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Comunicação, Governo e Transformação Digital. UX Writing para Governo Digital Enap, 2022 Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional SAIS - Área 2-A - 70610-900 — Brasília, DF Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional Conteudista Vanessa Grazielli Bueno do Amaral, (Conteudista, 2022). Módulo 1: Contextualizando o UX Design na Transformação Digital ................6 Unidade 1: Compreendendo a Era da Experiência ....................................................... 6 1.1 Sociedade da Informação e Transformação Digital ............................................... 6 1.2 O Que é e Como se Forma a Experiência? ............................................................ 16 1.3 O Cidadão na Era da Experiência ........................................................................... 20 Referências ...................................................................................................................... 21 Unidade 2: O que é UX Design?..................................................................................... 24 2.1 Design da Experiência do Usuário .......................................................................... 24 2.2 O que Faz e o que Não Faz o UX Design ................................................................ 30 2.3 Disciplinas e Áreas de Atuação ............................................................................... 37 2.3.1 A interseção entre UX Design e UX Writing ........................................................ 38 Referências ...................................................................................................................... 40 Módulo 2: UX Writing: o Texto na Experiência do Usuário ...............................42 Unidade 1: UX Writing em cena .................................................................................... 42 1.1 Afinal, o que é UX Writing? ...................................................................................... 42 1.2 A Diferença entre UX Writing e Outros Tipos de Texto ....................................... 44 1.3 A Importância dos Microtextos ............................................................................... 49 1.4 Competências e Boas Práticas para UX Writing ................................................... 51 1.5 Entregáveis do UX Writer ......................................................................................... 56 Referências ...................................................................................................................... 59 Unidade 2: A importância do UX Writing na Administração Pública ........................ 61 2.1 Entendendo as Características do Governo Eletrônico e Digital ........................ 61 2.2 A Experiência do Usuário no Governo Digital ....................................................... 69 2.3 A Relação entre Governo Centrado no Cidadão e UX Writing ............................ 71 Referências ...................................................................................................................... 74 Módulo 3: Como fazer UX Writing? ...................................................................... 76 Unidade 1: Prática de UX Writing .................................................................................. 76 1.1 Critérios de Qualidade da Redação para UXC ...................................................... 76 1.2 A Importância da Linguagem Simples na Prática de UX Writing ........................ 82 1.3 Como Escrever Textos para UX ............................................................................... 85 Referências ...................................................................................................................... 93 Unidade 2: O Processo de UX Writing .......................................................................... 96 2.1 A Metodologia do Design Thinking......................................................................... 96 2.1.1 Etapa da Empatia: Entender o Problema ........................................................... 98 Sumário 4Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 2.1.2 Etapa da Definição: Compilar as Informações ................................................... 99 2.1.3 Etapa da Ideação: Gerar Ideias .......................................................................... 100 2.1.4 Etapa da Prototipação: Materializar as Ideias.................................................. 101 2.1.5 Etapa de Teste: Validar as Propostas ................................................................ 101 2.2 Duplo Diamante aplicado a UX Writing ............................................................... 102 Referências .................................................................................................................... 114 Módulo 4: O UX Writing na Administração Pública .........................................115 Unidade 1: Casos práticos na Administração Pública .............................................. 115 1.1 Relembrando o UX Writing no contexto da Administração Pública ................. 115 1.2 Design System do Gov.br ...................................................................................... 119 1.3 Portal Gov.br ........................................................................................................... 120 1.4 Aplicativo Gov.br ..................................................................................................... 120 Referências .................................................................................................................... 121 Sumário Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 5 Apresentação e Boas-vindas Antes de iniciar seu estudo sobre o tema, assista ao vídeo de apresentação e, logo após, retome a leitura! O curso UX Writing para Governo Digital tem como objetivo capacitar servidores públicos na teoria e na prática da escrita focada na experiência do usuário. As mudanças na sociedade e o uso intenso de tecnologia levam as organizações a buscar formas de diferenciação por meio da experiência que oferecem a seus clientes. Esse cenário também é refletido nas organizações públicas: o cidadão busca facilidade e agilidade na comunicação com o governo. E, no processo, o texto é uma ferramenta muito importante para proporcionar experiências satisfatórias que possam engajar o cidadão. Para tratar do tema, o curso está estruturado em quatro módulos. No primeiro, será abordada a contextualização do design da experiência do usuário (do inglês “UX Design”) no cenário de transformação digital. No segundo, serão apresentados os conceitos de UX Writing e seu papel no design da experiência do cidadão em relação ao governo digital. O terceiro módulo tratará da prática de produção de textos para a experiência do usuário. No quarto e último módulo serão apresentados exemplos de UX Writing aplicada à Administração Pública. Dessa forma, você será capaz de realizar a análise, construção e padronização de conteúdos para interfaces de governo digital. Videoaula: Apresentação do Curso https:// https://cdn.evg.gov.br/cursos/813_EVG/video/modulo01_video01/index.html 6Enap Fundação Escola Nacional de Administração PúblicaEnap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Módulo Contextualizando o UX Design na Transformação Digital1 Neste módulo, você conhecerá os aspectos da sociedade da informação, da transformação digital e da economia da experiência. A partir daí, será apresentado o conceito do design da experiência do usuário (UX Design), as disciplinas envolvidas, as áreas de atuação e, principalmente, a escrita para a experiência do usuário (UX Writing). Para iniciar o primeiro módulo, faça a seguinte reflexão: lembre-se das últimas experiências que teve ao comprar um produto (em loja física ou virtual), contratar um serviço, ou até mesmo fazer um pedido de comida por aplicativo.as informações de configuração, experiência de primeira execução e conteúdo de instruções que dá confiança às pessoas para dar o próximo passo” (PODMAJERSKY, 2019, p. 13). UX Writer. Fonte: Freepik (2022). O UX Writer participa de reuniões e está presente nos canais de discussão relevantes para a estratégia de conteúdo de um projeto. Também faz uso de técnicas próprias de sua área para conhecer cada vez melhor o usuário, entender os objetivos do negócio e organizar, priorizar e validar matriz de importância do ponto de vista de conteúdo junto à equipe (LORENTE, 2019). Quanto aos textos que produz, o UX Writer escreve para produtos físicos ou digitais que tenham preocupação com a experiência do usuário. Pode estar inserido na equipe de produto ou ainda em equipes de marketing, comunicação interna ou diagramação de páginas. 44Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O primeiro episódio do podcast UXCopy.co explica o que é o UX Writer, ou pessoa redatora para a experiência do usuário. Você pode ouvir o podcast aqui. O programa tem outros episódios que tratam da área de UX Writing e entrevistas com profissionais. Diferentes tipos de textos têm objetivos e aplicações diferentes. Pode parecer óbvio, mas no caso de UX Writing é importante diferenciar os textos relevantes para a experiência do usuário de outros tipos de texto. Sobre o webwriting, Rodrigues (2019) cita um texto publicado por Norman Nielsen em março de 1997. Com o título “Be succinct! Writing for the Web” (traduzido como “Seja sucinto! Escrevendo para a web”), o texto apresenta uma pesquisa aplicada a usuários sobre a leitura em tela. A pesquisa revelou que os usuários apenas escaneavam as páginas, e esse foi o ponto de partida para o desenvolvimento da redação online (RODRIGUES, 2019). Outra característica do webwriting é o conceito de chunk. O termo foi apresentado em 1999 no livro Writing for the web, de Crawford Kilian. O chunk, segundo o autor, se refere a pedaços de informação. Os textos devem ser entregues em pequenos trechos, pois os leitores na internet gostam de informações entregues aos poucos. O estudo a respeito do comportamento dos usuários em relação à redação no meio digital foi o que abriu os caminhos para o UX Writing. 1.2 A Diferença entre UX Writing e Outros Tipos de Texto Webwriting. Fonte: Freepik (2022). https://www.listennotes.com/podcasts/uxcopyco/ep01-o-que-%C3%A9-ux-writer-AdUNELGmYWp/ Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 45 A partir do momento em que os celulares passaram a acessar a internet com mais velocidade e exibir páginas de maneira mais amigável, surge o conceito de smartphone. Nesse contexto, navegar na internet é tão (ou mais) importante que se comunicar por voz. Por isso, é importante repensar a relação do usuário com o conteúdo. Afinal, agora as pessoas poderiam acessar o conteúdo que desejassem de qualquer lugar, e o que antes era lido em uma tela grande precisaria ser lido em uma tela pequena. Foi observando essas novas demandas que Kinneret Yifrah notou a necessidade de mais uma mudança na escrita para o meio digital. Adequar o texto a telas menores não era o suficiente. Era preciso repensar a maneira como as frases e as palavras seriam apresentadas. Yifrah percebeu que seus públicos não queriam somente concisão e objetividade, mas conteúdos que pudessem solucionar os problemas do seu cotidiano. Foi então que se deparou com o conceito de microrredação: compreender a força de cada palavra, e se cada expressão é compreendida ou não. Isso é importante pois, ao acessar um site ou aplicativo por meio de um smartphone, é comum que as instruções sejam dadas ao usuário via texto, e são as palavras que muitas vezes vão guiá-lo durante a navegação (RODRIGUES, 2019). Mas nem só de microrredação é feito o UX Writing. Um bom exemplo disso é o uso de UX Writing para chatbots. Para uma boa conversação entre o robô e o usuário, é preciso ir além das palavras. É ainda mais importante considerar a composição das frases. Chatbots. Fonte: Freepik (2022). 46Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Na redação da experiência do usuário para produtos (aplicativos, por exemplo), o foco é orientar o uso do produto e na navegação dentro dele. Esses pontos de orientação estão dispersos em diversos momentos no uso de produtos digitais, como botões, campos de formulários, links de acesso a outras páginas etc. (RODRIGUES, 2019). Veja a seguir as características de diferentes tipos de escrita: Copywriting (Redação Publicitária) A escrita publicitária é voltada para campanhas de publicidade e propaganda, textos para mídias sociais e estratégias de marketing. O objetivo dessa área é persuadir, encantar, levar à conversão e conquista do leitor para que se torne consumidor do produto ou serviço. Uma de suas características é o uso de textos predominantemente curtos (GAIDARJI, 2020). Web Writing (Redação de Conteúdo) O texto é direcionado para a comunicação interna, textos de blogs, matérias de revistas digitais, e-books, entre outras possibilidades. O objetivo é proporcionar a imersão em um assunto, algo mais aprofundado e com textos longos (GAIDARJI, 2020). UX Writing (Redação da experiência do usuário) A redação para a experiência do usuário parte do estudo da semântica do usuário da marca e coloca essas palavras no fluxo do site, aplicativo, botões, chatbots e nas mensagens de erro ou sucesso. A área analisa jornadas dos usuários e quais informações não estão claras ou objetivas (GAIDARJI, 2020). É indispensável conhecer os modelos mentais coletivo e individual dos usuários do produto. O modelo mental coletivo está relacionado ao instinto de sobrevivência e obediência às regras. Já o individual diz respeito a como cada um utiliza (ou não) os recursos do modelo mental coletivo. E isso se aplica também à elaboração de textos e ao UX Writing (RODRIGUES, 2019). Technical Writing Também chamada de redação técnica, é usada quando se escrevem instruções ou orientações, de forma clara e intuitiva, para que a pessoa que está lendo tais instruções possa entender facilmente como usar o site, software ou produto (MOREIRA, 2020). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 47 Tabela comparativa entre os tipos de escrita. Fonte: Gaidarji (2020). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Vale lembrar que todas as formas de escrita podem se entrelaçar. Dependendo do projeto ou da empresa, as áreas trabalham juntas e os profissionais podem inclusive produzir textos para mais de um tipo de redação. Pensando nos produtos digitais como sites e aplicativos, é comum a confusão entre o texto de copywriting e UX Writing. Marushevska (2018) faz uma separação dos dois tipos de texto para resolver de vez a questão: A seguir, veja a imagem que resume e compara os diferentes tipos de texto. COPYWRITER (REDAÇÃO PUBLICITÁRIA) WEB WRITER (REDAÇÃO DE CONTEÚDO) UX WRITER TECH WRITER Usa palavras chamativas para atrair consumidores Cria uma narrativa de vida para a marca Usa palavras claras para explicar coisas Usa palavras objetivas para ensinar algo Orientar uma venda (conversão) Informa, aprofunda e educa sobre um assunto Orienta o uso de um produto/ navegação Orienta o uso e a configuração de um produto/ sistema/serviço, simplificando a complexidade residual Está dentro da equipe de marketing/ criação Está dentro da equipe de marketing/ criação Está dentro da equipe de produto Pode estar dentro da equipe do produto ou atuando de forma transversal Campanhas, e-mails, social media, sites e mais blogs, artigos, newletters e mais Sites, aplicativos, chatbots, botões, feedbacks de erros, acertos, conclusões Documentações, manuais, guias, páginas de suporte etc. 48Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Fonte: Marushevska (2018). Elaboração: CEPED/UFSC (2018). Importante destacar que, para produzir textos próprios da experiênciado usuário, é preciso que o trabalho seja feito em conjunto com os demais membros da equipe de desenvolvimento, sempre mantendo o foco no usuário. A redação para experiência é orientada ao produto, nas formas de explicar as situações e usos, de forma a dialogar com o usuário. Para manter o foco no usuário e criar um diálogo com ele, é preciso compreender os diferentes modelos mentais. O modelo mental coletivo é uma teia de padrões de comportamento. Essa teia liga todos os seres humanos e leva em consideração aspectos fundamentais que podem causar diferenciações, “como o local em que vivemos, o núcleo familiar em que fomos criados, a educação escolar que tivemos e os círculos sociais dos quais fazemos parte, por exemplo” (RODRIGUES, 2019, p. 66). Apesar disso, cada indivíduo tem uma avaliação diferente dos padrões coletivos. Enquanto alguns padrões são indispensáveis, principalmente aqueles ligados à sobrevivência, existem outros padrões ligados, por exemplo, à convivência. Estes últimos passam pela análise individual antes de serem adotados. Também podem ser adaptados, e não necessariamente descartados. No desenvolvimento de produtos digitais, o modelo mental levado em consideração é o coletivo, ainda que seja possível buscar compreender um número limitado de modelos mentais individuais durante o processo. O UX Design parte do estudo da maneira como um determinado público interage com o meio online e como consome conteúdo de forma coletiva. Isso tem impacto direto nas estratégias de UX Writing a serem adotadas (RODRIGUES, 2019). Use palavras atrativas para atrair clientes Orientar vendas Trabalhar com comerciantes Contar histórias Pode trabalhar sozinho Use palavras claras para explicar as coisas Orientar produtos Trabalhar com designers compartilhar conversas Não pode trabalhar sozinho COPYWRITERS (Redação Publicitárias) UX WRITERS (Redação de conteúdo) As diferenças do Copywriter e UX Writer. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 49 Copywriters. Fonte: Freepik (2022). Você sabe o que são microtextos? Microtextos (ou microcopy, em inglês) são as palavras ou frases da interface relacionadas às ações que o usuário toma. Teixeira (2017) complementa essa definição dizendo que essa é a arte de transmitir uma mensagem em pequenos fragmentos, em espaço limitado de texto, mantendo a concisão, clareza e personalidade da marca. Alguns exemplos disso são o nome de um botão, uma mensagem de sucesso ou de erro, bem como um texto de ajuda. Além de explicar ações, o microtexto pode orientar o usuário na realização de tarefas ou dar resposta a uma ação que ele realizou.. O microtexto também representa uma oportunidade de expressar a personalidade da marca. Algumas palavras podem transmitir valores da marca aos seus usuários e tornar a experiência mais agradável (TEIXEIRA, 2017). 1.3 A Importância dos Microtextos “A microrredação reduz a distância entre homem e máquina, e muda o relacionamento do que seria um encontro robótico para um relacionamento humano, uma experiência pessoal” (YIFRAH, 2017, p. 8) 50Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A microrredação não está restrita somente a pequenas interfaces. Também pode ser usada em telas maiores, mesmo que seus benefícios sejam mais notados nas interfaces menores, pois o consumo do conteúdo é mais custoso devido ao tamanho da tela e das várias distrações que podem acontecer com a mobilidade do usuário. Levando em conta esse contexto, muitas vezes algumas perguntas são feitas: o que o usuário quer? O que motiva sua interação com aquele produto ou serviço? O que o faz consumir ou não uma informação? De forma geral, a escrita está inserida em um amplo universo. Por isso, você verá a seguir os conceitos de utilidade, uso e usuário (RODRIGUES, 2019). O primeiro desses conceitos é a utilidade. A utilidade é compreendida quando se percebe o porquê do impulso em fazer uso de algo. O foco está no indivíduo, e não no que o atrai à ação. Ela possui três atributos: O segundo aspecto é o uso. A intenção do uso é de extrema importância para a redação da experiência do usuário e para a microrredação. O uso relaciona-se com a ação anterior à utilidade, trata de quando e como o produto será utilizado. Em relação ao uso, pode-se enfatizar dois atributos: Por fim, o conceito de usuário. É o usuário que contém em si o uso e a utilidade de um produto ou serviço, e utiliza seus sentidos para avaliar o mundo ao seu redor. Visão e audição, por exemplo, são os sentidos básicos utilizados no contato com os conteúdos online. Como foi visto anteriormente, há uma disponibilidade maior de informação em fluxo muito mais rápido. Portanto, com a evolução do processo de consumo de conteúdo textual, a visão passou a fazer mais do que observar e selecionar, e o usuário se tornou mais exigente na escolha do que consumir. Por isso, a ação de escanear as telas com os olhos se tornou um processo mais rápido e disfarçado. • necessidade (sensações básicas do ser humano, muitas vezes ligadas à sobrevivência); • prazer (busca por sensações que preencham as expectativas físicas ou emocionais); e • curiosidade (avaliação se vale a pena ou não se envolver pela sedução do prazer). • forma de uso (o produto pode ser utilizado para associar a utilidade de outro produto ou serviço, como a leitura de um livro digital); e • momento de uso (quando o produto ou serviço será utilizado, se imediatamente ou em momento posterior). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 51 • Microcopy; • Taxonomia (organização e classificação de conteúdo); • Style guide (guia de estilos); • Linguagem simplificada; • Vocabulário controlado (dicionário composto por palavras e expressões identificadas na comunicação constante com os públicos); • Glossário; • Entrevistas com usuários; • Empatia (saber se colocar no lugar do outro); • Testes de conteúdo; • SEO (Search Engine Optimization, ou otimização para mecanismos de busca); • Acessibilidade; • Storytelling (contar bem uma história, apresentar informação lidando com aspectos subjetivos para persuasão a partir do emocional); • Arquitetura da informação; • Interface conversacional (buscar a criação de diálogos em vez de apenas textos); Para se tornar um UX Writer ou outro tipo de redator, uma competência é básica: dominar as normas da língua e escrever bem. Mas essa não é a única competência relacionada ao UX Writing. Rocha (2020) propõe uma matriz de valores focada em UX Writing para identificar as habilidades e funções da área. Segundo a autora, é esperado que um profissional UX Writer possa desempenhar todas ou algumas destas funções, de acordo com a necessidade da empresa ou momento da sua carreira: 1.4 Competências e Boas Práticas para UX Writing 52Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública • Chatbot (software que simula um ser humano na conversação em linguagem natural); • Curadoria de conteúdo; • Usabilidade; • Heurísticas de Design (atalhos mentais que facilitam a compreensão do design); • Pesquisa etnográfica (análise profunda de comportamentos, crenças e costumes); • Pesquisa sobre regionalismo; • Construção de persona; • Construção de brand persona (pessoa projetada na marca); • Estratégia do negócio; • Facilitação (dinâmicas de compartilhamento de conhecimento); • Análise de dados; • Revisões/erros; e • Verificação de leiturabilidade (reconhecimento de frases, parágrafos e sentenças). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 53 Tais funções podem ser agrupadas em competências por campos semânticos, como demonstra a imagem a seguir: Com base nesta matriz de valores, um líder de equipe pode também avaliar o nível das competências existentes no time. Outras práticas podem ser adotadas pelo UX Writer com a intenção de produzir textos melhores, mais adequados à experiência dos usuários. Conheça algumas das apresentadas por Nunes (2021): Matriz de valorese competências em UX Writing. Fonte: Rocha (2020). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). • Sempre considerar o conteúdo: ele deve ser pensado, elaborado e considerado desde o começo do projeto; • Considerar o contexto: converse com usuários considerando seu contexto de interação e emoções no momento da interação; 54Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública • Diminuir o esforço: o conteúdo deve estar disposto de forma que seja fácil para o usuário compreender em que lugar do site ou aplicativo está, o que deve fazer e onde pode clicar, por exemplo; • Consistência: mantenha o tom de voz consistente o tempo todo. É preciso ser constante na forma como se fala e o que se fala através da interface e canais de comunicação; • Conversar com o usuário e falar sua língua: estabeleça diálogo através do conteúdo e faça com que a conversa seja compreensível pelas pessoas que usam o produto; e • Fazer testes e auditorias de conteúdo: testes e auditorias servem para validar hipóteses e checar a usabilidade. Devem ser feitos constantemente. Os UX Writers compartilham conversas com os usuários (MARUSHEVSKA, 2018). Para manter o diálogo com o usuário, Marushevska (2018) indica o que fazer e o que não fazer na escrita para a experiência do usuário: • Não deixe os usuários cometerem erros: o recomendado aqui é que não use uma linguagem confusa. Evite expressões do idioma e palavras que possam ser difíceis ou desconhecidas para o público; • Não use jargão profissional: se pergunte se os usuários sabem o que essas palavras significam. A menos que tenha certeza de que sabem, mude o texto para que até uma criança possa entendê-lo. Uma das recomendações é imaginar que uma criança da sexta série deve ser capaz de ler o texto; • Facilite a tradução: a interface vai precisar ser traduzida para outros idiomas, leve em consideração a tradução dos textos em vários idiomas para verificar se isso não interfere na visualização e entendimento das informações; Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 55 Uma boa dica é sempre ler e reler o conteúdo de um texto para que seja conciso, simples e direto. Lembre-se de adotar o texto com característica conversacional, como se fosse um diálogo com o usuário. Você pode ler o texto em voz alta para verificar sua clareza. Outro aspecto importante é o da priorização do que precisa informar. A hierarquia da informação auxilia nesse processo. O UX Writer precisa se ver também como um designer, pois desenha a experiência por meio do texto. Por isso, é crucial que você entenda a jornada do usuário. E saiba também que o usuário faz uma leitura dinâmica na página e busca por aquilo que mais lhe interessa naquele momento. Por isso, o conteúdo mais importante deve vir primeiro e ter destaque em relação aos outros textos. Em seguida, vêm os textos menos importantes e secundários. Marushevska (2018) descreve aspectos de um bom microtexto: O principal conselho é compreender que escrever para a experiência do usuário é garantir que cada etapa do fluxo do usuário facilite a satisfação de suas necessidades. Para isso, seja empático. • é orientado ao ser humano; • incentiva os usuários a realizar as ações solicitadas; • evita preocupações explicando o que vai acontecer; e • explica porque o usuário precisa de algo ou o motivo de uma informação ser solicitada para o produto. • Seja consistente: não use sinônimos para dizer a mesma coisa durante o uso do produto. Escolha uma palavra e mantenha seu uso. Se em cada botão das etapas de cadastro, por exemplo, usar a palavra “Próximo”, não escreva “Proceder” ou “Continue”. Inconsistência confunde os usuários e os faz acreditar que as diferenças no texto significam resultados diferentes; e • Os rótulos devem ser quase invisíveis: isso tem algo a ver com a simplicidade da linguagem. Se o usuário não conseguir se lembrar do texto em um botão, esse é um bom microtexto. Confuso? É que os usuários não devem precisar se concentrar na leitura de botões nas interfaces, suas ações devem ser intuitivas. 56Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Para saber mais sobre como deixar os textos escaneáveis, leia o texto “Os usuários realmente não leem? Ou eles apenas aprenderam a ler de outra forma?”, da autora Camila Martins. O texto está disponível aqui. Além das competências e boas práticas indicadas anteriormente, também foram apresentados alguns tipos de texto e tarefas que cabem à pessoa redatora da experiência do usuário. Aqui, vale destacar que o principal entregável do UX Writer é o guia de redação. Este documento serve de base para que toda a empresa saiba como escrever. Seu o objetivo é servir de referência para tudo o que for escrito, garantindo uma única percepção da marca e seus produtos. O documento ensina a quem escreve para o produto quem é a marca, como ela pensa, como se comporta e fala. Deve incluir conceitos e padrões de redação, normas de estilo, boas práticas para comunicação assertiva com os diferentes públicos e tipos de conteúdo. É fundamental incluir a maneira de escrever microtexto, com detalhes sobre diferentes componentes da interface (LORENTE, 2019). Existem outros dois elementos de extrema importância no guia de redação de uma marca: sua voz e tom. Esses elementos são ferramentas de gestão da marca que posicionam, aumentam seu reconhecimento e geram proximidade com o público. A voz manifesta a personalidade da marca, como ela fala e se posiciona. É a expressão verbal da marca e se mantém quase imutável. O tom é uma adaptação da voz com o momento e situação de uso. É preciso que se adeque à linguagem, ao contexto e ao público. No caso do governo digital, é importante que cada órgão público tenha um guia de redação compatível com suas características, valores e com as emoções que os usuários podem ter durante a jornada de utilização dos serviços oferecidos. 1.5 Entregáveis do UX Writer https://brasil.uxdesign.cc/os-usu%C3%A1rios-realmente-n%C3%A3o-leem-361c823a78a9 Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 57 Como base para a criação de um guia de redação, você poderá observar o guia do Google, chamado de Material, disponível aqui. O Material é um conjunto de diretrizes proposto pelo Google, que tem código aberto para ser alterado por quem quiser utilizá-lo. As diretrizes demonstram como componentes e ferramentas devem ser desenvolvidos para cumprir as melhores práticas no design de interface do usuário. Um dos itens do Material é a comunicação. Usando exemplos do que fazer e não fazer, são indicadas as melhores práticas para textos e informações dos seguintes tipos: • Confirmação e reconhecimento: solicitação de confirmação antes de uma tomada de ação e reconhecimento de ações bem-sucedidas; • Formato de dados: descrevem diferentes tipos de dados numéricos e linguísticos; • Visualização de dados: descreve como dados devem ser exibidos visualmente em forma de gráficos ou diagramas; • Estados vazios: indicam o que fazer quando ainda não existem resultados a serem exibidos, como quando o usuário ainda não realizou nenhum pedido ou o carrinho de compras está vazio; • Ajuda e comentários: fornece respostas para as dúvidas e preocupações do usuário; • Imagens: deixa claro de que forma as imagens devem ser selecionadas para que complementem o texto; • Tela de lançamento: a tela de inicialização, a primeira tela com a qual o usuário tem contato; • Integração: também chamada de tela de onboarding ou boas-vindas, serve para ajudar o usuário a começar a usar o produto; • Estados offline: apresentam como o produto deve se comportar quando o usuário não estiver conectado à internet; • Escrita: especifica as características gerais dos textos. No Material as características recomendadas são de que o texto seja compreensível por qualquer pessoa em qualquer lugar. https://material.io/ 58Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Veja um exemplo de como o Material apresentaessas orientações: Para um bom Guia de Redação, também pode ser importante destacar as normas gramaticais a serem seguidas, o uso de pontuação, e até mesmo a aplicação ou não de emojis na comunicação. Para você se aprofundar ainda mais, outro exemplo bastante relevante é o Guia de Redação da empresa Conta Azul. Conheça melhor assistindo a videoaula a seguir. Gostou do Guia de Redação da Conta Azul? Além dele, você pode visualizar outros guias disponíveis ao público, como do Mailchimp (disponível aqui) e do Mercado Livre (disponível aqui). Inspire-se! Você chegou ao fim desta unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! Exemplo de diretriz disponível no Material do Google Exemplo de diretriz disponível no Material do Google. Fonte: Google (2022). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Videoaula: Guia de Redação da Empresa Conta Azul https://styleguide.mailchimp.com/voice-and-tone/ http://ux.mercadolibre.com/pt.html https:// https://cdn.evg.gov.br/cursos/813_EVG/video/modulo02_video02/index.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 59 GAIDARJI, Camila. UX Writing, Copywriting e Web Writing: escritas completamente diferentes. UX Design, 2020. Disponível em: https://brasil.uxdesign.cc/ux-writing- copywriting-e-web-writing-s%C3%A3o-escritas-completamente-diferentes- 4e3d516abc33. Acesso em: 18 out. 2022. GOOGLE. Material Design. Google, 2022. Disponível em: https://material.io/. Acesso em: 18 out. 2022. LORENTE, Mariane. UX Writing: o que é e por onde começar? UX Design, 2019. Disponível em: https://brasil.uxdesign.cc/ux-writing-o-que-%C3%A9-e-por-onde- come%C3%A7ar-ace250650187. 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Introdução e boas práticas em UX Design. São Paulo: Casa do Código, 2017. VELO, Atila. UX Writing: Comece sem segredos. São Paulo: Lisbon International Press, 2022. YIFRAH, Kinneret. Microcopy: The complete guide. Haifa: Nemala, 2017. Referências Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 61 Para iniciar o estudo deste tema, lembre-se que, ao longo do tempo, ocorreram diferentes etapas da transformação digital e da web. Além disso, as mudanças tecnológicas que ocorrem afetam os mais variados aspectos da vida em sociedade, inclusive a relação com o governo. Da mesma maneira que as pessoas buscam informações sobre produtos ou serviços na internet e usam diferentes sites e aplicativos para compra de produtos, solicitação de serviços e diálogo com as marcas, os cidadãos esperam ter a chance de encontrar informações ou serviços públicos com a mesma facilidade e agilidade. Para entender melhor como os governos se adaptam a essa nova realidade, que tal conhecer alguns termos da área? O primeiro deles é o “e-government”, ou governo eletrônico. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o governo eletrônico é aquele que utiliza as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) como ferramentas para cumprir suas funções (OCDE, 2002). Essa utilização possibilita a transformação das estruturas e do funcionamento da administração pública. Para que haja sucesso do governo eletrônico, o foco das ações deve estar no cidadão (OCDE, 2005). Mas não basta digitalizar os processos administrativos do governo e oferecer serviços conectados. É preciso priorizar o uso das tecnologias digitais e dos dados gerados nesse processo para repensar o planejamento e implementação dos serviços e políticas públicas, para que sejam voltados para o cidadão (OCDE, 2014; OCDE, 2019). O governo eletrônico tem potencial de ser facilitador na adoção de boas práticas de governo. Unidade 2: A Importância do UX Writing na Administração Pública Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade você será capaz de reconhecer as especificidades do contexto da transformação digital da Administração Pública e a relação com o UX Writing. 2.1 Entendendo as Características do Governo Eletrônico e Digital 62Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Ferguson (2002) destaca três impulsionadores do governo eletrônico: Primeiro impulsionador O primeiro deles é o crescimento das expectativas dos clientes (ou cidadãos). A experiência que os usuários têm ao usar os produtos e serviços do setor privado faz com que o cidadão espere do governo um acesso tão rápido e fácil como desses serviços. Segundo impulsionador O segundo impulsionador do governo eletrônico se refere à globalização e progresso tecnológico. O avanço das novas tecnologias em escala global permite a oferta de cada vez mais alternativas, especialmente quando bens e serviços podem ser adquiridos pela internet. Terceiro impulsionador O terceiro fator que impulsiona o governo eletrônico se refere à reforma ou reinvenção do governo. Ferguson (2002) diz que, entre as décadas de 1980 e 1990, surgiu uma nova agenda para a reformulação do setor público, considerando: mais eficiência, descentralização e prestação de contas. A definição de Rover (2013) é de que o governo eletrônico é uma "infraestrutura única de comunicação compartilhada por diferentes órgãos públicos a partir da qual a tecnologia da informação e da comunicação é usada de forma intensiva para melhorar a gestão pública e o atendimento ao cidadão”. O objetivo é permitir queo governo esteja ao alcance de todos, ampliando a transparência de suas ações e aumentando a participação cidadã. O governo eletrônico seria uma forma instrumental de administração das funções do Estado (Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) que utiliza as novas tecnologias da informação e comunicação como instrumento de interação com os cidadãos e prestação dos serviços públicos. “O princípio subjacente do governo eletrônico, apoiado por um quadro eficaz de governança eletrônica institucional, é melhorar o funcionamento interno do setor público, reduzindo custos financeiros e tempo de transação de forma a integrar melhor os fluxos de trabalho e processos permitindo a utilização eficaz de recursos entre as várias agências de setor público objetivando soluções sustentáveis” (NAÇÕES UNIDAS, 2012, p. 2, tradução nossa). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 63 O foco do governo eletrônico deve ser o cidadão, para que os serviços projetados sejam ágeis, fáceis de usar e acessíveis para todos. O UX Design e o UX Writing são importantes ferramentas para que isso aconteça. Assim como a participação do usuário é crucial para o desenho da experiência, a participação do cidadão é tão relevante quanto no projeto de serviços e políticas públicas no governo eletrônico. O governo eletrônico seria uma forma de organização do conhecimento que permitiria o enfraquecimento dos atos e estruturas burocráticas, e facilitaria a execução de tarefas que exijam atividade humana complexa. Fazer uso das tecnologias de informação e comunicação pelo governo serviria para informatizar suas operações ao mesmo tempo em que aproximaria o cidadão (ROVER, 2013). Para Oliveira (2009), existem algumas estratégias para a implementação de programas de governo eletrônico. A primeira é manter o foco nos cidadãos. As organizações também devem estar sob olhar do governo ou organização pública que queira passar por esse estágio. São elementos centrais de qualquer programa de governo eletrônico. A segunda estratégia é manter uma infraestrutura padronizada. É necessário que possa haver uma integração entre os órgãos públicos. Eles podem compartilhar a mesma infraestrutura tecnológica para desenvolver suas atividades, o que facilitaria a intercomunicação entre diferentes plataformas, sistemas de informação, processos e redes de comunicação. Isso daria agilidade e centralidade no acesso às informações que devem ser usadas na prestação de serviços, o que tem potencial de oferecer uma melhor experiência ao cidadão. Cidadãos. Fonte: Freepik (2022). 64Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Inclusão social. Fonte: Freepik (2022). O governo eletrônico também demanda um novo modelo de organização e reorganização da retaguarda dos sistemas. Essa mudança pode trazer benefícios, especialmente na redução de custos, otimização de recursos e no processo de informatização e automação de tarefas. Uma outra estratégia tem a ver com governança. De acordo com Oliveira (2009), implementar o governo eletrônico não deve ser uma atitude isolada de um órgão ou instituição pública. Para que as outras estratégias funcionem e o governo eletrônico se realize de fato, é necessário que exista a participação das instâncias superiores do governo que reflitam as necessidades vindas da legislação, padronização de processos e cumprimento das determinações. Dessa forma é garantida a legitimidade necessária para alavancar os projetos (OLIVEIRA, 2009, p. 9). Cabe destacar a importância da inclusão social. As estratégias de governo eletrônico pressupõem que a disponibilização de serviços e informações para os cidadãos utilizem os recursos das TIC e que o sistema seja acessível para todo e qualquer usuário. Existe uma definição mais recente, que é a de governo digital. Ela se refere ao uso de tecnologias digitais como parte das estratégias de modernização do governo, para que assim tragam benefícios à sociedade. A imagem a seguir mostra a progressão das soluções de governo no uso das tecnologias da informação e da comunicação: Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 65 Progressão em direção à transformação digital dos governos. Fonte: OCDE (2019). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Em diferentes momentos ou serviços, as instituições públicas podem estar em diferentes estágios do governo eletrônico ou digital. Mas o foco de suas ações sempre deve ser o cidadão. “Os governos precisam entender que se tornar totalmente digital deixou de ser uma opção, mas sim um imperativo para a sua legitimidade como guardiões do bem-estar e do progresso” (OCDE, 2019, p. 2). O governo digital implica no uso de tecnologias digitais como parte das estratégias de modernização dos governos. O objetivo é criar benefícios para a sociedade. Se baseia em um ecossistema composto de atores governamentais, organizações não governamentais, empresas, associações de cidadãos e indivíduos. Esses grupos apoiam a produção e o acesso a dados abertos, prestação de serviços e conteúdo por meio de interações com o governo (OCDE, 2014). GOVERNO ANALÓGICO Operações fechadas e foco interno, procedimentos analógicos E-GOVERNMENT Maior transparência e abordagens centradas no usuário, procedimentos habilitados para TIC GOVERNO DIGITAL Abordagens abertas e orientadas ao usuário, transformações processuais e operacionais 66Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Dimensões da Estrutura de Governo Digital. Fonte: OCDE (2020). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). No cenário de transformação digital e constantes mudanças, o contrato social que as sociedades têm com seus respectivos Estados vai depender da capacidade dos governos em se tornarem digitais. A estrutura do Governo Digital se organiza em seis dimensões, apresentadas na imagem a seguir: Agora, conheça cada uma dessas dimensões mais profundamente. Esta dimensão se refere à transição da digitalização de processos para processos concebidos de forma digital desde o início (digital by design). No primeiro aspecto, os governos adotam o "digital" compreendendo as atividades estratégicas envolvidas para uma transformação duradoura. A ideia central é levar em consideração todo o potencial das tecnologias digitais e do uso de dados desde o início dos processos, a fim de repensar, redesenhar e simplificar o governo. Assim, o governo pode oferecer um sistema eficiente e sustentável, além do setor público ser voltado para o cidadão, independentemente do canal utilizado pelo usuário. Primeira dimensão: digital by design Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 67 O Comitê Gestor da Internet no Brasil publica periodicamente a Pesquisa TIC Governo Eletrônico, que trata do uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no setor público brasileiro. A edição referente ao ano de 2021 apontou que 45% dos órgãos federais e 22% dos órgãos estaduais utilizaram tecnologias de Inteligência Artificial (IA) nos 12 meses anteriores à pesquisa. A adoção de aplicações relacionadas à Internet das Coisas (IoT) e blockchain foi indicada por menos de 20% dos órgãos públicos federais e estaduais. Em relação à prestação de serviços ao cidadão de forma remota, a pesquisa apontou que houve um aumento em relação a 2019. No ano de 2021, três a cada quatro órgãos federais prestaram o serviço mais procurado pelo cidadão de forma remota. Em 2019, esse número chegava a pouco mais da metade. Houve também um aumento no uso de chats nos sites, automatizados ou com atendentes humanos. Segundo a pesquisa, no nível federal, o uso de chats com atendentes em tempo real passou de 8%, em 2019, para 30%, em 2021. Nos órgãos estaduais, o uso que era de 5% em 2019 alcançou 18% em 2021. Sobre o uso de perfis ou contas em redes sociais, 99% dos órgãos federais e 92% dos estaduais informaram utilizar esses canais de comunicação. A atividade mais mencionada nesse caso foi a resposta a comentários. A pesquisacompleta pode ser lida aqui. Esta dimensão indica a alteração de um governo centrado em informações para um setor público orientado por dados (data-driven). É previsto o reconhecimento dos dados como ativo estratégico e facilitador para a antecipação de tendências sociais e compreensão das necessidades dos usuários. O uso de dados também serve para moldar a entrega dos serviços e para monitorar o fornecimento e desempenho das políticas públicas. Segunda dimensão: data-driven https://cetic.br/pt/publicacao/pesquisa-sobre-o-uso-das-tecnologias-de-informacao-e-comunicacao-no-setor-publico-brasileiro-tic-governo-eletronico-2021/ 68Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Para ser digital, é preciso que o governo deixe de ser provedor de serviços para se tornar um governo como plataforma, que estimule a cocriação de valor público (government as a platform). Os governos digitais desenvolvem ecossistemas de apoio para os servidores públicos elaborarem políticas eficazes e entregarem serviços de qualidade. As tecnologias digitais e os dados são usados para criar colaboração entre as partes interessadas (cidadãos, empresas, sociedade civil e outros) e dão subsídio à criatividade, conhecimento e habilidades para enfrentar os desafios de um país. Nesta dimensão, os governos são instruídos a sair da lógica de processos e dados fechados para abertura por padrão (open by default). Sobre o acesso à informação, o governo deve estar empenhado em divulgar dados em formatos abertos (a menos que se justifique o contrário), cumprindo princípios de transparência, integridade, responsabilidade e participação. As tecnologias digitais são ferramentas importantes nesta etapa. O foco do governo também deve mudar para uma administração dirigida para o usuário (user driven), ou seja, aquela que se concentra nas necessidades e expectativas dos cidadãos. Essa quinta dimensão sugere que o governo adote abordagens e medidas para fornecer meios para os cidadãos e empresas comunicarem suas necessidades. A partir disso serão conduzidos o desenvolvimento de políticas e serviços públicos. A última dimensão do governo digital indica a formulação de políticas e prestação de serviços numa atitude proativa (proactiveness). Refletindo as cinco dimensões anteriores, os governos podem antecipar e responder rapidamente às necessidades de informações ou serviços de seus cidadãos, antes mesmo que seja feita uma solicitação (OCDE, 2018; OCDE, 2019). Terceira dimensão: government as a platform Na quarta dimensão: open by default Quinta dimensão: user driven Sexta dimensão: proactiveness Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 69 Coleman (2017, p. 24) afirma que, diante de situações desconhecidas, é tentador supor que novas mídias vão fazer o que já é familiar de formas mais eficazes, rápidas e baratas. Mas é preciso superar essa posição inicial. Segundo ele, é preciso utilizar de “[...] novas sondagens arrojadas, perspectivas frescas, conceitos ousados que permitam formas diferentes e significativas de ver as coisas, métodos mais diferenciados para reconhecer as novidades do nosso tempo”. O design da experiência do usuário possibilita a realização de uma escuta ativa do cidadão no processo de desenvolvimento de produtos para o governo digital. Quando existe a participação dos atores sociais nos assuntos públicos, principalmente quando oferecida digitalmente, as expectativas dos indivíduos sobre sua relação com os governos mudam. Portanto, é necessário criar abordagens de governança pública que apoiem a mudança dos governos, para que consigam antecipar as necessidades dos cidadãos e empresas. Isso faz com que que eles possam determinar suas próprias necessidades e as abordem em parceria com os governos. É por isso que as condutas adotadas pelos governos devem ser centradas nos cidadãos, ao invés da lógica e necessidades do próprio governo. 2.2 A Experiência do Usuário no Governo Digital Cidadãos conectados. Fonte: Freepik (2022). 70Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Os cidadãos estão imersos no mundo conectado em rede, utilizando cada vez mais recursos digitais e buscam por conveniência, agilidade e simplicidade nas relações com o governo. Os governos são desafiados a entregar serviços que proporcionem boas experiências e atendam às necessidades do cidadão (LOPES; MACADAR; LUCIANO, 2018). Isso pode ser relacionado ao tema da criação de valor público. O trabalho gerencial no setor privado tem o objetivo de ganhar dinheiro para os acionistas da empresa. As maneiras de alcançar esse objetivo seriam produzindo produtos ou serviços a serem vendidos aos clientes, com preços que gerem receita superior aos custos de produção. As realizações gerenciais podem ser avaliadas financeiramente, inclusive verificando as mudanças no valor das ações da empresa. Portanto, os gerentes geram valor (MOORE, 1995). No setor público, o objetivo do trabalho gerencial parece menos claro. Os gerentes devem produzir valor, mas a maneira como fazem isso é mais ambígua e as métricas de valor criado são mais difíceis de medir. Moore (1995) propõe que, assim como o objetivo no setor privado é criar valor privado, o objetivo no setor público é criar valor público. Essa comparação facilita a compreensão da criação de valor privado e público, e você verá agora as diferenças. Zémor (1995) afirma que utilizar o modelo cliente- fornecedor no serviço público alcança seu limite muito rapidamente. Nesta relação, não há livre concorrência e o cliente é contribuinte e eleitor ao mesmo tempo. Por isso, a relação entre cidadão e serviços públicos não teria a mesma simplicidade da relação comercial. "A comunicação de uma instituição pública supõe uma troca com um receptor que é também mais ou menos emissor" (ZÉMOR, 1995, p. 3). Para que haja efetividade na adoção de serviços digitais do governo, é preciso que o cidadão tenha voz e seja empoderado através de ações do governo, como abertura, transparência e colaboração com o cidadão. Parece um caminho simples, mas a execução é complexa. As pessoas precisam expressar suas necessidades, e o governo faz uso da tecnologia e dos dados para otimizar a capacidade de entrega; então, o valor público é criado. Vale enfatizar que é preciso que os serviços sejam constantemente avaliados (LOPES; MACADAR; LUCIANO, 2018). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 71 Serviços digitais. Fonte: Freepik (2022). Resumindo, o valor público nos serviços digitais é aquele valor que é produzido pelo governo, percebido pelos cidadãos e criado durante a adoção dos serviços digitais (LOPES; MACADAR; LUCIANO, 2018). E, para isso, o design da experiência do usuário é extremamente relevante. As estratégias de governo digital devem estar incorporadas em políticas de modernização e no design de serviços, para integrar partes interessadas fora do governo de forma que se sintam também responsáveis pelos resultados das reformas políticas. Esta seria uma forma de envolver os atores sociais e prevenir a perda de confiança e engajamento no governo (OCDE, 2014). O foco no usuário é premissa básica do UX Design, assim como o foco no cidadão é a primeira orientação no governo digital. É com essa perspectiva que boas experiências nos sites e serviços de governo podem ser criadas e trazer potenciais resultados como adoção de meios digitais de prestação de serviços. Essa atitude reduz custos para o cidadão e para o governo. Também pode proporcionar maiores chances de participação do cidadão nos assuntos públicos, mais engajamento e indicações para o uso dos serviços digitais. 2.3 A Relação entre Governo Centrado no Cidadão e UX Writing 72Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Nos processos de UX Design, como a escrita para a experiência, e no governo digital com foco no cidadão, é preciso escutar os interessados para que haja dimensão e compreensão de necessidades, expectativas, interesses,crenças e atitudes. Assim é possível incorporar a opinião de todos os atores interessados aos programas e processos nos quais estejam envolvidos. Segundo a OCDE (2019), as interfaces tecnológicas, conteúdos e serviços disponibilizados pelo governo digital devem ser adequados ao atendimento das demandas de participação do cidadão. Também devem levar em consideração sua diversidade em relação a demandas e características. Os modelos de prestação de serviços digitais de empresas privadas fazem com que os cidadãos tenham expectativas de experiências com o governo semelhantes. Eles esperam que os serviços públicos sejam projetados com olhar direcionado aos usuários e seus diferentes perfis. As abordagens orientadas ao usuário têm se tornado prioridade dos governos. O uso da tecnologia ajuda a gerar confiança pública e bem-estar social. Esse é um meio para transformar e aprimorar os serviços públicos. [...] um processo de comunicação orientado pela escuta ativa dos gestores gera conhecimento próximo da realidade que qualifica os padrões de decisão, reduz gastos e aumenta a eficiência da comunicação entre os envolvidos” (DUARTE, 2012, p. 68). Uso das tecnologias. Freepik (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 73 O design da experiência do usuário é indicado pela própria OCDE (2019) para fazer com que as ferramentas digitais permitam que os cidadãos expressem suas necessidades, e que as organizações do setor público possam experimentar maneiras de identificar e atender a essas necessidades. O sucesso da implementação de serviços, sites e produtos digitais com foco no usuário exige uma mudança cultural do setor público. A era digital demonstra o desejo de maior engajamento do público, além da busca de espaços de colaboração nas sociedades. “A era digital pode, portanto, ser caracterizada como a era da colaboração e sociedades em rede” (OCDE, 2019, p. 3). Como forma de padronizar os projetos de design da experiência do usuário, pode ser utilizado pelos governos o design system, uma coleção de elementos, componentes, regras e princípios para o design visual e de conteúdo. São usados para guiar o desenvolvimento de interfaces de forma padronizada dentro do governo. Quando determinados padrões se repetem, o aprendizado do usuário fica mais rápido e fácil. Para saber mais sobre esse recurso, veja a videoaula seguir, na qual você poderá analisar o design system do governo da Inglaterra, referência em governo digital no mundo. Que bom que você chegou até aqui! Chegou a hora de você testar seus conhecimentos. Então, acesse o exercício avaliativo que está disponível no ambiente virtual. Bons estudos! Videoaula: O Design System do Governo do Reino Unido https:// https://cdn.evg.gov.br/cursos/813_EVG/video/modulo02_video03/index.html 74Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública COLEMAN, Stephen. O agir democrático numa era de redes digitais. Revista Compolítica. Rio de Janeiro, v. 7, n. 1, p. 7-26, 28 jun. 2017. Disponível em: http:// compolitica.org/revista/index.php/revista/article/view/110. Acesso em: 18 out. 2022. DUARTE, Jorge. 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O objetivo é entregar interfaces perceptíveis e compreensíveis por usuários que estejam em diferentes circunstâncias, ambientes e condições. Em uma determinada perspectiva, a acessibilidade visa atender a pessoas com algum tipo de deficiência, abrangendo diferentes tipos, como visual, auditiva ou motora, além de limitações temporárias, como um braço quebrado que restrinja a possibilidade de usar o teclado. Quando um produto é acessível, beneficia também pessoas com limitações situacionais relacionadas às circunstâncias, ambientes ou dispositivos. Por exemplo, um dispositivo móvel em que não é possível a utilização do mouse (FERREIRA, 2008). Módulo Como fazer UX Writing?3 Unidade 1: Prática de UX Writing Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade,você será capaz de esclarecer as práticas e as formas de trabalho comumente utilizadas em UX Writing. 1.1 Critérios de Qualidade da Redação para UX Neste módulo, você conhecerá as práticas do UX Writing. Será apresentada a importância da Linguagem Simples na produção de textos nessa e para essa prática e o ciclo do processo de desenvolvimento de atividades por meio do Design Thinking. Para iniciar este terceiro módulo, faça a seguinte reflexão: lembre-se que todas as pessoas precisam utilizar ambientes digitais. Lembrou de algo? Foi uma experiência satisfatória? Saiba que a usabilidade faz com que uma interface e seu conteúdo sejam fáceis de usar. A partir disso, o usuário colabora com a utilidade do produto digital. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 77 Projetar produtos acessíveis permite que sejam soluções inclusivas e que proporcionem uma boa experiência para o usuário. Em relação ao texto, há uma tendência de utilização da linguagem neutra de gênero como uma abordagem inclusiva, que busca se livrar do binarismo de gêneros. Algumas possibilidades podem ser adotadas para uma redação neutra (ROCK CONTENT, 2019): • Não usar “X” e nem “@”. Muitas pessoas acreditam que usar estas substituições serve para indicar a não definição de gênero. Porém, esse uso pode ser prejudicial para a acessibilidade: pessoas com dislexia ou pessoas cegas que utilizam leitores de tela não conseguem fazer a leitura correta de textos que usem esse recurso. Também não é possível pronunciar verbalmente esses caracteres, então, mesmo que seja possível lê-lo, o texto não pode ser dito; • Não é preciso adotar a neutralidade de gênero em todos os textos. A linguagem neutra deve ser adotada quando o texto se refere a pessoas, mas não para objetos, lugares ou animais; • Evite artigos e pronomes de gênero quando não são necessários; • Use artigos e pronomes indefinidos quando possível, por exemplo: em vez de usar "a responsabilidade dos líderes", utilize “são de responsabilidade de líderes”; • Substitua sujeitos por “pessoas que”, por exemplo: em vez de usar “os cozinheiros”, utilize “pessoas que cozinham”. Dessa forma, a redação para a experiência do usuário pode demonstrar respeito à pluralidade sem perder a acessibilidade na leitura dos textos. No UX Writing também é preciso considerar a usabilidade. A norma da entidade internacional ISO que aborda a usabilidade se refere aos requisitos ergonômicos para trabalho de escritórios com computadores. Nessa norma, a definição de usabilidade é a medida na qual um produto pode ser utilizado por determinados usuários, com a intenção de cumprir objetivos específicos com eficácia, eficiência e satisfação em um contexto específico de uso (ISO 9241-11, 1998). Existem outras definições mais direcionadas ao uso de produtos digitais. Para Krug (2008), usabilidade significa assegurar-se de que uma coisa funcione bem, que uma pessoa que tenha habilidade e experiências básicas faça uso do produto e consiga atingir seus objetivos sem que se frustre. 78Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Segundo Nielsen (2012), usabilidade diz respeito a um atributo qualitativo que avalia o quanto é fácil utilizar uma interface de usuário. O autor afirma que a usabilidade tem vários componentes e pode ser associada a cinco atributos que serão relacionados a interfaces de produtos digitais (NIELSEN, 1993): Facilidade de aprendizagem: o uso do produto deve ser rápido de aprender para que o usuário comece rapidamente a executar tarefas; Eficiência: a interface deve ser eficiente, para que o usuário obtenha a melhor experiência depois de ter aprendido a usá-la; Facilidade de memorização: a interface deve ser fácil de ser lembrada. O usuário precisa ser capaz de voltar a usar o sistema depois de um tempo, sem precisar aprender tudo novamente; Erros: um erro é qualquer ação que não alcance o objetivo desejado. É preciso que a interface e o texto sirvam para orientar o usuário para que haja o mínimo de erros no uso do produto. Caso aconteçam, o usuário deve conseguir perceber e retornar ao estado anterior sem perder o que estava fazendo; Satisfação: o uso do produto deve ser agradável para que o usuário fique satisfeito e até mesmo goste dele. Acessibilidade e usabilidade são importantes fatores para o desenho da experiência do usuário. Como explicado até aqui, o texto serve como orientador das ações do usuário e tem uma função importante para a sua experiência. Os aspectos da acessibilidade e usabilidade podem ser medidos por meio de avaliações heurísticas tanto no projeto de novos produtos e serviços quanto na avaliação de algo que já exista. Por heurística entende-se os princípios a serem seguidos para ter melhor usabilidade (VELO, 2022). A avaliação heurística proposta por Nielsen (1993) considera a existência de diversas recomendações de usabilidade. Dentro das recomendações existem várias regras a serem seguidas. Porém, o autor defende que é importante fazer a redução da complexidade dessas recomendações para que tenham viabilidade de aplicação. Assim, reduz as normas de avaliação heurística a 10 regras. As heurísticas propostas por Nielsen (1993) abrangem grande parte dos problemas de usabilidade que podem ser encontrados em interfaces de usuários. Importante destacar que é a prática de avaliação por meio dessas heurísticas que permite sua aplicação correta a diferentes casos. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 79 Até mesmo aqueles que não são especialistas em UX Writing ou no processo de avaliações heurísticas serão capazes de detectar vários problemas de usabilidade com este método. Outros problemas podem ser identificados fazendo combinações com outras técnicas de avaliação com os usuários. Veja a seguir as 10 heurísticas de Nielsen (1993). Diálogos simples e naturais Os textos devem ser simples e diretos, evitando palavras desnecessárias ou que raramente sejam usadas. Também devem seguir uma ordem lógica e natural. Falar a linguagem do usuário Os termos usados devem ser baseados na linguagem do usuário, evitando jargões e termos que ele desconheça. A linguagem também não deve ser guiada pela organização ou pelo sistema. Minimizar a sobrecarga de memória do usuário O usuário não deve precisar se lembrar de informações e comandos, que devem ser sempre visíveis e fáceis de serem recuperados. Consistência As mesmas situações ou ações devem causar o mesmo efeito para não confundir o usuário. Feedback O site ou sistema deve manter o usuário sempre informado do que está acontecendo. Saídas claramente demarcadas É preciso que haja a possibilidade de o usuário parar ou desfazer uma tarefa e voltar ao estado anterior. Atalhos São formas de permitir aos usuários mais experientes que executem ações mais rapidamente. Boas mensagens de erro Utilizar linguagem clara, sem códigos de erros, indicando o problema e uma possível solução. 80Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Para determinar a qualidade da redação para a experiência do usuário, você conhecerá a seguir duas heurísticas diferentes, a de Nielsen Norman Group e a de Bobbie Wood. A primeira delas é o conjunto de boas práticas definido pelo Nielsen Norman Group na década de 1990. A seguir, serão exploradas essas boas práticas, relacionando o design e o texto da experiência do usuário (VELO, 2022). Heurísticas de usabilidade de Nielsen. Fonte: Caiana (2020). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Prevenção de erros As ações e instruções devem ser criadas para evitar situações de erro. Ajuda e documentação O ideal é que o site ou sistema não precise de uma documentação elaborada para ser usado. Mas, quando necessário, essa documentação deve ser facilmente encontrada, focada nas tarefas a serem executadas pelo usuário em passos simples de serem seguidos, sem ser muito longa. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 81 A segunda heurística proposta foi apresentadapor Bobbie Wood e abrange sete princípios específicos para conteúdo (WOOD, 2020). Legível O texto deve ser conversacional, simples e escrito no nível da sexta série. Conciso Os títulos e o texto de instrução devem ser o mais curtos e claros possível, sem repetição, redundância, ambiguidade ou palavras desnecessárias. Simples O texto precisa explicar recursos complexos e definir termos no primeiro uso através de uma linguagem simples. Universal A escolha de palavras deve evitar jargões técnicos, expressões idiomáticas e frases difíceis de compreender. Consistente Os elementos de texto ou componentes de interface do usuário que sejam do mesmo tipo devem usar padrões e estilos paralelos. Lógico O texto nas telas precisa ter uma progressão narrativa que faça sentido para qualquer um. Guia O texto precisa servir para guiar, direcionar o usuário. A próxima ação necessária deve estar claramente indicada em cada tela. Foco no usuário Os benefícios e objetivos do usuário devem ser enfatizados positivamente sobre os objetivos da empresa ou do produto. Holística O texto precisa complementar o layout visual e as ilustrações, e vice-versa. Priorizado A hierarquia de informações precisa ser clara, de modo que as ações e informações mais importantes se destaquem. 82Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Alguns pontos das heurísticas apresentadas coincidem entre si e podem se complementar em determinados momentos do produto em que seja necessário realizar avaliações do texto. Uma característica interessante e que se repete nas heurísticas é o uso de uma linguagem concisa e simples, coerente com o conceito de microtextos. Existem ferramentas que auxiliam na verificação da dificuldade de leitura de um texto. Um deles é o Hemingway App, disponível aqui. Outra opção que pode auxiliar nesta tarefa é o Grammarly, disponível aqui. A linguagem simples é uma técnica de comunicação que tem o objetivo de tornar textos e documentos mais fáceis de ler. Também é uma causa social no ponto em que defende o direito de compreender as informações que orientam o dia a dia (FISCHER, 2022b). Utilizar a linguagem simples economiza tempo e dinheiro, pois favorece a produtividade. Também fortalece as relações de confiança entre organizações e seus públicos. A jornalista, especialista em Ciências Sociais e mestra em Design Heloísa Fischer elaborou um método chamado “Comunica Simples”, que aborda 20 diretrizes organizadas em três blocos: ética, design da informação e avaliação (FISCHER, 2022a). 1.2 A Importância da Linguagem Simples na Prática de UX Writing Representação gráfica do Método “Comunica Simples”. Fonte: Fischer (2022a). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). https://hemingwayapp.com/ https://www.grammarly.com/ Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 83 Das vinte diretrizes do método “Comunica Simples”, você irá se aprofundar em sete delas, que são relevantes a diferentes tipos de redação, inclusive à redação para a experiência do usuário. A empatia diz respeito ao ato de se imaginar no lugar de outra pessoa, especificamente o usuário do produto digital. É importante observar que o UX Writer não é o usuário do produto e que é indispensável conhecer melhor o usuário por meio de pesquisas, entrevistas ou questionários. A empatia é importante para que o UX Writer consiga usar códigos que o usuário entenda. Empatia (bloco da ética) A informação mais importante deve vir primeiro na interface. Outro aspecto é a necessidade de verificar a relevância dos textos para decidir o que manter ou excluir. Uma forma de utilizar essa diretriz é por meio da pirâmide invertida usada no jornalismo. Você já ouviu falar? Veja na imagem a seguir! Hierarquia da Informação (estrutura) Pirâmide invertida. Fonte: Silva (2021). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). 84Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Evitar jargões, termos técnicos e siglas. Se necessários, devem ser explicados. Utilizar substantivos concretos (que nomeiam seres de existência própria como nomes, lugares ou animais) e evitar substantivos abstratos (aqueles que nomeiam seres que dependem de outros para existir, como ações, estados, qualidades). Estes últimos devem ser trocados por verbos. Palavras conhecidas (texto) Palavra concreta (texto) A recomendação é de que as frases tenham tamanho máximo entre 20 e 25 palavras. Para isso, é sugerido fazer um rascunho do texto, reescrever e eliminar tudo o que for desnecessário. Usar a ordem direta nas orações: sujeito + verbo + complemento. Evitar orações em ordem indireta e intercaladas com outras frases. Verificar se o texto tem elementos que possam dificultar a leitura e ajustar o que for necessário. Como sugestão de verificação pode ser utilizada a seguinte lista de questões: Frases curtas (texto) Ordem direta (texto) Diagnóstico (avaliação) • O texto considera quem lê? • Existem informações fora da sequência lógica? • Existem palavras pouco comuns? • Foram usadas palavras abstratas? • As frases estão muito longas? • Existem orações na ordem indireta? Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 85 Heloisa Fischer possui um site que reúne informações sobre linguagem simples e indica as redes sociais em que o assunto é tratado. Disponível aqui. Em 2018, a autora publicou o livro “Clareza em textos de e-gov, uma questão de cidadania”. Alguns tipos de textos são mais frequentes na rotina do UX Writer. São diferentes camadas de conteúdo que merecem atenção para atender as orientações e heurísticas indicadas até o momento (VELO, 2022; WOOD, 2020). Títulos e subtítulos devem explicar o contexto da página ou tela, além de indicar qual ação vai acontecer. Os usuários escaneiam a tela com os olhos; portanto, os títulos têm a importante função de identificação. Devem ser completos, ter um substantivo e um verbo que identifique as ações possíveis naquela situação. 1.3 Como Escrever Textos para UX Títulos na página do Twitter Títulos na página do Twitter. Fonte: Twitter (2022). https://comunicasimples.com.br/ 86Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Exemplo de links no site Administradores.com. Exemplo de links no site Administradores. Fonte: Administradores (2022). Links simples, que não sejam botões, devem ter funções secundárias. É importante que os links informem ao usuário sua função ou para onde vão levar o usuário, por isso é interessante evitar o uso de “clique aqui”. O cadastro é o início do relacionamento entre a marca ou produto e o usuário. Por isso, é preciso transmitir credibilidade e incentivar a pessoa a fornecer seus dados. É importante que os microtextos ajudem no processo de cadastro. Como sugestão, a estrutura da página de cadastro precisaria ter: Exemplo de cadastro no site da Leroy Merlin Exemplo de cadastro no site da Leroy Merlin. Fonte: Leroy Merlin (2022). • Um título simpático; • Um texto introdutório que liste até três vantagens de se cadastrar; • Os campos para os dados; e • O botão que envia os dados. É recomendável que o usuário seja informado sobre as políticas de privacidade e segurança. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 87 Quando o usuário esquece sua senha, está tendo dificuldades e sentimentos negativos. Nesse momento, use poucas palavras, incentive o usuário a redefinir a senha e reafirme que o sucesso está perto. O exemplo da imagem demonstra a simplicidade e objetividade da tela. Falta nessa tela que o texto tenha uma abordagem mais convidativa e que indique o que vai acontecer em seguida. Não fica claro que vai ser enviado um e-mail com nova senha ou link para redefinição, por exemplo. Exemplo de recuperação de senha no site do Magazine Luiza Exemplo de recuperação de senha no site da Magazine Luiza. Fonte: Magazine Luiza (2022). Observe no exemplo da imagem que os campos têm ícones de informação/ajuda para auxiliar o usuário no preenchimento do formulário. As opções de comunicaçãocom o cliente estão descritas de forma clara, assim como o botão que dá uma resposta à solicitação de cadastro: “Concordo e quero criar conta”. 88Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Ter o e-mail de alguém representa possibilidades de contato e relacionamento. Mas é preciso deixar claro para o usuário: que benefício ela irá receber, o cuidado que será tomado com seus dados e que ele não receberá spam. Embora este exemplo esteja disponível no rodapé da página inicial do site, é importante considerar ao menos a inserção do link das políticas de privacidade de forma clara. É preciso incentivar que o usuário entre em contato. Fale com a voz da marca e convide o usuário a preencher os campos para enviar o formulário. Quando houver um formulário para o contato, é importante seguir as orientações anteriores de incentivar o usuário a preencher o formulário. Vale lembrar que, Exemplo de assinatura de newsletter no blog B9 Exemplo de página de contato no site Me Poupe Exemplo de assinatura de newsletter no blog B9. Fonte: B9 (2022). Exemplo de página de contato no site Me Poupe. Fonte: Me Poupe (2022a). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 89 tanto em cadastros quanto em contatos e outros formulários, somente devem ser solicitados ao usuário os dados que realmente forem necessários. Formulários muito longos desestimulam o usuário. Informações pessoais (nome dos pais, documentos etc.) devem ser solicitadas somente quando extremamente necessário. Formulários devem ser lógicos, claros, úteis, com campos únicos que não gerem dúvidas no preenchimento. A intenção é que os usuários não leiam esses textos, mas é preciso criá-los. É preciso explicar de forma simples e transparente que há um problema, qual é esse problema e deixar claro que a culpa não é do usuário. Depois, é preciso explicar como resolver ou driblar o problema para realizar a ação desejada. O mesmo conceito pode ser aplicado quando algum conteúdo não é encontrado. É importante que as mensagens de erro sejam compassivas, ou seja, tenham o tom de voz correspondente à gravidade do problema e evitem culpar o usuário. Exemplo de página de erro no site Me Poupe Exemplo de página de erro no site Me Poupe. Fonte: Me Poupe (2022b). 90Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Usadas para parabenizar o cliente por terem completado algo com sucesso, essa mensagem fornece feedback ao usuário informando que tudo deu certo e instruindo a próxima ação. No exemplo, o link para realizar o download poderia ser mais descritivo. Além disso, a mensagem principal não indica que o download já começou, só que, se houver dificuldade, existe um link para baixar o arquivo. Exemplo de mensagem de confirmação de download Exemplo de carrinho vazio no site da Renner Exemplo de mensagem de confirmação de download. Fonte: Kantar Ibope Media (2022). Exemplo de carrinho vazio no site da Renner. Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Fonte: Renner (2022a). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 91 Quando o usuário ainda não começou suas atividades no site ou aplicativo, o sistema pode não ter o que mostrar. É preciso usar o espaço vazio para incentivar a pessoa a utilizar o produto. O texto deve ser positivo, explícito quanto a qual tarefa o usuário pode realizar, e indicativo de que tipo de dados ou informações ocuparão o espaço. Os textos que aparecem dentro dos campos de formulários antes de serem preenchidos servem como orientação sobre o tipo de dados que o usuário deve informar em cada campo. Textos que acompanham os campos de formulários e não desaparecem quando o campo é preenchido. Exemplo de placeholder no site Decolar Exemplo de rótulos no site Airbnb Exemplo de placeholder no site Decolar. Fonte: Decolar (2022). Exemplo de rótulos no site Airbnb. Fonte: Airbnb (2022). 92Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Chamada para ação. Servem para concretizar uma ação. É recomendado utilizar verbos no infinitivo ou o texto em primeira pessoa. Você chegou ao fim desta unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! Exemplos de botões no site Dafiti Exemplos de botões no site Dafiti. Fonte: Dafiti (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 93 ADMINISTRADORES. Página de cadastro. Administradores, 2022. Disponível em: https://administradores.com.br/user/signup/. Acesso em: 23 jul. 2022. AIRBNB. Homepage. Airbnb, 2022. Disponível em: https://www.airbnb.com.br/. 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Comunica Simples, 2022a. Disponível em: https://comunicasimples.com.br/a-linguagem-simples/. Acesso em 18 out. 2022. FISCHER, Heloisa. Clareza em textos de e-gov, uma questão de cidadania. Rio de Janeiro: Com Clareza, 2018. FISCHER, Heloisa. Primeiros passos para uso de Linguagem Simples EV.G, 2022b. Disponível em: https://www.escolavirtual.gov.br/curso/315. Acesso em: jun. 2022. KANTAR IBOPE MEDIA. Página de download da pesquisa Inside Advertising 2022. Kantar Ibope Media, 2022. Disponível em: https://www.kantaribopemedia.com/ inside-advertising-2022-download/. Acesso em: 23 jul. 2022. 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Não me faça pensar: uma abordagem de bom senso à usabilidade na web. Rio de Janeiro: Alta Books, 2008. LEROY MERLIN. Página de cadastro. Leroy Merlin, 2022. Disponível em: https:// www.leroymerlin.com.br/cadastre-se. Acesso em: 23 jul. 2022. MAGAZINE LUIZA. Página de recuperação de senha. Magazine Luiza, 2022. Disponível em: https://sacola.magazineluiza.com.br/n#/recuperar-senha. Acesso em: 23 jul. 2022. ME POUPE. Página de contato. Me Poupe, 2022a. Disponível em: https://mepoupe. com/contato. Acesso em: 23 jul. 2022. ME POUPE. Página inicial. Me Poupe, 2022b. Disponível em: https://mepoupe.com/. Acesso em: 23 jul. 2022. NIELSEN, Jakob. Usability 101: Introduction to usability. Norman Nielsen Group, 2012. Disponível em: http://www.nngroup.com/articles/usability-101-introduction-Lembrou de algo? Foi uma experiência satisfatória? Saiba que a busca por proporcionar uma experiência positiva é papel do design da experiência do usuário. Então é hora de começar! Bons estudos! Unidade 1: Compreendendo a Era da Experiência Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de reconhecer o contexto de cultura e economia da experiência, bem como os impactos da transformação digital. A maneira como as informações são processadas e os sentidos que elas passam a ter estão relacionados à forma como elas chegam até você. As informações transmitidas de forma oral fluem entre os indivíduos, o que aumenta a colaboração e transmissão de conhecimentos. Os aprendizados podem ser propagados oralmente por meio de gerações, preservando parte do conhecimento ao longo do tempo. Segundo Gabriel (2018), esse foi o primeiro grande salto de conexão da humanidade. Porém, existiam limitações geográficas e temporais. 1.1 Sociedade da Informação e Transformação Digital Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 7 Gabriel (2018) cita a escrita como o segundo salto de conexão entre as pessoas. Com ela, as limitações físicas e temporais são reduzidas, é possível aumentar a precisão e diminuir a perda de informações. O uso da prensa móvel permitiu o registro escrito e descentralizou o conhecimento. Esses fatores levaram pessoas a um novo nível de cognição, que transforma a estrutura da sociedade e sua mentalidade. Com o passar dos anos, foram criadas várias tecnologias para melhorar o fluxo de informações, como as de comunicação e transporte. Dessa forma, as limitações geográficas, temporais e de suporte diminuíam, ao mesmo tempo em que as possibilidades de conexão aumentavam. E quando mais tecnologias surgiram, houve um colapso cada vez maior do tempo e do espaço (GABRIEL, 2018). A Era da Informação é um período em que as informações são de fácil acesso, em grande volume e afetam diversos aspectos da vida cotidiana, como economia, política e relações sociais. As mídias digitais e a internet desempenham um importante papel neste cenário (PARSONS, 2017). Processamento de informações. Fonte: Freepik (2022). 8Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Antes de seguir, você conhecerá uma diferenciação entre mídias analógicas e digitais. De forma geral, mídias analógicas têm uma base material. São exemplos desse tipo de mídia: disco de vinil, película do cinema e folhas de jornal. Já as mídias digitais, praticamente, não têm suporte físico. Os dados são convertidos em sequências numéricas ou de dígitos, por isso chamados de digitais. Assim, podem ser interpretados por processadores de computadores e outros dispositivos, o que permite o “compartilhamento, armazenamento e conversão de dados” (MARTINO, 2015, p. 11). Somando a digitalização dos dados com a integração de processadores em rede de alta velocidade, foram criadas as condições do desenvolvimento de uma teia de conexões descentralizadas que se tornaria a internet. De acordo com Parsons (2017, p. 3), a revolução digital “[...] é um processo contínuo de mudança social, política e econômica provocado pela tecnologia digital, como microchips, computadores e a Internet”. Veja no infográfico a seguir as fases da revolução digital apresentadas por Parsons (2017): As fases da revolução digital. Fonte: Parsons (2017). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 9 A internet pode ser classificada em eras, chamadas de Web 1.0, 2.0 e 3.0. Essa classificação passou a ser utilizada depois que Tim O’Reilly apresentou a expressão Web 2.0 para se referir a uma segunda geração de aplicativos, comunidades e serviços. Isso não significa de fato uma atualização técnica, mas o termo rapidamente alcançou o domínio público. A Web 2.0 indica mudanças pelas quais a internet passou ao ser utilizada por desenvolvedores e usuários em ambientes de interação e participação. Conforme a classificação das eras da internet, a Web 1.0 predominou até o final do século XX. Nessa fase, a internet era estática, ou seja, as pessoas podiam apenas navegar e consumir informações. Na Web 2.0 as redes ganham novo valor. Elas passaram a atrair a participação das comunidades sociais em larga escala, coletando dados entre os usuários em um processo de ativa participação social baseada no compartilhamento de conhecimento. Na era da Web 3.0 foi vivenciada a integração entre os objetos (celulares, carros, câmeras, eletrodomésticos etc.) e a internet. Não só as pessoas ou documentos podem fazer parte da internet, mas também dispositivos, objetos e vestimentas. Quanto mais dispositivos conectados, mais aumenta o “corpo” da internet das coisas. Inclusive, aumenta a ubiquidade e o volume de dados produzidos. Um novo paradigma de busca e organização para tratar o volume e variedade de tipos de informação disponíveis deve ser semântico (SANTAELLA, 2013; GABRIEL, 2018). Segundo Ferreira (2019), a atualidade está experimentando o começo de uma nova era, a Web 4.0. Essa fase é chamada de “Era da Inteligência Artificial”. O uso deste tipo de tecnologia faz com que a era 4.0 seja denominada de “Web Simbiótica”, por proporcionar intensa interação entre máquinas e humanos. Além disso, os algoritmos das redes sociais rastreiam as ações realizadas e geram um grande volume de dados que pode ser usado com diferentes finalidades. 10Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A sociedade vive uma transformação estrutural em relações de produção, poder e experiência, causada pela presença das tecnologias digitais e pela organização da sociedade em rede. Toda a evolução digital e da web traz significativas mudanças nas formas de organização social, na percepção do tempo e do espaço. Disso surge uma nova cultura, chamada de virtualidade real. Há uma ausência de limites sociais e físicos, a economia de mercado se torna dinâmica e expansiva, focada nos processos sociais organizados em rede (CASTELLS, 2003). Por isso, a transformação digital se torna tão importante. No contexto mercadológico, a transformação digital representa uma mudança na mentalidade das empresas e em sua cultura, desde os gestores até os colaboradores. O objetivo é resolver problemas cotidianos com auxílio da tecnologia, para se modernizar e acompanhar os avanços tecnológicos. Com a transformação digital, os processos adotados pela empresa para oferecer seu produto ou serviço passam a obedecer a lógica do mundo digital: mudanças rápidas e instantâneas, flexibilidade e agilidade (FIA, 2021). A imagem a seguir mostra um gráfico da evolução das eras da web. A evolução da Web. Fonte: Nascimento e Quintão (2011). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 11 Cabe destacar pontos importantes nos quais a transformação digital pode contribuir no dia a dia e nos resultados de uma empresa (FIA, 2021): • Pode tornar a comunicação mais rápida e assertiva; • Permite integrar setores, tornando as equipes mais sintonizadas e colaborativas; • Dá acesso a informações completas de maneiras mais diversas; • Automatiza processos e diminui a burocratização; • Favorece as tomadas de decisão baseadas em dados; • Melhora a interação com os clientes e parceiros por meio de canais mais instantâneos; e • Facilita a análise de desempenho por meio de ferramentas de gestão modernas. O uso intenso da tecnologia no cotidiano de pessoas e empresas faz com que a transformação digital afete diferentes aspectos de nossas vidas, desde a forma como se dão a comunicação e os relacionamentos até o consumo e o trabalho. Afeta também o governo, as formas de administração e prestação de serviços públicos, e até mesmo sua relação com o cidadão. A seguir, você poderá ver que a transformação digital dos governos não somente otimiza a dinâmica do serviço público, mas possui também o potencial de atrair e engajar os cidadãos. Transformação digital. Fonte: Freepik (2022). 12Enapto-usability/. Acesso em: 18 out. 2022. NIELSEN, Jakob. Usability Engineering. San Diego: Academic Press, 1993. PODMAJERSKY, Torrey. Strategic Writing for UX: Drive Engagement, Conversion, and Retention with Every Word. Sebastopol: O’Reilly, 2019. RENNER. Página de carrinho de compra. Lojas Renner, 2022. Disponível em: https:// clube.lojasrenner.com.br/sacola. Acesso em: 23 jul. 2022. ROCK CONTENT. Linguagem Neutra de gênero: o que é e como aplicar. Rock Content, 2019. Disponível em: https://rockcontent.com/br/talent-blog/linguagem- neutra-de-genero/. Acesso em: 18 out. 2022. SILVA, Luan. 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Serve para entender as necessidades humanas envolvidas no projeto, reformular o problema de maneira centrada no ser humano, criar sessões de geração de ideias e adotar uma abordagem prática para prototipagem e testes. Nesta unidade você verá os cinco estágios do Design Thinking e poderá relacionar cada um deles com o UX Writing. Isso vai permitir que você aplique a metodologia ao seu trabalho, resolva problemas complexos e entenda melhor o processo do design da experiência do usuário (DAM, 2022). Unidade 2: O Processo de UX Writing Objetivo de aprendizagem Esta unidade tem por objetivo esclarecer sobre as ações no ciclo de processo de trabalho de UX Writing por meio da abordagem do Design Thinking. 2.1 A Metodologia do Design Thinking Design Thinking. Freepik (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 97 Design Thinking é um processo não linear de elaboração, refinamento e melhoria de um projeto ou produto. Cabe usar essa abordagem em cinco estágios (DAM, 2022): Dentro do Design Thinking, o duplo diamante é uma abordagem que se inicia com descobertas, passando por definição e desenvolvimento a caminho da solução. O duplo diamante diverge e converge. O que significa que haverá grandes insights em momentos de divergência, e tomadas de decisões para próximos passos ou entrega quando em momento de convergência (PERA, 2021). Durante o pensamento divergente, pessoas designers e não designers conseguem criar ideias de forma espontânea. E, mesmo tendo encontrado algo que possa parecer uma resposta para o problema que se busca solucionar, conseguirá considerar outras ideias que surgirem. Os diálogos em grupo envolvem diversos pontos de vista em um pensamento divergente. Nos momentos em que o diamante está convergindo, está tomando um rumo mais rápido, pois foca em velocidade. • Empatia: pesquisa das necessidades dos usuários; • Definição: declaração das necessidades e os problemas dos usuários; • Ideação: questionamento das suposições e criação de ideias; • Prototipação: criação de soluções; e • Teste: experimentação e avaliação das soluções propostas. Design Thinking e o Duplo Diamante. Fonte: Pera (2021). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). 98Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O primeiro diamante diz respeito à ação de Descobrir. Ele ajuda a compreender o problema a ser solucionado. É comum escutar que, nesta etapa, a equipe está “abrindo” o diamante, pois estão divergindo. A segunda etapa é a Definição, em que a equipe se aproxima do problema que quer solucionar. Após checar informações, entender, imergir e observar, há uma aproximação do problema complexo a ser solucionado por meio do design. Nesta etapa, a equipe está “fechando” o primeiro diamante e, portanto, convergindo. Nesta etapa, é possível iniciar o desenho da solução: fase de Desenvolver. O problema a ser resolvido já foi compreendido e existe um conceito, aprovado junto à equipe na etapa anterior. O pensamento que guiará esta etapa será divergente, pois estará “abrindo”. Após abrir e fechar o Duplo Diamante, você chegará à etapa final de Entrega, em que a solução será validada por meio de testes finais dos últimos pontos para entregar. Aqui, o time poderá retornar a outros momentos do Duplo Diamante para ajustes finais de jornada ou para que a documentação do processo também esteja alinhada com descobertas e aprendizados obtidos após pesquisas, testes e validações (PERA, 2021). Na sequência, serão retomadas as etapas do Design Thinking e relacionadas à atividade do UX Writer. Sugestão de leitura complementar: “Porque o Double Diamond não é o suficiente” por João Traini, traduzido do original “Why the double diamond isn’t enough” de Adam Gray. Disponível aqui. A primeira etapa do processo de Design Thinking se concentra na pesquisa centrada no usuário. A intenção é obter uma compreensão empática do problema que se está tentando resolver. Pode-se consultar especialistas para saber mais sobre a área de preocupação e realizar observações para envolver e ter empatia com os usuários. 2.1.1 Etapa da Empatia: Entender o Problema https://brasil.uxdesign.cc/porque-o-double-diamond-nao-e-suficiente-f0a587b95be2 Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 99 Entender o problema. Freepik (2022). Também pode ser interessante mergulhar no ambiente físico dos usuários para obter uma compreensão mais profunda e pessoal dos problemas envolvidos, bem como suas experiências e motivações. A empatia é crucial para a resolução de problemas em um processo de design centrado no ser humano e na experiência do usuário. Permite que sejam deixadas de lado as suposições sobre o mundo para obter uma visão real dos usuários e de suas necessidades. Dependendo das restrições de tempo, é possível reunir uma quantidade substancial de informações para usar durante o próximo estágio. O principal objetivo da etapa da empatia é desenvolver a melhor compreensão possível dos usuários, suas necessidades e os problemas relacionadas ao desenvolvimento do produto ou serviço (DAM, 2022). No estágio de definição, as informações coletadas durante a fase de Empatia serão organizadas. Será feita a análise das observações para definir osprincipais problemas. A definição e declaração do problema devem ser feitas de maneira centrada no usuário. 2.1.2 Etapa da Definição: Compilar as Informações 100Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Compilar informações. Freepik (2022). Gerar ideias. Freepik (2022). O estágio de Definição vai ajudar a equipe de UX Design a coletar ideias para recursos, funções e outros elementos que resolvam o problema em questão. Ou então, no mínimo, vai servir para permitir que usuários reais resolvam problemas por conta própria com dificuldade mínima. Nesta etapa, se inicia o avanço para a terceira fase, a de ideação (DAM, 2022). Durante o terceiro estágio do processo de Design Thinking, os UX designers estão prontos para gerar ideias. As necessidades dos usuários foram levantadas na etapa da Empatia e as observações foram analisadas no estágio de Definição. Com esse histórico sólido, a equipe pode começar a olhar para o problema de diferentes perspectivas e idealizar soluções inovadoras (DAM, 2022). 2.1.3 Etapa da Ideação: Gerar Ideias Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 101 A equipe de design agora vai produzir várias versões reduzidas e baratas do produto (ou de recursos específicos do produto). Esses protótipos podem ser compartilhados e testados dentro da própria equipe, em outros departamentos ou em um pequeno grupo de usuários. Esta é uma fase experimental, com o objetivo de identificar a melhor solução possível para cada um dos problemas identificados durante as três primeiras etapas. As soluções são implementadas em protótipos e analisadas. Elas podem ser aceitas, aprimoradas ou rejeitadas com base nas experiências dos usuários. Na etapa de testes, designers ou avaliadores experimentam rigorosamente o produto completo utilizando as melhores soluções identificadas na etapa de Protótipo. Este é o estágio final do modelo de cinco estágios, mas a abordagem não é linear, e os resultados dos testes são frequentemente usados para redefinir um ou mais problemas adicionais. Ao final da etapa de Protótipo, a equipe de design terá uma ideia melhor das limitações do produto e dos problemas que ele enfrenta. Também terão uma visão clara de como os usuários reais se comportariam, pensariam e sentiriam quando interagem com o produto (DAM, 2022). 2.1.4 Etapa da Prototipação: Materializar as Ideias 2.1.5 Etapa de Teste: Validar as Propostas Materializar ideias. Freepik (2022) 102Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Considerando a abordagem do Design Thinking e o duplo diamante, você irá ver como inserir o UX Writing nesse processo. Ferreira (2019) sistematiza o duplo diamante aplicado à redação para a experiência do usuário comentando um diamante de cada vez. O processo começa com um entendimento do ambiente do cliente, uma imersão em seu universo e a identificação do problema mais relevante a ser resolvido. Segundo Ferreira (2019), o trabalho do UX Writer é praticamente igual ao de um UX Designer. O foco no usuário é pertinente em qualquer das áreas. Para projetar uma experiência a partir do texto é preciso dar mais atenção ao conteúdo no momento de descoberta. Pode-se observar o que os usuários estão escrevendo nas redes sociais, e-mails, sites ou em qualquer outro lugar onde estejam produzindo conteúdo. É possível procurar por termos mais usados, dúvidas comuns etc. Ferreira (2019) aponta algumas formas de obter tais informações dos usuários: 2.2 Duplo Diamante Aplicado a UX Writing Esse nível de compreensão pode ajudar a investigar as condições de uso e como as pessoas pensam, se comportam e se sentem em relação ao produto. Até mesmo podem levar a retomada de um estágio anterior no processo de Design Thinking. O objetivo final é obter uma compreensão tão profunda do produto e de seus usuários quanto possível (DAM, 2022). Design Thinking. Fonte: Carvalho (2019). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 103 • Briefing com o cliente, seja uma empresa ou organização; • Observação no local; • Pesquisa online; • Escuta de atendimento telefônico; • Construção de persona e da jornada em cada serviço; • Análise de conversas via chat ou e-mail; e • Imersão com equipes diversas da empresa cliente. A segunda metade do diamante, de acordo com Ferreira (2019), é o momento em que as atividades do UX Writer mais se diferenciam das outras áreas, por conta dos diferentes entregáveis que são de responsabilidade de cada função. A ideação requer um mergulho em arquitetura da informação e, sobretudo, em conversas. Podem ser usadas quaisquer dinâmicas que ajudem a detalhar a lógica de um diálogo em determinado contexto. Outras várias formas de testes de conteúdo podem ser aplicadas durante todo o processo de redação para experiência do usuário. No UX Writing aplicado dentro da abordagem do Design Thinking, é preciso considerar o primeiro ponto, que é o da empatia. O primeiro estágio é um fator extremamente importante para o UX Design e o UX Writing. Empatia. Freepik (2022). 104Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Ter empatia pelo usuário é se colocar em seu lugar. É importante lembrar que o UX Writer muitas vezes não é o usuário do produto que está projetando e, mesmo que seja, seu olhar sobre o produto tem um direcionamento profissional diferente do usuário comum. Quando o design da experiência do usuário é relacionado com o governo digital, pode-se fazer um destaque interessante. Assim como o governo digital tem o foco no cidadão, as técnicas do UX Design — e, consequentemente, do UX Writing — têm foco no usuário. Nesse caso, o usuário é o cidadão que vai utilizar o produto ou serviço oferecido pelo governo no meio digital. Portanto, conhecer o usuário é uma etapa crucial do processo para o desenvolvimento de uma boa experiência. É possível realizar diferentes procedimentos para obter as informações dos usuários. Agora, veja mais profundamente sobre a redação para a experiência do usuário. Você pode usar o texto produzido pelos próprios usuários para conhecer a forma que utilizam para se comunicar. No caso do governo digital, é possível avaliar diferentes tipos de informações fornecidas pelos cidadãos. É possível avaliar transcrições ou áudios de atendimentos telefônicos, a forma como solicitam serviços em chatbots, os textos de e-mails enviados, avaliações nas lojas de aplicativos em que os serviços do governo estão disponíveis, comentários nas redes sociais do governo e suas instituições. Essas são maneiras simples de compreender um pouco mais do universo do usuário que vai utilizar os produtos e serviços digitais de governo. Não basta tentar se imaginar no lugar do usuário. É preciso de fato conhecê-lo. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 105 Comunicação do usuário. Freepik (2022). Também é interessante, nesta etapa do processo, conhecer quais são os comportamentos desses usuários. No Brasil, o Comitê Gestor da Internet (CGI.br) realiza periodicamente pesquisas a respeito do uso das tecnologias de informação e comunicação no país. A pesquisa TIC Domicílios aborda como as pessoas utilizam a internet em suas casas, trabalho e por meio de dispositivos móveis. Existe também uma pesquisa voltada para o governo eletrônico. Por meio dos dados dessas pesquisas, é possível compreender o panorama das ações de governo para oferecimento dos produtos e serviços de maneira digital, bem como a aceitação e engajamento do cidadão no uso desses serviços, além do apontamento de possíveis dificuldades encontradas. A etapa da empatia está diretamente ligada ao momento de descoberta no duplo diamante. É preciso ser empático para compreender o verdadeiro problema a ser resolvido no projeto de um produto ou serviço digital, especialmente para as demandas de governo em que existe uma vasta gama de serviços oferecidos para diferentes perfis de público. Para aprofundar o conhecimento e aempatia em relação ao usuário dos serviços digitais, podem ser realizadas coletas em campo. Uma das maneiras de realizar essa busca de informações é por meio da observação. É possível observar quais são Você pode ver a última versão da pesquisa TIC Governo Eletrônico no site do CGI.br, disponível aqui. https://cetic.br/pt/publicacao/pesquisa-sobre-o-uso-das-tecnologias-de-informacao-e-comunicacao-no-setor-publico-brasileiro-tic-governo-eletronico-2021/ 106Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Pesquisas. Freepik (2022). as necessidades dos usuários dos serviços de forma digital ou mesmo presencial. Assim, podem ser compreendidos determinados comportamentos e linguagens utilizadas por eles, seja no histórico de busca do site ou no momento de solicitar um atendimento presencialmente, por exemplo. A observação tem a vantagem de preservar o comportamento natural dos indivíduos, embora haja implicações éticas em relação a isso, pois a pessoa não sabe que está sendo observada. Porém, em alguns momentos, observar não é o suficiente para compreender comportamentos. Neste momento de descoberta, também podem ser utilizadas as pesquisas com os usuários. Para desenvolver ou aprimorar um produto digital, é possível colher as informações diretamente dos indivíduos que fazem uso deste serviço. As pesquisas podem ser divididas em duas categorias principais: quantitativas ou qualitativas. As pesquisas quantitativas têm como objetivo medir algo. Podem medir, por exemplo, com que frequência o usuário precisa utilizar determinado serviço, entre outras questões que podem ser contabilizadas. Pesquisas quantitativas podem ser aplicadas por meio de questionários com opções para o usuário escolher. Podem ser aplicadas de maneira presencial ou digital. As pesquisas qualitativas têm como objetivo qualificar características, atitudes comportamentos e opiniões. Por meio de perguntas abertas que permitam ao usuário expressar os seus pensamentos, é possível colher diversas opiniões a respeito de suas necessidades. São exemplos de pesquisa qualitativa as entrevistas individuais ou em grupo. Essas entrevistas também podem ser realizadas de modo presencial ou digital. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 107 Ferreira (2019) comenta a possibilidade de construção de persona e jornada do usuário em cada serviço. Por persona entende-se a definição de um cliente ou usuário ideal daquele produto. Ele deve ser descrito como uma pessoa real, com nome, idade, local onde mora, informações sobre trabalho ou escolaridade e, principalmente, informações do uso que faz do serviço, quais dificuldades encontra e como tenta resolvê-las. A jornada do usuário é o caminho pelo qual ele precisa passar para conseguir realizar uma tarefa. Pode ser um problema a ser solucionado ou uma informação que deseja receber. Na jornada são demonstrados todos os pontos de contato que o usuário terá com a empresa e dentro do produto digital. Ela serve para que toda equipe tenha visão de quais são as etapas necessárias ao projeto, os comportamentos do usuário em cada momento e suas possíveis emoções. O usuário pode iniciar a jornada com a expectativa de solucionar um problema. Nesse caso, ele começa a sua jornada apreensivo e ansioso. No decorrer da jornada, pode demonstrar outras emoções, como dúvida, expectativa pela resposta e/ou satisfação por ter realizado a tarefa desejada. Conhecer a persona e sua jornada dentro do produto digital também é relevante para o UX Writer. Dessa forma, é possível compreender os possíveis sentimentos e expectativas do usuário em cada etapa. Com isso, o texto pode se adequar de maneira a acalmá-lo e direcioná-lo aos próximos passos. Jornada do usuário. Freepik (2022). 108Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Geração de ideias. Freepik (2022). Tendo todas as informações, a pessoa redatora da experiência do usuário poderá definir quais serão os melhores formatos para comunicação e diálogo com o usuário, bem como os tons de voz que deverão ser usados em cada momento. Por isso, é preciso que haja um guia de redação para orientar a produção dos textos. Nesse documento está presente a definição da voz que reflete a personalidade da marca ou da instituição e também estarão descritos os possíveis tons de voz a serem utilizados de acordo com cada situação. O guia também traz recomendações para que todos os profissionais envolvidos no projeto possam saber como escrever. Isso ajuda os designers que vão criar as interfaces, os programadores que devem inserir mensagens de sucesso ou de erro, a equipe de marketing ou comunicação que deverá lidar diretamente com o público. Toda a equipe se beneficia das orientações presentes no guia de redação. Para a etapa de ideação ou geração de ideias, cabe ao UX Writer gerar alternativas de textos para a interface do usuário, levando em conta a simplicidade e concisão do texto. Esse trabalho envolve as discussões e opiniões colhidas com outros membros da equipe de design, e considera também todas as informações obtidas a respeito do usuário e das características da linguagem que usa para sua comunicação. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 109 Para a pessoa redatora da experiência do usuário, essa etapa demanda uma grande atenção ao texto que está sendo produzido. Deve-se ter em mente o usuário para quem está escrevendo, suas características e jornada dentro do produto ou serviço, além da sua capacidade de compreensão dos textos ali presentes. Os textos passam por várias revisões, são lidos e reescritos várias vezes, até o ponto em que são definidos para aplicação em um protótipo. A prototipação ajuda o UX Writer a visualizar a aplicação do texto na interface. Isso dá uma dimensão melhor do fluxo dos processos dentro da interface, validando o que foi escrito ou deixando clara a necessidade de ajustes. Existem diferentes ferramentas para desenvolver protótipos de interfaces. A pessoa redatora não precisa dominar todas essas ferramentas, nem necessariamente saber desenvolver protótipos, mas é importante se familiarizar com as ferramentas usadas dentro da equipe para acompanhar a avaliação dos textos durante esta etapa. Quem escreve para a experiência do usuário muitas vezes utiliza um arquivo de texto, que pode ser compartilhado ou não com outros membros da equipe. Importante lembrar que, nesses casos, é preciso registrar ou manter diferentes versões do que foi produzido até então para manter um histórico. É importante também registrar gírias e regionalismos que possam surgir durante a etapa de empatia e reconhecimento do problema. Essas informações serão úteis, mas não devem ser utilizadas nos textos que vão constar na interface. Depois da prototipação, é hora de validar as propostas de texto para experiência do usuário por meio de testes. Este momento de avaliação pode ser realizado através de uma lista de verificação que apresente os pontos relevantes nos textos daquele produto ou serviço. Vão existir textos gerais e comuns a diferentes interfaces e que devem ter parâmetros semelhantes, como simplicidade, uso da mesma linguagem Arquivo de texto. Freepik (2022). 110Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Lista de verificação. Freepik (2022) do usuário, serem textos curtos, entre outras características. Determinados produtos e serviços vão ter funcionalidades específicas que precisarão de um olhar especial sobre o texto, ainda que considere as boas práticas de redação. Outra forma de avaliação envolve a participação dos usuários e pode trazer dados relevantes para os resultados da interface. Envolver os usuários implica em uma série de testes nos quais eles vão demonstrar compreensão de textos ou ainda a compreensão de um vocabulário de interesse daquela área. Nesta segunda opção, os usuários deverão expor as formas como organizariam diferentes temas ou quais palavras usariam para tratar de certos assuntos.A etapa de teste é dedicada para falar dessas avaliações com os usuários, mas elas podem acontecer em outros momentos do projeto, como na prototipagem. Teste de usabilidade. Freepik (2022) Rodrigues (2019) afirma que a missão na aplicação de testes de usabilidade é compreender o que faz com que uma interface e seu conteúdo sejam fáceis de usar. A partir disso, é possível investigar quais interferências existem na relação com o usuário que comprometeriam a utilidade do produto digital. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 111 Segundo o autor, ao aplicar testes de uso, as interações físicas são investigadas, assim como o modo como a dificuldade na utilização de uma interface digital pode impactar o consumo de conteúdo textual. A usabilidade busca responder questões além de dados numéricos e automáticos. O objetivo principal da realização de testes é recolher impressões dos usuários sobre suas sensações quando utilizam produtos digitais. As ferramentas e técnicas utilizadas dependem da profundidade que se quer investigar e da viabilidade de realização dos testes. Entre os recursos possíveis estão “entrevistas realizadas antes dos testes para traçar hábitos do participante; a filmagem; a observação em sala espelhada; o acompanhamento do usuário enquanto ele executa as ações demandadas; e o uso de softwares associados aos browsers (navegadores de internet) que registram a navegação ao longo das etapas e/ou páginas do produto” (RODRIGUES, 2019, p. 67). Veja a seguir uma lista de possibilidades de testes (MERGO, 2021; RODRIGUES, 2019). Desk research São os testes simples feitos através de pesquisas na internet. Podem ser realizados como forma de validar determinadas palavras. Alguns sites podem ser usados para esta função, como Ubbersuggest (disponível aqui) e Google Trends (disponível aqui). Com estas ferramentas é possível definir qual palavra tem mais alcance, aceitação e utilização em um público mais generalizado. No Google Trends, inclusive, existe a possibilidade de comparar as palavras que foram mais buscadas em determinado período. Também podem ser feitas correlações com outros assuntos e segmentar em quais estados ela mais apareceu. Teste cloze ou preenchimento de lacunas Essa opção tem origem em testes educacionais e se parece com exercícios escolares em que o aluno precisa preencher uma lacuna com a palavra correta. A ideia é a mesma: o usuário deve preencher as lacunas deixadas no texto com palavras do seu vocabulário ou palavras que tenham sido dadas como opções. Sinônimos e erros ortográficos também podem ser usados. Um sinônimo que apareça de forma recorrente pode indicar que aquela é a palavra ideal para tratar do assunto segundo os usuários. https://neilpatel.com/br/ubersuggest/ https://trends.google.com.br/trends/?geo=BR 112Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Teste do “marca texto” Permite analisar sentimentos e percepções em relação ao que está escrito. Ajuda a entender se existe algum elemento faltando ou sendo mal compreendido, ou ainda quais termos usados remetem melhor ao assunto. Para essa técnica, cópias do texto devem ser distribuídas aos usuários. Cada pessoa deve grifar com uma caneta marca texto aquilo que considera representar o tema ou sentimento que se quer transmitir. Por exemplo, pode-se pedir para que os usuários marquem as palavras que lhe transmitam confiança naquela informação. O contrário também pode ser solicitado. O usuário pode ser instruído a grifar de uma outra cor o que achou confuso, que lhe dá menos confiança ou que poderia ser alterado. É interessante, em ambos os casos, pedir para que o usuário diga o motivo da sua escolha. Testes de percepção/compreensão Tipo de teste usado para validar versões. Pode ser feito somente com o texto ou apresentando o protótipo de uma tela pronta. São oferecidas opções e o usuário seleciona aquela que julga ser melhor. Além da aplicação presencial, essa técnica pode usar questionários online, como do Google. Com alternativas definidas para que o usuário escolha, a mensuração dos resultados quantitativos fica mais fácil. Para ajudar na compreensão do usuário a respeito do propósito do teste, pode ser utilizada uma história, por exemplo: “imagine que você vai pagar uma conta mensal; qual o nome você daria para essa ação? 1. Agendamento; 2. Pagamento; 3. Transação”. Teste de vocabulário Teste para validar a compreensão do conteúdo em uma tela e coletar informações de vocabulário. O teste ocorre com o pedido para que o usuário analise a tela por alguns minutos. Posteriormente, é pedido para que essa pessoa explique quais ações devem ser feitas naquele momento da jornada, como ela executaria tais ações e outras percepções que possa ter. Este teste ajuda a identificar modelos mentais dos usuários. Teste A/B É um teste tradicional e pode ser aplicado em diferentes áreas do UX Design. São disponibilizadas duas versões de determinado microtexto para diferentes usuários, com o objetivo de identificar qual delas tem mais chances de interação. Funciona em microtextos vigentes e em textos menores, como botões, títulos, subtítulos e hiperlinks. Lembre-se de usar somente uma alteração a cada teste, para ter certeza de que esta foi a alteração que modificou os resultados. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 113 Card Sorting O card sorting é outro teste que não é específico para conteúdo, mas que pode auxiliar em projetos de arquitetura da informação. Pode ser feito utilizando notas adesivas com um item ou conceito escrito. Então, é solicitado ao usuário que relacione e agrupe os termos que acha parecidos (cards abertos). Também é possível indicar as categorias já definidas e pedir para que os usuários agrupem os itens dentro delas (cards fechados). “Fala que eu te escuto” ou “escreva que eu te leio” Essa técnica pode ser utilizada quando voltada para o universo da fala. Um grupo de pessoas que representam os usuários do produto é selecionado e direcionado por um mediador a discutir determinado assunto. É importante que haja um roteiro para a conversa e que os participantes sejam ouvidos. Além disso, cabe ao mediador estimular a participação de todos do grupo. Nesta técnica, pode ser difícil tomar nota de todas as conversas, por isso pode ser interessante realizar a gravação da sessão (com autorização dos participantes). Essa técnica também pode ser utilizada por meio da avaliação da escrita. As dificuldades encontradas nesse caso são de conseguir a participação de vários usuários que estejam dispostos a escrever um texto extenso o suficiente para análise. Role playing ou interpretação de papeis Nesse teste, é feita a simulação de “atender” alguém da equipe em uma conversa fictícia. Traz insights não só para o desenho da conversa, mas para a validação de um chatbot existente, por exemplo. Que bom que você chegou até aqui! Chegou a hora de você testar seus conhecimentos. Então, acesse o exercício avaliativo que está disponível no ambiente virtual. Bons estudos! 114Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública CARVALHO, Henrique. Design Thinking: entenda como funciona o modelo. Vida de Produto, 2019. Disponível em: https://vidadeproduto.com.br/design-thinking/. Acesso em: 18 out. 2022. DAM, Rikke F. The 5 Stages in the Design Thinking Process. Interaction Design Foundation, 2022. Disponível em: https://www.interaction-design.org/literature/ article/5-stages-in-the-design-thinking-process. Acesso em: 18 out. 2022. FERREIRA, Renata. Afinal, o que faz uma Ux Writer? ZUP, 2019. 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O foco do governo digital deve ser sempre o cidadão e, para isso, é necessário que sejam tomadas determinadas atitudes em relação a ele. Utilizar o UX Writing para produzir textos de produtos e serviços digitais é uma delas. Isso pode fazer com que o cidadão se engaje mais no que é público e indique o uso dos serviços digitais a outras pessoas. Em contrapartida, o governo ganha em agilidade e redução dos seus custos, além de conhecer cada vez mais os usuários de seus serviços e aprimorá-los cada vez mais. Módulo O UX Writing na Administração Pública4 Unidade 1: Casos Práticos na Administração Pública Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de determinar, a partir de casos práticos na Administração Pública, o uso de estratégias de UX Writing. 1.1 Relembrando o UX Writing no Contexto da Administração Pública Neste módulo, você conhecerá as estratégias UX Writing a partir de casos práticos, para o contexto da Administração Pública, para ganhar agilidade e redução de custos no atendimento do cidadão, além de conhecer cada vez mais os usuários de seus serviços e aprimorá-los cada vez mais. Para iniciar este quarto módulo, faça a seguinte reflexão: lembre-se de alguma experiência da utilização de algum site ou aplicativo do Governo Digital. Lembrou de algo? Foi uma experiência satisfatória? Saiba que a Administração Pública busca proporcionar uma experiência positiva para o usuário. 116Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A sociedade da informação e todos os avanços tecnológicos ocorridos nos últimos anos levaram a uma transformação digital das formas de comunicação, trabalho, consumo e relação com os governos. O UX Design é uma abordagem multidisciplinar para o desenvolvimento de produtos e serviços, com foco em proporcionar a melhor experiência possível para seus usuários. Por isso, enfatiza-se a aplicação do UX Design e UX Writing em produtos e serviços digitais, especificamente aqueles oferecidos pelo governo e órgãos públicos. A redação para a experiência do usuário é muito importante para que haja sucesso na execução de tarefas dentro de um produto ou serviço. É por meio do texto que o usuário pode navegar e ser orientado na realização de tarefas, bem como na resolução de problemas em uma interface digital. Por isso, é preciso ter atenção na definição e nos processos envolvidos na criação de textos para a experiência do usuário. No caso de produtos digitais, esses textos podem ser utilizados em botões, títulos, avisos e notificações, mensagens de erro, telas de boas-vindas e instruções diversas. É importante reconhecer suas características e fazer a diferenciação de outros tipos de texto que podem ser usados no ambiente digital, como webwriting e copywriting. Transformação digital. Freepik (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 117 Além disso, também é necessário compreender as competências e tarefas pertinentes ao profissional dessa área, chamado de UX Writer. Uma das entregas essenciais para o processo de redação para experiência do usuário é o guia de redação de uma marca ou empresa. Esse guia atende também as demandas do governo digital e dos diferentes órgãos públicos que desejem realizar uma comunicação mais assertiva, focada em proporcionar uma boa experiência para o cidadão. Produtos e serviços digitais. Freepik (2022). Competências e tarefas do UX Writer. Freepik (2022). 118Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A voz é a maneira como a instituição vai comunicar sua personalidade. Diferentes perfis de empresas do setor público ou privado têm maneiras distintas de se comunicar com seus usuários. A definição da voz ajuda na coerência e manutenção dessa personalidade em vários momentos e pontos de contato com o usuário. E, ainda que a voz seja a mesma, é importante considerar as diferenças de tom de voz. O tom de voz é a adequação da voz a diferentes situações. Pense em diferentes situações da sua vida. A sua voz é sempre a mesma, mas com certeza você utiliza tons de voz diferentes para cada situação. Pode ser que você utilize um determinado tom de voz no trabalho ou no relacionamento com seus colegas, e que esse tom seja diferente do que você usa com sua família e amigos, por exemplo. No caso da redação para a experiência do usuário, o tom de voz tem o mesmo significado. Em determinados momentos, esse tom de voz será mais otimista e receptivo, em outros, pode ser mais sério e conciso. Além de dicas e boas práticas para redação de diferentes tipos de texto para produtos e serviços digitais, relembre-se de dois parâmetros muito importantes: a acessibilidade e a usabilidade. Você sabe o que são esses parâmetros? Acessibilidade significa que as interfaces de seus textos devem ser acessíveis a qualquer pessoa, especialmente quando falamos do governo digital, em que existe uma grande variedade de perfis de público e de objetivos na relação com o governo. A acessibilidade trata tanto de questões técnicas, como a possibilidade de leitura por tecnologias assistivas, quanto de questões práticas, como a escolha de palavras que façam parte do repertório dos usuários. Para o parâmetro de usabilidade, as interfaces digitais devem ser fáceis de serem usadas, simples e agradáveis. O texto deve acompanhar essa característica. Em relação à usabilidade dos textos, pode-se destacar a linguagem simples, semelhante à utilizada pelo usuário, evitar termos que ele não conheça, prevenir erros e dar ao usuário a compreensão de tudo o que está acontecendo em cada etapa de sua jornada. O guia de redação traz uma série de recomendações para a redação de textos que visam orientar os usuários durante o uso de produtos e serviços digitais. Essas recomendações são derivadas de duas informações principais dentro do guia: a voz e o tom de voz. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 119 Neste aspecto, você deve reconhecer a importância de avaliar os textos produzidos para uma interface de usuário. Esses testes podem envolver a pessoa usuária e colher contribuições de como o texto é percebido e compreendido. Também é possível fazer avaliações heurísticas, verificando determinados critérios e se eles estão sendo cumpridos corretamente nos textos da interface. Bobbie Wood (2020) propõe uma lista de verificação para textos de UX Writing. Faça o download do arquivo e guarde-o com você para que possa seguir os critérios nos textos da interface! Este arquivo foi adaptado a partir do texto de Wood (veja aqui). São várias perguntas organizadas por tipos de tela. Confira! O design system é um recurso importante para estabelecer padrões nos produtos digitais de uma marca ou organização. O governo digital brasileiro também tem um design system, que aborda padrões de elementos visuaise textuais. 1.2 Design System do Gov.br Design System do gov.br Design system do portal Gov.br. Fonte: Gov.br (2022). No vídeo a seguir, você poderá explorar mais desses padrões, especialmente aqueles que dizem respeito a texto e conteúdo. Videoaula: Design System do Governo Digital Brasileiro https://www.linkedin.com/pulse/ux-writing-checklist-content-heuristics-designers-bobbie-wood/ https:// https://cdn.evg.gov.br/cursos/813_EVG/video/modulo04_video04/index.html 120Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Videoaula: O Portal Gov.br: Uma Análise Heurística Videoaula: Análise do Aplicativo Gov.br Agora que você conheceu alguns dos padrões do portal e aplicativo gov.br, na próxima videoaula, você poderá analisar o portal em si. Você será apresentado a uma sugestão de análise heurística que permite verificar os padrões dos manuais de texto e das boas práticas. Vamos agora analisar o aplicativo gov.br. No vídeo a seguir, você vai conhecer alguns critérios de análise diferentes para aplicação a produtos acessados exclusivamente em dispositivos móveis. Depois de observar as análises feitas do caso do portal gov.br, faça você também sua análise do portal ou do aplicativo. Além disso, você pode analisar os sites de determinados órgãos públicos que tenha interesse ou ainda escolher um serviço público de governo no painel de monitoramento de serviços federais, disponível aqui. Que bom que você chegou até aqui! Chegou a hora de você testar seus conhecimentos. Então, acesse o exercício avaliativo que está disponível no ambiente virtual. Bons estudos! 1.3 Portal Gov.br 1.4 Aplicativo Gov.br https:// https://cdn.evg.gov.br/cursos/813_EVG/video/modulo04_video05/index.html https:// https://cdn.evg.gov.br/cursos/813_EVG/video/modulo04_video06/index.html https://painelservicos.servicos.gov.br/ Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 121 GOV.BR. Padrão Digital de Governo. Gov.br, 2022. Disponível em: https://www. gov.br/ds/home. Acesso em: 18 out. 2022. WOOD, Bobbie. UX Writing Checklist: Content Heuristics for Designers. Linkedin Pulse, 2020. Disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/ux-writing-checklist- content-heuristics-designers-bobbie-wood/. Acesso em:18 out. 2022. Referências https://www.gov.br/ds/home https://www.gov.br/ds/home https://www.linkedin.com/pulse/ux-writing-checklist-content-heuristics-designers-bobbie-wood/ https://www.linkedin.com/pulse/ux-writing-checklist-content-heuristics-designers-bobbie-wood/Fundação Escola Nacional de Administração Pública Eixos da Estratégia Brasileira para Transformação Digital (E-Digital). Fonte: Brasil (2018, p. 9). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). O Brasil conta com a Estratégia Brasileira para Transformação Digital (E-Digital), instituída pelo Decreto nº 9.319, de 21 de março de 2018. Ela compõe o Sistema Nacional para a Transformação Digital (SinDigital). O E-Digital tem como objetivo “aproveitar todo o potencial das tecnologias digitais para alcançar o aumento da produtividade, da competitividade e dos níveis de renda e emprego por todo o País, visando a construção de uma sociedade livre, justa e próspera para todos” (BRASIL, 2018, p. 6). A estratégia brasileira é dividida em eixos temáticos, organizados em dois grandes grupos. O primeiro abrange os eixos habilitadores, que visam criar “um ambiente propício para o desenvolvimento da transformação digital da economia brasileira, com iniciativas essenciais para alavancar a digitalização” (BRASIL, 2018). No segundo grupo estão os eixos de transformação digital, que se concretizam por meio da realização das atividades dos eixos habilitadores. Na transformação digital estão incluídos economia e governo. No âmbito do governo, a estratégia tem em vista alcançar o pleno exercício da cidadania em ambiente digital e a prestação de serviços para a sociedade (BRASIL, 2018). O esquema que representa os eixos da E-Digital e a maneira como se associam pode ser visto na imagem a seguir: Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 13 Mas a estratégia para a transformação digital não é a primeira iniciativa brasileira no uso das tecnologias de informação e comunicação para a administração pública. O Brasil já havia adotado uma Estratégia Geral de Tecnologia da Informação e Comunicação (EGTIC) que estabelecia os objetivos estratégicos no uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC) em cinco aspectos: sociedade; Governo Federal; processos internos; pessoas, aprendizado e crescimento; e financeiro. A estratégia se renovava periodicamente e teve sua última edição entre os anos de 2014 e 2015. Em 2016, foi instituída uma Política de Governança Digital para órgãos e entidades da administração pública federal. Seu objetivo era melhorar a informação e prestação de serviços. Neste ponto, foi criada a Estratégia de Governança Digital (EGD), que servia para orientar e integrar as iniciativas relativas à governança digital nos diferentes níveis da administração do poder executivo federal. Essa integração buscava reunir esforços de infraestrutura, plataformas, sistemas e serviços. Além de expandir o acesso a informações governamentais, o potencial era de melhorar os serviços públicos digitais e ampliar a participação social. Essa estratégia foi planejada para os anos de 2016 e 2019. A Política de Governança Digital foi substituída por uma Estratégia de Governo Digital, lançada por meio do Decreto nº 10.332 de 29 de abril de 2020, e que previa ações para os anos de 2020 a 2022 (MINISTÉRIO DA ECONOMIA, 2021a). O decreto se aplica a órgãos e entidades da administração pública federal direta, autarquias A Estratégia Brasileira para Transformação Digital (E-Digital) estava em vigor até 2022, quando passou por uma atualização que prevê as ações no período de 2022 a 2026. A justificativa para esta mudança é a evolução da tecnologia e sua potencialização por conta da pandemia do Covid-19. Por conta do isolamento social, a tecnologia se mostrou uma importante aliada e acelerou o processo de transformação digital em andamento no Brasil e no mundo. O processo de revisão da E-Digital envolveu a realização de oficinas com a participação de mais de 100 colaboradores de diferentes áreas no mês de setembro de 2021. Além disso, a proposta de atualização foi submetida a uma consulta pública encerrada em fevereiro de 2022. Para ter mais informações sobre a E-Digital, clique aqui. https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/transformacaodigital/estrategia-digital 14Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública e fundações. Também institui o Comitê de Governança Digital, que define a implementação das ações de governo digital e o uso dos recursos de tecnologia da informação e comunicação. A Estratégia de Governo Digital está organizada em seis princípios, e cada um deles tem seus próprios objetivos e iniciativas para nortear a transformação digital do governo, promover a efetividade das políticas e qualidade dos serviços públicos (BRASIL, 2020). Confira no quadro a seguir os princípios e seus respectivos objetivos da Estratégia de Governo Digital: Princípios Objetivos Governo centrado no cidadão, preocupado em oferecer uma jornada agradável por meio de serviços simples, ágeis e personalizados Objetivo 1 - Oferta de serviços públicos digitais Objetivo 2 - Avaliação de satisfação nos serviços digitais Objetivo 3 - Canais e serviços digitais simples e intuitivos Governo integrado por meio de dados e serviços da Administração Pública que resulte em uma experiência consistente no atendimento ao cidadão Objetivo 4 - Acesso digital único aos serviços públicos Objetivo 5 - Plataformas e ferramentas compartilhadas Objetivo 6 - Serviços públicos integrados Governo inteligente, que implementa políticas com base em dados e evidências para antecipar e solucionar necessidades Objetivo 7 - Políticas públicas baseadas em dados e evidências Objetivo 8 - Serviços públicos do futuro e tecnologias emergentes Objetivo 9 - Serviços preditivos e personalizados ao cidadão Governo confiável que respeita a liberdade e a privacidade dos cidadãos Objetivo 10 - Implementação da Lei Geral de Proteção de Dados no âmbito do Governo Federal Objetivo 11 - Garantia da segurança das plataformas de governo digital e de missão crítica Objetivo 12 - Identidade digital ao cidadão Governo transparente e aberto, que disponibilize dados e informações proativamente Objetivo 13 - Reformulação dos canais de transparência e dados abertos Objetivo 14 - Participação do cidadão na elaboração de políticas públicas Objetivo 15 - Governo como plataforma para novos negócios Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 15 Esses objetivos são importantes para que o cidadão seja o foco do governo digital e tenha mais participação nos processos e políticas públicas. Como forma de dar ao cidadão a centralidade no processo de transformação e de governo digital são indicadas a oferta de serviços públicos, possibilidade de avaliação de satisfação dos serviços, criação de canais de comunicação e serviços simples e intuitivos, personalização dos serviços, entre outros. O país tem até uma Lei de Governo Digital (Lei Federal nº 14.129, de 29 de março de 2021). A lei descreve os “princípios, regras e instrumentos para o Governo Digital” e aumento da eficiência pública. Em vigor desde agosto de 2021, tem entre princípios e diretrizes (MINISTÉRIO DA ECONOMIA, 2021b): Disponibilizar um portal único do governo faz parte das estratégias digitais brasileiras. O portal gov.br foi criado em resposta ao Decreto nº 9.756, de 11 de abril de 2019, que em seu Artigo 1º declara o uso do “[...] portal único “gov.br”, no âmbito dos órgãos e das entidades da administração pública federal direta, autárquica e • a desburocratização, a modernização, o fortalecimento e a simplificação da relação do poder público com a sociedade, mediante serviços digitais acessíveis; • a disponibilização em plataforma única do acesso às informações e aos serviços públicos; • a interoperabilidade de sistemas e a promoção de dados abertos; • o incentivo à participação social no controle da administração; • a eliminação de exigências e formalidades; e • o apoio técnico aos entes federados para implantação e adoção de estratégias que visem à transformação digital da administração pública. Princípios Objetivos Governo eficiente que capacita seus profissionais, utiliza plataformastecnológicas e serviços compartilhados Objetivo 16 - Otimização das infraestruturas de tecnologia da informação Objetivo 17 - O digital como fonte de recursos para políticas públicas essenciais Objetivo 18 - Equipes de governo com competências digitais Os princípios e os objetivos da Estratégia de Governo Digital. Fonte: Brasil (2020). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). 16Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Conheça as bases legais que orientam o governo digital do Brasil no material disponível aqui. fundacional do Poder Executivo federal, por meio do qual informações institucionais, notícias e serviços públicos prestados pelo governo federal serão disponibilizados de maneira centralizada”. O decreto também engloba “os portais na internet e os aplicativos móveis que contenham informações institucionais, notícias ou prestação de serviços do Governo federal” (BRASIL, 2019). Você já ouviu falar da era ou economia da experiência? Ouvindo ou não, você provavelmente vivencia isso todos os dias. Segundo Silva (2021), parte das tendências da transformação digital tratam das mudanças nas narrativas e do desenvolvimento de produtos e serviços com base em inteligência artificial. Outro aspecto que deve ser levado em consideração nesse contexto é a modificação dos hábitos, mentalidade e visão que se tem sobre o cliente moderno. As pessoas estão hiper conectadas, mais analíticas e com maior poder em suas decisões de compra. Isso torna os consumidores mais exigentes. Eles não buscam uma boa experiência somente ao adquirir um produto ou serviço, mas esperam que toda a sua jornada seja especial, desde a identificação de uma necessidade e busca de opções até o pós-compra. De acordo com o Relatório de Tendências para a Experiência do Cliente 2021 da empresa Zendesk, 75% dos clientes estão dispostos a gastar mais com empresas que proporcionem boas experiências (SILVA, 2021). 1.2 O Que é e Como se Forma a Experiência? Experiência do cliente. Fonte: Freepik (2022). https://www.gov.br/governodigital/pt-br/legislacao/legislacao-governanca-digital Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 17 Mas, afinal, o que é a experiência do cliente? Também chamada de Customer Experience ou CX, a experiência do cliente pode ser definida como o conjunto de percepções e sentimentos que um consumidor desenvolve sobre uma marca. A experiência do cliente interfere na captação, retenção e fidelidade dos clientes (SILVA, 2021). O termo Economia da Experiência foi cunhado por um escritor e consultor chamado Joseph Pine. Segundo ele, depois das economias baseadas em commodities, produtos e serviços, as marcas que se destacam são aquelas que encantam seus clientes com experiências inesquecíveis (FRANKLIN; CAROL, 2022). A imagem a seguir mostra a escalada das economias até a economia da experiência, segundo Joseph Pine: A escalada das economias. Fonte: Franklin e Carol (2022). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Para saber mais sobre a economia da experiência, assista ao TED Talk de Joseph Pine sobre o que os clientes querem. O vídeo está disponível aqui. https://www.youtube.com/watch?v=2RD0OZCyJCk 18Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Uma vez que você pode compreender o conceito de economia da experiência, será abordado outro termo: experiência do usuário. Diferente da experiência do cliente, que abrange toda a jornada do cliente e seu relacionamento com a marca, a experiência do usuário está mais ligada ao uso do produto em específico. Também diz respeito à experiência do usuário com plataformas, sites, aplicativos e softwares de uma empresa. A experiência do usuário é um termo que tem origem no inglês “user experience” (também conhecido pelo acrônimo “UX”). Pereira (2019) afirma que experiência do usuário é o nível de satisfação que as pessoas têm no uso de um produto ou serviço, seja ele físico ou digital. Garrett (2010) diz que a experiência do usuário é aquela que o produto cria para as pessoas que o utilizam no mundo real. Por outro lado, Teixeira (2017) explica a experiência do usuário como a experiência de quem usa algo. O autor dá exemplos da experiência do usuário no dia a dia, já que as pessoas são usuárias de várias coisas: pode ser o alarme do celular que desperta pela manhã, o carro utilizado para ir trabalhar, o controle remoto da televisão ou até mesmo as mídias sociais digitais, como Facebook e Instagram. Quando esses objetos ou plataformas são acionados, desenvolve-se uma experiência, que pode ser positiva ou negativa. Experiências são dinâmicas, complexas e subjetivas. “A experiência do usuário é a totalidade dos efeitos sentidos pelo usuário antes, durante e depois interação com um produto ou sistema em uma ecologia” (HARTSON; PYLA, 2019, p. 6, tradução nossa). O termo “ecologia" diz respeito ao conjunto de partes ao redor do mundo, como redes, outros usuários, diferentes dispositivos e estruturas de informação com que o usuário ou o produto interage. O princípio da experiência continua o mesmo quando se usam dispositivos ou mídias digitais. Por exemplo: quando você acessa um site, pode ter uma experiência positiva ou negativa, dependendo do fluxo desenvolvido durante a navegação, a facilidade de encontrar as informações que queria, os erros que possam acontecer durante o uso. Uma experiência positiva acontece quando o usuário consegue realizar uma tarefa sem demora, frustração ou problemas no percurso. Essa tarefa pode ser funcional, como pagar um boleto em um aplicativo, ou emocional, como acompanhar a vida dos amigos em uma rede social digital. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 19 Projetar a experiência do usuário é definir o problema a ser resolvido (por quê), para quem o problema precisa ser resolvido (quem) e o caminho que deve ser percorrido para que o problema se resolva (como) (TEIXERA, 2017). Segundo Hartson e Pyla (2019), o objetivo é projetar a experiência do usuário para que seja produtiva, gratificante, satisfatória e até mesmo prazerosa. Os autores indicam como características principais da boa experiência do usuário: Experiência do usuário. Fonte: Freepik (2022). 1 É resultado da interação, direta (quando se utiliza diretamente um dispositivo) ou de forma indireta (ver ou pensar sobre ele); 2 Trata da totalidade dos efeitos — as percepções, interpretações e emoções que resultam do contato com um sistema. Tanto no momento do uso quanto ao longo do tempo; Além de subjetivas, as experiências são influenciadas por fatores humanos e fatores externos. Os fatores humanos são as habilidades dos indivíduos, sua capacidade de compreensão, seu momento e necessidade de uso etc. Já os fatores externos podem ser o horário do dia, o ambiente em que está fazendo uso de algo ou o simples fato de haver uma fila para usar o serviço. Apesar de sua subjetividade, as experiências são projetadas por alguém que pensou e desenhou essa interação. 20Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública É importante destacar que não é possível desenvolver um projeto de experiência do usuário. O que se faz é projetar o produto com o objetivo de que o usuário tenha uma boa experiência. “Não se pode projetar quais serão as experiências e sensações que um usuário vai experimentar utilizando um artefato, e sim criar expectativas de que a maneira como a interface foi desenhada vai servir para despertar nele sensações e experiências gratificantes” (BARRETO et al., 2018, p. 70). Por isso, o foco deve ser sempre o usuário. Quanto mais conhecermos sobre ele, melhores as chances de criar uma experiência que seja positiva. 3 É sentida internamente por um usuário: a experiência do usuário que interage com algo varia de um indivíduo para outro, mesmo que estejam sob as mesmas condições; e 4 O contexto de uso e a ecologia afetam a experiência: o usuário pode ser parte de várias ecologias (por exemplo, o trabalho e sua casa) e estar sob diferentes contextosde uso (pode estar sob pressão no trabalho ou num momento de descontração). Agora que você pode conhecer a Era da Experiência e como as experiências se formam, é importante refletir: como fica a relação do cidadão com os governos nesse contexto? Saiba como o cidadão deve ser visto na Era da Experiência no podcast a seguir. Você chegou ao fim desta unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! 1.3 O Cidadão na Era da Experiência Podcast: Cidadão na Era da Experiência https://cdn.evg.gov.br/cursos/813_EVG/podcast/modulo01_podcast01/pc01.mp3 Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 21 BARRETO, Jeanine dos Santos et al. Interface humano-computador. Porto Alegre: SAGAH, 2018. BRASIL. Decreto nº 9.756, de 11 de abril de 2019. Institui o portal único “gov.br” e dispõe sobre as regras de unificação dos canais digitais do Governo Federal. Brasília, DF: Presidência da República, 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/D9756.htm. Acesso em: 18 out. 2022. BRASIL. Decreto nº 10.332, de 28 de abril de 2020. Institui a Estratégia de Governo Digital para o período de 2020 a 2022. Brasília, DF: Presidência da República, 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/decreto-n-10.332-de-28-de-abril- de-2020-254430358. Acesso em: 18 out. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA, INOVAÇÕES E COMUNICAÇÕES. Estratégia brasileira para transformação digital - Edigital, Brasília, 2018. Estratégia digital para o período de 2018 a 2022. Disponível em: https://www.gov. br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/transformacaodigital/arquivosestrategiadigital/ estrategiadigital.pdf. Acesso em: 18 out. 2022. BRASIL. Lei nº 14.129, de 29 de março de 2021. Dispõe sobre princípios, regras e instrumentos para o Governo Digital e para o aumento da eficiência pública e altera a Lei nº 7.116, de 29 de agosto de 1983, a Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011 (Lei de Acesso à Informação), a Lei nº 12.682, de 9 de julho de 2012, e a Lei nº 13.460, de 26 de junho de 2017. Brasília, DF: Presidência da República, 2021. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14129.htm. Acesso em: 18 out. 2022. CASTELLS, Manuel. O fim do milênio. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. FERREIRA, Marco. A Evolução da Web: o que esperar da Web 4.0?, 2019. Disponível em: https://www.ufjf.br/conexoesexpandidas/2019/09/09/a-evolucao-da-web-o- que-esperar-da-web-4-0/. Acesso em: 18 out. 2021. Fundação Instituto de Administração (FIA). Transformação Digital: O que é, Principais Causas e Impactos, 2021, São Paulo. Disponível em: https://fia.com.br/ blog/transformacao-digital/. Acesso em 18 out. 2022. FRANKLIN & CAROL. 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Para isso, você será apresentado ao UX Design, seus conceitos, disciplinas e área de atuação, além de conhecer a relação entre UX Design e UX Writing. Como visto anteriormente, a experiência do usuário se forma na subjetividade do indivíduo e depende de suas características internas e externas, do momento e do contexto de uso. Ainda assim, é possível planejar uma experiência com o objetivo de que o uso do produto, serviço, site ou aplicativo seja simples, intuitivo, eficiente e agradável. Lembre-se: experiência do cliente e experiência do usuário são coisas diferentes. A experiência do usuário diz respeito ao uso direto do produto, serviço, aplicativo etc. e faz parte da experiência mais ampla do cliente. 2.1 Design da Experiência do Usuário A relação entre experiência do cliente (CX) e experiência do usuário (UX). Fonte: Birch (2020). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 25 Saffer (2010) descreve o design da experiência do usuário comouma disciplina guarda-chuva. Existem outros aspectos relacionados aos estudos da experiência do usuário, como antropologia cultural, engenharia, jornalismo, psicologia e design gráfico. O UX Design envolve o projeto de uma coisa, que pode ser um produto ou serviço, e até mesmo parte dele. O campo da experiência do usuário é muito amplo e é difícil fazer generalizações sobre as funções de UX Design. Mas o ponto em comum entre as funções de experiência do usuário é o foco nos usuários (STULL, 2018). Para entender a importância do foco nos usuários, você pode observar as metas e objetivos em torno de um produto ou serviço. No desenvolvimento de um produto, existem várias pessoas envolvidas, cada uma com sua função e perspectiva. Os membros da equipe de projeto têm metas de desenvolvimento a serem alcançadas. Os executivos de contas buscam atingir as metas do cliente. Gestores perseguem metas orçamentárias. Os estrategistas precisam manter o alinhamento com as estratégias traçadas. Já os designers visuais perseguem objetivos estéticos. Os desenvolvedores são guiados pelos objetivos de tecnologia. Cada uma dessas atividades tem seu valor e é fundamental para o processo, nenhuma delas é mais ou menos importante. Porém, o porquê de cada um desses papéis serem desempenhados por vezes acaba sendo esquecido. Cada uma dessas áreas, em última análise, trabalha para as pessoas que usam o que o que é criado: os usuários (STULL, 2018). O usuário deve estar sempre no centro do processo de UX Design. O design centrado no usuário tem como seu maior objetivo defender uma filosofia baseada nas necessidades e interesses do usuário, em dar atenção para fazer produtos compreensíveis e facilmente utilizáveis. Para Norman (2018), o design deve garantir que o usuário possa descobrir o que fazer e saiba o que está acontecendo. O UX Design olha para todos os aspectos do contato do usuário com um produto e se certifica de que eles estejam em harmonia. Envolve diferentes áreas de estudo e atuação, como o design visual, de interação, de som e assim por diante. 26Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública É relevante destacar que os profissionais de UX Design devem alinhar e conciliar os objetivos do negócio com o que o usuário precisa. Uma experiência do usuário significativa acontece quando as metas de negócio e as necessidades do usuário se sobrepõem. Uma experiência projetada levando em conta os objetivos de ambos os lados transforma o produto em um resultado relevante para o usuário e para a empresa ou organização. Os processos de UX Design utilizados para alcançar esse tipo de resultado poupam tempo e dinheiro, pois mostram o que deve ou não ser criado desde o princípio (STULL, 2018). “A participação do usuário no desenvolvimento do produto é de suma importância. Considera-se isso porque o usuário poderá falar sobre o que ele espera do produto, o que deseja, como o vê etc. A partir desse contato, pode-se pensar em supostas melhorias para o atendimento do cliente final: o usuário” (BARRETO et al., 2018, p. 71). UX Designers. Fonte: Freepik (2022). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 27 O profissional de UX Design (chamado de UX Designer) pode atuar em diferentes funções como: pesquisa de UX (UX Researcher); designer de UX (UX Designer); escrita de experiência do usuário (UX Writer); designer de interface do usuário (UI Designer); e estrategista e gerente de UX (UX Manager strategist) (BIRCH, 2020). Veja a seguir um detalhamento do que faz cada função dentro do UX Design e quais são seus entregáveis de acordo com Birch (2020). Pessoa pesquisadora de UX (UX Researcher) Faz pesquisas qualitativas e quantitativas e se envolve com usuários/clientes durante todo o processo. É responsável por dar feedback e ajudar a empresa a tomar decisões baseadas na pesquisa do usuário. Também traz valiosas contribuições para testar o sucesso de novos recursos ou produtos. Seus principais entregáveis são: - Relatórios de pesquisa de usuários; - Personas do usuário; - Histórias de usuários; - Mapas de jornada do usuário; - Declarações do tipo "como poderíamos"; - Relatórios de usabilidade; - Relatórios de avaliação heurística; e - Relatórios de teste do usuário. Pessoa Designer de UX (UX Designer) Generalista de UX e geralmente cobre todos os principais estágios do processo de UX Design. Muitas vezes também faz o design visual e recebe o nome de designer de UX/UI. Seus principais entregáveis são: - Relatórios de pesquisa de usuários; - Personas do usuário; - Mapas de jornada do usuário; - Declarações "como poderíamos", que capturam um problema que seu design visa resolver; - Protótipos em papel; - Wireframes; - Mockups de alta fidelidade; - Relatórios de usabilidade; - Relatórios de avaliação heurística: - Relatórios de testes de usuários; e - Bibliotecas de padrões de design, guias de estilo ou sistemas de design. 28Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Pessoa escritora/redatora de experiência do usuário (UX Writer) Se concentra nos textos que ajudam a orientar o usuário em suas tarefas e garante que ele alcance seus objetivos. Exemplo de escrita de UX pode ser o microtexto ao lado de um link ou uma página que dê visão geral de como usar um produto. Seus principais entregáveis são: - Todo texto a ser incorporado no próprio produto; e - Diretrizes editoriais ou diretrizes de linguagem do produto que definem o tom e o estilo de conteúdo. Pessoa designer de interface do usuário (UI Designer) Trabalha principalmente no estágio de protótipo e projeta os designs de baixa e alta fidelidade. Especialista em interfaces de usuário, projeta interfaces de experiência digital. Também tem forte entendimento de marcas e diretrizes de marca. Seus principais entregáveis são: - Protótipos em imagem; - Protótipos interativos; - Guias de estilo visual; - Bibliotecas de ícones; - Especificações de design para programação; e - Materiais de branding ou diretrizes que complementam o produto. Pessoa estrategista e gerente de UX (UX Manager strategist) Pode ser a mesma pessoa ou dois papéis diferentes. Gerente de UX costuma ser responsável pela equipe de UX, sua estrutura, o desenvolvimento profissional da equipe e como ela se encaixa no negócio mais amplo. Estrategista de UX se preocupa mais com como UX e CX são usados dentro da organização, cuida para que haja uma base sólida de UX em cada produto digital, da aplicação de melhores práticas e guias em todos os aspectos e etapas do processo, bem como uma sólida metodologia de UX. Seus principais entregáveis são: - Visão e Estratégia de UX; - Arquitetura de informação; - Design de produto e serviço (se não houver outro profissional neste papel); - Coordenação de equipes relacionadas a UX; e - Treinamento de melhores práticas de UX. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 29 Este curso trata especificamente da escrita para a experiência do usuário (UX Writing), mas é importante lembrar que as diferentes funções estão interligadas durante todo o processo de UX Design e colaboram entre si. A pessoa redatora da experiência, ou UX Writer, precisa dos dados resultantes de pesquisas para conhecer o usuário e assim escrever textos que façam sentido para ele. Inclusive, a área de UX Writing tem técnicas próprias em que colhe informações, expectativas e percepções do usuário em relação aos textos que vão compor ou já fazem parte do produto. O UX Writer também deve manter um relacionamento estreito com os UX/UI Designers para criar, avaliar e aprimorar a hierarquia das informações e textos usados na interação com o usuário. Inclusive, pode acompanhar o desenvolvimento de protótipos fazendo sugestões de melhorias e correções. Cabe a ele também criar padrões que serão utilizados nas mais diferentes formas de comunicação que a empresa ou produto vai usar nos vários pontos de contato com o cliente ou usuário. A seguir, será detalhada a aplicação das áreasde UX Design na criação de interfaces de site ou aplicativos. Relacionamento da equipe de designers. Fonte: Freepik (2022). 30Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O Norman Nielsen Group (NN/g) é uma empresa de pesquisa e consultoria em UX Design. Costuma ser contratada por organizações líderes do mundo todo para orientar sobre a experiência do usuário. Seus fundadores são Jakob Nielsen e Don Norman, pioneiros da experiência do usuário e reconhecidos por sua liderança no campo de UX. Veja o que Don Norman fala sobre o que é UX e o papel do UX Designer, disponível aqui. Lembre-se de ativar a legenda automática do YouTube para ler em português! Depois de conhecer o que é o UX Design e as funções envolvidas nos projetos que envolvem experiência do usuário, é importante fazer algumas distinções. Primeiro, será discutido o que não representa o UX Design. Segundo Teixeira (2010), UX Design não é só sobre o design da interface ou sobre fazer telas consideradas bonitas. A interface é um dos componentes, mas o UX Design se aplica à experiência com um todo. UX Design é o processo em si, e não somente parte dele. É preciso dar ouvidos ao usuário e compreender suas demandas durante todo o projeto. E não se trata somente de tecnologia: desenvolver a experiência do usuário implica em entender como as pessoas vivem, se comportam e interagem com o mundo ao seu redor. Não se limita a telas ou aplicativos, englobando a interação com produtos, objetos ou sistemas. O design da experiência do usuário também não trata somente de usabilidade, que é uma das metas do projeto. Ainda que uma funcionalidade não seja necessariamente fácil de ser usada, deve ser ao menos fácil de ser aprendida. Da mesma maneira é importante ter em mente que o foco do processo de UX Design é o usuário, mas ele não é o único que deve estar satisfeito com o produto. Objetivos de negócio devem ser equilibrados para serem atendidos. 2.2 O que Faz e o que Não Faz o UX Design https://www.youtube.com/watch?v=9BdtGjoIN4E Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 31 Aplicação de técnicas. Fonte: Freepik (2022). Aplicar as técnicas dessa metodologia também não precisa ser um processo caro. É possível fazer melhorias no projeto utilizando algumas técnicas de UX Design. Ainda assim, não quer dizer que não haverá dificuldades. Na maioria das vezes o UX Designer não é o usuário do produto. E, mesmo que seja, sua perspectiva é diferente por conta de seu conhecimento técnico e envolvimento com o produto. Por isso, é necessário saber quem é o usuário e do que ele precisa. Por fim, UX Design não se resume a uma pessoa, departamento ou disciplina. É preciso haver dentro da organização uma cultura de foco no usuário e da importância da experiência. Além disso, existem diferentes especializações nas etapas do processo de design da experiência do usuário, que dificilmente são encontradas em um único profissional (TEIXEIRA, 2010). E onde se aplica o UX Design? O design da experiência do usuário pode ser desenvolvido por diferentes organizações, em várias áreas de atuação, abrangendo múltiplos tipos de produtos ou serviços, digitais ou não. O UX Design atua no projeto da interface entre o usuário e o produto. Ele não trabalha somente nas interfaces gráficas de sites e aplicativos. Você conhecerá mais sobre eles mais tarde; antes, você verá o que é definido como interface. Quando se pensa em interação, a interface pode ser definida como meio para tradução. Pode ser um aparato tecnológico, como o telescópio que permite ver as estrelas (SANTAELLA, 2013). 32Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Outras metáforas são semelhantes. Por exemplo, a interface como uma superfície de contato que reflete as características das partes com que interage ou como uma membrana que une ao mesmo tempo que divide (ROCHA, 2017). Voltando o olhar para o contexto da tecnologia, Lévy (1993, p. 176) diz sobre a interface: “um dispositivo que garante a comunicação entre dois sistemas informáticos distintos ou um sistema informático e uma rede de comunicação”. Nesse aspecto o autor fala da comunicação entre sistemas ou redes de computadores. Mas, nesse curso, o importante é considerar uma outra característica: a interface como uma forma de interação entre usuários e sistemas. “Uma interface homem/máquina designa o conjunto de programas e aparelhos materiais que permitem a comunicação entre um sistema informático e seus usuários humanos” (LÉVY, 1993, p. 176). Os textos inseridos em uma interface de site ou aplicativo devem servir como uma parte do diálogo com o usuário. Assim, o papel das interfaces nos sistemas computacionais é possibilitar a lógica de conversação entre o usuário e o sistema. Por meio da interface ocorre a entrada e saída de informações e dos dados processados. O sistema recebe e transforma os dados inseridos, de acordo com a ação realizada pelo usuário. Cabe à interface mapear essas ações e apresentar os resultados. Nesse processo acontece uma espécie de tradução entre a linguagem da máquina e os signos das linguagens humanas, podendo ser de maneiras textuais, visuais ou sonoras. A interface, portanto, não é apenas um elemento para apresentação de informações, mas de diálogo (ROCHA, 2017). Mas também se pode entender o que é interface por meio de metáforas. Algumas dessas metáforas explicam a interface como algo intermediário, que liga uma coisa à outra. Uma delas é a metáfora da ponte, que explica a interface como aquilo que liga dois lados diferentes, sem que faça parte de nenhum deles. Outra maneira de explicar interface é como um lugar em que ocorre contato e interação. A interface também pode ser vista como a maçaneta que abre uma porta. A metáfora mais interessante é de que a interface é como a pele das pessoas. A pele proporciona o contato com o mundo, é a parte do corpo do ser humano que traduz a informação do ambiente externo para o interno e vice-versa. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 33 Esboço da interface. Fonte: Freepik (2022). Cabe destacar, então, a importância do texto e do UX Writing. A linguagem é uma importante ferramenta que pode moldar o pensamento e ter efeitos de longo prazo na forma de agir. A linguagem pode afetar as percepções humanas e, consequentemente, as decisões, mesmo as mais básicas e intuitivas. Por isso, a redação para a experiência do usuário tem um papel tão relevante nos produtos construídos. O UX Writing permite que os usuários tenham a melhor experiência que puderem com determinado produto ou serviço (RODRIGUES, 2019). Marushevska (2018), consultora de comunicação e conteúdo ucraniana, propõe uma forma de enxergar o trabalho do profissional redator de experiência do usuário. Segundo ela, suas funções são: • Trabalhar com designers e desenvolvedores em qualquer estágio da produção do produto digital; • Pesquisar o mercado a que servirá o produto para que possa para falar a linguagem do usuário; • Definir hipóteses e testá-las usando testes A/B para validar diferentes versões de textos; • Trabalhar com a equipe de marketing e redatores de outros formatos para criar e seguir o guia de estilo da empresa; e • Escrever bons textos. 34Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Em relação aos textos escritos, a prioridade não é a redação de textos mais extensos: a preferência é pela objetividade e lógica sem, é claro, deixar de lado a personalidade da marca ou produto, transmitida por meio da definição da voz a ser usada. Um bom texto em uma interface demonstra cuidados e compreensão dos sentimentos dos usuários em cada passo de sua jornada. Relacionando os aspectos da interface e a importância do texto escrito pelo UX Writer, é preciso levar alguns pontos em consideração, por exemplo, se a leitura é feita no papel ou na tela. Se a leitura for feita na tela, é preciso identificar se a tela a ser usada é grande ou pequena. Conhecero usuário e sua jornada também é relevante, já que o momento em que a informação será absorvida diz muito sobre o cenário em que o texto será lido: em casa, no transporte público, no trabalho ou ao ar livre, por exemplo (RODRIGUES, 2019). Para tratar do que faz o UX Design, será usada a perspectiva do design da experiência do usuário aplicada a páginas, aplicações e produtos digitais etc. Os conceitos apresentados a seguir foram descritos por Jesse James Garrett (2010) sobre os elementos da experiência do usuário. Web sites (que são chamados simplesmente de sites), assim como aplicativos e outras interfaces, são peças complicadas de tecnologia. Quando as pessoas têm problemas usando peças complicadas de tecnologia, acabam culpando a si mesmas. Independentemente da finalidade, essas interfaces são um produto de autoatendimento: não existe um manual de instrução, treinamento ou representante do atendimento ao cliente. O usuário está sozinho, encarando a tela somente com seu bom senso e experiência pessoal como ferramentas para guiá-lo. Por isso é tão pertinente conhecer o usuário, seus desejos e necessidades (GARRETT, 2010). O processo de UX Design tem a ver com garantir que todos os aspectos da experiência do usuário aconteçam com intenção consciente e explícita. É preciso levar em conta todas as possibilidades de ações do usuário e entender quais são suas expectativas em cada etapa. Para facilitar o entendimento e execução desse processo, Garrett (2010) divide o trabalho de criar a experiência do usuário em elementos. São cinco estágios ou planos, de um nível mais abstrato até o mais concreto, construídos de baixo para cima: O principal trabalho do UX Writer é impedir que o usuário precise se perguntar o que tem que fazer em seguida (RODRIGUES, 2019). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 35 Elementos do UX Design. Fonte: Garrett (2010). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). O primeiro plano da experiência do usuário em interfaces de produtos digitais é o plano de estratégia. É uma etapa abstrata que fundamenta o site ou aplicação. Essa fase estratégica incorpora não só o que os criadores pretendem, mas também deve considerar o que o usuário quer ou precisa. O segundo plano, de escopo, define os recursos e funções do produto e como tudo se encaixa. No plano de estrutura é definido acerca de como os usuários chegam ao produto e para onde podem ir a partir daí. O plano de esqueleto é o momento em que é criada a expressão concreta do plano de estrutura. Indica o posicionamento de botões, controles, imagens e textos. Essa organização deve ser planejada e organizada para oferecer o máximo de eficiência. Por fim, o plano de superfície é o que se vê da interface, constituído pelas imagens e textos. Cada um dos planos apresentados depende diretamente do anterior. Na imagem a seguir, você verá que é apontada uma dualidade natural da internet, que divide os cinco planos ao meio. Do lado esquerdo do esquema, a internet é vista como uma plataforma, com funcionalidades para realização de tarefas. Do lado direito, é 36Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Divisões dos elementos de UX Design. Fonte: Garrett (2010). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). No plano de estratégia, são definidas as necessidades dos usuários e os objetivos do produto. É um ponto importante para buscar o equilíbrio entre as vontades da organização e do usuário. No plano de escopo, são traçadas as especificações de funcionamento e requisitos de conteúdo. Nesse ponto são detalhadas as funcionalidades do produto e as possíveis demandas de texto, além da definição das características dessa escrita. Para a estrutura, é preciso projetar a arquitetura da informação e o design de interação. Isso diz respeito à hierarquia de elementos e textos, além dos fluxos que vão levar os usuários até os recursos ou tarefas de que precisam. No esqueleto do produto são desenhadas as etapas dos fluxos de navegação, criando o layout da interface gráfica. A superfície é o ponto de contato sensorial com o usuário, apresenta aquilo com que ele vai interagir diretamente. dada uma visão da internet como um meio de informação. Em cada um dos lados indicados, os elementos são mais detalhados para se combinar no processo de projetar a experiência do usuário. Veja essa representação a seguir: Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 37 Conseguir alcançar a clareza e objetividade em todas essas etapas demanda conhecimentos variados. A seguir, você poderá conhecer as disciplinas envolvidas nos projetos de UX Design. Com o que foi visto até o momento sobre UX Design, fica evidente que se trata de uma abordagem multidisciplinar. Norman e Nielsen (2020) afirmam que a experiência do usuário abrange todos os aspectos da interação do usuário com uma empresa, seus produtos e serviços. Isso vale também para o governo digital. Um projeto baseado no design da experiência do usuário estuda as melhores formas de atender as necessidades dos usuários (ou cidadãos) e deixá-los satisfeitos. Isso só é possível se forem aplicadas diferentes disciplinas para avaliar a facilidade de uso, percepção de valor, utilidade, eficiência na execução de tarefas, entre outros. Dessa maneira é proposta a melhor solução para um determinado problema. O diagrama de Saffer (2010) exibido a seguir demonstra as diferentes disciplinas relacionadas ao UX Design: 2.3 Disciplinas e Áreas de Atuação Disciplinas de UX Design. Fonte: Saffer (2010). Elaboração: CEPED/UFSC (2022). 38Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Até o momento, foi abordada a transformação digital e seus impactos na sociedade. Parte desses impactos se referem a mudanças de comportamento dos indivíduos: busca por praticidade, agilidade e simplicidade no uso de produtos digitais, cada vez mais presentes no cotidiano. A arquitetura da informação se preocupa com a estrutura do conteúdo: como organizar e rotular melhor o conteúdo para que os usuários encontrem as informações de que precisam. O design visual é usado para criar uma linguagem visual que comunique o conteúdo, como as imagens, fontes, cores e layout das interfaces de usuário. O design industrial tem a ver com a forma – molda objetos de maneira que comuniquem seu uso e, ao mesmo tempo, se tornem funcionais. Outra disciplina importante aborda os fatores humanos. Eles garantem que os produtos estejam em conformidade com as limitações do corpo humano, tanto física quanto psicologicamente. A disciplina de interação humano-computador está intimamente relacionada ao design de interação. Porém, seus métodos são mais quantitativos e estão mais ligados à engenharia e ciência da computação do que ao design. A arquitetura se preocupa com os espaços físicos: sua forma e uso. O design de som define um conjunto de ruídos, palavras faladas ou músicas usadas para criar uma paisagem auditiva. As disciplinas relacionadas a conteúdo tratam de informação em texto, vídeo ou áudio. Pode-se observar no diagrama as intersecções das disciplinas relacionadas ao UX design. Há também partes dessas disciplinas que estão fora o domínio do design da experiência do usuário, pois existem tarefas em cada uma delas que dizem respeito à produção e ao desenvolvimento dos projetos alheios ao que o usuário experimenta. Nos estudos deste curso será mantido o foco no conteúdo e nas técnicas usadas na escrita de forma a contribuir para a boa experiência do usuário. 2.3.1 A Interseção entre UX Design e UX Writing Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 39 A forma como se consome informação também muda, principalmente quando é analisado o potencial trazido pelos dispositivos móveis. Com eles é possível realizar tarefas e consumir informações de diferentes formatos com mobilidade. Nesse contexto, além de buscar proporcionar a melhor experiência possível para o usuário dos produtos digitais, é importante oferecer textos quepossam informar rapidamente, que se adequem às telas cada vez menores, em meio a várias distrações existentes quando o usuário está em movimento. O UX Writing é parte importante no processo de design da experiência do usuário. É por meio de suas técnicas que o texto pode se tornar conversacional e facilitar o caminho do usuário no uso de diversos produtos digitais presentes em seu dia a dia. Que bom que você chegou até aqui! Chegou a hora de você testar seus conhecimentos. Então, acesse o exercício avaliativo que está disponível no ambiente virtual. Bons estudos! UX Writing. Fonte: Freepik (2022). Sobre a relação da interseção entre UX Design e UX Writing, veja a palestra do professor, autor e consultor Bruno Rodrigues, disponível aqui. Bruno Rodrigues é especialista em Informação para a Mídia Digital e Padronização de Informações. Autor de três livros sobre Webwriting, produziu para o Governo Federal o padrão brasileiro de redação online “Padrões Brasil e-Gov: Cartilha de Redação Web” em 2010. Publicou em 2019 o livro “Em busca de boas práticas de UX Writing”.. https://www.youtube.com/watch?v=iuFEBGR6SO4 40Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). Requisitos Ergonômicos para Trabalho de Escritórios com Computadores. Parte 11 – Orientações sobre Usabilidade. Rio de Janeiro, 2002. Disponível em: http://www.inf.ufsc.br/~edla.ramos/ ine5624/_Walter/Normas/Parte%2011/iso9241-11F2.pdf. Acesso em: 18 out. 2022. BARRETO, Jeanine dos Santos et al. Interface humano-computador. Porto Alegre: SAGAH, 2018. BIRCH, Daniel. Understanding UX roles: A deep dive into User Experience design roles. UX Design, 2020. Disponível em: https://uxdesign.cc/understanding-ux-roles- 23032b94710d. Acesso em: 18 out. 2022. GARRETT, Jesse. J. The Elements of User Experience: User-Centered Design for the Web and Beyond. 2 ed. Berkeley: New Riders, 2010. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 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Referências https://brasil.uxdesign.cc/o-que-n%C3%A3o-%C3%A9-user-experience-design-34b670032bb5 https://brasil.uxdesign.cc/o-que-n%C3%A3o-%C3%A9-user-experience-design-34b670032bb5 http://www.ilearn.com.br/TR/WCAG20/ 42Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública UX Writing trata daquilo que é escrito para garantir a melhor experiência possível para o usuário de um produto digital. Trabalha com pequenos trechos de texto escritos em uma interface. Também atua na redação, revisão e validação do conteúdo de e-mails, notificações, artigos de uma página de ajuda e outros canais de comunicação com o usuário (LORENTE, 2019). De acordo com Velo (2022, p. 15), UX Writing é “escrever, revisar e otimizar textos com apoio de pesquisas e testes”. Lembrando que o foco é sempre o usuário e é importante conhecê-lo. O texto ajuda o usuário a conseguir o que quer, enquanto ajuda a empresa ou organização a obter do usuário sua contrapartida. Módulo UX Writing: o Texto na Experiência do Usuário2 Unidade 1: UX Writing em cena Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de classificar os conceitos e características relativos a UX Writing. 1.1 Afinal, o que é UX Writing? Neste módulo, você conhecerá os conceitos e características do UX Writing, a diferença entre os textos para a experiência do usuário. A partir daí, será apresentada a importância da utilização dos microtextos para as interfaces, competências e boas práticas para UX Writing e aplicação do UX Writer e UX Design nas áreas de atuação e, principalmente, na Administração Pública. Para iniciar este módulo, faça a seguinte reflexão: lembre-se que, ao longo do tempo, ocorreram várias transformações tecnológicas que afetam o cotidiano das pessoas. Lembrou de algum benefício que a tecnologia pode trazer? Foi uma experiência satisfatória? Saiba que a busca por proporcionar uma experiência positiva é resultado das atividades do design da experiência do usuário, que, também, podem atuar na Administração Pública. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 43 O UX Writing leva em conta toda a experiência do usuário. No processo, informa, instrui, orienta, esclarece e envolve. Seu papel no design da experiência do usuário é remover ambiguidades, assegurar clareza e transparência das informações. Além disso, ajuda e tranquiliza o usuário quando há algum erro no sistema ou incertezas em sua mente. E, para isso, tem como base o tom de voz da marca e do produto (VELO, 2022). O profissional que atua nesta área é chamado de UX Writer ou pessoa redatora para a experiência do usuário. À primeira vista, a função de UX Writer pode parecer simplesmente responsável por escrever e revisar textos. Mas o cotidiano nessa posição exige uma parceria estratégica com os profissionais de outras áreas, como UX, UI, Engenharia, Produto, stakeholders e quaisquer outros papéis presentes na equipe multidisciplinar. “UX Writing é o processo de criação de palavras na experiência do usuário (UX): os títulos, botões, rótulos, instruções, descrições, notificações, avisos e controles que as pessoas veem. São também