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544 Dee Unglaub Silverthorn Por exemplo, o oxigênio move-se de áreas de pressão parcial mais elevada para áreas de pressão parcial menos elevada. A di- fusão dos gases individuais é importante para a troca de oxigênio e de dióxido de carbono entre os alvéolos e o sangue e do sangue para as células, como você aprenderá posteriormente. A lei de Boyle descreve as relações pressão- -volume A pressão exercida por um gás ou por uma mistura de gases em um recipiente fechado é criada pelas colisões das moléculas do gás em movimento com as paredes do recipiente e umas com as outras. Se o tamanho do recipiente é reduzido, os choques entre as moléculas de gás e as paredes tornam-se mais frequen- tes, e, assim, a pressão aumenta (Fig. 17.6b). Essa relação entre a pressão e o volume foi observada pela primeira vez por Robert Boyle, no ano de 1600, e pode ser expressa pela equação da lei de gases de Boyle: P1V1 � P2V2 em que P representa pressão e V representa volume. A lei de Boyle diz que, se o volume de gás é reduzido, a pressão aumenta. Se o volume aumenta, a pressão diminui. No sistema respiratório, mudanças no volume da cavidade torácica durante a ventilação causam gradientes de pressão que geram fluxo de ar. Quando o volume do tórax aumenta, a pressão alveolar diminui, e o ar flui para dentro do sistema respiratório. Quando o volume do tórax diminui, a pressão alveolar aumenta, e o ar flui para a atmosfera. Esse movimento de ar é chamado de fluxo de massa, visto que toda a mistura de gás está se movendo, e não somente um ou dois dos gases distribuídos pelo ar. As leis dos gases estão resumidas na TABELA 17.1. VENTILAÇÃO A troca da massa de ar entre a atmosfera e os alvéolos é denomi- nada ventilação, ou respiração (Fig. 17.1). Um único ciclo respi- ratório consiste em uma inspiração seguida por uma expiração. Os volumes pulmonares mudam durante a ventilação Os fisiologistas e médicos avaliam a função pulmonar de uma pessoa medindo quanto ar ela move durante a respiração em re- pouso, e depois em esforço máximo. Estes testes de função pul- monar usam um espirômetro, um instrumento que mede o vo- lume de ar movido a cada respiração (FIG. 17.7a). Atualmente, a maioria dos espirômetros em uso clínico são pequenas máquinas computadorizadas, em vez do espirômetro tradicional ilustrado aqui. Quando uma pessoa é conectada ao espirômetro tradi- cional por um bocal, e seu nariz é fechado com um grampo, o trato respiratório da pessoa e o espirômetro formam um sistema fechado. Quando a pessoa inspira, o ar move-se do espirômetro para dentro dos pulmões, e a pena de registro, a qual traça um gráfico em um cilindro que gira, move-se para cima. Quando a pessoa expira, o ar move-se dos pulmões de volta para o espirô- metro, e a pena de registro move-se para baixo. Volumes pulmonares O ar movido durante a respiração pode ser dividido em quatro volumes pulmonares: (1) volume corrente, (2) volume de reserva inspiratório, (3) volume de reser- va expiratório e (4) volume residual. Os valores numéricos usados no gráfico da Figura 17.7b representam volumes médios para um homem de 70 kg. Os volumes para as mulheres são geralmente menores, como demonstrado na Figura 17.7b. Os volumes pul- monares variam consideravelmente com a idade, o sexo, a altura e o peso, e, assim, os médicos usam algoritmos com base nesses parâmetros para calcular os volumes pulmonares. (Um algoritmo é uma equação ou uma série de etapas usadas para solucionar um problema.) Ver questão #36 ao final deste capítulo para alguns destes algoritmos. Cada um dos parágrafos seguintes inicia com instruções que seriam dadas se você estivesse sendo testado para estes volumes. “Respire calmamente.” O volume de ar que se move durante uma única inspiração ou expiração é denominado volume cor- rente (Vc). O volume corrente médio durante uma respiração espontânea (ventilação basal) é de cerca de 500 mL. (É difícil respirar normalmente quando a pessoa está pensando sobre a sua respiração, por isso o médico pode não dar essa instrução.) “Agora, no f inal de uma inspiração tranquila, você deve inspi- rar o máximo de ar adicional que for possível.” O volume adicional inspirado, acima do volume corrente, representa o seu volume de reserva inspiratório (VRI). Em um homem de 70 kg, este volu- me é de cerca de 3.000 mL, aproximadamente seis vezes mais do que o volume corrente normal. “Agora, pare no f inal de uma expiração normal e, em seguida, expire tanto ar quanto for possível.” Essa quantidade de ar expira- do vigorosamente após o final de uma expiração espontânea é o volume de reserva expiratório (VRE), que é, em média, cerca de 1.100 mL. O quarto volume não pode ser medido diretamente. Mes- mo se você soprar o máximo de ar que puder, ainda restará ar nos pulmões e nas vias aéreas. O volume de ar presente no sistema respiratório após a expiração máxima – cerca de 1.200 mL – é chamado de volume residual (VR). A maior parte desse volume residual existe porque os pulmões são mantidos estirados aderi- dos pelo líquido pleural às costelas. TABELA 17.1 Lei dos gases 1. A pressão total de uma mistura de gases é a soma das pressões dos gases individuais (lei de Dalton). 2. Para descobrir a pressão parcial de um gás (Pgás) no ar seco, multiplique a contribuição do gás (%) pela pressão atmosférica (Patm). Pgás � Patm � % do gás. 3. Para calcular a pressão parcial de um gás no ar umidificado, você deve primeiro subtrair o valor do vapor de água ( ) da pressão total (Patm). Pgás � (Patm � ) � % do gás. 4. Os gases, isolados ou em uma mistura, movem-se de áreas de maior pressão para áreas de menor pressão. 5. Se o volume de um recipiente de gás muda, a pressão do gás mudará de maneira inversa: P1V1 � P2V2 (lei de Boyle). Fisiologia humana: uma abordagem integrada 545 0.5 Inspiração Tempo Ar Água Expiração Inspiração Expiração 0,5 0 Volume (L) Quando a pessoa inspira, o ar move-se para dentro dos pulmões. O volume da campânula diminui, e a pena sobe no traçado. Campânula 5.800 2.800 2.300 1.200 Volume corrente de 500 mL Volume (mL) Volume residual de 1.200 mL Volume de reserva expiratório de 1.100 mL Volume de reserva inspiratório de 3.000 mL Capacidade pulmonar total Capacidade inspiratória Capacidade vital de 4.600 mL Capacidade residual funcional Final da inspiração normal Final da expiração normal VRI VC VRE VR Espaço morto VR = Volume residual VRE = Volume de reserva expiratório VC = Volume corrente VRI = Volume de reserva inspiratório Os quarto volumes pulmonares: Capacidade é a soma de dois ou mais volumes. Capacidade inspiratória = VC + VRI Capacidade vital = VC + VRI + VRE Capacidade pulmonar total = VC + VRI + VRE + VR Capacidade residual funcional = VRE + VR O traçado de um espirômetro mostra os volumes pulmonares e as capacidades. Tempo (a) O espirômetro Esta figura mostra um espirômetro tradicional. O indivíduo insere um bocal que está ligado a uma espécie de campânula invertida e preenchido com ar ou oxigênio. O volume da campânula e o volume das vias respiratórias do indivíduo criam um sistema fechado, uma vez que a campânula é suspensa em água. *Os volumes pulmonares são dados para um homem com 70 kg ou uma mulher com 50 kg de 28 anos. (b) Capacidades e volumes pulmonares LEGENDA 3.000 500 1.100 1.200 1.900 500 700 1.100 5.800 mL 4.200 mL VRI VC VRE Capacidade vital Volume residual Capacidade pulmonar total Capacidades e volumes pulmonares* Homens Mulheres FIGURA 17.7 Testes de função pulmonar. 546 Dee Unglaub Silverthorn Capacidades pulmonares O somatório de dois ou mais vo- lumes pulmonares é chamado de capacidade. A capacidade vital (CV) é a soma do volume de reserva inspiratório, volume de re- serva expiratório e volume corrente. A capacidade vital representa a quantidade máxima de ar que pode ser voluntariamente movida para dentroou para fora do sistema respiratório a cada respiração (ciclo ventilatório). Ela diminui com a idade, quando os músculos enfraquecem e os pulmões se tornam menos elásticos. Para medir a capacidade vital, a pessoa que está sendo tes- tada inspira o máximo de volume possível e, em seguida, expira tudo o mais rápido que puder. Esse teste de capacidade vital for- çada permite que o médico possa medir o quão rápido o ar deixa as vias aéreas no primeiro segundo da expiração, uma medida conhecida como VEF1, ou volume expiratório forçado em 1 se- gundo. O VEF1 diminui em certas doenças pulmonares, como a asma, e também com a idade. A capacidade vital somada ao volume residual é a capaci- dade pulmonar total (CPT). Outras capacidades importantes na medicina pulmonar (pneumologia) são a capacidade inspi- ratória (volume corrente � volume de reserva inspiratório) e a capacidade residual funcional (volume de reserva expiratório � volume residual). REVISANDO CONCEITOS 11. Como os volumes pulmonares estão relacionados às capacidades pulmonares? 12. Qual volume pulmonar não pode ser medido diretamente? 13. Se a capacidade vital diminui com a idade, mas a capacidade pulmonar total não muda, qual volume pulmonar deve estar sendo modificado? Em qual direção? 14. Como o ar inalado se torna umidificado ao passar pelas vias aéreas, o que acontece com a PO2 nesse processo? Durante a ventilação, o ar flui devido aos gradientes de pressão A respiração é um processo ativo que requer contração muscular. O ar flui para dentro dos pulmões devido ao gradiente de pressão criado por uma bomba, da mesma forma que o sangue flui pela ação de bombeamento do coração. No sistema respiratório, os músculos da caixa torácica e o diafragma funcionam como uma bomba, uma vez que a maior parte do tecido pulmonar é um fino epitélio de troca. Quando esses músculos se contraem, os pulmões expandem-se, uma vez que estão presos à parede interna do tórax pelo líquido pleural. Os músculos primários envolvidos na respiração espontânea (respiração em repouso) são o diafragma, os intercostais externos e os escalenos. Durante a respiração forçada, outros músculos do tórax e do abdome podem ser requisitados a auxiliar. Exemplos de situações fisiológicas nas quais a respiração é forçada incluem exercícios, tocar um instrumento de sopro e soprar um balão. Como mencionado, o fluxo de ar no trato respiratório obedece às mesmas regras do fluxo sanguíneo: Fluxo � �P/R Esta equação significa que (1) o fluxo de ar ocorre em res- posta a um gradiente de pressão (ΔP) e (2) o fluxo diminui à me- dida que a resistência (R) do sistema ao fluxo aumenta. Antes de discutirmos a resistência, consideraremos como o sistema respi- ratório gera um gradiente de pressão. As relações pressão-volume da lei de Boyle são a base da ventilação pulmonar. REVISANDO CONCEITOS 15. Compare a direção do movimento do ar durante um ciclo respiratório com a direção do fluxo sanguíneo durante um ciclo cardíaco. 16. Explique a relação entre os pulmões, as membranas pleurais, o líquido pleural e a caixa torácica. A inspiração ocorre quando a pressão alveolar diminui Para que o ar possa se mover para dentro dos alvéolos, a pressão dentro dos pulmões deve ser mais baixa do que a pressão atmos- férica. De acordo com a lei de Boyle, um aumento no volume gera uma redução na pressão. Durante a inspiração, o volume torácico aumenta quando certos músculos esqueléticos da caixa torácica e o diafragma se contraem. Quando o diafragma contrai, ele desce em direção ao abdome. Na respiração tranquila, o diafragma move-se cerca de 1,5 cm, aumentando o volume torácico (FIG. 17.8b). A contração do diafragma causa de 60 a 75% da modificação do volume ins- piratório durante uma respiração espontânea normal. O movimento da caixa torácica cria os 25 a 40% restan- tes da modificação do volume. Durante a inalação, os músculos intercostais externos e escalenos (ver Fig. 17.2c.) contraem e tra- cionam as costelas para cima e para fora (Fig. 17.8b). O movi- mento das costelas durante a inspiração tem sido comparado a uma ação de alavanca, que eleva toda a caixa torácica (as costelas movem-se para cima e para longe da coluna), e também com um movimento de alça de balde, uma vez que há um aumento da distância lateral entre as paredes do balde (as costelas movem-se para fora). A combinação desses dois movimentos amplia a caixa torácica em todas as direções. À medida que o volume torácico aumenta, a pressão diminui, e o ar flui para dentro dos pulmões. Por muitos anos, a respiração espontânea ou basal foi atri- buída somente à ação do diafragma e dos músculos intercostais externos. Pensava-se que os músculos escaleno e esternocleidomas- tóideo eram ativos apenas durante a respiração profunda. Entre- tanto, dados recentes têm mudado nosso entendimento de como esses músculos acessórios contribuem para a respiração basal. Se os escalenos de um indivíduo estão paralisados, a inspi- ração ocorre primariamente pela contração do diafragma. A ob- servação de pacientes com disfunções neuromusculares revelou que, embora a contração do diafragma aumente o volume torá- cico por movê-lo em direção à cavidade abdominal, ela também tende a puxar as costelas inferiores para dentro, trabalhando con- tra a inspiração. Em indivíduos normais, sabemos que as costelas inferiores se movem para cima e para fora durante a inspiração, em vez de para dentro. O fato de não haver movimento para cima e para fora das costelas em pacientes com os escalenos para- lisados nos diz que, normalmente, os escalenos devem contribuir para a inspiração, levantando o esterno e as costelas superiores. Fisiologia humana: uma abordagem integrada 547 Novas evidências também parecem subestimar o papel dos músculos intercostais externos durante a respiração em repouso ou basal. Contudo, os intercostais externos desempe- nham um papel importante quando a atividade respiratória aumenta. Como a contribuição exata dos intercostais externos e dos escalenos varia dependendo do tipo de respiração, agrupa- remos esses músculos e os chamaremos simplesmente de mús- culos inspiratórios. Agora, veremos como as alterações da pressão alveolar (PA) mudam durante uma única inspiração. Siga os gráficos da FIGURA 17.9 enquanto você estuda todo o processo. Lembre-se que a pressão atmosférica recebe o valor de 0 mmHg. Números negativos designam pressões subatmosféricas, e números positi- vos denotam pressões maiores do que a atmosférica. Tempo 0. Na breve pausa entre as respirações, a pressão alveolar é igual à pressão atmosférica (0 mmHg no ponto A1). Quando as pressões são iguais, não há fluxo de ar. Tempo 0 a 2 segundos: inspiração. Quando a inspiração inicia, os músculos inspiratórios contraem, e o volume torácico aumenta. Com o aumento do volume, a pressão alveolar diminui cerca de 1 mmHg abaixo da pressão atmosférica (�1 mmHg, ponto A2), e o ar flui para dentro dos alvéolos (ponto C1 a C2). A mudança do volume torácico ocorre mais rapidamente do que a velocidade do ar fluindo para dentro dos pulmões, e, assim, a pressão alveolar atinge o seu valor mais baixo no meio do proces- so de inspiração (ponto A2). Como o ar continua a fluir para dentro dos alvéolos, a pressão aumenta até a caixa torácica parar de expandir-se, ime- diatamente antes do término da inspiração. O movimento do ar continua por mais uma fração de segundo, até que a pressão dentro dos pulmões se iguala à pressão atmosférica (ponto A3). Ao término da inspiração, o volume pulmonar está no seu valor máximo no ciclo respiratório (ponto C2), e a pressão alveolar é igual à pressão atmosférica. Você pode demonstrar esse fenômeno realizando uma inspiração profunda e parando o movimento do seu tórax ao final da inspiração. (Não prenda a sua respiração, pois assim a abertura da faringe fecha e impede o fluxo de ar.) Se você fizer isso corretamente, vai notar que o fluxo de ar cessa após você interrompero movimento inspiratório. Esse exercício mostra que, ao final da inspiração, a pressão alveolar é igual à pressão atmosférica. “Um movimento de alavanca” aumenta a dimensão anteroposterior da caixa torácica. O movimento da alavanca de uma bomba manual é análogo à elevação das costelas e do esterno. Vista lateral: Vértebra Vértebra Esterno Esterno Costela Costela “Um movimento de alça de balde” aumenta a dimensão lateral da caixa torácica. O movimento da alça de um balde para cima e para fora é um bom modelo para o movimento lateral das costelas durante a inspiração. Vista frontal: O diafragma contrai e torna-se achatado. Espaço pleural Diafragma (a) Em repouso: o diafragma está relaxado. (c) Expiração: o diafragma relaxa, e o volume torácico diminui. Durante a inspiração, as dimensões da cavidade torácica aumentam. (b) Inspiração: o volume torácico aumenta. FIGURA 17.8 Movimentos da caixa torácica e do diafragma durante a respiração. 548 Dee Unglaub Silverthorn A expiração ocorre quando a pressão alveolar aumenta Ao final da inspiração, os impulsos dos neurônios motores somáti- cos para os músculos inspiratórios cessam, e os músculos relaxam. A retração elástica dos pulmões e da caixa torácica leva o dia- fragma e as costelas para as suas posições originais relaxadas, da mesma maneira que um elástico esticado retorna ao seu tamanho original quando é solto. Devido ao fato de a expiração durante a respiração em repouso envolver a retração elástica passiva, em vez da contração muscular ativa, ela é chamada de expiração passiva. Tempo 2 a 4 segundos: expiração. Como os volumes pul- monares e torácicos diminuem durante a expiração, a pressão de ar nos pulmões aumenta, atingindo cerca de 1 mmHg acima da pressão atmosférica (Fig. 17.9, ponto A4). A pressão alveolar é agora maior do que a pressão atmosférica, de modo que o fluxo de ar se inverte, e o ar move-se para fora dos pulmões. Tempo 4 segundos. No final da expiração, o movimen- to de ar cessa quando a pressão alveolar novamente se iguala à pressão atmosférica (ponto A5). O volume pulmonar atinge o seu valor mínimo dentro do ciclo respiratório (ponto C3). Nesse ponto, o ciclo respiratório terminou e está pronto para ser inicia- do novamente com a próxima respiração. As diferenças de pressão, mostradas na Figura 17.9, apli- cam-se à respiração em repouso (basal). Durante o exercício ou a respiração forçada, esse volume se torna proporcionalmente maior. A expiração ativa ocorre durante a exalação voluntária e quando a ventilação excede 30 a 40 ciclos ventilatórios por minuto. (A taxa de ventilação normal em repouso é de 12 a 20 ciclos ventilatórios por minuto para um adulto.) A expiração ativa usa os músculos intercostais internos e os músculos abdominais (ver Fig. 17.2c), os quais não são utilizados durante a inspiração. Esses músculos são coletivamente chamados de músculos expiratórios. Os músculos intercostais internos revestem a superfície interna da caixa torácica. Quando se contraem, eles puxam as costelas para dentro, reduzindo o volume da cavidade torácica. Para sentir essa ação, coloque as mãos em sua caixa torácica, so- pre vigorosamente o ar para fora dos seus pulmões o máximo que puder e observe o movimento das suas mãos à medida que você faz isso. Os intercostais internos e os intercostais externos funcio- nam como grupos de músculos antagonistas (p. 379) para alte- rar a posição e o volume da caixa torácica durante a ventilação. O diafragma, entretanto, não possui músculos antagonistas. Em vez disso, os músculos abdominais contraem durante a expi- ração ativa para suplementar a atividade dos intercostais internos. • • • • • • • • • • • • •• • • • • ••••••••• • •• QUESTÕES DO GRÁFICOQ Traqueia Brônquios Pulmão Diafragma Cavidade pleural direita Cavidade pleural esquerda Pressão alveolar (mmHg) Pressão intrapleural (mmHg) + 2 + 1 0 – 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 500 750 250 0 1 2 3 5 6 7 84 A1 B1 C1 Inspiração Expiração A2 A3 A4 B2 B3 Tempo (s) C2 Inspiração Expiração A5 C3 Volume de ar movido (mL) Normalmente, a expiração dura 2 a 3 vezes mais do que a inspiração (não mostrado na escala deste gráfico idealizado). 1. Em que ponto do ciclo a pressão alveolar é maior? E menor? E igual à pressão atmosférica? 2. Quando o volume pulmonar é mínimo, a pressão alveolar é ___________ e a contração dos músculos intercostais externos é ____________. (a) máxima (b) mínima (c) está movendo-se do máximo para o mínimo (d) está movendo-se do mínimo para o máximo 3. Qual é a taxa ventilatória desta pessoa? FIGURA 17.9 Modificações da pressão durante a respiração tranquila. Fisiologia humana: uma abordagem integrada 549 A contração abdominal puxa as costelas inferiores para den- tro e diminui o volume abdominal, ações que deslocam o intestino e o fígado para cima. As vísceras deslocadas empurram o diafragma para cima, para dentro da cavidade torácica, e o volume do tórax di- minui passivamente ainda mais. A ação dos músculos abdominais durante a expiração forçada é o motivo pelo qual os instrutores de aeróbica dizem a você para soprar o ar para fora quando levanta a cabeça e os ombros durante os exercícios abdominais. O processo ativo de soprar o ar para fora ajuda a contrair os abdominais, os mesmos músculos que você está tentando fortalecer. Qualquer doença neuromuscular que enfraqueça os múscu- los esqueléticos ou lesione seus neurônios motores pode afetar a ventilação. Com a diminuição da ventilação, menos ar “novo” entra nos pulmões. Além disso, a perda da habilidade de tossir aumenta o risco de pneumonia e de outras infecções. Exemplos de doenças que afetam o controle motor da ventilação incluem a miastenia grave (p. 256), uma doença em que os receptores de acetilcolina das placas motoras dos músculos esqueléticos são destruídos, e a poliomielite, uma doença viral que paralisa os músculos esqueléticos. REVISANDO CONCEITOS 17. Scarlett O’Hara está tentando fechar um espartilho que tem 46 cm de cintura. Ela terá mais sucesso se respirar fundo e segurar a respiração ou se soprar para fora todo o ar dos seus pulmões? Por quê? 18. Por que a perda da capacidade de tossir aumenta o risco de infecções respiratórias? (Dica: o que a tosse causa ao muco aderido às vias aéreas?) A pressão intrapleural muda durante a ventilação A ventilação requer que os pulmões, os quais não podem se contrair ou se expandir por conta própria, movam-se em as- sociação com a contração e o relaxamento do tórax. Como ob- servamos no início deste capítulo, os pulmões estão inseridos no saco pleural. A superfície dos pulmões é coberta pela pleu- ra visceral, e a porção pleural que reveste a cavidade torácica é chamada de pleura parietal. As forças de coesão do líquido intrapleural promovem a adesão dos pulmões à caixa torácica. Quando a caixa torácica se movimenta durante a respiração, os pulmões movem-se junto. Pressão intrapleural subatmosférica A pressão in- trapleural no fluido entre as membranas pleurais é normalmen- te subatmosférica. Esta pressão subatmosférica surge durante o desenvolvimento fetal, quando a caixa torácica associada com sua membrana pleural cresce mais rapidamente que o pulmão com sua membrana pleural associada. As duas membranas pleurais são mantidas unidas pelo líquido pleural, de modo que os pulmões são forçados a se estirarem, a fim de se adaptarem ao maior volume da cavidade torácica. Ao mesmo tempo, no entanto, o recolhimento elástico dos pulmões cria uma força direcionada para dentro, que tenta puxar os pulmões para longe da caixa torácica (FIG. 17.10a). A combinação da caixa torácica puxando para fora e a retração elástica dos pulmões puxando para dentro cria uma pressão intrapleural subatmosférica de cerca de �3 mmHg. Ar P = Patm O pulmão colapsa para o tamanho não estirado. Faca Líquido pleural Pleura visceralPleura parietal Diafragma P = � 3 mmHg A pressão intrapleural é subatmosférica. Costelas Membranas pleurais Se a cavidade pleural fechada é aberta para a atmosfera, o ar flui para dentro. A caixa torácica expande-se levemente. As propriedades elásticas da caixa torácica tentam puxar a parede torácica para fora. A retração elástica do pulmão cria uma força que puxa o pulmão para dentro. (a) No pulmão normal em repouso, o líquido pleural mantém o pulmão aderido à parede da caixa torácica. (b) Pneumotórax. Se a cavidade pleural for aberta e ficar conectada à atmosfera, o ar flui para dentro. A ligação que mantém o pulmão aderido à caixa torácia é perdida, e o pulmão colapsa, criando um pneumotórax (ar no tórax). FIGURA 17.10 A pressão subatmosférica na cavidade pleural ajuda a manter os pulmões inflados. 550 Dee Unglaub Silverthorn Você pode criar uma situação semelhante enchendo uma seringa com água, removendo todo o ar e conectando uma agu- lha ou válvula de três vias no final da seringa. Nesse ponto, a pressão dentro do cilindro da seringa é igual à pressão atmosféri- ca. Agora, segure a seringa (a parede torácica) em uma das mãos enquanto tenta tirar o êmbolo (o pulmão elástico afasta-se da parede torácica). À medida que você puxa o êmbolo, o volume dentro da seringa aumenta ligeiramente, porém as forças coesi- vas entre as moléculas de água fazem a água resistir à expansão. A pressão na seringa, a qual é inicialmente igual à pressão atmos- férica, diminui ligeiramente à medida que você puxa o êmbolo. Se você solta o êmbolo, ele volta para a sua posição de repouso, restabelecendo a pressão atmosférica dentro da seringa. Esse ex- perimento demonstra as forças coesivas da água: a água vai resis- tir ao estiramento. Pneumotórax Agora, suponha que seja feita uma abertura entre a cavidade pleural, com a sua pressão subatmosférica, e a atmosfera. Na vida real, isso pode acontecer com uma faca per- furando as costelas, uma costela quebrada perfurando a mem- brana pleural, ou qualquer outro evento que perfure a cavidade pleural. O ar move-se para os locais de menor pressão, de modo que a abertura entre a cavidade pleural e a atmosfera permite que o ar flua para dentro da cavidade, assim como o ar entra em uma lata cheia de vácuo quando o selo é rompido com um abridor de latas. O ar que entra na cavidade pleural desfaz as interações do líquido que mantêm o pulmão aderido à caixa torácica. A parede torácica expande-se, ao passo que os pulmões elásticos colapsam para um estado não estirado, como um balão esvaziado (Fig. 17.10b). Esta condição, chamada de pneumotórax, resulta em um colapso pulmonar, que o torna incapaz de funcionar nor- malmente. O pneumotórax pode ser devido a um trauma, mas também pode ocorrer espontaneamente quando uma vesícula congênita, uma parte enfraquecida do parênquima pulmonar, rompe-se, permitindo que o ar do interior do pulmão entre na cavidade pleural. A correção de um pneumotórax tem dois componentes: remover o máximo de ar possível da cavidade pleural com uma bomba de sucção e fechar o orifício para impedir que mais ar entre. Qualquer ar remanescente na cavidade é gradualmente ab- sorvido para o sangue, refazendo as interações do líquido pleural e reinflando o pulmão. A pressão intrapleural varia durante o ciclo respirató- rio No início da inspiração, a pressão intrapleural é de cerca de �3 mmHg (Fig. 17.9, ponto B1). À medida que a inspira- ção prossegue, a membrana pleural e os pulmões acompanham a expansão da caixa torácica devido a interações com o líquido pleural, porém o tecido pulmonar elástico resiste a ser estirado. A tendência de os pulmões ficarem o mais distante possível da caixa torácica faz a pressão intrapleural se tornar ainda mais ne- gativa (Fig. 17.9, ponto B2). Como esse processo é difícil de se visualizar, voltaremos à analogia da seringa cheia de água com a agulha conectada. Você pode puxar o êmbolo um pouco para fora sem muito esforço, mas a coesividade da água torna difícil puxar mais o êmbolo. A quan- tidade aumentada de trabalho que você aplica tentando puxar o êmbolo para fora é comparada com o trabalho que os seus mús- culos inspiratórios devem fazer quando eles contraem durante a inspiração. Quanto mais profunda a respiração, mais trabalho é necessário para estirar o tecido elástico pulmonar. No final de uma inspiração tranquila, quando os pulmões são totalmente expandidos, a pressão intrapleural cai para apro- ximadamente �6 mmHg (Fig. 17.9, ponto B2). Durante o exer- cício, ou outras inspirações vigorosas, a pressão intrapleural pode alcançar �8 mmHg, ou menos. Durante a expiração, a caixa torácica retorna à sua posição de repouso. Os pulmões deixam a sua posição de estiramento, e a pressão intrapleural retorna ao seu valor normal de cerca de �3 mmHg (ponto B3). Observe que a pressão intrapleural nunca se equilibra com a pressão atmosférica, pois a cavidade pleural é um compartimento fechado. REVISANDO CONCEITOS 19. Uma pessoa tem contrações espasmódicas periódicas do diafragma, conhecidas como soluço. O que ocorre às pressões intrapleural e alveolar quando uma pessoa soluça? 20. Uma vítima apunhalada é levada à sala de emergência com uma faca entre as costelas no lado esquerdo do tórax. O que provavelmente ocorreu ao seu pulmão esquerdo? E ao pulmão direito? Por que parece que o lado esquerdo da sua caixa torácica está maior que o lado direito? A complacência e a elasticidade pulmonar podem mudar em estados patológicos Os gradientes de pressão necessários para o fluxo de ar são criados pelo trabalho da contração dos músculos esqueléticos. Em geral, cerca de 3 a 5% da energia do corpo são utilizadas para a respiração basal. Durante o exercício, a energia requerida para a respiração aumenta substancialmente. Os dois fatores que têm maior influência na quantidade de trabalho necessária para a respiração são a distensibilidade dos pulmões e a resistência das vias aéreas ao fluxo de ar. A ventilação adequada depende da habilidade dos pul- mões de se expandirem normalmente. A maior parte do trabalho respiratório é gasto para superar a resistência elástica dos pul- mões e da caixa torácica ao estiramento. Clinicamente, a habili- dade do pulmão de se estirar é chamada de complacência. SOLUCIONANDO O PROBLEMA A DPOC de Edna começou com uma bronquite crônica e tosse com presença de muco (catarro) pela manhã. A fu- maça do cigarro paralisa os cílios que varrem impurezas e muco para fora das vias aéreas, e a irritação gerada pela fumaça aumenta a produção de muco nas vias aéreas. Sem cílios funcionais, muco e impurezas acumulam-se nas vias aéreas, levando à tosse crônica. Eventualmente, os fuman- tes podem desenvolver enfisema, além de bronquite. P2: Por que as pessoas com bronquite crônica têm uma taxa de infecções respiratórias maior que o normal? 550537535 552 554 559 Fisiologia humana: uma abordagem integrada 551 A complacência refere-se à quantidade de força que deve ser exercida sobre um corpo para o deformar. No pulmão, pode- mos expressar a complacência como uma alteração do volume (V), que é resultado de uma força ou pressão (P) exercida sobre o pulmão: �V/�P. Um pulmão de alta complacência pode ser estirado facilmente, assim como uma pessoa complacente pode ser persuadida facilmente. Um pulmão com baixa complacência requer mais força dos músculos inspiratórios para ser estirado. A complacência é o inverso da elastância (recuo elás- tico), que é a capacidade de resistir à deformação mecânica. A elastância também se refere à capacidade que um corpo tem de voltar à sua forma original quando a força que promove a sua deformação é removida. Um pulmão que é estirado facilmente (alta complacência) provavelmente apresenta perda do seu tecido elástico e, assim, não voltará ao seu volume de repouso quando a força que o mantém estirado cessa(baixa elastância). Você pode ter experimentado algo assim com um short de ginástica velho. Após muitas lavadas, o elástico do cós é facilmente estirado (alta complacência), porém perde elasticidade, tornando impossível que o short permaneça ao redor da sua cintura. Problemas análogos ocorrem no sistema respiratório. Por exemplo, como mencionado em Solucionando o problema, o en- fisema é uma doença na qual as fibras de elastina normalmente encontradas no tecido pulmonar são destruídas. A destruição da elastina resulta em pulmões que exibem alta complacência e estiram facilmente durante a inspiração. Todavia, esses pulmões também apresentam uma elasticidade diminuída, de modo que não retornam à sua posição de repouso durante a expiração. Para entender a importância da retração elástica para a expiração, pense em um balão e em um saco plástico inflados. O balão é similar ao pulmão normal. As suas paredes elásticas apertam o ar dentro do balão, aumentando, assim, a pressão in- terna do ar. Quando a boca do balão é aberta para a atmosfera, a retração elástica causa o fluxo de ar para fora do balão. O saco plástico inflado, por outro lado, é como o pulmão de uma pessoa com enfisema. Ele possui alta complacência e é facilmente inflado, porém possui pouca retração elástica. Se o saco plástico é inflado e aberto para a atmosfera, a maior parte do ar permanece no interior dele. Para empurrar o ar para fora do saco, você deve apertá-lo com as mãos. Os pacientes com enfisema contraem seus músculos expiratórios (expiração ativa) para forçar a saída de ar que não está saindo com o recolhimento elástico dos pulmões. Doença restritiva pulmonar A diminuição da complacên- cia pulmonar afeta a ventilação, visto que mais trabalho deve ser realizado para estirar um pulmão mais rígido. Condições pato- lógicas nas quais a complacência está reduzida são chamadas de doenças pulmonares restritivas. Nessas condições, a energia necessária para estirar os pulmões menos complacentes pode exceder muito o trabalho respiratório normal. Duas causas co- muns de diminuição da complacência são o tecido cicatricial não elástico formado em doenças pulmonares f ibróticas e a produção alveolar inadequada de surfactante, uma substância química que facilita a expansão do pulmão. A fibrose pulmonar é caracterizada pelo desenvolvimen- to de tecido fibroso cicatricial rígido que restringe a insuflação pulmonar. Na fibrose idiopática pulmonar, a causa é desconhe- cida. Outras formas de doença pulmonar fibrótica resultam da inalação crônica de matéria particulada fina, como o asbesto e a sílica, que escapam do revestimento de muco das vias aéreas e alcançam os alvéolos. Os macrófagos alveolares (ver Fig. 17.2g), então, ingerem a matéria inalada. Se as partículas são orgânicas, os macrófagos podem digeri-las com as enzimas lisossômicas. Entretanto, se as partículas não podem ser digeridas ou se elas se acumulam em grande número, ocorre um processo inflama- tório. Os macrófagos, então, secretam fatores de crescimento que estimulam fibroblastos no tecido conectivo pulmonar a produzir colágeno inelástico. A fibrose pulmonar não pode ser revertida. O surfactante diminui o trabalho respiratório Durante anos, os fisiologistas assumiram que a elastina e ou- tras fibras elásticas eram a fonte primária da resistência ao es- tiramento no pulmão. Contudo, estudos comparando o trabalho necessário para expandir pulmões cheios de ar e pulmões cheios de solução salina mostraram que os cheios de ar são mais difíceis de se inflar. A partir desse resultado, os pesquisadores concluíram que o tecido pulmonar contribui menos para a resistência do que se pensava. Alguma outra propriedade do pulmão normal cheio de ar, uma propriedade não presente no pulmão cheio com solu- ção salina, deve criar a maior parte da resistência ao estiramento. Essa propriedade é a tensão superf icial (p. 39) criada pela fina camada de fluido entre as células alveolares e o ar. Em qual- quer interface ar-líquido, a superfície do líquido está sob tensão, como uma fina membrana sendo esticada. Quando o líquido é a água, a tensão superficial ocorre devido às ligações de hidrogênio entre as moléculas de água. As moléculas de água da superfície do líquido são atraídas por outras moléculas de água, localizadas abaixo e ao lado delas, porém não são atraídas para os gases do ar na interface ar-líquido. A tensão superficial alveolar é semelhante à tensão super- ficial que existe em uma bolha esférica, embora os alvéolos não sejam esferas perfeitas. A tensão superficial criada pelo fino filme de líquido é direcionada para o centro da bolha e cria pressão no interior dela. A lei de LaPlace é uma expressão dessa pressão. Ela estabelece que a pressão (P) dentro de uma bolha formada por uma fina película de líquido é uma função de dois fatores: a tensão superficial do líquido (T) e o raio da bolha (r). Essa rela- ção é expressa pela equação P � 2T/r Observe, na FIGURA 17.11a, que se duas bolhas tiverem diâmetros diferentes, mas forem formadas por fluidos com a mesma tensão superficial, a pressão no interior da bolha menor é maior do que a pressão no interior da bolha maior. Como isso se aplica aos pulmões? Em fisiologia, podemos comparar a bolha ao alvéolo revestido por líquido (embora o al- véolo não seja uma esfera perfeita). O líquido que reveste todos os alvéolos gera tensão superficial. Se a tensão superficial (T) do líquido fosse a mesma nos alvéolos pequenos e nos grandes, os alvéolos pequenos teriam uma pressão maior dirigida para o in- terior do alvéolo do que os alvéolos maiores, e maior resistência ao estiramento. Como resultado, mais trabalho seria necessário para expandir os alvéolos menores. Normalmente, contudo, nossos pulmões secretam um surfactante que reduz a tensão superficial. Os surfactantes (do