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Copyright da Editora CRV Ltda. Conse Editor-chefe: Railson Moura Diagramação e Capa: Editora CRV Aldira Guimará Revisão: A Autora da Silva Antônio Ilustrações: Sérgio Streiechen Carlos Alberto V Carlos Federico D Ca Cesar Geró DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) CATALOGAÇÃO NA FONTE Elione Maria pa S914 M Franci Streiechen, Eliziane Manosso. Gloria Fariñas León (Univers m Libras: aprender está em suas mãos. 2. ed. / Eliziane Manosso Streiechen - Curitiba: Guillermo Arias Beatón (Univers cu CRV, 2017. Jails D 148 p. João Adalber A Bibliografia Leonel ISBN: 978-85-444-1890-1 ap Lídia de ( DOI: 10.24824/978854441890.1 un Lou Maria de Lourdes 1. Educação 2. Educação inclusiva 3. Libras. I. Título II. Série Maria Lília Imbir Si CDU 376 CDD 362 Maria Cristina d ac Paulo Romua Índice para catálogo sistemático R cu S 1. Educação 370 Sim I Solange Helen ag Tade m Tania Suely A ESTA OBRA TAMBÉM ENCONTRA-SE DISPONÍVEL EM FORMATO DIGITAL. de CONHEÇA E BAIXE NOSSO APLICATIVO! Este livi DISPONÍVEL NO Baixar na Google Play App Store 2017 Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV Tel.: (41) 3039-6418 - E-mail: sac@editoracrv.com.br Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.brSUMÁRIO APRESENTAÇÃO 13 INTRODUÇÃO 15 CAPÍTULO 1 19 1. Um breve histórico sobre o surdo 19 2. Congresso de Milão 21 3. História da Educação de surdos no Brasil 25 CAPÍTULO 2 27 1. O que é Libras? 27 2. Mitos sobre as línguas de sinais 29 3. A língua de sinais é universal? 31 4. Variações linguísticas da Libras 32 5. Sistema de transcrição da Libras 33 CAPÍTULO 3 35 1. Parâmetros Linguísticos da Língua Brasileira de Sinais 35 2. Iconicidade e Arbitrariedade 51 CAPÍTULO 4 55 1. Alfabeto manual ou datilológico 55 2. Números 57 3. Cumprimentos ou saudações 58 4. Pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos, interrogativos e indefinidos 59 CAPÍTULO 5 65 1. Advérbios de tempo 65 2. Dias da Semana 69 3. Estados do tempo 70 4. Cores 71 CAPÍTULO 6 75 1. Gênero masculino e feminino 75 2. Grau do substantivo 76 3. Advérbios de intensidade 78 CAPÍTULO 7 87 1. Tipos de verbos 87 2. Membros da família 93 3. Estado civil 9799 CAPÍTULO 8 1. Fonética e Fonologia das línguas de sinais 99 101 2. Morfologia das línguas de sinais 104 3. Sintaxe das línguas de sinais Esta é a S 109 que relemos ( CAPÍTULO 9 109 1. Identidades dos sujeitos surdos remover, delet 112 2. O que é Cultura Surda? Quero sa cados e outros 117 CAPÍTULO 10 propiciar conh 1. Inclusão do surdo no contexto escolar 117 dade surda, su 2. O Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais (TILS) 124 A área da 3. Algumas considerações sobre o processo 126 poucas as pess de escrita do aluno surdo vulgar e (re)af 139 dos aspectos bi CONSIDERAÇÕES FINAIS quem somos, e 141 gua é vida! REFERÊNCIAS Esse livro cos da Língua Vamos ini você possa con nesta luta. Em constituição gra Nos últim inclusão alunos surdos. Ao longo filmes sobre sur Você verá cas sobre a Libra rerá, de fato, ções e, principal eINTRODUÇÃO Os outros escutam, eu não. Mas tenho olhos, eles observam ainda melhor que os seus, forçosamente. Tenho minhas mãos que falam [...] (LABORIT, 1994, p. 178). A comunidade surda tem vivido momentos de grandes conquistas em que grupos socialmente excluídos estão ganhando paulatinamente mais força e es- paço. Essa comunidade vem empreendendo esforços gigantescos para garantir sua cidadania. Para dar suporte legal, muitas leis estão constantemente sendo aprovadas pelo Congresso Nacional, priorizando a inclusão e a promoção hu- mana a partir do direito de ser diferente no contexto da sociedade brasileira. Um marco significativo, que demonstra o avanço das conquistas dos mo- vimentos surdos, está claramente mencionado no Decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005, que regulamenta a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, dispondo sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Essas novas conquistas precisam ser traduzidas em ações que permitam aos surdos o acesso aos sa- beres sistematizados por ouvintes e, ao mesmo tempo, os ouvintes precisam ter acesso aos conhecimentos produzidos pelos surdos ao longo da história da humanidade. Um desses saberes surdos é a própria Libras. O Decreto 5.626/2005, em seu Artigo 3°, cita a inserção da Libras como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoau- diologia, de instituições públicas e privadas do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios (BRASIL, 2005). As universidades têm buscado ofertar a disciplina de Libras em todos os cursos de licenciatura e bacharelados. A partir de então, essa língua pas- sa a ser aprendida e conhecida por muitos acadêmicos. Este sempre foi o grande desejo e objetivo da comunidade surda: que a língua de sinais fosse difundida e não ficasse restrita às pessoas surdas, familiares, professores ou intérpretes de língua de sinais. O ensino da Libras para ouvintes nos diversos cursos de graduação visa um novo dimensionamento curricular dessa língua e das práticas pedagógi- cas em sala de aula. Dessa forma, pode-se afirmar que mudanças significati- micos vas, principalmente relação pessoa atitudinais, conceituais e filosóficas em à surda e ao ensino de surdos, vêm ocorrendo por parte dos ouvintes acadê- e a comunidade participante como reestruturação de uma proposta para o ensino da Libras para ouvintes. É um grande passo para a inclusão das pessoas surdas e sua interação ao meio em que vivem.17 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição ntes de abordar as questões da Libras, quero abrir aqui um parênteses Quando esses alunos foram transferidos de escola para cursar o Ensino a ontar um pouco sobre minhas experiências na área da Fundamental (de a série, na época), segui sinais. junto com eles para exercer uando iniciei meu trabalho com surdos, há mais de vinte anos, em 1993. função de tradutora e intérprete de língua de -me de que utilizava todos os recursos possíveis e impossíveis para No final de 2012, todos eles concluíram o Ensino Médio no Colégio om que aquelas "pobres criaturas" com apenas cinco ou seis anos "Arthur da Costa e Silva", e foi aí, então, que cortamos o cordão de ouvissem os sons dos bumbos, chocalhos, tambores, tampas de umbilical. Estadual Alguns deles já estão concluindo o Ensino Superior. Esses alunos tre outros instrumentos que produzissem barulhos, a fim de não passaram pela metodologia oralista. São pessoas muito bem resolvidas, us resíduos auditivos e, consequentemente, a fala. politizadas, decididas e seguras se si. entados no chão, em frente a um espelho bem grande, tentava fazê-los Inicialmente, meus alunos acreditavam ser os únicos surdos que exis- movimentos com a boca, língua, bochecha, nariz etc. Levava suas tiam no mundo. Certa vez, ao retornar de um curso onde havia alguns sur- nhas em minha garganta para sentirem a vibração do "R". dos, comentei sobre eles com meus alunos. Eles ficaram muito curiosos e os repetirem fonemas e palavras durante horas. Com um esforço fizeram-me muitas perguntas, tais como: Eles estudam? Sabem Libras? São tural, eles conseguiam pronunciar "MAMAMA PAPAPA LALALA" casados? Têm filhos? Namoram? nte os fonemas que eram possíveis de se ler nos lábios. Concluí, então, que eles deveriam conhecer e conviver com outros sur- Houve instantes em que, escondida, chorei. Sim, chorei, porque me sentia dos. Começamos então a promover os Encontro Regionais de Surdos com idiota e incompetente diante dos "fracassos", pois, em seis meses, a participação de oito cidades vizinhas. Os Encontros iniciaram em 2003 timo de palavras que meus alunos conseguiam pronunciar nunca passava e ocorrem até hoje, 2017, com a participação de aproximadamente quinze ia dúzia. E quem consegue comunicar-se com esse número de palavras? municípios. Os surdos ficam ansiosos e contam os dias para o grande acon- Quando nos encontrávamos na rua nossa comunicação era apenas: tecimento, pois esse é um meio que eles têm para encontrar com seus pares, MÃE"? (Mãe era um sinal nos cabelos que havíamos criado). Se ela descobrir e construir sua verdadeira identidade, namorar, bater papo, fazer esse por perto, eles apontavam: "ALI", ou "CASA" (que também novos amigos e, principalmente, enriquecer o vocabulário em Libras. e "TCHAU." Essa nossa comunicação, ou seja, não Participam também, dos Encontros, secretários da educação, diretores, comunicação. equipe pedagógica das escolas, professores, autoridades políticas, acadêmi- Digo sempre que já pedi perdão a eles e também a Deus pela grande cos, familiares e outros. É uma experiência maravilhosa que nos dá muito tiça e crueldade que cometi, juntamente com milhares de outros profis- prazer e realiza a comunidade surda! is que, assim como eu, acreditavam que seria possível fazer com que Conhecer e conviver com pessoas de diferentes culturas amplia nossa rdos falassem. visão de mundo. É impossível viver num mundo com uma diversidade cul- Permaneci durante dois anos trabalhando com essa técnica. Exausta de tural tão grande e ficar isolado em sua própria cultura. ir a mesma coisa diariamente e, percebendo que o trabalho não surtia tados satisfatórios, abandonei a área da surdez. No ano em que estive afastada, surgiu a Libras. Imediatamente er cursos e a pesquisar, então retomei meu trabalho com surdos utilizan- Metodologia Bilíngue: a Libras e a Língua Portuguesa (escrita). Assim, acompanhei um grupo de oito novos alunos que ingressaram, três e quatro anos de idade, no Centro de Atendimento Especializado ES), em uma escola da rede municipal de ensino, na cidade de Realizei a parte de estimulação da linguagem (sempre por meio da lin- de de sinais) e os alfabetizei, sem que eles fossem inseridos nas salas comuns. Para isso, criamos o Programa de Escolarização Regular com Especializado (PERAE).CAPÍTULO 1 Nesse primeiro capítulo, descreve-se o modo como os surdos foram vistos e tratados por algumas civilizações no decorrer do tempo. Na sequên- cia, serão descritos os principais modelos educacionais utilizados na esco- "OI! EU larização de surdos. Entre eles, o oralismo eleito, em 1880, como a melhor SOU metodologia naquela época. Para finalizar esse capítulo, destaca-se alguns fatos históricos da Educação de surdos no Brasil. LIBRINHO! 1. Um breve histórico sobre o surdo ESTOU AQUI PARA LHE ENSINAR A LIBRAS." Antigamente, os surdos eram discriminados e proibidos de usar a lín- gua de sinais. acesso a todos os meios de interação social era limitado ou restrito. Isso resultou numa grande proporção de surdos analfabetos e sem nenhuma possibilidade de interação social. Por muito tempo, os surdos foram considerados seres incapazes e in- competentes. Acreditava-se que o pensamento não podia se desenvolver sem a linguagem e que a fala não se desenvolvia sem a audição, portanto, quem não ouvia também não falava e não pensava. Os surdos não tinham possibilidade de desenvolver faculdades intelec- tuais, por isso eram impedidos de frequentar a escola e proibidos de conviver com outras pessoas. Vários filósofos, como Aristóteles, acreditavam que o pensamento seria concebido somente através das palavras. Tinham como referência a citação bíblica: "No princípio era o verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (BÍBLIA, João 1, 1). Em alguns países, como China e Esparta, por exemplo, os surdos foram lançados ao mar, jogados do alto dos rochedos, abandonados em praças públi- cas, trancados em asilos ou oferecidos em sacrifício aos deuses. "Algumas cul- turas simplesmente eliminavam as pessoas com deficiência, outras adotaram práticas de interná-las em grandes instituições de caridade, junto com doentes e idosos" (SASSAKI, 2006, p. 30). lecia que eles não podiam se salvar, pois não conseguiam confessar os seus Com o predomínio do poder da igreja, a visão sobre os surdos estabe- pecados. Eram proibidos de tomar comunhão e não podiam se casar nem receber herança. das as possibilidades de desenvolvimento intelectual e moral. Portanto, o Os gregos, como os romanos, consideravam os surdos privados de to-20 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 21 surdo não poderia ser educado, sendo comparado aos idiotas e incapazes 2. Congresso de Milão para a prática dos atos da vida jurídica e social. De acordo com Goldfeld (2002), Moura (2000), Sacks (1989), entre Em 1880, aconteceu um evento que marcou de forma negativa a vida de outros estudiosos, os primeiros educadores de surdos surgiram na Europa, no milhares de surdos: o Congresso Internacional de Educação de Surdos, realiza- século XVI, criando diferentes metodologias de ensino. Alguns utilizavam a do em Esse Congresso reuniu professores de surdos de 27 países. língua oral, língua de sinais, datilologia (alfabeto manual) e outros códigos O principal objetivo do Congresso era extinguir a língua de sinais e propor uma visuais, podendo ou não associar esses diferentes meios de Metodologia Oralista. Dentre os educadores, destaca-se o espanhol Pedro Ponce de Leon A metodologia denominada Oralista, votada e aprovada nesse Congres- (1520 1584), que inicia a educação dos surdos usando a língua de so, deu início a uma longa e sofrida batalha do povo surdo. Era objetivo, surdos filhos de famílias importantes eram entregues a ele para serem dessa metodologia, desenvolver a fala dos surdos. O domínio da língua oral educados. Isso era especialmente importante porque os surdos somente po- era condição determinante para que o surdo fosse aceito dentro de uma so- deriam tomar posse de suas heranças se falassem. Leon ensinava seus alunos ciedade majoritária. Com o fracasso dessa metodologia, os surdos permane- surdos por meio do alfabeto manual, conhecido também como datilológico. ceram durante um século inteiro sem uma comunicação efetiva e à mercê das No ano de 1620, Ivan Martim Pablo Bonet publicou o primeiro livro pesquisas que tinham como alvo apenas a "orelha" do surdo, e não o sujeito como um todo. sobre educação de surdos, que consiste no aprendizado do alfabeto manual De acordo com Goldfeld (2002), essa concepção de educação enquadra-se na importância da intervenção precoce. no modelo clínico, destacando a importância da integração dos surdos na comu- No século XVIII, surgiram alguns pesquisadores que desenvolveram di- nidade de ouvintes. Para isso ocorrer, o sujeito surdo deve aprender a falar por ferentes metodologias para educação de surdos, entre eles Sammuel Heinicke, meio de reabilitação da fala em direção à "normalidade" exigida pela sociedade. que se utiliza do Oralismo puro, falando que "sem palavra não há humanidade". A autora destaca que: Charles Michel de L'Épée (1712-1789), na tentativa de superar os desa- fios, defendeu a língua de sinais como sendo a língua natural e materna dos [...] o Oralismo percebe a surdez como uma deficiência que deve ser minimiza- surdos. Esse pesquisador afirmava que a.língua de sinais era gestual-visual, da pela estimulação auditiva. Essa estimulação possibilitaria a aprendizagem da um verdadeiro meio de comunicação e desenvolvimento do pensamento. Língua Portuguesa e levaria a criança surda a integrar-se na comunidade ouvinte e desenvolver uma personalidade como a de um ouvinte. Ou seja, o objetivo do Sobre esse período, Sacks (1989, p. 37) salienta que: Oralismo é fazer uma reabilitação da criança surda em direção à normalidade. (GOLDFELD, 2002, p. 34). [...] agora parece uma espécie de época áurea na história dos surdos, testemunhou a rápida criação de escolas para surdos em todo o mundo civilizado; a saída dos Durante o Congresso foram votadas oito resoluções, sendo que, de for- surdos da negligência e da obscuridade; sua emancipação e cidadania; a rápida con- ma geral, todas giravam em torno da defesa do Oralismo frente à língua de quista de posições de eminência e responsabilidade escritores, engenheiros, filó- O mais importante defensor dessa metodologia foi Alexander Graham sofos e intelectuais surdos, antes inconciliáveis, tornaram-se subitamente possíveis. Bell, inventor do telefone, que exerceu grande influência no resultado da vo- tação do Congresso. Em 1864, o Congresso Americano autorizou o funcionamento da primei- ra faculdade para surdos, em Washington, fundada por Edward Gallaudet. No A Metodologia Oralista, após o Congresso, passou a ser utilizada pela ano de 1867, após uma assembleia, ficou estabelecido que a função da escola maioria das escolas na educação de surdos de muitos países. O uso da língua de surdos seria fornecer treinamento da fala. Portanto, os treinamentos orofa- de sinais foi proibido nas escolas, dando início, assim, a uma longa e sofrida batalha do povo surdo para defender o direito linguístico por meio da sua ciais para desenvolver a fala passaram a ser considerados parte do currículo língua natural, a língua de sinais. das escolas, causando, assim, um descaso com a língua de sinais. Diante da concepção clínica da surdez e do surdo, as escolas foram transformadas em salas de tratamento. As estratégias pedagógicas passaram a ser estratégias terapêuticas. Nessa época, muitos professores surdos que trabalhavam com a língua de22 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 23 sinais foram demitidos de suas funções e substituídos por profissionais vintes. Schelp (2008) explica que, no Oralismo, a primeira medida educacio ou Hoje, a metodologia defendida e utilizada com surdos na maioria das ins- educacionais é a Bilíngue. Esse modelo metodológico consiste em tra- nal implantada foi a de proibir o uso da língua de sinais e obrigar os alunos tituições balhar com duas línguas no contexto escolar e, neste caso, as línguas em questão surdos a sentarem sobre as mãos para que, assim, pudessem ser oralizados Segundo o autor, os professores surdos que, até então, atuavam nas escolas são a Libras e a Língua Portuguesa (escrita). nas salas de aula, foram dispensados de todas as escolas e Skliar (1997, p. 144) afirma que: De acordo com Skliar (1998, p. 1): [...] o modelo bilíngue propõe, então, dar às crianças surdas as mesmas possi- bilidades psicolinguísticas que tem a ouvinte. Será só desta forma que a criança Foram mais de cem anos de práticas enceguecidas pela tentativa de correção, surda poderá atualizar suas capacidades desenvolver malização e pela violência institucional; instituições especiais que foram regula sua identidade cultural e aprender. das tanto pela caridade e pela beneficência, quanto pela cultura social vigente que requeria uma capacidade para controlar, separar e negar a existência da Lacerda (1998), ao defender a Metodologia Bilíngue, destaca que os dade surda, da língua de sinais, das identidades surdas e das experiências visuais que determinam o conjunto de diferenças dos surdos em relação a qualquer outro surdos adquirem conhecimentos por meio do canal visual e a mistura entre grupo de sujeitos. línguas utilizada na Comunicação Total dificultava a aquisição de conheci- Como consequências dessas práticas, os surdos não aprenderam a falar. mentos pelos surdos, pois cada língua tem características próprias e indepen- exceto algumas palavras que eram repetidas de forma mecânica sem saber dentes, tornando-se, assim, impossível falar ambas as línguas (sinalizada e o que elas realmente significavam; não receberam uma educação efetiva, 0 oral) ao mesmo tempo no âmbito escolar. que resultou em milhões de surdos analfabetos. Os surdos que passaram por Nessa perspectiva, a autora destaca que o Bilinguismo essa metodologia trazem em suas vidas marcas negativas até os dias atuais. Quando se constatou que os surdos educados por meio da Metodologia [...] contrapõe-se ao modelo oralista porque considera o canal viso gestual de fundamental importância para a aquisição de linguagem da pessoa surda. E con- Oralista nunca conseguiriam se comunicar ou falar como os ouvintes e que, mes- trapõe-se à comunicação total porque defende um espaço efetivo para Libras no mo com a imposição das práticas oralistas, as pessoas surdas insistiam em se trabalho educacional; por isso advoga que cada uma das línguas apresentadas ao comunicar por meio da língua de sinais, decidiu-se então permitir que os surdos surdo mantenha suas características próprias e que não se 'misture' uma com a utilizassem toda e qualquer forma de comunicação. Essa filosofia ficou conheci- outra (LACERDA, 1998, p. 10). da como Comunicação Total. A principal meta era o uso de quaisquer estratégias que permitissem o resgate da comunicação das pessoas surdas. Esse modelo Na concepção de Guarinello (2007, p. 45-46): combinava a língua de sinais, gestos, mímicas, leitura labial, entre outros recur- SOS que colaborassem com o desenvolvimento da língua oral (SCHELP, 2008). A proposta bilíngue surgiu baseada nas reivindicações dos próprios surdos pelo A Comunicação Total também não surtiu resultados satisfatórios, visto direito à sua língua e pelas pesquisas linguísticas sobre a língua de sinais. Ela é que a sua abordagem defendia o uso simultâneo das duas línguas a fala considerada uma abordagem educacional que se propõe a tornar acessível à crian- ça surda duas línguas no contexto escolar. De fato, estudos têm apontado que essa os sinais (bimodalismo), o que, por se tratar de duas línguas distintas, com proposta é a mais adequada para o ensino de crianças surdas, tendo em vista que estruturas diferentes, dificultava a aprendizagem dos alunos. considera a língua de sinais como natural e se baseia no conhecimento dela para Proibidos de usarem a própria língua como meio de comunicação, os o ensino da língua majoritária, preferencialmente na modalidade escrita. [...] Na dos começam a se mobilizar em busca de seus direitos linguísticos e adoção do bilinguismo deve-se optar pela apresentação simultaneamente das duas Muitos foram os problemas enfrentados por esse povo, mas nenhum deles apa- línguas (língua de sinais e língua da comunidade majoritária). gou a esperança de um dia ter sua língua reconhecida e seus direitos Percebe-se, assim, que o Bilinguismo foi uma metodologia adotada [...] Os povos surdos aspiram pela valorização de língua de sinais como a partir litado das dos próprios surdos, pois a mesma tem possibi- a ra língua e tendo suas opiniões respeitadas, pois os sujeitos ouvintes dos sempre decidindo por sujeitos surdos, disputando em relação de poder acima conforme explicado acima. o acesso a duas línguas dentro de um contexto: a Libras e a Língua lideres surdos em diversas áreas, onde eles são importantes participar e acima tudo querem a de Ser Surdo (MOURA, 2000, p. 52). pode deixar de citar a Pedagogia Surda, pois esse é o modelo defendido Entre as metodologias, adotadas para o ensino de surdos, não se25 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição surdos visto que as lutas dessas pessoas giram em torno da realidade se torne possível de ser vivida pelas crianças surdas brasileiras, ão da subjetividade do jeito surdo de ser, ou seja, da ainda não há professores surdos em número suficiente e preparados para a verdadeira identidade, construção esta que só poderá ocorrer assumirem pois tais funções, assim como não há professores ouvintes fluentes em tro com seus pares. Libras para atuarem como tradutores/intérpretes nas instituições. A Pedagogia Surda requer, portanto, a presença do professor surdo Quando nascemos, estamos com nossos sentidos naturalmente pron- las comuns de ensino, assim como nas escolas bilíngues e Centros de para serem usados e desenvolvidos. Isso não depende que outra pessoa limento Especializado para Surdos (CAES) em tempo integral. Essa tos nos ensine. Ver, ouvir, sentir, cheirar e tocar são coisas que aprendemos so- odologia preferida pelos surdos, pois se baseia numa transferência de zinhos. O que não conseguimos é desenvolver uma língua sem aprendê-la a e experiências adquiridas por pessoas que vivem a mesma cultura com alguém. A linguagem só se desenvolve por meio da interação com outra metodologia, busca-se o aprendizado de alunos surdos por professo- pessoa que tenha domínio da fala. É uma habilidade passada de geração a rdos. Esse método, portanto, dá ênfase à educação por meio da geração, ensinando e aprendendo (SACKS, 1989). (PERLIN; STROBEL, 2008). Nesse sentido, o surdo precisa ser inserido em um ambiente favorável A respeito da Pedagogia Surda, (2008, p. 30) faz a seguinte para a aquisição das duas línguas, o que se faz necessário cercar-se de pes- ração: "Como líder surda questiono as práticas escolares de inclusão soas que tenham domínio de ambas as línguas, no caso do Brasil, a Língua ando que a possibilidade de transformação na educação dos surdos Portuguesa e a pela adoção de uma pedagogia surda". Esse modelo surge com a finalidade de mostrar um novo caminho para 3. História da Educação de surdos no Brasil cação do surdo, pois é uma metodologia que atende de uma maneira sa- ória às especificidades do surdo de forma a considerar todos os aspectos Em 1855, chegou ao Brasil, trazido por D. Pedro II, o professor surdo desse sujeito. francês Hernest Huet. Em 26 de setembro de 1857, foi fundada, no Rio de Assim, Perlin e Strobel (2008) afirmam que: Janeiro, a primeira escola para surdos, o Imperial Instituto de Surdos Mudos, hoje conhecido como Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Os A construção da subjetividade cultural é o objetivo mais presente nesta metodolo- ensinamentos de Huet fizeram com que a língua de sinais se difundisse no gia. Trata-se mais de uma concepção sociológica do surdo como pertencente a um Brasil (GOLDFELD, 2002). Por isso, no dia 26 de setembro, é comemorado grupo cultural. Prima pela sua diferença como construção sociológica na defesa de uma liberdade social onde o sujeito surdo está presente e se torna capaz de o "Dia Nacional do Surdo". desvencilhar-se das diversas pressões sociais durante a interação cultural, como Durante anos o INES foi a única escola para surdos. Tanto assim, que no caso, no qual a sociedade lhe impõe o papel de deficiente (PERLIN; até hoje é considerada importante referência educacional do Brasil. BEL, 2008, p. 41-42). Mesmo com todos esses avanços, há no Brasil, ainda hoje, escolas que trabalham com a Metodologia Oralista. De acordo com Machado (2008, p. 78): Em 1987 foi criada a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), no Rio de Janeiro. A FENEIS é um órgão sem fins Visualizar uma escola plural, em que todos que a integram tenham a "possibilida- de de libertação", é pensar uma nova estrutura. Para tanto, é necessário um lucrativos que atua na defesa dos direitos das pessoas surdas. Esse órgão foi culo que rompa com as barreiras sociais, políticas e econômicas e passe a tratar os crescendo e expandindo seu trabalho em todo o território nacional, concen- sujeitos como cidadãos produtores e produtos de uma cultura [...] Pouco adianta trando todos seus esforços na luta pelo resgate da cidadania do surdo e seu a presença de surdos se a escola ignora sua condição histórica, cultural e social. reconhecimento como força produtiva. O atual presidente Nacional da FENEIS é o Sr. Francisco Eduardo A Pedagogia Surda defende que a criança surda deve ter aulas ministra- Coelho da Rocha. E o Presidente da FENEIS do Paraná é o Sr. Luciano m Libras por professores surdos desde a educação infantil. Entretanto, Canesso Dyniewicz. be-se que há um longo caminho a ser percorrido para que de fato esta 2 Marianne Rossi Stumpf (surda) é Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal Rio Grande do Sul coma Para compreender melhor a importância da língua de sinais aos surdos. assista aos filmes: "E seu nome é Jonas" ese Aprendizagem de Escrita de Língua de Sinais pelo sistema SignWriting: Línguas de Sinais no papel e no e "Os filhos do silêncio"CAPÍTULO 2 Esse capítulo está reservado às discussões sobre a Libras: legislação, mitos, variação linguística e sistema de transcrição. 1. que é Libras? A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é um sistema linguístico legítimo e natural utilizada pela comunidade surda brasileira. De acordo com Felipe (2001), Brito (1995), Quadros e Karnopp (2004), outros pesquisadores, as línguas de sinais se distinguem das línguas orais entre porque se utilizam do canal visual espacial e não oral auditivo. Por este motivo, são denominadas línguas de modalidade visoespacial, uma vez que as informações linguísticas são recebidas pelos olhos e produzidas no espaço pelas mãos, movimento do corpo e por meio das expressões faciais. As autoras Quadros e Karnopp (2004) explicam que a Libras é uma língua que expressa níveis linguísticos em diferentes graus, assim como as demais línguas; apresenta uma gramática com uma estrutura própria e inde- pendente da Língua Portuguesa, usada por um grupo social específico. "As línguas de sinais são línguas que não se derivaram das línguas orais, mas fluíram de uma necessidade natural de comunicação entre as pessoas que não utilizam o canal auditivo-oral, mas o canal espaço-visual como modalidade linguística" (QUADROS, 1997, p. 47). Pizzio e Quadros (2011, p. 4-5) afirmam que, atualmente, não há dúvi- das em relação ao estatuto linguístico das línguas de sinais. Assim, principalmente a partir da década de 90, iniciaram-se investigações com o intuito de identificar não apenas o que era "igual", mas também o que era "dife- com o objetivo de enriquecer as teorias linguísticas atuais. A pergunta que antes era "Como a linguística se aplica às línguas de sinais e aos estudos da aquisição das línguas de sinais?" passou a ser "Como as línguas de sinais e os estudos do proces- de aquisição das línguas de sinais podem contribuir para os estudos linguísticos?" A mudança, aparentemente sutil, abre novos caminhos investigativos no campo da linguística, buscando explicações para o que é diferente entre essas modalidades. primeiro critério importante para aprender a comunicar-se por meio da língua de sinais é entender que a construção de uma frase em Libras obedece a regras próprias que refletem diretamente na forma que a pessoa surda processa suas ideias, e com base em sua percepção visoespacial. Para sinalizar uma fra- se em Libras, portanto, é preciso seguir as regras dessa língua. No Capítulo 8 você estudará a sintaxe que explica a estrutura das sentenças em Libras.LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 29 uma língua, portanto ela pode expressar conceitos concretos Ele observou que os sinais não eram imagens, mas símbolos abstratos e ou simples, assim como qualquer outro Ela ças. com uma complexa estrutura interior. nem se deriva da Língua Portuguesa, embora, por estar em Estudos posteriores, como os de Baker (1984), Brito (1995), entre ou- dessa língua. O que é denominado de palavra ou tros, incluíram traços não manuais, como expressão facial, movimentos da Língua Portuguesa e nas demais línguas orais é denominado boca, direção do olhar. Neste Capítulo há uma descrição detalhada de cada as de sinais (BRITO, 1995). um desses parâmetros. de sinais são realizadas no espaço e percebidas o espaço e as dimensões que ele oferece na constituição de fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos para 2. Mitos sobre as línguas de sinais os quais são percebidos pelos seus usuários por meio mensões espaciais. Ela não é composta por mímica, pantomi- Muitos mitos têm surgido a respeito das línguas de sinais, por isso, "gestos", como muitas pessoas imaginam (BRITO, Quadros e Karnopp (2004, p. 31-37) organizaram um quadro desmistifican- com Silva (2010, p. 20), a pantomima e a mímica do alguns deles: formas artísticas de expressão, elas não podem ser comparadas com a e é uma língua gramaticalmente organizada. Não devemos, também, colocar MITOS DESMISTIFICAÇÃO bras e os gestos na mesma categoria de análise, pois, apesar de ambos serem oduções visuais, possuem natureza muito diferente. Os gestos são as expressões Tal concepção está atrelada à ideia filosófica de que o mundo pontâneas das pessoas, são nossas expressividades naturais. Por exemplo, quan- das ideias é abstrato e que o mundo dos gestos é concreto. colocamos a mão no rosto ou na cintura, cruzamos os braços, apertamos os de- equívoco desta concepção é entender sinais como gestos. Na uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo, estamos verdade, os sinais são palavras, apesar de não serem orais- oduzindo gestos. Diferentemente, para produzirmos a Libras, precisamos passar r um processo formal de aprendizagem, pois este sistema linguístico é abstrato 1 A língua de sinais seria uma -auditivas. Os sinais são tão arbitrários quanto às palavras. A produção gestual na língua de sinais também acontece como não faz parte da nossa expressividade natural se assim fosse, todos seríamos mistura de pantomima e gesticula- lantes natos da ção concreta, incapaz de expressar observado nas línguas faladas. A diferença é que no caso dos conceitos abstratos. sinais, os gestos também são visuais-espaciais tornando as fronteiras mais difíceis de serem estabelecidas. Os sinais das a Libras é uma língua autônoma reconhecida pela linguísti- línguas de sinais podem e expressar quaisquer ideias abs- de todos os componentes pertinentes às línguas orais, tratas. Podemos falar sobre as emoções, os sentimentos, os emplo, gramática, semântica e outros elementos, preenchendo, conceitos em língua de sinais, assim como nas línguas faladas. uisitos científicos para ser considerada instrumento linguístico Esta ideia está relacionada com o mito anterior. Se as línguas rça. Ela vem ganhando espaço na sociedade com as lutas e os de sinais são consideradas gestuais, então elas são universais. das pessoas surdas em favor de seus direitos e garantia de sua Isso é uma falácia, pois as várias línguas de sinais que já fo- Brasil, a Libras foi oficializada pela Lei 10.436/2002 e regu- 2 Haveria uma única e universal ram estudadas são diferentes umas das outras. Assim como as de sinais usada por todas as línguas faladas, temos línguas de sinais que pertencem a tron- lo Decreto 5.626/2005 (BRASIL, 2005). pessoas surdas. cos diferentes. Temos pelo menos dois troncos identificados, Stokoe3 foi o primeiro pesquisador a perceber que a língua de as línguas de origem francesa e as línguas de origem inglesa. a a todos os critérios linguísticos de uma língua autêntica, no Provavelmente, nossa língua de sinais pertence ao tronco das línguas de sinais que se originaram na língua de sinais francesa. taxe, na capacidade de gerar uma quantidade infinita de senten- continua.. -2000) era um linguista escocês que vivia e trabalhava nos Estados Unidos. Em 1955, ele se tornou tamento de Inglês do Gallaudet College, hoje conhecida como Gallaudet University. Nessa época, ele não e Língua de Sinais Americana (ASL). Ele teve que aprender alguns sinais, que ele usava ao mesmo tempo suas aulas em como a maioria dos outros professores. Nessa época, nem na Gallaudet havia aulas simples fato de que ninguém, nem mesmo os surdos, consideravam a sinalização como parte de uma lingua Stokoe não demorou a perceber que existia uma diferença entre a sinalização que ocorria quando um surdo com outro e a que ele usava como acompanhamento de palavras em inglês, durante suas aulas. Por e é considerado o pai da Linguística da Língua de Sinais Americana (ASL).LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 31 continuação Como as línguas de sinais são consideradas gestuais, elas não No caso da comunicação com surdos, você vai precisar da lín- poderiam apresentar a mesma complexidade das línguas gua de sinais. As pesquisas com surdos apresentando lesões ladas. Isso também não é verdadeiro, pois em primeiro lugar as em um dos hemisférios apresentam evidências de que as línguas de sinais são línguas de fato. Em segundo lugar, as guas de sinais são processadas linguisticamente no hemisfé- guas de sinais independem das línguas faladas. Um exemplo que As línguas de sinais, por serem rio esquerdo da mesma forma que as línguas faladas. Existe, evidencia isso claramente é que a língua de sinais portuguesa é organizadas espacialmente, estariam sim, uma diferença que está relacionada com informações es- de origem inglesa e a língua de sinais brasileira é de origem representadas no hemisfério direito do paciais, pois estas, além de serem processadas no hemisfério cesa, mesmo sendo o português a língua falada nos respectivos cérebro, uma vez que esse hemisfério esquerdo com suas informações linguísticas, são também pro- países, ou seja, Portugal e Brasil. Como estas línguas de sinais é responsável pelo processamento de cessadas no hemisfério direito quanto às suas informações de pertencem a troncos diferentes, elas são muito diferentes uma da informação espacial, enquanto que ordem puramente espacial. Assim, parece haver um processa- outra. É claro que não podemos negar fato de ambas as esquerdo, pela linguagem. mento até mais complexo do que observado em pessoas que guas estarem em contato, principalmente entre os surdos usam línguas faladas. As investigações concluem que a língua dos. que se observa diante deste contato é que, assim como de sinais é um sistema, que faz parte da linguagem humana, observado entre línguas faladas em contato, existem alguns processado no hemisfério esquerdo e no hemisfério direito. empréstimos linguísticos. Além disso, as línguas de sinais não têm relação com as línguas faladas do seu país. Elas são Fonte: Texto Base da Disciplina de Língua Brasileira de Sinais I. nomas e apresentam o mesmo estatuto linguístico identificado Curso de Letras/Libras na modalidade a UFSC, 2009. nas línguas faladas, ou seja, dispõem dos mesmos níveis linguís ticos de análise e são tão complexas quanto às línguas 3. A língua de sinais é universal? Como as línguas de sinais são tão complexas quanto às línguas faladas, esta afirmação não procede. Nós já vimos que as Vamos falar um pouco mais sobre esse mito, pois muitas pessoas pensam guas de sinais podem ser utilizadas para as inúmeras funções que todos os surdos do mundo falam a mesma língua. Entretanto, as línguas de identificadas na produção das línguas humanas. Você pode sinais, assim como as demais línguas, variam de lugar para lugar e de comunida- usar a língua de sinais para produzir um poema, uma estória, de para comunidade. Portanto, cada país tem a sua própria língua de sinais. Nos um conto, uma informação, um argumento. Você pode per- suadir, criticar, aconselhar, entre tantas outras possibilidades Estados Unidos, por exemplo, os surdos usam como meio de comunicação a que se apresentam ao se dispor de uma língua. Assim, a Língua de Sinais Americana (ASL) que é diferente da Língua de Sinais Britânica gua de sinais não é inferior a nenhuma outra língua, mas, sim, (BSL) que, por sua vez, difere da Língua de Sinais Francesa (LSF). tão linguisticamente reconhecida quanto qualquer outra língua. Apesar das diferenças, as línguas de sinais possuem algumas semelhanças A ideia de que a língua de sinais seja gestual também reaparece que as identificam como língua e não apenas como linguagem. neste mito. As pessoas pensam que as línguas de sinais são De acordo com o banco de dados do Ethnologue4, existem 121 (cento e de fácil aquisição por estarem diretamente relacionadas com 0 vinte e uma) línguas de sinais catalogadas, mas é provável que existam muitas sistema gestual utilizado por todas as pessoas que falam uma outras que ainda não foram descobertas. língua. Como isso não é verdade, as línguas de sinais são tão difíceis de serem adquiridas quanto quaisquer outras línguas. As pesquisadoras Quadros, Pizzio e Rezende (2009), explicam que as pes- Precisamos de anos de dedicação para aprender uma língua soas ouvintes nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Austrália falam inglês, mas de sinais, mas, com base neste mito, as pessoas pensam que as comunidades surdas que vivem nesses países falam línguas de sinais dife- sabem a língua de sinais por usarem alguns gestos e alguns rentes (ASL, BSL e AUSLAN, respectivamente). No Brasil e em Portugal as sinais que aprendem nas aulas de língua de sinais. A comuni- pessoas falam português, mas suas línguas de sinais são diferentes: Língua Bra- cação gestual usada exclusivamente é extremamente limitada, sileira de Sinais (Libras) e Língua Gestual Portuguesa (LGP). pois torna inviável a comunicação relacionada com questões mais abstratas. Assim, você vai precisar da língua de sinais As autoras salientam ainda que em um único país é possível que possa ha- para poder comunicar estas ideias. É verdade que você pode ver mais de uma língua de sinais. Esse é o caso do Brasil, por exemplo, em que comunicar algumas coisas utilizando apenas gestos, assim como há duas línguas de sinais: a Língua de Sinais Brasileira (Libras), utilizada pela você faz quando chega a um país em que é falada uma língua comunidade surda das zonas urbanas, e a Língua de Sinais Kaapor Brasileira desconhecida por você. Mas também é verdade que você estará (LSKB), utilizada pela tribo indígena Urubu-Kaapor, da imitado à identificação direta entre o gesto e sua intenção, sem Agora observe como o sinal "NOME" é realizado no Brasil e nos Esta- oder entrar em níveis de detalhamento necessário para trans- correr sobre um determinado assunto. Para transcorrer sobre um dos Unidos da América: assunto qualquer, você vai precisar de uma língua. 4 Disponível32 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 33 5. Sistema de transcrição da Libras NOME (Brasil) NOME (EUA) A seguir, serão apresentados alguns aspectos do sistema de transcrição para a Libras que poderão ser utilizados neste livro. Esse sistema foi utiliza- do pelo grupo de Pesquisas da Federação Nacional da Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), livro do estudante/cursista de Libras em Contexto, Felipe (2001). Para maiores informações, consulte a bibliografia. Esse sistema é um meio de estabelecer a forma como os sinais são re- presentados na escrita, visto que o sistema Sign Writing (Escrita em Sinais) ainda está em estudo. Neste livro, portanto, a grafia da Libras será realizada por meio das seguintes convenções: 5.1. Os sinais da Libras serão representados por palavras da Língua Portuguesa por meio de letras maiúsculas. Essa forma de escrever a repre- sentação dos sinais é conhecida como glosas (sistema de anotação). Exem- 4. Variações linguísticas da Libras plo: TELEFONE, ESTUDAR, MULHER. 5.2. Um sinal que é traduzido por duas ou mais palavra da Língua Por- A Língua Portuguesa possui muitos vocabulários regionalistas. A palavra tuguesa será representado pelas palavras correspondentes separadas por "mandioca", por exemplo, conhecida na região Sul do Brasil, é denominada de fen. Exemplo. QUERER-NÃO, NÃO-PODER, "macaxera" e "aipim" em outras regiões. Acontece da mesma forma com a Libras, 5.3. A datilologia (alfabeto manual) é usada para expressar nomes pró- pois o fato de se atribuir às línguas de sinais o status de língua significa que, embo- prios ou outras palavras que não possuem um sinal e está representada pela ra sendo de modalidade diferente, elas também possuem características em relação palavra separada por letra por letra. às diferenças regionais, socioculturais, entre outras. Portanto, assim como qual- Exemplo: E-L-I-Z-I-A-N-E, U-N-I-C-E-N-T-R-O. quer outra língua, a Libras possui expressões que variam de região para região. 5.4. Gênero (masculino/feminino) e número (plural): na Libras não há Observe como o sinal "VERDE" é realizado em diferentes regiões do Brasil: desinência para gênero e número, portanto os sinais representados por pala- vras da Língua Portuguesa que possuem essas marcas estão terminados com o VERDE (Rio de Janeiro) VERDE (São Paulo) VERDE (Paraná) símbolo @. Exemplo: AMIG@ "amigo(s) ou amiga", FRI@ "frio ou fria", MUIT@ "muito ou muita", ME@ "meu ou minha", EL@ "ele ou ela". 5.5. Tradução da Libras: serão utilizadas aspas para a tradução da Li- bras para o português. Exemplo: IDADE VOCÊ "Quantos anos você ONTEM ENCONTRAR AMIG@ - "Ontem eu encontrei meu amigo".CAPÍTULO 3 parâmetros linguísticos da Libras, bem como a sua iconicidade e ar- bitrariedade Os que compõe os sinais, são elementos discutidos nesse capítulo. 1. Parâmetros Linguísticos da Língua Brasileira de Sinais Libras é uma língua, portanto possui gramática e estrutura indepen- A da Língua Portuguesa e o seu reconhecimento linguístico se efetivou citado dentes dos estudos do linguista Willian Stokoe (1960), conforme a partir Segundo esse pesquisador, a língua de sinais apresenta três parâme- acima. Configuração de mão (CM), Locação (L), conhecido também estudos como p tros: de Articulação (PA), e Movimento (M). A partir de 1970, com Ponto aprofundados como os de Edward S. Klima e Ursula Bellugi (1979) identificou-se mais um quarto parâmetro: Orientação da palma da mão (O). Dessa forma, os sinais são formados a partir da combinação do movi- D mento das mãos com um determinado formato em um determinado lugar, podendo este lugar ser uma parte do corpo ou um espaço em frente ao corpo A (FELIPE, 2001, p. 20). Por isso, para entender a formação dos sinais é ne- cessário um estudo sobre estes parâmetros que norteiam a língua de sinais: S1 1.1 Configuração de Mão (CM) S a São formas que as mãos podem tomar ao realizar um sinal. Algumas dessas CMs correspondem ao alfabeto manual (datilológico). Até o momen- to, foram encontradas setenta e cinco (75) configurações de mãos. a QUADRO DE CONFIGURAÇÕES DE MÃO (FARIA NASCIMENTO, 2009) FÁBIO SELLANI (01) (03) (04) (05) (06) (07) (08) (09) (11) (12) (13) (18) (19) (20) (21) (22) (23) (14) (15) (16) (17) (25) (26 (27) (28) (30) (31) (32) (33) (34) (35) (36) (37) (38) (39) (40) (41) (42) (43) (46) (47 (48) (49) (50) (52) (53) (54) (55) (56) (57) (58) (59) (60) (61) (62) (63) (64) (65 (66) (67) (68) (69) (70) (71) (74 (75)36 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 37 Os sinais ÁGUA, ALEMANHA, EDUCAÇÃO e RIR, por exemplo, possuem a mesma configuração de mão (CM: em L). A diferença é que cada sinal é realizado em diferentes pontos do corpo. Veja: COM UMA CONFIGURAÇÃO DE MÃO PEIXE AMIGO ÁGUA (em frente à boca) ALEMANHA (na testa) AMOR PROFESSOR EDUCAÇÃO (no braço) RIR (em frente à boca) Alguns sinais são realizados com uma mão, sendo que os destros dem usar a mão direita e os canhotos, mão esquerda. Há sinais também que são realizados pelas duas mãos, produzindo configurações iguais ou diferentes. Veja:44 45 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição SINAIS REALIZADOS NO ESPAÇO NEUTRO Observe alguns exemplos de sinais com e sem movimento: TRABALHAR BRASIL SINAIS COM MOVIMENTO SINAIS SEM MOVIMENTO BORBOLETA DESCULPAR PEIXE VIAJAR ÁGUA AMIG@ 1.3 Movimento (M) É um parâmetro que envolve uma grande quantidade de formas e 1.4 Orientação (O) direções, desde os movimentos internos da mão, os movimentos do pulso, movimentos direcionais no e até de movimentos no É a direção que a palma da mão toma na realização do sinal, podendo descreve(m) mesmo (KLIMA; espaço espaço corpo pode conjuntos sinal BELLUGI, 1979). O movimento que a(s) mão(s) ser para cima, baixo, o para frente, para a esquerda ou para no ou sobre o ser em linhas retas, curvas, direção. a direita. Alguns para para corpo, relação sinais se em à direção e outros têm a mesma sinuosas ou circulares em várias direções e posições (BRITO, 1995). Alguns A seguir, veja alguns exemplos de sinais com uma ou duas direções: sinais têm movimentos, outros não, são estáticos.46 aprender está em suas mãos 2 Edição 47 SINAIS COM UMA DIREÇÃO SINAIS COM DUAS DIREÇÕES As expressões faciais ou marcadores não manuais (MNM) são os MANDAR TELEVISÃO movimentos da face, dos olhos, da sobrancelha, da cabeça, do tronco etc. Quadros e Pimenta (2006) explicam que existem dois tipos diferentes de expressões faciais: as afetivas e as gramaticais: 1.5.1. Expressões faciais afetivas São as expressões ligadas a sentimentos/emoções, como tristeza, ale- gria, medo, raiva, assustado, nervoso, sono etc. 1.5.2. Expressões faciais gramaticais São as expressões relacionadas às sentenças afirmativas, interrogativas, negativas, exclamativas etc. Estas expressões são realizadas de forma simultânea aos sinais. a) Afirmativa: a expressão facial é neutra. Exemplo: ONTEM EU AJUDAR GRANDE VIAJAR. "Ontem eu viajei." b) Interrogativa: sobrancelhas franzidas e um ligeiro movimento da cabeça inclinando-a para cima. Exemplo: IDADE VOCÊ? "Quantos anos você tem?" c) Exclamativa: sobrancelhas levantadas e um ligeiro movimento da cabeça inclinando-se para cima e para baixo. Exemplo: MULHER BO- NIT@. "A mulher é bonita!" d) Negativa: A sinalização da negação pode ser realizada de diferentes formas e que, normalmente, possuem um elemento negativo explícito como NÃO, NADA, NUNCA, NUNHUM etc. A negação poderá estar incorporada aos sinais ou expressa apenas por meio da marcação não manual (PIZZIO; QUADROS; REZENDE, 2009). Vejamos agora alguns exemplos de negação: 1.5 Expressões faciais A gramática da língua de sinais apresenta também o uso das expressões faciais, conhecidas como marcadores não manuais (MNM). As expressões fa- ciais são muito importantes para desenvolver uma conversação, pois a entona- ção em língua de sinais é feita por meio deste parâmetro. Um sinal pode mudar completamente seu significado em função da expressão facial utilizada.50 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 51 Negação com movimento contrário da cabeça NÃO QUERER NENHUM CONHECER-NÃO "não conhecer" Negação com sinais de NADA e NENHUM NÃO TER NADA 2. Iconicidade e Arbitrariedade Durante muito tempo, as línguas de sinais não eram constituídas como línguas, pois se acreditava que os sinais eram somente desenhos constituí- dos no ar ou, ainda, que todos os sinais precisavam ser digitados usando o alfabeto manual (datilológico). Portanto, as línguas de sinais não poderiam representar conceitos abstratos e complexos. No decorrer dos anos, com a luta da comunidade surda e por meio de vários estudos linguísticos, foi possível perceber que a língua de sinais é uma língua completa, com gramática e estrutura própria. Verificou-se, por meio dessas pesquisas, que a Libras apresenta iconicidade e arbitrariedade, assim como mecanismos fonológicos, morfológicos, sintáticos, podendo represen- tar ideias e/ou conceitos concretos ou abstratos, emocionais ou racionais, complexos ou simples. Logo mais, no Capítulo 6, você estudará cada um destes mecanismos. fato de alguns sinais apresentarem-se em sua forma real, ou seja, a forma do referente no espaço, não quer dizer que todos os sinais sejam reali- zados desta maneira. Na Libras há sinais icônicos e sinais arbitrários: 2.1 Sinais Icônicos os sinais que apresentam uma forma que tenta imitar o referencial em suas características visuais, fazendo alusão à imagem do seu significado.CAPÍTULO 4 Nesse capítulo, você aprenderá a sinalizar o alfabeto datilológico (ma- nual), os números, as formas de cumprimentos e os pronomes utilizados em língua de sinais. 1. Alfabeto manual ou datilológico alfabeto manual é um recurso que os surdos utilizam para escrever no- mes próprios ou de objetos que não tenham um sinal representativo na Libras. Ele é considerado, portanto, um empréstimo linguístico da Língua Portuguesa. Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português, no caso do Brasil. Em outros países, essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. A letra "T", às vezes, pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos. Além disso, vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras, ele é considerado como um empréstimo da Língua Portuguesa, portanto, quando a pessoa está usando o alfabeto manual, deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código, passa a fazer uso do português. Por isso, devemos ter muita cautela para usá-lo. É preferível fazer um sinal sinônimo a "escrever" a palavra a que se deseja fazer referência, pois os surdos não se relacionam com a Língua Portuguesa como nós nos relacionamos. Há toda uma dificuldade que se coloca a eles, pois são usuários de uma língua espacial e visual, enquanto preci- sam aprender uma língua oral e auditiva (SILVA, 2010, p. 30). Veja a seguir o alfabeto manual e tente sinalizar todas as letras quantas ve- zes forem necessárias até você aprender. Lembre-se que você escreve (sinaliza) para outra pessoa, portanto, a palma da mão deverá ficar virada sempre para frente e não para você.D A58 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 59 3. Cumprimentos ou saudações 4. Pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos, interrogativos e indefinidos Observe que o sinal de "BOM" é igual para todos os cumprimentos. 4.1 Pronomes pessoais NOITE sistema pronominal da Libras pode representar a primeira, segunda e terceira pessoa, e podem aparecer no singular ou no plural. Veja as configu- rações de mãos que devem ser utilizadas para os pronomes pessoais: EU / VOCÊ TARDE 2 EL@ DIA NOS 3 BOM / BOA TUDO BEM?60CAPÍTULO 5 Nesse capítulo, descreve-se o modo como utilizamos os advérbios em Libras. Em seguida, você encontrará os sinais dos dias da semana, dos esta- dos do tempo e das cores. 1. Advérbios de tempo Em Língua Portuguesa, sabemos que a noção de tempo pode ser in- corporada 'estudei', 'estudarei', não é preciso destacar o tempo, pois as terminações aos verbos por meio das conjugações. Quando se diz 'estudo', (sufixos) '0', 'ei' e 'arei' identificam o tempo: presente, passado e futuro, respectivamente. Já em Libras, os sinais dos verbos permanecem sempre iguais, independente do tempo. O que determinará a marcação de tempo é um sinal auxiliar de advérbio que acompanha o verbo. surdo, quando quer, por exemplo, colocar o verbo ESTUDAR no presente, passado, ou futuro, respectivamente, sinaliza da seguinte forma: EU ESTUDAR AGO- RA (Eu estudo) EU ESTUDAR PASSADO (Eu estudei) EU ESTUDAR FUTURO (Eu estudarei). Conheça alguns sinais de advérbios de tempo: HOJE AGORA6768 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 69 PASSADO FUTURO 2. Dias da Semana DIAS DA SEMANA DOMINGO SEGUNDA TERÇA LONGE PERTO QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO7277 76 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 2. Grau do substantivo Muito maior do que o normal Às vezes, o grau do substantivo depende de um léxico a mais acompa- nhando o sinal para determinar seu grau de aumentativo ou diminutivo. seguir, veja alguns sinais que podem acompanhar os substantivos e observe também a presença dos marcadores não manuais (expressões faciais): Muito menor que o normal Menor do que o normal Veja, agora, um exemplo de substantivo que incorpora o grau de tama- nho no próprio sinal com variação das expressões faciais: Casa Casinha Casarão Normal Maior do que o normal78 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 79 Observe, a seguir, que no sinal de não há acréscimo de sinais Veja: para mencionar o tamanho. É por meio da expressão facial que se pode dife- renciar os tamanhos: Pobre Bebê Bebezinho Bebezão Muito pobre Paupérrim@ 3. Advérbios de intensidade No Capitulo 2, você estudou a importância das expressões faciais ou marcadores não manuais (MNM) para a Libras. Apesar de existir um sinal específico para designar o advérbio "MUITO", nem sempre ele é usado para marcar a intensidade, pois as expressões faciais podem exercer essa função quando incorporadas ao adjetivo, substantivo ou verbo. Duarte e Padilha (2012), ao analisarem uma sentença em que há "gostar muito", explicam que "usuários da LS dificilmente usarão o sinal para "mui- to", e sim a aplicabilidade da intensidade sobre verbo "gostar", através da ex- pressão facial, movimento e velocidade do verbo apresentado [...]" (p. 318). A marcação de intensidade apresenta um padrão de expressões faciais com variação gradual. Observe que eu não uso o sinal de "MUITO" ao indi- car a intensidade de pobreza. Isto é verificado pela diferença das expressões faciais e do movimento.82 83- sens we 988990 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 91 MORRER QUERER Veja alguns exemplos de verbos com concordância: AJUDAR AVISAR "eu aviso" 1.2 Verbos com concordância ou direcionais PERGUNTAR "perguntaram-me" RESPONDER "eu respondo" São verbos que apresentam a possibilidades de direção de acordo com as pessoas do discurso. AVISAR, por exemplo, é um verbo com concordância, visto que o sinal parte da pessoa o aviso em direção à pessoa que recebe o aviso. Exemplo: EU AVISAR - "Eu aviso você"; AVISAR EU - "Você me avisa"; EL@ AVISAR AMIG@ - "Ela avisa à amiga".92 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 93 1.3 Verbos Manuais ou Classificadores 2. Membros da família Estes verbos usam classificadores e incorporam a ação. Os classifica- FAMÍLIA/PARENTE dores são configurações de mãos realizadas para atribuir forma, tamanho ou qualidade a um objeto, por exemplo: arredondado, quadrado, com listras etc. Mas a função dos classificadores é também descrever uma ação verbal, por exemplo, ao referir-se ao verbo "SEGURAR", logo o locutor incorpora o objeto que foi segurado. Pense como é que você segura um copo, um bebê, uma bandeja, um saco de feijão, uma agulha ou uma mala? A forma que a sua mão toma ao realizar a ação (segurar) chama-se classificador. Agora vamos pensar no verbo "ANDAR": Todos os seres andam da mesma forma? - Os animais andam igual às pessoas? E um carro, como anda? Para representar pessoas andando, a configuração de mão pode ficar em "V", e essa mesma CM pode ser utilizada para outros significados, por exemplo: se as pontas dos dedos ficarem voltadas para cima pode significar "duas pessoas andando" ou "um casal de namorados"; pontas dos dedos para ESPOS@ baixo significa "uma pessoa em pé". Veja as configurações: O mesmo processo pode ser observado no sinal que deriva a ação imaginar verbal "COMER". Por exemplo: para dizer que você comeu a basta está segurando a maçã próximo à boca (CM em C) e fazer um estão to que para baixo como se estivesse mordendo. Este sinal e o movimento incorporando o objeto direto, que, no caso, é aCAPÍTULO 8 Nesse capítulo, discorre-se sobre a fonologia, a morfologia e a sintaxe da língua de sinais. 1. Fonética e Fonologia das línguas de sinais A Fonética e a Fonologia estudam a maneira como os fonemas se orga- nizam dentro de uma língua. Estes fonemas são classificados em unidades menores capazes de distinguir significados, ou seja, fazem a diferença na formação de uma palavra. Por exemplo, no português, os sons de /f/ e de /v/ são distintivos porque formam um par mínimo /faca/ e /vaca/. par mínimo indica que, ao mudar apenas uma unidade mínima, ou seja, /f/ e /v, em uma certa combinação, isso determinará mudança de significado. Nas línguas de sinais não há sons, pois conforme visto no Capítulo 2, as línguas de sinais são de modalidade visoespacial. As informações são rece- bidas pelos olhos e produzidas pelas mãos. Portanto, Stokoe (1960) propôs o termo 'Quirema' (estudo das mãos) para referir-se às unidades mínimas que formam os sinais e "Quirologia" (estudo dos movimentos das mãos). Esses estudos dizem respeito aos parâmetros, os quais você já estudou detalhada- mente no Capítulo 2. Ao mudarmos alguma característica de qualquer uma destas unidades, podemos mudar o significado de um sinal. Veja alguns exemplos: 1.1 Sinais que se quanto ao Movimento, ou seja, sinais com a mesma configuração de mãos (CM), mesma locação (L), mas movimentos (M) diferentes: RIR QUEIJO100 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 101 1.2 Sinais que se quanto à Locação, ou seja, mesma 2. Morfologia das línguas de sinais ção de mãos (CM), mesmo movimento, mas locação (L) diferente: Morfologia é a parte da língua que estuda a formação de palavras, ou seja, tudo que está relacionado ao gênero e número dos substantivos, assim como o tempo, modo, número e pessoa de um verbo. Envolve, também, os processos de formação e derivação das palavras. 2.1 Na Libras, a morfologia tem a função de estudar a estrutura do sinal, ou seja, as unidades mínimas de significado. Enquanto que nas línguas orais SÁBADO as palavras mais complexas são, em sua maioria, formadas pela adição de um sufixo ou prefixo a uma raiz, na Libras a constituição de sinais, algumas vezes, ocorre a partir da adição de outros sinais. Os exemplos a seguir apresentam sinais formados a partir da junção de dois sinais: Casa+estudar = ESCOLA Casa+pão = PANIFICADORA APRENDER 1.3 Sinais que se opõem quanto à Configuração de Mão, ou seja, mesma locação (L), mesmo movimento, mas configurações de mãos (CM) diferentes: EDUCAR BRANC@ Casa+carne = AÇOUGUE Casa+cruz = IGREJA105 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 104 os detalhes e a ornamentação da frase. Sendo comer o objetivo principal, ele é MORAR exprimido primeiro na frase dos sinais (LABORIT, 1994, p. 120). CASA Para você relembrar, segue uma breve explicação dos elementos ou constituintes necessários para formação de uma sentença: Sujeito: é o termo da oração que está em relação de com verbo. Verbo: é o termo que indicam ação, estado ou fenômeno da natureza. Exemplos de verbos: ler, estudar, brincar, chover etc. Objeto: é o termo que completa o sentido de um verbo. Por exemplo: João comeu a Sujeito = João; Verbo = comeu; Objeto = a maça5. De acordo com Quadros, Pizzio e Rezende (2009), os constituintes - ou seja, o sujeito, o verbo e o objeto - de uma sentença podem ser colocados em diferentes posições na sentença para expressar efeitos discursivos, mas não BEBER em todas ou em qualquer posição. Dependendo da ordem de alguns cons- BEBIDA tituintes, a sentença pode perder o seu real significado e, em alguns casos, podem ser consideradas agramaticais. Veja alguns exemplos de orações com os constituintes em posições diferentes: 3.1 Orações seguindo a ordem de sujeito-verbo-objeto (SVO) JOÃO COMPRAR CARRO. EU GOSTAR EL@ EMPRESTAR LIVRO. 3.2 Orações seguindo a ordem de sujeito- objeto-verbo (SOV) JOÃO CARRO COMPRAR? EU MAÇÃ GOSTAR. EL@ LIVRO 3. Sintaxe das línguas de sinais de 3.3 Orações seguindo a ordem de verbo-objeto-sujeito (VOS) A Sintaxe estuda o modo como se organizam as palavras na formação seguem Quadros Karnopp (2004) afirmam que o Português e a Libras permitem LEVAR CARRO E1@? frases. a ordem e de sujeito-verbo-objeto (SVO), mas também (OVS). GOSTAR EL@? basicamente, construções de verbo-sujeito-objeto (VSO), objeto-verbo-sujeito EMPRESTAR LIVRO EL@? Um no complemento frase pelo sujeito, depois, o verbo, o de exprimimos final, primeiro a ideia principal, em seguida acrescentamos ouvinte "a ideia". começa "Decidi uma in ao restaurante comer ostras." Na língua eventualmente Para saber mais sobre esse assunto, consulte uma gramática deCAPÍTULO 9 Nesse capítulo, com base em Perlin (1998), Hall (2006), Strobel (2008), entre outros autores, poderemos refletir sobre a constituição da(s) identidade(s) e as peculiaridades culturais das pessoas surdas. 1. Identidades dos sujeitos surdos Quando se fala em identidade, procura-se definir o indivíduo com carac- terísticas comuns a todos os indivíduos pertencentes a um determinado grupo e que, principalmente, diferenciem-nos de outros grupos. Desta forma, tenta- -se classificá-lo pela cor da pele, condição social ou econômica, nacionalidade. orientação sexual ou até mesmo pela presença ou não de uma deficiência. Em se tratando do povo surdo, Perlin (1998) descreve alguns tipos de identidades que podem ser encontradas entre os sujeitos surdos: 1.1 Identidade surda São os surdos que se reconhecem como surdos e usam a língua de sinais como meio de comunicação. São pessoas politizadas que gostam de estar entre seus semelhantes na escola, associações de surdos, reuniões, lazeres, movimentos, festas etc. São nesses encontros surdo-surdo que se constrói a verdadeira identidade. Essa identidade está mais relacionada aos surdos filhos de pais surdos. "Eles são criados para conviver com o virtual do ser surdo sem que isso seja uma realidade particularmente perturbadora como o é para os filhos surdos de pais ouvintes" (PERLIN, 1998, p. 48). 1.2 Identidade incompleta São os surdos que não se aceitam, negam a identidade surda e desenvol- vem sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. Evitam envolvimen- to com outros surdos. Esta pode ser um tipo de identidade surda reprimida. Isto porque foi evitada, negada e ridicularizada. Há muitos casos de surdos cujas identidades foram escondidas, nunca puderam encontrar-se com outros Alguns foram mantidos em cativeiros pela própria família, tornando-se seres incapacitados de tomarem decisões por si mesmos.110 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 111 1.3 Identidade de transição Para Perlin (1998), a construção da identidade cultural dos surdos se dará no reconhecimento de si perante seus pares surdos e perante os ouvin- São os surdos oralizados, isto é, falam a Língua Portuguesa, no caso tes. Os espaços de cada cultura devem ser compreendidos para que o indi- Brasil, e, em certo momento, descobrem a comunidade surda e passam víduo compreenda a si mesmo como surdo com orgulho e dignidade (apud mundo ouvinte para o mundo surdo. CALDAS, 2012, p. 142-143). A autora salienta que: As peculiaridades comuns de um determinado grupo, porém, não po- dem ser generalizadas e tomadas como parâmetros para caracterizar ou [...] normalmente a maioria dos surdos passa por este momento de transição, visto descaracterizar os indivíduos pertencentes ao grupo. Devemos, portanto, que é composta por filhos de pais ouvintes. No momento em que esses surdos conseguem contato com a comunidade surda, a situação muda e eles passam pela considerar que cada ser humano é único e, embora pertencente a um de- des-ouvintização da representação da identidade. Embora passando por essa terminado grupo ou classe social, não irá jamais apresentar todas as carac- -ouvintização os surdos ficam com sequelas da representação que são evidencia- terísticas que se atribuem ao grupo a que ele pertence. Isso pode causar das em sua identidade em reconstrução (PERLIN, 1998, p. 51). transtornos e até preconceitos. Autores como Kuper (2002) e Ortiz (2000) discutem a questão essen- 1.4 Identidade embaçada cialista comum e, muitas vezes, implícita nos estudos que envolvem a iden- tidade. Os autores argumentam que, ao determinar que um indivíduo perten- São os surdos que não conseguem captar a representação da surdez. ce a um grupo específico, pode-se gerar uma visão essencialista em que se Comunicam-se por meio de alguns sinais ou gestos caseiros, pois nunca ti- espera que tal indivíduo se comporte da mesma forma que todos os demais veram contato com a língua de sinais. membros daquele grupo. Para Hall (2006), a identidade tem sofrido rupturas progressivas no de- 1.5 Identidade híbrida correr dos anos. Segundo ele, na Pós-Modernidade os indivíduos têm várias identidades que se sobressaem de acordo com cada contexto e momentos da Fazem parte desta identidade os surdos que nasceram ouvintes e com vida. E elas se constroem a partir de interação com seus pares. Muitas vezes, o tempo se tornaram surdos. Usam a língua de sinais e, no caso do Brasil, os indivíduos se espelham em seus protótipos fixados pela mídia e usam con- também falam a Língua Portuguesa. Aceitam-se como surdos e participam ceitos firmados ao longo das gerações para formar sua personalidade e/ou das associações de surdos. Nesta perspectiva, Strobel (2008) diz que "é na posse da língua de si- identidade. "O sujeito previamente vivido como tendo uma identidade uni- nais que o sujeito surdo construirá a identidade surda [...] A maioria das ficada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, narrativas tem como base a ideia de que a identidade surda está relacionada mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas" (HALL, 2006, p. 12). a uma questão de uso da língua" (STROBEL, 2008, p. 89). Diante disso, torna-se difícil construir grupos que se assemelhem em suas características, sejam elas físicas ou psíquicas, pois cada indivíduo é 1.6 Identidade flutuante "O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, São os surdos que têm consciência de sua surdez, porém desprezam identidades que não são unificadas ao redor de um 'eu' coerente [...]" (HALL, a cultura surda, não participam de associações e lutas políticas. Seguem 2006, 13). Tanto o conceito de região como identidade em si não existem, que existe é uma mistura de elementos culturais identitários (BOURDIEU, representação da identidade ouvinte. 2000), elementos que podem ser afetados principalmente pelo contato com o outro através da globalização, pelos fenômenos da natureza ou pelas condi- 1.7 Identidade diáspora de temporalidade e lugar. São os surdos que, devido à necessidade de trocar experiências, passam Por isso, determinar que uma pessoa, pelo fato ser surda, terá, necessa- de um país a outro, de um estado a outro, ou ainda de um grupo surdo a outro. riamente, que fazer uso de aparelhos auditivos, língua de sinais, leitura la-112 aprender está em suas mãos 2 Edição 113 bial, conviver com a comunidade surda, apresentar problemas relacionados De acordo com Perlin e Strobel (2008) cultura surda corresponde às à escrita, ter aptidões artísticas, pode também ser a adoção de uma postura línguas de sinais, história cultural, identidades surdas, leis, literatura surda essencialista, pois os surdos são pessoas, portanto, com de- e muitos outros aspectos que fazem parte do povo surdo. O espaço cultural, sejos e talentos únicos. normalmente, são as Associações de Surdos, locais onde as comunidades De acordo com Rosa (2012), "Legitimar uns e descaracterizar ou- surdas se encontram para discutir assuntos relacionados à política, estudos, tros é fazer uma fronteira dentro da própria comunidade surda. É ignorar encontros, eventos, festas etc. anos de luta de um povo em troca de um status, o que não é Para Strobel6 (2008, p. 24), cultura surda: A autora continua: [...] é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de se É preciso lembrar que a identidade muda de sujeito para sujeito, e de momento torná-lo acessível e habitável ajustando-os com as suas percepções visuais, que para momento, ela não é fixa. Não há um modelo para a identidade do sujeito contribuem para a definição das identidades surdas e das "almas" das comunidades surdo; a identidade sofrerá modificações de surdo para surdo em vista de suas surdas. Isto significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os representações históricas, sociais e visuais. Assim como dependendo do momento hábitos de povo o surdo pode identificar-se com um, com outro ou com diversos grupos simulta- neamente (ROSA, 2012, p. 23). A autora defende que a cultura surda é formada por artefatos culturais, e estes estão relacionados às experiências visuais, bem como à questão lin- Desta forma, podemos concluir que, embora possamos classificar guística, à literatura surda, à vida social e esportiva, às artes visuais, às lu- cada surdo de acordo com as suas características, grupo social, ambiente tas e.algumas tecnologias que facilitam a acessibilidade das pessoas surdas. em que foi criado, vive ou foi inserido, língua que utiliza, devemos respei- Estes, portanto, possuem uma forma peculiar de apreender o mundo, pois tar e compreender a individualidade de cada um. Não se pode exigir nem suas experiências são adquiridas por meio do canal visual. A língua de sinais procurar certas peculiaridades. Um grupo de surdos pode ser classificado constitui o "artefato linguístico" das pessoas surdas e é primordial para a por seus pontos em comum, mas não se pode rotular individualmente uma cultura surda, hoje reconhecida como primeira língua do povo surdo. única pessoa baseando-se nas características do grupo a que ela pertence. É muito frequente ouvirmos as pessoas e as mídias dirigirem-se aos Entre os surdos, as individualidades serão respeitadas se compreender- surdos utilizando alguns termos, tais como: surdo-mudo, surdinho, mudinho, mos que nem todo surdo pode saber a língua de sinais, fazer leitura labial etc. deficiente auditivo etc. Essas terminologias, na visão da cultura surda, são Os surdos procuram, há muito tempo, serem aceitos na sociedade consideradas um erro social. Por isso, faz-se necessário um esclarecimento a com as características e diferenças que possuem. A sociedade precisa respeito dessas denominações: aceitá-los como surdos, não tentar transformá-los em pessoas ouvintes. Sujeito surdo: é aquele que, conforme vimos na identidade surda, se A participação das escolas, meios de comunicação e instituições aceita como surdo. É um cidadão politizado que usa a língua de sinais como especializadas é de fundamental importância para o esclarecimento da meio de comunicação e luta por seus direitos. comunidade em geral sobre as características e individualidades da co- é a mais antiga e incorreta denominação atribuída ao munidade surda. O fato de uma pessoa ser surda não significa que ela seja muda. A mudez é outra deficiência sem conexão com a surdez. Para ser considerada 2. que é Cultura Surda? muda a pessoa deve apresentar problemas relacionados às cordas vocais ou ao aparelho fonador que lhes impeçam de produzir sons. Este não é o caso da Dentre as diversas definições antropológicas da palavra cultura, uma das primeiras se deve ao pesquisador inglês Edward B. Tylor. De acordo grande maioria dos surdos. Eles conseguem emitir sons e alguns conseguem com o autor, cultura é o conjunto complexo de conhecimentos, crenças, arte, 6 moral e direito, além de costumes e hábitos adquiridos pelos indivíduos em Karin Strobel é uma pessoa conhecida e exemplo para comunidade surda. Ela é Professora Doutora na área de Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autora do livro "A imagem do outro sobre a Cultura Surda". Pro- uma sociedade (apud CUCHE, 2002). fessora do Curso de Letras/Libras em Licenciatura/Bacharelado da UFSC. Acesse o site e veja uma entrevista completa sobre a vida de STROBEL:114 aprender está em suas mãos - 2 Edição 115 LIBRAS: comunicar-se por meio da fala perfeitamente, mas isso depende intérpretes, familiares entre outros. Strobel (2008, p. 29) explica que a nhos, perda auditiva e da assistência de profissionais, como fonoaudiólogos. comunidade surda muito pequenos. São minorias os surdos que também são mudos. Portan- não é só de sujeitos surdos, há também sujeitos ouvintes membros de família, to, o surdo só poderá ser considerado mudo se for constatada clinicamente intérpretes, professores, amigos e outros que participam e compartilham os mes- deficiência em sua oralização que, conforme dito, o impeça de emitir mos interesses em comuns em uma determinada localização. [...] Em que lugares? "Utilizar a língua dos sinais não significa ser mudo. Posso falar, Geralmente em associação de surdos, federações de surdos, igrejas e outros. gritar, chorar, sons saem de minha garganta. Ninguém me cortou a língua! Tenho uma particular, só isso!" (LABORIT, 1994, p. 199). Conforme visto acima, a cultura surda é marcada pela língua de sinais, Deficiente auditivo: este termo costumava ser utilizado pela corrente pelas diferentes identidades, pedagogias, políticas, leis, artes, literatura, en- oralista que defendia o desenvolvimento da fala para que os surdos pudes- tre outros elementos. As tecnologias de informações e comunicações (TICs) sem ser inseridos à sociedade. Essa corrente tratava o surdo com uma visão como Messenger, Facebook, e-mail, sensor de choro para bebês, telefones clinico terapêutica, segundo a qual, depois de diagnosticada, a surdez era celulares, campainha luminosa, relógios vibratórios, entre outros, são recur- classificada como leve, moderada, severa ou profunda, com o objetivo de SOS importantes e facilitadores de comunicação para os surdos. indicar o uso da prótese auditiva (aparelho auditivo). Hoje, é possível encontrar uma diversidade de livros de histórias clás- Laborit (1994, p. 79), sobre o termo "deficiente", faz a seguinte de- sicas traduzidos para a Libras. A seguir veja pequenos resumos de alguns claração: "[...] mas a ordem que se fez em minha cabeça, já então, recusar livros que compõem a literatura violentamente o rótulo de deficiente. Não sou. Sou surda. Tenho uma língua Tibi e Joca: Conta a história de Joca, um menino especial, e seu amigo para me comunicar, companheiros que falam, meus pais que falam [...]". Tibi. Joca é surdo. Juntos, eles fazem uma descoberta que mudará a vida de O termo correto para se referir aos surdos, portanto, é "surdo" ou "sur- Joca e de sua família; da". Os demais termos acima citados são considerados pejorativos e não Cinderela Surda e Rapunzel Surda: Os livros Cinderela Surda e Ra- devem jamais ser utilizados ao referir-se aos sujeitos surdos. punzel Surda são versões dos tradicionais contos que inserem elementos da Na cultura surda há algumas terminologias utilizadas para indicar um cultura e identidade surda. Essas releituras inéditas das histórias são acom- determinado grupo ou comunidade. Por exemplo: panhadas da escrita de sinais (SignWriting), ilustrações e versão em portu- Povo Surdo: são todas as pessoas surdas, independente do seu grau lin- Voltada para o público surdo infantil, a obra é o resultado da pesquisa guístico. Reis (2006, p. 19) explica que a expressão "Povo Surdo" significa desenvolvida por Lodenir Becker Karnopp, Caroline Hessel e Fabiano Ros; uma estratégia de poder, de identidade, e as associações, organizações locais, Adão e Eva: Os autores contam a origem da língua de sinais através da nacionais ou mundiais de surdos, assim como as lutas, a cultura e as criação do casal feito por Deus. Na história, os dois ficam sem roupa após cas, são os fatores que constituem este povo. A autora afirma que não é uma comerem a maçã e veem-se obrigados a usar a fala, já que as mãos estão simples comunidade a quem se podem impor regras, mas uma estrutura forte ocupadas em esconder a nudez dos corpos; que se defende e tem seus próprios princípios. Patinho Surdo: Conta a história de um patinho surdo que nasce em um De acordo com Strobel (2008, p. 29): ninho de cisnes ouvintes. Mais tarde, encontra sua família e aprende a língua de sinais usada pelos bichinhos da lagoa. Quando pronunciamos 'povo estamos nos referindo aos sujeitos que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem, por São poucos os surdos que vivem em uma comunidade onde sua cultura código ético de formação visual, independente do grau de evolução reconhecida e respeitada. Muitos sequer sabem que existe uma cultura sur- da. tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços. "Nunca tinha visto adultos surdos [...] portanto, na minha cabeça, as Comunidade Surda: é formada por todas as pessoas que de forma direta Disponível em: Acesso em: 19 jul. ou indireta estão envolvidas com surdos. São eles amigos, professores Para saber mais sobre a Literatura Surda, acesse o site a seguir que foi organizado por um grupo de profissionais do Rio Grande do Sul: Acesso em: 19 jul. 2011.116 crianças surdas nunca cresciam. Iríamos morrer, assim, pequenos" CAPÍTULO 10 RIT, 1994, p. 32). Há muitos surdos, principalmente os que vivem no interior, que não têm Nesse capítulo, trazemos algumas reflexões que envolvem a inclusão o privilégio de se encontrar com outros surdos. Alguns até pensam ser escolar de alunos surdos. Na sequência, elencamos alguns fatores importan- únicos surdos que existem no mundo e sentem-se sozinhos e abandonados. tes e necessários para atuar como tradutor e intérprete de língua de sinais Vejamos o que diz uma pessoa surda ao encontrar, pela primeira vez, com (TILS). E para finalizar esse capítulo, focaremos nos principais desafios en- outra pessoas surda: frentados pelos surdos em relação à aquisição da linguagem escrita. Aquilo que senti naquele momento de encontrar um sujeito igual a mim, na esco- 1. Inclusão do surdo no contexto escolar8 la, meu primeiro encontro com um sujeito surdo igual a mim, era o que eu pro- curava, aquilo me encantou, me fez sentir que tinha alguém igual a mim, que lia pelos olhos que entendia pelos olhos (M. 2010 apud PERLIN: REIS, 2012, p. 22). A inclusão de alunos surdos, em salas comuns de ensino, tem gerado con- flitos e angústias aos profissionais envolvidos nesse processo. Apesar das lutas Alguns profissionais ainda tentam transformar os surdos em sistemáticas de algumas pessoas como os surdos, professores e intérpretes de deixando-os perdidos quanto à sua identidade. Muitos surdos agem de acor- língua de sinais, entre outros, a inclusão no Brasil continua a passos lentos. do com os objetivos almejados pelos pais, professores e outros ouvintes, ten- Professores que trabalham com alunos surdos, em salas comuns de en- tando falar, vivendo sobre a imposição da cultura dos ouvintes e sentindo-se sino, enfrentam inúmeras dificuldades de comunicação. A maioria dos edu- um completo incompetente diante dos "fracassos". cadores argumenta que não tem formação ou não se sente preparado para trabalhar com esses alunos. Há algumas décadas, as pessoas com necessidades educacionais espe- ciais (PNEE) precisavam ser "preparadas" para serem inseridas à sociedade. De acordo com Goldfeld (2002), Moura (2000) e Sacks (1989), o surdo vi- veu períodos críticos e dolorosos, nos quais muitos educadores e profissio- nais tentaram, a todo custo, transformá-los em ouvintes. Acreditava-se que somente desta forma poderiam fazer parte integrante da sociedade. As tentativas de aproximar as pessoas com necessidades especiais do padrão considerado "normal" para depois serem inseridas à sociedade denominou-se "integração". Assim, "pelo paradigma da integração, são as pessoas com necessidades especiais que devem adaptar-se aos sistemas [...]" (SASSAKI, 2006, p. 106). Já no processo de inclusão, são as pessoas, ou seja, a sociedade em geral que se prepara para receber as pessoas com necessidades especiais. "Pelo paradigma da inclusão, são os sistemas [...] que devem adaptar-se às neces- sidades das pessoas de tal forma que elas possam participar juntamente com as pessoas em geral." (SASSAKI, 2006, p. 106). A aquisição da Libras pelos acadêmicos dos cursos de licenciatura, ba- charelados e outros é um exemplo do processo de inclusão, visto que somos ouvintes, que agora estamos aprendendo a língua dos surdos, e não eles aprendendo a nossa língua. Este texto é parte do artigo "A inclusão de alunos surdos em salas de aula do ensino regular: um desafio" que está no Prelo.118 aprender está em suas mãos 2 Edição 119 As diversas tentativas de inclusão do surdo no meio escolar e na Apresenta-se como questão central, neste momento, a oferta fantasiosa ciedade em geral remete-nos a uma sucessiva e decepcionante trajetória de de um ensino igualitário, no qual os atores teriam as mesmas oportunida- muitos erros e pouquíssimos acertos. Isso ocorre porque a decisão de des, ou seja, teriam à disposição "condições" que propiciariam um ensino de as coisas deveriam ser feitas sempre partiu de pessoas ouvintes e Essa educação desconsidera a diversidade de seus participantes, ou quase nunca, se consultou o principal interessado neste caso, o propiciando a exclusão, além de mascarar a realidade, pois uma educação Pode-se assim dizer que as pessoas ouvintes, ao tomarem uma iniciativa inclusiva está longe de consolidar no Brasil (CARVALHO, 2010). destinada a beneficiar pessoas que não ouvem, acabam caindo na malha de A Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação sua própria rede por não "ouvir" uma pessoa que não ouve. Inclusiva (2008) tem gerado muitas dúvidas e polêmicas. Essa política de- Nessa perspectiva, Goes e Laplane (2007) ressaltam que: fende que o aluno surdo seja inserido nas salas comuns de ensino e os conte- údos sejam ministrados em Língua Portuguesa e em Libras com a mediação [...] os surdos são afetados pelo desejo de um grupo, que pensa e decide sem levar do tradutor/intérprete de Libras. E que no contraturno o aluno surdo receba em consideração as peculiaridades daqueles que não ouvem. Nesse sentido os atendimento educacional especializado (AEE). surdos também são explorados e violentados em sua condição de surdez, e muitas vezes ficam privados de identificarem-se como humanos, pela ausência de ou- O referido documento menciona que: tros surdos na sua convivência cotidiana, a partir dos quais possam se reconhecer (GOES; LAPLANE, 2007, p. 122-123). Para o ingresso dos alunos surdos nas escolas comuns, a educação bilíngue Lín- gua Portuguesa/Libras desenvolve o ensino escolar na Língua Portuguesa e na lín- Um dos momentos mais marcantes na história dos surdos refere-se à gua de sinais, o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua na modalidade escrita para alunos surdos, os serviços de tradutor/intérprete de Libras e Língua supressão da língua de sinais. A exclusão apresentou-se de forma cruel nas Portuguesa e o ensino da Libras para os demais alunos da escola. atendimento decisões tomadas durante o Congresso Internacional de Educação de Surdos, educacional especializado para esses alunos é ofertado tanto na modalidade oral realizado em 1880, em conforme visto no Capitulo 1. e escrita quanto na língua de sinais. Devido à diferença linguística, orienta-se que o aluno surdo esteja com outros surdos em turmas comuns na escola regular Atualmente, a exclusão e a segregação têm sido amplamente discuti- (BRASIL, 2008, p. 17). das reavaliando-se determinadas construções e conceitos, buscando ressig- nificações no esforço de combater as práticas que produzem e alimentam Entretanto, a comunidade surda é contrária a essa política e argumenta essas desigualdades. que colocar crianças surdas oriundas de famílias ouvintes, que não tiveram Quando se fala em espaço escolar, é necessário que reconheçamos as acesso a Libras, junto com alunos ouvintes, mesmo com a mediação do especificidades de cada grupo, ou seja, as características e peculiaridades não traz resultados satisfatórios em relação à sua apren- linguísticas e culturais apresentadas e que permitam a participação de todos dizagem. Segundo representantes dessa comunidade, as salas de aula comuns na busca do conhecimento. não são o espaço ideal para a criança surda adquirir sua língua natural de forma Diante dessa perspectiva, Carvalho (2010) diz que: espontânea como ocorre com as crianças ouvintes (RESENDE, 2011). A autora declara que o discurso do MEC acusa as escolas de surdos [...] assim como para quem vive na miséria e está desnutrido não adiantam exa- mes do aparelho digestivo, em busca de explicar por que não se alimenta, de serem segregacionistas. As políticas educacionais reconhecem diferentes sim intervir no contexto que o priva de alimentos [...] do mesmo modo, para línguas e culturas e tenta fazê-las interagir. Coloca-se um intérprete na sala enfrentar os mecanismos excludentes, precisamos intervir no sistema educacio- de aula e a inclusão e o bilinguismo estão sendo promovidos. Segundo ela, nal, ampliando, diversificando suas ofertas, aprimorando sua cultura e prática pedagógica e, principalmente, articulando-o com todas as políticas educacionais "isso é uma falácia". Essa concepção de inclusão rejeita as diferenças cultu- rais dos surdos e as suas particularidades linguísticas. (CARVALHO, 2010, p. 63). Por outro lado, a maioria dos pesquisadores da área defende que reunir Assim, corrobora-se o argumento da autora quando ela afirma que "pre- surdos em uma mesma escola ou sala de aula não significa separá-los do mun- cisamos admitir que a escola tem legitimado a exclusão, principalmente dos do ou torná-los mais dependentes. Os ambientes linguísticos e a vivência de grupos em desvantagem, mesmo quando procura inserir alunos nas classes uma língua de maneira espontânea faz com que os sujeitos se tornem mais regulares, mas sem apoios necessários" (CARVALHO, 2010, p. 63). alcançando o conhecimento de maneira mais rápida na interação120 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 121 com seus pares. Desta forma, o uso da Libras como língua natural deste Uma referência de Escola Bilíngue no Brasil, conforme destacado no seria mais eficiente e facilitaria o aprendizado (RESENDE, 2011). grupo Capitulo 1, é o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), localizado Portanto, do ponto de vista das pessoas surdas, o ideal é investir em no Rio de Janeiro, fundado em 1857 por um professor surdo francês chama- escolas bilíngues onde as crianças surdas podem ter acesso à Libras desde a do Hernest Huet. Nessa instituição, o ensino vai desde a educação infantil mais tenra idade por meio do contato com seus pares e com estratégias me- até o ensino superior com estratégias metodológicas exclusivamente visuais todológicas de ensino que atendam às suas particularidades. apropriadas aos surdos. A constituição da identidade por meio do contato Os líderes surdos advogam contra essa política de inclusão em que 0 surdo-surdo é um dos principais objetivos das práticas nessa escola. "[...] aluno surdo frequenta as salas comuns de ensino com atendimento especia- encontro surdo-surdo é essencial para construção da identidade surda, é lizado em contraturno. "Cada vez mais, temos a certeza de que este modelo como abrir um baú que guarda os adornos que faltam ao personagem" (De- de inclusão que preconiza o Atendimento Educacional Especializado (AEE) em detrimento das escolas bilíngues para surdos possui problemas. Como 0 poimento de um surdo apud MACHADO, 2008, p. 117). Entretanto, nos dias 19 e 20 de maio de 2011, houve um forte movi- aprendizado das crianças surdas pode ficar restrito ao atendimento no con- mento que reuniu cerca de quatro mil pessoas, entre elas surdos, professores, traturno?" (STROBEL, 2011, p. 3). A Lei de acessibilidade 10.048 de 2000, regulamentada pelo Decreto intérpretes, familiares, lideres e amigos que marcharam em direção ao Mi- Federal 5296/2004, garante aos surdos o direito de serem acompanhados nistério da Educação e Cultura (MEC) e ao Congresso Nacional, em por tradutores/intérpretes de Libras em espaços sociais diversos, públicos lia, para defender o direito pela Educação Bilíngue para Surdos e evitar o privados. Entretanto, a realidade do contexto brasileiro atual está longe dos fechamento do INES. "Depois disso, várias ações políticas foram feitas, com parâmetros garantidos pela legislação devido à escassez deste profissional objetivo de tentar incluir no documento final do Plano Nacional de Educação no mercado de trabalho. (PNE) as demandas dos surdos pelo não fechamento das escolas bilíngues Contudo, a presença de tradutores/intérpretes de Libras em salas comuns [...]" (FENEIS, 2011, p. 6). de ensino ainda não é sinônimo de inclusão. Em primeiro lugar, porque há No dia 16 de setembro de 2011, realizou-se também o 10° Congres- muitos surdos filhos de pais ouvintes que não dominam a Libras e a figura Internacional de Educação de Surdos na cidade do Rio de Janeiro. Esse do tradutor/intérprete nada significaria para a sua escolarização. "O intérprete evento reuniu cerca de oitocentos pesquisadores que discutiram a inclusão perde a função de traduzir os conteúdos do português oral para a Libras, já que de alunos surdos na rede regular de ensino. os alunos não possuem nem uma nem outra língua" 2011, p. 11). Entre os debatedores, estava a Diretora do Centro e Investigação sobre Em segundo lugar, não se pode chamar uma escola de "inclusiva" ape- a Surdez da Universidade Autônoma de Barcelona, Professora Nuria Silves- nas por ter um tradutor/intérprete presente na sala de aula. Não basta que tre, que defendeu a interação entre crianças surdas e ouvintes explicando apenas um indivíduo dentro de uma organização escolar saiba comunicar-se com surdos. O intérprete não está "colado" ou "suturado" ao surdo nem na que "[...] esse é um meio para incluir o surdo na sociedade. Mas há todo um sala de aula. Por alguns momentos, certamente, ele precisará ausentar-se. E caminho", disse. "Sem o apoio do corpo docente e da comunidade escolar, a inclusão pode ser um fracasso. Não há caminho se não se começar a então, como ficam as necessidades comunicativas dos surdos? completou, fazendo referência à inclusão dos alunos surdos na rede regular De acordo com Resende (2011): de ensino, citando o poeta espanhol Antonio Machado. A língua de instrução utilizada em todos os espaços escolares da escola inclusiva de O modelo espanhol foi contestado pela Federação Nacional de Educa- é o português. No máximo, os alunos contam com a presença de intérpretes que ção e Integração dos Surdos (FENEIS), que defende escolas especializadas língua de sinais durante as aulas, o que muitas vezes torna inviável o ensino e bilíngues para surdos. a criança surda nem sequer domina Libras e muito menos possui conhecimento ensino prévio de mundo por meio de língua nenhuma. Mas a metodologia de como Patrícia Luiza de Rezende, resumiu como "massacrante" a situação da edu- continua sendo a mesma para surdos e ouvintes. português é ensinado cação do surdo no Brasil. Para ela, a Política de Educação Especial do Ministério primeira língua aos surdos descumprindo a legislação (RESENDE, da Educação impõe uma inclusão que não atende às peculiaridades e especifi- 10 A notícia completa está disponível em: Acesso 9 Fonte: em: 28 set. 2011. Acesso em: 19 out. 2012.123 122 aprender está em suas mãos 2 Edição cidades dos surdos. "Os surdos precisam ter uma educação bilíngue em que Stumpf (2008) salienta que o aluno surdo inserido no mesmo espaço língua de sinais seja uma língua de instrução e compartilhada na sala de aula. a educacional de alunos ouvintes, sem o suporte adequado, vai tentar se com- Como os surdos vão estudar nas escolas regulares se a língua dominante é portar como um deles. A língua de sinais aparece muito pouco e, sobre a cul- a portuguesa?", perguntou a professora. tura surda, não há sinais. "Como esse aluno vai ter acesso ao conhecimento? Os professores bilíngues que trabalham com surdos em escolas espe- As diretrizes para educação dos surdos apontada pelo MEC não chegaram à ciais são conhecedores da história da educação dos surdos, assim como das maioria das escolas" (STUMPF, 2008, p. 25). A mesma autora afirma não querer que apenas alguns poucos surdos estratégias adequadas à aquisição dos conteúdos escolares. No entanto, tenham sucesso "[...] é preciso que a escola ofereça a todos a superação da professores que trabalham em salas comuns de ensino com alunos surdos in- Assim, ela enfatiza que "a inclusão de poucos, ou ainda pior, um cluídos desconhecem essas práticas metodológicas. Com isso, os alunos sur- aluno surdo na classe de ouvintes com um professor pouco preparado impos- dos, ao invés de se sentirem incluídos, acabam sendo excluídos do processo sibilita bons resultados" (STUMPF, 2008, p. 25). escolar e impossibilitados de adquirir, de forma efetiva, o Nessa perspectiva, Resende destaca que: Ao inserir-se em um meio escolar, portanto, o surdo encontra mui- tas dificuldades, tanto socialmente quanto em relação aos conteúdos. A [...] muitas vezes a criança surda é a única na sala, permanecendo isolada de seus instituição de ensino tem a responsabilidade de tentar identificar as difi- colegas ouvintes. Mesmo que a escola ofereça curso de Libras às crianças ou- vintes, elas não interagem na sua totalidade com as crianças surdas. E os surdos culdades desse aluno e as suas, procurando saná-las de maneira correta e deixam de ter estímulos linguísticos em Libras o que traria o desenvolvimento não ofensiva, sem marginalizar ou reprimir, isolar ou omitir. Além disso, na etapa de alfabetização adequado. Percebemos o fracasso da escola inclusiva deve-se levar sempre em conta que a presença do profissional tradutor/ nitidamente ao avaliar o desenvolvimento dos surdos. Temos duas pesquisas, uma intérprete de Libras, em sala de aula, é fundamental para que o aluno sur- feita pela USP e outra pela UFSC que provam esse fracasso. Segundo a pesquisa de mestrado da professora Mariana Campos, da UFSCAR, 50% dos alunos de do tenha, efetivamente, acesso a todos os conteúdos, desde que ele tenha uma escola inclusiva se sentem tristes e frustrados por não encontrarem artefatos domínio da Libras. da cultura surda na escola. Stumpf (2008), quando questiona as práticas escolares no Brasil em relação aos surdos, propõe alguns aspectos importantes para que ocorra uma Stumpf (2008) destaca que o tradutor/intérprete é condição de acessibi- educação inclusiva pautada na ética, respeito e responsabilidade. Para isso, lidade na falta do professor surdo ou do professor ouvinte que seja fluente em ela ressalta a importância de professores habilitados em Libras, intérpretes e Libras, "mas fazer de conta que um único professor pode falar duas línguas ao professores surdos dentro das escolas regulares de ensino. mesmo tempo é fingir que o ensino é inclusivo. Não se pode falar de inclusão Segundo a autora, o MEC tem financiado cursos, programas e procu- se não são postas as condições necessárias" (STUMPF, 2008, p. 26). rado implantar novas diretrizes para a educação de surdos. Essas diretrizes Ainda de acordo com a autora, os surdos não querem perpetuar a distância en- trazem uma exigência em relação à prática cultural das comunidades surdas Os tre surdos e ouvintes. Eles desejam simplesmente integrar-se à sociedade e usufruir e, portanto, essas práticas devem fazer parte dos currículos das das coisas simples e cotidianas a que todo cidadão tem direito, tais como: trabalhar movimentos surdos pedem a presença do professor surdo em sala de aula e ser independente; entender o que se mostra na televisão; votar nas eleições; ter para viabilizar o contato com a representação surda e produzir uma percep- acesso aos programas de saúde, aos shows, aos esportes, ao teatro, à literatura, aos museus, às viagens; enfim, incluir-se, podendo aproveitar todas as conquistas que ção efetiva da cultura surda nos ambientes escolares. Lei existem para os ouvintes e que ficam distantes dos surdos (STUMPF, 2008, p. 28). O Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005 que regulamenta a 10.436 de 24 de abril de 2002, em seu Art. 14. § Incisos VI e VII, Freire (1996, p. 71) afirma que garante aos alunos surdos que as avaliações devem ocorrer em ambas as não é possível respeito aos educandos, à sua dignidade, a seu ser formando-se, guas (Portuguesa e Libras), e não apenas na modalidade escrita; entretanto, à sua identidade fazendo-se, se não se levam em consideração as condições em alunos surdos e ouvintes ainda são avaliados por meio dos mesmos critérios. que eles vêm existindo, se não se reconhece a importância dos 'conhecimentos de experiência feitos' com que chegam à escola. 12 11 Curso de Licenciatura e Bacharelado em Letras Libras da Universidade Federal de Santa Cataria (UFSC) é Fonte: em: 19 out. 2012. exemplos de cursos financiados pelo governo.124 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 125 dores, os educadores envolvidos com a educação de surdos devem De acordo com Strobel (2008), Stumpf (2008), entre outros pesquisa- pessoas ouvintes, fluentes em Libras, aprovadas no exame de proficiência e interpretação interessadas em exercer a função de TILS. perto as necessidades e condições em que vivem os surdos e certificar-se de A melhor forma de adquirir fluência em Libras é entrar em contato e as estratégias metodológicas utilizadas são adequadas para que o de conviver com pessoas surdas. seja por ele assimilado. Além disso, é preciso ter consciência de que é Quadros (2004, 28) cita alguns papéis do intérprete no que diz respei- possível construir as identidades sem considerar os discursos dos im- surdos e reconstruir a educação a partir do que eles falam. próprios to aos preceitos éticos: a) confiabilidade (sigilo profissional); b) imparciali- dade (o intérprete deve ser neutro e não interferir com opiniões próprias); c) Portanto, antes de tentarmos "sociabilizar" e "integrar" os surdos à discrição (o intérprete deve estabelecer limites no seu envolvimento durante tura ouvinte, devemos tentar entender o modo de agir e de pensar dessas pes- d) distância profissional (o profissional intérprete e sua vida pes- soas. Não podemos tentar educar uma pessoa ou uma comunidade levando soal são separados); e) fidelidade (a interpretação deve ser fiel, o intérprete em consideração apenas o nosso meio ou o nosso modo de ser. não pode alterar a informação por querer ajudar ou ter opiniões a respeito de algum assunto, o objetivo da interpretação é passar o que realmente foi dito). 2. Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais (TILS) Conforme a Instrução 008/08, compete ao profissional intérprete o cumprimento das seguintes atribuições: O que é preciso para se tornar um tradutor/intérprete de língua de sinais (TILS)? mediar situações de comunicação entre os alunos surdos e demais Antes de discutirmos essa questão, vejamos o conceito de intérprete de membros da comunidade escolar; língua de sinais: "[...] é a pessoa que interpreta de uma dada língua de sinais viabilizar a interação e a participação efetiva do aluno nas diferen- para outra língua, ou desta outra língua para uma determinada língua de tes situações de aprendizagem e interação no contexto escolar; sinais" (QUADROS, 2004, p. 7). informar à comunidade escolar sobre as formas mais adequadas de De acordo com a Instrução 003/2012: comunicação com o(s) alunos(s) interpretar, de forma fidedigna, as informações e conhecimentos O tradutor e intérprete de Libras/Lingua Portuguesa TILS é o profissional bi- veiculados em sala de aula e nas demais atividades curriculares de- língue que oferece suporte pedagógico à escolarização de alunos surdos matri- senvolvidas no contexto escolar; culados na Educação Básica, da rede regular de ensino, por meio da mediação ter conhecimento prévio e domínio dos conteúdos e temas a serem linguística entre aluno(s) surdo(s) e demais membros da comunidade escolar, de modo a assegurar o desenvolvimento da proposta de educação bilíngue (Libras/ trabalhados pelo professor, evitando a improvisação e proporcio- nando maior qualidade nas informações transmitidas; Língua Portuguesa) (BRASIL, 2012, p. 01). ter um relacionamento amistoso com o professor regente de turma, Para se tornar um TILS é necessário, primeiramente, ter fluência em Li- oferecendo informações adequadas sobre a importância da intera- bras. Para receber a certificação de tradutor/intérprete de ção deste com o(s) alunos(s) surdo(s); candidato deve ser aprovado por uma banca avaliadora, composta por surdos sugerir aos docentes a adoção das estratégias metodológicas visu- e ouvintes, fluentes em Libras. A Federação Nacional de Educação e Inte- ais mais adequadas ao favorecimento da aprendizagem dos alunos gração de Surdos (FENEIS) oferece essa prova de seleção periodicamente. surdos; cumprir integralmente a carga horária designada (20 ou 40 Há também o Prolibras, programa promovido pelo Ministério da Educação horas), de modo a oferecer apoio especializado aos alunos surdos e Cultura (MEC) e desenvolvido por Instituições de Educação Superior (IES) bem em todas as disciplinas previstas na matriz curricular semanal para a série em questão; que tem por objetivo viabilizar a certificação de proficiência em Libras, como para a certificação de proficiência em tradução e interpretação da Libras. in- participar das atividades pedagógicas que envolvem o coletivo da escola (reuniões pedagógicas, conselhos de classe, atividades festi- O Prolibras certifica pessoas surdas ou ouvintes, fluentes em Libras, vas, entre outros); teressadas em atuar como professores ou de Libras, assim como submeter-se aos direitos e deveres previstos aos demais profissio- nais, no regimento da escola; cumprir o Código de Ética que regulamenta a prática da interpreta- 13 Instrutor: é a pessoa surda com certificação para ensinar a Língua Brasileira de Sinais (Libras).aprender está em suas mãos - 2 Edição 127 126 ção/tradução em Libras, emitido pela Federação Nacional de Edu- O Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005, que regulamenta a Lei cação e Integração de Surdos (FENEIS), o qual deve ser de 10.436 de 24 de abril de 2002, em seu Art. 14. § Incisos VI e VII, garante nhecimento da equipe técnico-pedagógica do Estabelecimento de aos alunos surdos que as avaliações devem ocorrer em ambas as línguas Ensino (BRASIL, 2008). (Portuguesa e Libras), e não apenas na modalidade escrita: VI adotar mecanismos de avaliação coerentes com o aprendizado de A Lei que regulamenta a profissão do TILS foi aprovada segunda língua, na correção das provas escritas, valorizando o aspecto se- somente em setembro de 2010. Esses profissionais são bastante requisitados mântico e reconhecendo a singularidade linguística manifestada no aspecto pelas instituições de ensino e pelas empresas públicas e privadas, mas ainda formal da Língua Portuguesa; não há pessoas formadas e preparadas em número suficiente para suprir a VII desenvolver e adotar mecanismos alternativos para avaliação de demanda do mercado. conhecimentos expressos em Libras, desde que devidamente registrados em O destaque sobre a falta do tradutor/intérprete de Libras se insere como vídeo ou em outros meios eletrônicos e tecnológicos. Entretanto, alunos sur- uma tentativa de demonstrar que ter a língua de sinais no curso de formação dos e ouvintes ainda são avaliados por meio dos mesmos critérios. de professores é apenas um passo para que o aluno surdo garanta seus direitos Esse Decreto estabelece que os alunos surdos devem ter uma educação linguísticos. Um longo caminho será percorrido para preencher as lacunas que bilíngue, na qual a Libras deve ser considerada a Língua 1 (L1) e a Língua se apresentam como empecilhos para garantir uma inclusão de qualidade. Portuguesa, na modalidade escrita, a Língua 2 (L2) desses sujeitos. Nesse modelo, a Libras é a língua de instrução no sentido de que vai possibilitar o 3. Algumas considerações sobre o processo de escrita do aluno surdo acesso aos conteúdos de todas as disciplinas, inclusive de Língua Portugue- sa. Para isso, ela deve ser adquirida pelas crianças surdas o mais cedo pos- A falta de conhecimento de alguns professores, sobre a cultura surda e a sível, o que, em geral, acontecerá na escola, preferencialmente na interação forma com que alguns surdos escrevem, acaba gerando certas injustiças em com interlocutores surdos, usuários da Libras (FERNANDES, 2007). relação aos critérios de avaliação utilizados nas correções de textos produ- A autora afirma que zidos pelos surdos. Há elementos usados na Língua Portuguesa falada e escrita, tais como [...] embora brasileiras, as crianças surdas necessitam de uma modalidade linguís- artigos (a, o, um, uma etc.), conjunções (e, nem, mas, contudo, etc.), prepo- tica que atenda as suas necessidades visuais espaciais de aprendizagem, o que sições (de, da, em, para, com, etc.) em alguns casos, certos tipos de verbos, significa ter acesso à Libras, assim que for diagnosticada a surdez, para suprir as que não são usados em Libras. Entretanto, a maioria dos professores des- lacunas que a oralidade não preenche em seu processo de desenvolvimento da linguagem e conhecimento de mundo. Essa situação configura o bilinguismo dos conhece o fato de que o aluno surdo fala uma língua e precisa escrever em surdos brasileiros: aprender a língua de sinais, como primeira língua, preferencial- outra. Muitos professores que trabalham com surdos em salas comuns de mente de zero a três anos, seguida do aprendizado do português, como segunda ensino não levam em consideração essa diferença linguística ao confrontar- língua (FERNANDES, 2007, p. 2). -se com um texto escrito pelo surdo. Nesse sentido, o professor não deve corrigir um texto produzido por Quanto mais precoce a criança surda iniciar o processo de estimulação, um aluno surdo como se estivesse corrigindo um texto elaborado por um mais rápido ela irá se desenvolver. Dependendo do grau da surdez da crian- aluno ouvinte que usa a Língua Portuguesa naturalmente. Deve lembrar- ça e da detecção precoce do problema, algumas famílias conseguem desen- -se sempre do detalhe de que a Libras tem que ser vista como uma "outra" volver uma linguagem própria e muito próxima à ideal. Mas esses casos são língua. E, mesmo reconhecida oficialmente em todo o território nacional, insignificantes em um contexto geral. Não podemos, portanto, generalizar e ainda é desconhecida pela maioria da população que não tem contato com tomar como parâmetros casos isolados. comunidade surda (FERNANDES, 2007). Essa falta de conhecimento é uma Em relação à aquisição da Libras, Quadros (1997) aponta que: das principais causas da marginalização social que os surdos sofrem até hoje. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato Para saber mais acesse: com sinalizadores, sem ser ensinada, consequentemente, deve ser sua primeira 14 língua. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho Acesso em: 08 out. 2011.128 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 129 sistemático com a L2, considerando a realidade do ensino formal. A necessidade sua escrita. Por isso, não se obtém resultado satisfatório escrevendo uma palavra formal do ensino da Língua Portuguesa evidencia que essa língua é, por cia, uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS 1997, p. 84). para o surdo, pois ele precisa associá-la a um sinal ou uma imagem que conheça. Todo vocabulário que um ouvinte tem, obviamente, entrou em sua men- As dificuldades do surdo para a aquisição da linguagem escrita te pelo seu ouvido, mas ele não aprendeu todo esse vocabulário de um dia enormes. Se levarmos em consideração que até mesmo para muitos ouvintes para o outro. Desde bebê, ele ouve seus pais, parentes, vizinhos, o rádio, a televisão entre outros. À medida que vai crescendo, aprende a distinguir os ditos "normais" a escrita é difícil de ser adquirida, para os surdos que não significados das palavras e vai incorporando sinônimos, enriquecendo, as- sabem se expressar por meio de letras ou sons a dificuldade é ainda maior. sim, seu vocabulário no decorrer de toda sua vida. Portanto, ao escrever, o Assim, os autores Duarte e Padilha (2012), com base em suas ouvinte busca essas palavras e tenta ordená-las no papel. cias com crianças e jovens surdos e na conivência social com a comunidade Agora vamos pensar o surdo: por onde entra o vocabulário em sua men- surda, quando falam das dificuldades dos surdos em relação à Língua Portu- te? Ele não ouve e, portanto, não assimila nada pelos seus ouvidos. A única guesa (LP), destacam que forma do surdo aprender as palavras é pelos olhos, mas os olhos não distin- guem os sons! Como ele não conhece os sons das palavras, não sabe como [...] observamos a dificuldade que os mesmos têm de compreensão da LP ao se depararem com os enunciados escritos em ambientes sociais como cinema, es- pronunciá-las. As palavras que existem em sua mente são aquelas poucas cola, lanchonete, ruas, comércio, dentre outros. Em diversas ocasiões, eles nos que ele visualizou em sua forma escrita (se ele já foi alfabetizado). questionam por que a escrita da LP no cotidiano é tão diferente dos livros pelos Ele precisaria que alguém explicasse visualmente o significado de cada quais são alfabetizados na LS (DUARTE; PADILHA, 2012, p. 316). palavra e, como isso é impossível, o vocabulário (em palavras escritas) do surdo é muito limitado. Isso ocorre pelo simples fato de que o ouvinte aprende pelo canal au- Em outras palavras, para uma pessoa ouvinte, ocorre mentalmente a ditivo relacionando as palavras aos fonemas apresentados a ele. O surdo "visualização" da palavra escrita e sua associação com o som que as sílabas aprende por meio do canal visual e, portanto, precisa se apoiar na imagem isoladas e agora reunidas representam. Ao reler a palavra, imagina-se men- da palavra, seu sinal e seu significado, não nos fonemas: "[...] o primeiro talmente o som e seu significado. Se a pessoa entrar em contato com a pa- aspecto a considerar é que as línguas de sinais utilizam a modalidade visual lavra em outra ocasião lendo-a novamente, ela fará a decodificação através espacial, que se distingue da modalidade oral-auditiva, utilizada pelas lín- de uma rápida e sequencial montagem silábica, mentalizará o som em seu guas orais" (SALLES, 2004, p. 78). inconsciente e associará a palavra ao que o "som mental" quer dizer. Laborit (1994, p. 71), ao descrever suas dificuldades com a escrita, ressalta que: Com o surdo não há essa associação, pois ele tenta associar o sinal a uma imagem. Essa transcodificação associativa palavra-som-significado não existe Uma criança ouvinte pode comparar a palavra escrita com o som que escuta, depois com o sentido. Eu tinha que reescrever vinte vezes a palavras Será que em sua mente. Portanto, como não podemos nos comunicar oralmente com eles, havia entendido, depois daquilo, o significado de mamãe? Era minha própria mãe que mas sim por meio de sinais visuais, se fizermos uma sinalização de uma palavra via diante de mim? Ou era uma outra coisa? Será que isso corresponde a uma mesa? que ele não está acostumado a usar e pedirmos para que a escreva, ele terá muita dificuldade, erros de grafia ou poderá até mesmo não saber escrever. Uma pala- Muitas vezes, achamos que basta escrever uma palavra no papel para que vra escrita para o surdo nada mais é do que um simples desenho e ele não con- surdo entenda o que se está falando. Isso se deve ao fato de que as pessoas ouvin- segue associá-la a nenhum tipo de som pelo simples fato de nunca tê-la ouvido. tes ou tidas como "normais" aprendem ouvindo e associam o som ao objeto Por isso, a ideia pré-concebida de que bastaria sinalizarmos uma pala- coisa de que se fala. Assim, por exemplo, basta falarmos a palavra "cavalo" para vra letra por letra (por meio do alfabeto manual) para que um surdo a com- imediatamente vir à mente a imagem do animal. Também associamos a palavra preenda é uma ilusão. silabicamente à imagem, o que aprendemos a fazer desde pequenos. O surdo tem em sua mente apenas o objeto, ou seja, a imagem das coisas [...] na apreensão da segunda língua, a Língua Portuguesa, pelos surdos, os sig- que vê, e por isso busca relacionar essa imagem ao sinal e a palavras para gerar nos como produtos ideológicos consubstanciados em língua escrita, em "grafia", ainda não foram internalizados, ou seja, não houve, pois não houve o uso, uma130 LIBRAS: aprender está em suas mãos 2 Edição 131 incorporação satisfatória das configurações e representações gráficas dessa Veja outro exemplo: "EU IR CASA" (Libras). "Eu irei para casa" (Por- (DUARTE; PADILHA, 2012, p. 315-316). Por isso. ao escrever, é perfeitamente natural que o surdo não faça Então, na hora de escrever, o surdo imagina todos os sinais que ele precisa- uso dos conectivos e, quando tenta usá-los, é possível que os coloque em ria usar para se expressar, mas muitos sinais ele não conseguirá representar lugares diferentes dentro da frase. gra- ficamente, principalmente aqueles com que ele não tem contato usual No Capitulo 5, você viu que, em Libras, o que determina a marcação de Isso sempre ocasiona textos curtos e bastante limitados. Fica fácil imaginarmos tempo é um sinal auxiliar de advérbio que acompanha o verbo e que, portan- essa situação se fizermos a analogia de que o surdo não vê uma palavra, mas sim to, os sinais dos verbos não recebem afixos anexados à raiz como na Língua uma espécie de desenho. Portuguesa. Por isso, a maioria dos surdos escreve os verbos no infinito (ter- surdo também teria que saber todo o processo gramatical, estrutural minados em ar, er, ir). e de que a Língua Portuguesa exige, o que transforma a tarefa Fernandes (2007, p. 15) explica que "a flexão de tempo, modo e pes- de escrever um desafio dificílimo para quem nunca ouviu. soa ocorrem por mecanismos discursivos contextuais e espaciais. A fle- O vocabulário que um ouvinte tem em palavras o surdo tem em sinais, xão verbal é um conteúdo de grande dificuldade para os surdos. Há uma mas ainda não é possível escrever em sinais, pois o Sign Writing (escrita em tendência de que os verbos sejam escritos na forma infinitiva, ou com sinais) ainda está em estudo. Conforme descrito anteriormente, uma criança ouvinte aprende, desde flexões inadequadas". muito pequena, por meio do canal auditivo e pela percepção visual, a identi- Ainda no Capítulo 5, vimos que "ESTUDAR" é um verbo que, na Li- ficar os sons de sua língua. Por isso, quando vai para a escola, seu vocabulá- bras, não há concordância, visto que o sinal é sempre o mesmo, independen- rio é amplo e suficiente para produzir textos. Apenas é preciso ensiná-la a ler te de tempo, número e pessoa."[...] na Língua de Sinais não há desinências e a escrever as palavras. Ela já sabe que uma palavra denomina certo objeto verbais como na Língua Portuguesa. Entendemos que o surdo precisa 'ver' fazendo a relação do significado com o significante, apenas não conhece para aprender a reconhecer e incorporar a estrutura verbal em sua materiali- "código" escrito em forma de letras. zação linguística" (DUARTE; PADILHA, 2012, p. 318). O surdo grava todas as imagens que vê, mas não ouve, portanto não Vejamos, agora, alguns exemplos de frases em Português e em Libras sabe as denominações. Quando vai para escola, não adianta apenas mostrar- com o verbo "ESTUDAR": -lhe o sinal ou a escrita sem lhe apresentar o objeto correspondente e vice- a) Em Libras: EU ESTUDAR MATEMÁTICA VOCÊ ES- -versa. Por isso não se obtém resultado satisfatório somente escrevendo uma TUDAR GEOGRAFIA. palavra para o surdo, pois ele tem que associá-la a um sinal que conheça. Em Português: "Amanhã eu estudarei matemática e você estudará geografia". De acordo com (PERLIN, 2010, p. 510): b) Em Libras: NÓS ESTUDAR FUTURO. Em Português: "Nós estudaremos". Um surdo não vai conseguir utilizar-se de signos ouvintes como, por exemplo, a epistemologia de uma palavra. Ele somente pode entendê-la até certo ponto, pois Os autores Duarte e Padilha (2012) salientam que é preciso oferecer a entende dentro de signos visuais. mesmo acontece com a pronúncia do som aos surdos a oportunidade de valorizar a Língua Portuguesa assim como de palavras. Não adianta insistir neste ponto. Se dissermos que a escrita é do ou- se valoriza a Língua de Sinais, oferecendo aos surdos recursos de aprender vinte e o surdo aprende a escrita, estaríamos cometendo O pensamento visual da escrita é um dos aspectos de que o surdo se serve constantemente, muito como qualquer outro estudante aprenderia uma segunda língua. Para isso, o embora, hoje, os surdos evidenciem esforços demasiados em ler e escrever. A surdo deve ser colocado em situações linguísticas de forma que necessite da escrita do surdo não vai se aproximar da escrita ouvinte. língua escrita. "Precisamos transpor estas ricas informações estruturais da LS para o papel sem 'distorcer' as estruturas da LP. E vice-versa, pensar na Você viu que em Libras não há o uso de conectivos e a estrutura frasal representatividade da modalidade escrita de LP, com diferentes elementos obedece a regras e estruturas diferentes da Língua Portuguesa. Vamos re- não existentes em LS" (DUARTE; PADILHA, 2012, p. 319). lembrar um exemplo citado anteriormente: uma pessoa surda ao perguntar: Portanto, o surdo, ao escrever, encontra sérias dificuldades em empregar "quantos anos você tem?" ela sinalizará apenas: "IDADE ou sim- elementos que fazem parte da gramática da Língua Portuguesa e, na maio- plesmente "IDADE" mais a expressão facial interrogativa. ria das vezes, ele tende a usar a estrutura da língua que fala, ou seja, da lín-132 LIBRAS: aprender está em suas mãos - 2 Edição 133 gua de sinais. Isso não significa que o surdo nunca fará uso destes Segundo Oliveira (2012), as crianças surdas podem levar até seis anos, em seus textos, o que ocorrerá é que eles poderão estar mal empregados. média, para serem alfabetizadas e essa alfabetização não é suficiente para Assim, cabe ao professor estar consciente disso e ter um olhar diferen- que elas aprendam o Português fluentemente. Os próprios surdos falam do seu ciado ao avaliar a escrita do surdo; e o Decreto 5626/2005, conforme dito sofrimento em aprender a ler e escrever em uma língua que não podem ouvir. acima, assegura este direito aos alunos surdos. Outro grande obstáculo para o aluno surdo é a alta complexidade da Língua A fim de refletirmos sobre todas as dificuldades enfrentadas pelos surdos Portuguesa. Aprender o bom português, conforme dito acima, é uma dificuldade até em relação à escrita, vejamos um depoimento narrado por uma pessoa surda: mesmo para os alunos ouvintes; para o aluno surdo que, muitas vezes, mal domina a Libras torna-se mais complicado ainda, além do mais "a língua muitas vezes é É tão difícil escrever. Para fazê-lo meu esforço tem de ser num clima de despender ensinada por meio de atividades mecânicas e repetitivas, como se fosse um código energias o suficiente demasiadas. Escrevo numa língua que não é minha. Na escola pronto e acabado" (GUARINELLO; MASSI; BERBERIAN, 2007, p. 207). fiz todo esforço para entender o significado das palavras usando o A excelência do aprendizado só será alcançada com bons professores e São palavras soltas elas continuam soltas. Quando se trata de pô-las no papel, bons intérpretes, e a linguagem truncada do aluno surdo deverá ser aos pou- de escrever meus pensamentos, eles são marcados por um silêncio profundo. Eu modificada ou adaptada ao português padrão dependendo da capacidade preciso decodificar o meu pensamento visual com palavras em português que têm de aprendizado de cada um. signos falados. Muito há que é difícil ser traduzido, pode ser apenas uma síntese e aproximada. Tudo parece um silêncio quando se trata da escrita em Os elogios e a aceitação da língua de sinais são estímulos extremamente il uma tarefa difícil, dificílima. Esse silêncio é a mudança? Sim é. Fazer frases em edificantes e que podem acelerar o processo de aprendizagem destes alunos. 2 português não é o mesmo que fazê-las em Libras. Eu penso em Libras, na hora de Para entendermos a estruturação da escrita produzida pelos alunos sur- a escrever em português eu não treinei o suficiente para juntar numa frase todas as dos, suas dificuldades e seu modo singular de compreendê-la e expressá-la o palavras soltas. Agora no momento de escrever, eu escrevo diferente. Quando eu por meio da escrita, vamos observar e analisar o texto abaixo, escrito por uma n leio o que escrevo, parece que não tem uma coisa normal como a escrita ouvinte, e falta uma coisa, não sei o quê. Não sei se o que escrevo são palavras minhas, elas pessoa ouvinte que tenta escrever em uma língua que não é a sua língua nativa. são exteriores, não fazem parte do meu contexto. Parecem não cair bem na frase, Este e-mail foi enviado por um norte-americano (ouvinte) à sua parece que a escrita do pensamento não ditar o que quero dizer. Vezes sem conta cunhada brasileira: parece-me dizer coisas sem sentido. Fonte: (PERLIN, 2010, p. 57). Eu carro vende para $1600.00 ou posso para um pouco menos se preciso tal- Stumpf (2008) destaca algumas alternativas tecnológicas, disponíveis vez $1500 um pouco menos para familia. Eu gosto esse computador muinto, eu atualmente, que podem auxiliar na comunicação e no processo de ensino- compra uma pra me tambem and e otimo!! Que voces pensa com esse notebook? Pode vende para esse preso? Sabe alguma pessoa intersante? Escreve para me por S -aprendizagem dos alunos surdos, tais como vídeos, DVDs, internet, blog, e- favor. tem outro cam para computador paricedo do que o cam eu compra e -mail e outros. Estes se tornaram ferramentas pedagógicas importantes no pro- para Adriano. quanto voces pense eu possa venda pra? Um abraso para todo a cesso de comunicação escrita ou visual e interação social dos sujeitos surdos. mundo...I Ron. Fonte: Fernandes (2007, p. 9). e A autora salienta que o que acontece na prática ainda está aquém de se atender às reais necessidades dos alunos surdos, pois as dinâmicas educativas na Ao ler esse e-mail, pode-se identificar uma singularidade: por ser ame- sala de aula estão focalizadas na língua oral e na escrita, e os alunos surdos e ou- ricano e usuário da língua inglesa, ele está tentando escrever em uma língua vintes ainda são avaliados por meio dos mesmos critérios, não respeitando, desta que não é a sua. A primeira língua ou a língua 1 (L1) do Ron é o inglês e ele forma, a diferença linguística do surdo assegurada pelo Decreto 5626/2005. escreveu o e-mail utilizando a sua segunda língua ou a língua 2 (L2). a A pessoa que não domina o inglês e tenta produzir um texto certamente o De acordo com Fernandes (2007, p. 17): colocará vestígios da sua L1 no texto: a estrutura, um vocabulário etc., con- Colocar em prática critérios diferenciados de avaliação na escola significa reco- forme fez o Ron em seu texto. nhecer e respeitar a diferença linguística dos alunos surdos e evitar que ocorram olhar Com o surdo, portanto, não é diferente, pois, conforme acima dito, ele atos arbitrários de discriminação e marginalização no contexto escolar. Um con- fala em uma língua e escreve em outra. Quando se trata de língua, é impor- diferenciado nas produções escritas de alunos surdos é ponto de partida para cretizar, na prática, o diálogo com as diferenças, respeitando as possibilidades tante lembrar que os surdos são praticamente estrangeiros em seu próprio limitações de seu aluno, para valorização de sua identidade surda. país. Por isso, ao inserir-se em um meio escolar, ele encontra inúmeras difi- culdades, tanto socialmente como em relação aos conteúdos.134 aprender está em suas mãos 2 Edição 135 Veja agora um texto produzido por um grupo de alunos surdos em seu discurso que os surdos são excelentes copistas. "Apreender uma es- ano do Ensino Médio de um colégio da rede pública de ensino de uma cidade crita sem apreender as estruturas da língua como código, mas também en- do interior do Paraná. Este texto foi produzido para uma das edições de um quanto língua em uso, gera, no meio escolar, na maioria das vezes, não uma jornal, criado por uma professora de Língua Portuguesa. O tema desta edição produção escrita em LP, mas apenas apenas cópia" (DUARTE; era "Inclusão" e envolvia toda a turma (surdos e ouvintes). PADILHA, 2012, p. 317). Estes alunos foram alfabetizados por meio da Metodologia Para que um surdo consiga chegar à fase de elaborar seu próprio texto, gue e foram acompanhados por intérprete de Libras durante todo pro- com suas opiniões e autonomia, é primordial que ele já tenha mergulhado no cesso de escolarização. universo da língua de sinais, sua língua materna. Assim, mesmo não sabendo código escrito das palavras, tem o vocabulário em sinais, e, com auxílio do SURDOS X professor, pode aprender a escrever e colocar suas ideias no papel. Por isso, a aquisição da linguagem escrita pelos surdos deve ser feita Nós surdos, R, E, R, L e V começar estudar com ouvintes série. Nós perceber que nenhum colega tem preconceito. Nós surdos sempre fazer trabalho, atividade por meio da interação de uma pessoa que domine a língua do aluno surdo, junto com ouvintes. Professores e colegas sempre respeitar língua libras. Também podendo ser um tradutor/intérprete de ou o próprio profes- muitos colegas aprender libras. Nós surdos ter orgulho porque nenhum reprovar sor (FERNANDES, 2002). nenhuma matéria, porque felizmente, nós sempre acompanhados intérprete E. A linguagem truncada do aluno surdo deverá ser aos poucos modificada Nós sempre aprender verdadeiramente conteúdos. Também nós participar aulas. Professores reconhecer diferente língua por isso avaliação diferente, porque tem ou adaptada ao português padrão dependendo da capacidade de aprendizado livre decreto 5.626/2002, explica surdos precisa prova diferente. Nós opinião de cada um. Os elogios e a aceitação da língua de sinais são estímulos que inclusão preciso ser sempre com ouvintes, mas preciso presença intérpretes, por- podem acelerar o processo de aprendizagem destes alunos. que também é direito pessoas surdas. Professores sempre acreditar capacidade surdos, por isso muito valor surdos. Nós, Uma criança surda pode aprender satisfatoriamente o português se for surdos, sempre viajar jogos, sempre ganhar medalhas. Professores felizes resultado. corretamente estimulada e não repreendida de maneira ofensiva. O professor Tem professores todo ano escolher nossa turma porque tem surdos. Eles gostam deve ter muita cautela e evitar rabiscar de vermelho os supostos erros da ensinar surdos, mas tem professores nenhum escolher turma com surdos, porque criança. Sempre levar em conta que está se tratando de um contexto bilíngue medo? Não sabe porque. (R, E, R, L e V) e resquícios da língua original do surdo sempre aparecerão. A troca de letras também é algo constante entre alunos surdos. É Nesse texto, é possível verificar muitos elementos gramaticais e estrutu- importante entender que não há palavras na mente da pessoa surda, apenas rais específicos da Libras e que foram explicados no decorrer do livro, como E, muitas vezes, o aluno surdo nunca teve contato visual com por exemplo: concordância, verbos no infinitivo, ausência de conectivos etc. determinado vocábulo escrito, ou o visualizou poucas vezes e, portanto, na É importante ressaltar que esse texto foi produzido a partir de uma situ- hora de escrever, não lembra a ordem correta das letras e não tem o reforço ação significativa aos alunos, pois o tema "Inclusão" foi discutido pela turma da fala como os ouvintes. Segundo Fernandes (2007) "Por memorizar as pa- com a mediação da professora da disciplina. Assim, os surdos puderam ex- lavras na globalidade, podem ocorrer trocas nas posições das letras" por suas opiniões a respeito da inclusão da qual fazem parte. Conforme visto, a construção de uma frase em Libras obedece a regras Desta forma, os léxicos, as frases e o texto final tinham para os surdos próprias que refletem diretamente na forma que a pessoa surda processa suas um verdadeiro significado: "aprender uma língua através de suas unidades ideias, com base em sua percepção visoespacial. O que ocorre é que, na básicas, de forma estanque e descontextualizada, não leva a um aprendizado hora de escrever, ele precisa seguir a ordem da Língua Portuguesa e não da satisfatório, ou mesmo leva ao fracasso, em termos escolares" (DUARTE; Com isso, ocorre um estranhamento para o aluno, fazendo com que PADILHA, 2012, p. 311). 0 processo de escrever e produzir textos se torne uma tarefa complicada, O texto escrito pelo próprio surdo é a melhor forma de verificar seu difícil e completamente aprendizado da Língua Portuguesa e sua estrutura. Muitos professores têm Assim, caso o professor não entenda o que ele quis dizer, deve pergun- tar ao aluno e mostrar que está interessado em entendê-lo. 15 Acesso em: 01 set. 2012.