas, foi possível identificar que na literatura, especificamente do século XIX, no Brasil, o imaginário histórico-social presente era o dos negros bestializados, sensualizados, marginalizados e desprezados, reflexo da sociedade burguesa e escravocrata, da qual fazia parte a maioria dos escritores brasileiros. No decurso da análise, serão apresentados o debate e a comparação da representação do negro nesse romance com a representação do negro implícita nos romances do mesmo período. Em contrapartida, será mostrado o posicionamento antiescravista da autora, bem como o seu lugar na literatura afro-brasileira. Para isso, tomaremos como embasamento teórico principal os estudos de Eduardo de Assis Duarte (2011) e Algemira de Macedo Mendes (2006). Desse modo, percebe-se que a história não foge das representações românticas do período, no entanto, a subversão do imaginário literário e histórico-social no romance ocorre de maneira sutil nas falas das personagens negras e na maneira como essas mesmas personagens são caracterizadas e se portam na história. Palavras-chave: Subversão. Imaginário literário e histórico-social. Literatura afro- brasileira. 9 ABSTRACT The present study, the subversion of the imaginary literary and socio-historical novel Ursula, Maria Firmina dos Reis, and an analysis of the book Ursula which was published in 1859. In this study will be focused on the subversion of the imaginary literary and socio-historical present in the work, in which the author uses an intimate and committed approach on the condition of thenegro in our country in the nineteenth century. Via bibliographical researches literature, it was identified, specifically in the century XIX, in Brazil, the historical-social imaginary present was of blacks disgusted, outcast and despised, as result of a bourgeois and slavery society, from where were most of the Brazilian writers. In the course of the analysis, were showed a discussion and made a comparison of the representation of the negro in this novel with the implicit representation of the black novels from the same period. In contrast, will be shown the antislavery positioning of the author, as well as her place in the Afro-Brazilian literature. For this, we have as theoretical foundation Eduardo de Assis Duarte (2011) and Algemira de Macedo Mendes (2006) studies. In this sense, it was seen this story does not escape from the representations of the romantic period, however, the subversion of the imaginary literary and the historical- social aspects in this novel reveal author’s position into the subtle in the discourse of black characters, their appearance and behavior. Keywords: Subversion. Imaginary and social-historic literacy. Afro-Brazilian literature. 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 10 2 UM ROMANCE INTIMISTA ............................................................................... 12 2.1 ENREDO ...........................................................................................................13 2.2 O ROMANCE ÚRSULA E SUAS VERTENTES .............................................. 19 3 A SUBVERSÃO DO IMAGINÁRIO LITERÁRIO ................................................ 21 3.1 A VISÃO LIBERTADORA DAS PALAVRAS ................................................. 24 3.2 LIBERDADE SUPRIMIDA DE CONCEITOS................................................. 33 4 HISTÓRIA DE UM PAÍS ESCRAVO .................................................................. 37 4.1 O SOCIAL E O LITERÁRIO DO SÉCULO XIX ............................................. 41 4.1.1 A educação ................................................................................................. 41 4.1.2 A literatura .................................................................................................. 44 4.1.3 O Maranhão ................................................................................................. 48 4.2 MÃOS ATADAS, PENSAMENTOS SOLTOS .................................................. 53 4.2 ESCRAVIDÃO E RELIGIÃO ......................................................................... 58 4.3.1 Escravidão ................................................................................................... 58 4.3.2 Religião ........................................................................................................ 66 5. MARIA FIRMINA NA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA ............................... 72 5.1 A TEMÁTICA ................................................................................................... 74 5.2 A AUTORIA ..................................................................................................... 75 5.3 O PONTO DE VISTA ...................................................................................... 76 5.4 A LINGUAGEM ............................................................................................... 78 5.5 O PÚBLICO ..................................................................................................... 79 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 81 REFERÊNCIAS 11 1 INTRODUÇÃO A literatura não é um fiel retrato da sociedade em que é produzida. Apesar disso, o discurso literário não fica imune ao meio em que foi criado. Sendo assim, é possível perceber presente na literatura brasileira a imagem do negro construída com características estereotipadas, animalescas e que são, nitidamente, reflexo da sociedade escravocrata do século XIX. Diferentemente do que acontecia nos romances publicados no mesmo período, o romance Úrsula, escrito por Maria Firmina dos Reis no século XIX, dá uma abordagem diferenciada em sua obra em relação ao negro colocando-o em igualdade com o branco e abordando também a questão da escravidão vivida à época. Ou seja, ela subverte o que havia presente na literatura de seus contemporâneos. A subversão do imaginário literário e histórico-social presente no romance Úrsula, tema desse estudo, é perceptível a partir de uma leitura mais acurada e crítica do romance citado, o qual trata de uma trágica história de amor entre dois jovens: a pura e simples Úrsula e o nobre bacharel Tancredo. Nessa obra, o que dá o tom de subversão são pequenos detalhes que fazem a diferença no romance. De maneira sutilizada pela autora, a subversão está nas falas das personagens negras (preta Susana, Túlio e Antero) e na maneira como elas mesmas são caracterizadas e se portam na história. Este estudo, dentro do tema proposto, tem como objetivos destacar o posicionamento da autora em relação à instituição escravidão, e isso em plena sociedade escravocrata, machista e preconceituosa. Para isso, será descrito o imaginário construído acerca do negro, na sociedade do século XIX, e que estava implícito na literatura. Serão citadas ainda as características que diferem Úrsula dos demais romances do período. Desse modo, será reafirmada a importância do romance para a literatura afro-brasileira. O estudo, de caráter teórico, foi feito através de uma leitura minuciosa da obra, o romance Úrsula. Foram lidos, ainda, além do romance objeto deste estudo, os livros As vítimas-algozes – Quadros da escravidão (1869) de Joaquim Manoel de Macedo e A escrava Isaura (1875) de Bernardo Guimarães, publicados no mesmo período de Úrsula, os quais serviram como paralelo para a análise. 12 Para desenvolver o estudo do tema proposto, realizou-se um levantamento bibliográfico de fontes, críticas, artigos sobre a autora e o romance em questão. Em especial, os estudos de Eduardo de Assis Duarte (2011) que trouxerem à lume a autora e suas obras que ficaram por muito tempo silenciadas. O presente estudo está divido da seguinte forma: os capítulos 2 e 3 são dedicados à análise direta do romance em seus detalhes e peculiaridades que o fazem diferenciar-se entre os do mesmo período. No capítulo 4, serão explanados os aspectos histórico, social e literário do Brasil do século XIX, situando também a escravidão e a religião do período, como também estabelecendo uma ligação com o Maranhão da época. O capítulo 5 trará uma abordagem da definição da literatura afro-brasileira e o lugar em que Maria Firmina dos Reis se insere. 13 2 UM ROMANCE INTIMISTA “O romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, insere-se na moldura do folhetim do século XIX” (MENDES, 2006, p. 44) e o que se destaca no romance é o contexto da escravidão que segundo Duarte “tematiza o assunto negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida politicamente em recuperar e narrar a condição do ser negro em nosso país” (DUARTE apud ALBERTO, 2009, p. 1). Mesmo assim a obra passou por um longo período de invisibilidade e só em 1975 veio a público através da edição fac-similar preparada por Horácio de Almeida. Antes de ser abordado o romance, será tratada a biografia da autora para entendermos em quecondições ela escreveu a obra. Maria Firmina dos Reis nasceu em 11 de outubro de 1825, no bairro de São Pantaleão, na Ilha de São Luís, capital da província do Maranhão. Filha de João Pedro Esteves e Leonor Felipa dos Reis, ficou órfã de mãe e não conheceu o pai. Era extremamente pobre e era parente distante do escritor maranhense Francisco Sotero dos Reis, por parte de mãe, “a quem deve sua cultura, como afirma em diversos poemas” (LOBO apud DUARTE, 2004, p. 265-266). Menina bastarda e mulata vivendo em um contexto de extrema segregação racial e social, aos cinco anos teve de se mudar para a vila de São José de Guimarães, no município de Viamão. Viveu grande parte da vida com uma tia materna mais abastada. Autodidata, sua instrução fez-se por meio de muitas leituras – lia e escrevia francês fluentemente. Exerceu a profissão de professora primária, tendo sido aprovada em primeiro lugar para a vaga do concurso público estadual em 1847 para mestra régia. Aposentou-se em 1881. Um ano antes da aposentadoria, fundou a primeira escola mista no Maranhão, tendo esta funcionado até 1890. Além disso, a escritora foi presença constante na imprensa local, publicando poesias, ficção, crônicas e até enigmas e charadas. Também criou o Hino à libertação dos escravos. Trouxe a público dois romances: Gupeva, em 1861, de temática indianista, e Úrsula, em 1859, no qual aborda a escravidão a partir do ponto de vista do outro. Solteira, cega e pobre, faleceu em 11 de novembro de 1917, aos 92 anos, na companhia de Leude Guimarães, um de seus filhos de criação. Voltando ao romance Úrsula, o tempo e o espaço são indeterminados, porém a história está contextualizada no ambiente rural do Maranhão e se passa à 14 época em que foi escrita e publicada, 1859. Também há um capítulo (XV) que se passa em um convento, provavelmente na capital, já que o nome e a localização são suprimidos pela autora, identificando-o apenas como Convento de ***1. A técnica utilizada para a construção do romance é a de encaixe de narrativas, nas quais as personagens contam suas vidas. A narrativa é em terceira pessoa, o narrador é um observador que se posiciona com intenções oniscientes. As personagens são: 1º grupo: Úrsula e Tancredo de***, protagonistas; Fernando P... (o comendador), antagonista; 2º grupo – secundários: Túlio, Susana e Antero, os negros escravos; Luísa B..., mãe de Úrsula; os pais de Tancredo; Adelaide, ex-noiva de Tancredo; e o padre F..., capelão da fazenda de Fernando P.... O ponto de vista é declaradamente antiescravista, apoiado enfaticamente nos conceitos religiosos e amenizado no discurso social. A obra é composta por um prólogo, vinte capítulos e epílogo, que serão descritos em resumo a seguir: No Prólogo Maria Firmina dos Reis (2004, p. 13) diz que seu romance é “mesquinho e humilde” e “que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros, e ainda assim o dou a lume”, nota-se que ela reconhece a sua condição de mulher, vista como inferior ao homem e, por isso, o seu livro poderia ser desprezado, mas com essa atitude de humildade espera ter seu romance aceito. 2.1 ENREDO O primeiro capítulo é intitulado “Duas almas generosas”, no qual o narrador descreve o universo da narrativa e apresenta as personagens Tancredo e Túlio. Tancredo sofre uma grave queda de cavalo e ali fica desacordado até que “nesse comenos alguém despontou longe [...] porque seus passos para ali se dirigiam, como se a Providência os guiasse!” (REIS, 2004, p. 21). Este alguém era Túlio, o jovem escravo que fica comovido com a situação do cavaleiro e ajuda-o a recobrar 1 No romance Úrsula, a autora optou por não revelar o sobrenome das personagens, nem dos ambientes. Em vez disso, ela fez uso de reticências (Luisa B..., por exemplo) ou de asteriscos (Convento de ***) para representar esses nomes. Em capítulo posterior, trataremos desse aspecto. 15 os sentidos porque “as almas generosas são sempre irmãs”. Túlio leva Tancredo para a casa de sua senhora (Luísa B..., mãe de Úrsula) e nesse capítulo é apresentada ao leitor a positividade moral do texto, representada nas duas personagens. No segundo capítulo, “O delírio”, Tancredo, já na casa de Luisa B... é acometido por delírios e fala por meio de “palavras entrecortadas, gemidos, e gesticulações desordenadas” sobre Adelaide, ora com amor, ora com ódio, sem deixar claro quem ela é. Ouvindo essas declarações imprecisas, Úrsula fica angustiada porque no seu coração já tinha brotado o amor pelo mancebo. No terceiro capítulo, “A declaração de amor”, Tancredo, aos poucos, recobra as forças e atribui sua melhora aos cuidados do jovem negro e da formosa donzela. Tancredo alforria Túlio e preparava-se para seguir a sua viagem. Angustiada pela futura ausência de Tancredo e Túlio, Úrsula vai para o lugar que ela considera seu refúgio de reflexões e é surpreendida por Tancredo que lhe declara o seu amor e, nesse momento, ela pede explicações sobre quem é Adelaide. Do quarto ao sétimo capítulo, Tancredo conta para Úrsula a história da sua vida até o dia em que sofreu o acidente e conheceu Túlio. Fala que se separou da mãe durante muito tempo para estudar Direito e que no seu retorno conheceu Adelaide (parente de sua mãe), apaixonou-se por ela e quis desposá-la, mas que o seu pai não aceitava a união dos dois. Quando o pai resolveu aceitar o casamento de Tancredo, colocou algumas condições: ele teria de passar um ano longe da sua mãe e de Adelaide e só voltar quando pudesse entregar-lhe uma ordem para assumir a chefia na comarca de***. Tancredo ausenta-se acreditando na promessa do pai de cuidar da sua mãe e de sua amada. Nesse ínterim, seu único alento eram as cartas recebidas de Adelaide que, com o tempo, cessaram de chegar. Tancredo adoece e vai tratar-se em outra cidade e quando volta fica sabendo, por meio de uma carta, que a sua mãe morreu. Quando finalmente chega à sua casa, encontra Adelaide como esposa do seu pai e grande é a fúria de Tancredo contra ele. Foi sobre essa situação que ele estava pensando quando sofreu o acidente no início do livro. No oitavo capítulo, “Luísa B...”, Úrsula e Tancredo contam a Luísa B... que se amam e querem se casar. Ouvindo isso, emocionada, Luísa vai relatar todo o seu infortúnio desde sua relação fraternal com Fernando P... até o seu casamento com Paulo B..., noivo que seu irmão considerou inferior e o matou. Depois disso, 16 comprou as dívidas da família de Luísa para tornar-se proprietário da irmã e da sobrinha. No nono capítulo, “A preta Susana”, Tancredo e Túlio estão com todos os preparativos da viagem prontos. Nesse momento, aparece a velha escrava Susana “que lhe serviu de mãe” e tem uma conversa com o jovem negro sobre o que realmente é ser livre e diz: “Tu, tu livre, ah não me iludas!” (REIS, 2004, p. 114). E é durante essa conversa que é resgatada a narrativa da história de Susana, dos tempos que era livre na África até o dia em que foi capturada pelos “bárbaros” e a sua trajetória do seu país até o Brasil, no “cemitério” cotidiano do porão do navio negreiro. No capítulo X, “A mata”, depois que Tancredo parte com Túlio, Úrsula vai à mata refletir, e ouve um tiro de “arcabuz” disparado bem junto dela e logo depois um homem estranho aparece e fica contemplando sua beleza. Quando tenta ir embora, é abordada pelo caçador que implora: “Em nome de vossa mãe, não fujas, Úrsula” (REIS, 2004, p. 126). Perturbada com aquele homem que sabe seu nome e que ela não conhece, tenta mais uma vez sair dali e ele diz-lhe que a ama.No capítulo XI, “O derradeiro adeus”, Úrsula fica perturbada com o que aconteceu na mata e considera que houve um presságio. Após alguns dias, um escravo vem trazer uma carta de Fernando P... para Luísa B... dizendo que eles iriam se ver e avisa que ele logo chegará. Logo depois, ele chega na casa delas e Úrsula o reconhece como o homem da mata que é também o seu tio. Desesperada pela repulsa e terror que sente por aquele homem que foi o responsável por todo o infortúnio de sua família, incluindo o assassinato de seu pai, ela sai sem rumo e só volta para casa ao ser chamada pela preta Susana avisando que sua mãe está morrendo. No capítulo XII, “Foge”, Luísa pede à filha que fuja. Úrsula conta-lhe que o conheceu na mata, que ele se declarou para ela. Sua mãe diz-lhe que Fernando foi à cidade de*** buscar um sacerdote para realizar a união entre ele e Úrsula. Ela reluta mas sua mãe insiste pra que ela fuja e tema a cólera de Fernando, sobretudo tema e repila seu amor desenfreado e libidinoso. Nesse instante, Luísa B... morre nos braços da filha e na manhã seguinte é enterrada no cemitério Santa Cruz. No capítulo XIII, “O cemitério de Santa Cruz”, Úrsula “desatinada por tantas dores, depois de vagar incerta no caminho que queria seguir” (REIS, 2004, p. 155), 17 chega ao cemitério e de joelhos beija a terra úmida do túmulo em que se encerravam os restos de sua mãe. Não suportando a dor e a saudade, desmaia. É, então, encontrada por Túlio e Tancredo, este a acorda e juntos oram pelo descanso eterno de Luísa B.... No capítulo XIV, “O regresso”, é explicado como Tancredo e Túlio souberam que Úrsula estava no cemitério. Na volta deles, Túlio conta a Tancredo os sofrimentos que ele e sua mãe viveram quando eram escravos de Fernando P..., o comendador, e que seus sofrimentos foram aliviados quando foi morar com Luísa B..., mesmo tendo sido separado de sua mãe biológica. Túlio chora desconsertado, com as lembranças. Ao chegarem à casa de Luísa B..., Susana comunica-lhes da morte da matriarca, da visita do comendador e de suas intenções para com Úrsula, a qual está no cemitério Santa Cruz onde eles a encontram. No capítulo XV, “O convento de ***”, há um retorno ao momento de oração no cemitério para poder prosseguir na narrativa. Úrsula pede para que fujam, Tancredo fica assustado, mas obedece. Eles conversam e ela por alguns instantes esquece seus infortúnios e fica feliz. No alvorecer do dia seguinte, Tancredo leva Úrsula para o convento de Nossa Senhora da ***, na cidade de ***. Lá, pede que as virgens, dedicadas ao Deus do Calvário, cuidem dela até a realização do casamento deles. No capítulo XVI, “O comendador Fernando P...”, aparece logo no início a figura do padre. Fernando retorna da cidade pronto para ser tutor ou marido de sua sobrinha, caso encontrasse Luísa morta. Por isso, passa em sua fazenda e procura o capelão. Não o encontrando, segue na direção da saída, quando o encontra no caminho e recebe a notícia da morte de sua irmã, Luísa B... Diante do exposto, ele sai desesperado à procura de Úrsula. Chegando à fazenda de sua irmã, encontra a preta Susana, que lhe informa que Úrsula não está, que foi ao cemitério orar. Desesperado, ele segue em direção ao cemitério e não encontrando Úrsula, seu coração se enche de ódio e sentimento de vingança pela velha escrava, que em sua certeza o ludibriou. Desse modo, Fernando retorna a sua fazenda e manda o feitor buscar a escrava Susana. Ele se nega, é demitido e corre para avisar a escrava que fuja. No entanto, ele já a encontra vindo escoltada por dois negros e acompanhada pelo padre. Susana nega-se a fugir justificando que os inocentes não fogem. O comendador providencia o cativeiro, e a escrava em menos de dez minutos chega. 18 Por várias vezes o comendador aplica-lhe castigos para que ela revele o paradeiro de Úrsula, mas todas as vezes ela nega veementemente, nem mesmo quando acorrentada a pão e água, preferia morrer a denunciar sua senhora. No entanto, um dos escravos chega e revela ao comendador o paradeiro de Úrsula. Ele lança seu ódio sobre a velha escrava e, apesar de o padre tentar interceder por Susana, não é ouvido e é repreendido por Fernando que vocifera palavras de ódio e vingança a Úrsula. No capítulo XVII, “Túlio”, são narrados os últimos momentos que antecedem a cerimônia de casamento de Tancredo e Úrsula e a captura de Túlio pelos escravos do comendador. Antes de Tancredo ir ao encontro de Úrsula, para que no convento de *** seja realizado o casamento, procura Túlio e não o encontra, o que o deixa surpreso. Ele manda procurá-lo e, não o encontrando, segue com amigos para o convento. No convento, o jovem advogado fica emocionado ao ver sua noiva acompanhada pelas jovens religiosas, trajando “um simples vestido de seda preto”. Enquanto a cerimônia se realizava, Túlio sofria com os castigos do comendador para descobrir a verdade sobre Úrsula e Tancredo, sempre vigiado por um velho escravo, de nome Antero, responsável por qualquer tentativa de fuga de Túlio. Por fim, o sacerdote dá a bênção, e o casal recebe as felicitações dos amigos que os acompanharam. No capítulo XVIII, “A dedicação”, Antero, escravo do comendador, cuida da vigilância de Túlio, em uma casa abandonada, cumprindo fielmente as ordens de seu senhor. Túlio, em sua prisão, porta-se com certa resignação. Muito abatido, sofre com os maus tratos, pensa todo o tempo em seus amigos e em como fugir dali. Na ocasião, Antero reclama da secura da garganta, Túlio, aproveitando a saída do comendador, oferece dinheiro ao velho para comprar bebida. Antero aceita, compra a cachaça e passa a beber freneticamente, cai ao chão e Túlio, antes de fugir, prepara um estratagema para o velho escravo não ser culpado por sua fuga. Túlio, já livre, corre ao encontro dos noivos e de longe avista um coche que está partindo a trote largo, e outro, parado. Por isso, ele corre para que dê tempo de avisar aos noivos, porém, ao aproximar-se, é atingido por dois tiros. Nesse instante, Tancredo sai ao encontro de Túlio e é cercado pelo bando do comendador, Úrsula ainda grita, pedindo clemência ao tio e desmaia. Após essa cena de súplica, cai aos pés de Fernando. Tancredo, vendo a esposa desmaiada aos pés do comendador, abaixa-se, toma-a em seus braços e a beija pela última vez. Fernando 19 sente-se afrontado, os dois brigam e o comendador crava-lhe no peito um punhal. Úrsula, ao despertar, joga-se sobre seu amado e ouve-lhe o último suspiro. No capítulo XIX, “O despertar”, Fernando P... já não sabe mais o que sente, pois parece que seu amor perdera-se e ele já não sonhava com vingança. Após algumas noites do ocorrido, Úrsula dorme um sono agitado, nem a dor, que despedaça sua alma a tinha arrancado desse doloroso torpor. O comendador a contempla, ajoelhado ao pé de sua cama, numa atitude de desespero, mas a adora como uma santa, sem tocá-la. Ele tenta acordá-la. Ela abre os olhos e solta um grito fulminante que o faz estremecer de angústia. Com isso, Fernando P... reconhece que estava sendo punido, pois a presença e o estado mental de Úrsula o matavam aos poucos. No capítulo XX, “A louca”, o sacerdote faz uma retrospectiva dos crimes que o comendador cometera. Fernando P... ouve cabisbaixo e só reage quando o padre o aconselha. Pede ao sacerdote que o leve até o quarto da donzela, mas, no limiar da porta, não se atreve a entrar. Úrsula sorri debilmente. Com a cena, Fernando P... fecha os olhos, agarrando-se à porta para não cair. Úrsula repetia palavras insistentemente. Assim passou seus últimos instantes, sempre falando com Tancredo comose ele ali estivesse ou repetindo as últimas palavras ditas ao comendador antes de Tancredo morrer. O sacerdote acena para o comendador, que assiste a tudo imóvel e pálido, e pede que se ajoelhem aos pés da infeliz louca, que entregava a alma ao criador. Úrsula, no transe eterno, cruza as mãos sobre o peito, suspira e morre. No Epílogo, dois anos se passaram dos acontecimentos narrados. Na província, ninguém lembra mais das mortes e atrocidades cometidas por Fernando P... O único que poderia testemunhar calou-se. Sabe-se que o comendador Fernando P. termina seus dias em um convento de Carmelitas, sem que ninguém conhecesse seu passado. Adota o nome de Frei Luis de Santa Úrsula e, somente na hora da extrema-unção, revela a sua identidade. No delírio de morte, pede perdão de seus pecados. Igual fim tem Adelaide, mesmo tendo casado novamente após a morte de seu marido, vive infeliz e tomada pela culpa. 2.2 O ROMANCE ÚRSULA E SUAS VERTENTES 20 Para fins desta pesquisa, realizou-se um levantamento bibliográfico de fontes – críticas e análises sobre o romance e a autora em estudo –, documentos em bibliotecas, arquivos públicos e acervos eletrônicos. Desse modo, foram encontrados diversos artigos científicos, publicações em anais de congressos e encontros, publicações em revistas, dissertações de mestrado e tese de doutorado. Nesse sentido, as investigações e análises feitas que tematizam o romance e/ou a autora dirigem-se para diversos aspectos: a imagem do negro; a construção do negro; a figura da preta Susana; gênero, representação e literatura; história; estética e ideologia; gênero e etnicidade; afro-brasilidade; abolicionismo. As primeiras publicações de estudos a respeito do romance e da autora só começaram a ser feitos e publicados praticamente dois séculos depois de sua publicação, já nos anos 2000. Isso por causa da invisibilidade em que a obra esteve durante muitos anos, e somente após a recuperação da obra da escritora, em 1973, em pesquisas de José Nascimento Moraes Filho e com a publicação da edição fac- similar de Úrsula em 1975, preparada por Horácio de Almeida, é que Maria Firmina e seu romance Úrsula começaram a ser objetos de estudo de alguns pesquisadores. Um dos estudiosos que deu e dá maior visibilidade a Maria Firmina e sua obra é o pesquisador, professor aposentado da UFMG, Dr. Eduardo de Assis Duarte que, mantendo vínculo voluntário com a UFMG, atua como professor colaborador do Programa de Pós-graduação em Letras e coordena o grupo de pesquisa Afrodescendências na Literatura Brasileira (CNPq2) e o literafro, Portal da Literatura Afro-brasileira, com informações biobibliográficas, críticas e excertos de mais de 100 autores, entre eles, Maria Firmina dos Reis. No artigo de Eduardo de Assis Duarte (2004) – Maria Firmina dos Reis e os primórdios da ficção Afro-brasileira –, ele traz uma análise do livro Úrsula, no qual prevalece a afirmação de que pela primeira vez na literatura brasileira há a voz dos escravizados no discurso do outro. Desse modo, ele qualifica Úrsula como uma desconstrução, não apenas da primazia do abolicionismo branco, masculino e senhorial, mas também como “o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira”, e como “o primeiro romance da literatura afro-brasileira” (DUARTE, 2004, p. 279), já que Maria Firmina é afrodescendente. Ele mostra ainda como o romance 2 Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. 21 tematiza o assunto negro a partir de uma perspectiva interna em que mostra verdadeiramente a condição do negro em nosso país. As colocações de Eduardo de Assis Duarte são comprovadas com uma leitura mais acurada do romance, já que muitas das ideias que ele atesta não são perceptíveis em uma primeira leitura. No artigo de Algemira de Macedo Mendes (2008) – Maria Firmina dos Reis: um marco na literatura afro-brasileira do século XIX – a autora faz um breve passeio sobre a literatura maranhense antes de Maria Firmina e analisa Úrsula, mostrando que os escritos, às vezes ultrarromânticos, característica do estilo da época em que Maria Firmina viveu, considerados, à primeira vista, tolos e açucarados, mencionam assuntos negados por seus contemporâneos e revela a veia abolicionista articulada com o contexto das relações econômicas, sociais e culturais da época. A articulação a que Algemira de Macedo Mendes se refere é a postura política abolicionista em defesa dos escravos em contraponto ao posicionamento passivo da sociedade ante a escravidão. O que fica mais uma vez reafirmada é a representação real de afro-brasileiros conscientes de sua condição enquanto indivíduo, já que à época esse direto lhes era negado. Atualmente, a obra instiga diversas áreas de estudo, pois trata de temas como a escravidão, a mulher afrodescendente, o sistema escravocrata brasileiro, propiciando um leque de temas. Por ter tratado tantos assuntos diferentes em sua obra, e de um ponto de vista diferente de seus contemporâneos, e pelos anos de silêncio literário em que a obra e a autora ficaram envoltas, ainda há muito que ser investigado e estudado. 22 3 A SUBVERSÃO DO IMAGINÁRIO LITERÁRIO Um romance brasileiro, no ano de 1859, escrito por uma mulher aos 35 anos, autoditada, professora, mulata, pobre, maranhense cujo enredo do livro tratava sobre a história de um casal apaixonado vivendo numa sociedade aristocrata que se utilizava do trabalho escravo para realizações de diversas atividades pesadas. Esses mesmos escravos não eram vistos, pela grande parte da população, como seres humanos, mas, no romance, tiveram a oportunidade de se expressar. Desse modo, a autora traz uma contribuição inovadora para a época. Entretanto, a denúncia de Maria Firmina talvez não tenha sido percebida pelos seus leitores na época, embora o lançamento do seu livro tenha uma certa importância para a sociedade local, inclusive a imprensa da época fez menção, como podemos constatar por meio do jornal A moderação, de 11 de agosto de 1860, o qual trazia a seguinte notícia: Úrsula – Acha-se à venda na Tipografia do progresso, este romance original brasileiro, produção da exma. Sra. D. Maria Firmina dos Reis, professora pública em Guimarães. Saudamos a nossa comprovinciana pelo seu ensaio que revela de sua parte bastante ilustração; e, com mais vagar emitiremos a nossa opinião, que desde já afiançamos não será desfavorável à nossa distinta comprovinciana ( MORAIS FILHO apud MENDES, 2006, p. 39). A “visibilidade” (já que na época o maior meio de comunicação era a imprensa escrita, ou seja, o jornal) que o romance firminiano obteve no período de sua publicação não se prolongou muito, tendo em vista que o livro Úrsula ficou na escuridão até o ano de 1975, quando Horácio de Almeida preparou a edição fac- similar. Portanto, mesmo a imprensa local noticiando, para alguns leitores, e indicando onde se achava à venda, o romance era apenas mais um sobre uma história de amor que não teve um final feliz. Foi com ousadia que Maria Firmina dos Reis escreveu esse romance numa sociedade machista, aristocrática, preconceituosa e conservadora no estado do Maranhão, porém, ainda assim, no prólogo do livro ela demonstra que é conhecedora da situação inferior na qual as mulheres viviam e diz: “Sei que pouco vale este romance, porque escrito por mulher e mulher brasileira” (REIS, 2004, p.13), de modo que o trouxe a lume e não se intimidou por ser de educação humilde. 23 Se Firmina foi corajosa ao escrever seuromance, caberia também ao seu público leitor entender as críticas contra o regime da escravidão que tem grande destaque no livro, porque a história de amor entre a pura e inocente Úrsula e o bacharel Tancredo é apenas o pano de fundo da narrativa que na verdade quer evidenciar os sofrimentos e amarguras dos escravos, dando-lhes vez de falarem e serem vistos como seres humanos. Entende-se, então, que o romance Úrsula deve ser lido observando as entrelinhas. Entretanto, quem seria o público leitor de romances na época da publicação de Úrsula que é considerado o primeiro livro escrito por mulher no Brasil? O romance romântico brasileiro dirigia-se a um público mais restrito do que o atual: eram moços e moças provindos das classes altas, e, excepcionalmente, médias; eram profissionais liberais da corte ou dispersos pelas províncias: eram, enfim, um tipo de leitor à procura de entretenimento, que não percebia muito bem a diferença de grau entre um Macedo e um Alencar urbano (BOSI, 1994, p.128). Portanto, eram essas as pessoas que iriam ler um romance escrito por uma mulher que aparentemente era adocicado e romanesco como os demais, mas que tinha imbuído em suas páginas um discurso abolicionista que criticava fortemente a forma como a sociedade estava articulada naquela época. Contudo, o trecho acima diz que esses leitores estavam em busca de entretenimento e, por isso, não estavam muito atentos às denúncias presentes nas entrelinhas do livro, ou seja, não percebiam que a linda história de amor que não teve final feliz era apenas um pretexto para que o assunto de maior importância do livro, que eram as ideias abolicionistas, viesse à tona e fosse abordado sem causar tanta estranheza. Conhecendo a estrutura da sociedade do seu tempo em que o negro não era visto como ser humano, que tinha terra natal, família, história, cultura e sentimentos, que a sociedade escravocrata e patriarcal o concebia apenas como animal capaz apenas de fazer serviços braçais e pesados, Maria Firmina resolveu dar voz aos desprezados e oprimidos em Úrsula e permitiu que eles falassem das suas angústias e sofrimentos no desenrolar do romance. Maria Firmina permite ainda que os escravos, vistos até então só como vítimas de um sistema opressor, dominante e agressivo, contem suas memórias de uma época em que podiam gozar a liberdade no seu país e que foram felizes com a sua família (caso da preta Susana, capítulo IX); lembrem-se de forma nostálgica da 24 África, onde a festa do fetiche permitia que durante um dia na semana não se trabalhasse, sendo um dia apenas de diversão em que brincavam e bebiam, (como fala Antero) (REIS, 2004). E ainda Firmina coloca como parâmetro de elevação moral o jovem escravo Túlio, que tem sua liberdade comprada por Tancredo depois de salvá-lo, mas que recebeu de Susana conselhos em que ele não seria livre num país em que os negros eram escravos. A subversão de valores e do imaginário literário presente no romance Úrsula é que os negros são vistos na obra como pessoas portadoras de sentimentos e emoções, capazes de expressarem suas vontades e principalmente os escravos em destaque (Antero, Túlio e Susana) estão totalmente fora dos estereótipos vistos na literatura da mesma época. Nesse sentido, o que Maria Firmina faz é deixar que a África apareça como o lugar em que eles foram capturados e também como seu lugar de origem. Há neles uma reivindicação estética e outra ideológica de visibilidade literária, humana e social. Muito diferentemente das narrativas tradicionais que abordaram o negro no século XIX no Brasil, no romance Úrsula há originalidade expressiva, por eles (os negros) aparecerem ligados à identidade africana e não apenas como mercadoria ou escravo sofredor das imposições escravocratas (NASCIMENTO, 2009, p. 105). A escritora é original e arrojada ao subverter a imagem construída sobre o negro ao longo dos anos no Brasil e apresentá-lo de uma forma diferente da que era usual na época. A citação acima é bem clara a respeito da ideia da identidade africana, o que foi um fato inovador. Desse modo, o negro foi retratado como afrodescendente e visto também pelas suas particularidades, individualidades como ser humano que tem valores morais, espirituais, afetivos e que não é animalesco, e que não foi criado exclusivamente para a escravidão. Primorosamente, a autora contextualiza a questão da África, a forma como foram capturados brutalmente e a maneira como eram felizes antes de serem escravos no Brasil. Esses detalhes não eram vistos nas produções literárias brasileiras desse período. Interessante mesmo é a questão do local de origem da África visto como lugar onde eram felizes e aqui, no Brasil, para eles, era sinônimo de frustração, amarguras e tristezas. O escravo, para Maria Firmina dos Reis, possui individualidade, não é passivo diante da escravidão, mas argumenta contra ela e tem coragem para falar 25 que só na África conheceu a liberdade e lembra-se da sua terra natal com saudosismo e nostalgia. Por meio de sua obra, Firmina conseguiu superar todas as barreiras que existiam na sociedade estratificada à qual pertencia, entre homens e mulheres, brancos e negros, pobres e ricos, legítimos e bastardos, livres e escravos, dominador e dominado, e assim fazer com que o seu discurso abolicionista fosse ouvido e assim vê, depois de alguns anos, a concretização dele com a abolição dos escravos em decorrência da lei Áurea, em 13 de maio de 1888, porque como está escrito “dia virá em que os homens reconheçam que são todos iguais” (REIS, 2004, p. 28). 3.1 A VISÃO LIBERTADORA DAS PALAVRAS Encontramos a definição de palavra como “manifestação verbal ou escrita; faculdade de expressar ideias por meio de sons articulados” (FERREIRA, 2000, p. 509). Ao longo da História, muitas pessoas utilizaram a palavra como instrumento de divulgação, manifestação e expressão de ideais. Com Maria Firmina dos Reis não foi diferente, ela utilizou as palavras, em um discurso sutil, para manifestar na escrita as suas ideias e expressar a sua visão quanto à escravidão. Nessa perspectiva, escreveu um romance em que não há peripécias no enredo e que a sua heroína Úrsula não é diferente das outras heroínas dos romances do século XIX, pois ela é descrita com o ideal de beleza das moças do período romântico e “enlouquece em consequência das atrocidades que sofre: é raptada após assistir o assassinato do noivo à porta da igreja” (ZOLIN, 2009, p. 231). A própria autora apresenta as seguintes características de Úrsula: Úrsula, a mimosa filha de Luíza B..., [...] Bela como o primeiro raio de sol [...] Era ela tão caridosa... tão bela... e tanta compaixão lhe inspirava o sofrimento alheio, que lágrimas de tristeza e de sincero pesar se lhe escaparam dos olhos, negros, formosos, e melancólicos. [...] Úrsula era ingênua e singela em todas as suas ações (REIS, 2004, p. 32-33). 26 Seguindo o padrão das obras do período e mesmo não diferindo no tema em relação a outros romances, essa história serviu como pano de fundo para que a autora apontasse: “[...] o caminho do romance romântico como atitude política de denúncia de injustiças há séculos presentes na sociedade patriarcal brasileira e que tinha no escravo, no índio e na mulher suas principais vítimas” (MENDES, 2006, p. 44). Nesse sentido, só se pode entender que atitude política de denúncia e injustiças há no romance de Maria Firmina, em especial relacionada ao escravo, quando se estabelece uma relação com o período Histórico que o Brasil vivia. E, segundo Figueira (2005), a escravidão no Brasil começou após a chegada deCabral, em que portugueses e franceses escravizaram o nativo (o índio) e, paralela a esta, a escravidão dos negros com a vinda dos africanos a partir de 1550. Em 1570, a Coroa proibiu a escravização dos índios, os quais também contavam com a proteção dos jesuítas que tencionavam catequizá-los. Então os colonizadores passaram a recorrer cada vez mais à mão de obra africana. Foi no decorrer do século XVI, com a colonização da América, que o tráfico tornou-se mais intenso, e a partir do ano de 1570 chegavam cerca de dois mil cativos africanos à colônia portuguesa por ano. Com a conquista da América, o tráfico negreiro através do Atlântico chegaria a 11.313.000 escravos, entre os séculos XVI e XIX. Em 1859, ano de publicação do romance Úrsula, o Brasil vivia ainda o período da escravidão, que só seria abolida em 13 de maio de 1888 com a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel. Nessa década, o Brasil passava por um período de crescimento e modernização e mesmo assim ainda se mantinha como exceção no mundo, junto a Cuba e Porto Rico, manchando a sua História com a cadeia da escravidão. Dentro desse cenário social e político brasileiro foi que Maria Firmina dos Reis escreveu o seu romance romântico e desenvolveu o seu enredo. É no desenrolar da história de Firmina que vemos como as palavras libertaram o negro escravo, dentro do romance, da visão estereotipada da época. Nessa obra, a autora dá às personagens negras corpo e voz, diferentemente de outros romances do período, ela individualiza e não os estereotipa, não os coloca como escravos em geral, apenas vítimas da escravidão e por ela marginalizadas. Elas são movimentadas mais do ponto de vista externo, mas em alguns momentos 27 expressam atitudes e sentimentos marcantes, como a narração da velha preta Susana (REIS, 2004, capítulo IX, p. 111 a 119), em que a personagem expressa sentimentos internos profundos de tristeza e saudades da África. Quanto aos exemplos da postura de falar dos escravos, em geral ou de maneira estereotipada, há em várias obras do período, porém serão aqui abordadas as duas mais conhecidas: As vítimas-algozes – Quadros da escravidão (1869) de Joaquim Manoel de Macedo (1820-1881) e A escrava Isaura (1875) de Bernardo Guimarães (1825-1884). Em As vítimas-algozes, na introdução, o autor fala da escravidão como “árvore venenosa plantada no Brasil pelos primeiros colonizadores, fonte de desmoralização, de vícios e de crimes” (MACEDO, 2010, p. 17), e já coloca a condição do escravo como desmoralizado, viciado e criminoso, retratando os negros de maneira estereotipada e marginalizando-os, como no trecho do capítulo VIII da história Simeão, o crioulo3, primeira do livro: Mas no entanto Simeão era mais do que nunca ingrato e perverso. Não condeneis o crioulo; condenai a escravidão. O crioulo pode ser bom, há de ser bom amamentado, educado, regenerado pela liberdade. O escravo é necessariamente mau e inimigo de seu senhor. A madre-fera escravidão faz perversos, e vos cerca de inimigos (MACEDO, 2010, p. 40, grifos nossos). O negro é colocado pelo autor como era visto pelo branco burguês, racista e escravocrata da sociedade do século XIX: por ser escravo é perverso, ingrato, degenerado, brutal, corrupto, dado aos vícios e a embriaguez, desavergonhado nas palavras e nas ações, características de um “perfeito escravo” (MACEDO, 2010, p. 33). Ainda que em alguns trechos do livro o autor realmente humanize o negro, na maior parte das histórias está presente a depreciação da imagem deste, até involuntária ou inconscientemente, e a visão branco-burguesa-escravocrata. Macedo (2010) não se limita a essas descrições citadas acima, de cunho preconceituoso e racista, embora ele cresse que estivesse sendo ativamente antiescravista. Na conclusão da primeira história, Simeão, o crioulo, ele diz: Pois eu vos digo que Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso. [...] Entre os escravos a ingratidão e a perversidade fazem a regra; e o que não é ingrato nem perverso 3 Crioulos, chamavam aos afrodescendentes nascidos na América e chamavam negros aos nascidos na África. 28 entra apenas na exceção. [...] E a escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes. [...] Se quereis matar Simeão, acabar com Simeão, matai a mãe do crime, acabai com a escravidão (MACEDO, 2010, p. 74, grifos nossos). Macedo enfatiza, assim, nas entrelinhas, que nem ele percebeu a maldade e ingratidão crônicas presentes no homem negro, como os brancos escravistas assim acreditavam. Na segunda e terceira histórias, Macedo (2010) continua a desfiar o seu terço de preconceitos da visão do homem branco e escravista. Na segunda história, Pai-Raiol, o feiticeiro, ele diz: “o feitiço, como a sífilis, veio d’África” (MACEDO, 2010, p. 78) e prossegue: E sempre que puserdes a mão em um desses feiticeiros, encontrareis nele um negro escravo... ou algum seu iniciado. E tomai sentido e precauções: o escravo, não nos cansaremos de repetir, é antes de tudo natural inimigo de seu senhor; e o escravo que é feiticeiro, sabe matar (MACEDO, 2010, p. 83). O autor, na tentativa de um discurso antiescravista, permanece nessa visão racista e, na terceira história, Lucinda, a mucama, ele diz que “a escravidão influi sempre de perto ou de longe maleficamente sobre a vida das donzelas, perturbando e envenenando a educação dessas pobres vítimas” (MACEDO, 2010, p. 161). E para descrever que influência maléfica é essa, ele detalha o convívio da mucama com a senhora-moça: A mucama escrava se recomenda pois à menina, e ganha toda a sua confiança pela importância delicada, e até certo ponto confidencial, do mister que desempenha no toucador4; a mucama, embora escrava, é ainda mais do que o padre confessor e do médico da donzela: porque o padre confessor conhece-lhe apenas a alma, o médico ainda nos casos mais graves de alteração da saúde conhece-lhe imperfeitamente o corpo enfermo, e a mucama conhece- lhe a alma tanto como o padre, e o corpo muito mais do que o médico. [...] Alguns minutos apenas em cada dia, uma escrava, e de sobra uma só, a sua mucama que com uma palavra, o gesto, o elogio, a lisonja, a indiscrição, a petulância, e a protérvia5 dos seus vícios, dos vícios próprios da sua miserável condição de escrava, comprometerá, arruinará o grande empenho do vosso amor, plantará no coração de vossa filha a ciência do mal, muito antes do prazo em que o mundo lha devia ensinar (MACEDO, 2010, p. 161-162). 4 Móvel encimado por um espelho, e que serve a quem se penteia (FERREIRA, 2000, p. 678). 5 Insolência. Ibid. (2000, p. 564) 29 É, portanto, notório como o autor demoniza a mucama, colocando-a como responsável pelos pecados e maldades que a senhora-moça venha a cometer. Ficou evidente, nesses trechos citados das três histórias da obra de Joaquim Manoel de Macedo, que ele “apenas reforça o estereótipo do escravo como um ser despido de humanidade, receptáculo da maldade, da crueldade e da maledicência” (RUFFATO, 2009, p. 12). Já em A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães, percebemos que o tema escravidão mobilizou o escritor, porém na tentativa de fazer campanha antiescravista ele criou uma protagonista que é “uma personagem que em tudo seguia o padrão de beleza das heroínas importadas da França” (RUFFATO, 2009, p. 12). A personagem principal, que dá nome ao livro, é descrita da mesma maneira que as jovens idealizadas da sociedade da sua época, bem ao “gosto burguês”: Branca(mesmo sendo filha de uma mulata com um português), de cabelos pretos e ondulados, olhos escuros, linda, ingênua, pura, meiga, de beleza suprema, angelical, de alma nobre, pés e traços mimosos; uma típica “moçoila casadoira”: [...] uma bela e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenham distintamente entre o ébano da caixa do piano e as bastas madeixas ainda mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas que fascinam os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda análise. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça inefável o busto maravilhoso [...] Na fronte calma e lisa como mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo (GUIMARÃES, cap. I, p. 9-10). O autor ainda desmerece as outras escravas colocando-as numa posição de inferioridade se comparada à exaltação em alto grau de intensidade em que ele coloca as características físicas e morais de Isaura. Parte disso pode ser também visto no capítulo XII quando Isaura é mandada a fiar e tecer lã e algodão num “salão toscamente construído, sem forro nem assoalho, destinado ao trabalho das escravas” (GUIMARÃES, 2010, p. 41): Cônscia de sua condição, Isaura procurava ser humilde como qualquer outra escrava, porque a despeito de sua rara beleza e dos dotes de seu espírito, os fumos da vaidade não lhe intumesciam o coração, nem turvavam-lhe a luz de seu natural bom senso. Não obstante, porém, toda essa modéstia e humildade transluzia-lhe, 30 mesmo a despeito dela, no olhar, na linguagem e nas maneiras, certa dignidade e orgulho nativo, proveniente talvez da consciência de sua superioridade, e ela sem o querer sobressaía entre as outras, bela e donosa, pela correção e nobreza dos traços fisionômicos e por certa distinção nos gestos e ademanes6. Ninguém diria que era uma escrava, que trabalhava entre as companheiras, e a tomaria antes por uma senhora moça, que, por desenfado, fiava entre as escravas. Parecia a garça-real, alçando o colo garboso e altaneiro, entre uma chusma de pássaros vulgares (GUIMARÃES, 2010, p. 45, grifos nossos). O autor coloca Isaura como garça-real e as outras escravas, negras, crioulas e mulatas, como “chusma de pássaros vulgares”. Isaura chama a atenção em meio as outras justamente pela sua beleza nos padrões branco-burguês. Embora a proposição do autor tivesse sido o discurso antiescravista, ele errou na dose de sua protagonista, exaltando-a demais em suas características totalmente brancas e nobres, em contraposição às características e à origem dos outros escravos, colocadas por ele como “ralés” (GUIMARÃES, 2010, p. 42). Isaura é colocada como vítima, não pela condição de um ser humano escravizado, porém por ser injustamente condenada à escravidão e não poder fazer parte da sociedade, dos saraus, das festas, escondendo seus dotes, não só físicos, mas da educação erudita que recebeu de sua senhora, dando a entender, implicitamente, que se ela fosse negra e sem dotes físicos poderia continuar escrava. A obra citada de Bernardo Guimarães, A escrava Isaura, teve êxito no período de sua publicação justamente por agradar à sociedade da época. Um século depois fez grande sucesso após ganhar uma adaptação para a televisão, no ano de 1976, na Rede Globo, no horário das 18h, tendo como protagonista a atriz Lucélia Santos que, devido ao grande sucesso da personagem Isaura, ganhou muitos prêmios no exterior. O autor da adaptação para a televisão, Gilberto Braga7, afirmou8 que a sugestão para adaptar o romance de Bernardo Guimarães partiu de sua professora de português dos tempos de ginásio e que quando ele leu ficou certo de que aquela história era perfeita para uma novela. 6 Acenos, gestos, sinais. Trejeitos (FERREIRA, 2000, p. 15). 7 Autor de novelas desde 1973, na Rede Globo. 8 Trecho retirado de “No memorial Globo de dramaturgia”. Disponível em <http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-224258,00.html>. Acesso em 29 març. 2013. 31 No final de 1985, a novela Escrava Isaura já havia sido vendida a 27 países. Mesmo 40 anos após sua estreia, ainda está na lista das novelas mais comercializadas no exterior; já foi exibida sete vezes na França, cinco na Alemanha e três na Suíça e chegou a países africanos como Congo, Gabão, Gana e Zimbábue. Entre dezembro de 1979 e janeiro de 1980, a novela foi reapresentada num compacto de 30 capítulos, reeditados por Ubiratan Martins. A partir de setembro de 1982, foi ao ar dentro do programa TV Mulher. Em 1990, a reprise de Escrava Isaura encerrou o Festival 25 Anos da TV Globo. Todo esse grande êxito, no Brasil e no exterior, foi responsável pelo sucesso de venda da versão da obra de Bernardo Guimarães para o chinês. As obras descritas acima foram citadas para que seja perceptível a diferença na sutileza das palavras de Maria Firmina dos Reis quando manifesta as suas ideias sem ofender os leitores do século XIX. O narrador porta-se sem radicalismo, buscando a harmonia, mas revelando a situação do escravo como a maior injustiça perante Deus e os homens. Ao ler Úrsula o leitor depara-se com uma tênue diferença que, numa primeira leitura, poderá passar despercebida: a maneira como ela coloca as personagens negras na trama. No romance, as personagens protagonistas são brancas, e as negras são todas secundárias, mas muito significativas, já que através delas são abordadas questões fundamentais, como a problemática da escravidão negra. São as personagens negras e escravas que fazem com que o romance adquira um tom de denúncia, assim como expressa sentimentos de igualdade, fraternidade e liberdade, misturados a resignação e revolta. Enquanto outros autores da literatura do século XIX punham mordaças nas bocas dos negros, Maria Firmina lhes dá voz, para expressarem suas angústias e anseios na terra estranha (MENDES, 2006, p. 98). Ela proclama, dentro de um enredo totalmente receptivo para a época, a sua revolta contra a escravidão. No início do romance, para denunciar a escravidão a autora utiliza-se do discurso do branco que é de cunho religioso: “ama a teu próximo como a ti mesmo –, e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante!” (REIS, 2004, p. 23). E continua o seu discurso antiescravista através do protagonista Tancredo: [...] dia virá em que os homens reconheçam que são todos iguais. Túlio, meu amigo, avalio a grandeza de dores sem lenitivo, que te borbulha a alma, compreendo a tua amargura... O branco desdenhou a generosidade do negro, e cuspiu sobre a pureza dos seus 32 sentimentos! Sim, acerbo deve ser o seu sofrer, e eles que o não compreendem (REIS, 2004, p. 28). Nessa obra, um branco, nobre, bacharel, coloca-se numa posição de igualdade com um negro escravo chamando-o de meu amigo e reconhecendo a pureza dos sentimentos deste. Em uma atitude surpreendente, ele fala palavras de gratidão, o que poderia não ocorrer na época, já que Tancredo como homem branco e nobre poderia exigir de Túlio, negro e escravo, que ele o ajudasse por obrigação de posição social. Antes disso, o jovem negro escravo, Túlio, respondendo ao questionamento de Tancredo sobre sua condição responde-lhe: “A minha condição é a de mísero escravo! Meu senhor – continuou – não me chameis amigo. Calculaste já, sondaste vós a distância que nos separa? Ah! o escravo é tão infeliz!... tão mesquinha, e rasteira é a sua sorte, [...]” (REIS, 2004, p. 27-28). E nesse momento ele é interrompidopor Tancredo que lhe fala palavras de revolta contra a escravidão, abominando-a e reprovando-a. Maria Firmina dos Reis não estereotipa em nenhum momento as suas personagens negras, muito menos as retrata de maneira heroica, ela as humaniza, dá-lhes personalidade, que são suscetíveis a fraquezas, como o escravo Antero (REIS, capítulo XVIII) “cujo maior defeito era a afeição que tinha a todas as bebidas alcoolizadas” (REIS, 2004, p. 205). Mas a personagem negra de maior destaque no romance é a preta Susana que tem um capítulo dedicado a ela: A preta Susana (REIS, capítulo IX). Nesse capítulo, a autora liberta a alma da escrava que passa a assumir o discurso e narra sobre a verdadeira liberdade, além disso, conta ao jovem Túlio, já alforriado por Tancredo, como era sua vida livre na África antes da captura e o traslado até o Brasil no navio negreiro: Liberdade! liberdade... ah! eu a gozei na minha mocidade! [...] ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. [...] dois homens apareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira – era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão. [...] a sorte me reservava ainda longos combates. [...] Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. [...] Para caber a mercadoria no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes 33 das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. [...] A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foram sufocadas nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades (REIS, 2004, p. 115-117). A preta Susana é, na obra, totalmente humanizada, tem saudades, sofre pela brutalidade com que foi tirada de sua pátria, de seu marido, de sua filha, de seus entes queridos, mas não se tornou embrutecida e nem vingativa como os negros de As vítimas-algozes. Assim, entre a positividade e a bondade do jovem afro-brasileiro Túlio, e a negatividade representada pela decadência do velho africano Antero, alcoolizado, a autora abre caminho para o discurso de Mãe Susana, elo vivo entre a memória ancestral e a consciência da subordinação (MACEDO, 2006, p. 104). Nessa perspectiva, o discurso da velha escrava preta Susana é pioneiro no Brasil, já que “só vamos encontrar semelhante no cotejo das memórias de Mahommah Gardo Baquaqua” (MENDES, 2006, p. 113), as quais estão dispostas no diário de “um africano escravizado no Brasil, e sua passagem para a condição de homem livre, nos Estados Unidos” (EVARISTO, 2009, p. 36). O diário de Baquaqua foi publicado em 21 de agosto de 1854, em Detroit – EUA. Desse modo, o-romance Úrsula, publicado em 1859, acaba conversando com esse diário em vários aspectos, em especial sobre as descrições do navio negreiro. Baquaqua diz: Fomos arremessados, nus, porão adentro, homens apinhados de lado e as mulheres do outro. [...] Oh! a repugnância e a imundície daquele lugar horrível nunca serão apagados de minha memória. [...] sofríamos muito por falta de água, que nos era negada na medida de nossas necessidades (BAQUAQUA, 2009, p. 208-209). Foi citada apenas essa passagem para mostrar um pequeno trecho em que a autobiografia de Baquaqua conversa diretamente com as lembranças da preta Susana. Quanto à Maria Firmina, embora tenha se definido “de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados, [...] com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida” (REIS, 2004, p. 13), escreveu de maneira perspicaz e conseguiu sutilizar o que realmente havia por trás do enredo de seu romance romântico, tanto que não foi realmente reconhecida e 34 muito menos percebida a intencionalidade de suas palavras em Úrsula, como pode ser verificado em uma publicação da imprensa da época: “É pena que o acanhamento mui desculpável da novela escrita não desse todo o desenvolvimento a algumas cenas tocantes, como as da escravidão, que tanto pecam pelo modo abreviado com que são escritas” (MORAIS FILHO apud MENDES, 2006, p. 39, grifos do autor). Ela soube utilizar as palavras certas, no enredo certo e com os ideais de liberdade intrínsecos na sua narrativa, sendo muito bem aceita à época de sua publicação, antecipando em seu discurso antiescravagista “o Castro Alves poeta dos escravos (cuja produção vai de 1876 a 1883), o Joaquim Manoel de Macedo de Vítimas-algozes (1869) e o Bernardo Guimarães da virtuosa Escrava Isaura (1875)” (DUARTE, 2009, p. 6), que eram reconhecidos como defensores da abolição, e sendo a pioneira na prosa romântica brasileira de cunho abolicionista. 3.2 LIBERDADE SUPRIMIDA DE CONCEITOS Uma das particularidades de Úrsula é o não uso dos sobrenomes nas personagens, todas são identificadas apenas pelos seus primeiros nomes (nomes próprios ou prenomes) acompanhados de uma letra e reticências ou três asteriscos: Úrsula e Tancredo de***, protagonistas; Fernando P..., antagonista; Túlio, Susana e Antero, os negros escravos; Luísa B..., mãe de Úrsula; os pais de Tancredo; Adelaide, ex-noiva de Tancredo; e o padre F..., capelão da fazenda de Fernando P.... Isso não deve ser visto como falta de criatividade da autora, mas como algo totalmente pensado para o propósito do romance. Pensar sobre a supressão de sobrenomes em um romance escrito em meados do século XIX em que tão importantes eram as identificações com os laços familiares – e o sobrenome como elemento de reconhecimento da família à qual pertencia o indivíduo, identificando-o no meio social, além de conduzir, através dos tempos, à reputação do grupo familiar – é no mínimo motivo de análise mais apurada. O nome próprio ou prenome distingue cada indivíduo, é por meio dele que o indivíduo é conhecido e reconhecido, permitindo que seja individualizado em meio a 35 muitos outros. Desde a antiguidade, nos primórdios das civilizações, Hebreus e Gregos eram identificados por um só nome, equivalente ao prenome nos dia de hoje, “Tal prática, todavia, foi sendo superada em virtude do crescimento populacional, que acabou impondo a adoção de nomes complementares para evitar a homonímia9 e alcançar uma identificação efetiva” (SIQUEIRA, 2010, p. 14). Com isso, foram acrescidos os sobrenomes ou patronímicos que “é elemento a compor o nome civil que identifica a família a que pertence o indivíduo” e “que este deve ser correlato dos apelidos de família dos genitores” (SIQUEIRA, 2010, p. 22). As regras que visavam à proteção dos sobrenomes foram evoluindo ao longo do tempo e só alcançaram importância no final do século XIX, quando passou a ser entendido como Direto da Personalidade. Porém, em um primeiro momento não era obrigatório, servia apenas para evitar possíveis homonímias. A noção de obrigatoriedade do apelido de família no Brasil se confunde com as tradições reinóis10, trazidas pelos colonizadores portugueses, então afeitos à ideia de que a incorporação de sobrenomes importaria em demonstração de importância do grupo familiar, denotando bem-nascença (SIQUEIRA, 2010, p. 22). A citação acima demonstra que em meados do século XIX, período da publicação de Úrsula, os sobrenomes gozavam de grande importância na sociedade, o que se pode inferir com isso é que foi proposital a escolha de Maria Firmina em identificar as suas personagens apenas pelo prenome ou nome próprio e deixar o sobrenome incógnito. Como o nome humaniza e o sobrenome “traz consigo a função de identificaro indivíduo no meio social, além de conduzir através dos tempos a reputação do grupo familiar” (SIQUEIRA, 2010, p. 22), pode-se dizer que a autora suprimiu por escolha própria os sobrenomes até dos protagonistas, colocando-os, assim, em igual posição das demais personagens, principalmente dos escravos a quem ela quis humanizar e personalizar em sua obra. Isso torna-se mais claro em alguns momentos do romance, por exemplo: 9 São palavras (nesse caso, nomes) que têm a mesma pronúncia, e às vezes a mesma grafia, mas significação diferente (CEGALA, 2008, p. 311). 10 Reinóis – plural de reinol: natural do reino; próprio dele; aquele que nasceu em reino (FERREIRA, 2000, p. 593). 36 – Puro é o seu amor, minha pobre mãe! – animou-se a dizer a moça, rubra de pejo – é o esposo que meu coração tem escolhido. – Ele? – perguntou-lhe angustiada a receosa mãe, conchegando-se a si – ele? E sabes tu quem seja? Então o jovem cavaleiro, erguendo-se com dignidade exclamou: – Senhora, eu sou Tancredo de ***. – Tancredo de ***!!!... – exclamaram ao mesmo tempo mãe e filha; e depois um profundo silêncio reinou na câmara. (REIS, 2004, p. 106) Esse momento é de grande importância no romance, pois é quando Tancredo pede Úrsula em casamento à mãe dela, Luísa B..., e revela-se como alguém de um sobrenome ilustre, o que constrange Úrsula e a leva a pensar que ele não mais cumprirá a promessa de casamento feita, já que ele é primo delas, porém de distinto nascimento, diferente dela. O que fica visível é que nem nesse momento de grande importância no romance a autora explicita o sobrenome da personagem, apenas deixa subentendido que é de linhagem nobre. Ainda que os protagonistas do romance sejam brancos, ela não os coloca na posição de superioridade em nenhum momento e isso é visível, também, através do simples gesto de suprimir os sobrenomes e identificar as personagens em todos os momentos da narrativa apenas pelo seu primeiro nome e somente em alguns momentos citar o “sobrenome” com a primeira letra acompanhada de reticências ou três asteriscos. Também se pode entender essa escolha, já que se repete também com os nomes dos lugares – O convento de ***, capítulo XV –, como dando a possibilidade do enredo de seu romance se passar em qualquer lugar da sociedade da época, pois não é determinado o espaço da narrativa, identifica-se apenas contextualizada no ambiente rural do Maranhão e, provavelmente, passa-se à época em que foi escrita e publicada, 1859. Ainda se repete a supressão no capítulo XV e nos seguintes com o nome da cidade em que está situado o convento – cidade de *** – e na demanda do convento – convento de Nossa Senhora da ***. Isso se dá pela “consciência da negritude de Maria Firmina dos Reis” (DUARTE et al, 2011, p. 119) que possibilita uma visão social de oprimida, pois ocupava as camadas subalternas da sociedade brasileira, tendo assim o conhecimento e a percepção de que para alcançar os seus objetivos com a obra, se fazia necessário, além de dar voz e vez as personagens negras, colocá-las no mesmo patamar social das personagens brancas, individualizando-as através do seu nomes próprios (da não existência de sobrenome nos escravos, o que era normal), e 37 também na supressão dos sobrenomes nas personagens brancas, o que diferencia sua obra. Outra razão poderia ser para dar um tom de veracidade à obra, mostrando que a história aconteceu, mas os nomes foram suprimidos porque a história não foi conhecida pela sociedade à época. Tanto que o narrador, no epílogo, mostra que a única testemunha que podia falar sobre o assunto, ou seja, o padre Fernando P... calou-se e que o comendador permaneceu incógnito, utilizando outro nome, Frei Luis de Santa Úrsula, até a ocasião de sua morte. Mesmo tendo confessado seus crimes na hora de sua morte, isso se deu durante a extrema-unção, de modo que o padre que deve ter ouvido o seu relato, nada podia fazer por se tratar de uma confissão. Por isso, a autora pode ter adotado esse posicionamento porque não havia ninguém que pudesse legitimar os fatos narrados, não houve testemunhas que o comprovassem e não seria o narrador que iria revelar esse segredo. Sendo assim, suprimindo os sobrenomes e a indicação dos lugares, a história poderia se passar em qualquer lugar, inclusive no local onde estava o leitor. 38 4 HISTÓRIA DE UM PAÍS ESCRAVO Para compreender o valor e inovação presentes em Úrsula, em que sociedade cresceu sua autora e na qual foi produzida a referida obra, faz-se necessário perpassar a sociedade do século XIX em alguns de seus aspectos históricos, sociais e literários. Com a vinda de D. João VI e a corte real em 22 de janeiro 1808, para o Estado da Bahia, foi que o Brasil realmente passou por mudanças significativas em sua sociedade. A partir de então houve a abertura dos portos brasileiros às nações amigas (28 de janeiro de 1808), a permissão para instalar manufaturas (01 de abril de 1808) e a fundação do Banco do Brasil (12 de outubro de 1808). Depois disso, uma sequência de órgãos foram criados: a Imprensa Régia (1808); a biblioteca (1810) com os 60 mil volumes trazidos por D. João VI; o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1810); o Museu Real (1818); Missão cultural francesa, em que foram “convidados artistas franceses que influenciaram a criação da Escola Nacional de Belas Artes” (ARANHA, 2006, p. 221); Academia Real da Marinha (1808) e Academia Real Militar (1810) que, após 1832, foram anexadas formando uma só instituição de engenharia militar, naval e civil; cursos médico-cirúrgicos (a partir de 1808) na Bahia e no Rio de Janeiro. No entanto, mesmo com essas mudanças, o Brasil continuava como colônia de Portugal e Em 1818, de seus 3.817.900 habitantes, 1.887.900 eram livres (sendo 1.043.000 brancos, 585.500 negros e mestiços e 259.400 índios), e 1.930.000, escravos. Tanto as taxas de fecundidade quanto as de mortalidade (em especial a infantil) eram muito altas. A idade média no momento do casamento era baixa para as mulheres (20 a 21 anos), um pouco mais elevada para os homens (LINHARES et al, 1990, p. 125). Às vésperas de apartar-se de Portugal eram esses os números de que se compunha a estrutura do Brasil colônia, quando em 09 de janeiro de 1822, o chamado dia do “Fico”, começou o processo de independência que só foi proclamada em 07 de setembro do referido ano. A sociedade era composta nas classes mais altas, e de brancos, pelo modelo de “família patriarcal11”, nas classes 11 Estrutura composta de família extensa em que todos (filhos, escravos e “agregados”) dependiam do chefe da família. 39 mais pobres eram frequentes a união livre, sendo muito alta a incidência dos nascimentos ilegítimos que fazia com que os núcleos familiares fossem formados por uma mulher e seus filhos. Além disso, o crescimento demográfico dos pobres livres era grande e a sociedade dominante continuava com sua separação social de base étnica, excluindo os brancos livres (imigrantes, em boa parte), negros e sobretudo os mestiços. Após a proclamação da independência (em 07 de setembro de 1822), D. Pedro I foi coroado o 1º Imperador do Brasil, em 19 de dezembro de 1822, começando então o Primeiro reinado que, após muitas críticas e choques violentos entre partidários de apoio e contra o imperador, chegou ao fim em 07 de abril de 1831 com a renúncia de Pedro I. Dá-se início, a partir daí, a um governoregencial (período regencial) por causa da pouca idade do herdeiro da coroa, que à época tinha apenas cinco anos de idade e não poderia assumir a coroa. Com a renúncia/abdicação do trono por parte de Pedro I, completou-se a independência do Brasil, pois os portugueses que ocupavam os principais cargos administrativos foram substituídos por brasileiros que passaram a controlar sozinhos, sem a dependência do imperador, o aparelho de Estado. A esse respeito, Linhares et al (1990, p. 138) afirmam: “No período regencial, entre 1831 e 1840, dá-se uma profunda agudização das crises políticas e sociais que haviam sido tão somente contornadas durante o reinado de Pedro I” . Por conseguinte, as forças que até então estavam contidas pelo unitarismo imperial eclodiram em diversas revoltas populares que procuravam alterar a ordem política e social, foram tentativas de uma “experiência republicana”. Linhares et al (1990) acrescentam: No sul do país o sentimento republicano e igualitário fez eclodir a Revolução Farroupilha ou a Guerra dos Farrapos, em 1835, mesmo ano em que os negros maleses12, cultos e profundamente islamizados, se sublevaram na Bahia. (...) No Maranhão e no Piauí a situação é idêntica, com o levante liderado por um artesão de cestos, 12 Revolta dos Maleses – Foi um movimento que ocorreu na cidade de Salvador (província da Bahia) entre os dias 25 e 27 de janeiro de 1835. Os principais personagens dessa revolta foram os negros islâmicos que exerciam atividades livres, conhecidos como negros de ganho (alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros). Apesar de livres, sofriam muita discriminação por serem negros e seguidores do islamismo e estavam muito insatisfeitos com a escravidão africana, a imposição do catolicismo e com o preconceito contra os negros. Tinham como objetivo principal a libertação dos escravos. 40 Manuel Francisco, e o negro Cosme Bento. Era a Balaiada, que duraria de 1839 a 1841 (LINHARES et al, 1990, p. 139). Os nomes dessas e de outras revoluções do século XIX no Brasil (farrapos, cabanos, balaios) mostram nitidamente a participação de camadas sociais estranhas ao ordenamento latifundiário-escravista presente no país nesse período. De Norte a Sul do país, como citado, eclodiram revoltas de proporções de durabilidade e impacto político-social muito maiores do que se imaginava. Desse modo, muitos foram os que morreram nas revoltas populares, que em parte (a exemplo, revolta dos Cabanos – PA) tiveram fim após o decreto de anistia geral por parte do império. Em 23 de julho de 1840, deu-se início o segundo reinado com a mudança na Constituição (golpe da Maioridade, movimento investido pelo partido liberal que tinha como objetivos sufocar as rebeliões regenciais e ter maior controle político no país) que declarou Pedro de Alcântara maior de idade com 14 anos e, portanto, apto para assumir o governo. O governo de D. Pedro II (Segundo reinado), que durou 49 anos, foi marcado por muitas mudanças sociais, políticas e econômicas no Brasil, entre elas a disputa entre o Partido Liberal e o Conservador. Esses dois partidos defendiam quase os mesmos interesses, pois eram elitistas. Nesse período, o imperador escolhia o presidente do Conselho de Ministros entre os integrantes do partido que possuía maioria na Assembleia Geral e, nas eleições, eram comuns as fraudes, compras de votos e até atos violentos para garantir a eleição. Por sua vez, D. Pedro II investiu na pacificação das revoltas regenciais, dando anistia aos políticos envolvidos nos conflitos. A questão latifundiária ainda era marcante, sobretudo com a criação da Lei de Terras que permitia a compra de lotes de terra e que determinava o registro das áreas já ocupadas em cartório. O Brasil vivia, nesse período, a escravidão a todo vapor, porém em paralelo a esse processo de tráfico de escravos algumas leis foram criadas na tentativa de amenizar ou mesmo acabar com o processo de escravidão tão enraizado no país. A primeira delas, de07 de novembro de 1831, decretava a abolição do tráfico negreiro internacional. Entretanto, a lei não foi cumprida fazendo-se necessária, no decorrer do século, a criação de outras leis que ajudassem no processo de erradicação da escravidão. Foi aí que surgiram: Lei Eusébio de Queiróz (1850) – extinguiu oficialmente o tráfico de escravos no Brasil; Lei do Ventre Livre (1871) – tornou livres 41 os filhos de escravos nascidos após a promulgação da lei; Lei dos Sexagenários (1885) – dava liberdade aos escravos ao completarem 65 anos de idade; e a Lei Áurea (1888) – assinada pela Princesa Isabel, aboliu a escravidão no Brasil. O Segundo Reinado (D. Pedro II) estendeu-se de 1840 até 1889, tendo sua derrocada se iniciado na década de 1880, quando começou uma aceleração do desgaste do sistema político imperial que não atendia mais às demandas políticas e sociais, em especial, à questão da abolição que estava no centro dessas demandas. Muitos foram os movimentos que se articularam pedindo a abolição e, conseguida esta – em 13 de maio de 1888 com a assinatura do projeto da Lei áurea pela então regente Isabel –, houve uma desmobilização do movimento abolicionista e, com isso, o enfraquecimento do que seguiria o processo de libertação dos escravos: as indenizações aos ex-proprietários. Sem essas indenizações, a maioria dos produtores e cafeicultores foi afetada e chegou a ser arruinada, com exceção dos que já haviam trocado o trabalho escravo pelo trabalho dos imigrantes europeus. Essa parcela de produtores e cafeicultores atingida desinteressou-se pelo destino da Monarquia e se uniu ao movimento republicano, já bastante fortalecido pelo desgaste do regime vigente e pelos abolicionistas que encabeçaram os movimentos a favor da libertação dos escravos. O que mais fortalecia o movimento republicano, além dos fatores citados anteriormente, era o medo de um Terceiro Reinado iminente, pois, após anúncio da doença de D. Pedro II, em 01 de março de 1887, sua partida para tratamento na Europa (em 23 de junho), deixando como regente sua filha Isabel, fortaleceram o desejo republicano e tornaram claro que o reinado estava próximo do fim. No ano seguinte, em 09 de julho, D. Pedro II retorna ao Brasil sob uma acolhida triunfal, porém sem conseguir desfazer a sensação de desgoverno que havia pairado sobre o país e que se juntava aos boatos plantados pelos republicanos de que o Imperador estava cansado e sandeu. De acordo com Linhares et al (1990, p. 291), “O movimento republicano expandiu-se não só entre os civis, mas também nos meios militares”, fortaleceu-se também com a dispersão dos batalhões do Exército e culminou com a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 pelo general Deodoro da Fonseca, que havia assumido o comando das tropas revoltosas. 42 Após tomar conhecimento do acontecido, o Imperador tentou reação, mas percebendo que nada mais havia a se fazer, partiu com a família imperial para a Europa. O ideal republicano foi assim alcançado, embora a República tenha sido mais fruto de uma “insatisfação geral do que pela incapacidade do Estado Imperial de articular as velhas e novas demandas do que da crença geral e efetiva nas vantagens do regime republicano” (LINHARES et al, 1990, p. 294). Os eventos ocorridos durante o século XIX, tratados de maneira resumida neste estudo, mostram as mudanças políticas ocorridas no Brasil nesse período que influenciaram significativamente a sociedade: a educação e a literatura presentes em nosso país, as quais serão abordadas nos itens que se seguem. 4.1 O SOCIALE O LITERÁRIO NO SÉCULO XIX Como foi explicitado no primeiro tópico deste capítulo, o Brasil como colônia de Portugal só passou a ter uma mudança significativa com a chegada da família real em 1808, no Estado da Bahia. No período joanino (D. João VI) predominou uma cultura voltada para a legitimação da corte portuguesa no Brasil. A criação de biblioteca, museu, das academias militares, das escolas técnicas e científicas e de jornais oficiais objetivou a divulgação dos valores do Estado lusitano. Após a proclamação da independência do Brasil e a coroação de D. Pedro I, como 1º Imperador, ocorreram muitas mudanças que se refletiram na educação, movimentos literários e artísticos no século XIX no Brasil. 4.1.1 A educação No âmbito educacional, nos três níveis de ensino, não havia ainda uma política de educação sistemática e planejada, isso “por conta dos interesses elitistas da monarquia, que não se importava com a educação da maioria da população, ainda predominantemente rural” (ARANHA, 2006, p. 222). 43 O ensino elementar estava em situação bastante caótica, pois não havia sido implantado nenhum modelo educacional e não havia nenhuma preocupação com a educação. Mesmo com uma pequena mudança do modelo econômico predominantemente agrário para o modelo de comércio, devido a um pequeno surto de industrialização, havia uma grande população analfabeta, composta sobretudo pelos escravos. Em 1823, houve uma tentativa de implantação de um ensino sem restrições e a intenção de “instrução primária gratuita a todos os cidadãos” (ARANHA, 2006, p. 222). Embora já na constituição de 1824 houvesse referência a um “sistema nacional de educação”, em 1827 esse projeto ainda não havia sido contemplado. Não havia exigências de conclusão de curso e a elite educava seus filhos em casa, com preceptores. O método de ensino mútuo ou monitorial13 foi implantado desde 1819, mas, embora tenha se arrastado até 1854 e sido aplicado em alguns lugares, fracassou. Pela reforma de 1834 houve uma descentralização do ensino elementar, secundário e formação de professores, ficando incumbidas dessa tarefa as províncias. Na segunda metade do século XIX, as discussões acerca da necessidade de prédios adequados ao ensino tornaram-se intensas, porém apenas após a Proclamação da República é que começaram a serem construídos os “grupos escolares”. Com o ensino secundário, houve a mesma problemática, inorganização total, pois não havia pontes que ligassem o ensino primário ao secundário. Não havia vínculos nas grades curriculares e cada professor escolhia aleatoriamente o que ensinar, não havendo nenhuma exigência de completar um curso para iniciar outro. Por conseguinte, em 1837 ocorreu uma centralização de modo que apenas uma escola no Rio de Janeiro (Colégio D. Pedro II) tinha a autoridade de conferir o grau de bacharel, indispensável para o acesso aos cursos superiores. Somente em meados de 1860 novos debates surgiram com o intuito de imprimir nas escolas um sistema mais liberal, espelhando-se no modelo implantado nos Estados Unidos e nas novidades pedagógicas que circulavam no exterior. 13 Copiado do pedagogo inglês Lancaster (1778-1838) em que o professor não ensina todos os alunos, mas apenas os melhores, que por sua vez atendem grupos de colegas: sistema de “um só mestre para mil alunos”. 44 Na reforma de 1879 , por intermédio de Leôncio de Carvalho14, foram estabelecidas normas para o ensino primário secundário e superior, que defendiam a liberdade de ensino – sem a fiscalização do governo – e a liberdade de credo religioso – desobrigando os não católicos de assistirem as aulas de religião. A reforma de Leôncio de Carvalho vigorou por pouco tempo e depois veio a tendência de criar escolas religiosas. Assim, o Brasil fazia um percurso contrário ao resto do mundo cuja laicização tornava-se cada vez mais frequente. No período de 1860 a 1890 a iniciativa particular organizou-se e criou importantes colégios, como: Colégio São Luís (1867), em Itu; Colégio Mackenzie (1870), em São Paulo; Colégio Americano (1885), em Porto Alegre; Colégio Internacional (1873), em São Paulo. Contudo, o ensino superior caminhava a passos lentos, tendo somente aqui no Brasil cursos superiores em seminários, destinados à formação de padres. Assim, quando os jovens que aqui viviam desejavam frequentar curso superior tinham de ir a Évora ou Coimbra, em Portugal. No período joanino, havia apenas cursos superiores direcionados à formação para defesa militar da colônia e depois da Independência foram criados dois cursos jurídicos: um em São Paulo e outro em Recife. Mesmo com os cursos superiores funcionando como faculdade, somente no século XX foi que houve a formação das universidades. Em relação à formação dos professores, seguia praticamente a mesma linha de descaso. Foi criada a primeira Escola Normal de Niterói (1835) com o intuito de formar mestres, a qual funcionou precariamente até 1849 por falta de alunos e só havia um professor. Esse descaso existente era perfeitamente normal em uma sociedade não comprometida em priorizar a educação. Nessa perspectiva, as escolas normais preparavam em dois a três anos de curso os mestres que não precisavam saber mais que ler e escrever, ser brasileiro, ter 18 anos de idade e bons costumes para ingressar nela. O ensino era muitas vezes inferior ao do ensino secundário. Se para os homens da sociedade brasileira já era difícil estudar e obter uma formação, considerando a situação das mulheres para as quais – no século XIX, viviam em situação de inferioridade e dependência – toda a educação que lhes era 14 Carlos Leôncio de Carvalho foi um dos autores que destacou a educação como um elemento significativo na formação e vida do homem, bem como indispensável para a sociedade, criou o decreto número 7.247 em 19 de abril de 1879. 45 dirigida tinha intuito de uma formação moral, religiosa e de bons costumes, preparando-as para os ofícios de esposa e mãe, a situação era ainda mais difícil. Sob essa ótica, as famílias mais abastadas educavam suas filhas com noções de leitura, escrita, contagem, bordado, cozinha para que nas ocupações estivessem livres da “depravação dos costumes” e “protegidas dos vícios”. Em 1827, foi criada uma lei que determinava aulas regulares para as meninas, que visavam ao melhor exercício das “funções maternais”, porém não havia “senhoras honestas e prudentes” capacitadas para a formação dessas meninas. Tanto que em 1832, em todo o Império, o número de escolas para meninas não chegava a vinte. Em 1875, houve a criação da Escola Normal da Província, que permitia às mulheres se profissionalizarem na carreira do magistério. Entretanto com a precariedade de funcionamento (ora abriam, ora fechavam) o resultado era insatisfatório e ruim. De qualquer forma, as mulheres ainda encontravam dificuldades em estudar e, quando tinham posses, frequentavam as aulas em escolas particulares protestantes ou católicas, por não terem acesso às escolas secundárias. Após a Proclamação da República , de acordo com Aranha (2006), a taxa de analfabetismo no Brasil atingia em 1890 a cifra de 67,2%, herança do período imperial que a República não conseguiria reduzir senão a 60,1% até 1920. Foi nessa sociedade que Maria Firmina dos Reis viveu. As mulheres desse período só estudavam se tivessem posses. Como Maria Firmina era menina bastarda e mulata, vivia em um ambiente de segregação racial na província do Maranhão e, por conseguinte, não teveoportunidades. Ela só estudou porque criou essas oportunidades: foi autodidata e se instruiu através de muitas leituras, chegando até a escrever o francês fluentemente. Foi a primeira professora concursada no seu Estado, em 1847, ano em que começou a reger a cadeira de Primeiras Letras, que regeu até 1881. Fundou, um ano antes da aposentadoria, a primeira escola mista no Maranhão, tendo esta funcionado até 1890. 4.1.2 A literatura 46 A evolução literária de um país segue, geralmente, paralela às mudanças políticas e sociais. No Brasil não foi diferente e, no século XIX, seguindo as influências políticas e sociais que movimentaram o país, a escola literária que surgiu foi o Romantismo. Para compreender como surgiu, há de se entender o contexto social e histórico que influenciou essa escola literária. Em três séculos de vida colonial, o Brasil não tinha autonomia literária, “pois uma rápida excursão no panorama da literatura que se cultivou no Brasil-Colônia leva-nos à impressão desoladora da ausência quase total de condições indispensáveis à produtividade literária” (RIZZINI apud COUTINHO, 2004, p. 39). Quando havia atividades literárias eram locais e limitadas e reproduziam a vida literária da Metrópole, deixando a impressão de que elas haviam sido feitas apenas para os seus próprios cultivadores. Exemplo disso foi o movimento que antecedeu o Romantismo – o Arcadismo ou Neoclassicismo – que, influenciado pelas ideias iluministas, era uma escola literária que resgatava os modelos clássicos greco-latinos e que se caracterizou por uma espécie de sociabilidade na produção literária, em que os poetas reuniam-se para escrever e visavam à racionalidade (artificial até) na perfeição dos moldes dos princípios da Antiguidade. Nesse período, o mundo vivia às voltas com as inovações das ideias iluministas francesas e, no Brasil, essas ideias chegaram trazidas pelo conde de Oeiras – Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo) – em meados do século XVIII, período em que governou o Brasil sob o reinado de José I de Portugal. Seu governo trouxe muitas mudanças para o país, entre elas a extinção do sistema de capitanias hereditárias e a expulsão dos jesuítas, o que causou prejuízos incontáveis para a educação do período. Muitos fatos ocorreram no período de seu governo (1750 – 1777) até culminarem com a sua queda, após a morte do rei José I e a rainha Maria Primeira ter subido ao trono, em 1777. Assim, ele perdeu poder político e foi afastado do governo, fato que ficou conhecido como a viradeira. Depois dela, Portugal voltou a cair no atraso e na dependência da Inglaterra, até ser invadido pela França, em 1808 – quando a família real fugiu para o Brasil. Já a Europa, em fins do século XVIII, constituía-se em uma preparação para o pré-romantismo que se deu a partir de uma “mudança de foco de irradiação do temperamento novo da França para a Inglaterra, de onde irrompiam as fontes da poesia popular e natural, produzindo um intenso movimento europeu” (COUTINHO, 2004, p. 6). 47 No Brasil, essas influências chegariam após 1808, quando começou o progresso geral do país pela permanência da corte portuguesa aqui. Assim, a dinamização da vida cultural e a criação de um público leitor (mesmo que inicialmente de jornais) criaram algumas das condições necessárias para o florescimento de uma literatura mais consistente do que a que vinha sendo produzida nos séculos XVII e XVIII. As atividades, como já citado, resumiam-se a produções locais, porém, a partir de 1808, pode-se falar de fatores externos e internos da atividade literária no Brasil, em um período que pode ser definido como pré-romantismo, em que a imprensa literária e política teve papel importante para a formação do que viria a ser o Romantismo propriamente dito. Visto que no século XIX o Brasil passou por grandes mudanças políticas e sociais, é possível afirmar que esse foi o período também de maior significação da cultura brasileira: O período de meio século, entre 1800 e 1850, mostra um grande salto na literatura brasileira, passando-se das penumbras de uma situação indefinida, misto de neoclassicismo decadente, iluminismo revolucionário e exaltação nativista, para uma manifestação artística, em que se reúne uma plêiade de altos espíritos de poetas e prosadores, consolidando, em uma palavra, a literatura brasileira, na autonomia de sua tonalidade nacional e de suas formas e temas, e na autoconsciência técnica e crítica dessa autonomia (COUTINHO, 2004, p. 14). Como explicitado, o quadro político-social é de grande importância para as manifestações literárias. Então, com [...] a chegada de D. João ao Rio de janeiro, com as medidas de aberturas dos portos, de criação de bibliotecas, escolas superiores, uma instituição de crédito, com a permissão do funcionamento das tipografias, estabelecerá o ponto de arranque decisivo do movimento da Independência (COUTINHO, 2004, p. 275). Nesse período, como traço principal da produção de nossos primeiros escritores, está a nacionalidade. Isso ocorre devido à aceleração do processo de independência que, depois de proclamada, trouxe uma necessidade de definição de um perfil cultural brasileiro. Desse modo, o processo de independência do Brasil propiciou ao movimento literário o que pode se chamar de independência literária. À vista disso, os escritores de renome tomaram consciência de sua função dentro do panorama cultural brasileiro, o Romantismo assumiu um feitio particular com 48 características especiais e traços próprios que, junto aos elementos gerais, filiam-no ao movimento europeu. Por essa razão, Poder-se-á dizer – e é verídico – que o romantismo. Além de escola literária, é um estado de espírito. E nesse sentido, há românticos em todas as escolas, numa busca incessante de juventude, ou de viver uma juventude que deseja eternizar-se (NEJAR, 2007, p. 57). O Romantismo foi um movimento crítico, na estética, e no modo de ver o homem e a natureza, pois contrapunha os ideais de perfeição impostos pelo Arcadismo (movimento que o antecedeu). Ademais, teve um espírito de ruptura dos padrões literários vigentes à época e, com um caráter de reação, é lançada de lado a preocupação com o rigor e a perfeição da forma. Quanto à produção, a obra que inaugura esse período, em uma tentativa de renovação e de criação da ficção brasileira, é Suspiros poéticos e saudades livro de poemas de Gonçalves de Magalhães, lançada em 1836. Porém, não foi essa obra a que realmente impulsionou o Romantismo brasileiro, já que é conferido ao escritor José de Alencar o título de “patriarca da literatura brasileira”, tendo sido ele o responsável pela “alforria” da literatura nacional (COUTINHO, 2004). No âmbito da poesia do período Romântico, o primeiro expoente é Gonçalves Dias que lançou em 1847 a obra Primeiros Cantos. Esse autor está inserido no que se denomina 1ª Geração romântica, a qual é caracterizada pelo nacionalismo e indianismo, na tentativa de construção de uma identidade nacional e valorização das tradições brasileiras. É considerado o maior autor indianista brasileiro e sua obra mais marcante é Juca Pirama. Ao seu lado, como indianista, está Gonçalves de Magalhães, já citado. Na poesia, segue-se a 2ª geração romântica, que é chamada de geração byroniana (por influência das obras de Lord Byron), ou ultrarromântica, ou ainda mal do século e se caracterizou por poesias carregadas de pessimismo, morbidez, mistério e satanismo. Seus principais representantes são: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire. Depois vem a 3ª geração romântica,caracterizada pela poesia social e ficou conhecida como geração condoreira. Seu principal expoente é Castro Alves que, ao lado de Tobias Barreto e Sousândrade, compõem os principais representantes dessa geração. 49 O romance, no Brasil, veio ser incorporado à nossa atividade literária no período Romântico, pois essa nova forma de expressão ainda não havia sido realizada entre nós, mesmo já sendo conhecida. A moreninha de Joaquim Manoel de Macedo, publicado em 1844, escrito em linguagem simples e com a preocupação de satisfazer às necessidades e gosto do público, teve uma rápida e extensa aceitação. Depois vieram outras obras do autor: O moço loiro; Os dois amores; Rosa; A luneta mágica; e As vítimas algozes – Quadros da escravidão (citada no capítulo 3 desse estudo). Já José Martiniano de Alencar – cronista criativo, político inconformado – estreou com a obra O Guarani, em 1857 e, mesmo tendo escrito um indianismo, “para muitos, tardio e aparentemente anacrônico” (NEJAR, 2007, p. 65), é um dos maiores narradores de histórias das nossas letras, pois era um contador de histórias nato e com uma imaginação assombrosa. Seus romances foram/são muito lidos até hoje porque, talvez, ele sempre partiu da realidade para a imaginação mais do que da imaginação para a realidade. Algumas de suas obras são: A viuvinha; Lucíola, Iracema; Ubirajara; Senhora. Escreveu também peças teatrais, crônicas, crítica literária, textos políticos e um poema épico (inacabado). Na prosa romântica brasileira também teve papel importante o escritor Bernardo Guimarães com a sua obra A escrava Isaura (citada no capítulo 3 desse estudo) e Manuel Antônio de Almeida com a sua obra Memórias de um sargento de milícias. Percebe-se que junto às mudanças sociais e políticas, no Brasil, caminhou as nossa atividade literária. Fica claro também que os principais representantes da poesia e da prosa brasileiras são homens, pelo menos no que diz respeito às citações em obras e estudos literários, isso porque “à medida que se modificava o sistema literário, desaparecia a menção a escritoras, como se fossem tornando-se descartáveis tanto as que produziram ficção como poesia” (MENDES, 2006, p. 23). Porém, paralelo ao trabalho desses escritores, escrevia também uma mulher, na província do Maranhão, e publicava (na imprensa local) poesia, ficção, crônicas e até enigmas e charadas: Maria Firmina dos Reis. Cidadã atuante, intelectual e presença constante na imprensa local, trouxe a público dois romances: Úrsula (objeto deste estudo) e Gupeva (de temática indianista). Interessante observar que ambos foram publicados no século XIX, no 50 período em que grandes obras dos autores renomados também estavam sendo publicadas, 1859 e 1861, respectivamente. Depois de perpassar a História do século XIX, com a sua sociedade patriarcal e machista, sua educação separatista e sua literatura voltada somente para a atuação dos homens, faz-se quase que desnecessário dizer da ousadia dessa mulher maranhense e afrodescendente em publicar um livro (primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil) que inovou na temática e valorizou os negros na sociedade escravocrata do período. 4.1.3 O Maranhão Faz-se necessário abordar, ainda que resumidamente, um pouco da História do Maranhão, para compreender como era historicamente à época da publicação do romance Úrsula. O início da colonização no território maranhense seguiu o ritmo do restante do Brasil do século XVI. Mais especificamente em 1534, D. João III divide a Colônia Portuguesa no Brasil em Capitanias Hereditárias15 (15 lotes), sendo o Maranhão parte de 4 delas (Maranhão 1ª parte, Maranhão 2ª parte, Ceará e Rio Grande), para melhor ocupar e proteger o território colonial. O sistema de capitanias hereditárias já era utilizado pelo governo português na Ilha da Madeira e nos Açores, e os seus donatários, comandantes dentro de sua capitania, tinham por obrigação governar, colonizar, resguardar e desenvolver a região com recursos próprios. Porém, somente duas capitanias prosperaram graças à lavoura canavieira, Pernambuco e São Vicente, as outras malograram por diversos motivos. A ocupação mesmo do Maranhão aconteceu a partir da invasão francesa à Ilha de Upaon-Açu (Ilha de São Luís), em 1612, liderada por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, que tentava fundar colônias no Brasil. Os franceses chegaram a fundar um núcleo de povoamento chamado França Equinocial e um forte chamado de "Fort Saint Louis". Esse foi o início da cidade de São Luís. Essa 15 As Capitanias hereditárias foram um sistema de administração territorial criado pelo rei de Portugal, D. João III, em 1534. Esse sistema consistia em dividir o território brasileiro em grandes faixas e entregar a administração para particulares (principalmente nobres que mantinham relações com a Coroa Portuguesa). 51 invasão se deu pelo sucesso da atividade açucareira que chamou a atenção de comerciantes e nobres franceses que se associaram em um empreendimento comercial. Entretanto, os portugueses expulsaram os franceses em 1615 na batalha de Guaxenduba, sob o comando de Jerônimo de Albuquerque Maranhão, e passaram a ter controle das terras maranhenses. Em 1641, os holandeses, após terem invadido a maior parte do território do Nordeste da colônia portuguesa na América, dominaram as terras da Capitania do Maranhão. O intuito era expandir a indústria açucareira com novas terras produzindo cana-de-açúcar. Contudo, os colonos, insatisfeitos com a presença holandesa na colônia, iniciaram vários movimentos para a expulsão destes, que só culminaram em 1644. Em 1682, a coroa portuguesa decidiu criar a Companhia de Comércio do Maranhão. Tal Companhia tinha o dever de enviar ao Estado do Maranhão um navio por mês carregado de escravos e alimentos como azeite e vinho. Dessa maneira, Portugal pretendia aumentar o comércio da região. Outro fato marcante para a História do Maranhão foi a Revolta de Beckman, liderada por Manuel Beckman, em 1684, que foi uma revolta nativista em que os revoltosos queriam a expulsão dos jesuítas por estes serem contra a escravidão indígena (principal fonte de mão de obra na época). A revolta, porém, não logrou êxito e os revoltosos foram derrotados pelas forças da coroa e seu líder foi condenado à morte e enforcado em praça pública. Uma parte importante da História do Maranhão dá-se a partir da nomeação de Sebastião José de Carvalho e Melo – o marquês de Pombal – como Primeiro- Ministro pelo então rei D. José I, em 1750. Pombal fundou o Estado do Grão-Pará e Maranhão com capital em Belém e subdividiu em quatro capitanias (Maranhão, Piauí, São José do Rio Negro e Grão-Pará). Além disso, expulsou os jesuítas (em 1759) e criou a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão cuja atuação desenvolveu a economia maranhense. A política de Pombal contra os jesuítas é com frequência atribuída à oposição dos religiosos à execução do Tratado de Madri16 (que, no entanto, não era do agrado do próprio Pombal, tanto na Amazônia 16 Tratado de Madri – Os reis de Portugal e Espanha assinam o Tratado de Madri, em substituição ao Tratado de Tordesilhas, de 1494. Para fixar os limites territoriais na América, adota-se o princípio de “uti possidetis” (usucapião), pelo qual o direito de posse é concedido a quem usa continuamente um bem, móvel ou imóvel, durante determinado período. 52 quanto no sul [...], às suas críticas à criação de uma companhia de comércio para o norte da América portuguesae a outras razões (LINHARES et al, 1990, p. 115). A expulsão dos jesuítas por Pombal trouxe um desmantelamento da estrutura educacional que havia sido montada e mantida pela Companhia de Jesus e que não foi imediatamente substituída. O marquês criou posteriormente aulas régias em uma tentativa insuficiente de substituição do ensino jesuítico. Na fase pombalina, o comércio do Grão-Pará e Maranhão cresceu significativamente com o incentivo às migrações de portugueses e ao aumento do tráfico de escravos e produtos para a região. Da criação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, No caso do Maranhão, os resultados da ação da companhia criada na época de Pombal e de outras medidas de fomento foram muito mais consideráveis. Condições favoráveis ao algodão e ao arroz, à volta de São Luís, e a venda maciça de escravos a crédito, criaram uma economia de plantations florescentes, em uma região crescentemente “africanizada” (LINHARES et al, 1990, p. 118, grifo dos autores). Porém, os projetos do Marquês de Pombal foram abalados quando subiu ao trono D. Maria I, que extinguiu a Companhia de comércio e muitas outras ações do marquês na colônia. A era de Pombal, de 1750 a 1777, teve grande influência no desenvolvimento da região do Grão-Pará e Maranhão, “se pensarmos em termos de povoamento efetivo, no entanto, a expansão real foi muito mais um fato do século XVIII” (LINHARES et al, 1990, p. 120). Todavia, após a era Pombal, o Brasil passou na última década dos anos 1790 por uma recuperação no comércio exterior, já que havia se perdido com a extinção de muitos dos projetos do marquês que estavam em funcionamento. A família real chega ao Brasil em 1808 e influencia todo o desenvolvimento da colônia, passa por muitos conflitos que culminam com a decretação da Independência, em 1822 – como já explicitado no primeiro tópico desse capítulo. No Maranhão, as elites agrícolas e pecuaristas eram muito ligadas à Metrópole e, a exemplo de outras províncias, recusaram-se a aderir à Independência do Brasil. À época, o Maranhão era uma das mais ricas regiões do Brasil. O intenso tráfego marítimo com a Metrópole, justificado pela maior proximidade com a Europa, tornava mais fácil o acesso e as trocas comerciais com Lisboa do que com o sul do país. Em 53 1808, a região nordeste “concentrava aproximadamente 49,5% dos habitantes, se a considerarmos do Maranhão à Bahia, em contraste com 46,1% para o Centro-sul [...], ficando a Amazônia somente com 3,8%” (LINHARES et al, 1990, p. 120). Por conseguinte, São Luís foi bloqueada por mar e ameaçada de bombardeio pela esquadra do Lord Cochrane17, sendo obrigada a aderir à Independência em 28 de julho de 1823. Os anos imperiais que seguiram foram vingativos com o Maranhão; o abandono e descaso com a rica região levaram a um empobrecimento secular, ainda hoje não rompido. O que fica claro, historicamente, é que o Maranhão em meados do século XIX seguia praticamente o mesmo ritmo que o restante do país, com sua sociedade escravocrata, patriarcalista e em desenvolvimento econômico. No âmbito da literatura, os registros sobre os autores da História do Maranhão não são facilmente encontrados, com exceção do grande expoente da escola literária do romantismo: Gonçalves Dias. Gonçalves Dias, poeta maranhense (1823-1864), formou-se em Direito, foi professor de Latim e História e executou várias missões diplomáticas. É autor de Primeiros cantos, Os Timbiras e Últimos Cantos, dentre outras obras. Sua literatura é marcada pelo nativismo, pela exaltação da terra nacional e pela recorrência a mitos primitivos que representassem a origem de uma nação que, no caso brasileiro, foram tomados os mitos indígenas. Daí o índio ter sido tomado como "herói nacional" e de cunhar essa primeira fase romântica brasileira de indianista. Considerado o maior autor indianista brasileiro, sua principal obra é I – Juca Pirama. Como foi citado e comentado no subtópico 3.1.3, a literatura no Brasil, quando começou a ter uma roupagem nacional, passou a ser destacada somente a que era feita pelos homens, pois, mesmo Maria Firmina dos Reis tendo sido participante ativa na imprensa da época, foi sendo “esquecida” ao longo do tempo, talvez porque ela “aventurou-se a escrever dentro do contexto que a realidade brasileira impunha à época, somando-se às dificuldades econômicas e geográficas, já que nunca saiu do eixo Guimarães e São Luís (MA)” (MENDES, 2006, p. 23). 17 Lord Thomas Alexander Cochrane, 10º conde de Dundonald, foi um almirante escocês da Real Marinha Britânica. Foi membro do Parlamento Inglês e, acusado de envolvimento com atividades fraudulentas, foi preso e obrigado a deixar a carreira naval, em 1814. Depois, refugiou-se na América Latina e teve intensa participação, senão decisiva, na Adesão Maranhense à Independência do Brasil. 54 Foi nessa sociedade machista, que tinha a educação – da instância infantil à acadêmica –, em fase de estruturação, ou melhor tentando se organizar, que Maria Firmina se educou como autoditada, publicou diversos textos nos jornais da época, como também o conto A escrava e o romance Úrsula, e não foi reconhecida pela maioria. E mesmo tendo sido ativa participante da imprensa local do período, sua memória foi “apagada” da literatura, só agora aparecendo em decorrência dos estudos feitos pelo prof. Eduardo de Assis Duarte. 4.2 MÃOS ATADAS, PENSAMENTOS SOLTOS No século XIX, período em que o romance Úrsula foi escrito, o Brasil passava por muitas transformações e mudanças no âmbito econômico (transição da monocultura da cana-de-açúcar e algodão para o café), político (transição do Império – 1822 – para a República – 1889) e social (profundas desigualdades entre ricos e pobres, escravidão e crescimento da população urbana, dentre outros). Apesar das pressões internacionais da Inglaterra (lembrando que o interesse deles era apenas econômico – aumentar o mercado consumidor de seus produtos – e não humanitário) para o fim da escravidão brasileira, exatamente no período da publicação do romance Úrsula (1859), a liberdade era como um sonho para os negros escravos. Com as pressões internacionais, duas leis antitráfico foram apregoadas antes da Lei de 1850, quais sejam: em 07 de novembro de 1831, o Brasil promulgava uma lei que tornava extinto o tráfico negreiro. Desse modo, não poderiam chegar mais negros trazidos da África para serem escravos aqui. No entanto, tornou-se uma lei “para inglês ver”, como diziam na época, porque não eliminou definitivamente o tráfico. Por isso, em 08 de agosto de 1845 a Inglaterra decreta o Bill Aberdeen, lei que permitia que os ingleses capturassem os navios brasileiros, sendo o julgamento da tripulação feito por tribunais militares britânicos. É neste contexto que: O tráfico, mais ativo do que nunca, trouxe aos engenhos e as fazendas cerca de 700 mil africanos entre 1830 e 1850. As autoridades, apesar de eventuais declarações em contrário, faziam 55 vista grossa a pirataria que facultava o transporte de carne humana, formalmente ilegal desde o acordo com a Inglaterra em 1826 e a lei regencial de 7 de novembro de 1831. A última qualificava como livres os africanos aqui aportados dessa data em diante (BOSI, 1992, p.196). Como podemos entender pela citação acima, as duas leis antitráfico eram descumpridas no Brasil e o tráfico de escravos africanos seguia normalmente. Alfredo Bosi citando Robert Conrad faz o seguinte comentário: Os juízes dos distritos em que os escravos eram desembarcados passavam a receber comissõesregulares, referidas como sendo fixadas em 10,8% do valor de cada africano desembarcado. Os escravos eram trocados diretamente por sacas de café nas praias, reduzindo assim a fórmula econômica – “o café é o negro” – a uma realidade (CONRAD apud BOSI, 1992, p. 197). É notória a forma como os africanos eram tratados, não passavam de uma mercadoria como qualquer outra podendo ser trocada por “sacas de café nas praias”, a ideia de que eles eram seres humanos como qualquer outro não era considerada de forma alguma por esses senhores de engenho que só os viam como escravos e negros sem valor. Em 04 de setembro de 1850, a Lei Eusébio de Queirós proibiu definitivamente o tráfico de escravos no Brasil. Dessa forma, os navios negreiros ou tumbeiros não poderiam mais desembarcar africanos em terras brasileiras para fazerem parte dessa instituição escravocrata, consequentemente, os senhores de engenho não poderiam mais renovar os seus escravos. Nisso, ficava apenas a esperança nos filhos das escravas que já nasciam escravos, mas isso aconteceu até a promulgação da Lei do Ventre Livre, em 28 de setembro de 1871 (que tornava livre todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data). Nesse contexto econômico, social e político é que Maria Firmina dos Reis desenrola a sua narrativa, favorecendo os escravos para que eles mesmos contem suas histórias de desilusão, frustração e sofrimento na sociedade em que os grandes fazendeiros, comerciantes e proprietários de terra não cumpriam as leis e nem eram punidos pelos seus atos. Esses negros que eram trazidos forçadamente da África para o Brasil com a finalidade de serem escravos aqui não foram relatados no romance Úrsula como vítimas passivas dessa instituição. Pelo contrário, o jovem escravo Túlio que 56 “parecia contar vinte e cinco anos” (REIS, 2004, p. 22) nos seus diálogos com aquele que comprou a sua “liberdade”, Tancredo, apresenta-nos a sua forma de pensar: Tu que não esmagastes com desprezo a quem traz na fronte estampado o ferrete da infâmia! Porque ao africano, seu semelhante disse: – és meu! – ele curvou a fronte, e humilde, e rastejando qual erva, que se calcou aos pés, o vai seguindo? Porque o que é senhor, o que é livre, tem segura em suas mãos ambas a cadeia, que lhe oprime os pulsos. Cadeia infame e rigorosa, a quem chamam: – escravidão?!... E entretanto este também era livre, livre como o pássaro, como o ar; porque no seu país não se é escravo [...] Oh! a mente! Isso sim ninguém pode escravizar! [...] é escravo e escravo em terra estranha (REIS, 2004, p. 38-39) A autora na citação acima coloca a questão da afrodescendência dos escravos, dando ênfase ao lugar de origem deles, fato que não era muito comum naquela época e destaca também a forma como o jovem escravo considera a escravidão da qual ele era vítima. Túlio menciona a liberdade que poderia ter gozado na África se não fizesse parte de uma descendência de escravos no Brasil, sendo, desde cedo, privado dos cuidados de sua mãe por causa da escravidão. Não pôde desfrutar, assim, da sensação de liberdade no seu país, mas desde sua infância sofreu com a odiosa escravidão, sendo tratado como mercadoria humana e humilhado por ser negro. E assim questiona o seu amigo: quem é o possuidor da liberdade do seu próximo? O homem branco? Mas como ele pode ter em suas mãos essa cadeia? Se na África todos gozavam dessa liberdade, por que no Brasil ela tem de ser comprada? “Túlio obteve por dinheiro aquilo que Deus lhe dera, como a todos os viventes – Era livre como o ar, como o haviam sido seus pais, lá nesses adustos sertões da África” (REIS, 2004, p. 42, grifos nossos). A angústia do jovem Túlio era porque entendia que na sua terra natal ele seria livre desde o seu nascimento por ser esse o seu direito e não entendia por que no Brasil os negros africanos eram subjugados a tão desprezível tratamento se todos eram iguais diante de Deus. Embora a escravidão tirasse dos negros a liberdade concedida por Deus a todos os homens, ela também não poderia aprisionar a mente deles, de maneira nenhuma, a mente era livre e tinha consciência da condição inferior que viviam numa terra estranha, sem direitos ou prazeres, somente trabalho e sofrimento. 57 Porque a alma está encerrada nas prisões do corpo! Ela chama-o para a realidade, chorando, e o seu choro, só Deus compreende! Ela, não se pode dobrar, nem lhe pesam as cadeias da escravidão; porque é sempre livre, mas o corpo geme, e ela sofre, e chora; porque está ligada a ela na vida por laços estreitos e misteriosos (REIS, 2004, p. 39). A alma assim como a mente dos escravos era livre, mas estava presa por ser ligada ao corpo e esse, sim, sofre muito com as amarras da escravidão. O corpo padece os açoites dos malfeitores, as diversas horas de trabalho e as correções cheias de maldades dos senhores de terra. Contudo, a mente e a alma estão livres para pensarem em dias melhores, sonharem com a sua terra distante e até mesmo imaginarem como teria sido sua vida se não fossem escravos em terra estranha. Os pensamentos estão soltos, apesar de seu corpo ser escravo. Não temos como dissociar a história dos escravos do romance Úrsula sem fazermos menção à preta Suzana e seu relato no capítulo IX. A escrava relata a sua captura e viagem da África para o Brasil e ainda chama os homens brancos que a prendeu de “bárbaros”. Segundo Duarte (2004, p. 277): “A África está presente e esses relatos, carregados de uma autoridade forjada pelo testemunho, ganham uma dramática autenticidade”. A forma como a preta Suzana conta a sua história nos comove por ela ter sido vítima de tamanhas crueldades. É um testemunho singular de alguém que sofreu pela forma como foi retirada do seu país, pelos maus tratos que suportou no transporte de um lugar para o outro e as sequências de crueldades que aguentou na casa do comendador Fernando P... antes de ir para a casa de Luísa B... A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foram sufocadas nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades. Não sei como resisti – é que Deus quis poupar-me para provar a paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. O comendador P... foi o senhor que me escolheu. Coração de tigre é o seu! Gelei de horror ao aspecto dos meus irmãos... os tratos por que passavam, doeram-me até o fundo do coração! O comendador P... derramava sem se horrorizar o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência (REIS, 2004, p. 117-118). A escrava era testemunha ocular de todas as formas de crueldade que um ser humano poderia passar sendo vítima da escravidão e a preta Suzana ainda passaria por muitos outros maus tratos antes da sua morte na casa do comendador 58 Fernando P... por somente dizer a verdade e este não acreditar nela: o corpo estava preso, mas a mente não. É o discurso do outro fazendo ouvir pela primeira vez na literatura brasileira a voz dos escravizados. Voz política que denuncia, em plena vigência do espírito das luzes, o conquistador europeu como bárbaro, invertendo de forma inédita a acusação racista – corrente na Europa e presente no pensamento de filósofos do porte de Hegel– que excluía a África do mundo civilizado (DUARTE, 2004, p. 275- 276). Firmina expõe, assim, de forma peculiar a questão da descendência africana, podendo ser exemplificada com o caso de Túlio, quando diz que “o sangue africano refervia-lhe nas veias” (REIS, 2004, p. 22). De certa forma, a autora do livro rebate as críticas e os pensamentos filosóficos da época em que o negro africano é considerado inferior ao branco quando desde o primeiro capítulo colocao escravo em parâmetro de igualdade com Tancredo (o jovem bacharel). A obra permite também que os desvalorizados da sociedade brasileira do século XIX tenham a oportunidade de falar, de se expressar e assim mostrar a forma como pensam. A velha Suzana sabendo que o jovem Túlio teve sua liberdade comprada por Tancredo o avisa que “... Liberdade! Liberdade... ah! Eu a gozei na minha mocidade!” (REIS, 2004, p. 115) alertando o jovem de que não se pode ser livre em um país em que os negros são escravos, vítimas desse sistema opressor. Considerando a jovialidade de Túlio e a experiência da preta Suzana, temos que citar um personagem por nome de Antero que trabalhava para o Comendador Fernando P... “Antero era um escravo velho, que guardava a casa, e cujo maior defeito era a afeição que tinha a todas as bebidas alcoolizadas” (REIS, 2004, p. 205). Este escravo é a personificação da degradação humana pelo vício, apesar de sua condição, no romance, ele não faz tantas reflexões da sua forma de vida antes de chegar ao Brasil a não ser a lembrança que tem de uma festa: “Na minha terra há um dia em cada semana, que se dedica à festa do fetiche, e nesse dia, como não se trabalha, a gente diverte-se, brinca e bebe. Oh! lá é vinho de palmeira mil vezes melhor que cachaça, e ainda que tiquira” (REIS, 2004, p. 208). Dessa forma, cada escravo com destaque em Úrsula trouxe sua particularidade e sua forma de pensamento, todos eles com experiências de vida diferentes, mas que se entrelaçavam quando se referia à África (terra natal). Apesar de serem escravos, portanto, prisioneiros e sem poder gozar de plena liberdade, a 59 mente deles era livre, e ela os levava a ir mais alto do que as correntes que os prendiam. Entretanto, havia aqueles que tinham esperanças em dias melhores para os negros e assim Tancredo declara: “Mas, Túlio, espera; porque Deus não desdenha aquele que ama a seu próximo e eu te auguro um melhor futuro” (REIS, 2004, p. 28). 4.3 ESCRAVIDÃO E RELIGIÃO No século XIX, o Brasil passava por mudanças que acarretaram o final do trabalho escravo. Mas, para que isso acontecesse, muitos foram os protestos em todas as partes do nosso país, até porque aqueles ricos senhores de terras e de escravos não concordavam em dar a liberdade para os negros e não receberem nada em troca do governo. Foi um processo lento, mas que teve seu fim com a assinatura da Lei Áurea, em 1888, pela princesa Isabel. Apesar de Úrsula ter sido escrito em 1859, antes da libertação dos escravos, a ideia de abolição da escravatura já era destacada no romance em análise. No âmbito religioso, nosso país, de maioria católica, em decorrência da colonização pelos portugueses que catequizaram a população através dos jesuítas, influenciou também na produção da literatura na época (lembrando que naquele período, a escola literária era o Romantismo) que sempre dava certo destaque a temas relacionados com a religião. E isso também é possível de se verificar no romance Úrsula, porque desde o início a autora faz menção a alguns textos bíblicos para criticar a forma como os escravos eram tratados pelos brancos, seus semelhantes. 4.3.1 Escravidão A escravidão tornou-se um comércio muito lucrativo para os portugueses visto ser uma mão de obra barata e que não recebia salário para trabalhar tantas horas durante o dia. A vantagem da escravidão era somente para os donos dos 60 escravos que os exploravam para aumentar seus lucros. Os negros escravos quase não tinham descanso e lazer. Desse modo, o escravo era propriedade de quem o adquirisse e, dessa forma, deixava de ser livre como era antes no seu país (África) e tornava-se uma vítima da escravidão. Nesse sentido, o romance Úrsula nos envolve com a temática da escravidão e Firmina inova ao mostrar o escravo como realmente era: um ser humano como os brancos que possuía sentimentos e intelecto. Mas vejamos como realmente o escravo era visto pela sociedade da época: Como definir o escravo? Seguindo David Brion Davis, apontaremos três características principais: 1) sua pessoa é propriedade de outro homem; 2) sua vontade está subordinada à autoridade do seu dono; 3) seu trabalho é obtido mediante coação (LINHARES et al, 2000, p.104). Ser escravo era não ter suas vontades respeitadas, era somente respeitar as ordens do seu senhor. A escravidão roubou dos africanos durante muitos anos o seu sonho de viver, de ser feliz, de tentar fazer do seu jeito porque sempre estavam subordinados aos desejos e obrigações a que lhe eram designadas por seus donos. Falando ainda do ser escravo e suas consequências, temos: A sua situação não depende da relação que tenha com um senhor em particular, e não está limitada no tempo e no espaço. Em outras palavras, sua condição é hereditária e a propriedade sobre sua pessoa é transmissível por venda, doação, legado, aluguel, empréstimo, confisco, etc. Essa característica transforma o escravo legalmente em uma “coisa”. Ele não tem direitos nem família legal – quando a lei reconhece a validade do casamento religioso, como no Brasil colonial, esse é, com frequência, impedido pelo senhor. Carece, mesmo, do direito ao próprio nome, que o dono pode mudar quando quiser. Não pode legalmente possuir, legar, iniciar processo. E, no entanto, sua incapacidade jurídica não é acompanhada pela incapacidade penal: pelo contrário, ao escravo estão reservados os castigos mais duros e a tortura (LINHARES et al, 1990, p. 104). Não cabia ao escravo decidir nada sobre sua vida, até mesmo constituir família estava sob a autorização do seu dono, era verdadeiramente tratado como animal e que servia somente para realizar tarefas seja nas plantações de açúcar ou café seja na casa grande. Apesar de uma parte da sociedade ver o escravo apenas como um ser negro, sem capacidades intelectuais e não encontrando motivos para o fim da 61 escravidão, Maria Firmina está mais à frente que os seus contemporâneos ao declarar em Úrsula: “Mísero escravo!!!... Tantas dores há em seu coração; e nós as não compreendemos!...” (REIS, 2004, p. 167). Firmina coloca-se, portanto, em uma situação de sofrimento pela realidade desses seres humanos que são iguais aos brancos e que vivem tão perto da sociedade ilustre da época servindo-os e também os ajudando a enriquecer, mas que ao mesmo tempo são marginalizados pela mesma sociedade patriarcal, machista e preconceituosa. A inovação em Úrsula é forte para a época, pois como já foi visto no início deste capítulo, as mulheres de 1859, ou seja, do século XIX, estavam sempre sujeitas aos seus pais ou aos seus maridos e assim não era tarefa comum escreverem e exporem as suas opiniões, mesmo que aparentemente tímidas, como no prefácio de Maria Firmina dos Reis, que coloca no final “uma maranhense”. Essa jovem professora, que publica esse romance aos seus 34 anos, expõe suas ideias sobre a escravidão em palavras como: “Ah! senhor! que triste coisa é a escravidão!” (REIS, 2004, p. 169). Utilizando textos da história do Brasil sobre a escravidão e depois trechos do romance Úrsula, podemos perceber que muitas vezes a maneira como o romance retrata a forma como viviam os escravos pode se confundir com a própria realidade deles naquela época. Observe: A situação dos escravos variava bastante segundo o setor em que eram empregados. Os mais desgraçados eram os escravos do campo, mas também o trabalho nos engenhos de açúcar, nos meses da moagem e da preparação do produto, era duríssimo e marcado por longas jornadas (LINHARES et al, 1990, p. 105). De acordo com a citação acima, notamos que o descanso não existiana vida corriqueira dos negros escravos das fazendas porque os seus senhores só pensavam em lucrar, enriquecer e vender seus produtos; em contrapartida, os míseros sofriam. Paralelamente, Úrsula nos revela a forma como o Comendador Fernando P... tratava os seus escravos e a estrutura da moradia desses sofridos seres humanos: Ainda as casas dos escravos, que outrora tinham sido de um aspecto agradável, tapadas de barro e cobertas de telha, hoje mal representavam esse singelo asseio de outras eras. Já arruinadas, desmoronavam-se aqui, e ali; porque os desgraçados escravos do 62 comendador, espectros ambulantes, não dispunham de uma só hora no dia, que pudessem dedicar em benefício de suas moradas; à noite trabalhavam ordinariamente até ao primeiro cantar do galo. Esfaimados, seminus, espancados cruelmente, suspiravam pelas duas ou três horas desse sono fatigado, que lhes concedia a dureza do seu senhor (REIS, 2004, p. 166). O comendador era a personificação daquele senhor de engenho cruel, perverso e violento, a obra mostra que “Ele tornara-se odioso e temível aos seus escravos: nunca fora benigno e generoso para com eles; porém o ódio, e o amor, que lhe torturavam de contínuo, fizeram-no uma fera – um celerado” (REIS, 2004, p. 143). Entendemos que ser escravo já era condição terrível aos negros africanos, contudo, mais cruel era a condição desses seres humanos quando eram comprados por senhores tão desumanos como o comendador Fernando. Quanto à situação de escravidão que o romance Úrsula nos apresenta, é uma forma de mostrar à sociedade da sua época quão terrível era continuar tratando os seus semelhantes daquela forma. Firmina subverte a ideia de que os negros nasceram para serem escravos quando apresenta o jovem Túlio tão bom e generoso: “E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como a sua alma” (REIS, 2004, p. 23). Dessa forma, ao mostrar aos seus leitores que um jovem negro podia ter sentimentos tão nobres e generosos, mesmo sendo escravo e fazendo parte desse regime tão perverso como a escravidão, mas que não conseguiu manchar e nem desfazer o que Deus havia colocado em seu coração, ela mais uma vez subverte o que alguns homens da época achavam do ser humano que nascia negro e na África. “O destino do povo africano, cumprido através de milênios, depende de um evento único, remoto, mas irreversível: a maldição de Cam, de seu filho Canaã e de todos os seus descendentes. O povo africano será negro e será escravo: eis tudo” (BOSI, 1992, p. 256). Estudiosos e historiadores afirmavam que a escravidão teve origem em um acontecimento bíblico num tempo remoto e alegavam que era uma maldição à qual os negros estavam sujeitos em decorrência de um único episódio registrado na Bíblia no livro de Gênesis (9.18-27), o qual será transcrito a seguir: E os filhos de Noé, que da arca saíram, foram Sem, e Cam, e Jafé; e Cam é o pai de Canaã. Estes três foram os filhos de Noé; e destes 63 se povoou toda a terra18. E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha. E bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu- se no meio de sua tenda. E viu Cam, o pai de Canaã, a nudez de seu pai, e fê-lo saber a ambos seus irmãos fora. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e seus rostos eram virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos. E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo (Bíblia, 1993, p. 8). É a partir dessa narrativa bíblica que muitos passaram a embasar a escravidão. Lembremos que depois do dilúvio, segundo a Bíblia, a terra passou a ser povoada pelos descendentes de Noé que são Sem, Cam e Jafé. De acordo com o texto acima, Cam, por ter visto a nudez do seu pai, escuta-o proferir as seguintes palavras: “Maldito seja Canaã, servo dos servos seja aos seus irmãos” (Bíblia, 1993, p. 8). Assim, depois do que Noé diz, os descendentes de Cam tornaram-se servos dos seus irmãos. Quando Noé pronuncia a “maldição” utilizando o nome de Canaã, que é o filho de Cam, consequentemente essas palavras já são lançadas às gerações seguintes. Os descendentes de Cam, segundo a história, povoaram os seguintes lugares na terra: “Camitas seriam os povos escuros da Etiópia, da Arábia do Sul, da Núbia, da Tripolânia, da Somália (na verdade, os africanos do Velho Testamento) e algumas tribos que habitavam a Palestina antes que os hebreus as conquistassem.” (BOSI, 1992, p. 257). Ainda segundo Bosi (1992, p. 258), “Restaria, por outro lado, investigar como a maldição de Cam passou a ser atribuída a todos os africanos quando a expansão ultramarinha portuguesa fez ressurgir a figura do escravo a partir do século XV”. É um questionamento cabível já que depois da expansão marítima de Portugal a imagem do escravo africano aparece mais evidente no cenário econômico do mundo da época. O fato é que se consumou em plena cultura moderna a explicação do escravismo como resultado de uma culpa exemplarmente punida pelo patriarca salvo do dilúvio para perpetuar a espécie humana. A referência à sina de Cam circulou reiteradamente nos séculos XVI, XVII e XVIII, quando a teologia católica ou protestante se viu 18 Grifos nossos. 64 confrontada com a generalização do trabalho forçado nas economias coloniais. O velho mito serviu então ao novo pensamento mercantil, que o alegava para justificar o tráfico negreiro, e ao discurso salvacionista, que via na escravidão um meio de catequizar populações antes entregues ao fetichismo ou ao domínio do Islão. Mercadores e ideólogos religiosos do sistema conceberam o pecado de Cam e a sua punição como o evento fundador de uma situação imutável (BOSI, 1992, p. 258). Durante muito tempo, como vimos acima, utilizou-se da maldição de Cam para justificar a escravidão e estigmatizar os povos negros. Entretanto, a inferioridade africana que alguns pregavam não é abordada no romance de Maria Firmina dos Reis, pelo contrário, a escritora concebe os escravos do livro (Túlio, Suzana e Antero) como seres humanos que foram privados de ter uma vida livre, feliz e realizada porque foram capturados e escravizados em um país distante do seu e impedidos de se desenvolverem intelectualmente (porque escravos não podiam frequentar escolas). Na verdade o que Firmina faz é uma crítica a essa ideia de que os brancos são superiores aos negros. Ademais, os cruéis castigos que os negros tiveram que enfrentar foram muitos e das mais variadas formas possíveis. Em Úrsula, a preta Suzana relata como foram os seus dias na casa de Luísa B... quando Paulo B... o pai de Úrsula ainda era vivo. A escrava chega a citar algumas formas de punições utilizadas por seu senhor: E ela chorava, porque doía-lhe na alma a dureza de seu esposo para com os míseros escravos, mas ele via-os expirar debaixo dos açoites os mais cruéis, das torturas de anjinho, do cepo e outros instrumentos de sua malvadeza, ou então nas prisões onde os sepultava vivos, onde, carregados de ferros, como malévolos assassinos acabavam a existência, amaldiçoando a escravidão; e quantas vezes aos mesmos céus!... (REIS, 2004, p. 118, grifos nossos). A crueldade de Paulo B... também foi grande com os seus escravos,e de variadas formas possíveis, já que ele se utilizou de castigos como “torturas de anjinho”, “do cepo”, e ainda os aprisionava vivos, demonstrando, assim, que o tratamento destinado aos escravos pelo seu senhor era desumano. Apesar de Úrsula ser um romance de ficção, sabemos que muitas das histórias contadas nesse livro poderiam ter sido baseadas na realidade, que era bem pior. O comendador Fernando P..., por sua vez, também não se cansava dos 65 sofrimentos dos seus míseros escravos, mas teve um dia em que o feitor da sua fazenda não aguentou mais obedecer às suas ordens tão desumanas e disse: Fartai-vos de atrocidades, já que sois um monstro, – retrucou fora de si o feitor, fixando-o com um olhar de desprezo, que ele suportou – banhai-vos no sangue dos vossos semelhantes, juntai crimes horrendos a crimes imperdoáveis; mas não conteis mais doravante comigo para instrumento dessas ações, que revoltam ainda a um coração viciado, e que só no vosso pode achar morada (REIS, 2004, p. 186). A voz dos personagens muitas vezes pode se confundir com um grito da própria escritora já que Maria Firmina não negou sua postura abolicionista nem no seu romance Úrsula nem no conto “A escrava” (1887). Em 1859, a escravidão no Brasil ainda era intensa, e as suas ideias contra a escravidão estão presentes em todo o seu livro mesmo que alguma delas estejam nas entrelinhas. Todavia, para que o sonhado dia da abolição da escravatura chegasse ao Brasil, o país passou por muitos movimentos contra e a favor da liberdade dos escravos. Por isso, já era notória a fragilidade do Império brasileiro para manter a escravidão e a turbulência social foi crescendo depois da promulgação da Lei do Ventre Livre (lei que libertava os filhos dos escravos nascidos após o seu anúncio em 1871): “Os acanhados efeitos da Lei do Ventre Livre só fizeram crescer e intensificar a campanha abolicionista” (LINHARES et al, 1990, p. 285). Por conseguinte, a pressão da população para o fim da escravidão tomou conta de todo o país: [...] A abolição imediata e incondicional passava a ser exigida sem rodeios ou medidas paliativas. Em 1883, é fundada a Confederação Abolicionista, presidida por João Clapp, no intuito de dar uma unidade ao movimento, congregando as associações e clubes espalhados pelo país (LINHARES, et al, 1990, p. 285). Em todas as partes do Brasil o movimento abolicionista se intensificou e as autoridades políticas tentavam de alguma forma acalmar os ânimos, tanto que em 28 de setembro de 1885 eles promulgam a Lei dos Sexagenários (lei que tornava livre os escravos acima de 65 anos) para conter as manifestações, e até conseguem por um pequeno espaço de tempo, mas que não fez o movimento abolicionista esfriar. Vale lembrar que esses protestos para o fim da escravidão abarcavam 66 pessoas de todas as camadas sociais, de advogados a estudantes, de jornalistas a tipógrafos, entre outros. Em 1887, algumas adesões importantes são feitas à campanha abolicionista como, por exemplo, o Partido Republicano Paulista que “manifesta-se claramente em defesa da Abolição, ficando decidido que seus membros libertariam todos os seus escravos até 14 de julho de 1889” (LINHARES et al, 1990, p. 288). Aderem também, em 13 de novembro de 1887, os conservadores paulistas liderados por Antônio Prado; em seguida, os cafeicultores do Oeste Paulista e, por fim, o Exército, que em 22 de junho de 1887, cria o Clube Militar do Rio de Janeiro: [...] presidido por Deodoro da Fonseca, que, em outubro, enviou uma petição à princesa Isabel (então na regência do trono), solicitando que os militares não mais fossem destacados para caçar escravos fugidos; diante da recusa da regente, o Exército assim mesmo decidiu não mais capturar tais fugitivos, alegando ser esta atividade uma imoralidade que denegria a imagem e a dignidade da instituição militar (LINHARES, et al, 1990, p. 288). Com a decisão do exército de ser favorável ao movimento abolicionista, ficava mais difícil a situação dos proprietários de escravos para contê-los e também para resgatar aqueles que se aventuravam a fugir. Não existia mais outra saída a não ser libertar os negros, visto que já haviam sofrido por serem vítimas da escravidão. As pressões aumentaram e a situação do país ficou caótica. Assim, a coroa resolve agir demitindo o Barão de Cotegipe e colocando no seu lugar João Alfredo de Oliveira que em, 3 de maio de 1888, apresenta um primeiro projeto de Abolição da escravidão, no entanto, a Assembleia Geral não o aprova, por ter muitas condições desfavoráveis ao escravos e assim: [...] Um novo projeto de lei foi, então, encaminhado ao Parlamento no dia 7 de maio; composto de apenas dois artigos, o primeiro declarava extinta a escravidão no Brasil e o segundo revogava as disposições em contrário. Tão crítica era a situação que só nove deputados (oito dos quais, da província fluminense) e seis senadores votaram contra a proposta. Assim, em 13 de maio, o projeto transformou-se na Lei Áurea, assinada pela regente Isabel, libertando cerca de setecentos mil escravos (LINHARES et al, 1990, p. 288-289). Com muito entusiasmo essa notícia chegou aos escravos de todo o país. Entretanto, os dias que se seguiram foram de extrema frustração para os negros porque, apesar de já serem livres, as autoridades não proporcionaram outras 67 formas de viverem dignamente e nem proveram assistência para eles e suas famílias e, por conseguinte, uns continuaram trabalhando nos lugares em que viveram antes da Abolição, outros foram tentar a sorte em lugares mais produtivos do Brasil e uma parte juntou-se a um grupo de desocupados sem perspectivas futuras. Quanto a Maria Firmina, somente após 29 anos da publicação de Úrsula é que concretiza o sonho de ver os escravos livres aqui no Brasil e é esta mulher escritora, professora, mulata e maranhense que escreve o “Hino à liberdade dos escravos”, transcrito abaixo um trecho dele: Salve Pátria do Progresso!19 Salve! Salve Deus a Igualdade! Salve! Salve o Sol que raiou hoje, Difundindo a Liberdade! Quebrou-se enfim a cadeia Da nefanda Escravidão! Aqueles que antes oprimias, Hoje terás como irmão! Tanto tempo após a promulgação da Lei Áurea, os negros descendentes de africanos sofrem ainda com o preconceito, o racismo e a violência desses seres humanos que não percebem ou não aceitam que todos são iguais independentemente da cor, raça ou religião. 4.3.2 Religião O romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, não é diferente dos romances da época que costumavam dar uma atenção especial aos temas religiosos, até porque a escritora faz parte do Romantismo. Segundo Algemira Macedo Mendes, o nome do romance, que é homônimo ao da protagonista, tem relação também com temas religiosos, vejamos: Úrsula é o nome de uma santa britânica martirizada. Prometida para Jesus Cristo, foi pedida em casamento por um príncipe pagão. Ela 19 Trecho do Hino à liberdade dos escravos: Disponível em: <http:// www.letras.ufmg.br/vivavoz/data1/.../poemastrabalhadores-site.pdf>. Acesso em 19 março 2013. 68 pede um tempo para decidir e durante esse tempo reza pela conversão de seu pretendente. Úrsula e as onze mil virgens se exercitavam na virtude, até que, inesperadamente, resolvem fugir através dos mares. Chegando à colônia, depois de muitas peregrinações, mas são barbaramente massacradas pelos hunos. Somente Úrsula foi poupada por sua beleza e nobreza. O rei dos hunos se apaixona por Úrsula e pede-a em casamento. Mas ela já tinha por esposo um reimuito mais poderoso que todos os reis da terra, Jesus Cristo. A origem do nome Úrsula também pode ser associada a um auto do Padre José de Anchieta denominado Santa Úrsula, em que é feita referência ás Virgens Mártires de Colônia, morta, pelos Hunos em defesa da fé e da virgindade. Na lenda de Santa Úrsula, ela é filha do rei da Grã-Bretanha, líder das virgens, que reuniu e com elas percorreu vários países em peregrinação; aprisionada pelos Hunos, foi degolada (MENDES, 2006, p. 72-73). Se o que motivou Maria Firmina a nomear seu romance foi alguma das histórias acima, não se sabe, mas o nome do romance e da protagonista faz referência a uma jovem tipicamente romântica pelas descrições que o narrador faz: “Úrsula era ingênua e singela em todas as suas ações” (REIS, 2004, p. 33) e pelo imaginário que gira em torno dessa pobre virgem que se torna vítima do incondicional amor do seu tio Comendador Fernando P... exigindo ser o seu marido. O comendador é o antagonista da história e esse amor, que outrora foi nutrido pela sua irmã Luisa B... e que agora é voltado para sua sobrinha, é mais uma vez a prova da crueldade desse homem que não sentia remorso nenhum de pensar em cometer a “prática do incesto”, caso os seus planos fossem concretizados. Em meio a esse louco amor do Comendador Fernando P... por Úrsula, a pobre jovem perde não só a mãe, com ainda o seu amado Tancredo no dia do seu casamento, que nem chega a ser concretizado. Assim, em virtude de tantas dores, a jovem perde a razão e enlouquece. Por ser o catolicismo a religião oficial do país, no Brasil, do século XIX, a autora insere em seu romance os valores religiosos da época, porém denuncia a escravidão e as atrocidades cometidas contra os escravos e que a religião era conivente indo mais além e faz também uma denúncia contra a Igreja no decorrer de todo o capítulo XVI intitulado “O comendador Fernando P...”, quando o narrador fala que o comendador tinha um capelão na sua casa, apesar de ser um homem tão cruel e violento: O comendador, talvez mais por ostentação que por sentimentos religiosos, tinha em sua casa um capelão, que era voz pública ser-lhe muito dedicado em consequência de altos favores feitos pelos pais 69 de Fernando a sua família. Fosse pelo que fosse, o capelão de Fernando P... dizia-se amigo deste, e isso causava a todos admiração; porque o comendador era um homem detestável e rancoroso, e o sacerdote parecia ser um santo varão. Por uma singular anomalia estes dois homens pareciam querer-se, ou suportar-se reciprocamente, e essa união dava-lhes a reputação de íntimos amigos (REIS, 2004, p. 177-178, grifos nossos). Na verdade, a “amizade” do capelão com o comendador Fernando P... era mais por consequência de “altos favores” do que por interesses parecidos, o elo que os unia era mais por interesse e convenção social do que amor e ideologias comuns. Na sequência do capítulo acima referido, observamos que mesmo vendo as crueldades que o comendador cometia contra os seus escravos, o capelão ficava em silêncio. Contudo, quando a preta Susana está prestes a se tornar mais uma vítima da crueldade e da violência do Comendador, na casa de Luísa, por causa do sumiço de Úrsula, o capelão decide falar em defesa da pobre escrava e diz: “– Prudência, filho! Por que vos encolerizais contra essa mísera velha?” (REIS, 2004, p. 182). Mesmo com o conselho do padre, o comendador manda dois negros à casa que foi de Paulo B... para buscarem a africana para sua fazenda e, quando ela chega, a interroga “com voz que horrorizava” tentando obrigar a negra a dizer o que ela não sabia. O capelão intercede: “– Filho – objetou o padre, – filho, em nome do que nos há de julgar não mandeis flagelar esta pobre velha; ela é inocente” (REIS, 2004, p. 190). É notória a indiferença do cruel comendador Fernando P... com as palavras e os conselhos do padre, o qual suportava tudo, por viver tranquilamente na fazenda de Fernando. Mesmo sendo um “santo varão”, dizia-se amigo do comendador e insistia em tentar convencer o antagonista da história a não cometer tais atrocidades. Assim, mesmo o Padre F... dizendo que a preta Susana era inocente, o comendador não deixa de mandá-la para um terrível castigo que ocasionou na morte da africana. Pouco depois, ao ser informado sobre onde estava Úrsula e Tancredo, Fernando P... sai furioso para achá-los e o capelão argumenta mais uma vez: - Jesus! Senhor meu Deus! – bradou o pobre padre. – Ainda é tempo de retroceder. Pelo céu, meu filho, não mancheis vossas mãos no sangue do vosso irmão! Filho, o assassino é maldito do Senhor; Caim o foi. Para o assassino não há na vida sossego, nem paz na 70 morte. O sepulcro mesmo, quem sabe se lhe promete tranquilidade? A vingança, filho, é um prazer amargo, e seu fruto, é o requeimar do remorso em toda a existência, e até ao último extremo, até a sepultura (REIS, 2004, p. 193-194). Cego pelo ódio por Tancredo, o comendador não muda de ideia após as palavras do capelão, sai furioso de casa para concretizar sua vingança, que é matar aquele jovem advogado o qual Úrsula ama. Ele escuta o padre, mas não reconhece o erro que está prestes a cometer e diz: “Mentes, padre maldito! A vossa doutrina não escutarei nunca. A vingança, desejo-a com ardor, afago-a” (REIS, 2004, p. 194). Percebe-se, portanto, que o comendador tem um padre na sua casa apenas por capricho e ostentação, pouco se importando com os princípios que a igreja prega. Desse modo, o fim do diálogo entre o homem de paz e o homem de ódio termina assim: – Misericórdia, meu Deus! – bradou o padre erguendo as mãos ao céu. – Silêncio! – exclamou Fernando ardendo em ira, e aproximando-se-lhe, disse:- Sois meu prisioneiro. A justiça da terra não me estorvará a vingança, porque ninguém senão vós ousará denunciar-me. As...sas...si...no!!! – estupefato disse o pobre sacerdote, e ficou estacado nesse lugar sem movimento, com os cabelos erriçados, membros hirtos, e os olhos parados, como se um raio o houvesse fulminado (REIS, 2004, p. 196). Diante de tantas palavras de afronta, a conversa entre dois homens tão diferentes se encerra e aquele ser cheio de cólera e ódio, Fernando P..., sai para concretizar a ação já dita pelas suas palavras: matar Tancredo. Depois de ter consumado a sua vingança – dar um fim a vida de Tancredo –, o Comendador sente-se dono da pobre Úrsula, mas esta não aguenta tantas dores em tão pouco tempo e depois de ter enlouquecido, morre. Então, no capítulo XX, depois da sua vingança cumprida, o comendador Fernando P... escuta do padre: Assassino de Tancredo, de Túlio, de Paulo, e de Susana! Monstro! flagelo da humanidade, ainda não saciastes a vossa vingança? Ah! humilhado e em nome de Deus, pedi-vos mercê para os infelizes; salvação para a vossa alma. Desdenhastes as minhas súplicas! Orgulhoso e vingativo que sois! E não sentistes que Deus observa os malvados e que os pune ainda na terra (REIS, 2004, p. 226). 71 O padre, cumprindo suas funções de sacerdote, mais uma vez tenta colocar o comendador no caminho do arrependimento e o aconselha a alforriar os seus escravos como um começo para sua vida de mudança diante de Deus. E assim, Fernando P... vai para o convento das carmelitas e fica impune dos crimes cometidos porque “só um homem conhecia o assassino; mas esse homem era incapaz de uma denúncia – esse homem só curava da alma, e a sua missão era toda de paz” (REIS, 2004, p. 231). Esse homem era o capelão, que morava na casa do comendador, e não foi capaz de denunciar aquele que para muitos era seu íntimo amigo. No convento, o comendador ficou conhecido de uma forma diferentedaquele homem cruel e vingativo que por muito tempo atormentou seus escravos: “Quem era ele ninguém o sabia no convento. Chamava-se – Frei Luís de Santa Úrsula” (REIS, 2004, p. 232). Depois de passados dois anos de todos os acontecimentos, a morte chega para o terrível comendador Fernando P... ou Frei Luís de Santa Úrsula, mas o ódio de não ter desposado a sua sobrinha ainda é grande no seu coração e somente depois de um diálogo com o monge, momentos antes de morrer, arrepende-se pelos crimes que cometeu. O romance termina com as palavras “No convento de ***, junto ao altar da Senhora das Dores encontra-se uma lápide rasa e singela com estas palavras – Orai pela infeliz Úrsula!” (REIS, 2004, p. 237, grifos da autora). Maria Firmina dos Reis faz, assim, uma crítica à igreja que era conivente com práticas tão desumanas e atrozes como a escravidão. E, nas estrelinhas, questiona como autoridades dessa instituição religiosa como o capelão, que era “um homem santo”, conseguia conviver com atos abusivos de autoridade como os que eram praticados pelo comendador sem se pronunciar contra eles ou em vez de interceder apenas por um, como fez com a preta Susana, não o fez por todos? Vale ressaltar que Úrsula, escrito em 1859, faz parte do Romantismo, cuja temática frequentemente coloca em questão temas religiosos em seus romances. Conforme Antônio Cândido afirma: A religião foi um tema que ocupou um lugar de destaque na estética romântica. Embora os poetas da primeira fase tivessem sido os mais declaradamente religiosos, no sentido estrito de todos os românticos, com poucas exceções, manifestam um ou outro avatar do sentimento 72 religioso, desde a devoção caracterizada até um vago espiritualismo, quase panteísta (CANDIDO apud MENDES, 2006, p. 74). Fica evidente que o tema da religião também teve um papel de destaque em Úrsula, visto que para fazer críticas à escravidão, Firmina utiliza-se de palavras da Bíblia Sagrada para embasar o seu posicionamento abolicionista, mostrando aos seus leitores que para Deus todos são iguais. Pode-se notar ainda que a religião que predominou no romance foi a Católica, pelos termos usados capelão, padre F..., o convento de ***. E no momento de fazer também uma crítica a essa igreja que aceitava que o branco tratasse o negro como inferior, como animalesco e não fazia nada para evitar, amenizar ou até mesmo acabar com a escravidão, ela se utiliza da situação de um capelão morar na casa de um fazendeiro cruel e nada declarar diante de tantos abusos de poder cometidos na sua frente para, no mínimo, causar em um leitor mais atento um sentimento de decepção diante daqueles homens que, de modo geral, têm a função precípua de cuidar e amar os pobres e não se mostrar indiferentes a eles e ao que eles viviam. 73 5 MARIA FIRMINA NA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA O Brasil é um país híbrido em vários aspectos, quais sejam: cultural, étnico e religioso, entre outros. Dessa forma, pela literatura, mesmo sendo obra de ficção, perpassam situações, ambientes, experiências que abarcam e confrontam determinados aspectos da sociedade em que o autor está inserido. Nesse sentido, a literatura afro-brasileira, particularmente, tem como foco um povo que foi marginalizado durante muito tempo, visto como animalesco e sem capacidades intelectuais. Assim, é o povo negro, descendente de africanos, que é o ponto de partida desta literatura negra. De acordo com Octavio Ianni (apud DUARTE, 2008, p. 12), “o negro é o tema principal da literatura negra”, ou seja, é sobre esses descendentes de africanos, que vivem ou viveram aqui no Brasil, que sofreram com o preconceito, racismo, discriminação e falta de estrutura para viver. São esses, que ficaram à margem da literatura brasileira, que a literatura afro-brasileira mostra realmente como são, dando-lhes voz para falarem e se expressarem. É o negro com as suas frustrações, ansiedades, discriminações, preconceitos e religiões que essa literatura mostra sem maquiagem ou manipulação. Tanto no Brasil colônia, Império, República ou na contemporaneidade os fatores culturais, sociais e políticos podem ser descobertos nessa literatura, ou seja, a construção da história do negro pode ser escrita junto com a construção do Brasil. Sob essa questão, Ironildes Rodrigues afirma: A literatura negra é aquela desenvolvida por autor negro ou mulato que escreva sobre sua raça dentro do significado do que é ser negro, da cor negra, de forma assumida, discutindo os problemas que a concernem: religião, sociedade, racismo. Ele tem que se assumir como negro (RODRIGUES apud DUARTE, 2011, p. 377). Percebe-se, assim, que para uma produção literária ser tida como afro- brasileira, ou seja, inserida na literatura “negra”, o escritor tem de se assumir como negro e escrever temas relacionados com o ser negro, seja inserido na sociedade atual seja nos períodos que remetem à escravidão, à abolição etc. Para ampliar o conceito de literatura afro-brasileira, Luiza Lobo acrescenta: 74 Poderíamos definir literatura afro-brasileira como a produção literária de afrodescendentes que se assumem ideologicamente como tal, utilizando um sujeito de enunciação próprio. Portanto, ela se distinguiria, de imediato, da produção literária de autores brancos a respeito do negro, seja enquanto objeto, seja enquanto tema ou personagem estereotipado (folclore, exotismo, regionalismo) (LOBO apud DUARTE, 2011, p. 382). A produção literária dos escritores inseridos na literatura afro-brasileira é uma visão do negro que sofre e se angustia, mas que também se revolta, sente-se subjugado ao sistema, que não se vê em situação de igualdade com o branco e que, por isso, protesta, questiona. Podemos dizer que se trata também de uma denúncia, de um questionamento constante sobre o ser negro na sociedade brasileira. “Enfim, essa literatura não só existe como se faz presente nos tempos e espaços históricos de nossa constituição enquanto povo; não só existe como é múltipla e diversa” (DUARTE et al, 2011, p. 376). A esse respeito, Octávio Ianni adverte: A literatura negra não surge de um momento para outro, nem é autônoma desde o primeiro instante. É um imaginário que se forma, se articula e transforma no curso do tempo, movimentando-se sob a influência dos dilemas do negro e das invenções literárias. Como tema e sistema, ela se desloca aos poucos da história social e cultural brasileira, adquirindo fisionomia própria. Desencanta-se da história do povo brasileiro e da história da literatura brasileira. Desloca-se e desencanta-se pela originalidade e força do movimento social do negro (DUARTE et al, 2011, p. 194). Desse modo, apesar de ser um conceito que ainda está em construção, vem conquistando o seu espaço de tal forma que a lei nº 10.639/2003 já instituiu o ensino de literatura afro-brasileira nas escolas, mostrando, assim, a importância de os jovens conhecerem os escritores negros e a forma como eles escrevem sobre a sua própria cultura. Nessa perspectiva, até autores consagrados na Literatura Brasileira podem ser inseridos na Literatura afro-brasileira, por meio de seus textos que criticam a condição do ser negro na sociedade brasileira, como é o caso de Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto. Mas, pergunta-se: como identificar essa literatura? Como diferenciá-la dos outros textos literários? Existem elementos que conferem especificidade à produção afro-brasileira? Os fatores de inclusão que diferenciam essa literatura das demais 75 dizemrespeito a alguns fatores, quais sejam: a temática, a autoria, o ponto de vista, a linguagem e o público leitor, os quais serão detalhados em seguida. São, portanto, todos esses elementos juntos e inseridos no texto que o caracteriza como pertencente à literatura afro-brasileira, os quais, isoladamente, são insuficientes para considerar esse texto como tal. 5.1 A TEMÁTICA O tema da literatura afro-brasileira considera os descendentes de africanos e/ou os negros, não só num plano humano, mas também como inseridos na sociedade tanto no passado (quando eram considerados apenas escravos) como na contemporaneidade: O tema é um dos fatores que ajuda a configurar o pertencimento de um texto à literatura afro-brasileira. Para Octávio Ianni, trata-se de abordar não só o sujeito afrodescendente, no plano do indivíduo, mas como “universo humano, social, cultural e artístico de que se nutre essa literatura”. Assim, pode contemplar o resgate da história do povo negro na diáspora brasileira, passando pela denúncia da escravidão e de suas consequências, ou ir à glorificação de heróis como Zumbi dos Palmares (DUARTE et al, 2011, p. 385-386). Observa-se que a questão da temática é presente em Úrsula, uma vez que Maria Firmina dos Reis trata os negros como seres humanos, embora façam parte da sociedade escravocrata do século XIX que considera os negros inferiores, incapazes de desenvolverem outras atividades senão o trabalho braçal e servir aos brancos. Assim, percebemos o tom de denúncia que Firmina imprime ao colocar Túlio como semelhante de Tancredo. Percebe-se até que a escritora mostra a situação no plano do indivíduo para falar acerca do coletivo, ou seja, Túlio tem sentimentos tão nobres como Tancredo assim como qualquer negro pode possuir sentimentos iguais aos do branco. Mas a temática não se resume apenas a esses tipos de situações, ela “abarca ainda as tradições culturais ou religiosas transplantadas para o Novo Mundo, destacando a riqueza dos mitos, lendas e de todo o imaginário circunscrito quase sempre à oralidade” (DUARTE et al, 2011, p. 386). A tradição cultural que 76 pode ser evidenciada em Úrsula é a “festa do fetiche”, citada pelo velho Antero, como sinônimo de alegria, diversão e prazer que em outros tempos gozava na África em detrimento do trabalho pesado e do sofrimento que veio experimentar no Brasil quando o trouxeram para ser aqui escravo. Entretanto, a literatura afro-brasileira, como já foi dito, não se limita somente à história do passado dos negros no Brasil, mas diz respeito também à contemporaneidade com suas exclusões, preconceitos e marginalização do povo descendente de africanos. No entanto, a abordagem das condições passadas e presentes de existência dos afrodescendentes no Brasil não pode ser considerada obrigatória, nem se transformar numa camisa de força para o autor, o que redundaria em visível empobrecimento. Por outro lado, nada impede que a matéria ou o assunto do negro estejam presentes na escrita dos brancos. Desde as primeiras manifestações das vanguardas estéticas do século XX, uma forte tendência negrista parte das apropriações cubistas do imaginário africano e se estende a outras artes e outros países, em especial no modernismo brasileiro. Desta postura decorrem textos hoje considerados clássicos. Deste modo, a adoção da temática afro não deve ser considerada isoladamente e, sim, em sua interação com outros fatores como autoria e ponto de vista (DUARTE et al, 2011, p. 387). Dessa forma, pode-se considerar que a temática é um fator muito importante da literatura afro, porém que não pode ser vista isoladamente. O escritor branco pode escrever sobre o negro, mas não poderá ser considerado escritor de literatura afro-brasileira tendo em vista o segundo elemento que caracteriza essa literatura: a autoria. 5.2 A AUTORIA A autoria é um dos elementos da literatura afro-brasileira mais controversos, visto que não se leva apenas em consideração os traços fenotípicos (cor da pele ou textura do cabelo), pois também “é preciso compreender a autoria não apenas como um dado ‘exterior’, mas como uma constante discursiva integrada à materialidade da construção literária” (DUARTE et al, 2011, p. 388, grifos do autor). 77 Percebe-se, assim, que a autoria tem relação com as experiências de vida do autor ou autora dos textos, porque não se pode falar com tanta propriedade sobre o ser negro (com todas as características que o conceito de ser negro abrange) sendo branco. Nesse sentido, os obstáculos e preconceitos vividos pelo negro nas ruas ou nos lugares que frequenta, somente ele pode descrever o que é sentir-se inferiorizado pelos outros. A instância da autoria como fundamento para a existência da literatura afro-brasileira decorre da relevância dada à interação entre escritura e experiência, que inúmeros autores fazem questão de destacar, seja enquanto compromisso identitário e comunitário, seja no tocante à sua própria formação de artista das palavras. (DUARTE et al, 2011, p. 389, grifos do autor). As experiências que os negros vivem ou viveram os colocam em uma situação de maior propriedade para abordarem certas temáticas. É válido lembrar que depois da abolição dos escravos, em 1888, muitos ficaram em situação de extrema pobreza pelo descaso que o governo deu aos negros libertos e eles tiveram de se submeter aos trabalhos que tinham antes da liberdade, recebendo, para isso, salários muito ruins. E até mesmo sendo tratados como vagabundos e perturbadores da paz. Dessa forma, a escrita da literatura afro-brasileira por negros afrodescendentes torna-se algumas vezes como traços autobiográficos. “Literatura é discursividade e a cor da pele é importante enquanto tradução textual de uma história própria ou coletiva” (DUARTE et al, 2011, p. 390, grifos do autor). Maria Firmina dos Reis, como mulata, escreveu o primeiro romance afro- brasileiro escrito por mulher e não podemos negar que a sua formação social e cultural cooperaram para inserir elementos da história dos afrodescendentes no romance Úrsula em que Firmina dá voz aos negros para dizerem o que pensam como pensam e por que pensam assim. 5.3 O PONTO DE VISTA O ponto de vista como um dos elementos que caracteriza a literatura afro- brasileira torna-se a visão do outro (aquele sujeito marginalizado) que durante muito 78 tempo aqui no Brasil foi estereotipado como animalesco, inferior, sem capacidades intelectuais e que, dessa forma, vem falar sobre o que viveu. Expressando suas opiniões, experiências e obstáculos que teve de enfrentar só porque tinha uma pele mais escura e também por ser descendente de escravos. O ponto de vista adotado indica a visão de mundo autoral e o universo axiológico e vigente no texto, ou seja, o conjunto de valores que fundamentam as opções até mesmo vocabulares presentes na representação. Diante disso, a ascendência africana ou a utilização do tema são insuficientes. É necessária ainda a assunção de uma perspectiva identificada à história, à cultura, logo, toda problemática inerente à vida e às condições de existência desse importante segmento da população (DUARTE et al, 2011, p. 391). Não é apenas ser descendente de africanos ou falar sobre o negro que torna um texto pertencendo à literatura afro-brasileira, o autor tem de ter uma opinião marcada pelo sentimento de quem sabe o que é ser discriminado e inferiorizado pelos brancos. Na sequência do texto acima, Eduardo de Assis Duarte refere-se ao “Orfeu de Carapinha” de Trovas Burlescas de Luiz Gama, escrito em 1859, que é considerado o primeiro escritor da literaturaafro-brasileira, que se declara negro e orgulhoso da sua cor de pele. Em seguida, Duarte comenta: Já em seu romance Úrsula, também de 1859, Maria Firmina dos Reis adota a mesma perspectiva ao colocar o escravo Túlio como referência moral do texto, chegando a afirmar, pela voz do narrador, que Tancredo, um dos brancos mais destacados na trama, possuía “sentimentos tão nobres e generosos como os que animavam a alma do jovem negro”. Mais adiante, faz seu texto falar pela voz de Mãe Suzana, velha cativa que detalha a vida livre na África, a captura pelos ‘bárbaros’ traficantes europeus e o ‘cemitério’ cotidiano do porão do navio negreiro. Numa época em que muitos sequer concediam aos negros a condição de seres humanos, o romance e a perspectiva afroidentificada da escritora soam como gestos revolucionários que a distinguem do restante da literatura brasileira da época. (DUARTE et al, 2011, p. 391) Como o ponto de vista do autor é importante juntamente com a temática e a autoria, para tornar um texto pertencente à literatura afro-brasileira não basta apenas falar sobre o tema ou ser afrodescendente, tem de ter posicionamento diante das dificuldades pelas quais o negro passou ou passa, externar a sua opinião. Foi justamente isso que Maria Firmina dos Reis fez no romance Úrsula, ela se posiciona como a favor da abolição dos escravos em uma época em que a escravidão estava 79 intensa no Brasil. Mesmo assim, ela não deixou de colocar a sua opinião a favor da abolição na voz dos seus personagens. 5.4 A LINGUAGEM A linguagem também é um fator importante nessa literatura. Uma escrita de afrodescendente é marcada por palavras que rementem ao negro sem o tom pejorativo que muitos textos colocam, por exemplo, palavras como negro, crioulo, mestiço, mulato marcam uma linguagem que quer retratar os descendentes de africanos de outra forma, com uma nova visão. Até porque “a literatura costuma ser definida, antes de tudo, como linguagem, construção discursiva marcada pela finalidade estética” (DUARTE et al, 2011, p. 394). Sabe-se que a linguagem é importante para transmitirmos os nossos pensamentos, ideias, ponto de vista e também para convencer, desmistificar e desconstruir os conceitos que temos do outro. Veja: Todavia, outras finalidades para além da fruição estética são também reconhecidas e expressam valores éticos, culturais, políticos e ideológicos. A linguagem é, sem dúvida, um dos fatores instituintes da diferença cultural no texto literário. Assim, a afro-brasilidade tornar-se-á visível também a partir de um vocabulário pertencente ás práticas linguísticas oriundas da África e inseridas no processo transculturador em curso no Brasil. Ou de uma discursividade que ressalta ritmos, entonações e, mesmo, toda uma semântica própria, empenhada muitas vezes num trabalho de ressignificação que contraria sentidos hegemônicos na língua. Isso porque, bem o sabemos, não há linguagem inocente, nem signo sem ideologia (DUARTE et al, 2011, p. 394). Conforme Duarte ressalta, a linguagem não é inocente, ou seja, a linguagem dos afrodescendentes na escrita está marcada pela sua cultura, ideologia e também pela sua história e pela história dos seus antepassados. É marcada também pelo sofrimento, pela condição de inferioridade a que foram submetidos durante muito tempo, e também possui o ritmo da sua cultura marcada pelas suas festas e tradições que não deixaram morrer com a chegada ao Brasil. A linguagem é a marca de um povo e, nesse caso, as palavras, o sentido de algumas, que não é marcada pelo tom depreciativo de outros textos, e, portanto, já fazem a diferença. 80 5.5 O PÚBLICO Mas, quem é o alvo, quem é o público a quem essa literatura afro-brasileira destina-se? A constituição deste público específico, marcado pela diferença cultural e pelo anseio de afirmação identitária, compõe a faceta algo utópica do projeto literário afro-brasileiro, sobretudo a partir de Solano Trindade, Oliveira Siqueira e dos autores contemporâneos. [...] No caso, o sujeito que escreve o faz não apenas com vistas a atingir um determinado segmento da população, mas o faz também a partir de uma compreensão do papel do escritor como porta-voz da comunidade. Isso explica a reversão de valores e o combate aos estereótipos, procedimentos que enfatizam o papel social da literatura na construção da autoestima (DUARTE et al, 2011, p. 398). Percebe-se que a literatura afro-brasileira pensa não apenas no plano do indivíduo, mas no coletivo porque quer fazer uma literatura que ajude os descendentes de africanos a superar os seus traumas e frustrações e auxiliá-los, por meio da leitura, a construir uma visão do negro diferente da que foi estereotipada pela literatura e em outras artes, em algumas épocas, auxiliando-os na sua construção identitária. Nessa perspectiva, o público que os escritores da literatura afro-brasileira querem focar muitas vezes não tem o hábito da leitura e também muitos não têm acesso a livros de escritores afrodescendentes, por isso, a tarefa desses escritores é ambiciosa, parafraseando Eduardo de Assis, porque primeiro eles têm de implantar o prazer de ler nesse seu público leitor e depois ajudá-los a ter acesso às obras dos afro-brasileiros. É bom destacar aqui a importância das publicações do Quilombhoje20 que há tantos anos tem a tarefa de tornar mais acessíveis e conhecidas as publicações dos escritores afrodescendentes no Brasil. 20 O QUILOMBHOJE LITERATURA, grupo paulistano de escritores, “fundado em 1980, por Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Abelardo Rodrigues e outros, com objetivo de discutir e aprofundar a experiência afro-brasileira na literatura. O grupo tem como proposta incentivar o hábito da leitura e promover a difusão de conhecimentos e informações, bem como desenvolver e incentivar estudos, pesquisas e diagnósticos sobre literatura e cultura negra”. Disponível em: http://www.quilombhoje.com.br/ 81 Torna-se evidente que para um texto integrar a literatura afro-brasileira deve estar de acordo com a temática, a autoria, o ponto de vista, a linguagem e o público, reafirmando que esses elementos separados não caracterizam a obra como afro- brasileira. Quanto à autora, Maria Firmina dos Reis é considerada a primeira mulher a escrever um romance no Brasil e também a primeira a escrever um romance na literatura afro-brasileira. Assim, em virtude de tudo que já foi visto neste capítulo, pode-se considerar Úrsula como um romance com um ponto de vista de uma descendente de escravos que não se intimida em colocar a sua opinião na voz das suas personagens para criticar a escravidão no Brasil. A ousadia de Maria Firmina dos Reis ultrapassa as páginas do livro e toca o leitor mais atento do seu romance ao identificar que na voz dos negros (Túlio, Suzana e Antero) existia uma crítica, uma insubordinação de uma mulher que só queria que todos os homens, independentemente da cor, fossem tratados como iguais. 82 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS No decurso deste estudo foi possível perceber o posicionamento da autora, Maria Firmina do Reis, em seu romance Úrsula. A subversão presente em sua obra, em que ela utilizou o próprio discurso do branco, de cunho religioso, para denunciar a escravidão, exaltando a igualdade dos negros em relação ao homem branco. Ela exaltou o conjunto de valores morais e ideológicos dos negros para narrar e denunciar a condição desses povos no Brasil, no século XIX. O estudo, que tevecaráter teórico, foi feito através de uma análise aprofundada do romance, em que foi possível descrever o imaginário literário construído acerca do negro na sociedade brasileira – no século XIX, implícito na literatura –, sendo alcançada essa descrição fazendo-se um paralelo com obras do mesmo período (As vítimas-algozes – Quadros da escravidão (1869) de Joaquim Manoel de Macedo e A escrava Isaura (1875) de Bernardo Guimarães) em que se encontra presente esse imaginário mas que descreve o negro com base na visão do branco que estava inserido na sociedade escravocrata. Foram citadas várias características que promovem, em Úrsula, a subversão desse imaginário. A autora põe o negro em posição de igualdade humana, por meio do discurso religioso, social, e da supressão dos sobrenomes de todas as personagens de seu romance. Em pleno século XIX, em que a escravidão estava a todo vapor, fica nítido o posicionamento antiescravista da autora, afrodescendente, que desafiando a sociedade escravocrata, machista e preconceituosa, sendo mulher, negra e lutando pela igualdade dos negros, usou publicar seu romance. Foram encontrados muitos aspectos que poderiam ter sido abordados nesse estudo, pois o romance é rico em possibilidades, porém para não sair do foco do tema, foi feito um paralelo também com a história do Brasil no século XIX, com seu posicionamento religioso, político e social, para que ficasse claro em que sociedade foi escrita a obra e a importância do feito de Maria Firmina dos Reis na publicação do livro, sendo ela pioneira nas literaturas feminina brasileira e afro-brasileira. Com um conceito ainda em construção, a literatura negra no Brasil tem como uma das suas primeiras manifestações o romance Úrsula, em que oferece ao público não só uma crítica à sociedade do século XIX, mas também uma insubordinação daquela que foi incompreendida e desprezada por muitos, que 83 durante muito tempo teve sua voz abafada pela mesma sociedade que ela tanto desafiou e criticou. Espera-se que esse estudo contribua para uma ampliação da visibilidade, divulgação e reconhecimento da importância dessa obra, oferecendo à crítica mais um suporte sobre a autora e seu romance Úrsula. 84 REFERÊNCIAS ALBERTO, Jorge. Colégio Pro Campus. Comentários de obras UESPI – Úrsula de Maria Firmino dos Reis. 2009. Disponível em <http://www.procampus.com.br/vestibular/resumos/uespi2009/%C3%9ARSULA%20- %20M%20FIRMINA%20DOS%20%20REIS.pdf>. Acesso em 05 maio 2012. AQUINO, Paula. História do Maranhão. Curso Avanços. Maranhão: 2011. 11p. Disponível em <http://www.cursoavancos.com.br/downloads/exercicios/histpaula.pdf>. Acesso em 09 jan 2013. ARANHA. Maria Lúcia de Arruda. Século XIX: a educação nacional In: História da Educação e da Pedagogia: Geral e Brasil. 3ª ed. rev. ampl. São Paulo: Moderna, 2006. BAQUAQUA. Apêndice. Biografia de Mahommah G. Baquaqua In: Questão de pele – contos sobre preconceito racial. Prefácio, seleção e organização Luiz Ruffato. 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