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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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esperar uma freqüência regular. 
- Não compreendo por que, quando uma família tem condições de 
oferecer uma remuneração substancial, que lhe possibilitaria dar 
assistência a uma outra criança cujos pais não têm recursos 
financeiros, a senhora formalmente se recusa a não receber - insistiu 
depois de uma longa pausa. 
- Meu trabalho é fundamentalmente dedicado à pesquisa, visando 
a uma maior compreensão da psicologia infantil - expliquei-lhe. - Já 
recebo meu salário pelo trabalho que desenvolvo. Isso, portanto, 
independe de sua possibilidade de pagar. E não posso receber 
honorários de ninguém. 
Se a senhora quiser, poderá oferecer uma contribuição ao Centro, 
sem nenhum vínculo com nosso caso particular. A senhora poderá 
decidir à vontade. Aliás, as pesquisas são basicamente financiadas por 
fundo assim coletados. 
- Entendo - respondeu. - Mas ainda continuo querendo pagá-la, 
pessoalmente. 
- Estou certa disso - respondi-lhe. - E agradeço toda a sua 
preocupação a meu respeito. Entretanto, já fui bastante clara sobre as 
condições em que posso atender Dibs. 
Mantive minha posição com firmeza. Sabia que, com a velocidade 
de uma serra elétrica, suas palavras poderiam cortar todos os liames 
que me uniam a Dibs. Mas, se conseguíssemos contornar aquela 
pequena controvérsia, estaríamos construindo importante degrau 
inicial, no edifício de sua responsabilidade como mãe. Seria, sem 
dúvida, mais confortável pagar por sua omissão em relação ao filho. Por 
isso mesmo, decidi que seria da maior importância eliminar esse 
elemento. 
Percebi-a estarrecida por alguns minutos. Apertava as mãos, com 
sofreguidão, sobre seu colo. Olhava-as. De repente, lembrei-me de Dibs, 
jogando-se no chão, rosto para baixo, imóvel, rígido. Novamente, senti 
entre ambos uma identidade de problemas. Levantou a vista e, ao 
encontro de meus olhos, desviou os seus. 
- Devo dizer-lhe alguma coisa mais - confessou. - Em caso de 
necessitar de maiores detalhes sobre o caso de Dibs, posso apenas lhe 
indicar a escola como a melhor fonte para obtê-los. Pessoalmente, nada 
mais posso acrescentar. E nem tampouco comparecer a entrevistas. Se 
suas condições de trabalho implicam um assíduo contato com a mãe da 
criança, prefiro que cancele o compromisso que assumiu há pouco. 
Nenhuma informação tenho para adicionar às que já lhe forneci. É uma 
tragédia - uma enorme tragédia. Dibs é... Bem, Dibs... é... um retardado 
mental. Já nasceu assim. Quanto a mim, não me sinto em condições de 
responder a questionários e participar de discussões sobre seu caso - 
enfatizou, olhando-me por segundos, de novo. 
Ficava aterrorizada com a perspectiva de ser submetida a 
quaisquer entrevistas. 
- Compreendo - tranqüilizei-a. - E esteja certa de que respeitarei 
sua vontade. Entretanto, gostaria de lhe dizer que, se em alguma 
ocasião, quando quer que seja, desejar falar-me sobre Dibs, creia que 
será muito bem-vinda. Isso ficará a seu critério. 
Por minutos, senti-a menos contraída. Um pouco aliviada, talvez. 
- Meu marido também não gostaria de ser solicitado para 
reuniões - continuou. 
- Está certo - concordei. - O que decidirem será respeitado. 
- Bem, quando for levar Dibs ao Centro, não poderei esperá-lo. 
Voltarei mais tarde, para apanhá-lo, quando estiver na hora. 
- Não haverá problema - assegurei-lhe. - A senhora poderá deixá-
lo no Centro e esperá-lo no horário combinado. Ou ainda, se preferir, 
poderá enviar uma pessoa de sua confiança. 
- Muito obrigada. A senhora não imagina como apreciei sua 
compreensão - expressou-se depois de um longo silêncio. 
Terminamos nosso chá. Conversamos sobre assuntos superficiais. 
Dorothy foi lembrada com as estatísticas indicadoras de sua 
sanidade, característica evidente de uma "criança perfeita". 
A mãe de Dibs havia demonstrado muito maior medo, ansiedade e 
pânico em sua primeira entrevista do que Dibs na sessão inicial de 
terapia. Senti que não havia clima propício para persuadi-la dos 
benefícios de um tratamento pessoal. (Pag. 32 33) Seria ameaçá-la 
demais. E não quis assumir esse risco. 
Representaria a possibilidade de perder Dibs. E acreditava no 
potencial emergente daquela criança que a impulsionava a protestar 
contra a permanência de portas trancadas. Queria abri-las. Entendi seu 
esforço, percebendo as inúmeras portas que sua mãe fechara em sua 
vida. Na realidade, quantas tentativas partiram dela para impedir-nos 
de entreabrir a porta da ajuda terapêutica? Ainda na saída, voltou a 
insistir na modificação de nossas condições de trabalho. 
- Está certa de que não prefere atendê-lo em seu quarto de 
brinquedos? - perguntou-me. - Seus jogos são variados e atraentes. E 
poderíamos comprar qualquer outro objeto que a senhora indicasse. 
Qualquer um. 
Percebi seu visível desespero. Agradeci o oferecimento, e, de novo, 
afirmei que só poderia atendê-lo no Centro. 
- Comunicar-lhe-ei logo que decidamos - disse-me balançando o 
papel, que não mais soltou das mãos. 
- Muito obrigada - respondi-lhe, já saindo. 
No percurso até meu carro sentia o peso opressor de uma família 
acorrentada. Pensei em Dibs e em seu quarto de brinquedos 
maravilhosamente equipado. Nunca tinha entrado lá. Mas estava 
convicta de que todos os objetos para fins lúdicos que o dinheiro 
pudesse comprar ali estariam reunidos. E mais. Tudo zelosamente 
guardado por trás de uma sofisticada porta polida. E... trancada por 
uma fechadura segura! 
Lembrei-me da mãe de Dibs. Será que, mais tarde, ela decidiria 
relatar os fatos relevantes da história de seu filho? Sem dúvida, ser-lhe-
ia uma penosa tarefa caracterizar as dinâmicas do relacionamento de 
sua família. Como se sentiria diante do drama de sua criança? Que 
papel atribuía a si nessa tragédia, que a tornava apavorada perante a 
perspectiva de ser entrevistada ou questionada sobre o assunto? 
Perguntei-me se havia conduzido a entrevista pelo caminho mais 
proveitoso ou se, pelo contrário, minha posição firme e radical a havia 
pressionado a tal ponto que estimulara seu recuo, impedindo-nos de 
estudar a problemática de Dibs. 
Senti forte desejo de adivinhar a decisão que aquele casal 
assumiria. Será que aceitariam as condições propostas? Será que teria 
outra oportunidade de rever Dibs? E se, em nome da esperança, sua e 
de seus pais, eu o encontrasse na sala de ludoterapia, quais seriam os 
resultados que dali adviriam? (Pag. 34) 
 
Capítulo IV 
 
Por várias semanas, a família de Dibs manteve-se em completo 
silêncio. Telefonei para a escola e indaguei da diretora se recebera 
alguma comunicação de seus pais. Respondeu-me que nada lhe haviam 
dito sobre o assunto. Perguntei sobre Dibs. Soube que sua conduta 
continuava sem alterações. Permanecia freqüentando a escola com 
assiduidade. Todos lá apoiando-o, enquanto aguardavam o início da 
ludoterapia, que desejavam ansiosamente não tardasse. 
Enfim, certa manhã, recebi a folha liberatória, assinada por seus 
pais, dando-me permissão para escrever os relatórios das sessões. 
Uma pequena observação ao final da página reafirmava seu 
desejo de cooperar com o nosso trabalho. Sugeriam, também, que 
telefonássemos para sua casa com o objetivo de marcar a entrevista 
inicial com Dibs. 
Marquei a sessão para a quinta-feira seguinte, à tarde, na sala de 
ludoterapia do Centro. Pedi a minha secretária que confirmasse, com 
sua mãe, a possibilidade de atendimento naquele horário, por parte 
dela e de Dibs. Não houve nenhum inconveniente. 
Foi um verdadeiro alívio! A julgar pelo tempo consumido, seus 
pais não tomaram a decisão com facilidade. Era bastante significativa 
tal demora. E o que estaria acontecendo com Dibs durante