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O significante lacaniano: desdobramentos para a psicanálise
1. INTRODUÇÃO
A teoria do significante ocupa um lugar central na reformulação da psicanálise proposta por Jacques Lacan, especialmente a partir de sua releitura estruturalista de Freud. Inspirado pela linguística saussuriana e pelo formalismo da lógica e da matemática, Lacan reformula os fundamentos da clínica psicanalítica ao reposicionar o inconsciente como estruturado como uma linguagem (Lacan, 1957/1998, Écrits). Esse deslocamento não é meramente retórico, mas implica uma mudança radical no modo como se compreende o sujeito, a verdade e o sintoma.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. A primazia do significante
No Seminário 3 (As Psicoses, 1955-1956), Lacan introduz a distinção entre o significante e o significado, sustentando que o significante não remete a um conteúdo fixo, mas funciona em relação com outros significantes numa cadeia diferencial. Aqui, ele se apropria da estrutura diferencial do signo linguístico proposta por Ferdinand de Saussure, mas inverte a hierarquia: enquanto Saussure subordinava o significante ao significado, Lacan afirma que é o significante que determina o sujeito.
A célebre fórmula S/s (significante sobre o significado) introduzida em Écrits formaliza essa inversão. O significante é o que representa o sujeito para outro significante. Isso implica que o sujeito está sempre dividido, nunca coincidente consigo mesmo, pois depende de uma cadeia de significantes que jamais se fecha. Daí o caráter elusivo e descontínuo da subjetividade para Lacan — um sujeito barrado ($), assujeitado à lógica do significante (Lacan, 1964/2008, O Seminário, Livro 11).
2.2. Desdobramentos clínicos: o inconsciente e o sintoma
Essa concepção tem efeitos diretos na clínica. Se o inconsciente é estruturado como linguagem, ele se manifesta nos lapsos, nos atos falhos, nos sonhos — e, sobretudo, no sintoma, que se configura como uma formação do inconsciente articulada significante a significante. A escuta analítica, nesse contexto, não busca um sentido último ou uma verdade interior, mas segue a lógica do significante, atenta às suas repetições e deslocamentos.
No Seminário 5 (As formações do inconsciente, 1957-1958), Lacan aprofunda essa perspectiva ao articular o desejo como efeito da metonímia do significante — ou seja, como aquilo que emerge no intervalo entre um significante e outro. O desejo, portanto, não é a expressão de um conteúdo interno reprimido, mas um efeito da estrutura significante.
Essa lógica também se evidencia no modo como Lacan formula o sintoma a partir dos anos 1970. No Seminário 23 (O sinthoma, 1975-1976), influenciado pela topologia e pela obra de James Joyce, o sintoma passa a ser concebido não apenas como uma formação do inconsciente a ser decifrada, mas como uma espécie de nó que estabiliza o sujeito na estrutura. O sinthoma, nesse momento, torna-se aquilo que permite ao sujeito habitar o mundo simbólico, mesmo na ausência de uma Nomeação do Pai — ponto de articulação importante para a clínica das psicoses.
2.3. A inscrição do sujeito: o corte significante
	Outro desdobramento fundamental da teoria do significante diz respeito ao processo de subjetivação. No Seminário 11, Lacan define o corte significante como operador da inscrição do sujeito no campo do Outro. A entrada do significante no corpo do sujeito produz uma marca — a "letra" — que funda a divisão subjetiva. Esse corte é ao mesmo tempo constitutivo e traumático: ao entrar na linguagem, o sujeito se aliena e perde algo de sua presença imediata ao ser.
Essa lógica da perda é precisamente o que funda o desejo, que surge como resto da operação significante. O sujeito, então, está sempre em falta, tentando reencontrar aquilo que nunca teve plenamente — o objeto a, concebido como causa do desejo, e não como sua meta (Lacan, 1960/1998, Subversão do sujeito e dialética do desejo).
 Lacan, J. (1998). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
 Lacan, J. (2008). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1999). O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1999). O Seminário, Livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar. Lacan, J. (2007). O Seminário, Livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar.
 Miller, J.-A. (1998). A orientação lacaniana. Inéditos transcritos de seus cursos.
 Milner, J.-C. (1987). A obra clara: Lacan, a ciência e a filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
 Žižek, S. (1991). Looking Awry: An Introduction to Jacques Lacan through Popular Culture. Cambridge, MA: MIT Press.

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