Prévia do material em texto
Jéssica Daniele alegria arca rosângela MiranDa Dos santos (Organizadoras) Educação Especial na Perspectiva Inclusiva: Pesquisas, Vivências, Possibilidades e Recursos Volume II 2024 © Das Organizadoras - 2024 Editoração e capa: Schreiben Imagem da capa: anyaivanova - Freepik.com Revisão: os autores Livro publicado em: 12/09/2024 Termo de publicação: TP0712024 Conselho Editorial (Editora Schreiben): Dr. Adelar Heinsfeld (UPF) Dr. Airton Spies (EPAGRI) Dra. Ana Carolina Martins da Silva (UERGS) Dr. Cleber Duarte Coelho (UFSC) Dr. Deivid Alex dos Santos (UEL) Dr. Douglas Orestes Franzen (UCEFF) Dr. Eduardo Ramón Palermo López (MPR - Uruguai) Dr. Fábio Antônio Gabriel (SEED/PR) Dra. Geuciane Felipe Guerim Fernandes (UENP) Dra. Ivânia Campigotto Aquino (UPF) Dr. João Carlos Tedesco (UPF) Dr. Joel Cardoso da Silva (UFPA) Dr. José Antonio Ribeiro de Moura (FEEVALE) Dr. José Raimundo Rodrigues (UFES) Dr. Klebson Souza Santos (UEFS) Dr. Leandro Hahn (UNIARP) Dr. Leandro Mayer (SED-SC) Dra. Marcela Mary José da Silva (UFRB) Dra. Marciane Kessler (URI) Dr. Marcos Pereira dos Santos (FAQ) Dra. Natércia de Andrade Lopes Neta (UNEAL) Dr. Odair Neitzel (UFFS) Dr. Wanilton Dudek (UNESPAR) Esta obra é uma produção independente. A exatidão das informações, opiniões e conceitos emitidos, bem como da procedência das tabelas, quadros, mapas e fotografias é de exclusiva responsabilidade do(s) autor(es). Editora Schreiben Linha Cordilheira - SC-163 89896-000 Itapiranga/SC Tel: (49) 3678 7254 editoraschreiben@gmail.com www.editoraschreiben.com Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A668e Arca, Jéssica Daniele Alegria. Educação especial na perspectiva inclusiva : pesquisas, vivências, possi- bilidades e recursos. Vol. II / Jéssica Daniele Alegria Arca e Rosângela Miranda dos Santos. --Itapiranga : Schreiben, 2024. 125 p. ; e-book Bibliografia E-book no formato PDF. EISBN: 978-65-5440-317-7 DOI: 10.29327/5427638 1. Educação inclusiva. 2. Prática de ensino. 3. Prática pedagógica. 4. Pro- fessores - formação. I. Título. II. Santos, Rosângela Miranda dos. CDD 371.9 Bibliotecária responsável Juliane Steffen CRB14/1736 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO...............................................................................5 Jéssica Daniele Alegria Arca Rosângela Miranda dos Santos DESAFIOS DA INCLUSÃO: EXPLORANDO AS COMORBIDADES NO CONTEXTO EDUCACIONAL.....................7 Susana Michels DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: UMA PERSPECTIVA INCLUSIVA.........16 Karoly Mariana dos Reis Cecilio Diniz Camila Cuba da Silva Rosa Luciano Gamez REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS: DESENHO UNIVERSAL PARA A APRENDIZAGEM (DUA)................................................................29 Silene de Carvalho da Silva A RELEVÂNCIA DA ORGANIZAÇÃO DE ATIVIDADES INCLUSIVAS NO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO - AEE..................................................................49 Alex Sandro Pires de Lima AEE COLABORATIVO: DESAFIOS NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DOS ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL..............................................59 Aline de Toledo Francisco Elifas Trindade de Paula IMPACTOS SOCIAIS DA DISFLUÊNCIA: DA ESCOLA AO MUNDO DO TRABALHO....................................71 Clayton Ferreira dos Santos Scarcella TANGIBILIZAR A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA PARA “CRIANÇAS DIFÍCEIS”: UM IMPERATIVO CONTEMPORÂNEO........................................................................82 Jéssica Daniele Alegria Arca Marcio Hollosi TRAJETÓRIA DOS INVESTIMENTOS PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA..............................................................91 Alex Sandro Pires de Lima Darlene Camargo Gomes de Queiroz POLÍTICAS PÚBLICAS DO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE): SERVIÇO DE APOIO DISPONÍVEL AOS ESTUDANTES DA REDE REGULAR DE ENSINO .............100 Ivanice Borges da Silva Lucimara Pereira de Araújo Danielli Gualda Marins Antônia Boldarini de Godoy A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA.......................................................111 Jéssica Daniele Alegria Arca Rosângela Miranda dos Santos ÍNDICE REMISSIVO.......................................................................121 5 APRESENTAÇÃO É com grande satisfação que apresentamos, em confluência com os demais autores, o segundo volume do e-book Educação Especial na Perspectiva Inclusiva: Pesquisas, Vivências, Possibilidades e Recursos. A Educação Especial na Perspectiva Inclusiva tem cada vez mais alcançado espaço, seja do ponto de vista da legislação, do acesso, recursos ou formação, no entanto, o preconceito impregnado na sociedade a colocam como um desafio que precisa ser superado diariamente. Reconhecer e compreender os entraves acerca da Educação Inclusiva é essencial para a condução de práticas significativas no ambiente escolar. A coletânea de artigos que compõem o e-book apresenta reflexões e relatos de professores pesquisadores sobre suas práticas de pesquisa e vivências frente às adversidades do processo de inclusão, visando a democratização de ideias balizadas na transformação da própria realidade e o aprimoramento da compreensão da Educação Inclusiva no “chão da escola”, com investigações contextualizadas, assertivas e precisas com a finalidade de contribuir para a superação das problemáticas enfrentadas. Embora saibamos que o reconhecimento dos entraves contemporâneos por si só não necessariamente os resolvam prontamente, depreendemos que é um importante passo para que a mudança aconteça. Assim como no volume 1, reforçamos que a Educação Inclusiva não é apenas um movimento educacional, é também um movimento social e político, que busca defender o direito de todos os estudantes a desenvolverem suas potencialidades e habilidades através de uma educação com qualidade e equidade, que lhes assegure o direito de exercer sua cidadania. Desejamos uma excelente leitura! Jéssica Daniele Alegria Arca Rosângela Miranda dos Santos Organizadoras 6 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 7 DESAFIOS DA INCLUSÃO: EXPLORANDO AS COMORBIDADES NO CONTEXTO EDUCACIONAL Susana Michels1 INTRODUÇÃO A inclusão é um direito inalienável de indivíduos com deficiência, e na perspectiva de uma educação inclusiva, todos enriquecem suas experiências através da diversidade. As escolas enfrentam uma série de desafios na formação de seus alunos, especialmente aqueles com necessidades especiais, buscando capacitar cada estudante para o pleno desenvolvimento de suas habilidades e competências na sociedade. Com o advento das políticas públicas de inclusão, educadores necessitam cada vez mais de conhecimento, estratégias e métodos para lidar com diversas deficiências e mediá-las em sala de aula, integrando-as ao processo educacional de forma eficaz. Este estudo contextualiza a ideia da inclusão como um fenômeno em constante transformação, influenciado por fatores políticos, culturais, sociais e filosóficos. A inclusão de pessoas com deficiência, tanto nas escolas quanto na sociedade em geral, tem sido objeto de debates prolongados. Nas escolas, há um esforço contínuo para aprimorar os métodos de inclusão, visando proporcionar uma educação de qualidade para todos e contribuindo para uma evolução social mais ampla. O interesse na inclusão de pessoas com deficiência em escolas regulares tem crescido significativamente, trazendo consigo preocupações e a necessidade de aprofundar questões importantes relacionadas às intervenções educacionais nesse processo. 1 Pós graduanda de Educação Especial da Facuvale. (Faculdade de Minas) Profes- sora de rede pública. Mestranda em Educação pela Uri de Frederico Westphalen. susanamichels7@gmail.com. 8 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA A implementação bem-sucedida da inclusão requer reflexão cuidadosa e preparação adequada por parte dos educadores. O movimento inclusivo no contexto educacional é desafiador e demandade acordo com as necessidades e interesses individuais e da turma; (EF02LP04) Ler e escrever corretamente palavras com sílabas CV, V, CVC, CCV, iden- tificando que existem vogais em todas as sílabas; (EF12LP04) Ler e compreender, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor ou já com certa autonomia, listas, agendas, calendários, avisos, convites, receitas, instruções de montagem (digitais ou impressos), dentre outros gêneros do campo da vida cotidiana, considerando a situa- ção comunicativa e o tema/assunto do texto e relacionando sua forma de organização à sua finalidade.;(EF01LP07) Identificar fonemas e sua representação por letras. • Estratégias: - Ensino colaborativo 1. Leitura colaborativa do livro Sapatos Trocados”. 2. Leitura capitulada feita pela professora. 3. Escrita de um texto tendo o professor como escriba (cartão). - Aula expositiva 1. Formação de palavras: lista de profissões. • Recursos: Livro, papel, lousa, giz, recurso audiovisual, cartolina, cola, tesoura, entre outros. Vídeo do Youtube: O Leão e o Ratinho - Varal de Histórias. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=Fx_vZM0HiA8 Acesso em: 27 jun.2024 • Avaliação: A escola adota uma abordagem formativa, que enfatiza o aprendizado contínuo do aluno ao longo do processo educacional. A avaliação considera: - Participação oral nas atividades propostas. - Registro escrito por meio de palavras. - Montagem de desenhos para formar palavras como forma de registro. - Registro da compreensão por meio de desenhos ou releituras. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 39 Semanário Nota: Esta tabela é um documento de uso exclusivo da E.V.M.O. 3.3 Análises das aulas: embasamento no DUA Com base nos princípios do DUA mencionados anteriormente, serão descritas abaixo as análises das atividades de Língua Portuguesa propostas para a semana de 06/05/2024 a 10/05/2024. 3.3.1. Atividade: Leitura diária (Livro: “Sapatos Trocados”) 3.3.1.1 Princípio do Engajamento Este princípio não foi cumprido, uma vez que os alunos não puderam escolher o livro desta semana. Este recurso foi incorporado na rotina diária tanto da semana atual quanto da anterior, pois aborda a temática indígena, atendendo às diretrizes do currículo. A professora observou que, apesar de várias intervenções e leituras realizadas em diferentes contextos, estas não conseguiram despertar o interesse de todos os alunos, tornando-se uma atividade pouco envolvente para eles. Alguns poucos alunos mencionaram o comportamento do personagem principal que retoma a ideia central do livro. A professora destaca que no ano anterior utilizou o mesmo livro e a turma demonstrou grande interesse, participando ativamente da história. Este comentário da professora reforça as palavras de HEREDERO (2020, p.745), pois segundo ele: “Os estudantes diferem na maneira como percebem e compreendem as informações apresentadas a eles.” 40 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 3.3.1.2 Princípio da Representação O livro não despertou o interesse visual, pois com exceção da capa este não apresenta imagens. A linguagem verbal que compõem todo o livro impactou na compreensão de sentido por parte dos alunos, pois não foi possível: • Realizar antecipações considerando a capa do livro e imagens; • Realizar a leitura verbal, pois temos alunos que: não são alfabéticos e não dominam a leitura na letra bastão, ou seja leem apenas em letra CAIXA ALTA e o livro era impresso em letra bastão; • Realizar inferências de maneira autônoma, uma vez que o texto apresenta muitos diálogos; • Fazer relações entre trechos do texto; • Participar de momentos de apreciação e réplica; • Relacionar imagem e texto; • Localizar informações implícitas no texto, etc. 3.3.1.3 Princípio do Ação e Expressão Este princípio não foi cumprido, pois grande parte dos alunos não conseguiu expressar seu entendimento dos capítulos lidos sem a mediação da professora. Foram necessárias muitas intervenções para que a turma compreendesse os diálogos entre os personagens e, mesmo assim, as considerações feitas não retomavam a ideia central do texto. A maioria deles não demonstrou interesse em registrar a história por meio de desenhos para mostrar sua compreensão do texto, o que contrasta com o habitual na sala, onde os alunos geralmente apreciam fazer registros através destes. 3.3.2 Atividade: Leitura e interpretação textual: “O leão e o ratinho”. 3.3.2.1 Princípio do Engajamento Este princípio foi cumprido, pois o texto oferecido atendeu aos interesses dos alunos de várias maneiras: • Os alunos demonstraram interesse ao assistir o vídeo sobre a história; • Participaram ativamente da leitura do texto impresso de forma compartilhada; PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 41 • Apreciaram as imagens do livro apresentado “O rato e o camundongo” de Jerry Pinkney e compartilharam suas experiências oralmente com os colegas e com professora; • Participaram ativamente na realização da atividade em duplas produtivas; • Tinham conhecimentos prévios sobre o tema, o que favoreceu a participação de todos, uma vez que já haviam vivenciado a história por meio da leitura. 3.3.2.2 Princípio da Representação Este princípio foi atendido, pois o conteúdo da atividade foi demonstrado por meio de diferentes recursos: • Apresentação do vídeo: “O Leão e o Ratinho - Varal de Histórias”; • Disponibilização de um livro físico da história contada na linguagem não-verbal (apenas imagens da história); • Entrega de folhas avulsas com o texto impresso (em letra bastão), facilitando a compreensão das perguntas para a avaliação; • Banco de palavras da história impresso em CAIXA ALTA e colorido. 3.3.2.3 Princípio da Ação e Expressão Este princípio foi atendido, pois os alunos puderam demonstrar seus entendimentos por meio de: • Relatos orais; • Socialização de experiências; • Compreensão por meio de registros escritos e desenhos. • Os alunos não alfabetizados foram apoiados pelo colega da dupla como escriba para produzir suas respostas. • A atividade foi realizada com sucesso mesmo com o texto entregue em letra bastão, pois os alunos já possuíam conhecimento prévio sobre o assunto estudado, facilitando o entendimento. Além disso, a realização em duplas produtivas favoreceu a conquista dos resultados esperados. 3.3.3 Lista de palavras (profissões) 3.3.3.1 Princípio do Engajamento Este princípio foi atendido, pois o campo semântico abordado na atividade foi escolhido pelos alunos em função de uma atividade proposta 42 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA anteriormente na aula de História com a temática do Dia Mundial do Trabalho. Além disso, os alunos conseguiram realizar a atividade proposta de forma autônoma, sem intervenções da professora, e demonstraram grande apreço pelos desenhos coloridos. Eles participaram ativamente da atividade, a qual também foi favorecida pelo trabalho em duplas produtivas. 3.3.3.2 Princípio da Representação Este princípio foi atendido pois, antes da atividade, a professora distribuiu uma lista contendo as palavras que seriam formadas. Isso foi fundamental para a elaboração da atividade, pois os alunos consultaram essa lista durante a montagem das palavras, além de contar com o suporte das imagens correspondentes. Os desenhos coloridos facilitaram o reconhecimento das imagens, enquanto a lista foi escrita em CAIXA ALTA para melhor compreensão por parte dos alunos. 3.3.3.3 Princípio da Ação e Expressão Este princípio foi atendido, pois os alunos praticam a identificação e compreensão de palavras, sílabas e letras, contribuindo para o desenvolvimento da leitura e escrita. Além disso, os alunos adquiriram novos conhecimentos sobre profissões que não faziam parte de seu repertório prévio. As devolutivas da atividade envolveram tanto a linguagem oral, através da socialização de experiências e informações, quanto a escrita, com os alunos montando as palavras e colando-asno caderno. 3.3.4 Produção de frase - Cartaz para o dia das Mães 3.3.4.1 Princípio do Engajamento Este princípio foi cumprido, uma vez que a iniciativa de homenagear suas mães no Dia das Mães partiu dos próprios alunos, os quais produziram frases e desenhos para expressar seus sentimentos. Uma aluna sugeriu que todos os alunos fizessem uma dobradura em formato de flor para presentear suas mães. Todos apreciaram bastante essa atividade, que foi realizada de forma coletiva. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 43 3.3.4.2 Princípio da Representação Cada aluno homenageou sua mãe de maneira única, utilizando suas próprias frases e desenhos para representá-la. Os alunos escreveram seus textos da melhor forma possível, com a orientação da professora para correções necessárias, e depois transcreveram-nos para papel sulfite colorido. Além disso, a atividade envolveu a criação de flores através de dobraduras, ampliando as representações feitas de várias maneiras: escrita de pequenos textos, desenhos e dobraduras. 3.3.4.3 Princípio da Ação e Expressão Cada aluno atendeu a este princípio ao criar seu próprio texto e desenho. Através da escrita, foi possível observar a construção das palavras, enquanto os desenhos refletiram a adequação à situação de comunicação proposta. Além disso, todos os alunos fizeram uma dobradura em formato de flor para entregar às suas mães. 4. CONSIDERAÇÕES SOBRE OS RESULTADOS ANALISADOS Após analisar os planos de aula, constatamos que a proposta de atividade denominada “Leitura Diária - Livro Sapatos Trocados”, aplicada diariamente ao longo da semana, não atendeu aos três princípios do DUA (Engajamento, Representação e Ação e Expressão) e, portanto, precisa ser revisada. Isso nos remete à seguinte reflexão: Será que a aplicação de uma atividade que não despertava o interesse dos alunos, mas era necessária para cumprir o currículo, poderia ter sido interrompida para posteriormente ser abordada de maneira diferente? Essas questões nos levam a refletir sobre nossas práticas pedagógicas e a necessidade de mudança em estratégias, avaliações e métodos para promover o aprendizado de todos os alunos. Nos demais planos de aula, observamos a aplicação desses princípios, que contribuíram significativamente para a aprendizagem de todos os alunos. Entretanto, identificamos oportunidades de melhoria, especialmente no que diz respeito ao princípio da representação nas atividades 2 e 3: leitura e interpretação textual da fábula “O Leão e o Ratinho”, e elaboração de lista de palavras do campo semântico profissões. 44 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 4.1 Conclusões e Considerações Finais Neste contexto de concepção de uma escola inclusiva, apresentaremos as conclusões e considerações finais obtidas ao término desta atividade crítico-reflexiva sobre práticas pedagógicas. Segundo HEREDERO (2020, p. 745), “Os estudantes diferem na maneira como percebem e compreendem as informações apresentadas a eles”. Isso ressalta a crescente importância de reconhecer que cada aluno possui seu próprio estilo de aprendizagem. Diante dessa diversidade, torna- se essencial adotar uma variedade de estratégias didáticas para proporcionar oportunidades de aprendizado a todos os alunos, como ressaltado por SANTOS (2009, p.1, citado por PLETSCH, et.al., 2017, p.266) “A diferenciação pedagógica constitui-se como uma resposta orientada pelo princípio do direito de todos à aprendizagem, essencial para dar resposta à heterogeneidade de alunos que frequentam a escola atual”. Nesse contexto, o DUA se destaca por concentrar-se na criação de estratégias de ensino universalistas. Nas palavras de ZERBATO e MENDES (2021, p.4): A proposta de ensino baseada no DUA visa ao planejamento do ensino e acesso ao conhecimento para todos os estudantes. Ela considera as especificidades individuais do aprendizado, pressupõe que todos os indivíduos são diferentes e possuem ritmos e estilos variados para aprender. A abordagem fornece um referencial para professores e outros profissionais especializados na elaboração de práticas e estratégias que foquem na acessibilidade, tanto em termos físicos quanto em termos de serviços, na busca de caminhos educacionais para o aprendizado sem barreiras (CAST UDL BOOK BUILDER, 2013). No entanto, o primeiro passo para adotar estratégias que promovam uma educação inclusiva é a reflexão sobre a prática pedagógica. As autoras DIAS, DOMENICONI e PASIAN (2023, p.15) afirmam que por meio de registros reflexivos, o professor consegue ressignificar sua prática e modificar seu fazer pedagógico em relação ao aluno, à escola e ao conhecimento. Segundo ZABALZA (2004, citado por DIAS, et.al, 2023, p.16) PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 45 [...] escrever sobre o que estamos fazendo como profissional (em aula ou em outros contextos) é um procedimento excelente para nos conscientizarmos de nossos padrões de trabalho. É uma forma de “distanciamento” reflexivo que nos permite ver em perspectiva nosso modo particular de atuar. É, além disso, uma forma de aprender (ZABALZA, 2004, p. 10). FREIRE (1996, p. 39, citado em Ensino e Perspectivas, 2022) afirma que” na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”. Entendemos que, além da autorreflexão sobre a prática pedagógica e o desejo de proporcionar uma educação de qualidade, é essencial o desenvolvimento de saberes profissionais. Esses saberes podem ser adquiridos por meio de formação inicial e continuada em serviço oferecido ao professor. De acordo com LOPES (1997, p.574, citado por ZERBATO e MENDES, 2021, p.5), é indispensável a “formação de professores que reflita sobre sua própria prática, bem como para a utilização da reflexão como instrumento de desenvolvimento do pensamento e da ação”. BEAUCHAMP corrobora com o exposto acima, (2002, citado por ZERBATO, A. P.; MENDES, E. G.O,2021, p.5) afirmando que temos como ponto fundamental “a necessidade de investimentos em programas de formação inicial e continuada, que se voltem para a reflexão do cotidiano escolar, possibilidade de troca de experiências e construção coletiva de novos saberes pedagógicos”. De acordo com JESUS, ALMEIDA e SOBRINHO (2005, citados em Ensino e Perspectivas, 2022), os professores precisam estar constantemente preparados e em aprendizagem contínua, como descrito a seguir: Acreditamos que, se quisermos uma escola que atenda à diversidade, ou seja, uma escola inclusiva, precisamos pensar com o outro, precisamos de um processo longo e constante de reflexão-ação- crítica, com os profissionais que fazem o ato educativo acontecer. Se quisermos mudanças significativas nas práticas convencionais de ensino, precisamos pensar a formação continuada dos educadores (JESUS; ALMEIDA; SOBRINHO, 2005, p.1). Desse modo, entendemos que a educação inclusiva demanda um compromisso inegociável com a formação contínua dos professores. São 46 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA eles os agentes primordiais na construção de um ambiente educacional que acolhe e promove a diversidade. No entanto, é fundamental reconhecer que esse não é um caminho que devem percorrer sozinhos. Parcerias com especialistas, colaboração com a comunidade escolar e suporte institucional são igualmente cruciais para o sucesso dessa jornada. Assim, ao investirmos na capacitação dos educadores e na criação de redes de apoio eficazes, estaremos não apenas promovendo a inclusão, mas também fortalecendo os alicerces de uma educação verdadeiramente equitativa e transformadora. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação. LDB - Lei nº 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: MEC, 1996. BRASIL. Lei n. 13.146, de 6 de julho de 2015.Lei Brasileira de Inclu- são da Pessoa com Deficiência. Convenção da Organização dos Estados Americanos (2001) Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arqui- vos/pdf/guatemala.pdf Acesso em: 27. Jun. 2024. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. CAST UDL BOOK BUILDER. Book Builder, 2013. Homepage. Disponí- vel em: http://bookbuilder.cast.org/. CAEd UFJF. (2023). Avaliação da Educação Básica no Brasil [Relatório]. Recuperado de https://www.caed.ufjf.br/avaliacao-educacao-basica. CIRÍACO, F.L. A leitura e a escrita no professo de alfabetização. Re- vista Educação Pública, v. 20, nº 4, 28 de janeiro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/4/a-leitura-e-a-escri- ta-no-processo-de-alfabetizacao. DIAS, J. R.; DOMENICONI, Camila; PASIAN, M.S. Acessibilidade cur- ricular na perspectiva do Desenho Universal da Aprendizagem (DUA). Re- vincluso - Revista Inclusão & Sociedade, [S. l.], v. 2, n. 1, 2023. DOI: 10.36942/revincluso.v2i1.765. Disponível em: https://periodicos.ufabc. edu.br/index.php/revincluso/article/view/765. Acesso em: 27 jun. 2024. FERREIRA, W. Pedagogia das Possibilidades: é possível um currículo para a diversidade nas escolas brasileiras? Cadernos CENPEC.2013. v. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 47 3. N.2.p.73-98. Disponível em: https://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/ index.php/cadernos/article/view/230 . Acesso em: 27 jun. 2024. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática edu- cativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 21. (Coleção Leitura). GLAT R., & PLETSCH, M. D. (2013). Estratégias educacionais diferen- ciadas para alunos com necessidades especiais. Disponível em: https:// www.academia.edu/10000696/Estrat%C3%A9gias_educacionais_di- ferenciadas_para_alunos_com_necessidades_especiais. Acesso em: 27 jun.2024. HEREDERO, E. S. Diretrizes para o Desenho Universal para a Aprendi- zagem (DUA). Rev. Bras. Ed. Esp., Bauru, v.26, n.4, p.733-768, Out.-Dez., 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-54702020v26e0155. Acesso em: 27 jun. 2024. MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar – O que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Editora Cortez, 2003. O Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e a Diferencia- ção Curricular: Contribuições para a Efetivação da Inclusão Escolar. Sisyphus - Journal of Education, vol. 10, núm. 3, pp. 102-115, 2022. Ins- tituto de Educação da Universidade de Lisboa. Disponível em: https:// revistas.rcaap.pt/sisyphus/article/view/27484 Acesso em: 27.jun.2024. PLETSCH, M.D.; SOUZA, F.F.; ORLEANS, L.F. A diferenciação cur- ricular e o desenho universal na aprendizagem como princípios para a inclusão escolar. Educação e Cultura Contemporânea, v. 14, n. 35, p. 264- 281, 2017. Disponível em: https://mestradoedoutoradoestacio.periodi- coscientificos.com.br/index.php/reeduc/article/view/3114/1662 Acesso em: 27.jun.2024. RODRIGUES, D. I. (2020). Hipóteses de escrita: o caminho para o desenvolvimento da alfabetização dos alunos. UniPlena Educacional. https://uniplenaeducacional.com.br/blog/hipoteses-de-escrita-o-cami- nho-para-o-desenvolvimento-da-alfabetizacao-dos-alunos/ Acesso em: 28 jun.2024. SANTO ANDRÉ. Documento curricular Andreense. Secretaria de Edu- cação, 2020. Disponível em: http://santoandre.educaon.com.br/docu- mento-curricular-andreense/ Acesso em: 27 jun. 2024. SANTOS, Thays VITÓRIA Andrade dos; MARTINS, Alanna Vitória; BATISTA, Keury Berislane dos Santos. Desenho Universal da Aprendi- 48 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA zagem: a arte de ensinar sem excluir. Ensino em Perspectivas, Fortaleza, v. 3, n. 1, 2022. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/ensi- noemperspectivas/. ZERBATO, A. P.; MENDES, E. G. O desenho universal para a aprendi- zagem na formação de professores: da investigação às práticas inclusi- vas. Educação e Pesquisa, [S. l.], v. 47, p. e233730, 2021. DOI: 10.1590/ S1678-4634202147233730. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ ep/article/view/193215 Acesso em: 27 jun. 2024. 49 A RELEVÂNCIA DA ORGANIZAÇÃO DE ATIVIDADES INCLUSIVAS NO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO - AEE Alex Sandro Pires de Lima1 INTRODUÇÃO A educação inclusiva é um grande desafio para os profissionais da educação, pois visa efetivar o direito à educação de qualidade conforme afirma Figueiredo et al. (2008), e faz-se importante que os princípios que norteiam essa abordagem sejam observados regularmente, de modo a garantir que estejam de acordo com a política nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva do Ministério da Educação (Brasil, 2008). O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é uma estratégia pedagógica utilizada para apoiar o ensino de estudantes com deficiência, fornecendo mais recursos além dos que já estão disponíveis no Ensino Regular. Essa estratégia busca oferecer um programa educacional individualizado que possibilite o acesso aos serviços especializados para atender às necessidades específicas de cada criança e, com base nestas premissas, a Declaração Mundial sobre Educação para Todos da UNESCO (1990), destaca que existe a necessidade de atender às necessidades básicas de aprendizagem, demonstrando a evolução das avaliações relacionada às aprendizagens, especialmente se for possível realizar a medição para compreensão e obtenção de dados que possam colaborar para a melhoria da qualidade do ensino ofertado. Conforme estabelecido pela Lei nº 9.394 (Brasil, 1996), que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, é necessário atender aos objetivos educacionais, segundo o artigo 22 da referida legislação, 1 Mestrando em Educação Inclusiva Unifesp/Profei. CV:http://lattes.cnpq.br/8602111508028071. 50 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA o qual versa sobre desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação indispensável para o exercício da cidadania. O objetivo geral deste trabalho é elucidar sobre a relevância da organização de atividades no contexto do Atendimento Educacional Especializado – AEE. Enfatiza-se que o êxito deste atendimento perpassa por muitos requisitos, dentre eles, formação docente adequada, controle das informações, equipamentos adequados e atividades condizentes com o grau de desenvolvimento cognitivo dos alunos (Anunciação, 2019). ORGANIZAÇÃO DAS ATIVIDADES DE ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO - AEE De acordo com Boruchovitch, Galvão e Nogueira (2015), é fundamental considerar os recursos pedagógicos e as práticas educativas no contexto da Educação Especial. Os recursos do Atendimento Educacional Especializado são um conjunto de práticas pedagógicas voltadas para atender as necessidades específicas de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades ou superdotação e podem ser melhor observadas no Quadro 1. Quadro 1 – Atividades desenvolvidas pelo AEE TIPO DE ATIVIDADE Praticar habilidades de vestir-se, como colocar e tirar roupas Realizar atividades de amarrar cadarços, botões ou zíperes Realizar jogos de memória com cartas ou imagens Resolver quebra-cabeças de diferentes níveis de dificuldades Utilizar pranchas de comunicação com símbolos ou figuras para expressar necessi- dades básicas Introduzir o uso de um livro de comunicação com símbolos para solicitar objetos ou atividades Familiarizar-se com o uso do teclado e do mouse adaptado Explorar softwares de comunicação assistiva, como aplicativos de símbolos ou pran- chas virtuais Propor desafios matemáticos avançados que explorem conceitos além do currículo regular Realizar pesquisas sobre temas de interesse dos alunos e estimular a apresentação dos resultados Fonte: Elaborado pelo autor (2024). PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 51 Essas atividades são planejadas para promover o desenvolvimento e as aprendizagens dos estudantes, considerando suas características individuais e precisam estarem consonância com a política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva do Ministério da Educação do Brasil (2008), que enfatiza a importância da inclusão educacional e, conforme Mantoan (2003), cada estudante é único, por isso as atividades do AEE devem ser adaptadas e personalizadas de acordo com suas necessidades individuais e a colaboração entre todos os profissionais envolvidos, incluindo professores, especialistas em educação especial e familiares. O Atendimento Educacional Especializado (AEE) representa um avanço no que tange às políticas públicas voltadas para a educação inclusiva. Este atendimento é positivado tanto na Resolução n° 4 (Brasil, 2009), como também no Decreto n° 7.611 (Brasil, 2011). O funcionamento do AEE exige que determinados requisitos sejam atendidos. Um deles tem a ver com a questão da formação adequada para atuação docente junto ao AEE. Entretanto, conforme explicado por Anunciação (2019), há os casos em que a escola oferta o AEE para alunos com deficiência, mas os professores que lidam com este atendimento não possuem a devida formação específica que o AEE demanda. Esta lacuna de formação é um empecilho a ser vencido, pois conforme Pansini (2018), há docentes que estão no AEE apenas para preencher espaço ou atender uma demanda premente, mas sem os devidos conhecimentos a respeito da razão de ser do AEE, bem como suas respectivas finalidades. Para compreender a dinâmica do AEE, faz-se necessário mencionar a questão do contraturno. Por exemplo: se um aluno com deficiência é matriculado no turno da manhã, então ele deve ter acesso ao AEE no turno da tarde (Silva, 2022). Este atendimento deve ocorrer no ambiente conhecido como Sala de Recursos Multifuncionais (SRM) (Brasil, 2011). Para fins de melhor compreensão a respeito de como se dá o AEE, o Quadro 2 traz uma sumarização do que consta no Decreto n°7.611 (Brasil, 2011), que é uma das legislações que regem este atendimento no contexto da educação inclusiva. 52 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Quadro 2: Resumo do AEE – Decreto 7.611 RESUMO DO DECRETO N° 7.611 DE 2011 Objetivos do AEE Suplantar as barreiras que impedem os alunos com deficiência quanto ao alcance de progressos em sua escolarização. Estruturação do AEE Conjunto de atividades, bem como recursos pedagógicos e de acessibilidade, os quais são organizados de forma contínua e institucional. AEE Complementar Voltada para estudantes com transtornos globais do desenvolvimento, se caracterizando pelo apoio permanente a estes estudantes. AEE Suplementar Voltada para estudantes com altas habilidades e superdotação. Articulação do AEE Abarca a sua integração com as demais políticas públicas, bem como a participação das famílias e o vínculo do AEE com a proposta pedagógica das escolas. Objetivos do AEE Condições de acesso, aprendizagem e participação dos alunos com deficiência, por meio dos serviços prestados pelo AEE, os quais devem ser condizentes com as necessidades destes estudantes. Ações da educação especial caracterizadas pela sua transversalidade. Fomento a recursos didáticos e pedagógicos que possam suplantar as dificuldades de aprendizagem das pessoas com deficiência. Provimento da continuidade dos estudos dos alunos com deficiência nos demais níveis de ensino. Compete ao Poder Público Compete ao Poder Público estimular o acesso ao AEE, seja ele na forma complementar ou suplementar. Apoio técnico e financeiro Responsabilidade da União perante as instituições que lidam com o AEE. Fonte: Adaptado pelo autor, com base em Brasil (2011). Além destes aspectos mencionados no Quadro 2, é oportuno observar como esta questão do AEE é entendida no âmbito da rede estadual de educação do estado de São Paulo, que é o local onde o autor deste texto reside e trabalha como professor. Abaixo, um trecho da Resolução n° 3 (SEDUC-SP, 2023, p.3), a respeito da forma como o AEE é ofertado no contexto paulista de educação. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 53 Artigo 3° - A Secretaria da Educação, nos termos do artigo 5° do Decreto n° 67.635/2023 e visando à redução e à eliminação de barreiras no ambiente escolar, disponibilizará os seguintes serviços: I – Professor Especializado; II – Atendimento Educacional Especializado – AEE no contraturno escolar ou turno extra; III – Projeto Ensino Colaborativo no turno escolar como forma de AEE expandido; IV – Recursos Pedagógicos, de Acessibilidade e de Tecnologia Assistiva; V – Profissional para atuar com estudantes com deficiência auditiva e surdez ou surdo-cegueira; VI – Serviço de Profissional de Apoio Escolar – Atividades Diárias – PAE / AVD; VII – Serviço de Profissional de Apoio Escolar – Atividades Escolares – PAE / AVD. Além dos elementos acima elencados, outros itens são igualmente relevantes no contexto do AEE inclusivo. Um deles diz respeito à necessidade de interação entre os professores da chamada Sala Comum e aqueles que atuam no AEE. Lima e Santos (2023) dizem que nem sempre esta interface acontece, seja pelo distanciamento entre os professores, seja pela falta de entrosamento entre estes dois grupos. Lima e Santos (2023) complementam seu ponto de vista afirmando que da união entre estes professores poderiam surgir estratégias didáticas mais adequadas, as quais poderiam suprir de forma mais assertiva as necessidades dos estudantes. Outro problema que é comum ao AEE diz respeito ao baixo grau de participação das famílias na vida escolar de seus filhos. Santos (2012) relata que essa é uma situação que não se restringe apenas ao âmbito da educação inclusiva, sendo também presente no âmbito mais global da educação, onde os pais e responsáveis alegam a falta de tempo para acompanhar os filhos na sua trajetória acadêmica. Apesar de os professores do AEE lidarem com a educação especial, eles não possuem domínio completo de informação sobre todas as deficiências e suas respectivas características. Assim, a participação das famílias é necessária, pois por meio dela os docentes atuantes no AEE poderão elaborar atividades que sejam mais condizentes com o grau de desenvolvimento cognitivo dos alunos com deficiência (Lima; Santos, 2023). 54 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Atividades essenciais no contexto do AEE Neste trecho do estudo, são elencadas dez atividades aqui classificadas como essenciais, que são sugestões metodológicas para iniciar o trabalho no Atendimento Educacional Especializado. Cumpre registrar que existem muitas atividades que podem ser trabalhadas no AEE, a depender de cada caso, bem como o ritmo de aprendizagem de cada aluno (Leonel; Leonardo, 2014). Realizar exercícios de estimulação cognitiva, como quebra-cabeças lógicos. Segundo Muragaki et al. (2006), a utilização de jogos pela terapia ocupacional contribui para a reabilitação cognitiva. Realizar atividades de expressão de emoções por meio de símbolos ou figuras. De acordo com Maluf (2011), às atividades lúdicas para a Educação Infantil, envolvendo símbolos ou figuras, auxiliam na expressão das emoções. Resolver quebra-cabeças de diferentes níveis de dificuldade. Ferreira (2016) propõe uma abordagem evolutiva para a geração procedural de níveis em jogos de quebra-cabeças baseados em física. Explorar recursos de tecnologia assistiva, como relógios inteligentes ou dispositivos de monitoramento de saúde. Sobrinho Neto e Silva (2017) discutem a produção e distribuição de conteúdo em relógios inteligentes, abordando formatos, linguagens e estratégias de aplicativos. Utilizar jogos de adivinhação ou charadas para estimular a comunicação alternativa. Rufino et al. (2020) destacam as contribuições do jogo para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), sob a perspectiva pedagógica de Reuven Feuerstein. Praticar atividades de associação entre formas, cores ou números. Aranão (2020) aborda o uso de brincadeiras e jogos para ensinar matemática, incluindo atividadesde associação entre formas, cores ou números. Familiarizar-se com o uso do teclado e do mouse adaptado. Segundo Kirner e Kirner (2011), a evolução e as tendências da Realidade Virtual e da Realidade Aumentada incluem o desenvolvimento de dispositivos de interação, como teclados e mouses adaptados. Utilizar recursos de CAA para participar de atividades de planejamento e tomada de decisão. Petroni, Boueri e Nascimento (2018) investigam o uso de recursos de comunicação alternativa para internação hospitalar, considerando a percepção de pacientes e terapeutas ocupacionais. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 55 Desenvolver atividades de pensamento crítico e argumentação em temas atuais. Tenreiro-Vieira (2004) discute a formação em pensamento crítico de professores de ciências e seu impacto nas práticas de sala de aula e no nível de pensamento crítico dos alunos. Utilizar recursos de CAA para participar de atividades em grupo, como em jogos ou discussões. Zerbato e Mendes (2018) exploram o desenho universal para a aprendizagem como estratégia de inclusão escolar, incluindo o uso de recursos de comunicação alternativa em atividades em grupo. Propor atividades de pesquisa em bibliotecas, internet ou outros recursos disponíveis. Bortolin e Santos (2014) apresentam um manual de instruções para a criação de clubes de leitura na biblioteca escolar, promovendo atividades de pesquisa. Participar de jogos de tabuleiro que estimulem o raciocínio lógico. Santos Junior, Maldaner e Cavalcante (2021) discutem os jogos de tabuleiro e digitais como recursos para estimular o desenvolvimento do raciocínio lógico, oferecendo orientações sobre como escolher os jogos adequados. Praticar o uso de recursos de voz sintética em dispositivos de comunicação assistiva. Galvão Filho (2009) aborda a tecnologia assistiva para uma escola inclusiva, destacando o uso de recursos de voz sintética em dispositivos de comunicação assistiva. Estes jogos aqui listados são sugestões que podem ser adotadas pelas escolas no que tange a operacionalização do seu AEE. Entretanto, o mais indicado é que cada aluno com deficiência seja avaliado e tenha o seu potencial de aprendizagem percebido, de maneira que as atividades sugeridas possam colaborar com seu respectivo desenvolvimento, conforme preconiza o Decreto n° 7611 (Brasil, 2011). CONCLUSÃO A educação inclusiva não é uma tarefa simples para o corpo docente. Adotar ferramentas que contribuam para uma melhor didática e evolução das atividades para atender o AEE é um desafio diário, que requer pesquisa, estudo e empenho. O trabalho com o AEE requer estrutura física e tecnológica adequada, materiais didáticos que possam suprir as demandas dos alunos, bem como pessoal especializado por meio de formação continuada. 56 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Os desafios do AEE são muitos, englobando desde a questão da formação deficitária de professores, perpassando pela situação precária de algumas escolas com relação a estrutura do seu AEE e culminando com a falta de participação das famílias. Compete ao poder público nas suas 3 esferas o envidar de políticas públicas que possam fortalecer cada vez mais o AEE, o que engloba a organização de suas atividades. Com isso, espera-se que as crianças com deficiência tenham seu direito à educação assegurado, bem como o usufruto de sua cidadania. REFERÊNCIAS ANUNCIAÇÃO, D.V.A. A gestão educacional na perspectiva da educa- ção inclusiva no município de Manaus. Dissertação (Mestrado em Edu- cação). Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2019. ARANÃO, I. V. D. Matemática através de brincadeiras e jogos (A). Cam- pinas, SP: Papirus Editora, 2020. BORTOLIN, S.; SANTOS, Z. P. Clube de leitura na biblioteca escolar: ma- nual de instruções. Informação@Profissões, v. 3, n. 1-2, p. 147-172, 2014. BORUCHOVITCH, E.; GALVÃO, C.; NOGUEIRA, R. Recursos Peda- gógicos e Práticas Educativas no Contexto da Educação Especial. In: BO- RUCHOVITCH, Evely; GONZALEZ, Denis (org.). Educação Especial Inclusiva: Avanços e Desafios. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2015. BRASIL. Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Dire- trizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Congresso Nacional, 1996. BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Espe- cial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC, 2008. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câ- mara de Educação Básica. Resolução n° 4, de 2 de outubro de 2009. Ins- titui Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especiali- zado na Educação Básica, modalidade educação especial. Brasília: MEC/ CNE/CEB, 2009. BRASIL. Decreto n° 7.611, de 17 de novembro de 2011. Dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências. Brasília: Senado Federal, 2011. FERREIRA, L. N. Uma abordagem evolutiva para geração procedural de níveis em jogos de quebra-cabeças baseados em física. Dissertação PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 57 (Mestrado em Ciências de Computação e Matemática Computacional). Universidade de São Paulo, São Carlos, 2015. GALVÃO FILHO, T. Tecnologia assistiva e educação. Educação inclu- siva, tecnologia e tecnologia assistiva. Aracaju: Criação, p. 13-36, 2009. GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Secretaria Estadual de Edu- cação. Resolução SEDUC 21, de 21-6-2023. Dispõe sobre a regulamen- tação da Política de Educação Especial e do Plano Integrado de Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo. São Paulo: SEDUC-SP, 2023. GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Decreto n° 67.635, de 6 de abril de 2023. Dispõe sobre a Educação Especial na rede estadual de ensino e dá outras provi- dências. São Paulo: ALE-SP, 2023. KIRNER, C.; KIRNER, T. G. Evolução e tendências da Realidade Virtual e da Realidade Aumentada. Realidade Virtual e Aumentada: Aplicações e Tendências. p. 10-25, 2011. LEONEL, W.H.S.; LEONARDO, N.S.T. Concepções de professores da educação especial (APAEs) sobre a aprendizagem e desenvolvimento do aluno com deficiência intelectual. Revista Brasileira de Educação Espe- cial, v.20, p. 541- 554, 2014. LIMA, M.S. O funcionamento do atendimento educacional especializado em escolas públicas do município de Parintins/AM. Dissertação (Mestra- do em Educação). Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2021. LIMA, M.S.; SANTOS, J.O.L. Atendimento educacional especializado: articulação entre professor do AEE, da sala comum e família do aluno PAEE em duas escolas públicas do município de Parintins (AM). Educa- ção Especial, v.36, p. 1 – 14, 2023. MALUF, A. C. M. Atividades lúdicas para Educação Infantil: conceitos, orientações e práticas. Editora Vozes Limitadas, 2011. MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: O que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003. MURAGAKI, C.S. et al. A utilização de jogos pela terapia ocupacional: contribuição para a reabilitação cognitiva. In: X ENCONTRO LATINO AMERICANO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA. Anais... São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba, 2006. PANSINI, F. Sala de recursos multifuncionais no Brasil: para que e para quem? Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal do Amazo- 58 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA nas, Manaus, 2018. PETRONI, N. N., BOUERI, I. Z.; LOURENÇO, G. F. Introdução ao uso do Tablet para Comunicação Alternativa por uma Jovem com Paralisia Cerebral. Revista Brasileira de Educação Especial, 24, 327-342, 2018. RUFINO, K.A.D. Contribuições do jogo para criança com TEA: um es- tudo a partir da perspectiva pedagógica de Reuven Feuerstein. Dissertação (Mestrado em Tecnologias, Comunicação e Educação). Universidade Fe- deral de Uberlândia, Uberlândia, 2020. SANTOS, C.P. “Ele é multifacetado”: as representações sociais do fra- casso escolar construídas e compartilhadas por psicólogos educacionais. Dissertação (Mestrado em Psicologia). UniversidadeFederal de Pernam- buco, Recife, 2012. SANTOS JUNIOR, E.; MALDANER, J.J.; CAVALCANTE, R.P. Pega- das da inclusão: um jogo de tabuleiro digital em libras. Palmas: Instituto Federal do Tocantins, 2021. SOBRINHO NETO, J.C.; SILVA, F.F. Produção e distribuição de conteú- do em relógios inteligentes: formatos, linguagens e estratégias dos apps do The New York Times e R7. Estudos em Jornalismo e Mídia, v.14, n.2, p.189-201, 2017. TENREIRO-VIEIRA, C. Produção e avaliação de actividades de aprendi- zagem de ciências para promover o pensamento crítico dos alunos. Revis- ta Iberoamericana de Educación, v.33, n.6, p.1-18, 2004. ZERBATO, A. P.; MENDES, E. G. Desenho universal para a aprendiza- gem como estratégia de inclusão escolar. Educação Unisinos, v.22, n.2, p.147-155, 2018. 59 AEE COLABORATIVO: DESAFIOS NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DOS ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL Aline de Toledo Francisco1 Elifas Trindade de Paula2 1. INTRODUÇÃO A Política Paulistana de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva, tem o objetivo de assegurar o acesso, permanência e a participação plena dos estudantes com deficiência na escola. Pessoas com transtornos globais do desenvolvimento e transtorno do espectro autista e com altas habilidades e/ou superdotação são público alvo da Educação Inclusiva (São Paulo, 2016). Mas como assegurar esse direito? Para responder esta pergunta, investigamos sobre a funcionalidade do Atendimento Escolar Especializado, na modalidade Colaborativa, em uma escola pública onde o serviço foi implementado pela primeira vez, no ano letivo de 2023, e para que pudéssemos avaliar a eficácia do AEE colaborativo, na unidade escolar, foi escolhido um 9º ano, do Ensino Fundamental II, que era composto pelo maior número de estudantes com deficiência no grupo, eram cinco estudantes diagnosticados com deficiência intelectual entre outros estudantes com necessidades educacionais específicas, porém, sem diagnóstico médico. As diversidades que caracterizavam o grupo de estudantes eram propícias ao atendimento escolar especializado, pois pressupõe-se que todos 1 Professora da Escola Municipal EMEF Paulo Freire, da Diretoria Regional do Campo Limpo- SMESP- E-mail:alineteacher90@gmail.com. 2 Orientador da Pesquisa e Professor da Rede Pública Municipal de São Paulo; Mes- tre em Educação Inclusiva pela Universidade Estadual Paulista UNESP. E-mail e.paula@unesp.br. 60 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA os estudantes, atendidos ou não pelos serviços da Educação Especial, no mesmo espaço físico, e currículo, garantindo a acessibilidade e a tecnologia assistiva (São Paulo,2023. p.1). A escola está localizada em um bairro periférico de intensa vulnerabilidade social, na zona sul de São Paulo. A região é circundada por muitos comércios. O fluxo de pessoas e automóveis é intenso todos os dias. Assim como a poluição sonora: alto - falantes anunciando as ofertas do dia ou músicas em diferentes ritmos para atrair compradores se misturando com outros ritmos entoados das casas vizinhas à Escola, que também tem como vizinha duas escolas que contribuem demasiadamente com barulhos e ruídos que rotineiramente misturam-se e abafam as vozes dos docentes e discentes na rotina escolar. A escola possui 11 salas de aula, 01 sala de leitura, 01 sala multifuncional, 01 laboratório de informática, 01 quadra poliesportiva e 01 refeitório. Não dispõe de pátio e parque, carece muito de espaços lúdicos, sinalizações e adequações dos espaços e local ao ar livre para os estudantes de todas as séries dos ciclos. Para ser considerada acessível, a escola não deve apresentar limitações nos seus ambientes e, ainda, toda sinalização tátil, sonora, visual para circulação, acesso e uso de todas as áreas da escola, não só para alunos, mas todos que possam em qualquer momento fazer parte desse espaço [...] área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. (ATA VII Comitê de Ajudas Técnicas (Zilani e Heredero 2022 p.9). Na Educação Especial, devem ser observadas as dimensões físicas da escola: a infraestrutura para atender todos os estudantes; a dimensão funcional dos espaços e suas múltiplas possibilidades, assim como o tempo que os espaços são utilizados por alunos e professores. Alguns estudos já comprovaram que condições desfavoráveis de conforto ambiental são causas de mau desempenho dos alunos. Elali (2003) afirma que as condições do ambiente, tais como a acústica da sala, a ventilação, temperatura e luminosidade, podem interferir, não somente no desempenho do aluno, mas PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 61 também na saúde dos mesmos. Em março de 2023, havia na escola um total de 47 professores, sendo apenas 23 professores efetivos da Unidade escolar. Os demais professores trabalhavam com contrato por tempo determinado, geralmente por dois anos, no entanto, a maioria dos professores permaneciam na escola apenas um ano letivo, devido a localização da escola ser de difícil acesso, optaram por outra unidade, consequentemente a rotatividade docente tornou-se barreira preponderante para a dificuldade de implementar ações pedagógicas eficientes para os estudantes com necessidades educacionais específicas nos anos letivos anteriores, pois os trabalhos pedagógicos desenvolvidos com os discentes não eram contínuos. A rotatividade fazia com que os professores recém-chegados à escola ofertassem aos alunos com deficiência atividades para colorir, contornar e massinhas para modelar, privando-lhes do acesso ao currículo, conforme legislações, acerca da educação especial na perspectiva inclusiva: A assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.(...) Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. (Brasil, 2015 n.p ) Nesta direção, a legislação é basilar para pesquisa, assim como as entraves e contradições impostas no ambiente escolar. Estudos de caso referente ao desenvolvimento escolar dos cinco estudantes com deficiência intelectual na sala de aula, foram pontos de partida para investigação e para intervenção para redução e/ou eliminação de barreiras que promovem exclusão no âmbito da Educacional, a partir da reflexão da ação pedagógica dos professores regentes da sala de aula, articulada ao trabalho da Professora de Apoio Escolar Especializado, mediante a entraves estruturais do próprio espaço escolar para efetivar a participação equânime de oportunidades de aprendizagens para alunos com deficiência intelectual do 9º ano do Ensino Fundamental, em relação aos demais estudantes da turma, por meio de intervenções norteadas pela legislação acerca da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. 62 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 2. AEE COLABORATIVO Art. 5º Para os fins do disposto neste decreto, considera-se Atendimento Educacional Especializado - AEE o conjunto de atividades e recursos pedagógicos e de acessibilidade organizados institucionalmente, prestado em caráter complementar ou suplementar às atividades escolares, destinado ao público-alvo da Educação Especial que dele necessite.§ 1º O AEE terá como função identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras existentes no processo de escolarizaçãoe desenvolvimento dos educandos e educandas, considerando as suas necessidades específicas e assegurando a sua participação plena e efetiva nas atividades escolares.§ 2º A oferta do AEE será realizada, de maneira articulada, pelos educadores da unidade educacional e pelos professores responsáveis pelo AEE.[...] (São Paulo, 2016 n.p) Dialogando com Vygotsky (1983/2022), observa-se que o ensino é baseado na “impossibilidade” de aprendizagem pela existência do déficit orgânico. Vygotsky defendia que o ensino da criança com deficiência deve-se pautar nos princípios de desenvolvimento humano e ser ofertado o mesmo currículo a todos os estudantes, embora, por caminhos diferentes. No artigo Pedagogia Para Possiblidades, Ferreira (2014), nos indaga se é possível um currículo para a diversidade nas escolas brasileiras que seja responsivo aos direitos de todos/as à educação. Os profissionais do Atendimento Escolar Especializado Colaborativo, têm o papel crucial para consolidar a oferta da pedagogia das possibilidades e acesso ao currículo responsivo para aprendizagem e o direito dos discentes, para desenvolver suas potencialidades. Portanto, é essencial a articulação do profissional do ensino colaborativo (PAEE) e os professores regentes das classes comuns, visando o aprimoramento de estratégias para o desenvolvimento das potencialidades dos estudantes, a elaboração de materiais pedagógicos conforme legislação,(Brasil, 2011), por meio de metodologias que contemplem a todos e todas para terem acesso ao Currículo com qualidade e na garantia do Direito de aprender. O ensino colaborativo abarca desafios, dúvidas e inseguranças em relações a parceria entre os profissionais da escola, planejamentos, replanejamentos, execuções das práticas de professores regentes, coordenadores pedagógicos e a professor(a) do Atendimento Educacional Especializado para o desenvolvimento de ações pedagógicas colaborativas eficazes. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 63 2.1 Deficiência Intelectual Ensinar estudantes com Deficiência Intelectual é, ainda hodiernamente, um tabu. No que tange a educação de pessoas com deficiências, a Declaração de Salamanca ampliou o conceito de necessidades educacionais especiais, incluindo todo e todas discentes que não estivessem conseguindo se beneficiar com a escola e passou a fomentar a Educação Especial no Brasil com novas diretrizes em documentos normativos que se ancoram na Constituição Federal (BRASIL/88), que institui o direito de todos à educação e do reconhecimento que toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), no 9.394/96 (Brasil, 1996). É dever do Estado garantir o atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino. O Manual MSD, Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, também, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Caracteriza a deficiência intelectual como a incapacidade por uma função intelectual significativamente abaixo da média (frequentemente expresso como um quociente de inteligência menor que 70 a 75), combinada com limitações no funcionamento adaptativo (ou seja, comunicação, orientação, habilidades sociais, autoproteção, uso de recursos comunitários e manutenção da segurança pessoal), junto com demonstração de necessidade de apoio. A deficiência intelectual é considerada um distúrbio do desenvolvimento neurológico. Distúrbios de neurodesenvolvimento são condições neurológicas que aparecem precocemente na infância, geralmente antes da idade escolar, e prejudicam o desenvolvimento do funcionamento pessoal, social, acadêmico e/ou profissional. Normalmente envolvem dificuldades na aquisição, retenção ou aplicação de habilidades ou conjuntos de informações específicas. Transtornos no desenvolvimento neurológico podem envolver disfunções em um ou mais dos seguintes: atenção, memória, percepção, linguagem, resolução de problemas ou interação social. Outros distúrbios do desenvolvimento neurológico comuns incluem déficit de atenção/hiperatividade, distúrbios do espectro do autismo e distúrbios de aprendizagem (p. ex. dislexia). 64 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA O termo deficiência intelectual corresponde ao retardo mental na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). De acordo com a nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11), em vigor em 2022, a DI é incluída entre os distúrbios (ou transtornos) do neurodesenvolvimento, especificamente os do desenvolvimento intelectual. É identificada pela redução substancial das funções intelectuais, concomitante a déficits do comportamento adaptativo com limitações em habilidades sociais e práticas cotidianas, iniciada durante o período de desenvolvimento (antes dos 18 anos). São classificados ,também , DI em 4 níveis, considerando os resultados nos testes de quociente de inteligência (Qi) e na capacidade funcional da pessoa da seguinte maneira: Retardo mental leve (F70), Retardo mental moderado (F71), Retardo mental grave (F72), Retardo mental profundo (F73). Pelo estabelecido da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta-se: Por fim, a classificação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais substitui o retardo mental por deficiência intelectual, com início no período do desenvolvimento, com déficits funcionais tanto intelectuais quanto adaptativos nos domínios conceitual, social e prático. Pelo exposto, entendemos que Deficiência significa uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social, não em relação à criança: (...) qualquer defeito origina estímulos para a formação da compensação. Por isso, o estudo dinâmico da criança que apresenta deficiências não pode limitar-se à determinação do grau e da gravidade da insuficiência, mas inclui indispensavelmente o controle dos processos de compensação, de substituição, processos PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 65 formadores e equilibradores no desenvolvimento e na conduta da criança. Assim como para a medicina contemporânea é importante não a enfermidade, mas o enfermo, para a defectologia, o objeto de estudo não é a insuficiência por si mesma, mas a criança atingida pela insuficiência. (...) Desse modo, a reação do organismo e da personalidade da criança diante do defeito é o fato fundamental central, a realidade única com a qual tem a ver a defectologia. (Vygotsky 1983/1022 p.34) Para Vygotsky ( 1983/2022), se a criança com deficiência tiver acesso a uma educação boa de qualidade e integrada socialmente, ela pode ser um cidadão útil e plenamente ajustado às exigências da sociedade. Segundo as teorias Vygotskyanas (1983/2022), devemos enxergar a deficiência como mobilização de possibilidades. A deficiência modifica a relação do homem com o mundo, nas relações com as pessoas. A deficiência é uma construção social, pois o mundo (em seus instrumentos e signos) se organiza para um perfil típico e idealizado de ser humano 2.2 Universo da Pesquisa O presente estudo trata-se de uma pesquisa-ação qualitativa e descritiva. Fundamenta-se nos pressupostos da pesquisa colaborativa. As observações em relação ao espaço escolar iniciaram no ano de 2022 a partir do interesse da pesquisadora em prestar melhorias na oferta da Educação Especial e Inclusiva. Os dados foram apresentados aos professores da Unidade Escolar no ano de 2023 no horário de reunião pedagógica ao grupo que contribuíram com suas considerações e práticas para dar início a um diário de pesquisa, cujos registros eram realizados com regularidade (de março ao início de junho de 2023), feito pela pesquisadorade forma contemporânea; escrito no momento ou perto o suficiente aos eventos ou atividades realizados Os professores que participaram da pesquisa faziam parte das reuniões pedagógicas semanais, em um grupo que tinha maior participação de docentes regentes do referido 9º ano conforme a tabela a seguir: 66 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Caracterização dos participantes Participantes Gênero Idade Formação Especiali- zação Tempo de magistério Tempo letivo na Unidade Escolar ARTES feminino 49 Artes Cêni- cas e Peda- gogia ----------- 25 anos 6 meses GEOGRAFIA feminino 38 Geografia Neurociên- cias 8 anos 2 anos HISTÓRIA feminino 62 Ciências Sociais/ História Educação Especial 25 anos 13 anos MATEMÁTICA masculino 45 Matemática -------- 12 anos 6 meses COD. PEDAGÓGICA feminino 46 Letras (Por/ Lin- guística) Pedagogia Literatura Infanto Juvenil 21 anos 11 Os cinco participantes eram professores efetivos da unidade escolar, sendo que três deles não estavam na unidade escolar no ano anterior. Todos graduados em áreas de conhecimento voltado à Educação. Dois participantes possuíam especialização no âmbito da Educação Especial. O tempo de magistério dos professores participantes variava entre 8 a 25 anos e com permanência na unidade escolar de 6 meses a 13 anos. Os professores que participaram da pesquisa são alguns que ministram aulas no referido 9ª ano. Foram escolhidos professores partícipes das reuniões pedagógicas semanais, em um grupo e horário que se encontrava o maior número de docentes do 9º ano. Os participantes foram relacionados com suas disciplinas e/ou área de atuação na unidade escolar para que não fossem identificados. 2.3 Coleta de Dados Para coleta de dados utilizou-se roteiro de observação das práticas pedagógicas aplicadas pelos professores participantes da pesquisa no 9º ano C. Para Cervo e Bervian (2002, p.27) “a observação é vital para o estudo da realidade e de suas leis. Sem ela, o estudo seria reduzido a mais à simples conjetura e simples adivinhação. Identificar e obter provas a respeito de objetivos sobre os quais os indivíduos não têm consciência, mas que orientam seu comportamento” (Marconi e Lakatos,1996, p.79). PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 67 A observação permite ao pesquisador (a) ter um contato mais direto com a realidade. Além disso, o diário de pesquisa é voltado às identificações de barreiras de aprendizagens dos espaços da escola. O diário de pesquisa consiste em uma narrativa do pesquisador, dentro de seu contexto histórico-social, que viabiliza restituir, de maneira escrita, o trabalho de campo, as aproximações e distanciamentos com o objeto de pesquisa e o ato de pesquisar em si. A escrita diarística possibilita um tipo de reflexão própria do ato de escrever, desnaturalizando a ideia da neutralidade ao pesquisar e permitindo a exposição das experiências cotidianas, fragilidades e dificuldades concretas vivenciadas no percurso de pesquisador. [...] Então, o diário de pesquisa, ao possibilitar ―uma escrita transversal, com diversos registros que permitem explorar a complexidade do tema em questão, torna possível trazer para o primeiro plano a problematologia da implicação: o extratexto da escritura diarística . (Borges e Silva 2020 p.2). Os dados deste estudo receberam análise qualitativa de acordo com o objetivo da pesquisa, uma vez que prima avaliar a eficácia do Ensino Colaborativo. Segundo Minayo (2001), a análise qualitativa trabalha com um universo de significados e valores e se preocupa com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Quanto à observação assistemática, consiste em recolher e registrar os fatos da realidade a partir de um olhar individual para o olhar coletivo junto aos demais docentes. Quando uma equipe está vigilante, registrando o problema na mesma área, surge a oportunidade de confrontar seus dados posteriormente, volta-se para a percepção e registro de eventos, condições físicas e comportamentos não verbais e linguísticos, possibilitando realizar a descrição de tais circunstâncias. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os dados produzidos nos permitem refletir acerca das contradições que permeiam as relações de Direito e Dever, Educação Especial e Exclusão no âmbito escolar, através das barreiras estruturais da unidade escolar. Barreiras que privam os estudantes a terem condições de igualdade de aprendizagem mediante, por exemplo, às barreiras arquitetônicas da Unidade Escolar. Um espaço que não favorece a neurodiversidade. Excesso de ruídos, falta de espaço alternativos que contemplem as demandas da infância e as ludo- pedagógicas. 68 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Sabemos que tratam-se de questões que necessitam de investimento financeiro de alto custo, como janelas antirruídos, (devido à poluição sonora em que está inserida a comunidade escolar e, é claro, também em relação aos estudantes com sensibilidades sonoras), no entanto, pensar em aspecto mínimo, ainda é utópico. Ainda há questões que se sobreponham à infraestrutura como a qualificação docente e metodologias adequadas para contemplarem as especificidades educacionais dos discentes sob o ponto de vista da diversidade, não das limitações que a deficiência que, algumas vezes, podem lhes ocasionar. A deficiência é estabelecida e entendida como um problema social, na concepção Vygotskiana (1983/2022, p.112) Se, no aspecto psicológico, a deficiência corporal significa um desvio social, então, no aspecto pedagógico, educar essa criança significa incorporá-la à vida, como se cura o órgão enfermo afetado. Neste sentido, pensar na Educação especial consiste em pensar na vulnerabilidade social em que os estudantes e a comunidade escolar estão inseridos. Pois neste artigo, foram apontadas inúmeras barreiras transpostas aos estudantes com ou sem necessidades educacionais específicas que não são orgânicas, são sociais. Cabe ao Professor de Atendimento Escolar Colaborativo considerar as barreiras estruturais para fomentar e oferecer o ensino inclusivo, reconhecendo que é contraditório, existir um público alvo composto por pessoas por suas deficiências, como Transtorno Global do Desenvolvimento, altas habilidades/superdotação ou Transtorno de Espectro Autista, considerando seus diagnósticos médicos, e não o que o meio social lhes privam e impeçam o desenvolvimento de suas potencialidades, da mesma forma, que pessoas que não são consideradas deficiêntes, não podem ser atendidas no Atendimento Colaborativo, sem burocracias, mesmo que apresentem necessidades educacionais específicas, perpassadas por elementos externos do ambiente social que lhe impedem de ter um ensino-aprendizado equitativo. É atroz insistirmos que a deficiência é meramente orgânica. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 69 REFERÊNCIAS BORGES, F. A., & Silva, A. R. N. D. (2020). O diário de pesquisa como instrumento de acompanhamento da aprendizagem e de análise de implicação do estudante/pesquisador. Interface-Comunicação, Saúde, Educação, 24,190-869. CERVO, A. L. & Bervian , P. A. Metodologia científica. São Paulo 5º ed: Prentice Hall, 2002. COSTA, G. F. C . O afeto que educa: afetividade na aprendizagem. [Gra- duação do curso de Pedagogia]. Universidade Federal de Juiz de Fora, 2017. https://docplayer.com.br/83527948-O-afeto-que-educa-afetividade-na- -aprendizagem.html. Decreto Nº 3.956, da Presidência da República do Brasil (2001) Conven- ção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discrimi- nação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência - https://www.planal- to.gov.br/ccivil_03/decreto/2001/d3956.htm. Decreto nº 57.379, (2016), Sistema Municipal de Ensino a Política Pau- listana de Educação Especial, aceso jun, 2023. htpp//Estatuto_da_pes- soa_com_deficiencia_4ed.pdf (senado.leg.br). Acesso em 30. Decreto nº 7.611, ()2011. Educação Especial, o atendimento educacional especializado.Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 nov. 2011. https:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm. Decreto Estadual Nº 67.635, (2023): Educação Especial na rede estadual de ensino DOE, Executivo I, de 07.04.2023, p.1 E 3. https://www.al.sp.gov. br/repositorio/legislacao/decreto/2023/decreto-67635-06.04.2023.html. DSM-IV-TR - Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. trad. Cláudia Dornelles; - 4.ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2002. DSM - V. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. (recur- so eletrônico); trad. Maria Inês Corrêa Nascimento (et al). 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. Deficiência intelectual - Pediatria; Manuais MSD edição para profissio- nais (msdmanu-als.com) acesso em jun 2023. tps://www.msdmanuals. com/pt-br/profissional/pediatria/distúrbios-de-aprendizagem-e-desen- volvimento/deficiência-intelectual. ELALI, G. A. O ambiente da escola-o ambiente na escola: uma discussão so- bre a relação escola-natureza em educação infantil. Estudos de Psico- 70 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA logia, Natal, v. 8, p. 309-319, 2003. Lei 9.394 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei. Brasília: (1996) ; https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm. Manual MSD, Versão Saúde para família. htpp: Manual MSD Versão Saúde para a Família (msdmanuals.com). MARCONI, M. A.; Lakatos E. M. Fundamentos de Metodologia Cientí- fica, 5ª ed, São Paulo: Atlas 2003. MINAYO, M. C.S. Teoria, método e criatividade .18 ed. Petrópolis: Vo- zes,2001. SILVA F. O. C. Minayo MCS, Costa AP. Técnicas que fazem uso da Pala- vra, do Olhar da Empatia: Pesquisa Qualitativa em Ação. Arveiro:Ludo- media; 2020. ZILANI P .V. C.;& Heredero. S, Eladio. O espaço escolar e a qualidade da educação: Uma revisão ela legislação brasileira. Revista on line de Po- lítica e Gestão Educacional, v. 26, 2022. https://www.bing.com/search?- q=Zilani+P+.V.+C.+%3B%26+Heredero.+S%2C+Eladio.+O+espa%- C3%A7o+escolar+e+a+qualidade+. FERREIRA,W.(2014). Pedagogia das Possibilidades: é possível um currí- culo para a diversidade nas escolas brasileiras?. Cadernos Cenpec | Nova série, [S.l.], v. 3, n. 2, httpps://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index. php/cadernos/article/view/230. VYGOTSKY. L. S Obras Completas – Tomo Cinco: Fundamentos de De- fectologia./Tradução do Programa de Ações Relativas às Pessoas com Ne- cessidades Especiais (PEE). — Cascavel, PR: Edunioeste, 2022 acesso em jun 2024 https://www.unioeste.br/portal/central-de-noticias/59210-unioes- te-programa-de-educacao-especial-traduz-livro-fundamentos-de-defectologia. 71 IMPACTOS SOCIAIS DA DISFLUÊNCIA: DA ESCOLA AO MUNDO DO TRABALHO Clayton Ferreira dos Santos Scarcella1 1. INTRODUÇÃO A gagueira, também conhecida como disfemia ou tartamudez, é um distúrbio de comunicação caracterizado por interrupções involuntárias na fluência da fala, e tem sido objeto de estudo em diversas áreas do conhecimento como a fonoaudiologia, linguística e a psicologia. Ao apresentarmos nosso relato de vida através de uma narrativa autobiográfica, exploramos as barreiras, desafios e estigmas enfrentados por pessoas com distúrbios de comunicação, destacando a emergente necessidade de estratégias inclusivas que valorizem as potencialidades de todos os sujeitos. Percebemos a gagueira na antiga 1ª série do ensino fundamental, onde responder ‘presente’ à chamada era uma batalha sempre angustiante e que gerava estresse e ansiedade. Tette (2024), é enfática em sua pesquisa sobre a autopercepção da comunicação de falantes com e sem gagueira de que a autopercepção da comunicação é impactada pela experiência da gagueira, incluindo as disfluências, a tensão muscular e os sentimentos negativos relacionados à fala. Nosso diagnóstico foi tardio devido ao difícil acesso à saúde e à preferência por métodos tradicionais como os populares benzimentos, simpatias e demais métodos de tratamento frutos do senso comum. A primeira intervenção médica que passamos ocorreu por volta dos 10 anos, porém as sessões de fonoterapia foram interrompidas devido às dificuldades financeiras familiares, que mal dispunha no orçamento a disponibilidade de arcar com transporte e alimentação nas idas e vindas às sessões. 1 É mestrando em Educação Inclusiva pela Universidade Federal de São Paulo (UNI- FESP). Também é bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Paulus de Tec- nologia e Comunicação (FAPCOM) e licenciado em Artes Visuais pela Faculdade Mozarteum de São Paulo (FAMOSP). E-mail: claytonscarcella@gmail.com. Lat- tes: http://lattes.cnpq.br/7631116769381700. 72 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Na escola, outra dificuldade que tínhamos era participar oralmente das aulas, onde a falta de confiança e o medo de ser ridicularizado eram constantes. Tal distúrbio afetou nossa autoestima e confiança, levando- nos a adaptar o discurso para disfarçar a disfluência. Esta adaptação, no entanto, muitas vezes passava a impressão de um vocabulário limitado, o que reforçava estigmas e preconceitos, conforme discutido por Goffman (1981) em sua obra Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Na juventude, enfrentamos dificuldades em estabelecer relacionamentos afetivos devido à ansiedade e ao estresse associados à fala e no ambiente familiar fomos alvo de bullying e discriminação, com frequente ridicularização devido a disfluências. A temática da violência a sujeitos com gagueira é tratada na dissertação de mestrado de Acioli (2009, p.71) que “evidenciou um excesso de violência psicológica em pacientes disfluentes”. No mercado de trabalho, enfrentamos discriminação durante entrevistas de emprego, onde os bloqueios de fala, hesitações e repetições eram vistos como uma limitação. Para lidar com os estigmas, encontramos no humor uma forma de aliviar o estresse e melhorar a fluência, uma estratégia que pode ser compreendida à luz das teorias de coping2 de Lazarus e Folkman (1984). 2. A AUTOPERCEPÇÃO DA DISFLUÊNCIA A gagueira, enquanto distúrbio de comunicação, não se limita a afetar apenas a fluência da fala. Seus impactos sociais e emocionais são multifacetados, influenciando a vida dos indivíduos em diversas esferas. Para compreender esses impactos, é essencial recorrer às contribuições de teóricos e pesquisadores de diferentes áreas. Na psicologia, Goffman (1981), discute como os indivíduos com características consideradas desviantes pela sociedade são frequentemente estigmatizados. A gagueira, nesse contexto, é vista como uma marca que deteriora a identidade do indivíduo, levando-o a ser percebido como menos competente ou 2 As estratégias de coping podem ser definidas como um conjunto de recursos cogniti- vos e comportamentais desenvolvidos pelos indivíduos para lidar com as exigências internas e externas da comunicação, incluindo comportamentos de evitação, tensão física e ajustes na fala. No contexto da gagueira, essas estratégias frequentemente envolvem tentativas de esconder a disfluência, gerenciar a ansiedade comunicativa e adaptar-se às pressões sociais e temporais das interações verbais. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 73 inteligente. O autor argumenta que o estigma não reside na característica em si, mas na construção social que a cerca. Assim, a gagueira torna-se um rótulo que pode limitar as oportunidades sociais e profissionais do sujeito, afetando sua autoestima e autoconfiança. O ambiente escolar é um espaço onde os impactos sociais da gagueira são particularmente evidentes. As experiências de provocações e bullying vivenciadas por adolescentes que gaguejam podem estar intrinsecamente relacionadas às atitudes comunicativas negativas que eles desenvolvem ao longo do tempo. Blood e Blood (2004) identificaram uma correlação negativa significativa entre o risco de um adolescente sofrer bullying e sua autopercepção de competência comunicativa. Esta constatação sugere que adolescentes com uma baixa autopercepçãode suas habilidades de comunicação podem apresentar comportamentos mais introvertidos, reservados e antissociais, potencialmente levando a estereótipos negativos por parte de seus pares e, consequentemente, aumentando sua vulnerabilidade a situações de intimidação. O bullying verbal, em particular, pode exacerbar a ansiedade e o medo de falar em público, criando um ciclo vicioso que perpetua a disfluência. Tette (2024, p. 28) corrobora ao afirmar que: Pareceria lógico que os adolescentes com fraca autopercepção de competência de comunicação fossem mais introvertidos, quietos e antissociais, o que poderia levar a estereótipos negativos por parte dos pares e a um risco aumentado de serem intimidados. Silva (2016, p. 132) descreve alguns exemplos relatados por participantes de sua pesquisa que teve como objetivo analisar a mudança de posição na formação discursiva de sujeitos com gagueira: Esses rechaços são compostos por brincadeiras de mau gosto, apelidos pejorativos, enquadrando os sujeitos com gagueira em uma posição de incapacidade, inferioridade, sem nenhum potencial, podendo causar, inclusive, o desejo de não viver mais. Lazarus e Folkman (1984) desenvolveram a Teoria do Coping, que descreve como os indivíduos lidam com o estresse e as adversidades. As estratégias de enfrentamento utilizadas por pessoas que gaguejam são diversas e complexas, incluindo a evitação de situações de fala, a substituição de palavras consideradas difíceis por sinônimos mais fáceis de 74 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA pronunciar, e o uso do humor como mecanismo de defesa para desarmar situações potencialmente estressantes. Além disso, muitos indivíduos desenvolvem comportamentos secundários, como piscar excessivamente, apertar as mãos ou bater os pés, na tentativa de superar ou mascarar os momentos de disfluência (Vischi, 2017; Santos, 2021; Tette, 2024). Embora essas estratégias possam oferecer um alívio temporário da ansiedade associada à fala, elas frequentemente resultam em consequências negativas a longo prazo. A evitação persistente de situações comunicativas pode levar ao isolamento social, limitando as oportunidades de interação e desenvolvimento pessoal. Azevedo (2000) apresenta uma perspectiva sobre a gagueira, analisando-a sob o prisma do funcionamento da linguagem e das relações discursivas. A autora argumenta que o que dificulta a fala do sujeito que gagueja não é meramente uma questão de articulação das palavras, mas sim um estado de hipervigilância em relação à própria fala. Este estado de vigilância constante cria uma dinâmica complexa no processo de produção da fala, ao que quando o sujeito que gagueja se depara com a necessidade de substituir uma palavra que acredita ser incapaz de pronunciar fluentemente, ele é forçado a acessar o eixo paradigmático da língua de forma consciente e deliberada. Este processo, que normalmente ocorre de maneira automática e inconsciente em falantes fluentes, torna-se um desafio cognitivo e temporal para o sujeito que gagueja. A necessidade de escolher rapidamente uma palavra alternativa para substituir aquela que “travou” (ou que o sujeito antecipa que irá “travar”) impõe uma pressão adicional sobre o processo de formulação linguística. Esta pressão afeta diretamente o eixo da seleção lexical, criando um ciclo de ansiedade e antecipação negativa que pode exacerbar ainda mais as disfluências. Azevedo (2000) contínua ao argumentar que este processo cria uma dicotomia entre língua e fala, na qual o sujeito fica subordinado à dimensão da língua enquanto sistema abstrato, aprisionado ao dizer da impossibilidade. O discurso desses sujeitos, acaba por bloquear a própria língua que tentam dominar. Esta dinâmica resulta em uma situação de conflito discursivo interno: falar ou não falar, falar ou silenciar. O sujeito que gagueja frequentemente se vê impedido por si mesmo de falar, antecipando a disfluência e optando pelo silêncio como estratégia PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 75 de evitação. Este silêncio, contudo, não é neutro, mas carregado de significado, representando um discurso da impossibilidade. A autora enfatiza que essas estratégias defensivas de evitação ou adiamento da gagueira, como substituições lexicais, repetições, bloqueios de sons, ou comportamentos secundários como bater o pé ou a mão, acabam por ratificar e perpetuar o problema, criando um ciclo vicioso de disfluência e ansiedade comunicativa. A substituição constante de palavras, por sua vez, pode comprometer a espontaneidade e a riqueza do discurso, afetando a auto expressão e a autoestima do indivíduo. Ademais, o uso excessivo dessas estratégias pode reforçar a autopercepção negativa da capacidade comunicativa, perpetuando um ciclo de ansiedade e evitação, o que pode resultar em impactos negativos na vida acadêmica, profissional e social da pessoa que gagueja, potencialmente levando à escolha de carreiras que exigem menos comunicação verbal ou à relutância em assumir posições de liderança. A fluência da fala é frequentemente considerada um indicador de normalidade comunicativa, enquanto a disfluência é vista como um desvio patológico. A fluência é tradicionalmente definida como a capacidade de falar de maneira contínua, sem interrupções ou hesitações significativas (Santos, 2021). No entanto, devemos mergulhar um pouco mais a fundo na complexidade da comunicação humana pois a noção de normalidade da fala é uma construção social que reflete normas e expectativas culturais específicas (Silva, 2016; Vischi, 2017; Santos, 2021; Tette, 2024). Nesse sentido, a fluência não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou meramente individual, mas sim como parte integrante do processo de construção de um discurso. Como destaca Santos (2021), “a fluência, enquanto aspecto que compõe e entrelaça o enunciado, participa tanto de sua forma quanto de arranjo de seu conteúdo” (p. 168). Isso implica que os elementos constituintes da fluência, longe de serem considerados “sujidades da fala”, devem ser interpretados como parte da materialidade linguística dos interlocutores. A análise da fluência, portanto, deve levar em conta o contexto dialógico e as condições de produção da fala. Ademais, deve-se considerar a singularidade do sujeito na análise da fluência pois “a singularidade do sujeito mostra-se como componente operante na complexidade que marca 76 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA a natureza da fluência” (Santos, 2021, p. 119), o que implica levar em conta a história do sujeito, seu lugar social, suas vivências e relações, bem como suas características linguístico-cognitivas e ressaltar que a fluência, assim como a linguagem em geral, é heterogênea e multifacetada ao reconhecer a complexidade e variabilidade, evitando abordagens reducionistas que buscam uma normalidade homogênea e idealizada. A disfluência, por outro lado, é frequentemente associada a patologias da fala e linguagem, como a gagueira. Os estudos de Santos (2021) e Vischi (2017) revelam que as definições de fluência e disfluência são profundamente influenciadas pelos contextos históricos e culturais em que são formuladas, como discursos científicos que são moldados por relações de poder e conhecimento. A fluência é frequentemente idealizada como um padrão de normalidade, enquanto a disfluência é patologizada e estigmatizada. Os estigmas associados a vozes atípicas, como as de pessoas que gaguejam, são enraizados em concepções normativas de fluência. Goffman (1981) discute como os indivíduos com características desviantes são estigmatizados e marginalizados. No contexto da fala, a disfluência é frequentemente vista como um sinal de incompetência ou deficiência, o que pode levar à exclusão social e profissional. 3. BARREIRAS ATITUDINAIS NO AMBIENTE ESCOLAR, PROFISSIONAL E AFETIVO Um dos principais desafios na vida adulta deste autor, enquanto pessoa que gagueja, incluiumudanças em diversos aspectos para superar as barreiras para uma educação inclusiva, como apontado por Carvalho (2003, p. 61). Os educadores enfrentam o desafio de compreender seus alunos e desenvolver práticas pedagógicas que promovam sua inclusão escolar, levando em consideração as características individuais de cada criança. Este estudo tem como objetivo explorar o processo de ensino em sala de aula, incluindo alunos com síndrome de Down ou outras deficiências, e investigar a atuação docente na promoção da inclusão desses alunos na rede regular de ensino. Busca-se identificar as melhores práticas e abordagens para apoiar esses alunos tanto dentro como fora da sala de aula. A justificativa deste estudo reside em contribuir para a reflexão e aprimoramento das práticas inclusivas, fornecendo insights valiosos para uma compreensão mais profunda e eficaz da inclusão escolar. Por meio desta pesquisa bibliográfica, serão exploradas as mudanças necessárias na estrutura e organização do ambiente educacional para facilitar a inclusão de forma abrangente e eficaz. Além de trazer os alunos para a escola, é crucial envolvê-los em atividades que promovam sua integração social, desenvolvendo suas habilidades culturais e práticas, e estimulando seu crescimento psicológico. Isso requer uma integração harmoniosa entre teoria e prática pedagógica. Contudo, surge a questão central: até que ponto as escolas e a sociedade estão preparadas para efetivar essa inclusão? Reconhecemos os desafios que os professores enfrentam ao lidar com a diversidade e a necessidade de formação especializada para atender adequadamente às demandas dos alunos com deficiência. INCLUSÃO ESCOLAR: SUPERANDO DESAFIOS E PROMO- VENDO A DIVERSIDADE Quando falamos de inclusão escolar, nos deparamos com uma série de questões fundamentais: o que significa inclusão? Por que é importante incluir? E como podemos alcançar a inclusão de forma eficaz? PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 9 A concepção de que nosso entendimento do mundo vai muito além do paradigma da ciência moderna coloca a ciência em um campo mais equitativo, no qual ela precisa reconhecer e se integrar a outras formas de compreensão, deixando de assumir uma posição hegemônica e ignorando o que está além de seus domínios. Incluir alguém, em qualquer contexto, significa permitir que essa pessoa faça parte, seja inserida, introduzida; em suma, torná-la parte integrante do meio em que todos têm o direito de estar. Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, existem os chamados direitos civis, políticos, econômicos e sociais, que abrangem uma gama variada de liberdades e garantias. No entanto, mesmo no ambiente escolar, ainda nos deparamos com situações em que alunos com deficiência são excluídos de diversas formas, seja por colegas, profissionais ou até mesmo por suas próprias famílias. Esses alunos muitas vezes são vítimas de discriminação, enfrentando consequências como repetição de ano, expulsão, evasão e rótulos negativos que desviam do ideal de educação formal. Cabe a cada um de nós promover uma mudança nesse cenário, buscando uma inclusão total que ofereça oportunidades de crescimento e desenvolvimento para todos os alunos. Para combater atitudes excludentes, é crucial investir em educação e conscientização. Os professores precisam se especializar cada vez mais, pois a escola é o ambiente que oferece condições para que os alunos se desenvolvam plenamente e se tornem cidadãos dignos. É necessário adotar medidas inclusivas na organização escolar, enfrentando desafios, capacitando professores e abrindo perspectivas para uma educação verdadeiramente inclusiva. Uma mudança efetiva requer uma reestruturação do modelo educacional, com foco no ensino para todos. As escolas precisam ser reorganizadas pedagogicamente, promovendo a cooperação, o diálogo, a solidariedade, a criatividade e o pensamento crítico. Os alunos devem ter tempo e liberdade para aprender, sem segregação ou reprovação. Além disso, é essencial investir na formação e valorização dos professores, para que possam atender às necessidades de todos os alunos, sem exceções. Quando um aluno enfrenta dificuldades, é crucial analisar e avaliar o ensino oferecido a toda a turma. Ele é um indicador importante da 10 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA qualidade do trabalho pedagógico, pois o sucesso da maioria não garante que as necessidades de todos estejam sendo atendidas. Devemos agir com cuidado e responsabilidade, trabalhando juntos para garantir que todos os alunos sejam incluídos e recebam a atenção necessária para alcançar seu pleno potencial. OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA A educação inclusiva é uma abordagem que visa atender a todos os alunos, sejam eles considerados “normais” ou aqueles que possuem alguma deficiência, permitindo que aprendam uns com os outros. Essa interdependência é essencial para garantir uma educação de qualidade para todos os estudantes. No entanto, a implementação da educação inclusiva no Brasil tem sido um desafio para os profissionais da área educacional. Os direitos específicos das pessoas com deficiência derivam de suas necessidades particulares. É fundamental entender que as pessoas sem deficiência e as pessoas com deficiência não são “iguais”. O ponto central dos direitos das pessoas com deficiência é o direito à sua própria dignidade humana. Independentemente da origem, natureza e gravidade de suas incapacidades, elas têm os mesmos direitos que os demais cidadãos, incluindo o direito a uma vida digna e tão normal quanto possível. Isso implica que as pessoas com deficiência desfrutam dos mesmos direitos civis e políticos que os demais indivíduos (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994). Segundo as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (2001), são considerados alunos com deficiência aqueles que apresentam dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares. Isso pode incluir dificuldades de comunicação e necessidade de linguagens e códigos diferenciados dos demais alunos. Além disso, alunos com altas habilidades ou superdotação, que apresentam grande facilidade de aprendizagem e rápida assimilação de conceitos, procedimentos e atitudes, também são considerados dentro dessa categoria. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 11 TIPOS DE DEFICIÊNCIAS E SUAS CARACTERÍSTICAS O conceito de deficiência refere-se à ausência ou disfunção de uma estrutura psíquica, fisiológica ou anatômica, relacionada à atividade biológica da pessoa, conforme definido pela Organização Mundial da Saúde. A compreensão das diversas formas de deficiência é essencial para promover a inclusão efetiva na educação. A deficiência intelectual é caracterizada por limitações nas habilidades mentais gerais, afetando aspectos como raciocínio, resolução de problemas e comunicação. Indivíduos com essa condição podem enfrentar dificuldades significativas na aprendizagem e no gerenciamento de atividades cotidianas, além de apresentarem uma aparente idade mental inferior à real. Por outro lado, a deficiência auditiva abrange uma perda parcial ou total da audição, podendo variar desde surdez leve até surdez profunda. Esta condição pode ser causada por fatores genéticos, lesões na orelha ou em outras partes do aparelho auditivo. A deficiência visual refere-se à limitação ou perda das funções básicas do olho e do sistema visual, podendo resultar em cegueira total ou baixa visão. Condições como degeneração macular, glaucoma e catarata são exemplos que podem causar baixa visão. Além disso, a deficiência motora ou física afeta a mobilidade da pessoa, podendo ser congênita ou adquirida. Essa condição pode envolver diferentes graus de paralisia, desde a paralisia em um membro do corpo até a paralisia do pescoço para baixo. A deficiênciaa dificuldade de melhores posições e promoção no mercado de trabalho. Inicialmente, escolhemos a formação acadêmica em Comunicação Social para trabalharmos com design e produção multimídia (áreas que minimizavam a necessidade de comunicação oral). No entanto, ao percebermos que nossas criações eram apresentadas por outros, sem o devido crédito, decidimos migrar para uma de nossas outras paixões: a educação. Na sala de aula, nossas disfluências são minimamente percebidas pelos estudantes, o que pode revelar uma interessante especulação sobre a dinâmica na relação professor-aluno no contexto da gagueira em que essa percepção reduzida das disfluências pode ser atribuída a diversos fatores que se entrelaçam no ambiente educacional. Dentre os fatores, podemos pontuar o foco no conteúdo, em que os alunos PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 77 tendem a se concentrar mais na mediação do aprendizado proporcionada e nas informações transmitidas pelo professor do que em suas características de fala e a familiaridade que, também, pode desempenhar um papel significativo nesse processo pois com o passar do tempo os estudantes se habituam ao padrão de fala do professor, tornando as disfluências parte integrante e naturalizada da comunicação em sala de aula. O ambiente de respeito cultivado em sala de aula contribui substancialmente para essa dinâmica ao passo que um espaço educacional que promove a aceitação da diversidade pode minimizar o foco nas diferenças de fala, tanto do educador como também dos estudantes. Nesse sentido, Acioli (2009) enfatiza a importância de um clima de aceitação e compreensão para o bem-estar comunicativo livre de violências a pessoas que gaguejam. A maturidade dos alunos é outro fator relevante. Dependendo da faixa etária e do desenvolvimento cognitivo e emocional dos estudantes, pode haver uma maior compreensão e aceitação das diferenças individuais, incluindo as características de fala do professor. No contexto laboral, as pessoas com distúrbios de fala frequentemente enfrentam discriminação e preconceito em que um indivíduo pode ser subvalorizado devido a características que o desviam da norma. Essa subvalorização se manifesta em processos seletivos, onde a fluência verbal é frequentemente associada à competência profissional. O estudo de Tette (2024) evidenciou os impactos da gagueira na trajetória profissional dos indivíduos afetados e revelou que pessoas sem gagueira frequentemente percebem este transtorno como um obstáculo considerável para a inclusão profissional e social dos indivíduos que gaguejam ao passo que a existência de um consenso generalizado na sociedade de que determinadas profissões, especialmente aquelas que demandam comunicação intensiva, são menos adequadas para pessoas com gagueira. Um aspecto interessante destacado por Tette (2024) é a manifestação de crenças estigmatizantes relacionadas à comunicação de pessoas com gagueira. Estas crenças não se limitam apenas a percepções sociais, mas se traduzem em práticas discriminatórias concretas nos ambientes de trabalho. Gabel (2015) havia anteriormente identificado que tais estigmas resultam em limitações tangíveis nas escolhas de carreira e criam barreiras para a progressão profissional, dificultando o acesso a promoções. 78 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Os impactos da gagueira transcendem as esferas social e profissional, estendendo-se também ao âmbito financeiro. Gerlach et al. (2018) apresentaram dados alarmantes que indicam que adultos que gaguejam frequentemente enfrentam desvantagens econômicas significativas. Estes indivíduos tendem a auferir rendimentos inferiores, encontram-se mais frequentemente em situações de subemprego ou até mesmo fora do mercado de trabalho em proporções mais elevadas quando comparados a adultos sem gagueira. Butler (2014) oferece uma possível explicação para essa disparidade econômica, destacando que as habilidades e competências comunicativas estão entre as características mais valorizadas e requisitadas pelos empregadores no mercado de trabalho contemporâneo. Esta realidade coloca os indivíduos que gaguejam em uma posição potencialmente desvantajosa no processo de seleção e progressão profissional. Essa percepção é reforçada por práticas organizacionais que valorizam a comunicação fluente como um indicador de liderança e eficácia. Na esfera social e afetiva, as pessoas com gagueira e disfemia enfrentam desafios que afetam sua autoestima e relações interpessoais. Goffman (1981) discute como os indivíduos com características desviantes são estigmatizados e marginalizados, e isso é particularmente verdadeiro para aqueles com distúrbios de fala. A disfluência é frequentemente vista como um sinal de incompetência ou deficiência, o que pode levar à exclusão social. A questão da autopercepção, abordada por Tette (2024), traz contribuições para a compreensão da experiência subjetiva de pessoas que gaguejam, especialmente no contexto da comunicação e fala em público. A autora apresenta uma análise das complexidades enfrentadas por indivíduos que gaguejam, revelando nuances importantes sobre como eles percebem suas próprias habilidades comunicativas. Tette (2024) observou que a maioria dos indivíduos que gaguejam apresenta uma autopercepção negativa de sua capacidade de falar e se comunicar, particularmente em situações de fala pública. Essa percepção negativa não se limita apenas às disfluências observáveis, mas engloba também a tensão muscular experimentada e os sentimentos negativos associados ao ato de falar. Essa constatação evidencia o impacto PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 79 psicológico da gagueira, que vai além dos aspectos puramente motores da fala. O estudo identificou uma gama de sentimentos negativos comumente experimentados por pessoas que gaguejam, incluindo medo, timidez, ansiedade, vergonha, nervosismo e insegurança. Embora esses sentimentos também sejam relatados por pessoas sem gagueira em situações de fala pública, com 54% relatando medo de falar em público, essa descoberta sugere que a ansiedade de fala pública é um fenômeno generalizado, mas possivelmente mais acentuado em pessoas que gaguejam. Essa comparação oferece uma interessante perspectiva sobre a universalidade de certos desafios comunicativos, ao mesmo tempo em que destaca as dificuldades específicas enfrentadas por pessoas que gaguejam. As contribuições de Tette (2024) fazem-se interessantes para o campo da educação inclusiva e para a quebra de barreiras e paradigmas relacionados à fluência no ambiente escolar e promoção da diversidade ao sugerirem a necessidade de abordagens que não se concentrem na redução das disfluências, mas no fortalecimento da autoestima, na redução da ansiedade comunicativa e no desenvolvimento de habilidades sociais e comunicativas. A trajetória de quem é percebido como sujeito disfluente, marcado pela superação dos desafios impostos pela gagueira, oferece um interessante ponto de partida para discussões sobre inclusão e educação. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A fluência e a disfluência são conceitos complexos que não podem ser reduzidos a definições simplistas de normalidade e patologia, e suas fronteiras são tênues e contextualmente determinadas onde a promoção de uma compreensão mais inclusiva e menos estigmatizante das vozes atípicas é necessária para adotar uma abordagem que considere as dimensões sociais, culturais e históricas da comunicação. Nossa narrativa oferece caminhos de como a inclusão de estudantes com distúrbios de comunicação, como a gagueira, pode ser aplicadas na prática, onde a jornada pessoal e profissional deste autor ilustra a importância de uma abordagem integral de uma educação para todos, que considere não apenas as necessidades específicas dos indivíduos, mas também seu potencial de contribuição para a sociedade. 80 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVAAs barreiras enfrentadas por pessoas com gagueira, disfemia e outros distúrbios de fala estão enraizadas em concepções normativas de fluência e competência comunicativa. A análise crítica dessas barreiras revela a necessidade de uma abordagem inclusiva e empática que valorize a diversidade comunicativa e promova a equidade de oportunidades. A transformação cultural e a quebra de barreiras atitudinais são essenciais para a garantia de que essas pessoas possam viver de forma plena e digna, contribuindo com suas habilidades e talentos únicos. Somos todos diferentes e há muito preconceito associando gagueira a deficiências intelectuais. Este ponto, inclusive, é tema central de nossa pesquisa no Mestrado em Educação Inclusiva na Universidade Federal de São Paulo em que pesquisamos estratégias em Comunicação Social que publicizam que a comunicação vai além da fala, e que não se há de negar a expressão oral a quem deseja falar. REFERÊNCIAS ACIOLI, Raquel Moura Lins. Violência familiar contra criança e ado- lescente na prática dos fonoaudiólogos: magnitude e conduta. 2009. Dissertação. Mestrado em Saúde Coletiva - Universidade Federal de Per- nambuco, Recife, 2009. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/hand- le/123456789/9375. Acesso em 03 jul. 2024. AZEVEDO, Pereira da Silva Gonçalves de. Uma análise discursiva da gagueira: trajetórias de silenciamento e alienação na língua. 2000. Disser- tação. Mestrado em Fonoaudiologia - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2000. Disponível em: https://www.pucsp.br/sites/ default/files/download/linguagem-subjetividade/biblioteca-virtual/u- ma_analise_discursiva_da_gagueira_trajetorias_de_silenciamento_e_alie- nacao_na_lingua.pdf. Acesso em 29 jun. 2024. BLOOD, Gordon W.; BLOOD, Ingrid M. Bullying in adolescents who stutter: Communicative competence and self-esteem. Contemporary Issues in Com- munication Science and Disorders, v. 31, n. Spring, p. 69-79, 2004. Dispo- nível em: https://doi.org/10.1044/cicsd_31_S_69. Acesso em 25 jun. 2024. BUTLER, Clare. Wanted–straight talkers: stammering and aesthetic la- bour. Work, employment and society, v. 28, n. 5, p. 718-734, 2014. Dis- ponível em: https://doi.org/10.1177/0950017013501956. Acesso em 15 jun. 2024. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 81 GABEL, Rodney. Job discrimination related to stuttering in adults. In: TE- LLIS, Glenç and KENNETH, O. St. Louis. Stuttering Meets Sterotype, Stigma, and Discrimination: An Overview of Attitude Research. First edi- tion. ed., Morgantown: West Virginia University Press, p. 91-105, 2015. Dis- ponível em: https://muse.jhu.edu/book/40216. Acesso em 14 jun. 2024. GERLACH, Hope et al. Stuttering and labor market outcomes in the Uni- ted States. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, v. 61, n. 7, p. 1649-1663, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1044/2018_JS- LHR-S-17-0353. Acesso em 17 jul. 2024. GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1981. LAZARUS, Richard S.; FOLKMAN, Susan. Stress, appraisal, and co- ping. Springer publishing company, 1984. SANTOS, Karoline Pimentel dos. Análise dialógica da fluência: contri- buições da perspectiva bakhtiniana. 2021. Tese. Doutorado em Linguística - Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/ handle/123456789/226950. Acesso em 10 jul. 2024. SILVA, Claudemir dos Santos. A mudança de posição na formação dis- cursiva em sujeitos com gagueira: uma análise discursiva. 2016. Disser- tação. Mestrado em Ciências da Linguagem – Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2016. Disponível em: http://tede2.unicap.br:8080/ handle/tede/823. Acesso em 16 jul. 2024. TETTE, Carine Cristine Arnoud. Autopercepção da comunicação de falantes com e sem gagueira. 2024. Dissertação. Mestrado em Fonoau- diologia - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marília, 2024. Disponível em: https://hdl.handle. net/11449/255115. Acesso em: 29 jun. 2024. VISCHI, Mariane Carvalho. A disfluência comum e gaga. 2017. Tese. Doutorado em Linguística e Língua Portuguesa - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista (Unesp) Araraquara, 2017. Dispo- nível em: http://hdl.handle.net/11449/150072. Acesso em 13 jul. 2024. 82 TANGIBILIZAR A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA PARA “CRIANÇAS DIFÍCEIS”: UM IMPERATIVO CONTEMPORÂNEO Jéssica Daniele Alegria Arca1 Marcio Hollosi2 1. INTRODUÇÃO Este capítulo suscita rupturas na formação docente no que concerne a compreensão e intervenção eficaz no processo de ensino-aprendizagem de “crianças difíceis”. A temática levanta inúmeras questões a respeito do conceito vygotskiano, principalmente acerca do entendimento do termo e da aplicabilidade contemporânea da teoria Histórico-Cultural com o objetivo de qualificar a práxis dos Profissionais da Educação. Organizamos o capítulo em três etapas: inicialmente contextuali- zamos a teoria Histórico-Cultural de Vygotsky e a relevância da temática na contemporaneidade, posteriormente abarcamos o conceito central de “ZDP” (Zona de Desenvolvimento Proximal) e “Criança Difícil” e, por fim, levantamos as observações introdutórias sobre a prática docente e possibilidades para futuras investigações. 2. CONTEXTUALIZAÇÃO DA TEORIA DE VYGOTSKY E RELEVÂNCIA DO TEMA NA CONTEMPORANEIDADE Vygotsky ([1928]2021) destaca a relevância das relações sociais e da cultura no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. 1 Mestranda em Educação Inclusiva – PROFEI – pela Universidade Federal de São Paulo. Especialista em Psicopedagogia com Ênfase em Educação Especial, em Al- fabetização e Letramento e em História e Cultura do Brasil. Graduada em Pedago- gia e em História. E-mail: jessica.alegria@unifesp.br 2 Professor Doutor do Programa de Mestrado Profissional em Educação Inclusiva - PROFEI - Universidade Federal de São Paulo - Unifesp. E-mail: hollosi@unifesp.br. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 83 Nesta perspectiva, a análise da “criança difícil” adquire um aspecto particularmente importante. Crianças que são constantemente rotuladas como “difíceis” ou “desafiadoras” externam comportamentos que podem, de acordo com o “senso comum”, limitar sua interação em ambientes educacionais e sociais. Compreender essas dificuldades à luz de Vygotsky, não apenas clarifica a origem desses comportamentos, mas também oportuniza caminhos para intervenções assertivas e humanizadoras. Objetivamos interpretar a “criança difícil” e a aplicabilidade dos conceitos centrais de Vygotsky para traçar caminhos de intervenção nos comportamentos atrelados à “criança difícil”, estabelecendo bases para os debates e pesquisas subsequentes. No contexto contemporâneo, a figura da “criança difícil” tem recebido destaque, demandando análises fundamentadas e intervenções efetivas. O conceito de “criança difícil” abarca comportamentos desafiadores, resistentes à disciplina tradicional. O referido fenômeno não é novo, mas a sua compreensão e a análise/ estudo das estratégias educacionais se tornam cada vez mais necessários. Vygotsky dedicou-se a investigar as interações entre o desenvolvimento cognitivo e o ambiente social da criança, culminando em uma base teórica sólida para abranger tais desafios. A sua teoria, focada na mediação social para a construção do conhecimento e desenvolvimento de habilidades cognitivas, propõe a exploração de novos métodos de intervenção, promovendo um desenvolvimento qualitativo. Portanto, a relevância deste tema habita na crucialidade de conjugar a teoria de Vygotsky com práticas educacionais atuais, vislumbrando o pleno desenvolvimento da criança. Vygotsky (1934/2021) enfatiza que o aprendizado é um processo socialmente construído e que acontece, em um primeiro momento, no plano interpessoal e, posteriormente, é internalizado no planointrapessoal. Ele introduziu a ideia de que as funções mentais superiores se desenvolvem através das interações sociais e culturais, destacando a relevância da linguagem como ferramenta essencial para a mediação do pensamento, possibilitando que a criança interprete e partilhe experiências. Através dessa interação, propicia-se a aquisição de habilidades e potencialidades que apoiem o desenvolvimento cognitivo: 84 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA (...)É verdade que o subdesenvolvimento de processos superiores não é um defeito primário e sim um defeito condicionado secundário. (...) Dessa forma, é para esse ponto que todos os esforços educacionais devem ser direcionados, para se quebrar a cadeia em seu ponto mais frágil. (VYGOTSKY, 1931, p. 199). O papel dos adultos e dos colegas mais experientes como facilitadores da aprendizagem é um ponto-chave nos estudos de Vygotsky, colocando esses sujeitos como imprescindíveis no processo de mediação do avanço da criança em suas capacidades e vislumbre do seu potencial máximo. 3. A ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL E A “CRIAN- ÇA DIFÍCIL” Segundo Vygotski ([1928]2001), a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) refere-se à distância entre o que a criança consegue realizar sozinha e o que pode realizar com o auxílio de um adulto ou de um colega mais experiente. Ele ressalta que o aprendizado acontece primeiramente através da interação no âmbito social, antes de ser internalizado no âmbito individual. Na ZDP, a criança situa-se em um estado de desenvolvimento potencial que pode ser estimulado e ampliado mediante intervenções adequadas. Essas intervenções são constituídas por demonstrações, questionamentos e suporte direto, transigido frequentemente às necessidades da criança. Esse processo é concebido como “andaimagem”3, no qual o adulto oferece auxílio estrutural temporário ao aprendiz, oportunizando a apreensão de novas habilidades. Portanto, a compreensão e aplicação da ZDP é essencial para pais e professores, pois permite reconhecer o momento preciso em que a intervenção pedagógica pode ser mais eficaz, promovendo um desenvolvimento emocional e cognitivo mais sólido e orientado ao pleno desenvolvimento da potencialidade da criança. O desenvolvimento infantil não pode ser compreendido como um processo isolado, mas sim como um complexo intimamente ligado 3 Scaffolding (andaimagem), termo cunhado inicialmente por Wood (1976), refere-se a um tipo de andaime ou apoio fornecido por um parceiro mais competente na consecução de uma tarefa que o aprendiz ainda não é capaz de realizar sozinho. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 85 ao ambiente social em que a criança está inserida. A teoria vygotskiana ratifica que as interações sociais são elementares para a internalização de conhecimentos e habilidades, sendo o meio através do qual a criança engendra seu aprendizado e desenvolvimento cognitivo. (...) É no comportamento coletivo que ela encontra o material para construir as funções internas, o que se dá durante o processo de desenvolvimento compensatório (VYGOTSKY, 1931, p.127). O enfoque Histórico-Cultural de Vygotsky sugere que o ambiente social possibilita diversos elementos mediadores, como as relações interpessoais, a linguagem e os dispositivos culturais, que exercem papéis preponderantes no desenvolvimento da criança. É por meio dessas interações que são evidenciados processos cognitivos mais avançados, favorecendo o desenvolvimento das capacidades de forma colaborativa e assistida. Portanto, a natureza e a qualidade das interações sociais, bem como a presença de pares engajados, são basilares no processo de aprendizagem. Essas interações não esculpem apenas o comportamento da criança, mas também sugestionam diretamente suas habilidades e potencialidades, reforçando a perspectiva de que o contexto social é fundamental no desenvolvimento infantil. A caracterização de uma “criança difícil” envolve o reconhecimento de comportamentos que destoam do esperado para sua faixa etária e contexto sociocultural. Estas crianças demonstram dificuldades em adaptar-se a ambientes ordenados, descumprindo regras e resistindo às figuras de autoridade. Sua interação social frequentemente é apontada por conflitos com pares e adultos, resultando em isolamento ou repulsão Esses comportamentos não podem ser compreendidos de forma isolada, mas sim através da investigação das interações sociais e contextos em que a criança está inserida. A “criança difícil” experimenta, com frequência, desafios adicionais, como dificuldades de comunicação e autorregulação emocional, que impactam negativamente em seu desenvolvimento social e acadêmico. Estes indivíduos necessitam de intervenções específicas e suporte direcionado para transpor barreiras e alcançar a plena potencialidade. A “criança difícil” envolve uma série de comportamentos que, quando avaliados em conjunto, podem revelar possíveis padrões significativos. A 86 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA idiossincrasia envolve a impulsividade, resistência às regras, à autoridade e, por vezes, a agressividade. Os desafios associados são diversos. Primeiramente, há o impacto direto no ambiente de aprendizagem, onde esses educandos podem criar distrações constantes, a interação com adultos e educadores torna-se complexa, exigindo intervenções frequentes e, em alguns casos, especializadas. Estes comportamentos podem ser influenciados por fatores internos, como características pessoais e temperamentais, e externos, como o contexto socioambiental e familiar. Compreender esses comportamentos é imprescindível para tangibilizar a aplicabilidade eficaz da teoria de Vygotsky, que considera a criança como um ser em contínuo desenvolvimento e amplamente influenciado pelo ambiente social. As particularidades da “dificuldade” podem ser compreendidas através das lentes da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) e da interação social, conceitos centrais na sua teoria. Vygotsky afirma que a aprendizagem e o desenvolvimento ocorrem, predominantemente, em contextos sociais, nos quais o papel dos adultos e pares experientes é fundamental. Neste contexto, a “criança difícil” tende a enfrentar desafios adicionais em virtude de uma descontinuidade entre suas potencialidades a serem trabalhadas e as demandas do ambiente. Essa criança, frequentemente, requer apoio estruturado para desenvolver seu potencial pleno, ratificando a importância do papel mediador dos educadores e das interações sociais significativas. Assim, compreender e intervir adequadamente na dinâmica de interação e mediação pode proporcionar melhorias substanciais no desenvolvimento dessas crianças. As interações sociais propiciam a expansão da ZDP, permitindo que a criança atinja novos níveis de potencialidade e compreensão. A mediação realizada por adultos e/ou pares experientes oferece um suporte que guia a criança por meio de desafios cognitivos. Além disso, a troca social contínua promove o desenvolvimento de funções mentais superiores, como pensamento abstrato, memória seletiva e raciocínio lógico. Assim, a interação social e a mediação são elementos essenciais para o crescimento intelectual e emocional da criança. Os educadores são responsáveis por oportunizar ambientes de aprendizagem acolhedores e desafiadores ao mesmo tempo, promovendo PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 87 a interação social e a colaboração entre as crianças. É fundamental que os Profissionais da Educação reconheçam e respeitem as particularidades de cada criança, flexibilizando as estratégias para atender às necessidades educacionais específicas. A intervenção efetiva dos adultos favorece a aquisição de novas habilidades, ajudando a “criança difícil” a transformar dificuldades em potencialidades, possibilitando oportunidades de crescimento e desenvolvimento integral. Uma abordagem vital inclui a incorporação de atividades culturaise lúdicas que conversem com o contexto social dos estudantes, tornando a aprendizagem mais contextualizada e significativa. A valorização da diversidade e a implementação de uma cultura inclusiva também são pilares basilares que garantem o acolhimento e envolvimento da criança no processo educacional. A preferência por avaliações formativas contínuas para mensurar o progresso dos estudantes e adequar as intervenções pedagógicas, permite que as necessidades educacionais específicas de cada criança sejam consideradas. A teoria de Vygotsky enaltece a importância de instrumentos culturais e da linguagem como mediadores do desenvolvimento social e cognitivo. Uma ferramenta importante é a scaffolding, ou andaime pedagógico, onde o professor oferta suporte temporário para apoiar a criança a alcançar objetivos que não conseguiria de forma autônoma. Este suporte deve ser adequado conforme a evolução da criança, permitindo um desenvolvimento ininterrupto dentro da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Perguntas abertas, por exemplo, encorajam a criança a formular um pensamento crítico e a articular o raciocínio lógico, mesmo que haja auxílio na elaboração das respostas em um primeiro momento, como em cartas com imagens e palavras que, na sequência correta, produzem um texto ou uma resposta coerente. O uso de tecnologias pode ser benéfico, recursos interativos possibilitam a personalização do ensino e conquistam a atenção dos estudantes. Ferramentas digitais, jogos educativos e aplicativos interativos podem ser compostos com abordagens “tradicionais” para complementar a integralidade da aprendizagem. 88 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 4. OBSERVAÇÕES INTRODUTÓRIAS SOBRE A PRÁTICA DOCENTE E PROPOSTAS PARA FUTURAS PESQUISAS O estudo das “crianças difíceis”, à luz da teoria de Vygotsky, possibilita um panorama rico em possibilidades para a prática educacional. Compreender a ZDP e a relevância do contexto social permite vislumbrar estratégias mais eficazes para mediar o desenvolvimento dessas crianças. A teoria vygotskiana destaca a interação social como um componente crucial para o progresso cognitivo, enfatizando o papel primordial de adultos e educadores na mediação de experiências e aprendizagem significativa. Ao aplicarem essas ideias na prática, os professores promovem um ambiente de suporte e encorajamento, propiciando a superação dos desafios comportamentais, sociais e emocionais apresentados pelas “crianças difíceis”. A implementação de ferramentas e técnicas de mediação, niveladas com os princípios de Vygotsky, contribuem significativamente para a criação de um ambiente educacional inclusivo e equitativo. A prática docente contemporânea necessita revisitar os conceitos teóricos de Vygotsky para transpor, de maneira eficaz, os desafios apresentados pelas necessidades educacionais específicas de cada estudante e pelas crianças consideradas “difíceis”. A compreensão da ZDP revela-se imprescindível, pois possibilita que professores reconheçam o desenvolvimento potencial das crianças e planejem intervenções e flexibilizações pedagógicas que viabilizem o aprendizado através da interação social. Educar sob o horizonte vygotskiano implica em perceber a sala de aula como um espaço dinâmico, no qual as relações interpessoais e a interação social determinam o desenvolvimento cognitivo. A formação docente deve ser contínua e balizada no desenvolvimento de habilidades para interpretar, mediar e possibilitar o ensino, considerando as necessidades específicas e o potencial de cada criança. A prática docente requer engajamento com a construção de um ambiente de aprendizagem colaborativa, propiciando a participação plena das “crianças difíceis” no processo educacional e mediando seu desenvolvimento integral. Considerando a importância do tema e a complexidade da teoria de Vygotsky, aferimos incontáveis oportunidades para futuras pesquisas sobre PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 89 a “criança difícil”. É necessário investigar mais profundamente a interação entre distintos ambientes sociais e seus impactos no desenvolvimento de crianças com comportamentos “difíceis”. Estudos longitudinais poderiam oferecer panoramas mais robustos sobre como essas interações evoluem com o decorrer do tempo. Outro vértice a ser explorado é a eficácia de intervenções baseadas na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) em variadas faixas etárias e contextos culturais, visando uma compreensão mais ampla e diversa sobre as práticas mediadoras mais eficazes. A integração tecnológica nas estratégias e flexibilizações pedagógicas também se apresenta como uma área emergente. Investigar como essas ferramentas podem apoiar a interação social e o desenvolvimento das potencialidades individuais, especialmente em contextos escolares, pode culminar em abordagens inovadoras. Por fim, a realização de estudos comparativos entre variadas metodologias pedagógicas, objetivando a validação/ avaliação das práticas mediadoras mais significativas no desenvolvimento da “criança difícil”, contribuindo para a elaboração de políticas educacionais assertivas, equitativas e inclusivas. REFERÊNCIAS FEITOSA, J. et al. Olhares e expectativas de pais e professores sobre a criança “difícil”: o desenho das relações que a envolvem. 2012. 75 f. Tra- balho de conclusão de curso (Especialização). FIDALGO, S.S. Formação de Professores em Contextos de Inclusão: a discussão vygotskiana do conceito de compensação social/ Sueli Salles Fidalgo, Ma. Cecília C. Magalhães. Curitiba: Pontes Editores, 2017. FONTOURA, M. F. Análise dos processos de interação social dos alu- nos durante o jogo de regras e sua relação com a indisciplina nas aulas de Educação Física. In: SEMINÁRIO INDISCIPLINA NA EDUCA- ÇÃO CONTEMPORÂNEA: o que fazemos com as mentes rebeldes na escola?, 8., 2012, Curitiba, PR, p. 300-312. NOVAES, D. Relações de Ensino na Abordagem de Vigotsky: a criança, o autismo e o professor. Curitiba: CRV. 2024. RAMOS, A. M. As relações interpessoais em classes “difíceis” e não “di- 90 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA fíceis” do ensino fundamental II: um olhar construtivista. 2013. 298 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campi- nas, SP, 2013. VIGOTSKI, L.S. Obras Completas; Fundamentos de Defectologia. / Tradução do Programa de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais (PEE); revisão da tradução por Guillermo Arias Beatón. — Cas- cavel: EDUNIOESTE, 2019. VIGOTSKI, L.S. Problemas da Defectologia. Tradução e organização de Zoia Prestes e Elizabeth Tunes. São Paulo: Expressão Popular, 2021. WOOD, D.; BRUNER, J.S.; ROSS, G. The Role of Tutoring in Problem Solving. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v.17, 89-100, 1976. 91 TRAJETÓRIA DOS INVESTIMENTOS PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA Alex Sandro Pires de Lima1 Darlene Camargo Gomes de Queiroz2 INTRODUÇÃO Conforme a Carta Magna (Brasil, 1988), é dever do Estado, em parceria com as famílias e sociedade, a responsabilidade pela educação de qualidade. Conforme D’ávila et al. (2014), nem sempre a participação das famílias no que se refere ao acompanhamento dos pais e responsáveis com relação a educação dos filhos acontece como deveria, sendo a falta de tempo a maior alegação para que isso não ocorra como o ideal (Santos, 2012). Já o Estado deve prover os aportes necessários para que, por meio da educação, os alunos consigam usufruir de uma preparação que não se limite somente ao mundo do trabalho, mas também para a vida, sob a égide da cidadania plena (Moura, 2017). Para que isto aconteça, faz-se necessário a existência de políticas públicas que sejam voltadas para viabilizar o acesso e permanência dos alunos em seus respectivos cursos (Ferreira, 2021). Conforme Rua (2014), as políticas públicas representam as ações do Estado, no formato de programas ou projetos, os quais são voltados para a melhoria de aspectos deficitáriosque impedem a população de desfrutarem melhores condições de vida. Nesta senda, os investimentos em educação são necessários para que se as escolas possam cumprir a sua respectiva função social: a formação de cidadãos (Zabala, 2015). Estes aportes financeiros possibilitam as escolas 1 Mestrando em Educação Inclusiva Unifesp/Profei. CV: http://lattes.cnpq. br/8602111508028071. 2 Doutora em Humanidades, Culturas e Artes pela Unigranrio pólo Caxias, com pes- quisa na área do Ensino de Campo. CV: http://lattes.cnpq.br/0574406677021759. 92 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA o usufruto de melhores infraestruturas, bem como materiais didáticos e formação docente, numa dimensão em que os saberes dos professores sejam valorizados, tendo como enfoque a perspectiva reflexiva do trabalho professoral (Nóvoa, 2022; Schön, 2000). O estudo tem como objetivo geral elucidar sobre a magnitude dos investimentos para a educação brasileira. Enfatiza-se que estes investimentos são necessários não apenas pelo seu aspecto compulsório, mas também para que se possa aventar uma educação que seja reconhecida pela sua qualidade, onde os alunos são formados para a vida, sendo eles aptos a cooperar com a sociedade, numa dimensão crítica e emancipatória (Feitosa, 2019). INVESTIMENTOS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA A literatura sobre investimentos em educação destaca a sua importância para o desenvolvimento econômico, social e humano de uma nação. Diversos estudos apontam que países que priorizam a educação de qualidade obtêm melhores resultados em igualdade social, produtividade econômica e qualidade de vida. Além disso, a educação desempenha um papel crucial na formação de cidadãos conscientes e críticos, capazes de contribuir de forma positiva para a sociedade conforme Silva e Carvalho (2016). De acordo com Ignácio (2010), a estatística desempenha um papel importante na análise dos dados sociais, fornecendo uma perspectiva única ao aplicar princípios estatísticos na compreensão e interpretação dos fenômenos relacionados aos investimentos em educação. Essa abordagem permite avaliar de forma mais precisa se os percentuais de investimentos nessa área são realmente significativos. Ao utilizar métodos estatísticos, é possível examinar as tendências, identificar padrões e realizar testes de significância, contribuindo para uma análise embasada e fundamentada dos dados relacionados aos investimentos em educação. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 93 Tabela 1: Percentual do PIB Destinados à Educação Fonte: Adaptado de Menezes (2008) Para obter uma representação mais abrangente de um determinado momento social, é necessário incluir na amostra dados percentuais do PIB, esperança de vida, taxa de analfabetismo e crescimento populacional. Essas variáveis são importantes indicadores sociais que fornecem informações sobre o desenvolvimento econômico, bem-estar da população e níveis de educação. Ao considerar esses dados em conjunto, é possível obter uma visão mais completa e contextualizada do cenário social, permitindo uma análise mais precisa e embasada das condições e desafios enfrentados pela sociedade em determinado período. Gráfico 2: Taxas anuais de crescimento do PIB e média móvel de 10 anos: 1990 - 2000 Fonte: Eustáquio (2020). 94 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Investir na educação apenas com base no crescimento do PIB pode ser arriscado, pois é necessário considerar avanços tecnológicos e investimentos qualificados. O gráfico mostra um declínio contínuo antes de 2020, levantando a possibilidade de falta de estratégias eficazes. Ao analisar o gráfico, observa-se um declínio constante nos investimentos em educação antes de 2020. Isso indica a possibilidade de falta de estratégias eficazes para impulsionar o setor educacional. Apenas vincular os investimentos ao crescimento do PIB pode não ser suficiente para promover uma educação de qualidade. Atualmente, os investimentos na educação apresentam um cenário um tanto quanto controverso. Com a aprovação do Plano Nacional de Educação em 2014, estabeleceram- se metas específicas para aumentar os investimentos na área e melhorar a qualidade da educação no Brasil. No entanto, ainda existem desafios a serem superados, como a distribuição equitativa desses recursos e a eficácia na aplicação dos mesmos, conforme Barros e Vieira, (2021). Gráfico 3: Percentual de crianças que não sabem ler e escrever no Brasil (2012 – 2021) Fonte: Corrá e Alves (2022). PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 95 A dificuldade na alfabetização das crianças brasileiras foi agravada durante a pandemia de 2020-2021, como evidenciado pelo gráfico. As diferenças estruturais entre crianças que não sabem ler e escrever resultam de diversos fatores, como acesso limitado à educação de qualidade, falta de estímulo ao desenvolvimento da linguagem, apoio familiar e comunitário insuficiente, além de deficiências no sistema educacional. Essas disparidades perpetuam o analfabetismo e acentuam as desigualdades sociais, afetando negativamente o futuro dessas crianças e restringindo suas oportunidades de crescimento pessoal e profissional. É crucial investir em políticas educacionais inclusivas e abordagens pedagógicas eficazes para garantir que todas as crianças possam desenvolver plenamente suas habilidades de leitura e escrita (UNESCO, 2021) De acordo com Frigotto (2013), a classe dominante brasileira apoia um governo que torna o país cada vez mais frágil. Para construir uma nação autônoma e soberana, é fundamental investir em educação de qualidade e ciência e tecnologia, evitando a concentração de riqueza e a existência de uma grande massa de pobres e miseráveis. Investir em educação de qualidade e em ciência e tecnologia é mais que uma necessidade, é uma urgência para o Brasil. Nas palavras de Frigotto (2013), a classe dominante brasileira apoia um governo que enfraquece progressivamente o país. Para romper com esse ciclo e construir uma nação autônoma e soberana, é preciso priorizar a educação como pilar fundamental de transformação social (Freire, 2019). Ao analisar a trajetória dos investimentos em educação no Brasil, observa-se que houve avanços ao longo dos anos, porém, também existem desafios e retrocessos. Desde a Constituição de 1934, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino primário, até a Constituição de 1988, que ampliou os direitos educacionais, houve um reconhecimento gradual da importância da educação na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. No entanto, as conjunturas políticas e econômicas influenciaram diretamente os investimentos na área educacional. Momentos de crise econômica, instabilidade política e falta de priorização da educação resultaram em cortes de verbas e limitações nos recursos destinados ao setor. Isso impactou diretamente a qualidade da educação oferecida e dificultou o alcance de metas e objetivos estabelecidos. 96 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Sugestões referentes aos investimentos na educação brasileira • Ampliar o percentual do orçamento destinado à educação, assegurando recursos suficientes para a melhoria da infraestrutura escolar, capacitação de professores e aquisição de materiais didáticos adequados (Castro; Cruz, 2022). • Implementar políticas de valorização e formação continuada dos profissionais da educação, reconhecendo a importância do papel do professor no processo de ensino- aprendizagem (Aguiar; Sheibe, 2010). • Promover a participação ativa da comunidade escolar, envolvendo pais, alunos e demais membros da comunidade na definição de metas e no acompanhamento da qualidade da educação oferecida (Ganhão, 2022). • Estabelecer parcerias com o setor privado e organizações não governamentais para diversificar as fontes de financiamento e buscar recursos adicionais para investimentos em infraestrutura, tecnologia e programas educacionais inovadores. (Oliveira;Borges, 2013). • Priorizar a educação infantil e o ensino fundamental, garantindo o acesso universal e de qualidade desde os primeiros anos de vida, o que é essencial para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças (Rosa, 2008). • Incentivar a pesquisa científica e a inovação educacional, buscando soluções criativas e eficazes para os desafios enfrentados no sistema educacional brasileiro(Ferreira, 2008). • Promover políticas de inclusão e equidade, garantindo igualdade de oportunidades e acesso à educação de qualidade para todos os grupos sociais, incluindo pessoas com deficiência, minorias étnicas e comunidades tradicionais. (Sá; Ribeiro Gonçalves, 2023). CONCLUSÃO Ao longo das últimas décadas, os investimentos na educação brasileira têm sido objeto de discussão e debate. No passado, os recursos destinados à educação não acompanharam o crescimento econômico do país, resultando em deficiências na qualidade da educação oferecida. Diante da importância da educação como instrumento de transformação social, é fundamental que os investimentos nessa área PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 97 sejam contínuos e consistentes. É preciso superar as limitações políticas e econômicas, buscando estratégias eficazes de financiamento e aplicação dos recursos destinados à educação. Além disso, é necessário garantir uma gestão eficiente e transparente, que assegure a correta utilização dos recursos e promova uma educação de qualidade para todos os cidadãos. Em suma, investir de forma significativa e estratégica na educação é fundamental para o desenvolvimento do país e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. É preciso reconhecer a importância da educação como um investimento de longo prazo, capaz de transformar vidas e impulsionar o progresso social e econômico. Somente por meio de uma educação de qualidade, acessível a todos, poderemos construir um futuro promissor para as crianças e jovens brasileiros. Diante da importância da educação para o desenvolvimento do Brasil, é fundamental que os investimentos na área sejam constantemente avaliados e aprimorados. Este artigo evidenciou a necessidade de aumentar os percentuais do PIB destinados à educação, bem como melhorar a gestão e o uso eficiente dos recursos. Além disso, destacou a relevância de investir na formação e valorização dos professores, na melhoria da infraestrutura e na adoção de políticas educacionais eficazes. Somente com um compromisso coletivo e contínuo poderemos alcançar uma educação de qualidade, que contribua para o desenvolvimento integral dos indivíduos e do país como um todo. REFERÊNCIAS AGUIAR, M. Â. S.; SHEIBE, L. Formação e valorização. Retratos da Escola, v. 4, n. 6, 2010. ALVES, E.D. O Brasil terá sua pior recessão em 2020 e a pior década da história. EcoDebate, 20 de junho de 2020. Disponível em: https:// www.ecodebate.com.br/2020/06/26/o-brasil-tera-sua-pior-recessao-em- -2020-e-a-pior-decada-perdida-da-historia-artigo-de-jose-eustaquio-diniz- -alves/. Acesso em: 20 jun. 2024. BARROS, F. C.; VIEIRA, D. A. P. Os desafios da educação no período da pandemia. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 1, p. 826- 849, 2021. BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil. Bra- sília: Senado Federal, 1988. 98 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA BRASIL. Lei n° 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacio- nal de Educação – PNE e dá outras providências. Brasília :Senado Fede- ral, 2014. CASTRO, H. A. S.; CRUZ, L. C.; SCHIMITH, C. D. O desenvolvimento da educação de jovens e adultos em Belém do Pará: uma análise a partir da alocação dos recursos públicos no município. Revista Gestão e Conheci- mento, v. 16, n. 2, p. 531-546, 2022. CORRÁ, D.; ALVES, J. Número de crianças brasileiras que não sabem ler e escrever cresce 66% na pandemia. CNN Brasil, 8 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/numero- -de-criancas-brasileiras-que-nao-sabem-ler-e-escrever-cresce-66-na-pande- mia/. Acesso em: 20 jun. 2024. D’ÁVILA, L. S. et al. Adesão ao Programa de Educação Permanente para médicos de família de um Estado da Região Sudeste do Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 19, p. 401-416, 2014. FEITOSA, R.S. O Projeto Integrador (PI) como instrumento de efe- tivação do currículo integrado. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica). Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Amazonas, Manaus, 2019. FERREIRA, M. S. Os Centros de Pesquisas Educacionais do INEP e os estudos em ciências sociais sobre a educação no Brasil. Revista Brasileira de Educação, v. 13, p. 279-292, 2008. FERREIRA, J.A.O.A. Criação de um painel de controle de evasão es- colar no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ama- zonas. Dissertação (Mestrado em Educação Profissional em Educação Profissional e Tecnológica). Instituto Federal de Educação, Ciência e Tec- nologia do Amazonas, Manaus, 2021. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática edu- cativa. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019. FRIGOTTO, G. Ensino Médio e técnico profissional: disputa de concep- ções e precariedade. Le Monde Diplomatique Brasil, v. 6, n. 68, p. 28-29, 2013. GANHÃO, A. R. F. Relação entre famílias e escola: desafios e estraté- gias para promover a participação ativa das famílias na escola num Ter- ritório Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP). Dissertação (Mes- trado em Ciências da Educação). Universidade do Porto, Porto, 2022. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 99 IGNÁCIO, S. A. Importância da estatística para o processo de conheci- mento e tomada de decisão. Revista Paranaense de Desenvolvimento-R- PD, n. 118, p. 175-192, 2010. MOURA, D. H. Programa Nacional de Integração da Educação Profissio- nal com a Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos–PROEJA: Entre potencialidades e en- traves diante de projetos societários em disputa. Educação Profissional e Tecnológica em Revista, v. 1, n. 1, p. 5-26, 2017. OLIVEIRA, P. R. P.; BORGES, F. Q. Organizações não-governamentais e captação de recursos diante dos novos modelos de cooperação. Revista Pretexto, v. 14, n. 3, p. 11-27, 2013. REIS, José. Educação é investimento. São Paulo: Ibrasa, 1968. ROSA, R. C. A Garantia do Direito Humano à Educação de qualidade: a oferta da Educação Infantil no Rio Grande do Sul como novo desa- fio do Ministério Público. Ijuí, RS: Promotora de Justiça do RS. Unijuí, 2008. RUA, M.G. Políticas públicas. 3 ed. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração da UFSC, 2014. SÁ, M. A.; RIBEIRO, E. A; GONÇALVES, T. G. G. L. Escolares indí- genas com deficiência no Brasil: uma análise a partir do Censo Escolar da Educação Básica (2010, 2015 e 2020). Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 104, p. 1-19, 2023. SANTOS, C.P. “Ele é multifacetado”: as representações sociais do fra- casso escolar construídas e compartilhadas por psicólogos educacionais. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Universidade Federal de Pernam- buco, Recife, 2012. SCHÖN, D. Educando o profissional reflexivo. Um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2000. SILVA, H. F.; CARVALHO, A. B. G. P. Investimentos em educação, pes- quisa e desenvolvimento como estratégia para o desenvolvimento das na- ções. Redin-Revista Educacional Interdisciplinar, v. 5, n. 1, 2016. ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Penso, 2015. 100 POLÍTICAS PÚBLICAS DO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE): SERVIÇO DE APOIO DISPONÍVEL AOS ESTUDANTES DA REDE REGULAR DE ENSINO Ivanice Borges da Silva1 Lucimara Pereira de Araújo2 Danielli Gualda Marins3 Antônia Boldarini de Godoy4 INTRODUÇÃO O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é um serviço da educação fazendo parte das políticas públicas para a educação especial inclusiva em nosso país.Nas Redes de Ensino Regular Estadual e Municipal em São Paulo, ele vem sendo ofertado ao estudante matriculado elegível à Educação Especial, devidamente diagnosticado com alguma das deficiências citadas nas leis regulamentadoras, sendo um atendimento garantido. Deve ser institucionalizado no Projeto Político Pedagógico (PPP) das Unidades Escolares. Segundo a Lei Federal nº 13.146, de 06 de julho de 2015, que Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa 1 Professora de Ensino Fundamental II e Médio, graduada em Letras, Artes Visuais e Pedagogia. Especializada em Deficiência Intelectual e Transtorno do Espectro Autista. Mestranda em Educação Inclusiva pelo PROFEI – Unifesp. Email: ivanice. silva@unifesp.br. 2 Professora de Ensino Fundamental I, graduada em Pedagogia. Especializada em Educação. Mestranda em Educação Inclusiva pelo PROFEI – Unifesp. Email: luci- mara.araujo@unifesp.br. 3 Professora Doutora em Educação Especial pela Universidade Federal de São Car- los, UFSCAR, Brasil. Email: dany_gualda@yahoo.com.br. 4 Professora Mestre em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista, UNESP, Brasil. Email: mabolgoy@uol.com.br. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 101 com Deficiência), considera-se pessoa com deficiência, aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. A partir de 2012, com a publicação da Lei Federal nº 12.764, de 27 de dezembro, o Transtorno do Espectro Autista passou a ser reconhecido como deficiência no Brasil para todos os efeitos legais. Instituindo a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e estabelecendo diretrizes para sua consecução. De acordo com o Decreto nº 67.635, de 06 de abril de 2023, que dispõe sobre a Educação Especial na rede estadual de ensino e dá providências correlatas, em seu artigo 4º, são considerados estudantes elegíveis aos serviços da Educação Especial: I - os estudantes com deficiência, assim considerados aqueles abrangidos pelo “caput” do artigo 2º da Lei federal nº 13.146, de 6 de julho de 2015; II - os estudantes com Transtorno do Espectro Autista - TEA, assim considerados aqueles abrangidos pelo § 1º do artigo 1º da Lei federal nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012; III - os estudantes com altas habilidades ou superdotação, assim considerados aqueles que demonstram elevado potencial intelectual, acadêmico, de liderança, psicomotor e artístico, de forma isolada ou combinada, além de apresentarem grande criatividade e envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse. Parágrafo único - O disposto neste decreto aplica-se, também, aos estudantes diagnosticados com Transtorno Global de Desenvolvimento – TGD (Brasil, 2023a). Considerando o contido na legislação vigente, a Resolução SE nº 21/2023 de 21 de junho de 2023 – Dispõe sobre a regulamentação da Política de Educação Especial do Estado de São Paulo e do Plano Integrado para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo – TEA, em seu artigo 3º a Secretaria da Educação, nos termos do artigo 5º do Decreto nº 67.635/2023 e visando à redução e à eliminação de barreiras no ambiente escolar, disponibiliza, portanto, os seguintes serviços: 102 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA I – Professor Especializado; II – Atendimento Educacional Especializado – AEE no contraturno escolar ou turno extra; III – Projeto Ensino Colaborativo no turno escolar como forma de AEE expandido; IV – Recursos Pedagógicos, de Acessibilidade e de Tecnologia Assistiva; V – Profissional para atuar com estudantes com deficiência auditiva e surdez ou surdo- cegueira; VI – Serviço de Profissional de Apoio Escolar – Atividades de Vida Diária – PAE/AVD; VII – Serviço de Profissional de Apoio Escolar – Atividades Escolares – PAE/AE (Brasil, 2023b). No âmbito Municipal a Instrução Normativa da Secretaria Municipal de Educação – SME nº 34 de 01 de novembro de 2022 e a Portaria Secretaria Municipal de Educação - SME Nº 9.268 de 15 de Dezembro de 2017, alteram a Portaria nº 8.764 de 23 de Dezembro de 2016, que regulamenta o Decreto nº 57.379, de 13 de outubro de 2016, que Institui no Sistema Municipal de Ensino a Política Paulistana de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva. Em conformidade com as demais legislações em seu art. 2º consideram como elegíveis da educação especial os educandos e as educandas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. Sendo assim, neste capítulo vamos conceituar o AEE e suas formas de atendimento aos estudantes, além de abordar quais políticas públicas garantem esse atendimento. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE) Todos os educandos têm o direito à educação e o Estado tem o dever de prestá-la. Isso significa, em primeiro lugar, que o Estado tem que se preparar para oferecer, a todos, os serviços educacionais de ensino, de acordo com os princípios e objetivos estatuídos na Constituição Federal. Todo indivíduo possui direito à educação básica obrigatória, conforme artigo 208 da Constituição Brasileira de 1988. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 103 I - Educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. (BRASIL, 1988). O artigo 54 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), inciso III traz a mesma afirmação: “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”. Entretanto, só o acesso não é suficiente, é necessária a permanência e a mesma com qualidade de ensino. Ao considerar o direito à educação por todos citados na Constituição Federal de 1988, bem como decretos e políticas visando a educação inclusiva, o Ministério da Educação (MEC) institui as Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado (AEE) na educação. Este foi normatizado pelo do Decreto nº 6.571, de 18/09/2008. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 23 de dezembro de 1996, trata em seu capítulo 5 sobre a Educação Especial e suas perspectivas. Em seu artigo 58, parágrafo 1º garante que seja disponibilizado serviço de apoio especializado para atender ao aluno, quando se fizer necessário. Neste artigo outras providências são tomadas, como a oferta da educação especial desde a educação infantil e durante toda a vida. Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. (Redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013) § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial. § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. § 3º A oferta de educação especial, nos termos do caput deste artigo, tem início na educação infantil e estende-se ao longo da vida, observados o inciso III do art. 4º e o parágrafo único do art. 60 desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 13.632, de 2018) 104 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Sendo assim, se faz fundamental a matrícula efrequência em AEE nas modalidades disponibilizadas. Segundo o decreto municipal nº 57.379 de 13 de outubro de 2016, o AEE tem por objetivo identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras existentes no processo de escolarização e desenvolvimento dos estudantes, visando inclusão satisfatória, além de considerar as suas necessidades específicas e assegurar sua participação plena e efetiva nas atividades escolares. Esse suporte complementar age no intuito de auxiliar o processo de formação dos estudantes. (Carneiro, 2023). O AEE, tanto na Rede Estadual de Ensino, quanto na Municipal, pode ocorrer de três formas, conforme consta nas resoluções vigentes, SE 21/2023 e decreto SME nº 57.379/2016, alterada pela Instrução Normativa – SME nº 34/2022, através de atendimento no contraturno escolar, por meio de trabalho itinerante ou colaborativo. No atendimento em contraturno estão disponibilizadas as Salas de Recursos Multifuncionais. Essas constituem-se em ambientes equipados com mobiliários e materiais didáticos e pedagógicos para a oferta do AEE visando auxiliar o estudante no seu processo de aprendizagem, trabalhando de forma concreta, provocando situações de aprendizagem e estratégias com atividades da vida diária, objetivando não só o viés pedagógico, mas também a independência da criança, ajudando-a a desenvolver suas habilidades com autonomia diante das situações reais de seu cotidiano. Esses atendimentos em Salas de Recursos ofertados no contraturno, possuem caráter complementar ou suplementar para educandos e educandas elegíveis da educação especial, desde que identificada a necessidade deste serviço, após avaliação pedagógica/estudo de caso. Embasados na Resolução Estadual nº 21/2023, há a oferta de duas aulas semanais e oito mensais ao estudante de forma individualizada, conforme artigo 10º. No caso de interesse do estudante, quando a interação social e a sociabilização forem objeto de estímulo, o atendimento poderá ser realizado em duplas. Há ainda a possibilidade de ampliar a quantidade de atendimentos por até quatro aulas semanais, com autorização da equipe de educação especial da Diretoria de Ensino, conforme §3º do artigo citado anteriormente. É fundamental que os professores trabalhem em conjunto, pois o aluno é um ser único e indivisível. É necessário garantir seus direitos quanto PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 105 ao espaço físico, seus valores, saberes e principalmente sua permanência nas salas regulares. Quando não há espaço físico disponível na Unidade Escolar, o atendimento pode ocorrer em modalidade Itinerante/Itinerância, que é o atendimento realizado por Professor Especializado que se desloca até a escola de matrícula do estudante quando comprovada a inviabilidade de abertura de Sala de Recursos em espaço físico próprio, o atendimento ocorre em Espaço Multiuso, que é considerado o ambiente disponível na unidade escolar equipado com recursos didáticos e pedagógicos com materiais e recursos de acessibilidade para o atendimento. No caso de Escolas Estaduais em Programa de Ensino Integral, caberá a cada unidade escolar garantir o AEE ao estudante, na forma mais adequada ao atendimento individualizado, seja em SRM ou Modalidade Itinerante em Espaço Multiuso sem comprometer o acesso aos componentes curriculares, conforme Resolução SE nº 21/2023, artigo 11. Para educandos da Rede Municipal, com matrícula em período integral, conforme Portaria SME nº 8.764 de 2016, alterada pela Instrução Normativa nº 34/2022, artigo 23, §4º o atendimento previsto na forma contraturno escolar, em ampliação à sua jornada integral somente será ofertado nos casos em que o educando ou educanda, comprovadamente, não puder se beneficiar das formas de atendimento colaborativo ou itinerante. O Estado define no decreto nº 67.635/2023, na seção IV, nos artigos 12 e 13, atendimento colaborativo como forma de atuação articulada entre a equipe escolar e os Professores Especializados. O Projeto Ensino Colaborativo é estruturado nos seguintes eixos: I - articulação entre os professores regentes de classes comuns do ensino regular e o Professor Especializado; II - identificação, aperfeiçoamento e acompanhamento dos apoios, recursos e serviços para a inclusão; III - permanência de todos os estudantes, atendidos ou não pelos serviços da Educação Especial, no mesmo espaço físico, com o mesmo currículo, garantida a acessibilidade e a tecnologia assistiva; IV - formação continuada dos docentes para as práticas pedagógicas em âmbito do Projeto Ensino Colaborativo; V - orientação e esclarecimento à comunidade escolar, proporcionando diálogo acerca da cultura inclusiva e dos apoios, recursos e serviços da Educação Especial; VI - promoção de tempos e espaços para diálogo e planejamento das questões relativas à perspectiva inclusiva na unidade escolar (Brasil, 2023a). 106 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA No cenário Municipal, a Portaria SME nº 8.764 de 2016, alterada pela Instrução Normativa nº 34/2022, define o colaborativo como o trabalho desenvolvido dentro do turno, articulado com profissionais de todas as áreas do conhecimento, em todos os tempos e espaços educativos, assegurando atendimento das especificidades de cada educando e educanda, expressas no Plano de AEE, por meio de acompanhamento sistemático do PAEE (Brasil, 2016). É preciso investir no ensino colaborativo, habilidade essencial para o ensino aprendizagem. Então a parceria entre o professor da sala regular e o profissional de apoio, das salas de AEE, os especialistas e demais profissionais que integram o quadro escolar precisam caminhar juntos para que haja avanços na qualidade do ensino, a parceria é fundamental. Muitas vezes a forma como os serviços são oferecidos não favorecem o encontro e a interação entre esses profissionais, dificultando a colaboração. É preciso criar estratégias para trazer aproximação e transpor o distanciamento. É fundamental que haja interlocução entre a classe comum e a sala de recursos, o trabalho dos professores regentes devem estar articulados com o trabalho dos professores do AEE no que diz respeito à elaboração de estratégias pedagógicas e formativas e às metodologias, de modo a favorecer a aprendizagem e a participação dos educandos e educandas jovens e adultos no contexto escolar e na vida social, conforme a resolução vigente. Essa articulação pode ser fortalecida através dos momentos de formação coletiva que ocorrem nas unidades escolares. É fundamental que os professores trabalhem em conjunto, pois o aluno é um ser único e indivisível. É necessário garantir seus direitos quanto ao espaço físico, seus valores, saberes e principalmente sua permanência nas salas regulares (Carneiro, 2023 s/n). Propondo facilitar a necessária articulação entre o AEE e o ensino comum, os estudantes devem ser, preferencialmente, atendidos pelos serviços de Educação Especial da rede direta e encaminhados para as Instituições Conveniadas de Educação Especial, quando constatada a necessidade. Segundo o estabelecido no art. 11, do Decreto Municipal nº 57.379/2016, alterada pela Instrução Normativa – SME nº 34/2022. O professor é essencial para o sucesso das ações inclusivas, não somente pela grandeza do seu ofício, mas também em razão da função social do seu papel (CUNHA, 2020). PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 107 O Professor Especializado tem suas funções e atribuições descritas nos termos das resoluções vigentes. Na Rede Municipal de Ensino, este professor é denominado PAEE, Professor de Atendimento Educacional Especializado. O artigo 13 da Resolução Estadual nº 21/2023, em conformidade e cumprimento às funções previstas pelo artigo 8º, do Decreto nº 67.635/2023, aborda quais funções o Professor Especializado deve exercer. Na Portaria Municipal nº 8.764/2016 tais atribuições estão elencadas no artigo43. Em ambas as Redes de Ensino, compete ao Professor Especializado, entre outras funções, identificar as barreiras que impedem a participação plena dos educandos elegíveis da Educação Especial, acompanhar e avaliar a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagógicos e de acessibilidade, participar da elaboração, construção e manutenção do projeto político pedagógico da unidade escolar, zelando pela institucionalização do AEE, realizar a Avaliação Pedagógica Inicial – API de cada estudante (espécie de anamnese), elegível aos serviços da Educação Especial, dimensionando a natureza e o tipo de atendimento indicado, assim como o tempo necessário à sua viabilização, desenvolver plano educacional para atendimento e revisitar esse plano quantas vezes forem necessárias, contemplando estratégias/atividades que visam favorecer o desenvolvimento das habilidades em defasagem e avançar as habilidades já adquiridas, utilizar a tecnologia assistiva de forma a ampliar habilidades funcionais, orientar e fornecer suporte técnico ao aluno, família e funcionários da escola, sobretudo aqueles que possuem contato direto com o estudante. AVALIAÇÃO PEDAGÓGICA INICIAL (API) O caráter do atendimento será definido e direcionado através de um plano individualizado para cada estudante, este é um documento de responsabilidade central do Professor Especializado. Feito após Avaliação Pedagógica Inicial (API), que são atendimentos e avaliações com o estudante, com a aplicação de sondagens e observações voltadas para as habilidades adquiridas e em defasagem. Família e docentes, que possuem contato direto com o estudante colaboram para eficácia desta avaliação. 108 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA A Resolução SE nº 21/2023, conceitua como API, documento pedagógico realizado por Professor Especializado, na forma de estudo de caso, tendo como objetivo identificar, elaborar e organizar apoio, serviço e recursos pedagógicos e de acessibilidade para a participação efetiva dos estudantes elegíveis aos serviços da Educação Especial. Ele é composto por três partes, modelizadas no anexo I da Resolução SE nº 21/2023, sendo elas Informações Gerais do Estudante, a partir de Estudo de Caso, Aspectos Pedagógicos e Encaminhamentos Pedagógicos, com indicações de apoios, recursos e serviços que estejam comprometidas com a promoção da autonomia e da independência no processo de ensino e aprendizagem do estudante em classes da educação básica, com indicação do tempo necessário à sua viabilização. A API é, portanto, o meio inicial de observação e identificação, visando ao planejamento das ações que devem ser adotadas para redução ou eliminação de barreiras no ambiente escolar, conforme resolução citada anteriormente. Posteriormente ao API, é realizado o Plano de Atendimento Educacional Especializado, PAEE, este é encontrado no anexo II da Resolução SE nº 21/2023 e tem por objetivo identificar, elaborar, organizar e planejar intervenções pedagógicas para promoção das aprendizagens dos estudantes, além de discriminar a organização e frequência do atendimento, assim como quais atividades serão desenvolvidas para o atendimento do estudante e consta quais recursos a serem disponibilizados para o estudante. É indispensável que os professores tenham formações contínuas a fim de auxiliar o desenvolvimento dos estudantes, como afirma Cunha (2020) p. 14 e 15 “quanto melhor for a nossa formação, melhores serão os resultados dos nossos esforços”. A interlocução sistemática entre equipe escolar e família deve ocorrer para que sejam estabelecidos objetivos comuns de trabalho junto ao estudante, visando seu desenvolvimento global. Para a efetividade da Política de Educação Especial, aos profissionais envolvidos, tanto a Rede Estadual, quanto a Municipal garantem em legislação ações de formação continuada e formação em serviço nas temáticas da Educação Especial, desenvolvidas pela unidade escolar, Secretarias de Ensino ou promovidas pelos órgãos centralizados. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 109 CONSIDERAÇÕES FINAIS Atendendo ao objetivo dessa pesquisa foram abordados os conceitos de Atendimento Educacional Especializado e citadas as Políticas Públicas vigentes que embasam o direito assegurado aos estudantes, buscando apoiá-los em suas defasagens, sobretudo promovendo desenvolvimento de suas habilidades, focando nas potencialidades e plena participação escolar. Reiterando que o estudante com deficiência tem condições de aprender e evoluir em seu processo de aprendizagem, desde que haja apoios e serviços disponíveis a tal finalidade, ainda que necessitem de mais tempo e intervenções, o aprendizado é possível. Faz-se necessário apropriar-se das políticas públicas, indo para além de conhecê-las, compreendo a responsabilidade da escola e do educador que nela atua, de promover o ensino que incentive a autonomia do estuante em tudo que lhe for possível, ciente de suas limitações, mas com estratégias que estimulem as suas potencialidades, criando e adaptando metodologias e recursos necessários. Ao tomar conhecimento das garantias legais para o cidadão e a promoção de uma escola inclusiva, nos vemos na obrigação de lutar para que tais direitos sejam de fato cumpridos e não violados ou negligenciados. Os professores são fundamentais neste processo, pois estão diretamente em contato com os estudantes, promovendo meios para inclusão pedagógica e social. É essencial que educação e família trabalhem coletivamente em prol do desenvolvimento da criança, assegurando-lhe atendimento educacional especializado nas modalidades ofertadas, flexibilizando o currículo em sala regular e sugerindo que a família busque auxílio clínico com especialistas da área da saúde, conforme a necessidade de cada estudante. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Pro- mulgada em 5 de outubro de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/consti- tuicao/constituicao.htm#adct. Acesso em 09 ago. 2024. BRASIL. Câmara dos Deputados. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília, 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. 110 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Acesso em 11 ago. 2024. BRASIL. Ministério da Educação. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Congresso Nacional, 1996. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/l9394.htm Acesso em 10 ago. 2024. BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Es- pectro Autista; e altera o § 3º do art. 98 da Lei nº 8.112, de 11 de dezem- bro de 1990. Brasília, 2012. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm. Acesso em: 09 ago. 2024. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiên- cia). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 10 ago. 2024. BRASIL. Instrução Normativa da Secretaria Municipal de Educação – SME nº 34 de 01 de novembro de 2022. Altera a Portaria SME nº 8.764, de 2016, que regulamenta o Decreto nº 57.379, de 2016. Institui no Sis- tema Municipal de Ensino a Política Paulistana de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva. Disponível em: https://legisla- cao.prefeitura.sp.gov.br/leis/portaria-secretaria-municipal-de-educacao- -8764-de-23-de-dezembro-de-2016. Acesso em: 10 ago. 2024. BRASIL. Decreto nº 67.635, de 06 de abril de 2023a. Institui o Plano Estadual Integrado para Pessoas com Transtorno do Espectro do Au- tismo - PEIPTEA e dá providências correlatas. Disponível em: ht- tps://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/decreto/2023/decre-to-67634-06.04.2023.html. Acesso em: 10 ago. 2024. BRASIL. Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Resolução SE 21, de 21 de junho de 2023b. Dispõe sobre a regulamentação da Política de Educação Especial do Estado de São Paulo e do Plano Integrado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista. – Disponível em: https:// pesquisaseduc.fde.sp.gov.br/legislacao?pageNumber=6&ano=2023 Aces- so em 09 ago. 2024. CARNEIRO, Rafael Jacson da Silva. Considerações acerca do Atendi- mento Educacional Especializado - AEE. In: MEDEIROS, Janiara de Lima (Org.). Ensino e Educação: contextos e vivências. Campina Grande: Licuri, 2023, p. 215-227. v. 1. CUNHA, Eugênio. Autismo na escola: um jeito diferente de aprender, um jeito diferente de ensinar – ideias e práticas pedagógicas. 6 ed. Rio de Janeiro: WAK Ed., 2020. 111 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA Jéssica Daniele Alegria Arca1 Rosângela Miranda dos Santos2 1. INTRODUÇÃO A formação de professores para a educação sob uma perspectiva antirracista urge na contemporaneidade. A referida prática educacional objetiva não apenas a inclusão de conteúdos e metodologias que abarquem questões raciais, mas também a promoção de uma consciência crítica acerca das maneiras de opressão e disparidade social presentes na hodiernidade. A emergência da temática se insere em um contexto histórico marcado por legislações, políticas públicas e movimentos sociais que visam reparar as injustiças históricas sofridas por populações racializadas. Nesse sentido, a introdução de uma abordagem antirracista na educação requer a desconstrução de preconceitos e estereótipos, além da viabilização de um ambiente escolar mais justo e equitativo. Esse processo pressupõe um profundo compromisso ético por parte dos Profissionais da Educação, demandando uma formação continuada que capacite os professores a atuarem de maneira efetiva e transformadora. Para tal, é necessário explorar os fundamentos teóricos, os desafios institucionais e estruturais, bem como as estratégias e práticas educacionais que permeiam a formação de Profissionais da Educação para uma educação antirracista. 1 Mestranda em Educação Inclusiva – PROFEI – pela Universidade Federal de São Paulo. Especialista em Psicopedagogia com Ênfase em Educação Especial, em Al- fabetização e Letramento e em História e Cultura do Brasil. Graduada em Pedago- gia e em História. E-mail: jessica.alegria@unifesp.br. 2 Mestranda em Educação Inclusiva- PROFEI - pela Universidade Federal de São Paulo. Graduada em Letras, Pedagogia, Biologia e Artes Visuais. Especialista em Abordagem Reggio Emilia, Ensino Lúdico. Psicopedagogia e Práticas em Sala de Aula. Professora de Educação Infantil na Rede Municipal. E-mail: rosangela.san- tos29@unifesp.br. 112 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 2. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA Historicamente, as instituições de ensino no Brasil têm refletido e perpetuado desigualdades raciais que se manifestam na forma de preconceito e discriminação. Este fato é ratificado por diversos estudos que indicam a persistência de disparidades acentuadas no desempenho e nas oportunidades educacionais entre diferentes grupos raciais. Oportunizar uma educação antirracista prevê, portanto, uma profunda compreensão das dinâmicas históricas e sociais que sustentam o racismo estrutural. É essencial que o corpo docente esteja preparado para identificar e enfrentar essas questões, não apenas devido ao caráter ético/ moral, mas também para promover a equidade e a justiça social no ambiente escolar. No mais, a formação de Profissionais da Educação deve ser enviesada por paradigmas teóricos que sublinhem a importância da diversidade e da inclusão como pilares fundamentais do processo educativo. 2.1 Base Teórica Tecer uma educação antirracista exige uma base teórica robusta que aborde os conceitos fundamentais e os referenciais teóricos pertinentes. Esta fundamentação teórica é imprescindível para a formação de Profissionais da Educação capazes de questionar e desconstruir os discursos e práticas racistas presentes no ambiente educacional. É crucial compreender o contexto histórico e social do racismo e suas implicações na educação. A teoria crítica da raça, por exemplo, propicia ferramentas analíticas essenciais para compreender e examinar as relações de poder e a perpetuação de disparidades raciais. Autores como Paulo Freire, que sublinham a pedagogia crítica, são referências inestimáveis. Freire destaca a importância de uma educação conscientizadora que promova a transformação social. À luz dessa premissa, a base teórica também deve incluir estudos interdisciplinares que envolvam a antropologia, psicologia e sociologia, possibilitando uma abordagem holística para enfrentar os desafios do racismo na educação. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 113 3. CONCEITOS FUNDAMENTAIS A compreensão dos conceitos fundamentais é essencial para a formação de professores voltada para a educação antirracista. É essencial definir o que se entende por racismo, que constitui uma ideologia baseada na hierarquia entre raças, resultando em exclusão de grupos raciais considerados inferiores. Esta ideologia perpetua-se por meio de práticas culturais, sociais e institucionais. Outro conceito fundamental é o de antirracismo, que contempla ações deliberadas e políticas destinadas a erradicar o racismo em todas as suas formas. Essa perspectiva exige não apenas a oposição ao racismo manifesto, mas também a identificação e desconstrução de estruturas e narrativas racialmente enviesadas. A educação antirracista depreende a valorização da diversidade e o reconhecimento das contribuições culturais, históricas e sociais de diversas etnias. Conceitos, como da interseccionalidade, desempenham um papel basilar ao destacarem a interligação entre raça e outras formas de opressão, incluindo gênero, classe e sexualidade. 3.1 Referenciais Teóricos Refletindo a complexidade da temática, os referenciais teóricos que fundamentam a formação de professores para uma educação antirracista devem ser sólidos e variados. Entre os principais estão as teorias críticas da educação, que buscam desconstruir as estruturas de privilégio e poder intrínsecas ao sistema educacional. Além dos citados estudos de Paulo Freire, teorias pós-coloniais contribuem fundamentalmente para a apreensão das dinâmicas raciais e culturais na educação. Autores como Frantz Fanon e Edward Said fornecem análises críticas sobre a herança do colonialismo e sua propagação em práticas educativas. Estas teorias são agregadas pelas contribuições da pedagogia antirracista, incluindo estudos como os de Gloria Ladson-Billings e Bell Hooks, que perscrutam estratégias pedagógicas para a promoção da equidade racial, possibilitando uma base sólida para a análise das desigualdades e desenvolvimento de abordagens pedagógicas que vislumbrem uma educação verdadeiramente inclusiva e equitativa. 114 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 4. DESAFIOS NA FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO Os desafios na formação de Profissionais da Educação para a educação antirracista são complexos e se manifestam tanto no âmbito estrutural quanto no institucional. A necessidade de formar profissionais capacitados para abordar questões raciais requer uma profunda reconfiguração, não apenas dos currículos acadêmicos, mas também das práxis pedagógicas e das políticas educacionais. É primordial admitir que muitos programas de formação de professores ainda propagam uma visão eurocêntrica, negligenciando a diversidade étnico-racial. Esta lacuna reprime a construção de um ensino verdadeiramente inclusivo e antirracista, perpetuando, assim, estereótipos e preconceitos. Além disso, a falta de recursos adequados e a resistência institucional são barreiras consideráveis que dificultam a implementação de uma legítima educação antirracista. A complexidade do contexto educacional estabelecemental está relacionada a problemas no cérebro que resultam em baixa produção de conhecimento e dificuldades de aprendizagem. Geralmente, não afeta outras funções cerebrais além do aspecto cognitivo. Destaca-se também a síndrome de Down, uma condição genética causada pela presença de um cromossomo extra no par 21. As pessoas com síndrome de Down podem apresentar características físicas distintivas, como olhos amendoados e baixa estatura. É fundamental que os educadores estejam cientes dessas diversas formas de deficiência para adaptar sua prática pedagógica e promover um ambiente inclusivo que atenda às necessidades de todos os alunos. É fundamental que os professores conheçam essas deficiências e suas características para proporcionar um ambiente inclusivo e favorecer a 12 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA aprendizagem de todos os alunos. Uma metodologia de ensino adequada às necessidades e capacidades dos alunos com deficiência é essencial para garantir uma aprendizagem efetiva e promover a inclusão escolar. A IMPORTÂNCIA DA LIBRAS NA INCLUSÃO DE PESSOAS SURDAS A Libras, Língua Brasileira de Sinais, representa um marco crucial na trajetória de inclusão das pessoas surdas na sociedade. Por muitas décadas, indivíduos surdos enfrentaram estigmas e barreiras comunicativas que limitavam sua participação plena na vida cotidiana. No entanto, com o surgimento da Libras, a comunicação entre surdos e ouvintes alcançou novos horizontes, possibilitando uma interação mais fluida e inclusiva. Diferentemente da língua portuguesa, que é oral-auditiva, a Libras é uma língua gesto-visual, baseada em movimentos gestuais e expressões faciais. Essa característica única da Libras reflete não apenas uma forma diferente de comunicação, mas também uma cultura e identidade próprias das comunidades surdas no Brasil. Apesar dos avanços proporcionados pela Libras, ainda há desafios significativos a serem superados. Muitas instituições, sejam escolas, universidades ou empresas, ainda não oferecem os recursos necessários para garantir a plena acessibilidade para pessoas surdas. A falta de profissionais capacitados em tradução e interpretação de Libras é uma barreira significativa para a inclusão efetiva dessas pessoas em diferentes contextos sociais. É crucial que as instituições reconheçam a importância da Libras e implementem medidas concretas para promover sua utilização e acessibilidade. Isso inclui a contratação de intérpretes qualificados, a oferta de formação específica na área de Libras e a criação de ambientes inclusivos que valorizem a diversidade linguística e cultural. Além disso, os educadores desempenham um papel fundamental na promoção da inclusão de alunos surdos. É essencial que os professores recebam formação adequada e estejam preparados para atender às necessidades específicas desses alunos, garantindo que todos tenham acesso a uma educação de qualidade. A Libras representa não apenas uma ferramenta linguística, mas também um símbolo de inclusão e diversidade. É fundamental que todos PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 13 os setores da sociedade reconheçam e valorizem a importância da Libras na promoção da igualdade de oportunidades e na construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Em um cenário educacional em constante evolução, as considerações finais destacam a importância contínua da promoção da inclusão escolar como um imperativo ético e social. A inclusão não é apenas uma questão de acesso físico às escolas, mas também se refere à criação de ambientes que acolham e valorizem a diversidade em todas as suas formas. Nesse sentido, é fundamental reconhecer que a inclusão vai além da mera presença física dos alunos na sala de aula. Envolve o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas, que considerem as necessidades individuais de cada aluno e promovam sua participação ativa no processo educacional. A formação continuada dos educadores emerge como um fator crucial para o sucesso da inclusão escolar. É necessário investir em programas de capacitação que proporcionem aos professores as habilidades e conhecimentos necessários para atender às necessidades diversificadas dos alunos em suas salas de aula. Além disso, é imprescindível criar um ambiente escolar que celebre e valorize a diversidade, combatendo o preconceito e a discriminação em todas as suas formas. Isso requer o estabelecimento de políticas e práticas que promovam a igualdade de oportunidades para todos os alunos, independentemente de sua origem étnica, social, econômica ou habilidades individuais. A colaboração entre escola, família e comunidade também se destaca como um elemento essencial para a promoção da inclusão escolar. O envolvimento dos pais no processo educacional de seus filhos, juntamente com parcerias com organizações locais e profissionais especializados, pode enriquecer significativamente a experiência educacional dos alunos e apoiar seu desenvolvimento integral. Por fim, é importante lembrar que a inclusão não é apenas um objetivo a ser alcançado, mas sim um processo contínuo de aprendizado e adaptação. À medida que avançamos em direção a uma sociedade mais inclusiva, é essencial permanecer comprometido com a promoção da igualdade de oportunidades e o respeito à diversidade em todos os aspectos da vida escolar e além dela. 14 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Destaca-se a importância incontestável da inclusão como um caminho irreversível. É fundamental estabelecer metas e objetivos claros para garantir que aqueles que mais precisam de ajuda sejam incluídos em todos os aspectos da vida. A valorização das diferenças e a disposição para ajudar o próximo são princípios essenciais que devem permear todas as interações sociais. Os educadores desempenham um papel fundamental nesse processo, desde o ensino infantil até a universidade, garantindo que as escolas atendam às expectativas dos alunos e proporcionem um ambiente de construção do conhecimento livre de discriminação. A mudança é inevitável para que a inclusão aconteça de fato. Isso requer esforços coletivos para transformar a escola em um espaço onde todas as pessoas, independentemente de suas dificuldades, tenham oportunidades iguais de desenvolver seus potenciais. A prática da solidariedade e do respeito à diferença é fundamental para construir relações mais colaborativas e inclusivas. É essencial que o sistema de ensino seja transformado para beneficiar a todos, levando em consideração a individualidade de cada pessoa, em vez de focar apenas em suas deficiências e limitações. Em síntese, as relações entre escolas, profissionais da educação, alunos e toda a sociedade devem ser pautadas pela colaboração e pelo desejo genuíno de ajudar. Embora existam desafios e lacunas a superar, a inclusão é um objetivo alcançável, e com esforço conjunto, pode-se transformar o sonho da inclusão em uma realidade tangível. REFERÊNCIAS ARANTES Valéria Amorin (Org.). Inclusão Escolar: pontos e contrapon- tos. São Paulo: Summus, 2006. FUNDAMENTOS-TEÓRICOS-E-METODOLÓGICOS-DA-INCLU- SÃO.pdf Jo’s e Ana’s. DEFICIÊNCIA. Disponível em: https://discrimi- nacao-deficiencia.blogspot.com/: Acesso em 29 de abril 2023. LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS. Brasília: SEESP- Ano:1998. Dis- ponível em: Acesso em 26/06/2023. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 15 MARIA TEREZA EGLÉR MANTOAN SANTOS. INCLUSÃO-ES- COLAR disponível em: https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/211/o/ INCLUS%C3%83O-ESCOLARMaria-Teresa-Egl%C3%A9r-Mantoan-In- clus%C3%A3o-Escolar.pdf?1473202907 acesso em: 25 de março de 2024. MARTIN, Carla Soares. Os fundamentos das deficiências e síndromes. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/1384/os-fundamen- tos-das-deficiencias-e-sindromes acesso em 24 de julho de 2023. NEUROSABER. O que é Deficiência Intelectual? Disponível em:a necessidade de análises ininterruptas e aprofundadas para a apreensão e superação de tais desafios. Este movimento é imprescindível para a formação de Profissionais da Educação que não apenas entendam a necessidade da educação antirracista, mas que também sejam agentes ativos na viabilização de uma sociedade mais justa e igualitária. 4.1 Obstáculos Institucionais A formação de professores para uma educação antirracista enfrenta diversos obstáculos institucionais que dificultam a sua implementação eficaz. A resistência cultural dentro das instituições educacionais pode ser um grande óbice, escolas e universidades mantêm, majoritariamente, uma estrutura tradicional que não reconhece, ou mesmo exclui, a necessidade de uma abordagem antirracista no currículo. A falta de recursos e investimentos para programas de formação contínua sobre racismo e diversidade é um empecilho significativo. Instituições carecem de financiamento adequado para a promoção de treinamentos especializados e materiais didáticos que abarquem questões raciais de forma crítica e reflexiva. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 115 Outro entrave relevante é a ausência de políticas públicas sólidas que apoiem e possibilitem a implementação de práticas antirracistas nas escolas. Sem diretrizes claras e apoio governamental, professores e gestores enfrentam dificuldades adicionais para integrarem essas iniciativas de maneira sistemática e eficaz. Esses obstáculos institucionais não apenas limitam a eficácia da formação de Profissionais da Educação, mas também perpetuam a desigualdade racial no ambiente educacional, comprometendo o desenvolvimento de uma educação verdadeiramente igualitária. Essas desigualdades estão profundamente enraizadas nas instituições educacionais e refletem-se em diversos aspectos, desde a distribuição de recursos até a representação demográfica do corpo docente. Um exemplo é a disparidade na alocação de recursos financeiros e materiais entre escolas de diferentes regiões, muitas vezes determinando a qualidade da formação recebida pelos professores. Adicionalmente, a sub-representação de professores negros e indígenas em cargos de liderança contribui para a perpetuação de uma educação que, muitas vezes, não aborda adequadamente as questões raciais. As citadas lacunas impactam diretamente na capacidade dos Profissionais da Educação de implementarem práticas pedagógicas antirracistas eficazes, perpetuando, assim, um looping de exclusão e desinformação. 5. ESTRATÉGIAS E PRÁTICAS EDUCACIONAIS Abordar a educação antirracista demanda uma transformação significativa das práticas pedagógicas e institucionais, dentre as estratégias centrais, destaca-se a necessidade de revisão e flexibilização do currículo escolar, de modo a corroborar com uma perspectiva histórica e cultural crítica que valorize a diversidade étnico-racial. É imprescindível promover a formação contínua de professores, capacitando-os a reconhecer e combater atitudes e práticas racistas em sala de aula. A adoção de metodologias inclusivas constitui outro pilar relevante, visando garantir um ambiente educativo que seja acolhedor e respeitoso, para tal é necessário incluir o uso de materiais didáticos diversificados, promover atividades colaborativas e possibilitar espaços de diálogo e reflexão sobre temáticas relacionadas à igualdade. 116 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA A comunicação e engajamento com a comunidade escolar e com entidades civis fortalecem as práticas educacionais antirracistas, promovendo uma cultura de paz e respeito mútuo dentro e fora do ambiente escolar. 5.1 Currículo Antirracista e Metodologias Inclusivas O desenvolvimento de um currículo antirracista constitui um ponto central na formação de professores comprometidos com a equidade. Este currículo deve ser elaborado com base em marcos teóricos sólidos e reconhecidos, direcionados à desconstrução de preconceitos raciais e a valorização das identidades étnico-raciais. É primordial que os conteúdos abordem a história e a cultura afro-brasileira e indígena de forma reflexiva, oportunizando aos estudantes uma visão abrangente e inclusiva da sociedade. O currículo antirracista deve incorporar questões sociais contemporâneas, propiciando debates e análises que estimulem o pensamento crítico. A inclusão de atividades interativas e práticas, que suscitem a empatia e a compreensão das vivências de diferentes grupos étnico-raciais, é essencial para a praticabilidade da atitude antirracista. As metodologias inclusivas desempenham um papel basilar na promoção de uma educação antirracista eficaz. Entre as referidas metodologias, destacam-se a aprendizagem colaborativa, a utilização de materiais didáticos representativos e a inclusão de perspectivas diversas no currículo. A aprendizagem colaborativa, por exemplo, promove o trabalho em grupo, encorajando a troca de experiências e conhecimentos entre estudantes de diferentes etnias, contribuindo para a construção de um ambiente escolar igualitário. A utilização de materiais didáticos que reflitam a pluralidade da sociedade brasileira também é essencial, pois permite que os discentes enxerguem a própria representação e valorizem a diversidade. Ademais, a revisão dos conteúdos curriculares para a inclusão da história e das contribuições das populações negras e indígenas é crucial, permitindo a desconstrução de estereótipos e suscitando a irrestrita compreensão da história e cultura do Brasil. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 117 6. ESTUDOS DE CASO E BOAS PRÁTICAS A implementação de práticas educacionais antirracistas na formação de Profissionais da Educação, prevê uma análise cautelosa de boas práticas e casos bem-sucedidos. Tais estudos possibilitam uma visão abrangente das estratégias empregadas, além de clarificar os resultados e desafios enfrentados durante o processo. Os estudos de caso são fundamentais para a apreensão de metodologias que podem ser flexibilizadas e adequadas em diferentes contextos educacionais, propiciando uma cultura de diversidade e respeito. A análise dos casos possibilita a intelecção de diferentes fatores, como a contribuição de políticas institucionais e envolvimento comunitário para o sucesso de programas antirracistas. Ao destacar as boas práticas, Profissionais da Educação e instituições de ensino podem buscar inspiração em modelos inovadores, garantindo uma implementação efetiva do currículo antirracista. Dessa forma, a troca de experiências se torna um instrumento valioso na luta contra o racismo estrutural presente na sociedade e nas escolas. Diversos programas e iniciativas demonstram a eficácia de uma formação adequada para professores no contexto da educação antirracista. Um exemplo notável é o “Programa de Formação Continuada em Educação Antirracista”, implementado pelo estado da Bahia. Este programa inclui módulos/ etapas de sensibilização, oficinas práticas e a integração de conteúdos históricos e culturais afro-brasileiros no currículo escolar. Outro caso de destaque é o “Escola Sem Preconceito”, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Este projeto foca na capacitação de docentes através de seminários, palestras e a criação de materiais didáticos específicos que abordam questões de raça e etnia. No município de São Paulo, o “Plano Municipal de Educação para Igualdade Racial” promove treinamentos regulares para professores, objetivando a adoção de práticas pedagógicas mais inclusivas e culturalmente responsivas. Os programas citados demonstram que a abordagem curricular não deve limitar-se às disciplinas específicas, mas sim permear todas as áreas do conhecimento, promovendo uma educação sólida, integrada e significativa 118 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA que oportunize uma atitude antirracista. Por fim, o exercício reflexivo contínuo mostrou-se crucial para a consolidaçãode atitudes antirracistas efetivas, professores engajados em uma ininterrupta autoavaliação são mais propensos à superação de preconceitos e práticas excludentes em sala de aula. 7. REFLEXÕES FINAIS A formação de Profissionais da Educação para uma educação antirracista revela-se basilar no atual contexto sociocultural, marcado por uma crescente conscientização sobre desigualdades raciais. A implementação de currículos antirracistas constitui uma estratégia essencial para a promoção de uma educação equitativa, responsiva e respeitosa das diversidades. No entanto, os desafios encontrados, tais como obstáculos institucionais e desigualdades estruturais, exigem um compromisso contínuo de todos os atores envolvidos no processo educacional. Em suma, a busca por uma educação antirracista não apenas contribui para a formação de cidadãos críticos, mas também para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A troca de experiências bem-sucedidas e a análise das experiências exitosas oferecem valiosas alternativas para a superação dos entraves atuais. Nesta perspectiva, o desenvolvimento de uma pedagogia antirracista não é apenas uma necessidade educacional, mas também um imperativo ético e social que demanda uma ação colaborativa e persistente. Depreendemos que a formação de Profissionais da Educação para uma educação antirracista revela-se não apenas uma necessidade ética e moral, mas também uma premissa básica na construção de uma sociedade mais justa e equitativa. A incorporação de um currículo antirracista e metodologias inclusivas visam promover um ambiente de aprendizado acolhedor e respeitoso para todos os estudantes, independentemente de sua origem racial ou étnica. Os obstáculos institucionais e as desigualdades estruturais são grandes desafios a serem superados, exigindo um trabalho conjunto da comunidade educativa e da sociedade como um todo. Os estudos de caso e as boas práticas destacam-se como fontes valiosas de inspiração, demonstrando que é tangível alcançar resultados PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 119 positivos através de ações concretas, compartilhadas e comprometidas. Ao refletir sobre as experiências, torna-se evidente a relevância de um compromisso contínuo e perseverante na promoção de uma educação/ atitude antirracista. Esta reflexão final traz à luz a necessidade de uma transformação sistêmica e o papel vital dos Profissionais da Educação como agentes de mudança na luta contra o racismo e a discriminação em todas as suas apresentações. REFERÊNCIAS COTA, M. De Professores e Carpinteiros: encontros e desencontros entre teoria e prática na construção da prática profissional. Educação e Filosofia. V. 14. n.27/28, jan./jun e jul./dez. 2000. p. 203-222. Dispo- nível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/ view/742/675. Acesso em 01 jul. 2024. DIANGELO, R. Não Basta não ser Racista: sejamos antirracistas. Barue- ri. Faro Editorial. 2020. MOTA, T. H. Ensino Antirracista na Educação Básica: a formação de professores à práticas escolares. Porto Alegre. Editora FI. 2021. PESTANA, M. A Empresa Antirracista: como CEOs e altas lideranças estão agindo para incluir negros e negras nas grandes corporações; 2° Ed. São Paulo. Editora Agir. 2020. 120 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 121 ÍNDICE REMISSIVO A Alfabetização 30, 35, 37, 46, 47, 95 Aprendizagem 10, 11, 12, 16, 17, 18, 19, 21, 22, 23, 26, 30, 33, 34, 35, 37, 43, 44, 45, 47, 48, 49, 52, 54, 55, 57, 58, 62, 63, 67, 69, 82, 84, 85, 86, 87, 88, 96, 99, 101, 104, 106, 108, 109, 116 Aprendizagem 29, 30, 34, 37, 46, 47 Atendimento Educacional Especializado 30, 31, 49, 50, 51, 53, 54, 56, 62, 100, 102, 103, 107, 108, 109, 110 B Bullying 72, 73 C Comunicação 10, 11, 12, 19, 21, 22, 23, 27, 43, 50, 54, 55, 63, 71, 72, 73, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 85, 116 Criança 8, 17, 18, 19, 22, 23, 26, 27, 36, 49, 58, 62, 63, 64, 65, 68, 80, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 104, 109 Currículo 21, 23, 33, 35, 39, 43, 46, 50, 60, 61, 62, 70, 98, 105, 109, 114, 115, 116, 117, 118 D Deficiência 7, 8, 9, 10, 11, 12, 49, 50, 51, 52, 53, 55, 56, 57, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 68, 69, 76, 78, 96, 99, 101, 102, 103, 109 Deficiência Intelectual 15, 16, 63, 100 Desenvolvimento integral 13, 23, 87, 88, 97 Discriminação 9, 13, 14, 72, 77, 112, 119 Disfluência 72, 73, 74, 75, 76, 78, 79, 81 Diversidade 7, 8, 12, 13, 21, 26, 27, 30, 33, 34, 36, 44, 45, 46, 62, 68, 70, 77, 79, 80, 87, 112, 113, 114, 115, 116, 117 Documentação Pedagógica 16, 17, 18, 19, 20, 22, 23, 24, 25, 26, 27 E Educação 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 14, 17, 20, 21, 22, 26, 27, 33, 34, 35, 44, 45, 46, 49, 51, 52, 53, 55, 56, 57, 61, 62, 63, 65, 69, 70, 76, 79, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 102, 103, 104, 108, 109, 111, 112, 113, 114, 115, 116, 117, 118, 119 122 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Educação antirracista 111, 112, 113, 114, 115, 116, 117, 118 Educação Básica 10, 27, 46, 56, 99, 119 Educação Especial 1, 5, 7, 10, 16, 21, 27, 29, 49, 50, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 65, 66, 67, 69, 82, 100, 101, 102, 103, 105, 106, 107, 108, 110, 111 Educação Inclusiva 5, 16, 17, 20, 22, 26, 29, 30, 33, 49, 56, 59, 61, 71, 80, 82, 91, 100, 102, 110, 111 Educação Infantil 16, 17, 18, 24, 54, 57, 99, 111 Ensino Colaborativo 53, 67, 102, 105 Ensino Fundamental 29, 31, 59, 61, 100 Escrita 30, 35, 36, 38, 42, 43, 46, 47, 67, 95 F Formação 5, 7, 8, 9, 12, 13, 21, 24, 25, 28, 45, 48, 50, 51, 55, 56, 64, 73, 76, 81, 82, 88, 91, 92, 96, 97, 104, 105, 106, 108, 111, 112, 113, 114, 115, 116, 117, 118, 119 Formação de professores 28, 45, 48, 111, 113, 114, 116, 119 G Gagueira 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81 I Inclusão 5, 7, 8, 9, 11, 12, 13, 14, 16, 21, 22, 33, 46, 47, 51, 55, 58, 60, 61, 77, 79, 96, 104, 105, 109, 111, 112, 116 Inclusão escolar 8, 12, 13, 47, 55, 58 L Lei Brasileira de Inclusão 30, 31, 46, 100, 110 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 33, 63, 103 Língua Portuguesa 30, 31, 35, 38, 39, 81 Literatura 17, 18, 92 Livro 38, 39, 40, 41, 50, 70 N Necessidades especiais 7, 22, 33, 47, 63 P Plano de ensino 30, 31, 33, 35 Políticas públicas 7, 51, 52, 56, 91, 100, 102, 109, 111, 115 Práticas pedagógicas 8, 13, 18, 21, 23, 24, 33, 34, 43, 44, 50, 66, 105, 110, 115, 117 PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 123 Profissionais da educação 82, 87, 111, 112, 114, 115, 117, 118, 119 S Semanário 31, 32, 35, 37, 38, 39 Superdotação 10, 50, 52, 59, 68, 101, 102, 103 T Tecnologia 23, 54, 55, 57, 60, 95, 96, 105, 107 Transtorno do Espectro Autista 30, 54, 100, 101, 110 transtornos globais 50, 52, 59, 102, 103 Z Zona de Desenvolvimento Proximal 82, 84, 86, 87, 89ht- tps://neurosaber.com.br/o-que-e-deficiencia-intelectual/ Acesso em 27 de junho de 2023. SANTANA, Ana Lucia. Deficiência mental. Disponível em: https:// www.infoescola.com/psicologia/deficiencia-mental/: Acesso em 6 de abril 2024. SANTOS, Vanessa Sardinha dos. “Síndrome de Down”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/doencas/sindrome-de- -down.htm. Acesso em 27 de abril de 2020. SILVA, Brígida Karina Liechocki Nogueira. INCLUSÃO ESCOLAR DE UMA CRIANÇA COM SÍNDROME DE DOWN disponível em: https:// educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2009/2465_1462.pdf: Acesso em 27 de abril 2020. SKLIAR, Carlos. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Mediação. 1998. 16 DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: UMA PERSPECTIVA INCLUSIVA Karoly Mariana dos Reis Cecilio Diniz1 Camila Cuba da Silva Rosa2 Luciano Gamez3 INTRODUÇÃO Este trabalho tem como objetivo explorar a temática da Documentação Pedagógica na Educação Infantil, perspectivando a utilização dessa prática no contexto da Educação Inclusiva. Trata-se de uma pesquisa em fase inicial de elaboração, realizada no âmbito do Programa de Mestrado em Educação Inclusiva ofertado pela Universidade Federal de São Paulo – PROFEI Unifesp, e que tem como objetivo principal a utilização da abordagem da Documentação Pedagógica enquanto prática investigativa, visando melhorar a compreensão dos processos de ensino e aprendizagem na Educação Infantil, sobretudo nas situações de inclusão de crianças com necessidades educativas especiais. O desenho metodológico da pesquisa é de cunho qualitativo, focado em pesquisa bibliográfica sobre o tema, porém com foco na Educação 1 Graduada em Pedagogia, História, Educação Física e Marketing. Especialista em Psicopedagogia, Educação Infantil com Abordagem em Reggio Emilia e Inspeção Escolar. MBA em Gestão Educacional. Mestranda em Educação Inclusiva pela UNIFESP. E-mail: karoly.diniz@unifesp.br. 2 Graduada em Educação Física e Pedagogia. Especialista em Educação Comuni- tária e Educação Especial com Ênfase em Deficiência Intelectual. Mestranda em Educação Inclusiva – UNIFESP. E-mail: ccsrosa.cuba@unifesp.br. 3 Graduado em Psicologia. Mestre em Engenharia Humana. Doutor em Engenharia de Produção. Pós-doutor em Ciências da Educação. Pós-doutor em Educação a Distância e E-Learning. Docente no Programa de Mestrado em Educação Inclusiva PROFEI, na Unifesp. E-mail: luciano.gamez@unifesp.br. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 17 Infantil e na Educação Inclusiva. Como resultados esperados, pretende- se discutir sobre os principais desafios e oportunidades associadas à implementação de uma abordagem inclusiva utilizando a estratégia da Documentação Pedagógica, de modo que as crianças, independentemente de suas habilidades, origens ou necessidades específicas, tenham acesso a uma educação de qualidade. FUNDAMENTOS TEÓRICOS As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (2010) deixam claro que é preciso assumir um processo de observação, análise e registro do contexto educativo como parte essencial da prática pedagógica, onde o cotidiano se constitui como pano de fundo a ser conhecido. Este documento sugere que As instituições de Educação Infantil devem criar procedimentos para acompanhamento do trabalho pedagógico e para avaliação do desenvolvimento das crianças, sem objetivo de seleção, promoção ou classificação, garantindo a observação crítica e criativa das atividades, das brincadeiras e interações das crianças no cotidiano; Utilização de múltiplos registros realizados por adultos e crianças (relatórios, fotografias, desenhos, álbuns, etc); A continuidade dos processos de aprendizagens por meio da criação de estratégias adequadas aos diferentes momentos de transição vividos pela criança [...]; Documentação específica que permita às famílias conhecer o trabalho da instituição junto às crianças e os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança na Educação Infantil. (BRASIL, 2010, p.12.). Tais diretrizes, aplicadas à Educação Infantil, nos aproxima do conceito de Documentação Pedagógica, cuja definição é amplamente discutida na literatura (MALAGUZZI, 2001, 1995; HOYUELOS, 2006; RINALDI, 2005; FOCHI, 2013, BRASIL 2018). De forma geral, entende- se por Documentação Pedagógica, um processo de reflexão contínua sobre as práticas educativas. Um dos pilares centrais desse processo, segundo Fochi (2021), está diretamente ligado à ideia sistemática de registrar para poder ver, interpretar e projetar. No entanto, complementa este autor, o ato de registrar deve sempre estar vinculado à reflexão, observação e, especialmente, ao modo como tais registros podem ser utilizados para repensar a ação pedagógica e a comunicar, tornando-a visível. 18 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Trata-se, portanto, de uma estratégia, e que tem sido utilizada como prática pedagógica investigativa na Educação Infantil, pois implica na coleta, análise e apresentação sistemática de registros das atividades de ensino e das aprendizagens das crianças. Tais registros podem incluir fotografias, vídeos, trabalhos produzidos, anotações dos educadores e reflexões das próprias crianças. No entanto, observa-se na literatura sobre o tema, que essa prática não se limita apenas a registrar acontecimentos, mas envolve a análise e interpretação crítica dos processos de ensino e de aprendizagem, com o objetivo de melhorar a prática educativa e fomentar um ambiente de aprendizagem colaborativo e inclusivo. Segundo Rinaldi (2006), a Documentação Pedagógica é um ato de “tornar visível” o processo de aprendizagem das crianças, permitindo que os educadores reflitam sobre suas próprias práticas pedagógicas e façam ajustes baseados em evidências. Para Davoli (2008), documentar dá visibilidade às experiências das crianças. Nesse sentido, documentar é visto também como um processo narrativo, que além de dar visibilidade, constitui experiências para e com as crianças (SIMIANO, 2015). Para Dahlberg, Moss e Pence (2003, p.194), a Documentação Pedagógica: [...] como conteúdo, é o material que registra o que as crianças estão dizendo e fazendo, é o trabalho das crianças e a maneira com que o pedagogo se relaciona com elas e com seu trabalho. Tal material pode ser produzido de muitas maneiras e assumir muitas formas [...]. Este material torna o trabalho pedagógico concreto e visível (ou audível) e, como tal, é um ingrediente importante para o processo da documentação pedagógica. (DAHLBERG, MOSS E PENCE, 2003, p. 194). Rinaldi (2006) argumenta ainda, que a Documentação Pedagógica é uma prática ética e democrática, que respeita e valoriza as vozes das crianças, dos educadores e das famílias. Ela promove a transparência e a colaboração, permitindo que todos os envolvidos no processo educativo participem ativamente na construção do conhecimento. Barbosa e Horn (2008) lembram que, ao documentar pedagogicamente o cotidiano de experiências, são criados elementos de memórias, recuperação de episódios e acontecimentos. Assim, “o docente, enquanto mediador, também realiza suas anotações de forma subjetiva, de acordo com cada criança e as diferentes maneiras que ela age, fala, registra, enfim, participa.” (DINIZ, 2023, p. 229). PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 19 Fochi (2021) observa que historicamente, a prática de Documentação Pedagógica evoluiu a partir das ideias de Loris Malaguzzi, um educador e pedagogo italiano, amplamente reconhecido por seu papel na fundação e desenvolvimento da abordagem Reggio Emilia. Este autor reconhece que Malaguzzi inspirou-se na filosofia de John Dewey (que convidava professores e escolas para refletirem sobre a prática pedagógica, entendendo a reflexão como a chave para a transformação e reconstrução da práxis pedagógica) enfatizando que a tradução dessa filosofia foi posta em prática nas escolas municipais de Reggio Emilia naItália, o que viria a consolidar a prática da Documentação Pedagógica como uma estratégia de transformação pedagógica, ou seja, uma oportunidade de instituir uma determinada práxis e de como narramos a respeito para produzir sentidos. A abordagem de Reggio Emilia é conhecida por seu foco na criança como protagonista do processo de aprendizagem e pela valorização da Documentação Pedagógica como uma ferramenta essencial. Malaguzzi com sua metáfora das “cem linguagens” – enfatiza que as crianças têm múltiplas formas de expressar seus pensamentos, sentimentos e conhecimentos. A Documentação Pedagógica, nesta perspectiva, é uma maneira de capturar essas múltiplas formas de expressão e tornar visíveis os processos de aprendizagem infantis (FOCHI, 2021). A abordagem Reggio Emilia enfatiza a importância do ambiente como “terceiro educador”, ao lado das crianças e dos educadores. A Documentação Pedagógica, nesse sentido, serve como um meio de comunicação entre esses três elementos, ajudando a criar um ambiente de aprendizagem rico e estimulante. Segundo Malaguzzi (1998), a Documentação Pedagógica permite que os educadores e as crianças revisitem suas experiências, promovendo uma reflexão contínua e colaborativa sobre o processo de aprendizagem. De forma mais objetiva, Rinaldi (2006) enfatiza que esta prática incorpora o valor da subjetividade, onde não há ponto de vista objetivo que torne a observação neutra, mas, concomitante a isso, tornam-se explícitas as perspectivas e interpretações por meio da documentação na relação com os outros. Na tentativa de compreender como a temática da Documentação Pedagógica tem sido abordada nos estudos brasileiros, Anjos & Araujo & Santos (2023) realizam um extenso trabalho de análise da produção 20 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA acadêmica, no período de 2016 a 2022, sobre Documentação Pedagógica na educação infantil e a visibilidade das culturas infantis, tomando como ponto de partida a ideia de que, “a partir de Pedagogias das Infâncias baseadas na escuta, na participação, nas relações das crianças entre elas e com adultos/as, estão sendo construídos instrumentos de observação, registro e reflexão em torno das produções infantis e dos processos de construção do conhecimento coletivo e individual.” (p. 526). Os autores concluem que esse estudo de sistematização das pesquisas sobre Documentação Pedagógica “permite pensar como esse processo de produção de “novas” formas de comunicar e tornar visíveis as crianças, suas infâncias, suas brincadeiras, suas descobertas, suas experiências, assim como o projeto educativo da instituição, carrega uma postura política e um compromisso ético com uma Pedagogia da escuta, das relações e das diferenças, e a necessidade de desconstruir, portanto, instrumentos ultrapassados que oprimem e excluem as crianças, anulando suas falas, seus movimentos.(p. 541). As referências consultadas remetem nosso olhar para pensar a prática da Documentação Pedagógica à luz da Educação Inclusiva. DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA NA PERSPECTIVA DA INCLUSÃO Quando padrões, que disseminam no imaginário das pessoas, baseados ou não, no senso comum, acerca das diferenças individuais, adentram os muros das escolas, a educação passa a sofrer com barreiras impostas pelo preconceito, que segundo Mattos (apud in CAFÉ, 2021) é a “opinião negativa que se forma contra pessoas ou coisas antes de ter um melhor conhecimento sobre elas”. Sendo um pré-julgamento, uma opinião formada sem reflexão, que podem causar atitudes hostis, que ferem, humilham e machucam. As diferenças são acentuadas quando se parte dos parâmetros como semelhança, homogeneidade, normalidade, o que corresponde a modelos pré-estabelecidos. Essas barreiras, impostas pelos preconceitos e pré-conceitos podem resultar em desrespeitos e impedimentos à promoção dos direitos das pessoas consideradas “diferentes” (CAFÉ, 2021). Muitas vezes a escola reproduz esses estigmas sociais, mas a ela cabe um importante papel no processo de mudança, uma vez que salienta PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 21 a valorização das diferenças, para a construção de novos conhecimentos, através da educação inclusiva, que pode ser considerada uma nova cultura educacional que tem como concepção uma escola que visa o desenvolvimento de respostas educativas que atinjam a todos os alunos, independentes de suas condições intrínsecas ou experiências prévias (Glat et all, 2007). A implementação de um sistema inclusivo não é uma “tarefa simples”, é preciso que a unidade educacional reorganize a sua estrutura de funcionamento, metodologia e recursos pedagógicos, além de garantir que seus profissionais estejam preparados para essa nova realidade. Mantoan (2021 p.08) propõe um deslocamento da visão educacional para uma “perspectiva que se abre para os novos saberes, os novos estudantes e as outras formas de ensinar e avaliar a aprendizagem”. Este autor afirma que a educação foi democratizada, mas não fez o mesmo em relação aos conhecimentos trazidos por todos às salas de aula, por isso é preciso ressignificar o papel da escola. São elas que precisam se adaptar às crianças e aos estudantes e não o contrário, só assim será garantido a formação integral dos alunos, baseados em suas potencialidades e talentos, (MANTOAN, 2021). Segundo Glat et all (2007), embora as escolas “privilegiem um discurso de aceitação à diversidade, no dia a dia não atendem às especificidades do processo ensino-aprendizagem dos estudantes”, (...) se a escola oferecer um currículo flexível e vinculado aos interesses individuais e sociais dos alunos, garantir acessibilidade de locomoção e comunicação em suas dependências, e desenvolver metodologias e práticas pedagógicas que atendam às demandas individuais, todos terão condições de aprender e se desenvolver juntos. (Glat et all, 2007, p. 350). Para que a Educação Especial e/ou Inclusiva aconteça, é necessário que o ambiente seja acolhedor e com possibilidades reais de inclusão, para que o estudante tenha uma aprendizagem significativa, a escola precisa formar seus professores, bem como rever as formas de interação vigentes entre todos os segmentos, o que vai implicar, segundo Glat et all (2007, p. 344) em “avaliar e redesenhar sua estrutura, organização, projeto político pedagógico, recursos didáticos, práticas avaliativas, metodologias e estratégias de ensino”, propondo respostas educativas que atinjam a todos os estudantes. 22 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA A partir da ótica da Educação Inclusiva, entendemos que a utilização da estratégia de Documentação Pedagógica possa ser um importante modo de realmente promover a inclusão e atender as necessidades especiais das crianças. No contexto da educação inclusiva, entendemos que a Documentação Pedagógica assume um papel ainda mais crucial. Ao registrar detalhadamente as experiências e progressos das crianças, pretende-se assegurar que suas necessidades sejam realmente reconhecidas e atendidas. Nesta perspectiva, acreditamos que esse processo de documentação contribui para a criação de um ambiente de aprendizagem mais inclusivo, onde cada criança é valorizada e apoiada em seu desenvolvimento pleno. Concomitante a isso, a documentação possibilita a articulação entre teoria e prática docente (VEIGA, 2008) e oportuniza que “[...] o professor, pesquisando e refletindo sobre sua ação docente, construa saberes que lhe permitam aprimorar o seu fazer docente.” (PIMENTA, 1997, p.22). Entendemos assim, que a Documentação Pedagógica pode promover a inclusão na medida em que ela permite que os educadores compreendam melhor as necessidades individuais de cada criança. Ao registrar e refletir sobre as atividades e interações das crianças, os educadores podem identificar as forças, interesses e desafios de cada uma. Isso é particularmente importantepara crianças com necessidades educativas especiais, que podem necessitar de estratégias específicas de apoio. A documentação detalhada ajuda a criar um plano de ação personalizado, que leva em conta as particularidades de cada criança e promove seu pleno desenvolvimento. Além disso, a Documentação Pedagógica inclusiva também serve como uma ferramenta de comunicação entre educadores, famílias e outras partes interessadas. Compartilhar registros das atividades e progressos das crianças com os pais e cuidadores permite uma colaboração mais eficaz e uma compreensão mais profunda das necessidades e conquistas das crianças. Existem várias ferramentas e estratégias que podem ser utilizadas para implementar uma Documentação Pedagógica inclusiva. Uma das estratégias mais eficazes é o uso de portfólios individuais para cada criança. Os portfólios podem incluir uma variedade de documentos, como fotos, desenhos, vídeos, anotações dos educadores e reflexões das crianças. Estes portfólios não apenas documentam o progresso da criança ao longo PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 23 do tempo, mas também fornecem uma base para a reflexão contínua e a adaptação das práticas pedagógicas. Outra ferramenta importante é o uso de painéis de documentação nas salas de aula. Estes painéis podem exibir fotos, desenhos e anotações das crianças, tornando visíveis seus processos de aprendizagem para toda a comunidade escolar. Os painéis de documentação incentivam a participação ativa das crianças na documentação de suas próprias experiências, promovendo um senso de propriedade e autoestima. A tecnologia também desempenha um papel significativo na Documentação Pedagógica inclusiva. Ferramentas digitais, como aplicativos de registro de observações e plataformas de comunicação, facilitam a coleta e o compartilhamento de informações sobre o progresso das crianças. Estas ferramentas permitem que os educadores documentem as atividades de maneira eficiente e compartilhem essas informações com as famílias em tempo real, promovendo uma colaboração contínua e informada. A Documentação Pedagógica inclusiva desempenha um papel fundamental na promoção do desenvolvimento infantil e na melhoria das práticas educacionais. Um dos principais benefícios para as crianças é o suporte ao desenvolvimento integral. Ao documentar as atividades e interações das crianças, os educadores podem identificar e valorizar os diferentes modos de expressão e aprendizagem, conforme destacado por Rinaldi (2006). Este processo ajuda a reconhecer as particularidades de cada criança, permitindo que suas habilidades e interesses sejam integrados de forma eficaz no currículo. Além disso, a documentação inclusiva promove a autoestima das crianças, pois elas se veem refletidas nos registros e painéis, sentindo-se valorizadas e respeitadas em seu ambiente de aprendizagem. Outro benefício significativo é o aumento do engajamento das crianças. Para Figueira (2011), quando elas participam ativamente na documentação de suas próprias experiências, sentem-se mais envolvidas e responsáveis por seu aprendizado, sendo este engajamento essencial para o desenvolvimento de uma atitude positiva em relação à aprendizagem e para o fortalecimento do senso de pertencimento na comunidade escolar. Figueira (2011) ressalta ainda que a participação ativa das crianças na Documentação Pedagógica incentiva a autonomia e a criatividade, elementos cruciais para o seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 24 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA Para os educadores, a Documentação Pedagógica inclusiva oferece uma oportunidade valiosa de reflexão sobre suas práticas. Ao revisar e analisar os registros das atividades das crianças, os educadores podem identificar áreas de melhoria e ajustar suas abordagens pedagógicas de acordo com as necessidades e interesses dos alunos. Este processo de reflexão contínua contribui para o desenvolvimento profissional dos educadores, promovendo uma prática educativa mais consciente e intencional. DESAFIOS E SOLUÇÕES A implementação da Documentação Pedagógica inclusiva na Educação Infantil apresenta diversos desafios que necessitam de soluções criativas e eficazes. Pinazza (2005) refere que um dos principais desafios é o tempo necessário para coletar, analisar e refletir sobre os registros das atividades das crianças, indicando que os educadores muitas vezes enfrentam uma carga de trabalho intensa e podem achar difícil dedicar tempo suficiente para a documentação. Além disso, complementa o autor, a falta de formação específica sobre como realizar uma Documentação Pedagógica eficaz pode limitar a capacidade dos educadores de implementar esta prática de maneira consistente e significativa. Uma solução para o desafio do tempo é a integração da Documentação Pedagógica nas rotinas diárias da sala de aula. Em vez de tratar a documentação como uma tarefa adicional, os educadores podem incorporar a coleta de registros como parte natural das atividades diárias. Por exemplo, fotografar as crianças durante as atividades ou fazer anotações rápidas durante as interações pode ser feito de forma contínua ao longo do dia. Utilizar tecnologias digitais, como aplicativos de registro de observações, também pode agilizar o processo de documentação e facilitar a organização e análise dos dados coletados. Para abordar a falta de formação específica, é essencial investir na formação e capacitação contínua dos educadores. Programas de formação que focam nas práticas de Documentação Pedagógica inclusiva devem ser oferecidos regularmente. Estes programas devem fornecer aos educadores as habilidades e conhecimentos necessários para coletar e analisar dados de forma eficaz, além de promover a reflexão crítica sobre suas práticas pedagógicas. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 25 É preciso compreender que, para documentar de forma efetiva, a prática pedagógica deve ser realizada com base na escuta sensível e olhar atento. Tishman (2024) enfatiza que o pensamento lento envolve analisar informações, pesar evidências e fazer inferências cautelosas. Contudo, o olhar atento coloca em primeiro plano a capacidade de observar detalhes, adiar a interpretação, discernir, alternar perspectivas, ter ciência da subjetividade de cada ser e usar de forma proposital diferentes estratégias de observação, a fim de superar as primeiras impressões. Neste ínterim, o docente precisa viver a experiência da escuta sensível, como nos alerta Muniz (2020), como uma forma atenta e interessada de escutar a fala espontânea dos aprendizes, bem como suas formas singulares de viver e experimentar o mundo. Outro desafio é a resistência à mudança por parte de alguns educadores e instituições. Implementar uma nova prática pedagógica pode ser visto como uma interrupção das rotinas estabelecidas e exigir um esforço significativo para mudar as atitudes e práticas existentes. Para superar esta resistência, é fundamental promover uma cultura de colaboração e apoio dentro das instituições educativas. Edwards (1999) compreende que o professor deve aprender e reaprender com as crianças e, com isso, seguir as crianças e não os planos, trabalhar com menos certeza e mais incertezas e inovações. Assim, envolver todos os membros da equipe escolar no processo de implementação e criar oportunidades para a troca de experiências e conhecimentos pode ajudar a construir um consenso e um compromisso coletivo com a prática da Documentação Pedagógica inclusiva. Recomenda-se também a criação de uma rede de apoio entre escolas e educadores, onde práticas exitosas possam ser compartilhadas e discutidas. Estudos de caso e exemplos práticos de escolas que já implementaram a Documentação Pedagógica inclusiva com sucesso podem servir como modelos inspiradores e proporcionar insights valiosos para outras instituições. Embora a implementação da Documentação Pedagógica inclusivaapresenta desafios, estes podem ser superados com soluções criativas, formação contínua e um forte compromisso com a mudança. Investir na capacitação dos educadores, integrar a documentação nas rotinas diárias e promover uma cultura de colaboração são passos essenciais para garantir que esta prática seja implementada de maneira eficaz, beneficiando tanto as crianças quanto os educadores. 26 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho procurou-se uma aproximação com o tema da Documentação Pedagógica, entendendo-a como uma prática reflexiva aplicada ao contexto da Educação Inclusiva. O estudo desse tema nos permite concluir sobre a importância da Documentação Pedagógica enquanto técnica na educação infantil, compreendo que esta estratégia vai muito além do simples registro das atividades pedagógicas. Ela envolve uma análise crítica e reflexiva do processo de ensino e de aprendizagem, com o objetivo de melhorar a prática educativa e promover um ambiente de aprendizagem mais inclusivo e colaborativo. Observamos com este estudo, que por meio da abordagem da Documentação Pedagógica os educadores podem capturar e refletir sobre as múltiplas formas de expressão e aprendizagem das crianças, criando um ambiente de aprendizagem que valoriza e respeita a diversidade. Ao fazer isso, a estratégia da Documentação Pedagógica contribui para a criação de práticas educativas mais eficazes e personalizadas, que atendam às necessidades individuais de cada criança e promovam uma educação realmente inclusiva e de qualidade, assegurando que todas as crianças, independentemente de suas habilidades, origens ou necessidades específicas, sejam valorizadas e apoiadas em seu ambiente de aprendizagem. Através dela, é possível observar e compreender melhor a subjetividade de cada criança, suas necessidades e avanços, permitindo ao docente refletir acerca das experiências necessárias a cada uma delas (DINIZ, 2023). REFERÊNCIAS ANJOS, Cleriston Izidro; ARAUJO, Luciana Aparecida; SANTOS, So- lange Estanislau S.E. Análise da produção acadêmica (2016-2022) sobre documentação pedagógica na educação infantil e a visibilidade das cul- turas infantis. Zero-a-Seis, Florianópolis, v. 25, n. 48, p. 523-547, jul./ dez., 2023. Universidade Federal de Santa Catarina. ISSN 1980-4512. DOI:https://doi.org/10.5007/1980-4512.2023.e94499. BARBOSA, Maria Carmen Silveira; FARIAS, Goulart de. Documentação pedagógica: teoria e prática. São Carlos: Pedro e João Editores, 2017. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 27 BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Di- retrizes curriculares nacionais para a educação infantil / Secretaria de Educação Básica. Brasília: MEC, SEB, 2010. BRASIL, Ministério da Educação - Secretaria de Educação Básica. Docu- mentação Pedagógica: concepções e articulações - caderno 1. Organiza- ção: Paulo Sergio Fochi. Brasília: MEC / UNESCO, 2018 - 36 p. BRASIL, Ministério da Educação - Secretaria de Educação Básica. Docu- mentação Pedagógica: concepções e articulações - caderno 2. Organiza- ção: Paulo Sergio Fochi. Brasília: MEC / UNESCO, 2018 - 36 p. CAFÉ, Alessandra Santana Midjet. Barreiras atitudinais na Educação Especial: um estudo sobre as compreensões de professores de SRMs de escolas do município de Ilhéus – BA. Dissertação de Mestrado. Univer- sidade Regional de Blumenau. 2021. Disponível em: https://bu.furb.br/ docs/DS/2021/368339_1_1.pdf. Acesso em 17/07/2024. DAVOLI, Mara. Documentar processos, recolher sinais. In: MELLO, Suely Amaral; DINIZ, Karoly Mariana dos Reis Cecilio. Registros na educação infantil: documentação pedagógica e sua subjetividade. In: BIANCHESSI, Cle- ber (org.). Reflexões sobre educação e ensino. Curitiba: Bagai, 2023. EDWARDS, Carolyn. Histórias, ideias e filosofia básica. In: EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Leila; FORMAN, George. As cem linguagens da criança: a abor- dagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre: Art- med, 1999. FIGUEIRA, Luciana Carla. Documentação pedagógica na educação in- fantil: contribuições para a prática educativa. Educação e Pesquisa, v. 37, n. 4, p. 805-820, 2011. FOCHI, Paulo. Documentação pedagógica como estratégia de trans- formação pedagógica: planejamentos e ciclos de comunicação difusa. p.139-160. In: SANTIAGO F; MOURA; T. A. (Orgs.). Infâncias e docências: descober- tas e desafios de tornar-se professora e professor. São Carlos: Pedro&João Editores, 2021. GLAT, Rosana; PLETSCH, M. D. FONTES, R. S. Educação inclusiva & educação especial: propostas que se complementam no contexto da es- cola aberta à diversidade. Educação. Santa Maria, v. 32, n. 2, p. 343-356, 28 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 2007. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/ view/678/487. Acesso em: 15/07/2024. MALAGUZZI, Loris. History, ideas, and basic philosophy: an interview with Lella Gandini. In: EDWARDS, C.; GANDINI, L.; FORMAN, G. (Eds.). The hundred languages of children: the Reggio Emilia approach to early childhood education. Ablex Publishing, 1998. p. 49-97. RINALDI, Carla. In dialogue with Reggio Emilia: listening, researching and learning. Routledge, 2006. MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: o que é? Por quê? Como fazer?. Moderna, 2003. MUNIZ, Luciana Soares. Diário de ideias: linhas de experiências. Uber- lândia: Edufu, 2020. PIMENTA, Selma Garrido. Para uma re-significação da didática. In: PI- MENTA, Selma Garrido (org.). Didática e formação de professores: percurso e perspectivas no Brasil e em Portugal. São Paulo: Cortez Editora, 1997. PINAZZA, Mônica Apezzato Os pensamentos de Pestalozzi e Froebel nos primórdios da pré-escola oficial paulista: das inspirações originais não escolarizantes à concretização de práticas escolarizantes. In: FARIA, Ana Lúcia Goulart de; MELLO, Suely Amaral (org.). Linguagens infantis: outras formas de leitura. Campinas: Autores Associados, 2005. SIMIANO, Luciane Pandini. Colecionando pequenos encantamentos. A documentação pedagógica como uma narrativa peculiar para e com crianças bem pequenas. 198 p. Tese (Doutorado em Educação) – UFRGS. Porto alegre. 2015. TISHMAN, Shari. Olhar atento como incentivar os alunos a aprender por meio da observação. Tradução: Marcos Viola Cardoso. Porto Alegre: Penso, 2024. VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Docência como atividade profissional. In: VEIGA, Ilma Passos Alencastro; D’AVILA, Cristina (org.). Profissão docente: novos sentidos, novas perspectivas. 2. ed. São Paulo: Papirus, 2008. 29 REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS: DESENHO UNIVERSAL PARA A APRENDIZAGEM (DUA)1 Silene de Carvalho da Silva2 “Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” Paulo Freire 3 1. INTRODUÇÃO A realização de uma atividade proposta na disciplina de Fundamentos e Práticas em Educação Inclusiva do meu mestrado provocou uma reflexão profunda sobre minha prática pedagógica. Esta experiência não apenas destacou a relevância da teoria do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), mas também proporcionou uma oportunidade para revisar e aprimorar minha abordagem pedagógica em sala de aula. Este artigo explora como o DUA pode ser integrado de maneira mais eficaz na minha prática docente, resultando em benefícios significativos para todos os alunos. Como alunos do Mestrado, somos incentivados a realizar leituras e participar de atividades que nos permitem refletir sobre o papel do professor sob uma perspectiva inclusiva. Essas experiências oferecem a oportunidade de analisar e aprimorar nossa prática pedagógica, nos contextos escolares 1 Artigo apresentado na disciplina “Fundamentos e Práticas em Educação Inclusiva” no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu (Mestrado Profissional em Educação Inclusi- va –PROFEI – Turma: 2024) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). 2 Mestranda docurso de Educação Inclusiva na UNIFESP, professora do Ensino Fundamental I e Infantil, graduada em Pedagogia e Letras. Especialista em Psico- pedagogia, Educação Especial (Altas Habilidades e Superdotação) e Alfabetização e Letramento. E-mail: silene.silva@unifesp.br. 3 Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa / Paulo Freire. – São Paulo: Paz e Terra, 1996.p.21 – (Coleção Leitura) 30 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA nos quais atuamos. Especialmente, porque lidamos com uma diversidade de saberes e necessidades educacionais específicas dos alunos. Com base nas leituras recomendadas pelos nossos professores, fomos orientados a analisar um plano de aula da escola onde lecionamos para verificar se os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) estão sendo considerados nas propostas pedagógicas aplicadas em sala de aula. A seguir, apresentaremos o passo a passo utilizado na elaboração desta atividade, que serve como um “estudo de caso” para aqueles que desejam implementar esta ferramenta pedagógica em sua prática escolar. A experiência relatada é baseada na minha própria prática, mas utilizarei o termo “professora” para descrever as ações realizadas. 2. DESCRIÇÃO DA ATIVIDADE PROPOSTA PARA IMPLE- MENTAÇÃO DO DUA Para a realização da atividade será analisado o plano de ensino de Língua Portuguesa de uma turma do 2º ano, referente à semana de 6 a 10 de maio de 2024, da E.V.M.O., localizada no município de Santo André. Esta turma é composta por 27 alunos, sendo que um deles possui laudo de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Conforme estabelecido pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015) e as diretrizes curriculares do município, trimestralmente um Plano de Educação Individualizado (PEI) é realizado ou revisado pela professora da sala regular em colaboração com a professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a professora assessora de Educação Inclusiva (PAEI). Quanto à alfabetização, a turma possui uma diversidade de conhecimentos, e muitos alunos têm necessidades educacionais específicas, especialmente na aprendizagem da leitura e escrita. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 31 2.1. Desdobramento da Atividade: Passos e Procedimentos 2.1.1. Conhecendo o Documento Oficial de Planejamento: Semanário Na unidade escolar, o plano de ensino a ser entregue no início de cada semana não precisa conter detalhamentos específicos para cada aula, sendo apenas necessário listar os conteúdos que serão abordados, contudo para esta atividade a professora da turma preencheu um quadro denominado “Plano de aula” para mencionar de que modo estes foram abordados. Abaixo segue quadro chamado de Semanário, no qual, todas as segundas-feiras devem estar descritos os conteúdos que serão abordados durante a semana. Os conteúdos propostos são fundamentados em diversos documentos legais, incluindo a LDB nº 9394/1996, Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (2015), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), o Documento Curricular da Rede Municipal de Santo André (2020), entre outros. Estruturalmente o documento apresenta: 1. Horizontalmente temos os campos: Nome da escola; Descrição do documento; Ensino Fundamental e nome da turma; Docente; AP (Assistente pedagógica); Semana; Nome da turma; Componentes curriculares: Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Humanas: Geografia/História) e Ciências da Natureza (Ciências). Plano de Atendimento Educacional Especializado (mais conhecido como PEI): Preenchido para alunos com necessidades educacionais específicas e que possuem laudo. Plano de Recuperação das Aprendizagens: Para todos os alunos que necessitam de apoio em suas necessidades educacionais específicas. 32 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 2. Verticalmente, há um campo para preenchimento da data e dos conteúdos. Observação: Para garantir a confidencialidade das informações da escola, todas as identificações mencionadas no documento Semanário serão representadas por siglas. Nota: Esta tabela é um documento de uso exclusivo da E.V.M.O. PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 33 2.1.2 Integrando o Currículo e Práticas Pedagógicas para uma Educação Inclusiva A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394/96, aborda o princípio da educação acessível para todos em diferentes partes. Um trecho importante é o Artigo 58, que trata da educação especial: “Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais.” Este artigo destaca a importância da oferta da educação especial na rede regular de ensino, visando garantir o acesso à educação para todos, independentemente das necessidades específicas que os educandos possam ter. Embora não utilize explicitamente o termo “educação acessível para todos”, essa disposição da LDB evidencia o compromisso com a inclusão educacional e o acesso universal à educação. A partir do exposto acima, para darmos início às nossas análises do plano de ensino coletado é importante compreender as concepções de currículo e as práticas pedagógicas aplicadas em sala de aula na promoção de uma educação que promova a aprendizagem de todos os alunos. Quanto ao currículo, segundo FERREIRA (2013, p. 74) “Abordar o tema currículo no contexto do debate da política de inclusão dentro do qual hoje o sistema educacional brasileiro está imerso constitui, ao mesmo tempo, uma necessidade e um desafio.” Para esta autora, constitui-se como uma necessidade quando a diversidade humana deve estar nele representada e um desafio, uma vez que, não temos uma “escola para todos” efetivamente implementada na prática. Segundo FERREIRA (2013, p. 80), a injustiça social e a iniquidade podem ser reduzidas quando o currículo escolar é comprometido com a valorização da diversidade, o respeito às diferenças e a promoção dos direitos humanos. Segundo PLETSCH (2013), o trabalho pedagógico do professor na atualidade tem exigido novas estratégias e propostas curriculares para promover situações de aprendizagem que atendam às necessidades educacionais específicas dos alunos. Em relação à prática educativa dos professores, LEONOR (2009, citado por PLETSCH, 2013, p. 18) faz citação de SACRISTÁN para afirmar que: 34 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA A prática educativa é algo mais do que a expressão do ofício dos professores, é algo que não lhes pertence por inteiro, mas um traço cultural compartilhado, assim como o médico não possui o domínio de todas as ações para favorecer a saúde, mas a compartilha com outros agentes, algumas vezes em relação de complementaridade e de colaboração, e em outras, em relação de atribuições. A prática educativa tem sua gênese em outras práticas que interagem com o sistema escolar e, além disso, é devedora de si mesma, de seu passado. Gimeno Sacristán (1999, p. 91). Quanto às práticas pedagógicas dos professores, HEREDERO (2020, p.735), a partir de seus estudos, menciona que: “O objetivo da educação no século XXI não consiste simplesmente no domínio dos conteúdos do conhecimento e no uso de novas tecnologias, mas abarca, também, o domínio do próprio processo de aprendizagem”. Entendemos que dominar este processo implica compreender como os alunos aprendem e propor métodos e estratégias que promovam seu aprendizado, proporcionando um ambiente onde possam se desenvolver academicamente, emocionalmente e socialmente. Nas palavras de MONTOAN, uma renomada educadora brasileira reconhecida por seu compromisso com a diversidade no contexto educacional, ela destaca em 2003 (p. 41) que: “um professor que engendra e participa da caminhada do saber “com” seus alunos consegue entender melhor as dificuldades e as possibilidades de cada ume provocar a construção do conhecimento com maior adequação”. Nesse contexto, o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), desenvolvido na década de 90 pelo “Center for Applied Special Technology (CAST)”, emerge como uma ferramenta essencial para os professores promoverem uma educação acessível e sem barreiras. Ele oferece um referencial fundamental para a elaboração de práticas e estratégias que priorizem a acessibilidade física e de serviços, buscando caminhos educacionais que permitam um aprendizado inclusivo (CAST UDL BOOK BUILDER, 2013). PRAIS e ROSA (2017, p.415, citado em Ensino e Perspectivas, 2022), afirmam que: PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 35 A organização da atividade de ensino subsidiado pelos princípios orientadores do DUA planifica as atividades, os objetivos, os recursos e as estratégias pedagógicas, as intenções e as práticas condizentes com o movimento da educação inclusiva, ou seja, visa a assegurar o direito de todos à educação, por meio de um ensino organizado para satisfazer às necessidades de aprendizagem dos alunos. Com base nos princípios do DUA, faremos a análise do plano de ensino de Língua Portuguesa proposto no Semanário da turma. 2.2 Caracterização da Turma: Hipótese de Escrita e Fluência Leitora As atividades analisadas neste estudo foram relacionadas ao plano de ensino de Língua Portuguesa. É importante destacar que as hipóteses de escrita, confirmadas nos estudos de EMÍLIA FERREIRO e ANA TEBEROSKY (citados por CIRIACO, 2020), representam fases do processo de alfabetização. Estas juntamente com os níveis de fluência leitora, podem gerar necessidades educacionais específicas para os alunos, caso eles não tenham consolidado as habilidades esperadas pelo currículo do 2º ano. Conforme mencionado anteriormente, esta turma apresenta diversas necessidades específicas, uma vez que os alunos estão distribuídos por todas as fases da hipótese de escrita e fluência leitora, enquanto o currículo prevê que todos devam estar na fase alfabética (escrita) e ser um leitor fluente. Para apoiar nossas análises, é importante compreendermos o mapeamento da turma em relação à hipótese de escrita e fluência leitora. Hipóteses de escrita Pré-silábicos Silábicos sem valor sonoro Silábicos com valor sonoro Silábicos- alfabéticos Alfabéticos iniciais/ ortográficos 2 2 4 2 17 Fluência leitora Pré-leitor Leitor Iniciante Leitor Fluente 8 15 4 Antes de procedermos à análise dos planos de aula, é importante revisarmos os conceitos de cada fase da hipótese de escrita e da fluência 36 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA leitora, pois esses nos fornecem insights valiosos sobre a diversidade de conhecimentos dos alunos desta turma. Para esclarecer as hipóteses de escrita, utilizaremos o entendimento de RODRIGUES conforme citado em UNIPLENA EDUCACIONAL (2020). • Hipótese de escrita pré-silábica: Nessa hipótese, a criança ainda não desenvolveu a compreensão da estrutura da escrita, sem correspondência com os sons dos fonemas, pois escreve utilizando símbolos, números, traços, letras aleatórias, sem separação entre as palavras, sendo necessário perguntar a ela o que está escrito. • Hipótese de escrita silábica sem valor sonoro: Nesta hipótese a criança passa a identificar que para escrever é necessário haver uma correspondência entre o falado e o escrito, e passa a eleger apenas as letras para sua escrita, compreendendo que não mais se pode escrever com símbolos, números, ou rabiscos, na maioria das vezes usando predominantemente as letras que lhe são familiares. • Hipótese de escrita silábica com valor sonoro: As crianças nessa etapa passam a usar as letras correspondentes ao que é falado, desenvolvendo cada vez mais a escrita, percebendo que para escrever é preciso registrar de acordo com o som de cada letra e sílaba, passando a diferenciar os sons produzidos durante a fala. • Hipótese de escrita silábica alfabética: Quando as crianças avançam na escrita, passando da silábica com valor para silábica alfabética significa que já começaram a registrar as sílabas correspondendo a maioria dos sons com os grafemas, omitindo uma ou outra letra, geralmente das sílabas mais complexas que possuem mais de duas letras. • Hipótese de escrita alfabética: A criança que chegou a essa fase já consegue ter autonomia ao escrever e ler, apresentando seu texto com apenas alguns erros ortográficos que serão desenvolvidos ao longo de sua jornada escritora e leitora, uma vez que o aprimoramento da escrita se dá ao longo da vida toda. Para elucidar os níveis de fluência leitora, utilizaremos a definição do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd UFJF, 2023): PESQUISAS, VIVÊNCIAS, POSSIBILIDADES E RECURSOS - VOLUME II 37 • Pré-leitor: Os estudantes alocados neste perfil não dispõem de condições mínimas para realizar a leitura oral, ainda que de palavras isoladamente. • Leitor Iniciante: Os estudantes que compõem esse grupo já venceram os desafios da alfabetização inicial, mas precisam desenvolver maior fluência em leitura e, principalmente, melhorar a dimensão prosódica de sua leitura – observar entonações e sinais de pontuação, que contribuem para a construção de sentido para o que se lê. • Leitor Fluente: Estudantes alocados neste perfil são aqueles que já venceram os desafios relacionados à decodificação das palavras e, por isso, leem mais rapidamente, ou seja, de modo mais automático. Dessa forma, é possível que esses estudantes possam direcionar mais esforços à compreensão do que estão lendo. 3. ANÁLISE DO PLANO DE AULA À LUZ DOS PRINCÍPIOS DO DUA 3.1 Princípios do DUA: Engajamento, Representação e Ação e Expressão Para enriquecer nossas análises sobre os princípios do Design Universal para a Aprendizagem (DUA), apresentamos a revisão dos conceitos fundamentais. Princípio do Engajamento (O “por que” da aprendizagem) Estimular o interesse pela aprendizagem. Princípio da Representação (O “o que” da aprendizagem) Apresentar informações e conteúdos de diversas formas. Princípio da Ação e Expressão (O “como” da aprendizagem) Permite que os alunos expressem o que sabem de maneira mais adequada. Fonte: Adaptado de MAINARDES e CASAGRANDE (2022), os princípios do De- sign Universal para a Aprendizagem (DUA), conforme definidos por CAST (2018). 3.2 Planejamento de Aula e Semanário O conteúdo abordado ao longo da semana está registrado no documento denominado “Semanário”, que segue logo abaixo do quadro descritivo (Plano de Aula). Embora não obrigatório, a professora da turma elaborou um quadro descritivo chamado de “Plano de Aula” detalhando os objetivos 38 EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA específicos propostos, as habilidades a serem trabalhadas, as estratégias de ensino, os recursos utilizados e o método de avaliação das aulas de Língua Portuguesa da semana. A elaboração desse suporte foi planejada para apoio na verificação da aderência destas aulas aos princípios do DUA, os quais estão listados logo após o Semanário. Plano de Aula Período: 06/05/2024 a 10/05/2024 Componente: Língua Portuguesa • Objetivos específicos: - Desenvolvimento da Competência Leitora: Socialização das experiências de leitura; Leitura crítico-reflexiva; Desenvolvimento das habilidades de compreensão textual. - Desenvolvimento da Competência Escrita: Expressão oral e escrita; Produção tex- tual; Ampliação de vocabulário; Ortografia. • Habilidades trabalhadas: (EF02LP26) Ler e compreender, com certa autonomia, textos literários, de gêneros variados, desenvolvendo o gosto pela leitura; (EF12LP01) Ler palavras tomando como referência palavras conhecidas e/ou memorizadas (estáveis), como o próprio nome e o de colegas; (EF02LP02) Grafar palavras desconhecidas apoiando-se no som e na grafia de palavras familiares e/ou estáveis. (EF12LP02B) Ler, com a mediação do professor, textos que circulam em meios im- pressos ou digitais,