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AULA 4 DIREITO DE FAMÍLIA Prof. Ricardo Calderón 2 INTRODUÇÃO Um dos principais aspectos práticos dentro do direito de família são os instrumentos utilizados para a efetivação da obrigação alimentar, que tiveram regulação pormenorizada pelo Código de Processo Civil de 2015. O escopo é atenuar as dificuldades práticas e assegurar o cumprimento da obrigação para, assim, garantir uma maior eficácia do adimplemento da verba alimentícia. O Código em vigor, além de ampliar o tratamento da exigibilidade da verba alimentar, as adequou ao cotidiano da advocacia, possibilitando uma compreensão mais simples dos seus variados procedimentos. Algumas praxes consolidadas pela jurisprudência também acabaram incorporadas no texto legal, o que tornou mais segura a sua aplicação pelo operador do direito. O atual regramento deixa claro que a verba devida a título de alimentos deve ser assegurada no início do processo, de modo a garantir o direito à vida do alimentado antes mesmo da instrução probatória. Invariavelmente, constam pedidos liminares nas variadas ações alimentares, sendo que na quase maioria dos casos são concedidas tutelas de urgência inaudita altera pars, o que torna patente a relevância dessas medidas antecipatórias para os casos alimentares. Como visto, as novas tutelas provisórias foram organizadas de forma coesa com base no art. 294 do CPC e foram divididas entre tutelas de urgência (tutela de urgência cautelar e tutela de urgência antecipada) e tutelas de evidência, as quais, independentes de subgêneros e especificidades, podem ser modificadas ou revogadas (art. 296 do CPC). “Art. 294. A tutela provisória pode fundamentar-se em urgência ou evidência. [...] Art. 296. A tutela provisória conserva sua eficácia na pendência do processo, mas pode, a qualquer tempo, ser revogada ou modificada” (Brasil, 2015). Quanto às diferenciações das verbas alimentares, estas decorrem do título no qual está posta a referida obrigação alimentar: se o título é judicial, baseia-se na ideia do cumprimento de sentença, podendo este ser dividido entre cumprimento pelo rito da penhora ou cumprimento pelo rito da prisão civil – na linguagem coloquial utilizada entre os profissionais do meio. Em contrapartida, quando se está a tratar de título extrajudicial, o procedimento será de execução, também sendo dividida entre execução pelo rito da penhora ou execução pelo rito da prisão civil. O que irá diferenciar o acesso a cada um dos ditos ritos, entre da penhora e o da prisão, é o tempo de vencimento da obrigação objeto da cobrança: se recente, 3 pode ser demandada pelo chamado rito da coerção pessoal (prisão); se pretérita, deve ser demandada pelo chamado rito da coerção patrimonial (penhora). Resumidamente, é possível afirmar que a efetivação da obrigação alimentar se dá por meio de procedimentos específicos de cumprimento de sentença (arts. 528 a 533 do CPC) e execução de alimentos (arts. 911 a 913 do CPC) (Brasil, 2015), a variar conforme organograma a seguir: Figura 1 – Organograma da obrigação alimentar Assim, pode-se asseverar que o atual Código de Processo Civil melhor estruturou os instrumentos para se efetivar o direito aos alimentos, em especial, no que se refere às tutelas de urgência, procurando garantir a sobrevivência daqueles que depende de outrem e, assim, tutelar a subsistência e a dignidade da pessoa constitucionalmente protegida. TEMA 1 – NATUREZA E ESPÉCIES DAS OBRIGAÇÕES ALIMENTARES O Código de Processo Civil de 2015 implementou algumas mudanças nas formas de satisfação das verbas alimentares, que trazem consequências quanto à forma de efetivação das tutelas de urgência. Inicialmente, cabe destacar que as liminares decorrentes das ações de alimentos são cumpridas de forma definitiva, ou seja, as tutelas provisórias de alimentos se efetivam nos moldes das tutelas definitivas (o que as difere das demais tutelas provisórias não alimentares, que se efetivam na forma de cumprimento provisório). Obrigação alimentar Título Judicial - cumprimento de sentença (art. 528 e ss) Cumprimento pelo rito de prisão civil (art. 528, 3º) Cumprimento pelo rito da penhora (art. 528 §8º) Título extrajudicial - execução de alimentos (art. 911 a 913) Execução pelo rito de prisão (art.911) Execução pelo rito da penhora (art. 913) 4 Tal regramento encontra fundamento no princípio de que as verbas alimentares são derivadas da necessidade vital daquele que não possui meios de se sustentar, o que faz com que o beneficiário tenha que ter condições de receber os valores e desde logo usufruir deles (definitivamente). Esta particularidade é que faz com essa verba seja tratada de forma diferenciada pelo CPC 2015. 1.1 Alimentos provisórios Os alimentos provisórios são aqueles fixados liminarmente no início do processo, antes mesmo da citação da parte contrária (usualmente, consta do despacho que aprecia a petição inicial na ação de alimentos). O juiz deverá fixá-los quando presentes os seus requisitos legais. Um aspecto relevante nessa temática é que há uma legislação específica sobre a matéria para além do Código Civil e do Código de Processo Civil, regramento que merece ser conhecido e consultado: trata-se da antiga Lei de Alimentos, que ainda tem vários dispositivos em vigor. Nesse sentido, é o entendimento do doutrinador Flávio Tartuce (2017, p. 338): Alimentos provisórios: são aqueles fixados de imediato na ação de alimentos que segue o rito especial previsto na Lei 5.478/1968 (Lei de Alimentos), norma que não foi totalmente revogada pelo Novo CPC, permanecendo em vigor na maioria dos seus dispositivos. Em outras palavras, estão fundados na obrigação alimentar e, por isso, exigem prova pré-constituída do parentesco (certidão de nascimento) ou do casamento (certidão de casamento). São frutos da cognição sumária do juiz antes mesmo de ouvir o réu da demanda. Alguns autores criticam a manutenção em vigor de alguns dispositivos da antiguíssima Lei de Alimentos, entendendo que o CPC 2015 deveria ter incorporado os artigos em vigor no seu texto de modo a revogá-la por completo. Entretanto, não foi essa a opção do legislador e, portanto, seguem em vigor ambos os diplomas. Além disso, o Código de Processo Civil determina que a execução dos alimentos provisórios, bem como dos alimentos fixados em sentença, ainda não transitada em julgado, deve ser processada em autos apartados (art. 531, parágrafo 1º do CPC): “§ 1º A execução dos alimentos provisórios, bem como a dos alimentos fixados em sentença ainda não transitada em julgado, se processa em autos apartados" (Brasil, 2015). É importante destacar ainda que, em caso de alimentos provisórios, os requisitos da comprovação da urgência (do fundado receio de dano irreparável ou 5 de difícil reparação e do perigo da mora) podem ser dispensados, visto que se trata de alimentos pleiteados em procedimento especial, fundamentando-se na própria Lei de Alimentos, de n. 5.478/68, de modo que a premência fática resta presumida (Brasil, 1968). No caso de alimentos provisórios, faz-se necessária apenas a comprovação inicial da existência de vínculo de parentesco, de casamento ou de união estável para que o juiz possa fixar liminarmente a verba alimentar. 1.2 Obrigação alimentar judicial e extrajudicial As verbas alimentares visam assegurar a subsistência daquele que as recebe, e é por esse princípio que o Código de Processo Civil trouxe quatro formas distintas de executar os alimentos, divididas pela natureza dos seus títulos, sendo eles decorrentes de títulos judiciais ou extrajudiciais. Em se tratando de título executivo judicial, a obrigação alimentar, em face do inadimplemento do executado, poderá ser pleiteada em forma de cumprimento de sentença, podendo ainda o exequente utilizar a forma cumprimento pelo ritoda prisão civil ou pelo rito da pela penhora de bens, fundamentando sua pretensão nos arts. 528 e seguintes do Código de Processo Civil. Art. 528. No cumprimento de sentença que condene ao pagamento de prestação alimentícia ou de decisão interlocutória que fixe alimentos, o juiz, a requerimento do exequente, mandará intimar o executado pessoalmente para, em 3 (três) dias, pagar o débito, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de efetuá-lo. (Brasil, 2015) Por outro lado, títulos executivos extrajudiciais são aqueles derivados de transação de alimentos realizados extrajudicialmente, como os mediados pelo Ministério Público, Defensoria Pública, acordos diretos entre os advogados das partes, conciliadores e mediadores, entre outros. Também alimentos que constem em escrituras públicas de divórcios são exemplos de obrigações em títulos extrajudiciais. Neste caso, o exequente poderá, assim como no cumprimento de sentença, realizar a exigência dos alimentos em duas vias distintas, derivadas do rito processual por prisão civil ou por penhora de bens. Por fim, conforme deliberado pelo Superior Tribunal de Justiça, a escolha técnica processual executiva para a obtenção da tutela do direito aos alimentos obedece aos interesses do credor, portanto, em ambas as espécies procedimentais, quem recebe alimentos é livre para eleger qual o meio processual que pretende utilizar. 6 II - Cabe ao credor a opção pela via executiva da cobrança de alimentos. Assim, pode optar pela cobrança com penhora de bens ou ajuizar desde logo a execução pelo procedimento previsto no art. 733, CPC, desde que se trate de dívida atual. (Brasil, 2002b) TEMA 2 – DAS MEDIDAS PREVISTAS NO CPC PARA EFETIVAÇÃO DA OBRIGAÇÃO ALIMENTAR O Código de Processo Civil de 2015 trouxe diversas formas de implementação e de coerção da obrigação alimentar. A seguir, analisaremos as principais delas. 2.1 Protesto Uma das grandes novidades previstas no CPC é o caso em que o executado, caso não efetue o pagamento da verba alimentar vencida, não prove que já o fez ou não apresente justificativa da impossibilidade de fazê-lo, o que acarretará o protesto da decisão judicial (com a negativação do nome do devedor). Essa medida se apresenta como uma forma coercitiva eficaz para forçar o adimplemento da obrigação alimentar, sendo prevista da seguinte forma no diploma processual civil em vigor, em seu art. 528, parágrafo 1º: § 1º Caso o executado, no prazo referido no caput, não efetue o pagamento, não prove que o efetuou ou não apresente justificativa da impossibilidade de efetuá-lo, o juiz mandará protestar o pronunciamento judicial, aplicando-se, no que couber, o disposto no art. 517. (Brasil, 2015, grifo nosso) Assim, o protesto poderá ser efetivado tanto em sede de alimentos provisórios quanto em alimentos definitivos, sendo inclusive possível a decretação por ofício do Juízo. Esta também é uma diferença das demais exigências de dívidas em juízo, para as quais o protesto depende de requerimento expresso da parte credora. Tratando-se de obrigação alimentar, o protesto pode (e deve) ser determinado de ofício pelo juízo. 2.2 Desconto em folha Em relação à coerção patrimonial, restou consagrado o desconto em folha de pagamento do devedor, conforme o disposto no art. 529 do Código de Processo Civil, permitindo, inclusive, que o salário do alimentante seja passível de desconto em até 50% (Brasil, 2015). Veja-se o dispositivo legal: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art517 7 Art. 529. Quando o executado for funcionário público, militar, diretor ou gerente de empresa ou empregado sujeito à legislação do trabalho, o exequente poderá requerer o desconto em folha de pagamento da importância da prestação alimentícia. § 3º Sem prejuízo do pagamento dos alimentos vincendos, o débito objeto de execução pode ser descontado dos rendimentos ou rendas do executado, de forma parcelada, nos termos do caput deste artigo, contanto que, somado à parcela devida, não ultrapasse cinquenta por cento de seus ganhos líquidos. (Brasil, 2015, grifo nosso). Essa é mais uma das exceções específicas da obrigação alimentar, visto que, em regra, o salário é impenhorável. A atual legislação permite que até 50% por cento dos salários sejam destinados ao pagamento de verbas alimentares: por exemplo, 30% do valor mensal atual e 20% para quitar verbas pretéritas devidas pelo trabalhador. 2.3 Multa e expropriação de bens Além das formas já citadas, destacam-se a multa e a penhora de bens em face da inadimplência do executado. Essas formas seguem o rito do art. 523 do CPC e podem ser usadas como forma de coerção patrimonial, para garantir o devido cumprimento da prestação alimentar: Art. 523. No caso de condenação em quantia certa, ou já fixada em liquidação, e no caso de decisão sobre parcela incontroversa, o cumprimento definitivo da sentença far-se-á a requerimento do exequente, sendo o executado intimado para pagar o débito, no prazo de 15 (quinze) dias, acrescido de custas, se houver. § 1º Não ocorrendo pagamento voluntário no prazo do caput, o débito será acrescido de multa de dez por cento e, também, de honorários de advogado de dez por cento. § 2º Efetuado o pagamento parcial no prazo previsto no caput, a multa e os honorários previstos no § 1º incidirão sobre o restante. § 3º Não efetuado tempestivamente o pagamento voluntário, será expedido, desde logo, mandado de penhora e avaliação, seguindo-se os atos de expropriação. (Brasil, 2015, grifo nosso). Ou seja, pelo rito da expropriação patrimonial, a consequência do não pagamento após o prazo legal é a incidência, desde logo: da multa de 10% e honorários de advogado de mais 10%, o que já majora o valor total em 20%. Com base nisso, o patrimônio do devedor responderá pela dívida, sendo factível a penhora de bens móveis e imóveis. Atualmente, uma das mais eficazes medidas tem sido os bloqueios de ativos via sistemas conveniados com o Poder Judiciário (BACENJUD ou similar). 8 2.4 Prisão civil A exigência de alimentos mediante coerção pessoal passou a se tornar a única hipótese de prisão por dívida, dentro de todo o ordenamento jurídico nacional, sendo a modalidade de execução que mais se mostra efetiva. É inconstitucional a prisão civil por dívidas, com a exceção da obrigação de alimentos. Conforme exposto no art. 528, parágrafo 3º e 911, parágrafo único do CPC, a condenação por pagamento de prestação alimentícia, tanto na forma definitiva quanto na forma provisória, poderá ser alvo da prisão do alimentante. Art. 528, § 3º. Se o executado não pagar ou se a justificativa apresentada não for aceita, o juiz, além de mandar protestar o pronunciamento judicial na forma do § 1º, decretar-lhe-á a prisão pelo prazo de 1 (um) a 3 (três) meses. [...] Art. 911. Parágrafo único. Aplicam-se, no que couber, os §§ 2º a 7º do art. 528. (Brasil, 2015) O pedido será feito ao juízo e será enviada intimação pessoal para que o alimentante efetue o pagamento em três dias ou, então, justifique a impossibilidade de efetuá-lo. Caso não seja efetuado o pagamento e se o juízo não acatar a justificativa, será decretada a prisão civil derivada do inadimplemento da pensão alimentícia, a qual será cumprida em regime fechado, pelo prazo de um a três meses, conforme as peculiaridades do caso concreto. Por fim, apesar de a prisão do devedor de alimentos ser considerada uma medida extrema e excepcional, na maioria das vezes é a única medida que resta ao recebedor dos alimentos. Cabe anotar, ainda, que mesmo a prisão não exime o devedor do pagamento do valor devido. TEMA 3 – PROCEDIMENTOS PARA EXIGÊNCIA DA OBRIGAÇÃO ALIMENTAR A opção do CPC 2015 foi prever procedimentos distintos para a exigência de verbas alimentares a depender do seu rito de coerção: para as exigidas pela chamadacoerção patrimonial (penhora de bens), o procedimento é um; para as exigidas pela chamada coerção pessoal (prisão), o procedimento é outro. Confira a seguir a distinção relativa ao cumprimento de decisão judicial. 9 3.1 Cumprimento pelo rito da expropriação de bens O cumprimento de alimentos pelo rito de penhora (coerção patrimonial) está descrito no art. 523 do CPC: Art. 523. No caso de condenação em quantia certa, ou já fixada em liquidação, e no caso de decisão sobre parcela incontroversa, o cumprimento definitivo da sentença far-se-á a requerimento do exequente, sendo o executado intimado para pagar o débito, no prazo de 15 (quinze) dias, acrescido de custas, se houver. (Brasil, 2015) Ou seja, é prevista a intimação do devedor para pagar a quantia em 15 dias, caso não o faça, incide desde logo a multa e os honorários previstos no mesmo artigo. Subsequentemente, inicia-se a fase de penhora de bens e, ao mesmo tempo, se inaugura o prazo para impugnação (art. 525 do CPC): “Art. 525. Transcorrido o prazo previsto no art. 523 sem o pagamento voluntário, inicia-se o prazo de 15 (quinze) dias para que o executado, independentemente de penhora ou nova intimação, apresente, nos próprios autos, sua impugnação” (Brasil, 2015). Há a possibilidade de mesmo quem tenha direito a utilizar o cumprimento pelo rito da prisão venha a se utilizar do procedimento do rito da penhora, por opção pessoal. Nesse caso, o exequente informa que opta pelo cumprimento do rito da expropriação de bens, em vista do que não poderá requerer a prisão civil do executado, ou seja, abre mão do rito da coerção pessoal. Essa possibilidade está prevista no art. 528, parágrafo 8º do CPC: § 8º O exequente pode optar por promover o cumprimento da sentença ou decisão desde logo, nos termos do disposto neste Livro, Título II, Capítulo III, caso em que não será admissível a prisão do executado, e, recaindo a penhora em dinheiro, a concessão de efeito suspensivo à impugnação não obsta a que o exequente levante mensalmente a importância da prestação. (Brasil, 2015) 3.2 Cumprimento pelo rito da prisão civil Já o cumprimento pela via da coerção pessoal (prisão civil) está previsto no art. 528 do CPC: Art. 528. No cumprimento de sentença que condene ao pagamento de prestação alimentícia ou de decisão interlocutória que fixe alimentos, o juiz, a requerimento do exequente, mandará intimar o executado pessoalmente para, em 3 (três) dias, pagar o débito, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de efetuá-lo. (Brasil, 2015) O rito da prisão civil cabe apenas em casos específicos e, para verificar se é possível recorrer a essa via mais severa, é necessário analisar a 10 contemporaneidade das parcelas exigidas com a data do ajuizamento do pleito em juízo, conforme entendimento consolidado do Superior Tribunal de Justiça: “STJ, Súmula n. 309: O débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é o que compreende as três prestações anteriores ao ajuizamento da execução e as que vencerem no curso do processo” (Brasil, 2005). Nesse sentido, o Código de 2015 positivou esta orientação, no mesmo art. 528 do CPC: “§ 7º O débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é o que compreende até as 3 (três) prestações anteriores ao ajuizamento da execução e as que se vencerem no curso do processo” (Brasil, 2015). Ou seja, as prestações aptas a justificar o procedimento pelo rito da coerção pessoal são as três anteriores ao mês do ajuizamento da ação e as que se vencerem no curso do processo. As mais pretéritas devem ser demandadas pelo rito da coerção patrimonial. No rito da prisão, o executado será citado pessoalmente para pagar ou justificar a impossibilidade do pagamento no prazo de três dias. Mantendo-se omisso, o juiz determinará a prisão civil em regime fechado pelo prazo de 1 a 3 meses. O rito do cumprimento de sentença pela prisão está exposto no art. 528, parágrafo 3º e seguintes do CPC: § 3º Se o executado não pagar ou se a justificativa apresentada não for aceita, o juiz, além de mandar protestar o pronunciamento judicial na forma do § 1º, decretar-lhe-á a prisão pelo prazo de 1 (um) a 3 (três) meses. § 4º A prisão será cumprida em regime fechado, devendo o preso ficar separado dos presos comuns. § 5º O cumprimento da pena não exime o executado do pagamento das prestações vencidas e vincendas. (Brasil, 2015) 3.3 Execução de alimentos decorrentes de título extrajudicial O Código de Processo Civil de 2015 estabeleceu um procedimento próprio para a execução de alimentos fundada em títulos extrajudiciais. Esse regramento está previsto nos art. 911 a 913 do diploma processual civil, sendo que também preveem os ritos de prisão civil ou expropriação de bens. Art. 911. Na execução fundada em título executivo extrajudicial que contenha obrigação alimentar, o juiz mandará citar o executado para, em 3 (três) dias, efetuar o pagamento das parcelas anteriores ao início da execução e das que se vencerem no seu curso, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de fazê-lo. Parágrafo único. Aplicam-se, no que couber, os §§ 2º a 7º do art. 528 . http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art528%C2%A72 11 Art. 912. Quando o executado for funcionário público, militar, diretor ou gerente de empresa, bem como empregado sujeito à legislação do trabalho, o exequente poderá requerer o desconto em folha de pagamento de pessoal da importância da prestação alimentícia. § 1º Ao despachar a inicial, o juiz oficiará à autoridade, à empresa ou ao empregador, determinando, sob pena de crime de desobediência, o desconto a partir da primeira remuneração posterior do executado, a contar do protocolo do ofício. § 2º O ofício conterá os nomes e o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas do exequente e do executado, a importância a ser descontada mensalmente, a conta na qual deve ser feito o depósito e, se for o caso, o tempo de sua duração. Art. 913. Não requerida a execução nos termos deste Capítulo, observar- se-á o disposto no art. 824 e seguintes, com a ressalva de que, recaindo a penhora em dinheiro, a concessão de efeito suspensivo aos embargos à execução não obsta a que o exequente levante mensalmente a importância da prestação. (Brasil, 2015) Em relação à prisão civil, o Código atual sanou uma dúvida que persistia até então: se os alimentos constantes de títulos extrajudiciais também são passíveis de gerar a prisão ou não. O texto deixa claro que sim. Consequentemente, mesmo para alimentos extrajudiciais, a lógica procedimental é a mesma: as parcelas urgentes devidas até três meses do ajuizamento poderão se utilizar do rito da coerção pessoal, enquanto as verbas pretéritas deverão se utilizar da coerção patrimonial. 3.4 Cumulação dos ritos na mesma ação A escolha de dois ritos procedimentais distintos para exigir verbas alimentares mantém uma prática já consolidada há muitos anos no direito brasileiro. Entretanto, esse procedimento acaba muitas vezes por exigir que as partes entrem com duas ações para exigir alimentos vencidos: uma pelo rito da coerção pessoal (prisão), para demandar as mais recentes; e outra pelo rito da coerção patrimonial (penhora), para demandar as parcelas mais antigas. Até a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, esta era a regra e a prática inconteste. Não é necessário dizer que isso burocratiza e dificulta a vida de quem já está em dificuldade por não receber a sua verba alimentar. Um aspecto que emergiu a partir da edição do Código de Processo Civil de 2015 foi a possibilidade de não ser mais necessário entrar com dois procedimentos diferentes para cobrar prestações de alimentos de períodos distintos, de modo a permitir que tanto as parcelas recentes como as pretéritas pudessem ser demandas em um único procedimento (cumprimento ou execuçãoúnica, ainda que se respeitem as particularidades das consequências legais para cada verba). http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art824 12 Com base nas diretrizes e princípios do CPC 2015, em especial o seu sincretismo, alguns autores passam a defender a possibilidade de se exigirem verbas alimentares em uma mesma demanda, ainda que uma parte tenha um procedimento específico e outra parte tenha prazos e consequências diversas. Entretanto, por mais que o Código de Processo Civil de 2015 permita entender a possibilidade de cumulação desses ritos para exigir verbas alimentares, ainda prevalecem entendimentos que exigem que os procedimentos sejam feitos de forma separada (ou seja, uma demanda para exigir as parcelas de alimentos sob o rito da prisão; outra separada para exigir alimentos sobre o rito da penhora). Alguns juízos têm sido sensíveis às atuais diretrizes da legislação processual em vigor e também pela ótica da economia processual, vem permitindo a cumulação em um mesmo procedimento, o que parece acertado. Não se vislumbra, portanto, incompatibilidade que possa justificar a propositura de duas demandas (as diferenças de prazos e consequências podem conviver no mesmo feito, sem problemas; aliás, algo similar já ocorre com a tutela cautelar antecedente e a ação principal, por exemplo). Ao tratar da exigência de verbas alimentares não pagas é sempre necessário verificar que elas visam a subsistência do alimentado, portanto é de extrema importância facilitar e ampliar a eficácia de suas decisões, sendo a cumulação de pedidos em um único feito extremamente recomendada. TEMA 4 – MEDIDAS COERCITIVAS INDIRETAS PREVISTAS NO CPC Além das medidas expostas acima, atualmente estão sendo cogitadas outras medidas coercitivas indiretas, ou seja, comandos judiciais diversos que não contenham as consequências expressamente previstas pelo Código. Por exemplo, a suspensão do passaporte e da Carteira Nacional de Habilitação do devedor até que ele satisfaça a dívida. O fundamento legal para a adoção destas polêmicas medidas seria o art. 139, IV do CPC: Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incumbindo-lhe: IV - determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária; (grifamos). (Brasil, 2015, grifo nosso) 13 Essas medidas atípicas (como suspensão da CNH e apreensão do passaporte) são excepcionais e altamente controvertidas. Alguns questionam a sua aplicação até para a exigência de dívidas comuns (não alimentares), o que, ao nosso sentir, parece demasiado. Em se tratando de dívidas alimentares recentes, não se pode olvidar que o nosso sistema prevê até a prisão civil do devedor, de modo que muitos recorrem ao antigo brocardo: “quem pode o mais, pode o menos”. Logo, seria possível suspender a CNH e o passaporte por dívidas recentes de alimentos. Alguns posicionamentos do Superior Tribunal de Justiça têm se inclinado no sentido de admitir essas medidas atípicas como uma ultima ratio, ou seja, como última medida para o fim de se satisfazer essas verbas. Para que possam ser aplicadas, é exigido que outras tenham sido tentadas e frustradas, bem como que exista indicativo de que o devedor tenha condições de pagar e não o faça injustificadamente. TEMA 5 – RETROATIVIDADE DA FIXAÇÃO DA VERBA ALIMENTAR A chamada Lei de Alimentos (Lei n. 5.478/68) tem um importante dispositivo que prevê a retroatividade após a sua fixação. Esta disposição consta do seu art. 13, conforme transcrição do dispositivo abaixo: Art. 13 O disposto nesta lei aplica-se igualmente, no que couber, às ações ordinárias de desquite, nulidade e anulação de casamento, à revisão de sentenças proferidas em pedidos de alimentos e respectivas execuções. § 2º. Em qualquer caso, os alimentos fixados retroagem à data da citação. (Brasil, 1968, grifo nosso) A retroatividade da decisão judicial que fixa alimentos é antiga e não foi alterada pelo CPC de 2015. Tanto é que, recentemente, o Superior Tribunal de Justiça reiterou a sua vigência com a edição da súmula 621 (STJ, 2014), pela qual firmou o entendimento de que a retroatividade dos alimentos ocorre em qualquer hipótese, consoante se extrai do seguinte enunciado: “Os efeitos da sentença que reduz, majora ou exonera o alimentante do pagamento retroagem à data da citação, vedadas a compensação e a repetibilidade”. Na mesma linha, o Superior Tribunal de Justiça também consolidou o entendimento de que retroagem à data da citação inclusive os efeitos da decisão de alimentos provisórios: AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DE ALIMENTOS PROVISÓRIOS. AGRAVO DE INSTRUMENTO. 14 RETROAÇÃO DA DECISÃO QUE REVISA O VALOR DOS ALIMENTOS À DATA DA CITAÇÃO. RAZÕES RECURSAIS INSUFICIENTES. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. A jurisprudência desta Corte é no sentido de que a decisão que revisa o valor dos alimentos, mesmo dos alimentos provisórios, retroage à data da citação. Tal entendimento não depende de quem propôs a ação. 2. Razões recursais insuficientes para a revisão do julgado. 3. Agravo interno desprovido. (Brasil, 2019) Consolidou-se, assim, o entendimento de que é possível a retroatividade da decisão que fixa alimentos para a data da citação, o que ocorre em qualquer hipótese de modificação, seja de majoração, de minoração ou de exoneração, orientação que incide, inclusive, para os casos de liminares de alimentos. 15 REFERÊNCIAS BRASIL. Lei n. 5.478, de 25 de julho de 1968. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 26 jul. 1968. _____. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. _____. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 16 ago. 2021. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula n. 309, de 27 de abril de 2005. DJ, 4 maio 2005. _____. REsp: 345627 SP 2001/0109291-3, Relator: Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, julgamento em 2 de maio de 2002, T4 – Quarta Turma. DJ, 2 set. 2002. _____. AgInt no REsp 1829844/RJ, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 16 de dezembro de 2019, DJe, 19 dez. 2019. CARVALHO, D. M. Direito das famílias. São Paulo: Saraiva, 2015. DIAS, M. B. Alimentos aos bocados. São Paulo: RT, 2013. FARIAS, C. C. de; ROSENVALD, N. Curso de direito civil – direito das famílias. 12. ed. rev. e atual. Salvador: JusPodivm, 2020. ROSA, C. P. da. Curso de direito de família contemporâneo. Salvador: JusPodivm, 2020. TARTUCE, F. Direito civil – Direito de Família. 12. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017. v. 5.