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Organizadoras: Andrea Maila Voss Kominek | Ana Crhistina Vanali UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ Everton Ricardi Lozano da Silva Vanessa Ishikawa Rasoto Thiago de Sousa Costa Francielly Orlandini Capristo Ferraro EDITORA DA UTFPR Giani Carla Ito Paulla Rosâne dos Santos Coelho Pereira Paulla Rosâne dos Santos Coelho Pereira Marco Tulio Braga de Moraes Tatiana Campos da Hora Soares CONSELHO EDITORIAL Danyel Scheidegger Soboll Elisabete Hiromi Hashimoto Elizabeth Mie Hashimoto Marcelo Gonçalves Trentin Marcos Hidemi de Lima Maria Lucia Figueiredo Gomes de Meza Pedro Valério Dutra de Moraes Sandra Gomes de Oliveira Reis Sara Tatiana Moreira Sergio Paes de Barros Silvana Stremel Adriano Lopes Romero Anna Silvia Penteado Setti da Rocha Antonio Gonçalves de Oliveira Fabiana Costa de Araujo Schutz Kelyn Schenatto Leticia Gomes Teofilo da Silva Maria Giovana Binder Pagnoncelli Meggie Rosar Fornazari Patricia Rossi Rogerio Caetano de Almeida Rosangela Araujo Xavier Fuji As opiniões e os conteúdos expressos neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, a opinião do corpo editorial. Reitor Vice-Reitora Diretor de Comunicação Diretora-Adjunta de Com. Coordenadora-Geral Coordenadora-Adjunta Assessora Editorial Coordenação de Design Coordenação de Revisão e Normalização Titulares Suplentes Organizadoras: Andrea Maila Voss Kominek | Ana Crhistina Vanali 2025 Arthur Macedo Ramiro de Assis, Diogo Fukushima e Vítor Neves Silva Maria Helena Alves Pereira, Diogo Fukushima e Vítor Neves Silva Amanda Baroni, Maike Ferreira Piazzoli, Maria Eduarda Maciel da Rosa Eufrasio, Maria Luisa Manrique e Simon Lainequer Kohler Anna Morais, Maria Eduarda Pamponet, Maike Ferreira Piazzoli, Maria Luisa Manrique, Simon Lainequer Kohler e Tatiana Campos da Hora Soares Design Capa Revisão Normalização Editora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição- NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional. Esta licença permite o download e o compartilhamento da obra desde que sejam atribuídos créditos ao(s) autor(es), sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. © 2025 CC BY-NC-ND EDUTFPR Editora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná Av. Sete de Setembro, 3165 80230-901 Curitiba PR utfpr.edu.br/editora editora.utfpr.edu.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Presença africana [recurso eletrônico] : heranças, memórias e apagamentos / Organização: Andrea Maila Voss Kominek e Ana Crhistina Vanali. -- Curitiba, PR : EDUTFPR, 2025. 1 arquivo texto (236 p.): il. PDF; 25,8MB. Modo de acesso: World Wide Web. Disponível em formato PDF. Título retirado da tela de abertura (visualizado em 18 dez. 2023). eISBN 978-65-88596-25-8 Inclui bibliografias. 1. Africanos - Brasil. 2. Negros - Brasil. 3. Folclore dos negros. 4. Negros - Identidade racial. 5. Africanos - Brasil - Identidade étnica. I. Kominek, Andrea Maila Voss. II. Vanali, Ana Crhistina. III. Título. CDD: ed. 23 -- 305.896 Departamento de Bibliotecas da Universidade Tecnológica Federal do Paraná Bibliotecário: Adriano Lopes CRB-9/1429 35 13 7APRESENTAÇÃO CAPÍTULO 1 CAMINHOS PARA A EDUCAÇÃO ÉTNICO-RACIAL NA UTFPR – CAMPUS CURITIBA: UMA BREVE HISTÓRIA Andrea Maila Voss Kominek | Celso Fernando Claro de Oliveira CAPÍTULO 2 SENTIDOS DA LEI DE COTAS RACIAIS PARA UNIVERSITÁRIOS DA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL – CAMPUS CURITIBA Maria Luísa Carvalho | Maria Sara Lima Dias CAPÍTULO 3 O QUE SIGNIFICA EMANCIPAÇÃO? DIÁLOGO COM JOAQUIM NABUCO Fernando de Sá Moreira CAPÍTULO 4 JOHNNY ALF: AS INOVAÇÕES HARMÔNICAS QUE INFLUENCIARAM A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA A PARTIR DA DÉCADA DE 1950 Luiz Sergio Ribeiro da Silva SUMÁRIO 65 85 CAPÍTULO 5 SOBRE DISPERSAR NEGROS A PAULADAS E A FILOSOFIA HIGIENIZADA: A COEXISTÊNCIA ENTRE O RACISMO E A POLÍTICA EM KANT Pedro Augusto Pereira Gonçalves CAPÍTULO 6 MÚLTIPLAS LINGUAGENS, MÚLTIPLOS CORPOS, MÚLTIPLOS GÊNEROS NAS ARTES VISUAIS AFRICANAS! Megg Rayara Gomes de Oliveira CAPÍTULO 7 PRESENÇA AFRICANA NO PARANÁ: ENEDINA ALVES MARQUES Ana Crhistina Vanali CAPÍTULO 8 TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO Arilson Pereira do Vale CAPÍTULO 9 ABDIAS DO NASCIMENTO E O PAN-AFRICANISMO: APROXIMAÇÕES POLÍTICO-FILOSÓFICAS Luís Thiago Freire Dantas SOBRE OS AUTORES 151 125 183 199 213 229 7 APRESENTAÇÃO Andrea Maila Voss Kominek Ana Crhistina Vanali 8 9 O livro que você tem em mãos foi pensado e construído cole- tivamente, a partir do VI Seminário Presença Africana no Brasil1, como um espaço de discussão e reflexão. O livro tem como objetivo visibilizar uma realidade historicamente escondida e menosprezada na sociedade brasileira: suas raízes africanas. São heranças rene- gadas, memórias desbotadas e embranquecidas. Heranças que nos constroem e nos fazem ser quem somos, mesmo quando não são reconhecidas e valorizadas. Heranças que nos constituem. Desta forma, busca-se aqui contribuir para o fortalecimento da consciência negra, do respeito e da reverência a essas raízes afri- canas. Para tanto, reúne textos que discutem diversos aspectos da cultura, das tradições e dos conhecimentos de matrizes africanas. Traz, ainda, reflexões sobre questões do Brasil contemporâneo em relação às relações étnico-raciais. O primeiro capítulo faz um breve retrato dos caminhos da educa- ção étnico-racial percorridos pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Curitiba. Apresenta uma memória das ações relacionadas às questões raciais na referida instituição, em especial, no cumprimento às leis federais nº 12.711/2012 e nº 10.639/2003. No segundo capítulo é apresentada a discussão a respeito da implementação das cotas raciais na mesma universidade. A pes- quisa, realizada com alunos e alunas da UTFPR, denuncia indícios de racismo presentes em nossa sociedade. Aponta como estudantes não cotistas e parte dos cotistas sociais reproduzem o discurso hegemônico e midiatizado que nega o preconceito racial e o pro- cesso de exclusão que se perpetuou contra negros e indígenas após a abolição da escravidão, atribuindo a ausência desses grupos nas universidades à dimensão socioeconômica e à baixa qualidade da educação pública fundamental. O terceiro capítulo discute a ideia de emancipação a partir da figura de Joaquim Nabuco. Nesse contexto, apresenta-o como um pensador que discutiu a questão da emancipação dos escravizados no Brasil, partindo da ideia de que a escravidão foi uma instituição social que estruturou a sociedade brasileira como um todo. O texto 1 VI Seminário Presença Africana no Brasil realizado de 10 a 12 de maio de 2016 na UTFPR, campus Curitiba. 10 aponta, além das discussões e denúncias de Nabuco, aquilo que ele calou: as ações e os projetos emancipatórios dos negros brasileiros. Johnny Alf, homem negro e carioca, é o protagonista do quarto capítulo, que apresenta, a partir do contexto sociocultural da cidade do Rio de Janeiro, o processo de transformação da música popular brasileira a partir da década de 1950 — transformações que influen- ciaram o surgimento da Bossa Nova e provocaram uma nova forma de composição da música popular junto às gerações seguintes. Um grande nome da filosofia ocidental é tema do quinto capí- tulo: Immanuel Kant. O texto denuncia o racismo nos escritos de Kant, não como desvio ou preconceito de época, mas como parte fundamental de seu sistema filosófico. Assim, o texto analisa como Kant teria desenvolvido sua teoria moral-política a partir das defi- nições de raça. Nessa hipótese interpretativa, considera-se que a universalidade moral kantiana só poderia existir na medida em que ocorresse a exclusão de seres humanos que resistissem a uma comunidade cosmopolita. Classificada de forma depreciativa pelo olhar europeu, a arte tradi- cional africana, tema do sexto capítulo, continuaque as cotas raciais não prejudicam essa qualidade. A posição contrária fez-se presente apenas entre os não cotistas (28%), embora de forma não acentuada. Dentre os cotistas sociais (62%) e raciais (68%), a maioria concorda que não há impacto negativo do sistema de cotas na qualidade do ensino superior, como é possível observar no Gráfico 8. Em relação a essa questão, as pesquisas que compararam o desem- penho acadêmico dos universitários cotistas (sociais ou/e raciais) com os não cotistas (Garcia; Jesus, 2015; Griner et al., 2013; Mendes 54 Junior, 2014) indicam que esse desempenho varia de acordo com o curso, e que não identificaram diferenças significativas em Pedago- gia, Medicina e Química, e ainda que os cotistas têm desempenho menor em áreas como Engenharias. Ressalta-se, porém, que as pesquisas indicaram que, quando pre- sentes, as dificuldades ocorrem nos dois primeiros anos, quando há um núcleo de disciplinas básicas, desaparecendo ao longo do curso. Um aspecto recorrente, entretanto, é a menor evasão do aluno cotista racial, o que provavelmente se relaciona ao fato de persistirem ante às dificuldades, pois sabem que o ingresso por cotas pode ser uma chance única de cursar uma universidade pública. Gráfico 8 — As cotas raciais não prejudicam a qualidade do ensino superior público no país Fonte: Autoria própria. 55 Por fim, questionou-se o grupo sobre quais ações seriam neces- sárias para que as cotas raciais tenham êxito. Gráfico 9 — São necessárias ações que possibilitem a permanência dos estudantes cotistas raciais, como bolsas-auxílio para que essa política pública tenha êxito Fonte: Autoria própria. Como é possível observar no Gráfico 9, em relação à necessidade de que haja ações como a de oferta de bolsa-auxílio para que a lei de cotas raciais tenha êxito, percebeu-se que 42% dos alunos concordam totalmente com essa afirmação, de forma que a prevalência da con- cordância se fez presente em todos os grupos. O valor da bolsa-auxílio, embora pequeno (em torno de R$400,00), contribue para a manutenção financeira do estudante (gastos com transporte, moradia, alimentação, 56 materiais de estudo etc.), uma vez que os jovens cotistas raciais são igualmente cotistas sociais, ou seja, provêm das camadas populares. Considerando que as bolsas são insuficientes e seus valores são baixos, com frequência os estudantes cotistas trabalham para com- plementar a renda, o que diminui o tempo disponível para estudo extraclasse ou faz com que tenham que cursar menos disciplinas do que o número determinado por período. Resta investigar em estudos futuros a relação entre trabalho e desempenho acadêmico dos cotistas, tendo em consideração que se costuma inferir que, quando há dificuldades de desempenho, esta se relaciona a defi- ciências na formação básica. Gráfico 10 — O êxito das cotas raciais requer ações pedagógicas que atenuem eventuais déficits na formação escolar anterior do aluno cotista racial Fonte: Autoria própria. 57 No que se refere a ações pedagógicas para atenuar eventuais déficits decorrentes da base escolar dos alunos cotistas raciais, 36% concordam plenamente, prevalecendo a concordância entre todos os grupos (não cotistas 34% e cotistas sociais 35%), com maior índice entre os cotistas raciais (48%) (Gráfico 10). Considera-se que cabe à universidade, independentemente da forma do ingresso do aluno, oferecer ações como monitorias ou disci- plinas optativas, e processos que auxiliem os estudantes com dificul- dade em alguma disciplina, não se pode ter uma visão reducionista a respeito das dificuldades de aprendizagem, apontando como única causa as deficiências do próprio estudante ou de sua formação anterior. Conforme Dias et al. (2014), a linguagem é indispensável à formação de conceitos, a qual começa na infância e prossegue desenvolvendo-se até a adolescência; mas este processo não é natural, ele é significativamente influenciado por aspectos sociais, como, por exemplo, a escolarização. Dessa forma, podemos considerar que o desenvolvimento de conceitos não é estático e sem dinâmica ocorrendo durante o período escolar e o desenvolvimento de novas aprendizagens. Ainda é necessário realizar um trabalho junto ao corpo docente para a implementação de ações que promovam uma maior aprendi- zagem e que considerem variáveis como a situação do aluno-traba- lhador. Isso se faz imprescindível, uma vez que na própria instituição há docentes contrários às cotas e ao Sistema de Seleção Unificada (SISU), sob o argumento de que este teria impactado negativamente a qualidade do ensino. Cabe observar que, anteriormente, no sistema de vestibular, muitos dos universitários eram egressos do ensino médio da própria instituição. Assim, já estavam previamente preparados não apenas para fazer o vestibular, mas também para acompanhar as disciplinas do curso superior. Quanto ao apoio psicossocial, houve uma pulverização dos dados em todos os grupos, e o resultado geral indicou que 27% discordam da necessidade da oferta desse apoio e 22% concordam totalmente. Chama a atenção o número significativo (23%) dos que afirmam não ter opinião formada sobre o assunto (Gráfico 11). Parece prevalecer, portanto, que o apoio ao cotista deveria se restringir a questões de auxílio financeiro e pedagógico. 58 Gráfico 11 — São necessárias ações de acompanhamento psicossocial do aluno cotista racial Fonte: Autoria própria. Destaca-se, entretanto, que, em contato com alunos cotistas raciais, percebeu-se a necessidade de um suporte psicossocial, prefe- rencialmente em grupo, uma vez que se sentem, por vezes, isolados dentro da universidade e pressionados a negar sua identidade étnica para sentirem-se integrados. Porém, consideramos que esse apoio não necessita ser institu- cionalizado, e que seria até mesmo mais efetivo se viesse a partir do incentivo à formação de coletivos organizados pelos próprios alunos cotistas, ou, no caso em questão, negros (independentemente de serem cotistas ou não), uma vez que o preconceito os atinge pela 59 questão da cor da pele. Atualmente, os alunos estão organizando a formação desse coletivo. Gráfico 12 — É preciso realizar campanhas de conscientização e sensibilização da comunidade (docentes e discentes) para que sejam receptivos aos cotistas raciais Fonte: Autoria própria. O Gráfico 12 aponta a necessidade de realização de campanhas de conscientização e sensibilização da comunidade para que haja maior receptividade aos cotistas raciais. A concordância com essa necessi- dade foi registrada por 36% dos pesquisados, mas esse resultado foi acentuado entre os cotistas raciais (52%), sendo pulverizado entre os não cotistas (28% que discordam totalmente e 26% que concordam totalmente) e cotistas sociais (24% que discordam totalmente e 31% 60 que concordam totalmente). O NEABI da UTFPR, campus Curitiba, pretende realizar ações nesse sentido. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os resultados do estudo indicaram que o apoio à Lei de Cotas refere-se às cotas sociais, havendo uma posição contrária às cotas raciais, principalmente entre os alunos não cotistas. Aqueles que ingressaram via cotas sociais costumam ter uma percepção que oscila entre apoio e discordância em relação às cotas raciais. Já os cotistas raciais, atendidos pela lei, demonstram uma percepção majo- ritariamente positiva. Tiveram maiores incidências as percepções contrárias às cotas raciais e seus objetivos como a de que o foco deve ser a qualidade do ensino público fundamental. Os resultados indicam a reprodução do discurso contrário às cotas raciais nas universidades federais, o qual defende que o foco deve ser a qualidade da educação e que as cotas não reduzem o racismo. Tal discurso pauta-se claramente no mito da democracia racial e na tentativa de justificar a ausência de negros e indígenas nas universidades a partir de um viésmeramente socioeconômico, desconsiderando a dimensão étnica. A aplicação da Lei de Cotas tem promovido o ingresso do estu- dante negro na universidade, mas conseguirá ele sobreviver a esse ambiente hostil? Resistir ao sofrimento psíquico gerado pela negação de sua negritude para ser aceito e pelo embate cotidiano a situações discriminatórias? Serão as cotas raciais suficientes para combater o racismo e para que os estudantes possam reconhecer-se como negros e não apenas cotistas? O estudo demonstra que a prevalência de uma postura contrária às cotas raciais requer que o NEABI, em conjunto com o coletivo de alunos negros da universidade, empreendam ações para o avanço do combate ao racismo na institução. Tais ações vão além da apli- cação da Lei de Cotas e passam pelo cumprimento da Lei nº 10.639 (Brasil, 2003) e da Resolução nº 1 (Brasil, 2004), oferta de bolsa-auxílio e debate público da questão racial na universidade. 61 Referências BASSETTE, F. Cotas na UnB: gêmeo idêntico é barrado. G1, São Paulo, 2007. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Vestibu- lar/0,,MUL43786-5604-619,00.html. Acesso em: 13 fev. 2016. BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. 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DIÁLOGO COM JOAQUIM NABUCO Fernando de Sá Moreira Capítulo 3 66 67 INTRODUÇÃO Joaquim Nabuco (1849-1910) foi um importante intelectual brasileiro que se engajou na causa abolicionista por volta da década de 1880, ou seja, no período ligeiramente anterior à abolição oficial da escravatura no Brasil.1 Se nos propomos a pensar a condição do negro no Brasil, nos importa refletir sobre o pensamento de Joaquim Nabuco, porque ele nos auxilia a enxergar alguns elementos importantes e marcantes da presença africana em terras brasileiras. Mais especificamente, através de Nabuco podemos nos acercar de um dos momentos mais marcantes da condição negra no Brasil: os mais de três séculos de cativeiro e trabalho forçado de milhões de negros. Por meio dele, podemos também melhorar nossa compreensão de algumas das lutas abolicionistas que culminaram no reconhecimento oficial de todos os negros como membros permanentes e de direito do povo brasileiro. No fundo, esta não é uma reflexão sobre Joaquim Nabuco. É uma reflexão com — e eventualmente contra — Joaquim Nabuco. O tópico central é, na verdade, a emancipação. Nosso abolicionista nos serve aqui, antes de tudo como uma ferramenta de pensamento. Ao dialogar com Nabuco, esperamos compreender parte do processo de emanci- pação dos negros no Brasil. Esperamos também compreender algo do conceito e dos processos de emancipação que podem conduzir à transformação social dos diversos grupos quese encontram oprimidos em nossa sociedade. Pensar com Nabuco significa, para nós, pensar o nosso próprio tempo. Em última análise, é nosso objetivo dizer algo por meio do diálogo com ele. Trata-se de buscar a inserção no debate sobre os projetos emancipatórios possíveis2 e, assim, buscar nossa própria emancipação como intelectuais negros brasileiros. 1 Como se sabe, a escravidão foi abolida pela Lei nº 3.353 (Brasil, 1888), mais conhe- cida como Lei Áurea. 2 Importa ter sempre em vista que há múltiplos projetos emancipatórios possíveis. Emancipação não é uma palavra cujo sentido pode ser satisfeito com uma expres- são ou ação simples. Se investigarmos os diversos autores que propõem projetos emancipatórios, perceberemos que, muito frequentemente, os projetos emancipa- tórios são incrivelmente distintos entre si. O cenário não é outro no caso da escra- vidão brasileira. Os diversos propositores da emancipação dos escravos adotaram discursos e ações bastante conflitantes entre si. 68 NABUCO E A EMANCIPAÇÃO DOS ESCRAVIZADOS Como se sabe, houve no Brasil um longo e complexo processo de escravização de populações negras africanas e seus descendentes, que só muito recentemente foi encerrado. Somos forçados a admitir que nosso país é herdeiro de uma lógica escravocrata profunda; mais ainda, somos forçados a admitir que, tomando como ponto de partida o processo colonial português, aproximadamente três quartos da história brasileira são marcados pela escravidão, associada a justificativas étnico-raciais. Mesmo com o advento da independência em 1822, no tocante à escravidão, a situação permaneceu a mesma. A emancipação política do Brasil frente ao domínio formal de Portugal não significou uma emancipação efetiva para uma boa parcela dos seres humanos que aqui viviam. Seriam necessárias ainda, mais de seis décadas para que o Brasil se tornasse um país povoado exclusivamente de seres humanos legalmente livres.3 Na década de 1880, nossa nação contava com cerca de 12 milhões de habitantes, dos quais algo entre 1 e 1,5 milhão era composto por negros escravizados.4 Então, a abolição da escravatura significava que em torno de 10% a 15% da população brasileira passava a fazer parte oficialmente do povo brasileiro5. Além disso, grande parte da população livre nos anos ligeiramente anteriores à abolição também era de negros ou mestiços libertos e seus descendentes. 3 Infelizmente sabemos que houve e, lamentavelmente, ainda há casos de regimes de trabalho análogos à escravidão no Brasil e em outros lugares do mundo. Esse é um primeiro aspecto da emancipação que deve ser observado: ela se dá em múlti- plas esferas. Ela pode ser política, social, econômica, jurídica, psicológica. Obter uma emancipação em um desses aspectos não significa necessariamente estar libertado em todos os aspectos. Se, por um lado, desde 1888 não há legalmente escravos no Brasil, por outro lado, há diversos indivíduos que ainda carecem de viver factual- mente libertos de práticas de trabalho abusivas e exploratórias. 4 As estimativas são de Nabuco (1949). Ele considerava também que era muito pro- vável que grande parte desses indivíduos se encontrassem ilegalmente na condição de escravos. Por exemplo, muitos negros foram traficados ao Brasil após a proibição e repressão do tráfico negreiro pela Lei de 7 de novembro de 1831 ou Lei Feijó (Brasil, 1831) e pela Lei nº 581 ou Lei Eusébio de Queirós (Brasil, 1850). Lamentavelmente, os governos no Brasil foram bastante condescendentes com a existência da escravidão ilegal no século XIX. 5 Empregamos aqui uma diferenciação circunstancial entre população e povo. Con- sideramos como parte da população brasileira quaisquer seres humanos que habita- vam o território brasileiro no momento em questão. Contudo, fazer parte do povo bra- sileiro significa que o indivíduo não é social e juridicamente visto meramente como um habitante do território, mas como um indivíduo que pertence integralmente à nação dos brasileiros, gozando de direitos e deveres iguais aos de seus concidadãos. 69 Em 1888, a escravidão tornou-se oficialmente ilegal no país. Não obstante, é certo que não havia unanimidade quanto à abolição. Alguns defendiam que não existia necessidade dessa libertação. Assim, embora houvesse apoio ao fim do regime de trabalho escravo no país, a execução desse ato gerou muito descontentamento, sobretudo nos grupos sociais que mais se beneficiavam da exis- tência de escravizados. Houve, por exemplo, quem defendesse que a escravidão brasileira era um regime de trabalho menos cruel do que o trabalho livre do operariado europeu, num discurso que desencadeia reminiscências ao mito da democracia racial brasileira. Nesse contexto, Nabuco (1949, p. 331)6 defende-se da acusação de antipatriotismo que sofreu ao denunciar na Europa as torpezas do trabalho escravo no Brasil: Eu sei que há muito quem se acredite mais patriota do que eu porque enquanto dissipam em Paris fortunas re- presentadas por escravos ou calam-se sôbre as nossas instituições ou descrevem o Brasil como o paraíso dos escravos e a escravidão como um estado melhor do que o proletariado europeu. Do ponto de vista de Nabuco (1949), ele serve melhor ao país ao denunciar suas mazelas, e, ao mesmo tempo, mostrar àqueles que ele chama de “demais povos civilizados” que existe no Brasil um forte movimento contrário, uma forte consciência da necessidade de mudan- ças. A criação de uma imagem falsamente positiva das condições de vida e trabalho dos escravizados apenas perpetuaria os problemas nacionais em benefício de uma pequena classe privilegiada. Importa ter em vista também que a promulgação da abolição não derivou direta e unicamente de um processo interno de reflexão da classe política brasileira. A lei que dava termo aos trabalhos forçados em nossas terras foi o resultado de múltiplos fatores, dentre os quais 6 Nossa principal fonte teórica são os textos publicados no volume 7 das obras com- pletas de Joaquim Nabuco, editadas pelo Instituto Progresso Editorial. É preciso atentar que, embora a publicação de nossa edição seja de 1949, os próprios textos vieram a público entre 1883 e 1885, ou seja, em plena campanha abolicionista. 70 se podem destacar as pressões externas, advindas principalmente da Inglaterra, e também os movimentos populares de teor abolicionista. A própria Inglaterra passou por um longo processo de discussão e disputas até decidir-se pela repressão ao tráfico negreiro. Conforme relata o filósofo ganês Appiah (2012), um dos elementos centrais dessa nova posição foi uma mudança nos códigos de honra locais. Algo semelhante acontece nas argumentações de Nabuco (2000): parte de suas argumentações, como na citação precedente, procuram explorar o caráter internacionalmente vergonhoso e desonroso da existência de escravidão no império brasileiro. É evidente, todavia, que o aspecto moral ou a honra internacional das nações não foram os únicos fatores envolvidos no processo da abolição. Desempenharam papéis essenciais também fatores econômicos, sociais, políticos etc. Nabuco foi um intelectual que tentou construir pontes entre os movimentos abolicionistas e a classe política. Ele deu, sem dúvida, uma contribuição inestimável para isso ao atuar no Parlamento Brasileiro como deputado pela Província de Pernambuco. Todavia, é importante notar que não apenas a classe política se dividia em diversos grupos distintos, mas também que os movimentos aboli- cionistas não formavam um monólito. Existiam diferentes projetos emancipatórios, fundamentados em diferentes razões e interesses. Por exemplo, Nabuco (1949) defendia um projeto de emancipação imediato, sem indenização aos senhores de escravos e, na medida do possível, com apoio educacional aos ex-escravizados. Enquanto isso, outros defendiam emancipações graduais e/ou indenizações aos proprietários de escravos. Dois dos capítulos mais marcantes de O abolicionismo, publicado originalmente em1883, "A causa já está vencida" e "Necessidade da abolição: perigo da demora", lançam luz precisamente sobre este ponto: havia controvérsias mesmo entre os que defendiam o fim da escravatura. O projeto emancipatório de Nabuco tem, portanto, características próprias que merecem ser exploradas mais cuidadosamente. Para o pensador brasileiro, a escravidão não era apenas um regime de trabalho socialmente injusto. Tratava-se, ao pensar e combater a escravidão, de entendê-la como uma instituição. Mais ainda, trata- va-se de entendê-la como uma das principais instituições nacionais. 71 A escravatura era, estrutural e lamentavelmente, constituinte da realidade e identidade nacional. Seus efeitos não diziam respeito apenas ao indivíduo escravizado e seu suposto proprietário.7 Eles afetavam de modo negativo, direta ou indiretamente, todas as esferas da sociedade brasileira. Do ponto de vista de Nabuco (1886), a escravidão é uma instituição homicida e inumana. Isto é, diferentemente de algumas opiniões da época, ele reconhece que a escravidão brasileira foi extremamente cruel e abusou de seres humanos em grande escala. O resultado foi a morte prematura de incontáveis negros sob seu regime. Além das mortes, devem ser contabilizadas as práticas desumanas de agres- sões e castigos corporais de todo tipo, que muitas vezes deixavam sequelas. Mais uma vez, o texto de O abolicionismo — em especial o capítulo 12, intitulado “A escravidão atual” — lança luz sobre esse problema e mais uma vez desmascara o mito de que a condição do escravo brasileiro pudesse ser de algum modo desejável. A prática da escravidão é prejudicial mesmo em ambientes não humanos: práticas semelhantes à escravidão degradariam as relações de grupo até entre os demais animais, como por exemplo as formigas (Nabuco, 1949). Em outros termos, Nabuco resiste a qualquer tentativa de naturalizar a instituição da escravidão. Não há o que justifique semelhante exploração cruel de seres humanos por seres humanos. No limite, o esforço de Nabuco procura mostrar como a escravidão não é verdadeiramente vantajosa para nenhuma das partes envol- vidas, mas, ao contrário, ela age sempre no sentido de envenenar e corromper, de modo duradouro, as instituições sociais saudáveis, seja lá qual for o contexto no qual ela se encontre. Os prejuízos do regime escravocrata só podem ser revertidos após um longo espaço de tempo. 7 Apesar de ser um defensor da propriedade privada, Nabuco considera que o direito à propriedade diz respeito antes de tudo ao próprio corpo. Isso significa que um se- nhor de escravos não tem legitimidade ao se pretender proprietário de outros seres humanos. Em outras palavras, toda pretensão de posse sobre outro ser humano é injusta. No mesmo sentido, todo intento senhoril de obter indenizações com o fim da escravidão é igualmente injusto. Emancipar os escravizados sem indenizar os supostos donos de escravos equivaleria a proteger o próprio direito de propriedade, ao invés de atacá-lo: “Quanto a mim, tenho tanto mêdo de abalar a propriedade des- truindo a escravidão quanto teria de destruir o comércio acabando com qualquer forma de pirataria” (Nabuco, 1949, p. 288). 72 A Europa, segundo Nabuco (1949), sofreria em pleno século XIX as consequências ruins da escravidão praticada ainda na Idade Média. Sua luta é, por esses motivos, a luta pela emancipação dos escra- vizados no Brasil, a qual corresponde, a seu ver, a uma luta pelo pró- prio futuro do país. Ele enxerga no fim da escravatura um modo de desencadear uma revolução política, social, econômica e moral no império. Evidentemente, trata-se de permitir que os indivíduos escra- vizados atinjam a condição plena de pessoa e cidadão e possam gozar de direitos sociais, os quais lhes foram até então negados. Trata-se, certamente, de criar condições de vida dignas para aqueles 10% a 15% de pessoas completamente marginalizadas na população brasileira. No entanto, trata-se também de modificar sensivelmente as estruturas da própria sociedade brasileira como um todo. A eman- cipação dos escravizados corresponde, portanto, à emancipação de todo o povo brasileiro. Para usar uma expressão empregada pelo nosso abolicionista: a emancipação dos escravos representaria para o Brasil uma Segunda Independência (Nabuco, 1949). Nas considerações de O abolicionismo, assim como nos discursos associados à campanha eleitoral de 1884, encontramos diversos argu- mentos de cunho moral. É um dever moral realizar a emancipação dos escravizados no Brasil. A necessidade moral de melhorar as condições de vida e trabalho dos escravizados brasileiros derivaria da própria percepção moral de seu sofrimento.8 Ao contemplar a dor de outro ser humano escravizado, aquele que contempla tomaria parte na dor dele, se compadeceria dele. Todo aquele dotado de um 8 É curioso observar que essa moralidade nabuquiana se aproxima de uma moral da compaixão aos moldes schopenhauerianos. Já no prefácio de O abolicionismo, o brasileiro menciona que suas ideias serão acolhidas entre aqueles que “[...] sentem a dor do escravo como se fora própria [...]” (Nabuco, 2000, p. 21). É aproximadamente nos mesmos termos que Schopenhauer (2001) definia o móvel moral por excelên- cia (a compaixão). Segundo Schopenhauer (2001, p. 135-136, grifo nosso), uma ação com valor moral se dá “[...] só por meio do fato de que o outro se torne de tal modo o fim último de minha vontade como eu próprio o sou. Através, portanto, do fato de que quero imediatamente seu bem e de que não quero seu mal, tão diretamente como se fosse o meu. Isto, porém, pressupõe necessariamente que eu sofra com o seu mal-estar, sinta seu mal como se fora o meu e, por isso, queira seu bem como se fora o meu próprio. Isso exige, porém, que eu me identifique com ele, quer dizer, que aquela diferença total entre mim e o outro, sobre a qual repousa justamente meu egoísmo, seja suprimida pelo menos num certo grau”. 73 senso moral sadio entende, portanto, que é necessário dar um fim à instituição do escravismo. Além de basear-se na compaixão, outra característica da morali- dade defendida por Nabuco (1949) deve ser destacada: ela é univer- salista. Ou seja, não diz respeito apenas a um momento histórico específico, senão a toda a vida humana e em todos os tempos. Embora o ser humano tenha experimentado diversas formas de escravismo em diversos momentos históricos e sociedades diferentes, Nabuco insiste em não considerar nesse regime de trabalho, ou, na neces- sidade de eliminá-lo, fatores apenas considerados produtos de seu tempo. O fim do trabalho cativo é uma necessidade moral em si mesma. A vitória do abolicionismo representaria a vitória da própria consciência e da civilização (Nabuco, 1949). O universalismo da moral também não depende de uma reflexão puramente racional, mas, antes, da conformidade com um senso ou sentimento moral. Até os homens mais simples e sem formação mais esmerada podem distinguir moralmente que a escravidão é errada e indesejável. Porém, ao mesmo tempo em que defende uma moral universal e atemporal, Nabuco defende diversas vezes que a abolição é uma necessidade histórica. Por exemplo, faria parte do espírito do tempo de nossa época lutar contra a escravidão, e quem se posicionasse con- trariamente à emancipação dos escravos estaria também contra seu próprio tempo. Nas palavras de Nabuco (1884, p. 11), “Para vencer-nos [a nós, os abolicionistas,] nesse combate seria preciso que o esclavagismo pudesse repetir o milagre de Josué e fazer para[r] o sol!”. E ainda: É essa fatalidade providencial, essa necessidade histórica, que me faz dizer aos nossos adversários, os quais se con- somem numa luta improfícua e inglória, que só serve para embaraçar o futuro deste país: O que está feito, está feito; o que está por fazer. está feito (sic) (Nabuco, 1949, p. 418). Nosso intelectual afirma também que o Brasil se encontrava em uma posição desfavorecida frente aos demais “povoscivilizados”. Apesar de sua civilidade, não poderia acompanhar o avanço moral 74 das demais “nações não bárbaras” e, por isso, permanecia intima- mente ligado ao escravismo. Tratar-se-ia de considerar o Brasil como uma exceção, como um país civilizado ainda preso à barbárie da escravidão (Nabuco, 1949). Apesar de parecerem inconciliáveis, a historicidade do ideal civi- lizatório do trabalho livre e o valor eterno da moralidade aparecem lado a lado no pensamento nabuquiano. No entanto, não há aqui uma verdadeira contradição. A conciliação entre a atemporalidade da moralidade e a necessidade histórica da abolição é promovida por meio da noção de que o senso moral é resultado de um despertar de consciência. Ou seja, embora a base da moralidade seja sempre a mesma, assim como os atos imorais são sempre imorais, certas sociedades em determinados momentos históricos encontram-se com sua sensibilidade moral corrompida ou imatura. Assim, a percepção de que determinadas ações são inapropriadas seria prejudicada. Esse ponto é interessante no caso do Brasil. Para Nabuco, a cons- ciência moral nacional já estava desperta no último quarto do século XIX. Durante a campanha eleitoral de 1884, nosso pensador não se cansava de insistir neste ponto: o povo brasileiro seria, em sua essên- cia, contrário à manutenção do regime escravocrata; a população brasileira em geral defenderia a bandeira do fim dessa instituição vergonhosa. Nas palavras do abolicionista: Sim, senhores, desafio a que se me conteste quando afir- mo que a consciência nova da pátria brasileira, que nós abolicionistas representamos, está tomando posse, e posse definitiva e perpétua, de todos os pontos do país até onde ela já conseguiu penetrar. Saúdo, pois na capital do Norte [Pernambuco], como saudei em São Paulo, esse espírito novo que vai quebrando, argola por argola, a pe- sada cadeia da escravidão que há trezentos anos prende num mesmo suplício o escravo e o senhor, o escravo e a pátria! (Nabuco, 1949, p. 246). Em consequência disso, havia, segundo Nabuco (1949), uma mar- cante contradição entre a opinião pública e a política dominante no 75 império. A vontade da classe dominante e escravocrata se contrapu- nha à vontade do povo. Por sua vez, a classe política como um todo — não devemos esquecer que, à época, a maior parte da população não gozava de direitos políticos — estaria fortemente atada aos interesses da escravidão e, consequentemente, o parlamento não representaria os anseios do povo brasileiro. Mesmo os interesses humanistas do Imperador Dom Pedro II não seriam suficientes: ele ainda precisaria tornar-se humanitário (Nabuco, 1886). Muito longe de representar os interesses da nação, a escravidão brasileira representava o benefício de apenas uma classe (Nabuco, 1949). Em última análise, na perspectiva nabuquiana, sob o regime escra- vista, o Império do Brasil era escravo da escravidão. Essa instituição infame corrompia todas as esferas da nação e penetrava a vida de todos os brasileiros. Por exemplo, os trabalhadores livres urbanos não possuíam, normalmente, escravos, tampouco eram eles mesmos cativos, mesmo assim, sofreram fortemente as consequências desse regime atrasado. Isso porque o trabalho livre dos artesãos brasilei- ros era socialmente equiparado ao trabalho escravo e considerado indigno, o que tornava precárias as condições de subsistência destes trabalhadores (Nabuco, 1949). Mesmo o senhor de escravos era diretamente afetado e, por assim dizer, tornava-se escravo da instituição da escravidão. Ele agarrava- -se ao ideal escravocrata, iludindo-se que a posse de escravizados garantiria sua riqueza. Enquanto isso, esse mesmo senhor endivi- dava-se junto aos traficantes ilegais de escravos e investia todos os seus recursos em latifúndios organizados em torno da monocultura para a exportação. Tudo isso fazia com que o Brasil ficasse sempre escravo das grandes potências estrangeiras e, ainda, do comércio ilegal e internacionalmente condenado de negros. A agricultura sofria a cada nova crise de sua produção única, enquanto o comér- cio e a indústria não se desenvolviam. Não havia ganho econômico significativo na escravidão e, menos ainda, ganho humano. Por isso, de acordo com Nabuco, a emancipação dos negros bra- sileiros significa a verdadeira emancipação do Brasil. O fim dessa instituição cruel e imoral seria semelhante a uma cheia do rio Nilo, a fertilizar e transformar toda a organização nacional, ao permitir 76 que o Brasil fosse de fato um país em consonância com os anseios e com a vontade dos brasileiros, inclusive dos negros brasileiros (Nabuco, 1886). RECONHECIMENTO Tudo leva a crer, por fim, que Nabuco merece nosso reconhe- cimento. Não obstante, vale notar que a palavra reconhecimento recebe aqui diversos sentidos. Em primeiro lugar, é forçoso reconhe- cer as contribuições de Joaquim Nabuco ao pensamento brasileiro. Isso implica em admitir, é claro, que existe um pensamento propria- mente brasileiro, profundo e importante. Nabuco é um intelectual brasileiro e, como tal, fortemente envolvido nos problemas próprios do Brasil, em especial, o da condição do negro e do escravizado em nossas terras. Ao defender o abolicionismo, ele está consciente de que não é lícito tomar acriticamente um modelo abolicionista externo, muito embora ele seja um conhecedor das diversas correntes abolicionis- tas europeias e estadunidenses. A presença negra no Brasil possui características únicas que precisam ser sempre levadas em conta. Nabuco sabe que é diferente, por exemplo, emancipar os negros nos países europeus ou emancipá-los em nossa nação. Desse modo, se o Estado português proíbe a escravidão em Portugal, o impacto nas políticas públicas e na configuração étnica e social dos portugueses é mínimo. Por outro lado, se o Estado brasileiro emancipa todas as negras e negros aqui escravizados, isso configura uma completa revolução na constituição do povo brasileiro e também implica na admissão tácita das contribuições indeléveis dos negros na formação de nosso povo e de nosso país. Por meio do reconhecimento de intelectuais como Nabuco, ou seja, por meio do resgate de suas ideias, podemos reconhecer e admitir que existe de fato um pensamento legitimamente brasileiro e, por que não dizer, uma filosofia brasileira.9 É frutífero ao pensamento negro 9 Joaquim Nabuco não é tradicionalmente contado entre os filósofos brasileiros. Geralmente, o tomamos como pensador político e historiador. Contudo, não há dúvidas que suas ideias tocam com profundidade temas próprios da filosofia. Um 77 revisitar o pensamento brasileiro e, ao mesmo tempo, renová-lo, pois, como podemos aprender também com Nabuco, a condição negra no Brasil é única e, se quisermos realmente promover a emancipação negra em nossas terras, não nos é suficiente nos limitarmos aos modelos estrangeiros. O reconhecimento ao qual nos referimos, todavia, também tem outro viés. Necessitamos não apenas reconhecer as vantagens e os aspectos positivos de se revisitar um pensador como Nabuco: precisamos também reconhecer seus limites. Em outras palavras, não devemos nos restringir de pensar também para além de nossos pensadores; neste caso, para além de Nabuco. Gostaríamos então de levantar um ponto de crítica às ideias nabuquianas. É importante dizer que nossa posição a seguir faz jus, sobretudo, ao nosso propósito anunciado de não apenas falar sobre Nabuco, mas também refletir com e contra ele. Neste sentido, a crí- tica que apresentamos não tem o objetivo de rebaixar o pensador brasileiro, tampouco de dizer anacronicamente o que ele deveria ou poderia ter feito em seu contexto histórico específico. Trata-se antes de identificar as características e limites do modelo concreto de emancipação que ele propôs. O objetivo não é apenas compreender e reproduzir Nabuco, mas sim tornar mais aguda nossa percepção e capacidade de reflexão sobre os modelos emancipatórios que,por ventura, queiramos propor na atualidade. Nabuco é um caso exemplar com o qual aprendemos, não somente por seus avanços, mas igualmente por suas limitações. Como vimos, o abolicionista é um defensor ferrenho da huma- nização dos escravizados do mundo. Isso significa, em seus tex- tos, que, por meio de sua libertação, os escravizados fariam um importante retorno. A escravidão os teria bestializado, isto é, suprimido sua condição propriamente humana e os rebaixado à condição de bestas. Afastados da civilização, os escravizados vivenciaram a barbárie, sendo eles mesmos os bárbaros. A abolição representaria uma forma de promovê-los novamente à plenitude da condição humana. exemplo disso é certamente suas considerações sobre a ética, já apresentadas neste texto. 78 Embora esse propósito seja nobre, vale a pena observar que esse tipo de consideração tem algumas consequências problemáticas. Equiparar o estatuto do escravizado ao de bestas implica, nesse caso, em lhe fazer promessas para um futuro de liberdade. As negras e negros escravizados receberiam novamente sua humanidade plena a partir da abolição, mas não desfrutariam dela antes da libertação. Para Nabuco, as potencialidades e possibilidades para o futuro seriam incontáveis e comparáveis às dos brancos. Entretanto, devemos refletir também, em contrapartida, sobre quais são as perdas de pensar os escravizados como seres bestializados. Uma característica notável dos principais escritos abolicionistas de Nabuco é o fato de que eles não se destinam propriamente aos escravizados. Na obra O abolicionismo, Nabuco escreve para diversos grupos sociais, como também faz nos discursos da campanha eleitoral de 1884. Porém não se trata, em nenhum dos casos, de direcionar sua fala aos negros escravizados no Brasil. O intelectual brasileiro fala das negras e dos negros, mas, neste caso, não fala com eles ou para eles. O abolicionismo assume que o escravizado é oprimido, porém deposita nos homens livres toda a esperança pela sorte dos escravos: Nesse sentido, deve-se dizer que o abolicionista é o ad- vogado gratuito de duas classes sociais que, de outra forma, não teriam meios de reivindicar os seus direitos, nem consciência deles. Essas classes são: os escravos e os ingênuos10 (Nabuco, 2000, p. 13). Existem, é claro, razões pragmáticas e políticas para que o discurso abolicionista não se direcione aos escravizados, como Nabuco (2000, p. 17) mesmo deixa claro: 10 Com a palavra ingênuos, Nabuco refere-se aos filhos de escravizados nascidos após a promulgação da Lei nº 2.040 (Brasil, 1871), conhecida como Lei do Ventre Li- vre. Os filhos dos cativos eram considerados formalmente livres, porém deviam se submeter e trabalhar como escravos até os 21 anos, quando finalmente poderiam desfrutar plenamente de sua liberdade. Era uma forma de compensar o senhor de seus pais pela perda de uma propriedade em potencial e, ao mesmo tempo, retri- buí-lo pelo fornecimento de moradia e alimentação durante o período de tutela. Até que completasse a maioridade, o ingênuo sofria os mesmos maus-tratos que os escravizados. 79 A propaganda abolicionista, com efeito, não se dirige aos escravos. Seria uma covardia, inepta e criminosa, e, além disso, um suicídio político para o partido abolicionista, incitar à insurreição, ou ao crime, homens sem defesa, e que a lei de Lynch11, ou a justiça pública, imediatamente haveria de esmagar. No entanto, as ressalvas de Nabuco quanto à promoção de um discurso para os escravizados não se restringem às questões de cunho político; também ressaltam precisamente o caráter pretensamente bárbaro dos cativos brasileiros: [Uma propaganda abolicionista dirigida aos escravos se- ria um] suicídio político, porque a nação inteira – vendo uma classe, e essa a mais influente e poderosa do Estado, exposta à vindita bárbara e selvagem de uma população mantida até hoje ao nível dos animais e cujas paixões, quebrado o freio do medo, não conheceriam limites no modo de satisfazer-se – pensaria que a necessidade urgente era salvar a sociedade a todo o custo por um exemplo tremendo, e este seria o sinal de morte do abo- licionismo de Wilberforce, Lamartine, e Garrison, que é o nosso, e do começo do abolicionismo de Catilina ou de Espártaco, ou de John Brown (Nabuco, 2000, p. 17). O cativo estaria em condição de barbárie. Na obra de Nabuco, o negro escravizado é constantemente considerado como se estivesse abaixo da condição humana. Essa condição não seria permanente, contudo, permaneceria enquanto ele estivesse submetido ao sistema escravocrata. Por essa razão, a luta pela sua emancipação não pode emanar dos pró- prios escravizados, senão apenas de um homem pleno (livre) apiedado de seu sofrimento. Em suma, o projeto emancipatório proposto nos textos nabuquianos promete humanidade para o futuro do cativo, mas infelizmente nega sua humanidade presente. Em sentido semelhante, 11 A menção a Lei de Lynch refere-se à possibilidade de linchamento, caso os escra- vizados se levantassem contra seus opressores. 80 as diversas lutas e resistências dos próprios escravizados brasileiros em busca de sua própria liberdade são esquecidas por Nabuco. O famoso abolicionista brasileiro não percebe o perigo de assu- mir que os cativos se encontrariam em um estado de animalidade e barbárie. Ora, aceitar que o oprimido está barbarizado equivale a excluí-lo da esfera da civilização. Em outras palavras, o escravizado não estaria em condições de produzir culturalmente. O valor de suas ações é equiparado ao de animais irracionais e puramente passionais. Sua identidade cultural, suas ações e estratégias de preservação ou autoprodução dessa identidade são ignoradas. Por essa razão, sua libertação dependeria exclusivamente de um agente emancipatório externo, o qual, por sua vez, apresenta seu próprio modelo cultural e civilizatório como ideal de liberdade, em detrimento dos ideais que podem ser gestados pelo próprio oprimido. Lamentavelmente, não apenas Nabuco segue nessa direção. Também Castro Alves (1995), em seu famoso Navio Negreiro, trilha o mesmo caminho. Ao pensar a emancipação dos escravizados, eles assumem, talvez inconscientemente, ideais eurocêntricos, nos quais muito raramente o negro é pensado como agente ativo de sua própria emancipação. Ao bestializar o escravizado, perdem a oportunidade de reconhecer as ricas criações e contribuições negras à nossa cultura. Perdem também a oportunidade de reconhecer que o escravizado jamais perde sua condição propriamente humana e que, antes de ansiar por uma liberdade externa, sempre atuou no sentido de obter sua própria liberdade. Portanto, esse tipo de projeto emancipatório possui, paradoxal- mente, um fator alienante. A liberdade é uma promessa para o futuro, porém o indivíduo é alienado discursivamente de sua capacidade de autoprodução presente. A história dos negros e negras brasileiros que foram submetidos ao cativeiro mostra-nos que a bestialização relatada por Nabuco não é verdadeira. A luta pela própria emanci- pação nos quilombos, assim como a manutenção e a ressignificação das culturas africanas no Brasil, indica que nenhuma escravidão foi capaz de alienar o negro brasileiro de si mesmo. Trajetórias como as de um Luiz Gama ou de um Cruz e Sousa nos indicam que nenhum cativeiro foi capaz de retirar do negro sua própria humanidade. 81 CONSIDERAÇÕES FINAIS O tópico central abordado aqui foi o da emancipação negra. Joaquim Nabuco nos serviu como ferramenta de pensamento. No tocante à emancipação, é importante perceber que ela é um tema frequente nos discursos educativos e políticos. Atualmente é possível percebê-la também fortemente ligada ao âmbito publicitário. Em termos gerais, o vocábulo aponta para a libertação de indivíduos subjugados, ou potencialmente subjugados, em vista da conquista de sua autonomia e realização plena. Se, por um lado, dificilmente se encontra quem condene a emancipaçãoem si, por outro lado, o tema é apenas muito raramente aprofundado e pouco se investiga os meandros dessa complexa problemática. Nabuco foi um pensador que tomou para si esse problema, ao discutir um assunto que nos interessa muito: a questão da emancipação dos escravizados no Brasil. Seu discurso é rico e complexo. A escravidão é examinada critica- mente sob diversos prismas, não apenas como um sistema econômico isolado, mas como uma instituição social penetrante e intrincada. Ela permeia, a seu ver, toda a esfera social do Brasil e não apenas marca o negro brasileiro, como também toda a sociedade brasileira. Sob esta ótica, subverter o escravismo e emancipar o escravizado, significa revolucionar o conjunto da sociedade. Contudo, Nabuco não nos é útil apenas para que possamos com- preender um período histórico específico. Ele nos auxilia a entender os caracteres de nossa sociedade, nossa marca, nosso estilo e nossos estigmas. Também, interessa observar não somente o que Nabuco nos diz, aquilo que ele enxerga e pôde nos transmitir, mas, em espe- cial, interessa-nos buscar a compreensão daquilo que Nabuco não vê, daquilo que ele não diz, mas que igualmente nos constitui: as ações e projetos emancipatórios propriamente negros, as vozes dos negros brasileiros. Por isso, Nabuco não é apenas um autor a ser compreendido, mas antes uma ferramenta para que nós nos compreendamos ao nos fazermos livres. E nós assim nos fazemos, ao tomarmos e nos tornarmos nossa própria voz. 82 Referências ALVES, C. Poesias completas. São Paulo: Ediouro, 1995. APPIAH, K. A. O código de honra: como ocorrem as revoluções morais. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. BRASIL. Lei de 7 de novembro de 1831. Declara livres todos os escravos vindos de fôra do Imperio, e impõe penas aos importado- res dos mesmos escravos. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 1831. 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Confederação abolicionista: conferência do sr. Joa- quim Nabuco a 22 de junho de 1884 no Theatro Polytheama. Rio de Janeiro: Typ. de G. Leuzinger & Filhos, 1884. Disponível em: https:// digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4610. Acesso em: 24 fev. 2016. 83 NABUCO, J. O abolicionismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Publifolha, 2000. NABUCO, J. O abolicionismo: conferências e discursos abolicio- nistas. In: NABUCO, J. Obras completas de Joaquim Nabuco. São Paulo: Instituto Progresso Editorial S. A., 1949. p. 223-418. NABUCO, J. O eclypse do abolicionismo. Rio de Janeiro: Typ. de G. Leuzinger & Filhos, 1886. Disponível em: http://brasiliana.usp.br/ handle/1918/01205800. Acesso em: 24 fev. 2016. SCHOPENHAUER, A. Sobre o fundamento da moral. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 85 JOHNNY ALF: AS INOVAÇÕES HARMÔNICAS QUE INFLUENCIARAM A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA A PARTIR DA DÉCADA DE 1950 Luiz Sergio Ribeiro da Silva Capítulo 4 86 87 Alfredo José da Silva, o Johnny Alf (1929 - 2010) Fonte: Arquivo Nacional ([2010?]). 88 INTRODUÇÃO Em 4 de março de 2010, um noticiário na TV anunciava a morte do compositor brasileiro Johnny Alf, reconhecido pela sofisticação da música popular brasileira e considerado o precursor da bossa nova, estilo musical consolidado ao final da década de 1950, especialmente na cidade do Rio de Janeiro. No documentário Mosaicos – a arte de Johhny Alf, realizado pela TV Cultura de São Paulo em 2007, nomes como Paulinho da Viola, Carlos Lyra e Laércio de Freitas, compositores considerados importantes no contexto do samba e da canção popular, utilizavam as expressões inovador e precursor da bossa nova para se referir a Johnny Alf (Mosaicos [...], 2007). Tais expressões foram comple- mentadas em uma das biografias de Tom Jobim (Cabral, 2008), que o apelidou de genial e que utilizava a expressão música diferente, também corroborada por pianistas de renome como Newton Men- donça e João Donato, ambos apreciadores da técnica pianística de Johnny Alf e que puderam conviver com ele por anos em ambientes de experimentação, como bares, boates, estúdios e fã-clubes, nas décadas de 1950 e 1960. Mas, como identificar o que teria provocado ou incentivado Johnny Alf a elaborar uma música diferente no contexto em que se encontrava, entre o final da década de 1940 e o início da década de 1950? Quais seriam os fatores que poderiam ser considerados determinantes nesse processo de transformação? A MÚSICA POPULAR NO RIO DE JANEIRO ENTRE AS DÉCADAS DE 1940 E 1950 Nas primeiras décadas do século XX, a cidade do Rio de Janeiro, por ser a capital da República, atraía migrantes de todo o país. Cabral (1996), em sua obra A MPB na era do rádio, comenta que a cidade foi, durante muito tempo, uma espécie de síntese do país, tanto no 89 sentido racial quanto cultural, tendo o privilégio de desenvolver, em uma linguagem característica, um tipo de música que era resultado de influências de quase todas as regiões do Brasil. O movimento cultural propriamente dito na cidade teve uma fase marcante no início do século XIX, com a vinda da corte portu- guesa de Dom João VI. A presença da corte no Brasil impulsionou a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, que elevou o status do país à condição de Reino Unido. Além das artes, permitiu a criação da imprensa, do Banco do Brasil, e a abertura dos portos às nações amigas, transformando a cidade em sede da monarquia, moldando sua arquitetura local ao espelho de uma cidade europeia. O ambiente artístico promovido pela corte abriu espaço para os músicos que já se destacavam na cidade, como o Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), que protagonizou um dos principais encon- tros musicais junto à corte portuguesa com o compositor austríaco Sigismund Neukomm (1778-1858), com quem José Maurício nutriu grande admiração e amizade. Essa integração, ou intercâmbio artístico, marcou a cidade como um ambiente propício à criação musical com maior liberdade, um modus operandi diferente dos ambientes mais rigorosos das escolas tradicionais da Áustria e da Alemanha, onde o relacionamento, a troca de informações e as ideias musicais se tornariam a base do ensino e da formação de inúmeros compositores brasileiros, tanto na música erudita como na música popular. A formalização do ensino da música no Rio de Janeiro surgiu em 1841, com a fundação da Sociedade de Música de Francisco Manuel da Silva (1795-1865), que deu início ao Conservatório de Música num salão do Museu Impe- rial, mais tarde conhecido como Instituto Nacional de Música, por onde passaram nomes como Henrique Alves de Mesquita, Anacleto de Medeiros, Francisco Braga (autor do Hino à Bandeira) e Antônio Carlos Gomes. Entre os professores, aparecem Joaquim Antônio da Silva Callado (flauta), Joaquim Giannini (composição), Carlos de Mesquita (harmonia) e Demétrio Rivero (violino). Mesmo com a criação do Instituto Nacional de Música voltado para o ensino da música erudita de padrões europeus, havia uma tendênciaà utilização de elementos musicais e rítmicos do folclore 90 brasileiro por compositores brasileiros, especialmente Alberto Nepo- muceno (1864-1920), duramente criticado por inserir estilos vinculados às culturas afro e indígena nacionais. Esta busca por uma identidade nacional foi amplamente defendida, principalmente por Heitor Villa- -Lobos (1887-1959), na área da música erudita, que se caracterizava pela forte inserção dos elementos da cultura brasileira — seja de origem afro, indígena ou folclórica —, e que praticamente firmou o estilo musical brasileiro dentro e fora do país. O choro pode ser considerado como o estilo que mais representa este processo informal de formação musical. Segundo Diniz (2008, p. 10), Villa-Lobos costumava dizer ser o choro a "[...] 'alma musical do povo brasileiro'". É curioso observar que, embora o gênero tenha se desenvolvido num espaço popular, boa parte dos músicos tiveram sua passagem na academia. Foi o caso de Patápio Silva (1880-1907), que após a morte repentina de Callado tornou-se o maior virtuose da flauta brasileira. Patápio, Callado e Anacleto de Medeiros (1886- 1907) foram alunos de Henrique Alves de Mesquita no Instituto Nacional de Música. O ecletismo encontrado na formação desses músicos promoveu interpretações diferenciadas dos gêneros estrangeiros da época, como a polca, a valsa, o schottisch e a quadrilha, promovendo um jeito brasileiro de tocar. Estas influências estrangeiras ganharam com o lundu, o ritmo de origem africana à base de percussão, palmas e refrões, cultivado pelos negros desde os tempos do trabalho escravo nas lavouras de açúcar da colônia. A composição de samba, assim como o choro, era fruto de encon- tros constantes entre músicos, onde não só a harmonia, como tam- bém as letras, eram compilações de ideias compartilhadas entre o grupo de instrumentistas presentes e avaliadas à medida que eram executadas. O palco desse desenvolvimento concentrava-se em duas regiões da cidade do Rio de Janeiro: a Cidade Nova, reduto operário onde os ambientes musicais se misturavam com as residências, e o bairro do Estácio de Sá, que veio a gerar discussões acaloradas quanto ao que seria considerado o verdadeiro samba carioca. Sandroni (2001) em seu livro Feitiço decente: transformações no samba no Rio de Janeiro (1917-1930), esclarece que há uma divisão 91 de estilos entre o samba de Donga1 e a geração do Estácio, princi- palmente na figura de Ismael Silva.2 Neste embate, Donga alegava que Ismael não compunha samba, mas marcha. E Ismael dizia que Donga não compunha samba, mas maxixe. Essa discussão sugere algumas considerações, pois o samba de 1917 ainda estava muito relacionado ao estilo dançante, ao par de giro enlaçado no salão, com influências do lundu e da polca. O ritmo característico do lundu, em geral, continha síncopes dentro do mesmo compasso, o que se adaptava mais facilmente aos passos de dança de salão. Sandroni (2001) ainda menciona um comentário de Arthur Mor- ris Jones (1889-1980), musicólogo que atuou em Zâmbia no início do século XX, em que afirma que a música ocidental é divisiva, enquanto a música africana é aditiva. E a síncope é totalmente proveniente da África, e sua influência foi disseminada em toda a extensão das Américas, onde o retardo ou a antecipação de uma nota com relação à métrica é sua característica básica, e está presente tanto na música popular como na folclórica. DO MALANDRO AO COMPOSITOR Ao final da década de 1930, a cidade já contava com quatro emis- soras de rádio e, embora as manifestações musicais populares como o maxixe, a polca, o choro e o samba fossem divulgadas em diversos redutos culturais locais, as programações das emissoras eram res- tritas à música erudita. Cabral (1996, p. 10) relata que: [...] Renato Murce, um dos maiores radialistas de todos os tempos, registrou no seu livro Nos bastidores do rádio, que as emissoras veiculavam apenas ‘um tipo de cultu- ra, com uma programação quase só da chamada música 1 Ernesto Joaquim Maria dos Santos, conhecido como Donga (1890-1974), foi músico, compositor e violonista brasileiro. Em parceria com Mauro de Almeida, compôs a música Pelo Telefone, gravada em 1917, o primeiro samba registrado na história. 2 Mílton de Oliveira Ismael Silva, mais conhecido como Ismael Silva (1905-1978), foi compositor e cantor brasileiro. Com um grupo de sambistas do Estácio, fundou o bloco que se tornaria o precursor da primeira escola de samba de que se tem notícia: a Deixa Falar. 92 erudita, conferências maçantes e palestras destituídas de interesse’. E acrescentou: ‘Nada de música popular. Em samba, então, nem era bom falar’. Naquele período, notava-se uma distinção entre as classes sociais, em que as manifestações musicais mais populares como o samba e o choro concentravam-se em redutos como a Cidade Nova, o bairro da Saúde e os morros ao redor do centro da cidade, regiões de maior concentração dos negros migrados principalmente dos estados da Bahia e de Minas Gerais. Distante destes redutos, a classe média da cidade do Rio de Janeiro, em geral, contava com um piano na sala de estar, característica predominante na cidade desde a vinda dos primeiros instrumentos em 1870, e que chegou até a ser considerada a cidade dos pianos. Era raro encontrar uma casa de família nesse padrão sem um piano a executar músicas eruditas constantemente em reuniões de lazer. Na ausência de um método específico para a música popular, o músico obtém certa liberdade de experimentação, e vê-se pro- penso a sair de seu casulo de estudos individuais e constantes para compartilhar elementos do seu círculo social, em que este aspecto criativo adquire maior liberdade, mas ao mesmo tempo divide com a sociedade os valores que vão se desenvolvendo de acordo com as influências recebidas ou refutadas. Assim, a influência de músicos com tais afinidades e dentro do mesmo contexto de aprendizagem passa a ser também determinante na trajetória do artista, assim como o contexto socioeconômico em que músicos vivem. JOHNNY ALF Johnny Alf nasceu no bairro de Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro, em 19 de maio de 1929, com o nome de Alfredo José da Silva. Naquele mesmo ano, o país passava por transformações desencade- adas em todo o mundo devido à crise da Bolsa de Nova York. A partir de 1930, a sociedade brasileira viveu importantes mudanças. Acele- rou-se o processo de urbanização e a burguesia começava a participar cada vez mais da vida política. Com o progresso da industrialização, 93 a classe, operária cresceu muito. O presidente Getúlio Vargas, com uma política de governo dirigida aos trabalhadores urbanos, tentou atrair o apoio dessa classe que era fundamental para a economia, pois tinha em mãos o novo motor do Brasil: a indústria. Na Revolução Constitucionalista de 1932, morre o pai de Johnny Alf, Antonio José da Silva, e sua mãe, Inês Marina da Conceição, passa a trabalhar como empregada doméstica em uma casa de família no bairro da Tijuca. Em um ambiente de classe média, que já contava com um piano na sala, despertou-se nele o desejo de estudar o instrumento. Aos nove anos de idade, com o incentivo de uma amiga da família, Geni Borges, teve a oportunidade de estudar música erudita, desde que passasse na prova para cursar o Colégio Pedro II, instituição educacional pública de prestígio, destinada à formação de alunos de classes média e média alta. No documentário Mosaicos – a arte de Johnny Alf, apresentado pela TV Cultura de São Paulo em 2007, Johnny Alf comenta que sua professora, embora privilegiasse o ensino de música erudita, à qual ele se dedicava totalmente em termos de técnica e interpretação, também propunha o desenvolvimento de música popular, princi- palmente a música norte-americana dos irmãos Gershwin e Cole Porter, compositores admirados por ele através dos musicais do cinema americano. Influenciado pelo ambiente do Colégio Pedro II, passou a estudar no InstitutoBrasil-Estados Unidos (IBEU) para aprender inglês. Nas aulas de conversação, aproveitava para tocar e cantar músicas em inglês, por iniciativa de seus professores. Nesse ambiente influenciado pela cultura norte-americana, era sempre chamado de Alf (de Alfredo) e incentivado a adotar também o nome popular nos Estados Unidos de Johnny (Mosaicos [...], 2007). Nascia, assim, Johnny Alf — negro brasileiro, filho de empregada doméstica, com uma trajetória incomum para a época. Com quatorze anos, bem desenvolvido ao piano, formou um con- junto musical com amigos em Vila Isabel, no qual Dóris Monteiro, ali conhecida como Adelina, chegou a cantar. Era um ambiente propício para a criação livre e compartilhada com os amigos. Johnny Alf faleceu aos 80 anos, em 4 de março de 2010, após longa luta contra um câncer na próstata. Não tinha parentes e vivia em 94 102 um asilo em Santo André-SP. Seu último show foi em agosto de 2009, no Teatro do Sesi, em São Paulo, ao lado da cantora Alaíde Costa. O MÚSICO E SEU AMBIENTE CULTURAL E MUSICAL Bittencourt (2006), em sua dissertação de mestrado A guitarra trio inspirada em Johnny Alf e João Donato, comenta que, em 1949, três jovens primas, amigas do IBEU, fundaram o Sinatra-Farney Fan Club (SFFC), iniciativa típica da tietagem promovida pela Capitol Records, gravadora norte-americana fundada em 1943, que via o Brasil como um mercado a conquistar. Esse movimento era incen- tivado por um programa da Rádio Globo chamado Disk-Jockey, com o radialista Luis Serrano. No mesmo clube, com um piano à disposição, Alf aproveitava para estudar e ao mesmo tempo reunir os amigos para apreciar as novidades lançadas em disco, orquestrações, solos de jazz e temas de filmes, além de realizar pequenas apresentações e outras atividades ligadas à estética musical estadunidense. Um retrato do movimento que se formava, principalmente junto à classe média, na apreciação da produção cultural norte-americana que constantemente chegava à cidade. Pode-se observar que o ambiente em que se desenvolve a trajetória de Johnny Alf está completamente distante do samba e das manifestações mais populares e de massa da cidade. Com o retorno do cantor Farnésio Dutra, mais conhecido como Dick Farney, e com muitos discos novos na bagagem — dos Estados Unidos —, o clube ganharia um nome e uma imagem, chegando a contar com prospecto ilustrado pela foto do patrono e do fundador. Nas frequentes reuniões, os sócios ouviam discos, analisavam orques- trações e solos. Ao piano, Johnny Alf sentava-se frequentemente e os surpreendia com suas ideias. Não era um produto simples, mas o resultado de muitas somas do que sentiam seus primeiros admiradores. Além dos filmes musi- cais, Alf apreciava jazz — em especial, o trio do então pianista Nat King Cole (1917-1965), o piano de Lennie Tristano (1927), o sax de Lee Konitz (1919): sons intimistas, da geração cool, que seguia elaboradas influências eruditas dentro do jazz. 95 Na época do SFFC (1949), Alf começou a prestar maior atenção a seus ouvintes, percebendo que, assim como ele, o restante do grupo apreciava suas ideias musicais. Dick Farney3 não era nenhum principiante — já havia gravado a histórica Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, em 1946 — e os sócios do clube, Nora Ney, Tom Jobim e Luís Bonfá, que iniciavam carreira, não podiam ser chamados de pouco exigentes. Empolgado com seu público que surgia, Alf chegava do quartel, mudava a roupa e ia para o clube. De lá saía feliz, por volta das quatro horas da manhã, trazido pelo ator Cyll, irmão de Dick Farney, para nova troca de roupa e de ambiente: voltava ao quartel antes do amanhecer. A família reprimia, dizendo que, com pouca idade, já trocava o dia pela noite. Não eram exatamente os sons que ele esperava ouvir, mas ainda era um pianíssimo, comparado com as entonações seguintes. Entu- siasmado, Johnny se apresentou ao animador de auditório César de Alencar, que em 1952 acabava de montar sua cantina — a Cantina do César, em Copacabana —, e precisava de um pianista. Tinha feito um concurso no programa de César na rádio, mas o resultado não o satisfez. Dick Farney e Nora Ney falaram ao animador sobre o colega de clube. Na terceira música, César mandou parar: Johnny Alf estava apro- vado como profissional. Mas reprovado em casa. A família que o criou — para ser funcionário da Leopoldina ou professor de inglês — imediatamente fez a tradicional exigência: “o nosso programa ou outra casa para morar”. Atordoado e decepcionado com a mãe, que tomou o partido da família adotiva, Johnny escolheu, tímido, mas resoluto, a segunda alternativa. Ganhava três contos por mês na Cantina, o suficiente para pagar o aluguel e alguns extras para ir ao cinema. A família não dava apoio, e a cada visita, foi sentindo que fazia seu nome, mas o tratavam com ressentimento e despeito. Pensavam que iria dar com os “burros n’água”, voltar para casa e ouvir: “nós te avisamos”. No entanto, aconte- ceu o contrário, foi sendo deixado de lado, e tal reação o impulsionou ainda mais a seguir seu caminho na música. 3 Farnésio Dutra e Silva (1921-1978), conhecido pelo nome artístico Dick Farney, foi um cantor, pianista e compositor brasileiro. 96 Saiu de casa para ir morar no Rio Comprido e depois em Copa- cabana. Na Cantina do César tocava e cantava "[...] apavorado, por- que nunca tinha enfrentado o público" (Johnny [...], [2021]). Entre seus ouvintes regulares, passou a contar com o maestro Radamés Gnattali (1906-1988), arranjador, compositor e instrumentista já consagrado na época, pois havia substituído Pixinguinha como arranjador da gravadora Victor. Radamés também foi o autor da parte orquestral de gravações célebres como a do cantor Orlando Silva para a música Carinhoso (1968), de Pixinguinha e João de Barro, e ainda da famosa gravação original de Aquarela do Brasil , de Ary Barroso (1939), e de Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro (1946), imortalizada na voz de Dick Farney. Outra presença constante era a de um rapaz humilde, recém-chegado da Bahia, que ia lá todas as noites: João Gilberto, que mais tarde se tornaria um ícone da bossa nova. A inspiração compensava essa época de poucos sonhos e a pro- dutividade começava a atrair as primeiras boas oportunidades: o violinista Fafá Lemos formava um conjunto para tocar na elegante boite4 Monte Carlo, do rei da noite Carlos Machado, e chamou o pianista para ganhar mais; Ramalho Netto, produtor da Sinter, o convidou para gravar em 78 rotações5, o primeiro de sua carreira. Era um disco apenas instrumental, mas já trazia novidades, a começar pela formação do conjunto, usada no jazz, mas quase desco- nhecida no Brasil: Alf ao piano, Vidal no contrabaixo e o violonista e compositor Garoto, Aníbal Augusto Sardinha (1915-1954), substituindo Laurindo de Almeida, que não pôde gravar porque mudou-se para os Estados Unidos. As músicas Falsete (1952), de Alf, e De cigarro em cigarro (1953), de Luís Bonfá. Embora sem sucesso, o disco e os nomes formavam um certo sentido. Garoto, Laurindo, Bonfá e, mais tarde, os jovens espec- tadores — tão jovens que tinham que se esconder no banheiro das boites quando vinha a fiscalização — Roberto Menescal, Sílvia 4 Casa noturna, com música ao vivo, para dançar. 5 O disco de 78 rotações é o nome utilizado para chapas — majoritariamente de cor negra e contendo um rótulo no centro chamado de selo fonográfico — fabricadas de diversos modos e empregando diversos materiais técnicos. 97 Teles, Carlos Lyra e Ed Lincoln estavam no mesmo barco. Havia também os pianistas Newton Mendonça (1927-1960) — com quem Alf se revezava na boate Mandarim, seu emprego seguinte — e Tom Jobim, este também às vezes cantor da boate Tudo Azul. Era uma corrente irresistível, que se preparava para mudar todo um conceito na música popular brasileira. Enquanto trocava de casas noturnas, Johnny Alf cada vez mais divulgava novas ideias musicais. No Plaza, onde se apresentavao pianista e organista Djalma Ferreira, a crooner6 do conjunto, Helena de Lima — que contracenava com Miltinho — já cantava algumas de suas músicas. No Clube da Chave, Alf tinha entre os ouvintes ilustres o bem-sucedido Ary Barroso, e, quando se tornou atração principal do Plaza, Tom Jobim vinha ouvi-lo todas as noites. Antes disso, havia passado pela boite Drink — aberta por Djalma Ferreira —, onde Johnny começou a sentir que fazia seu nome e tinha um novo conjunto: faziam parte do grupo a cantora Dora Lopes e o violonista Bola Sete, que mais tarde, como Laurindo de Almeida, iria fixar-se nos Estados Unidos. Duas músicas começaram a receber pedidos insistentes. Tinham sido compostas por volta de 1953 e, além de harmonias ágeis, envolventes e novas, tinham letras bastante informais para a época, como por exemplo: Céu e mar, estrelas na areia Verde mar, espelho do céu Minha vida é uma é uma ilha bem distante Flutuando no oceano aventura de viver [...] Minha vida, vou passando Meu amor, eu vou amando E meu barco vou levando a céu e mar (Céu […], [1964]). 6 Crooner é um termo usado para descrever principalmente cantores masculinos que se apresentavam usando um estilo suave possibilitado por microfones melho- res que captavam sons mais silenciosos e uma gama mais ampla de frequências, permitindo que o cantor utilizasse uma faixa mais dinâmica e atuasse de maneira mais íntima. 98 Você bem sabe eu sou rapaz de bem A minha onda é do vai e vem Pois com as pessoas que eu bem tratar Eu qualquer dia posso me arrumar Vê se mora […] Eu tenho casa Tenho comida Não passo fome, graças a Deus […] (Rapaz […], [1953]). A primeira desenhava a geografia poética da bossa nova, enquanto a segunda antecipava um estilo de vida dos músicos da Zona Sul carioca, substituindo o retrato do malandro tantas vezes pintado pelo samba do Centro e da Zona Norte do Rio de Janeiro. De malandro, porém, Johnny Alf, tímido e quase sempre triste, tinha muito pouco. Apresentava um comportamento um tanto des- ligado com relação a contratos e oportunidades de trabalho. Em 1955, quando começava a se fortalecer o grupo que dominaria a bossa nova no Rio, ele estava de malas prontas para São Paulo, sem ao menos avisar o dono da boite Plaza7, onde era estrela máxima. Aceitou um convite para trabalhar na boate Baiúca, na rua Major Sertório. De lá, iria para o bar Michel, e mais uma vez se apresentaria com músicos do início da bossa nova, agora de São Paulo: o violonista Paulinho Nogueira e os baixistas Sabá e Luís Chaves, que também começavam. Uma terceira composição do mesmo período foi Falsete, sua primeira gravação em 78 rpm, que trouxe inovações significativas, como um experimento de samba ou choro com recursos aprendidos no jazz (Garcia, 1999). Sendo uma composição apenas instrumental, sem letra, estaria mais relacionada a um estilo de samba-jazz, mais apropriada para a formação dos trios. A obra, no entanto, é de difícil aquisição, por nunca ter sido regravada e nem mesmo editada em partitura. O próprio Johnny Alf nunca tocava em suas apresentações (Bittencourt, 2006). 7 Localizada na Avenida Princesa Isabel, entre as ruas Barata Ribeiro e Ministro Viveiros de Castro, onde hoje é o Hotel Plaza (Moraes, 1989). 99 A INFLUÊNCIA NORTE-AMERICANA A partir da segunda metade da década de 1940, já se considerava a música como produto. Tal percepção é defendida, por exemplo, por José Ramos Tinhorão, quando afirma que a produção deste moderno artigo sonoro industrial-comercial, chamado de música popular, criaria contradições no mercado de produtos nacionais destinados à concorrência com similares oferecidos pela indústria internacional. As gravações em discos, especialmente, provocaram uma ampliação da base artística, através da profissionalização dos cantores solistas, com participação mais ampla de instrumentistas, maestros e arranjadores (Tinhorão, 1996). Tal expansão da indústria fonográfica provocou reflexo similar no campo de produção, e a criação artística passou a reger-se por padrões estéticos e leis de mercado. O mercado musical naquele momento vinha sendo constantemente bombardeado por produções norte-americanas, após o final da Segunda Guerra Mundial, na qual os Estados Unidos saíram vitoriosos e conquistaram uma abertura do mercado internacional para a entrada de financiamentos e pro- jetos conjuntos entre os países, envolvendo as áreas industriais e comerciais. No campo das artes, embora a rádio já viesse exercendo um papel de extrema influência no gosto popular, o cinema estadu- nidense, com seus musicais, consolidava um modelo estético que se transformou numa referência básica para toda a criação artística voltada para a classe média, em especial, da cidade do Rio de Janeiro. Nesse contexto econômico e numa política internacional de boa vizinhança, a produção de Hollywood passou a lançar filmes sim- páticos aos latinos, misturando blues, foxes, swings, boogie-woogies com rumbas, congas, boleros e sambas, buscando fabricar um samba latino, com grande pressão na imprensa internacional. Com esses resultados, e a volta dos soldados brasileiros enviados para o front na Itália sob o comando americano, a burguesia brasileira, aliada ao capital industrial-financeiro norte-americano, e a classe média, fascinada pelas conquistas da democracia, encerravam o ciclo do Estado Novo, dando espaço a um novo estilo artístico que privile- giava a conexão Brasil-Estados Unidos. 100 Em 1950, o bairro de Copacabana, famoso por suas praias de cartão-postal, com investimentos na rede hoteleira voltada para o turismo internacional, passou a ser o ambiente que separava clara- mente as classes sociais, promovendo um olhar para o mar como base de muitos estilos composicionais, privilegiando uma poesia completamente desligada da tradição musical popular da cidade, com uma rica troca de informações entre classes diferentes. Nesse novo ambiente de produção artística, as variáveis que compunham o imaginário coletivo eram o cinema, os discos impor- tados, os clubes e as boites dos hotéis, que em geral funcionavam nos subsolos com espaços pequenos que impediam a profusão de vozes potentes ou grandes grupos orquestrais. Dessa forma, uma nova composição de grupos musicais era formada basicamente por piano, contrabaixo, violão elétrico e bateria. Os metais se viram restritos, dando espaço básico para, no mínimo, solos de saxofone. Numa época em que a televisão ainda não tinha sido constitu- ída com a força de comunicação que encontramos hoje, a rádio e os discos eram as únicas fontes para o acesso a obras populares, principalmente vindas de outros países, como os Estados Unidos. Devido ao custo de importação dos long plays (LPs) de 78 rpm, os apreciadores discutiam mais do que compravam, tornando o lugar um gerador de tendências de acordo com o gosto de cada grupo. As discussões que iniciavam em termos de interpretação vocal — prin- cipalmente em torno de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, famosas cantoras norte-americanas daquele período —, acabavam se voltando para os arranjos, principalmente relacionados a Stan Kenton, pia- nista e arranjador estadunidense que misturava com ousadia seu naipe de metais, resultado de forte influência de Stravinski, com quem estudara, e que influenciou seu swing com sotaque sinfônico. Johnny Alf, ao trabalhar nas boites da zona sul do Rio de Janeiro, desenvolveu um estilo que serviu de referência para músicos engaja- dos no processo de modernização da música brasileira com influência norte-americana. Além da Cantina do César, chegou a revezar com Newton Mendonça na boite Arpège. Em seguida, passou pelo Clube da Chave, a boite Drinks e o Hotel Plaza por volta de 1954, sempre desenvolvendo temas de jazz, música brasileira e suas composições. 101 O Plaza era um local de pouco movimento, propiciando um espaço ideal para que os músicos se aventurassem e tocassem o que quises- sem. E, com essa facilidade paraexcluída da história da arte no Brasil (Silva; Calaça, 2006)2. O texto aponta para a necessi- dade do reconhecimento do valor estético e histórico da arte africana. Aponta, ainda, como a arte tradicional africana influenciou a produção de muitos artistas europeus importantes, como Pablo Picasso e Ame- deo Modigliani. Outra questão apresentada diz respeito às relações de gênero que questionam a imposição social do binarismo masculino e feminino, assim como a problematização da heterossexualidade como norma, presentes na produção artística africana, tradicional e contemporânea, e que raramente têm sido discutidas. A historiografia tradicional do Paraná e o apagamento histórico da participação de negros na formação da sociedade paranaense constituem o cenário de fundo do sétimo capítulo. Na história “ofi- cial” do Paraná, a presença do indígena chega a ser apontada, ainda que de forma romantizada e estereotipada, como se não tivesse contribuído significativamente para a construção do estado. A 2 SILVA, Dilma de Melo; CALAÇA, Maria Cecília Félix. Arte africana e afro-brasi- leira. São Paulo: Terceira Margem, 2006. 11 participação negra, ainda pior, dificilmente é mencionada nesta historiografia. Assim, negros e indígenas foram deixados de fora da narrativa oficial, enquanto toda a atenção foi concedida às etnias europeias. Atualmente, essa visão está superada. Vários trabalhos, em diferentes áreas do conhecimento, buscam resgatar e demonstrar a contribuição de negros e indígenas na construção da sociedade paranaense. Assumindo a necessidade de que esses resgates ocor- ram, em contraposição à “história oficial”, o capítulo apresenta um importante personagem na historiografia paranaense: Enedina Alves Marques (1913–1981), primeira mulher engenheira do Brasil, exemplo da significativa e importante presença negra no Paraná. O oitavo capítulo apresenta uma, dentre tantas realizações cultu- rais e políticas, de um importante personagem no enfrentamento ao racismo no Brasil: Abdias do Nascimento e seu Teatro Experimental do Negro. O texto mostra como a criação do Teatro Experimental do Negro contribuiu para a valorização social do negro através da educação, da cultura e da arte. Mostra ainda como este traba- lho, reconhecido nacional e internacionalmente, abriu caminhos e plantou sementes ainda hoje significativas e fundamentais para a sociedade brasileira. Após conhecer um pouco do Teatro Experimental do Negro, o último capítulo destaca a importância de Abdias do Nascimento para a formação da intelectualidade brasileira na luta antirracista da população negra brasileira. O texto traz breves apontamentos sobre como a militância e a produção intelectual de Abdias se aproximam dos teóricos do pan-africanismo e se constituem como um potente instrumento de resistência político-filosófica ao racismo anti-negro. Que as páginas aqui reunidas contribuam para que a Presença Africana se torne mais conhecida, valorizada e reverenciada. Que as histórias e reflexões apresentadas contribuam para superar os apagamentos impingidos pela “história oficial”. Que nossas heran- ças estejam presentes em nossa memória. Que as novas gerações tenham a oportunidade de conhecer suas raízes e, assim, trabalhar pela sociedade justa e igualitária que queremos e podemos construir! Boa leitura! Axé! As organizadoras 13 CAMINHOS PARA A EDUCAÇÃO ÉTNICO-RACIAL NA UTFPR – CAMPUS CURITIBA: UMA BREVE HISTÓRIA Andrea Maila Voss Kominek Celso Fernando Claro de Oliveira Capítulo 1 14 15 Após mais de 130 anos da assinatura da Lei Áurea, que declarou extinta a escravidão no Brasil, os quase quatro séculos de escravismo e marginalização da população negra ainda encontram ecos em nosso país. Apesar dos avanços na legislação vigente e da imple- mentação de políticas públicas, resquícios do passado escravocrata ainda hoje são identificáveis. Assim, o racismo continua sendo um problema presente. Neste contexto, resgatar, estudar e valorizar as histórias e as culturas dos povos afro-brasileiros pode ser uma importante estra- tégia, não somente para compreender a diversidade e a riqueza dessas raízes, mas também para transformar a sociedade brasileira contemporânea. As instituições de ensino, pois, despontam como espaços propícios para a efetivação desses processos. O presente capítulo busca construir um pequeno panorama de iniciativas adotadas no campus Curitiba da Universidade Tecnoló- gica Federal do Paraná (UTFPR), a fim de se promover a integração étnico-racial, bem como, valorizar as heranças africanas manifestas em nossa sociedade. Analisaremos as mudanças efetuadas pela instituição para se adaptar à Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, e à Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, as quais, respectivamente, regulamentaram o ensino de história e cultura afro-brasileiras e o sistema de cotas nas instituições federais de ensino superior. Para tanto, destacamos alguns importantes marcos, como o estabelecimento de disciplinas, a formalização do Núcleo de Estu- dos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) e a implementação das cotas étnico-raciais. Por fim, discutiremos a ementa, os conteúdos e o alcance do componente curricular Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho. Esperamos, dessa maneira, oferecer algumas reflexões sobre a importância, os caminhos e os desafios para a valorização das raízes afro-brasileiras no ambiente acadêmico. 16 A BUSCA POR UMA EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO BRASIL NOS ANOS 2000 A história do acesso à educação no Brasil é também uma his- tória de desigualdades. Uma lei promulgada na província do Rio de Janeiro em 1837, por exemplo, proibiu “Os escravos, e os pretos africanos, ainda que sejam livres ou libertos” de frequentarem as escolas públicas do território (Brasil apud Pereira, 2019, p. 8). No mesmo ano, foi fundado o Colégio D. Pedro II, destinado a preparar os filhos dos membros das elites para governar o país. Uma das disciplinas consideradas essenciais na formação da futura classe política era, justamente, a História. Aos moldes positivistas, esse componente enaltecia um passado branco e eurocêntrico como forma de buscar incluir o Brasil nos “trilhos do progresso”. Mesmo as primeiras correntes interpretativas do século XIX, que buscavam valorizar o papel da miscigenação em nossa constituição populacio- nal, atribuíam um elevado valor ao papel do colonizador português, relegando as figuras dos negros e dos indígenas a uma situação marginal (Abud, 2011). A educação seguiu sendo um privilégio destinado a poucos ao longo da maior parte do século XX. Se para a população em geral o acesso ao ensino formal era bastante restrito, no caso dos descen- dentes de africanos escravizados, a dificuldade tornava-se ainda maior. Mesmo com o fim das proibições expressas em lei, é notório que o ingresso e a permanência dos afro-brasileiros no sistema edu- cacional não ocorreram de forma igualitária em relação aos brancos. Um caso exemplar dessa situação foi a criação da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1930 — durante os debates que antece- deram a fundação desse órgão, a questão racial não foi discutida. Assim, pela ausência de questionamento, confirmou-se que o ensino superior estava destinado a educar a mesma elite branca que a criara, contribuindo para a reprodução das estruturas de dominação e dos abismos sociais previamente existentes (Carvalho, 2006). No período da redemocratização após a ditadura militar bra- sileira (1964-1985), a escola passou a ser vista como um espaço de diálogo e valorização das diferenças, o que ampliou uma série de debates sobre a formação de estudantes como sujeitos críticos e 17 participantes ativos dos processos históricos. A Constituição Federal de 1988 — também chamada “Constituição Cidadã” — já assegurava a igualdade de direitos e oportunidades perante a lei a todos os cidadãos brasileiros, estabelecendo exigências quanto à qualidade e às oportunidades de acessocriar, atraía também João Donato, Lúcio Alves, Dolores Duran, Ed Lincoln, Paulo Moura, Baden Powell e outros, que em geral ficavam impressionados com a habilidade que Alf tinha para tocar com cifras. A discografia de Johnny Alf não chega a ser extensa, conside- rando o tempo de carreira. Ele próprio alegou que seu trabalho não interessava às gravadoras por não ser considerado comercial, e com uma postura sempre reservada não se interessava muito por popu- laridade, sempre criando e tocando comprometido com a música que gostava de fazer, independente de modismos. Além da gravação de Rapaz de Bem (1961) em 78 rpm, sua disco- grafia inclui (Bittencourt, 2006): a) Diagonal (1964) RCA LP (BMG CD – série 2 em 1); b) Johnny Alf (1967) LP, CD; c) Eu e a brisa (1968) Gold LP (MoviePlay CD); d) Ele é Johnny Alf (1971) Parlophon (EMI CD); e) Nós (1974) EMI/Odeon LP, CD; f) Desbunde Total (1978) Phonodisc LP (Warner CD); g) Olhos negros – Johnny Alf com convidados (1990) BMG LP, CD; h) Noel Rosa – Letra & Música. Johnny Alf & Leandro Braga (1997) Lumiar LP, CD; i) Cult Alf - ao vivo (1998), Natasha Records CD; j) Eu & a bossa - ao vivo (1999), Rob Digital CD; k) As sete palavras de Cristo na Cruz – com Pedro Casaldáliga, 1999 Paulinas Comep CD; l) Mais um som Bossanovologia, 2004 CD (Japão) / Guanabara Records, 2006 (Brasil). 102 AS TRANSFORMAÇÕES DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA PELAS INOVAÇÕES HARMÔNICAS DE JOHNNY ALF Eu gosto mesmo é de acordes..., de harmonia..., se eu pu- desse colocaria um acorde para cada nota da melodia! (Bittencourt, 2006, p. 32). Esta epígrafe não é por acaso, representa uma síntese do papel de Johnny Alf na transformação que o levou ao patamar dos gran- des ícones da música brasileira. Conforme já mencionado, tanto Carlos Lyra como Paulinho da Viola comentaram que Johnny Alf foi responsável por uma inovação. Segundo o dicionário Aurélio, o termo inovar significa renovar, trazer algo novo (Inovar, 2010, p. 1163), a palavra é derivada do termo latino innovatio, e se refere a uma ideia, método ou objetivo que é criado e que pouco se parece com padrões anteriores. Partindo desse princípio, teremos que buscar nos estilos anteriores os fatores elementares que configuraram uma transformação em termos de forma e estilo musicais. Segundo Sandroni (2001), de 28 de novembro a 2 de dezembro de 1962, reuniu-se no Rio de Janeiro o I Congresso Nacional do Samba, com a participação de compositores, intérpretes, sambistas, estu- diosos e amigos do samba em geral. Nesse evento, foi aprovada uma Carta do Samba com redação do folclorista Edison Carneiro, como um documento que representava um esforço para preservar as características tradicionais do samba. Música, o samba caracteriza-se pelo emprego da sínco- pa8. Preservar as características tradicionais do samba significa, portanto, em resumo, valorizar a síncopa (San- droni, 2001, p. 19). Alguns musicólogos viram na síncope uma característica defi- nidora não apenas do samba, mas da música popular brasileira em 8 Síncope ou síncopa, em música, é uma figura rítmica caracterizada pela exe- cução de som em um tempo fraco, ou parte fraca de tempo que se prolonga até o tempo forte. 103 geral. Fato confirmado também por Mário de Andrade, que afirmou que a síncope no primeiro tempo do dois por quatro é a caracterís- tica mais positiva da rítmica brasileira. Tal característica já havia sido consolidada no padrão rítmico do choro, conforme a Figura 1. Figura 1 – Padrão do ritmo do choro Ritmo totalmente cométrico, sem uso de síncopa: Ritmo contramétrico, com uso de síncopa: Ritmo característico do choro com uso de síncopa: Fonte: Sandroni (2001). Este formato, que se desenvolveu também nas composições clás- sicas de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, esteve relacionado à influência africana nas músicas de salão desde as manifestações populares anteriores ao século XX e figurou como padrão na primeira fase do samba anterior a 1930. O samba da casa da Tia Ciata, ao ganhar espaço no Estácio atra- vés dos bares e das marchas relacionadas às festas e ao carnaval de rua, passa a representar um novo paradigma rítmico, presente nas composições de Ismael Silva e Nilton Bastos (Figura 2) 12 1/ 2 2 104 Figura 2 – Paradigma do Estácio – Padrão de samba (Jura – Ismael Silva e Nilton Bastos) Fonte: Sandroni (2001). Sandroni encontrou alusões a fórmulas deste tipo nas obras de Kazadi wa Mukuna, que tratam dos elementos banto de origem africana, encontrados na música brasileira — como uma herança do lundu conforme a Figura 3. Figura 3 – Paradigma rítmico de herança lundu Fonte: Sandroni (2001). Mukuna apresenta ainda uma variação deste ritmo (Figura 4): Figura 4 – Variação do paradigma rítmico de herança lundu Fonte: Sandroni (2001). Mukuna (2000) afirma que, destes dois ritmos de samba — o herdado do lundu e o novo ciclo — o último pode ser considerado como o ritmo do samba mais representativo, especialmente em sua forma popular. O autor complementa dizendo que, no Rio de Janeiro, a divisão de tempo de 16 pulsações teria sido introduzida no samba, caracterizando assim o chamado samba carioca. Ou seja, a síncope não se estabelece padronizada dentro de um mesmo compasso, acaba por se estender em mais de um compasso, com uma liberdade rítmica mais ampla. Uma situação similar em termos de transformação rítmica pode ser encontrada na música tradicional americana de origem 105 africana. Hobsbawm (1990), em sua História social do jazz, comenta que o blues apresentava síncopes — não necessariamente similares à primeira fase do samba, mas com formação rítmica diferente — dentro do mesmo compasso. No jazz, isto se expande, obtendo a mesma liberdade, como no samba da segunda fase. Em New Orleans — considerada a primeira fase do jazz —, a presença de síncopes começou gradativamente, de forma mais sutil. Quando o jazz passa a ocupar ambientes mais amplos, como Chicago e Nova Iorque, passa também a apresentar uma abrangência maior devido ao grande poder de improvisação dos músicos. No entanto, a figura do baixo ostinato9 era constante como balanço, normal- mente acentuando duas das quatro batidas de um compasso, de modo a guiar os solistas. A seção rítmica estabelecia uma batida firme como ba- lanço, normalmente acentuando duas das quatro batidas de um compasso, mas inicialmente com pouca síncope ou sutilidade rítmica. A complexidade melódica e rítmi- ca da música surgia do inter-relacionamento de todos os instrumentos que, normalmente, improvisavam coleti- vamente, sem muita oportunidade de longas pausas ins- trumentais individuais ou solos (Hobsbawm, 1990, p. 115). Uma comparação entre o desenvolvimento da música popular e suas influências africanas, tanto na história brasileira quanto norte-americana, possibilitaria uma visão mais esclarecedora do processo de desenvolvimento de padrões rítmicos e estilos musi- cais. No entanto, um aprofundamento maior desse assunto estaria fugindo do objetivo principal deste capítulo. Ainda assim enfatizo o ponto por perceber que, entre os dois ambientes, existem elementos constitutivos que geraram afinidades entre Johnny Alf e sua iden- tificação com a música estadunidense — em especial o jazz — que pretende-se desenvolver em trabalhos futuros. 9 Em música, um ostinato é um motivo ou frase musical que é persistentemente repetido numa mesma altura. A ideia repetida pode ser um padrão rítmico, parte de uma melodia ou uma melodia completa (Kamien, 2003). 106 O processo de desenvolvimento do blues contava com uma simi- laridade com o choro, em virtude da criação e da execução coletiva. Embora houvesse a possibilidade de inserção de solos individuais no encontro de vários músicos ou cantores, a execução acabava impedindo alterações na seção rítmica da composição. Já nas inter- pretações individuais, de forma isolada e improvisada,como vários pianistas de blues e jazz, o ritmo se tornava mais livre, ficando a cargo do instrumentista uma interpretação com caráter exclusivamente personalizado, em que as apresentações subsequentes acabavam sempre com um novo formato. O próprio Johnny Alf confirma essa tendência, dizendo que em suas apresentações acabava sempre alte- rando as harmonias originais das suas composições (Bittencourt, 2006). AS INOVAÇÕES DE JOHNNY ALF Nas obras selecionadas para análise, foram encontradas variações rítmicas mais identificadas com o samba e o choro do que propria- mente com o padrão do jazz. A obra Falsete (1952), por exemplo, composta para uma das suas primeiras gravações em 78 rpm, por volta de 1953, era considerada por Johnny Alf “Um experimento de samba ou choro com recursos aprendidos no jazz” (Garcia, 1999, p. 87). A experiência com Falsete incluía uma progressão harmônica diferenciada, com ênfase na inclusão de intervalos de nona e sexta. No entanto, essa gravação estaria mais ligada ao samba com ele- mentos do jazz, no estilo dos trios instrumentais daquele período, como o King Cole Trio — formado pelo pianista norte-americano Nat King Cole — que exerceu grande influência sobre Alf, além de formações instrumentais do mesmo estilo, como as de Bill Evans e Oscar Peterson (Castro, 1990). Ao ouvir a gravação, o que chama mais a atenção do ouvinte é o salto10, apresentado por João Gilberto, e o desenvolvimento da melodia em solo de piano, construído de acordo com a base de suas composições, nas quais o canto ou a nota está relacionada com um 10 Na teoria musical, "saltos" (ou "saltos melódicos") são movimentos entre notas que não são adjacentes na escala, ou seja, quando a melodia "salta" de uma nota para outra não vizinha em termos de altura. 107 acorde propriamente dito. Há uma relação forte entre a melodia, o tempo do compasso e o acorde. A experiência com Falsete resulta do encontro de Johnny Alf com João Gilberto no início da década de 1950. Em entrevista citada por Garcia (1999), Johnny Alf comenta: No jazz o pianista, quando faz o acompanhamento, nunca toca acordes marcando os tempos: o pianista de jazz fica cercando o solista naquele prisma harmônico da música, apenas nas passagens necessárias (Johnny, 1999 apud Garcia, 1999, p. 59). A música é que o orienta e, por sua vez, ele ajuda harmonica- mente o solista. Não há uma marcação certa, regular, mas uma espontaneidade rítmica do pianista em função da harmonia. A batida da bossa nova tem justamente um pouco disso porque, no caso de um cantor que se apresenta só com o violão, ele se utiliza do instrumento como um cerco para sua voz, como o pianista e o solista de jazz. E, assim, a marcação em contratempo resulta num balanço diferente. Esse balanço não havia na música tradicional, que era muito pesada. O sincopado da bossa nova deu uma espécie de identidade ao movimento. Eu pude explicar facilmente para você, porque esse cerco era uma coisa que eu fazia: eu tinha justamente mania de harmonizar e me acompanhar não marcando, compre- ende? O João ia muito à Cantina11 e ficava horas e horas ao meu lado, me vendo tocar e se entusiasmava com o meu modo de acompanhar, isso eu me lembro bem. Cantando, ele já tinha uma divisão bem afastada do habitual e eu me sentia muito bem acompanhando ele, principalmen- te harmonicamente: o que eu fizesse, não tinha proble- ma. Dessa intimidade, pode ter se dado alguma idéia. Há muitas músicas minhas que ele sabe (Garcia, 1999, p. 59). 11 Cantina do César — de César de Alencar, onde Johnny Alf fez sua estreia profis- sional em 1952. 108 Em Falsete, o contrabaixo segue a escola jazzística, marcando os quatro tempos por igual e fraseando em convenção com a melodia tocada pelo violão. O piano de Johnny Alf apresenta três proce- dimentos adotados pela batida de João Gilberto: os acordes são tocados de forma bem econômica, o que não era comum na música brasileira, reduzindo os ataques; em algumas passagens os acordes são antecipados, procedimento também incomum na música brasi- leira; e, apesar da espontaneidade rítmica do pianista em função da harmonia, repete cercando uma melodia ritmicamente reiterativa, com desenhos sincopados que formam um padrão composto por duas células diferentes (Garcia, 1999). A composição Rapaz de bem (1953), além desse padrão rítmico desenvolvido junto a João Gilberto, apresenta variações harmônicas com características que se tornaram mais específicas relacionadas ao estilo de composição de Johnny Alf. A primeira frase, por exemplo, apresenta uma resolução IV-I no tom de Fá maior (Figura 5). Figura 5 – Trecho da composição Rapaz de bem (1953) Fonte: Adaptado de Alf (2014). Em seguida, a frase é alterada, modificando o acorde III da escala de Fá maior, reduzindo sua quinta para bemol e direcionando-se para o tom de Ré maior. Na sequência, insere uma nova progressão, levando à dominante do tom original de Fá maior (Figura 6). 109 Figura 6 – Sequência do trecho da composição Rapaz de bem (1953) Fonte: Adaptado de Alf (2014). A segunda parte apresenta sequências de V-I menor, surpreen- dendo, ao final, com uma resolução de meio-tom para a tônica de Fá maior (Figura 7). Figura 7 – Sequência do trecho da composição Rapaz de bem (1953) continua >> 110 Figura 7 – Sequência do trecho da composição Rapaz de bem (1953) conclusão Fonte: Adaptado de Chediak (1990). Estas modulações também são encontradas nas composições de jazz dos anos de 1940 e 1950, sugerindo mudanças de tonalida- des que, em geral, não ocorrem, pois na sequência produzem uma nova composição de acordes buscando a tonalidade principal. Mas trata-se de proporcionar ao solista ou ao cantor uma liberdade de movimento, em que o baixo permanece como condutor para o retorno ao tom original. A composição que conclui esse desenvolvimento harmônico, e que poderia ser considerada uma consolidação do estilo de compo- sição, é O que é amar (1953), que faz uma forte relação entre a letra e os acordes, proporcionando uma ênfase maior ao sentido da frase e o que é dito. O formato das frases aqui adquire um propósito relacionado com a mensagem, em que as alterações na harmonia reforçam o sentido das palavras, compondo uma poesia musical em paralelo, 111 na qual as pausas ou o prolongamento dos acordes complementam a emoção das palavras. A primeira frase apresenta uma sequência básica, sem alterações expressivas: I-VI-II-V7 (Figura 8). Figura 8 – Trecho da composição O que é amar (1953) Fonte: Adaptado de Alf (2013). Em seguida, ela realiza um movimento ascendente, buscando uma relação entre Dm7 e G7, como se buscasse uma resolução dessa dominante para seu tom natural, Dó maior (II-V7-I). No entanto, o arranjo surpreende com uma alteração para Sol bemol maior com sétima aumentada, de acordo com a surpresa expressa na letra, na frase "Você olhou, você sorriu...” (Figura 9). Figura 9 – Sequência do trecho da composição O que é amar (1953) Fonte: Adaptado de Alf (2016). Novamente, a composição surpreende, com um movimento similar de Am7 e D(4/7/9), sugerindo uma resolução para Sol maior (II-V7-I), e, mais uma vez, altera o percurso ao conduzir para Gm7, gerando agora um movimento descendente, inverso ao anterior (Figura 10). 112 Figura 10 – Sequência do trecho da composição O que é amar (1953) Fonte: Adaptado de Alf (2016). E, mais uma vez, na suposta dominante A7 (b9), frealiza o mesmo procedimento, direcionando-se para Ré menor. Em seguida, inicia um novo movimento para G7, sugerindo ir para Dó maior, mas nova- mente surpreende, agora com Mi menor (Figura 11). Figura 11 – Sequência do trecho da composição O que é amar (1953) Fonte: Adaptado de Alf (2016). Em novo movimento similar, surpreende com um Sol bemol com sétima e décima terceira, se mantendo por algum tempo e prolon- gando a frase final (“quero você!”) (Figura 12). 113 Figura 12 – Sequência do trecho da composição O que é amar(1953) Fonte: Adaptado de Alf (2016). Na segunda parte da música, para concluir a sensação da letra, o arranjo produz uma sequência de acordes no estilo jazzístico, em movimento harmônico com saltos improváveis, provocando uma sensação de perda de tonalidade — em consonância com a conclusão da letra e a resposta à pergunta O que é amar — mas finalizando com uma resolução IV-I (Figura 13). Figura 13 – Sequência do trecho da composição O que é amar (1953) continua>> 114 Figura 13 – Sequência do trecho da composição O que é amar (1953) conclusão Fonte: Adaptado de Chediak (1990). Esse diálogo entre a letra e a harmonia passou a se estabelecer nas composições seguintes de Johnny Alf como uma identidade musical forte e cada vez mais surpreendente, funcionando como uma marca registrada, cuja presença pode ser facilmente verificada em dois de seus maiores sucessos: Céu e mar (1953) e Eu e a brisa (1968), esta a mais conhecida. Além disso, um aspecto importantíssimo das suas composições é a ausência de refrão, característica presente nas 115 gerações anteriores do samba como forma de memorizar a mensa- gem principal da música. E a geração mais evidente da bossa nova — que já havia tido contato com seu trabalho profissional nas boites dos hotéis de Copacabana — como Carlos Lyra, Milton Mendonça, Roberto Menescal, João Gilberto e, mais especificamente, Tom Jobim, passou a utilizar esses padrões de forma contínua nas composições a partir de 1959, composições que consolidaram o movimento musical que se tornou a marca registrada da música popular brasileira mais disseminada internacionalmente. Alguns exemplos podem ser citados com forte similaridade em relação a esses padrões harmônicos. A composição Dindi (1959), de Tom Jobim, apresenta variações de tonalidade de acordo com o sentido da letra, dando ênfase à frase e retornando ao tom princi- pal, numa resolução que surpreende no mesmo estilo de Johnny Alf (Figura 14). Figura 14 – Trecho da composição Dindi (1959) Fonte: Adaptado de Jobim (2014a). Outra composição que também apresenta uma característica do estilo de Alf — as mudanças de acordes dando ênfase a uma, duas ou três palavras — é a composição Demais, de 1959, também de Tom Jobim, em parceria com Aloysio de Oliveira (Figura 15). 116 Figura 15 – Trecho da composição Demais (1959) Fonte: Adaptado de Jobim (1959). A composição Meditação (1959), de Tom Jobim e Newton Men- donça, igualmente apresenta sequências de acordes que, em geral, fogem do tom regular e movimentos de semitons vinculados às frases ou às palavras (Figura 16). Figura 16 – Trecho da composição Meditação (1959) continua>> 117 Figura 16 – Trecho da composição Meditação (1959 conclusão Fonte: Adaptado de Jobim (2014b). Os padrões podem variar de composição para composição, depen- dendo muito do que a frase pretende alcançar, seja uma mudança para um tom menor ou um salto para uma quarta ou sexta aumen- tada. Essas súbitas alterações tonais acabam permitindo ao cantor utilizar uma variação mais ampla na forma de cantar, prolongando frases ou sílabas com maior liberdade. Esta é uma das características mais marcantes de Johnny Alf nas suas interpretações, e que está presente em diversas canções do período de maior concentração da bossa nova, de 1960 a 1966, não somente nas composições de Tom Jobim, como também nas de Roberto Menescal, Carlos Lyra, Marcos e Paulo Sérgio Valle. Um dos pontos mais encon- trados nas inovações apresentadas é a dominante alterada com nona bemol e quinta aumentada, que em geral promove um movimento de resolução tanto para um tom maior quanto menor, dando um novo sentido ao canto — seja por meio de utilizando acordes em bemol, bus- cando uma nova dominante, ou um intervalo de semitom ascendente para resolver na tônica original. Além disso, a composição utiliza frequentemente alterações na quarta ou décima primeira para sustenido quando pretende subir um meio tom para uma próxima frase, diferenciando-a do contexto geral, mas da mesma forma buscando uma dominante ou outro intervalo de semitom ascendente para resolver na tônica. O movimento de dominante com as alterações citadas altera o tom original para o modo menor, homônimo. Com isso, muda o contexto geral, se movimentando para a relativa bemol. A música 118 cresce, surpreende e dá ênfase à nova frase, para depois buscar, em movimentos de quintas, uma nova resolução entre um acorde menor, seguido de um acorde de dominante com nona bemol e quinta alterada, resolvendo na tônica principal. Os acordes principais que também caracterizam as inovações por ele inseridas na música popular — e que provocam dissonâncias significativas, dando forma e sentido à melodia — são os acordes no modo maior com sétima maior e acordes com sétima e décima terceira, facilmente identificáveis nas composições Rapaz de bem (1953) e O que é amar (1953). O que se tornou típico em qualquer composição do período da bossa nova é o acorde maior com sétima maior e nona, a dominante com nona bemol e quinta aumentada, permitindo a liberdade para resol- ver em tom maior ou menor, e a dominante com a décima terceira no acorde e na melodia, resolvendo numa tônica maior com sétima maior. Esses movimentos se transformaram em padrões frequentes — para não dizer comuns — na bossa nova, que se caracterizaram como padrões, ou standards, a exemplo do que ocorria no jazz, e consoli- dando-se como células harmônicas que constituíram a identidade da música brasileira, especificamente da bossa nova. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao analisarmos a trajetória de Johnny Alf, podemos perceber que o desenvolvimento de um estilo próprio de composição na música popular decorre de um processo em que o ambiente social exerce influência determinante para gerar tendências, para proporcionar a liberdade de criação e a experimentação. Esse processo tem início no ambiente familiar, em geral na for- mação técnica básica e, à medida que se desloca e amplia o espaço de atuação de acordo com as afinidades e desejos, passa a trilhar um caminho particular em busca da construção de uma identidade musical própria. Tal processo cognitivo pode ser observado em nomes consagrados da história da música brasileira, como o Padre José Maurício Nunes Garcia, no século XIX, em seu desenvolvimento durante a presença 119 da corte portuguesa no Brasil; Ernesto Nazareth, em suas criações ao piano no choro, no maxixe, no tango brasileiro e na polca; Chi- quinha Gonzaga, em sua integração com a cultura afro-brasileira; Villa-Lobos, ao atravessar experiências com a cultura indígena, entre outros. O conhecimento musical passa a abranger um universo de possibilidades distante de um ambiente educacional formal restrito à teoria e à prática musical, mais voltado para a possibilidade de ouvir muito, experimentar dissonâncias e movimentos harmônicos que proporcionavam certa satisfação ao serem executados, o encontro com outros músicos e a apreciação do público. A chamada música diferente (1974), conforme comentada inicial- mente por Paulinho da Viola, Carlos Lyra e Alaíde Costa, foi fruto de todo um processo de busca para não ficar num lugar comum, não se estabelecer como um padrão estético similar ao que já ocorria na transição das décadas de 1940 e 1950. Identificamos neste capítulo como as inovações harmônicas estão fortemente relacionadas com mudanças na forma de ser e de posicionar-se como um artista, conforme os anseios primordiais que constituem um dos principais fatores de transformação nas premissas de Elias (1995). As publicações encontradas em livros fazem breves comentários sobre Johnny Alf e suas composições mais conhecidas. A única obra encontrada com referencial mais elaborado foi a dissertação de Bit- tencourt (2006), mas com um foco dividido também com João Donato. Abre-se um espaço amplo para futuras pesquisas, principalmente com relação à fase madura, a partir da década de 1960, com as com- posições quese tornaram referenciais obrigatórios, como Ilusão à toa (1961), que recebeu interpretação inigualável de Gal Costa, Nós (1962), com a veia jazzística de Leny Andrade, Quem sou eu (1965), com a voz poética de Alaíde Costa, e Eu e a brisa (1967), que obteve a adesão da interpretação de vários artistas da música popular brasileira, sendo um dos maiores sucessos da carreira de Johnny Alf. Estas composições apresentam uma forma de construção com resolução de intervalos mais precisos e dentro de um conceito harmônico mais amadurecido. A partir da percepção dos artistas do meio em que conviveu, Johnny Alf acabou se sentindo impulsionado a se fixar num 120 processo de construção constante, sem jamais abandonar seu estilo de compor. Manteve-se afastado dos processos comerciais que dominavam e direcionavam a produção musical na fase final do rádio e, em seguida, na bossa nova, permanecendo numa car- reira mais contida, o que contribuiu para o fortalecimento da sua identidade musical. A arte como um retrato da evolução do homem em sociedade através dos tempos permanece em constante transformação e retrata novas descobertas. Além de proporcionar inovações na música da década de 1950, a geração da bossa nova pôde também produzir inú- meras obras de referência que tornaram a música brasileira conhe- cida e apreciada fora do país, ao mesmo tempo em que gerou novos nomes de expressão em harmonia e arranjo. Além de Tom Jobim, destacam-se personalidades como Carlos Lyra, Luiz Eça, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Edu Lobo, Francis Hime, Dorival Caymmi, Baden Powell, João Donato e Oscar Castro Neves. Neste contexto, cada personagem desse período torna-se um poten- cial objeto de pesquisa, dada a riqueza desenvolvida em harmonia, arranjo e ritmo. Os principais aspectos desse processo de desenvolvi- mento musical também abrem outras possibilidades investigativas. Por fim, pode-se considerar que a influência das formas estrutu- rais do jazz nas composições de Johnny Alf permite análises mais aprofundadas dos elementos constitutivos que geraram afinidades com a cultura africana e seu papel determinante nas bases rítmicas e no desenvolvimento harmônico, sempre considerando o contexto social e a inserção do negro africano na vida urbana. 121 Referências ALF, J. O que é amar. [S. l.: s. n.], 2016. 1 partitura. Disponível em: https://www.superpartituras.com.br/johnny-alf/o-que-e-amar. Acesso em: 21 fev. 2021. ALF, J. Rapaz de bem. [S. l.: s. n.], 2014. 1 partitura. Disponível em: https://www.superpartituras.com.br/johnny-alf/rapaz-de-bem. Acesso em: 21 fev. 2021. 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TINHORÃO, J. R. História social da música popular brasileira. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996. 125 SOBRE DISPERSAR NEGROS A PAULADAS E A FILOSOFIA HIGIENIZADA: A COEXISTÊNCIA ENTRE O RACISMO E A POLÍTICA EM KANT Pedro Augusto Pereira Gonçalves Capítulo 5 126 127 Os índios massacrados, o mundo mulçumano esvaziado de si próprio, o mundo chinês maculado e desnaturado durante um bom século; o mundo negro desqualificado; vozes imensas extintas para todo o sempre; lares desfei- tos; todo este esfrangalhamento, todo este desperdício, a humanidade reduzida ao monólogo e credes que isto não se paga? (Césaire, 1978, p. 65). AS LUZES BRANCAS DO ESCLARECIMENTO A filosofia é conhecida comumente por ser dotada da capacidade de trazer em seu discurso ideias que permitem aos homens eman- cipar-se de preconceitos e alcançar o esclarecimento através das severas reflexões que é capaz de fazer. Assim, espera-se das pessoas que se aventuram nos discursos filosóficos e suas incontáveis páginas e livros que possam dar conta de problemas do mundo real a partir dos grandes pensadores. Falo em mundo real, porque muitas vezes a filosofia se retirou dele, encerrando-se num determinado tipo de razão absoluta dos homens para pensar suas questões, esquecendo-se do chão onde pisam — a filosofia sem mundo, pura e neutra. Entre- tanto, nessa saída estratégica autocentrada, a filosofia foi capaz de promover discursos que estão muito longe de garantir a diversidade da vida, a pluralidade de existências e conhecimentos. Logo, o que temos, ao estudar os cânones filosóficos e, principalmente, tendo em vista a presença, os afetos e a vivência no mundo real, é um verdadeiro descompasso. Não há como andar junto com o discurso colonial eurocêntrico da filosofia sem, de posse das vivências do mundo, fazer uma crítica de suas influências e resultados. Portanto, como pode ser possível tentar dar solução a alguns dos problemas do mundo a partir da filosofia se pode ser ela a origem dos mesmos? Um destes problemas, e que ousamos dizer ser o mais grave deles, sobretudo no mundo brasileiro, é o racismo. Diariamente, somos 128 confrontadas e confrontados com estatísticas1 que colocam à nossa cara o quão violenta e desigual é nossa sociabilidade, que mata jovens marginalizados por serem negros, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, indígenas e, principalmente, pobres.Entretanto, na filosofia que ainda está flutuando para fora do mundo, é comum ler-se filósofos da envergadura de Immanuel Kant — conhecido como um dos pais dos direitos dos homens — e não atentar, diante das suas passagens textuais racistas, para o problema que atinge diretamente os oprimidos, que, nas palavras de Santos (2010, p. 60), “No mundo em que vivem, as consequências vêm sempre primeiro que as causas”. Munidos tanto das reflexões do mesmo pensador português ,quando fala das disciplinas abissais2 e seus efeitos no mundo real quanto de Frantz Fanon — que declara ser o racismo uma chaga da humanidade e que, não contentes com essa frase, devemos “[...] procurar incansavelmente as repercussões do racismo em todos os níveis de sociabilidade” (Fanon, 1980, p. 78) —, nos interessamos por uma dessas possíveis causas à medida que tentamos responder a Kant e seu racismo filosófico, quando nos faz uma pergunta nas linhas finais de sua aclamada Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita, a saber: “[...] como nossos descendentes longínquos irão arcar com o fardo da história que nós lhes deixare- mos depois de alguns séculos” (Fanon, 1980, p. 79). Assim, este estudo pretende investigar a noção do racismo em Kant como parte fundamental de seu sistema filosófico, sobretudo à luz da política e da moral, afastando uma contra-argumentação bastante recorrente de que sua teoria racista é apenas um desvio ou preconceito de época — do tipo “Kant, homem de seu tempo”. Ora, se o autor viveu no mesmo período em que pessoas negras africanas eram escravizadas em favor das benesses civilizatórias europeias, das quais ele mesmo foi beneficiário, não há anacronismo possível aqui, pois este expediente odioso da escravização foi sustentado por bases econômicas e socialmente racistas. Pela análise de alguns 1 Apenas para citar uma das mais contundentes, ver Mapa da Violência de 2012: a cor dos homicídios no Brasil (Waiselfisz, 2012). 2 Para uma maior discussão sobre o pensamento abissal, ver Santos (2010). 129 de seus textos canônicos, tais como À paz perpétua, Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita e Antropologia de um ponto de vista pragmático — bem como de dois ensaios sobre a questão da raça (1785-1788) — é possível perceber um problema da coexistência que, conforme Bernasconi (2003, p. 14), pode ser encarado quando: [...] o racismo, que é evidente nesses ensaios, bem como nas suas leituras em antropologia e geografia física, qua- se nunca foram relacionados com sua teleologia, filosofia moral ou o ensaio sobre a história universal, apesar da pergunta óbvia que eles levantam: como poderia seu ra- cismo coexistir com seu universalismo moral? Motivados pela problemática da coexistência entre o racismo e o universalismo moral, pretendemos analisar como Kant desenvolve sua teoria moral-política a partir das suas definições de raça e seus desdobramentos posteriores. Nossa hipótese interpretativa consi- dera que a universalidade moral só pode existir na medida em que opera a exclusão dos outros seres humanos que resistem, em muitos casos, ativa e resolutamente, à inscrição numa comunidade cosmo- polita. As condições universais de reconhecimento da humanidade de outrem só se afirmam e se validam, assim, na medida em que outrem preencha os requisitos do que seja a humanidade forjada por Kant e pela tradição ocidental europeia moderna. OS ANTIGOS COMPANHEIROS E A ALIANÇA POLÍTICA PÓS-ESPECISMO O projeto de emancipação, elevação e primazia do homem sobre todas as coisas ganha seu pleno estabelecimento e vigência na filoso- fia kantiana, determinando uma ideologia racional que visa colocar o humano no centro do conhecimento. Este processo de antropo- centrismo está apoiado no projeto de disciplinarização humana pela educação. Assim, segundo Kant (1999, p. 12), “A disciplina transforma a animalidade em humanidade”, uma vez que “Os animais cum- prem o seu destino espontaneamente e sem o saber. O homem, pelo 130 contrário, é obrigado a tentar conseguir o seu fim [...]" (Kant, 1999, p. 18) para impedir que, mais uma vez, “[...] a animalidade prejudique o caráter humano” (Kant, 1999, p. 25). E que fim é esse? Justamente o de elevar-se acima do mundo, transcender mediante o conhecimento e progredir moralmente: tornar-se o sujeito cosmopolita. Proceder de tal modo, conforme Kant (2009, p. 415), é “[...] tratar o homem, que é mais que uma máquina, conforme sua dignidade”. A dignidade humana, portanto, começa a ser traçada na medida em que acontece a separação total entre os animais que têm “[...] um germe [Keim] da razão” (Kant, 2012b, p. 6) e os que não o têm. Esse germe faz com que os animais racionais se elevem, literalmente, da posição quadrúpede para a bípede, pois, sendo os humanos destina- dos à sociedade, a última disposição fisiológica no espaço é “[...] mais apropriada para essa destinação” (Kant, 2012b, p. 6). Da elevação literal e física, há a elevação racional, pois a primeira só acontece porque foi impulsionada pelos dispositivos racionais. Assim, atesta-se o fato, marcado pelo especismo, de o ser humano “[...] ter levantado sua cabeça tão orgulhosamente acima dos seus antigos companheiros”3 (Kant, 2012b, p. 6). No prefácio de sua obra Antropologia de um ponto de vista prag- mático (2006), Kant inscreve no homem o próprio mundo, delimi- tando o conceito de homem de razão. Assim, Kant (2006, p. 21, grifo nosso) define o estatuto do conhecimento do mundo relativamente ao próprio conhecimento do ser humano enquanto espécie: Conhecer, pois, o ser humano segundo sua espécie, como ser terreno dotado de razão, merece particularmente ser chamado de conhecimento do mundo, ainda que só constitua uma parte das criaturas terrenas. Deste modo, apesar da diversidade de existências que coexistem na experiência, somente o conhecimento das coisas mediado pelos 3 “Todos os progressos na civilização, pelos quais o homem se educa, têm como fim que os conhecimentos e habilidades adquiridos sirvam para o uso do mundo, mas no mundo o objeto mais importante ao qual o homem pode aplicá-los é o ser humano, porque ele é seu próprio fim último” (Kant, 2006, p. 21, grifo nosso). 131 homens é capaz de promover o real conhecimento do mundo. Assim, o fim mesmo do caráter humano é o conhecimento de si, ou seja, o conhecimento pragmático, uma vez que nele se apresentam as regras para a ação com vistas à finalidade moral que são legitimadas pelo entendimento: Que o ser humano possa ter o eu em sua representação, eleva-o infinitamente acima de todos os demais seres que vivem na terra. É por isso que ele é uma pessoa, e uma e mesma pessoa em virtude da unidade da cons- ciência em todas as modificações que lhe possam su- ceder, ou seja, ele é, por sua posição e dignidade, um ser totalmente distinto das coisas , tais como os animais irracionais, aos quais pode mandar à vontade, porque sempre tem o eu no pensamento, mesmo quando ainda não possa expressá-lo, assim como todas as línguas têm de pensá-lo quando falam na primeira pessoa, ainda que não exprimam esse eu por meio de uma palavra especial. Pois essa faculdade (a saber, a de pensar) é o entendi- mento (Kant, 2006, p. 27, grifo nosso). Na segunda parte da Antropologia, Kant aborda a questão de como conhecer “[...] o interior do homem pelo exterior” (Kant, 2006, p. 197), uma vez que aparece a argumentação kantiana sobre o caráter do humano e como esse conceito perfaz o projeto moral e político em vias de desenvolvimento em seu sistema filosófico. Kant (2006, p. 187-188, grifo nosso) é categórico ao afirmar que o caráter é índole moral: Ter pura e simplesmente um caráter significa ter aquela qualidade da vontade segundo a qual o sujeito se obriga a seguir determinados princípios práticos que prescreveu inalteravelmente para si mesmo mediante sua própria razão [...]. Aqui não importa o que a natureza faz do serhumano, mas o que este faz de si mesmo [...]. 132 Assim, o caráter tem um valor superior às demais características da pessoa, uma vez que se constitui pela soma do temperamento, talento e o próprio caráter. Quanto mais se persegue o fim que se impõe a si mesmo, mais conforme ao caráter humano o indivíduo se encontra. Porém, o ponto crucial para entender o motivo pelo qual ape- nas alguns humanos podem ter um pleno caráter é que este só se desenvolve nos indivíduos que, mediante o uso de suas faculda- des racionais, agregam-se em comunidades políticas orientadas e organizadas num determinado padrão legal de direito. Afinal, é a partir do caráter individual que se forma o caráter de um povo e, por conseguinte, de um Estado, culminando, por fim, no caráter da espécie humana. Para Kant (2006, p. 216, grifo nosso), o animal que é dotado de razão, ao perseguir o aperfeiçoamento moral segundo fins específicos, torna-se um animal racional: Nada mais nos resta a não ser afirmar que ele tem um caráter que ele mesmo cria para si enquanto é capaz de se aperfeiçoar segundo os fins que ele mesmo assume; por meio disso, ele, como animal dotado da faculdade da razão (animal rationable), pode fazer de si um animal racional (animal rationale). Assim, só é possível ter um caráter pleno inscrevendo-se em uma comunidade política sob a forma de um Estado. De saída, a mesma clivagem que operava na distinção entre humanos e animais aparece aqui diferenciando os humanos. Isto quer dizer que a história, “[...] que de certo modo tem um fio condutor a priori” (Kant, 1986, p. 23), consegue dar conta de diversos exemplos nos quais se pode observar a progressão de certos povos, uma vez que estão organizados à luz do direito constitucional. Na quarta proposição da Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita (1986), Kant diz que o seio desta progres- são moral — que é a comunidade cosmopolita dos homens — é a cultura, sendo esta o valor social dos mesmos. No interior da cultura, os homens dão início: 133 [...] através de um progressivo iluminar-se (Aufklärung), a fundação de um modo de pensar que pode transformar, com o tempo, as toscas disposições naturais para o dis- cernimento moral em princípios práticos determinados e assim finalmente transformar um acordo extorquido patologicamente para uma sociedade em um todo mo- ral (Kant, 1986, p. 13-14, grifo nosso). Logo, o que precisa acontecer neste esforço moral é o abandono das inclinações individuais — morada de inúmeros conflitos e guer- ras —, e uma conversão à unificação. Melhor exposto nas palavras de Kant (1986, p. 17): Sair do estado sem lei dos selvagens para entrar numa federação de nações em que todo Estado, mesmo o menor deles, pudesse esperar sua segurança e direi- to não da própria força ou do próprio juízo legal, mas somente desta grande confederação de nações de um poder unificado e da decisão segundo leis de uma von- tade unificada. Portanto, somente os povos que estão congregados em uma comunidade civil orientada por contratos sociais, sobretudo nos termos de uma constituição civil, estão de acordo com a natureza do progresso moral. Aqueles que não se encontram nessas condições, a saber, os selvagens, a todo tempo estão em estado de barbárie e guerra. Assim, nos povos ditos civilizados, as ciências, a arte, a filosofia e todo o tipo de característica que orienta as comunidades do esclarecimento terá chance de se desenvolver, pois ali se encon- trará “[...] o germe do Iluminismo que, desenvolvendo-se mais a cada revolução, preparou um grau mais elevado de aperfeiçoamento” (Kant, 1986, p. 23). No esforço de afastar a inclinação do estado de natureza humana, quando deixada à deriva no mar, da não organização sem leis, tem-se o estado contínuo de guerra e desacordos, como considera Kant (2010, p. 31-32) no segundo artigo definitivo para a paz perpétua: 134 Assim como olhamos com profundo desprezo o apego dos selvagens à sua liberdade sem lei de preferir brigar incessantemente a submeter-se a uma coerção legal a ser construída por eles mesmos, por conseguinte pre- ferindo a liberdade insensata à racional, e os considera- mos estado bruto, grosseria e degradação animalesca da humanidade, deveríamos pensar que povos civilizados (cada um unido em um Estado) teriam de apressar-se a sair o quanto antes de um estado tão abjeto. Deste modo, o direito recebe o estatuto de “[...] disposição moral ainda maior” (Kant, 2010, p. 33) na medida em que tem a técnica de estruturar os indivíduos e conduzi-los à teleologia moral, con- forme as leis. Mas o que faz com que os selvagens permaneçam num estado de liberdade sem leis? Por que diferentes formas de vida que não as que se encaixam nos padrões de convergência ao Estado caem, nas palavras de Clastres (1968, p. 79), “[...] no campo insuportável do desatino” e estão, de certa forma, relegadas ao obscurantismo no qual a razão somente pode chegar através da ação exterior, sobre- tudo na técnica de colonização dos que primeiro alcançaram o estado-moral-razão? Como pode existir uma universalidade moral dos homens frente à exclusão de sistemas de vida que resistem ao domínio cosmopolita? É justo para com a diferença entre os povos afirmar uma universalidade do humano? A DISTINÇÃO INTERNA NA UNIVERSALIDADE DA ESPÉCIE HUMANA Ao escrever Determinação de um conceito de uma raça humana (2012), Kant visa lançar as bases para as discussões do que ele imagi- nava ser o estatuto da diferença entre os seres humanos. Uma vez que os relatos de viagem que chegavam até a cidade — civilização — causavam, segundo Kant, mais dúvidas do que esclarecimentos ao entendimento em relação à multiplicidade do gênero humano. Nosso filósofo quer, através da retidão da razão, determinar “[...] o 135 conceito, que se quer esclarecer por meio da observação, antes que se interrogue a experiência por sua causa” (Kant, 2012a, p. 28). Kant propõe que, apesar e para além das diferenças regionais que se encontram nos indivíduos — geralmente as marcas corporais que o ambiente proporciona, a saber, condições climáticas e seus efeitos na cor de pele — existem, essencialmente “[...] quatro diferentes clas- ses de homens em vista da cor de pele” (Kant, 2012a, p.30), que são: os brancos, os indianos amarelos, os negros e os americanos de pele vermelho-cobre. Tendo em vista a passagem da Antropologia na qual Kant (2006, p. 223) pontua que “[...] o caráter de um ser vivo é aquilo a partir do qual se pode reconhecer de antemão a sua destinação”, o caráter está intimamente relacionado à finalidade de cada classe. Destacamos aqui o começo do compromisso kantiano de, a partir das distinções entre raças humanas, conceber a melhor delas, isto é, aquela que desenvolve à perfeição as qualidades próprias ao gênero humano. A fim de afastar o que Kant (2012a, p. 36) toma por “[...] história de fantasmas ou feitiçarias”, o que determina tais mudanças no gênero humano está inscrito em “[...] germes e predisposições dispostas no próprio gênero” e não nas especulações fantasiosas da imaginação que promoveriam certa degradação do caráter. Kant (2012a, p. 36) então se pergunta: O que mais pode ser a causa disso senão que elas [as quatro diferenças de cor] têm de ter estado nos germes do tronco originário (que nos é desconhecido) do gênero humano, quer dizer, como predisposições naturais que eram necessárias à preservação do gênero, ao menos na época inicial de sua proliferação, e, por isso, tinham de ocorrer infalivelmente nas gerações seguintes? Portanto, o que pode começar a explicar a variação das quatro classes está inscrito no âmbito de uma regressão originária das mesmas, ou seja, no tronco do qual saíram. Deste tronco originá- rio [ersten] partem quatro troncos subsidiários e diferentes entre si que passam seu caráter aos descendentes através, necessaria- mente, da hereditariedade. Todavia, na apresentação dosindivíduos 136 — sobretudo naqueles descendentes de miscigenação, chamados por nosso autor de híbridos —, é possível observar certas heranças das características distintas de cada classe, provenientes do cruzamento entre elas. Sendo assim, Kant (2012a, p. 37) afirma que “[...] apenas aquilo que é infalivelmente hereditário, na diferença de classes do gênero humano, pode justificar a designação de uma raça humana particular” e segue sua argumentação definindo o conceito de raça: Ficam estabelecidos confiáveis fundamentos de dife- renciação, segundo os quais nós podemos dividir o gê- nero humano em classes, que então, devido ao primeiro ponto, a saber, à unidade do tronco, não podem de forma alguma se denominar espécies, mas tão-somente ra- ças. A classe dos brancos não se diferencia da dos pretos como espécie particular no gênero humano; e não há es- pécies diferentes de homens. Desta maneira, a unidade do tronco, da qual elas poderiam ter se originado, seria negada; para o qual não se tem qualquer razão [Grund], ao passo que se tem uma razão muito importante para o contrário, como foi demonstrado pela infalível heredita- riedade dos seus caráteres de classe. Portanto, o concei- to de uma raça é: a diferença de classe dos animais de um mesmo tronco, na medida em que ela é infalivelmente hereditária (Kant, 2012a, p. 38, grifo nosso). Logo, na caracterização de um conceito de raça humana, Kant determina que o gênero humano não varia. Trata-se do mesmo, pois relega aos demais indivíduos o mesmo padrão, a saber, a espécie ser humano. O que varia no interior do gênero humano — ou seja, a espécie humana — são tão somente as raças, disposições oriundas do tronco originário e dele se originando os quatro secundários que carregam em si os germes das classes que estão relacionadas aos contextos ambientais, sobretudo marcadas pela passagem hereditária da cor de pele. Este traço que se pode observar em diferentes povos é a marca distintiva entre os quatro troncos e o que determina o caráter específico de cada uma de acordo com a localização espacial: 137 Pois, a natureza deu a cada tronco o seu caráter original- mente em referência ao seu clima e a fim de adequar- -se ao mesmo. [...] Somente se admitirmos que as pre- disposições para todas essas diferenças de classe têm necessariamente de ter estado nos germes de um único tronco primitivo [ersten], a fim de que ele fosse apto ao progressivo povoamento de diferentes regiões do mun- do, torna-se possível compreender por que, quando es- sas predisposições se desenvolveram ocasionalmente e em conformidade com esse tronco também em diferen- tes formas, originaram-se diferentes classes de homens [...] (Kant, 2012a, p. 36-37, grifo nosso). Aqui, portanto, aparece a adequação pela letra de Kant entre a geografia física com seus aspectos climáticos diversos e a antro- pologia dos povos inscritos nestas diferentes regiões. Para nosso autor, são as condições climáticas que também fazem com que cada raça, disposta em diferentes partes do planeta, possa se dis- tinguir entre si, formando classes diferentes de homens, sendo tanto melhor se essas diferenças não se cruzarem, evitando o hibridismo. Entretanto, permanece a importância de se notar que as diferenças internas ao tronco originário são o fundamento para a divergência entre os homens porque é de caráter necessariamente hereditário. A diferença é real nos termos biológicos e, conforme Mills (2005), ontológica. Após dizer da necessidade da transmissão hereditária do caráter de cada classe — caráter este que está relacionado ao gênero humano — existem qualidades que, apesar de hereditárias, não pertencem ao caráter da espécie. Tal marca distintiva entre os povos, situada para além das diferenças físicas e geográficas, é engendrada pela educação, pois é ela que tem por função assegurá-la e transmiti-la às seguintes. Kant (2012a, p. 32, grifo nosso) usa o exemplo de tais qualidades nos brancos, sua gente de pertença, e diz que: Entre nós brancos há muitas qualidades [Beschaffenhei- ten] hereditárias, que não pertencem ao caráter da espécie, 138 pelas quais se diferenciam famílias e mesmo povos uns dos outros; porém, nem mesmo uma única delas é infa- livelmente [unausbleiblich] assimilada [anartet]; mas, apenas aqueles que estão comprometidos com essas qualidades geram, com outros da classe dos brancos, crianças que carecem dessa qualidade diferenciadora. Fica evidente que todos os outros que não passam pelos proces- sos educacionais/disciplinares orientados pelos ditames da razão e forjados pelos brancos-europeus-ocidentais, necessariamente não darão o salto emancipador do parentesco com os animais irracionais: de certo modo, procederão como eles. Kant (1999) acrescenta importantes pontos na sua exposição sobre o conceito de raça, desta vez na forma de uma breve disser- tação chamada Sobre o uso de princípios teleológicos na filosofia. Nesse texto, há uma distinção que lhe é cara para bem fundamentar o conhecimento sobre a natureza das coisas conforme seu projeto filosófico. Mas, antes, no "Apêndice à dialética transcendental" de sua Crítica da razão pura (1787), ele já havia argumentado que o entendimento humano pode conhecer as coisas porque, antes, a razão produz em seu interior certa ordenação a priori dos objetos apreendidos pela sensibilidade (Kant, 2015). Portanto, há uma completa admissão de um princípio racional que organiza todos os fenômenos numa determinada ordem e guia o entendimento. Com isto, somos capazes de produzir o conhecimento das coisas do mundo. Entretanto, esse conhecimento não é absoluto, pois a razão é dotada de um limite.4 4 Numa síntese que pretende condensar ao máximo a tese kantiana do uso regulativo das ideias da razão pura, tal qual aparece na Crítica da razão pura, podemos afirmar que o sujeito está posto no centro de toda a significação das coisas do mundo empí- rico a partir de sua razão que, por sua natureza, é lançada às questões que fogem às suas possibilidades. Ainda assim, a razão encontra um ordenamento em duas vias: primeiramente, determinando os objetos que, pela via da sensibilidade, se apresentam à faculdade do conhecimento e assim, por síntese e ato espontâneo, agrupam-se pelo entendimento. Em um segundo momento, a partir da disposição em pensar os objetos a priori — sem significação empírica —, a razão projeta a ideia de um artífice divino, um ordenador que impõe uma unidade sistemática do mundo a partir dos conhecimentos já sintetizados pelo entendimento. 139 Para Kant, este é “[...] um método de pensar antes da determi- nação do objeto” (Kant, 2013, p. 216) e é fundamental, pois estipula “[...] previamente um princípio tal que dirija a observação a uma história da natureza que por aí se promove, em contraste com a simples descrição da natureza” (Kant, 2013, p. 217, grifo nosso). Toda a discussão sobre a espécie humana, assim: [...] poderia, em um sistema da história da natureza, ser dividida em tronco (ou troncos), raças ou derivações (progenies classificae) e diferentes tipos humanos (va- rietates nativae), esses últimos não contendo traços característicos perduráveis que se transmitam segundo uma lei indicada, portanto, seriam também insuficien- tes para uma divisão de classe. Tudo isso, porém, é uma simples ideia do modo como a maior multiplicidade na geração é unificada pela razão com a maior unidade da origem em uma linhagem (Kant, 2013, p. 217, grifo nosso). O regime de raça é uma característica epistemológica no interior da história da natureza, uma ciência que se organiza mediante emprego do princípio teleológico, constituído por “[...] um fim estabelecido pela razão para seu propósito” (Kant, 2013, p. 216). Propósito este que não só perpassa a mera ordenação de observações sem um fim estabe- lecido, mas conduz todas as investigações desta ciência, portanto. Passado o alerta epistemológico fornecido por Kantno horizonte da discussão sobre as raças e apoiado na hipótese das causas finais e na observação que a raça é uma característica hereditária perdu- rável, Kant (2013, p. 221) afirma que a raça “[...] autoriza a divisão em classes”. Há, portanto, dois aspectos que caracterizam a universali- dade constitutiva do ser humano em Kant, pois são necessariamente perduráveis através da hereditariedade, a saber, “[...] a característica herdada que não é partilhada com uma linhagem comum de ori- gem” (Kant, 2013, p. 222), sendo o gênero e a espécie, como a raça, intrínsecos a cada uma, seu caráter determinado. Tendo em vista que o caráter de cada indivíduo é, tão melhor, apresentado conforme a instituição e perseguição de certos fins que 140 se realizarão de forma plena no interior dos Estados, a raça que foi capaz de produzir o Estado tem, necessariamente, mais disposição de caráter. Esta é uma marca distintiva fundamental, uma vez que “[...] não se ajuíza a diferença das raças conforme aquilo que nelas é igual, mas de acordo com o que nelas é diferente” (Kant, 2013, p. 227). E toda a diferença que distingue cada uma das quatro raças kantianas (brancos, indianos, negros e americanos) pode ser também atestada no fator geográfico, pois, segundo Kant (2013, p. 228): [...] o desenvolvimento das disposições orientou-se de acordo com os lugares [...] [ao] proporcionar a um povo, que tinha um lugar permanente, a influência do clima e do solo requerida para o desenvolvimento de suas dis- posições adequadas aos mesmos. Essa disposição, conforme fatores geográficos, determina a dife- renciação das raças que antes poderiam se supor no começo do povoamento da Terra, mas que também se faz presente na contem- poraneidade kantiana. Em diversas partes das obras utilizadas neste trabalho encon- tramos passagens que são carregadas de considerações racistas. Por exemplo, quando Kant (2013, p. 231), em Sobre o uso de princí- pios teleológicos na filosofia, reafirma as posições do viajante Dom Ulhoa, ao conhecer os povos americanos nos dois continentes, colocando que: [...] sua índole natural não alcançou nenhuma adequação completa a um clima qualquer, disso deixa-se também deduzir que dificilmente pode ser indicada uma outra causa pela qual essa raça, tão frágil para o trabalho pe- sado, tão indiferente ao assíduo, e incapaz de toda a cul- tura (para o que, todavia, encontra-se na proximidade exemplo e encorajamento suficientes) está ainda muito abaixo do próprio negro, o qual, contudo, ocupa o mais baixo de todos os demais níveis daquilo que nós nome- amos diferença de raças. 141 Podemos ainda destacar da quarta seção das Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (Kant, 2000, p. 78): Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo [...]. Tão essen- cial é a diferença entre essas duas raças humanas [bran- cos e negros], que parece ser tão grande em relação às capacidades mentais quanto à diferença de cores. [...] Os negros são muito vaidosos, mas à sua própria maneira, e tão matraqueadores, que se deve dispersá-los a pauladas. Não bastasse o flagrante absurdo do racismo nas passagens supracitadas, talvez a demonstração mais radical da diferença qua- litativa entre as raças, na perspectiva do racismo kantiano, possa ser encontrada na seguinte passagem, extraída em reflexão de folha solta datada de 1788, ano de publicação da Crítica da razão prática: Todas as raças serão erradicadas (americanos e negros não podem governar a si mesmos. Servem, portanto, apenas como escravos), menos a dos brancos (os quais) contêm todos os móbeis da natureza em afetos e paixões, todos os talentos, todas as disposições à cultura e civilização, e po- dem assim tanto obedecer quanto dominar [sendo] os úni- cos que sempre progridem à perfeição (Kant, 1923, p. 878). Apesar de Kant pretender que o gênero humano seja único e uni- versal, essa universalidade se torna exclusiva pela marca do racismo. O reconhecimento de cidadãos cosmopolitas só se arroga aos povos que herdaram o caráter puro do tronco originário de acordo com a pureza de sua raça e que o transmitiram pela educação/disciplina5 aos seus descendentes e que se agregam em sociedades cosmopolitas. 5 “O ser humano está destinado, por sua razão, a estar numa sociedade com seres humanos e a se cultivar, civilizar e moralizar nela por meio das artes e das ciên- cias, e por maior que possa ser sua propensão animal a se abandonar passivamente aos atrativos da comodidade e do bem-estar, que ele denomina felicidade, ele está destinado a se tornar ativamente digno da humanidade na luta com os obstáculos que a rudeza de sua natureza coloca para ele” (Kant, 2006, p. 219, grifo nosso). 142 A ALIANÇA QUE DENUNCIA: O GRITO DAS CORES FRENTE AO OFUSCANTE ESCLARECIMENTO BRANCO Eze (1997, p. 117, grifo nosso), em The color of reason: the idea of Race in Kant’s Anthropology, considera que: [.. .] posição de Kant manifesta uma assinatura inarti- culada a um sistema de pensamento que supõe que o que é diferente, especialmente aquilo que é negro , é ruim, mal, inferior ou a negação moral do branco , por sua vez, luz e bondade. O edifício teórico e antropológico de Kant, então, somado às suas várias funções e utili- dades conscientes ou inconscientes, tinha assumido, de forma não crítica, que a particularidade da existência europeia é a empírica bem como um modelo ideal de humanidade, de humanidade universal, de modo que os outros são mais ou menos humanos ou civilizados (educáveis ou educados) à medida que se aproximam desse ideal europeu. A raça condiciona o modo pelo qual a evolução moral acontece, portanto. Desta forma, a natureza humana, para Kant, “[...] constitui os padrões imutáveis das classes e das espécies, de modo que as diferenças e classificações raciais são baseadas a priori pela razão (Vernunft) do cientista natural” (Eze, 1997, p. 122). Eze, comprometido com a crítica à noção kantiana de raça e sua capacidade de produzir diferença qualitativa entre os seres humanos, ainda pontua que: A geografia e os escritos de antropologia podem ter sido marginalizados pela recepção crítica de Kant em nos- so tempo, mas eles não eram marginais para o ensino de Kant nem para a sua carreira filosófica profissional, muito menos em qualquer tentativa inconsequente de um entendimento coerente de Kant como um pensador cultural. [...] Em termos mais gerais, a antropologia filosó- fica de Kant revela-se como a guardiã da autoimagem da 143 Europa como superior e o resto do mundo como bárbaro (Eze, 1997, p. 130, grifo nosso). Deste modo, fica evidente para Emmanuel Eze que de forma alguma a teoria racial posta em marcha por Kant está separada de sua filosofia que se pretende pura e analítica. A junção das esferas antropológicas e geográficas é capaz de determinar sistematicamente a legitimidade do padrão específico de educação, sociedade e produ- ção de conhecimento, sendo ele o padrão branco-europeu-ocidental que só pode se afirmar superior na medida em que rebaixa as demais formas de existência humana por meio da qualificação racial. Já Mills ([2005], p. 2-3, tradução nossa), na ocasião da escrita de Kant’s Untermenschen, apresenta o racismo em Kant como um sistema normativo: Se Kant é uma figura emblemática e central, e se as ideias racistas estavam se tornando centrais ao seu pensa- mento, então, isso obviamente implica num repensar radical de nossas narrativas convencionais da história e dos conteúdos da filosofia ocidental. […] Estou sugerin- do que o racismo é melhor entendido como um sistema normativo [normative system] em seu próprio direito. Ao não reconhecer a importância da discussão do racismo para as formulações modernas ou relegá-lo a mero desvio, anomalia ou preconceito de época, ofusca-se o que para Mills é simbiótico, ou seja, o racismo está intimamenterelacionado com a modernidade, sobretudo em vias do liberalismo, pois o contexto material para as práticas racistas neste período constitui-se pelo “[...] expansionismo moderno europeu e o crescimento de seu império” (Mills, [2005], p. 7, tradução nossa). Segundo Mills ([2005]), Kant acredita que todos os sujeitos que se encontram para fora dos domínios da noção de pessoa são sub- -pessoas [sub-persons], isto é, “[...] entidades humanóides que, por conta de suas deficiências ligadas à raça, carecem do status moral, requisito para a participação em um conjunto de direitos e liberdade 144 das pessoas” (Mills, [2005], p. 8, tradução nossa). Assim, Mills ([2005], p. 10, tradução nossa, grifo nosso) é enfático ao considerar que: Se lermos os teóricos e tomarmos suas referências a homens e pessoas sob a forma da neutralidade racial, nós, de fato, estaremos deturpando e distorcendo suas intenções teóricas. Uma vez que isso é exatamente o que foi sendo feito por gerações de comentadores e continua a acontecer rotineiramente, significa, de forma crucial, que nós temos um retrato fictício do conteúdo e do signi- ficado da moral ocidental moderna e da filosofia política. Após essa importante crítica à tradição de leitores em filosofia moderna que não atentam (ou não querem atentar) para a ideia do racismo estrutural, Mills ([2005], p. 14-15, tradução nossa, grifo nosso) apresenta o que considera ser a presença do racismo nas obras de Kant, porque, assim como Eze, ele acredita que: [...] a posição que os defensores de Kant têm tomado é a de negar não a visão racial do autor, mas negar que elas tenham implicações filosóficas. [...] Na medida em que a raça surge como uma categoria que diferencia, e, possivelmente, atribui um estatuto menos favorável às pessoas de cor, as alegações antropológicas adquirirão importância filosófica e ontológica. E, referindo-se à consideração de Eze sobre as quatro perguntas kantianas6, sendo que a última — o que é o homem? — de certo modo orienta a resposta das outras três, Mills ([2005], p. 15, tradução nossa, grifo nosso) nos diz que “[...] longe de ser irrelevante para a filosofia kantiana, a antropologia e a geografia física seriam real- mente cruciais para ela”. A neutralidade racial não pode ser afirmada em Kant. Mascarar, tomar por anomalia ou preconceito de época, invalidar a presença 6 Sendo: 1 - Oque eu posso saber? 2 - O que eu devo fazer? 3 - O que eu posso esperar? 4 - O que é o homem? 145 do racismo filosófico e até considerar que sua filosofia é capaz de combater o racismo7 é, conforme Bernasconi (2003, p. 16, grifo nosso): [...] uma prática filosófica bastante normal, razão pela qual nenhuma sobrancelha é levantada quando assim se considera o papel dos escritos de Locke na Constituição Fundamental da Carolina [The Fundamental Constitu- tions of Carolina], na insistência de Kant na superiorida- de racial dos brancos e, também, a exclusão da história, feita por Hegel, da África, China e Índia. O que resta é uma filosofia higienizada [sanitized philosophy], benigna. Portanto, mediante essa estratégia de trabalho analítico, os leitores de Kant o isentariam de sua escrita à pena racista, salvaguardando sua verdadeira filosofia, embora a evidência histórica e textual possa, pelo menos, aventar a hipótese de uma conexão sistemática entre o racismo e a teoria moral e política. O FIM É SÓ AQUI... A ideia de raça e as distinções que se fazem a partir dela é um poderoso instrumento que autoriza as maiores atrocidades contra as pessoas que se podem observar no percurso da história. Seja para justificar processos de colonização, seja embasando a eugenia nazista, seja apoiando o extermínio indígena na América Latina, o panorama racial usado para autorizar quem pode viver mais e quem pode viver menos e até mesmo morrer é constantemente e atualmente verificável — não nos esqueçamos nem por um segundo dos muros concretos-simbólicos israelenses e norte-americanos, na discriminação aos alunos e alunas cotistas nas universidades e muitas outras ações nefastas do racismo. A filosofia moderna é, sem dúvida, um dos lugares em que se pro- duz esse discurso e que na grande maioria das vezes é posto de lado e esquecido como um assunto periférico, dada a importância dos seus 7 Como fazem Hill e Boxill (2000) ao comentarem o problema do racismo em Kant, aliás. 146 edifícios especulativos. A tarefa é prestar contas com o que se produziu — que ainda se desdobra em outros efeitos nefastos à sociedade — e que fez e faz com que muitas pessoas fossem e ainda sejam afetadas diretamente por suas páginas e páginas de conceituações, especulações e distinções racistas, misóginas, machistas, sexistas e eurocêntricas. O cenário atual de inúmeras violações de direitos humanos pelo mundo e, sobretudo, no Brasil, não deixa dúvida de que o racismo é um importante fator de contribuição maléfica e negativa que insiste em perpetuar as formas de colonização, epistemicídio, etnocídio e genocídio. Numa verdadeira “[...] dinâmica de dominação” (Lepe- -Carrión, 2014, p. 34) que usa formas de poder embasadas em um panorama de colonialidade (Quijano, 2005; 2010), a raça continua a fabricar no interior de uma pretensa universalidade (Gonçalves, 2015) intensas negações das pluralidades da vida. Desta forma e urgentemente, como nos diz Castro (2010, p. 16), a ideia frente a este padrão rígido, branco, frio e que se pretende esclarecido é “[...] proliferar as pequenas multiplicidades”: gritar todas as cores e todas as danças e todas as rodas de sambas, batidões de funks, toques de atabaques, toda a imensidão de sonoridades que são muito mais polifônicas do que Bach jamais ousou compor e supor. A descolonização do pensamento, dos currículos, da filosofia, dos corpos, mentes e espíritos é dolorosa, mas é tarefa urgente. E que se faça sorrindo, dançando, sambando, cantando, vibrando e existindo; colorindo os espaços e vidas, gritando todas as cores, corpos, cucas maravilhosas e toda a vida humana e não-humana que merece ser boa e digna de ser vivida. 147 Referências BERNASCONI, R. Will the real Kant please stand up. Radical Philosophy, United Kingdom, n. 117, p. 13-22, jan./feb. 2003. CASTRO, E. V. O Anti-Narciso: lugar e função da antropologia no mundo contemporâneo. 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Outros afirmam que, quando o assunto é discutido, procura recuperar visões preconceituosas do europeu em relação à estética africana, onde “[...] o sujeito é branco e o negro é objeto” (José Jorge de Carvalho, 2005, p. 13), e a população negra é tratada como primitiva ou selvagem enquanto a população branca europeia é tida como modelo de civilidade. Tais afirmações estão diretamente ligadas a uma visão etnocên- trica de sociedade, que coloca o continente europeu como a única matriz de nossos saberes e nega à população africana e afro-brasileira quaisquer contribuições. Minha intenção neste trabalho é questionar de forma aberta tais afirmações a partir da análise, ainda que sucinta, da Arte Africana2 1 Adoto nesse trabalho uma postura não sexista e, assim, utilizo o gênero feminino e masculino para me referir às pessoas em geral. Além disso, na primeira vez que há a citação de um/a autor/a transcrevo seu nome completo para a identificação do gênero, a fim de dar visibilidade às pesquisadoras e estudiosas. 2 Como Arte Africana compreende-se toda produção plástica — arquitetura, escul- tura, entalhe, baixo e alto relevo, instalação, tapeçaria, pintura, gravura, fotografia, desenho, máscaras e outros objetos, que apresentem valores estéticos — produ- zidos no continente africano. Temos que considerar que o continente africano tem aproximadamente 30 milhões de km² e sua população atualmente supera 680 milhões de habitantes que falam cerca de mil línguas diferentes. Assim, não te- 154 tradicional e contemporânea. Discuto também como alguns artistas europeus, ligados aos movimentos modernistas que se desenvolve- ram no início do século XX, apropriaram-se das soluções plásticas observadas na arte africana. Outra questão que abordo neste capítulo diz respeito às rela- ções de gênero que questionam a fixidez do binarismo masculino e feminino, assim como a problematização da cisgeneridade heteros- sexual como norma, presentes na maior parte da produção artística africana, tradicional e contemporânea, e que raramente é discutida. Por fim, faço uma rápida explanação a respeito das contribuições de artistas negras/os para a arte no Brasil e nos Estados Unidos da América e como vem abordando questões relativas ao racismo, ao machismo e LGBTfobia. ARTE AFRICANA Somente no final do século XIX e início do século XX que a produ- ção artística africana passou a ser considerada, pelo olhar europeu, como obra de arte, e suas qualidades estéticas estudadas. É Leo Frobenius (1873–1938), alemão nascido na cidade de Berlim, o primeiro estudioso europeu a reconhecer as qualidades estéticas da arte produzida no continente africano. Porém, antes de realizar sua primeira expedição pela África, em 1904, Frobenius começou ainda muito jovem “[...] a escrever em 1896 sobre a arte de povos não europeus, sugerindo que eles tinham o impulso de fazer peças de formas naturais [...]” (Mara Rodrigues Chaves, 2011, p. 207), revelando que no início de sua carreira como antropólogo, em maior ou menor proporção, reproduzia o pensamento corrente à época de que as produções artísticas dos povos não europeus eram resultado de um processo intuitivo e não racional. A esse respeito, Alberto da Costa e Silva (2010) escreveu que Frobenius não estava isento dos preconceitos de seu tempo, que mos, portanto, a menor ideia da diversidade deste continente e por isso quaisquer tentativas de definição das formas de arte presentes em África, sejam acadêmicas ou não, terão de reconhecer sua insuficiência e superficialidade (Renato Araújo da Silva; Juliana Ribeiro da Silva Bevilacqua; Marta Heloísa Leuba Salum, 2015). 155 faziam da África o continente da barbárie. Em 1904, para explicar a arquitetura monumental, a organização social e política e o poder militar das civilizações africanas tradicionais, Frobenius recorreu ao mito da cidade de Atlântida, que seria formada por pessoas brancas. Segundo o jovem antropólogo, o alto grau de desenvolvimento dessas civilizações seria uma herança de Atlântida, que teria introduzido na África um pensamento racional nos moldes europeus. Sua experiência, porém, fez com que abandonasse tal suposição. Assim, pôde observar e ouvir a África com mais do que interesse e simpatia: ouviu com afeto (Silva, 2010). Para Emanoel Araújo (2015), criador e diretor do Museu Afro Brasil da cidade de São Paulo, o contato de Frobenius com os monumentos à divindade real, que eram as cabeças comemorativas de reis em Ifé, em seu exorbitante naturalismo, atingiu de assombro aquele que viria a ser professor honorário da Universidade de Frankfurt e fundador do Museu de Etnologia da mesma cidade. Diferentemente do olhar imperialista europeu, Frobenius não só reconheceu as qualidades estéticas da arte africana, como também se esforçou para devolver a ela sua dignidade e sua identidade.a políticas públicas (Bittar; Bittar, 2012). Na área da educação, contudo, foram necessários alguns anos para que esses ideais começassem a ser de fato colocados em prática. Convém ainda ressaltar que tais mudanças são, em grande medida, decorrentes de pressões sociais externas à academia e aos círculos políticos. Os movimentos negros, por exemplo, têm cumprido um papel fundamental na defesa dos direitos à educação e na criação de mecanismos de acesso dos afro-brasileiros ao ensino superior (Costa; Pinhel; Siveira, 2012). Na década de 2000, as discussões sobre o papel da escola no combate ao racismo ganharam maior fôlego, de modo que antigas demandas do movimento negro foram incorporadas à Lei de Dire- trizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Para os intelectuais e membros desses movimentos, era preciso romper com os mitos da democracia racial e do escravo passivo para se destacar as desigual- dades e as lutas que marcaram o caminho dos negros na conquista pela liberdade, bem como os desafios para uma inserção efetiva desse grupo na sociedade. Uma das principais propostas incluía resgatar, estudar e compreender a longa e, não raramente marginalizada, história dos afro-brasileiros (Macedo, 2018; Pereira, 2011). Pode-se dizer que uma das maiores vitórias advindas dessas discussões foi a promulgação da Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que alterou o artigo 26º da LDB a fim de tornar obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira. O primeiro e segundo parágrafos do artigo 1º estabeleceram, respectivamente, os conteúdos a serem abordados e como os mesmos deveriam ser trabalhados no currículo escolar: § 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra 18 brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas so- cial, econômica e política pertinentes à História do Brasil. § 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro- -Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currí- culo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras (Brasil, 2003). A mesma lei também acrescentou à LDB o artigo 79-B, que deter- mina oficialmente a inclusão do dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra no calendário acadêmico (Brasil, 2003). No ano seguinte, a resolução nº 1, de 17 de junho de 2004, esten- deu às instituições de ensino superior as mudanças previamente definidas para os ensinos fundamental e médio quanto à Educa- ção das Relações Étnico-Raciais e ao ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (Brasil, 2004). Apesar dos desafios para implementar tais medidas, Macedo (2018, p. 23) é bastante perspicaz ao assinalar sua importância: Hoje não há qualquer dúvida quanto ao fato de que a legislação antirracista promulgada nas últimas décadas funcionou como um poderoso instrumento de pressão para uma ampliação da percepção histórico-cultural dos povos africanos e seus descendentes nas escolas de ensino fundamental e médio e mesmo nos meios aca- dêmicos brasileiros. Na mesma década, algumas universidades estaduais e federais implantaram sistemas de cotas, reservando vagas a alunos oriundos da rede pública, bem como, a estudantes autodeclarados pretos, par- dos e indígenas (Gomes, 2001; Rosa, 2014). Tal mecanismo ganharia forças com a Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, popularmente chamada de Lei de Cotas. O artigo 1º estabeleceu que todas as ins- tituições federais de ensino superior deveriam reservar ao menos 50% das vagas disponíveis nos processos seletivos da graduação a estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escola 19 pública. Por sua vez, o artigo 3º estabeleceu critérios étnico-raciais para a distribuição dessas vagas: Art. 3º - Em cada instituição federal de ensino superior, as vagas de que trata o art. 1º desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência, nos termos da legislação, em proporção ao total de vagas no mínimo igual à proporção respectiva de pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geo- grafia e Estatística – IBGE (Brasil, 2012). Apesar de representar um avanço significativo no acesso da popu- lação afro-brasileira ao ensino superior, o artigo 8º da legislação facul- tou às instituições de ensino superior a opção por uma adesão gradual ou imediata a esse dispositivo. Caso uma universidade decidisse pela primeira alternativa, deveria implementar ao menos 25% da reserva de vagas prevista na lei, chegando ao total previsto em até quatro anos (Brasil, 2012). Nesse sentido, tanto escolas quanto universidades tiveram de promover mudanças a fim de se converterem em espaços mais democráticos e inclusivos. Nesse contexto, passaram a surgir pesquisas, publicações e materiais didáticos para apoiar o trabalho de professoras e professores no enfrentamento ao racismo e nas discussões sobre as relações étnico-raciais (Kominek; Vanali, 2018). CAMINHOS PARA A INCLUSÃO RACIAL NA UTFPR – CAMPUS CURITIBA Antes de nos dedicarmos à análise das políticas, adotadas pela UTFPR com o objetivo de promover a integração de negros e negras ao ambiente acadêmico, faz-se necessário lembrar que a memória coletiva construída a respeito de Curitiba, cidade-sede da instituição, é predominantemente marcada pela supervalorização da população branca e pelas supostas semelhanças entre a capital paranaense e o continente europeu (Vanali et al., 2020). Nesse sentido, é importante 20 compreender que as ações aqui elencadas não apenas apresentam potencial para promover transformações sociais, como também desafiam as memórias e representações hegemônicas sobre Curitiba. A história da atual UTFPR tem início em 1910, com a inauguração da Escola de Aprendizes Artífices. Ao longo do século XX, a instituição adotou diferentes denominações: Liceu Industrial do Paraná (1937), Escola Técnica de Curitiba (1942), Centro Federal de Educação Tec- nológica (1959), até ser transformada em Universidade Tecnológica no ano de 20051. Ao longo dessa trajetória, a UTFPR incorporou mudanças significativas com relação aos cursos oferecidos e ao perfil dos estudantes que passaram por suas salas de aula. Atualmente, possui unidades em 13 municípios do Paraná, oferecendo cursos em diversos níveis e áreas — técnicos, tecnólogos, bacharelados, licenciaturas, especializações, mestrados, doutorados, Formação de Professores (COFOP) e extensão, além de oferecer cursos de especialização na modalidade Ensino a Distância (EaD), por meio do Sistema Universidade Aberta do Brasil (Teixeira, 2010). No que diz respeito às medidas voltadas à inclusão e valorização dos estudantes afro-brasileiros, a adequação dos currículos dos cur- sos técnicos integrados ao Ensino Médio, com o objetivo de atender a Lei nº 10.639, destaca-se entre as primeiras iniciativas adotadas pela UTFPR. No campus Curitiba, temáticas de História e Cultura Afro-Brasileira foram inseridas nas grades de parte das disciplinas que compunham o chamado “núcleo comum” — notadamente, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, Artes, História, Geografia, Sociologia e Filosofia. Tratou-se de uma mudança significativa, que exigiu adaptações por parte dos professores e abriu novas trilhas de conhecimento aos estudantes. Posteriormente, cursos de ensino superior (bacharelados, licen- ciaturas e engenharias) do campus Curitiba passaram a ofertar dis- ciplinas referentes a estas temáticas, ainda que em caráter optativo — ou seja, nas quais o aluno decide se irá ou não cursar a referida disciplina. Um levantamento feito no final do ano de 2017 apontou que os seguintes componentes curricularesNesse sentido, Frobenius chamou a atenção para a multiplicidade de estilos presentes na arte africana e também para a necessidade de se rejeitar o referencial desenvolvido no ocidente para se analisar essas produções artísticas. Silva e Calaça (2006) explicam que não existe definição de arte que possa ser comum a todas as sociedades, uma vez que as normas estéticas são muito variadas. Por se tratar de uma arte que transmite ideias, conceitos e valores grupais, a arte africana deve sugerir e não representar e, assim, revelar a essência presente nas formas. Além das características apontadas por Silva e Calaça (2006), Elza Ajzenberg e Kabengele Munanga (2009) chamam a atenção para o alto teor expressivo da arte africana e para o fato de os artistas não expri- mirem sentimentos pessoais em suas criações. Ainda assim o artista tinha assegurada sua liberdade de criação a partir de um quadro de referência próprio da comunidade onde estava inserido. No entanto, sua obra poderia ser aclamada ou rejeitada (Ajzenberg; Munanga, 2009). O artista ocupava um lugar de destaque. Era respeitado e 156 temido, pois estava em contato com forças que regulam o universo, da mesma forma, também manipulava elementos sagrados como o metal, o fogo e a madeira. Outro detalhe observado por Ajzenberg e Munanga (2009) diz respeito ao fato de que a obra de arte africana dependia do lugar onde se encontrava, de quem a possuía e de como era utilizada para ser considerada completa. Como exemplo, explicam que algumas esculturas foram feitas para serem contempladas pelo mundo dos espíritos, outras nunca tinham sido vistas pelos olhos de mulheres e muitas permaneciam escondidas entre vigas do telhado, à espera das ocasiões cerimo- niais, ou eram guardadas em relicários nos quais os não iniciados e os estrangeiros não tinham acesso. Muitas das máscaras para as danças eram feitas para serem vistas em movimento, iluminadas de maneira intermitente pela luz oscilante de uma fogueira. Iluminadas com a luz plana dos museus e em posição estática e arrancadas do meio para o qual foram concebidas, perderam grande parte de seu fascínio (Ajzenberg; Munanga, 2009). MÚLTIPLAS LINGUAGENS! MÚLTIPLOS CORPOS! MÚLTIPLOS GÊNEROS! É preciso atentar para o fato de que o conceito de gênero pre- sente nas análises da produção artística africana emerge da cultura ocidental no século XX, fortemente ligado ao conceito de família nuclear observada na Europa e nos Estados Unidos da América. As categorias mulher e homem, feminino e masculino, também estão vinculadas a esse conceito de família, bem como os papéis sociais que cada pessoa desempenha. A pesquisadora nigeriana Oyèrónké Oyěwùmí (2004) explica que uma família nuclear é também generificada, encabeçada pelo macho e com dois genitores. O homem chefe é concebido como ganhador do pão, e o feminino está associado ao doméstico e ao cuidado. Oyěwùmí (2004) chama atenção para a existência de outros modelos de família e para outras maneiras de se relacionar com o gênero. Para a autora, nem sempre as categorias mulher e homem, feminino e mas- culino, estão atreladas ao sexo biológico, assim como os papéis sociais. 157 Na sociedade Iorubá, do sudoeste da Nigéria, os centros de poder dentro da família são difusos e não são especificados pelo gênero. Nesse caso é a antiguidade, ou seja, a idade, que define os papéis a serem desempenhados (Oyěwùmí, 2004). Oyěwùmí (2004) denuncia o fato de que as feministas brancas dos Estados Unidos da América e da Europa usam o gênero como modelo explicativo para compreender a subordinação e a opressão das mulheres em todo o mundo. De uma só vez, elas assumem tanto a categoria mulher quanto sua subordinação como universais. Mas o gênero é, antes de tudo, uma construção sociocultural. Em suas reflexões sobre gênero na África, Oyěwùmí (2004) utiliza o trabalho de outras pensadoras africanas, como a antropóloga social nigeriana Ifi Amadiume (1987), a escritora Sekai Nzenza Shand (1997), natural do Zimbábue, e a historiadora Edna Bay (1998), nascida no Benin e atualmente radicada nos Estados Unidos da América. Amadiume (1987) escreve sobre filhas do sexo masculino, mari- dos fêmeas e a instituição do casamento entre mulheres na socie- dade Igbo. Já Shand (1997), ao escrever suas memórias, lembra que sua mãe era tratada em sua aldeia natal como um homem honorário. Por fim, a historiadora Bay (1998), pesquisando sobre o Reino Dahomey, afirmava que o rei se casava com homens. Junto a eunucos e mulheres do palácio, tais homens eram chamados de Ahosi. Ahosi do sexo masculino traziam famílias consigo ou ganhavam mulheres e escravizados para estabelecer uma linha- gem (Oyěwùmí, 2004). Outro exemplo que pode ser utilizado para questionar a fixidez dos gêneros atrelados ao sexo biológico na África é o reinado da rainha- faraó Hatshepsut (1500 -1485 antes de Cristo [a. C.]), no Egito antigo. Ao refletir a respeito de Hatshepsut e seu reinado, Gay Robins (1996) afirma que havia uma profunda tensão entre o sexo biológico de uma rainha- faraó e o gênero masculino de sua função. Para Robins (1996), o sexo biológico de Hatshepsut não era determinante para que fosse tratada como mulher, já que os papéis de gênero são socialmente construídos. Ao ser reconhecida como faraó, Hatshepsut passou a ser tratada no gênero masculino e assim foi retratada pela arte do período (Figura 1). 158 Figura 1 – Hatshepsut fazendo oferenda ao deus Amon Min, pedra calcária, 1473- 1458 a.C. Fonte: Hagen (1999). A arte africana, em suas múltiplas formas de expressão, antes e depois do contato com o invasor europeu, questiona a fixidez dos gêneros masculino e feminino, revelando que as práticas sexuais, assim como as relações afetivas colocava sob suspeita a cisgeneridade e a heterossexualidade3 como normas. Os Bambaras, por exemplo, grupo étnico que ajudou a fundar o Império do Mali no século XIII, além de máscaras masculinas e 3 Os conceitos de homossexualidade e heterossexualidade não eram utilizados antes do final do século XIX e início do século XX. Assim, na impossibilidade de acessar um vocábulo mais adequado para me referir às práticas sexuais e afetivas entre pessoas do mesmo sexo e do mesmo gênero, tomo a liberdade para utilizar o termo homossexualidade e homossexual para o sujeito relacionado a essas práti- cas. Argumento que a mesma justificativa se aplica ao uso dos vocábulos heteros- sexualidade e heterossexual. 159 femininas, produziam máscaras com características andróginas4, acenando para a existência de pessoas e divindades que escapavam ao binarismo homem/mulher, macho/fêmea observado na socie- dade ocidental. O gênero, nesse caso, era indicado pelo número de chifres: máscaras com sete chifres indicavam androginia. Crianças não iniciadas relacionavam -se com ancestrais míticos, que muitas vezes eram representados por figuras andróginas ou por um par constituído por uma figura do sexo masculino e outra do sexo femi- nino (Richard Bruce Parkinson, 2013). Assim como as máscaras, é possível identificar na produção escultórica africana obras que retratavam personagens, reais ou imaginados, que apresentam características corporais que dialogam com as categorias travestis e transexuais utilizadas atualmente. A definição para ambos os conceitos procura descrever pessoas que apresentavam características corporais em que os atributos cultural- mente definidos como masculinos e femininos estavam integrados. Parkinson (2013) analisa uma pequena figura esculpida em este- atita, recolhida pelo colecionador H. F. Maxsted em Serra Leoa um pouco antes de 1920, que parece ser hermafrodita5 e que pode repre- sentar um ancestral do povo Mende6. Os Dogons, que chegaram ao planalto central do Mali durante o século XV, também produziam esculturas retratando personagens com características corporais e indumentárias dos gêneros mascu- lino e feminino simultaneamente, poisacreditavam que um corpo perfeito era aquele que apresentava características dos gêneros masculino e feminino simultaneamente. Hélène Leloup (2011), especializada em arte africana, refere-se a essas esculturas como misteriosas e espetaculares. Para entendê - -las a pesquisadora explica que se deve considerar que o conceito 4 Androginia é a fusão de características masculinas (andros) e femininas (gynes) em um único corpo. 5 Mantenho neste trabalho o termo hermafrodita utilizado pelas fontes consulta- das. No entanto, faz-se necessário explicar que esse conceito não é mais utilizado para se referir a pessoas que expressam características atribuídas ao termo. Tal denominação foi substituída pelo termo intersexo. 6 O povo Mende teria dado origem à população atual que vive em Serra Leoa. A língua Mende é o idioma oficial do país. 160 de perfeição Dogon é decorrente da união do que foi separado. Transgredir a fim de alcançar a perfeição e a continuidade da vida. Dessa maneira, o masculino contém o feminino e o feminino contém o masculino. Jair Guilherme Filho (2014), em sua dissertação de mestrado, fez um estudo detalhado de uma escultura hermafrodita Dogon. Sua análise se concentrou em uma peça de 132 centímetros (cm), feita em madeira de raiz, esculpida pelo Mestre de Yayé, Niongom, com datação atribuída entre os séculos XVI–XVII. Ele a descreve como: Elegante, esguia, encurvada, cabisbaixa e aparente- mente em desequilíbrio, sua forma sugere uma postura dinâmica num movimento vertical que projeta a pélvis para frente, recua o tronco para trás e torna evidente o gesto de apresentar, entre as mãos, as duas genitálias uma ao lado da outra. [...] Os braços seguem colados à li- nha do tronco desde os ombros até a pélvis, onde as mãos emolduram as duas genitálias; a feminina construída a partir da escavação de um nó da madeira e a masculina entalhada em posição de repouso sobre o sacro escrotal (Guilherme Filho, 2014, p. 18). Levada para a França em 1935 por Denise Paulme e Débora Lifchitz, essa escultura encantou artistas e estudiosos de arte que a descreveram como uma verdadeira obra-prima, como o arqueólogo e comerciante de arte Charles Ratton (Figura 2). Figura 2 – Escultura hermafrodita, Niongom, Dogon, madeira de raiz, séc. XVI/XVII Fonte: Guilherme Filho (2014). 161 Assim como a escultura, a pintura africana, embora em menor número, também é reveladora de que as normas sexuais e de gênero não eram fixas. A homossexualidade africana, explica Stephen O. Murray e Will Roscoe (1998), não era rara, nem acidental: era um elemento consis- tente e lógico das sociedades tradicionais e do sistema de crenças da África. Os pesquisadores identificam nas pinturas rupestres das cavernas de San Bushmen, na África do Sul, atribuídas aos bosquí- manos da África Austral, datadas de 15 mil anos, evidentes práticas sexuais entre homens, como sexo anal ou intracrural7 em grupo. No Egito, as pinturas que decoram a tumba de Khnumhotep e Niankhkhnum (2.400 a. C.), servos reais do rei Niuserre, revelam que as práticas homossexuais, ainda que não reconhecidas formal e insti- tucionalmente, eram habituais. As evidências sobre o homoerotismo masculino no Egito antigo são escassas e, em alguns casos, de difícil interpretação (Antonio Brancaglion Junior, 2011), inclusive porque, a exemplo de outras populações africanas, os egípcios não tinham uma palavra que pudesse ser utilizada para descrever as relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo e do mesmo gênero (Figura 3). Figura 3 – Niankhkhnum e Khnumhotep, pintura mural, 2.400 a. C. (aprox.) Fonte: Dunn [2016]. 7 Também conhecido como sexo femoral, sexo intercoxa ou sexo interfemoral, con- siste em um tipo de sexo não penetrativo em que um dos participantes coloca seu pê- nis entre as pernas do outro (muitas vezes com lubrificação), onde ambos obtém pra- zer mediante a fricção genital resultante, simulando o coito com penetração. 162 A tumba datada da V Dinastia, localizada na extremidade sudeste do recinto da pirâmide de Djoser, na Necrópole de Saqqara, foi feita para Niankhkhnum, Khnumhotep e suas famílias. A grande originali- dade dessa tumba é o fato de que esses homens foram representados em poses nas quais, convencionalmente, eram exclusivas de casais (Brancaglion Junior, 2011). Ambos, de acordo com Brancaglion Junior (2011), possuíam esposas e filhos, que são representados em escala menor e em posições secun- dárias. Niankhkhnum desempenha o papel masculino, enquanto Khnumhotep, o feminino, abraçando ou sendo conduzido pela mão por Niankhkhnum. Em outras cenas, como: No pilar central da antecâmara e da sala de oferendas, os rostos estão tão próximos que as pontas dos narizes chegam a se tocar. Todos os especialistas admitem a originalidade de tamanha intimidade manifestada por esses homens, em um monumento cuja função, entre outras, era perpetuar as suas relações para toda a eter- nidade. A questão é saber se esse sentimento pode ser considerado a expressão de uma relação homossexual (Reeder, 2000), ou outra forma de afeição que unia esses homens (Brancaglion Junior, 2011, p. 74). Niankhkhnum, segundo a tradução de alguns egiptólogos, signi- fica se juntou à vida, e Khnumhotep significa se juntou ao estado abençoado dos mortos. Juntos, os seus nomes significam: juntos na vida e juntos na morte (Jorge de Montezinho, 2016). Acredita -se ser o primeiro casal do mesmo sexo e do mesmo gênero registrado na história da humanidade. APONTAMENTOS DA INFLUÊNCIA AFRICANA NA ARTE EUROPEIA Muitas das imagens concebidas por artistas africanos foram incorporadas pela cultura ocidental, inclusive pelo cristianismo. As 163 primeiras representações da Virgem Maria8, por exemplo, apresentam fortes semelhanças com as imagens egípcias que retratam a deusa Isis e seu filho Hórus. O professor e pesquisador Antônio Maria Romeiro Carvalho (2011), da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, informa da existência de centenas de imagens da Virgem Maria com a pele negra espalhadas pela Europa. A França possui o maior número delas, sendo conhecidas cerca de 300 imagens. Carvalho (2011) explica que este domínio não é estranho ao pro- cesso habitual da cristianização que, na impossibilidade de eliminar cultos antigos, apropriou-se deles e tomou como seus. Muitas/os pesquisadoras/es, dentre elas/es, Carl H. Jung (1987), Maria Birrento (2003) e David Calado (2008), afirmam que as Virgens Negras possuem analogias com algumas deusas pagãs, como Kali (Índia), Innana (Suméria) e Lilith (Mesopotâmia). Concordando com Carvalho (2011), essas/es pesquisadoras/es afirmam que o cristianismo também se caracteriza por dar continuidade a cultos e rituais antigos. Jung (1987) é um pouco mais enfático e afirma que as Virgens Negras representam a deusa egípcia Ísis e a sua iconografia remonta à Pré- História e ao culto da Grande Mãe Terra. Birrento (2003) também identifica semelhanças entre as Virgens Negras e a Deusa Ísis. Em suas análises, a pesquisadora chama a atenção para as feições, às vezes africanas, às vezes egípcias des- sas Virgens Negras, bem como para o fato de serem representadas sentadas em tronos tendo na mão direita uma esfera que simboliza o globo terrestre ou a Lua, e na mão esquerda um bastão ou uma espada, tendo o filho ao colo. Tal semelhança com a deusa Ísis não seria mero acaso, mas uma apropriação intencional pela iconografia católica (Figura 4). 8 Não pretendo fazer uma discussão a respeito dos elementos simbólicos herdados do Egito Antigo presentes no culto à Virgem Maria, mas chamar a atenção para o fato de que a iconografia africana, considerada pagã pelos cristãos, também foi apropriada pela arte sacra católica. 164 Figura 4 – Deusa Ísis, Egito e Virgem Negra, França. Fonte: Estátua [...] (c2025) e A12 (c2007). É interessante saber que na catedral de Metz (França), outrora um centro druida, até o século XVI, havia uma estátuade Ísis, a deusa negra egípcia (Elsie Dubugras, 1987). Embora seja visível a influência da arte africana nas represen- tações iconográficas da Virgem Maria e do menino Jesus, é sem sombra de dúvida na arte moderna europeia que essa influência se torna mais visível. A arte africana impressionou diversos artistas ocidentais por sua franqueza, por sua intensidade expressiva, pelo novo tipo de sentimento que podia inspirar no início do século XX. Os artistas europeus, ligados à arte moderna, encontraram na Arte Africana a possibilidade de uma livre invenção formal e uma estilização radical das figuras a serem representadas. Ao invés de se limitarem a reproduzir a natureza ou as impressões visuais que lhes chega- vam aos olhos, os artistas africanos ou os ditos revelavam com sua arte, de pura invenção formal, uma capacidade de abstração 165 muito maior do que a dos artistas ocidentais (José D’Assunção Barros, 2011). Os principais artistas ligados ao Fauvismo, um movimento de curta duração, que durou de 1904 a 1907, foram os primeiros a encon- trar na arte africana as soluções plásticas que vinham buscando. A palavra fauve, de onde deriva fauvismo, significa literalmente selvagem e faz referência à suposta violência das formas e das cores adotadas por esses artistas. Henri Matisse (1869–1954), pintor francês, na verdade, já havia se beneficiado de maneira extremamente significativa de uma reapro- priação da arte japonesa, que também aparece de modo fundante na sua obra. Da mesma forma, ele também assimilaria muito expressi- vamente essa alteridade que adentra o espaço da modernidade com especial vigor: a arte africana (Barros, 2011). A escultura matissiana é especialmente inspirada na estatuária africana — particularmente a partir de algumas peças que o artista francês adquirira em 1906 — e revela-se um dos gêneros através dos quais as diversas formas de expressão africanas puderam penetrar mais decisivamente na arte moderna (Barros, 2011). Em 1907, outro movimento europeu ligado às correntes moder- nistas buscou inspiração na arte africana: o Cubismo. Vale lembrar que, muito antes dos europeus, os antigos egípcios já produziam imagens onde uma mesma figura era representada a partir de vários ângulos. O artista egípcio decompunha a figura e depois a reconstruía nos mesmos padrões identificados na arte que os europeus chamaram de Cubismo, cuja invenção atribuíram a Pablo Picasso (1881–1973). Para os estudiosos do modernismo europeu, o marco fundacional do Cubismo seria, então, o quadro Les Demoiselles d’Avignon (1907), pintado por Pablo Picasso. Essa nova estética fundamentava-se na destruição da harmonia clássica das figuras e na decomposição da realidade. Mas, sem sombra de dúvida, ela foi primordialmente inspirada nas máscaras rituais da África, com as quais Picasso tivera contato naquele mesmo ano (Barros, 2011). John Golding (1968), que serviu de referência para as reflexões de Barros (2011), foi um dos pioneiros em afirmar que a apropriação da 166 arte negra por Picasso fora bastante assinalada pelo signo da inten- cionalidade, um programa mais ou menos calculado e estudado, que visava conquistar um novo degrau rumo ao abstracionismo (Figura 5). Figura 5 – A musa adormecida, 1916, Máscara escavada, Arte Dan; Constantin Brancusi Fonte: Ramos (2016). As soluções plásticas presentes na Arte Africana ofereciam um amplo repertório aos artistas europeus, tão preocupados em desen- volver estilos revolucionários que cada um deles se apropriava da Arte Africana da maneira que bem entendesse Foi assim, explica Barros (2011), que Constantin Brancusi (1856 –1957), um dos principais escultores de tendência cubista, pôde apro- priar-se das talhas em madeira da África para idealizar e concretizar um tipo de escultura inédito na civilização europeia (Figura 6). Figura 6 – Máscara Mbuya, Zaire; Pablo Picasso (detalhe da obra Les Demoiselles d’Avignon), 1907 Fonte: Castanheira (2022) e Civilizações [...] (2012). 167 Com Amedeo Modigliani (1884–1920) não foi diferente; ele, a partir de 1908, passou a produzir esculturas que reproduziam alguns dos múltiplos estilos africanos. A pintura desenvolvida por Modigliani também foi influenciada pela estética africana. Sob as camadas mais visíveis da pintura de Modigliani — a um só tempo elegante, recatada e misteriosa — pulsa, na verdade, de acordo com Barros (2011), uma matriz escultural africana que entra em perfeita sintonia com seu espírito inovador. ARTE AFRICANA CONTEMPORÂNEA Apesar do reconhecimento das qualidades estéticas da Arte Afri- cana pelos movimentos modernistas na Europa, exercendo influência direta na obra de seus representantes mais importantes, os artistas africanos daquele período não usufruíram desse reconhecimento, e continuaram no anonimato, sendo explorados pelos comerciantes de arte europeus e estadunidenses. Essa situação começou a mudar na década de 1960, quando mui- tos artistas africanos conseguiram destaque em salões e exposições internacionais e passaram a exigir que suas assinaturas fossem mantidas em suas obras, contribuindo para desmentir a ideia cor- rente na Europa que o anonimato seria uma das características da arte africana. O Museu Monte Palace, situado na freguesia do Monte, no Fun- chal, Ilha da Madeira, em Portugal, contribuiu para dar visibilidade a muitos artistas africanos. Este Museu, como informa o texto que apresenta a exposição permanente Paixão Africana, possui uma impressionante coleção de esculturas em pedra do Zimbabwe, uma forma de arte africana contemporânea que foi vista à luz do dia no início da década de 1960. Parte desse acervo é originário de Tenge- nenge, uma pequena aldeia no norte do Zimbabwe. A maioria dos moradores de Tengenenge trabalham como escultores e escultoras, fazendo da aldeia uma galeria ao ar livre. Alguns/mas artistas originários do Tengenenge conseguiram destaque a nível mundial. Aqueles/as que se interessam pela arte africana contemporânea conhecem certamente os nomes de Henry 168 Munyaradzi (1931– 1998), Bernard Matemera (1946–2002), Arina Akuda e seu marido Fanizani Akuda, Sylvester Mubayi (1942) e Anderson Mwale (Figura 7)9. Figura 7 – Bernard Matemera, Man Changing Into Spirit, Granito Fonte: Rapa [2015?]. Outros artistas, de várias regiões do continente africano, também conseguiram destaque internacional e passaram a expor em museus e galerias consagradas. Em 1968, a 52ª Bienal de Veneza premiou o jovem fotógrafo Malick Sidibé (1935–2016), do Mali, com o prêmio Lion D’or. Esse foi o primeiro de uma série de prêmios que receberia ao longo de sua consagrada carreira na Europa e nos Estados Unidos da América. Em suas fotografias em preto e branco, algumas cuidadosamente elaboradas em estúdios e outras resultantes de flagrantes nas ruas, praças, estádios, praias, discotecas etc., Sidibé problematizou a visão reducionista das sociedades ocidentais em relação ao continente 9 Disponível em: http://www.berardocollection.com/?sid=29&lang=pt. 169 africano e sua população. Ao lado de Seydou Keita (1921–2001), tor- nou-se o fotógrafo mais conhecido do Mali. Outro fotógrafo que ganhou grande destaque internacional é Samuel Fosso. Nascido na Nigéria, começou sua carreira como assis- tente de um fotógrafo. Ganhou reconhecimento internacional em 1994, quando venceu a primeira edição do Encontro de Fotografias Africanas, no Mali (Figura 8). Figura 8 – Samuel Fosso, da série Liberação da mulher americana na década de 1970, fotografia, 1997 Fonte: Samuel [...] ([2017?]). Original em sua obra, Fosso é ao mesmo tempo fotógrafo e modelo, e não se intimida em usar suas criações para questionar a exploração dos países africanos pela Europa e pelos Estados Unidos da América, bem como para denunciar a perseguição imposta à população deLésbicas, Gays, Bissexuais e Transgênero (LGBT) em várias regiões da África. A jovem fotógrafa Zanele Muholi, da África do Sul, também uti- liza seu trabalho para denunciar a situação de exclusão e violência 170 imposta às mulheres negras, especialmente mulheres lésbicas e transexuais. Zanele se define como ativista visual, e não como fotó- grafa. O ativismo visual, explica (Figura 9): [...] é um lugar de resistência para as mulheres margina- lizadas e pode ser utilizado social, econômica e cultural- mente para a construção de um novo olhar, abrindo es- paço para diálogos e desafiando o silêncio da sociedade (Helen Castro, 2015). Eu trabalhei duro para criar imagens positivas e social- mente significativas de lésbicas negras. E assim temos feito um movimento significativo em direção à nossa visibilidade. Tem sido minha principal missão garantir que aqueles que vêm depois de nós terão outros olhos para enxergar (Muholi apud Castro, 2015). Figura 9 – Zanele Muholi, da série Fases e faces, fotografia, 2011 Fonte: Domingues (2016). 171 Outras/os fotógrafas/os vêm conseguindo um destaque interna- cional equivalente ao de Fosso e Muholi. A maioria deles procura denunciar os olhares preconceituosos do ocidente sobre os países africanos, retratados como lugares de miséria, doenças e guerras intermináveis, isentando a Europa para a maioria dos problemas que são, na verdade, herança do longo processo de colonização europeia. Lembro também que muitas/os pintoras/es em atividade na África, a partir da década de 1960, também procuraram fazer de suas obras um canal de reflexão. O moçambicano Malangatana (1936–2011) preso por lutar contra o regime colonial português, continua fazendo de suas pinturas uma bandeira contra a exploração dos países africanos. Bertina Lopes (1924–2012) e Matias Ntundo (1948), ambos de Moçambique, e Helen Sebidi (1943), da África do Sul, também colocaram em pauta mais do que uma questão estética, mas os problemas sociais e políticos das sociedades onde estão inscritos. A lista aqui poderia ser muito maior, dado ao destaque que a Arte Africana vem conseguindo nos últimos anos. Embora haja uma preocupação visível das/os artistas africa- nas/os em adotarem linguagens universalizantes e que dialoguem indistintamente com múltiplas culturas, muitas/os lançam o olhar para o passado, para tradições ancestrais a fim de construírem um trabalho totalmente novo. É o caso de Calixte Dakpogan (1958), da República do Benin, Ken- dell Geers (1968), da África do Sul, e El Anatsui (1943), de Gana. Cada um à sua maneira foi buscar nas máscaras rituais, nas pinturas corporais e na tecelagem, inspiração para trabalhos de extrema originalidade, que são confeccionados, na maioria dos casos, com os resíduos descartados pela urbanização e industrialização de África. Romuald Hazoumé, nascido em 1962 na República do Benin, tam- bém integra essa lista. No entanto, seu trabalho é um caso bastante particular e merece uma atenção especial (Figura 10). 172 Figura 10 – Romuald Hazoumé, Willie Cole, Shine, 200710 Fonte: Cole (2007). De origem Iorubá, cresceu em uma família católica, mas per- maneceu em contato com a sociedade Vodun de seus antepassa- dos. Este patrimônio cultural duplo encontra expressão em suas máscaras e instalações. Em meados dos anos 1980, começou uma série de obras feitas a partir de embalagens plásticas descartadas, em particular de latas de gasolina. Após pequenas modificações, esses objetos tornaram-se máscaras que sutilmente revelam sua visão crítica dos sistemas políticos. Romuald Hazoumé disse do seu trabalho: "Eu envio de volta para o Ocidente o que pertence a eles, isto é, o refugo da sociedade de consumo que nos invade todos os dias" (Futuro [...], 2020). ARTE DA DIÁSPORA AFRICANA A palavra diáspora é de origem grega e significa, originalmente, dispersar. No entanto, ela foi utilizada para fazer referência aos 10 A obra Shine, de Willie Cole, se inspira nas artes de Hazoumé na utilização de materiais para a confecção e elaboração. 173 processos migratórios observados na Ásia Menor e no Mediterrâneo no período que vai de 800 a 600 a. C. Mesmo que a dispersão dos povos negros africanos pelas Amé- ricas esteja ligada ao vergonhoso regime escravista, ainda assim é possível identificar uma forte influência africana na cultura ameri- cana, sendo mais evidente nos países onde a escravização foi mais duradoura, como no Brasil. Apesar do processo que tentava negar o estatuto de humano às pes- soas negras escravizadas, já nos primeiros tempos de América é possível identificar uma forte influência negra nas artes produzidas por aqui. Vale lembrar também que a introdução da pintura pagã no Brasil, aquela sem conotação religiosa, feita pelos pintores holandeses Frans Post (1612–1680), Albert Eckhout (1610–1666) e Zacharias Wagener (1614–1668), retratou prioritariamente a população negra e indígena. Os registros mais antigos da produção artística no Brasil datam do século XVII, e incluem uma vasta lista de artistas negros em atividade na região Sudeste e Nordeste, exercendo atividades como pintores, escultores, entalhadores, arquitetos e mestres pedreiros. Não pretendo fazer aqui um inventário detalhado da presença de artistas negras/os no Brasil, mas chamar a atenção para o fato de que sempre fizeram parte da história da arte brasileira, embora nem sempre sejam lembradas/os. A título de exemplo, cito alguns nomes de artistas em atividade no Brasil no século XVIII, como o do escultor e arquiteto Manuel Ferreira Jácome (PE), do pintor e escultor José Rabelo de Vasconcelos (PE), do surpreendente mestre pedreiro Joaquim Pinto de Oliveira Thebas (SP), do escultor Mestre Valentim (RJ), do pintor Leandro Joaquim (SP) e do lendário escultor Francisco Manuel das Chagas — O Cabra (BA). Sem dúvida, o nome mais conhecido desse período é o do arquiteto, escultor e entalhador mineiro, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que revolucionou a arte e a arquitetura barroca brasileira. No século XIX, a lista também é considerável, e vale registrar os nomes do pintor Francisco Xavier Carneiro (MG), primeiro professor a dar aulas de nu artístico no Brasil; Francisco Pedro do Amaral (RJ), que fez parte da primeira turma de pintura da Academia Imperial de Belas Artes, fundada por Jean Baptiste Debret, no Rio de Janeiro, 174 em 1816. Porém, um dos nomes mais emblemáticos desse período é o de Estevão Silva, considerado o mais importante pintor de naturezas mortas de sua época. No século XX alguns nomes são de suma importância para a arte brasileira, como Heitor dos Prazeres (1898–1966), Rubem Valentim (1922–1991), Abdias Nascimento (1914–2011) e Mestre Didi (1917–2013). Todos problematizaram questões relativas à cultura afro- brasileira, como o samba, a capoeira, o processo de exclusão social da população negra e, principalmente, a religiosidade, tema principal da obra de Rubem Valentim e Mestre Didi. Muitas mulheres também contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento de uma estética afro -brasileira a partir do século XX. Destaco aqui o trabalho de Maria Auxiliadora (1935–1974), Madalena Santos Reinbolt (1919–1977), Yedamaria (1940–2016), Maria Lídia (1946) e Isabel Mendes da Cunha (1924–2014). Muitas artistas, porém, problematizaram e vêm problematizando de maneira mais explícita questões sobre machismo e racismo de maneira interseccional. É o caso de Rosana Paulino (1967) (Figura 11), Sônia Gomes (1948) e Panmela Castro (1981). Figura 11 – Rosana Paulino, Ama de leite, objeto, 2003 Fonte: Paulino (2005). 175 Muitas das questões pautadas por estas artistas brasileiras estão presentes no trabalho de algumas artistas em atividade nos Estados Unidos da América. Lorna Simpson (1960), por exemplo, questiona os padrões de beleza, de vestimenta e de postura estabelecidos nos Estados Unidos. Mickalene Thomas (1971), por sua vez, inspirada na estética dos anos de 1970,retrata a mulher negra de maneira divina, como uma deusa. A corporeidade negra, especialmente de homossexuais masculinos, é o tema recorrente de outro nome importante da arte contemporâ- nea dos Estados Unidos da América: Kehinde Wiley (1977), que toma por empréstimo temas clássicos da pintura considerada universal, e não se intimida em substituir rainhas e imperadores brancos, santos católicos e personagens da mitologia greco romana, por pessoas negras anônimas, numa releitura que coloca sob suspeita a concentração do poder no grupo racial branco e do sexo masculino (Figura 12). Figura 12 – Kehinde Wiley, A caçada do Rei (Le Roi a La Chase), óleo sobre tela, 2006 Fonte: Wiley (2006). 176 O jovem artista discute de maneira recorrente os espaços des- tinados às mulheres negras e aos homens negros homossexuais, não só nos Estados Unidos, mas também em outros países, como o Brasil, por exemplo. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Minha intenção neste trabalho, como assinalei, foi problematizar o processo de marginalização da arte e da estética africana, que apesar de sua inegável contribuição para o movimento modernista europeu, ainda continua sendo relegada a um plano secundário. Procurei chamar a atenção para o movimento de renovação da arte africana que se apropriou de linguagens introduzidas na África pelos europeus, como a fotografia por exemplo. Nesse mesmo pro- cesso, muitas/os artistas africanos mantiveram um diálogo frequente com suas tradições ancestrais, revelando que é possível atualizar a estética de seus trabalhos sem se afastar de suas origens. Outra questão discutida neste trabalho diz respeito às questões de gênero e sexualidade que atravessam de forma recorrente a pro- dução artística africana, seja na arte tradicional, seja na produção mais recente, classificada como contemporânea. A estética que deriva da arte produzida no continente africano também está presente na arte produzida em outros países, especial- mente naqueles marcados por um intenso processo de colonização, como é o caso do Brasil e dos Estados Unidos da América. A exemplo da arte tradicional africana, as questões de gênero continuam sendo pautadas por artistas negras/os, especialmente por mulheres e homens cisgêneros que apresentam uma orientação sexual discordante das normas heterossexuais. Assim, procuro chamar a atenção para o caráter político da arte, nas suas múltiplas formas de expressão, e de que ela pode ser utili- zada para problematizar não só os processos de exclusão e violência que incidem sobre o grupo racial negro, mas também para questio- nar a fixidez do binarismo masculino e feminino, os papéis sociais distribuídos a partir dos gêneros e também a heterossexualidade e a branquidade como normas. 177 Referências ARAÚJO, Emanoel. A África em suas obras de arte. 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Enedina Alves Marques, negra e de família pobre, foi a primeira mulher a se formar na Faculdade de Engenharia do Paraná, tornando-se a primeira engenheira negra do Brasil (Santana, 2013). Enedina Alves Marques (a Dindinha) nasceu em Curitiba, em 8 de janeiro de 1913, filha de Paulo Marques e Virgínia Alves Marques (Dona Duca). Os pais se separaram quando ela ainda era criança. A mãe, lavadeira, passou a trabalhar na casa da família Nascimento, onde Dindinha também passou a viver e trabalhar durante a infância. O major e delegado de polícia Domingos Nascimento Sobrinho1, patrão da mãe de Enedina, casado com Josephina do Nascimento Teixeira, foi o incentivador de seus estudos (Resultado [...], 1930). Ela foi alfabetizada por volta dos 12 anos de idade na escola particular da professora Luiza Netto Correia de Freitas2. Realizou o exame de proficiência e concluiu o Curso Primário no grupo escolar anexo à Escola Normal. De 1926 a 1931, fez o curso da Escola Normal Secundária juntamente com Isa- bel, a filha do major Domingos, que lhe pagava a passagem de bonde 1 O major Domingos Nascimento Sobrinho faleceu em 1958, deixando Enedina como uma de suas beneficiárias em seu testamento. Não confundir com Domin- gos Virgílio Nascimento (1862-1915) que foi escritor, autor do hino do Paraná e do movimento republicano paranaense (Banco do Estado do Paraná, 1991). 2 Para saber mais da professora Luiza Correia de Freitas ver Vanali (2016). Não con- fundir a professora Luiza que alfabetizou Enedina com a professora Luiza Pereira Dorfmund, que era colega de profissão de Enedina na escola em Rio Negro. Luiza Dorfmund não poderia ter alfabetizado Enedina, pois nasceu em 1918; assim, no ano de 1925, quando Enedina foi alfabetizada, Luiza Dorfmund teria por volta de sete anos de idade. 187 durante a formação como normalista para que fizesse companhia à filha (Figura 1). Durante toda essa fase da sua formação, trabalhou como criada de servir e de babá para a família Nascimento. Figura 1 — Resultados dos exames de português da Escola Normal de Curitiba do ano de 1930: Enedina atinge grau 4,2 Fonte: Escola [...] (1930). No ano de 1932, aos 19 anos, Enedina inicia sua carreira como professora normalista da rede pública de ensino, interrompe seu trabalho doméstico na casa da família Nascimento e se muda para o interior do estado, para trabalhar como professora no Grupo Escolar de São Mateus do Sul (Figura 2). Leciona também no Grupo Escolar de Cerro Azul, no Grupo Escolar Barão de Antonina em Rio Negro 188 e na Escola Isolada do Passaúna em Campo Largo. Figura 2 — Nomeação de Enedina para o Grupo Escolar de São Mateus Fonte: No Palacio [...] (1932). Retorna a Curitiba em 1935 e vai trabalhar na Escola da Linha de Tiro do Juvevê. O seu regresso a Curitiba ocorre para realizar o Curso de Madureza, exigência da nova legislação da Instrução Pública, que se constituía em um curso de capacitação profissional de três anos de duração para o exercício de professor. Nesse mesmo ano, para completar seu rendimento, abre uma escola particular para crianças que não frequentavam a rede pública3. Realiza o Curso de Madureza no Ginásio Novo Ateneu, finalizando-o no ano de 1937. Um dos seus colegas de curso, Jota Caron, era membro da Família Caron e, por seu intermédio, Enedina vai trabalhar e morar com essa família (Fernandes, 2014). Entre 1938 e 1939, realizou o curso de pré-engenharia na Facul- dade de Engenharia do Paraná. Durante o dia, trabalhava como professora e como doméstica na residência da família Caron. À noite, frequentava o curso preparatório. E, durante as madrugadas, copiava a matéria dos livros que não tinha condições de adquirir e que tomava emprestado dos colegas para estudar (Fernandes, 2013). Morou com essa família até o ano de 1954, quando se muda para um apartamento no Edifício Tijucas, no centro de Curitiba. Segundo entrevista concedida ao jornal Diário do Paraná de 7 3 Alugou a casa na frente do Colégio Nossa Senhora Menina, no bairro Juvevê. Não foram encontrados dados do tempo de duração e nem os motivos que levaram a desativação dessa escola. 189 de maio (Enedina [...] 1972 ), Enedina optou pelo curso de engenha- ria por eliminação: era professora primária formada, mas “viu que não tinha vocação”. Não podia ver sangue, portanto, Medicina foi eliminada da lista de opções; não conseguia falar em público, então também não seria Direito. Gostava de cálculo, e Engenharia era a opção que havia sobrado. No ano de 1940 entra para a Faculdade de Engenharia do Paraná. Alguns dos casos de perseguição e discriminação que sofreu durante a realização do curso são relatados por pessoas que a conheceram e foram entrevistas por Santana (2013). Forma-se engenheira em 1945, aos 32 anos de idade (Figura 3). Figura 3 — Relação dos formandos em Engenharia pela Faculdade de Engenharia do Paraná no ano de 1945 Fonte: Engenheiros [...] (1945). No ano seguinte ao de sua formação, 1946, Enedina começa a trabalhar na Secretaria de Viação e Obras Públicas do Paraná, vindo a se aposentar no ano de 1962. Durante essa fase, exerce várias funções: chefe da seção de hidráulica e chefe da divisão de estatística — realizou o levantamento topográfico da Usina Capivari-Cachoeira e participou da construção da Usina Parigot de Souza, do Colégio Estadual do Paranáe da Casa do Estudante, em Curitiba (Figura 4). 190 Figura 4 — Enedina em frente a sua residência nas obras da Usina de Cotia, onde foi a engenheira fiscal Fonte: Bragança (1972). Durante certo tempo, exerceu o serviço de engenheira na Secre- taria de Educação e Cultura (Figura 5). Santana (2013) revela que Enedina teve seu trabalho e capacidade técnica reconhecidos pelos governadores do estado do Paraná, Moisés Lupion e Ney Braga, o que lhe permitiu construir uma rede de sociabilidades e receber uma compensação profissional através de decretos, dispositivos legais que revisaram a contagem de seu tempo de serviço e a sua remuneração, e parece que isso lhe garantiu uma 191 aposentadoria confortável. Figura 5 — Enedina realizou várias viagens de trabalho a outros estados e a outros países Fonte: 30 Engenheiros [...] (1959). Depois de aposentada, Enedina passa a prestar serviços na Cons- trutora Vaticano4, mas isso não a impede de viajar. Os jornais da época noticiavam com frequência as suas viagens, fossem elas de férias, como membro do Clube Soroptimista, ou para cursos e con- gressos de engenharia (Figura 6). Sua agitada vida social aparecia nas colunas sociais da década de 1970, pois Enedina frequentava os 4 A Sociedade Construtora Vaticano Ltda., situada na Rua Lamenha Lins, teve forte atuação no ramo imobiliário de Curitiba durante as décadas de 1970 e 1980. 192 círculos feministas de cultura da capital paranaense, como o Centro Feminino de Cultura, a União Cívica Paranaense, o Clube Soropti- mista, o Instituto de Engenharia do Paraná e a Associação Brasileira de Engenheiros e Arquitetos do Brasil (Figuras 7 e 8).5 Figura 6 — Viagem ao Japão para realizar curso de especialização pela Construtora Vaticano Fonte: Guimarães (1973). Transcrição: Enedina Marques, engenheira curitibana embarca no próximo domingo para o Japão. Lá Enedina vai realizar alguns cursos de especialização, ela é a engenheira responsável da Construtora Vaticano, está liderando a campanha de pacificação do trânsito e ainda é um dos elementos da diretoria do Clube das Soroptimistas de Curitiba. Figura 7 — Enedina homenageada no dia internacional da mulher de 1976 como uma das construtoras do progresso paranaense 5 Ver Diário do Paraná/PR, 15/12/1945 e 03/12/1958. Correio do Paraná/PR, 16/06/1932, 09/01/1933, 09/10/1962, 08/11/1964, 08/12/1964 e 27/12/1964. Disponíveis em: http:// memoria.bn.br/hdb/periodo.aspx. Acesso em: 21 fev. 2021. 193 Fonte: Ortiz (1976). Figura 8 — Enedina homenageada no dia internacional da mulher de 1977 como um dos destaques da área de engenharia Fonte: Socipar [...] (1977). Enedina faleceu em Curitiba, aos 68 anos, vítima de infarto no dia 20 de agosto de 1981, solteira e sem filhos. Está sepultada no Cemitério Municipal São Francisco de Paula, num túmulo mantido pelo Instituto de Engenharia do Paraná. Em 2013, comemorou-se o centenário do seu nascimento, e sua memória foi recuperada pela publicação de várias reportagens dando conta da sua existência. Todas as narrativas procuram passar a imagem de alguém que venceu na vida pelo próprio esforço, que saiu da invisibilidade e que não se contentou com as migalhas que eram reservadas ao pobre, ao preto e a mulher. Hoje, empresta o nome para uma rua do bairro Cajuru em Curitiba (Curitiba, 1982)6, batiza o Instituto de Mulheres Negras de Maringá (fundado em 2006)7 e o Coletivo Enedina dos estudantes afrodescendentes da UTFPR, campus Curitiba (fundado em 2015)8. 6 Ver Anexo A. 7 Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques – Facebook: https://www. facebook.com/IMNEAM. 8 Coletivo Enedina – Endereço eletrônico: enedinacoletivo@gmail.com; Facebook: 194 Referências 30 ENGENHEIROS paranaenses visitarão o Paraguai e a Bolívia. Diário do Paraná, Curitiba, 29 nov. 1959. Caderno 1, p. 6. Disponí- vel em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bi- b=761672&pagfis=30109. Acesso: 20 fev. 2021. BRAGANÇA, C. de. Enedina Alves Marques, a primeira engenheira do Paraná. 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VANALI, A. C. Professoras Correia de Freitas: trajetórias femininas na Curitiba republicana. In: OLIVEIRA, R. C. de (org.). Nepotismo, parentesco e mulheres. Curitiba: RM Editores. 2016. p. 103-194. 197 Anexo A LEI Nº 6372/1982 - DATA 16/12/1982 "DENOMINA LOGRADOUROS PÚBLICOS DA CAPITAL, CONFORME ESPECIFICA, DE: ENGENHEIRA ENEDINA ALVES MARQUES, JOÃO CRYSOSTOMO DA ROSA, LADISLAU PASZKIEWICZ E MARCILIA VAZ CARNEIRO". A Câmara Municipal de Curitiba, Capital do Estado do Paraná, decretou e eu, Prefeito Municipal sanciono a seguinte lei: Artigo 1º - Fica o Chefe do Poder Executivo Autorizado a dar as denominações de: Engenheira Enedina Alves Marques, uma das vias públicas da Capital localizada no Bairro de Vilas Oficinas, João Crysostomo da Rosa a Rua nº 38, no Bairro de Vilas Oficinas entre as Ruas Olga Balster e Estevam Ribeiro de Souza; Ladislau Paszkiewicz uma das viaspúblicas da Capital, localizada no Bairro de Ahú de Baixo; e Marcilia Vaz Carneiro uma das vias públicas da Capital, localizada no Bairro de Uberaba. Artigo 2º - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. PALÁCIO 29 DE MARÇO, em 16 de dezembro de 1982. JAIME LERNER PREFEITO MUNICIPAL 199TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO Arilson Pereira do Vale Capítulo 8 200 201 A peça O Imperador Jones, no Teatro São Paulo (1953) Fonte: Teatro[...] (2018). 202 Em 1941, no Teatro Municipal de Lima, no Peru, Abdias do Nas- cimento1 assistia inquieto e perplexo à peça O imperador Jones2, na qual o protagonista, Brutus Jones, era interpretado por um ator branco tingido de preto. A inquietação e perplexidade, obviamente, não advinha da qualidade interpretativa do ator em questão, mas da compreensão de que somente um ator negro poderia imprimir ao protagonista dessa obra a força passional que exigia o texto, isto é, o dilema existencial de uma pessoa de origem africana numa sociedade racista. A percepção de Nascimento é a de que ser negro num mundo branco é uma experiência que não pode ser transferida e nem devi- damente expressa por aquele que não é negro. Conforme o próprio Nascimento (2004, p. 214): Uma coisa é aquilo que o branco exprime como senti- mentos e dramas do negro; outra coisa é o seu até então oculto coração, isto é, o negro desde dentro. A experiên- cia de ser negro num mundo branco é algo intransferível. 1 Abdias do Nascimento (1914-2011), foi um dos mais brilhantes intelectuais brasi- leiros e ativistas dos direitos humanos e civis da população negra — Poeta, ator, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político etc — Pos- suia como traço característico de todo o seu trabalhoa luta contra o racismo e a promoção da cultura negra. De família pobre, o pai era sapateiro e a mãe doceira, obteve a formação de nível médio em contabilidade, em 1928, e formou-se em Eco- nomia pela Universidade do Rio de Janeiro, em 1938. Desde muito cedo se envolveu na luta contra o racismo, por exemplo, em 1931 foi um dos fundadores da Frente Negra Brasileira, importante movimento iniciado em São Paulo. Criou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944, foi secretário de Defesa da Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Rio de Janeiro, em 1978 participou da fundação do Movimento Negro Unificado contra o Racismo e a Discriminação Racial — hoje MNU (Movimento Negro Unificado) — fundou, em 1981, o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO). Em 1983, foi eleito deputado federal pelo Par- tido Democrático Trabalhista (PDT) e senador da República em 1997 pelo mesmo partido e estado, o Rio de Janeiro (Abdias Nascimento, [200?]). 2 O Imperador Jones é uma peça de 1920 do dramaturgo norte-americano Eugene O'Neill. 203 Essa inquietação se amplia igualmente ao se aperceber de que no Brasil, onde quase a metade da população era negra e onde se alar- deava a existência de uma democracia racial, nunca havia assistido uma peça onde o papel principal tivesse sido interpretado por um negro ou uma negra. A regra era a exclusão do negro autêntico em favor do negro caricatural. Assim, afirma Nascimento (2004, p. 210): Naquela noite em Lima, essa constatação melancólica exigiu de mim uma resolução no sentido de fazer alguma coisa para ajudar a erradicar o absurdo que isso signifi- cava para o negro e os prejuízos de ordem cultural para o meu país. Ao fim do espetáculo, tinha chegado a uma determinação: no meu regresso ao Brasil, criaria um or- ganismo teatral aberto ao protagonismo do negro, onde ele ascendesse da condição adjetiva e folclórica para a de sujeito e herói das histórias que representasse. An- tes de uma reivindicação ou um protesto, compreendi a mudança pretendida na minha ação futura como a de- fesa da verdade cultural do Brasil e uma contribuição ao humanismo que respeita todos os homens e as diversas culturas com suas respectivas essencialidades. Sob esse compromisso e perspectiva é fundado, em 13 de outubro de 1944, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro (TEN), com o objetivo de trabalhar pela valorização social do negro no Brasil pela educação, cultura e arte. Ou seja, é num contexto de encobrimento da realidade de racismo, de discriminação e do mito da democracia racial que se desenvolve o TEN, através do enfrentamento do tabu das nossas relações raciais entre negros e brancos. Portanto, o desafio a que se propôs Nascimento com o TEN não se resumia meramente à composição de uma companhia de teatro composta majoritariamente por negros, mas ao enfrentamento do mito da democracia racial e ao resgate de um sujeito ainda escravizado, o negro. Escravidão espiritual, cultural, socioeconômica e política as quais os negros e negras estavam submetidos, mesmo depois da teórica libertação de 1888. Escravidão espiritual imposta socialmente pela 204 ideologia da superioridade racial branca e da perda da identidade; escravidão cultural imposta pelo não reconhecimento da ances- tralidade e valores africanos; escravidão socioeconômica imposta pela permanência das condições de exploração do trabalho negro e escravidão política imposta pela exclusão da condição de cidadania. As ações do TEN, então, desenvolveram-se desde a alfabetização de seus primeiros integrantes, recrutados entre empregadas domésticas, operários, modestos funcionários públicos e moradores das favelas sem profissão definida. Eram oferecidos: cursos básicos de iniciação à cultura geral; palestras e debates de temas mais variados, que pudessem interessar ao grupo; e apresentação de noções de teatro e interpretação, trabalhadas pelo próprio Abdias do Nascimento. Conforme a proposição da formação do TEN, não se objetivava apenas a formação de uma companhia de teatro, mas a construção de um caminho que pudesse despertar uma nova atitude, um novo olhar e a consciência da situação objetiva em que se achava inserido o povo negro em contraposição a uma realidade deformada, ou seja, uma realidade de ocultamento social e cultural do negro. O enfrentamento desse desafio era encarado por Nascimento (2004, p. 211) como uma necessária "[...] transformação qualitativa da interação social entre brancos e negros”, pois sua perspectiva e preocupação era com o significado que a prática de racismo e discri- minação, expressa em produções culturais como o teatro, pudessem ter para uma devida compreensão de país. Ou seja, conforme palavras do próprio Nascimento (2004, p. 210), os "[...] prejuízos de ordem cul- tural para o meu país” seriam evidentes ao desconsiderar a verdade cultural de um país que somente pode ser compreendido a partir da ação do sujeito e da cultura negra na constituição dessa nação. A primeira peça encenada, em 08 de maio de 1945, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, foi O Imperador Jones, porém com um elenco formado por desconhecidos dos palcos, entre eles empregadas domésticas, operários, moradores das favelas etc., todos negros. A escolha dessa peça se deu em razão da escassa disponibilidade de obras nacionais que pudessem atender às ambições artísticas e às dimensões sociais do movimento que refletissem a dramática situ- ação existencial do negro numa sociedade racista. 205 O que tínhamos, conforme palavras de Nascimento (2004, p. 212), eram apenas alguns "[...] dramas superados, onde o negro fazia o cômico, o pitoresco, ou a figuração decorativa [...]". Apesar dessa dificuldade inicial em definir a peça que inauguraria os trabalhos de palco do TEN, a opção por O Imperador Jones se impôs como solução natural, uma vez que se tratava de uma peça significativa nos destinos do negro norte-americano, pois quando encenada lá pela primeira vez, em 1920, cumpriu seu papel de alçar o negro como protagonista num espaço hegemonicamente branco. Portanto, o drama de Jones resumia a experiência do negro no mundo branco e ofereciaa oportunidade de reflexão e debate de temas tão caros e fundamentais aos propósitos do TEN. E, apesar do clima de pessimismo e descrença dos meios cul- turais sobre essa estreia, o que se verificou posteriormente foram elogios da imprensa e da crítica, especialmente ao desempenho do ator Aguinaldo de Oliveira Camargo. Na Figura 1 temos a imagem popularizada de Aguinaldo Camargo3. Figura 1 - Aguinaldo Camargo Fonte: Aguinaldo [...] [200?]. 3 Aguinaldo Camargo (1918-1952). Foi "[...] um dos fundadores e mais destacados integran- tes do Teatro Experimental do Negro [...]. Intelecto multifacetado, Aguinaldo Camargo diplomou-se em agronomia e frequentemente era requisitado para trabalhos no campo científico, relacionados também à biologia, em diversos Estados da Federação. Advoga- do formado pela Universidade do Rio de Janeiro, Aguinaldo era comissário de polícia lotado em Bangu. Mas ele tinha o teatro como sua real vocação" (Aguinaldo [...]., [200?]). 206 Se superada estava a fase do negro relegado a papéis secundários na cena cultural do teatro brasileiro, agora outro desafio se impunha: a criação de peças na dramaturgia brasileira para o artista negro. Uma dramaturgia que fosse além e pudesse refletir questões essenciais da vida do povo afro-brasileiro. Na sequência, vieram trabalhos como Todos os Filhos de Deus têm asas, do mesmo autor de O Imperador Jones, apresentado em 1946 no Teatro Fênix-RJ. Em 1947, o primeiro texto escrito especialmente para o TEN, O Filho Pródigo (Figura 2), drama poético de Lúcio Cardoso (1912-1968), inspirado na parábola bíblica e considerado por alguns críticos da época como a peça teatral do ano. Figura 2 - Elenco da peça O Filho Pródigo (1947) Fonte: Nascimento (2004). 207 Posteriormente vieram outras peças, como Aruanda, de autoria de Joaquim Ribeiro, que ficou em cartaz de 23/12/1948 a 02/01/1949 e que misturava dança, poesia e canto para falar sobre a convivência entre deuses afro-brasileiros com mortais; Sortilégio, texto do próprio Abdias (Figura 3), que discutia a busca de identidade do homem negro; e Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, peça que focaliza sua trama no enlace matrimonial de um negro com uma branca. Figura 3 - Abdias como Emanuel na peça Sortilégio, no Teatro Municipal-RJ (1947) Fonte: Nascimento (2004). Ainda, Filhos de Santo, encenado entre março e abril de 1949, com texto de José Morais de Pinheiro e direção de Abdias, que trazia a temática do candomblé e a perseguição policial no Recife-PE. E também Otelo (Figura 4), de Shakespeare, em 1946 no Teatro Regina do Rio de Janeiro. 208 Figura 4 - Abdias do Nascimento em Otelo, de Shakespeare (1946) Fonte: O teatro [...], [2016]. 209 Em paralelo aos trabalhos artísticos, foi extremamente relevante a atuação do TEN no campo social e político. Se tínhamos uma percepção deformada de nossa realidade social e cultural, o teatro cumpria relevante papel como fórum de ideias, debates e propostas para a conscientização, mas era preciso agir, de forma simultânea, dentro e fora dos palcos. Eram prementes as ações de superação e transformação das estruturas de dominação, garantindo oportu- nidades e direitos igualitários para a coletividade afro-brasileira. Neste sentido, o TEN organizou em 1945 o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, para atuar no nível político de combate ao racismo e atendimento às demandas e aspirações da população afro-brasi- leira no processo de redemocratização do país após o fim do Estado Novo (1937-1945). Procurando intervir de forma democrática e cidadã na elabo- ração da nova constituição do país, o TEN organizou a Convenção Nacional do Negro (1945-SP; 1946-RJ) e encaminhou à Constituinte de 1946, através do Senador Hamilton Nogueira4, a sua Declaração Final onde apresentava os anseios e as aspirações da coletividade negra brasileira, como, por exemplo, a proposta de inserção da dis- criminação racial como crime de lesa-pátria e uma série de medidas visando o combate à mesma. Essa declaração pode ser considerada a antecedente da Lei nº 1.390 (Brasil, 1951), ou Lei Afonso Arinos, o primeiro código brasileiro a incluir o preconceito de raça como contravenção penal. 4 Hamilton de Lacerda Nogueira (1897-1981). Foi professor catedrático da Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro e em outras instituições, inspetor Sanitário do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) e diretor do Hospital Pedro II. Na política foi senador entre 1946 a 1955 pela União Democrática Nacional (UDN) pelo Rio de Janeiro, ainda Distrito Federal (DF), participando da Constituinte; foi deputado federal em duas legislaturas, entre 1959 e 1967, ambas pela UDN. O Projeto de Lei nº 562 (Minas Gerais, 1950), posteriormente denominada Lei Afonso Arinos (Brasil, 1951), é um desdobramento dos debates constituintes já iniciados em 1946. Há passagens nos Anais da Assembleia Constituinte de 1946 cujos discursos versam particularmente sobre dois temas: o racismo contra o negro e o antissemitismo, sobretudo tratando-se de contexto imediatamente posterior à guerra. "A partici- pação do senador Hamilton Nogueira da UDN-DF, do mesmo partido que Afonso Arinos, nos debates constituintes foi importante para denunciar o racismo, mas não o suficiente para transformar a luta antirracista em capítulo constitucional" (Grin; Maio, 2013, p. 38). 210 Em 1950, o TEN realizou o histórico I Congresso do Negro Brasileiro no Rio de Janeiro, cujo documentário foi publicado no livro O negro revoltado em 1968, tendo como organizador Abdias, e que reúne ensaios introdutórios e os anais do referido Congresso. Procurando combater e denunciar a alienação estética, em 1955, realizou um concurso de artes plásticas com o tema O Cristo Negro e também alguns concursos de beleza, como o Rainha das Mulatas e Boneca de Piche, buscando realçar o tipo de beleza da mulher negra brasileira em oposição aos padrões estéticos e de beleza ideologicamente hegemônicos. Entre os anos de 1948 e 1951, o jornal5 Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro serviu como meio de divulgação dos trabalhos e ações do TEN. Também foi um espaço aberto de crítica ao precon- ceito racial e ao mito da democracia racial brasileira. Portanto, o TEN possui significado singular ao pensarmos a luta e a resistência do negro no Brasil e significado igualmente singular na vida e obra de Abdias do Nascimento. Conforme palavras do próprio Nascimento (2004, p. 223) sobre o TEN: Fiel à sua orientação pragmática e dinâmica, o TEN evitou sempre adquirir a forma anquilosada e imobilista de uma instituição acadêmica. A estabilidade burocrática não constituía o seu alvo. O TEN atuou sem descanso como um fermento provocativo, uma aventura da experimen- tação criativa, propondo caminhos inéditos ao futuro do negro, ao desenvolvimento da cultura brasileira. Para atingir esses objetivos, o TEN se desdobrava em várias frentes: tanto denunciava as formas de racismo sutis e ostensivas, como resistia à opressão cultural da brancura; procurou instalar mecanismos de apoio psicológico para que o negro pudesse dar um salto qualitativo para além do complexo de inferioridade a que o submetia o comple- 5 O jornal Quilombo teve ao todo 10 edições coordenadas por Abdias do Nascimento entre 1948-1950 no Rio de Janeiro. Nelas foram retratadas, divulgadas e analisadas a condição da população negra naquele período, assim sendo um mecanismo de edu- cação política e combate ao racismo. Da mesma forma eram divulgadas a cultura negra e promovida a integração e afirmação social da população negra ao mesmo tempo em que se combatia o racismo. 211 xo de superioridade da sociedade que o condicionava. Foi assim que o TEN instaurou o processo de revisão de con- ceitos e atitudes visando à libertação espiritual e social da comunidade afro-brasileira. Processo que está na sua etapa inicial, convocando a conjugação do esforço cole- tivo da presente e das futuras gerações afro-brasileiras.Enfim, pelo trabalho com o TEN, Abdias do Nascimento lutou pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte. Podemos concluir afirmando que o TEN representou sig- nificativo instrumento político-pedagógico de luta contra o racismo em um contexto sociocultural predominantemente marcado pela exclusão e pelos seus discursos dissimulados, como o da pretensa democracia racial brasileira. As ações do TEN se tornam restritas com o processo de repressão política do golpe militar de 1964 e se findam em 1968, em decorrên- cia do endurecimento do regime militar e da inclusão do nome de Abdias do Nascimento em vários inquéritos policiais, que tiveram como consequência o exílio nos EUA. 212 Referências ABDIAS Nascimento. Ipeafro, Rio de Janeiro, [200?]. Disponível em: https://ipeafro.org.br/personalidades/abdias-nascimento/. Acesso em: 15 fev. 2023. AGUINALDO Camargo. Ipeafro, Rio de Janeiro, [200?]. Disponí- vel em: https://ipeafro.org.br/personalidades/aguinaldo-camargo/. Acesso em: 2 abr. 2021. BRASIL. Lei nº 1.390, de 3 de julho de 1951. Inclui entre as con- travenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos de raça ou de côr. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 10 jul. 1951. Seção 1, p. 10217. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L1390.htm. Acesso em: 28 jul. 2017. GRIN, M.; MAIO, M. C. O antirracismo da ordem no pensamento de Afonso Arinos de Melo Franco. Topoi, Rio de Janeiro, v. 14, n. 26, p. 33-45, 2013. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?scrip- t=sci_arttext&pid=S2237-101X2013000100033. Acesso em: 28 de jul. 2017. MINAS GERAIS. Projeto de Lei nº 562, de 19 de maio de 1950. Prorroga a vigência de crédito aberto à Secretaria do Interior. Diário do Executivo, 20 maio 1950. col. 1, p. 1. NASCIMENTO, A. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, p. 209-224, 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex- t&pid=S0103-40142004000100019. Acesso em: 26 out. 2016. O TEATRO dentro de mim. Itaú Cultural, São Paulo, [2016]. Dispo- nível em: https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/abdias-nascimen- to/o-teatro-dentro-de-mim/?content_link=7. Acesso em: 02 abr. 2021. TEATRO experimental do negro. Instituto Augusto Boal, [s. l.], 2018. Disponível em: https://acervoaugustoboal.com.br/teatro-expe- rimental-do-negro?pag=1. Acesso em: 21 fev. 2021. 213 ABDIAS DO NASCIMENTO E O PAN-AFRICANISMO: APROXIMAÇÕES POLÍTICO-FILOSÓFICAS Luís Thiago Freire Dantas Capítulo 9 214 215 Abdias do Nascimento (1914-2011) Fonte: Abdias [...] ([2021]). 216 INTRODUÇÃO A atividade de José Abdias do Nascimento1 para uma luta antirra- cista não se restringe a uma contribuição localizada no tempo histó- rico, ultrapassa várias barreiras e, até hoje, possui uma importância ímpar. Entretanto, a academia brasileira não explora as diversas teses de Abdias do Nascimento nos campos políticos, epistemológicos e culturais tão devidamente se compararmos com a sua contribuição histórica na leitura da formação desse território nomeado de Brasil. Com isso, o presente capítulo simboliza uma pequena reflexão de algumas das teses desse intelectual negro e brasileiro que não dis- tanciou de si a militância. Sabendo que um trabalho introdutório não supre a ausência de estudos sobre as teses nascimentistas, o caminho escolhido con- sistirá em tratar de uma influência fundamental ao pensamento de Abdias do Nascimento: o pan-africanismo. De que maneira o pan-africanismo permitiu a Nascimento construir um arcabouço teórico contra o racismo antinegro? Quais teóricos pan-africanistas são possíveis aproximar do pensamento de Abdias do Nascimento? Partindo de tais questões, este artigo se construirá de maneira que a influência do pan-africanismo seja visível em algumas teses de Abdias do Nascimento. Inicialmente, o capítulo descreverá algumas passagens deste autor como forma de compreender seu pensamento, fundamen- tado em uma crítica à ideologia da democracia racial brasileira. Principalmente, levar-se em perspectiva que tal ideologia tem o sentido de ocultar o problema do racismo na sociedade brasileira, por mais que a vivência torne o racismo um problema inserido na 1 Nasceu em Franca-SP em 1914 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ em 2011. Um dos expo- entes do pan-africanismo no Brasil, Abdias foi poeta, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e crítico cultural, principalmente destacando as contribuições africanas e afro-brasileiras para a formação de nossa sociedade. Uma dessas contribuições foi a fundação do Teatro Experimento do Negro (TEN) que permitiu a aparição de artistas negras na dramaturgia brasileira. 217 estrutura da realidade atual. Após compreender o campo de atuação das teses de Abdias do Nascimento, o capítulo tratará das influên- cias que permitiram ao autor tais construções. Por isso, tendências pan-africanistas opostas serão descritas como atuantes no cerne do pensamento desse intelectual. A REFUTAÇÃO À IDEOLOGIA DA DEMOCRACIA RACIAL A produção intelectual de José Abdias do Nascimento é extensa, porém, tem em si a preocupação de analisar a condição da população negra no Brasil e no mundo. Entre os livros, as teses desenvolvidas em O genocídio do negro brasileiro (1978) e Quilombismo (1980) tive- ram uma forma de manifesto e denúncia da atividade racista de extermínio da população negra no Brasil, que diverge da imagem de democracia racial no território brasileiro. Essa imagem sucede como modo de impedir qualquer atividade da população negra a respeito de uma discordância ou requerimento de direitos: Em verdade, em verdade, porém, a camada dominante simplesmente considera qualquer movimento de cons- cientização afro-brasileira como ameaça ou agressão re- taliativa. E até mesmo se menciona que nessas ocasiões os negros estão tratando de impor ao país uma suposta superioridade racial negra [...] (Nascimento, 1978, p. 78). Desse modo, cria-se uma ideologia que tende à mansidão e ao conformismo perante os infortúnios inculcados em uma forma de interpretação do mundo enquanto produto do destino. Essa interpretação ultrapassa a imagem da democracia racial e se coloca como julgamento histórico dos povos africanos. Um exemplo é a declaração do então presidente francês Nicolas Sarkozy durante seu discurso na Universidade de Dakar em 2007 (apud Foé, 2013, p. 177-178): “O drama da África é que o homem africano não entrou totalmente na história [...]. Nunca ele se lança em direção ao futuro. Nunca não lhe vem à ideia de sair da repetição para se inventar um destino”. Tal discurso de Sarkozy fora realizado no início deste século, 218 distante das críticas de Nascimento à harmonia racial brasileira. No entanto, tais críticas podem ser direcionadas ao discurso de Sarkozy por meio da emancipação dos povos negros: A luta comum dos povos negros e africanos requer o co- nhecimento mútuo e uma compreensão recíproca que nos têm sido negados, além de outros motivos, pelas di- ferentes línguas que o opressor branco-europeu impôs sobre nós, através do monopólio dos meios de comuni- cação, do seu controle exclusivo dos recursos econômi- cos, das instituições educativas e culturais. Tudo isto tem permanecido a serviço da manutenção da supremacia racial branca (Nascimento, 1980, p. 16-17). No caso brasileiro, a contraposição refere-se à ideologia retirada da obra de Gilberto Freyre (2006), na qual o autor formula o conceito de metarraça, que estaria na base da consciência brasileira. Para Abdias do Nascimento, Freyre constrói esse conceito para articular uma ideia de pacifismo inerente ao conjunto de raças que povoam o Brasil. Tal conjunto promove uma morenidade metarracial, que é “[...] oposta aos conceitos fornecidos por arianismo e negritude, ambos classificados como racistas por Gilberto Freyre” (Nascimento, 1978, p. 44). Por isso, Abdiashaviam sido ministrados 1 Para um panorama histórico da UTFPR, consultar: Amorim (2010), Bastos (1998), Gurski Júnior (2010), Queluz (2010) e Teixeira (2010). 21 ao menos uma vez naquela unidade da UTFPR: História e Cultura Afro-Brasileira (2013); Estudos Culturais e Relações Étnico-Raciais (2014); Literatura Africana (2013); e Presença Africana no Brasil: Tec- nologia e Trabalho — sendo este último o único ofertado com regu- laridade desde 2013 (Kominek, 2017). Voltando-nos para as grades curriculares dos cursos de ensino superior do campus Curitiba, três anos após o primeiro levantamento, identificamos a continuidade da oferta da disciplina Presença Afri- cana no Brasil: Tecnologia e Trabalho. Além disso, foi possível assi- nalar outras quatro disciplinas ligadas à temática das africanidades, todas de caráter optativo. São elas: História e Cultura Afro-brasileira e Indígena (presente no curso de Engenharia Ambiental e Sanitária)2; História e Cultura Afro-Brasileira (oferecida pelas graduações de Engenharia Mecatrônica e tecnologia em Sistemas de Telecomunica- ções)3; Estudos Africanos (presente na licenciatura em Letras-Inglês)4; e Literaturas Africanas em Língua Portuguesa (presente na licencia- tura em Letras-Português)5. Esta última, aparece com destaque no Projeto de Abertura de Curso da referida graduação: Trabalha-se com alguns autores de Moçambique, Angola e, às vezes, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Obviamente, é importante o estudo específico de cada manifestação artística dessas literaturas; no entanto, a matriz que ora se propõe apresenta um diferencial, aproximando as Literaturas Africanas das necessárias reflexões sobre 2 Disciplina de 30 horas, cuja ementa é composta pelos seguintes conteúdos: “A his- tória afro-brasileira e a compreensão dos processos de diversidade étnico-racial e étnico-social na formação político (sic), econômica e cultural do Brasil. O processo de naturalização da pobreza e a formação da sociedade brasileira. Igualdade jurí- dica e desigualdade social” (Passig et al., 2014, p. 43). 3 Infelizmente, não encontramos os Projetos Pedagógicos disponíveis nos sítios eletrônicos dos referidos cursos. 4 Disciplina de 30 h cuja ementa é composta pelos seguintes conteúdos: “Principais movimentos culturais do século XX nas nações africanas de língua portuguesa” (UTFPR, 2016, p. 12). 5 Disciplina de 54 horas cuja ementa é composta pelos seguintes conteúdos: “Li- teraturas africanas em língua portuguesa como instrumento de construção das identidades nacionais e dos indivíduos em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Mo- çambique e São Tomé e Príncipe” (Matsuda et al., 2015, p. 59). 22 a formação do povo brasileiro, mormente, no que tange à herança e luta dos povos africanos que para o Brasil vieram na época colonial, imperial e posterior. Interes- sa-nos perceber as representações discursivo-culturais das variadas etnias africanas no Brasil por intermédio de várias mídias (literatura, jornais, pintura, escultura, filmes, teatro). [...]Introduziu-se, na Matriz, disciplina que articula a história do escravismo colonial e imperial e da cultura brasileira, sobretudo, mas não apenas, por meio de textos literários, abordando questões de mestiçagem, aculturação e contribuições do elemento africano para a identidade nacional. Desse modo, acreditamos que, a partir dos variados discursos sobre as etnias africanas no Brasil, pode-se investigar realmente a elaboração de uma história de articulação tensa, complexa e orgânica entre os elementos fundantes de nossa identidade na- cional (Matsuda et al., 2015, p. 59). O resgate e valorização da história e cultura afro-brasileira e africana na universidade podem até mesmo fortalecer debates sobre uma nova forma de educação, que visa a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e voltada para a coletividade. Como bem assinalam Queiroz, Kominek e Vanali (2018, p. 9-10): Os fundamentos da ancestralidade africana, ao enfatizar o direito das pessoas à liberdade e à vida em plenitu- de, podem contribuir para uma construção coletiva de sociedade, na contramão da exacerbação do eu, da ins- trumentalidade e da banalização do desrespeito à vida humana. A ancestralidade africana prima pelo respeito à natureza, pelo cuidado e respeito às pessoas idosas, sá- bias e detentoras, em suas memórias, das histórias que nos formam como indivíduos e como comunidade. A pa- lavra falada tem valor vital, por isso, dá-se grande impor- tância às rodas de conversa, aos contadores de histórias, ao estar com os amigos conversando longamente sobre 23 as coisas. Nesta tradição, a mulher tem papel político, social e espiritual destacado, uma vez que muitas das sociedades africanas organizam-se a partir de critérios matrilineares. Nestas comunidades, as crianças são con- sideradas filhas de todos e todas, ou seja, todas as pesso- as da comunidade são responsáveis pelo zelo e educação de todas as crianças. Com vistas a contemplar as exigências da Lei nº 10.639, a UTFPR, desde 2003, vem sediando eventos acadêmicos, palestras, celebrações, exposições e seminários, ainda que não de forma contínua nem ins- titucionalizada. Na maioria das vezes, essas ações foram organizadas e promovidas por professores e servidores engajados na difusão da consciência negra junto à comunidade da UTFPR. A partir destas ações, no ano de 2006, foi criado o NEABI, tendo como base o Departamento de Estudos Sociais (DAESO), que se tornou um espaço de debates, leituras e promoção de eventos sobre a questão das africanidades. Por meio dessas iniciativas, buscou-se não somente valorizar as raízes e heranças negras do Brasil, como também abordar questões contemporâneas, trabalhando-se tanto os desafios quanto as conquistas dos negros em nossa sociedade. Esperava-se, assim, tornar o ambiente acadêmico um espaço efetivo para a conscientização na luta antirracista (Quem [...], 2015). Em relação a ações para democratizar o acesso ao ensino, a uni- versidade incluiu de forma imediata e plena os critérios étnico-raciais para distribuição das vagas reservadas com a promulgação da Lei nº 12.711 de 2012. Tais disposições foram regulamentadas pelo Edital nº 53/2012 da Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (PROGRAD), e passaram a valer para todos os processos seletivos realizados a partir de 15 de março do ano seguinte, tanto para os cursos do ensino superior quanto para os cursos técnicos integrados ao ensino médio (Medeiros, 2015). Há, então, um longo caminho a ser trilhado em direção à igual- dade. Enquanto os estudantes das instituições de ensino públicas, especialmente as federais, não representarem proporcionalmente a diversidade fenotípica e étnica existente na população brasileira, 24 a universidade estará trabalhando, ainda que por omissão, para a manutenção e fortalecimento destas desigualdades. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA HISTÓRIA DA DISCIPLINA PRESENÇA AFRICANA NO BRASIL: TECNOLOGIA E TRABALHO Ofertada desde 2013 no campus Curitiba, Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho é o mais longevo componente curricu- lar relacionado à questão das africanidades oferecido pela UTFPR. Atualmente faz-se presente nos seguintes cursos: Arquitetura, Comu- nicação Organizacional, Engenharia da Computação, Engenharia de Controle e Automação, Engenharia Eletrônica, Engenharia Mecânica, Licenciatura em Física, Licenciatura em Matemática, Bacharelado em Química e Sistemas de Informação.6 Apesar de tamanho alcance, causa estranhamento que a disci- plina não seja enfatizada por parte de algumas licenciaturas, dada a importância dos debates para a formação de uma escola mais plural e democrática. Em contrapartida, alguns cursos foram bastante cate- góricos em defender a relevância do componente Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho em sua grade curricular. É o caso da graduação em Sistemas de Informação, ajustada recentemente: Com relaçãodo Nascimento explica que há uma dificul- dade de enfrentamento a tal entendimento por provocar situações inconvenientes ao negro que se revolta na sociedade brasileira: Qualquer reação do negro à situação brasileira enfren- taria dois inconvenientes: uma opinião oficial que con- sideraria ‘atividades raciais’ como subversivas, e a atitu- de geral da sociedade que consideraria isto divisionista (Nascimento, 1978, p. 79). Por esses aspectos, Nascimento (1978) explica a intenção última da ideologia como a amenização de qualquer obtenção de direitos por parte da população negra. Isso ocorre também por meio da for- mulação de barreiras para afirmação da raça e/ou cor, desse modo 219 ocorre uma dificuldade de assumir a existência do racismo por estar escrito uma ausência de reconhecimentos raciais e reduzir ao adágio popular: “todo mundo é simplesmente brasileiro”. Consequentemente há “Nenhum meio legal de protesto, de busca de alívio contra a injustiça racial, existe para o grupo discriminado e oprimido, desde que a lei — formal e distante — recolhe a todos em seu seio ‘democrático'" (Nascimento, 1978, p. 79). Tais vozes silenciadas, para Nascimento (1980, p. 78), diziam respeito àqueles “[...] que agora se encontram no cárcere por causa de sua militância em favor de uma revolução negra ou pan-africana”. Para ressoar as vozes que compunham uma revolução pan- -africana, é importante detalhar as características teóricas do pan-africanismo que influenciaram esse autor e, assim, permitiram que realizasse uma atuação global, como bem destaca Moore (2008, p. 237, grifo nosso) sobre o aporte nascimentista: Para melhor apreender a contribuição do nascimentista, é necessário esclarecer, de início, que se trata, por um lado, de um discurso voluntarista e desconstrutor e, por outro, de uma ação de síntese e renovação das diferentes vertentes que compõem o movimento pan-africanista mundial, no intento de adequá-las às exigências do mundo contem- porâneo. É um discurso-prática em que ação e reflexão avançam em paralelo, entrechocando-se, recombinando- -se seletivamente e partindo para novas desconstruções. Nessa passagem de Carlos Moore, apreende-se que as teses nasci- mentistas aproximam-se das teorias pan-africanistas que permitem desconstruções contemporâneas no discurso-prática dos intelectuais, assim como, fomentam uma reflexão sobre a luta antirracista. Para exemplificar a aproximação teórica, a seção seguinte se deterá em dois filósofos que representam à sua maneira tendências pan-africanas: Marcus Garvey (2010) e Kwame Nkrumah (1965). 220 O PAN-AFRICANISMO DE GARVEY E NKRUMAH A expressão pan-africanismo entrou no vocabulário intelectual no começo do século XX por meio da atuação, em diversos congressos pan-africanos, sobretudo, de Henry Sylvester-Williams, de Trinidade e Tobago, e William DuBois, dos Estados Unidos da América, ambos de ascendência africana. Tais congressos tinham como participantes vários intelectuais negros, tanto do continente africano quanto da diáspora. Um dos que contribuíram para o nacionalismo africano foi Marcus Garvey (2010) através do movimento de regresso à África. O jamaicano Garvey influenciou vários intelectuais ao propor um olhar sobre a própria história, para que a história dos povos negros não fosse formada por ideólogos que conduziram a história do continente africano e da diáspora como subordinada à história europeia. Inclusive, pelo fato de essa história europeia em grande parte impedir os povos negros de assumirem os próprios feitos por meio da criação de um imaginário que postula existir uma deficiência intelectual, política e social presente no continente africano. Garvey (1925, p. 2, tradução nossa) adverte tal imaginário como consequência de uma falta de representatividade na história: Chega o tempo do Negro para esquecer o elenco expresso por trás dele o culto a heróis e adoração a outras raças, e iniciar a partir de imediatamente, a criar e emular heróis de sua autoria. Nós devemos canonizar nossos próprios san- tos, criar nossos próprios mártires, e eleva-los a posições de fama e honra, homens e mulheres negros que cons- truíram suas distintas contribuições para nossa história racial. Sojouner Truth é digno de um lugar de santidade ao lado de Joana d Árc; Crispo Attucks e George William Gor- don têm o direito a auréola de martírio com nada menos que a glória de outros mártires de qualquer outra raça. Toussaint Ĺ Overture brilhou como um soldado e estadista ofuscado por Cromwell, Napoleão e Washington; por isso, ele tem direito ao lugar mais alto como um herói entre os homens. África produziu um número incontável de 221 homens e mulheres, na guerra e na paz, cujo o brilho e bra- vura ofusca o brilho de qualquer outro povo. Então, por que não ver o bem e a perfeição em nós mesmos? A dificuldade em enxergar o bem e a perfeição com uma extensão de si mesmo consiste, como Fanon (2008, p. 107) bem analisou, em uma forma de se perceber no mundo por meio da falta: “O mundo branco, o único honesto, rejeitava minha participação [...]. Eu acenava para o mundo e o mundo amputava meu entusiasmo. Exigiam que eu me confinasse, que encolhesse”. Para contrariar essa condição, segundo Garvey (2010), os povos negros teriam a percepção do bem e da perfeição como atributos próximos de si, com o intuito de possibilitar a formação de um império negro. Acerca disso, por mais que haja empoderamento2 (empowerment), as teorias de Garvey (2010, p. 109) não escapam de uma romantização do continente africano, já que para o autor “É só uma questão de mais alguns anos, quando a África estará totalmente colonizada pelos Negros, como a Europa é pela raça branca”. Por esse aspecto, o autor tinha a proposta de uma união de diferentes povos negros ao redor do mundo para a promoção de uma Nacionalidade Africana Independente. A presença da população negra das Américas e das Índias Ociden- tais no continente africano não consistiria, para Garvey (2010), em uma submissão dos africanos a esses povos, mas teria a finalidade de construir uma Associação Universal para o Progresso do Negro, tendo a África como base fundamental para uma cooperação fraterna entre os negros africanos, americanos e das Índias Ocidentais. Suas palavras diziam: “[...] vamos entrar em uma parceria para erguer a África nos interesses da nossa raça” (Garvey, 2010, p. 109). Se Garvey (2010) representaria a influência desconstrutora do pensamento de Nascimento (1978), o outro lado da renovação 2 Esse termo surgiu décadas depois de Garvey, mas se insere nesse artigo como ilustração “[...] ao processo de perceber criticamente o discurso da discriminação sofrida; reconhecer-se e assumir sua própria identidade como pertencente ao grupo discriminado; embasar e consolidar a autoestima necessária para tornar-se prota- gonista da própria vida, apesar da discriminação sofrida. Esse processo significa construir e exercer uma forma de poder em relação a si mesmo e à vida” (Mazama, 2009, p. 127). 222 concentrar-se-ia nas teses políticas de Kwame Nkrumah (1965). Nkrumah foi o presidente de Gana após a independência do país do jugo colonial. Com isso, um país africano teve como presidente um filósofo e ativista político que procurava justamente a indepen- dência do continente africano das amarras imperialistas e coloniais que ainda permaneceram durante o neocolonialismo. Por esse modo, Kwame Nkrumah escreveu vários livros, dentre os quais se destacam África debe unirse (1965) e Consciencismo (1970); a última, considerada por muitos pensadores africanos3 como a primeira grande obra da filosofia africana. No que se refere a uma unidade africana, Nkrumah (1965) aponta para a necessidade de três setores: raça, cultura e língua comum. Por mais que houvesse uma tentativa de separação dos povos africanos: Estou convencido de que as forças que atuam a favor da unidade avantajam às que nos separam.Ao reunir-me com companheiros africanos de todas as partes do con- tinente, sempre me impressiona quanto temos em co- mum. Não é só nosso passado colonial ou o direito de que nos propagamos objetivos comuns: é algo muito mais profundo. Pode descrever-se do melhor modo como um sentido de unicidade ao africano (Nkrumah, 1965, p. 182). Assim, a necessidade de uma unidade africana consiste em uma das principais motivações dos pan-africanos em sua amplitude teórica. De tal maneira que, no ano de 1960, Kwame Nkrumah junto a Sekou Touré, da Guiné, e Modibo Keita, do Mali, discutiram o pro- blema da emancipação da unidade africana, a qual destaca-se em um compartilhamento de compromissos: Não vejo segurança para os estados africanos a menos que os dirigentes africanos, como nós mesmos, tenham compreendido, sem espaço de dúvidas, que para a África 3 O filósofo da Costa do Marfim, Paulin J. Hountondji, reserva no livro Sur la Philosophie Africaine (2013) um longo estudo sobre a influência do Consciencis- mo para a filosofia africana. 223 a salvação está na unidade. Porque a união faz a força e, tal como vejo, os Estados africanos devem unir-se ou se venderem aos exploradores imperialistas e colonialistas por um prato de comida, ou bem desintegrar-se indivi- dualmente (Nkrumah, 1965, p. 196-197). Para impedir tal acontecimento, de acordo com Nkrumah (1965), o continente africano necessita emancipar-se das amarras colonialistas e estabelecer a contribuição de seus povos para o desenvolvimento do que seria a humanidade, pois a ocorrência da emancipação do continente africano confirmaria também a emancipação do humano. Por esse modo, percebe-se como o pan-africanismo de Garvey (2010) e o de Nkrumah (1965), cada um a seu modo, são influências para teses de Abdias do Nascimento e sua luta diante da ideologia da democracia racial. CONTRA A HUMANIDADE SEM COR As características polemistas e diplomáticas de Garvey (2010) e Nkrumah (1965) consistem em uma das posições que fundamen- taram a compreensão da necessidade de uma unidade africana, não somente dos povos dos continentes africanos, mas também daqueles povos diaspóricos de ascendência africana nas Américas e na Índia Ocidental. No que se refere ao Brasil, tais posicionamentos influenciaram Nascimento, para quem a nossa história precisa ser pensada por meio das contribuições negras para a nossa formação4: A história do Brasil é uma versão concebida por brancos, para os brancos e pelos brancos, exatamente como toda sua estrutura econômica, sócio-cultural, política e mi- litar tem sido usurpada da maioria da população para o 4 Dessa maneira, percebe-se a luta não somente de Nascimento, mas de todos os movimentos negros em posicionarem na história do Brasil as contribuições dos povos africanos. O resultado de uma das lutas pode ser identificado por meio da implementação da Lei nº 10.639 (Brasil, 2003) que legisla sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todos os níveis de ensino, simbolizando a concretude de tais ações. 224 benefício exclusivo de uma elite branca/brancóide, su- postamente de origem ário-europeia. Temos de consi- derar que a informação disponível nos Estados Unidos e, aliás, em quase todo o mundo, conduz a esse tipo de confusão. Citarei rapidamente, para ilustrar, os Negros no Brasil, de Donald Pierson, e Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Ambos fornecem uma visão suave, açucarada, das relações entre negros e brancos no país (Nascimento, 1980, p. 15). Tal idealização histórica brasileira não apenas oculta o real contato existente no Brasil entre brancos e negros, mas, por tentar escapar de qualquer conflito, ratifica ao imaginário coletivo o ímpeto vio- lento e selvagem, do negro. Por esse modo, as relações entre bran- cos e negros de algumas obras tornam a base da ideologia de uma visão harmônica entre as raças. E, rapidamente, refuta qualquer possibilidade de afirmação e resistência como a consciência negra imputando à consciência humana. Contra isso, Nascimento (1980, p. 78, grifo nosso) afirma: Não aceito o escapismo da humanidade sem cor, que sim- plesmente nos conduz ao endosso de nossa alienação cul- tural/racial, tão persistentemente patrocinada e advogada por aquelas idéias e ideais do supremacismo eurocentrista. Supremacia eurocentrista que funciona por meio da negação à África, aos africanos e suas histórias, e, quando é impossível a negação, a estratégia é o embranquecimento (como nas represen- tações populacionais do Egito Antigo) ou a construção da imagem ameaçadora (como nas religiões tradicionais). Por esse viés, as análises de Abdias do Nascimento contribuem para descolonizar a percepção do africano e seus descendentes perante o Estado eurocêntrico, por ser aquele que propaga uma única e idêntica significação: um estado de terror organizado contra as pessoas negras. Essa maneira de extermínio ocorre de diferentes modos, seja através da hierarquização de uma estética 225 branco-europeia, seja na idealização de cultura e civilização. No interesse de construir essas concepções, a pessoa negra permanece à margem da sociedade ocidental e o principal efeito é o entendi- mento dessa personalidade como “natural”. Desse modo, para o autor, uma vez consciente dessa armadilha ideológica ela não deve se acomodar diante de conquistas sociais ou de direitos civis, pois há uma compreensão muito mais ampla nos discursos conformis- tas cobertos ideologicamente por uma teorização “científica” que enfatiza a inferioridade biossocial, da miscigenação sutilmente compulsória ou da criação do mito da “democracia racial”. Em outras palavras, “Uma ciência histórica que não serve à história do povo de que trata está negando-se a si mesma. Trata-se de uma presunção cientificista e não de uma ciência histórica verdadeira” (Nascimento, 1980, p. 261). Essas estratégias, para o autor, fomentam a recusa de que os negro-africanos se reconheçam como negros e, por consequência, envergonhem-se de sua identidade concreta. Mas a assunção do pan-africanismo em suas diferentes vertentes propiciou um empo- deramento estético, cultural e religioso de origem negro-africana: A revolução pan-africana deve assumir como tarefa prioritária a responsabilidade de garantir o resgate da consciência negra, a qual tem sido violada, distorcida e agredida de muitas formas e maneiras (Nascimento, 1980, p. 78-79). Através dessa revolução, o pensamento de Nascimento tornou-se representativo na luta contra o racismo antinegro que a democracia racial ainda hoje procura ocultar. 226 Referências ABDIAS do Nascimento. Museu Afro Brasil, São Paulo, [2021]. Disponível em: http://www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/hist%- C3%B3ria-e-mem%C3%B3ria/historia-e-memoria/2014/12/10/abdias- -nascimento. Acesso em: 2 abr. 2021. BRASIL. Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2003. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm. Acesso em: 27 jul. 2017. FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008. FOÉ, N. África em diálogo, África em autoquestionamento: uni- versalismo ou provincialismo? “Acomodação de Atlanta” ou iniciativa histórica? Educar em Revista, Curitiba, n. 47, p. 175-228, jan./mar. 2013. Disponível em: http://revistas.ufpr.br/educar/article/view/31332/20037. Acesso em: 27 jul. 2017. FREYRE, G. Casa-grande & senzala. São Paulo: Global Editora, 2006. GARVEY, M. M. African fundamentalism. The Negro World, New York, jun. 1925. GARVEY, M. M. A estrela preta. [s. l.] : EU&EU, 2010. HOUNTONDJI, P. 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Professora substituta do Departamento Acadêmico de Estudos Sociais (DAESO) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) entre 2015-2017. Suas áreas de pesquisa são: Guerra do Contestado; História do Paraná; e Biografias. Andrea Maila Voss Kominek Doutora em Sociologia pela Universidad de Salamanca/Espanha (USAL). Realizou estágio de pós-doutorado pelo Programa de Pós- -Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Cata- rina (UDESC). Mestre em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Bacharel e licenciada em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora de Sociologia e Africanidades na UTFPR e professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE). Suas áreas de pesquisa são: Educação para as Relações Étnico-Raciais; Africa- nidades e Branquitude. Arilson Pereira do Vale Doutor e mestre em Tecnologia e Sociedade pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUCPR). Especialista em Filosofia Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor de Filosofia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e mem- bro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da mesma instituição. 232 Celso Fernando Claro de Oliveira Doutor em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre e graduado em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), além de graduado em Jornalismo pelo Centro Universitário de Maringá (Cesumar). Professor no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Pitanga. Suas áreas de pesquisa são: Relações Cinema-História; Brasil Contemporâneo e Relações Brasil-Estados Unidos. Fernando de Sá Moreira Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), além de mestre, bacharel e licenciado em Filosofia pela Univer- sidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro-pes- quisador do Núcleo de Estudos Nietzschianos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), do Grupo de Estudos de Cultura, Identidade e Gênero do Instituto Federal do Paraná (IFPR), e do Programa de Educação sobre Negros e Indígenas na Sociedade Brasileira (UFF). Publicou, em 2019, o livro Schopenhauer e Nietzsche: um confronto filosófico sobre quem nós somos e, em 2020, traduziu Sobre a impassividade da mente humana do filósofo africano Anton Wilhelm Amo. Luiz Sergio Ribeiro da Silva Possui pós-graduação em Música Popular Brasileira pela Faculdade de Artes do Paraná (Unespar), MBA em Marketing pelo Instituto Superior de Pós-Graduação (ISPG), em Curitiba, e graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Campos, no Rio de Janeiro. Atua como produtor cultural desde 2008, com ênfase em música brasileira, 233 desenvolvendo projetos aprovados em editais de incentivo à cultura nas esferas federal, estadual e municipal. Luís Thiago Freire Dantas Doutor e mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Sob orientação do professor doutor Marco Antônio Valentim, desenvolveu uma tese de doutoramento que procurou refletir as concepções filosóficas de Leopold Senghor, Marcien Towa e Achille Mbembe, com foco na descolonização epistêmica. Suas áreas de pes- quisa são: Afrocentricidade; Biopolítica; Educação Étnico-Racial; Herme- nêutica; Filosofia Africana; Estudos Decoloniais; e Estudos Subalternos. Maria Luísa Carvalho Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestre em Administração pela Uni- versidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Profes- sora associada do Departamento Acadêmico de Estudos Sociais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Membro do Grupo de Pesquisa Ciências Humanas, Tecnologia e Sociedade, do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas(NEABI) e do Programa de Extensão Tecsol – Incubadora de Economia Solidária da UTFPR-CT. Suas áreas de pesquisa são: Economia Solidária; Juventude; e Trabalho. Maria Sara de Lima Dias Doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Realizou estágio de pós-doutorado em Psicologia pela Universi- dad Autónoma de Barcelona (UAB) como bolsista CAPES. Mestre e graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná 234 (UFPR). Especialista em Pedagogia Social pela Universidade Cató- lica Portuguesa. Professora do Departamento de Estudos Sociais (DAESO) e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Tecno- logia e Sociedade (PPGTE), atuando como orientadora de mestrado, doutorado e iniciação científica e tecnológica. Coordena o Projeto de Extensão Grupo de Leituras de Lev Vygotsky e o Laboratório TUTOR – Tecnologia, Universidade, Trabalho e Orientação. Membro da Associação Latino-Americana para a Formação e o Ensino da Psicologia (ALFEPSI), da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) e da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Edu- cacional (ABRAPEE). Trabalha com projetos nas áreas de: Tecno- logia e Trabalho; Saúde do Trabalhador; Orientação Profissional; e Planejamento de Carreira. Megg Rayara Gomes de Oliveira Travesti preta, doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). É professora adjunta no Setor de Educação da UFPR e professora credenciada no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFPR). Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da UFPR. Suas áreas de pesquisa, desenvol- vidas sob uma perspectiva interseccional, são: Gênero; Diversidade Sexual; e Relações Étnico-Raciais. Pedro Augusto Pereira Gonçalves Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Aluno integrante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/ UFPR) e do Species – Núcleo de Antropologia Especulativa. Suas áreas de pesquisa são: Pensamento Pós-Colonial, Filosofia Afrodiaspórica; e Filosofia Amefricana. 235 Presença africana: heranças, memórias e apagamentos 16 x 23 cm Adele | Obvia CC BY-NC-ND Título Formato Tipografia Licença Curitiba 25°26'20.4"S 49°16'08.4"W Feito no Brasil Made in Brazil 2025 Este livro, produzido pela EDUTFPR, é financiado com recurso público e visa à ampla e democrática disseminação do conhecimento. Esta edição promove o ODS 4 Educação de qualidade, que tem o intuito de assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade para todos, envolvendo docentes e discentes em sua produção e promovendo diversas oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Além disso, é favorável à preservação de árvores e diminuição da pegada de carbono global. 236 11 autores, múltiplos temas, uma intenção em comum: contribuir para a luta antirracista no país e para que a Presença Africana no Brasil seja efetivamente conhecida e reverenciada. As organizadoras O presente livro buscavisibilizar uma realidade historicamente escondida e menosprezada na sociedade brasileira: suas raízes africanas. São heranças renegadas, memórias desbotadas, embranquecidas. Heranças que nos constroem e nos fazem ser quem somos... mesmo quando não são reconhecidas e valorizadas. Heranças que nos constituem.às unidades curriculares em Ciências Hu- manas e Sociais, ressalta-se a manutenção da unidade curricular “A Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho” na trilha de Ciências Humanas, assim como de sua articulação com outras unidades curriculares obri- gatórias, com Prolegômenos ao Computar, Sociologia, Filosofia da Ciência e da tecnologia, História da Técnica e da Tecnologia, almeja respaldar o reconhecimento e a contribuição destes povos e destas culturas às socie- dades como um todo. [...] A insistência em realçar tal in- clusão neste projeto de ajuste, frente a não justificativa de diversas outras unidades igualmente relevantes, diz 6 Levantamento realizado por meio de consulta às grades curriculares dos 24 cur- sos de graduação ofertados pelo campus Curitiba até agosto de 2020. 25 respeito ao horizonte de trabalho deste NDE de SI [Núcleo Docente Estruturante de Sistemas de Informações], que vê em ações afirmativas uma forma de ampliar a parti- cipação de quaisquer pessoas na Computação como um todo, e em Sistemas de Informação em particular, inde- pendentemente de classe, raça e etnia, gênero, geração ou capacidade. Isto exige que cada oportunidade seja utilizada para favorecer o acesso, a inserção e a manu- tenção de uma multiplicidade de pessoas a este curso. Por razões infelizmente associadas a estas e outras cli- vagens, mas não justificáveis, estas não estão presen- tes significativamente em seus quadros. Em tese, isto esboça um desejo de transformação, que tem sido mais lenta do que se almeja, mas cujos passos têm que ser constantemente galgados (Merkle et al., 2016, p. 18-19). Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho é uma disci- plina presencial, com carga horária de 30 horas e ofertada semes- tralmente. Por tratar-se de um componente optativo, as turmas são compostas por estudantes de diferentes cursos, característica que valoriza a realização de debates e a exposição de diferentes experiências da realidade brasileira. Infelizmente, não encontramos dados sobre o número de estudantes matriculados ou concluintes. Os objetivos elencados pelo plano da disciplina são: Contextualizar a presença e contribuição dos povos afri- canos na construção do Brasil. Analisar as contradições da racialização da cultura brasileira e suas repercussões nas dimensões do trabalho e da tecnologia. Compreen- der a consciência negra e suas contribuições para a de- mocracia racial necessária (UTFPR, 2018, p. 1). Tais objetivos assinalam a importância de se (re)descobrir e con- textualizar a história dos povos africanos no Brasil, bem como de se compreender as estruturas nas quais as desigualdades étnico- -raciais, que ainda hoje assolam nosso país, se assentam, gerando 26 consequências de seus efeitos tanto no mundo do trabalho quanto na produção de tecnologia. Gostaríamos de ressaltar, com especial atenção, o último obje- tivo, que diz respeito à compreensão da consciência negra e de suas contribuições para a construção de uma efetiva democracia racial brasileira. Tal objetivo reforça o potencial da disciplina de Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho em proporcionar uma emancipação crítica dos estudantes como sujeitos históricos. Um discente afro-brasileiro, por exemplo, pode utilizá-la como instru- mento de empoderamento, favorecendo a formação de sua identidade e conscientização política. Por sua vez, um discente branco pode se valer dos debates para a desconstrução de seus próprios racismos, exercitando a alteridade. A ementa da disciplina é composta pelas temáticas: colonialidade do poder e racismo; racialização das relações sociais; africanidades; resistência e liberdade; racismo e gênero; e consciência negra e tecnologia. As quais estão organizadas conforme Quadro 1 abaixo: Quadro 1 – Conteúdos Programáticos da Disciplina de Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho Fonte: Adaptado de UTFPR (2018). Ordem Ementa Conteúdo 1 Colonialidade do poder e racismo A empresa colonial e o seu imaginário. 2 Racialização das relações sociais Racismos; Racismo Brasileiro; Genocídio do Negro Brasileiro; Eugenia; Ideologia do embran- quecimento. 3 Africanidades Os povos negros africanos e seus parâmetros culturais; Africanização das Américas: trabalho e tecnologia, religiosi- dade, linguagem, estética. 4 Resistência e liberdade Quilombismo; Palmares; Movimentos Negros. 5 Racismo e gênero A mulher negra em África; A mulher negra no Brasil ontem e hoje; Feminismo negro. 6 Consciência negra e tecnologia Consciência negra; Tecnologia e código técnico anti-negro. 27 Pode-se observar que a disciplina é constituída por conteúdos que dialogam com as áreas de História, Geografia, Filosofia e Socio- logia. Essas temáticas abordam acontecimentos passados, assim como elementos que ainda hoje se fazem presentes na sociedade brasileira, assinalando a atualidade de tais debates e reforçando a relevância política do referido componente curricular. Nesse sentido, trata-se de uma disciplina que busca tanto resgatar e valorizar as raízes africanas do Brasil quanto fornecer subsídios para fomentar as lutas em favor da igualdade racial em nosso país. Outro elemento, que merece destaque é a preocupação com as pluralidades que envolvem o tema. Fala-se de “povos negros”, de “africanização das Américas”, de “movimentos negros”. Essa plurali- zação tem por objetivo assinalar a riqueza das diferentes culturas africanas que foram trazidas para o nosso continente e os distintos processos de aculturação pelos quais elas passaram nas mais diversas regiões americanas. Rompe-se, portanto, com a imagem racista de uma “África única”, em favor de um entendimento daquele território como um rico mosaico de histórias, costumes e tradições. Além disso, a questão de gênero contribui para se pensar de forma mais detalhada as lutas das mulheres negras na conquista de seu espaço na sociedade, assim como na recuperação de suas ligações com o continente africano. Tais discussões podem favorecer a tomada de consciência de que as lutas feministas dizem respeito a todos os cidadãos que buscam a construção de um país justo e igualitário, realçando ainda as relações entre classe, raça e gênero. Todavia, também o racismo é abordado em sua pluralidade, o que constitui um elemento importante para que os docentes possam compreender as diferentes formas de discriminação enfrentadas por negros e negras no dia a dia. A unidade dois — composta pelos conteúdos: Racismos; Racismo Brasileiro; Genocídio do Negro Bra- sileiro; Eugenia e Ideologia do embranquecimento — não apenas traça um panorama histórico do pensamento racista em nosso país e no mundo, como procura fazer os estudantes refletirem sobre os resquícios dessas práticas no cotidiano atual. Assim, eles podem desenvolver estratégias para questionar, enfrentar e desconstruir as diferentes manifestações do racismo, sejam elas ostensivas ou veladas. 28 Por fim, a bibliografia do componente curricular valoriza o debate com autores clássicos e atuais, proporcionando um resgate de inte- lectuais que, comumente, permanecem à margem dos grandes deba- tes acadêmicos. Entre as leituras que servem de base para o plano, emergem autores como o sociólogo Clóvis Moura, o historiador Joel Rufino dos Santos, o antropólogo Kabengele Munanga e a médica e professora Eliane Azevedo (UTFPR, 2018). Apesar de seu potencial, é importante destacar que a disciplina de Presença Africana no Brasil: Tecnologia e Trabalho não está plenamente acessível a todos os estudantes da UTFPR. Apenas uma parte dos cursos a incluiu em suas grades, o que limita o alcance de sua oferta. O status de componente curricular optativo também é um impeditivo para que mais discentes se matriculem, uma vez que há muitas disciplinas sendo ofertadas semestralmente com um número restrito de vagas. Dessa forma, devemos ter em mente que ainda é preciso pensarmecanismos para democratizar o acesso à disciplina. À GUISA DE CONCLUSÃO: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NA UTFPR – CAMPUS CURITIBA A nova conjuntura política, cultural e social no ambiente aca- dêmico exige cuidados para que nele não se reproduzam nem se reforcem as desigualdades da sociedade. É preciso encontrar meios para valorizar a diversidade que as instituições de ensino superior passam a abrigar em seus corredores. A fim de que as ações afir- mativas sejam, de fato, efetivas, são necessárias adaptações nas estruturas das universidades e a criação de um sistema de apoio que auxilie a permanência dos alunos e alunas cotistas. Atender estritamente às exigências da lei não é o suficiente para gerar a necessária transformação social. É preciso mais do que o mínimo legal estabelecido. Igualmente, é fundamental desenvolver mecanismos que apoiem professores e professoras que trabalham com disciplinas e temáticas de africanidades, pois esses profissio- nais dificilmente foram treinados para ministrá-las durante suas próprias formações acadêmicas. 29 No caso da UTFPR, que está apenas no início de sua caminhada em relação às ações afirmativas relativas às questões raciais, faz-se necessário buscar conhecimento de iniciativas empreendidas por outras entidades. Através de consultorias especializadas e parce- rias com órgãos de ensino superior mais experientes nesse campo, é possível subsidiar a implantação de novas e variadas formas de políticas de promoção da igualdade racial em todos os campi da UTFPR. A promoção da igualdade racial e do enfrentamento ao racismo cumpre com a missão originária da instituição: atender os excluídos sociais. Criar oportunidades de tematização, explicitação e correção des- ses problemas estruturais torna-se pré-requisito para a criação de um ambiente universitário justo, igualitário e democrático. Como sugere Bastos (1998, p. 60), é necessário que a educação seja compreendida como “[...] a reconstrução permanente da experiência humana, pois busca imprimir sentido ao curso da vida, afinal sua capacidade de dirigir e intervir nas caminhadas da história dos homens é grande”. A educação tecnológica, especificamente, assume a tarefa de regis- trar, sistematizar, compreender e utilizar o conceito de tecnologia, histórico e socialmente construído, para dele fazer elemento de ensino, pesquisa e extensão. As dimensões desse processo devem ultrapassar os limites das simples aplicações técnicas, converten- do-se em instrumento de inovação e transformação das atividades econômicas em benefício do homem — enquanto trabalhador e sujeito histórico — e do país. A universidade não apenas pode, mas valendo-se de seu capital humano, político e social, deve contribuir para corrigir a realidade de desigualdade racial e social do país. É preciso superar o racismo social, histórico e estrutural. É preciso combater o racismo institucional. É preciso treinar e apoiar os docentes que pesquisam e desenvolvem trabalhos no campo das africanidades. É preciso encontrar meca- nismos que contribuam para o fortalecimento dos alunos e alunas cotistas raciais. É preciso tudo isso e muito mais para a construção de um país justo e igualitário. 30 Referências ABUD, K. M. A guardiã das tradições: a história e o seu código curricular. Educar em Revista, Curitiba, v. 27, n. 42, p. 163-171, out./ dez. 2011. AMORIM, M. L. A Escola Técnica de Curitiba/Escola Técnica Federal do Paraná (1942-1965). Tecnologia e Humanismo, Curitiba, v. 24, n. 39, p. 169-212, jul./dez. 2010. BASTOS, J. A. S. L. (org.). Tecnologia e interação. Curitiba: PPGTE; CEFET-PR, 1998. BITTAR, M.; BITTAR, M. História da educação no Brasil: a escola pública no processo de democratização da sociedade. Acta Scien- tiarum. Education, Maringá, v. 34, n. 2, p. 157-168, jul./dez. 2012. BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. 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Nesse contexto adverso, o movimento negro no Brasil corres- ponde a um conjunto de movimentos sociais, políticos e culturais realizados com a colaboração de incorporados não negros, lutando por seus direitos e contra o racismo. Tais movimentos acumularam um largo histórico de reivindicações de condições e de possibilidades da formação da consciência negra, tendo em vista a promoção da igualdade racial no Brasil. No final da década de 1970, o enfrentamento do racismo antine- gro ressurgiu revigorado, articulando as forças políticas e reagindo à violência racial. As ações das entidades da luta antirracista con- tribuíram para o avanço da conscientização do próprio povo negro acerca de suas demandas, de sua condição social, e dos valores da ancestralidade africana, princípio articulador das forças transfor- madoras, oriundas das matrizes culturais africanas e presente no meio do povo brasileiro. Uma importante conquista da população negra no Brasil foi a criação da Lei nº 12.711, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, que estabelece a reserva de 50% do total de vagas das universidades e institutos federais para discentes que cursaram o ensino médio na rede pública, sendo que 25% desse percentual deve seguir critérios 38 raciais, correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas (Brasil, 2012). A criação da Lei, entretanto, gerou críticas e explicitou o racismo velado presente no país, sendo amplamente difundidos na mídia argumentos contrários à sua efetivação, que serão apresentados posteriormente. Desde então, estudos foram realizados buscando analisar os avanços, limites, impactos e as contradições da chamada lei de cotas nas universidades. A presente pesquisa visa contribuir para a produção de conhe- cimento a respeito dessa questão, tendo por objetivo identificar a percepção dos alunos da graduação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Curitiba, em relação à política de cotas para ingresso na instituição, com ênfase nas cotas raciais. Uma vez que o estudo se vincula ao Núcleo de Estudos Afro-Brasi- leiros e Indígenas (NEABI), da UTFPR, campus Curitiba, espera-se que os resultados subsidiem ações que promovam o fortalecimento dessa ação afirmativa. POLÍTICA DE COTAS NAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS: CONQUISTAS E CONTROVÉRSIAS Os movimentos negros brasileiros têm exercido um papel de enfrentamento radical das mazelas do mito da democracia racial e do racismo sem racistas no Brasil, investindo na contramão do senso comum. Reivindicando políticas afirmativas e reparação histórica, alcançaram importantes conquistas na área da Educação, como a Lei nº 10.639 (Brasil, 2003), que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Bra- sileira, e a Resolução nº 1, de 17 de junho de 2004 (Brasil, 2004), do Conselho Nacional de Educação, que institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Apesar dos esforços do campo educacional para o debate, a desi- gualdade histórica persiste, uma vez que muitas das ações de inclusão e discussão do racismo, propostas pelas supracitadas leis, passaram desapercebidas pela mídia e pela população em geral, não sendo 39 plenamente cumpridas. O mesmo não ocorreu com a Lei nº 12.711 (Brasil, 2012), que estabeleceu a reserva de 50% do total de vagas das universidades e institutos federais para discentes que cursaram o ensino médio na rede pública. As vagas reservadas às cotas são subdivididas, sendo metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário-mínimo e meio per capita, e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário-mínimo e meio. Sendo, por fim, também para cada subgrupo, levado em conta o percentual mínimo correspondente à soma de pretos, pardos e indígenas no respectivo estado, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012). Para Campos e Feres Júnior (2014), tanto no debate público como no âmbito acadêmico, as ações afirmativas raciais costumam ser vistas como políticas de promoção da diferença cultural. Se os pro- cedimentos das ações afirmativas raciais podem encorajar o reforço de fronteiras étnicas, as metas que elas se colocam têm mais a ver com a equalização de oportunidades sociais e a consequente inclu- são das minorias. Compilando-se os principais argumentos favoráveis às cotas, Tessler (2006) aponta ser uma ação de reparação frente à escravidão e dominação sofrida pelos negros e índios; uma questão de justiça social que oferece maior oportunidade de acesso ao ensino supe- rior a grupos historicamente excluídos; e uma ação de promoção da diversidade cultural no ambiente universitário. Já em relação à oposição às cotas raciais, estudos como o de Camino et al. (2014), evidenciaram que argumentos contrários às cotas raciais se pautam em afirmações de que não há diferenças intelectuais entre negros e brancos; as desigualdades sociais entre negros e brancos seriam de origem socioeconômica e não étnica; e que a solução deve ser inves- tir na qualidade do ensino público fundamental e médio. Permeia esses argumentos a noção de que a meritocracia deve prevalecer. Vasconcelos e Silva (2005) pesquisaram a percepção de alunos de um pré-vestibular inclusivo sobre a implantação de cotas. A maioria dos estudantes posicionou-se favoravelmente, porém, priorizou 40 as cotas para ex-alunos de escolas públicas detrimento daquelas voltadas a de minorias étnicas. A partir de uma pesquisa centrada na mídia impressa, Ferreira e Mattos (2007) sintetizaram as principais argumentações contrá- rias às cotas: a) são inconstitucionais, pois ferem a igualdade de direitos, ofe- recendo um privilégio a um grupo, configurando uma forma de discriminação às avessas; b) não há critérios objetivo e científicos para estabelecer com pre- cisão se a pessoa faz parte do grupo étnico atendido, em especial em um país miscigenado como o Brasil, o que pode levar a fraudes; c) o cerne do problema estaria na desigualdade social, e não na questão racial, a solução sendo amelhoria da qualidade do ensino público; d) as cotas ferem o princípio da meritocracia, podendo, ao bene- ficiar todo um grupo, favorecer quem não tem merecimento. Todos esses argumentos podem ser, contraditoriamente, contesta- dos, e podemos dizer que nenhum deles se sustenta diante dos dados estatísticos que indicam a situação de vulnerabilidade e exclusão social dos negros no Brasil: em 2014, pardos e negros representavam 53,6% da população brasileira, sendo 76% dos mais pobres do país; dados estatísticos indicam que, dentre os jovens de 15 a 24 anos que cursavam o ensino superior, 31,1% eram brancos, 13,4% pardos e 12,8% pretos. Outro dado indica que, em 2015, os negros receberam cerca de 59,2% do salário de um branco (IBGE, 2012; Negros [...], 2015; Diferença [...], 2016). Após essa breve explanação sobre a questão das cotas nas uni- versidades, passaremos a apresentar o estudo por nós realizado, a começar pelos procedimentos metodológicos. 41 METODOLOGIA O presente capítulo teve por objetivo verificar quais os signi- ficados que os universitários atribuem à lei de cotas raciais1. Por significados, se entende as ideias ou conceitos acerca da realidade, que são produzidos historicamente e apropriados pelo sujeito por meio da linguagem, constituindo a base social de sua consciência, e, portanto, conformando as relações/vivências de trabalho e a sub- jetividade (Leontiev, 1983) e Vigotski (2009) que diferencia sentido e significado, indicando a relação entre esses conceitos, para o autor o sentido é marcado pela dinamicidade e fluidez, enquanto o signi- ficado apresenta certa estabilidade. Este estudo constitui-se com base nos pressupostos do método- survey, amplamente utilizado em pesquisas de opinião pública, de mercado e, atualmente, em pesquisas sociais. Trata-se de uma abor- dagem que visa, de forma objetiva, descrever, explicar e/ou explorar características ou variáveis de uma população por meio de uma amostra estatisticamente extraída desse universo. As etapas que compõem um survey incluem: a definição do objetivo da pesquisa, definição da população e da amostra, elaboração do(s) questionário(s), coleta de dados (ou trabalho de campo), processamento dos dados, análise dos dados e divulgação dos resultados. A população deste estudo foi composta por os alunos dos cursos de graduação (bacharelado, licenciatura e tecnologia) matriculados no primeiro semestre de 2015 na UTFPR, campus Curitiba. Os dados disponíveis indicaram que, ao término de 2014, havia 6.258 discen- tes regularmente matriculados. Estabeleceu-se para o tratamento estatístico dos dados um erro amostral de 4% entre questionários excluídos e um nível de confiança de 95%, o que resultou na definição de uma amostra mínima de 362 estudantes. Após a coleta de dados, constatou-se que 511 estudantes responderam ao questionário. Desse total, 2 questionários foram rejeitados por erros no preenchimento, resultando numa amostra final de 509 questionários respondidos. 1 O conteúdo deste capítulo baseou-se em pesquisa vinculada ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígena (NEABI) da UTFPR-CT e aprovada pelo Comitê de Ética da UTFPR (CAAE: 43421415.0.0000.5547). 42 A coleta de dados, realizada por meio de um questionário, que se pautou em estudos anteriores (Camino et al., 2014; Ferreira; Mat- tos, 2007; Tessler, 2006), envolveu questões que abordaram a con- cordância e discordância em relação ao estabelecimento de cotas raciais para o ingresso no ensino superior federal, seus objetivos, possíveis consequências e ações necessárias à consolidação dessa ação afirmativa. Como procedimento de coleta, ainda se realizou um pré-teste do instrumento com alunos de duas turmas das dis- ciplinas de Relações Humanas e Liderança, dos cursos de Admi- nistração, junto aos professores do Departamento Acadêmico de Estudos Sociais, efetuando-se as modificações necessárias a partir das adequações identificadas. Em seguida, o questionário foi enviado por e-mail aos estudantes da UTFPR, campus Curitiba, sendo respondido eletronicamente por meio de um site de pesquisas. Optou-se por essa ferramenta por permitir o acesso a toda a população e por facilitar o arma- zenamento e tratamento dos dados, que foram automaticamente salvos e organizados em uma planilha eletrônica. O questionário ficou disponível para acesso dos alunos no período de 29 de junho a 10 de agosto de 2015, encerrando-se a coleta após o alcance de uma amostra estatisticamente significativa de 511 estudantes. O tratamento dos dados seguiu procedimentos básicos de cál- culo de frequência e porcentagem, considerando a totalidade das respostas, bem como as subdividindo por grupos (não cotistas, cotistas sociais e cotistas raciais). A análise dos dados procurou ir além da mera descrição dos resultados, analisando-os a partir de referenciais teóricos sobre o tema e da perspectiva da Psicologia Sócio-Histórica, cuja natureza teórica procura contextualizar o pen- samento de Vigotski (2009), relacionando conceitos de sua obra à problemática do racismo e da discriminação racial, em diálogo com outros autores, como Leontiev. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS A UTFPR passou a aplicar a Lei de Cotas de forma gradual em seu sistema de seleção para o ensino técnico integrado e superior, 43 iniciando com um percentual de 12,5% em 2013, atingindo atualmente o percentual de 25% de cotas raciais. Cabe ressaltar que, embora a lei englobe negros e indígenas, ao menos na região onde foi feito o estudo, o que se percebe é que há uma maior visibilidade e debate em relação à população negra, uma vez que sua presença é mais forte do que a da população indígena. Dados do último censo de 2010, do IBGE, indicam que no Paraná, 27,4% da população se autodeclarou negro ou pardo e apenas 1,3% amarela ou indígena (IBGE, 2012). A partir da teoria histórico-cultu- ral, o conceito de sentido pode ser entendido como acontecimento gerado por meio de relações sociais, nas quais uma multiplicidade de signos é colocada em jogo, circulando nos diversos contextos em que o sujeito está inserido. Sendo assim, o estudo centrou-se sobre a questão das cotas e sobre a população negra no contexto univer- sitário e na produção de sentidos e significados sobre a política de cotas, mais especificamente sobre a percepção do discente. CARACTERIZAÇÃO DOS DISCENTES Em relação ao gênero, 41,73% (212) dos discentes se declararam per- tencentes ao gênero feminino e 58,27% (296) ao masculino. Esse dado chama a atenção, considerando que a universidade oferta predomi- nantemente cursos na área de Engenharias, que pela divisão sexual histórica do trabalho são ambientes predominantemente masculinos. Quanto à idade, a maioria dos estudantes — 288 (56,69%) — tinha entre 21 e 30 anos. Alunos com até 20 anos somavam 162 (31,89%). Em menor número, estavam os estudantes com idade entre 31 e 40 anos, totalizando 35 (6,85%); seguidos por 18 alunos (3,54%) com idade entre 41 e 50 anos, e apenas 4 estudantes (0,79%) com mais de 51 anos. Dentre os alunos que participaram da pesquisa, a maioria não ingressou por meio de cotas, ou seja, 305 respondentes (59,69%). Entre os que ingressaram por cotas (203), 143 (27,98%) o fizeram por cotas sociais e 60 (11,74%) por cotas raciais. 44 PERCEPÇÃO DOS DISCENTES EM RELAÇÃO À POLÍTICA DE COTAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS FEDERAIS Em relação ao apoio ou não à Lei de Cotas para ingresso nas uni- versidades federais, obtiveram-se os seguintes resultados (Gráfico 1): Gráfico 1 — Posição em relação à política de cotas Fonte: Autoria própria. 45 Percebe-se que 43% do total de estudantes mostraram-se favorá- veis à lei de cotas (sociais e raciais), seguido por um número igual- mente expressivo de estudantes que apenas aprovaram a existência de cotas sociais (38%). Os totalmente desfavoráveis às políticas de cotas representaram 16% dos participantes. Observou-se um baixo apoio à existência de apenas as cotasraciais, sendo representado por 1%. Cerca de 2% afirmaram não ter opinião formada. Destaca-se que, entre os estudantes que não ingressaram pelo sistema de cotas, as opiniões mais frequentes consistem em: apoiar apenas as cotas sociais (45%), apoiar a ambas as cotas (30%) e ser con- trário à política de cotas (22%). Dentre os estudantes que ingressaram por cotas sociais, a maioria apoia a política de cotas (52%), seguida daqueles que apoiam apenas as cotas sociais (38%). Já entre os que ingressaram por cotas raciais, a grande maioria (88%) apoia a política de cotas sociais e raciais, sendo que nenhum apoia apenas a existência de cotas raciais e apenas 7% apoiam apenas as cotas sociais. Chama a atenção que, dentre os que ingressaram por meio de cotas, alguns são contrários à política: 7% dentre os cotistas sociais e 2% dentre os cotistas raciais. Levantamos algumas hipóteses explicativas, a serem investigadas em novos estudos, de que tal posicionamento vincula-se ao individualismo vigente na sociedade capitalista, bem como à falta de uma consciência política em relação à questão social e racial que originou a lei. Ou seja, as respostas desses alunos parecem indicar que utilizam as cotas em proveito próprio, mas não têm clareza quanto ao seu objetivo social e político. Conforme já apontado, a lei de cotas é alvo de reações contrárias que visam desqualificá-la. Um argumento recorrente é o de que, se houvesse qualidade no ensino público fundamental, as cotas não seriam necessárias. A questão foi abordada pelo estudo, e obtive- ram-se os seguintes resultados (Gráfico 2). 46 Gráfico 2 — As cotas (sociais e raciais) são necessárias mesmo quando há qualidade do ensino público Fonte: Autoria própria. A maioria dos universitários pesquisados (54%) discorda de que as cotas seriam necessárias se houvesse qualidade no ensino público. A concordância é majoritariamente predominante entre os não cotistas (63%). Dentre os cotistas raciais, os índices mais elevados variaram da discordância total (35%) à concordância parcial (40%). Já entre os cotistas sociais, 45% concordam com a afirmação. Esse é um argumento recorrente no cotidiano e repetido pela mídia: o foco deve ser a qualidade do ensino público fundamental e médio e não o estabelecimento de políticas de cota. 47 Esses argumentos podem ser contestados, ante a afirmação de que as cotas não visam compensar as deficiências da base escolar pública, mas que se trata de uma ação afirmativa cujo foco é a inclu- são e a garantia de direitos das parcelas excluídas da população, tendo como objetivo que a universidade pública seja acessível a todos os cidadãos. Além disso, é bem sabido que há um interesse da elite econômica em não oferecer o acesso a um ensino público gratuito e de qualidade, principalmente quando corresponde a uma perspectiva neoliberal de transformar a educação em mercadoria. Nesse contexto, devem os jovens das camadas populares, para além do acesso a uma base educacional precária, pagar o preço de tal modelo de sociedade e não terem acesso ao ensino superior, ou acessá-lo apenas a partir do sistema privado? Obviamente, tais argumentações não eximem de uma luta contínua por melhorias na educação fundamental, mas extinguir o sistema de cotas esperando que essa mudança ocorra é perpetuar a permanência da população trabalhadora longe do ensino superior público. Um ponto bastante polêmico nas políticas das cotas é a questão da autodeclaração como critério de comprovação de que o candidato pertence ao grupo étnico-racial atendido pelas cotas. A questão foi abordada na pesquisa, obtendo-se os seguintes resultados (Gráfico 3). 48 Gráfico 3 — Há critérios objetivos para se estabelecer com precisão se a pessoa faz parte do grupo étnico-racial atendido Fonte: Autoria própria. Cerca de 31% discordam de que haja critérios objetivos para definir se a pessoa faz parte do grupo étnico-racial atendido, enquanto 12% concordam plenamente. Observa-se que a questão é controversa até mesmo entre os cotistas raciais, onde 25% concordam totalmente com a afirmação e 13% discordam totalmente, e que há um percentual sig- nificativo, que variou de 21% a 29% entre os grupos, daqueles que não têm opinião formada sobre o assunto (não discordam nem concordam). Em relação à autodeclaração, na Universidade de Brasília (UNB) já houve a composição de bancas. Ainda assim, a polêmica persistiu, 49 sendo conhecido o caso dos irmãos gêmeos idênticos em que um foi aceito como cotista racial e o outro não (Bassette, 2007). Embora sejam previstas penalidades legais no caso de informações falsas, são conhecidos casos de fraudes e controvérsias em relação à questão. Destaca-se, entretanto, que ao invés de o debate centralizar-se na dimensão ética em relação aos fraudadores, capciosamente, é utilizado como argumento para contestar a legitimidade das cotas. Cabe comentar, ainda, que a mesma polêmica não ocorre em relação àqueles que retiram os filhos do ensino privado e os matriculam no ensino médio público e, paralelamente, pagam cursos preparatórios para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), nem àqueles que fraudam dados de renda familiar para se beneficiar das cotas sociais. Coletivos de estudantes negros de universidades federais têm debatido a questão e pressionado para a maior fiscalização e punição como forma de reduzir as fraudes. Em relação a serem as cotas raciais uma questão de justiça social e uma forma da retratação da escravidão, 38% discordam totalmente dessa afirmação e 25% concordam totalmente. Os índices de dis- cordância prevalecem entre os não cotistas (47%) e cotistas sociais (32%), enquanto metade dos cotistas raciais (50%) concordam com a afirmação (Gráfico 4). 50 Gráfico 4 — As cotas raciais são uma questão de justiça social, uma ação de retratação frente à escravidão sofrida pelos negros no Brasil Fonte: Autoria própria. Em relação à afirmação de que as cotas contribuem para uma maior igualdade social no país, no grupo total, houve uma pulve- rização das respostas, sendo que 29% discordam totalmente e 28% concordam totalmente. Porém, novamente, analisando por grupos, percebeu-se que prevaleceu a discordância total entre os não cotistas (39%), sendo que entre os cotistas raciais (62%) e cotistas sociais (32%) prevaleceu a concordância com a afirmação (Gráfico 5). 51 Gráfico 5 — As cotas contribuem para uma maior igualdade social no país Fonte: Autoria própria. Quanto ao que se poderia chamar de impactos da lei de cotas raciais, 34% concordam que a lei favorece o maior acesso de afrodescendentes e indígenas ao ensino superior público, prevalecendo tal concordân- cia em todos os grupos, mas com porcentagens distintas: 26% entre os não cotistas, 38% entre os cotistas sociais e 64% entre os cotistas raciais (Gráfico 6). Há, porém, uma diferença quando comparada às respostas dadas à questão sobre a política de cotas e maior acesso das camadas mais populares ao ensino superior público. Nesse caso, o índice de concordância foi maior: 42% no total, 30% entre os não cotistas, 57% entre os cotistas sociais e 64% entre os cotistas raciais. 52 Gráfico 6 — As cotas raciais promovem o maior acesso de afrodescendentes e indígenas das camadas populares ao ensino superior público Fonte: Autoria própria. A maioria dos estudantes pesquisados (46%) discorda totalmente de que as cotas raciais contribuem para a redução do racismo no país. Apenas entre os cotistas raciais prevaleceu a concordância em relação a essa questão (33%), como pode-se constatar no Gráfico 7. 53 Gráfico 7 — As cotas raciais contribuem para a redução do racismo no país Fonte: Autoria própria. Um argumento recorrentemente contrário às cotas (sociais e raciais), reproduzido na mídia e no cotidiano, é o de que elas negativamente impactariam a qualidade do ensino superior público. Em relação a essa questão, a pesquisa indicou que 46% dos alunos concordam