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MEDICINA DA FAMILIA E COMUNIDADE Iasmim Guiotti - 9⁰ T Dislipdemia DEFINIÇÃO Conjunto de distúrbios do metabolismo que cursam com alterações nos níveis séricos dos lipídeos (lipoproteínas). As lipoproteínas são o resultado da associação de lipídeos (substâncias hidrofóbicas) + proteínas carreadoras chamadas apolipoproteínas (Apo), que permitem a solubilização e o transporte dos lipídeos no meio aquoso do plasma. FISIOPATOLOGIA • Os lipídeos biologicamente mais relevantes são o colesterol, os triglicerídeos (TG), os fosfolipídeos e os ácidos graxos (AG). • O colesterol e os TG são os principais lipídeos plasmáticos. • O colesterol serve como precursor de hormônios esteroides, dos ácidos biliares e da vitamina D, e é componente estrutural das membranas celulares, permitindo fluidez destas e ativação de suas enzimas. • Os TG são constituídos pela ligação de 3 AG a uma molécula de glicerol e são uma das formas de armazenamento energético mais importantes no organismo, depositados nos tecidos adiposo e muscular. Existem dois grupos de lipoproteínas: - Ricas em TG: Estruturas maiores e menos densas. São elas: os quilomícrons e as lipoproteínas de densidade muito baixa ou very low density lipoprotein (VLDL); - Ricas em colesterol: São elas: as lipoproteínas de densidade baixa ou low density lipoprotein (LDL), de densidade intermediária ou intermediary density lipoprotein (IDL), ou de densidade alta ou high density lipoprotein (HDL), e a lipoproteína (a) [Lp(a)] que é formada pela ligação de uma partícula de LDL à Apo(a). ANAMNESE DIRECIONADA Em todos os pacientes com dislipidemia, deve-se investigar se há condições (doenças ou medicamentos) que possam ter levado a uma dislipidemia secundária e cujo controle ou suspensão do medicamento (caso possível) melhore ou reverta a dislipidemia. Principais comorbidades associadas a hipertrigliceridemia: • DM 2 • Síndrome de Cushing • Obesidade • Pancreatite aguda • Etilismo • Lipodistrofia • AIDS Principais comorbidades associadas a hipercolesterolemia: • Hipotireoidismo • Síndrome Nefrótica • Colestase • Anorexia Medicamentos que interferem: • Diuréticos e betabloqueadores: aumentam TG e reduzem HDL-c; • Anticoncepcionais e corticosteroides: aumentam TG e CT; • Inibidores de protease: aumentam muito TG e aumentam CT; • Anabolizantes: aumentam CT e reduzem HDL-c; • Isotretinoína e Ciclosporina: aumentam TG, CT e HDL-c. História familiar: • Dislipidemias e doença arterial coronariana (DAC) precoce (antes de 55 anos em homens ou antes de 65 anos de idade em mulheres) em parentes de primeiro grau. • Lembrar que dislipidemia familiar ( risco genético) cursam com maiores complicações e risco cardiovascular EXAME FÍSICO Alterações no exame físico na dislipidemia são raras, mas é importante a identificação de algumas delas: - *Arco corneano (anel opaco esbranquiçado ao redor da íris) – hipercolesterolemia; - Xantelasmas (placas amareladas e amolecidas na região das pálpebras) – hipercolesterolemia; - Xantoma tendinoso (massas fusiformes situadas em tendões, principalmente no tendão de Aquiles e nos extensores das mãos) – hipercolesterolemia familiar; - Xantoma tuberoso (lesões cutâneas de cor alaranjada, situadas em região extensoras – joelhos e cotovelos) – disbetalipoproteinemia; - Xantoma palmar (nódulos amarelados, situados nos sulcos da palma da mão) – disbetalipoproteinemia; - Xantomas eruptivos (erupções cutâneas de cor amarelada com 2-5 mm, situadas em região de nádegas e superfícies extensoras) – hipertrigliceridemia grave (TG > 2.000 mg/ dL); - Lipemia retinalis (aparência cremosa e fina das artérias e veias da retina no exame de fundo do olho) – hipertrigliceridemia grave (TG > 2.000 mg/dL). CLASSIFICAÇÃO LABORATORIAL • Hipercolesterolemia isolada: Aumento isolado do LDL-c (LDL-c ≥ 160 mg/dL); • Hipertrigliceridemia isolada: Aumento isolado dos triglicerídeos (TG ≥ 150 mg/dL, se exame em jejum, ou ≥ 175 mg/dL, se exame sem jejum). Reflete aumento das lipoproteínas ricas em TG (VLDL, IDL e quilomícrons); • Hiperlipidemia mista: Aumento do LDL-c (LDL-c ≥ 160 mg/dL) e dos TG (TG ≥ 150 mg/dL, se exame em jejum, ou ≥ 175 mg/dL, se exame sem jejum). Se TG ≥ 400 mg/dL, o cálculo do LDL-c pela fórmula de Friedewald é inadequado, devendo-se considerar a hiperlipidemia mista quando o não HDL-c ≥ 190 mg/dL; • HDL-c baixo: Redução do HDL-c (homens 30 2 MEDICINA DA FAMILIA E COMUNIDADE Iasmim Guiotti - 9⁰ T Atribuição de pontos de acordo com o risco global, para homens Risco global em 10 anos, para homens Pontos Risco (%) ≤ -3 30 3 MEDICINA DA FAMILIA E COMUNIDADE Iasmim Guiotti - 9⁰ T Estratificadores de risco (ER): • Idade > 49 anos para homens ou > 56 anos para mulheres • Duração do diabetes superior a 10 anos (válido para pacientes com início do diabetes após os 18 anos de idade) • História familiar de doença arterial coronária prematura • Presença de síndrome metabólica • Hipertensão arterial tratada ou não tratada • Tabagismo vigente • Taxa de filtração glomerular estimada abaixo de 60 mL/min/1,73 m² • Albuminúria > 30 mg/g de creatinina • Neuropatia autonômica • Retinopatia diabética TRATAMENTO Medidas não farmacológicas: MEV • Dieta; • Atividade física aeróbica - pelo menos 150 minutos/ semana; • Redução do consumo de álcool – fundamental na hipertrigliceridemia; • Cessação do tabagismo. Decisão de quando e como iniciar o tratamento da dislipidemia depende de duas avaliações: - Subtipo de dislipidemia: Indica como iniciar (escolha da classe terapêutica). - Estratificação do risco cardiovascular do paciente: Indica quando iniciar. Em pacientes de risco intermediário e risco baixo: o início da terapêutica é apenas com mudanças no estilo de vida. Medidas farmacológicas serão associadas nos pacientes que não alcançarem as metas de LDL-c após 3-6 meses. Na hiperlipidemia mista, os níveis séricos de TG orientam como iniciar o tratamento farmacológico: • Se TG 500 mg/dL: Iniciar o tratamento com medicamentos para reduzir a hipertrigliceridemia (fibrato e, se necessário, adicionando Ácido nicotínico e/ou ômega 3). Meta prioritária: redução do risco de pancreatite. Após reavaliação, caso haja a necessidade de redução adicional do colesterol, pode-se adicionar uma estatina e outros redutores de colesterol. M E D I C A M E N T O S Q U E A T U A L E M COLESTEROL:• Estatinas: São a primeira escolha. Atuam como inibidores da HMG-CoA redutase, uma das enzimas da síntese intracelular do colesterol. Devem ser administradas por via oral, em dose única diária, preferencialmente à noite para os fármacos de curta meia-vida ou em qualquer horário naqueles com meias-vidas maiores (ex.: Atorvastatina, Rosuvastatina). - Os efeitos adversos são raros durante tratamento com estatinas, sendo o mais comum a mialgia e os mais graves: hepatite, miosite e rabdomiólise. - Principais estatinas: Rosuvastatina 5-40 mg/dia; Atorvastatina 10-80 mg/dia; Sinvastatina 10-80 mg/dia; Pravastatina 10-40 mg/dia; Lovastatina 20-80 mg/dia; Pitavastatina 2-4 mg/dia; Fluvastatina 20-80 mg/dia. • Ezetimiba: Utilizada mais frequentemente em associação com as estatinas, em função da potenciação da redução do colesterol intracelular. A associação da Ezetimiba é recomendada quando a meta do LDL-c não é obtida com estatinas na dose máxima tolerada. Seu uso isolado está recomendado nos casos de intolerância à estatina e não deve ser utilizado em pacientes com doença hepática moderada a severa. • Resina de troca – Colestiramina: Reduz a absorção intestinal de sais biliares e, consequentemente, de colesterol. Adjuvante à estatina. Seus efeitos colaterais mais comuns são: constipação, dor abdominal, flatulência e elevação de transaminases. - usado para emagrecimento. 4 MEDICINA DA FAMILIA E COMUNIDADE Iasmim Guiotti - 9⁰ T M E D I C A M E N T O S Q U E A T U A L E M TRIGLICERIDEOS: • Fibratos: Indicados quando houver falha das medidas não farmacológicas, TG > 500 mg/dL e no tratamento da dislipidemia mista com predomínio de hipertrigliceridemia: - Bezafibrato 400-600 mg/dia; - Ciprofibrato 100 mg/dia; - Fenofibrato 250 mg/dia; - Genfibrozila 900-1.200 mg/dia. • Ácido nicotínico: Reduz a síntese de TG pelos hepatócitos, por levar à menor liberação de ácidos graxos livres para a corrente sanguínea. Pode ser utilizado em pacientes com HDL-c baixo isolado, mesmo sem hipertrigliceridemia associada, e como alternativa aos fibratos e estatinas ou em associação a esses fármacos em portadores de hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia ou dislipidemia mista. Seus principais efeitos colaterais são rubor e prurido. - efeitos: muita coceira na região intima. Ácidos graxos ômega 3: Em altas doses (4-10 g/dia), reduzem os TG e aumentam discretamente o HDL-c. Podem, entretanto, aumentar o LDL-c. RESUMO TRATAMENTO NA APS • Hipercolesterolemia isolada: prescrever Sinvastatina; se não se der bem: atorva no alto custo; se não se der bem com estatinas: ezetimiba. • Hipertrigliceridemia isolada > 500 mg/dL: prescrever fibratos. No entanto, na maioria dos municípios, não há fibratos disponíveis pela rede SUS; Apenas no alto custo. • Hiperlipidemia mista: Estatina e Fibrato se triglicerídeos > 500 mg/dL ou Estatina em uso contínuo se triglicerídeos