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Um FUndamento do Regime administRativo: o PRincíPio da PRossecUção do inteResse Público SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................... 11 1. REGIME ADMINISTRATIVO ............................................................. 23 1.1. A Origem do Direito Administrativo na Revolução Francesa: A Construção do Mito ......................................................................... 23 1.2. Fundamentos de Regime Administrativo: A Panaceia do Interesse Público .................................................................................................. 38 1.3. Regime Administrativo: disciplina jurídica ou regime exorbitante? ..... 54 1.4. Interesse público: Instrumento de satisfação das necessidades coletivas ou elemento de reafirmação da autoridade pública? .............. 70 2. REGIME ADMINISTRATIVO BRASILEIRO .................................... 87 2.1. A Formação do Regime Administrativo Brasileiro: As Raízes Autoritárias e Patrimonialistas ............................................................. 87 2.2. Fundamentos do Regime Administrativo Brasileiro: A origem da supremacia .................................................................................... 102 2.3. Regime Administrativo Brasileiro: deveres instrumentais ou privilégios estatais? ............................................................................ 124 2.4. A supremacia do interesse público: Prossecução das necessidades coletivas ou ......................................................................................... 138 3. INTERESSE PÚBLICO .........................................................................149 3.1. A Crise da Concepção de Interesse Público: Constitucionalismo e Democracia .......................................................................................149 3.2. Interesse Público e Regime Administrativo Brasileiro: As propostas de readequação...............................................................162 3.3. A Supremacia do Interesse Público: A contra crítica e a sua crítica ...................................................................................................178 3.4. Princípio da Prossecução do Interesse Público: Uma medida possível ......................................................................... 195 CONCLUSÃO .............................................................................................213 REFERÊNCIAS .......................................................................................... 225 149 CAPÍTULO 3 INTERESSE PÚBLICO 3.1. A Crise da Concepção de Interesse Público: Constitucionalismo e Democracia Embora a sistematização científica do Direito Administrativo e do Cons- titucional se liguem pelas Revoluções Liberais do século XVIII e seus legados – princípio da legalidade e direitos fundamentais – tais disciplinas jurídicas en- frentaram ao longo dos séculos trajetórias distintas no sistema europeu-conti- nental, que conduziram até a metade do século XX, a um desenvolvimento da disciplina administrativa em detrimento da constitucional. O Direito Constitucional é marcado em sua natureza pelos influxos de continuidade e descontinuidades exteriorizados nas sucessões e rupturas for- mais e materiais da ordem jurídico-constitucional vigente em relação à anterior decorrente da ascensão e quedas de regimes políticos597, de forma que a insta- bilidade que assolava a Europa Continental no século XIX598 produziu notável restrição ao desenvolvimento da disciplina. Não obstante, à descontinuidade constitucional se opõe a continuidade administrativa: o Direito Administrativo enquanto marcado pelo “enraizamen- to profundo” na sua origem monárquica e fruto das decisões do Conselho de Estado Francês que construiu uma disciplina própria, com ênfase nas garantias jurídicas e a exigência de limitação do Estado acaba por assumir, ainda, no sé- culo XIX, uma “hegemonia” no Direito Público.599 597 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 6 ed. Coimbra: Livraria Almedina, 1993. p. 143-145. 598 MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional. Tomo I. 6 ed. rev e atual. Coimbra: Coimbra Editora, 1997. p. 95. 599 CHEVALLIER, Jacques. Le Droit Administratif entre Science Administrative et Droit Constitutionnel in: Le Droit Administratif en Mutation. Paris: Centre Universitaire de Recherches Administratives Et Politiques de Picardie, 1993. p. 13. 150 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Em tal período, a concepção prevalecente de Constituição era política, de forma que a Constituição vigente não era o documento escrito que correspon- dia mero “pedaço de papel”, mas os fatores reais de poder, a saber, as relações de poder dominante no Estado que constituem a força ativa determinante das leis e instituições da sociedade, formam a Constituição real daquele país, não se identificando com aqueles.600 Por efeito, há a negação do Direito Constitucional, que enquanto ciência normativa não pode ter por função justificar as relações de poder dominante ao qual a Constituição seja o seu reflexo, quando na realidade assumia a Consti- tuição feição jurídica, dotada de força normativa e condicionante da realidade, que possui vigência e busca ter pretensão de eficácia imprimindo ordem e con- formação à realidade política e social.601 A concepção de Estado de Direito meramente formal – enquanto a supre- macia da lei e governo do bem comum – e carente de conteúdo – que permitia que o Estado fixasse as esferas de sua atuação e os limites à liberdade dos ci- dadãos para tais fins desde que dentro da lei – retirava “significado substanti- vo” político-constitucional que podia ser aplicado a qualquer regime, inclusive, apartá-lo de sua origem liberal e vinculá-lo aos totalitários.602 A partir do pós-guerra no século XX, há a ascensão do Estado Consti- tucional de Direito, marcado pela afirmação da supremacia da Constituição na ordem jurídica, que assume o papel de instrumento de validade de todas as normas que compõem o ordenamento, disciplinando não apenas as formas de produção legislativa, mas impondo proibições e obrigações de conteúdo, relati- vas à realização dos direitos fundamentais.603 Neste mesmo período, começa a se observar um declínio do Direito Ad- ministrativo, em razão da crise do Estado-Providência na regulação da vida social, o declínio da hegemonia da lei e a ascensão da defesa das liberdades fun- 600 LASSALE, Ferdinand. Que é Uma Constituição?. São Paulo: Edições e Publicações Brasil, 1933. 601 HESSE, Konrad. A Força Normativa da Constituição. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1991. p. 11 e 14-16. 602 ZAGRELBESKY, Gustavo. El Derecho Dúctil: Leys, Derechos, Justicia. Madrid: Editorial Trotta, 1995. p. 22-23. 603 FERRAJOLI, Luigi. Pasado y Futuro Del Estado de Derecho. Revista Internacional de Filosofía Política, Universidad Autónoma Metropolitana, Espanha, n. 17, p. 31 e 34, 2001. 151 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura damentais contra abusos da maioria democrática, a substituição da jurisprudên- cia como principal fonte do Direito Público, com monopólio da Constituição.604 Isto porque, embora contributos das revoluções liberais, o princípio da le- galidade – como manifestação da vontade geral que submete a autoridade – e da liberdade – como direitos públicos subjetivos que impede a afetação dos inte- resses pessoais que não seja por disposição expressa de lei – tais legados encon- travam na prática, a dificuldade da “rotunda, radical e absoluta” concepção dos poderes administrativos.605 Cresce a compreensão, que a ampliação das atividades estatais e o “recru- descimento” dos poderes administrativos não foi acompanhado de um aperfei- çoamento de proteção individual, de forma que a proteção dos direitos funda- mentais do cidadão contra as ilegalidades da Administração Pública torna-se tema fundamental nochamando a atenção para o dever de ponderação dos interesses relevantes da Administração Pública, como forma de gerar maior razoabilidade na escolha eleita no processo de discricionariedade administrativa.727 Por fim, chama atenção a doutrina para a incongruência do Direito Admi- nistrativo continuar vinculado a concepções filosóficas, políticas e constitucio- nais que vigoravam na primeira metade do século XX, com concepções e ins- titutos que refletem uma visão autoritária da relação entre Estado e indivíduo, 723 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 195-196. 724 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 195-196. 725 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 198-199. 726 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 200-201. 727 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 204, 208 e 215. 177 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura dentre as quais a manifestação mais evidente é a concepção da supremacia do interesse público como fundamento do regime administrativo.728 Tal caráter denota um “Direito Administrativo de Espetáculo” com a proliferação de institutos e interpretações “descolados da realidade”, que são utilizados para gerar a “aparência de regularidade” o suficiente para a legitima- ção dos atos dos governantes, com a utilização de conceitos aptos a manter o “expectador” na condição de “elemento passivo”, ocupado em “acompanhar a proliferação de notícias jurídicas.”729 O núcleo deste Direito Administrativo de Espetáculo reside no pressupos- to de que o ser humano não é o protagonista dessa disciplina da ciência jurídi- ca, sendo qualificado constantemente como “particular” ou “administrado” que pode ter interesses, mas são secundários e devem ceder sempre para conceitos como “bem comum”, “ordem pública” e “interesse público”. 730 Relembra o autor, que o Estado é instrumento de restrição às liberdades individuais e coletivas visando assegurar a convivência adequada e harmôni- ca entre todos os indivíduos, porém, também, é da natureza do ente estatal ser um instrumento de modificação da realidade existente visando promover a efetividade dos direitos fundamentais, que são eleitos pela Constituição como finalidade essencial do estado a sua promoção. 731 Assim, a resolução de qualquer conflito se resolve através da prevalência do interesse público sobre o privado é uma “afirmação inconsistente com a ordem jurídica”, pois a Constituição contempla, antes de tudo, “um conjunto de garantia em favor do particular e contra o Estado” sendo a supremacia do interesse público somente consagrada em “estados totalitários que eliminam o ser humano a condição de sujeito de direito”. 732 Propõe, portanto, uma desconstrução mediante “uma inversão epistemo- lógica essencial”: reconhecer que o protagonista do Direito – inclusive Adminis- trativo – é o ser humano, de forma que há “apenas interesses humanos a serem realizados, próprios, autônomos e isolados da titularidade do próprio Estado” e 728 JUSTEN FILHO, Marçal. O Direito... Op. cit. p. 145. 729 JUSTEN FILHO, Marçal. O Direito... Op. cit. p. 145-147 e 150. 730 JUSTEN FILHO, Marçal. O Direito... Op. cit. p. 148. 731 JUSTEN FILHO, Marçal.. O Direito... Op. cit. p. 144 e 151. 732 JUSTEN FILHO, Marçal. O Direito... Op. cit. p. 151. 178 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura os interesses dos “particulares” não podem ser reputados como intrinsecamente inferior a um interesse público em abstrato. 733 Tal qual, volta-se a doutrina administrativa contemporânea à tentativa de redimensionar a concepção de interesse público no regime administrativo de for- ma a adequá-la a ordem constitucional vigente. A doutrina tradicional também buscou diante das referidas críticas trazer argumentos que buscam fundamentar a manutenção da supremacia enquanto princípio central do Direito Administrativo. O tema será tratado a seguir. 3.3. A Supremacia do Interesse Público: A contra crítica e a sua crítica Diante da repercussão as críticas à supremacia do interesse público e o crescimento dos adeptos à doutrina contemporânea de releitura do referido “princípio”, volta-se a doutrina tradicional que antes se limitava a simplesmente consagrá-lo, a busca por fundamentos teóricos, jurídico-positivos, históricos, políticos e metodológicos que permitam a manutenção do referido como pilar central do regime administrativo. Inicialmente, alguns autores, consideram uma “espécie de ataque” dos “jo- vens juristas” que “assusta os aplicadores do Direito” a tentativa de desconstruir o princípio da supremacia, sustentando que se a Administração Pública não puder utilizar suas prerrogativas em medidas urgentes ou circunstâncias espe- ciais “delineadas” pela lei, haveria um “caos” e resultaria em uma “sociedade anárquica e desorganizada”.734 Neste sentido, sustentam a supremacia do interesse público sobre o pri- vado como “noção” e não princípio, que “não absoluta, nem eterna” prevalên- cia de tais interesses majoritários da sociedade, que justificam o exercício das “prerrogativas de potestades públicas”, como forma de garantir “o mínimo de estabilidade e de ordem necessária para a vida em sociedade”.735 733 JUSTEN FILHO, Marçal.. O Direito... Op. cit. p. 151. 734 BORGES, Alice Gonzalez. Supremacia do Interesse Público: Desconstrução ou Reconstrução? In: Revista Diálogo Jurídico, Salvador, n 15, p. 2., jan/fev/mar 2007. 735 BORGES, Alice Gonzalez. Op. cit. p. 20. 179 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Inicialmente, condiciona-se a prossecução de interesse público a uma exi- gência de existência de prerrogativas estatais, ignorando-se que ao revés do sistema administrativo da Europa Continental, os países anglo saxões demons- tram que a atuação administrativa é marcada pela inexistência de quaisquer prerrogativas para os agentes estatais, que se submetem a jurisdição comum e não gozam de qualquer proteção especial.736 Da mesma maneira, se liga a manutenção da supremacia do interesse público à garantia da ordem pública, embora aponte a doutrina que não se confunde a concepção de interesse público – que demanda uma ação positiva e demonstra-se dinâmico, sendo seu “impulso” ao bem estar geral e social – com a noção de ordem pública – que impõe uma ação negativa e revela-se estático, tendo por fim a manutenção do estado de normalidade.737 Ademais, o encerramento do conceito de interesse público como forma de evitar a anarquia e a desestabilidade social é historicamente típico de regimes políticos essencialmente autoritários, onde as instituições e aparato burocráti- co, e, portanto, o regime administrativo são utilizados como instrumento de legitimação dos atos estatais e auxilia perpetuação dos agentes no poder, algo demonstrado recente na Ditadura Militar no Brasil738. Já outros, indicam que a visão histórica dos “novos críticos” buscam igualar o momento pré-revolucionário francês como o momento pós-revolucionário, me- diante a indicação “simplista de uma origem do Direito Administrativo em práti- cas autoritárias” que ignora os modelos de normatização de ontologia diversa de cada um desses, o que, por si só, “resulta na existência de uma realidade distinta”.739 736 DICEY, A. V. Op. cit. p. 303. 737 BIELSA, Rafael. Principios de Derecho Administrativo. 3 ed. Buenos Aires: Depalina, 1963. p. 830-831. 738 BRASIL, Ato Institucional nº 1 de 9 de Abril de 1964. Preâmbulo: “É indispensável fixar o conceito do movimento civil e militar que acaba de abrir ao Brasil uma nova perspectiva sobre o seu futuro. O que houve e continuará a haver neste momento, não só no espírito e no comportamento das classes armadas, como na opinião pública nacional, é uma autêntica revolução. A revolução se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz, não o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Nação”. Artigo 10º: “No interesse da paz e da honra nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, os Comandantes-em-Chefe, queeditam o presente Ato, poderão suspender os direitos políticos pelo prazo de dez (10) anos e cassar mandatos legislativos federais, estaduais e municipais, excluída a apreciação judicial desses atos”. 739 GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder. O Suposto Caráter Autoritário da Supremacia do Interesse Público e das Origens do Direito Administrativo: Uma Crítica da Crítica. In: BACELLAR FILHO, Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 158. 180 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Ressaltam que com o Estado Moderno e o reconhecimento da submissão à lei, o Direito Administrativo torna-se “sem dúvida” um instrumento de “liber- tação e não somente de dominação”, pela substituição da idéia de superioridade da posição do Rei e do Direito costumeiro tradicional, para autodisposição da sociedade, através da vontade geral surgida do pacto social, expressa pela lei geral e igualitária. 740 Por efeito, da incorporação da soberania popular, com a supremacia da lei e da prevalência do Poder Legislativo sobre os demais, assegurava-se que a rea- lização da vontade geral “só poderia se expressar” através da lei elaborada pelo povo. Por efeito, o interesse público decorreria da vontade geral expressa na lei e mediante o respeito à legalidade que a proteção das liberdades individuais estaria garantida. 741 Assim, segundo tais adeptos, o Direito Administrativo em sua origem não é autoritário: mas se “pauta” na vontade geral de proteção dos direitos individu- ais, cristalizado na lei, figurando a Administração Pública como executora des- sa vontade geral e intérprete do interesse público, responsável por concretizá-lo em atos e medidas742. Porém, tal argumento consiste em sua fissura: a constru- ção do Direito Administrativo não foi feita através da lei. Como visto, tanto a criação como o desenvolvimento do Direito Admi- nistrativo Francês ocorreu através do Poder Executivo – e a sua “intervenção decisória autovinculativa pelo Conselho de Estado – do que do Legislativo”, de forma que a elaboração das normas das disciplinas administrativas recebeu tratamento normativo distinto do Direito Comum, à “margem da vontade geral expresso pela lei”.743 Por esta razão, afirma-se que o Direito Administrativo “nasce estigmatiza- do por uma genérica suspeita de imparcialidade”, construído por um Conselho de Estado em uma “lógica de um Executivo que ‘foge’ ao controle dos tribunais e que concentra em si a última palavra sobre a validade dos seus próprios atos”, que não seriam válidos se praticados por particulares no direito comum, como por exemplo, a modificação unilateral dos contratos. 744 740 GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 161. 741 GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 167. 742 GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 171. 743 OTERO, Paulo. Op. cit. p. 270-272. 744 OTERO, Paulo. Op. cit. p. 279. 181 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Tendem os autores, também, fundamentar a supremacia do interesse pú- blico sobre os interesses privados, através da própria concepção do interesse público, buscando na sua identificação com as necessidades da coletividade em geral e, portanto, da sua coincidência com os interesses dos indivíduos enquan- to membro da coletividade, a legitimidade para sustentar a sua superioridade sobre os demais. Segundo a doutrina, um dos “principais equívocos” em que incorrem tais autores consistiria justamente na “resistência” em compreender o “sentido” e “con- teúdo jurídico” da noção de interesse público utilizando argumentos de natureza metodológica sem, contudo, identificar e refutar a sua essência, o que se demonstra necessário para então “concordar ou dissentir da afirmação de sua supremacia”.745 Neste sentido, remonta-se a clássica distinção entre os interesses coletivos primários e secundários da doutrina italiana, para tentar identificar como inte- resse público apenas aqueles interesses coletivos da sociedade, que podem coin- cidir ou não com o interesse da maioria, mas o que denota seu caráter público é o modo como toda a coletividade é afetada pelos respectivos interesses. 746 Sustenta-se, portanto, o conceito do interesse público como “um somató- rio de interesses individuais coincidentes em torno de um bem de vida”, ou seja, um conjunto de interesses privados que tornam-se públicos quando “passa a ser também identificado como interesse de todo o grupo, ou, pelo menos, como um querer valorativo predominante da comunidade”.747 De tal sorte, concluem que o princípio da supremacia do interesse público decorreria da “natureza desse tipo de interesse” de forma que “se o interesse é público tem que preponderar sobre o interesse privado quando estiverem em rota de colisão”, sob pena de gerar um “caos na organização social se as deman- das gerais não suplantassem as individuais”.748 Assim, o interesse público é uma “parcela coincidente” de interesses dos indivíduos enquanto membros da coletividade, que embora pressuponha os in- 745 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. A Noção Jurídica de Interesse Público no Direito Administrativo Brasileiro in: BACELLAR FILHO, Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 89-90. 746 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Op. cit. p. 91. 747 BORGES, Alice Gonzalez. Op. cit. p. 9. 748 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Interesse Público: Verdades e Sofismas in: DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella; RIBEIRO, Carlos Vinícius Alves. Supremacia do Interesse Público e Outros Temas Relevantes do Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2010. p. 73 182 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura teresses individuais, dele se diferenciam. O que não coincide com o interesse próprio do aparato administrativo exceto quando este representa o interesse do grupo social e deve ser dotado de instrumentos que garantam o uso de poder ação para realização desses fins.749 Note que, apoiar-se na concepção da supremacia do interesse público so- bre o privado em uma concepção unitária ou indissociável do interesse público – onde os interesses coletivos da sociedade abrangem os interesses individuais dos seus membros – indicam os autores, demonstra uma incoerência, pois não teria sentido de prevalência de um interesse sobre o outro, que nada mais é do que sua própria dimensão.750 Neste tocante, parte-se de uma concepção da Administração Pública como titular de um “poder soberano” frente aos particulares, que faz “prevalecer coativamente” a sua vontade sobre os cidadãos, para a realização de dados inte- resses coletivos primários – dos tais “interesses individuais preponderantes em determinada organização jurídico” – mas não secundários – do próprio aparato administrativo exceto quando coincidir com o primeiro.751 Porém, a distinção entre interesse público primário e secundário não é a única forma, havendo na própria doutrina italiana a classificação do interesse público entre gerais e setoriais, conforme atinja a coletividade em geral – instru- ção pública – ou determinados grupos – trabalhadores portuários – de forma que “interesse público não significa o interesse objetivamente pertencente à generalidade, senão em um número limitado de casos”752. Como visto, em um Estado Democrático de Direito, a concepção do in- teresse público não pode se identificar apenas com o interesse majoritário da sociedade, uma vez que é marcado pela dialética entre democracia – soberania popular e governo da maioria – Constitucionalismo – limitação do poder e su- premacia da lei, resguardando justamente os direitos da minoria em face da maioria eventual. 753 749 GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 180. 750 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 31. 751 ALESSI, Renato. Instituciones de Derecho Administrativo. Tomo 1. Tradução da 3ª edição italiana por Buenaventura Pellisé Prats. Barcelona: Boschi, 1970. p. 181-185. 752 GIANNINI, Massimo Severo. Op. cit. p. 133. 753 BARROSO, LuisRoberto. Curso de... Op. cit. p. 88. 183 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Ademais, sustentar a existência de uma norma de prevalência apriorística do interesse público sobre o privado não esclarece essa importante questão que aponta a doutrina, a da necessidade de se fixar a justa medida de cedência recí- proca que deve existir entre os interesses individuais e coletivos em um Estado Democrático de Direito que busca a proteção e a afirmação de ambos.754 Quanto a sua estrutura, busca-se conceituar o interesse público como o inte- resse coletivo primário, no que se refere ao seu conteúdo, parte da doutrina tenta- -se “revelar” um “conteúdo jurídico fundamental” da noção de interesse público, porém, ligando-o apenas aos princípios constitucionais explícitos a Administra- ção Pública – legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.755 Por efeito, infere-se no “núcleo fundamental” do interesse público, portan- to, aquele residente no direito positivo que impõe à Administração Pública cum- primento da ordem jurídica, a imparcialidade na sua prossecução, a exigência de um comportamento ético, probo e previsível, sua realização de forma transpa- rente e acessível ao público e o exercício diligente das suas competências.756 Note, porém, que o interesse público não é um conceito encerrado em si, ao qual seja possível formular uma definição exaustiva e tão pouco definitiva. Tal se liga a uma determinada concepção de Estado, a certa visão de sociedade e uma dada relação com o indivíduo, que é produzido em um referido território em momento histórico e se manifesta na construção do ordenamento jurídico757. Assim, a concepção de interesse público, inclusive, em sua fundamentali- dade, não se restringe apenas a sua conformação a certos princípios expressos constitucionais que se submete a Administração Pública, mas inserto em uma ordem constitucional e democrática, se submete aos bens e valores fundamen- tais tutelados pela Constituição, veiculados através dos direitos, princípios, fins e seus objetivos. Alguns sustentam que ao considerar que a introdução da conceituação do interesse público e do sistema denominado de regime jurídico-administrativo deve-se a escola que elaborou o “princípio” da supremacia como uma das “mais importantes rupturas operadas no Direito Administrativo Brasileiro” aponta 754 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 131. 755 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Op. cit. p. 95. 756 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Op. cit. p. 96-111. 757 SALMONI, Jorge Luis. Interés Público Y Emergencia em la República Argentina in: BACELLAR FILHO, Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 117. 184 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura que se inexistisse o mesmo “todo arcabouço do Direito Público desmorona, uma vez que restará solapado o Estado Social do Direito”.758 O regime administrativo enquanto conjunto de normas fundamentais que regem o exercício da atividade administrativa, não é introduzido, mas deduzido da própria ordem jurídica – tanto que a doutrina do Império já se referia ao in- teresse público – e como qualquer disciplina científica não se apóia em apenas um princípio, mas em um feixe de conhecimentos que constitui o seu regime. Parte dessa contra crítica é compartilhada por outros autores, ao afirmar que a concepção de interesse público no Direito Administrativo no Estado Libe- ral – “estreitamente vinculado” com direitos fundamentais, sendo a inexistência de obstáculo ao exercício daqueles – não pode ser manejada no modelo de Esta- do Social e Democrático de Direito – onde o interesse público volta-se à realização dos fins coletivos.759 Neste sentido, apontam que a concepção “contemporânea” de interesse público no Direito Administrativo Brasileiro baseado na “supremacia” coaduna com o Estado Social de Direito, uma vez que é voltado à realização dos direitos da coletividade, sendo o “respeito ao interesse particular” de cada indivíduo é típico do regime do Estado marcado pelo “liberalismo oitocentista”.760 Partindo de proposta similar, parte dos autores, identificam que a doutri- na “inovadora” compõe o chamado “Direito Administrativo Econômico que volta-se à proteção do interesse econômico em detrimento de outros protegidos pelo ordenamento jurídico brasileiro e demonstra-se “retrógrada” porque prega a “volta dos princípios próprios do liberalismo” quando “inexistia” a preocupa- ção com o bem comum.761 Alegam que a “desconstrução” da supremacia do interesse público sobre o privado serve tanto a um “discurso ultraliberal” – para restaurar a liberdade incondicionada do particular para buscar seus fins sem a indevida intervenção estatal – bem como a um “discurso neoliberal” – que objetiva impor restrições 758 MOTTA, Paulo Roberto Ferreira. 222 e 231. 759 GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 173-175. 760 GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 177. 761 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. O Princípio da Supremacia do Interesse Público: Sobrevivência diante dos Ideais do Neoliberalismo in: BACELLAR FILHO, Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 217-218. 185 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura ao intervencionismo estatal na economia, no intuito de “restaurar um projeto de Estado Mínimo”.762 Não se sustenta essa dicotomia proposta de que interesse público no Esta- do Liberal se identifica com interesses privados e no Estado Social de Direito com os interesses coletivos, uma vez que no Estado Brasileiro a ordem político-jurídica consagra tanto um quanto outro, de forma que são finalidades públicas tanto a tutela das necessidades coletivas, quanto a promoção dos interesses privados. Ademais o Estado Social de Direito não “pode nem deve ser vermelho” e não se confunde com um Estado Social, de forma que deve se “deslegitimar qualquer Estado que se proclame “vinculado à realização da justiça social”, dis- curso típico dos Estados Totalitários e Autoritários, “sensíveis à Constituição do social”, como a carta Soviética de 1936 e a lei social do fascismo italiano. ”763 O Estado de Direito reclama o “indivíduo autônomo e não o admi- nistrado igual e submisso à máquina estatal”, sendo seus princípios básicos “incontornáveis” no Estado Social: os estímulos regulativos e materiais a favor da justiça social, reajustamento das condições reais prévias voltam-se à “aquisição de bens materiais indispensáveis ao próprio exercício de direi- tos, liberdades e garantias pessoais”.764 Assim, portanto, o Estado Social só corresponde a um Estado de Direi- to quando para a realização de seus objetivos sociais a subordinação do poder econômico ao ente Estatal, ocorrer com o respeito aos direitos fundamentais765, garantindo que a busca do vetor igualdade mediante a justiça distributiva não ocorra em detrimento ao vetor liberdade, algo que ocorre nas intervenções asfi- xiantes dos regimes totalitários. Ademais, é próprio do modelo constitucional erigido com o Estado Demo- crático de Direito o reconhecimento da normatividade da Constituição e dos seus preceitos, com a vinculação dos poderes públicos e não apenas ao dever negativo – de abstenção de violação – mas ao positivo – o dever de concretização 762 NOHARA, Irene Patrícia. Reflexões Críticas Acerca da Tentativa de Desconstrução do Sentido da Supremacia do Interesse Público no Direito Administrativo in: DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella; RIBEIRO, Carlos Vinícius Alves. Op. cit. p. 141. 763 CANOTILHO, J. J. Gomes. Estado de Direito in: SOARES, Mário. Cadernos Democráticos. v. 7. Lisboa: Gradiva, 1999. p. 36. 764 CANOTILHO, J. J. Gomes. Estado... Op. cit. p. 37-38. 765 CANOTILHO, J. J. Gomes. Estado... Op. cit. p. 39. 186 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura – razão pelo qual é impossível sustentar que a ação estatal volta-se à tutela dos direitos fundamentais individuais apenas no Estado Liberal.Sustentam que a “supremacia do interesse público nos espaços estatais é “pressuposto sem o qual a democracia é inconcebível” 766 e que “sem prerrogati- vas a Administração Pública, o Estado, os Poderes não poderão atuar na defesa dos fracos” e sem a supremacia do interesse público, deixará o “Direito Admi- nistrativo de existir, tornando-se outro ramo do Direito, com certeza muito mais próximo da Lex Mercatoria”. 767 A discussão sobre a existência ou não de um “princípio” da “supremacia” não se liga a questões como a capacidade institucional para atender demandas pela Administração, algo que é objeto da ciência da Administração, e tão pou- co, o destino do Direito Administrativo ou sua desnaturação, visto que toda disciplina científica se mantém não sobre um, mas vários princípios cujo papel do cientista é extraí-los pela observância, não criá-los por ideologias. Porém, ainda, que se empreitasse tal juízo, questiona-se que as prerrogati- vas são instrumentos de defesa do indivíduo, pois, por exemplo, quando alegado pelo particular o desvio do agente, a presunção de veracidade dos atos administra- tivos impõe o ônus da comprovação da ilegalidade do ato àquele, cuja a produ- ção de provas é quase sempre impossível ou excessivamente difícil.768 Alguns apontam que a “negação” do princípio corresponde a uma “postu- ra anticívica e egocêntrica” que busca de forma “reacionária” “submeter o inte- resse da coletividade a interesses privados” dando lhes “proeminência” e que a ponderação não constitui óbice ao reconhecimento do princípio da supremacia do interesse público, embora no conflito entre esse e o privado “nunca poderá prelevar este último em detrimento do primeiro”769. De plano, ressalte-se que não se propõe a identificação exclusiva do in- teresse público com os direitos fundamentais, pois a ordem jurídica com ápice na Constituição tutela outros bens, interesses e fins a serem perseguidos pelo Estado e a Sociedade, razão do qual limitar as necessidades coletivas apenas à 766 NOHARA, Irene Patrícia. Op. cit. p. 142. 767 MOTTA, Paulo Roberto Ferreira. Op. cit. p. 233. 768 ARAGÃO, Alexandre Santos de. Algumas Notas Críticas sobre o Princípio da Presunção de Veracidade dos Atos Administrativos. Revista de Direito Administrativo, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, v. 259, p. 78 jan/abr. 2012. 769 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Interesse... Op. cit. p. 78 e 81. 187 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura proteção e promoção dos direitos fundamentais seria ignorar os outros fins da ordem político-jurídica. Assim, não se nega a supremacia dos interesses públicos, para reconhecer dos privados, mas propõe-se que não há supremacia abstrata de nenhum sobre outro, mas prevalência em concreto de um ou outro conforme o juízo de pondera- ção, pois sustentar que o interesse público ou privado sempre prevalecerá, afasta a própria natureza de princípio que, como visto, não se aplicam as regras no esquema “tudo ou nada”. Outro argumento reincidente, entre os adeptos da doutrina tradicional, é que o conceito de interesse público para uns e a sua supremacia para outros, possui previsão explicita na ordem jurídica positiva – seja na Constituição ou na legislação infraconstitucional – ou pode ser extraído de forma implícita do próprio ordenamento jurídico, como decorrente do regime político adotado ou dos fins almejados pelo Estado. Tendem a sustentar a concepção de supremacia do interesse público como “princípio” uma vez que “reflete um dos alvos da função do Estado de Direito”, bem como, porque esses “independem da expressão do ius positum, mas de- correm do sistema como um todo”, não demonstrando qualquer inadequação da supremacia com a ordem jurídica brasileira, pois essa “para ser “ordem” se socorre do princípio”.770 Trataria, para a maioria dos autores, de um princípio constitucional implí- cito extraído das “múltiplas fontes constitucionais”: decorreria dos princípios que regem a Administração Pública como direção teleológica da atuação ad- ministrativa; das normas que consagram situações de “vantagens” para Ad- ministração e de outras que na proteção dos bens e valores coletivos restrin- gem direitos individuais.771 Como demonstrado, a concepção de princípios não se coaduna com a su- premacia, uma vez que as regras tem aplicação a partir de um juízo de subsunção – já que o fato concreto se adéqua à previsão normativa abstrata veiculada pelo comando normativo haverá a sua aplicação – os princípios atuam a partir de um 770 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Interesse Público... Op. cit. p. 77. 771 OSÓRIO, Fábio Medina. Existe uma Supremacia do Interesse Público sobre o Privado no Direito Administrativo Brasileiro? Revista de Direito Administrativo, Fundação Getúlio Vargas, n. 220, p. 87, abril/jun 2000. 188 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura juízo de ponderação, de forma que no caso concreto um princípio pode ceder à prevalência de outro.772 Ademais, embora os princípios sejam normas imediatamente finalísticas, estes guardam uma correlação com os meios, de forma a garantir a promoção do valor almejado, de modo que no Princípio da Moralidade, por exemplo, para que a Administração Pública garanta os fins de lealdade, zelo e boa-fé, depende da colaboração do Administrado e da garantia de informação de seus direitos773. Por um lado, portanto, sustenta que os princípios constitucionais admi- nistrativos, em razão de seu conteúdo finalístico fundamentam a supremacia do interesse público em relação aos interesses privados, sem considerar que a Constituição orienta a atuação administrativa à consecução do interesse admi- nistrativo sem que para tanto isso importe em uma primazia absoluta, abstrata e apriorística sobre os direitos fundamentais. Outra frente sustenta que a existência de “meios materiais e jurídicos” que retratam a supremacia do interesse público sobre o privado, exteriorizado através da concessão pelas normas constitucionais de situações de “vantagens” à Administração Pública em detrimento ao particular que importam no reco- nhecimento da existência de certos fins de utilidade pública perseguíveis.774 Neste tocante, verifica-se que tais prerrogativas concedidas pelas normas devem ser analisadas perante um juízo de proporcionalidade e razoabilidade capaz de verificar se há fundamento para cedência em concreto do interesse privado em face do interesse público, pois se encontrar razão na dita “supremacia” como pre- valência absoluta, abstrata e apriorística serão considerados inconstitucionais.775 Por fim, aponta como outro fundamento para consagrar tal princípio, a existência de diversas normas constitucionais que, por um lado preveem os “bens coletivos que reclamam proteção estatal” e por outro ao “impor restri- ções a direitos fundamentais” denotando, portanto, uma “implícita” existência de interesses públicos e a sua superioridade relativamente ao privado”.776 772 ALEXY, Robert. Teoria de Los Derechos Fundamentales. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales, 1993. p. 88-89. 773 ÁVILA, Humberto. Teoria dos Princípios: Da Definição à Aplicação dos Princípios Jurídicos. 12 ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 79-80. 774 OSÓRIO, Fábio Medina. Existe... Op. cit. p. 87. 775 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. 93-94. 776 OSÓRIO, Fábio Medina. Existe... Op. cit. p. 87. 189 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Tal afirmação, é comum, por tal doutrina, que sustenta que a supremacia de interesse público “encontra alicerces” na Constituição Brasileira e “disso não há dúvida”777, porém, apontam normas que consagram o interesse da co- letividade ou da sua preponderância sobre o particular em determinado caso, mas sem apontar um fundamento jurídico-positivo para um princípio geral de supremacia do interesse público sobre o privado. Isto porque, tanto as normas constitucionais quanto as legais que consa- gram interesses dacoletividade ou a prevalência do interesse público sobre o privado, não significam uma supremacia absoluta, abstrata e apriorística, mas indicam que o Constituinte ou o legislador ordinário realizou a ponderação de interesses – entre a necessidade coletiva e os direitos fundamentais – e naquelas hipóteses fez o primeiro prevalecer sobre o segundo. A Constituição Federal de 1988 ao prever, por exemplo, a função social da propriedade e a desapropriação não significa que consagre a supremacia absoluta da coletividade sobre o direito de propriedade do indivíduo, tanto que estipula quando ocorre o atendimento ao interesse público778, prevê a natureza e proce- dimento das restrições ao direito privado779, bem como, elenca as hipóteses em que este não se submete àquele780. Ademais, tal qual se admite que as normas constitucionais e legais possam realizar um juízo de ponderação de interesses em abstrato optando pela prepon- derância de determinado interesse público sobre os particulares que deve ser confirmada em concreto a incidência da hipótese. É comum, também, que façam prevalecer o interesse privado em relação aos outros interesses em jogo. 777 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Op. cit. p. 94. 778 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 05 de Outubro de 1988. Artigo 5º inciso “XXIII - a propriedade atenderá a sua função social;” Artigo 182 §2º “A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.” Artigo 186 “A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:” 779 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 05 de Outubro de 1988. Artigo 5º inciso XXIV “XXIV - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição;” 780 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 05 de Outubro de 1988. Art. 185. “São insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária: I - a pequena e média propriedade rural, assim definida em lei, desde que seu proprietário não possua outra; II - a propriedade produtiva.” 190 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Como, por exemplo, a Constituição Federal de 1988 ao garantir a invio- labilidade do sigilo telefônico explicita que só é afastada, de forma excepcional – “em último caso” – respeitada a legalidade estrita – “nas hipóteses e formas que a lei estabelecer” – para uma única hipótese de interesse público – “com fins de investigação criminal ou instrução processual penal” – e mediante ordem judicial – e não decisão administrativa.781 As restrições impostas pela Constituição aos direitos fundamentais são re- alizadas através de normas específicas que impõe uma medida de restrição e com a preservação recíproca dos interesses em conflito782. Assim, não há uma supre- macia apriorística porque apenas ocorrerá nas hipóteses previstas absolutas, pois será na medida determinada pela norma e abstrata uma vez que depende da avaliação das circunstâncias em concreto. Não há como pressupor a partir dos casos de ponderação pela norma entre os interesses envolvidos, uma necessária supremacia de uns desses interesses sobre outros, uma vez que a prevalência só existe após a verificação em concreto entre os princípios colidentes, de forma que inexiste uma supremacia antecipa- da e automática, mas posterior e fundamentada.783 Por efeito, não se pode extrair das exceções – as restrições aos direitos fun- damentais – uma regra – a supremacia do interesse público sobre o privado. No Estado de Direito, volta-se a Constituição à tutela dos direitos fundamentais como forma de impedir a violação histórica pelo Estado, de forma que, quando necessária a sua restrição para satisfação das necessidades coletivas, explicita as hipóteses, bem como, fixa os limites ou deixa ao legislador tal tarefa. Parte da doutrina, embora sustente a existência de uma supremacia do interesse público sobre o privado como fundamento estruturante do regime ad- ministrativo brasileiro, que importam na concessão de um complexo, prerroga- tivas e poderes à Administração Pública, denota a necessidade da reconstrução do conceito diante da ordem jurídico-constitucional ou admitem a sua relativi- zação perante outros princípios. 781 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 05 de Outubro de 1988. Artigo 5º inciso XII - É inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; 782 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 94. 783 ARAGÃO, Alexandre Santos de. Op. cit. p. 5. 191 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Alguns, partindo da distinção entre interesse público primário e secundá- rio considera que o primeiro goza de uma “supremacia em um sistema constitu- cional e democrático” pautando as relações jurídicas e sociais, dos particulares entre si e com as pessoas de direito público, não sendo passível de “ponderação”, uma vez que “é o parâmetro de ponderação” para avaliar a melhor realização possível à vista da situação concreta.784 Sustenta que o interesse público primário se identifica muitas vezes com os interesses privados, mesmo que não esteja em jogo um direito fundamental como, por exemplo, no dever de indenizar decorrente da responsabilidade do Estado e havendo um confronto destes com outro interesse público primário – uma meta coletiva – devem ser observados dois parâmetros na colisão: a dignidade humana e a razão pública. 785 Assim, importarão na restrição do direito fundamental em favor de uma meta coletiva a partir do uso da razão pública – os valores políticos fundamen- tais consagrados na lei fundamental e não apenas o ideário que agrega o maior número de adeptos – e da dignidade da pessoa humana – impedindo que o ser humano seja reduzido à condição de meio para a realização de metas coletivas ou outras individuais. 786 Neste tocante, tal doutrina, parece sustentar a supremacia do interesse público ao não sujeitá-la à ponderação não como um princípio, mas como um postulado. Cabe, portanto, a crítica que os postulados não são auto-evidentes e não resultam por si, mas decorrem de normas sem as quais existiriam juridica- mente, inexistindo mesmo quando há menção normativa ao interesse público referência à sua supremacia.787 Porém, ao tratar do conflito entre o interesse público primário – direito fundamental e meta coletiva – ou com interesse privado, volta ao conceito de princípio, utilizando o juízo de ponderação para a prevalência de um ou outro. Porém, como se sustentar um princípio que se sujeita a juízo de ponderação cujo resultado ao final sempre um interesse público irá prevalecer?788 784 BARROSO, Luis Roberto. O Estado Contemporâneo, os Direitos Fundamentais e a Redefinição da Supremacia do Interesse Público (Prefácio) in: SARMENTO, Daniel (Org). Op. cit. p. XVI. 785 BARROSO, Luis Roberto. O Estado... Op. cit. p. XVI. 786 BARROSO, Luis Roberto. O Estado... Op. cit. p. XVI-XVII. 787 ÁVILA, Humberto. Repensando.... Op. cit. p. 206. 788 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 102. 192 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Recentemente, o autor parece mudar sua orientação e sustentar que “a noção de interesse público é um sobreprincípio” pelo qual derivariam da su- premacia do interesse público sobre o privado, princípios como da moralidade, impessoalidade e finalidade, além de justificar e legitimar institutos fundamen- tais do Direito Administrativo como poder de polícia e intervençãodo Estado na propriedade.789 Sob tal entendimento, parece que trata-se antes de um postulado ético- -político – uma vez que orienta a produção normativa no direito administrativo com valores fundamentais à comunidade política790 – de forma que justificaria a ausência de sua positivação e a sua validade, mas esbarraria, também, nos direitos fundamentais como diretivas também da comunidade que resultaria. Outros autores partem de uma tese restritiva da supremacia do interesse público, sustentando a sua não prevalência absoluta, de forma que a concepção que o “interesse público sempre, em qualquer situação, prevalecer sobre o parti- cular jamais teve aplicação” e que tal conceito estaria na “base” de quatro tipos de atividades: serviço público, fomento, intervenção e poder de polícia.791 Identificam esses que a prevalência do interesse público sobre o privado ocorreria nas hipóteses “agasalhadas” pelo ordenamento jurídico e que sua apli- cação não é deixada à apreciação livre da Administração Pública, mas sujeita-se à “consonância” com os demais princípios que regem a atividade administrati- va, dentre os quais, destacam o princípio da legalidade. 792 De forma que o princípio da supremacia do interesse público como “qual- quer outro princípio, não é absoluto, e seu uso em cada regulação do Estado deve ser ponderado em conjunto com os demais princípios e garantias fun- damentais”, de forma que a “medida adequada” para a restrição do interesse privado “não pode ser fornecida abstratamente, mas apenas em função de cada caso concreto analisado”.793 789 BARROSO, Luís Roberto. O Estado Contemporâneo, os direitos fundamentais e a redefinição da supremacia do interesse público. Revista Fórum de Direito Administrativo, ano 13, n. 148 p. 12. jun/2013. 790 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 205. 791 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. O Princípio.... Op. cit. p. 211-212. 792 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. O Princípio.... Op. cit. p. 214-215. 793 NOHARA, Irene Patrícia. Op. cit. p. 134-135. 193 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Porém, tendo a supremacia status de “princípio constitucional implícito” de- corrente de inúmeras normas na lei maior, “não é preciso grande esforço” para considerar que em determinados casos, tais interesses podem entrar em rota de colisão com outros princípios”, o “que não pode ser resolvido a priori, abstrata- mente, mas, só a partir de uma necessária ponderação frente ao caso concreto”.794 Em igual sentido, há quem considera que a definição de prevalência do interesse público sobre o privado compete em primeiro momento ao legislador e a Administração Pública que definem, respectivamente, em abstrato e em con- creto as hipóteses em que um cede necessariamente ao outro, para após caber “em decisão final” e em “definitivo” ao Poder Judiciário delimitar o interesse que deve prevalecer.795 Concluem, portanto, que o interesse público enquanto um conceito inde- terminado a sua aplicação aos casos concretos demanda a ponderação de inte- resses, que permita a avaliação do custo-benefício, com a utilização de critérios de interpretação, que são capazes de auxiliar na tentativa de “diminuir ou mes- mo de acabar” com a indeterminação e encontrar a solução mais completa. 796 Desta forma, propõe uma “reconstrução” da noção de supremacia, de for- ma que eventual conflito entre interesses eminentemente individuais e metas coletivas da sociedade é resolvido com a utilização do juízo de ponderação como forma de sopesamento dos interesses conflitantes, seja através do Constituinte ao fazer as escolhas fundamentais ou mediante o controle do Poder Judiciário nos casos concretos não previstos.797 Por efeito, faz-se uma distinção conforme o interesse público esteja em conflito com direitos fundamentais, ao qual a “prevalência em princípio é ditada pelo texto constitucional” sobre qualquer interesse público e individual e os demais interesses privados que embora não “têm berço constitucional”, torna-se necessária a ponderação, na “busca da plena e efetiva realização do próprio interesse público”.798 794 FERRARI, Regina Maria Macedo Nery. Reserva do Possível, Direitos Fundamentais Sociais e a Supremacia do Interesse Público in: BACELLAR FILHO, Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder. Op. cit. p. 295. 795 BORGES, Alice Gonzalez. Op. cit. p. 21. 796 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. O Princípio.... Op. cit. p. 217. 797 BORGES, Alice Gonzalez. Op. cit. p. 17. 798 BORGES, Alice Gonzalez. Op. cit. p. 18. 194 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Tal corrente intermediária, demonstra avanço ao submeter o princípio a um juízo de ponderação, porém, se não há uma prevalência apriorística e abstrata do interesse público sobre o privado, mas uma predominância poste- riorística e concreta, a supremacia se liga não ao conteúdo do princípio – uma vez que este pode ou não prevalecer – mas ao resultado da ponderação entre os interesses – incidindo apenas quando aquele possuir peso maior. Por efeito, parece mais adequado sustentar a existência de um princípio da “prossecução” do interesse público, uma vez que a preponderância apenas será verificada no caso concreto mediante um juízo de ponderação, de forma que a prevalência da necessidade coletiva pode, inclusive, não ocorrer tornando incongruente sustentar como um princípio da “supremacia” do interesse público sobre o privado, Outra versão “fraca” da supremacia do interesse público sobre o privado é daqueles que sustentam, ao invés de uma primazia a priori e absoluta, um “princípio da preponderância do interesse público sobre o interesse particular” que em circunstâncias especiais, podem não prevalecer, mas apenas diante de razões muito forte, sendo o ônus argumentativo maior para quem defende o interesse privado.799 Tal concepção, todavia, é incompatível com o sistema constitucional, por ignorar que a consagração dos direitos fundamentais visa evitar a sua violação pelos poderes públicos, que devem ser protegidos, inclusive, quando este afirma estar perseguindo os interesses da coletividade, o que não coaduna com a impo- sição no processo ponderativo de maior carga argumentativa a eles.800 Observa-se, portanto, que tal como o próprio conceito de interesse pú- blico, o tema da sua supremacia sobre o privado como fundamento do regime administrativo ainda está longe de um consenso. O debate envolve investiga- ções de natureza histórica, abrange contrastes a partir de critérios metodológicos, impõe análises a partir da ordem político-jurídica em sua evolução e contempo- raneidade, que o torna um manancial de pesquisas. É inegável, porém, que a doutrina tradicional ou contemporânea parte de um ponto comum. Embora concentre-se a discussão, em razões de distintas ordens, na verificação de uma supremacia dos interesses da coletividade sobre o 799 MEDAUAR, Odete. Direito Administrativo Moderno. 13 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. p. 133. 800 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 101-102. 195 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura privado, todos os autores confirmam a existência de um fundamento geral que orienta a ação administrativa e, portanto, rege a disciplina administrativa: o interesse público. O tema será tratado a seguir. 3.4. Princípio da Prossecução do Interesse Público: Uma medida possível Como visto, a atividade administrativa se liga a própria existência do ente estatal, sendo observado desde a Antiguidade Clássica, da Grécia ou de Roma, até a Modernidade, como um dos princípios mais constantes que orientam a ação administrativa, ainda, que sob designações plurais – bem comum, utilida- de pública ou necessidades coletivas – a persecução do interesse público. Por esta razão, o interesse público, como aponta a doutrina, é da própria “essência” do Direito Administrativo, tido, portanto, como “o critério do inte- resse geral, além de constituir a espinha dorsaldo direito Administrativo há de presidir o regime jurídico de todas e cada uma das categorias e instituições que compõem o conjunto do Direito Administrativo”801. Tal assertiva é corroborada pela doutrina pátria brasileira do Império, que afirmava que há certos interesses gerais ou coletivos de “grande importância” que todos os ordenamentos jurídicos reconhecem, sendo observada em todas as instituições estatais desde a Antiguidade a proteção dos interesses coletivos “mais importantes dos seus cidadãos”, tarefa precípua da Administração.802 Ademais, já reconhecia que inexiste um fundamento único para toda a ação administrativa, de forma que cada uma das tarefas administrativas está su- jeita a princípios específicos que não necessariamente se limitam à prossecução do interesse público, tanto que apontava a existência de princípios gerais, do Direito Administrativo, fundados não apenas sob a noção de utilidade pública, mas sob a razão, justiça e equidade803. Da mesma forma, na República, a doutrina já apontava como “princípio fundamental”, que dota o Direito Administrativo de especialidade e de auto- 801 MUÑOZ, Jaime Rodríguez-Arana. Op. cit. p. 3 e 14. 802 RIBAS, Antônio Joaquim. Op. cit. p. 5 e 199. 803 REGO, Vicente Pereira do. Op. cit. p. 8. 196 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura nomia, o “princípio da utilidade pública”, que se exterioriza na finalidade da Administração Pública de prover a “segurança do Estado, à manutenção da ordem pública e à satisfação de todas as necessidades da sociedade” e produz “a formação do Direito Administrativo”.804 Inclusive, reconheciam que não se tratava de princípio único, pois ao ad- mitir a inexistência de um “conteúdo jurídico” de utilidade pública, ao qual a determinação do seu “largo e variável conteúdo” cabia precipuamente ao Governo ou Poder Legislativo dizia que esse princípio fundamental do Direi- to Administrativo poderá certas vezes “reclamar a realização concomitante de princípios jurídicos” citando, por exemplo, da legalidade.805 Corrobora com tal entendimento, a verificação que a divergência doutri- nária apontada, não é acerca do interesse público enquanto elemento finalístico da ação administrativa, e, portanto, estruturante do regime administrativo, mas do seu conteúdo ou efeito que para a doutrina tradicional se identifica com a supremacia sobre o interesse privado e para a contemporânea corresponde a inexistência de prioridade e a prevalência em concreto. Assim, é possível verificar a existência de um princípio do interesse públi- co que corresponde a um dos elementos estruturantes do regime administrativo brasileiro e pelo qual busca fixar os seus elementos essenciais e, ao qual, opta-se por designar como princípio da prossecução do interesse público apenas para dife- renciar daquela concepção adotada de interesse público – de supremacia – qual foi vista neste trabalho. Neste sentido, alguns sustentando o “princípio do interesse público”, “em vez da problemática supremacia” indicam que estre prescreve que “em casos de colisão, deve preponderar a vontade geral legítima” com um “lidimo primado tópico, que se esclarece somente na relação nuançada com os demais princípios e direitos fundamentais no plano concreto”.806 Aponta a sua “correlação íntima com a tutela da dignidade de todas as pessoas e de cada uma” considerando que o cidadão não é sujeito pas- sivo do Estado e a atuação da Administração volta-se ao desenvolvimento humano, o que justificaria a “primazia legitima e democrática do interesse 804 LIMA, Ruy Cirne. p. 15-17. 805 LIMA, Ruy Cirne. Op. cit. p. 16. 806 FREITAS, Juarez. O controle dos atos administrativos e os princípios fundamentais. 4 ed. refundida e ampliada. Malheiros: São Paulo, 2009. p. 54. 197 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura público sobre interesses individuais, ainda assim, com justas e sempre que possíveis prévias compensações”.807 Embora tenha o acerto de sustentar não um princípio da supremacia, mas do interesse público, apontando um fundamento jurídico-positivo808 e que a pre- ponderância não ocorre de forma abstrata, mas de modo concreto, porém, ao determinar que seu conteúdo indique a preponderância em relação aos demais, afasta a natureza de princípio e se aproxima mais de uma regra de preferência. Isto por que, os princípios são mandados de otimização, ou seja, “normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível, dentro das pos- sibilidades jurídicas e reais existentes”, de forma que ao contrário das regras válidas que se aplica devendo ser realizado exatamente o seu comando, os prin- cípios podem ser cumpridos em diferentes graus conforme aquelas condições.809 Por efeito, nenhum princípio pode proceder a outro, de modo que a con- cepção de um princípio como absoluto – que em caso de conflito sempre in- cidirá – significa que “sua realização não conhece limites jurídicos”, pois não se submete a teoria das colisões, e quando tem por conteúdo bens coletivos, resultará na incompatibilidade com os direitos fundamentais, pois significa que estes só irão preponderar quando houver vários indivíduos envolvidos.810 Ademais, o reconhecimento da qualidade de público de um determinado interesse não implica por si mesmo a sua prevalência perante os interesses par- ticulares envolvidos, uma vez que havendo conflito entre ambos os interesses, esses se sujeitam a ponderação tanto pela Administração Pública no exercício de sua atividade, quanto pelo Poder Judicial em caso de controle dos seus atos.811 Sustentar o princípio do interesse público tal qual exposto – que tem por comando normativo a primazia do interesse público e não admite a sua sub- missão pelo interesse privado – é rotular sob o nome de “princípio do interesse público” a antiga supremacia dando-lhe novos fundamentos que lhe atribuem 807 FREITAS, Juarez. O controle... Op. cit. p. 54. 808 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1998. Artigo 3º “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. 809 ALEXY, Robert. Op. cit. p. 86-87. 810 ALEXY, Robert. Op. cit. p. 105-106. 811 SALOMONI, Jorge Luis. Op. cit. p. 21. 198 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura maior grau de legitimidade – como a dignidade da pessoa humana – sem supe- rar seus óbices já apresentados. Da mesma forma que se demonstra inadequado sustentar uma supre- macia do interesse público sobre o privado por todas as razões apresentadas, também, torna-se impróprio alegar em razão da posição de centralidade as- sumida pelos direitos fundamentais na ordem jurídica a partir da ascensão de um novo modelo constitucional, uma primazia dos direitos fundamentais sobre o interesse público. Alegam, com razão, parte da doutrina que o Direito Administrativo se vincula à realização dos direitos fundamentais, que se exterioriza em um pla- no negativo – limitação dos poderes políticos impedindo que na satisfação de interesses coletivos, produza o sacrifício de outros valores fundamentais – e positivo – compromisso de realização dos interesses coletivos e com a produ- ção ativa dos valores humanos.812 Porém, ao considerar corretamente que é essencial “eliminar o precon- ceito” de que “as organizações estatais possuem justificativa de existência de si mesmo”, indica que o Direito Administrativo e o Estado assim como as ou- tras instituições não governamentais “somente se justifica como instrumento para realização dos direitos fundamentais que são decorrência da afirmação da dignidade humana”.813 Sustenta o princípio da “supremacia e indisponibilidade dos direitos funda- mentais.” que “não impõe a prevalência do individualismo ainda que acarrete o reconhecimento da proteção ao indivíduo e a seus interesses”, pois a promoçãodestes, também, “pode conduzir a limitações aos interesses individuais”, mas busca impedir a “eliminação” dos direitos fundamentais impondo a restrição pela proporcionalidade e os processos democráticos. 814 Isto porque, tendo consagrado a Constituição os direitos fundamentais como o alicerce de todo ordenamento jurídico, não é possível identificar um “conceito abstrato e geral” para a expressão interesse público como simplifica- ção de todos os interesses na sociedade, sendo o papel do Estado e campo do 812 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... Op. cit. p. 70. 813 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... Op. cit. p. 70. 814 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... Op. cit. p. 127 e 71-72. 199 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Direito Administrativo à composição dos interesses estatais e não estatais com o fim de assegurar a promoção dos direitos fundamentais.815 Note que, não se ignora a existência de uma “relação íntima” entre os di- reitos fundamentais e os poderes públicos, que corresponde a principal garantia dos cidadãos frente ao Estado e orienta o sistema jurídico e político ao respeito e promoção da pessoa humana816, porém há outros bens e interesses essenciais à sociedade que, também, são veiculados pela ordem jurídico-constitucional e demandam a atuação do ente Estatal. Tida a Constituição enquanto a “ordem jurídica fundamental de uma co- munidade”, não ordena apenas a “vida não estatal” – com a veiculação dos direitos e garantias dos indivíduos – mas, também, a “vida estatal” – fixando os princípios reitores que devem reger a unidade política e as tarefas que devem assumir o Estado, os procedimentos para resolução de conflitos nas bases e os princípios gerais sobre o qual repousa a ordem jurídica.817 Reconhecer que os direitos fundamentais assumem um papel de proemi- nência no Estado Democrático de Direito, não significa considerar que ocupem todo o espaço ou assuma uma superioridade sobre os demais bens e interesses tutelados, mas que ocupem a posição de centralidade no ordenamento jurídico instituindo uma ordem objetiva que irradia seus valores por ela condicionando a sua interpretação, mas não se impondo sobre os demais. Por efeito, não se pode restringir a ação administrativa apenas à re- alização dos direitos fundamentais, uma vez que há outros bens e valores tutelados pela ordem jurídica que devem ser perseguidos, sob pena de se substituir a equivocada concepção da supremacia do interesse público en- quanto único fundamento do regime administrativo, por uma inadequada percepção que apenas os direitos fundamentais são princípios estruturantes da disciplina administrativa. Fixados os extremos, dentre aqueles que sustentam uma supremacia do público sobre o particular, ainda, que sob a nomenclatura de princípio do interesse público, e os outros que sustentam uma supremacia do parti- cular sobre o público, quando aqueles se identificarem com os direitos fun- 815 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... Op. cit. p. 125. 816 PEREZ, Antônio E. Luno. Los Derechos Fundamentales. Madrid. Ed. Tecnos. 1995. p. 20. 817 HESSE, Konrad. Concepto y Cualidad de La Constitucion in: Escritos de Derecho Constitucional. Madrid: CEC. 1983. p. 16-17. 200 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura damentais, busca-se uma justa medida que fixe o interesse público como princípio estruturante do regime administrativo, mas não o único que se sobrepõe aos demais. Pelo princípio da prossecução do interesse público, uma vez qualificado pela ordem jurídica um interesse como público, em razão de sua natureza e des- tinatários – por corresponder às necessidades da coletividade ou os fins da so- ciedade ou da ordem política – deve buscar a Administração Pública ao qual foi atribuída, ou seja possível extrair sua competência, adotar as medidas legalmen- te permitidas para realizá-lo. Todavia, embora alguns apontem igualmente o princípio da tutela do in- teresse público, consideram de forma “suficiente e bastante” para sustentar o re- gime administrativo e que trata-se de um princípio constitucional “implícito”818, embora a prossecução do interesse público não corresponda ao único funda- mento da disciplina administrativa, tão pouco que não tem previsão explicita na ordem jurídico-constitucional. Neste sentido, ao contrário da supremacia do interesse público so- bre o privado, que não encontra fundamento jurídico-positivo explícito ou implícito de tal preponderância absoluta, abstrata e apriorística, o princí- pio da prossecução do interesse público tem previsão explícita na ordem constitucional, tanto em uma cláusula geral, quanto em regras específicas, inclusive, havendo aquelas que realizam a ponderação e definem os casos que se sobrepõe aos privados. Pode-se identificar como uma cláusula geral do princípio da prossecução do interesse público, a norma constitucional que consagra como um dos objeti- vos do Estado Brasileiro, “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”819, de forma que o interesse público não se confunde com a “vontade do aparato estatal” ou “desejo da maioria”, mas o “bem de todos”.820 818 SCHIER, Paulo Ricardo. Op. cit. p. 242. 819 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Art. 3º “IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. 820 FREITAS, Juarez. O controle... Op. cit. 54. 201 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Atua como um dos princípios diretivos da ordem social821 e econômica822, que orienta a competência comum823 e a cooperação824 dos entes federativos na realização dos fins estatais, bem como, de órgãos constitucionais825, sendo pre- visto em inúmeras outras regras constitucionais que consagram a prossecução do interesse público como uma das finalidades da sociedade política, ainda que sob o desígnio de interesse nacional ou bem comum.826 Em certas hipóteses, o legislador constituinte realizou a ponderação nor- mativa de interesses, definindo a preponderância do interesse público em dadas hipóteses, sempre submetidas ao princípio da legalidade, como, por exemplo, as restrições à propriedade827, a publicidade de atos processuais828, a ocupação, o 821 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Art. 193. “A ordem social tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais.” 822 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Art. 170. “A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios.” 823 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Art. 23. “É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: Parágrafo único. Leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional.” 824 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Artigo 25: “§ 3º - Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum.” 825 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Art. 127. “O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo- lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.” 826 BRASIL. Constituição da RepúblicaFederativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Artigo 5º XXIX e XXXIII, Artigo 12 § 4º I, Artigo 37 inciso IX, Artigo 52 inciso V, Artigo 57 § 6º inciso I e II, Artigo 148 inciso II, Artigo 172, Artigo 176, Artigo 184 dentre outros. 827 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Artigo 5º “XXIV - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição; “XXV - no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano;” 828 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Artigo 5º “LX - a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem;” 202 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura domínio e a posse de terras indígenas829 e as revisões das doações e concessões de terra pública830 e submetida ao controle judicial831. Em alguns, condiciona essa primazia à aferição em concreto, como no processo judicial da perda de nacionalidade do brasileiro naturalizado832, no caso de greve de atividade essencial ao interesse público833, na publicidade dos atos judiciais se existente na demanda interesse público à informação que se sobreponha à intimidade834 ou no processo administrativo relativo às garantias institucionais do magistrado ou parquet835. 829 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Art. 231. “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. § 6º - São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé. 830 BRASIL, Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, de 5 de Outubro de 1988. Art. 51. “Serão revistos pelo Congresso Nacional, através de Comissão mista, nos três anos a contar da data da promulgação da Constituição, todas as doações, vendas e concessões de terras públicas com área superior a três mil hectares, realizadas no período de 1º de janeiro de 1962 a 31 de dezembro de 1987.” “§ 2º - No caso de concessões e doações, a revisão obedecerá aos critérios de legalidade e de conveniência do interesse público.” 831 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 5º “XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;” 832 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 12: § 4º - Será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que: I - tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional;” 833 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 114: “§ 3º Em caso de greve em atividade essencial, com possibilidade de lesão do interesse público, o Ministério Público do Trabalho poderá ajuizar dissídio coletivo, competindo à Justiça do Trabalho decidir o conflito.” 834 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 93: “IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação;” 835 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 93: “VIII o ato de remoção, disponibilidade e aposentadoria do magistrado, por interesse público, fundar- se-á em decisão por voto da maioria absoluta do respectivo tribunal ou do Conselho Nacional de Justiça, assegurada ampla defesa;” Artigo 128: “§ 5º - Leis complementares da União e dos Estados (...) estabelecerão a organização, as atribuições e o estatuto de cada Ministério Público, observadas, relativamente a seus membros: b) inamovibilidade, salvo por motivo de interesse público, mediante 203 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Em outras, define a preponderância do interesse privado sobre o público, como a não sujeição da propriedade rural a desapropriação836, o impedimento à emenda constitucional tendente a abolir os direitos e garantias individuais837, a vedação ao embaraço ao funcionamento dos cultos religiosos ou igrejas838, o dever de certidão em situação de interesse pessoal independente do pagamento de taxas839, dentre outros. Note, portanto, que o interesse público embora possa ter conteúdo inde- terminado é um conceito jurídico – previsto na Constituição e na legislação infraconstitucional – afastando-se qualquer “construção intelectual ou abstrata como poderia desejar-se supor” de alcance indeterminado, impedindo uma apli- cação precisa, determinada e inequívoca em determinada hipótese.840 Por efeito, a Administração Pública não atua com autonomia absoluta, mas na medida da consecução do interesse público consagrado na Constituição ou na legislação que impõe a sua atuação determinada na adoção de certas me- didas para a sua concretização, inclusive, a sua valoração em concreto, com a eleição de uma das opções possíveis dentro do campo concedido pela norma.841 Por um lado, isto importa na superação da insindicabilidade do interesse público pelo Poder Judiciário, pois uma vez que o seu conceito é constitucio- nal, com “significado jurídico perfeitamente marcado” compete aos órgãos judiciais ao qual é atribuída a jurisdição constitucional na guarda da lei fun- decisão do órgão colegiado competente do Ministério Público, pelo voto da maioria absoluta de seus membros, assegurada ampla defesa;” 836 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Art. 185. “São insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária: I - a pequena e média propriedade rural, assim definida em lei, desde que seu proprietário não possua outra; II - a propriedade produtiva.” 837 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 60: “§ 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: IV - os direitos e garantias individuais.” 838 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 19. “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;” 839 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de Outubro de 1988. Artigo 5º “XXXIV - são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas: b) a obtenção de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal; 840 ENTERRÍA, Eduardo García de. Democracia, Jueces Y Control de La Administración. Madrid: Thomson Civitas, 2009. p. 230. 841 ENTERRÍA, Eduardo García de. Democracia... Op. cit. p. 236. 204 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonsoda Costa Moura damental, de forma inescusável interpretar os casos questionados e definir o seu alcance concreto.842 Isto porque, a indeterminação lógica do enunciado não se traduz em uma indeterminação absoluta de sua aplicação, que permita qualquer inter- pretação adversa ou uma invocação meramente “caprichosa” capaz de legi- timar qualquer solução, mas que ao contrário, a manifestação pela norma desses conceitos aponta para uma realidade concreta perfeitamente indicada como determinante.843 Ao contrário, apenas demarca a existência de um espaço legítimo de mar- gem de apreciação do interesse público Administração Pública, porém está sem- pre “necessariamente iluminada e corretamente guiada” por um núcleo do con- ceito de interesse público definido pela norma jurídica, de forma que o controle judicial se produzirá quando os limites daquela margem de apreciação tiverem sido transgredidos.844 Por outro lado, a qualificação jurídica do interesse como público não im- porta necessariamente na sua preponderância em concreto, pois se houver um conflito entre esse e outro princípio ou regra, não tendo havido a ponderação pelo legislador constituinte ou ordinário, caberá a Administração na prática do ato ou o Judiciário no controle ponderar os interesses envolvidos à luz da proporcionalidade verificando qual cederá ao outro no caso. Neste tocante, quando o ordenamento jurídico atribui ao Estado o dever de tutela sob certo interesse, qualificando-o como público isto não importa que este assuma uma prevalência diante dos outros interesses, também, consagrados pela ordem jurídica, mas também não impede que a mesma ordem determine em dadas hipóteses através de normas preponderância do interesse público em certa hipótese sobre o privado. Sob tal égide, a doutrina aponta com destreza a distinção entre interesse público em sentido mínimo – quando a ordem jurídica tutela um interesse como público legitimando a atuação estatal – e interesse público em sentido forte – quando impõe a sua prevalência em determinado caso sobre certo interesse 842 ENTERRÍA, Eduardo García de. Democracia... Op. cit. p. 238. 843 ENTERRÍA, Eduardo García de. Democracia... Op. cit. p. 252. 844 ENTERRÍA, Eduardo García de. Democracia... Op. cit. p. 257. 205 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura privado845, o que neste caso, se adequada à hipótese prevista e observado os requisitos resultará na supremacia do interesse público. Note que, quando o legislador constituinte ou ordinário dentro da esfera determinada por aquele além de consagrar o interesse público a ser tutelado, estipula a hipótese em que haverá a sua primazia sobre determinado interesse privado, haverá a prevalência do interesse públicos sobre o privado, desde que o caso concreto se amolde na previsão abstrata e sejam observados, os demais princípios tais quais a legalidade. Assim, ocorre, por exemplo, na desapropriação que não estabelece a nor- ma uma supremacia abstrata, absoluta e apriorística, mas uma ponderação normativa com a preponderância de certo interesse qualificado por lei como público – necessidade ou utilidade pública846 – sobre dado interesse privado – propriedade– desde que no caso concreto sejam observadas as restrições – pro- cedimento legal e indenização prévia, justa e em dinheiro.847 Distinta é a situação do agente sanitário que a título de tutela da saúde pública e devido ao atributo da autoexecutoriedade dos atos administrativos, adentra em casa sem autorização, viola a ponderação do legislador constituinte que determinou quais interesses qualificados públicos – flagrante delito, desas- tre, necessidade ou decisão judicial – poderiam em concreto e em respeito à lei prevalecer sobre aquele interesse privado – inviolabilidade do domicílio.848849 Porém, quando o legislador constituinte ou ordinário dentro da esfera de- terminada por aquele apenas consagra o interesse público a ser tutelado, sem 845 SUNDFELD, Carlos Ari. Interesse Público em sentido mínimo e em sentido forte. Interesse Público. n. 28, v. 5, p. 31, 2004. 846 BRASIL. Decreto-Lei 3.365 de 21 de Junho de 1941. Art. 1º A desapropriação por utilidade pública regular-se-á por esta lei, em todo o território nacional. Art. 5º Consideram-se casos de utilidade pública: a) a segurança nacional; b) a defesa do Estado; c) o socorro público (...) p) os demais casos previstos por leis especiais. 847 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1998. Artigo 5º: “XXIV - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição;” 848 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1998. Artigo 5º: “XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial; 849 SUNDFELD, Carlos Ari. Interesse... Op. cit. p. 41. 206 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura qualificar a prevalência sobre dado interesse privado em determinada hipótese, caberá a Administração Pública na prática do ato ou ao Poder Judiciário no controle, realizar o juízo de ponderação para verificar qual interesse prevalece no caso em concreto. Assim, por exemplo, tendo a Constituição garantido a inviolabilidade do direito de liberdade e a tutela do direito à saúde, pode a Administração Pú- blica mediante a ponderação dos interesses no caso concreto utilizando como parâmetro a proporcionalidade – adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito, restringir o direito de liberdade de ir e vir com isolamento hospitalar de portador de doença transmissível. Por esta razão, alguns autores não afirmam um “princípio da supremacia”, pois embora reconheçam que uma vez “captado” o interesse pela ordem jurídica como público esse “prioriza o seu atendimento sobre os demais”, “em diversas circunstâncias será necessário ponderar interesses públicos definidos em lei com outros, igualmente protegidos, mas que lhe sejam concorrentes, visando a uma mais justa e melhor realização do Direito”.850 Preferem sustentar o “princípio da indisponibilidade do interesse público”, pois uma vez determinado pela ordem jurídica como interesse público e atribuí- da a competência da Administração Pública para satisfazê-lo gera-se um “dever de atuar na sua prossecução” tornando-se tal interesse público indisponível para a mesma, que não pode desistir de agir as demandas que lhe foram confiadas.851 Todavia, considera-se que a indisponibilidade é antes um dos efeitos do princípio do interesse público do que o seu próprio conteúdo: uma vez que o interesse é qualificado pela ordem jurídica como público, surge o dever da Ad- ministração Pública de buscar realizá-lo – a prossecução – que resulta na sua impossibilidade de se abster de adotar as medidas que se tornem necessárias para tal fim – indisponibilidade. Em igual sentido, a doutrina confunde o interesse público com as finali- dades públicas indicando que a atuação estatal deve estar apoiada em “fina- lidades públicas, não egoísticas, estabelecidas no ordenamento jurídico” pre- ferindo, portanto, nomear o princípio do interesse público como da finalidade pública, indicando que estas devem ser alcançadas “prioritariamente” pela 850 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso de Direito Administrativo. 14.ed. . rev. ampla e atualizada. Rio de Janeiro: Forense, 2006. p. 90. 851 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso... Op. cit. p. 90. 207 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Administração, inclusive, mediante a participação dos cidadãos na tomada de decisões públicas.852 Note, porém, que em uma ordem constitucional voltada à promoção dos interesses da“confronto da estrutura do Estado Contemporâneo e seu relacionamento com os administrados”.606 Da preeminência normativa alcançada pela Constituição que é alçada ao “cimo da escala hierárquica” no ordenamento jurídico, sem se submeter a qual- quer subordinação a nenhum outro parâmetro normativo anterior ou superior, toda a ordem jurídica passa a ser lida à sua “luz” e passada pelo seu “crivo”, de forma a eliminar qualquer norma que se não conforme com ela.607 Corresponde a constitucionalização do Direito, portanto, um processo que não se confunde com a introdução de uma Constituição rígida em um ordena- mento jurídico, mas de transformação da ordem jurídica pela sua “impregna- ção” por normas constitucionais, que passam a condicionar “tanto a legislação como a jurisprudência e o estilo doutrinário, a ação dos atores políticos, assim como as relações sociais”.608 O comando de uma nova ordem constitucional importa, portanto, em uma revisão e ampliação dos institutos de Direito Administrativo, com o reco- 604 CHEVALLIER, Jacques. Le droit… Op. cit. p. 26 e 30-32. 605 ENTERRIA, Eduardo Garcia. La Lucha... Op. cit. p. 16-17 e 20-21. 606 BARACHO, José Alfredo de Oliveira. Op. cit. 89. 607 CANOTILHO, J. J. Gomes; MOREIRA, Vital. Fundamentos da Constituição. 1 ed. Coimbra: Editora Coimbra, 1991. p. 45. 608 GUASTINI, Riccardo. La Constitucionalización del Ordenaimento Jurídico: El Caso Italiano in: GUASTINI, Riccardo. Estudios de Teória Constitucional. Mexico: Universidad Nacional Autonoma de Mexico, 2001. p. 153. 152 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura nhecimento dos direitos fundamentais que contemplam a pessoa humana e ga- rantem o seu direito de participação da sociedade, transformando um conceito de justiça meramente distributiva para uma concepção de justiça comutativa.609 No Direito Administrativo cujas Constituições do século XIX ignoraram a sua articulação no texto, não se confunde, porém, esse fenômeno de consti- tucionalização com o fenômeno de ampla incorporação pela Constituição de preceitos relativos à Administração Pública que se notabiliza no século XX após a primeira guerra em razão da plena expansão da atividade administrativa no âmbito econômico e social.610 Tão pouco, se identifica apenas com o advento da Constituição Federal de 1988, pois embora tenha consagrado um Estado Democrático de Direito, a ati- vidade administrativa estatal continua a refletir “concepções personalistas de poder”, em que o “governante pretende imprimir sua vontade pessoal como cri- tério de validade dos atos administrativos e invocar projetos individuais como fundamento de legitimação para a dominação exercitada”.611 Ao revés, há uma patologia de “constitucionalização às avessas” exteriori- zada pelo casuísmo e corporativismo – com a previsão de situações específicas e a incorporação de vantagens e prerrogativas para certos grupos retirando-a da deliberação democrática ordinária – e a ossificação e o reformismo constitucional crônico – com inserção de matérias cambiantes em inúmeras emendas que im- pedem a transformação pelo processo político.612 Neste tocante, o processo de constitucionalização do Direito se demons- tra necessário permitindo dotar a disciplina administrativa brasileira com uma “visa constitucionalizante” com a consequente revisão dos conceitos pertinen- tes do seu regime jurídico, fundado sob uma concepção autoritária e incompatí- vel com a nova ordem constitucional que determina os princípios fundamentais do Direito Administrativo.613 609 TACITO, Caio. Bases Constitucionais do Direito Administrativo. Revista de Direito Público, Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, v. 81, p. 166, 1986. 610 MEDAUAR, Odete. O Direito Administrativo em evolução. 2 ed. rev atual e ampla. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. p. 97-98. 611 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso de Direito Administrativo. 8 ed rev. Ampla e atual. Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 83 e 107. 612 BINENBOJM, Gustavo. A Constitucionalização... Op. cit. p. 32-34. 613 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... Op. cit. p. 83. 153 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura O fenômeno de constitucionalização com a passagem da Constituição para o centro do ordenamento jurídico representa, portanto, a “força motriz” da mudança de paradigmas do direito administrativo, permitindo a impregnação da atividade administrativa por princípios e regras previstos na lei fundamental, ensejando uma releitura dos institutos e estruturas do regime administrativo a partir de uma ótica constitucional. 614 A caracterização do Direito Administrativo através de uma perspectiva constitucional conduz necessariamente a reavaliação de seus dogmas e crité- rios, que devem ser substituídos pelos princípios que presidem o Estado De- mocrático de Direito e conduzem a adequação do interesse público enquanto principal finalidade do Estado aos “novos tempos” sob pena de perder a sua própria função que o justifica.615 Com a constitucionalização do Direito Administrativo não se pretende determinar a exclusividade do Direito Constitucional, mas permitir um diálogo entre as disciplinas jurídicas, em especial, no que tange a interpretação e aplica- ção de suas normas, que importa em uma crise não do Direito Administrativo, mas do modelo liberal que serviu inspiração, impondo a releitura de suas cate- gorias a partir do Estado Democrático de Direito.616 Neste sentido, os Estados Constitucionais Democráticos ao longo das últi- mas décadas do século XX são marcados pela abertura constitucional radicada no princípio da dignidade da pessoa humana que se torna epicentro do extenso catálogo de direitos fundamentais, expande-se pela ordem jurídica e opera a separação da tradicional divisão entre as esferas do Direito público e Privado, do campo de domínio entre o Estado e a sociedade civil.617 Corrobora com tal fenômeno, a crise do Estado-Providência, que resultou no reforço de atividades administrativas desenvolvidas por entes privados e que denota uma fuga do Direito Administrativo para o Direito Privado, com difi- culdade de determinação do regime aplicável a cada atividade e resulta em uma 614 BINENBOJM, Gustavo. Uma Teoria do Direito Administrativo: Direitos Fundamentais, Democracia e Constitucionalização. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 69. 615 MUÑOZ, Jaime Rodríguez-Arana. Op. cit. p. 12-13. 616 OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. A Constitucionalização do Direito Administrativo. Editora Lumen Juris: Rio de Janeiro, 2009. p. 31 e 33. 617 CASTRO, Carlos Roberto Siqueira. A Constituição Aberta e os Direitos Fundamentais: Ensaios sobre o Constitucionalismo pós-moderno e Comunitário. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 15-16 e 20. 154 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura relativização da dicotomia Direito Público e Privado com a crescente concep- ção de uma unidade da ordem jurídica.618 Observa-se um fenômeno de universalização dos direitos dos homens, com a ampliação na Constituição do catálogo dos direitos fundamentais, o reco- nhecimento de sua dimensão objetiva que se irradia por todo o ordenamen- to jurídico, a produção de efeitos em relação ao Estado e os particulares, bem como, o reconhecimento de suas dimensões participativas e procedimentais e de aplicabilidade imediata.619 A cláusula de dignidade da pessoa humana enquanto um direito público subjetivo do indivíduo contra o Estado e a sociedade, impõe o dever de proteger o indivíduo em sua dignidade contra os atentados com a criação das condi- ções para que não seja violado por este ou terceiros; a garantia das prestações necessárias ao mínimo existencial material e o dever de dispor do conteúdo e organização que permita a defesa e garantia da dignidade.620 A aplicação dos direitos fundamentais na relação administrativa importa na vinculação da Administração Pública àqueles como direito de defesa – protegen- do contra violações pela sua intervenção –sociedade, mas também dos privados, nem todas as finalidades públicas – tidas como os fins estipulados pela ordem jurídica a serem persegui- dos pelos poderes públicos – correspondem a interesse público – da coletividade como um todo – pois embora se insiram nas atribuições do Estado, pode se dirigir à proteção dos indivíduos singularmente considerados. Assim, por exemplo, a ordem econômica embora tenha como finalidade a garantia da existência digna de todos a partir de uma justiça social, consagra alguns princípios que “se revelam mais tipicamente como objetivos da ordem econômica”853, tal qual a livre iniciativa, que garante que a atividade econômica no Estado Brasileiro seja realizada por agentes privados, vedando a exploração direta pelo Estado, exceto nas hipóteses admitidas.854 Trata-se, portanto, de um fim público – garantir a ordem econômica liberal com a consagração de uma economia de mercado – que se liga imediatamente não à promoção de interesses públicos, mas eminentemente privados – mediante a garantia da livre iniciativa, que é um princípio básico da ordem capitalista e o afastamento, em regra, do Estado da exploração direta de atividade econômica. Ademais, a restrição da atividade administrativa à realização dos fins pú- blicos e, por efeito, do regime administrativo ao princípio da finalidade pública, recai sobre as mesmas críticas acerca do papel desempenhado pela Administra- ção Pública na tutela de outros fins como o asseguramento e a promoção dos direitos fundamentais, bem como, o reconhecimento que se submete a outros princípios como a legalidade que restringe essa persecução dos fins. Como lembra a doutrina, a sociedade democrática produz uma pluralidade de interesses contrapostos, consagrando a Constituição, como legítimos os inte- resses dos diversos grupos, em princípios de conteúdo diverso que traduzem va- lores contrapostos e propiciam soluções aparentemente contraditórias, de forma 852 OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Op. cit. p. 106-107. 853 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 25 ed. rev e atual. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 792. 854 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Art. 173. 208 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura que o regime de direito administrativo reflete o esforço “de produzir um sistema racional e destituído de contradições”. 855 Assim, demarca com destreza, “não existe um fundamento jurídico único para o direito administrativo”, pois o ordenamento jurídico é composto por uma pluralidade de princípios que refletem a multiplicidade de valores consagrados cons- titucionalmente e que não guardam supremacia de uns sobre os outros, pois “todos tem assento constitucional idêntico e se encontram no mesmo nível hierárquico”.856 De tal sorte, a relação administrativa não é orientada apenas pelo princí- pio do interesse público, mas “resulta qualificadamente imantada pela totalida- de dos princípios constitucionais, explícitos e implícitos regentes da administra- ção pública”, do “plexo inteiro dos princípios e direitos fundamentais do Estado Democrático” que permite convertê-la em “autêntica relação republicana”.857 Assim, em um Estado Constitucional de Direito, compete à Constituição delinear os princípios fundamentais que estruturará o Direito administrativo, indicando as diretivas de desenvolvimento do sistema normativo, razão pelo qual, pode-se aludir que a sua “identidade” é determinada pela lei fundamental e, portanto, que há uma “espécie de código genético” do regime administrativo imposto pela Constituição.858 Neste sentido, chama a doutrina a atenção para a impossibilidade de “for- mulação de um critério único, substancial, de explicação da ‘essência’ do Direi- to Administrativo”859 fixando uma noção unificadora do regime administrativo enquanto a unificação de um sistema plural de normas que regulam relações sob domínio do Direito Público e do Direito Privado em apenas um princípio. A própria doutrina que sustenta a supremacia do interesse público reconhece que o Direito Administrativo se baseia em “duas idéias opostas”, consagrando de um lado a proteção aos direitos fundamentais em face do Estado, que fundamen- taria o princípio da legalidade e de outro a necessidade de satisfação dos interesses coletivos, embora indique que conduza a outorga de prerrogativas e privilégios.860 855 MARÇAL JUSTEN FILHO. Curso... Op. cit. p. 110. 856 MARÇAL JUSTEN FILHO. Curso... Op. cit. p. 115. 857 FREITAS, Juarez. O controle... Op. cit. p. 60-61. 858 MARÇAL JUSTEN FILHO. Curso... Op. cit. p. 107. 859 ESTORINHO, Maria João. Op. cit. p. 340. 860 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Do Direito privado na Administração Pública. São Paulo: Atlas, 1989. p. 71. 209 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Não se apóia, portanto, a disciplina administrativa enquanto ciência ju- rídica, apenas em um fundamento, mas em princípios estruturantes do regime administrativo brasileiro que veiculados pela Constituição orientam a formação e interpretação de suas normas, categorias e institutos, dentre os quais além da prossecução do interesse público se destacou ao longo deste trabalho o princípio da legalidade e os direitos fundamentais. No que tange os direitos fundamentais, a doutrina do século XX já apon- tava que desde a Independência, o Estado Brasileiro inscreveu o influxo das idéias liberais em todas as Constituições da República, o princípio da inviola- bilidade dos direitos políticos e sociais, de forma que o “Direito Público pátrio assegura tradicionalmente o exercício dos direitos políticos e a inviolabilidade dos direitos individuais”.861 O interesse público se relaciona com os direitos fundamentais, pois cor- responderia, a uma “falácia” a título de persecução do benefício da coletividade resultar na “aniquilação” dos direitos dos indivíduos, sendo uma “insalvável antítese lógica”, pois “ao destruir os direitos dos indivíduos em prol da coletivi- dade, há que se destruir também, ao mesmo tempo, a base necessária de ordem e justiça sobre a qual essa coletividade inteira repousa”.862 No que tange a doutrina administrativista do Império, já apontava que o conceito de utilidade pública é determinado pela legislação em um “círculo elástico” que “ora amplia, ora restringe”, cabendo a autoridade administrativa além da função geral de “manutenção da ordem pública, segurança do Estado, e ás diferentes necessidades da sociedade”, também, de prover “por meio de regulamentos á execução da lei”.863 O princípio da legalidade se correlaciona com a prossecução do interes- se público, enquanto fundamentos do regime administrativo, pois nenhuma decisão estatal pode ser justificada num “pretenso bem comum incompatível com a ordem jurídica, mesmo quando a decisão governamental merecer a aprovação aparente da maioria da população”, sob a pena de tornar-se uma ordem política fascista.864 861 TACITO, Caio. O Abuso de Poder Administrativo no Brasil. Rio de Janeiro: Depto. Adm. do Serviço Público e Instituto Brasileiro de Ciências Adm, 1959. p. 15-17. 862 GORDILLO, Agustín. Tratado... Tomo II. Op. cit. VI-31. 863 REGO, Vicente Pereira do. Op. cit. p. 6 e 37. 864 JUSTEN FILHO, Marçal. Op. cit. p. 84. 210 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Por esta razão, relembram os autores, não é suficiente a mera “alegação” do interesse público para lastrear atos administrativos, devendo ser evidenciado os pressupostos de fato e de direito que indiquem verdadeiro primado deste prin- cípio sobre os demais no caso concreto, sendo minimamente aceitável tomar a vontade do aparato governamental “quase por definição particularista, como sinônima de interesse geral propriamente dito”.865 Isto porque, há ausência de um “interesse público unitário com a plurali- dade de interesses protegidos juridicamente no estado contemporâneo”, de for- ma que se devecombater a “postura não democrática de promover o sacrifício dos interesses não estatais sem maior preocupação mediante a mera e simples invocação da conveniência estatal denominada interesse público.”866 Não existe um interesse público “único, estático e abstrato”, mas finali- dades públicas normativamente elencadas, que não necessariamente estão em confronto com os interesses privados, mas que em caso do conflito, impõe uma Administração Pública sob a égide do Estado Democrático de Direito apresen- tar “ônus argumentativo maior para demonstrar a legitimidade de sua atuação para os verdadeiros titulares do poder: o povo”.867 No conflito entre princípios resolvido no campo da ponderação de valores sob a égide do princípio da proporcionalidade o ajuste de valores depende de uma instância argumentativa capaz de conduzir ao intérprete dentre as signifi- cações possíveis do problema e os argumentos apresentados, aqueles que consi- gam prevalecer, definindo qual princípio cede para o outro e em qual medida.868 No caso do princípio da prossecução do interesse público, para que tenha maior peso no juízo de ponderação com os interesses envolvidos, não basta fundamentá-lo em uma suposta supremacia ou nas imperiosas necessidades co- letivas, mas dotá-lo de uma argumentação jurídica baseada em parâmetros ra- cionais e objetivos, capaz de legitimar a sua preponderância em concreto e trazer maior grau de objetividade e previsibilidade na decisão. Por efeito, devem-se adotar argumentos jurídicos ligados diretamente ao texto da regra específica a ser adotada, bem como, que possam ser objetivamente 865 FREITAS, Juarez. O controle... Op. cit. p. 58. 866 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... Op. cit. p. 116 e 125. 867 OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Op. cit. p. 105-106. 868 CAMARGO, Margarida Maria Lacombe. Hermenêutica e Argumentação: Uma Contribuição ao Estudo do Direito. 3 ed. rev e atual. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 258-259. 211 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura condivididos coletivamente, em detrimento a qualquer argumento metajurídico ou mais genérico e subjetivo como a mera invocação do “interesse público” ou dos seus derivativos, mais ligadas a concepções pessoais e ao perfil psicológico de cada julgador.869 Também, deve ser realizada a vinculação do interesse público ao princípio de- mocrático, de forma que a superação da sua indeterminação ocorre quando há a demonstração de sua afetação a interesses socialmente majoritários e, portanto, dota a determinação do conceito pela Administração Pública de maior legitimidade democrática, evitando os desmandos que podem produzir sua indeterminação.870 Sob tal égide, é possível adequar o princípio da prossecução do interesse público com o Estado Democrático de Direito, uma vez que impõe na sua apli- cação em concreto mediante o juízo de ponderação com demais regras ou prin- cípios, o dever de argumentação jurídica objetiva e, portanto, controlável, com a demonstração do fundamento jurídico-positivo e legitimidade democrática da eleição realizada. Assim, ajusta-se o princípio da prossecução do interesse público com os demais princípios estruturantes da disciplina administrativa, permitindo a in- cidência em concreto daquele que obtiver maior peso, contribuindo na tensão entre público e privado, os direitos individuais e os interesses da comunidade polí- tica, uma justa medida que permita a plena realização de ambos os interesses tutelados pela ordem jurídica. 869 ARAGÃO, Alexandre. Op. cit. p. 10-11. 870 CALERA, Nicolás López. Op. cit. p. 147-148.direito a prestações positivas – exigin- do a prática de atividades que garantam a sua promoção – e direito a organização e procedimento – exigindo providências como criação de órgãos e ordenação de processos necessários a sua tutela.621 Isto porque, os direitos fundamentais enquanto veiculadores de bens es- senciais à sociedade acabam se identificando com o interesse público, formando uma parte deste e constituindo o seu “núcleo duro”, ao qual, cabe aos poderes públicos e a Administração em concreto, a sua proteção – abstendo-se de con- dutas que gerem a sua violação – e promoção, tendo-os como “guia de sua atua- ção” garantindo sejam “reais e eficazes”.622 618 ESTORNINHO, Maria João. A Fuga para o Direito Privado: Contributo para o Estudo da Actividade de Direito Privado da Administração Pública. Coimbra: Almedina, 1996. p. 139-141. 619 MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional. Tomo IV. 3 ed. Coimbra: Coimbra Editora, 2000. p. 25-32. 620 HARBELE, Peter. A Dignidade Humana como Fundamento da Comunidade Estatal in: SARLET, Ingo Wolfgang. Dimensões da Dignidade: Ensaios de Filosofia do Direito e Direito Constitucional. 2 ed rev. e ampla. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. 88-93 621 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 74. 622 GIL, José Luis Meilán. Op. cit. p. 179. 155 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Decorrem dos próprios Estados Democráticos Pluralistas, onde a Consti- tuição busca a conciliação equilibrada dos interesses individuais e coletivos, de forma que a proteção de um interesse individual como direito público subjetivo é o reconhecimento da existência de um interesse social considerado de caráter individual e a tutela de um interesse coletivo é tanto em função da perspectiva do interesse da coletividade quanto do indivíduo.623 Voltado à primazia da pessoa humana e consequente dever do Estado para a proteção e desenvolvimento em plenitude do ser humano tanto em seu aspec- to individual ou coletivo, o interesse público passa a compreender a abstenção da Administração Pública na violação e proteção das liberdades pública, a as- sistência e a promoção dos bens coletivos, assegurando a participação de todos os indivíduos e coletividade.624 Neste contexto, a concepção clássica de um interesse público como an- tagônico e dotado de “supremacia” aos interesses privados demonstra-se insus- tentável: em uma ordem constitucional voltada à tutela da dignidade da pessoa humana e a realização plena de seus direitos fundamentais, a prossecução do interesse público envolve justamente a proteção de tais direitos como forma de garantir a realização dos fins do Estado Democrático de Direito. Uma vez tutelados pela ordem constitucional, os direitos fundamentais são tidos como interesses públicos permanentes ao revés das outras necessidades coletivas que são variáveis de acordo com a alternância democrática como con- creção de programas de governo em relação a serviços essenciais e os princípios constitucionais reitores da política social e econômica. 625 A primazia dos direitos fundamentais com a centralidade no ordenamento jurídico altera a “tradição” da superioridade da Administração Pública enquan- to titular de um interesse público e o cidadão titular de um interesse privado, de forma que a invocação do interesse público contrário ao direito fundamental não “servirá para nada, pois este deve ceder à supremacia daquele”.626 623 BARACHO, José Alfredo de Oliveira. Processo... Op. cit. p. 140-141. 624 BRITO, Mariano. Perspectiva del Derecho Administrativo en el siglo XXI in: RUIZ, Jorge Fernández. Perspectiva del Derecho Administrativo en el siglo XXI: Seminario Iberoamericano de Derecho Administrativo. Homenaje a Jesús González Pérez. Mexico: Universidad Nacional Autónoma de México, 2002. p. 180-181. 625 GIL, José Luis Meilán. Op. cit. p. 191. 626 ENTERRIA, Eduardo Garcia. Los ciudadanos y la administracion: nuevas tendências en derecho espanhol. Revista de Direito Público, v. 22, n. 89, p. 12, 1989. 156 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Por efeito, sob a égide de tal Estado, o interesse público torna-se um con- ceito substancial vinculado ao bem geral e integral da sociedade, sob a pers- pectiva da centralidade do ser humano na ordem jurídica e na participação dos cidadãos na deliberação pública, de forma que enquanto fundamento a atuação administrativa volta-se à proteção e promoção dos direitos fundamentais. 627 De modo que torna-se “de interesse público a tutela dos interesses indi- viduais”, pela compreensão de que sem o bem comum a pessoa humana não alcança o seu desenvolvimento, sem a tutela da pessoa humana não existe so- ciedade e bem comum, de forma que a “proteção dos direitos fundamentais é a regra, sua restrição a exceção”, restrição que só se procede por outras razões de interesse geral.628 Assim, aponta a doutrina, que considerada a posição jurídica do cidadão como titular de direitos fundamentais, a mera “invocação ritual” do interesse público contrário ao interesse privado, “não servirá absolutamente para nada”, pois os direitos fundamentais são “absolutamente resistentes”, frente à pretensão de superioridade geral que a Administração Pública tem o hábito de invocar. 629 Isto decorre do princípio que os direitos fundamentais devem ser interpre- tados da forma mais ampla que inverte a presunção tradicional da submissão do cidadão como objeto do poder, de forma que a primazia impõe a exigência rigorosa de habilitação legal para permitir a restrição da liberdade, pois as limi- tações devem estar amparadas em previsões legais explícitas e não em cláusulas gerais como a “ordem pública”.630 A tendência do Direito Administrativo é, portanto, a superação da dis- tinção rígida entre interesse público e privado com reconhecimento da fluidez nos dois âmbitos e a interconexão intensa que possuem, de forma a modificar o entendimento de sacrifício de um em prol do outro, mas da ponderação dos interesses em conflito mediante apreciação de todos os fatores, com vista à conciliação e sacrifício mínimo de ambos.631 627 MUÑOZ, Jaime Rodríguez-Arana. Op. cit. p. 13. 628 MARTÍNEZ, Augusto Durán. El Derecho Administrativo entre Legalidad e Derechos Fundamentales. Revista de Derecho. Universidad de Montevideo. Ano XII. n. 12. p. 133. 2012. 629 ENTERRIA, Eduardo Garcia. Los ciudadanos... Op. cit. p. 12. 630 ENTERRIA, Eduardo Garcia. Los ciudadanos... Op. cit. p. 13. 631 MEDAUAR, Odete. O Direito Adm... Op. cit. p. 191-192. 157 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Isto porque, sob a égide de um Estado Constitucional de Direito compete primariamente a Constituição, a determinação do que seja interesse público e das competências que habilitam o Legislativo a definição em abstrato – através da edição de leis – e o Executivo mediante estabelecimento por aquela, para em con- creto – mediante os atos administrativos – definir os interesses da coletividade.632 Neste tocante, tido o interesse público – enquanto conceito jurídico inde- terminado atribuído pela norma jurídica – não conduz e não se confunde com os poderes discricionários da Administração cujos juízos permitem a pluralida- de de soluções justas e possíveis, mas se sujeita a uma unidade de solução justa na aplicação desse conceito, a uma situação em concreto, o que permite uma regular fiscalização de sua aplicação pelo Poder Judiciário.633 O controle de constitucionalidade é um instrumento para a tutela eficaz dos direitos fundamentais consagrados no ordenamento jurídico, sendo a jurisdi- ção constitucional o meio adequado para resguardar o cumprimento e a superio- ridade dos direitos fundamentais, permitindo a proteção das situações jurídico- -subjetivas constitucionais do cidadão perante a Administração Pública.634 Tanto, que devem-se as transformações observadas no Direito Adminis- trativo pátrio às construções do Poder Judiciário, cujo campo de interpretaçãoalargado com a previsão constitucional de normas relativas à ação administra- tiva, permitiu caráter criativo e limitador do Poder Executivo buscando a con- sagração da transparência, moralidade e probidade na gestão da coisa pública e em defesa do direito dos administrados.635 Por efeito, o interesse público torna-se Canon ou parâmetro que permite o controle judicial da atuação da Administração Pública, uma vez que a Consti- tuição ao determinar os direitos e vincular os fins e princípios da ordem política, determina quais são os interesses que devem ser concretizados pelos programas políticos de governo e, portanto, ser objeto da ação administrativa, permitindo a anulação dos atos que não observem aquela eleição. 636 632 GIL, José Luis Meilán. Op. cit. p. 181. 633 ENTERRIA, Eduardo Garcia. La Lucha contra las inmunidades del Poder em el derecho administrativo: Poderes discrecionales, poderes de gobinerno, poderes normativos. Madrid: Civitas Ediciones, 1983. p. 39-40 e 43. 634 BARACHO, José Alfredo de Oliveira. Op. cit. 89 e 114. 635 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional Administrativo. São Paulo: Atlas, 2002. p. 19. 636 GIL, José Luis Meilán. Op. cit. p. 179 e 181. 158 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Ademais, o controle de constitucionalidade dos atos administrativos en- contra raízes no próprio Estado Democrático, onde a autoridade pública e o cidadão devem estar submetidos ao direito, que deve ter uma origem legítima e não apenas uma legalidade administrativa: todos os atos da administração devem ser controlados, divergindo os Estados na maneira e nos instrumentos adequa- dos à sua efetivação.637 Se por um lado verifica-se o fortalecimento dos direitos fundamentais, por outro, a democratização política, fortalece o exercício de tais direitos na ação unilateral do Estado, conduzindo a uma reavaliação dos poderes administrati- vos e a uma descentralização dos serviços públicos638, e, portanto, da própria noção de domínio estatal acerca do interesse público, bem como, do seu papel na ordem jurídica e democrática. Em um Estado Democrático de Direito, a legitimação não se restringe tão somente ao exercício da soberania popular – no exercício dos direitos políticos dos cidadãos em um sistema representativo – mas no seu conteúdo, ou seja, nos interesses almejados por aqueles, sendo que a legitimidade dos poderes públicos está fundada também no respeito aos interesses públicos.639 Assim, com o processo de constitucionalização, observa-se, também, uma in- flexão da lógica democrática que não poderia deixar de gerar consequências sobre o Direito Administrativo640, que importa na submissão da Administração Pública ao dever de concretização dos direitos fundamentais uma necessária reavaliação na ação administrativa no que trata da discricionariedade acerca do interesse público. Isto porque, a margem conferida pela lei à decisão concreta da Adminis- tração Pública do que é interesse público – que embora seja uma das categorias essenciais da disciplina administrativa não é dotado de parâmetros jurídicos “substanciais” de definição – é muito ampla, deixando a sua definição a critério exclusivo do governante ou do administrador, se confundindo, muita das vezes com a sua “concepção subjetiva, pessoal”. 641 637 BARACHO, José Alfredo de Oliveira. Op. cit. p. 85. 638 TÁCITO, Caio. A Reforma do Estado e a Modernidade Administrativa. Revista de Direito Administrativo, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, n. 215. p. 1, jan/mar 1998. 639 CALERA, Nicolás López. Op. cit. p. 131. 640 CHEVALLIER, Jacques. Le Droit.... Op. cit. p. 34. 641 BUCCI, Maria Paula Dallari. Direito Administrativo e Políticas Públicas. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 13 e 15. 159 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Uma vez que o fundamento da legitimidade da Administração Pública repousa na legalidade, ambas convergem, detalhando e precisando, de várias formas e em vários níveis, o conteúdo do interesse público de uma sociedade organizada, não é dotado de plena liberdade, uma vez que a partir da Consti- tuição, as manifestações de nível em nível tornam-se cada vez mais vinculadas, com gradual redução do espaço decisório aberto aos administradores.642 Assim, embora a discricionariedade seja compreendida como a compe- tência para definir administrativamente o interesse público previsto na norma legal, há limites para seu exercício: se submetendo a oportunidade ao princípio da realidade – existência e suficiência e – da razoabilidade – adequabilidade, compatibilidade e proporcionalidade; e a conveniência tem como limite a possi- bilidade, conformidade e eficiência.643 Porém, a crise da democracia representativa em uma sociedade plura- lista, o déficit de legitimidade da função administrativa em atender os inte- resses da sociedade, a centralidade do homem assumida na ordem jurídica a redefinição do papel da Administração Pública em razão da dignidade da pessoa humana, torna-se necessária uma ampliação da participação do indivíduo na sociedade contemporânea.644 Isto porque, atuando o Direito Administrativo como disciplina de “rea- lização efetiva” dos direitos fundamentais da pessoa produz-se um “profundo impacto” nas suas instituições, de forma que quando a atuação administrativa com fins de gestão do público atua com unilateralidade sem a participação da sociedade, atenta contra os direitos fundamentais e acaba, portanto, se afastan- do do interesse público.645 Por um lado, envolve um modelo de democracia participativa com a forma- ção da vontade política de “baixo para cima” em um processo de decisões onde o povo participe em todos seus componentes – individualistas e colectivistas – da decisão política, com a abolição do “domínio dos homens sobre os homens” 642 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Legitimidade e Discricionariedade: Novas Reflexões sobre os Limites e Controle da Discricionariedade. 3 ed. Forense: Rio de Janeiro, 1998. p. 11 e 15. 643 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Legitimidade... Op. cit. 49-50. 644 BAPTISTA, Patrícia. Transformações do Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 120-121. 645 MUÑOZ, Jaime Rodríguez-Arana. Op. cit. p. 21. 160 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura da teoria democrática representativa – marcada pela falta da participação direta e do mandato livre e totalmente desvinculado do cidadão.646 Por outro, envolve a compreensão de que de súdito – sujeito subordinado ao Estado, o administrado foi elevado ao status de cidadão alterando o papel tradicional da Administração Pública que torna necessário o modelo autoritá- rio de gestão da coisa pública para se transformar em um centro de captação e ordenação dos múltiplos interesses existentes no substrato social.647 Por efeito, a tendência é a participação dos cidadãos na Administração Pública, que envolve a identificação do interesse público de modo compartilha- do com a população, associa-se ao decréscimo da discricionariedade, propicia atenuação da unilateralidade na formação dos atos administrativos e liga-se também as práticas contratuais baseada no consenso, na negociação e na con- ciliação de interesse.648 Essa incidência da democracia na atividade administrativa importa na pro- cessualização da atividade administrativa – com a democratização dos proce- dimentos formativos da vontade administrativa – que resulta no respeito aos direitos do interessado ao contraditório e ampla defesa, na ampliação da infor- mação acessar das repercussões fáticas e jurídicas da intervenção administrati- va e atribuir maior consensualidade na decisão estatal. 649 A participação administrativa se liga, portanto, em uma primeira acepção a um instrumento de garantia dos direitos fundamentais individuais, que torna possível ao indivíduo exercer influência em processos ao qual ele é afetado, na defesa e promoção de seus próprios interesses, permitindo aAdministração ter acesso a maiores informações permitindo uma visão mais completa dos fatos e das questões relacionadas ao objeto da decisão.650 Em uma sociedade marcada pela crescente elevação dos índices de infor- mação e de educação, despertando a consciência dos cidadãos sobre seus inte- resses, demandam os mesmos realizarem não apenas as escolhas subjetivas dos seus governantes, mas participarem na tomada das decisões objetivas que en- 646 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito... Op. cit. p . 409. 647 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 129-130. 648 MEDAUAR, Odete. O Direito Adm... Op. cit. p. 228-230. 649 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 77. 650 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 131 e 133. 161 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura volvam diretamente seus interesses individuais e metaindividuais notadamente na Administração pela proximidade com os mesmos.651 Por efeito, no conflito entre interesse privado e interesse público, a participa- ção administrativa pode atuar como instrumento que contribui com maior grau de racionalidade, consensualidade e legitimidade à decisão administrativa, ao permitir com a dialética entre a Administração e administrado a troca de argu- mentos objetivos, a possibilidade de acordo e o consenso com a decisão adotada. Em outra acepção, se liga a garantia dos direitos fundamentais sociais, econômicos e políticos, por permitir mediante a participação administrativa, o exercício da cidadania coletiva na defesa dos interesses comuns, coletivos e difusos652, com a captação imediata da pluralidade de interesses e síntese pela Administração Pública do interesse público o que atribui maior legitimidade. Neste tocante, observa-se a tendência a pluralização das instituições par- ticipativas, multiplicando e facilitando a aplicação das tradicionais – como o re- ferendo, plebiscito e a iniciativa popular – e ampliando o uso de novas instituições que despontam no campo do Direito Administrativo – coleta de opinião, debate público, audiência pública, colegiado misto dentre outros.653 Por efeito, restringe-se o espaço de liberdade da Administração Pública na eleição do interesse público, também, no vértice democrático, de forma que se compete à Constituição ou a legislação mediante delegação desta, definir quais interesses são julgados como públicos. Cabe a Administração Pública na sua definição em concreto, permitir a participação dos interessados envolvidos e da sociedade em geral dotando a decisão de legitimidade. Há, portanto, um refluxo da imperatividade e uma tendência reequilibra- dora da coerção na ação administrativa, de forma que a gestão de interesses públicos passa a ser marcada pela consensualidade com o emprego de formas de coordenação, cooperação e colaboração na sua gestão, bem como, adoção de for- mas de composição alternativas na solução de conflitos com interesse privado.654 Buscando maior eficiência na solução dos conflitos de interesse entre os cidadãos e o Estado, adota a Administração um perfil Consensual – com a par- ticipação dos indivíduos no poder mediante adoção de técnicas de composição 651 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Mutações... Op. cit. p. 12. 652 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 132. 653 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Op. cit. p. 14. 654 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Op. cit. p. 41. 162 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura como a arbitragem, mediação e conciliação – e Policêntrica – com a fragmenta- ção do poder nas instituições administrativas por meio da presença de agências reguladoras e maior liberdade de ação aos órgãos.655 Observa-se, portanto, que com a ascensão do Estado Democrático de Di- reito e as contribuições trazidas pela dialética: Constitucionalismo e Democracia, em especial, pelo reconhecimento dos direitos fundamentais como um dos in- teresses perseguidos pela ação administrativa e da participação como forma de legitimação da escolha administrativa, as concepções tradicionais do Direito Administrativo encontram-se em crise. Neste sentido, observa-se um movimento nas últimas décadas do século XX por parte da doutrina administrativista, tanto na experiência estrangeira quanto na pátria, que voltou a uma visão crítica dos institutos e categorias fun- damentais – dentre os quais a concepção corrente de “supremacia” do interesse público – procedendo a difícil tarefa de tentar adequar a disciplina administra- tiva às transformações ocorridas na ordem político-jurídica. O tema será tratado a seguir. 3.2. Interesse Público e Regime Administrativo Brasileiro: As propostas de readequação Na perspectiva comparada, nota-se que a evolução recente do Direito Ad- ministrativo no século XX é marcada pela preocupação doutrinária com a pre- servação das garantias das posições jurídicas subjetivas dos administrados nas suas relações com a Administração Pública e com as crescentes limitações dos poderes de autoridade no exercício da atividade administrativa.656 No Direito pátrio, observa-se com a ascensão do Estado Democrático de Direito, a crise das categorias fundamentais do regime administrativo brasileiro – dentre os quais a concepção de interesse público – voltando-se a doutrina admi- nistrativa contemporânea, em especial, a partir das duas últimas décadas do século XX, às propostas de adequação da disciplina administrativa aos novos paradigmas. 655 JUNGESTED, Luiz Oliveira Castro. Direito Administrativo: Estado Gerencial Brasileiro. Niterói: Impetus, 2009, p. 13-14. 656 OTERO, Paulo. Legalidade e Administração Pública: O sentido da vinculação administrativa à juridicidade. 2ª reimpressão da edição de Maio/2003. Coimbra: Almedina, 2007. P. 282. 163 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Parte alguns autores, do fato que a teoria do direito administrativo sob um prisma lógico-conceitual é inconsistente, uma vez que embora a gênese da disci- plina jurídica seja associada ao advento do Princípio da Separação dos Poderes e da Legalidade, seus principais institutos foram “forjados” de maneira autônoma pelo Conselho de Estado Francês que carregava nas suas atribuições legislativas e judicantes a própria antítese de tais ideias.657 Como visto, a associação do Direito Administrativo com a ascensão do Estado de Direito Francês, apenas se demonstra adequado enquanto tido como a sistematização dos preceitos normativos em uma ciência jurídica, uma vez que a atividade administrativa sempre esteve sujeita a um conjunto de princípios e regras basilares que formam o seu regime administrativo, cuja origem remonta ao Oriente Antigo. Porém, considerado o surgimento do Direito Administrativo como ciência científica a partir das decisões jurisprudenciais do Conselho de Estado Francês, que resultou na criação de regras e formulação de princípios gerais aplicáveis a relação administrativa, a origem desse novo ramo do direito se revela “contraditó- rio” com os postulados da interpretação do Princípio da Separação dos Poderes.658 Uma vez que, as decisões do Conselho de Estado Francês não representa- vam a mera interpretação da lei com fins de sua aplicação, mas a criação de prin- cípios para a solução dos casos concretos, gerou-se um “ativismo normativo”, onde o juiz administrativo se substituía o Legislador como definidor normativo da Administração “determinando ao caso concreto a própria normatividade que vai construindo”. 659 Por esta razão, em outro vértice político-jurídico, tal doutrina demonstra que a teoria administrativa é autoritária, uma vez que embora sustentada a sua “decantada origem garantista” com as Revoluções Liberais, a maioria dos insti- tutos e categorias do direito administrativo além da matriz monárquica foram elaboradas tendo em vista a “preservação de uma lógica da autoridade e não a construção de uma lógica cidadã”.660 Observam os autores, que as Revoluções Liberais deixaram importantes legados aos poderes públicos, o Poder Executivo “não apresentounenhum des- 657 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 2. 658 OTERO, Paulo. Op. cit. p. 269. 659 OTERO, Paulo. Op. cit. p. 269. 660 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. 2. 164 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura taque significativo quanto à efetiva absorção dos princípios liberais”, seguindo uma principiologia “aposta”, com ênfase a institutos que reforçavam o poder do império do Estado, a sua atuação discricionária e a exclusão do administrado na formação do processo decisório.661 Ao revés, a Administração Pública no Estado Liberal é marcada por um “compromisso teórico” entre elementos liberais – consagração do Princípio da Separação dos Poderes e a garantia dos direitos individuais – e autoritários – como a criação de um estatuto especial de atuação e de controle para a Admi- nistração – de forma que é possível afirmar uma “certa continuidade entre os modelos de Estado absoluto e liberal”.662 Porém, a invocação do Princípio da Separação dos Poderes teve o objetivo de alargar esfera de liberdade decisória da Administração tornando-a imune a qualquer controle judicial, de forma que a criação da Jurisdição Administrativa com a subtração dos litígios do Direito Comum, não teve finalidade garantísti- ca, mas impedir que os Tribunais Judiciais limitassem à “liberdade de ação das autoridades administrativas”.663 As categorias como a discricionariedade administrativa de garantir a sub- tração de sua esfera de controle do Poder Judiciário, os poderes administrativos como restrições aos indivíduos sem referência ao regime constitucional de di- reitos fundamentais e o serviço público como uma eleição da Administração que não observa os interesses previstos na Constituição, dá suporte a um conceito fluido e vago de interesse público para o Estado. 664 As construções do Conselho de Estado, como a distinção entre atos de governo e administrativos puros ou as teorias reducionistas sobre o controle do ato administrativo, bem como, a presença de privilégios da Administração Pú- blica, denotam uma “nítida posição dominante da autoridade administrativa” e demonstram que o objetivo era “cercear os administrados nos seus litígios com a Administração Pública das garantias” 665 Neste sentido, anota-se que ao lado dos princípios expressos na Constitui- ção é comumente afirmado pela doutrina, a existência do princípio da supre- 661 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Mutações... Op. cit. p. 9. 662 SILVA, Vasco Manuel Pascoal Dias Pereira da. Op. cit. p. 38. 663 OTERO, Paulo. Op. cit. p. 275. 664 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 3. 665 OTERO, Paulo. Op. cit. p. 276-277. 165 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura macia do interesse público, que tem operado no direito administrativo como um “verdadeiro axioma, por vezes acompanhado de certo caráter autoritário”, sendo que a determinação pela Administração Pública do que seja interesse público é frequentemente acompanhado de obscuridade.666 Por fim, sob o ponto de vista pragmático, tal teoria é tida ineficiente, uma vez que os esquemas tradicionais pelo meio do qual se move o aparelho buro- crático tem baixo grau de eficiência, devido ao “pequeno grau de racionalidade do regime jurídico administrativo”, sendo as prerrogativas, antes um critério “per si” do que um meio para melhor realização de determinadas finalidades. 667 A sustentação pela Administração Pública da necessidade da preservação desses rigorosos princípios de autoridade para o desempenho da prossecução do interesse público vedou a interferências externas dos outros poderes e dos ad- ministrados, mantendo uma consideração autônoma e “conveniente distância” em face dos demais Poderes, tornando-se com isso, relativamente inacessível a interferências internas em sua atividade.668 Embora justificado na necessidade de regular a atividade do Poder Execu- tivo, acaba-se formando um ramo jurídico “animado por uma desigualdade do estatuto jurídico das partes envolvidas” com atribuições de “prerrogativas espe- ciais de autoridade” que demonstram o surgimento do Direito Administrativo como o Direito da Administração Pública e não dos administrados.669 Assim, a doutrina aponta, como já visto, que ao contrário dos países anglo-saxões cujo Estado de Direito pressupõe a vedação genérica à trata- mentos privilegiados pelo Poder Público, a tradição da Europa Continen- tal, baseada na existência de desigualdade confere à Administração como condição para a satisfação do interesse público, a posição de supremacia sobre os direitos individuais.670 Por efeito, estruturou-se o Direito Administrativo em torno de conceitos como imperatividade, insindicabilidade do mérito e poderes administrativo, de forma que tornou-se “quase unânime a articulação dogmática da disciplina so- 666 BAPTISTA, Patricia. Op. cit. p. 183-184. 667 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 3. 668 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Mutações de Direito Administrativo. 2 ed. atual e ampla. Renovar: Rio de Janeiro, 2011. p. 10. 669 OTERO, Paulo. Op. cit. p. 280-281. 670 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 16-17. 166 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura bre a idéia central de que o interesse público é um interesse próprio da pessoa estatal, externo e contraposto aos dos cidadãos.”671 De modo que, o Brasil marcado por um modelo de Administração pa- trimonialista encontrou no “figuro francês” do direito administrativo material “farto” para institucionalizar e legitimar essa ação administrativa, de forma que as “peculiaridades da Administração Pública brasileira aguçaram as contradi- ções intrínsecas que o modelo jus-administrativista europeu continental trazia já desde a sua gênese”.672 Isto explica porque a Administração Pública acabou-se por tornar o ramo mais “conservador” do Estado, aquele que se demonstrou mais “impérvio” as modificações, que mais se “beneficiaram com o período de hipertrofia estatal experimentado nesse século, e porque veio a ser justamente aquele em que as conquistas liberas foram mais demoradas e penosamente absorvidas”.673 Situada a problemática nos alicerces da teoria do Direito Administrativo, distintas são as contribuições trazidas pela doutrina administrativa contempo- rânea para a readequação de suas categorias fundamentais à ordem constitucio- nal e democrática vigente, ao qual busca-se empreender breve síntese de suas principais proposições, considerada a impossibilidade de pleno esgotamento. Parte da doutrina irá propor como alternativa ao déficit teórico da dis- ciplina, a idéia de constitucionalização do direito administrativo com a ado- ção de dois vetores axiológicos – direitos fundamentais e democracia – que convergindo com o princípio da dignidade da pessoa humana, pautariam a atuação da Administração Pública e, portanto, o arcabouço normativo do Direito Administrativo.674 No que se refere ao interesse público, indicam, que embora adotado no Es- tado Brasileiro o modelo de Constituição Dirigente, a multifária noção perma- neceu alheia à juridicização dos princípios e objetivos estatais, produzida pela Constituição, oferecendo a doutrina administrativa, as mais distintas conceitu- ações de interesse público, quase todas sem qualquer referência a prescrições da lei fundamental.675 671 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Op. cit. p. 11. 672 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 17. 673 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Op. cit. p. 11. 674 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 25. 675 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 19. 167 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura O reconhecimento da centralidade do sistema de direitos fundamentais instituído pela Constituição e a estrutura pluralista dos princípios constitucio- nais, bem como, a fluidez conceitual inerente a noção de interesse público, inviabiliza a determinação de uma regra absoluta e apriorística dos interesses públicos sobre o privado, mas a necessidade de avaliação dos interesses emjogo para determinar sua prevalência.676 O interesse público comporta, desde a sua configuração constitucional, uma “imbricação” necessária aos interesses comuns da coletividade e particula- res do indivíduo, que não permite se estabelecer a prevalência teórica e anteci- pada de um sobre outro, sem que reconduza o processo de aferição do interesse prevalecente à luz da Constituição.677 Propõem-se tais autores que em razão da vinculação à Constituição, o con- flito entre o interesse público e o privado, deixa de estar ao arbítrio do adminis- trador e do espaço livre de escolha, para depender de juízos de ponderação sob o critério da proporcionalidade, entre os direitos fundamentais e os outros valores e interesses metaindividuais consagrados pelas normas constitucionais. 678 Por efeito, com a adoção do método de ponderação dos interesses e autores envolvidos na questão, guiada pelo princípio da proporcionalidade amplia o critério de racionalidade na decisão administrativa, permitindo que a eleição do direito fundamental ou da necessidade coletiva prevalente, seja sujeita a flexibi- lidade necessária à atividade administrativa, porém, sem a incerteza jurídica da falta de critério no juízo discricionário. 679 Assim, do princípio da supremacia do interesse público alcança-se o dever de proporcionalidade, de forma que compete a Administração Pública à luz do caso concreto e dos valores constitucionais concorrentes buscar a solução que realize o máximo dos interesses em jogo, garantindo que entre as necessidades coletivas e as privadas prevaleça aquela que for de “melhor interesse público”. 680 Na ponderação será utilizado o princípio da proporcionalidade no tríplice aspecto: a adequação – da medida adotada para garantir a realização do inte- resse da coletividade, mas a sobrevivência do interesse privado – a necessidade 676 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 32. 677 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 105. 678 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 25. 679 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 32. 680 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 106. 168 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura – com inexistência de solução menos gravosa ao interesse privado – e a propor- cionalidade em sentido estrito - de forma que o benefício alcançado compense o grau de sacrifício imposto ao interesse privado.681 O processo de ponderação será inicialmente realizado pelo Poder Consti- tuinte que irá prever a restrição aos interesses privados ou transferir tal tarefa, de forma implícita ou explícita aos Poderes Constituídos, permitindo que a lei disponha em abstrato as hipóteses de restrição ou que o Administrador faça o juízo de escolha do interesse prevalente, cabendo ao Poder Judiciário, o controle de compatibilidade de tais atos com a Constituição. 682 No que tange às normas instituidoras de privilégios para a Administração Pública, propõe a doutrina a ponderação com o princípio da isonomia de forma a garantir que a discriminação em favor do particular seja apta a alcançar os fins almejados, que o grau de extensão deste observe o limite do necessário e exigí- vel e que o sacrifício imposto à isonomia seja compensado pela importância da utilidade gerada. 683 Em igual sentido, com fundamento na constitucionalização do direito que impõe um readequamento dos diversos campos à realidade constitucional e ao Direito Administrativo uma nova roupagem à luz do Estado Democrático de Di- reito, produz uma redefinição da ideia de supremacia do interesse público sobre privado e a ascensão do princípio da ponderação dos direitos fundamentais. 684 Não cabe a fundamentação da atuação estatal em um “abstrato e indeci- frável interesse público”, devendo a juridicidade dos atos estatais ser auferida à luz da ordem jurídica, em especial, com “os princípios norteadores da atividade administrativa e com os direitos fundamentais, considerados núcleos da Cons- tituição”, o que impõe à Administração Pública um ônus argumentativo maior para demonstrar a legitimidade de sua atuação.685 Por efeito, em caso de colisões entre interesses públicos e privados cabe a ponderação abstrata realizada democraticamente pelo Legislador, que orienta, e a pauta a interpretação judicial e administrativa, mas na sua impossibilidade de prever todos os conflitos que podem ocorrer, caberá 681 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 107. 682 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 109-112. 683 BINENBOJM, Gustavo. Op. cit. p. 114. 684 OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Op. cit. p. 30. 685 OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Op. cit. p. 104-105. 169 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura ponderações concretas pela Administração ou Judiciário, pautadas, pelo princípio da proporcionalidade ou razoabilidade. 686 Em igual sentido, outros autores chamam a atenção que a noção de supre- macia do interesse público está ligada a Escola da puissance publique de origem alemã que se relaciona a uma concepção do Estado de Direito à auto-limitação, onde inexiste princípio ou regra imponível ao Estado, além daquelas criadas por ele em um direito especial – administrativo – que visa assegurar a supremacia de sua vontade sobre a sociedade.687 Lembram que esta concepção de uma preponderância do interesse público sobre os privados, já conduziu nos Estados Unidos da América em razão da segu- rança nacional sobre as liberdades fundamentais, a decisões extremamente criticá- veis como o confinamento de norte-americanos apenas em razão de sua origem japonesa em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. 688 Exemplo recente foi o chamado Patriot Act, uma lei norte-americana de 2001 que com fundamento no interesse público de garantir a segurança nacio- nal em frente ao combate ao terrorismo, garantiu uma série de prerrogativas ao Executivo sem autorização judicial como interceptação telefônica, invasão de domicílio, prisão e interrogação, inclusive, com uso de tortura, sem direito à defesa ou julgamento, dentre outros.689 Reconhecem a existência de hipóteses em que o Constituinte ou legisla- dor já realizou a prévia ponderação dos valores envolvidos na norma jurídica, optando pela precedência de um ou outro e que apenas na ausência de tais regras, cabe a Administração e ao Poder Judiciário a possibilidade de efetuar a ponderação dos valores envolvidos na questão, porém, sob alguns critérios. 690 686 OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende. Op. cit. p. 105. 687 ARAGÃO, Alexandre Santos de. A “Supremacia do Interesse Público” no Advento do Estado de Direito e na Hermenêutica do Direito Público Contemporâneo” in: SARMENTO, Daniel. Interesses Públicos versus Interesses Privados: Desconstruindo o Princípio de Supremacia do Interesse Público. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005. p. 1-2. 688 ARAGÃO, Alexandre Santos de. Op. cit. p. 7. 689 ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, USA Patriot Act, Senado dos Estados Unidos, 24 de Outubro de 2001. Sec. 201. “Autoridade para interceptar fio, oral, e às comunicações electrónicas relacionadas com o terrorismo.” Sec. 209 “Apreensão de mensagens de correio de voz nos termos do warrants.” Sec. 217. “A intercepção de comunicações computador trespasser.” Sec. 412. “Detenção obrigatória de suspeitos de terrorismo” Sec. 416. “Programa de monitoramento de estudante estrangeiro”. Dentre outros. Disponível em: http://epic.org/privacy/terrorism/hr3162.html. Acesso em 26.12.2013. 690 ARAGÃO, Alexandre Santos de. Op. cit. p. 11 170 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Apontam com destreza a necessidade de uma ponderação entre os in- teresses em jogo – públicos e privados – se submeter a critérios racionais, com a prevalência pelo intérprete dos argumentos jurídicos ligados diretamente ao texto de regra específica, do que sobre argumentos metajurídicos ou subjetivos como a invocação do interesse público e seus derivados – segurança nacional, ordem pública e outros.691 Cabe na aplicação da Constituição, a proeminência de argumentoscalca- dos em uma interpretação realizada sobre o seu texto normativo, do que não ligados a este, como uso de elementos trazidos da teoria ou política jurídica, bem como, concepções filosóficas ou sociais exógenas, que podem conduzir que os direitos sejam atingidos por restrições não albergadas constitucionalmente.692 Outras críticas chamam a atenção para a absoluta indeterminação do con- ceito de interesse público que se por um lado encontra-se em “profunda crise” com a fragmentação e pluralismo que caracteriza as sociedades contemporâneas, em outro periga tornar-se o “novo figurino para a ressurreição das ‘razões do Estado’”, postas como obstáculo intransponível para o exercício de direitos fundamentais.693 Porém, se relembra que a subordinação dos direitos individuais ao interes- se coletivo pode ser a “antessala para totalitarismo de variadas matizes”, não ig- nora que a “desvalorização total” dos interesses públicos diante dos particulares pode conduzir à anarquia e ao caos geral, inviabilizando qualquer possibilidade de regulação da existência comum em sociedade.694 Demonstra que os contornos entre público e privado estão cada vez mais tênues conforme o Direito Público se privatiza e o Direito privado se publiciza, bem como, a compreensão que o espaço público não necessariamente é restrito a atividade estatal, mas da própria sociedade civil, demonstra que o campo de domínio do público e do espaço não são separados de forma rígida e esquemáti- ca, mas penetra-se e entrecruza-se frequentemente. 695 Aponta que a questão em debate pode ser sustentada do ponto de vista de uma teoria moral a partir das seguintes perspectivas: organicismo – onde o 691 ARAGÃO, Alexandre Santos de. Op. cit. p. 10-11. 692 ARAGÃO, Alexandre Santos de. Op. cit. p. 16. 693 SARMENTO, Daniel. Interesses Públicos vs. Interesses Privados na Perspectiva da Teoria e da Filosofia Constitucional in SARMENTO, Daniel (org). Op. cit. p. 27. 694 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 28. 695 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 47-48. 171 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura interesse público é algo superior e diferente ao somatório dos interesses de seus membros – utilitarismo – onde o interesse da coletividade se confunde com os interesses dos indivíduos garantindo a sua maximização, sendo a tese da supre- macia assentada sobre o individualismo. 696 Em um vértice, para o organicismo, as comunidades políticas possuem fins, valores e objetivos próprios que transcendem seus integrantes, dotando o Esta- do de um direito soberano perante os seus membros para prossecução de tais fins, ainda, que em detrimento de seus interesses, o que exterioriza uma “filo- sofia autoritária e liberticida” incompatível como o princípio da dignidade da pessoa humana onde cada indivíduo é um fim em si mesmo. 697 Em outro campo, para o utilitarismo as questões político-sociais da comu- nidade são resolvidas pela promoção em maior escala dos interesses dos seus membros, admitindo-se o sacrifício de interesse de um membro se compensado por proveitos superiores nos interesses dos outros, o que é incompatível com nossa ordem jurídica onde os direitos fundamentais são protegidos dos interes- ses da maioria pela sua consagração como cláusulas pétreas.698 Por fim, com o individualismo, a esfera privada é prioritária em relação à pública, devendo o Estado se abster de qualquer ingerência nas liberdades dos indivíduos, ainda, que para garantir a igualdade, gerando uma primazia incondicional dos direitos individuais sobre os coletivos, que não se sustenta na ordem constitucional brasileira que consagra fins sociais e volta-se a igualdade material mediante políticas públicas de cunho redistributivo.699 Assim, entre os extremos do organicismo e utilitarismo que conduzem a uma supremacia do interesse público aniquilando os interesses privados e do individualismo que produz a primazia dos interesses privados destruindo o inte- resse público, propõe um equilíbrio de forma que havendo conflito entre um e outro deve ser resolvido através da ponderação de interesse no caso concreto, caso não solvido previamente pelo legislador.700 Isto porque a supremacia ao afirmar a superioridade a priori de um dos bens em jogo sobre o jogo elimina qualquer possibilidade de sopesamento, com 696 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 52. 697 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 53 e 56-57. 698 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 58 e 61-62. 699 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 71. 700 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 81. 172 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura a “vitória completa e cabal” do interesse público independente do caso concre- to, ao invés da procura racional de solução equilibrada entre o interesse público e privado, permitindo harmonizar os bens jurídicos constitucionalmente prote- gidos, sem optar pela realização de um em prejuízo do outro. 701 Porém, tratando-se de um conflito entre direitos fundamentais e o interesse público tais autores postulam, em razão da sua centralidade no ordenamento jurídico, bem como, do dever de proteção pelos poderes públicos que devem abster-se de sua violação, uma precedência prima facie dos direitos fundamentais, com aplicação de peso inicial superior a estes, com ônus argumentativo maior para o interesse da coletividade sobrepuja-lo.702 Ademais, relembram que tratando-se de restrição de direitos fundamen- tais deve-se observar o “limite dos limites” que corresponde ao “núcleo essen- cial” do direito703, de forma que no juízo de ponderação entre o interesse público e privado, não cabe a prevalência do interesse da coletividade quando isto im- portar em atingir o núcleo essencial do direito fundamental, o que resultará não em sua restrição, mas esvaziamento do seu conteúdo. Sendo outro interesse privado, que não constitua um direito fundamental, em conflito com os interesses da coletividade, propõe tais autores, o juízo de ponderação com critério da proporcionalidade buscando atribuir maior raciona- lidade à decisão, porém, de forma mais “cautelosa”, de modo que após o proces- so se persistir dúvida sobre o prevalecente deve o Poder Judiciário ter deferência com a decisão do Executivo.704 As críticas à supremacia do interesse público, também, concentram-se na sua natureza: segundo seus adeptos trata-se de princípio jurídico – de cujos pres- supostos de validade e posição hierárquica permitiriam que fosse descoberto a priori, daí sua definição por eles de “axioma” – e relacional – uma vez que regularia a relação do Estado e particular definindo que o conflito a solução em abstrato é em favor do interesse público.705 701 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 100. 702 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 103. 703 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 105. 704 SARMENTO, Daniel. Op. cit. p. 114-115. 705 ÁVILA, Humberto. Repensando o “Princípio da Supremacia do Interesse Público sobre o Particular” in: SARMENTO, Daniel (org). Op. cit. p. 173-174. 173 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura Explica que a expressão princípio é polivalente, podendo representar um axioma – proposição cuja veracidade é aceita por todos, não sendo possível e nem necessário prová-la – um postulado – condições do conhecimento de deter- minado objeto – e por fim como norma – prescrição normativa com fundamen- to de validade explícito ou implícito no ordenamento jurídico que determina, proíbe ou permite.706 Neste tocante, a supremacia do interesse público não é norma-prin- cípio, uma vez que sua descrição abstrata não permite uma concretização gradual, sendo a prevalência a única possibilidade (ou grau) normal de apli- cação, independente das possibilidades fáticas e normativas, o que exclui a possibilidade de sua ponderação, pois o interesse público já tem peso maior que o interesse particular.707 As normas-princípios resguardam interesses diversificados e contraditórios em uma relação de tensão. Assim, arremata que o que “pode ser descritoem abstrato é só uma espécie de dependência entre as diferentes normas jurídicas e os bens jurídicos por elas tutelados”, mas não uma relação de prevalência, que só pode ser verificada, entre os princípios diante de um caso concreto.708 Ademais, ainda, que fosse considerado como um princípio abstrato e re- lativo falta-lhe fundamentos jurídico-positivo de validade, uma vez que não se extrai da Constituição nenhuma norma-princípio de prevalência dos interesses públicos, mas ao contrário, das normas-princípios fundamentais709, os direitos e garantias fundamentais710 e as normas-princípios gerais711 denotam uma Consti- tuição Cidadã preocupada com o indivíduo.712 Fora isto, o “princípio” não coaduna com postulados normativos extra- ídos da norma constitucional – como o princípio da proporcionalidade e da concordância prática – que demandam que o meio e o fim não fiquem em rela- ção de desproporção e que os interesses devam ser ponderados de forma que a 706 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 179. 707 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 184. 708 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 185. 709 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa de 05 de Outubro de 1988. Art. 1º a 4º. 710 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa de 05 de Outubro de 1988. Artigo 5º a 17. 711 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa de 05 de Outubro de 1988. Artigo 140, 145 e 170. 712 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 186. 174 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura coordenação entre os bens constitucionais protegidos possa atribuir a máxima realização a cada um deles. 713 A supremacia do interesse público, também, não é um axioma, uma vez que essa prevalência abstrata não é auto evidente e nem resulta de per si e, tão pouco, um postulado visto que não é condição de conhecimento do objeto e não encontra a sua referibilidade no ordenamento jurídico, ademais, ele não pode ser descrito sem os interesses privados que consistem em sua parte e sem referência a uma situação concreta. 714 Assim, arremata o autor, que tanto conceitualmente quanto normati- vamente não há uma norma-princípio da supremacia do interesse público sobre o privado capaz de impor restrições ao particular, admitindo a partir do postulado da unidade da reciprocidade de interesses um juízo de ponde- ração determinando os bens envolvidos e as normas aplicáveis e buscando proteger ao máximo esses bens. 715 Parte da doutrina, ao trazer à baila a utilização por considerável produção teórica do Direito Administrativo de idéias fundantes de um regime jurídico- -administrativo, que mesmo advindo de autores vinculados à efetividade da Constituição e com valores democráticos, podem justificar a emergência de “manipulações discursivas negadoras dos direitos fundamentais e de seu regime jurídico-constitucional”.716 Anota com clareza, que a assunção da supremacia do interesse público sobre o privado como uma “cláusula geral de restrição” de direitos fundamentais tem possibilitado a emergência de uma “política autoritária de realização cons- titucional, onde os direitos, liberdades e garantias fundamentais devem ceder aos reclames do Estado que, qual Midas, transforma em interesse público tudo aquilo que é tocado”. 717 Assim, parte da crítica não ao conteúdo de interesse público, mas de sua forma que envolve a “entronização do interesse público num pretenso patamar hierárquico superior àquele ocupado pelos direitos e liberdades fundamentais”, 713 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 191. 714 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 205-206 e 214. 715 ÁVILA, Humberto. Repensando... Op. cit. p. 215. 716 SCHIER, Paulo Ricardo. Ensaio sobre a Supremacia do Interesse Público sobre o Privado e o Regime Jurídico dos Direitos Fundamentais in: SARMENTO, Daniel (Org) Op. cit. p. 217-218. 717 SCHIER, Paulo Ricardo. Op. cit. p. 218-219. 175 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura o que ignora é que tanto o Estado quanto a Constituição encontram seu funda- mento e legitimidade no respeito aos direitos fundamentais.718 Com esteio na doutrina, demonstra que as restrições aos direitos funda- mentais apenas ocorrem nos casos expressamente admitidos pela Constituição, inexistindo uma cláusula geral que as permita, pois apenas ocorre quando es- tipuladas pelo constituinte originário de forma direta ou mediante autorização expressa através de reserva de lei, que não pode, portanto, deixar o campo da atuação discricionária da Administração Pública.719 Ademais, demonstra que a restrição encontra limites, uma vez que deve ter caráter geral e abstrato, ser materialmente vinculada ao princípio da pre- servação do núcleo essencial e apenas é tida legítima quando necessária para salvaguardar outro direito, interesse ou bem constitucionalmente protegido, sujeitando-se aos princípios da proibição do excesso e da proporcionalidade. 720 Ademais, tendo em vista, o princípio da unidade da Constituição, que não importa em uma unificação política, mas na coexistência de uma plu- ralidade de valores, princípios e de interesses resulta que os interesses pú- blicos e privados se complementam e se harmonizam, Não se encontrando em regra, pois a realização de um importa na do outro, embora não negue a possibilidade de conflitos. 721 Havendo, todavia, eventuais colisões entre os interesses são resolvidas pre- viamente pelo constituinte originário, que pode optar pela prevalência de um ou outro, ser remetida ao campo da ponderação infraconstitucional observado o princípio da reserva de lei ou em último caso remetida à ponderação de va- lores diante do caso concreto através da mediação jurisdicional sem adoção de nenhum critério de preferência predeterminado.722 Outra crítica pertinente, é que seja pelos limites da legalidade na fixação dos múltiplos interesses sob a ação administrativa, pela rara adoção de fórmulas explícitas, deixando usualmente definições pouco precisas ou ambíguas ou pela utilização de expressões com conteúdo de difícil determinação como “interesse 718 SCHIER, Paulo Ricardo. Op. cit. p. 221 e 223. 719 SCHIER, Paulo Ricardo. Op. cit. p. 225-226. 720 SCHIER, Paulo Ricardo. Op. cit. p. 226. 721 SCHIER, Paulo Ricardo. Op. cit. p. 231 e 235. 722 SCHIER, Paulo Ricardo. Op. cit. p. 231 e 235. 176 Um Fundamento do Regime Administrativo Emerson Affonso da Costa Moura social”, “bem comum”. Há um amplo espaço de discricionariedade para a Ad- ministração Pública fixar o conceito de interesse público.723 Por efeito, ao invés de limitar-se ao desenvolvimento de meios para a sua realização, a Administração passou a definir ela mesmo o conteúdo desse inte- resse de forma que o arbítrio que a construção do princípio da legalidade buscou afastar “voltou disfarçado”, de maneira que torna-se “muito difícil” sustentar a supremacia de um interesse público sobre o privado assim determinado. 724 Relembra que, a sociedade contemporânea é pluralista, de forma que a di- cotomia interesse público-privado não mais se mostra suficiente para solucionar a questão, uma vez que todas as espécies de interesses são manifestações oriun- das do corpo social e a elevação de inúmeros interesses privados à condição de direitos fundamentais, torna impossível determinar, por antecipação, qual delas irá sobrepor às demais. 725 Aponta com destreza, que o suposto fundamento no pacto social firmado entre o homem e o Estado é frágil, uma vez que a prevalência sobre os direitos fundamentais nãos é ajustada à concepção contratualista das relações entre o homem e o Estado: é improvável que os homens concordassem em fixar um princípio que determinasse em quaisquer circunstâncias, o sacrifício de seus interesses pessoais em prol da preponderância do interesse público.726 Neste sentido, propõe no lugar da supremacia do interesse público à má- xima realização dos interesses envolvidos como fundamento fim da atividade administrativa,