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Tradução Cláudio M. Rocha-de-Souza Pesquisador visitante do Instituto de Tecnologia de Imunobiológicos Bio-Manguinhos — FIOCRUZ. Doutor em Microbiologia Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Revisão técnica desta edição José Procópio Moreno Senna Pesquisador da vice-diretoria de desenvolvimento tecnológico do Instituto de Tecnologia de Imunobiológicos Bio-Manguinhos — FIOCRUZ. Professor da disciplina de Bacteriologia do Mestrado Profissional em Tecnologia de Imunobiológicos Bio-Manguinhos — FIOCRUZ. Doutor em Biologia Celular e Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). M626 Microbiologia médica de Jawetz, Melnick e Adelberg [recurso eletrônico] / Geo. F. Brooks ... [et al.] ; [tradução: Cláudio M. Rocha-de-Souza ; revisão técnica: José Procópio Moreno Senna]. – 26. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : AMGH, 2014. Editado também como livro impresso em 2014. ISBN 978-85-8055-335-2 1. Microbiologia. I. Brooks, Geo. F. CDU 579 Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB10/2052 20Neissérias C A P Í T U L O A família Neisseriaceae abrange os gêneros Neisseria, Kingella, Eikenella, Simonsiella e Alysiella (ver Cap. 16). As neissérias são cocos gram-negativos que habitualmente ocorrem em pares (diplococos). A Neisseria gonorrhoeae (gonococos) e a Neisseria meningitidis (meningococos) são patogênicas para os seres humanos e, em geral encontradas em associação com células polimorfonucleares ou no interior dessas células. Al- gumas neissérias são habitantes normais das vias respiratórias humanas, raramente ou nunca provocam doença, e são encon- tradas fora das células. O Quadro 20.1 mostra uma lista dos membros do grupo. Os gonococos e os meningococos estão estreitamente rela- cionados, com 70% de homologia do DNA, e são diferenciados com base em alguns testes laboratoriais e certas características específicas: os meningococos possuem cápsulas de polissacarí- deo, o que não ocorre com os gonococos, e os meningococos raramente têm plasmídeos, enquanto a maioria dos gonoco- cos os possui. Entretanto, o aspecto mais importante é que as duas espécies são diferenciadas pelos quadros clínicos habi tuais das doenças que provocam: tipicamente, os meningococos são encontrados nas vias respiratórias superiores e causam menin- gite, enquanto os gonococos provocam infecções genitais. To- davia, observa-se uma superposição nos espectros clínicos das doenças causadas por gonococos e meningococos. Morfologia e identifi cação A. Microrganismos típicos As espécies típicas de Neisseria são diplococos gram-negativos imóveis, com cerca de 0,8 µm de diâmetro (Figs. 20.1 e 20.2). Os cocos isolados são reniformes. Quando os microrganismos ocor- rem aos pares, os lados adjacentes são achatados ou côncavos. B. Cultura Após 48 horas em meios enriquecidos (p. ex., meio de Thayer- Martin, Martin-Lewis, GC-Lect e New York City), os gonoco- cos e os meningococos formam colônias mucoides convexas, elevadas e brilhantes, com 1 a 5 mm de diâmetro. As colônias são transparentes ou opacas, não pigmentadas e não hemolíti- cas. Neisseria flavescens, Neisseria cinerea, Neisseria subflava e Neisseria lactamica podem exibir pigmentação amarela. Neis seria sicca produz colônias opacas, quebradiças e enrugadas. Moraxella catarrhalis forma colônias opacas não pigmentadas ou cinza-rosadas. C. Características de crescimento As neissérias crescem melhor em condições aeróbias, porém algumas crescem em ambiente anaeróbio. Têm exigências complexas para seu crescimento. A maioria desses microrga- nismos oxida carboidratos, produzindo ácido, mas não gás, e seus padrões de fermentação de carboidratos proporcionam um meio para que se possa distingui-los (Quadro 20.1). As neissérias produzem oxidase e reações positivas para oxidase. O teste da oxidase é essencial para sua identificação. Quando as bactérias são colocadas em papel de filtro embebido com clori- drato de tetrametilparafenilenodiamina (oxidase), as neissérias rapidamente adquirem uma cor púrpura escura. Os meningococos e os gonococos crescem melhor em meios de cultura que contenham substâncias orgânicas com- plexas, como sangue aquecido, hemina e proteínas animais, em uma atmosfera que contenha 5% de CO2 (p. ex., recipiente com vela). O crescimento é inibido por alguns componentes tóxi- cos do meio (p. ex., ácidos graxos ou sais). Os microrganismos são rapidamente destruídos por ressecamento, luz solar, calor úmido e por muitos desinfetantes. Produzem enzimas autolíti- cas que resultam em rápido intumescimento, bem como lise in vitro a 25°C e pH alcalino. neisseria gonorrhoeae Os gonococos só oxidam a glicose e diferem das outras neis- sérias antigenicamente; em geral, produzem colônias menores do que as outras neissérias. Os gonococos que necessitam de arginina, hipoxantina e uracila (auxotipo Arg–, Hyx– e Ura–) tendem a crescer mais lentamente na cultura primária. Os go- nococos isolados de amostras clínicas ou mantidos por repi- cagem seletiva formam pequenas colônias típicas de bactérias dotadas de pili. No repique não seletivo, aparecem também co- lônias maiores contendo gonococos sem pili. Ocorrem ainda variantes opacas e transparentes de ambos os tipos de colônias, pequenas e grandes; as colônias opacas estão associadas à pre- sença de uma proteína superficial exposta, Opa. Estrutura antigênica N. gonorrhoeae é antigenicamente heterogênea e tem a capa- cidade de modificar suas estruturas de superfície in vitro — e presumivelmente in vivo — para evitar as defesas do hospedei- ro. As estruturas de superfície são especificadas a seguir. 286 SEção III Bacteriologia A. Pili (fímbrias) Os pili são apêndices piliformes que se estendem por vários micrômetros a partir da superfície do gonococo. Aumentam a fixação do microrganismo às células do hospedeiro e a re- sistência à fagocitose. São constituídos de proteínas em forma de estaca (massa molecular [MM] de 17.000 a 21.000), deno- minadas pilinas. A extremidade aminoterminal da molécula de pilina, que contém elevada porcentagem de aminoácidos hidrofóbicos, é conservada. A sequência de aminoácidos pró- ximos à porção média da molécula também é conservada, ser- vindo para fixação da bactéria às células do hospedeiro e sendo menos proeminente na resposta imunológica. A sequência de aminoácidos próximos à extremidade carboxiterminal é alta- mente variável, sendo mais proeminente na resposta imunoló- gica. As pilinas de quase todas as cepas da N. gonorrhoeae são antigenicamente diferentes, e uma única cepa pode produzir muitas formas antigenicamente distintas de pilinas. B. Por A proteína Por estende-se através da membrana celular dos gonococos. Ocorre em trímeros, formando poros na superfí- cie, através dos quais alguns nutrientes penetram na célula. As proteínas Por podem levar à morte intracelular dos gonococos QUADRo 20.1 Reações bioquímicas de neissérias e Moraxella catarrhalis Crescimento em meio TMM, ML ou NYCa Ácido formado a partir de Glicose Maltose Lactose Sacarose ou frutose DNAse Neisseria gonorrhoeae + + – – – – Neisseria meningitidis + + + – – – Neisseria lactamica + + + – – Neisseria sicca – + + – + – Neisseria subflava – + + – ± – Neisseria mucosa – + + – + – Neisseria flavescens – – – – – – Neisseria cinerea ± – – – – – Neisseria polysaccharea ± + + – – – Neisseria elongata – –/w – – – – Moraxella catarrhalis – – – – – + a TMM, meio de Thayer-Martin modificado; ML, meio de Martin-Lewis; NYC, meio de New York City. fiGura 20.1 Coloração de exsudato uretral de paciente com go- norreia pelo método de Gram. observa-se núcleos de várias células polimorfonucleares (setas grandes). o diplococo gram-negativo intra- celular (Neisseria gonorrhoeae) em uma célula polimorfonuclear está indicado pela seta pequena. fiGura 20.2 Colagem e desenho da N. gonorrhoeae que mostra os pili e as três camadas do envelope celular. Membrana externa PeptidoglicanoMembrana citoplasmática Envelope celular Peptidoglicano Membrana externa Membrana citoplasmática Pilus Pilus CAPÍTULo 20 Neissérias 287 no interior dos neutrófilos pela prevenção da fusão fagossomo- lisossomo. Além do mais, a resistência variável dos gonococos ao poder bactericida do soro humano normal depende de co- mo a proteína Por liga-se seletivamente aos componentes do complemento C3b e C4b. A MM da proteína Por varia de 32 a 36 kDa. Cada cepa de gonococo expressa apenas um dos dois tipos de Por, mas a Por de diferentes cepas é antigenicamen- te distinta. A tipagem sorológica da Por mediante reações de aglutinação com anticorpos monoclonais distinguiu 18 soro- variantes da PorA e 28 sorovariantes da PorB. (A sorotipagem só é efetuada em laboratórios de referência.) C. Proteínas opa Estas proteínas atuam na adesão dos gonococos dentro das co- lônias e na fixação dos microrganismos às células do hospedei- ro, particularmente células que expressam receptores celulares, tais como compostos relacionados com a heparina e CD66 ou antígenos carcinoembrionários relacionados com moléculas de adesão celular. Uma porção da molécula de Opa localiza-se na membrana externa do gonococo, enquanto o restante fica exposto sobre a superfície. A MM da Opa varia de 20 a 28 kDa. Uma cepa de gonococo pode expressar nenhum, um, dois ou, em certas ocasiões, três tipos de Opa, embora cada cepa tenha 11 ou 12 genes para diferentes Opas. D. Rmp (proteína III) Esta proteína (MM de 30 a 31 kDa) é antigenicamente conser- vada em todos os gonococos. Trata-se de uma proteína passível de modificação por redução (Rmp é a abreviatura do inglês re ductionmodifiable protein), que modifica seu peso molecular aparente quando se encontra no estado reduzido. Associa-se à Por na formação de poros na superfície celular. E. Lipo-oligossacarídeo (LoS) Diferentemente dos bastonetes gram-negativos entéricos (ver Caps. 2 e 15), o lipopolissacarídeo (LPS) gonocócico não apre- senta cadeias laterais de antígeno O longas, sendo denominado lipo-oligossacarídeo (LOS). Apresenta peso molecular de 3 a 7 kDa. Os gonococos podem expressar mais de uma cadeia de LOS antigenicamente diferente ao mesmo tempo. A toxicidade observada nas infecções gonocócicas deve-se, em grande parte, aos efeitos endotóxicos do LOS. Especificamente, em modelo de implante em tuba uterina, o LOS causa perda ciliar e morte das células de mucosa. Em uma forma de mimetismo molecular, os gonococos produzem moléculas de LOS que se assemelham, do ponto de vista estrutural, aos glicoesfingolipídeos das membranas celu- lares humanas. Tal estrutura está apresentada na Figura 20.3. O LOS dos gonococos e o glicoesfingolipídeo humano da mesma classe estrutural reagem ao mesmo anticorpo monoclonal, in- dicando mimetismo molecular. A presença, sobre a superfície dos gonococos, das mesmas estruturas superficiais observadas nas células humanas ajuda esses microrganismos a escaparem do reconhecimento imunológico. A galactose terminal dos glicoesfingolipídeos humanos é frequentemente conjugada com o ácido siálico. O ácido siálico é um ácido de 9 carbonos, 5-N-acetilado cetulosônico, também chamado ácido N-acetilneuramínico (NANA). Os gonococos não produzem ácido siálico, mas sintetizam uma sialiltransfe- rase que funciona para adquirir o NANA do nucleotídeo-açú- car humano, citidina ácido 5′-monofosfo-N-acetilneuramínico (CMP-NANA) e colocá-lo na galactose terminal de um LOS aceptor gonocócico. Essa sialilação afeta a patogênese da in- fecção gonocócica, tornando os gonococos resistentes à des- truição pelo sistema de anticorpos-complemento humano, e interfere na ligação dos gonococos a receptores sobre as células fagocíticas. N. meningitidis e Haemophilus influenzae produzem muitas das mesmas estruturas do LOS da N. gonorrhoeae. A biologia do LOS para as três espécies e para algumas das espécies não patogênicas de Neisseria é semelhante. Quatro dos vários soro- grupos da N. meningitidis formam diferentes cápsulas de ácido siálico (ver adiante), indicando que também possuem vias de biossíntese diferentes daquelas observadas nos gonococos. Es- ses 4 sorogrupos sialilam o LOS, utilizando o ácido siálico de seus reservatórios endógenos. F. outras proteínas Várias proteínas antigenicamente constantes dos gonococos desempenham papéis pouco definidos na patogênese. A Lip (H8) é uma proteína de superfície exposta, termomodificável como a Opa. A Fbp (proteína de ligação do ferro), cuja MM se assemelha a da Por, é expressa quando o suprimento disponí- vel de ferro torna-se limitado (p. ex., na infecção humana). Os gonococos elaboram uma IgA1 protease que cliva e inativa a IgA1, importante imunoglobulina da mucosa dos seres huma- nos. Os meningococos, H. influenzae e Streptococcus pneumo niae elaboram uma IgA1 protease semelhante. Genética e heterogeneidade antigênica Os gonococos desenvolveram mecanismos que frequentemen- te permitem a mudança de uma forma antigênica (pilina, Opa ou LPS) para outra forma antigênica da mesma molécula. Essa mudança ocorre em um de cada 102,5 a 103 gonococos, o que representa uma taxa extremamente rápida de mudança para bactérias. Por serem antígenos de superfície expostos nos go- nococos, a pilina, a Opa e o LPS são importantes na resposta imunológica à infecção. A rápida mudança das moléculas de uma forma antigênica para outra ajuda os gonococos a escapa- rem do sistema imunológico do hospedeiro. O mecanismo de mudança para a pilina, o mais extensa- mente estudado, difere do envolvido para a Opa. Os gonococos possuem inúmeros genes que codificam a pilina, mas apenas um gene é inserido no local de expressão. Os gonococos podem remover todo o gene da pilina, ou parte dele, e substituí-lo por outro gene de pilina ou parte dele. Esse mecanismo lhes permite expressar muitas moléculas de pilina antigenicamente diferentes no decorrer do tempo. O mecanismo de mudança da Opa envolve, pelo menos em parte, a adição ou remoção do DNA de uma ou mais das repe- tições de codificação pentaméricas que precedem a sequência que codifica o gene estrutural da Opa. O mecanismo de mu- dança para o LPS permanece desconhecido. Os antígenos e a heterogeneidade dos tipos são apresenta- dos no Quadro 20.2. 288 SEção III Bacteriologia fi G u r a 2 0. 3 Es tr ut ur a do li po -o lig os sa ca ríd eo d o go no co co q ue p os su i l ac to -N -n eo te tr ao se e u m a ga la ct os am in a te rm in al e m e st ru tu ra s em el ha nt e à sé rie d e ga ng lio sí - de os g lic oe sfi ng ol ip íd eo s h um an os . o o lig os sa ca ríd eo b as al e st á em v er m el ho -c la ro e a la ct o- N -n eo te tr ao se , e m v er m el ho -e sc ur o. (C or te si a de JM G riffi ss .) P or çã o lip oi da l O G al N A c O G al O O G al O O G lc N A c O G lc O O O O H ep 1 C O H H OP CH H N H O H H C O O C C H N H O C C H 3 N H O O O O 1– 1– M 1B 2 La ct o- N -n eo te tr ao se o- 2– 1– L8 O lig os sa ca rí de o ba sa l C O H H OP CH H N O H H CO H O O C H 3CO O C C H 3 N H O C C H 2 C H 3 (C H 2) 8 C H O HO C C H 2 C H 3 (C H 2) 8 C H O HO O CN H C H 2 C H 3 (C H 2) 10 (C H 2) 10 C H 3 C H O O C O O O O PO O PO O O G lc N H O O G lc N H O O O O O PO O PO O CN H C H 2 C H 3 (C H 2) 10 (C H 2) 10 C H 3 C H O O C O O KDO 1 O KDO 2 O GlcN Ac O Hep 2 CAPÍTULo 20 Neissérias 289 Os gonococos contêm vários plasmídeos; 95% das ce- pas exibem um pequeno plasmídeo “críptico” (MM, 2,6 m Da) de função desconhecida. Dois outros plasmídeos (MM 3,4 mDa e 4,7 mDa) contêm genes que codificam a produção de betalactamase tipo TEM-1 (penicilinase), a qual resulta em resistência do microrganismo à penicilina. Esses plasmí- deos são transmissíveis por conjugação entre os gonococos; assemelham-sea um plasmídeo encontrado em espécies de Haemophilus produtoras de penicilinase, e podem ter sido adquiridos a partir do Haemophilus ou de outros microrga- nismos gram-negativos. Cinco a 20% dos gonococos con- têm um plasmídeo (MM de 24,5 × 106 kDa) com genes que codificam a conjugação; a incidência é maior nas áreas geo- gráficas em que os gonococos produtores de penicilinase são mais comuns. O desenvolvimento de resistência de alto nível à tetraciclina (concentração inibitória mínima [MIC/CIM] ≥ 16 mg/mL) nos gonococos deve-se à inserção, no plasmídeo conjugativo, de um gene de estreptococo tetM que codifica a resistência à tetraciclina. Patogênese, patologia e manifestações clínicas Os gonococos exibem vários tipos morfológicos de colônias (ver anteriormente), mas apenas as bactérias dotadas de pili parecem virulentas. A expressão da proteína Opa varia de acor- do com o tipo de infecção. Os gonococos que formam colônias opacas são isolados de homens com uretrite sintomática e de culturas de amostra do colo uterino de mulheres na metade do ciclo menstrual. Os gonococos que formam colônias trans- parentes são frequentemente isolados de homens com infec- ção uretral assintomática, mulheres durante a menstruação e de formas invasivas de gonorreia, como salpingite e infecção disseminada. A variação antigênica de proteínas de superfí- cie durante a infecção permite ao organismo burlar a resposta imunológica do hospedeiro. Os gonococos atacam as mucosas do trato geniturinário, dos olhos, do reto e da garganta, causando supuração aguda que po- de levar a invasão tecidual. Este processo é seguido de inflamação crônica e fibrose. Em homens, geralmente ocorre uretrite, com pus espesso e amarelado, além de micção dolorosa. O processo pode estender-se ao epidídimo. Com o desaparecimento da su- puração na infecção sem tratamento, ocorre fibrose, resultando, às vezes, em estenoses uretrais. A infecção uretral em homens pode ser assintomática. Em mulheres, a infecção primária é ob- servada no endocérvice e estende-se à uretra e à vagina, resultan- do em corrimento mucopurulento. Em seguida, pode progredir para as tubas uterinas, causando salpingite, fibrose e obliteração das tubas. Ocorre infertilidade em 20% das mulheres com sal- pingite gonocócica. A cervicite ou proctite gonocócica crônica é frequentemente assintomática. A bacteriemia gonocócica resulta em lesões cutâneas (par- ticularmente pápulas hemorrágicas e pústulas) nas mãos, an- tebraços, pés e pernas, bem como em tenossinovite e artrite supurativa, geralmente nos joelhos, tornozelos e punhos. Os gonococos podem ser cultivados a partir de amostras de san- gue ou líquido articular de apenas 30% dos pacientes com artrite gonocócica. A endocardite gonocócica é uma infecção incomum, porém grave. Às vezes, os gonococos causam me- ningite e infecções oculares em adultos. Esses casos apresentam manifestações semelhantes às causadas por meningococos. A deficiência de complemento frequentemente é observada em pacientes com bacteriemia gonocócica. Pacientes com bacte- riemia, especialmente se for recorrente, devem ser testados quanto a atividade hemolítica total do complemento. A oftalmia neonatal gonocócica, uma infecção dos olhos do lactente, é contraída durante a passagem pelo canal do parto in- fectado. A conjuntivite inicial progride rapidamente e, se não for tratada, resulta em cegueira. Para evitar a oftalmia neonatal go- nocócica, a instilação de tetraciclina, eritromicina ou nitrato de prata no saco conjuntival do lactente é obrigatória nos EUA. Os gonococos que causam infecção localizada são frequentemente sorossensíveis (mortos por anticorpos e complemento). Exames diagnósticos laboratoriais A. Amostras Devem ser obtidas amostras de pus e secreções da uretra, do colo, do reto, da conjuntiva, da garganta ou do líquido sinovial para cultura e esfregaço. A hemocultura é necessária na doença sistêmica; entretanto, o uso de um sistema de cultura especial é útil, visto que os gonococos (e os meningococos) podem ser suscetíveis ao sulfonato de polianetol presente nos meios de hemocultura-padrões. B. Esfregaços Os esfregaços de exsudato uretral ou endocervical, corados pelo método de Gram, revelam inúmeros diplococos no inte- rior dos leucócitos. Esse achado possibilita o estabelecimento do diagnóstico presuntivo. Os esfregaços corados do exsudato uretral de homens apresentam sensibilidade de cerca de 90% e especificidade de 99%. Os esfregaços corados de exsudatos endocervicais exibem sensibilidade de cerca de 50% e especifi- cidade de aproximadamente 95% quando examinados por um microscopista experiente. Outros testes diagnósticos de exsu- dato uretral de homens não são necessários quando a colora- ção é positiva, mas testes de amplificação de ácidos nucleicos (NAATs) ou culturas devem ser feitos com amostras obtidas de mulheres. Os esfregaços corados de exsudatos conjuntivais também podem ser diagnósticos, porém os de amostras da gar- ganta ou do reto geralmente não são úteis. QUADRo 20.2 Heterogeneidade antigênica de neisseria gonorrhoeae Antígeno Número de tipos Pilina Centenas Por (proteína) (sistema dos EUA) PorA com 18 subtipos PorB com 28 subtipos opa (proteína II) Muitas (talvez centenas) Rmp (proteína III) Uma Lipo-oligossacarídeo oito ou mais Fbp (proteína de ligação ao ferro) Uma Lip (H8) Uma IgA1 protease Duas 290 SEção III Bacteriologia C. Cultura Imediatamente após a coleta, o pus ou muco deve ser semeado em meio seletivo enriquecido (p. ex., meio de Thayer-Martin modificado [MTM]), com incubação em atmosfera que con- tenha 5% de CO2 (recipiente com vela) a 37°C. Para evitar o crescimento excessivo de contaminantes, o meio seletivo deve conter antimicrobianos (p. ex., vancomicina, 3 µg/mL; colistina, 7,5 µg/mL; anfotericina B, 1 µg/mL; e trimetoprima, 3 µg/mL). Se não for possível a incubação imediata, a amostra deve ser colocada em um sistema de transporte de cultura conten- do CO2; 48 horas após a cultura, os microrganismos podem ser rapidamente identificados pelo seu aspecto no esfregaço corado pelo método de Gram, pela positividade da oxidase e por coaglutinação, imunofluorescência ou outros testes labo- ratoriais. As espécies de bactérias no repique podem ser de- terminadas por meio de reações de oxidação de carboidratos específicos (ver Quadro 20.1). A espectrometria de massa pela técnica de ionização por dessorção a laser, assistida por matriz seguida de análise por tempo de voo em sequência (MALDI- TOF MS), apresenta um potencial de identificação (no mesmo dia) dos isolados em culturas. Os gonococos isolados de locais anatômicos diferentes do trato genital ou de crianças devem ser identificados quanto à espécie pela realização de dois testes confirmatórios diferentes, devido às implicações legais e so- ciais das culturas positivas. D. Testes de amplificação dos ácidos nucleicos Diversos testes de amplificação dos ácidos nucleicos estão dis- poníveis (protocolos do Food and Drug Administration [FDA] norte-americano) para a detecção direta de N. gonorrhoeae em amostras do trato geniturinário e esses são os testes preferidos para estas fontes. Em geral, esses testes têm excelentes sensi- bilidade e especificidade em populações sintomáticas de alta prevalência. Entre as vantagens estão melhor detecção, resulta- dos mais rápidos e a possibilidade de usar a urina como fonte de amostra. As desvantagens incluem a fraca especificidade de alguns ensaios devido à reatividade cruzada com espécies de Neisseria não gonocócicas. Tais testes não são recomendados para uso em diagnóstico de infecções gonocócicas extrageni- tais ou infecções em crianças. Os testes de amplificação de áci- dos nucleicos não são recomendados como testes de cura, uma vez que os ácidos nucleicos podem persistir nas amostras de pacientes por até 3 semanas após tratamento bem-sucedido. E. Sorologia O soro e o fluido genital contêm anticorpos IgG e IgA contraos pili gonocócicos, as proteínas da membrana externa e o LPS. Parte da IgM do soro humano é bactericida para os gonococos in vitro. Em indivíduos infectados, pode-se detectar a presença de anticorpos dirigidos contra os pili gonocócicos e as proteínas da membrana externa por meio de immunoblotting, radioimu- noensaio e Elisa (ensaio de imunoabsorção ligado a enzima). Todavia, esses testes não são úteis como auxiliares diagnósti- cos, por vários motivos: incluindo heterogeneidade antigênica dos gonococos, demora na produção de anticorpos na presen- ça de infecção aguda e nível basal elevado de anticorpos na po- pulação sexualmente ativa. Imunidade É comum a ocorrência de infecções gonocócicas repetidas. A imunidade protetora contra a reinfecção não parece fazer parte do processo patológico devido à variedade antigênica dos gonococos. Embora se possa demonstrar a presença de anticorpos, inclusive a IgA e IgG nas superfícies das mucosas, eles são altamente específi- cos contra cepas ou exibem pouca capacidade protetora. Tratamento Desde o desenvolvimento e uso disseminado da penicilina, a resistência dos gonococos a esse antibiótico vem aumentando de modo gradual, devido à seleção de mutantes cromossômi- cos, de modo que, atualmente, muitas cepas exigem altas con- centrações de penicilina G para sua inibição (CIM ≥ 2 µg/mL). Também se constatou um aumento na prevalência de N. gonor rhoeae produtora de penicilinase (PPNG) (ver anteriormen- te). Resistência mediada por cromossomos à tetraciclina (CIM ≥ 2 µg/mL) é comum. Ocorre também resistência de alto nível à tetraciclina (CIM ≥ 32 µg/mL). Foi observada, ainda, resistência à espectinomicina, bem como às fluoroquinolonas. A adminis- tração de dose única de fluoroquinolonas foi recomendada para o tratamento de infecções gonocócicas de 1993 até 2006. Desde 2006, as taxas de resistência a quinolonas entre os gonococos isolados ultrapassaram 5% em homens que têm relações sexuais com outros homens e também em homens heterossexuais. De- vido aos problemas relacionados com a resistência da N. gonor rhoeae aos antimicrobianos, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) recomendam que pacientes com infecções genitais ou retais sem complicações sejam tratados com dose única de ceftriaxona (250 mg) intramuscular, ou 400 mg de ce- fixima oral em dose única. Recomenda-se uma terapia adicional com 1g de azitromicina por via oral em dose única, ou 100 mg de doxiciclina 2 vezes ao dia por 7 dias para a possível presença de infecção concomitante por Chlamydia. A azitromicina mostrou- se segura e eficaz em mulheres grávidas, mas a doxiciclina é con- traindicada nesses casos. Recomendam-se modificações desses tratamentos para outros tipos de infecção por N. gonorrhoeae. Ver a página no site do CDC para diretrizes de tratamento atua- lizadas (http://www.cdc.gov/mmwr/pdf/rr/rr5912.pdf). Uma vez que outras doenças sexualmente transmissíveis podem ser adquiridas ao mesmo tempo que a gonorreia, de- vem-se também tomar medidas para diagnosticá-las e tratá-las (ver discussão sobre Chlamydia, sífilis, etc.). Epidemiologia, prevenção e controle A gonorreia tem distribuição mundial. Nos EUA, a incidência aumentou uniformemente desde 1955 até o fim da década de 1970, quando ficou entre 400 e 500 casos por 100.000 indivíduos da população. Entre 1975 e 1997, houve um declínio de 74% na taxa de infecções gonocócicas relatadas. Depois disso, as taxas ficaram nesses níveis por até 10 anos, caindo entre 2006 a 2009 e subindo 2,8% novamente entre 2009 e 2010.. A gonorreia é transmitida exclusivamente por contato sexual, frequentemente por mulheres e homens com infecções assintomáticas. A infec- ciosidade do microrganismo é tal que a probabilidade de con- trair a infecção a partir de uma única exposição a um parceiro sexual infectado é de 20 a 30% para homens e ainda maior para http://www.cdc.gov/mmwr/pdf/rr/rr5912.pdf CAPÍTULO 20 Neissérias 291 mulheres. A taxa de infecção pode ser reduzida pelas seguintes medidas: evitar relações sexuais com vários parceiros; rápida erradicação dos gonococos dos indivíduos infectados mediante diagnóstico e tratamento precoces; e detecção dos casos e conta- tos por meio de educação e rastreamento das populações de alto risco. A profilaxia mecânica (uso de preservativos) proporciona proteção parcial. A quimioprofilaxia tem valor limitado em vir- tude do aumento da resistência dos gonococos aos antibióticos. A oftalmia neonatal gonocócica pode ser evitada pela apli- cação local de pomada oftálmica de eritromicina a 0,5% ou de tetraciclina a 1% na conjuntiva dos lactentes. Embora a insti- lação de solução de nitrato de prata também seja eficaz e cons- titua o método clássico de prevenção de oftalmia neonatal, é difícil conservar o nitrato de prata, que também provoca irri- tação conjuntival; seu uso foi substituído em grande parte por pomada de eritromicina ou de tetraciclina. Neisseria meNiNgitidis Estrutura antigênica Foram identificados pelo menos 13 sorogrupos de meningo- cocos com base na especificidade imunológica dos polissacarí- deos capsulares. Os sorogrupos mais importantes, associados a doença em seres humanos, são os A, B, C, X, Y e W-135. O polissacarídeo do grupo A é um polímero do fosfato de N-acetilmanosamina, enquanto o do grupo C é um polímero do ácido N-acetil-O-acetilneuramínico. Os antígenos meningo- cócicos são encontrados no sangue e no líquido cerebrospinal dos pacientes com doença ativa. Os surtos e casos esporádicos no Hemisfério Ocidental, na última década do século XX, fo- ram causados principalmente pelos grupos B, C, W-135 e Y. Os surtos no sul da Finlândia e em São Paulo, no Brasil, foram causados pelos grupos A e C; surtos na Nova Zelândia foram causados por cepa particular do grupo B; os da África foram devidos principalmente ao grupo A. O grupo C e, em particu- lar, o grupo A estão associados a doença epidêmica. As proteínas da membrana externa dos meningococos foram divididas em classes com base em sua MM. Todas as cepas apre- sentam proteínas das classes 1, 2 ou 3. Essas proteínas são análogas às proteínas Por dos gonococos e responsáveis pela especificidade dos sorotipos de meningococos, atuando na aderência do micror- ganismo nas células hospedeiras. Foram definidos até 20 soroti- pos; os sorotipos 2 e 15 foram associados a doença epidêmica. A proteína Opa (classe 5) é comparável à Opa dos gonococos. Os meningococos possuem pili; todavia, ao contrário dos gonococos, não formam tipos distintos de colônias, o que indica a presença de bactérias com pili. O LPS dos meningococos é responsável por muitos dos efeitos tóxicos observados na doença meningocócica. Os mais altos níveis de endotoxina medidos durante a sepse foram encontrados em pacientes com meningococemia (50 a 100 vezes maior do que com outras infecções gram-negativas). Patogênese, patologia e manifestações clínicas Os seres humanos constituem os únicos hospedeiros naturais em que os meningococos são patogênicos. A porta de entrada desses microrganismos é a nasofaringe, onde eles se fixam às células epiteliais com o auxílio dos pili. Podem fazer parte da microbiota transitória sem causar sintomas. A partir da naso- faringe, os microrganismos podem alcançar a corrente sanguí- nea, causando bacteriemia; os sintomas podem assemelhar-se aos de infecção das vias respiratórias superiores. A meningo- coccemia fulminante é mais grave, com febre alta e exantema hemorrágico; o paciente também pode apresentar coagulação intravascular disseminada e colapso circulatório (síndrome de Waterhouse-Friderichsen). A meningite constitui a complicação mais comum da me- ningococemia. Em geral, surge de modo repentino, com cefa- leia intensa, vômitos e rigidez da nuca, evoluindo para coma em poucas horas. Durante a meningococcemia, ocorre trombose de vários vasos sanguíneos de pequeno calibre em muitos órgãos, com infiltração perivascular e hemorragias petequiais. Podemocor- rer miocardite intersticial, artrite e lesões cutâneas. Na menin- gite, as meninges apresentam inflamação aguda com trombose dos vasos sanguíneos e exsudação de leucócitos polimorfonu- cleares, de modo que a superfície do cérebro é recoberta por um espesso exsudato purulento. Não se sabe qual processo transforma uma infecção assinto- mática da nasofaringe em meningococcemia e meningite, mas essa transformação pode ser evitada por anticorpos séricos bac- tericidas específicos contra o sorotipo infectante. A bacteriemia por Neisseria é favorecida pela ausência de anticorpo bactericida (IgM e IgG), pela inibição da ação bactericida do soro por um anticorpo IgA bloqueador, ou pela deficiência de componentes do complemento (C5, C6, C7 ou C8). Os meningococos são fa- cilmente fagocitados na presença de uma opsonina específica. Exames diagnósticos laboratoriais A. Amostras Devem ser obtidas amostras de sangue para hemocultura, bem como de líquido cerebrospinal para esfregaço, cultura e deter- minações químicas. As culturas de material obtido com swab nasofaríngeo são apropriadas para detecção de portadores. O material obtido de petéquias por punção pode ser utilizado pa- ra esfregaço e cultura. B. Esfregaços Os esfregaços do sedimento do líquido cerebrospinal centri- fugado ou do aspirado de petéquias, corados pelo método de Gram, frequentemente revelam a presença de neissérias típicas no interior dos leucócitos polimorfonucleares ou fora das cé- lulas. C. Cultura Os meios de cultura sem sulfonato sódico de polianetol mos- tram-se úteis para hemocultura. As amostras de líquido cere- brospinal são semeadas em ágar-chocolate e incubadas a 37°C em atmosfera de 5% de CO2. O líquido cerebrospinal recém- coletado poderá ser diretamente incubado a 37°C se o meio de cultura em ágar não estiver imediatamente disponível. O meio de Thayer-Martin modificado (MTM) com antibióticos Identificação interna do documento DOR5CUWSB9-FMAYV442 292 SEção III Bacteriologia (vancomicina, colistina, anfotericina) favorece o crescimento das neissérias, inibe muitas outras bactérias e é utilizado pa- ra culturas de amostras da nasofaringe. As supostas colônias de neissérias em meios de cultura sólidos, particularmente em cultura mista, podem ser identificadas pela coloração pelo método de Gram e pelo teste da oxidase. Em geral, o líquido cerebrospinal e o sangue produzem culturas puras que podem posteriormente ser identificadas por meio das reações de fer- mentação dos carboidratos (Quadro 20.1) e aglutinação com soro específico do tipo ou polivalente. D. Sorologia Os anticorpos contra polissacarídeos meningocócicos podem ser determinados por testes de aglutinação em látex ou hema- glutinação, ou pela sua atividade bactericida. Esses testes de- vem ser feitos apenas em laboratórios de referência. Imunidade A imunidade à infecção meningocócica está associada à pre- sença de anticorpos bactericidas específicos dependentes de complemento no soro. Esses anticorpos são produzidos após infecções subclínicas por diferentes cepas ou após injeção de antígenos, e são específicos do grupo, do tipo ou de ambos. Os antígenos imunizantes para os grupos A, C, Y e W-135 são os polissacarídeos capsulares. Para o grupo B, ainda não foi defi- nido um antígeno específico apropriado para uso como vacina; todavia, foram utilizadas vacinas de grupo B com misturas de antígenos em muitas partes do mundo. Atualmente, existem três tipos de vacina* contra os sorogrupos A, C, Y e W-135 dis- poníveis nos EUA. Uma vacina polissacarídica tetravalente, na qual cada dose consiste em quatro polissacarídeos capsulares purificados, é fracamente imunogênica em crianças com menos de 18 meses de vida, não confere imunidade prolongada nem causa redução sustentável na colonização da nasofaringe. Uma vacina tetravalente conjugada aprovada em 2005 (Menactra, Sanofi Pausteur) está licenciada para uso em pessoas de 9 me- ses a 55 anos. Essa vacina contém polissacarídeo capsular con- jugado ao toxoide diftérico. Menveo é outra vacina conjugada tetravalente, no qual os oligossacarídeos A, C, Y e W135 estão conjugados com a toxina diftéria não tóxica CRM197 e que é aprovada para o uso em indivíduos entre 2 e 55 anos. A van- tagem dessas vacinas é que uma resposta dependente de T é induzida, o que assegura uma resposta primária entre crianças e reduz substancialmente a colonização da orofaringe. A rotina de vacinação em pré-adolescentes (11 a 12 anos) antes de che- garem ao ensino médio com o emprego da vacina conjugada é atualmente recomendada. A vacinação também é recomenda- da para pessoas de 11 a 55 anos que estejam entre os seguintes grupos de risco: pessoas com asplenia funcional ou cirúrgica; * N. de R.T. Um dos maiores problemas para o desenvolvimento de uma va- cina eficiente contra o sorogrupo B é a expressão pelo meningococo de uma cápsula composta de ácido N-acetilneuramínico, igualmente presente na su- perfície das células humanas, resultando em ineficiência no reconhecimento antigênico. Contudo, foi aprovada em 2013 a primeira vacina de DNA re- combinante contra esse sorogrupo (Bexsero). Ela apresenta a seguinte com- posição: vesícula de membrana externa da N. meningitidis sorogrupo B e as proteínas recombinantes NadA (adesina A de Neisseria), NHBA (antígeno de Neisseria de ligação à heparina) e fHpb (proteína ligante do fator H). pessoas com deficiência de complemento; pessoas que viajam para áreas altamente endêmicas (p. ex., África Subsaariana); “populações fechadas”, tais como estudantes e militares que vivem em dormitórios; populações que experimentaram um surto comunitário; e trabalhadores de laboratórios clínicos (microbiologistas). Tratamento A penicilina G constitui o fármaco de escolha para o tratamento de indivíduos com doença meningocócica. Em indivíduos alér- gicos às penicilinas, utilizam-se cloranfenicol ou uma cefalospo- rina de terceira geração, como cefotaxima ou ceftriaxona. Epidemiologia, prevenção e controle A meningite meningocócica ocorre em surtos epidêmicos (p. ex., em acampamentos militares, peregrinos religiosos, bem como na África Subsaariana) e em um número menor de ca- sos esporádicos interepidêmicos. Cerca de 5 a 30% da popu- lação normal podem abrigar meningococos (frequentemente, microrganismos isolados não tipáveis) na nasofaringe durante os períodos interepidêmicos. Durante as epidemias, a taxa de portadores atinge 70 a 80%. O aumento no número de casos é precedido de um aumento no número de portadores respira- tórios. O tratamento com penicilina oral não erradica o estado de portador. A rifampicina, 600 mg VO, 2 vezes/dia, durante 2 dias (ou ciprofloxacino em adultos, 500 mg em dose única), frequentemente pode erradicar o estado de portador e serve como quimioprofilaxia para contatos domésticos e outros contatos próximos. Desde o aparecimento de muitos menin- gococos resistentes às sulfonamidas, a quimioprofilaxia com sulfonamidas não é mais confiável. Os casos clínicos de meningite representam apenas uma fon- te de infecção desprezível, de modo que o isolamento do pacien- te só tem utilidade limitada. Mais importante é a redução dos contatos pessoais em uma população com alta taxa de portado- res. Essa redução é obtida evitando-se as aglomerações ou com a administração de vacinas, como foi discutido anteriormente. Conforme mencionado, essas vacinas são utilizadas em popula- ções selecionadas (p. ex., militares, epidemias entre civis). Neissérias Morfologia e identificação Micorganismos típicos Cultura Características de crescimento Neisseria Gonorrhoeae Estrutura antigênica Pili (fímbrias) Por Proteínas Opa Rmp (proteína III) Lipo-oligossacarídeo (LOS) Outras proteínas Genética e heterogeneidade antigênica Patogênese, patologia e manifestações clínicas Exames diagnósticos laboratoriais Amostras Esfregaços Cultura Testes de amplificação dos ácidos nucleicos Sorologia Imunidade Tratamento Epidemiologia, prevençãoe controle Neisseria meningitidis Estrutura antigênica Patogênese, patologia e manifestações clínicas Exames diagnósticos laboratoriais Amostras Esfregaços Cultura Sorologia Imunidade Tratamento Epidemiologia, prevenção e controle Outras neissérias Resumo do capítulo Questões de revisão