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Priscila Tanaca - O Contrato de Trabalho e Previdência Privada - Ano 2006

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prestação de serviços de saúde (arts. 196-198). Uma vez
que a previdência privada terá caráter complementar (art. 202), fica evidente
que todos os dispositivos do art. 201 reportam-se ao dever do Estado na
prestação da previdência social (...)”103
A intervenção do Estado visa evitar que ocorram abusos ou mau gerenciamento
das entidades tanto abertas como fechadas, acarretando um prejuízo aos participantes,
102 Santos, Jerônimo Jesus dos. “Previdência Privada”. Editora Rio de Janeiro, 2005, p. 79.
103 MELLO, Celso Antônio Bandeira de Mello. “Curso de Direito Administrativo”. Editora Malheiros,
2005, p. 751-752
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já que estes muitas vezes não têm conhecimento especializado para avaliar o procedi-
mento adotado pelas entidades referente aos investimentos financeiros e cálculos
atuariais.
Citamos valiosa lição ensinada pelo mestre Wagner Balera:
“O sistema de previdência supletiva, no Brasil, é privado. Essa caracterís-
tica não pode ser considerada apenas como um rótulo, presente no nome
(previdência privada) e ausente na prática. Não! Convém que haja um esque-
ma estatal de proteção e que, ao lado dele, caliça uma estrutura privada facul-
tativa.”104
Assim, “É na verdade o setor de atuação do ente privado – a previdência – que se
acha sob o pálio do direito público. Essa circunstância decorre da natural força atrativa
do regime geral de previdência social em torno do qual a previdência complementar
segue gravitando.”105
A Carta Magna, no seu artigo 22, VIII disciplina as matérias que são de competên-
cia da União e dentre elas, está a função de fiscalizar as operações de natureza financei-
ra, especialmente as de crédito, câmbio e capitalização, bem como as de seguro e de
previdência privada.
Segundo Maria Cibele de Oliveira Ramos ao Estado, cabe o poder-dever de con-
trolar a previdência social e a previdência complementar, pois “são meios de economia
da população. É importante ressaltar que controlar não é intervir, uma vez que interven-
ção só se dá quando há abuso. Daí a necessidade de fiscalização, visto que, se fosse
dado ao aparelho estatal intervir diretamente, o princípio da autonomia da vontade, re-
gente da matéria, restaria prejudicado.”106
104 BALERA, Wagner. “A Seguridade Social na Constituição de 1988”. Editora RT, 1988, p. 109.
105 BALERA, Wagner (coordenação). “Comentários à Lei de Previdência Privada”. Editora Quartier Latin,
2005, p. 32.
106 RAMOS, Maria Cibele de Oliveira. “Os Planos de Benefícios das Entidades de Previdência Privada”.
Editora LTR, 2005, p. 61.
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Embora o ordenamento constitucional possibilite à entidade privada assumir fun-
ções basicamente estatais como a previdência, é inafastável o papel regulador e
fiscalizador do Estado nas entidades de previdência privada.
O art. 174 da Carta Magna estabelece: “Como agente normativo e regulador da
atividade, o Estado exercerá na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e
planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor
privado.” Conforme comentário do constitucionalista José Afonso da Silva, não deverá
ser interpretado este artigo como intervenção no domínio econômico em sentido amplo,
para abranger todas as formas de atuação do Estado na economia, havendo, segundo o
constitucionalista, duas modalidades de participação estatal – “a participação e a inter-
venção, tomada esta em sentido restrito. A primeira com base nos arts. 173 e 177, ca-
racterizando o Estado administrador de atividades econômicas, a segunda fundada no
art. 174, em que o Estado aparece como agente normativo e regulador da atividade
econômica, que compreende as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, ca-
racterizando o Estado regulador, o Estado promotor e o Estado planejador da atividade
econômica.”107
Para Ilídio das Neves,108 a intervenção dos poderes públicos nas entidades de
previdência privada visa à proteção dos direitos sociais dos cidadãos.
Embora ao Estado caiba a função de regulamentar a relação jurídica que irá se
formar entre o participante e a entidade de previdência, autorizar seu funcionamento,
fiscalizar, tutelar os direitos os interesses dos participantes e assistidos “não pode e não
deve substituir, completamente, o particular no planejamento e na execução de projetos
de interesse coletivo.”109
107 SILVA, José Afonso da Silva. “Comentário Contextual à Constituição.” Editora Malheiros, 2005, p.
721.
108 NEVES, Ilídio. “Direito da Segurança Social”. Editora Coimbra, 1996, p. 850
109 SAAD, Eduardo Gabriel. “Perspectivas da Previdência Complementar no Brasil”. Suplemento Traba-
lhista nº 123/01, p.582.
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“A interferência do poder estatal social na vida das entidades de previdên-
cia privada não deve mais, sob pena de desdobrar dos limites constitucionais
bem traçados, ser de molde a ditar comportamentos; configurar estruturas;
impor exigências.
Ao órgão regulador e fiscalizador compete, apenas e tão-somente, vigiar
para que a entidade mantenha seu perfil a um só tempo previdenciário e
securitário.”110
4.1. As Entidades Fechadas de Previdência Complementar
O art. 201 da Constituição Federal institui como sendo obrigatória a previdência
social estatal no Brasil que se apresenta por meio dos regimes próprios de previdência
social ou pelo Regime Geral de Previdência Social.
Conforme já fora dito, os planos de previdência privada sejam derivados de enti-
dades abertas ou fechadas, são facultativos.
As entidades fechadas de previdência complementar, inicialmente nascidas no
âmbito das empresas patrocinadoras vinculadas à Administração Pública, e posterior-
mente, no contexto das empresas patrocinadoras privadas, surgiram como instrumentos
da política de recursos humanos dessas empresas. Foram criadas com os objetivos de
propiciar a renovação dos seus quadros de pessoal, incentivando a aposentadoria dos
empregados aposentáveis, e de proporcionar uma vida digna a esses quando da sua
passagem para a inatividade laborativa, em razão da notória insuficiência do Estado na
adequada prestação assistencial e previdenciária oficial.
110 BALERA, Wagner. “Aspectos Jurídicos dos Fundos Multipatrocinados de Previdência Complemen-
tar”. Revista de Previdência Social, nº 267, fev/2003, p. 135.
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Sobre expansão das entidades fechadas de previdência privada, citamos o texto
de Celso Barroso Leite que, embora escrito em 1972, ainda se encontra atual:
“Também na área privada tem crescido de maneira acentuada nos últi-
mos anos o número das empresas que instituem planos de previdência para
seus empregados.
Embora se tenha a impressão de que o fenômeno é mais corrente entre
as empresas de origem estrangeira ou vinculada a grupos estrangeiros, co-
meça também a firmar-se entre as empresas nacionais a convicção do al-
cance desse reforço do sistema previdenciário geral.
(...) repito minha convicção de ser este um setor em que ainda nos resta
longo caminho a percorrer, mas para o qual devemos estar atentos, por se
tratar de terreno promissor, onde muito se pode fazer para ampliar e refor-
çar o sistema brasileiro de proteção social, tudo indicando que já existe
uma tendência neste sentido.”111
As entidades de previdência complementar fechadas ou também conhecidas
como fundo de pensões112 (do inglês pension funds), objeto de nosso estudo, cons-
titui-se de atividades instituídas por empresas (ou grupo de empresas) estatais ou
privadas, ou por pessoas jurídicas de caráter profissional, classista ou setorial, como
instrumento restrito de proteção social aos seus prestadores de serviço ou associa-
dos, mediante custeio exclusivo da patrocinadora ou do participante, ou divididos os
encargos entre os participantes e a patrocinadora. O acesso ao plano de previdên-
cia complementar fechada é permitido exclusivamente aos participantes dos mencio-
nados grupos, como empregados, servidores públicos, membros das