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DIREITO DO CONSUMIDOR - AULA TEÓRICA 02 – Princípios do CDC 1. Vulnerabilidade do consumidor e inversão do ônus da prova: A vulnerabilidade do consumidor é expressamente reconhecida no inciso I do art. 4º do CDC e fundamenta a Política Nacional das Relações de Consumo, sendo a razão da própria determinação constitucional de publicação do CDC (arts. 5º, XXXII, e 170, V, da CF/88). “Vulnerabilidade é uma situação permanente ou provisória, individual ou coletiva, que fragiliza, enfraquece o sujeito de direitos, desequilibrando a relação de consumo” (Cláudia Lima Marques). Tem caráter material e é presumida absolutamente. Hipossuficiência, por sua vez, tem caráter processual e é presumida relativamente, incumbindo à parte contrária demonstrar ausência de tal qualidade. Quatro espécies de vulnerabilidade ou hipossuficiência: I - Vulnerabilidade Técnica: desconhecimento das especificidades técnicas do produto ou serviço que está contratando ou adquirindo; II - Vulnerabilidade Jurídica: parcos conhecimentos jurídicos sobre o produto ou serviço que está contratando ou adquirindo; III - Vulnerabilidade Fática ou Econômica: atrelada à análise de circunstâncias fáticas ligadas à contratação do serviço ou aquisição do produto (ex.: monopólio, possibilidade de escolha, situação de urgência etc.) além da questão econômica; IV - Vulnerabilidade Informacional: decorrência de “dados insuficientes sobre o produto ou serviço capazes de influenciar no processo decisório de compra”. Hipervulnerabilidade: artigo 39, inciso IV do CDC, considera como prática abusiva, “prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços”. Inversão do ônus da prova: direito básico do consumidor previsto no artigo 6º, inciso VIII do CDC, de “a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências”. o CDC conta com três hipóteses de inversão ope legis do ônus da prova em seus arts. 12, §3º, 14, §3º e 38. 2. Defesa do consumidor pelo Estado: Direito a uma ação afirmativa ou positiva do Estado em favor dos consumidores; criação de políticas públicas ligadas à proteção do consumidor; intervenção, direta ou indireta, do Estado no domínio econômico; Política Nacional das Relações de Consumo (art. 5º do CDC); Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (arts. 105 e 106 do CDC). 3. Harmonização: “harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores” (artigo 4º, inciso III do CDC). 4. Boa-fé objetiva: Princípio que se diferencia da tradicional análise de boa-fé subjetiva, ligada ao estado psicológico interno de cada pessoa em qualquer relação da vida civil, na medida em prioriza a análise da conduta das partes sob uma perspectiva externa, buscando-se aferir se as ações por elas adotadas se compatibilizam com os padrões de comportamento razoavelmente exigíveis. Possui três funções: interpretativa; integrativa; limite ao exercício de direitos subjetivos. 5. Transparência: Oportunizar às partes envolvidas na relação consumerista amplo acesso às informações que envolvam o produto ou o serviço negociado, desde sua fabricação ou execução, passando por sua comercialização, utilização e vida útil. Exigência de que o fornecedor disponibilize informações “corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua 2 portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores.” Campo de atuação nas fases pré-contratual, contratual e pós-contratual. 6. Informação: Ônus do fornecedor o oferecimento amplo de informações relativas ao produto ou serviço que oferta. Direito básico do consumidor (art. 6º. III do CDC). O STJ já entendeu que informação adequada é informação completa, gratuita e útil. A obrigação de informação é desdobrada em 4 categorias: conteúdo, utilização, preço e advertência. A falha no atendimento aos preceitos do princípio da informação gera, quanto à oferta, publicidade enganosa (por omissão ou por comissão – art. 37, §§ 2º e 3º, do CDC). 7. Segurança: o art. 6º, I, do CDC, que estabelece ser direito básico do consumidor a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos. O art. 8º do CDC, em reforço, diz que os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito. 8. Equilíbrio nas prestações: O CDC, em seu art. 6º, V, prevê como direito básico do consumidor a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou a revisão das cláusulas em razão de fatos supervenientes que tornem aquelas obrigações excessivamente onerosas. 9. Reparação integral: o art. 6º, VI, estabelece que o consumidor tem direito à efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos, visando a ampla reparação do dano eventualmente experimentado, em qualquer de suas vertentes, como forma, inclusive, de prevenir a ocorrência de novas violações (função dissuasória). 10. Responsabilidade solidária: o consumidor poderá exigir o seu direito à reparação contra todos aqueles fornecedores, ou contra apenas um deles, conforme preferir, levando-se em conta a solidariedade entre eles. 11. Interpretação mais favorável ao consumidor: O art. 47 do CDC dispõe que “as cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor”. 12. Reparação objetiva: a responsabilidade prevista no sistema consumerista é marcada pela objetividade, ou seja, independe da apuração de culpa para sua ocorrência. Exceções: art. 14, § 4º, do CDC, que estabelece que “a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa”; art. 28, § 4º, do CDC, que afirma que “as sociedades coligadas só responderão por culpa”; e as ligadas à responsabilização penal (arts. 61 a 80 do CDC) que, por razão constitucional, não comportam responsabilidade objetiva. 13. Conservação do contrato: O CDC diz no art. 51, § 2º, que a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando da ausência dessa cláusula, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes. 14. Obrigatoriedade dos contratos: O contrato que sofre o influxo do CDC também é exequível de maneira coercitiva, na forma do art. 389 do CC/02. Entretanto, diversamente do que ocorre no diploma civilista, a flexibilização do pacta sunt servanda não se restringe às hipóteses de caso fortuito ou força maior (art. 393 do CC/02) ou de aplicação da teoria da imprevisão (arts. 317 e 478 do CC/02).