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Concurso de Crimes
Carlos Gianfardoni
Concurso de Crimes
O concurso de crimes surge quando uma 
ou mais pessoas comete mais de uma 
infração penal. Na verdade, o concurso de 
crimes também é um concurso de penas, 
pois o cerne da questão é saber qual ou 
quais as penas deverão ser aplicadas ao 
autor.
Concurso de Crimes
⚫Existem três formas de concurso de crimes:
⚫ - concurso material (ou real) – art. 69, do CP;
⚫ - concurso formal (ou ideal) – art. 70, do CP;
⚫ - crime continuado – art. 71, do CP.
Concurso Material
⚫ Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação 
ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou 
não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de 
liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação 
cumulativa de penas de reclusão e de detenção, 
executa-se primeiro aquela.
⚫ § 1º - Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver 
sido aplicada pena privativa de liberdade, não suspensa, 
por um dos crimes, para os demais será incabível a 
substituição de que trata o art. 44 deste Código.
⚫ § 2º - Quando forem aplicadas penas restritivas de 
direitos, o condenado cumprirá simultaneamente as que 
forem compatíveis entre si e sucessivamente as demais.
Concurso Material
⚫ Concurso Material ou Real de Crimes
⚫ De acordo com o artigo 69, do CP:
⚫ “Quando o agente, mediante mais de uma ação ou 
omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, 
aplicam-se cumulativamente as penas privativas de 
liberdade em que haja incorrido”. 
⚫ No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão 
e de detenção, executa-se primeiro aquela.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫ Conceito de ação:
⚫ - causal – é toda conduta humana voluntária que 
produz uma modificação no mundo exterior;
⚫ - final – é o exercício de uma atividade final;
⚫ - social – é a conduta socialmente relevante, dominada 
ou dominável pela vontade humana.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫ Requisitos e consequências do concurso material ou 
real
⚫São requisitos abstraídos do caput do art. 69:
⚫ a) mais de uma ação ou omissão;
⚫ b) prática de dois ou mais crimes;
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫Consequência do concurso material ou 
real
⚫aplicação cumulativa das penas privativas 
de liberdade em que haja incorrido.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫Concurso material ocorre, portanto, quando 
o agente, mediante mais de uma ação ou 
omissão, poderá ser responsabilizado, em 
um mesmo processo, em virtude da prática 
de dois ou mais crimes.
⚫Se as infrações ocorreram em épocas 
diferentes, investigadas em processos 
diferentes, que culminaram em várias 
condenações, ocorre unificação das penas, e 
não concurso material.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫Enquanto para a maioria dos autores não é 
preciso, para que haja concurso material, 
que os delitos sejam julgados em um 
mesmo processo (desnecessidade de 
conexão), para outros autores, em posição 
minoritária, os crimes devem ter, entre si, 
uma relação de conexão ou continência.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫O fato de determinada infração penal ter sido 
julgada e posteriormente a ela outra vier a ser 
praticada, a soma das penas não deve ser tratada 
como hipótese de concurso material, mas sim de 
mera soma de penas, unificação com a 
finalidade de atender ao limite previsto no 
artigo 75, do CP: 
⚫ “O tempo de cumprimento das penas privativas 
de liberdade não pode ser superior a 30 (trinta) 
anos”.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫ § 1º. Quando o agente for condenado a penas 
privativas de liberdade cuja soma seja superior 
a 30 (trinta) anos, devem elas ser unificadas 
para atender ao limite máximo deste artigo.
⚫ § 2º. Sobrevindo condenação por fato posterior 
ao início do cumprimento da pena, far-se-á nova 
unificação, desprezando-se, para esse fim, o 
período de pena já cumprido.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫Em ocorrendo concurso material, o juiz 
deverá encontrar, isoladamente, a pena 
correspondente a cada infração penal 
praticada pelo agente. Após o cálculo final 
de todas elas, serão somadas para que seja 
encontrada a pena total aplicada ao 
sentenciado.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫ Soma e unificação de penas são institutos 
distintos.
⚫ Soma é a simples operação matemática que tem 
por finalidade reunir, adicionar, a fim de se 
chegar a um resultado final de todas as penas 
aplicáveis ao condenado.
⚫Unificação é uma soma que destina-se a manter 
do total das penas aplicadas ao condenado o 
tempo que supere o limite de trinta anos para 
cumprimento de pena.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫A exigência feita na parte final do caput do 
artigo, de no caso de aplicação cumulativa 
de penas de reclusão e de detenção, 
executa-se primeiro aquela, é inútil, visto 
que praticamente não há diferença entre 
uma e outra.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫ Concurso material homogêneo e heterogêneo
⚫ Homogêneo – ocorre quando o agente comete dois 
crimes idênticos, não importando se a modalidade 
praticada é simples, privilegiada ou qualificada.
⚫ Heterogêneo – ocorre quando o agente pratica duas 
ou mais infrações penais diversas.
⚫ Essa distinção, ao contrário do que ocorre no concurso 
formal, não tem relevância prática.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫ Concurso material e penas restritivas de direitos
⚫ Nos termos dos §§ 1o e 2o, do artigo 69,
⚫ § 1º. Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido 
aplicada pena privativa de liberdade, não suspensa, por um 
dos crimes, para os demais será incabível a substituição de 
que trata o artigo 44 deste Código.
⚫ § 2º. Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o 
condenado cumprirá simultaneamente as que forem 
compatíveis entre si e sucessivamente as demais.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫ O Artigo 44 determina que:
⚫ Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e 
substituem as privativas de liberdade, quando:
⚫ I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a 4 
(quatro) anos e o crime não foi cometido com violência ou 
grave ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, 
se o crime for culposo.
⚫ II – o réu não for reincidente em crime doloso;
⚫ III – a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a 
personalidade do condenado, bem como os motivos e as 
circunstâncias indicarem que essa substituição seja 
suficiente.
Concurso Material ou Real de 
Crimes
⚫O cumprimento simultâneo de penas restritivas 
de direitos, previstas no §2o, pode ocorrer, por 
exemplo, nas penas de suspensão de habilitação 
para dirigir veículos, por um fato e prestação de 
serviços à comunidade, por outro.
⚫A incompatibilidade pode ocorrer, por exemplo, 
quando houver duas penas de limitação de fim de 
semana, caso em que deverão ser cumpridas de 
forma sucessiva.
CONCURSO FORMAL DE DELITOS – 
ART. 70
⚫ Art. 70 - Quando o agente, mediante uma só ação 
ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos 
ou não, aplica-se-lhe a mais grave das penas 
cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas 
aumentada, em qualquer caso, de um sexto até 
metade. As penas aplicam-se, entretanto, 
cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e 
os crimes concorrentes resultam de desígnios 
autônomos, consoante o disposto no artigo 
anterior.
⚫ Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que 
seria cabível pela regra do art. 69 deste Código.
CONCURSO FORMAL DE DELITOS – 
ART. 70
⚫O concurso formal ou ideal de crimes é 
tratado no art. 70, caput, do CP, sendo 
identificado “quando o agente, mediante 
uma só ação ou omissão, pratica dois ou 
mais crimes, idênticos ou não”. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Requisitos. 
⚫O concurso formal significa
⚫ (1) unidade de conduta geradora de 
⚫ (2) múltiplos resultados (isto é, lesão a 
diversos bens jurídicos). 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ Não há confundir “unidade de conduta” (uma ação ou 
omissão) com “singularidade de ato criminoso”. O 
sujeitopode praticar uma única conduta ativa de 
homicídio mediante um só (ex.: um único tiro) ou 
vários atos (ex.: diversas facadas).
⚫ O fato de a conduta “ser única não impede que haja 
uma pluralidade de atos, que são os segmentos em que 
se divide a conduta, cada um composto por um 
movimento corpóreo independente. Dessarte, o 
homicídio praticado a facadas implica diversos atos 
que integram a conduta, cada um representado pelo 
levantar isolado do braço assassino”.
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Concurso Formal X Concurso Material.
⚫ Segundo lembra Gamil Föppel, “a distinção 
entre concurso formal (ou ideal) e concurso 
material (ou real) reside no número de ações 
típicas. No concurso material, há pluralidade 
de ações típicas. No formal, apenas uma ação 
típica, com mais de um resultado”. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Concurso Formal X Concurso Material.
⚫ Ex.1: sujeito que se distrai na direção do 
veículo e acabou atropelando duas pessoas, 
que morrem instantaneamente - há uma 
conduta típica e dois resultados – portanto, 
há concurso formal de crimes. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Concurso Formal X Concurso Material.
⚫ Ex.2: sujeito que, vendo dois de seus 
desafetos conversando, atropela um e, após 
matar o primeiro atropelado, sai do carro e 
dispara cinco tiros contra o segundo, 
causando-lhe a morte - há duas condutas 
típicas e dois resultados – portanto, há 
concurso material de crimes. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ Classificação: Homogêneo e Heterogêneo.
 
⚫O concurso formal será tido por homogêneo 
ou heterogêneo, conforme a os delitos 
resultantes da unidade de conduta sejam 
iguais (ex.: dois homicídios) ou diferentes 
(ex.: um homicídio e uma lesão corporal), 
respectivamente. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Classificação: Próprio e Impróprio. 
⚫ 1 - Concurso Formal Próprio ou Perfeito
⚫A unidade de conduta e multiplicidade de 
resultados – elementos próprios do concurso 
formal – implica, em regra, na aplicação da 
pena mais grave dentre as cabíveis (se distintas) 
ou, se iguais, em somente uma delas, mas 
aumentada, em qualquer caso, de um sexto até a 
metade (art. 70, caput, primeira parte, CP). 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Classificação: Próprio e Impróprio. 
⚫ 1 - Concurso Formal Próprio ou Perfeito
⚫ Ou seja, o concurso formal ou ideal de crimes, regra geral, se vale 
do critério de exasperação da pena. Ex.: “A” dispara arma de fogo 
em direção a “B”, contudo o projétil, além de atingir este de 
“raspão” (lesões corporais), ocasiona a morte de “C”, que 
encontrava-se logo atrás de “B”. Nesse caso, aplica-se a pena do 
crime mais grave (homicídio) aumentada de 1/6 até a 1/2.
⚫ A jurisprudência e doutrina majoritárias propõem que a variação da 
causa de aumento de pena aplicada em consequência do 
reconhecimento do concurso formal impróprio ou imperfeito (entre 
um sexto e a metade) seja feita conforme a quantidade de lesões. 
Assim, oferecem o seguinte quadro: 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Classificação: Próprio e Impróprio. 
⚫ 1 - Concurso Formal Próprio ou Perfeito
⚫Número de lesões Fração de aumento
⚫2 1/6
⚫3 1/5
⚫4 1/4
⚫5 1/3
⚫6 ou mais 1/2
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito
⚫ Excepcionalmente, no entanto, a técnica de 
exasperação da pena cede lugar ao critério da 
cumulação material, em sede de concurso formal. Tal 
situação ocorre quando, embora haja unidade de 
conduta (marca fundamental do concurso ideal) 
dolosa, os resultados criminosos resultam de desígnios 
autônomos. Este é o teor da segunda parte do caput do 
art. 70 do CP: “As penas aplicam-se, entretanto, 
cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os 
crimes concorrentes resultam de desígnios 
autônomos, consoante o disposto no artigo anterior”. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito
⚫Ex.: “A” dispara arma de fogo em direção a 
“B” e “C”, pretendendo, com um único 
projétil, atingir ambos os desafetos. Nesse 
caso, morrendo “B” e “C”, “A” será apenado 
somando-se as penas dos dois homicídios 
dolosos.
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito
⚫Vale destacar que este tipo especial de concurso 
formal ou ideal só tem lugar nos crimes dolosos. A 
discussão na doutrina é se o concurso formal 
imperfeito exigiria apenas dolo direto ou se inclui 
tanto o dolo direto quanto o eventual. A posição 
majoritária na doutrina é a de que, em face do 
silêncio do legislador, presume-se que também o 
dolo eventual configuraria desígnio autônomo, 
merecendo, por conseguinte, reprimenda mais 
grave, motivo pelo qual configurador do concurso 
formal impróprio. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito
⚫Assim, há concurso formal imperfeito, segundo 
Capez, quando “aparentemente, há uma só ação, 
mas o agente intimamente deseja os outros 
resultados ou aceita os riscos de produzi-los”. 
⚫O desígnio autônomo ou a pluralidade de desígnios 
indica a intenção do sujeito (dolo direto) ou a 
assunção do risco pelo sujeito (dolo eventual) de, 
com uma única conduta, produzir dois ou mais 
resultados criminosos (dois ou mais delitos). 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Note, portanto, que o concurso formal perfeito 
pode ocorrer entre dois crimes culposos ou um 
doloso e outro culposo, ao passo que o 
concurso formal imperfeito fica restrito aos 
crimes dolosos. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫A classificação em concurso formal próprio ou 
impróprio é:
⚫ “lastreada na unidade ou pluralidade de 
desígnios. Com efeito, fala-se em concurso 
formal próprio se houver desígnio único e em 
concurso formal impróprio se houver 
desígnios autônomos”. Foppel 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ Regra Benéfica do Concurso Material. 
⚫ O CP estabelece no art. 70, § único, o que a doutrina 
denomina de “regra benéfica do concurso material” ou 
de “regra do concurso material benéfico”. O 
dispositivo reza que a aplicação do critério da 
exasperação, em sede de concurso formal, não poderá 
resultar em pena mais alta a que seria cabível pela 
regra do cúmulo material (própria do concurso 
material de crimes - art. 69 do CP). Ou seja, nunca 
aumentar (exasperar) – benefício outorgado ao réu por 
motivos de política criminal – pode resultar em pena 
mais grave do que a correspondente em face da soma 
(da cumulação material) dos crimes. 
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫ Concurso Formal e Prescrição. 
⚫ Segundo o estabelecido no art. 119 do CP, a prescrição 
incidirá sobre a pena de cada um dos crimes 
identificados no concurso formal, independentemente 
da exasperação aplicada. A jurisprudência do STJ já 
afirmou que, tratando-se de concurso de crimes (seja 
este material, formal ou crime continuado), a regra é a 
de que a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena 
de cada um, isoladamente. O Tribunal enfatiza, ainda, 
ao assentar que “no concurso formal, é lícito venha a 
prescrição a recair sobre o aumento de pena quando o 
agente tenha praticado dois crimes”
Concurso Formal de Delitos – Art. 70
⚫Caso o juiz preveja que a aplicação do 
critério de exasperação do concurso 
formal (ou do crime continuado) resulte 
em pena maior que a cumulação, deve 
deixar de lado a primeira e aplicar esta 
última técnica. 
Crime Continuado– Art. 71
⚫ Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou 
omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas 
condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras 
semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como 
continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos 
crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em 
qualquer caso, de um sexto a dois terços.⚫ Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes, 
cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o 
juiz, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta 
social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as 
circunstâncias, aumentar a pena de um só dos crimes, se 
idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo, observadas as 
regras do parágrafo único do art. 70 e do art. 75 deste Código.
⚫
Crime Continuado– Art. 71
⚫ Conforme as palavras de Reale Jr., “a origem do instituto e o fato 
de ser estudado pela doutrina, acolhido pela jurisprudência 
malgrado várias legislações não o contemplem, como a alemã, 
indicam que se trata antes de tudo de medida de política criminal, 
de equidade, que, todavia, se compadece com o direito penal da 
culpa, uma vez que os elementos objetivos que o caracterizam 
indicam uma culpabilidade diminuída”.
Enaltecido por alguns (que afirmam tratar-se de medida 
necessária em nome da justiça e razoabilidade no caso concreto) 
e muito criticado por outros (que sustentam configurar o crime 
continuado benevolência incabível, carecedora de sólida 
fundamentação político-criminal, merecedora de abolição) assim 
caminha e se mantém, pelo menos em nossa legislação penal (até 
o momento), o crime continuado.
⚫
Crime Continuado – Art 71
⚫ Conceito.
O art. 71, caput, do CP identifica o crime continuado 
“quando o agente, mediante mais de uma ação ou 
omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma 
espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de 
execução e outras semelhantes, devem os subsequentes 
ser havidos como continuação do primeiro”. E, 
portanto, nestas circunstâncias, considera que a 
solução penal deve ser a aplicação da “pena de um só 
dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, 
aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois 
terços”.
Crime Continuado – Art 71
⚫ Natureza Jurídica.
São três as principais teorias sobre o assunto, senão vejamos:
a) Teoria da Unidade Real. A tese da unidade real, concebida 
originalmente por Bernardino Alimena, enxerga o crime continuado 
como sendo, em essência (isto é, na realidade), um único crime. 
b) Teoria da Ficção Jurídica. Entende o delito continuado como 
sendo, na verdade, uma pluralidade de crimes (ou seja, concurso 
material), mas que, devido a razões de política criminal, levando-se 
em conta a especificidade e particularidades do caso concreto e 
alegada menor culpabilidade do sujeito, seria tratado, por ficção 
jurídica, enquanto crime único. Esta foi a concepção idealizada por 
Francesco Carrara e que também recebe o título de teoria da 
“unidade fictícia limitada”.
Crime Continuado – Art 71
c) Teoria Mista. Prega que o delito continuado seria uma 
figura criminosa especial e autônoma, não se confundindo 
com o crime único. Essa posição também é conhecida por 
tese da “unidade mista” ou “unidade jurídica”
.
Teoria Adotado pelo CP Brasileiro. Tanto é verdade que o 
diploma criminal pátrio adotou a teoria da ficção jurídica 
que o crime continuado é tratado, entre nós, no tópico 
atinente ao concurso de crimes (embora represente uma 
multiplicidade de crimes, por ficção jurídica, vê-se delito 
único). Conforme já assentado pelo STJ, o crime continuado 
representa “induvidoso concurso material de crimes gravado 
pela menor culpabilidade do agente, mas que é tratado como 
crime único pela lei penal vigente, como resulta da simples 
letra dos artigos 71 e 72 do Código Penal, à luz dos artigos 
69 e 70 do mesmo diploma legal”.
Crime Continuado – Art 71
⚫ Há duas teorias que tratam a respeito dos elementos fundamentais 
do crime continuado: objetiva e objetivo-subjetiva.
A primeira entende que o crime continuado exige, apenas e tão 
somente, requisitos de ordem objetiva; dispensa-se a unidade de 
desígnios, por se entender que os elementos exteriores de 
homogeneidade bastam para se afirmar da unidade criminosa. Ou 
seja, “para os objetivistas a unidade do crime deflui dos 
elementos exteriores da homogeneidade: crimes da mesma 
espécie, praticados em tais condições de tempo, lugar e maneira 
de execução, que os subseqüentes são havidos como continuação 
dos precedentes”.
Crime Continuado – Art 71
⚫
Já para a teoria objetivo-subjetiva ou 
subjetivo-objetiva o crime continuado surge da 
coexistência de elementos subjetivos (unidade de 
desígnios) e elementos objetivos (elementos 
exteriores de homogeneidade: circunstâncias de 
tempo, lugar, maneira de execução e outras, que 
indicam continuação delitiva mediante sucessão 
criminosa). A unidade de desígnios – prévia 
vontade planejada de executar vários delitos em 
continuidade –, portanto, é elemento indispensável, 
na visão da teoria eclética ou mista, para a 
configuração do crime continuado.
Crime Continuado – Art 71
⚫ Teoria adotada pelo CP. O nosso diploma penal não fez qualquer 
referência à unidade de desígnios enquanto requisito do crime 
continuado. Consoante se extrai da redação do art. 71 do CP, os 
elementos estruturantes da continuidade delitiva são apenas de 
ordem objetiva, inexistindo qualquer menção a elementos 
subjetivos. Assim, a doutrina brasileira é pacífica em afirmar que 
o Código brasileiro adotou a teoria objetiva pura.
⚫ Aliás, a própria Exposição de Motivos da Parte Geral do CP, no 
item n.º 59, afirma expressamente que foi mantido, na reforma de 
1984, o critério da teoria puramente objetiva, por se entender que 
este “não revelou na prática maiores inconvenientes, a despeito 
das objeções formuladas pelos partidários da teoria 
objetivo-subjetiva”.
⚫
Crime Continuado – Art 71
⚫ São elementos objetivos que compõem a estrutura fundamental 
do crime continuado:
⚫
a) Pluralidade de Condutas. Há necessidade de “mais de uma 
ação ou omissão” para o reconhecimento do crime continuado. 
Sem pluralidade de condutas inexiste delito continuado. Frise-se 
que não se está falando apenas de multiplicidade de atos 
criminosos, mas de condutas criminosas (mesma exigência que se 
faz no concurso material). Assim, conduta delitiva singular (uma 
ação ou uma omissão) geradora de múltiplos resultados 
criminosos (mais de um crime) não induz continuidade delitiva, 
mas sim concurso formal.
Crime Continuado – Art 71
⚫ b) Pluralidade de Crimes da Mesma Espécie. É 
justamente neste ponto que se situa uma das grandes 
discussões atinentes ao crime continuado. O que são 
crimes da mesma espécie? É sobre essa resposta que a 
doutrina diverge. Dois são os posicionamentos 
encontrados:
 
1- crimes da mesma espécie são delitos constantes do 
mesmo tipo legal incriminador, pouco importando se 
na forma simples, qualificada, privilegiada, tentada ou 
consumada.
⚫
Crime Continuado – Art 71
⚫ Alguns estudiosos sustentam que crimes da mesma espécie não 
são somente os delitos previstos no mesmo tipo incriminador, 
pois isto são “crimes idênticos”, e não da “mesma espécie”. 
Nesta linha, são crimes da mesma espécie os que atentam contra 
bens jurídicos semelhantes e mediante condutas similares, pouco 
importando se necessariamente na mesma estrutura típica.
⚫
Filiando-se a esta corrente, Paulo Queiroz admite, por exemplo, o 
reconhecimento de continuidade delitiva entre furto, roubo e 
extorsão (crimes contra o patrimônio), bem como entre estupro e 
atentado violento ao pudor (crimes contra a liberdade sexual), em 
razão da semelhança entre eles.
⚫
Crime Continuado – Art 71
⚫ Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro, in verbis: “O crime 
continuado evidencia pluralidade de delitos, aproximados, 
formando unidade jurídica, por serem da mesma espécie e, 
pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outro 
semelhantes, devem ser havidos como continuação do 
primeiro. Crimes da mesma espécie não se confundem com 
crimes idênticos (CP. art. 69 e 70). Basta evidenciarem 
elementos fundamentais comuns; embora, formalmente (tipo 
legal de crime) revele, diferença, substancialmente, satisfazem 
a definição do art. 71. É o que acontece com o roubo e a 
extorsão,cometidos no mesmo contexto temporal”.
⚫
Crime Continuado – Art 71
⚫ STF 
⚫ “entendeu pelo reconhecimento de continuidade delitiva entre 
os delitos de estupro e atentado violento ao pudor, quando 
praticados de forma independente. Vencido, neste ponto, o 
Relator, que afirmava a configuração de concurso material”. 
Esta decisão de fevereiro de 2007 da Segunda Turma do STF, 
tomada por votação não unânime (vencidos, no ponto, o 
Ministro Carlos Britto e a Ministra Cármen Lúcia) contraria 
entendimento já sedimentado no Excelso Pretório, conforme 
registrado em ementa da Segunda Turma, datada de outubro de 
2006 (votação unânime): “A jurisprudência desta Corte está 
sedimentada no sentido de que estupro e atentado violento ao 
pudor configuram concurso material e não crime continuado”.
⚫ 
Crime Continuado – Art 71
b) Nexo Temporal. É necessário que se 
identifique uma aproximação quanto às 
circunstâncias de tempo, de maneira que possa 
se afirmar que um delito foi continuação do 
outro. A existência de largo espaço temporal 
entre os crimes rompe com a idéia de 
continuidade delitiva.
 
 
Crime Continuado – Art 71
⚫ Não existe fórmula matemática estipulada pelo Código, motivo pelo 
qual tudo dependerá das circunstâncias do caso. É inegável, por 
exemplo, que se “os dois crimes foram praticados no mesmo dia, com 
diferença de quinze minutos entre as condutas, tendo o segundo 
ocorrido no mesmo lugar em que o primeiro automóvel subtraído foi 
abandonado, além da execução ser idêntica, pois configurada em 
ambos a grave ameaça, consistente na utilização da arma de fogo, 
evidencia-se o preenchimento dos requisitos objetivos para a aplicação 
da continuidade delitiva”. Também admissível é o entendimento 
segundo o qual “se entre as séries delituosas houver diferença de 
meses, não haverá continuidade delitiva, mas sim reiteração delitiva, 
devendo ser aplicado a regra do concurso material. (Precedentes)”. 
Enfim, pode-se afirmar que a jurisprudência estabeleceu como espaço 
de tempo máximo o período de 30 (trinta) dias entre os crimes; acima 
deste período já é um pouco complicada a admissão de continuidade 
delitiva, passando a se falar em concurso material.
⚫
Crime Continuado – Art 71
c) Nexo Espacial. A continuidade delitiva exige 
similitude nas circunstâncias de espaço ou 
território, de forma que os crimes devem ser 
cometidos, se não no mesmo lugar, em locais 
próximos (ex.: bairros vizinhos ou cidades 
conurbadas).
 
Crime Continuado – Art 71
 d) Nexo Modal. Imprescindível a identificação de 
um “modus operandi” característico em todos os 
crimes.
 
A presença de todas estas condições 
(cumulativamente) significa o preenchimento dos 
requisitos objetivos para o reconhecimento da 
continuidade delitiva.
CRIME CONTINUADO E REITERAÇÃO 
CRIMINOSA.
⚫Estas são duas figuras que não se confundem 
segundo é o entendimento do Supremo 
Tribunal Federal, 
⚫ "a reiteração criminosa indicadora de 
delinquência habitual ou profissional é 
suficiente para descaracterizar o crime 
continuado". 
Crime Continuado e Reiteração Criminosa.
⚫A continuidade delitiva representa, na verdade, 
conforme já destacado inicialmente, ficção 
jurídica inspirada em política criminal e na 
menor censurabilidade do autor de crimes 
plurais da mesma espécie e praticados de modo 
semelhante, a indicar continuidade (ou seja, 
que os subsequentes devem ser havidos como 
continuação do primeiro).
Crime Continuado e Reiteração Criminosa.
⚫Diferente, no entanto, é a hipótese de simples 
reiteração ou habitualidade criminosa, em que, 
muito embora haja pluralidade de delitos, ainda 
que da mesma espécie, ausente as similitudes; 
ou, ainda que verificadas as similitudes, estas 
não são bastantes a indicar continuidade.
Crime Continuado e Reiteração Criminosa.
⚫Tome-se, por emprestado, hipótese concreta 
julgada pelo Supremo: 
⚫ "No caso dos autos, os modos de execução 
são distintos e os delitos estão separados por 
espaço temporal igual a seis meses. Não se 
cuida, portanto, de crime continuado, mas de 
reiteração criminosa. Incide a regra do 
concurso material".
Crime Continuado e Reiteração Criminosa.
⚫Nos casos de mera reiteração criminosa, é 
claro que o tratamento penal deve ser 
endurecido (leia-se: maior pena), uma vez que 
a culpabilidade (no sentido de censurabilidade 
ou reprovabilidade) é maior.
Crime Continuado e Reiteração Criminosa.
Indispensável, neste ponto, o magistério de 
Cernicchiaro, segundo o qual só se pode entender a 
continuação, desde que a sequencia das ações ou 
omissões diminuam a censura. "Ao contrário, se as 
circunstâncias evidenciarem, por exemplo, 
propensão para o delito, raciocínio frio, calculista, 
reiteração que se projeta todas as vezes que o 
agente encontra ambiente favorável aos delitos, 
pouco importa a conexão objetiva. A reiteração 
que, se transforma em habitualidade, atrai, sem 
dúvida, maior culpabilidade", o que significa maior 
pena, em virtude de não se reconhecer o benefício 
dogmático e político-criminal da continuidade 
delitiva.
Crime Continuado e Crime Habitual.
⚫O critério distintivo entre crime habitual e 
crime continuado reside exatamente na 
natureza jurídica dos atos integrantes e, 
consequentemente, no número de delitos 
praticados. Deve-se verificar se foram vários 
os crimes cometidos (em continuidade delitiva) 
ou apenas um delito (na forma habitual).
Crime Continuado e Crime Habitual.
⚫O crime habitual significa a repetição de certos 
atos, tidos como indiferentes penais (se 
considerados isoladamente), mas que, à luz do 
todo, manifestam estilo de vida censurável e 
incriminado. Em detalhes, são características do 
crime habitual: a) repetição de atos; b) atos que, se 
considerados isoladamente, seriam indiferentes 
penais; c) estes atos, no entanto, quando analisados 
à luz do todo, traduzem um estilo de vida; d) modo 
de vida, este, reprovável e previsto em lei como 
crime.
Crime Continuado e Crime Habitual.
⚫ Já o crime continuado significa, em verdade, 
uma série (ou pluralidade) de crimes, todos 
eles ligados pelas condições de tempo, lugar, 
maneira de execução e outras semelhantes, de 
maneira que os subsequentes devem ser 
havidos como continuação do primeiro. 
Trata-se, de fato, como o próprio nome indica, 
de vários crimes cometidos em continuidade 
ou, então, de uma continuidade delitiva.
Crime Continuado e Crime Habitual.
 Observe a diferença entre os institutos. No crime 
habitual, os atos que o compõem são, por si mesmos, 
irrelevantes penais (ou seja, não constituem crimes 
isoladamente); apenas a soma destes atos, o todo, que 
configura um delito, chamado de habitual, pois 
manifesta o estilo de vida do sujeito ativo. Ex.: 
curandeirismo (art. 284 do CP). Diferentemente, no 
crime continuado, as partes integrantes do todo são, de 
per si, crimes, configurando o todo apenas uma 
pluralidade de delitos, reunidos sob o nome de 
continuidade criminosa, tendo em conta os elementos 
especiais que os identificam enquanto verdadeira 
"cadeia de delitos". Ex.: homicídios em continuidade 
delitiva (art. 121 c.c. 71, ambos do CP).
Crime Continuado e Crime Permanente.
 O crime permanente é aquele cuja consumação se protrai (ou 
prolonga) no tempo. Já o crime continuado, repita-se, são 
vários delitos, porém ligados um ao outro devido a 
condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras 
semelhantes, de forma que os subsequentes devem ser 
havidos como continuação do primeiro. O paradigma de 
diferenciação é o mesmo da hipótese anterior (crime 
continuado x crime habitual), qual seja, a natureza jurídica 
dos atos integrantes e, consequentemente, do número de 
delitos praticados. O crime permanente é crime único cuja 
consumação se arrasta no tempo. Ex.: sequestro (art. 148 do 
CP). Já a continuidade delitiva indica número plural de 
crimes (dois ou mais). Ex.: furtos em continuidade delitiva 
(art. 155 c.c. 71, ambos do CP).
Multa no Concurso de Crimes.
 Multas no concursode crimes
⚫Art. 72 - No concurso de crimes, as penas de 
multa são aplicadas distinta e integralmente.
Concurso de Crimes
fim
Carlos Gianfardoni

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