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BLOCOS ECONÔMICOS 
INTERNACIONAIS 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Tareq Yacoub Helou 
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CONVERSA INICIAL 
Vimos que o comércio internacional é pontuado por várias negociações 
entre países. Relembre que as negociações que ocorrem no âmbito da OMC são 
multilaterais; isso significa que todos os países participam e todos têm que seguir 
certas regras para comercializarem internacionalmente. 
Nesta etapa, veremos que acordos regionais podem servir de base para 
a integração econômica que vai além das negociações da OMC. 
Estudaremos o que são os blocos econômicos e o processo de 
integração regional. Veremos os tipos ou etapas desses blocos e suas 
características, além de alguns exemplos. Ainda, investigaremos quais as 
consequências dos blocos econômicos para o comércio internacional; e, por fim, 
abordaremos algumas das principais teorias que explicam a integração regional. 
CONTEXTUALIZANDO 
Vimos que a negociação internacional trouxe uma intensificação do 
comércio internacional, que, por sua vez, precipitou a criação de vários acordos 
comerciais regionais entre países. Porém, a integração regional vai muito além 
da intensificação de relações comerciais, ela influencia quase todas as 
dimensões da economia, e a integração econômica evoluiu para comportar 
essas dimensões. Para além do comércio, temos o movimento de pessoas, de 
investimentos, de cadeias produtivas, e até de moedas. 
 
Crédito: Dominik Bruhn/Shutterstock. 
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TEMA 1 – BLOCOS ECONÔMICOS: CONCEITOS 
Na definição de Almeida (2002), blocos regionais podem ser descritos 
como grupos de países contidos dentro de uma contiguidade geográfica, sendo 
blocos econômicos a dimensão moldada por acordos intergovernamentais de 
caráter econômico e comercial. Os blocos regionais contemporâneos são 
resultado do adensamento dos processos de integração econômica que o 
mundo experienciou após a Segunda Guerra Mundial, sendo o primeiro exemplo 
o Mercado Comum Europeu, em 1957, que depois viria a se tornar a União 
Europeia (Almeida, 2002, p. 5). 
Hoje, praticamente todos os países são membros de pelo menos um bloco 
econômico, com alguns pertencendo a vários. Há, claro, uma grande diferença 
entre eles, alguns são bem mais simples e menores que outros, mas, no geral, 
o objetivo de todo bloco gira em torno de reduzir barreiras entre os membros. 
Conforme as relações econômicas entre os membros vão se entrelaçando, 
esses blocos podem evoluir para coordenar funções econômicas mais 
complexas, como uma moeda comum. 
Qual a diferença de bloco econômico e acordos regionais de comércio, 
algo que já estudamos? Acordos regionais de comércio, como zonas de livre 
comércio e uniões aduaneiras, são tipos de blocos econômicos, mas estes 
podem ir além de acordos regionais de comércio. 
Por exemplo, o USMCA (acordo regional que inclui Estados Unidos, 
México e Canada) é uma zona de livre comércio. A maioria dos bens e serviços 
produzidos nesses países pode ser comercializada sem maiores problemas 
entre ele; e esse é o objetivo final. Não há intenção, pelo menos por ora, de 
aprofundar o USMCA além do livre comércio. Esse não é o caso do Mercosul, 
que não é apenas uma zona de livre comércio, mas uma união aduaneira com o 
objetivo de se aprofundar ainda mais e se tornar um mercado comum. 
TEMA 2 – DEFINIÇÕES DE INTEGRAÇÃO REGIONAL E CARACTERÍSTICAS 
CENTRAIS 
A integração regional é o processo de criação de blocos econômicos. Há 
diferença entre integração regional e integração econômica? Em teoria, sim. A 
integração regional abarca vários fenômenos econômicos, políticos, sociais e 
legais. Falamos de integração econômica, ou integração econômica regional, 
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para referir-se aos aspectos econômicos da integração, como acordos 
comerciais ou harmonização de políticas econômicas. Contudo, a integração é 
um fenômeno complexo em que essas dimensões sempre acabam se 
entrelaçando. Ao longo desta etapa, usaremos o termo “integração regional” e 
“integração econômica” de forma intercambiável, mas haverá ressalvas quando 
falarmos de aspectos mais específicos. 
2.1 A Teoria da integração econômica 
O estudo da integração econômica é comumente atribuído ao economista 
húngaro Bela Balassa, que, em 1961, escreveu a Teoria da Integração 
Econômica, buscando teorizar os episódios de integração que estavam tomando 
forma depois da Segunda Guerra Mundial. Em seu trabalho, ele teorizou que 
países buscam a integração como formas de abolir as discriminações entre 
seus fatores econômicos (Balassa, 1961). Discriminações são aqui definidas 
como as diferenças que os países têm entre si em relação a fatores como 
impostos, tarifas, políticas econômicas, mãos de obra, políticas sociais e até 
legislação. Em suma, a integração busca eliminar elementos que diferenciam as 
economias dos países. 
O conceito de discriminação é importante para entendermos a distinção 
de cooperação internacional e integração. A cooperação é a busca pela 
diminuição de discriminações. A OMC é um exemplo de cooperação 
internacional, pois busca diminuir as discriminações que os países apresentam 
sobre o comércio, em particular por meio de tarifas e de barreiras comerciais. 
Enquanto isso, a integração internacional almeja a eliminação de 
discriminações. A remoção de barreiras por meio de um acordo regional, por 
exemplo, é um caso de integração. Por fim, a definição de regional repousa 
sobre o conceito de que a integração acontece primeiramente no entorno 
geográfico do país. Aqui podemos pensar no Asea, que começou com cinco 
países vizinhos e aos poucos foi incorporando outros países do Sudeste 
Asiático. 
A integração econômica avança em etapas. Nas primeiras, temos tipos 
mais simples de blocos, zonas de livre comércio, ficando a implementação mais 
restrita a elementos do comércio, e, conforme o processo de integração se 
adensa, começa-se a ter mercados comuns, uniões monetárias e econômicas, 
em que instituições fundamentais da política e gestão econômica de vários 
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países são manejadas por organismos centrais comuns a todos; o exemplo mais 
famoso é a União Europeia. Veremos essas etapas mais detalhadamente no 
tópico 3. 
Figura 1 – Divisão Norte-Sul 
 
Fonte: Tait, 2016. 
2.2 A distinção Norte-Sul 
 
 Crédito: Brichuas/Shutterstock. 
Nessa famosa imagem do mundo à noite, podemos ver como países mais 
desenvolvidos na América do Norte e na Europa detém um nível de urbanização 
e consumo energético muito maior que os do Sul 
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Quando estudamos a UNCTAD, vimos a importância de diferenciar países 
desenvolvidos de países em desenvolvimento. Aqui também se faz necessária 
essa distinção. Quando estudamos integração regional, dois termos muito 
utilizados são o “Norte” e o “Sul”. O Norte, ou Norte Global, refere-se aos países, 
geralmente localizados ao norte do globo, considerados desenvolvidos, com 
elevados níveis de renda, qualidade de vida e infraestrutura quando comparados 
com o resto do mundo. Enquanto o Sul, ou Sul Global, é formado por países com 
rendas mais baixas, mais elevados índices de corrupção e desigualdade, além 
de infraestrutura e economias menos desenvolvidas; ou seja, é bastante similar 
ao famoso e abrangente termo “terceiro mundo” (Bevir, 2007, p. 628). 
Ambos os termos são bem generalizantes e de cunho exclusivamente 
político-econômico. Podemos nos atentar que nem todos os países 
considerados do Norte estão geograficamente no Norte, como mostra o mapa 
na Figura 1, onde em azul estão os países do Norte Global e em vermelho os do 
Sul Global. Também vale destacar que, apesar de o Sul ser composto por países 
que compartilham dos problemas que tocamos há pouco, ainda assim é uma 
categoria extremamente diversa. Temos países relativamente ricos, como o 
Brunei e os Emirados Árabes Unidos, sendo agrupados no Sul com países de 
médio desenvolvimento, como o Brasil ea China, assim também com países 
muito mais pobres, como o Níger e o Afeganistão. Ainda assim, esses termos 
são hoje muito presentes na literatura econômica e política. 
É importante observar que os objetivos pelos quais os países do Norte 
buscam com a integração não necessariamente são os mesmos dos países do 
Sul. Geralmente, países do Norte ocupam uma posição predominante, podendo 
melhor ditar os termos dos acordos regionais que buscam inserir-se. 
Saiba mais 
O termo “terceiro mundo” foi muito utilizado durante a Guerra Fria na 
segunda metade do século XX. O “primeiro mundo” seria os Estados Unidos e 
países capitalistas aliados, em especial a Europa, seguido do “segundo mundo” 
liderado pela União Soviética e de países que adotavam governos socialistas. 
Enquanto isso, o terceiro mundo seria “o resto”, composto por uma centena de 
nações em vários estágios de desenvolvimento econômico, que seria disputado 
entre americanos e soviéticos. A expressão “terceiro mundo” já está em desuso 
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7 
e não é mais oficialmente utilizada por organismos internacionais e pela 
academia; ela foi substituída pelo termo “países em desenvolvimento”. 
TEMA 3 – ETAPAS DOS BLOCOS ECONÔMICOS 
 
 Como vimos no primeiro tópico, os blocos econômicos podem avançar em 
etapas, sendo que cada etapa envolve um nível mais complexo de integração 
que a anterior. Tradicionalmente, distinguem-se cinco principais tipos de blocos 
econômicos. Vejamos mais detalhadamente o que cada um deles representa. 
3.1 Zonas de Livre Comércio 
Já falamos sobre as Zonas de Livre Comércio (ZLC) e de seu principal 
objetivo, que é o aumento do comércio internacional pela eliminação ou redução 
de barreiras comerciais entre seus membros, sobretudo tarifárias. Elas são o tipo 
mais simples de bloco econômico; por conta disso, são também as mais comuns 
no cenário internacional. Há, claro, distinções entre elas, enquanto algumas se 
estendem apenas a mercadorias, outras podem incluir serviços e propriedades 
intelectuais. Os exemplos mais famosos desse tipo de bloco são a USMCA (que 
substituiu o Nafta, também área de livre comércio) e o Asean, no Sudeste 
Asiático. 
Um aspecto muito importante negociado nos acordos constituintes das 
zonas livres de comércio é a definição das regras de origem. Lembre-se de que 
nessas zonas o comércio entre os membros é livre ou bem menos taxado, mas 
cada um pode adotar a política tarifária que quiser para países fora da zona, 
desde que siga as regras da OMC. Isso pode causar uma complexidade 
desnecessária às ZLC. Imagine no caso da USMCA, em que os Estados Unidos 
decidem taxar as importações de carros vindas do Brasil em 25%, enquanto o 
Canadá só taxa os carros brasileiros em 10%. Dado que o Canadá tem livre 
comércio de carros com os Estados Unidos por conta da UMSCA, podemos 
simplesmente exportar nossos carros para o Canadá, pagar as tarifas de 10% e 
revendê-los nos EUA, certo? Não. 
Para evitar que esse tipo de oportunismo em cima das diferentes tarifas 
aconteça, zonas de livre comércio já preveem regras de origem para os produtos 
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importados a países dentro do bloco. O carro brasileiro pode ter entrado pelo 
Canadá, mas sua origem ainda é brasileira; portanto, deve ser taxado nos EUA 
como um carro brasileiro e não como um carro canadense. Mas e se você 
exportar o carro sem as rodas para o Canadá, comprar rodas lá e montá-lo, 
agora ele é um carro canadense? Também, não. As regras de origem acordadas 
regem o quanto de uma dada mercadoria sofreu transformação substancial, 
ou seja, ela deve ter sido transformada dentro do bloco usando insumos dentro 
do bloco para ser considerada como feita no bloco, e assim não precisar pagar 
tarifas quando exportada para outros países do bloco. Só adicionar quatro rodas 
a um carro que já está inteiramente montado não é uma transformação 
substancial. No caso da UMSCA, para ser considerado um carro norte-
americano, um carro tem que ter 75% de suas peças feitas na América do Norte, 
antes essa parcela era 62,5% nos tempos do Nafta (Feenstra; Taylor, 2021, p. 
366). 
3.2 União aduaneira 
Na união aduaneira, além da eliminação de barreiras alfandegárias para 
os países integrantes, há a adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC) para 
os produtos importados de países fora do bloco. Veja que, por conta da TEC, 
uniões aduaneiras não sofrem com as mesmas dores de cabeça com regras de 
origem que as zonas de livre comércio, uma vez que quem exportar para uma 
união aduaneira terá que pagar as mesmas tarifas alfandegárias 
independentemente do país. O Mercosul é o caso mais clássico de união 
aduaneira, mas há outra união aduaneira na América do Sul, a Comunidade 
Andina (CAN), composta pela Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. 
3.3 Mercado comum 
Seguindo adiante temos o mercado comum, que além de eliminar as 
barreiras alfandegárias internas e adotar um regime de TEC, há livre 
mobilidade de mão de obra e capital. Isso quer dizer que cidadãos-membros 
de um mercado comum podem livremente obter emprego, estudar ou se 
aposentar em qualquer país do bloco sem a necessidade de obter vistos de 
residência/trabalho ou novas carteiras de trabalho. Além disso, há a mobilidade 
de capitais, ou seja, dinheiro, ativos financeiros e investimentos podem ser 
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transferidos livremente dentro do bloco, sem a aplicação de regras especiais 
para capital estrangeiro. É aqui que a integração econômica vai além de políticas 
comerciais, e começa a englobar outros aspectos da economia. 
Mas se o Mercosul quer dizer “Mercado Comum do Sul”, ele não é um 
mercado comum? Infelizmente, não. Apesar de nós, como brasileiros, termos 
maior mobilidade para transitar e trabalhar em outros países do Mercosul, ainda 
assim estamos longe de nos tornar um mercado comum. Para isso, deveria 
haver uma harmonização das leis e dos regimes trabalhistas do Brasil, 
Argentina, Paraguai e Uruguai, além de uma harmonização de nossos sistemas 
previdenciários, isso sem falar da harmonização de sistemas bancários e de 
custódia de ativos. 
No mundo, hoje, existe apenas um bloco econômico que podemos 
chamar de mercado comum, a Comunidade Econômica Europeia (CEE). Não a 
confunda com a União Europeia! A CEE engloba todos os países da União 
Europeia mais três outros, a Islândia, o Lichtenstein e a Noruega. Esses três 
desfrutam a livre mobilidade de trabalho e capitais com o resto do continente 
europeu, mas não participam de certas instituições econômicas da União 
Europeia. Não se preocupe, voltaremos a falar da CEE quando abordarmos 
sobre a União Europeia. 
3.4 União econômica 
Dentro de uma união econômica, além de todas as atribuições anteriores, 
há um alinhamento das políticas econômicas dos países-membros conforme o 
que é orientado por uma instituição regional central, ou seja, políticas 
macroeconômicas devem seguir as regras aplicáveis a todos os membros. O 
maior exemplar era a União Europeia antes da criação da zona do euro, onde 
países podiam elaborar suas políticas fiscais e monetárias desde que 
estivessem em conformidade com as metas e estipulações das instituições 
regionais europeias, como o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia. 
3.5 Integração econômica total 
Aqui os países do bloco já delegaram grande parte de sua autonomia à 
organização regional, ainda mais que na união econômica. Além dessa 
delegação, há a implementação de uma união monetária entre seus países, 
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estabelecendo uma moeda única a ser usada. A introdução de uma só moeda é 
vital para o funcionamento de uma região que atinge esse nível de integração. 
Novamente, a União Europeia aparece como o grande exemplo de bloco 
econômico que conseguiu atingir esse nível de integração. O Euro hoje é uma 
das moedas mais usadas e importantes na economia internacional. 
 Há, porém, um sacrifício a ser feito para se adotar o euro. Por ser uma 
moeda regional,o euro é emitido e controlado pelo Banco Central Europeu, 
portanto, todos os países que adotaram o euro tiveram que delegar sua 
habilidade de conduzir política monetária a esse banco central. Embora a adoção 
do euro seja ainda bastante desejada, essa alienação da política monetária pode 
ser desastrosa em situações de crise. Existe uma diferença entre ser membro 
da União Europeia e ser membro da Zona do Euro. Essa zona é composta por 
países que adotaram o euro como sua moeda nacional. Todo o país na zona do 
euro é membro da União Europeia, mas nem todo país membro da União 
Europeia é membro da zona do euro, o exemplo mais famoso é o do Vaticano – 
que usa o Euro, mas não faz parte do bloco. 
TEMA 4 – DESVIO DE COMÉRCIO E BLOCOS ECONÔMICOS 
 
Crédito: Monster Ztudio/Shutterstock. 
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Uma das principais críticas aos blocos econômicos é a ideia de que eles 
distorcem artificialmente o comércio internacional; com isso, a implementação 
do livre comércio entre as nações é problemática. Por meio de seus regimes 
preferenciais, o comércio entre países pode ser desviado para aqueles que 
conseguem negociar melhor as suas posições em blocos econômicos e acordos, 
e não necessariamente para os países que são mais produtivos e eficientes. 
Ilustremos essa lógica com o exemplo apresentado na tabela a seguir. 
Tabela 1 – Preço hipotético de vinhos por país 
Preço em R$ Brasil Uruguai Portugal 
Preço original 30,00 28,00 25,00 
Com tarifa de 30% 30,00 36,40 32,50 
Com tarifa de 30% 
e sem tarifa para 
o Mercosul 
30,00 28,00 32,50 
Com tarifa de 15% 
para todos 
30,00 32,20 28,75 
Com tarifa de 15% 
e sem tarifa para 
o Mercosul 
30,00 28,00 28,75 
Pense que o Brasil produz e consegue vender vinhos a R$30,00 por 
garrafa, o Uruguai consegue vendê-los a R$28,00 e Portugal a R$25,00, como 
ilustrado na Tabela 1. Em um primeiro momento, o Brasil cobra uma alíquota de 
30% para importações de vinho, independente do país. Também consideremos 
que os três vinhos têm a mesma qualidade. Como todos os vinhos importados 
são mais caros, o consumidor brasileiro tenderá a comprar o vinho mais barato, 
produzido aqui. 
Agora pense: dentro do Mercosul foi negociada uma política de tarifa zero 
para o comércio de vinhos dentro do bloco. O vinho uruguaio passa a ser vendido 
a R$ 28,00, e é mais barato que o brasileiro e o português (que permanece 
taxado); portanto, compradores no Brasil tenderão a comprar o vinho Uruguaio. 
Aqui houve o que chamamos de criação de comércio; o brasileiro deixou de 
comprar a garrafa produzida aqui para comprar uma produzida fora, criando, 
assim, o comércio entre os dois países. Isso tem benefício para o consumidor 
brasileiro, que agora pode tomar seu vinho e ainda lhe sobram R$ 2,00 para 
poupar ou gastar com outra coisa. Enquanto isso, Portugal, por não ter acesso 
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à tarifa zero do Mercosul, continua com seu vinho sendo vendido mais caro no 
Brasil. 
Porém, em um terceiro momento, pense que o Brasil resolveu abaixar as 
tarifas sobre vinho para 15% para todo o mundo. Agora o vinho português custa 
R$ 28,75 e fica mais competitivo aqui. Se esses 15% também fossem aplicados 
ao Uruguai, seu vinho custaria R$ 32,20 e seria o mais caro das alternativas 
disponíveis ao consumidor brasileiro. Porém, o Uruguai ainda desfruta da tarifa 
zero por ser membro do Mercosul, portanto, seu vinho vendido a R$ 28,00 ainda 
é o mais barato de todos. 
Podemos dizer aqui que houve um desvio de comércio, ou seja, o 
comércio que naturalmente deveria estar indo para Portugal foi artificialmente 
desviado para o Uruguai por conta do Mercosul. Apesar de Portugal ser o mais 
eficiente dos três países em produzir vinho, ainda assim perde mercado por não 
fazer parte de um bloco econômico. No mundo ideal, com zero tarifas, quem 
mais teria a ganhar seria o consumidor brasileiro, que agora poderia comprar o 
vinho português por R$ 25,00, mas por conta do protecionismo e do regionalismo 
tem que se conformar com o vinho brasileiro de R$ 30,00, ou, no melhor cenário, 
o uruguaio de R$ 28,00. 
TEMA 5 – TEORIAS DA INTEGRAÇÃO REGIONAL 
 
Crédito: Jelena990/Shutterstock. 
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A literatura que busca entender a integração regional se sustenta sobre 
três principais teorias: o intergovernamentalismo, o funcionalismo e o 
neofuncionalismo. 
5.1 Intergovernamentalismo 
É uma escola teórica das relações internacionais que busca explicar o 
regionalismo por meio da escolha racional dos governos. Esses governos, por 
sua vez, são moldados por políticos, agentes e grupos que têm seus próprios 
objetivos e preferências. Além disso, governos têm que se defender e negociar 
seus objetivos em um mundo anárquico. O conceito de anarquia em relações 
internacionais prega que no mundo não existe uma autoridade suprema e 
imparcial que pode julgar e regular as relações entre os países. Países podem 
usar-se do seu próprio poder militar, econômico e político para coagir outros 
países a seguirem suas regras. Sendo assim, o mundo é um lugar incerto e 
perigoso. 
É por isso que países resolvem criar suas próprias instituições regionais 
e blocos. Se integrar com seus vizinhos reduz as incertezas da política 
internacional, a criação de instituições e acordos com eles permite que 
compromissos sejam mantidos, que expectativas possam ser consolidadas e 
que os interesses de cada governo possam ser negociados de forma civilizada, 
e não por meio de conflitos (que podem ser tanto armados como guerras 
comerciais). 
Essa teoria é muito utilizada para explicar o papel da União Europeia. 
Pense que há 80 anos o continente Europeu, engolido pela Segunda Guerra 
Mundial, hoje é o continente mais integrado do mundo. A criação de instituições 
regionais europeias permitiu coordenar os objetivos e as negociações dos países 
europeus, possibilitando que pudessem integrar suas economias a tal ponto que 
é inimaginável contemplar que países como a Alemanha e a França fariam uma 
guerra entre si, apesar de terem lutado em inúmeras disputas ao longo dos 
séculos. Pense na dificuldade de fazer uma guerra contra um país que é um dos 
seus maiores parceiros comerciais, cujas indústrias fazem parte da cadeia de 
produção de quase todas as suas indústrias, que usa a mesma moeda e ainda 
tem os mesmos aliados. 
 
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5.2 Funcionalismo e neofuncionalismo 
O funcionalismo considera que a formação de organizações 
internacionais começa pela cooperação internacional nos mais variados campos 
da economia, ciência, sociedade e direitos. O nome deriva das “funções” que 
governos e o setor público desempenham, como compartilhar políticas de 
desenvolvimento, coordenar respostas a epidemias e até mesmo coordenar o 
tráfego aéreo, sendo capazes de estimular a cooperação entre países quanto 
negociar questões mais sensíveis como soberania ou defesa. Portanto, 
funcionalistas defendem que a criação de agências internacionais com funções 
específicas seria a chave para estreitar laços entre países e aprofundar sua 
integração. 
Esses princípios funcionalistas serviram de grande inspiração para a 
Organização das Nações Unidas, por exemplo. Hoje, a ONU opera por 
intermédio de uma série de agências especializadas em várias áreas, desde 
grandes organizações que você provavelmente já ouviu falar, como a 
Organização Mundial da Saúde e o Programa das Nações Unidas para o 
Desenvolvimento, até agências menores e de funções mais específicas, como a 
União Postal Universal e a Organização da Aviação Civil Internacional. 
A perspectiva neofuncionalista se baseia nas mesmas premissas do 
funcionalismo, em que a cooperação entre estados começa por funções mais 
específicas, mas agora focando-se no aspecto regional dessa cooperação, em 
detrimento do internacional. Portanto, os neofuncionalistas buscam 
compreender quais as razões que levam um país soberano a buscar a 
integração mesmo que isso custe cederaspectos de sua soberania para 
instituições regionais. Essa racionalidade também se baseia na escolha racional, 
mas em vez de pensar em grandes estratégias de cooperação em um mundo 
anárquico, os neofuncionalistas focam em analisar como menores cooperações 
em um setor da economia podem transbordar para outro setor e, com isso, 
adensar a integração econômica regional. Conforme setores nacionais vão 
ficando cada vez mais integrados com os de outros países, começa-se a ter a 
necessidade da criação de novas instituições regionais para coordenar essa 
integração (Bevir, 2007, p. 809). 
Um exemplo disso seria a própria União Europeia, que, como veremos, 
começou como a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço em 1951. Essa 
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comunidade tinha como objetivo coordenar e regular a produção de carvão e aço 
entre seus países-membros, conforme mais funções foram sendo integradas, ela 
evoluiu para a União Europeia, conforme a conhecemos hoje. 
TROCANDO IDEIAS 
Retornemos ao exemplo dado no tópico 4 sobre o desvio de comércio. Lá 
falamos que, por meio do comércio, vinhos mais baratos seriam vendidos no 
Brasil, a diferença seria os vinhos de quem. Usamos o benefício ao consumidor 
para justificar por que o desvio de comércio pode ser danoso, mas pense, os 
vinhos vendidos por R$ 30,00 remuneram produtores brasileiros, que empregam 
brasileiros e pagam impostos no Brasil. 
Agora considere um segundo cenário, onde há uma união aduaneira com 
o Uruguai. Se formos pagar R$ 28,00 pelo vinho uruguaio, ainda estamos 
remunerando um país que está muito mais próximo e economicamente integrado 
ao Brasil, e é provável que esse dinheiro seja usado por uruguaios para comprar 
produtos brasileiros. 
Ainda assim, seria justo, sob o ponto de vista puramente econômico, que 
o produtor português, o mais eficiente de todos, perca o mercado brasileiro 
porque vinicultores menos eficientes do Mercosul conseguiram convencer seus 
governos a manter barreiras comerciais para se protegerem dos portugueses? 
Reflita acerca desses cenários. Não há uma resposta fácil para eles, mas 
é importante que você, economista, possa fazer essas reflexões. 
NA PRÁTICA 
Outra ferramenta interessante do Comex Stat que já usamos é o 
ComexVis, que permite que visualizemos dados de forma bem ilustrativa. Ele é 
ótimo para montar tabelas e gráficos rápidos e não necessita do uso de softwares 
específicos para manipular seus dados. 
Vejamos um pouco sobre as estatísticas acerca do comércio dentro do 
Mercosul. Na página do Comex Stat, selecione o menu ComexVis, em 
. 
Na página do ComexVis, selecione “Blocos Econômicos” no menu 
Visualização, e “Mercado Comum do Sul – Mercosul” em Detalhamento. Depois, 
é só clicar em consultar. 
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No detalhamento você encontrará informações das principais atividades 
comerciais dentro do bloco e estatísticas da participação brasileira nele. Na 
seção de Visão Geral dos Produtos Exportados, descubra qual é o produto mais 
exportado do Brasil para o resto do Mercosul. Agora, se você descer mais um 
pouco verá a seção Visão Geral dos Produtos Importados. Descubra qual é o 
produto mais importado pelo Brasil dentro do Mercosul. 
Encontrou? Se você encontrou “Veículos e automóveis de passageiros” 
como principal produto exportado e “Veículos automóveis para transporte de 
mercadorias e usos especiais”, você acertou. 
O bem mais comercializado pelo Brasil dentro do Mercosul são veículos. 
Tanto o Brasil quanto a Argentina têm forte presença de montadoras de veículos, 
e dada nossa união aduaneira não é difícil de produzir veículos em um país e 
enviá-los para o outro. Inclusive, um outro item que se destaca é “Partes e 
acessórios dos veículos automotivos”. Nossa experiência de integração no 
âmbito do Mercosul permite que tenhamos cadeias produtivas internacionais, e 
que possamos coordenar indústrias entre nossos países. 
FINALIZANDO 
Terminamos entendendo um pouco mais sobre os blocos econômicos e 
as consequências deles para o comércio e economia internacionais. Teorizamos 
que a integração regional é um fenômeno que leva países a formarem blocos 
econômicos e que há vantagens em formá-los para diminuir as discriminações 
entre os fatores econômicos de cada país. Mesmo assim, temos que nos atentar 
aos desvios que esses blocos podem trazer ao equilíbrio natural do mercado. 
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REFERÊNCIAS 
ALMEIDA, P. R. O Brasil e os Blocos Regionais: Soberania e interdependência. 
São Paulo em Perspectiva, v. 16, n. 1, p. 3-16, 2002. 
ALMEIDA, V. F. de. A União das Nações Sul-Americanas na Proteção da 
Estabilidade Política. 2021. 137 f. Dissertação (Mestrado em Relações 
Internacionais) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. 
BALASSA, B. The Theory of Economic Integration. 1. ed. Londres: George 
Allen & Unwin Ltd, 1961. 
BEVIR, M. Encyclopedia of Governance. 1. ed. Londres: Sage Publications Inc, 
2007. 
FEENSTRA, R. C.; TAYLOR, A. M. International Trade. 5. ed. Nova York: Worth 
Publishers, 2021. 
KRUGMAN, P. R.; OBSTEFELD, M.; MELITZ, M. J. Economia Internacional. 
Tradução de Ana Julia Perrotti-Garcia. 10. ed. Pearson Education do Brasil, 
2015. 
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