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Concurso de Crimes Carlos Gianfardoni Concurso de Crimes O concurso de crimes surge quando uma ou mais pessoas comete mais de uma infração penal. Na verdade, o concurso de crimes também é um concurso de penas, pois o cerne da questão é saber qual ou quais as penas deverão ser aplicadas ao autor. Concurso de Crimes ⚫Existem três formas de concurso de crimes: ⚫ - concurso material (ou real) – art. 69, do CP; ⚫ - concurso formal (ou ideal) – art. 70, do CP; ⚫ - crime continuado – art. 71, do CP. Concurso Material ⚫ Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela. ⚫ § 1º - Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido aplicada pena privativa de liberdade, não suspensa, por um dos crimes, para os demais será incabível a substituição de que trata o art. 44 deste Código. ⚫ § 2º - Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis entre si e sucessivamente as demais. Concurso Material ⚫ Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ De acordo com o artigo 69, do CP: ⚫ “Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido”. ⚫ No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ Conceito de ação: ⚫ - causal – é toda conduta humana voluntária que produz uma modificação no mundo exterior; ⚫ - final – é o exercício de uma atividade final; ⚫ - social – é a conduta socialmente relevante, dominada ou dominável pela vontade humana. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ Requisitos e consequências do concurso material ou real ⚫São requisitos abstraídos do caput do art. 69: ⚫ a) mais de uma ação ou omissão; ⚫ b) prática de dois ou mais crimes; Concurso Material ou Real de Crimes ⚫Consequência do concurso material ou real ⚫aplicação cumulativa das penas privativas de liberdade em que haja incorrido. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫Concurso material ocorre, portanto, quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, poderá ser responsabilizado, em um mesmo processo, em virtude da prática de dois ou mais crimes. ⚫Se as infrações ocorreram em épocas diferentes, investigadas em processos diferentes, que culminaram em várias condenações, ocorre unificação das penas, e não concurso material. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫Enquanto para a maioria dos autores não é preciso, para que haja concurso material, que os delitos sejam julgados em um mesmo processo (desnecessidade de conexão), para outros autores, em posição minoritária, os crimes devem ter, entre si, uma relação de conexão ou continência. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫O fato de determinada infração penal ter sido julgada e posteriormente a ela outra vier a ser praticada, a soma das penas não deve ser tratada como hipótese de concurso material, mas sim de mera soma de penas, unificação com a finalidade de atender ao limite previsto no artigo 75, do CP: ⚫ “O tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a 30 (trinta) anos”. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ § 1º. Quando o agente for condenado a penas privativas de liberdade cuja soma seja superior a 30 (trinta) anos, devem elas ser unificadas para atender ao limite máximo deste artigo. ⚫ § 2º. Sobrevindo condenação por fato posterior ao início do cumprimento da pena, far-se-á nova unificação, desprezando-se, para esse fim, o período de pena já cumprido. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫Em ocorrendo concurso material, o juiz deverá encontrar, isoladamente, a pena correspondente a cada infração penal praticada pelo agente. Após o cálculo final de todas elas, serão somadas para que seja encontrada a pena total aplicada ao sentenciado. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ Soma e unificação de penas são institutos distintos. ⚫ Soma é a simples operação matemática que tem por finalidade reunir, adicionar, a fim de se chegar a um resultado final de todas as penas aplicáveis ao condenado. ⚫Unificação é uma soma que destina-se a manter do total das penas aplicadas ao condenado o tempo que supere o limite de trinta anos para cumprimento de pena. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫A exigência feita na parte final do caput do artigo, de no caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela, é inútil, visto que praticamente não há diferença entre uma e outra. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ Concurso material homogêneo e heterogêneo ⚫ Homogêneo – ocorre quando o agente comete dois crimes idênticos, não importando se a modalidade praticada é simples, privilegiada ou qualificada. ⚫ Heterogêneo – ocorre quando o agente pratica duas ou mais infrações penais diversas. ⚫ Essa distinção, ao contrário do que ocorre no concurso formal, não tem relevância prática. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ Concurso material e penas restritivas de direitos ⚫ Nos termos dos §§ 1o e 2o, do artigo 69, ⚫ § 1º. Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido aplicada pena privativa de liberdade, não suspensa, por um dos crimes, para os demais será incabível a substituição de que trata o artigo 44 deste Código. ⚫ § 2º. Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis entre si e sucessivamente as demais. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫ O Artigo 44 determina que: ⚫ Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade, quando: ⚫ I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a 4 (quatro) anos e o crime não foi cometido com violência ou grave ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o crime for culposo. ⚫ II – o réu não for reincidente em crime doloso; ⚫ III – a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que essa substituição seja suficiente. Concurso Material ou Real de Crimes ⚫O cumprimento simultâneo de penas restritivas de direitos, previstas no §2o, pode ocorrer, por exemplo, nas penas de suspensão de habilitação para dirigir veículos, por um fato e prestação de serviços à comunidade, por outro. ⚫A incompatibilidade pode ocorrer, por exemplo, quando houver duas penas de limitação de fim de semana, caso em que deverão ser cumpridas de forma sucessiva. CONCURSO FORMAL DE DELITOS – ART. 70 ⚫ Art. 70 - Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior. ⚫ Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código. CONCURSO FORMAL DE DELITOS – ART. 70 ⚫O concurso formal ou ideal de crimes é tratado no art. 70, caput, do CP, sendo identificado “quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não”. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Requisitos. ⚫O concurso formal significa ⚫ (1) unidade de conduta geradora de ⚫ (2) múltiplos resultados (isto é, lesão a diversos bens jurídicos). Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ Não há confundir “unidade de conduta” (uma ação ou omissão) com “singularidade de ato criminoso”. O sujeitopode praticar uma única conduta ativa de homicídio mediante um só (ex.: um único tiro) ou vários atos (ex.: diversas facadas). ⚫ O fato de a conduta “ser única não impede que haja uma pluralidade de atos, que são os segmentos em que se divide a conduta, cada um composto por um movimento corpóreo independente. Dessarte, o homicídio praticado a facadas implica diversos atos que integram a conduta, cada um representado pelo levantar isolado do braço assassino”. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Concurso Formal X Concurso Material. ⚫ Segundo lembra Gamil Föppel, “a distinção entre concurso formal (ou ideal) e concurso material (ou real) reside no número de ações típicas. No concurso material, há pluralidade de ações típicas. No formal, apenas uma ação típica, com mais de um resultado”. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Concurso Formal X Concurso Material. ⚫ Ex.1: sujeito que se distrai na direção do veículo e acabou atropelando duas pessoas, que morrem instantaneamente - há uma conduta típica e dois resultados – portanto, há concurso formal de crimes. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Concurso Formal X Concurso Material. ⚫ Ex.2: sujeito que, vendo dois de seus desafetos conversando, atropela um e, após matar o primeiro atropelado, sai do carro e dispara cinco tiros contra o segundo, causando-lhe a morte - há duas condutas típicas e dois resultados – portanto, há concurso material de crimes. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ Classificação: Homogêneo e Heterogêneo. ⚫O concurso formal será tido por homogêneo ou heterogêneo, conforme a os delitos resultantes da unidade de conduta sejam iguais (ex.: dois homicídios) ou diferentes (ex.: um homicídio e uma lesão corporal), respectivamente. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Classificação: Próprio e Impróprio. ⚫ 1 - Concurso Formal Próprio ou Perfeito ⚫A unidade de conduta e multiplicidade de resultados – elementos próprios do concurso formal – implica, em regra, na aplicação da pena mais grave dentre as cabíveis (se distintas) ou, se iguais, em somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até a metade (art. 70, caput, primeira parte, CP). Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Classificação: Próprio e Impróprio. ⚫ 1 - Concurso Formal Próprio ou Perfeito ⚫ Ou seja, o concurso formal ou ideal de crimes, regra geral, se vale do critério de exasperação da pena. Ex.: “A” dispara arma de fogo em direção a “B”, contudo o projétil, além de atingir este de “raspão” (lesões corporais), ocasiona a morte de “C”, que encontrava-se logo atrás de “B”. Nesse caso, aplica-se a pena do crime mais grave (homicídio) aumentada de 1/6 até a 1/2. ⚫ A jurisprudência e doutrina majoritárias propõem que a variação da causa de aumento de pena aplicada em consequência do reconhecimento do concurso formal impróprio ou imperfeito (entre um sexto e a metade) seja feita conforme a quantidade de lesões. Assim, oferecem o seguinte quadro: Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Classificação: Próprio e Impróprio. ⚫ 1 - Concurso Formal Próprio ou Perfeito ⚫Número de lesões Fração de aumento ⚫2 1/6 ⚫3 1/5 ⚫4 1/4 ⚫5 1/3 ⚫6 ou mais 1/2 Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito ⚫ Excepcionalmente, no entanto, a técnica de exasperação da pena cede lugar ao critério da cumulação material, em sede de concurso formal. Tal situação ocorre quando, embora haja unidade de conduta (marca fundamental do concurso ideal) dolosa, os resultados criminosos resultam de desígnios autônomos. Este é o teor da segunda parte do caput do art. 70 do CP: “As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior”. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito ⚫Ex.: “A” dispara arma de fogo em direção a “B” e “C”, pretendendo, com um único projétil, atingir ambos os desafetos. Nesse caso, morrendo “B” e “C”, “A” será apenado somando-se as penas dos dois homicídios dolosos. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito ⚫Vale destacar que este tipo especial de concurso formal ou ideal só tem lugar nos crimes dolosos. A discussão na doutrina é se o concurso formal imperfeito exigiria apenas dolo direto ou se inclui tanto o dolo direto quanto o eventual. A posição majoritária na doutrina é a de que, em face do silêncio do legislador, presume-se que também o dolo eventual configuraria desígnio autônomo, merecendo, por conseguinte, reprimenda mais grave, motivo pelo qual configurador do concurso formal impróprio. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ 1 - Concurso Formal Impróprio ou Imperfeito ⚫Assim, há concurso formal imperfeito, segundo Capez, quando “aparentemente, há uma só ação, mas o agente intimamente deseja os outros resultados ou aceita os riscos de produzi-los”. ⚫O desígnio autônomo ou a pluralidade de desígnios indica a intenção do sujeito (dolo direto) ou a assunção do risco pelo sujeito (dolo eventual) de, com uma única conduta, produzir dois ou mais resultados criminosos (dois ou mais delitos). Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Note, portanto, que o concurso formal perfeito pode ocorrer entre dois crimes culposos ou um doloso e outro culposo, ao passo que o concurso formal imperfeito fica restrito aos crimes dolosos. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫A classificação em concurso formal próprio ou impróprio é: ⚫ “lastreada na unidade ou pluralidade de desígnios. Com efeito, fala-se em concurso formal próprio se houver desígnio único e em concurso formal impróprio se houver desígnios autônomos”. Foppel Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ Regra Benéfica do Concurso Material. ⚫ O CP estabelece no art. 70, § único, o que a doutrina denomina de “regra benéfica do concurso material” ou de “regra do concurso material benéfico”. O dispositivo reza que a aplicação do critério da exasperação, em sede de concurso formal, não poderá resultar em pena mais alta a que seria cabível pela regra do cúmulo material (própria do concurso material de crimes - art. 69 do CP). Ou seja, nunca aumentar (exasperar) – benefício outorgado ao réu por motivos de política criminal – pode resultar em pena mais grave do que a correspondente em face da soma (da cumulação material) dos crimes. Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫ Concurso Formal e Prescrição. ⚫ Segundo o estabelecido no art. 119 do CP, a prescrição incidirá sobre a pena de cada um dos crimes identificados no concurso formal, independentemente da exasperação aplicada. A jurisprudência do STJ já afirmou que, tratando-se de concurso de crimes (seja este material, formal ou crime continuado), a regra é a de que a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um, isoladamente. O Tribunal enfatiza, ainda, ao assentar que “no concurso formal, é lícito venha a prescrição a recair sobre o aumento de pena quando o agente tenha praticado dois crimes” Concurso Formal de Delitos – Art. 70 ⚫Caso o juiz preveja que a aplicação do critério de exasperação do concurso formal (ou do crime continuado) resulte em pena maior que a cumulação, deve deixar de lado a primeira e aplicar esta última técnica. Crime Continuado– Art. 71 ⚫ Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços.⚫ Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes, cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o juiz, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único do art. 70 e do art. 75 deste Código. ⚫ Crime Continuado– Art. 71 ⚫ Conforme as palavras de Reale Jr., “a origem do instituto e o fato de ser estudado pela doutrina, acolhido pela jurisprudência malgrado várias legislações não o contemplem, como a alemã, indicam que se trata antes de tudo de medida de política criminal, de equidade, que, todavia, se compadece com o direito penal da culpa, uma vez que os elementos objetivos que o caracterizam indicam uma culpabilidade diminuída”. Enaltecido por alguns (que afirmam tratar-se de medida necessária em nome da justiça e razoabilidade no caso concreto) e muito criticado por outros (que sustentam configurar o crime continuado benevolência incabível, carecedora de sólida fundamentação político-criminal, merecedora de abolição) assim caminha e se mantém, pelo menos em nossa legislação penal (até o momento), o crime continuado. ⚫ Crime Continuado – Art 71 ⚫ Conceito. O art. 71, caput, do CP identifica o crime continuado “quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro”. E, portanto, nestas circunstâncias, considera que a solução penal deve ser a aplicação da “pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços”. Crime Continuado – Art 71 ⚫ Natureza Jurídica. São três as principais teorias sobre o assunto, senão vejamos: a) Teoria da Unidade Real. A tese da unidade real, concebida originalmente por Bernardino Alimena, enxerga o crime continuado como sendo, em essência (isto é, na realidade), um único crime. b) Teoria da Ficção Jurídica. Entende o delito continuado como sendo, na verdade, uma pluralidade de crimes (ou seja, concurso material), mas que, devido a razões de política criminal, levando-se em conta a especificidade e particularidades do caso concreto e alegada menor culpabilidade do sujeito, seria tratado, por ficção jurídica, enquanto crime único. Esta foi a concepção idealizada por Francesco Carrara e que também recebe o título de teoria da “unidade fictícia limitada”. Crime Continuado – Art 71 c) Teoria Mista. Prega que o delito continuado seria uma figura criminosa especial e autônoma, não se confundindo com o crime único. Essa posição também é conhecida por tese da “unidade mista” ou “unidade jurídica” . Teoria Adotado pelo CP Brasileiro. Tanto é verdade que o diploma criminal pátrio adotou a teoria da ficção jurídica que o crime continuado é tratado, entre nós, no tópico atinente ao concurso de crimes (embora represente uma multiplicidade de crimes, por ficção jurídica, vê-se delito único). Conforme já assentado pelo STJ, o crime continuado representa “induvidoso concurso material de crimes gravado pela menor culpabilidade do agente, mas que é tratado como crime único pela lei penal vigente, como resulta da simples letra dos artigos 71 e 72 do Código Penal, à luz dos artigos 69 e 70 do mesmo diploma legal”. Crime Continuado – Art 71 ⚫ Há duas teorias que tratam a respeito dos elementos fundamentais do crime continuado: objetiva e objetivo-subjetiva. A primeira entende que o crime continuado exige, apenas e tão somente, requisitos de ordem objetiva; dispensa-se a unidade de desígnios, por se entender que os elementos exteriores de homogeneidade bastam para se afirmar da unidade criminosa. Ou seja, “para os objetivistas a unidade do crime deflui dos elementos exteriores da homogeneidade: crimes da mesma espécie, praticados em tais condições de tempo, lugar e maneira de execução, que os subseqüentes são havidos como continuação dos precedentes”. Crime Continuado – Art 71 ⚫ Já para a teoria objetivo-subjetiva ou subjetivo-objetiva o crime continuado surge da coexistência de elementos subjetivos (unidade de desígnios) e elementos objetivos (elementos exteriores de homogeneidade: circunstâncias de tempo, lugar, maneira de execução e outras, que indicam continuação delitiva mediante sucessão criminosa). A unidade de desígnios – prévia vontade planejada de executar vários delitos em continuidade –, portanto, é elemento indispensável, na visão da teoria eclética ou mista, para a configuração do crime continuado. Crime Continuado – Art 71 ⚫ Teoria adotada pelo CP. O nosso diploma penal não fez qualquer referência à unidade de desígnios enquanto requisito do crime continuado. Consoante se extrai da redação do art. 71 do CP, os elementos estruturantes da continuidade delitiva são apenas de ordem objetiva, inexistindo qualquer menção a elementos subjetivos. Assim, a doutrina brasileira é pacífica em afirmar que o Código brasileiro adotou a teoria objetiva pura. ⚫ Aliás, a própria Exposição de Motivos da Parte Geral do CP, no item n.º 59, afirma expressamente que foi mantido, na reforma de 1984, o critério da teoria puramente objetiva, por se entender que este “não revelou na prática maiores inconvenientes, a despeito das objeções formuladas pelos partidários da teoria objetivo-subjetiva”. ⚫ Crime Continuado – Art 71 ⚫ São elementos objetivos que compõem a estrutura fundamental do crime continuado: ⚫ a) Pluralidade de Condutas. Há necessidade de “mais de uma ação ou omissão” para o reconhecimento do crime continuado. Sem pluralidade de condutas inexiste delito continuado. Frise-se que não se está falando apenas de multiplicidade de atos criminosos, mas de condutas criminosas (mesma exigência que se faz no concurso material). Assim, conduta delitiva singular (uma ação ou uma omissão) geradora de múltiplos resultados criminosos (mais de um crime) não induz continuidade delitiva, mas sim concurso formal. Crime Continuado – Art 71 ⚫ b) Pluralidade de Crimes da Mesma Espécie. É justamente neste ponto que se situa uma das grandes discussões atinentes ao crime continuado. O que são crimes da mesma espécie? É sobre essa resposta que a doutrina diverge. Dois são os posicionamentos encontrados: 1- crimes da mesma espécie são delitos constantes do mesmo tipo legal incriminador, pouco importando se na forma simples, qualificada, privilegiada, tentada ou consumada. ⚫ Crime Continuado – Art 71 ⚫ Alguns estudiosos sustentam que crimes da mesma espécie não são somente os delitos previstos no mesmo tipo incriminador, pois isto são “crimes idênticos”, e não da “mesma espécie”. Nesta linha, são crimes da mesma espécie os que atentam contra bens jurídicos semelhantes e mediante condutas similares, pouco importando se necessariamente na mesma estrutura típica. ⚫ Filiando-se a esta corrente, Paulo Queiroz admite, por exemplo, o reconhecimento de continuidade delitiva entre furto, roubo e extorsão (crimes contra o patrimônio), bem como entre estupro e atentado violento ao pudor (crimes contra a liberdade sexual), em razão da semelhança entre eles. ⚫ Crime Continuado – Art 71 ⚫ Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro, in verbis: “O crime continuado evidencia pluralidade de delitos, aproximados, formando unidade jurídica, por serem da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outro semelhantes, devem ser havidos como continuação do primeiro. Crimes da mesma espécie não se confundem com crimes idênticos (CP. art. 69 e 70). Basta evidenciarem elementos fundamentais comuns; embora, formalmente (tipo legal de crime) revele, diferença, substancialmente, satisfazem a definição do art. 71. É o que acontece com o roubo e a extorsão,cometidos no mesmo contexto temporal”. ⚫ Crime Continuado – Art 71 ⚫ STF ⚫ “entendeu pelo reconhecimento de continuidade delitiva entre os delitos de estupro e atentado violento ao pudor, quando praticados de forma independente. Vencido, neste ponto, o Relator, que afirmava a configuração de concurso material”. Esta decisão de fevereiro de 2007 da Segunda Turma do STF, tomada por votação não unânime (vencidos, no ponto, o Ministro Carlos Britto e a Ministra Cármen Lúcia) contraria entendimento já sedimentado no Excelso Pretório, conforme registrado em ementa da Segunda Turma, datada de outubro de 2006 (votação unânime): “A jurisprudência desta Corte está sedimentada no sentido de que estupro e atentado violento ao pudor configuram concurso material e não crime continuado”. ⚫ Crime Continuado – Art 71 b) Nexo Temporal. É necessário que se identifique uma aproximação quanto às circunstâncias de tempo, de maneira que possa se afirmar que um delito foi continuação do outro. A existência de largo espaço temporal entre os crimes rompe com a idéia de continuidade delitiva. Crime Continuado – Art 71 ⚫ Não existe fórmula matemática estipulada pelo Código, motivo pelo qual tudo dependerá das circunstâncias do caso. É inegável, por exemplo, que se “os dois crimes foram praticados no mesmo dia, com diferença de quinze minutos entre as condutas, tendo o segundo ocorrido no mesmo lugar em que o primeiro automóvel subtraído foi abandonado, além da execução ser idêntica, pois configurada em ambos a grave ameaça, consistente na utilização da arma de fogo, evidencia-se o preenchimento dos requisitos objetivos para a aplicação da continuidade delitiva”. Também admissível é o entendimento segundo o qual “se entre as séries delituosas houver diferença de meses, não haverá continuidade delitiva, mas sim reiteração delitiva, devendo ser aplicado a regra do concurso material. (Precedentes)”. Enfim, pode-se afirmar que a jurisprudência estabeleceu como espaço de tempo máximo o período de 30 (trinta) dias entre os crimes; acima deste período já é um pouco complicada a admissão de continuidade delitiva, passando a se falar em concurso material. ⚫ Crime Continuado – Art 71 c) Nexo Espacial. A continuidade delitiva exige similitude nas circunstâncias de espaço ou território, de forma que os crimes devem ser cometidos, se não no mesmo lugar, em locais próximos (ex.: bairros vizinhos ou cidades conurbadas). Crime Continuado – Art 71 d) Nexo Modal. Imprescindível a identificação de um “modus operandi” característico em todos os crimes. A presença de todas estas condições (cumulativamente) significa o preenchimento dos requisitos objetivos para o reconhecimento da continuidade delitiva. CRIME CONTINUADO E REITERAÇÃO CRIMINOSA. ⚫Estas são duas figuras que não se confundem segundo é o entendimento do Supremo Tribunal Federal, ⚫ "a reiteração criminosa indicadora de delinquência habitual ou profissional é suficiente para descaracterizar o crime continuado". Crime Continuado e Reiteração Criminosa. ⚫A continuidade delitiva representa, na verdade, conforme já destacado inicialmente, ficção jurídica inspirada em política criminal e na menor censurabilidade do autor de crimes plurais da mesma espécie e praticados de modo semelhante, a indicar continuidade (ou seja, que os subsequentes devem ser havidos como continuação do primeiro). Crime Continuado e Reiteração Criminosa. ⚫Diferente, no entanto, é a hipótese de simples reiteração ou habitualidade criminosa, em que, muito embora haja pluralidade de delitos, ainda que da mesma espécie, ausente as similitudes; ou, ainda que verificadas as similitudes, estas não são bastantes a indicar continuidade. Crime Continuado e Reiteração Criminosa. ⚫Tome-se, por emprestado, hipótese concreta julgada pelo Supremo: ⚫ "No caso dos autos, os modos de execução são distintos e os delitos estão separados por espaço temporal igual a seis meses. Não se cuida, portanto, de crime continuado, mas de reiteração criminosa. Incide a regra do concurso material". Crime Continuado e Reiteração Criminosa. ⚫Nos casos de mera reiteração criminosa, é claro que o tratamento penal deve ser endurecido (leia-se: maior pena), uma vez que a culpabilidade (no sentido de censurabilidade ou reprovabilidade) é maior. Crime Continuado e Reiteração Criminosa. Indispensável, neste ponto, o magistério de Cernicchiaro, segundo o qual só se pode entender a continuação, desde que a sequencia das ações ou omissões diminuam a censura. "Ao contrário, se as circunstâncias evidenciarem, por exemplo, propensão para o delito, raciocínio frio, calculista, reiteração que se projeta todas as vezes que o agente encontra ambiente favorável aos delitos, pouco importa a conexão objetiva. A reiteração que, se transforma em habitualidade, atrai, sem dúvida, maior culpabilidade", o que significa maior pena, em virtude de não se reconhecer o benefício dogmático e político-criminal da continuidade delitiva. Crime Continuado e Crime Habitual. ⚫O critério distintivo entre crime habitual e crime continuado reside exatamente na natureza jurídica dos atos integrantes e, consequentemente, no número de delitos praticados. Deve-se verificar se foram vários os crimes cometidos (em continuidade delitiva) ou apenas um delito (na forma habitual). Crime Continuado e Crime Habitual. ⚫O crime habitual significa a repetição de certos atos, tidos como indiferentes penais (se considerados isoladamente), mas que, à luz do todo, manifestam estilo de vida censurável e incriminado. Em detalhes, são características do crime habitual: a) repetição de atos; b) atos que, se considerados isoladamente, seriam indiferentes penais; c) estes atos, no entanto, quando analisados à luz do todo, traduzem um estilo de vida; d) modo de vida, este, reprovável e previsto em lei como crime. Crime Continuado e Crime Habitual. ⚫ Já o crime continuado significa, em verdade, uma série (ou pluralidade) de crimes, todos eles ligados pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, de maneira que os subsequentes devem ser havidos como continuação do primeiro. Trata-se, de fato, como o próprio nome indica, de vários crimes cometidos em continuidade ou, então, de uma continuidade delitiva. Crime Continuado e Crime Habitual. Observe a diferença entre os institutos. No crime habitual, os atos que o compõem são, por si mesmos, irrelevantes penais (ou seja, não constituem crimes isoladamente); apenas a soma destes atos, o todo, que configura um delito, chamado de habitual, pois manifesta o estilo de vida do sujeito ativo. Ex.: curandeirismo (art. 284 do CP). Diferentemente, no crime continuado, as partes integrantes do todo são, de per si, crimes, configurando o todo apenas uma pluralidade de delitos, reunidos sob o nome de continuidade criminosa, tendo em conta os elementos especiais que os identificam enquanto verdadeira "cadeia de delitos". Ex.: homicídios em continuidade delitiva (art. 121 c.c. 71, ambos do CP). Crime Continuado e Crime Permanente. O crime permanente é aquele cuja consumação se protrai (ou prolonga) no tempo. Já o crime continuado, repita-se, são vários delitos, porém ligados um ao outro devido a condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, de forma que os subsequentes devem ser havidos como continuação do primeiro. O paradigma de diferenciação é o mesmo da hipótese anterior (crime continuado x crime habitual), qual seja, a natureza jurídica dos atos integrantes e, consequentemente, do número de delitos praticados. O crime permanente é crime único cuja consumação se arrasta no tempo. Ex.: sequestro (art. 148 do CP). Já a continuidade delitiva indica número plural de crimes (dois ou mais). Ex.: furtos em continuidade delitiva (art. 155 c.c. 71, ambos do CP). Multa no Concurso de Crimes. Multas no concursode crimes ⚫Art. 72 - No concurso de crimes, as penas de multa são aplicadas distinta e integralmente. Concurso de Crimes fim Carlos Gianfardoni