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ADMINISTRAÇÃO APLICADA À ENGENHARIA DE SEGURANÇA UNIASSELVI-PÓS Autoria: Marcelo Longo Freitas Mandarino Indaial - 2022 2ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2022 M271a Mandarino, Marcelo Longo Freitas Administração aplicada à engenharia de segurança. / Marcelo Lon- go Freitas Mandarino. – Indaial: UNIASSELVI, 2022. 162 p.; il. ISBN Digital 978-65-5646-508-1 1. Administração. – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 658 Impresso por: Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Jairo Martins Marcio Kisner Marcelo Bucci Revisão Gramatical: Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 Administração E Engenharia De Segurança Do Trabalho – Contexto Histórico ......................................................................7 CAPÍTULO 2 Sistemas De Gestão, Política E Programas De Engenharia De Segurança Do Trabalho .......................................................61 CAPÍTULO 3 Teorias E Métodos De Investigação De Acidentes ...............109 APRESENTAÇÃO A administração ao longo dos séculos foi influenciada por diversos filósofos e pensadores, e cada um contribuiu com sua teoria para a evolução da administração como ciência. Seus princípios e relações com a sociedade também foram influenciados por organizações religiosas e militares, sofrendo a influência de outras ciências, como a matemática e a física, sendo fundamentais todas essas e outras ações que modificaram o pensamento administrativo, de forma a contribuir na construção da sociedade moderna. A concepção de trabalho, advinda da Revolução Industrial, acabou por modificar completamente a estrutura econômica e social da época, sendo estas mudanças consideradas as maiores ocorridas no milênio dentro do período de um século. Associando alguns princípios e teorias da administração com a relação do trabalho, podemos observar que dentro dos estudos da administração há diversas abordagens, destacando-se, inicialmente, a abordagem clássica, que pode ter ênfase nas tarefas executadas ou na estrutura da organização. Posteriormente, diversas outras teorias surgiram e algumas foram se complementando. Considerando que a sociedade está em constante evolução, com muitos avanços tecnológicos que influenciam diretamente as nossas condições sociais e econômicas, características do sistema capitalista, há uma relação direta com o aumento de trabalho, produtividade e investimentos. Nesse sentido, a engenharia de segurança do trabalho, associada as suas normas regulamentadoras, tem como objetivo prevenir os acidentes de trabalho, assim como as doenças ocupacionais e as formas de agravo à saúde do trabalhador, de forma a proporcionar um ambiente seguro e saudável tanto para o empregado quanto para o empregador. Conheceremos ao longo dos capítulos as diversas políticas e programas relacionados à saúde e à segurança do trabalhador e suas principais características, além dos aspectos relacionados à legislação. Por fim, ampliaremos nossos conhecimentos a respeito das teorias e métodos utilizados nas análises e prevenção de acidentes, que nos proporcionarão avaliar os principais tipos e classificações associados a erros humanos nos acidentes de trabalho, assim como analisaremos e planejaremos o método de investigação após a ocorrência do acidente. Este livro está dividido em três capítulos. No Capítulo 1, será dada ênfase aos princípios e teorias da administração, juntamente aos conceitos de segurança do trabalho, e teremos um breve histórico da evolução das leis e direitos dos trabalhadores. Já no Capítulo 2, abordaremos o sistema de gestão, enfatizando as normas relacionadas e também veremos as principais políticas e programas relacionados à saúde e à segurança do trabalhador. No Capítulo 3, aprenderemos diferentes tipos e modelos de análise e prevenção de acidentes, assim como avaliaremos os principais tipos e classificações de erro humano, analisando as causas dos acidentes de trabalho através da investigação da árvore de causas. Bons estudos! CAPÍTULO 1 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • Adquirir conhecimentos dos pressupostos da administração e suas principais teorias. • Revisar a evolução histórica do conceito de segurança do trabalho ao longo do tempo. • Interpretar a evolução da saúde e segurança do trabalho, relacionando com os dias atuais. • Analisar e discutir os direitos dos trabalhadores ao longo dos anos. 8 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 9 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Neste capítulo, você estudará os princípios da administração, suas principais teorias, o surgimento do conceito de segurança do trabalho e o histórico das leis e direitos dos trabalhadores no Brasil. Você observará a forma como eram realizados os trabalhos, desde a Revolução Industrial, assim como a preocupação com a segurança e os direitos dos trabalhadores, fazendo uma análise crítica com os direitos dos trabalhadores nos dias atuais. Através das diversas teorias da administração, que foram evoluindo ao longo do tempo, poderá identifi car as suas contribuições e desafi os. Contará também com exercícios para reforçar o conteúdo apresentado, assim como sugestões para leituras de textos e vídeos para assistir. 2 PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO Podemos considerar que a administração é uma ciência jovem, tendo sua história iniciada no século XX, sendo o resultado de diversas contribuições cumulativas iniciadas por fi lósofos, empresários, economistas, físicos e estadistas que, ao longo do tempo, foram divulgando e desenvolvendo suas obras e teorias dentro dos seus respectivos campos de atuação. Por esses motivos, são utilizados na administração moderna diversos conceitos e princípios que são empregados em várias ciências, como as ciências matemáticas, humanas, físicas, incluindo também outras, como o direito, a engenharia, a tecnologia da informação, entre outras. Historicamente, foram observados traços pré-históricos da administração durante, por exemplo, o período da Antiguidade no Egito, Mesopotâmia e Assíria, onde foram testemunhados exemplos de dirigentes capazes de conduzir milhares de trabalhadores nas construções de diversos monumentos, e alguns perduram até os dias de hoje, como as pirâmides do Egito. No decorrer do tempo, alguns fi lósofos gregos se destacaram com suas importantes contribuições para o pensamento administrativo do século XX, sendo eles: Sócrates, Platão e Aristóteles (CHIAVENATO, 2004). 10 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2.1 CONTRIBUIÇÃO DOS PRINCIPAIS FILÓSOFOS • Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.): expõe seu ponto de vista a respeito da administração com uma habilidade pessoal separada do conhecimento técnico e da experiência (CHIAVENATO, 2014). • Platão (429 a.C. - 347 a.C.): discípulo de Sócrates, analisou os problemas referentes à natureza política e social relacionada ao desenvolvimento do povo grego. Tendo como marca ser questionador, foi corajoso na publicação de sua obra A República, propondo um movimento de democracia administrativa, incluindo impostos e contas públicasAdministração APlicada À Engenharia de Segurança 3.8 TEORIA DA CONTINGÊNCIA A Teoria da Contingência teve seu surgimento através da realização de diversas pesquisas, que tinham como objetivo verifi car em determinados tipos de empresas quais modelos de estruturas organizacionais eram mais efi cazes. Seu princípio é que tudo é relativo, tudo depende e nada é absoluto, seja nas organizações ou na teoria administrativa. Essa abordagem contingencial explica que, para o alcance efi caz dos objetivos da organização, há uma relação funcional entre as condições ambientais (variáveis independentes) e as técnicas administrativas (variáveis dependentes), não existindo uma causalidade direta entre elas. Nesse sentido, existe uma relação funcional entre elas ao invés de uma relação de causa-efeito. “Representa a mais recente abordagem da teoria administrativa” (CHIAVENATO, 2014, p. 537). Nessa nova concepção, o funcionamento e a estrutura da organização são dependentes da interação com o ambiente externo, não havendo, portanto, uma única forma nem melhor maneira para organizar e estruturar as empresas. De todas as teorias administrativas, a abordagem contingencial é considerada a mais integrativa e eclética. Suas considerações conseguem abranger e dosar todas as variáveis: estrutura, pessoas, tecnologia e ambiente, além de todas as contribuições das várias teorias anteriores (CHIAVENATO, 2014). 3.9 NOVAS ABORDAGENS O mundo está mudando e a teoria administrativa também, mas, mudando para onde? Por qual caminho? Diversas mudanças de conceitos estão ocorrendo, assim como vêm acontecendo na ciência moderna. Diante de todo esse movimento, a teoria administrativa não passará inalterada. No Quadro 4, veja a trajetória da teoria administrativa. 41 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 QUADRO 4 – A TRAJETÓRIA DA TEORIA ADMINISTRATIVA RESUMIDA EM TRÊS PERÍODOS 1- Período cartesiano e newtoniano da Administração Criação das bases teóricas da Administração iniciada por Taylor e Fayol, envolvendo principalmente a Administração Científi ca, a Teoria Clássica e a Neoclássica. A infl uência predominante foi a física tradicional, de Isaac Newton, e a metodologia científi ca, de René Descartes. Iniciou no começo do século XX até a década de 1960, aproximadamente, e no qual o pensa- mento linear e lógico predominou na teoria administrativa. Foi um período de calmaria e de relativa permanência no mundo das organizações. 2- Período sistêmico da Administração A infl uência da Teoria de Sistemas substituiu o reducionismo, o pensamen- to analítico e o mecanicismo pelo expansionismo, pensamento sintético e teleologia, respectivamente, a partir da década de 1960. A abordagem sis- têmica trouxe uma nova concepção da Administração e a busca do equilí- brio na dinâmica organizacional em sua interação com o ambiente externo. Teve sua maior infl uência no movimento do desenvolvimento organizacio- nal (DO) e na Teoria da Contingência. Foi um período de mudanças e de busca da adaptabilidade no mundo das organizações. 3- Período atual da Administração Está acontecendo graças à profunda infl uência das teorias do caos e da complexidade na teoria administrativa. A mudança chegou para valer no mundo organizacional. FONTE: Adaptado de Chiavenato (2014) Vivemos em uma sociedade em constante evolução, e os avanços tecnológicos e as condições econômicas e sociais da sociedade vêm ocorrendo com constância. Com isso, mudanças nos valores culturais também ocorrem e trazem consigo novos problemas, restrições e contingência sobre os sistemas sociais. O economista austríaco Joseph Schumpeter criou o conceito da destruição criativa, que é uma teoria para explicar as transformações que ocorrem no sistema capitalista, o qual está em constante evolução. Ele foi um dos pioneiros em considerar as inovações tecnológicas na dinâmica do capitalismo. Considera que, com as novas tecnologias, novas ondas surgem como verdadeiras tsunamis, que vêm acompanhadas de aumento de trabalho, produtividade e investimento. As cinco ondas apontadas por Schumpeter podem ser vistas na Figura 4: 42 Administração APlicada À Engenharia de Segurança FIGURA 4 – AS ONDAS DE SCHUMPETER FONTE: . Acesso em: 14 maio 2022. Com isso, vemos a importância de estarmos atentos às mudanças no cenário em que estamos inseridos. A atualização a novos modelos de atuação e área profi ssional se torna cada vez mais necessária para distintos segmentos de atividades. A grande contribuição trazida por Schumpeter foi de delimitar a relação entre o investimento e a transformação em produtos que, quando próspera, gera emprego, renda e estabelece um novo paradigma. Com esta seção, passamos a conhecer um pouco mais das Teorias da Administração, assim como suas abordagens e associações. ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 A Teoria da Burocracia foi desenvolvida por volta da década de 1940 por: ( ) Fayol. ( ) Max Weber. ( ) Elton Mayo. ( ) Ludwig von Bertalanffy. 2 A Teoria da Contingência tem como princípio: 43 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 a) As transações planejadas com o ambiente. A organização é a coordenação de diferentes atividades de contribuintes individuais. Já o conjunto de hábitos, crenças, valores, tradições, interações e relacionamentos sociais típicos de cada organização está relacionado à cultura organizacional. b) Estudar os sistemas de forma global, envolvendo todas as suas partes e interdependências. c) A organização está baseada em legislação própria, em que as regras são defi nidas antecipadamente, abrangendo todas as áreas e prevendo as ocorrências que poderão ocorrer dentro da organização. d) Tudo é relativo, tudo depende e nada é absoluto, seja nas organizações ou na teoria administrativa, havendo uma relação funcional entre as condições ambientais (variáveis independentes) e as técnicas administrativas (variáveis dependentes), inexistindo uma causalidade direta entre elas. 3 Complete a frase com uma das opções a seguir: Segundo Chiavenato (2014), as origens da teoria __________________ são resumidas em quatro causas: • A oposição surgida entre a Teoria Tradicional e a Teoria das Relações Humanas. • A necessidade de visualizar a organização como uma unidade social. • A infl uência do estruturalismo nas ciências sociais. • O novo conceito de estrutura. ( ) Estruturalista. ( ) Burocrática. ( ) De sistemas. ( ) Comportamental. 4 SURGIMENTO DO CONCEITO DE SEGURANÇA DO TRABALHO Antes de iniciarmos a leitura a respeito do surgimento da segurança do trabalho, sua evolução e seus conceitos, devemos nos perguntar: o que é a segurança do trabalho? Por que ela existe? Qual a sua importância? 44 Administração APlicada À Engenharia de Segurança De uma forma simplista, podemos afi rmar que a segurança do trabalho são todas as formas e medidas adotadas que visam minimizar os tão temidos acidentes de trabalho e, por conseguinte, as doenças ocupacionais, assim como proteger a sua integridade física e capacidade operacional. O trabalho em si existe desde o surgimento do homem que, seja para o seu sustento ou sobrevivência, já realizava alguns tipos de trabalho. 4.1 PRIMÓRDIOS DA SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO E SUA EVOLUÇÃO Os primeiros registros em que se observou alguma preocupação a respeito da saúde dos trabalhadores ocorreram por volta do ano 350 a.C., em que Aristóteles já estudava tanto as doenças ocupacionais quanto as formas de se evitá-las. Hipócrates, conhecido como o Pai da Medicina, ainda no tempo dos romanos, descreveu o sofrimento dos trabalhadores das minas, que foram acometidos pela intoxicação de chumbo, oriundo deste tipo de atividade. No ano de 1700, o médico BernardinoRamazzini descreve, em sua obra De Morbis Artifi cum Diatriba, diversas doenças relacionadas a mais de 50 profi ssões existentes na época. Embora sua obra tenha dado publicidade e evidência à associação de diversas doenças relacionadas às atividades laborais, não se tem registro de nenhuma política pública e/ou proposta para a implementação de ações que pudessem reduzir os riscos a que estes trabalhadores estavam expostos. Com a Revolução Industrial na Inglaterra, em meados do século XVIII, e decorrente de alguns fatores, como o aumento do uso de máquinas, as longas jornadas de trabalho, juntamente às péssimas condições de trabalho e salubridade, foi verifi cado um crescente aumento do número de agravos relacionados às atividades laborais. Naquele período, devemos considerar que estábulos, galpões e armazéns foram transformados em fábricas, onde se colocava o maior número possível de máquinas para produção. Esses ambientes eram hostis e insalubres, com elevada temperatura e umidade e sem ventilação para a renovação do ar. Por sua vez, as máquinas não possuíam dispositivos de segurança, ocasionando constantes riscos de acidentes aos trabalhadores. A mão de obra utilizada à época 45 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 era constituída por homens, mulheres e também crianças, conforme podemos verifi car na Figura 5, não havendo nenhum tipo de avaliação prévia quanto ao estado de saúde do trabalhador nem suas condições físicas para o desempenho das atividades. Os ambientes e as condições das fábricas eram muito ruins e o resultado desse cenário não podia ser diferente: diversos trabalhadores adoeciam, muitos eram mutilados pelas máquinas e outros até morriam na realização do seu trabalho. FIGURA 5 – TRABALHO INFANTIL NA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL FONTE: . Acesso em: 21 mar. 2022. Diante desse cenário e circunstâncias, o povo começou a reivindicar seus direitos trabalhistas e, com isso, os órgãos governamentais tiveram que adotar ações que pudessem oferecer condições mais dignas aos trabalhadores. Nesse contexto, em 1802, foi aprovada a primeira lei de proteção aos trabalhadores, proibindo o trabalho noturno e estabelecendo o limite de 12 horas na jornada diária de trabalho. Embora outras leis também tenham sido promulgadas nesse período, elas não eram respeitadas pelos empregadores devido aos investimentos necessários e à falta de interesse. Quanto à redução do número de acidentes de trabalho, as medidas adotadas se mostram inefi cazes. Com o passar do tempo, houve uma percepção coletiva de que o trabalho realizado era fonte de exploração tanto social quanto econômica, ocasionando sérios danos à saúde dos trabalhadores e morte. Os rumos tomados por essa percepção causaram uma grande mobilização social, cobrando do Estado 46 Administração APlicada À Engenharia de Segurança intervenção entre as relações empregador-empregado, com vistas à redução dos riscos ocupacionais. Eis que, então, na Inglaterra, surgem as primeiras normas trabalhistas, seguidas por outras nações. No ano de 1830, Robert Baker, médico inglês, foi procurado pelo proprietário de uma fábrica inglesa e solicitou que o aconselhasse a respeito da proteção da saúde de seus trabalhadores. Conhecedor da obra de Ramazzini, Baker aconselhou ao proprietário da fábrica que contratasse um médico da região onde funcionava a fábrica para a realização de visitas diárias ao local de trabalho, de forma a analisar possíveis infl uências das condições do ambiente laboral sobre a saúde dos trabalhadores. Isso permitiria que, tão logo fosse observado qualquer tipo de alteração, os trabalhadores pudessem ser afastados de suas atividades sem prejudicar mais a sua saúde. Nesse contexto, surgiu o primeiro serviço médico industrial. Foi criada no ano de 1831 uma comissão para avaliar a situação dos trabalhadores, e foi gerado um relatório apontando que os trabalhadores (adultos e crianças) se encontravam doentes e abandonados, demonstrando tamanha crueldade do ser humano. A publicação desse relatório gerou grande impacto sobre a opinião pública, surgindo, dois anos depois, a primeira legislação considerada efi ciente para a proteção do trabalhador “Factory Act” – Lei das Fábricas. Essa lei era aplicada à indústria têxtil, que utilizava força hidráulica ou a vapor, proibindo para menores de 18 anos o trabalho noturno, restringindo a carga horária para 12 horas diárias e 69 horas semanais; idade mínima de 9 anos e menores de 13 anos deveriam frequentar a escola na fábrica. Em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial, com o enfoque da adoção de práticas de proteção à saúde do trabalhador, foi criada a O rganização Internacional do Trabalho (OIT), sendo referência até os dias de hoje quando se trata do assunto. A OIT é a única agência das Nações Unidas que tem estrutura t ripartite, com representantes do governo, dos empregadores (organizações) e dos trabalhadores, que participam em situação de igualdade nas diversas instâncias da organização. Tem como missão a promoção de oportunidades em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade para homens e mulheres, assim conceituado como trabalho decente, sendo condição fundamental para a redução das desigualdades sociais e o desenvolvimento sustentável. 47 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 Você sabia que o dia 28 de abril é o Dia Mundial da Segurança e Saúde do Trabalhador e também o Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho? Foi instituído pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2003, em alusão aos 78 trabalhadores mortos na explosão de uma mina, nos Estados Unidos, em 28 de abril de 1969. Encerramos esta seção em que estudamos os conceitos de segurança e saúde no trabalho e seu processo de evolução. Com isso, observamos que, na Revolução Industrial, o trabalho infantil era comum nas fábricas. Pensando nos dias de hoje, embora não seja mais autorizado este tipo de trabalho, podemos afi rmar que este foi totalmente abolido da nossa sociedade? Convidamos você a fazer uma refl exão a respeito do trabalho infantil atualmente. ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 Sobre a evolução da saúde e segurança do trabalho, marque V para as afi rmativas verdadeiras e F para as falsas: ( ) As doenças ocupacionais existiram após a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT). ( ) Durante o processo da Revolução Industrial a Saúde do Trabalhador foi melhorada, verifi cando-se uma diminuição dos agravos relacionados às atividades laborais. ( ) Durante o processo da Revolução Industrial era permitido o trabalho infantil. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) V – V – V. b) F – F – V. c) V – F – F. d) F – V – F. 48 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2 Complete a frase de acordo com as sentenças a seguir: A Organização Internacional do Trabalho (OIT) possui uma organização _____________________. a) Bipartite, com a participação do governo e do representante da empresa. b) Tripartite, com representantes do governo, dos empregadores (organizações) e dos trabalhadores, que participam em situação de igualdade nas diversas instâncias da organização. c) Bipartite, com a participação dos representantes das empresas e seus empregados. d) Que possui a participação única e exclusiva dos empregadores. 3 Assista ao fi lme Tempos Modernos, com Charlie Chaplin, que trata de uma crítica aos maus-tratos que os trabalhadores recebiam durante a Revolução Industrial, e faça uma resenha crítica, apontando fatos que possam se assemelhar com os dias atuais. Resenha de no máximo duas páginas. Filme disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3tL3E5fIZis. R.:________________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 49 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 5 HISTÓRICO DAS LEIS E DIREITOS DOS TRABALHADORES NO BRASIL No Brasil, podemos dizer que a legislação sobre segurança e saúde no trabalho é relativamente recente. A economia, até o início do século XX, era baseada no trabalho braçal escravizado e na agricultura, entretanto, isso não signifi ca que não havia naquela época acidentes decorrentes do trabalho. Devido ao tardio desligamento da escravidão, as conquistas sociais relacionadas ao trabalho também demoraram a acontecer. Muito depois do restante do mundo, o Brasil, em 1930, começou o cuidado com os seus trabalhadores devido ao início do nosso processo de industrialização – que podemos chamar como a nossa Revolução Industrial. Embora nesse período tenha-se identifi cado a modernização, a dignidade e a saúde do trabalhador não eram prioridades para o empregador. Não havia preocupação com as condições de trabalho; as medidas de segurança e as jornadas de trabalho eram exaustivas, com mais de 14 horas diárias. No ano de 1923, foi promulgada a Lei Eloy Chaves, considerada a semente da Previdência Social Brasileira. Essa lei criou as Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs), inicialmente voltadas para o setor ferroviário e, posteriormente, expandidas para outros ramos, como navegação, aviação, portuário e marítima. Ela concedia aos trabalhadores associados ajuda médica, aposentadoria, pensões para dependentes e auxílio-funeral. Cada CAP respondia pelo pagamento dos aposentados de uma empresa específi ca. No ano de 1933, foram criados os I nstitutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs), surgindo como uma forma de extensão dos benefícios para toda uma categoria. Esses institutos se diferenciavam das CAPS p or abranger não apenas uma empresa específi ca, mas sim a categoria profi ssional completa, como a categoria dos bancários, dos comerciários e dos industriários, e com abrangência nacional. Assim, a abrangência dos IAPs era bem maior. Em 1943, no governo de Getúlio Vargas, foi aprovada, através do Decreto- Lei nº 5.452, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Nela foram introduzidos também os direitos trabalhistas, até então inexistentes. Nesses direitos, estavam contemplados as regras de horário dos trabalhadores, as férias, o descanso remunerado, as condições mínimas necessárias de segurança e higiene nos locais de trabalho, entre outros. 50 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Conheça mais em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto- lei-5452-1-maio-1943-415500-publicacaooriginal-1-pe.html. No ano de 1966, todos os IAPs foram unifi cados em apenas um instituto, o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), considerado o embrião do que conhecemos hoje como o INSS. Essa unifi cação ocorreu através de uma Lei Orgânica de Previdência Social. Com a criação do INPS, outros benefícios, como auxílio-reclusão, auxílio-natalidade e auxílio-funeral, passaram a fazer parte do rol de benefícios aos quais empregadores e profi ssionais liberais tinham direito. Destaca-se, ainda, na década de 1960, a criação de uma importante fundação para a área de segurança do trabalho. Criada no ano de 1966, a Fundação Jorge Duprat Figueiredo, de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO) é voltada para estudos e pesquisas das condições dos ambientes de trabalho. Seus primeiros passos foram registrados em uma época em que havia grande preocupação com os altos índices de acidentes e doenças do trabalho. Na década de 1970, foram observadas diversas inovações na área de abrangência da previdência social, sendo criados o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social (SINPAS), o Instituto de Administração Financeira da Previdência Social (IAPAS) e o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS). Ao fi nal da década de 1970, mais precisamente no ano de 1978, foram criadas as Normas Regulamentadoras (NRs), que são disposições complementares ao Capítulo V (Da Segurança e da Medicina do Trabalho) da CLT. Nelas estão constituídas as obrigações, os direitos e os deveres a serem cumpridos tanto pelos trabalhadores quanto pelos empregadores, com vistas a garantir segurança no trabalho, assim como prevenir a ocorrência de doenças e acidentes de trabalho. As primeiras NRs foram publicadas pela Portaria nº 3.214, de 8 de junho de 1978, e as demais ao longo do tempo, visando assegurar a prevenção da segurança e saúde dos trabalhadores na execução dos seus serviços laborais, assim como em segmentos econômicos específi cos. A seguir, no Quadro 5, destacaremos o resumo com todas as NRs e suas características. 51 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 QUADRO 5 – NORMAS REGULAMENTADORAS Norma Regulamentadora Característica NR-1 DISPOSIÇÕES GERAIS NR-2 INSPEÇÃO PRÉVIA (REVOGADA PELA PORTARIA SEPRT Nº 915, DE 30 DE JULHO DE 2019) NR-3 EMBARGO OU INTERDIÇÃO NR-4 SERVIÇOS ESPECIALIZADOS EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA E EM MEDICINA DO TRABALHO NR-5 COMISSÃO INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDEN- TES NR-6 EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL (EPI) NR-7 PROGRAMA DE CONTROLE MÉDICO DE SAÚDE OCUPACIONAL NR-8 EDIFICAÇÕES NR-9 AVALIAÇÃO E CONTROLE DAS EXPOSIÇÕES OCU- PACIONAIS A AGENTES FÍSICOS, QUÍMICOS E BIO- LÓGICOS NR-10 SEGURANÇA EM INSTALAÇÕES E SERVIÇOS EM ELETRICIDADE NR-11 TRANSPORTE, MOVIMENTAÇÃO, ARMAZENAGEM E MANUSEIO DE MATERIAIS NR-12 SEGURANÇA NO TRABALHO EM MÁQUINAS E EQUI- PAMENTOS NR-13 CALDEIRAS, VASOS DE PRESSÃO E TUBULAÇÕES E TANQUES METÁLICOS DE ARMAZENAMENTO NR-14 FORNOS NR-15 ATIVIDADES E OPERAÇÕES INSALUBRES NR-16 ATIVIDADES E OPERAÇÕES PERIGOSAS NR-17 ERGONOMIA NR-18 SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO NA INDÚS- TRIA DA CONSTRUÇÃO NR-19 EXPLOSIVOS NR-20 SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO COM INFLA- MÁVEIS E COMBUSTÍVEIS NR-21 TRABALHOS A CÉU ABERTO NR-22 SEGURANÇA E SAÚDE OCUPACIONAL NA MINERA- ÇÃO NR-23 PROTEÇÃO CONTRA INCÊNDIOS NR-24 CONDIÇÕES SANITÁRIAS E DE CONFORTO NOS LOCAIS DE TRABALHO NR-25 RESÍDUOS INDUSTRIAIS NR-26 SINALIZAÇÃO DE SEGURANÇA NR-27 REGISTRO PROFISSIONAL DO TÉCNICO DE SEGURANÇA DO TRABALHO (REVOGADA PELA PORTARIA Nº 262, DE 30 DE MAIO DE 2008) 52 Administração APlicada À Engenharia de Segurança NR-28 FISCALIZAÇÃO E PENALIDADES NR-29 NORMA REGULAMENTADORA DE SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO PORTUÁRIO NR-30 SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO AQUAVIÁRIO NR-31 SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO NA AGRICUL- TURA, PECUÁRIA, SILVICULTURA, EXPLORAÇÃO FLORESTAL E AQUICULTURA NR-32 SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO EM SERVI- ÇOS DE SAÚDE NR-33 SEGURANÇA E SAÚDE NOS TRABALHOS EM ESPA- ÇOS CONFINADOS NR-34 CONDIÇÕES E MEIO AMBIENTE DE TRABALHO NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO, REPARAÇÃOE DES- MONTE NAVAL NR-35 TRABALHO EM ALTURA NR-36 SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO EM EMPRE- SAS DE ABATE E PROCESSAMENTO DE CARNES E DERIVADOS NR-37 SEGURANÇA E SAÚDE EM PLATAFORMAS DE PE- TRÓLEO FONTE: O autor Todas as Normas Regulamentadoras descritas no Quadro 5 podem ser acessadas no site: https://www.gov.br/trabalho-e- previdencia/pt-br/composicao/orgaos-especificos/secretaria-de- trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/ctpp-nrs/normas- regulamentadoras-nrs. No ano de 1988, foi promulgada a Constituição Federal, conhecida como Constituição Cidadã, passando a adotar o tripé Previdência Social, Assistência Social e Saúde. Dois anos depois, em 1990, foi criado o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), responsável por diversos benefícios dos trabalhadores, a exemplo da aposentadoria, auxílio-doença, cobertura e proteção à licença- maternidade, entre outros, excetuando os servidores públicos. Já nos anos 2000, o Decreto nº 7.607, de 7 de novembro de 2011, dispõe sobre a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho (PNSST). Tal política tem por objetivos a promoção da saúde, a melhoria da qualidade de 53 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 vida do trabalhador e a prevenção de acidentes e de danos à saúde advindos, relacionados ao trabalho ou que ocorram no curso dele, por meio da eliminação ou redução dos riscos nos ambientes de trabalho. A segurança no trabalho no Brasil é regulamentada por leis, normas, decretos e portarias, que assim compõem a legislação trabalhista. Com esse histórico, podemos observar que, ao longo dos anos, diversos foram os incrementos feitos na legislação de forma a garantir mais direitos aos trabalhadores, entretanto, de nada adianta os trabalhadores possuírem direitos se não fazem o melhor uso dos equipamentos de proteção e condições seguras de trabalho. Nesse sentido, vale a pena sempre conscientizar os trabalhadores de qualquer segmento de atividade para a utilização dos Equipamentos de Proteção Individual, seguindo sempre as recomendações do fabricante. 5.1 A IMPORTÂNCIA DA SEGURANÇA E SAÚDE DO TRABALHO Sendo considerada como a ciência que estuda as possíveis causas de incidentes e acidentes originados durante a atividade laboral, a segurança do trabalho tem como principal objetivo prevenir tanto os acidentes de trabalho quanto as doenças ocupacionais e as formas de agravo à saúde do trabalhador. Sua fi nalidade é atingida quando consegue proporcionar um ambiente seguro e saudável tanto para o empregado quanto para o empregador. As crenças, as atitudes e os valores espirituais e materiais são considerados dentro da cultura organizacional um complexo de padrões organizacionais que podem atuar tanto de maneira positiva quanto negativa na segurança do trabalhador. Por exemplo, se temos dentro de uma empresa a cultura de que o uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) é uma mera burocracia desnecessária e não uma necessidade de segurança, essa cultura organizacional claramente caminha para o aumento dos incidentes e acidentes. O norte americano Frank Bird, nos anos 1967 e 1968, analisou 170.000 trabalhadores de 21 grupos diferentes de trabalho em 297 empresas dos Estados Unidos da América. Nesse período, houve mais de 1,7 milhão de comunicados de acidentes. A partir desse resultado, Frank criou a sua pirâmide, conforme ilustrado a seguir: 54 Administração APlicada À Engenharia de Segurança FIGURA 6 – PIRÂMIDE DE FRANK BIRD FONTE: . Acesso em: 20 maio 2022. Essa pirâmide contribui para a prevenção dos acidentes e é considerada um tratamento estatístico. Nela se observa que, para a ocorrência de um acidente que incapacite o trabalhador, ocorrerão outros 600 incidentes sem danos pessoais ou materiais. A implementação de normas, a adoção de critérios técnicos, assim como os treinamentos para a qualifi cação profi ssional são fundamentais para se evitar acidentes. O comportamento é a base para a melhoria e prevenção. Empresas têm adotado programas que visam avaliar e melhorar diretamente as rotinas de trabalho, de forma a se criar ambientes livres de eventos indesejáveis. Conheça o “modismo” dos caminhoneiros com seus caminhões arqueados e os riscos de acidentes de trabalho que também podem afetar outras pessoas. Disponível em: https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2022/01/26/ caminhoes-arqueados-quem-e-responsavel-por-essas-modifi cacoes. htm. 55 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 Quando falamos e pensamos em segurança do trabalho, devemos pensar em nós e também nos outros, encarando qualquer tipo de intervenção como um investimento para a preservação da vida humana e não como um custo e/ou gasto para a empresa. A Segurança e Saúde do Trabalhador (SST) e a Segurança e Saúde Ocupacional (SSO) são programas da empresa formados por Normas Regulamentadoras, procedimentos ou instruções de trabalho que são impostos pelos empregadores com vistas a minimizar ou até mesmo anular os riscos de acidente de trabalho aos quais os trabalhadores estão diariamente expostos. O Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT) ou, de forma resumida, SST, é composto por profi ssionais especializados, sendo eles: • Médico do Trabalho. • Engenheiro de Segurança do Trabalho. • Técnico de Segurança do Trabalho. • Enfermeiro do Trabalho. • Auxiliar ou Técnico em Enfermagem do Trabalho. Esses são os profi ssionais obrigatórios para o funcionamento do SESMT (SST), e sua quantidade para cada empresa é defi nida de acordo a Norma Regulamentadora nº 4 (NR-4). A NR-4 ainda estabelece que, as empresas, sejam elas públicas ou privadas, assim como os órgãos públicos da administração direta e indireta que possuam em seu quadro colaboradores regidos pelas regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), deverão manter, obrigatoriamente, o SESMT de acordo com o grau de risco das atividades e o número de empregados (BRASIL, 1978). A função primordial do SESMT é proporcionar, através desse grupo de profi ssionais, a integridade física da equipe de trabalho, de forma a manter um ambiente mais seguro e prevenir doenças ocupacionais. Aos profi ssionais do SESMT, compete: a) aplicar os conhecimentos de engenharia de segurança e de medicina do trabalho ao ambiente de trabalho e a todos os seus componentes, inclusive máquinas e equipamentos, de modo a reduzir e até eliminar os riscos ali existentes à saúde do trabalhador; b) determinar, quando esgotados todos os meios conhecidos para a eliminação do risco e este persistir, mesmo reduzido, a utilização, pelo trabalhador, de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), de acordo 56 Administração APlicada À Engenharia de Segurança com o que determina a NR-6, desde que a concentração, a intensidade ou a característica do agente assim o exija; c) colaborar, quando solicitado, nos projetos e na implantação de novas instalações físicas e tecnológicas da empresa, exercendo a competência disposta na alínea “a”; d) responsabilizar-se tecnicamente pela orientação quanto ao cumprimento do disposto nas NRs aplicáveis às atividades executadas pela empresa e/ou seus estabelecimentos; e) manter permanente relacionamento com a CIPA, valendo-se ao máximo de suas observações, além de apoiá-la, treiná-la e atendê-la, conforme dispõe a NR-5; f) promover a realização de atividades de conscientização, educação e orientação dos trabalhadores para a prevenção de acidentes do trabalho e doenças ocupacionais, tanto através de campanhas quanto de programas de duração permanente; g) esclarecer e conscientizar os empregadores sobre os acidentes do trabalho e doenças ocupacionais, estimulando-os em favor da prevenção;h) analisar e registrar em documento(s) específi co(s) todos os acidentes ocorridos na empresa ou estabelecimento, com ou sem vítima, e todos os casos de doença ocupacional, descrevendo a história e as características do acidente e/ou da doença ocupacional, os fatores ambientais, as características do agente e as condições do(s) indivíduo(s) portador(es) de doença ocupacional ou acidentado(s); i) registrar mensalmente os dados atualizados de acidentes do trabalho, doenças ocupacionais e agentes de insalubridade, devendo o empregador manter a documentação à disposição da inspeção do trabalho; j) manter os registros de que tratam as alíneas “h” e “i” na sede dos Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho ou facilmente alcançáveis, sendo de livre escolha da empresa o método de arquivamento e recuperação, desde que sejam asseguradas as condições de acesso aos registros e entendimento de seu conteúdo, devendo ser guardados somente os mapas anuais dos dados correspondentes às alíneas “h” e “i” por um período não inferior a 5 (cinco) anos; k) as atividades dos profi ssionais integrantes dos Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho são essencialmente prevencionistas, embora não seja vedado o atendimento de emergência, quando se tornar necessário. Entretanto, a elaboração de planos de controle de efeitos de catástrofes, de disponibilidade de meios que visem ao combate a incêndios e ao salvamento e de imediata atenção à vítima deste ou de qualquer outro tipo de acidente estão incluídos em suas atividades (BRASIL, 1978). 57 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 Nesta seção, você aprendeu um pouco mais a respeito da importância da segurança do trabalho, conhecendo alguns dos direitos dos trabalhadores ao longo do tempo até o marco da Constituição Federal. Tomou conhecimento de todas as Normas Regulamentadoras, as quais regulamentam e orientam os procedimentos vinculados à saúde e à segurança do trabalho. Por fi m, conheceu a composição do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho, assim como a sua competência. ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 A respeito do histórico dos direitos dos trabalhadores brasileiros, marque V para as afi rmativas verdadeiras e F para as falsas: ( ) O Brasil teve a sua primeira legislação muito tempo depois do restante do mundo, podendo ser considerada até recente quando pensamos em segurança e saúde no trabalho. ( ) A Lei Eloy Chaves, promulgada em 1923, dava direitos apenas às mulheres trabalhadoras das indústrias. ( ) Os Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs) se diferenciavam das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs) por abranger não apenas uma empresa específi ca, mas sim a categoria profi ssional completa, como a categoria dos bancários, dos comerciários e dos industriários, e com abrangência nacional. ( ) No governo Getúlio Vargas, além de ter sido aprovada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), também foi aprovada a Constituição Cidadã de 1988. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) F – V – F – F. ( ) V – F – F – V. ( ) F – F – V – V. ( ) V – F – V – F. 2 A respeito da Pirâmide de Frank Bird, é correto afi rmar: a) Contribui para a prevenção dos acidentes e é considerada um tratamento estatístico. Nela se observa que, para a ocorrência de um acidente que incapacite o trabalhador, ocorrerão outros 600 incidentes sem danos pessoais ou materiais. 58 Administração APlicada À Engenharia de Segurança b) Considera as crenças, as atitudes e os valores espirituais e materiais na proporção dos acidentes de trabalho. c) Trata-se de uma pirâmide precisa para calcular a frequência e a quantidade de acidentes de trabalho. d) Estabelece regras para serem adotadas nas Normas Regulamentadoras previstas na Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho (PNSST). 3 O Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) é composto pelos seguintes profi ssionais: a) Médico do trabalho, engenheiro de segurança do trabalho, enfermeiro do trabalho. b) Engenheiro civil, técnico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico de segurança do trabalho e auxiliar ou técnico de enfermagem do trabalho. c) Auxiliar ou técnico em enfermagem do trabalho, técnico de segurança do trabalho, engenheiro de segurança do trabalho, enfermeiro de segurança do trabalho e médico do trabalho. d) Auxiliar técnico do trabalho, dentista do trabalho, engenheiro de segurança do trabalho, enfermeiro de segurança do trabalho e médico do trabalho. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Vimos ao longo do capítulo as diversas contribuições das teorias da administração, assim como a de outras ciências. De todas as contribuições, conseguimos ver algumas delas sendo aplicadas atualmente? Conseguimos ver a mecanização do trabalho? As leis e os direitos trabalhistas ao longo do tempo foram sendo incorporados, assim como as normas regulamentadoras, que visam promover a garantia da integridade da saúde física e mental dos trabalhadores através da defi nição de procedimentos, que devem ser cumpridos como medidas de proteção em seu ambiente de trabalho. A adoção dessas medidas que visam implementar a segurança não deve ser vista como um custo extra e desnecessário para a empresa, tampouco pelo profi ssional de segurança do trabalho. Toda e qualquer medida que vise prevenir acidentes deve ser considerada um investimento. 59 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 Uma boa gestão dos profi ssionais da Saúde e Segurança do Trabalho, através de visão estratégica e mudança de cultura, supera os custos associados. O investimento em segurança nunca é demais. REFERÊNCIAS ANDRADE, R. O. B. de; AMBONI, N. TGA – Teoria Geral da Administração. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. BAUER, R. Gestão da mudança: caos e complexidade nas organizações. São Paulo: Atlas, 1999. BRASIL. Portaria nº 3.214, de 8 de junho de 1978. Aprova as Normas Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho, relativas à Segurança e Medicina do Trabalho. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 6 jul. 1978. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/composicao/orgaos- especifi cos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/sst- portarias/1978/portaria_3-214_aprova_as_nrs.pdf. Acesso em: 31 maio 2022. CHIAVENATO, I. Introdução à teoria geral da administração: uma visão abrangente da moderna administração das organizações. 6. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000. CHIAVENATO, I. Introdução à teoria geral da administração: uma visão abrangente da moderna administração das organizações. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. CHIAVENATO, I. Introdução à teoria geral da administração: uma visão abrangente da moderna administração das organizações. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. COLTRO, A. Apostila 04. Teorias burocrática e estruturalista. São Paulo: USP, 2005. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfi le.php/4240229/mod_ resource/content/1/A%20apostila%2004.pdf. Acesso em: 25 maio 2022. FAYOL, H. Administração industrial e geral: previsão, organização, comando, coordenação, controle. São Paulo: Atlas, 1989. 60 Administração APlicada À Engenharia de Segurança MAXIMIANO, A. C. A. Teoria geral dos sistemas: o que é e como funciona? Gen. Negócios & Gestão, 2020. Disponível em: https://gennegociosegestao.com.br/ teoria-geral-dos-sistemas/. Acesso em: 25 maio 2020. RODRIGUES, E. de A. Teorias da administração. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016. ROSSÉS, G. F. Introdução à administração. Santa Maria, RS: Universidade Federal de Santa Maria; Colégio Técnico Industrial de Santa Maria; Rede e-Tec Brasil, 2014. SILVA, R.O. da. Teorias da administração. São Paulo: Person Prentice Hall, 2008. TAYLOR, F. W. The Principles of Scientifi c Management. São Paulo: Atlas, 1990. TAYLOR, F. W. Shop Management. Belle Fourche: NuVision Publications, 2008. CAPÍTULO 2 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • Reconhecer o que são sistemas de gestão integrado e seus potenciais benefícios. • Identifi car as particularidades da norma internacional OHSAS 18001 e da sua substituta – ISO 45001. • Interpretar os principais programas relacionados à Saúde e Segurança do Trabalhador. • Relacionar as competências e os profi ssionais envolvidos nos respectivos programas. 62 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 63 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Neste capítulo, você aprenderá mais sobre o sistema de gestão integrado. Cada vez mais as empresas vêm sendo cobradas com relação à qualidade e à melhoria das condições de trabalho para os seus empregados. Demonstrar para a sociedade suas atitudes éticas e responsabilidade socioambiental é fator fundamental para o desempenho e sucesso no mercado cada vez mais competitivo. Em busca de maior efi ciência na gestão e melhorias nos processos, o sistema de gestão integrado torna-se uma ferramenta. Sistemas de gestão normalmente são baseados em normas e, nesse sentido, este capítulo abordará as características da Norma OHSAS 18001, que se refere à avaliação e à saúde ocupacional, assim como a Norma ISO 45001, que substitui a 18001 e trata do sistema de gestão de segurança e saúde ocupacional e suas principais modifi cações. Adentrando nas políticas e programas relacionados à saúde e à segurança do trabalhador, vamos conhecer a política nacional de segurança e saúde no trabalho, que visa à promoção e à melhoria da qualidade de vida do trabalhador, além de abordar a prevenção de acidentes e de danos à saúde que se relacionam com a realização do trabalho. Além da política, você, aluno, conhecerá também alguns programas que são voltados à saúde e segurança do trabalhador. Serão abordados aspectos de legislação, direitos e deveres tanto dos empregados quanto dos empregadores, assim como suas alterações. Você verá as classifi cações de riscos com suas defi nições, além das condições necessárias para se ter direito à insalubridade ou à periculosidade e os instrumentos que pautam esses dois direitos de alguns trabalhadores. Por fi m, conhecerá a composição e a importância da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, sua origem e atribuições. 2 SISTEMA DE GESTÃO No intuito de manter seus clientes, as organizações têm direcionado esforços na oferta de bens e serviços de forma a atender às necessidades e expectativas de seus consumidores. Entretanto, a longo prazo, garantir a satisfação das necessidades e dos requisitos apenas dos clientes já não é mais condição sufi ciente para que a organização prospere. Outros elementos, como funcionários, acionistas, poder público e fornecedores, podem também determinar a longevidade da organização, sendo compreendidos como atores que podem infl uenciar ou que são infl uenciados pelas ações da organização. Com isso, as organizações ampliam seu foco, passando a incluir não apenas o consumidor, mas também outras partes interessadas. 64 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Ao longo do tempo, as organizações vêm sendo cada vez mais cobradas com relação à qualidade, à melhoria nas condições de trabalho e às ações que visem minimizar os impactos socioambientais, precisando demonstrar atitudes éticas e com responsabilidade, relativas à segurança e à saúde no trabalho. Para o atendimento dessa demanda, inserimos o sistema de gestão possuindo duas perspectivas: a operação de forma isolada, em que não há comunicação entre os sistemas e cada um traça seu próprio objetivo, e a forma integrada, inexistindo um sistema para cada tipo de gestão. Na Figura 1, serão apresentados esses dois cenários (com e sem versão integrada), em que foram utilizados como exemplo o sistema de gestão de qualidade (SGQ), o sistema de gestão ambiental (SGA), o sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho (SGSST) e o sistema de gestão de responsabilidade social (SGRS). Como podemos observar, embora ambos tratem dos mesmos sistemas, quando estes são tratados de forma isolada, há uma tendência à descoordenação. Quando integramos os sistemas, através do sistema de gestão integrado, há convergência para os objetivos comuns. FIGURA 1 – SISTEMA DE GESTÃO INTEGRADO VERSUS DESCOORDENADO FONTE: Silva e Lawal (2014, p. 62) 65 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 Essa integração apresenta diversos benefícios, como a redução de custos, de duplicidade, a inibição de confl itos nos sistemas, assim como a execução de tarefas em menor tempo, permitindo um melhor gerenciamento dos riscos pertinentes às atividades desenvolvidas no trabalho, com melhoria na capacidade de comunicação e, consequentemente, melhor gestão da organização. A integração referida está muito além da simples junção de documentos pertencentes a distintos sistemas, ela deve ser desenvolvida de forma a atender às necessidades da organização e não apenas dos auditores (RIBEIRO NETO; TAVARES; HOFFMANN, 2008). Todavia, antes de partirmos para a discussão da integração do sistema de gestão, refl etiremos um pouco mais a respeito do que devemos considerar quando optamos por utilizar um sistema de gestão. Os sistemas de gestão geralmente são utilizados nas organizações para melhorar a sua efi cácia e assegurar e sustentar um ambiente saudável e seguro de trabalho. Entretanto, como qualquer outro método, possui seus pontos fortes e fracos, sendo que a sua efi cácia é dependente, na sua maioria, da forma como é entendido e aplicado na organização. 2.1 SISTEMA DE GESTÃO INTEGRADO (SGI) O avanço tecnológico que vivenciamos e a inserção de novos produtos e técnicas produtivas pertencentes aos ambientes industriais acarretaram diversos problemas tanto do ponto de vista pessoal quanto ambiental. As organizações, com o passar do tempo, observaram que a competitividade e o lucro auferido pelas vendas de produtos e serviços não são sufi cientes para a sua sobrevivência no mercado. Com isso, passaram a ser mais exigidas pela sociedade, devendo demonstrar suas atitudes éticas também no que se refere à saúde e à segurança no trabalho. Em busca de maior efi ciência, as organizações começaram a buscar melhorias em seus processos e passaram a desenvolver e implementar um sistema de segurança e saúde no trabalho. Podemos dizer que o sistema de gestão integrado é composto por elementos que estão inter-relacionados e são utilizados em uma empresa para estabelecer a política, seus objetivos e as formas para atingi-los, incluindo a estrutura 66 Administração APlicada À Engenharia de Segurança organizacional da empresa, suas atividades de planejamento, processos e recursos disponíveis. De forma resumida, é a maneira pela qual os processos e as atividades são gerenciados pela empresa. Quando as empresas passam a entender o valor de um SGI efi caz, geralmente se tornam bem-sucedidas. De forma geral, a integração se baseia em normas, como a ISO 9001 – Qualidade; ISO 14001 – Meio Ambiente; e ISO 18001 – Saúde e Segurança no Trabalho. Os sistemas de gestão utilizam o modelo PDCA, que é uma sigla em inglês que signifi ca Plan (planejar) – Do (fazer/executar) – Check (checar/verifi car) – Act/ Adjust (agir/ajustar), proposto por Deming (1900-1993) para manter uma melhoria contínua nos processos e ilustrado na Figura 2. FIGURA 2 – CICLO PDCA FONTE: Alves (2015, p. 2) Trata-se de umciclo cujas atividades são devidamente planejadas e recorrentes, com vistas a atingir ou melhorar resultados e metas estabelecidas, não possuindo um fi m predeterminado. Tem por princípio identifi car as causas dos problemas e suas possíveis soluções, de forma a tornar os processos de gestão mais ágeis e claros. Embora simples, o ciclo PDCA é uma ferramenta de qualidade que representa um grande avanço para a efi cácia do planejamento. Por se tratar de um ciclo, para que funcione de maneira efi caz, todas as fases devem acontecer, sob pena de o processo não sofrer prejuízos. Quando corretamente implementado, instala-se nas organizações um verdadeiro processo de melhoria contínua. O detalhamento da representação da sigla PDCA será apresentado a seguir (CAMPOS, 2004): 67 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 - PLAN (Planejar) Por ser a primeira etapa, é defi nida através da elaboração de um plano de ação, geralmente baseado nas políticas ou diretrizes da organização que está aplicando essa ferramenta. Deve-se identifi car o problema ou o processo que será analisado, podendo ser uma atividade que deve ser melhorada ou um método que carece de aperfeiçoamento, por exemplo. Essa primeira etapa é subdividida em cinco partes: 1. Identifi cação do problema: deve ser realizada todas as vezes em que a organização se deparar com um resultado considerado insatisfatório (seria o efeito), advindo de um processo (conjunto de causas). 2. Estabelecimento de metas: com a meta estabelecida, a diferença entre o estabelecido e o resultado obtido é o que podemos apontar como o não atingimento da meta, se essa diferença for inferior ao estabelecido. A meta não alcançada sempre será apontada como o problema. Na defi nição da meta, sempre devemos identifi car três partes: o objetivo gerencial, o prazo e o valor. 3. Análise do fenômeno: ao identifi car o problema, essa etapa considera a análise detalhada do problema juntamente as suas características, sendo analisados os dados coletados ou fatos. 4. Análise do processo (causas): analisando as características do fenômeno, devemos buscar identifi car as principais e mais importantes causas que originaram o problema. 5. Plano de ação: nele devem estar detalhadas todas as ações que devem ser tomadas para que se possa atingir a meta inicialmente proposta. Podemos dizer que é o produto de todo o processo da etapa Plan. - DO (Executar) Consiste na execução do plano com realização de treinamento dos colaboradores envolvidos referente ao método proposto. Resume-se basicamente na execução e na coleta de dados para posterior análise. Essa etapa se subdivide em duas partes: 1. Treinamento: realizado antes da execução e após a divulgação do plano de ação. 2. Execução da ação: quando o plano de fato é executado. Devem ser feitas periódicas verifi cações durante a execução no intuito de se manter o controle e a eliminação de eventuais dúvidas que possam surgir ao longo da execução. Independentemente dos resultados (bons ou ruins), estes devem ser registrados. Estes registros é que alimentarão a próxima 68 Administração APlicada À Engenharia de Segurança etapa do ciclo PDCA. - CHECK (Verifi car) Verifi cação ou análise dos dados coletados e resultados alcançados. Essa etapa pode ocorrer concomitante à realização do plano de ação, quando se verifi ca a realização do trabalho, analisando se está sendo feito da forma planejada, ou, após a execução, quando se analisa estatisticamente os dados juntamente à checagem dos itens de controle. Erros ou falhas podem ser detectados nessa etapa. ACT (Ação) Etapa em que se realiza ações corretivas com vistas à correção de falhas detectadas no passo anterior, de forma a promover a melhoria contínua dos processos. É nessa fase que se inicia novamente o ciclo, com todos os apontamentos realizados. O ciclo PDCA é uma ferramenta de qualidade que pode ser utilizada em qualquer organização e processo, independentemente da área, sendo aplicado principalmente nas normas de sistemas de gestão. Como vimos, existem diversos sistemas de gestão utilizados nas organizações, a depender dos seus objetivos. Trabalhar os sistemas de gestão de forma isolada dentro das organizações tende a provocar maiores difi culdades no gerenciamento. O valor de um SGI efi caz é considerado e entendido por empresas consideradas bem-sucedidas, visando garantir um controle mais efetivo de seus processos, permitindo que se destaquem dentro de um mercado altamente competitivo e exigente. Com o aumento das exigências impostas pelo mercado, as empresas passaram a ter o comprometimento em atender aos padrões das normas internacionais, seja de qualidade, sustentabilidade ambiental ou proteção da saúde e segurança do trabalhador. 2.2 AS NORMAS De forma a manter equânime o atendimento dos requisitos internacionais, em 1947, foi criada a International Organization for Standardization (ISO), com 69 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 sede em Genebra, na Suíça. Trata-se de uma organização internacional não governamental independente, que reúne especialistas para o compartilhamento do conhecimento e desenvolvimento de normas internacionais voluntárias, que são baseadas em consenso e consideradas relevantes para o mercado que apoia a inovação. Além disso, fornecem soluções para os distintos desafi os globais, estando presente em mais de 160 países. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) é membro fundador da ISO. Desde 1950, a ABNT atua na certifi cação de produtos e no desenvolvimento de diversos programas, visando ao atendimento das necessidades das empresas brasileiras. A ABNT estabelece e administra marcas em conformidade com padrões aplicados em esquemas de certifi cação voluntária ou compulsória de produtos. É um órgão de registro credenciado para certifi car sistemas de qualidade, sistemas de gestão ambiental e diversos produtos. As normas técnicas são documentos publicados por um órgão devidamente reconhecido pela ISO que, no caso do Brasil, é a ABNT, em que são determinados padrões, regras, diretrizes ou procedimentos destinados a um produto, serviço ou material. Embora a obediência do cumprimento no Brasil não seja obrigatória, tendo em vista que as normas não são elaboradas pelo governo ou por algum órgão vinculado ao poder público, mas, sim, por instituições privadas, há algumas leis que estimulam as empresas a cumprirem determinadas normas. 2.2.1 Norma OHSAS 18001:2007 – Série de avaliação de segurança e saÚde ocuPacional A Occupational Health and Safety Assessment Series (OHSAS) é uma sigla em inglês que signifi ca Série de Avaliação de Segurança e Saúde Ocupacional; fruto de uma série de normas britânicas desenvolvidas e publicadas pelo grupo British Standards Institution (BSI). A OHSAS 18001 é uma norma internacional que defi ne os requisitos mínimos para as boas práticas em gestão de saúde e segurança ocupacional, independentemente do tamanho das organizações, especifi cando os requisitos para um sistema de gestão da segurança e saúde do trabalho que permita à 70 Administração APlicada À Engenharia de Segurança organização desenvolver e implementar uma política e objetivos, considerando seus requisitos legais e informações sobre riscos para a Saúde e Segurança no Trabalho (SST). De forma mais resumida, podemos dizer que a OHSAS 18001 fornece os elementos necessários para que as organizações alcancem seus objetivos de segurança e saúde do trabalho. Quando foi desenvolvida, buscou-se compatibilidade com as outras normas de gestão, como a ISO 9001:2000, que trata da qualidade, e a ISO 14001:2004, relativa à gestão ambiental, no intuito de facilitar a integração dos sistemas de gestão de saúde e segurança do trabalho, para o caso de a organização optar pelouso do SGI. Embora sejam especifi cados na OHSAS 18001 os requisitos relativos a um sistema de gestão da segurança e saúde do trabalho, ela não especifi ca os critérios de desempenho específi cos da SST, nem fornece especifi cações detalhadas para a concepção de um sistema de gestão. Todos os requisitos apresentados têm como objetivo a incorporação em qualquer sistema de gestão da segurança e saúde do trabalho. A OHSAS 18001 é direcionada à Segurança e Saúde no Trabalho e não às demais áreas da segurança e saúde, como os programas de bem-estar/promoção da saúde, a segurança de produtos, os danos para a propriedade ou os impactos ambientais. Para que a organização implemente e, posteriormente, seja submetida ao processo de certifi cação da OHSAS 18001, é preciso que algumas etapas sejam cumpridas dentro do processo. Essas etapas serão apresentadas na Figura 3. Analisando-as, observa-se que essa norma tem correspondência com o ciclo PDCA, visto anteriormente. 71 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 FIGURA 3 – CICLO PDCA NA OHSAS 18001 FONTE: Severo (2018, p. 12) Etapa de planejamento A organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s) para a identifi cação contínua de perigos, a avaliação de riscos e a determinação dos controles necessários, com acesso à legislação e a outros requisitos de SST que lhe são aplicáveis. Com relação aos objetivos, estes devem ser mensuráveis, quando exequível, e coerentes com a política de SST, incluindo-se os comprometimentos com a prevenção de lesões e doenças, com o atendimento a requisitos legais aplicáveis e outros requisitos subscritos pela organização e com a melhoria contínua. 72 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Etapa de implementação e operação A alta direção da organização deve assumir a responsabilidade fi nal pela SST e pelo respectivo sistema de gestão, garantindo a disponibilidade de recursos essenciais para estabelecer, implementar, manter e melhorar o sistema de gestão da SST. Deve também defi nir, documentar e comunicar as funções, alocando responsabilidades e prestações de contas, além de delegar autoridades de forma a facilitar a gestão. O representante designado pela alta direção da organização, independentemente de outras responsabilidades, deverá ter autoridade para: a) assegurar que o sistema de gestão da SST seja estabelecido, implementado e mantido em conformidade com a Norma OHSAS; b) assegurar que os relatos sobre o desempenho do sistema de gestão da SST sejam apresentados à alta direção para análise crítica e sejam utilizados como base para a melhoria do sistema de gestão da SST. A organização deve identifi car as necessidades de treinamento associadas aos seus riscos de SST e a seu sistema de gestão. Após a identifi cação das necessidades, deve fornecer treinamento ou tomar outra ação para atender a essas necessidades, avaliar a efi cácia do treinamento ou da ação tomada e reter os registros associados. Com relação aos seus perigos de SST e ao sistema de gestão da SST, a organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s) para: a) comunicação interna entre os vários níveis e funções da organização; b) comunicação com terceirizados e outros visitantes no local de trabalho; c) recebimento, documentação e resposta a comunicações pertinentes oriundas de partes interessadas externas. Com relação aos documentos requeridos pelo sistema de gestão da SST e pela Norma OHSAS, estes devem ser controlados. Com relação à parte operacional, a organização deve determinar as operações e as atividades que estejam associadas ao(s) perigo(s) identifi cado(s), sendo necessária a implementação de controle para gerenciar o(s) risco(s) de SST, mantendo controles operacionais; controles referentes a serviços, produtos e aquisições de equipamentos; controles de terceirizados ou visitantes no local de trabalho e procedimentos e critérios operacionais devidamente documentados que permitam cobrir situações em que sua ausência possa acarretar desvios em relação à política e aos objetivos de SST. 73 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 A organização deve também estabelecer, implementar e manter os procedimentos para a identifi cação de potencial situação de emergência, assim como as respostas a tais situações, levando em consideração as necessidades das partes interessadas, tais como os serviços de emergência e a vizinhança. Periodicamente, em particular, após o teste periódico ou a ocorrência de situações de emergência, deve a organização analisar e revisar criticamente seus procedimentos de preparação para atendimento a essas situações. Etapa da verifi cação Nesta etapa, a organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s) que permita(m) o monitoramento e a medição do desempenho da SST, fornecendo medidas tanto qualitativas como quantitativas, monitorando o grau de atendimento aos objetivos da SST, a efi cácia dos controles, seja para a saúde ou para a segurança, com medidas tanto proativas, que permitam monitorar a conformidade do programa de gestão com os controles e critérios operacionais, quanto reativas, que monitorem as doenças ocupacionais, os incidentes, assim como os registros de dados e resultados do monitoramento e medição, que viabilizem a futura análise de ações corretivas e ações preventivas. Com relação aos registros dos resultados das avaliações periódicas, estes devem ser guardados pela organização, podendo a frequência variar de acordo com os requisitos legais. Os incidentes devem ser registrados, investigados e analisados a fi m de determinar defi ciências ou outros fatores que possam estar dando causa ou contribuindo para a ocorrência dos incidentes; identifi cadas as necessidades de ações corretivas, as oportunidades de ações preventivas, assim como as oportunidades de melhorias com posterior comunicação dos resultados das investigações. Com relação às não conformidades identifi cadas, a organização deve corrigi-las, investigando e determinando sua(s) causa(s) com posterior execução de ações que evitem nova ocorrência. Os resultados devem ser registrados e comunicados, juntamente à adoção das medidas preventivas e corretivas, assim como a análise crítica da efi cácia das ações que foram tomadas. Quando novos perigos são identifi cados ou modifi cados através das ações corretivas e/ou preventivas adotadas, assim como porventura a necessidade de novos controles forem detectados ou modifi cados, o novo procedimento com as respectivas ações deve ser submetido à avaliação de riscos antes de sua efetiva implementação. 74 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Auditorias internas devem ser conduzidas dentro de intervalos planejados de forma a determinar se o sistema de gestão da SST está em conformidade com os arranjos planejados para a gestão, se foi adequadamente implementado e mantém-se ativo, assim como a verifi cação da efi cácia no atendimento à política e objetivos da organização. Tais programas de auditorias devem ser bem planejados, implementados e mantidos com base nos resultados das avaliações de riscos das atividades da organização e nos resultados de auditorias anteriores. Devem ser asseguradas a objetividade e a imparcialidade no processo de seleção dos auditores, assim como na condução das auditorias. 2.2.1.1 ReQuisitos do Sistema de Gestão da Segurança e SaÚde OcuPacional Requisitos gerais A organização deve estabelecer, documentar, implementar, manter e melhorar continuamente um sistema de gestão da segurança e saúde do trabalho em conformidade com os requisitos da OHSAS e determinar como ele atenderá a esses requisitos. O escopo do sistema de gestão deve ser defi nido e documentado pela organização. Política de Segurança e Saúde do Trabalho A direção da organizaçãodeve defi nir e autorizar a Política de Segurança e Saúde do Trabalho, assegurando que esta política: a) Seja adequada à natureza e à escala dos riscos para a Segurança e Saúde do Trabalho (SST) da organização. RISCO: combinação entre a probabilidade de ocorrência de um evento ou exposição perigosa e a gravidade da lesão ou doença que pode ser causada por este evento ou exposição. b) Inclua um compromisso para a prevenção de doenças ocupacionais e lesões com a melhoria contínua da gestão e desempenho da SST. c) Inclua no mínimo um compromisso de atendimento aos requisitos legais aplicáveis e outros requisitos subscritos pela organização relacionados aos seus perigos para a SST. PERIGO: fonte, situação ou ato com um potencial para dano em termos de prejuízo humano ou doença, ou uma combinação destes. 75 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 d) Viabilize estrutura para a revisão dos objetivos da SST. e) Seja documentada, implementada e mantida. f) Seja comunicada a todas as pessoas que trabalhem na organização com o objetivo de criar uma conscientização das suas obrigações relativas à SST. g) Esteja disponível a todas as partes interessadas. h) Analisada e revisada periodicamente de forma a garantir a sua relevância e adequação à organização. 2.2.1.2 BeneFícios da imPlementação da OHSAS 18001 As organizações ao redor do mundo têm demonstrado mais interesse no conceito da cultura da SST como uma forma para a redução dos riscos de acidentes e incidentes. • INCIDENTE: evento relacionado ao trabalho no qual ocorreu ou poderia ter ocorrido lesão, doença (não importando a severidade) ou morte. • ACIDENTE: é um incidente que ocasionou lesão, doença ou morte. Um incidente em que não houve lesão, doença ou morte pode ser chamado de “quase acidente”, “quase perda” ou “ocorrência perigosa”. O sucesso da implementação de um programa de SST está vinculado à participação de diferentes atores, desde a alta direção até a gerência e seus colaboradores. Todos esses são fundamentais para a elaboração de políticas, assim como para o estabelecimento de um sistema de avaliação que possibilite a melhoria contínua. A seguir, veremos alguns dos benefícios da implementação da OHSAS 18001, devendo ser adotada de forma voluntária pelas organizações, não havendo nenhuma obrigatoriedade para a sua implementação. • Redução da taxa de incidentes e acidentes. • Melhor monitoramento de desempenho e relatórios de acidentes. • Redução dos custos gerais de acidentes. • Maior envolvimento e comprometimento dos colaboradores. • Melhor comunicação e treinamento. • Redução da probabilidade de processos judiciais e ações trabalhistas. • Aumento da produtividade, entre outros. 76 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Leia o artigo Utilização do PCDA na gestão de segurança e saúde no trabalho, disponível em: https://revista.fatectq.edu.br/index.php/interfacetecnologica/ article/view/312/245. 2.2.2 ISO 45001:2018 – Sistema de Gestão de SaÚde e Segurança OcuPacional – reQuisitos com orientação Para uso A ISO 45001 é uma norma da série ISO que foi publicada visando à substituição da OHSAS 18001:2007, a fi m de apresentar melhorias e atualizações necessárias para tornar o sistema de gestão ainda mais detalhado e, consequentemente, obter resultados ainda mais positivos, entrando em vigor em meados de 2021, quando venceram os três anos de sua publicação. A nova norma baseia-se também no conceito Plan-Do- Check-Act (PDCA), que pode ser aplicado individualmente a cada um de seus elementos, fornecendo uma estrutura para que as organizações planejem e estabeleçam os objetivos e processos de SSO necessários para assegurar os resultados determinados em sua política, assim como implementar, monitorar e tomar ações para a melhoria contínua e o alcance dos resultados pretendidos (ISO 45001, 2018) (ROCHA; SOUZA, 2019, p. 4). Embora utilize o ciclo PDCA, essa norma o incorpora dentro de uma nova estrutura, conforme ilustrado na Figura 4, que demonstra como as cláusulas de 4 a 10 podem ser agrupadas em relação ao ciclo. 77 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 FIGURA 4 – CICLO PDCA NA NORMA ISO 45001 FONTE: ABNT (2018, p. 8) A estrutura de alto nível (HLS) em que a norma foi redigida é defi nida pela ISO para as normas de sistemas de gestão. Com isso, todas as normas de sistema de gestão do futuro terão a mesma estrutura de alto nível, texto idêntico, assim como os termos e defi nições comuns. Embora a estrutura de alto nível não possa ser modifi cada, podem ser acrescentados subcláusulas e textos específi cos. O Quadro 1 apresentará a estrutura dessas cláusulas (ABNT, 2018). QUADRO 1 – ESTRUTURA DE ALTO NÍVEL DA ISO 45001 Cláusulas Estrutura Cláusula 0 Introdução Cláusula 1 Escopo Cláusula 2 Referências normativas Cláusula 3 Termos e defi nições Cláusula 4 Contexto da organização Cláusula 5 Liderança Cláusula 6 Planejamento Cláusula 7 Suporte Cláusula 8 Operação Cláusula 9 Avaliação de desempenho Cláusula 10 Melhoria FONTE: O Autor 78 Administração APlicada À Engenharia de Segurança OHSAS 18001 x ISO 45001 – principais exigências Analisando comparativamente a estrutura e os requisitos abordados pelas normas ISO 45001 e OHSAS 18001, Rocha e Souza (2019) sintetizaram as principais exigências dispostas na ISO 45001 em relação à Norma OHSAS 18001, sendo as cláusulas destacadas a seguir: • Contexto da organização. • Liderança e participação do trabalhador. • Planejamento. • Suporte. • Operação. • Avaliação de desempenho. • Melhoria. Cláusula 4: contexto da organização Como base de um sistema de gestão, esta cláusula determina o porquê de a organização estar aqui. Para isso, devem ser consideradas as questões internas e externas que podem impactar os resultados desejados, assim como todas as partes interessadas. Devem também ser avaliados os fatores de risco relacionados à saúde e à segurança dos trabalhadores e suas expectativas. Todo o escopo precisa ser disponibilizado com informação documentada, incluindo os limites do sistema de gestão, de forma a focar nos objetivos do negócio. Cláusula 5: liderança e participação do trabalhador Enquanto na OHSAS 18001 era designado um membro da alta direção para atuar como responsável e assim oferecer apoio ao sistema de gestão, a ISO 45001 dá ênfase especial à liderança e não apenas à gestão. Com isso, a alta direção passa a ter maior responsabilidade e envolvimento no sistema de gestão da organização. Essa cláusula é composta por três subcláusulas: Liderança e Comprometimento; Política de Saúde e Segurança Ocupacional (SSO); e Funções, Responsabilidades e Autoridades Organizacionais. Há uma ampliação na responsabilidade e maior envolvimento da alta direção nos processos de implementação do sistema de gestão de SSO, assumidos por trabalhadores capacitados, visando ao atendimento dos requisitos, garantindo, assim, o pleno conhecimento em todos os níveis da organização. A organização deve minimizar ou, se possível for, eliminar toda e qualquer difi culdade que possa vir a trazer desmotivação ou inibição da participação dos trabalhadores. Com isso, a alta direção passa também a ser responsável por comunicar a importância do sistema de gestão, visando aumentar a conscientização e o envolvimento dos 79 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 trabalhadores. Cláusula 6: planejamento Mantêm-se os elementos da OHSAS 18001, como a identifi cação, a avaliação, o controle de perigos, as exigências legais e a defi nição de objetivos, todavia, com vistas à integração da estrutura de alto nível (HLS). Essa etapa de planejamento destaca a identifi cação de riscos e as oportunidades, incluindo duas subcláusulas: Ações para abordar riscos e oportunidades;e Objetivos do sistema de gestão e planejamento. Para identifi cação e avaliação dos riscos e oportunidades, a metodologia utilizada deverá ser proativa, estando presente no estágio inicial do projeto, de forma a garantir a existência de ações que procurem eliminar perigos e reduzir riscos antes da mudança planejada, expandindo-se de forma contínua para todo o ciclo de vida do ambiente de trabalho. Essas ações devem ser planejadas considerando os novos conhecimentos adquiridos, assim como as informações disponíveis, fazendo uso das melhores práticas. Esse tipo de abordagem minimiza a adoção posterior de ações corretivas, considerando que as ações preventivas se sobrepõem de forma proativa. Cláusula 7: suporte A ISO 45001 estabelece para esta cláusula que: “a organização deve determinar e providenciar os recursos necessários para estabelecimento, implementação, manutenção e melhoria contínua do sistema de gestão de SSO” (ABNT, 2018, p. 17). Essa cláusula é composta por cinco subcláusulas: Recursos; Competência; Conscientização; Comunicação; e Informações documentadas. Após a abordagem do contexto responsabilidade e planejamento, para atingir os resultados esperados, as organizações devem analisar qual o suporte necessário. Estão inclusos nesse suporte os recursos humanos, fi nanceiros e estruturais, as comunicações internas e externas, bem como informações documentadas importantes para o sistema de gestão de SSO. Cláusula 8: operação A organização deve planejar, implementar, controlar e manter seus processos de forma a atender aos requisitos do sistema de gestão de SSO. Com relação à eliminação de perigos e à redução de riscos, a organização deve utilizar a hierarquia de controles, iniciando pela eliminação do perigo; substituindo operações, materiais ou equipamentos com menor potencial de perigo; utilização de controle de engenharia e reorganização do trabalho; utilização de controles administrativos, incluindo treinamento e, por fi m, a utilização de equipamento de 80 Administração APlicada À Engenharia de Segurança proteção individual (EPI) adequado para o trabalho realizado. A organização deve também estabelecer um processo que viabilize a implementação e o controle de mudanças, sejam estas temporárias ou permanentes, efetuando um processo para respostas rápidas a situações de emergência. Cláusula 9: avaliação de desempenho A organização precisa determinar quais informações são necessárias para avaliar o desempenho e a efi cácia de SSO. Para isso, precisará estabelecer, implementar e manter processos que permitam o monitoramento, a medição, a análise e a avaliação do seu desempenho em SSO. A ISO 45001 dispõe de indicadores de desempenho para acompanhamento dos resultados, assegurando o processo de melhoria contínua. Para isso, a organização deve garantir que os equipamentos utilizados para essa fi nalidade sejam os mais adequados e possuam a precisão exigida, garantindo, assim, a confi abilidade das medidas realizadas. De forma a assegurar a conformidade do sistema de gestão em SSO, bem como as exigências da nova norma, a organização deve implementar e manter um programa bem estruturado de auditoria interna, devendo seus resultados serem analisados de forma crítica pela alta direção, assegurando a contínua adequação, efi cácia e sufi ciência do sistema de gestão de SSO. Cláusula 10: melhoria A organização deve identifi car as oportunidades de melhoria e implementar as ações necessárias que permitam atingir os resultados pretendidos no sistema de gestão de SSO, incluindo, nessa análise, relatórios, investigações e tomadas de ações para determinar e gerenciar os incidentes e as não conformidades. Aborda as não conformidades e as ações corretivas, assim como as estratégias para a melhoria contínua, refl etindo o objetivo da nova norma de prevenir lesões e doenças, assim como oferecer locais de trabalho adequados, seguros e saudáveis aos trabalhadores. Traz como exemplos de melhoria contínua as novas tecnologias; as boas práticas, sejam elas internas ou externas à organização; sugestões e recomendações das partes interessadas; novos conhecimentos e materiais relacionados à SSO; mudanças nas capacidades ou competências dos trabalhadores e o alcance de melhor desempenho com menor uso de recurso. 81 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 2.2.2.1 EtaPas Para a imPlementação da Norma ISO 45001 Ao implementar um sistema de gestão de SSO, a organização demonstra possuir sólido compromisso no alcance das boas práticas em todos os níveis de SSO. A implementação, a migração ou a certifi cação para a ISO 45001 dependerá do estágio em que a organização se encontra. Rocha e Souza (2019, p. 119) descreveram dez passos necessários para as organizações que queiram implementar um sistema de gestão de SSO sem o objetivo de certifi cação, conforme descrito a seguir: 1. Adquirir e interpretar a nova norma, avaliando as principais mudanças e quais são as adequações necessárias para que seja implementada. 2. Avaliar os Gaps (lacunas) no sistema de gestão de SSO frente à nova norma com profi ssionais qualifi cados. 3. Treinar a alta direção, liderança e trabalhadores quanto aos requisitos da nova norma e requalifi car auditores internos para conhecimento e interpretação das novas exigências. 4. Elaborar um plano de ação com base nas constatações da Gap Analysis (Análise de Lacunas) e compatível com as necessidades da organização, defi nindo prazos, custos e responsáveis para cada etapa do processo. 5. Adequar os processos e atualizar os documentos existentes, conforme o plano de ação, para atender aos novos requisitos e mudanças. 6. Estabelecer de forma efetiva um processo de comunicação sobre a nova norma, mostrando seus benefícios e sua importância para a segurança e saúde de todos na organização. 7. Realizar a auditoria interna considerando a nova norma como critério, com auditores qualifi cados para a avaliação da efi cácia do sistema de gestão de SSO implementado. 8. Realizar a análise crítica pela alta direção conforme os novos requisitos. 9. Tratar eventuais não conformidades, observações ou oportunidades de melhoria, resultantes do processo de auditoria e análise crítica. 10. Estabelecer com o órgão certifi cador o processo de certifi cação e migração para a nova norma, determinando o período que será realizada e método da auditoria. 82 Administração APlicada À Engenharia de Segurança ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 De forma geral, os sistemas de gestão estudados utilizam como modelo de planejamento: a) A Análise SWOT. b) O Método OKR. c) O Modelo PDCA. d) A Matriz BCG. 2 As siglas do Ciclo PDCA signifi cam, respectivamente: a) Atuar; executar; checar; e planejar. b) Planejar; checar; atuar; e executar. c) Executar; atuar; planejar; e checar. d) Planejar; executar; checar; e atuar. 3 A Norma OHSAS 18001:2007 aborda questões de: a) Qualidade. b) Avaliação de Segurança e Saúde Ocupacional. c) Meio Ambiente. d) Direitos dos trabalhadores. 4 Marque V para as afi rmativas verdadeiras e F para as falsas: ( ) A norma que substituiu a OHSAS 18001:2007 foi a ISO 9000. ( ) Incidente: evento relacionado ao trabalho, no qual ocorreu ou poderia ter ocorrido lesão, doença (não importando a severidade) ou morte. ( ) A norma OHSAS 18001:2007 substituiu a ISO 45001:2005. ( ) A norma ISO 45001:2008 utiliza a Análise SWOT como sistema de planejamento. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) F – F – V – V. ( ) V – V – V – F. ( ) F – V – V – F. ( ) F – V – F – F. 83 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 2.3 POLÍTICA E PROGRAMAS RELACIONADOS À SAÚDE E SEGURANÇA DO TRABALHADOR A saúde do trabalhador é um campo da Saúde Pública que estuda o processo saúde-doença do homem na sua relação com o trabalho (KA- RINO; MARTINS;(CHIAVENATO, 2014). • Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.): discípulo de Platão, até o início da Idade Moderna foi o fi lósofo mais infl uente, impulsionando o pensamento da Filosofi a, Cosmologia, Nosologia, Metafísica, Lógica e Ciências Naturais. Em sua obra Política, que versa a organização do Estado, a Administração Pública é por ele distinguida de três formas: 1- Monarquia ou governo de um só (que pode redundar em tirania). 2- Aristocracia ou governo de uma elite (que pode descambar em oligarquia). 3- Democracia ou governo do povo (que pode degenerar em anarquia) (CHIAVENATO, 2004; 2014). • Thomas Hobbes (1588-1679): fi lósofo político inglês, defendia de forma estritamente racional, livre de qualquer tipo de sentimentalismo ou religiosidade, com negação implícita da origem divina do poder, o absoluto poder do governo em razão da sua visão pessimista da humanidade. Os indivíduos, na ausência do governo, tendem a viver em permanente confl ito e guerra para garantir seus meios de subsistência. Em 1651, publicou seu livro Leviatã. Assinala a construção racional de uma sociedade na qual o povo confere ao governo o poder de organizar a vida social, garantindo a paz, em contrapartida, renuncia seus direitos naturais em favor do governo. Com isso, as dimensões alcançadas pelo Estado ameaçam a liberdade dos cidadãos. A tese em busca da construção de uma sociedade que permitisse o poder absoluto dos soberanos não foi bem aceita. • Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): fi lósofo social suíço, teórico, político e escritor, desenvolveu a teoria do contrato social, que se resume em um acordo entre indivíduos com vistas à criação de uma sociedade, e não apenas um Estado, ou seja, um pacto de associação e não de submissão. • Friedrich Engels (1820-1895), fi lósofo social e político alemão, e Karl Marx (1818-1883), fi lósofo e revolucionário socialista alemão, desenvolveram 11 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 uma teoria socialista partindo da crítica inicial ao capitalismo. Para eles, a sociedade capitalista se dividia basicamente em duas classes sociais: os exploradores e os explorados. Os exploradores seriam os burgueses e, os explorados, o proletariado. Essa teoria, encabeçada por Marx e Engels, posteriormente denominada de marxismo, difundiu-se no fi nal do século XIX e início do século XX na Europa, fazendo com que boa parte da classe trabalhadora passasse a enxergar a situação de exploração que viviam. O marxismo, ao longo do século XX, infl uenciou diversos setores da atividade humana, desde a política até fatos econômicos, sociais, morais etc., tornando-se, nos países de regime comunista, a doutrina ofi cial. Em sua obra O Manifesto Comunista (1848), Marx faz duras críticas ao capitalismo e traz à tona a história do movimento operário, reunindo suas principais ideias da luta de classe e terminando com um apelo no mundo inteiro para a união dos operários. O marxismo foi a primeira ideologia que se opôs às ideias metafísicas, com afi rmações de leis objetivas para o desenvolvimento econômico e social de uma sociedade. 2.2 CONTRIBUIÇÃO DA CIÊNCIA A fi losofi a, durante o período que vai desde a Antiguidade até o início da Idade Média, direcionou-se para um cardápio variado de problemas e questionamentos que acabaram por afastar os pensamentos voltados à área administrativa. Entretanto, outros fi lósofos, agora infl uenciados pelas ciências, agregaram suas contribuições para a formação do pensamento administrativo. Os principais serão descritos a seguir: • Francis Bacon (1561-1626): fi lósofo inglês considerado um dos precursores do pensamento científi co moderno e fundador da lógica moderna, que se baseia em métodos experimentais e indutivos. Considera como único método verdadeiro a pesquisa experimental para o acesso aos fenômenos da natureza. • René Descartes (1596-1650): fi lósofo francês, matemático e físico, considerado o fundador da fi losofi a moderna e responsável pela criação das coordenadas cartesianas, impulsionando a matemática e a geometria da época. Se não reconhece alguma coisa com evidência de ser verdadeira, não admite como tal. Através do seu livro O Discurso do Método, descreveu seu método fi losófi co, denominado cartesiano, em que os princípios são: 12 Administração APlicada À Engenharia de Segurança • Princípio da dúvida sistemática ou da evidência: não aceitar como verdadeira coisa alguma enquanto não se souber com evidência – clara e distintamente – aquilo que é realmente verdadeiro. Com a dúvida sistemática, evita-se a prevenção e a precipitação, aceitando-se apenas como certo o que seja evidentemente certo. • Princípio da análise ou de decomposição: dividir e decompor cada difi culdade ou problema em tantas partes quantas sejam possíveis e necessárias a sua compreensão e solução e resolvê-las separadamente. • Princípio da síntese ou da composição: conduzir ordenadamente os pensamentos e o raciocínio, começando pelos aspectos mais fáceis e simples de conhecer para passar gradualmente aos mais difíceis. • Princípio da enumeração ou da verifi cação: fazer verifi cações, recontagens e revisões para assegurar que nada foi omitido ou deixado de lado (CHIAVENATO, 2014, p. 39). O método cartesiano descrito por Descartes teve papel decisivo na administração, sobretudo nas abordagens normativas e prescritivas, como a Administração Científi ca, a Teoria Clássica e a Neoclássica. • Galileu Galilei (1564-1642): fi lósofo italiano, cientista, físico, astrônomo e matemático. Considerado o pai do método experimental e um dos fundadores da Ciência Moderna, com papel fundamental para o desenvolvimento da Ciência. • Isaac Newton (1643-1727): físico inglês, astrônomo e matemático. Considerado o cientista mais infl uente da história da ciência. 2.3 CONTRIBUIÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES: IGREJA E MILITAR Além dos fi lósofos e cientistas, importantes instituições se destacam com contribuições no pensamento administrativo: a igreja e as organizações militares. Na civilização ocidental, a Igreja Católica pode ser considerada a organização formal mais efi ciente. A igreja tem sobrevivido às revoluções do tempo, apoiada não só nos seus objetivos, mas também nas suas técnicas organizacionais e administrativas efi cazes, sendo um exemplo de como se conservar e defender suas fi nanças, rendas, privilégios e propriedades. Já as organizações militares aparecem nos tempos modernos como o primeiro sistema administrativo organizado e constituído como uma das principais preocupações do Estado moderno, tendo infl uenciado poderosamente para o aparecimento das teorias da administração. O Quadro 1 apresentará um resumo das principais contribuições dessas duas instituições no pensamento administrativo. 13 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 QUADRO 1 – INFLUÊNCIAS RELIGIOSAS E MILITARES NO PENSAMENTO ADMINISTRATIVO Instituições Contribuições Religiosas (Igreja Católica) A estrutura da Igreja Católica serviu de modelo para muitas organizações que, ávidas de expe- riências bem-sucedidas, passaram a incorporar uma infi nidade de princípios e normas adminis- trativas – organização do tempo, hierarquia de autoridade e coordenação funcional. Militares (Organizações) Têm infl uenciado muito o desenvolvimento das teorias administrativas no que se refere à organização linear, princípio da unidade de comando, escala hierárquica com seu grau de autoridade e de responsabilidade, centralização do comando e descentralização da execução, linha e assessoria, princípio da direção – todo soldado deve saber perfeitamente o que se espera dele e aquilo que deve fazer. FONTE: Andrade e Amboni (2011, p. 47) Diversas foram as contribuições nos pensamentos e teorias da administração desde a sua origem, sendo aplicadas e utilizadas até os dias de hoje. A sociedadeBOBROFF, 2011). No Art. 200 da Constituição Federal, a saúde do trabalhador é de- stacada quando se defi ne que compete ao Sistema Único de Saúde (SUS) executar ações de saúde do trabalhador e também colaborar na proteção do meio ambiente, onde nele está compreendido o do trabalho (BRASIL, 1988). A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em seu Capítulo V, devidamente alterada pela Lei nº 6.514/1977, trata da prevenção de aci- dentes e segurança no trabalho ao defi nir as obrigações dos órgãos fi scal- izadores, assim como dos empregadores e empregados no cumprimento das Normas regulamentadoras e demais legislações pertinentes à Saúde e Segurança do Trabalho: Art. 154 - A observância, em todos os locais de trabalho, do disposto neste Capítulo, não desobriga as empresas do cumprimento de outras disposições que, com relação à matéria, sejam incluídas em códigos de obras ou regulamentos sanitários dos Estados ou Municípios em que se situem os respectivos estabelecimentos, bem como daquelas oriundas de convenções coletivas de trabalho. Art. 155 - Incumbe ao órgão de âmbito nacional competente em matéria de segurança e medicina do trabalho: I - estabelecer, nos limites de sua competência, normas sobre a aplicação dos preceitos deste Capítulo, especialmente os referidos no art. 200; II - coordenar, orientar, controlar e supervisionar a fi scalização e as demais atividades relacionadas com a segurança e a medicina do trabalho em todo o território nacional, inclusive a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho; III - conhecer, em última instância, dos recursos, voluntários ou de ofício, das decisões proferidas pelos Delegados Regionais do Trabalho, em matéria de segurança e medicina do trabalho. Art. 156 - Compete especialmente às Delegacias Regionais do Trabalho, nos limites de sua jurisdição: I - promover a fi scalização do cumprimento das normas de 84 Administração APlicada À Engenharia de Segurança segurança e medicina do trabalho; II - adotar as medidas que se tornem exigíveis, em virtude das disposições deste Capítulo, determinando as obras e reparos que, em qualquer local de trabalho, se façam necessárias; III - impor as penalidades cabíveis por descumprimento das normas constantes deste Capítulo, nos termos do art. 201. Art. 157 - Cabe às empresas: I - cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho; II - instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais; III - adotar as medidas que lhes sejam determinadas pelo órgão regional competente; IV - facilitar o exercício da fi scalização pela autoridade competente. Art. 158 - Cabe aos empregados: I - observar as normas de segurança e medicina do trabalho, inclusive as instruções de que trata o item II do artigo anterior; Il - colaborar com a empresa na aplicação dos dispositivos deste Capítulo. Parágrafo único - Constitui ato faltoso do empregado a recusa injustifi cada: a) à observância das instruções expedidas pelo empregador na forma do item II do artigo anterior; b) ao uso dos equipamentos de proteção individual fornecidos pela empresa (BRASIL, 1977). Dentre outros elementos relativos aos artigos supracitados, destacam-se as obrigações previstas para os empregadores e empregados, respectivamente, nos Artigos 157 e 158. Nesse sentido, veremos, a seguir, algumas características da Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho e programas relacionados a essa temática. 2.3.1 Política Nacional de Segurança e SaÚde no Trabalho (PNSST) A PNSST é regulamentada através do Decreto nº 7.602, de 7 de novembro de 2011, estabelecendo como objetivos a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida do trabalhador, assim como aspectos relacionados à prevenção de acidentes e danos à saúde oriundos da relação homem-trabalho por meio da eliminação ou da redução dos riscos aos quais os trabalhadores estão expostos no seu ambiente de trabalho (BRASIL, 2011). Para o alcance desses objetivos, por meio da articulação continuada, a PNSST deverá ser implementada através de ações do governo, representado pelos Ministérios do Trabalho e Emprego, da Saúde e da Previdência Social, 85 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 atuando no campo das relações de trabalho, produção, consumo, ambiente e saúde, podendo também ter a participação voluntária das organizações que representam os trabalhadores e empregados. São estabelecidos cinco princípios da PNSST, a saber: 1. Universalidade. 2. Prevenção. 3. Precedência das ações de promoção, proteção e prevenção sobre as de assistência, reabilitação e reparação. 4. Diálogo social. 5. Integralidade. A gestão participativa da PNSST é realizada através da Comissão Tripartite de Saúde e Segurança no Trabalho, constituída paritariamente por representantes do governo, trabalhadores e empregadores. 2.3.2 Política Nacional de SaÚde do Trabalhador e da Trabalhadora Posteriormente, o Ministério da Saúde, considerando o alinhamento entre a política de saúde do trabalhador e a PNSST, institui, em 23 de agosto de 2012, a Portaria nº 1.823 – a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. Nela são defi nidos os princípios, as diretrizes e as estratégias a serem observados pelas três esferas de gestão do SUS, contemplando todos os trabalhadores, independentemente de sua localização, forma de inserção no mercado de trabalho ou de seu vínculo empregatício, incluindo, também, os aposentados e os desempregados. Os princípios e as diretrizes da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora foram ampliados quando comparados com a Política anterior, conforme veremos a seguir: I – Universalidade. II – Integralidade. III – Participação da comunidade, dos trabalhadores e do controle social. IV – Descentralização. V – Hierarquização. VI – Equidade. VII – Precaução (BRASIL, 2012). 86 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2.3.3 Programas voltados À SaÚde e Segurança do Trabalhador A depender da atividade executada, existem diversos programas que se relacionam à saúde e segurança do trabalhador, com vistas a orientar ou implementar medidas de controle nos ambientes laborais. No ambiente de trabalho, diversos agentes podem estar presentes de forma a trazer riscos e prejuízos à saúde e à qualidade de vida do trabalhador. O objetivo da higiene do trabalho é reconhecer, avaliar e controlar todos os fatores ambientais relacionados ao ambiente que podem causar doenças ou danos à saúde do trabalhador. A NR-9 associa riscos ambientais aos agentes físicos, químicos e biológicos existentes no ambiente de trabalho, identifi cando as exposições ocupacionais. Embora não sejam contemplados, outros riscos, como os mecânicos e os ergonômicos, não devem ser desconsiderados na análise, uma vez que também são agentes causadores de danos à saúde do trabalhador, necessitando, portanto, da mesma conscientização, prevenção e controle que os riscos previstos e regulamentados nessa norma (BRASIL, 1978). Veremos, nos próximos tópicos, alguns programas que devem ser aplicados, de acordo com cada necessidade, em organizações públicas e privadas, no sentido de adotar medidas de segurança que visam priorizar a saúde e as condições de trabalho. 2.3.3.1 Programa de CondiçÕes e Meio Ambiente de Trabalho na IndÚstria da Construção (PCMAT) Acidente de trabalho é um problema que impacta distintos setores produtivos, entretanto, a construção civil é uma das áreas com maior ocorrência de acidentes de trabalho, cujos números são alarmantes quando comparados a outros setores (SOUZA; PENHA, 2021). Devido a essa razão, foi necessária a criação de um programa específi co para as atividades da indústria da construção e para as atividades e os serviços de demolição, reparo, pintura, limpeza e manutenção de edifíciosem geral e de manutenção de obras de urbanização. 87 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 O PCMAT é considerado um documento minucioso utilizado na construção civil, cujo objetivo principal é prevenir acidentes de trabalho em todas as esferas desse segmento, defi nindo atribuições e responsabilidades de forma a orientar a adoção de medidas de proteção e prevenção, visando evitar ações e situações de risco juntamente à redução máxima de possíveis riscos de acidentes e doenças. Com a nova NR-18, houve a substituição do PCMAT e do Programa de Prevençã o de Riscos Ambientais (PPRA) pelo Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Com essa alteração, a NR-18 deixou de ser uma norma de aplicação, passando a ser uma norma de gestão de segurança (BRASIL, 2020). Embora extinto, o PCMAT existente antes da entrada da vigência desta norma terá validade até o término da obra. Para toda e qualquer obra iniciada após a vigência da alteração da NR-18, deverá ser providenciado o PGR. Essa NR tem como objetivo estabelecer diretrizes de ordem administrativa, de planejamento e de organização, que visam à implementação de medidas de controle e sistemas preventivos de segurança nos processos, nas condições e no meio ambiente de trabalho na indústria da construção, sendo obrigatórias a elaboração e a implementação do PGR nos canteiros de obras, contemplando os riscos ocupacionais e suas respectivas medidas de proteção, devendo ser elaborado por profi ssional legalmente habilitado em segurança do trabalho e implementado sob responsabilidade da organização (BRASIL, 2020). O PGR é constituído pelo gerenciamento dos riscos ocupacionais e pelas seguintes etapas: a) Identifi cação dos perigos: consiste em identifi car e descrever os riscos a que os trabalhadores estão expostos e que podem afetar a saúde e a segurança no trabalho. b) Avaliação dos riscos ocupacionais: consiste em avaliar os riscos ocupacionais relativos aos perigos identifi cados na etapa anterior, obtendo-se, com isso, informações para a adoção de medidas de prevenção. c) Controle dos riscos: consiste na adoção de medidas que visem à eliminação, à redução ou ao controle dos riscos ocupacionais aos quais os trabalhadores estão expostos. 88 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2.3.3.2 Programa de Proteção ResPiratória (PPR) Trata-se de um programa de segurança do trabalho que visa assegurar a saúde do trabalhador com medidas de proteção e controle de doenças ocupacionais associadas à inalação de materiais em suspensão, tais como poeira, névoa, fumos, vapores e gases. O PPR deve ser implementado em empresas que, devido às concentrações de contaminantes, obriguem o trabalhador a utilizar equipamentos de proteção respiratória ou então em que haja defi ciência de oxigênio, de forma a ser selecionado o melhor EPI. Antes de se identifi car os níveis de contaminantes, as empresas devem mapear quais são os agentes presentes no ar que faz com que os trabalhadores utilizem a proteção respiratória. Uma vez identifi cados os agentes, deve-se analisar a sua concentração. A fi nalidade do PPR é defi nir o melhor Equipamento De Proteção Respiratória de acordo com a necessidade em que o trabalhador está exposto. Para o sucesso da gestão do PPR, devem ser feitos o planejamento, a execução e a avaliação anual das medidas de proteção. Além desses fatores, destacam-se outros que também são relevantes para assegurar o desempenho das medidas de segurança: • Monitoramento do uso do Equipamento de Proteção Respiratória (EPR). • Inspeção, manutenção e higienização dos respiradores. • Avaliação médica. • Monitoramento constante dos agentes em que os trabalhadores estão expostos. • Armazenamento adequado dos EPRs. • Descarte adequado de acordo com a vida útil do EPR. Os EPRs têm como objetivo a proteção dos trabalhadores contra a inalação de agentes contaminantes, de forma a proporcionar maior segurança e menor risco de exposição. O tipo de EPR a ser utilizado deve ser avaliado de acordo com as condições de exposição. Os tipos mais comuns de EPR serão ilustrados a seguir: 89 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 FIGURA 5 – TIPOS DE EPR Respirador Facial Respirador sem manutenção - Descartável Respirador Semifacial Equipamento autônomo de wproteção respiratória Sistema de linha de ar FONTE: O autor 90 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Saiba mais em: https://www.youtube.com/watch?v=XWCYMhYiu2I. Os respiradores sem manutenção, e de uso único, possuem subclassifi cações de acordo com o nível de fi ltragem. Esses respiradores, denominados como PFF (Peça Facial Filtrante), possuem três níveis: • PFF1: utilizado para proteção de poeiras e/ou névoas não oleosas, que não desprendam gases/vapores tóxicos; fi bras têxteis, cimento refi nado, minério de ferro, minério de carvão, sabão em pó, talco, cal, soda cáustica, poeiras vegetais; poeiras de lixamento e esmerilhamento que não excedam até 10 vezes o seu limite de tolerância. Usar somente contra aerossóis sólidos e líquidos à base de água. • PFF2: utilizado para proteção em poeiras/névoas não oleosas, que não emitam gases/vapores tóxicos, tais como fumos metálicos ou plásticos; sílica, fi bras têxteis, cimento refi nado Portland; minério de ferro, minério de carvão, minério de alumínio, sabão em pó, talco, cal, soda cáustica e poeiras vegetais. Pode ser utilizado também em certas poeiras de aviário contendo restos de ração, fezes, plumas e penas de aves; poeiras de lixamento e esmerilhamento e névoas de ácido sulfúrico (com o uso de outro EPI – óculos de proteção adequados). • PFF3: contempla a proteção das anteriores, mais outros elementos como: asbestos em concentração abaixo do limite, sílica, processamento de minerais, arsênio, berílio, prata, platina, chumbo, cádmio, algodão e outras névoas não oleosas, fumos metálicos ou plásticos. 2.3.3.3 PerFil ProFissiográFico Previdenciário (PPP) O Perfi l Profi ssiográfi co Previdenciário (PPP) é um documento que reúne informações do histórico laboral do trabalhador, tais como dados administrativos, registros ambientais e resultados de monitoração biológica, durante todo o período em que o trabalhador executou suas atividades na empresa. Esse documento deve ser preenchido, atualizado e entregue ao trabalhador no momento da rescisão de contrato de trabalho, especifi cando se este esteve sujeito aos agentes nocivos à saúde durante o contrato de trabalho, sob pena de multa. 91 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 A responsabilidade pela emissão do PPP é, no caso de empregado, da empresa empregadora; no caso de cooperados fi liados, da cooperativa de trabalho; no caso dos Trabalhadores Portuários Avulsos (TPA), do Órgão Gestor de Mão de Obra; e, no caso de trabalhador avulso não portuário, do sindicato. As Microempresas e as Empresas de Pequeno Porte não estão dispensadas da emissão do PPP. A partir de 1º de janeiro de 2023, o PPP será emitido exclusivamente em meio eletrônico, a partir das informações constantes nos eventos de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) e no Sistema Simplifi cado de Escrituração Digital das Obrigações Previdenciárias, Trabalhistas e Fiscais (e-Social), para os segurados das empresas obrigadas. O PPP em meio físico não será aceito para comprovação de direitos perante a Previdência Social para períodos trabalhados. Além de fornecer para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) informações sobre as reais situações às quais está ou esteve exposto durante o período em que exerce ou exerceu suas atividades profi ssionais na empresa, o PPP tem como fi nalidade: • Garantir ao trabalhador junto à Previdência Social o direito decorrente da relação de trabalho individual, difuso oucoletivo. • Assegurar à empresa a organização e a individualização das informações contidas em seus variados setores ao longo dos anos, evitando ações judiciais indevidas relativas aos seus colaboradores. • Oportunizar tanto aos administradores privados quanto aos públicos o acesso a informações confi áveis através de fonte primária de informação estatística para o desenvolvimento de vigilâncias ou de políticas em saúde coletiva. ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 A respeito do Perfi l Profi ssiográfi co Previdenciário (PPP), julgue a frase a seguir: O PPP é um documento histórico que deve ser elaborado pela empresa, por cada grupo de trabalhadores de atividades afi ns, com vistas a prestar ao INSS informações relativas à efetiva exposição a agentes nocivos, com base em resultados de monitorização biológica no ambiente de trabalho. R.:____________________________________________________ 92 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2.3.4 Laudos técnicos relacionados a Programas de segurança do trabalho Toda empresa, independentemente do seu tamanho ou segmento de atuação, deve estar em conformidade com as normas regulamentadoras. Nesse sentido, e de forma a se precaver de possíveis ações trabalhistas e fi scalizadoras, deve elaborar programas, análises e laudos de saúde e segurança do trabalho. Assim, no Quadro 2, serão apresentados alguns dos principais programas e suas respectivas normas regulamentadoras. QUADRO 2 – ALGUNS DOS PROGRAMAS DE SEGURANÇA E SAÚDE DO TRABALHO Programa Norma Regulamentadora PCMSO – Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional NR-7 PCA – Programa de Conservação Auditiva NR-7 e NR-9 PPRA – Programa de Prevenção de Riscos Ambientais NR-9 PPR – Programa de Proteção Respiratória NR-7 e NR-9 PIE – Prontuário de Instalações Elétricas NR-10 PPRPS – Programa de Prevenção de Riscos em Prensas e Similares NR-12 Laudo de Caldeiras e Vasos de Pressão NR-13 PPEOB – Programa de Prevenção da Exposição Ocupacional ao Benzeno NR-15 Laudo Técnico de Insalubridade NR-15 Laudo Técnico de Periculosidade NR-16 PCMAT – Programa de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção NR-18 PGR – Programa de Gerenciamento de Riscos NR-22 PGSSMATR – Programa de Gestão em Segurança, Saúde e Meio Ambiente do Trabalho Rural NR-31 LTCAT – Laudo Técnico de Condições Ambientais do Trabalho Previdência Social PPP – Perfi l Profi ssiográfi co Previdenciário Previdência Social FONTE: O autor Na sequência, exploraremos três tipos de laudos com suas principais características. Para maior detalhamento, o estudante poderá acessar diretamente a respectiva norma, conforme ilustrado no Quadro 2. 93 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 2.3.4.1 Laudo Técnico das CondiçÕes Ambientais do Trabalho (LTCAT) O Laudo Técnico das Condições Ambientais de Trabalho (LTCAT) é um documento elaborado por um médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho, que atesta a exposição do trabalhador a agentes capazes de danifi car sua saúde e integridade física. O LTCAT é regulamentado pela Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, que indica os agentes aos quais o trabalhador está exposto. Tal indicação orienta a Previdência Social, sendo os agentes classifi cados em: • Biológicos: fungos, parasitas, bactérias e vírus, entre outros riscos que envolvem seres vivos e podem trazer malefícios para o corpo humano. • Físicos: são as formas de energia, tais como ruídos, calor, frio, pressão, vibrações ou radiação. • Químicos: fazem parte deste grupo o benzeno, a sílica, o carvão mineral, o gás natural e o petróleo, por exemplo. São substâncias, compostos ou produtos que entram em nosso organismo pela via respiratória (poeiras, gases, neblinas ou vapores) ou contato (absorvidos pela pele ou ingeridos). Cada risco e agente ao qual o trabalhador está exposto possui um limite, que deve ser levado em consideração no momento em que se elabora o LTCAT. Apenas a exposição aos agentes nocivos não é sufi ciente para a concessão da aposentadoria especial. De acordo com a legislação, só tem direito à aposentadoria especial o trabalhador que, em função da atividade realizada, a exerce de maneira contínua, permanente e sem interrupções durante a sua jornada laboral. O LTCAT quantifi ca o agente nocivo, identifi ca e analisa o controle de riscos ambientais existentes ou que possam vir a ocorrer no ambiente em que o trabalhador exerce suas atividades laborais, considerando também a proteção do meio ambiente e dos recursos naturais. 2.3.4.2 Laudo de Insalubridade A insalubridade é defi nida de acordo com o grau do agente nocivo, levando em conta ainda o tipo de atividade desenvolvida pelo trabalhador no curso de sua jornada laboral, observados os limites de tolerância, as taxas de metabolismo e respectivos tempos de exposição durante a jornada. 94 Administração APlicada À Engenharia de Segurança A NR-15 discrimina os agentes considerados nocivos para a saúde e os limites de tolerância. Entende-se por “limite de tolerância”, para os fi ns desta Norma, a concentração ou intensidade máxima ou mínima, relacionada com a natureza e o tempo de exposição ao agente, que não causará danos à saúde do trabalhador durante a sua vida laboral (BRASIL, 1978). Em condições de insalubridade, o exercício do trabalho assegura ao trabalhador a percepção de adicional, incidente sobre o salário-mínimo da região, equivalente a: • 40% (quarenta por cento), para insalubridade de grau máximo. • 20% (vinte por cento), para insalubridade de grau médio. • 10% (dez por cento), para insalubridade de grau mínimo. No caso de incidência de mais de um fator de insalubridade, será apenas considerado o de grau mais elevado, para efeito de acréscimo salarial, sendo vedada a percepção cumulativa. Quando for possível a eliminação ou a neutralização da insalubridade, cessará o pagamento adicional respectivo. A eliminação ou a neutralização da insalubridade poderá ocorrer com a adoção de medidas de ordem geral que conservem o ambiente de trabalho dentro dos limites de tolerância ou com a utilização de equipamento de proteção individual. A NR-15 estabelece os graus de insalubridade e defi ne os percentuais ao quais o trabalhador terá direito, conforme demonstrado no Quadro 3: QUADRO 3 – GRAUS DE INSALUBRIDADE E SEUS RESPECTIVOS PERCENTUAIS Anexo Atividades ou operações que exponham o trabalhador Percentual 1 Níveis de ruído contínuo ou intermitente superiores aos limites de tolerância fi xados no Quadro constante do Anexo 1 e no item 6 do mesmo Anexo da NR-15. 20% 2 Níveis de ruído de impacto superiores aos limites de tolerância fi xados nos itens 2 e 3 do Anexo 2 da NR-15 20% 3 Exposição ao calor com valores de IBUTG superiores aos limites de tolerân- cia fi xados nos Quadros 1 e 2 da NR-15 20% 4 Níveis de radiações ionizantes com radioatividade superior aos limites de tolerância fi xados no Anexo da NR-15. 40% 5 Ar comprimido. 40% 6 Radiações não ionizantes consideradas insalubres em decorrência de inspe- ção realizada no local de trabalho. 20% 7 Vibrações consideradas insalubres em decorrência de inspeção realizada no local de trabalho. 20% 95 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 8 Frio considerado insalubre em decorrência de inspeção realizada no local de trabalho. 20% 9 Umidade considerada insalubre em decorrência de inspeção realizada no local de trabalho. 20% 10 Agentes químicos cujas concentrações sejam superiores aos limites de tolerância fi xados no Quadro 1 da NR-15 10%, 20% e 40% 11 Poeiras minerais cujas concentrações sejam superiores aos limites de tole- rância fi xados no Anexo da NR-15. 40% 12 Atividades ou operações, envolvendo agentes químicos, consideradas insa- lubres em decorrência de inspeção realizada no local de trabalho. 10%, 20% e 40% 13 Agentesbiológicos. 20% e 40% FONTE: O Autor Visando estar em harmonia com as exigências legais trabalhistas, o Laudo de Insalubridade é o documento que toda empresa precisa providenciar. Deve ser elaborado por engenheiro de segurança do trabalho ou médico do trabalho, registrado no Ministério do Trabalho, conforme o Artigo 195 da CLT (BRASIL, 1943). O documento permite a verifi cação dos riscos a que o trabalhador está exposto no seu ambiente de trabalho, sendo possível identifi car se o trabalhador faz jus ou não ao pagamento adicional de insalubridade. 2.3.4.3 Laudo de Periculosidade O Laudo de Periculosidade atende à legislação trabalhista do Ministério do Trabalho e Emprego, com cumprimento aos requisitos estabelecidos na NR-16, subsidiando a empresa na classifi cação das atividades e operações perigosas e no recolhimento desse adicional. Deve ser emitido por médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho, devidamente habilitado. A NR-16 defi ne que é obrigação do empregador caracterizar ou descaracterizar a periculosidade, ou seja, ele deve se responsabilizar pela elaboração do documento (BRASIL, 1978). A NR-16, juntamente ao Art. 193 da CLT, defi ne algumas atividades desenvolvidas pelos trabalhadores, assim como a sua exposição a algum dos riscos, como atividades ou operações perigosas, sendo estas: 96 Administração APlicada À Engenharia de Segurança • energia elétrica; • explosivos; • infl amáveis; • atividades e operações perigosas com exposição a roubos ou outras espécies de violência física nas atividades profi ssionais de segurança pessoal ou patrimonial; • trabalho em motocicleta; • atividades e operações perigosas com radiações ionizantes ou substâncias radioativas (BRASIL, 1978). As atividades laborais com utilização de motocicleta ou motoneta no deslocamento de trabalhador em vias públicas são consideradas perigosas. O anexo 5 da NR-16 determina que não são consideradas perigosas: a) a utilização de motocicleta ou motoneta exclusivamente no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela; b) as atividades em veículos que não necessitem de emplacamento ou que não exijam carteira nacional de habilitação para conduzi-los; c) as atividades em motocicleta ou motoneta em locais privados; d) as atividades com uso de motocicleta ou motoneta de forma eventual, assim considerado o fortuito, ou o que, sendo habitual, dá-se por tempo extremamente reduzido. De acordo com a NR-16, sobre a radiação ionizante, não são consideradas perigosas: a) as atividades desenvolvidas em áreas que utilizam equipamentos móveis de Raios X para diagnóstico médico; b) áreas, tais como emergências, centro de tratamento intensivo, sala de recuperação e leitos de internação, não são classifi cadas como salas de irradiação em razão do uso do equipamento móvel de Raios X. O exercício de trabalho em condições de periculosidade assegura ao trabalhador a percepção de adicional de 30% (trinta por cento), incidente sobre o salário, sem os acréscimos resultantes de gratifi cações, prêmios ou participação nos lucros da empresa. Caso o empregado porventura possua direito à insalubridade, poderá optar pelo recebimento desta gratifi cação, não sendo cumulativa. As operações de transporte de infl amáveis líquidos ou gasosos liquefeitos, em quaisquer vasilhames e a granel, também são consideradas em condições de periculosidade. São excluídas, nesse contexto, o transporte em pequenas quantidades, até o limite de 200 (duzentos) litros para os infl amáveis líquidos e 135 (cento e trinta e cinco) quilos para os infl amáveis gasosos liquefeitos. 97 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 2.4 COMISSÃO INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES (CIPA) Na segunda metade do século XVIII, na Inglaterra, a partir da Revolução Industrial, a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) surge em decorrência da chegada de máquinas industriais juntamente ao aumento de lesões e acidentes e à necessidade da criação de um grupo que pudesse discutir e apresentar soluções para possíveis riscos de acidentes de trabalho. No Brasil, criada na década de 1940 pelo governo federal na gestão do presidente Getúlio Vargas, a CIPA ganha destaque no Art. 82 do Decreto-Lei nº 7.036/1944. Art. 82. Os empregadores, cujo número de empregados seja superior a 100, deverão providenciar a organização, em seus estabelecimentos, de comissões internas, com representantes dos empregados, para o fi m de estimular o interesse pelas questões de prevenção de acidentes, apresentar sugestões quanto à orientação e fi scalização das medidas de proteção ao trabalho, realizar palestras instrutivas, propor a instituição de concursos e prêmios e tomar outras providências, tendentes a educar o empregado na prática de prevenir acidentes. A NR-5 tem por objetivo normatizar os parâmetros e os requisitos da CIPA, visando à prevenção de acidentes de trabalho e suas doenças relacionadas, de modo a tornar o trabalho compatível e permanente com a preservação da vida e promoção da saúde do trabalhador (BRASIL, 1978). Devem constituir e manter a CIPA as organizações e os órgãos públicos da administração direta e indireta, bem como os órgãos dos Poderes Legislativo, Judiciário e Ministério Público, que possuam empregados regidos pela CLT. De acordo com a CLT, a constituição da CIPA será obrigatória em conformidade com as instruções expedidas pelo Ministério do Trabalho, nos estabelecimentos ou locais de obra neles especifi cados. De acordo com o dimensionamento previsto no Quadro 1 da NR-5, a CIPA será composta por representantes da empresa e dos empregados, conforme descrito a seguir: • Os representantes dos empregadores, titulares e suplentes serão por eles designados. 98 Administração APlicada À Engenharia de Segurança • Os representantes dos empregados, titulares e suplentes serão eleitos em escrutínio secreto, do qual participem, independentemente de fi liação sindical, exclusivamente os empregados interessados. • O mandato dos membros eleitos da CIPA terá a duração de 1 (um) ano, permitida uma reeleição. • O disposto no item anterior não se aplicará ao membro suplente que, durante o seu mandato, tenha participado de menos da metade do número de reuniões da CIPA. • O empregador designará, anualmente, dentre os seus representantes, o Presidente da CIPA e os empregados elegerão, dentre eles, o Vice- Presidente. • Os titulares da representação dos empregados nas CIPAs não poderão sofrer despedida arbitrária, entendendo-se como tal a que não se fundar em motivo disciplinar, técnico, econômico ou fi nanceiro. • No caso de ocorrência de despedida, caberá ao empregador, em caso de reclamação à Justiça do Trabalho, comprovar a existência de qualquer dos motivos mencionados anteriormente, sob pena de ser condenado a reintegrar o empregado (BRASIL, 1978). A NR-5 ainda determina que a organização deve promover o treinamento para o representante nomeado e para os membros da CIPA, titulares e suplentes, devendo ocorrer no prazo máximo de 30 (trinta) dias antes da data da posse, podendo ser aproveitados treinamentos anteriores, desde que seja respeitado o período de no máximo dois anos, contados da conclusão do curso. O treinamento deverá contemplar, no mínimo, os seguintes itens (BRASIL, 1978): a) estudo do ambiente, das condições de trabalho, bem como dos riscos originados do processo produtivo; b) noções sobre acidentes e doenças relacionadas ao trabalho decorrentes das condições de trabalho e da exposição aos riscos existentes no estabelecimento e suas medidas de prevenção; c) metodologia de investigação e análise de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho; d) princípios gerais de higiene do trabalho e de medidas de prevenção dos riscos; e) noções sobre as legislações trabalhistas e previdenciárias relativas à segurança eà saúde no trabalho; f) noções sobre a inclusão de pessoas com defi ciência e reabilitados nos processos de trabalho; e g) organização da CIPA e outros assuntos necessários ao exercício das atribuições da Comissão. 99 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 2.4.1 AtribuiçÕes da CIPA A CIPA tem por atribuição, de acordo com a NR-5: a) acompanhar o processo de identifi cação de perigos e avaliação de riscos, bem como a adoção de medidas de prevenção implementadas pela organização; b) registrar a percepção dos riscos dos trabalhadores, em conformidade com o subitem 1.5.3.3 da NR-01, por meio do mapa de risco ou outra técnica ou ferramenta apropriada a sua escolha, sem ordem de preferência, com assessoria do Serviço Especializado em Segurança e em Medicina do Trabalho - SESMT, onde houver; c) verifi car os ambientes e as condições de trabalho visando identifi car situações que possam trazer riscos para a segurança e saúde dos trabalhadores; d) elaborar e acompanhar plano de trabalho que possibilite a ação preventiva em segurança e saúde no trabalho; e) participar no desenvolvimento e implementação de programas relacionados à segurança e saúde no trabalho; f) acompanhar a análise dos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, nos termos da NR-1 e propor, quando for o caso, medidas para a solução dos problemas identifi cados; g) requisitar à organização as informações sobre questões relacionadas à segurança e saúde dos trabalhadores, incluindo as Comunicações de Acidente de Trabalho - CAT emitidas pela organização, resguardados o sigilo médico e as informações pessoais; h) propor ao SESMT, quando houver, ou à organização, a análise das condições ou situações de trabalho nas quais considere haver risco grave e iminente à segurança e saúde dos trabalhadores e, se for o caso, a interrupção das atividades até a adoção das medidas corretivas e de controle; e i) promover, anualmente, em conjunto com o SESMT, onde houver, a Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho - SIPAT, conforme programação defi nida pela CIPA (BRASIL, 1978). Como vimos, a exigência da constituição de uma CIPA está relacionada ao aspecto legal, devidamente prevista na CLT nos Art. 162 a 165. Com isso, a constituição da CIPA não é uma questão de opção do empregador, mas sim uma obrigação de acordo com a legislação. 100 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Para cursos e eventos, acesse o site: https://www.gov.br/fundacentro/pt-br/centrais-de-conteudo/ cursos-e-eventos. ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 Julgue os itens relativos à organização e às atribuições do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) e da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), indicando CERTO ou ERRADO. O SESMT é dotado de autonomia operacional e de autonomia administrativa, por isso seu funcionamento dispensa avaliação por outro órgão ou outra empresa. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ O profi ssional especializado em segurança e em medicina do trabalho não pode exercer outras atividades na empresa durante o horário de sua atuação no SESMT. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ Uma das atribuições da CIPA é elaborar e acompanhar o plano de trabalho que possibilite a ação preventiva em segurança e saúde no trabalho. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ Os profi ssionais integrantes do SESMT têm a incumbência, entre outras, de esclarecer e conscientizar os empregadores acerca de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, estimulando-os em favor da prevenção. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ 101 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 O mandato dos membros eleitos da CIPA tem a duração de dois anos, não sendo permitida a reeleição. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2 Sobre o Perfi l Profi ssiográfi co Previdenciário (PPP), marque V para as afi rmativas verdadeiras e F para as falsas: ( ) As Microempresas e as Empresas de Pequeno Porte estão dispensadas da emissão do PPP. ( ) A responsabilidade pela emissão do PPP é, no caso de empregado, da empresa empregadora; no caso de cooperados fi liados, da cooperativa de trabalho; no caso dos Trabalhadores Portuários Avulsos (TPA), do Órgão Gestor de Mão de Obra; e, no caso de trabalhador avulso não portuário, do sindicato. ( ) O PPP também tem como fi nalidade garantir ao trabalhador junto à Previdência Social o direito decorrente da relação de trabalho individual, difuso ou coletivo. ( ) O PPP é emitido apenas por meio físico, através de papel. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) F – V – V – F. ( ) V – F – F – V. ( ) F – F – V – V. ( ) F – F – F – F. 3 Sobre o Laudo Técnico das Condições Ambientais do Trabalho (LTCAT), é CORRETO afi rmar: ( ) Trata-se de um documento que pode ser elaborado apenas por técnicos e engenheiros de segurança do trabalho. ( ) Apenas o médico de segurança do trabalho pode emitir o LTCAT. ( ) Documento elaborado por um médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho que atesta a exposição do trabalhador a agentes capazes de danifi car sua saúde e integridade física. ( ) O LTCAT não leva em consideração os agentes nocivos em que o trabalhador exerceu suas atividades laborais. 4 A respeito dos limites de tolerância descritos na NR-15, é CORRETO afi rmar: ( ) São os limites máximos em que o trabalhador poderá fi car exposto, não estando correlacionado com o tempo de exposição. 102 Administração APlicada À Engenharia de Segurança ( ) Apenas o tempo de exposição é considerado neste limite de tolerância. ( ) É a concentração ou intensidade máxima ou mínima, relacionada com a natureza e o tempo de exposição ao agente, que não causará danos à saúde do trabalhador durante a sua vida laboral. ( ) Analisa o tempo de entrada e saída do trabalhador na empresa e, se ultrapassar 8 horas diárias de trabalho, este passa a ter direito à insalubridade. 5 Em condições de insalubridade, o exercício do trabalho assegura ao trabalhador a percepção de adicional, incidente sobre o salário-mínimo da região, podendo variar percentualmente em: ( ) 5%; 10% e 40%. ( ) 10%; 20% e 50%. ( ) 8%; 10% e 40%. ( ) 10%; 20% e 40%. 6 Complete a frase com as alternativas descritas a seguir: No caso de incidência de mais de um fator de insalubridade, será apenas considerado o de grau _________________, para efeito de acréscimo salarial, sendo _______________a percepção cumulativa. ( ) De menor intensidade / vedada. ( ) Mais elevado / vedada. ( ) Mais elevado / permitido. ( ) Mais elevado / obrigatória. 7 Com relação à eliminação ou à neutralização da insalubridade, podemos afi rmar: ( ) Não pode ocorrer em hipótese alguma. ( ) Só pode ocorrer através de estudos clínicos. ( ) Mesmo que cesse a condição de insalubridade, o trabalhador permanecerá recebendo, pois não pode ser cortado por se tratar de um benefício constitucional. ( ) A eliminação ou a neutralização da insalubridade poderá ocorrer com a adoção de medidas de ordem geral que conservem o ambiente de trabalho dentro dos limites de tolerância ou com a utilização de equipamento de proteção individual. 103 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 8 O exercício de trabalho em condições de periculosidade assegura ao trabalhador a percepção de adicional de: ( ) 30%. ( ) 20%. ( ) 10%. ( ) 40%. 9 São consideradas atividadesperigosas, EXCETO: ( ) Utilização de motocicleta ou motoneta no deslocamento de trabalhador em vias públicas. ( ) Atuação com energia elétrica. ( ) Atividades desenvolvidas em áreas que utilizam equipamentos móveis de Raios X para diagnóstico médico. ( ) Trabalho com explosivos. 10 A respeito da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) é CORRETO afi rmar: ( ) Não são obrigatórias em instituições públicas da administração direta e indireta. ( ) Composta por representantes da empresa e dos empregados. ( ) Órgãos do poder judiciário não são obrigados a possuir uma CIPA. ( ) O mandato dos membros eleitos da CIPA terá a duração de seis meses, permitida uma reeleição. 11 A Norma Regulamentadora que regulamenta os parâmetros da CIPA é: ( ) NR-10. ( ) NR-22. ( ) NR-33. ( ) NR-5. 104 Administração APlicada À Engenharia de Segurança ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Como observamos ao longo deste capítulo, o uso do sistema de gestão integrado traz para as organizações diversos ganhos, como melhoria no controle do processo de gestão, maior confi abilidade, agilidade e consequente redução de custos e de retrabalho. Em busca de maior efi ciência nos seus processos, cada vez mais as organizações estão considerando, nas suas políticas e no seu planejamento, o uso desse sistema, que utiliza, de forma geral, o modelo PCDA em seu processo de gestão. Considerando que a integração desse sistema é dada sistematicamente através do uso de normas, estudamos no decorrer do capítulo duas normas fundamentais na Segurança e Saúde Ocupacional: a OHSAS 18001 e a sua substituta, a ISO 45001, que traz melhorias e atualizações para tornar o sistema ainda mais detalhado, com impactos diretos nos resultados. Utiliza a estrutura HLS (estrutura de alto nível), compatibilizando essa estrutura com as demais normas, trazendo textos, termos e defi nições comuns entre elas. Adentramos nas políticas e programas relacionados à saúde e à segurança do trabalhador, e vimos diversos aspectos relacionados à legislação, desde as previstas na Constituição Federal, passando pela Consolidação das Leis do Trabalho, até as Normas Regulamentadoras. Vimos que muitas delas se complementam e, a depender da atividade executada, existem diversos programas que se relacionam com a saúde e a segurança do trabalhador, visando orientar ou implementar medidas de controle nos ambientes laborais. Dentro da Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho (PNSST), aprendemos que sua gestão é participativa, realizada através da Comissão Tripartite de Saúde e Segurança no Trabalho, constituída paritariamente por representantes do governo, trabalhadores e empregadores. Com relação aos programas voltados para a saúde e a segurança do trabalhador, estudamos alguns deles e observamos que estão pautados em normas regulamentadoras, que estabelecem deveres e obrigações a serem cumpridos pelos empregadores de forma a garantir a saúde e a segurança dos trabalhadores em seus ambientes de trabalho, sendo as primeiras publicadas ainda na década de 1970, através de Portarias do Ministério do Trabalho, visando assegurar a prevenção da saúde e a segurança dos trabalhadores em seus locais de trabalho. Embora a implementação dos requisitos de saúde e segurança apresentados nas NRs seja de responsabilidade do empregador, o trabalhador, por sua vez, 105 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 também tem sua responsabilidade, devendo fazer o uso adequado, quando aplicável, dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) de forma adequada e segura. Aprendemos também o que é o Perfi l Profi ssiográfi co Previdenciário (PPP), sua importância e os responsáveis por sua emissão. Com relação aos laudos, conhecemos três tipos, sendo estes: o Laudo Técnico das Condições Ambientais do Trabalho, o de Insalubridade e o de Periculosidade. Dentro destes, vimos as normas regulamentadoras associadas, assim como aprendemos quais atividades fazem jus ao ganho adicional de insalubridade ou periculosidade, e suas respectivas circunstâncias. Por fi m, encerrando o capítulo, vimos como surgiu a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), como é a sua composição, as atribuições e contribuições, tendo como objetivo a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, de modo a tornar compatível permanentemente o trabalho com a preservação da vida e a promoção da saúde do trabalhador. REFERÊNCIAS ABNT. ISO 45001:2018. Sistemas de Gestão de Saúde e Segurança Ocupacional - Requisitos com Orientação para Uso. Brasília: ABNT, 2018. 47 p. ALVES, É. A. C. O PDCA como ferramenta de gestão da rotina. In: CONGRESSO NACIONAL DE EXCELÊNCIA EM GESTÃO, 11., 2015, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: [s. n.], 2015. p. 1-12. BRASIL. Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Aprova a Consolidação das Leis do Trabalho. Rio de Janeiro: Diário Ofi cial da União, 9 ago. 1943. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452.htm. Acesso em: 31 maio 2022. BRASIL. Decreto-Lei nº 7.036, de 10 de novembro de 1944. Reforma da Lei de Acidentes do Trabalho. Rio de Janeiro: Diário Ofi cial da União, 13 nov. 1944. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto- lei-7036-10-novembro-1944-389493-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 31 maio 2022. 106 Administração APlicada À Engenharia de Segurança BRASIL. Lei nº 6.514, de 22 de dezembro de 1977. Altera o Capítulo V do Título II da Consolidação das Leis do Trabalho, relativo à segurança e medicina do trabalho e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 23 dez. 1977. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/l6514.htm. Acesso em: 31 maio 2022. BRASIL. Portaria nº 3.214, de 8 de junho de 1978. Aprova as Normas Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho, relativas à Segurança e Medicina do Trabalho. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 6 jul. 1978. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/composicao/orgaos- especifi cos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/sst- portarias/1978/portaria_3-214_aprova_as_nrs.pdf. Acesso em: 31 maio 2022. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 5 out. 1988. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 31 maio 2022. BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 25 jul. 1991. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm. Acesso em: 31 maio 2022. BRASIL. Decreto nº 7.602, de 7 de novembro de 2011. Dispõe sobre a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho - PNSST. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 8 nov. 2011. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7602.htm. Acesso em: 31 maio 2022. BRASIL. Portaria nº 1.823, de 23 de agosto de 2012. Institui a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 23 ago. 2012. Disponível em: https://bvsms. saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt1823_23_08_2012.html. Acesso em: 31 maio 2022. BRASIL. Portaria nº 3.733, de 10 de fevereiro de 2020. Aprova a nova redação da Norma Regulamentadora nº 18 - Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 11 fev. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/ composicao/orgaos-especifi cos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e- saude-no-trabalho/sst-portarias/2020/Portaria_SEPRT_3.733_Altera_a_NR_18.pdf. Acesso em: 31 maio 2022. 107 SISTEMAS DE GESTÃO, POLÍTICA E PROGRAMAS DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO Capítulo 2 BSI. OHSAS 18001:2007. Sistemas de gestão da segurança e da saúde do trabalho – Requisitos. Londres: BSI, 2007. 35 p. Disponível em: https://comum. rcaap.pt/bitstream/10400.26/7319/2/Anexo%20I%20OHSAS180012007_pt.pdf. Acesso em: 31 maio 2022. CAMPOS, V. F. Gerenciamento da rotina do trabalho do dia a dia. 8. ed. Belo Horizonte: Editora de Desenvolvimento Gerencial, 2004. KARINO, M. E.; MARTINS, J. T.; BOBROFF, M. C. C. Refl exão sobre as políticas de saúde do trabalhador no Brasil: avanços e desafi os. Ciência, Cuidado e Saúde, [s. l.], v. 10, n. 2, p. 395-400, 2011. RIBEIRO NETO, B. M.; TAVARES, J. D. C. T.; HOFFMANN, S. C. Sistemas de Gestão Integrados – qualidade, meio ambiente, responsabilidade social, segurança e saúde no trabalho. São Paulo: SENAC, 2008. ROCHA, C. de S.; SOUZA, B. de J. Compreendendo a nova Norma ISO 45001 e sua relação com a OHSAS 18001. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 39., 2019, Santos. Anais [...]. Santos: ABEPRO, 2019. p. 1-17. Disponível em: http://www.abepro.org.br/biblioteca/ TN_STP_297_1678_36972.pdf. Acesso em: 20 maio 2022. SEVERO, E. da R. Comparação entre a OHSAS 18001:2007 e a ISO 45001:2018. 2018. 60 f. Dissertação (Bacharelado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal da Grande Dourados, Faculdade de Engenharia, Dourados, 2018. Disponível em: https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/ prefi x/2137/1/EduardodaRochaSevero.pdf. Acesso em: 20 maio 2022. SILVA, R. O. da.; LAWAL, F. B. Sistemas de Gestão Integrados: perspectiva de uma empresa de transporte de carga. INOVAE - Journal of Engineering and Technology Innovation, São Paulo, v. 2, n. 3, p. 60-75, set./dez. 2014. SOUZA, D. C. de; PENHA, L. P. da. A importância da criação e controle do PCMAT baseado na NR-18. Revista Científi ca Acertte, [s. l.], v. 1, n. 5, p. 1540, 2021. 108 Administração APlicada À Engenharia de Segurança CAPÍTULO 3 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • Exemplifi car acidente de trabalho e sua caracterização. • Associar os diferentes tipos e modelos de análise e prevenção de acidentes. • Avaliar os principais tipos e classifi cações de erro humano. • Analisar e planejar o método de investigação de acidentes através da árvore de causas. 110 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 111 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Neste capítulo, você conhecerá alguns dos principais conceitos que defi nem o acidente de trabalho, incluindo os dispositivos legais que os diferenciam. Entenderá em quais situações o trabalhador que sofre acidente de trabalho passa a ter estabilidade no emprego, por quanto tempo e também as classifi cações de afastamentos do trabalhador do seu local de trabalho. Conhecerá os números de registros de acidentes e registros de doença do trabalho no âmbito Brasil dentro do triênio 2018-2020, assim como sua segmentação por região. Dentro da temática de afastamento do trabalhador e registros de acidentes, você aprenderá a distinguir auxílio-doença, auxílio-acidente e auxílio-doença acidentário. Falando em registros de acidentes, entenderá em quais situações a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) deve ser registrada e a sua importância. Verá quais são as principais situações que resultam em acidente de trabalho e as suas respectivas classifi cações. De posse desse conhecimento, você verá, ao longo do capítulo, alguns modelos para análise e prevenção de acidentes e suas principais características e limitações. Dentro do rol desses modelos, neste capítulo, veremos a teoria do dominó de Heinrich, Weaver, Adams e Bird e Loftus, referente ao modelo sequencial; a teoria do queijo suíço, referente ao modelo epidemiológico; e a teoria da ressonância funcional, referente ao modelo sistêmico. Em cada um desses modelos, você encontrará exemplos do seu funcionamento e suas principais características. Dentro dos tipos e classifi cações de erros humanos, aprenderá a classifi car e verá as principais causas que levam à ocorrência desse tipo de erro e consequente acidente, incluindo sugestões de fl uxograma para auxiliar na sua identifi cação e classifi cação. Por fi m, conhecerá alguns métodos para análise e investigação de acidentes, incluindo sugestões para análise, sendo exemplifi cado um dos modelos, o método da árvore de causas, com um exemplo prático de sua aplicação. 2 ACIDENTE DE TRABALHO – PRINCIPAIS CONCEITOS E DEFINIÇÕES Inúmeros são os fatores que podem infl uenciar ou desencadear um acidente de trabalho, sendo alguns destes perceptíveis e outros silenciosos. O sucesso da segurança do trabalho está diretamente associado à conscientização para a adoção das medidas protetivas e preventivas, seja pelo empregado ou pelo empregador. 112 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Infelizmente, algumas das ações oriundas da segurança do trabalho são negligenciadas por muitas empresas que, na busca por maior lucratividade nas suas atividades e redução dos custos, reduzem, também, a segurança, aumentando os potenciais riscos às atividades laborais e, consequentemente, os acidentes de trabalho. A defi nição de acidente de trabalho remete à ocorrência inesperada e não planejada, enquadrada no contexto laboral, que resulte em lesão corporal, doença ou morte. A União Europeia (Eurostat) defi ne acidente de trabalho como sendo uma ocorrência discreta durante o trabalho que origina danos físicos ou mentais, podendo ser fatais, sendo considerados aqueles que levam à morte da vítima no prazo de um ano após a ocorrência do acidente, ou não fatais, defi nidos como aqueles que resultam em mais de três dias úteis de ausência ao trabalho, por vezes também chamados de ‘acidentes graves de trabalho’. FONTE: . Acesso em: 23 maio 2022. No Brasil, o acidente de trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa, de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados obrigatórios da previdência social, que provoque lesão corporal ou perturbação funcional, causando a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho (BRASIL, 1991). Equiparam-se também a acidente de trabalho, de acordo com o Art. 21 da Lei nº 8.213/1991, as seguintes condições: I - o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única, haja contribuído diretamente para a morte do segurado, para redução ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesão que exija atenção médica para a sua recuperação; II - o acidente sofrido pelo segurado no local e no horário do trabalho, em consequência de: 113 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou companheiro de trabalho; b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa relacionada ao trabalho; c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de companheiro de trabalho; d) ato de pessoa privada do uso da razão; e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou decorrentes de força maior; III - a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no exercício de sua atividade; IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho: a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da empresa; b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar prejuízo ou proporcionar proveito; c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando financiada por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão de obra, independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive veículo de propriedade do segurado; d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado. § 1º Nos períodos destinados à refeição ou descanso, ou por ocasião da satisfação de outras necessidades fi siológicas, no local do trabalho ou durante este, o empregado é considerado no exercício do trabalho (BRASIL, 1991, p. 13). Considerando o disposto legal supramencionado, também são considerados como acidentes de trabalho as seguintes entidades mórbidas: a) Doença profi ssional: entendida como a doença produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social. b) Doença do trabalho: entendida como a doença adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente. São excluídas do rol de doenças consideradas do trabalho: a) a doença degenerativa; b) a inerente a grupo etário; c) a que não produza incapacidade laborativa; d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva, salvo comprovação de que é resultante de exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho. 114 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Tais exclusões se dão em razão da ausência do nexo causal entre o trabalho e a doença. Nesses casos, o empregado teria adquirido tais doenças exercendo ou não suas funções laborais ao empregador, salvo se comprovada de que é resultante da exposição ou contato direto devido à natureza do trabalho. Independentemente da caracterização da doença, seja profi ssional ou do trabalho, para a preservação da saúde do trabalhador, a conscientização e a orientação são fundamentais por parte do empregador e empregado quanto ao fornecimento e ao uso adequado dos EPIs e EPCs, assim como a obediência à legislação vigente, que tem por objetivo a proteção da vida e da saúde laboral. Encontre mais informações sobre o regulamento da previdência social em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/ d3048compilado.htm. Os registros do Ministério do Trabalho e Previdência apontam que, no triênio 2018-2020, o Brasil registrou em média mais de meio milhão de acidentes de trabalho, conforme ilustrado no Gráfi co 1. Esses dados levam em consideração os acidentes de trabalho com e sem registro da CAT. GRÁFICO 1 – ACIDENTES DE TRABALHO REGISTRADOS NO TRIÊNIO 2018-2020 NO BRASIL FONTE: O autor 115 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Agora, os dados estão organizados por região, conforme demonstrado no Gráfi co 2. Neles estão representados o somatório do triênio 2018-2020, incluindo os acidentes de trabalho com e sem registro da CAT. GRÁFICO 2 – ACIDENTES DE TRABALHO REGISTRADOS E SEGMENTADOS POR REGIÃO FONTE: O autor Observa-se que a maior incidência é disparada na região Sudeste, representando mais de 50% dos acidentes registrados no país, seguida da região Sul, com quase 25%. Destaca-se a região Norte com menos de 5% dos registros de acidentes de trabalho. 2.1 TIPOS DE ACIDENTES Em geral, o acidente está associado a uma combinação de fatores de atos e/ ou condições inseguras, entre eles o uso inadequado de materiais e ferramentas e o excesso de confi ança, sendo a falha humana o fator predominante para a ocorrência de um acidente de trabalho. Brisot (2019) classifi ca os tipos de acidentes em dois macrogrupos: os acidentes típicos e os de trajeto. Os de trajeto ocorrem durante a jornada e o local de trabalho, acontecendo de forma inesperada e independente de ocasionar ou não lesão no trabalhador. 116 Administração APlicada À Engenharia de Segurança O acidente de trabalho considerado típico não está associado somente ao setor em que o trabalhador exerce as suas atividades, sendo considerado acidente típico o ocorrido em qualquer local da empresa em que o trabalhador seja acometido por um acidente, incluindo o momento durante as refeições e descansos no local de trabalho, estando este a serviço da empresa. O acidente típico pode ainda ser dividido em: • Acidente sem afastamento: tipo de acidente em que o ocorrido com o trabalhador permita continuar com as suas atividades laborais logo após o ocorrido ou no próximo dia no horário normal de trabalho. Ex.: cortes superfi ciais, arranhões, leves escoriações etc. • Acidente com afastamento: tipo de acidente em que a lesão sofrida pelo trabalhador o impeça de retornar as suas atividades logo após o ocorrido ou no dia subsequente em horário normal de trabalho. Pode ocorrer de duas formas: o Com afastamento inferior a 15 dias: caso em que o trabalhador se afasta das suas atividades laborais e a empresa arca com os vencimentos até o décimo quinto dia. o Com afastamento superior a 15 dias: a partir do décimo sexto dia de afastamento, o trabalhador terá que se repostar ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), passando a previdência social a ser a responsável pelo pagamento do trabalhador a partir dessa data até a data da alta médica. Caso ocorra indisponibilidade de atendimento pela previdência social ao segurado antes do término do período de recuperação indicado pelo médico, o Decreto nº 8.691/2016 autoriza o retorno do empregado ao trabalho no dia seguinte à data indicada pelo médico. Outrossim, a apresentação de um novo atestado fornecido pelo médico com a declaração de alta médica do segurado, antes do prazo estipulado inicialmente na concessão ou na prorrogação do auxílio-doença, culminará no encerramento do benefício na nova data indicada. O trabalhador afastado por mais de 15 dias pode ser demitido em seu retorno? A resposta é: DEPENDE! O trabalhador, quando afastado por mais de 15 dias, pode ser enquadrado em duas condições: incapacitado por doença comum e incapacitado por acidente de trabalho. 117 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 No caso do trabalhador afastado devido à incapacidade por doença comum, ou seja, não relacionada ao seu ambiente de trabalho, receberá o auxílio-doença comum e pode ser demitido em seu retorno, não gozando de nenhum tipo de estabilidade. Exemplo de afastamento por doença comum: dengue, cirurgia estética, pneumonia. Por outro lado, o trabalhador afastado por mais de 15 dias devido à incapacidade por acidente de trabalho, receberá o auxílio-doença acidentário. Nesse caso, o segurado que sofreu acidente de trabalho tem garantida, pelo prazo mínimo de doze meses, a manutenção do seu contrato de trabalho na empresa, após a cessação do auxílio-doença acidentário, independentemente de percepção de auxílio-acidente (BRASIL, 1991). Cabe aqui alguns esclarecimentos e defi nições de conceitos de forma resumida: Auxílio-doença: benefício pago pelo INSS ao segurado empregado por conta da incapacidade temporária. Auxílio-acidente: benefício previdenciário indenizatório do INSS aos segurados que sofrem qualquer categoria de acidente que resulta em sequelas que diminuam a sua capacidade para o trabalho. Auxílio-doença acidentário: benefício pecuniário de prestação continuada, com prazo indeterminado, sujeito à revisão periódica, que se constitui no pagamento de renda mensal ao acidentado urbano ou rural que sofreu acidente de trabalho ou doença das condições de trabalho e apresenta incapacidade laborativa Falando em doença do trabalho, serão apresentados no Gráfi co 3 os registros de doenças do trabalho do triênio 2018-2020 no Ministério do Trabalho e Previdência. 118 Administração APlicada À Engenharia de Segurança GRÁFICO 3 – DOENÇAS DO TRABALHO REGISTRADAS NO MINISTÉRIO DO TRABALHO E PREVIDÊNCIA FONTE: O autorVimos no Gráfi co 3 que o número de doenças registradas no ano de 2020 triplicou quando comparado aos dois anos anteriores. A que podemos atribuir esse expressivo aumento? A reportagem do Tribunal Superior do Trabalho (TST) ajudará a responder: https://www.tst.jus.br/noticias/-/asset_publisher/89Dk/content/ id/27270562/pop_up. Voltando ao nosso segundo macrogrupo, temos o acidente de trajeto, que se caracteriza basicamente na ocorrência do acidente no percurso casa-trabalho e vice-versa. No caso de o trabalhador desviar seu trajeto habitual ou horário de retorno por conta própria, tal ocorrência de acidente não se caracterizará como acidente de trabalho, passando a ser considerado um acidente comum, não sendo necessária a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). Excluindo esse caso, em que não se caracteriza acidente de trabalho, a empresa é obrigada a emitir a CAT em caso de ocorrência de acidente de trabalho, independentemente da sua gravidade e do tempo de afastamento do trabalhador, sob pena de multa pelo Ministério do Trabalho. 119 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 FIGURA 1 – ACIDENTE DE TRABALHO FONTE: . Acesso em: 24 abr. 2022. A empresa deverá comunicar à previdência social o acidente de trabalho ocorrido com o segurado até o primeiro dia útil seguinte ao da ocorrência e, em caso de morte, de imediato, à autoridade competente, sob pena de multa. Na falta de comunicação por parte da empresa, ou quando se tratar de segurado especial, podem formalizá-la o próprio acidentado, seus dependentes, a entidade sindical competente, o médico que o assistiu ou qualquer autoridade pública. Ocorrendo o acidente fora do local de trabalho, quando o trabalhador está em viagem a trabalho ou em atendimento em outras unidades, desde que esteja exercendo atividades para a empresa, o acidente é considerado como de trabalho. Saiba mais a respeito do regulamento da Previdência Social em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3048compilado.htm. Considerando os registros do Ministério do Trabalho e Previdência, o Gráfi co 4 ilustrará os registros de acidentes e doenças do trabalho no triênio 2018-2020 com a devida comunicação através da CAT. 120 Administração APlicada À Engenharia de Segurança GRÁFICO 4 – ACIDENTES COM CAT REGISTRADOS NO BRASIL FONTE: O autor Observamos o predomínio de registro com emissão da CAT para os acidentes típicos, que são aqueles ocorridos em qualquer local da empresa, seguido dos acidentes de trajeto, que se caracterizam basicamente na ocorrência do acidente no percurso casa-trabalho e vice-versa e, por fi m, as doenças do trabalho. Comissão aprova estabilidade provisória a trabalhador afastado por acidente ou doença. Estabilidade era apenas para quem sofreu acidente de trabalho. O projeto tramita em caráter conclusivo, em regime de prioridade, e será ainda analisado pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania: https://www. camara.leg.br/noticias/843507-comissao-aprova-estabilidade- provisoria-a-trabalhador-afastado-por-acidente-ou-doenca/. 2.1.1 PrinciPais causas dos acidentes Resultantes de diversas causas, os acidentes de trabalho podem ser classifi cados em dois grandes grupos: atos inseguros e condições inseguras. 121 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Os atos inseguros estão relacionados diretamente às ações tomadas pelo trabalhador que, no decorrer da execução das suas atividades, coloquem em risco a sua integridade física ou a de outro trabalhador. Como exemplo de atos inseguros temos: descumprimento das normas de segurança, a não utilização de EPI, distração no trabalho, agir com excesso de confi ança, uso inseguro do equipamento etc. Embora esses atos descritos como inseguros sejam de execução do trabalhador, o empregador tem sua responsabilidade atrelada, como disponibilizar equipamentos adequados de proteção, educar seus trabalhadores com constantes treinamentos, assim como verifi car e assegurar o cumprimento das normas de segurança. As condições inseguras estão relacionadas aos riscos físicos e ambientais presentes no local de trabalho que possam levar à ocorrência de acidentes, seja por falhas, defeitos, irregularidades ou carência de dispositivos de segurança. Como exemplos de condições inseguras temos: elevado nível de ruído, instalações elétricas precárias ou defeituosas, ferramental ou maquinário defi ciente ou inadequado, iluminação insufi ciente, falta de treinamentos etc. Vimos que a ocorrência de um acidente de trabalho está relacionada a fatores físicos, biológicos, sociais, culturais e psicológicos, sendo que, em sua maioria, poderiam ser evitados através de um melhor planejamento, gerenciamento e implantação de programas de saúde e segurança no trabalho, assim como a oferta de treinamentos e conscientização dos trabalhadores. 2.2 MODELO DE ANÁLISE E PREVENÇÃO DE ACIDENTES (MAPA) Os Modelos de Análise e Prevenção de Acidentes (MAPA) têm como objetivo a prevenção de acidentes a partir de casos verdadeiros e práticos, explicando os distintos modelos de análise de acidentes. Esses métodos investigam e descrevem as práticas com vistas a explicar o acidente ocorrido. Alguns acidentes ocorrem de modo simples e direto, cujos fatos e eventos ocorridos são sufi cientes para explicar os acidentes. Já outros não têm suas causas tão diretas, sendo necessária a adoção de modelos de análise de acidentes para explicar a sua ocorrência. No fi nal do século XIX e início do século XX, diversos profi ssionais da 122 Administração APlicada À Engenharia de Segurança segurança e inspeção das fábricas acreditavam que a adoção de medidas físicas preventivas, como proteção de máquinas, inspeções de locais potencialmente perigosos e limpeza, eram as melhores maneiras de se evitar acidentes. Essa visão era pautada na crença de que os acidentes seriam evitados se houvesse maior controle das condições físicas das fábricas. Os controles e as medidas de precaução foram implementados, todavia, os acidentes continuavam ocorrendo e aumentavam a um ritmo alarmante nas fábricas britânicas durante e após a Primeira Guerra Mundial. Tal fato levou à contratação de comitês governamentais para examinar se as causas dos acidentes eram originárias das condições físicas de trabalho (fatores situacionais) ou das características dos indivíduos (fatores pessoais). A pedido desses comitês, foram examinadas estatisticamente as taxas de acidentes de uma fábrica de munições. Foi pressuposto que todos os trabalhadores da fábrica estavam expostos aos mesmos níveis de risco. Assim, foram analisadas três propostas de forma a se identifi car as medidas preventivas mais vantajosas. Para tanto, foram feitas três proposições: 1. Os acidentes eram resultado do puro acaso, podendo acontecer com qualquer um e a qualquer momento. 2. No caso de o trabalhador já ter sofrido um acidente, sua propensão para novos acidentes poderia ser reduzida (hipótese dos dedos queimados) ou então aumentada (hipótese contagiosa). 3. Algumas pessoas eram mais propensas do que outras a sofrer um acidente. Se considerarmos a primeira proposição como correta e não encontrarmos diferenças nas taxas de acidentes para determinados tipos de pessoas, poderíamos considerar o foco da prevenção apenas nas demandas e condições ambientais. Se considerarmos a segunda como correta, as ações corretivas poderiam ser direcionadas aos trabalhadores que já tenham sofrido um acidente anteriormente. Considerando a terceira proposição como correta, seriam selecionadas pessoas que tenham sofrido menos acidentes, independentemente de suas responsabilidades e competências, ao passo de que aquelas que sofreram mais acidentes poderiam ser dispensadas.Dentro do período de três meses foram analisados registros de acidentes e foi identifi cado que algumas pessoas de fato estavam mais envolvidas em acidentes do que outras, apoiando, dessa forma, a terceira proposição. 123 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Mesmo sendo óbvio que todas as pessoas não estão expostas às mesmas variáveis, como condições de trabalho, tarefas, tempo e níveis de riscos no desempenho de suas atividades laborais, esses resultados e outros similares levaram ao modelo de propensão de acidentes, dominando o pensamento e a pesquisa de segurança por quase 50 anos. Ainda que limitada, mas realística, a visão da teoria da propensão relacionada a acidente considera que há uma relação do aumento ou diminuição dessa propensão com determinados períodos de vida, considerando que as taxas de acidentes dos trabalhadores mais jovens geralmente são mais altas do que as dos mais velhos, que possuem mais experiência. Atribui-se a essa maior propensão características relacionadas aos trabalhadores mais jovens, tais como: a falta de disciplina e atenção, a impulsividade, o orgulho, a superestimativa da sua capacidade, o julgamento errôneo dos perigos e a falta de julgamento de suas ações. A infl uência generalizada desse modelo fez com que a maior parte dos acidentes fosse atribuída exclusivamente aos trabalhadores e não às práticas defi citárias de gestão ou à combinação dos três pressupostos; prática esta que ainda pode ser encontrada em algumas organizações. Os acidentes não devem ser analisados com superfi cialidade nem vistos como uma sentença para o trabalhador, mas sim como oportunidades para se aperfeiçoar e prevenir problemas futuros. A investigação de acidentes deve seguir um método de análise que permita o entendimento da dinâmica e da ocorrência do acidente, em que cada um deles tem distintas áreas de aplicação, qualidade e efi ciência. Já os modelos de acidentes, através de seus princípios, buscam explicar como ocorrem os acidentes, e recorrem ao conjunto de axiomas, suposições, crenças e fatos sobre acidentes, formando, assim, uma base que auxilia a entender e a explicar eventos específi cos (HOLLNAGEL; SPEZIALI, 2008). Hollnagel e Goteman (2004) classifi cam em três categorias os modelos de acidentes: modelo sequencial, modelo epidemiológico e modelo sistêmico, que serão apresentados a seguir. 124 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2.2.1 Modelo de acidentes seQuenciais – Teoria do Dominó de Heinrich O primeiro modelo sequencial foi proposto por Heinrich (1941), denominado como teoria do dominó, que postulava que os acidentes eram causados por um ato inseguro, uma condição insegura ou ambos. De acordo com esse modelo, existem cinco fatores na sequência do acidente que, quando encadeados, podem resultar em lesão ou acidente no trabalho, conforme ilustra a Figura 2. FIGURA 2 – MODELO DE HEINRICH PARA A CAUSA DO ACIDENTE FONTE: Cooper (1998, p. 7) Além de fornecer a primeira teoria sequencial do processo de causalidade do acidente, o modelo proposto por Heinrich demonstrou que o comportamento de segurança desempenhava um papel maior do que se pensava anteriormente, trazendo pela primeira vez um foco mais nítido da interação entre o comportamento e as condições (situação). Em essência, essa teoria afi rmava que uma sequência de eventos, que englobava cinco estágios distintos, causaria o acidente. Esses estágios iniciavam com a hereditariedade e o ambiente que predispunha o trabalhador a ter comportamentos que eram mais propensos a acidentes, levando a um ato inseguro ou à criação de uma condição considerada insegura. Por fi m, qualquer um desses fatores representados por estágios causou um acidente que resultou em uma lesão. Cada um desses estágios era assemelhado a uma peça de dominó que, devidamente alinhada umas às outras, quando uma caísse, automaticamente derrubava as demais peças (estágios) do dominó. 125 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 A neutralização de qualquer uma das quatro primeiras peças impediria a queda da quinta peça (lesão). Isso fez com que Heinrich refl etisse a respeito dos atos e condições inseguras, sendo que aproximadamente 80% dos acidentes foram desencadeados por atos inseguros, enquanto 20% foram causados por condições inseguras (regra conhecida como 80:20). Pensava-se que a causa dos atos inseguros estava relacionada às atitudes ruins, à falta de conhecimento e habilidade, à inadequação física e a um ambiente inseguro. Tal visão gerou muitos treinamentos e propagandas na tentativa de se mudar determinadas atitudes, cuja efi cácia ainda se questiona. 2.2.2 Modelo de acidentes seQuenciais - Teoria do Dominó de Weaver Utilizando como ponto de partida a teoria de Heinrich, outros teóricos desenvolveram seus próprios trabalhos. Em 1971, Weaver propôs em seu modelo modifi car as últimas três peças do dominó de Heinrich para sintomas de erro operacional causados por omissões de gestão, que interagem com atos e/ou condições inseguras (Figura 3), baseado na noção de causalidade múltipla devido a fatores organizacionais subjacentes. FIGURA 3 – MODELO DE DOMINÓ DE WEAVER FONTE: Cooper (1998, p. 8) 126 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Mesmo com o ato ou a condição insegura sendo a causa imediata, Weaver sugeriu que as causas subjacentes do erro operacional poderiam ser identifi cadas com a realização de três perguntas: Qual foi o ato inseguro? Por que foi permitido que ocorresse? Todos os envolvidos conheciam as regras e procedimentos? Ao mesmo tempo em que esse modelo reconhecia implicitamente a interação entre os sistemas de gerenciamento e os acidentes, colocava a responsabilidade imediata pelos acidentes na conta da supervisão e gestão. 2.2.3 Modelo de acidentes seQuenciais - Teoria do Dominó de Adams Baseado na teoria de seu antecessor, Weaver, e no modelo básico de Heinrich, Adams mudou a ênfase das três primeiras peças do dominó de forma a refl etir características organizacionais e não pessoais (Figura 4). FIGURA 4 – MODELO DE DOMINÓ DE ADAMS FONTE: Cooper (1998, p. 9) Dessa forma, sua abordagem se afastou da já desacreditada teoria da propensão de acidentes. Mesmo que implicitamente, Adams reconheceu a noção de cultura de segurança quando afi rmou que os elementos operacionais estáveis refl etiam na personalidade da organização. Propôs, também, que os 127 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 erros operacionais seriam causados pela estrutura gerencial, pelos objetivos da organização, organização do sistema de fl uxo de trabalho e pelo planejamento e execução das operações. Esses erros operacionais, por sua vez, causaram os chamados erros táticos (atos ou condições inseguras). O diferencial do modelo proposto por Adams foi que houve o reconhecimento explícito de que os erros táticos advinham do resultado de erros estratégicos da alta administração da organização. Assim, Adams se destaca como um dos primeiros teóricos da segurança a apontar especifi camente as inúmeras interações entre estruturas organizacionais, sistemas e subsistemas com as condições inseguras e/ou comportamento dos funcionários. O reconhecimento das diversas interações entre os elementos físicos (trabalho), processuais (organizacionais) e pessoais ajudou a descobrir, ao longo de um período de tempo, várias sequências paralelas de acidentes que se desenvolvem. 2.2.4 Modelo de acidentes seQuenciais - Teoria do Dominó de Bird e LoFtus Bird e Loftus, paralelamente ao desenvolvimento da teoria de Adams, adaptaram a teoria do dominó de Heinrich, refl etindo para a infl uência do gerenciamento no processo de causa de acidentes. Para esse modelo, a combinação dos fatores pessoais (a falta de treinamento adequado, por exemplo) ou outros fatores associados a condições inadequadasé composta por organizações e estas de pessoas com ideias, pensamentos, sentimentos, aspirações e outras ações que viabilizam a existência de uma sociedade. Nesse sentido, todas as contribuições foram e serão importantes para a construção da sociedade moderna. Como vimos, a administração pode reunir contribuições de outras ciências, como a matemática e a física, por exemplo, capazes de fornecer para as organizações e para a sociedade meios de subsistência, como trabalho e renda. 2.4 A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E SUAS FASES Uma nova concepção de trabalho surge com a invenção da máquina a vapor, criada por James Watt (1736-1819), que basicamente aproveitava o vapor da água, que era aquecida pelo carvão, para produzir energia e revertia em força motriz para as máquinas, o que acabou modifi cando completamente a estrutura econômica e social da época, provocando mudanças na ordem econômica e social que, dentro do período de um século, foram as maiores mudanças ocorridas no 14 Administração APlicada À Engenharia de Segurança milênio. Todas essas mudanças são chamadas de Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, a partir da segunda metade do século XVIII, sendo dividida em três fases: • Fase 1: século XVIII (1760-1850): esta fase tem a Inglaterra como pioneira e está limitada à Europa Ocidental, representando justamente toda essa mudança na estrutura econômica e social impulsionada pela evolução tecnológica. Também se destaca como característica a substituição do trabalho humano pelas máquinas, capazes de realizar o mesmo trabalho desenvolvido pelo ser humano com maior precisão e menor tempo de execução. Impulsionada pelos trabalhos realizados pelas máquinas, ocorreu a expansão das indústrias, metalúrgicas e siderúrgicas, sendo o carvão considerado elemento essencial para a produção das máquinas. À frente desse processo e, auferindo os lucros da produção, estava a classe burguesa. Com isso, o então proletariado dá origem à classe operária ou trabalhadora, explorada com a mão de obra barata nas fábricas. Nessa época, como consequência da Revolução Industrial, Londres foi transformada na capital fi nanceira mais importante, tornando-se uma grande potência econômica, expandindo- se mais tarde para outros países da Europa. • Fase 2: século XIX (1850-1950): neste período, foram observados não apenas os avanços tecnológicos, mas também geográfi cos, considerando que a Revolução Industrial deixou de estar limitada a Inglaterra, espalhando-se para outros países, como Estados Unidos da América, França, Alemanha e Japão. O processo de evolução das tecnologias foi essencial para revolucionar o sistema industrial, possibilitando o aumento na produtividade nas indústrias, assim como os lucros obtidos pela classe dominante à época – a burguesia. As revoluções ocorridas nessa fase foram responsáveis pelo encerramento do antigo regime, assim como o fortalecimento do capitalismo devidamente impulsionado pelo processo de industrialização. Essas mudanças e invenções foram fundamentais para a revolução do sistema industrial, trazendo um novo panorama social e econômico para a população. Ao mesmo tempo que esse novo panorama trouxe consigo o progresso, evidenciou também as condições precárias dos trabalhadores nos seus locais de trabalho, incluindo as longas e duras jornadas de trabalho, sem falar na baixa remuneração. No fi nal do século XIX, com o considerável aumento na produção de mercadorias e, por consequência, o aumento das indústrias ao redor do mundo, algumas inovações foram criadas para dar conta da nova demanda, visando o aumento da produção em um menor 15 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 espaço de tempo. Com vistas a atingir esses objetivos, Frederick Taylor desenvolveu o primeiro modelo de produção industrial, que baseava a produção no tempo de movimento dos trabalhadores (o taylorismo). O mecanismo elaborado adaptava o trabalhador ao ritmo da máquina e, com isso, aconteciam menos interrupções no processo de trabalho, havendo menos desperdício e maior produtividade. Logo no início do século seguinte (1909), Henry Ford observou as ideias de Taylor e as melhorou, introduzindo diversas técnicas que proporcionaram maior rapidez e menor custo na produção de mercadorias pelas indústrias. Esses modelos deram origem à administração científi ca, que veremos com detalhes mais adiante. Conheça um pouco mais em: https://brasilescola.uol.com.br/geografi a/fordismo.htm#:~:text= Enquanto%20no%20taylorismo%20o%20trabalhador,esteira %20rolante%2C%20do%20trabalho%20especializado. • Fase 3: (1950 até a atualidade): nesta fase, além dos avanços produtivos, também foram observados avanços no campo científi co e tecnológico com o surgimento de computadores, internet, celulares, robótica, genética etc. No campo dos direitos trabalhistas, começaram a surgir efeitos que visam proteger os trabalhadores, como diminuição das horas de trabalho e proibição de trabalho infantil. Para o desenvolvimento do capitalismo moderno, essa revolução tem grande relevância, especialmente no processo de globalização, tendo como base primordial a informação. 2.5 CONCEITUANDO E ENTENDENDO A ADMINISTRAÇÃO Administração é uma palavra com origem no latim administratione, que signifi ca direção, gerência. Separando a palavra, temos do latim ad (direção, tendência para) e minister (subordinação ou obediência) (CHIAVENATO, 2004). Assegurar o máximo de prosperidade ao padrão concomitante ao máximo de prosperidade do empregado deve ser o principal objetivo da administração (TAYLOR, 1990). 16 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Inúmeras são as defi nições do conceito de administração. Entretanto, as defi nições, em sua maioria, compartilham de uma ideia básica: “a administração está relacionada com o alcance de objetivos por meio dos esforços de outras pessoas” (SILVA, 2008, p. 18). Esses esforços, realizados por meio do trabalho das pessoas, visam satisfazer as nossas necessidades para dar uma resposta que tenha utilidade para a sociedade. Assim, começa a fazer sentido a defi nição de alguns papéis e habilidades dentro de uma escala hierárquica. Discutiremos, agora, conceitos relacionados ao gerente. O papel do gerente é verifi car o desempenho de outras pessoas, podendo estar situado em qualquer um dos três níveis (destacados na Figura 1) dentro da organização. O papel gerencial está presente em todos os níveis da organização, mudando de acordo com a escala hierárquica, aumentando a abrangência e longitude do tempo (CHIAVENATO, 2014). FIGURA 1 – HIERARQUIA E HABILIDADES ADMINISTRATIVAS FONTE: Chiavenato (2014, p. 10) Podemos observar que as habilidades da gerência mudam de acordo com o nível. No nível institucional (nível mais alto), para as tomadas de decisão inerentes a este nível, as habilidades são mais conceituais. No nível intermediário, destacamos a habilidade humana (relação interpessoal) como a mais importante, 17 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 pois esse nível conduz o trabalho através das pessoas. No primeiro nível (operacional), as habilidades são de caráter mais técnico, ou seja, é o saber como fazer (execução de tarefas e operação). Em grau diferente, as habilidades conceituais, humanas e técnicas são necessárias em todos os níveis de gerência. À medida que subimos no nível da organização (Figura 1) para os mais elevados, as necessidades de habilidades técnicas diminuem, enquanto aumentam os níveis relacionados às habilidades conceituais. Já os níveis inferiores necessitam de maior habilidade técnica para lidar com problemas operacionais concretos e cotidianos na organização. O sucesso de qualquer decisão depende tanto da habilidade conceitual das pessoas que tomam a decisão como daqueles que executam a ação. Para o administrador, a combinaçãode trabalho (maquinário sem proteção, por exemplo) pode ser criada por um controle de gestão defi ciente, levando a atos ou a condições inseguras (Figura 5). 128 Administração APlicada À Engenharia de Segurança FIGURA 5 – MODELO DE DOMINÓ DE BIRD E LOFTUS FONTE: Cooper (1998, p. 10) Tal condição, por sua vez, causa um incidente, gerando perdas relacionadas a pessoas, propriedades ou processos operacionais. Esse modelo teve grande infl uência em algumas indústrias em suas práticas de segurança devido ao seu subsequente desenvolvimento em uma ferramenta de auditoria, tendo sua ênfase na redução de custos e retorno fi nanceiro. Os modelos sequenciais apresentados têm por característica a sequência de atividades que considera o acidente como um resultado determinístico de uma sucessão de fenômenos encadeados em causa e efeito. Bastando existir um evento ou circunstância que provoque o início do processo, todas as demais peças serão derrubadas, gerando um acidente e lesão, caso não seja removida uma das peças antecessoras. Nesse tipo de análise, todos os riscos seguem uma ordem defi nida, conhecida e previamente determinada com a ocorrência natural para o acidente. Embora simples em sua concepção, esses métodos estabelecem uma ordem sucessória para que ocorra o dano. A teoria do dominó é muito contestada e limitada quando a análise a ser feita considera fatores desencadeantes do acidente de natureza mais complexa. 129 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 2.2.5 Modelo de acidente ePidemiológico – Teoria do QueiJo suíço Durante as décadas de 1980 e 1990, o crescente número de acidentes não triviais deixou claro que muitas dessas ocorrências não podiam ser explicadas com base apenas no resultado da sequência ou cadeia de eventos, como defendia a teoria do dominó, sendo necessário explicar como poderia surgir esta sequência de eventos e suas condições latentes que, através de combinações múltiplas, levassem à ocorrência do acidente. Essa necessidade levou à proposta de modelos que muitas vezes são classifi cados como epidemiológicos, como é o caso do modelo do Swiss Cheese - queijo suíço. Existem diversos métodos disponíveis que podem diferir em relação a quão bem formulados e fundamentados eles são. Uma investigação de acidente deve sempre ser orientada por um método ou procedimento. O método direcionará a investigação a olhar para certas coisas e não para outras. Em uma análise de causa raiz, por exemplo, haverá uma tendência na busca de causas defi nitivas, enquanto o “queijo suíço” ou análise epidemiológica tenderá a procurar condições latentes. Não é possível iniciar uma investigação com a mente completamente aberta, assim como não é possível “ver” passivamente o que está lá. Usado na análise de risco e gerenciamento de risco de sistemas humanos, o modelo de queijo suíço compara os sistemas humanos a diversas fatias de queijo, tipo suíço, empilhadas lado a lado (Figura 6). Os orifícios nas fatias de queijo representam fraquezas individuais em partes individuais do sistema, variando continuamente seu tamanho e posição em todas as fatias. O sistema como um todo produz falhas (representadas pelos orifícios do queijo suíço). Quando todos esses orifícios, em cada uma das fatias, alinham-se momentaneamente, permitem uma trajetória linear de oportunidade de acidente, de modo que um perigo passe por todos os orifícios em todas as defesas, levando então à ocorrência de uma falha e, consequentemente, ao acidente. 130 Administração APlicada À Engenharia de Segurança FIGURA 6 – MODELO DO QUEIJO SUÍÇO. COMO AS BARREIRAS, AS DEFESAS E A SALVAGUARDA PODEM SER PENETRADAS POR UMA TRAJETÓRIA DE ACIDENTE FONTE: . Acesso em: 23 maio 2022. Esse método foi originalmente proposto pelo psicólogo britânico James T. Reason, em 1990, sendo o mais conhecido exemplo de modelo epidemiológico e, desde então, ganhou ampla aceitação em diversas áreas como: saúde, setor de segurança da aviação e em organizações de serviços de emergência, por exemplo. Leia o artigo Análise e classifi cação dos fatores humanos nos acidentes industriais, disponível em: https://www.scielo.br/j/prod/a/ zmmLcCK9KqZt9XsRwbfhVYG/?format=pdf&lang=pt. Dentro de um sistema sociotécnico, esse modelo apresentado enxerga o acidente como uma combinação de diversos fatores latentes e falhas ativas em sua proteção. A denominação desse sistema – epidemiológico – nos remete à área da saúde. Vemos que ele faz uma analogia do acidente com uma doença que, no caso do modelo, espalha-se pelo sistema. Percebemos que as consequências advindas das condições latentes se tornam evidentes somente quando combinadas com as diversas falhas ativas no sistema de proteção, quebrando, dessa forma, as defesas do sistema. 131 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Em um mundo ideal, a penetração de possíveis trajetórias de acidentes seria impedida devido às camadas defensivas serem impenetráveis. Entretanto, no mundo real, há fraquezas e lacunas em cada uma das camadas de proteção (Figura 7). Embora tanto as camadas defensivas quanto suas falhas (representadas pelos buracos) pareçam ser fi xas e estáticas, na prática, elas são dinâmicas e estão em constante fl uxo de movimentação. FIGURA 7 – REPRESENTAÇÃO DAS CONDIÇÕES IDEAIS E REAIS DOS SISTEMAS DE DEFESA EM PROFUNDIDADE FONTE: Reason (1997, p. 9) Assim como as camadas de defesa podem ser removidas ou alteradas durante os processos de calibração, manutenção, testes ou como resultados de erros e violações, os buracos dentro dessas camadas também são mutáveis, podendo ser vistos em constante movimento como resposta às ações dos operadores e das demandas inseridas no sistema. Considerando que os sistemas são projetados, fabricados, operados e gerenciados por seres humanos, não é exagero afi rmar que todos os acidentes organizacionais estejam implicados em decisões e ações humanas. Embora seja uma parte inevitável da condição humana, a falibilidade deve ser reconhecida em sistemas complexos devido a possíveis erros ou violação dos procedimentos, indo além do escopo da psicologia individual. Essas razões são consideradas como condições latentes. Fazendo uma associação com o corpo humano, para as organizações tecnológicas, essas condições latentes se assemelham aos agentes patógenos residentes. 132 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Assim como os patógenos, projeto inadequado, falhas na supervisão, defeitos de fabricação não detectados, falhas de manutenção, treinamento defi ciente, ferramentas e equipamentos inadequados, exemplifi cados aqui como condições latentes, podem estar presentes por muitos anos dentro do sistema sem apresentar falhas graves, até que a combinação com diversos fatores e circunstâncias, como ambiente local e falhas ativas na proteção, permite que as camadas de defesa sejam totalmente penetradas, ocasionando o acidente. As condições latentes são partes inevitáveis da vida organizacional e estão presentes em todos os sistemas, sendo impossível prever todas as possíveis ramifi cações futuras do sistema. Importante fazer uma distinção entre falhas ativas e condições latentes. Os efeitos das falhas ativas geralmente são imediatos e relativamente curtos, enquanto as condições latentes podem permanecer adormecidas dentro do sistema por muito tempo e sem causar nenhum dano até que a sua interação com outras circunstâncias locais destrua todas as camadas de defesa do sistema. As falhas ativas são cometidas pelo pessoal chamado de linha de frente (interface homem-sistema) ou pessoal da ponta. Já as condições latentes geralmente são geradas pelo alto escalão das organizações, por agências reguladoras e governamentais, incluindo as condições ambientais.Quando identifi cada uma falha ativa, esta tende a ser exclusiva de um evento específi co. Já as condições latentes, se não identifi cadas e corrigidas, podem contribuir para diversos acidentes, aumentando a probabilidade de ocorrência de mais falhas ativas e a criação de um ambiente propício para erros ou violações do sistema, o que agrava as consequências de atos inseguros. Conforme vimos, a teoria do queijo suíço aborda falhas ativas no sistema, como erros e violações de procedimentos, e condições latentes ocasionadas por falha de equipamento ou falta de experiência da equipe, por exemplo. As sucessivas camadas de defesa, barreiras e proteção não são sufi cientes para evitar que um acidente aconteça. Para isso, basta o alinhamento de todos os buracos (falhas no sistema) para que as barreiras de proteção sejam ultrapassadas e ocorra o acidente. Um exemplo prático foi o que aconteceu na sala de controle da usina nuclear de Chernobyl em 1986, marcado como o pior acidente nuclear da história, em que as barreiras de segurança foram removidas pelos operadores para completar o teste do novo gerador. 133 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Saiba mais sobre o que aconteceu na usina de Chernobyl em: https://brasilescola.uol.com.br/historia/chernobyl-acidente- nuclear.htm. Os modelos epidemiológicos, quando comparados aos modelos sequenciais, dão uma compreensão mais ampla do ocorrido por apresentarem melhor os fatores contribuintes organizacionais. Entretanto, sua visão para o sistema sociotécnico é estática, sendo os sistemas dinâmicos. Com isso, muitos pesquisadores argumentam que os modelos epidemiológicos são incapazes de explicar os acidentes que acontecem nos sistemas sociotécnicos complexos devido a sua dinâmica. Com isso, outros modelos de acidente foram propostos como solução, a exemplo do modelo de acidente sistêmico, que veremos adiante. Outro exemplo prático que podemos ver da aplicação do modelo de queijo suíço é no combate à Covid-19. Nenhuma medida adotada é 100% efi caz, entretanto, implementar diversas medidas de prevenção (camadas de defesa), e combiná-las, pode resultar em maior proteção contra o vírus do que se adotarmos apenas uma ou outra medida e de forma isolada. As camadas de proteção, assim como a responsabilidade – pessoal e compartilhada –, podem ser vistas na Figura 8. 134 Administração APlicada À Engenharia de Segurança FIGURA 8 – MODELO DO QUEIJO SUÍÇO NO COMBATE À COVID-19 FONTE: . Acesso em: 20 abr. 2022. 135 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Saiba mais sobre a teoria do queijo suíço como estratégia para o combate à Covid-19 em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-54977391. 2.2.6 Modelo de acidente sistÊmico – modelo de ressonÂncia Funcional As defi ciências dos métodos que utilizavam o raciocínio linear simples tornaram-se comumente reconhecidas no fi nal da década de 1970, em que se constatou que, mesmo em ambientes de trabalho relativamente bem controlados, diversos eventos graves ocorreram e que tais eventos, muitas vezes, envolveram múltiplas sequências em série e em paralelo. Com isso, surgiram os métodos que compreenderam em múltiplas sequências e condições latentes, que fi caram aquém das necessidades práticas por utilizarem o mesmo pensamento linear para a defi nição da ordem e da causalidade. Diante da necessidade de se analisar sistemas sociotécnicos mais complexos com a utilização de conceitos de engenharia mais modernos que viabilizassem a análise e a descrição de eventos que acontecem sem que suas causas sejam claramente reconhecidas, foi desenvolvido por Erik Hollnagel o método de análise de Ressonância Funcional. O propósito desse método foi o de proporcionar uma metodologia que ao invés de focar na natureza das falhas focasse na natureza das atividades cotidianas. Com isso, é possível realizar análises de segurança sem a decomposição do sistema em componentes e sem depender da noção de causalidade. Uma forma de enxergarmos esse sistema é pensarmos de forma análoga às ondas circulares que se formam em um lago quando arremessamos uma pedra. Cada impacto forma ondas circulares que se cruzam e se expandem até se dissiparem totalmente. Considerando que as condições de operação nos locais de trabalho podem sofrer variações, seja na tecnologia e infraestrutura ou nas condições psicológicas e fi siológicas dos trabalhadores, tais variações podem infl uenciar (as oscilações) na ordem natural do processo produtivo. A depender da magnitude dessas 136 Administração APlicada À Engenharia de Segurança oscilações, podem surgir os acidentes de trabalho, variando suas probabilidades de acordo com a magnitude das oscilações. Como seu propósito era construir um modelo sustentado em como as coisas acontecem ao invés de interpretar o que acontece e, como não havia método anterior comparável para a avaliação da segurança, foram formulados quatro princípios sobre os quais esse método foi construído (HOLLNAGEL, 2012): • Fracassos e sucessos são equivalentes no sentido de terem a mesma origem. Outra maneira de dizer isso é que as coisas podem dar tanto certo quanto errado pelas mesmas razões. • O desempenho cotidiano dos sistemas sociotécnicos, incluindo os humanos individual e coletivamente, seja sempre ajustado às condições. • Que muitos dos resultados, independentemente se notamos ou não, devem ser descritos como emergentes e não como resultantes. • As relações e dependências entre as funções de um sistema devem ser descritas à medida que se desenvolvem em uma situação específi ca, e não como vínculos de causa e efeito predeterminados. Esse princípio é feito usando a ressonância funcional. O modelo de acidente sistêmico, ilustrado na Figura 9, possui a existência dos seguintes componentes principais: Variabilidade do desempenho humano; Disfunções tecnológicas menores ou falência completa; Condições latentes em geral; e Falhas ou inexistência de barreiras. Na fi gura, veremos que essas quatro principais forças, por uma simples combinação linear, não ocasionam o acidente ou incidente, entretanto, a ressonância funcional mediará sua infl uência. De forma isolada, cada uma das quatro fontes de variabilidade apresentadas é considerada como um sinal de intensidade baixa e outras fontes consideradas como ruídos aleatórios (ALMEIDA, 2008). 137 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 FIGURA 9 – EXEMPLO DE MODELO DE RESSONÂNCIA FUNCIONAL FONTE: Hollnagel e Goteman (2004, p. 171) Relembrando conceitos da física, a ressonância, clássica ou mecânica, refere-se ao fenômeno de oscilação do sistema com maior amplitude em algumas frequências do que em outras. Conhecidas como frequência ressonante (ou ressonância), essas frequências, se aplicadas repetidamente, podem produzir oscilações com grandes amplitudes, podendo danifi car ou até destruir o sistema. Um exemplo famoso aconteceu nos Estados Unidos da América, na ponte de Tacoma Narrows, onde o vento produziu uma frequência perto da frequência de vibração da ponte. Veja o que aconteceu com a ponte quando ocorreu a frequência de ressonância, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=j-zczJXSxnw&t=312s. Formalmente, a ressonância funcional pode ser defi nida como o sinal detectável que emerge da interação não intencional da variabilidade cotidiana de múltiplos sinais. Tanto o sinal-alvo quanto a combinação com os demais sinais constituem o ruído e são geralmente subliminares. 138 Administração APlicada À Engenharia de Segurança A ressonância funcional é apresentada como uma maneira de se entender os resultados que não são causais (emergentes) e lineares, possibilitando, dessa forma, a previsibilidade e o controle. A investigação que se baseia no modelo de ressonância funcional não se iniciacom a busca da causalidade, mas, sim, tenta-se entender o que deveria ter acontecido em uma situação de rotina para, a partir daí, buscar o entendimento e a explicação do porquê esta situação não aconteceu. Esse método, apesar de ser considerado relativamente recente, possui diversas aplicações em uma grande variedade de setores e cenários, podendo ser utilizado para predizer ocorrências e possíveis difi culdades que emergem das complexas interações entre o ser humano, o maquinário e os fatores organizacionais. Além disso, nas relações de falhas com as rotinas de trabalho, esse método proporciona também melhor entendimento devido ao seu foco ser na variabilidade do sistema e não apenas em suas fraquezas, o que possibilita a redução de riscos e recomendações mais assertivas. Os resultados adversos obtidos pelo sistema são assumidos como combinações inesperadas de variabilidade normal das funções do sistema, ou seja, são os acoplamentos das variáveis que levam aos resultados adversos e não sequenciais de causa e efeito. Do ponto de vista prático, o uso desse modelo permite discutir a variabilidade de cada uma das funções expostas no hexágono da Figura 10, e como elas podem ser afetadas pela variabilidade das demais. Esse modelo deve identifi car as condições que possam levar à condução dos acidentes. FIGURA 10 – REPRESENTAÇÃO DA FUNÇÃO HEXAGONAL FONTE: Hollnagel e Goteman (2004, p. 4) 139 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 A visão sistêmica enfatiza a dependência das funções umas das outras, assim como seus acoplamentos e desacoplamentos inesperados podem surgir de repente. Veja um exemplo em que é aplicado o modelo de acidente de ressonância funcional para analisar um acidente de voo em: https:// corescholar.libraries.wright.edu/isap_2007/4/. Encerramos neste ponto a abordagem dos três principais tipos de acidentes. O Quadro 1 reunirá os três tipos de modelos de acidentes apresentados neste capítulo, assim como o conjunto de suposições a respeito de como deve ocorrer uma análise de acidente e qual deve ser a resposta. QUADRO 1 – PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS TIPOS DE MODELOS DE ACIDENTES Tipo de modelo Princípio de pesquisa Objetivos da análise Exemplo Modelos sequenciais Causas específi cas e links bem defi nidos Eliminar ou conter causas • Cadeia linear de even- tos (dominó) • Árvores / redes Modelos epidemiológicos Portadores, barrei- ras e condições latentes Fortalecer as defesas e as barreiras • Condições latentes • Portadores-barreiras • Sistemas patológicos Modelos sistêmicos Acoplamentos fortes e interações complexas Monitorar e controlar a variabilidade de desempenho • Modelos de teoria de controle • Modelos de caos, resso- nância estocástica FONTE: Hollnagel e Goteman (2004, p. 2) 2.3 PRINCIPAIS TIPOS E CLASSIFICAÇÕES DE ERROS HUMANOS Um tema polêmico e que gera muitas discussões é o erro humano, principalmente quando se associa o comportamento inseguro do trabalhador 140 Administração APlicada À Engenharia de Segurança às causas dos acidentes. Em um sistema, considera-se satisfatório o seu funcionamento quando este se comporta como o planejado. Qualquer ação que modifi que tal comportamento é considerada como erro. O erro, entretanto, não pode ser atribuído exclusivamente à ação humana, considerando que este é o resultado da interação entre o homem e o sistema ou do homem e os equipamentos, embora Van Elslande e Alberton (1999) considerem que todo erro pode ser considerado como humano, visto que o erro pode ser originado tanto pelos projetistas do sistema quanto pelos operadores. Nesse sentido, Hollnagel e Goteman (2004) demonstram a evolução das mudanças ocorridas apresentando diversos outros fatores que podem estar atrelados à ocorrência de um evento/acidente. Nesse rol estão, além do erro humano, as falhas técnicas e uma categoria denominada como “outras”, destacadas como as principais categorias das causas de acidentes, sendo adotadas pela comunidade técnica por volta de 1970, conforme ilustrado na Figura 11. FIGURA 11 – PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DOS TIPOS DE CAUSAS ATRIBUÍDAS AOS ACIDENTES FONTE: Almeida (2008, p. 19) 141 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Uma crescente preocupação no ambiente de trabalho técnico moderno são os fatores humanos, como usinas de energia, cabines de aviões, trens ou pontes de navios, em que os sistemas de alta tecnologia são operados em larga escala através da interação homem-máquina. A taxa de erros humanos é muito afetada pelos fatores atribuídos à habilidade, ao conhecimento, à experiência, à fadiga, ao nível de estresse e vigilância, assim como pela execução de tarefas relacionadas ao desenho do ambiente de trabalho, incluindo a interface homem-máquina. Observa-se com isso ampla evidência de que as taxas de incidentes e acidentes são diretamente afetadas pelos erros humanos (HOLLNAGEL, 2003). Podemos separar e analisar o problema do erro humano de duas formas: com a abordagem da pessoa e a abordagem do sistema. Cada uma das abordagens tem seu modelo de causa de erro e cada modelo dá origem a fi losofi as bastante distintas no gerenciamento de erros (REASON, 2000). A abordagem da pessoa tem por tradição concentrar-se nos atos inseguros, erros de procedimento ou violação do sistema. Esses atos inseguros são vistos como decorrentes principalmente de processos mentais, desatenção, falta de motivação, descuido, negligência e imprudência. A abordagem sistêmica parte do princípio de que os seres humanos são falíveis e que, mesmo nas melhores organizações, os erros são esperados e vistos não como causa, mas sim como consequência. As origens desses erros não são apoiadas tanto na perversidade do ser humano. Tem como ideia central a defesa do sistema, e que todas as tecnologias consideradas perigosas possuem barreiras e salvaguardas. Na ocorrência de um evento adverso, a principal questão não é descobrir quem errou, mas, sim, por que as defesas não foram sufi cientes para impedir que o erro ocorresse. De uma forma ou de outra, o erro humano provavelmente será o responsável pela maioria dos incidentes, seja por erro de projeto, erros operacionais, de manutenção e até erros de julgamento na tomada de decisão. Estudos na área de erro humano indicam que as pessoas têm certas tendências de erro e que estas são relacionadas à maneira como lidam com ambientes complexos e imprevisíveis. Algumas pessoas demonstram uma capacidade limitada e dependem muito de sistemas baseados em regras, assim como possuem difi culdade para lidar com o novo e o imprevisível. O apontamento de tais tendências normalmente não cria problemas, mas eventualmente podem surgir situações que impõem exigências às pessoas que, por consequência, passam a causar sobrecarga de informações, assim como requisitos de solução fora do padrão, produzindo, dessa forma, tendências de erro que são traduzidas em erros físicos reais. 142 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Quando estudamos e discutimos o erro humano, não devemos considerar apenas o operador, mas sim todo o sistema. No Quadro 2, serão apresentadas a classifi cação e as principais causas dos erros humanos. QUADRO 2 – PRINCIPAIS CAUSAS DO ERRO HUMANO Passo Causa típica do erro humano Identifi cação do problema 1. Problema não reconhecido 2. Problema não identifi cado corretamente 3. Problema ignorado 4. Problema reconhecido tarde demais 5. Problema pouco claro devido à falta de dados Diagnóstico do problema 1. Diagnóstico incorreto 2. Apenas parcialmente diagnosticado 3. Suposições incorretas 4. Conhecimento insufi ciente para diagnosticar o problema corre- tamente 5. Negligenciando os principais fatores relacionados ao diagnóstico Remediação do problema 1. Solução errada ou ruim para o problema, “cura é pior que doença” 2. Remediação muito pequena 3. Remediação tarde demaisFONTE: Hyatt (2018, p. 207) A tendência geral desde a década de 1970 tem sido ampliar o foco, passando de uma preocupação com falhas técnicas para incluir primeiro o ‘erro humano’ e só depois as falhas organizacionais, a cultura organizacional e afi ns. Entretanto, quando o foco é alterado do desempenho humano para o desempenho organizacional, tanto os fatores como as condições de desempenho devem ser alterados. Nesse sentido, se o foco está relacionado à organização, fatores, como clima econômico, político e social, devem fazer parte da avaliação das condições de desempenho. Embora os erros, na sua maioria, estejam associados a falhas, incidentes e acidentes, devemos ter a compreensão de que não necessariamente um erro leva à obtenção de resultados indesejados. Em alguns casos, o acaso (erro) pode levar a bons resultados, mesmo com falhas de planejamento e execução. Reason (1990; 1997) divide os erros em três tipos de categoria: 143 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 • Erros no nível da habilidade: considerado o tipo de erro em que o operador, com baixo nível de consciência, executa procedimentos de forma automática e rotineira. Tipicamente, esses erros envolvem falhas de execução, atribuídos aos lapsos e deslizes como os de ocorrência mais comuns. As falhas de memória geralmente estão associadas aos lapsos, enquanto as falhas no reconhecimento de sinais ou perturbações que venham a interromper os comportamentos automáticos, independentemente de sua natureza, são associadas aos deslizes. Tanto os lapsos quanto os deslizes são antecessores da detecção de um problema. • Erros no nível das regras: o operador, nesse nível de erro, tem sua consciência aumentada para aplicação de regras ou desvios familiares nas situações consideradas de rotina. Podem ocorrer nesse nível três tipos básicos de falhas: aplicação de uma regra considerada ruim; aplicação de uma regra até considerada boa, entretanto, inadequada ao momento; e ausência de aplicação de uma regra boa. • Erros no nível de conhecimento: o operador, nesse nível, atua com elevado nível de consciência para a resolução dos problemas, que não dispõe de regras previamente estabelecidas. Quando o operador é requisitado a operar nesse nível, a probabilidade de erro é potencializada, considerando, dentre outros fatores, a pressão exercida pela organização, em que o tempo é limitado, assim como os recursos para a tomada de decisão. Tanto no nível das regras quanto de conhecimento, o operador tem consciência da existência de um problema, havendo, dessa forma, intenção na condução das atividades. Já no nível associado à habilidade, os erros são considerados não intencionais, uma vez que suas ações foram tomadas de forma quase que inconsciente. Acabamos de ver, portanto, alguns tipos de erro humano, suas classifi cações e distintas abordagens. Como praticamente todas as ações de um projeto ou execução são realizadas por seres humanos, é inevitável dissociar o erro humano das eventuais falhas, eventos adversos ou acidentes. Agora, conheceremos um método que o auxiliará na investigação do erro humano. Para tanto, devemos ter em mente que, para a realização de uma análise conclusiva e satisfatória, evitando-se futuros acidentes, a investigação deverá permitir que se descubra os motivos que levaram ao acidente. Portanto, erros humanos são apenas o ponto de partida para a investigação de acidentes. Maurer (2011) apresenta dois métodos de investigação do erro humano, propostos por Reason (1990) e Saurin et al. (2008), constituindo-se do uso do 144 Administração APlicada À Engenharia de Segurança fl uxograma para auxiliar no entendimento da existência ou não do erro humano dos trabalhadores. O fl uxograma apresenta uma série de perguntas, cujas respostas apontarão para um determinado tipo de erro. Os fl uxogramas serão representados nas Figuras 12 e 13. FIGURA 12 – MÉTODO 1 PARA AUXÍLIO NA INVESTIGAÇÃO DE ERRO HUMANO FONTE: Saurin et al. (2008 apud MAURER, 2011, p. 74) 145 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 FIGURA 13 – MÉTODO 2 PARA AUXÍLIO NA INVESTIGAÇÃO DE ERRO HUMANO FONTE: Reason (1990 apud MAURER, 2011, p. 25) Esses métodos de estudo, através do uso dos fl uxogramas, têm como propósito a identifi cação e a classifi cação do tipo de erro humano, contribuindo para a fase posterior de análise das possíveis causas da falta de segurança. Para fazer uso desse método, basta responder às perguntas contidas no fl uxograma. Dependendo da resposta, diferentes caminhos serão percorridos, levando ao fi m, que é a identifi cação do tipo de erro humano, caso ele exista, gerando estatísticas para as distintas causas dos acidentes. Esses fl uxogramas podem e devem ser adaptados de acordo com a particularidade do estudo que será realizado. O método visa auxiliar o investigador 146 Administração APlicada À Engenharia de Segurança na etapa inicial e as modifi cações das perguntas devem ser realizadas pelo profi ssional que aplicará o modelo de investigação. 3.4 MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Os incidentes, independentemente de ocasionar ou não lesão, são inevitáveis, contudo, há grande preocupação na proteção do sistema de trabalho, de forma a mitigar, proteger e até mesmo evitar que esses eventos indesejáveis aconteçam devido a falhas humanas. As condições de segurança dentro de uma organização são sim possíveis de serem realizadas sem a necessidade de eliminação das fontes geradoras de risco, entretanto, para que isso aconteça, treinamentos constantes são fundamentais para todos os profi ssionais. Maurer (2011) destaca um estudo realizado por Hollnagel e Goteman (2004), em que foram analisados dados relativos a quatro décadas, extraindo como resultado das causas de acidentes a distribuição apresentada na Figura 14. Salienta-se que o tempo em que os acidentes eram atribuídos a falhas nos equipamentos devido ao seu baixo desempenho, à inexistência de proteção, a falhas nos projetos ou, ainda, relacionados à tecnologia, já não se aplica mais. O fator principal atribuído às causas de acidentes é o fator humano, podendo ser associado a outros tipos de falhas, como as organizacionais e de tecnologia/ equipamento. FIGURA 14 – PROCESSO EVOLUTIVO DAS FALHAS QUE OCASIONAM ACIDENTES FONTE: Hollnagel e Goteman (2004 apud MAURER, 2011, p. 21) 147 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Passando para os métodos de análise, devemos ter em mente que, para escolhermos o método de investigação de acidente, é necessário, primeiramente, caracterizá-lo. Para isso, Hollnagel e Speziali (2008) propõem que seis perguntas sejam feitas para que se alcance o resultado: 1. O acidente foi semelhante a algo que já aconteceu antes ou foi novo e desconhecido? (Para responder a esta pergunta, deve-se utilizar como referência o histórico da instalação, bem como toda a indústria). 2. A organização estava pronta para responder ao acidente, no sentido de que havia procedimentos estabelecidos ou diretrizes disponíveis? 3. A situação foi rapidamente controlada ou o desenvolvimento foi demorado? 4. O acidente e as consequências materiais fi caram confi nados a um subsistema claramente delimitado (tecnológico ou organizacional) ou envolveram vários subsistemas ou toda a instalação? 5. As consequências, em geral, eram esperadas/familiares ou eram novas/ incomuns? 6. As consequências foram proporcionais ao evento inicial ou foram inesperadamente grandes (ou pequenas)? Durante a aplicação dessas questões, devemos ter em mente que a obtenção das respostas depende de uma compreensão prévia e informal do que pode ter ocorrido. Essa etapa não é tão trivial para um investigador iniciante, que deve fazer isso sem permitir que os agentes externos o infl uenciem com suposições prematuras a respeito das causas do acidente. As perguntas de1 a 3 tratam de questões que dizem respeito à tratabilidade. Isso quer dizer que, se essas perguntas forem respondidas positivamente, é um indicativo de que o sistema é tratável, pelo menos até certo ponto. As perguntas de 4 a 6 tratam das questões relacionadas à dimensão do acoplamento. Isso quer dizer que, se as perguntas forem respondidas positivamente, é um indicativo de que o sistema é do tipo fracamente acoplado. Essa foi apenas uma proposta para auxiliar no processo de investigação do acidente. Hollnagel e Speziali (2008) destacam que há uma infi nidade de métodos de investigação, sendo praticamente impossível listar todos. Baseado na compilação das informações relativas a alguns dos métodos investigativos, no Quadro 3, serão apresentados 21 métodos de investigação ou análise de acidentes. O quadro é composto por breves informações de cada método. Lembre-se: esta lista não esgota o assunto relacionado aos tipos e classifi cações dos métodos existentes para análise e investigação de acidentes. 148 Administração APlicada À Engenharia de Segurança QUADRO 3 – CONJUNTO INICIAL DE MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Nome do método Breve descrição Fonte Evolução de aci- dentes e análise de barreiras Fornece um método para a análise de incidentes e aci- dentes que modela a evolução para um incidente/acidente como uma série de interações entre sistemas humanos e técnicos. Svensson (2001) Análise de barreira A análise de barreira é usada para identifi car os perigos as- sociados a um acidente e as barreiras que deveriam estar em vigor para evitá-lo. Uma barreira é qualquer meio utili- zado para controlar, prevenir ou impedir que o perigo atinja o alvo. Dianous, Fiévez (2006) Análise de mudanças Essa técnica é usada para examinar um acidente analisan- do a diferença entre o que ocorreu antes ou era esperado e a sequência real de eventos. O investigador que realiza a análise de mudanças identifi ca diferenças específi cas entre a situação livre de acidentes e o cenário do acidente. Essas diferenças são avaliadas para determinar se as diferenças causaram ou contribuíram para o acidente. DOE (1999) Confi abilidade cog- nitiva e Método de Análise de Erros Pode ser usado de forma preditiva e retrospectiva. O uso retrospectivo (análise de acidentes) baseia-se em uma dis- tinção clara entre o que pode ser observado (chamado de fenótipo) e o que deve ser inferido (chamado de genótipo). Os genótipos utilizados no CREAM são divididos em três categorias: individuais, tecnológicos e organizacionais. Hollnagel (1998) Gráfi cos de eventos e fatores causais O gráfi co de eventos e fatores causais é uma exibição gráfi - ca da cronologia do acidente e é usado principalmente para compilar e organizar evidências para retratar a sequência dos eventos do acidente. DOE (1999) Gráfi cos e análise de eventos e fatores causais A tabela de eventos e fatores causais pode ser usada para determinar os fatores causais de um acidente. Esse pro- cesso é um primeiro passo importante para determinar posteriormente as causas raiz de um acidente. A análise de eventos e fatores causais requer raciocínio dedutivo para determinar quais eventos e/ou condições que contribuíram para o acidente. DOE (1999) Modelo de Acidente de Ressonância Funcional Um método para investigação de acidentes, bem como ava- liação de risco com base em uma descrição das funções do sistema. A propagação não linear de eventos é descrita por meio de ressonância funcional. Hollnagel e Goteman (2004) 149 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 HERA Um método para identifi car e quantifi car o impacto do fator humano na investigação de incidentes/acidentes, gestão de segurança e previsão de potenciais novas formas de erros decorrentes de novas tecnologias. O erro humano é visto como um potencial elo fraco no sistema e, portanto, devem ser tomadas medidas para prevenir erros e seu impacto e maximizar outras qualidades humanas, como detecção e recuperação de erros. Baseia-se na noção de que o erro humano é o principal contribuinte para acidentes e inciden- tes. Isaac et al. (2002) Sistema de Análise e Classifi cação de Fatores Humanos Identifi ca as causas humanas de um acidente e fornece uma ferramenta não apenas para auxiliar no processo de investigação, mas também para direcionar esforços de trei- namento e prevenção. O método analisa quatro níveis de falha humana, referindo-se ao modelo “queijo suíço”. Esses níveis incluem atos inseguros (erro do operador), precon- dições para atos inseguros (como fadiga e comunicação inadequada), supervisão insegura (como emparelhar avia- dores inexperientes para uma missão difícil) e infl uências organizacionais (como falta de tempo de voo devido ao or- çamento e restrições). FAA/NTIS (2000) Ferramenta de inves- tigação de fatores humanos Foi desenvolvido com base teórica referente a ferramentas e modelos existentes. Ele coleta quatro tipos de informa- ções de fatores humanos, incluindo: a) os erros de ação que ocorrem imediatamente antes do incidente; b) mecanis- mos de recuperação de erros, no caso de quase acidentes; c) os processos de pensamento que levam ao erro de ação; e d) as causas subjacentes. Gordon, Flin e Mearns (2005) HINT – J-HPES HINT é um desenvolvimento recente do J-HPES, a versão japonesa do Sistema de Avaliação de Desempenho Hu- mano do INPO. O princípio geral é usar uma análise de causa raiz de pequenos eventos para identifi car tendências e como base para a prevenção proativa de acidentes. O método compreende uma série de etapas (semelhante a SAFER). Passo 1: entenda o evento. Passo 2: colete e classifi que os dados dos fatores causais. Etapa 3: análise causal, usando análise de causa raiz. Etapa 4: proposta de contramedidas. Takano et al. (1994) 150 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Sistema de Melhoria do Desempenho Humano Um método patrocinado pelo INPO que utiliza uma família de técnicas para investigar eventos, com ênfase particular na determinação de aspectos do desempenho humano. A metodologia HPES incorpora muitas ferramentas, como análise de tarefas, análise de mudanças, análise de barrei- ras, análise de causa e efeito e gráfi cos de eventos e fato- res causais. Além disso, muitas metodologias semelhantes foram desenvolvidas a partir da HPES e adaptadas, quando necessário, para atender aos requisitos específi cos de or- ganizações individuais. INPO (1989) Organização Män- niska-Teknologia A base para a análise MTO é que fatores humanos, orga- nizacionais e técnicos devem ser focados igualmente em uma investigação de acidentes. O método é baseado no HPES (Human Performance Enhancement System) Rollenhagen (1995); Bento (1992) Ferramenta de Análise de Eventos Processuais O objetivo é ajudar as companhias aéreas a desenvolverem medidas corretivas efi cazes para evitar a ocorrência de fu- turos erros semelhantes. O processo conta com uma abor- dagem não punitiva para identifi car os principais fatores que contribuem para as decisões da tripulação. Usando esse processo, o ofi cial de segurança da companhia aérea seria capaz de fornecer recomendações destinadas a controlar o efeito dos fatores contribuintes. Inclui armazenamento de banco de dados, análise e recursos de geração de relató- rios. Moodi e Kimball (2004) Análise de causa raiz A análise de causa raiz identifi ca defi ciências subjacentes em um sistema de gestão de segurança que, se corrigidas, impediriam a ocorrência de acidentes iguais e semelhantes. A análise de causa raiz é um processo sistemático que usa os fatos e os resultados das principais técnicas analíticas para determinar as razões mais importantes para o aciden- te. IAEA (1999) SAFER Um método genérico para a investigação de acidentes de- senvolvido pela TEPCO. Etapa 1: compreender a Engenha- ria de HF. Etapa 2: faça um fl uxograma do evento: organizeas informações para entender os detalhes do evento e ter uma base para a comunicação e o compartilhamento de informações. Etapa 3: pegue pontos problemáticos. Etapa 4: produza um Diagrama de Causalidade dos Fatores Fun- damentais que represente a causalidade entre os fatores. Etapa 5: pense em medidas para cortar a causalidade dos fatores de fundo (de acordo com o diagrama ou fl uxograma de eventos). Etapa 6: priorize as medidas. Etapa 7: imple- mente as medidas. Passo 8: avalie os efeitos. Yoshizawa (1999) 151 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 Técnica de Análise Sistemática de Causa O International Loss Control Institute (ILCI) desenvolveu o SCAT para apoiar a investigação de incidentes ocupacio- nais. O Modelo de Causa de Perdas do ILCI é a estrutura para o sistema SCAT. O resultado de um acidente é per- da, por ex. danos a pessoas, propriedades, produtos ou ao meio ambiente. O incidente (o contato entre a fonte de energia e a “vítima”) é o evento que antecede à perda. As causas imediatas de um acidente são as circunstâncias que precedem imediatamente o contato. Eles geralmente podem ser vistos ou sentidos. Frequentemente, eles são chamados de atos inseguros ou condições inseguras, mas, no modelo ILCI, os termos atos (ou práticas) abaixo do pa- drão e condições abaixo do padrão são usados. Bird e Germain (1985) STAMP A hipótese subjacente ao STAMP é que a teoria do sistema é uma maneira útil de analisar acidentes, particularmente acidentes de sistema. Os acidentes ocorrem quando dis- túrbios externos, falhas de componentes ou interações disfuncionais entre os componentes do sistema não são adequadamente tratados pelo sistema de controle. A segu- rança é vista como um problema de controle e é gerenciada por meio de restrições por uma estrutura de controle incor- porada em um sistema sociotécnico adaptativo. Entender por que um acidente ocorreu requer determinar por que a estrutura de controle foi inefi caz. Prevenir futuros acidentes requer o desenho de uma estrutura de controle que irá im- por as restrições necessárias. Os sistemas são vistos como componentes inter-relacionados, que são mantidos em um estado de equilíbrio dinâmico por ciclos de feedback de in- formação e controle. Leveson (2004) Plotagem de eventos sequencialmente cronometrados Eles propõem um processo sistemático para a investigação de acidentes baseado em sequências de eventos multiline- ares e uma visão de processo dos fenômenos do acidente. Com o conceito de processo, um acidente específi co co- meça com a ação que iniciou a transformação do processo descrito para um processo de acidente e termina com o últi- mo evento danoso conectado desse processo de acidente. Hendrick e Benner (1987) 152 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Modelo de queijo suíço O modelo Swiss Cheese de causa de acidentes é um mo- delo usado na análise de risco e gerenciamento de risco de sistemas humanos. Ele compara os sistemas humanos a várias fatias de queijo suíço empilhadas lado a lado. Foi originalmente proposto pelo psicólogo britânico James T. Reason em 1990, e desde então ganhou ampla aceitação e uso na área da saúde, no setor de segurança da aviação e em organizações de serviços de emergência. Às vezes é chamado de efeito de ato cumulativo. Reason (1990; 1997) Técnica para Análise Retrospectiva de Erros Cognitivos Fornece uma técnica de identifi cação de erro humano es- pecifi camente para uso no domínio de controle de tráfego aéreo. Ele se baseia em modelos de erro em outros campos e integra o modelo de processamento de informações de Wickens (1992). É representado em uma série de diagra- mas de fl uxo de decisão. O método marca uma mudança dos erros baseado em conhecimento em outras ferramen- tas de análise de erros para refl etir melhor a natureza visual e auditiva do ATM. Ele provou ser bem-sucedido na análise de erros em relatórios AIRPROX para derivar medidas para reduzir erros e seus efeitos adversos. Shorrock e Kirwan (1999; 2002) FONTE: Hollnagel e Speziali (2008, p. 15-19) Após as breves descrições dos métodos, podemos observar que muitos se referem aos mesmos princípios básicos, como análise de barreiras e análise de causa raiz. Portanto, para a seleção do método a ser utilizado no processo de investigação de acidentes, deve-se olhar as suas características com mais atenção, considerando os critérios técnicos para a seleção do método. Todo acidente deve ser bem analisado e investigado para que se possa, a partir do reconhecimento das falhas, adotar medidas corretivas, para a correção, e preventivas, para evitar que novos acidentes aconteçam. Para uma boa investigação, os seguintes passos são recomendados: • Buscar o máximo de informações em relação ao acidente. • Identifi car as reais causas. • Adotar o método de investigação mais adequado para aquelas condições do acidente. • Concluir e elaborar recomendações futuras como forma de mitigar outros riscos e, consequentemente, acidentes. Um bom processo de investigação é importante para a melhoria do ambiente de trabalho e maior segurança no ambiente laboral, com mais consciência e 153 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 segurança, evitando-se, assim, prejuízos para a saúde e para o desenvolvimento profi ssional, pessoal e social. 3.4.1 Método de Árvore de Causas - ADC Desenvolvido no fi nal da década de 1970 pelo Instituto Nacional de Pesquisa e Segurança - Institut National de Recherche et de Sécurité (INRS), na França, o método de árvore de causas tem como base a ideia de que os acidentes resultam de desvios ou variações. É baseado na Teoria de Sistemas e aborda o acidente de trabalho como sendo um complexo fenômeno de múltiplas causas. Sua aplicação exige que a história do acidente seja reconstruída com a máxima precisão possível, com registros apenas de fatos, denominados também como fatores de acidente, sem interpretações e emissão de valor e juízo para que, de uma forma retrospectiva, partindo do fato ocorrido (acidente), possamos identifi car a rede de fatores que culminaram no acidente de trabalho. Baseando-se então na Teoria de Sistemas, considera-se a situação de trabalho como um sistema. Utilizando-se também no conceito de atividade, sua composição se constitui em quatro componentes, a saber: • Indivíduo (I): trabalhador inserido no seu meio profi ssional, que traz consigo o efeito de fatores extraprofi ssionais. • Tarefa (T): ações designadas ao indivíduo que participa total ou parcialmente da produção de um bem ou execução de um serviço. Nela também estão compreendidas etapas, como esperas, descolamentos, movimentações etc. • Material (M): compreende todos os materiais e produtos relacionados ao ambiente técnico que são disponibilizados para a realização das atividades. • Meio/Método de Trabalho (MT): são os comandos para a realização do trabalho, o meio ambiente físico e social onde o indivíduo está inserido para a execução das suas tarefas. Trata-se da organização propriamente dita do ponto de vista físico. Como visto, a identifi cação das variações é indispensável para a elaboração da árvore de causas, ou seja, para a real identifi cação das causas do acidente. O investigador deve identifi car e listar essas variáveis, colocando-as na árvore e demonstrando a relação causal entre elas. 154 Administração APlicada À Engenharia de Segurança • Antecedentes-estado: são consideradas as situações permanentes de trabalho, ou seja, não variam durante o período de trabalho. Esses antecedentes são representados por um quadrado dentro da árvore de causas. Ex.: falta de proteção em um equipamento, ambiente com permanência de alta temperatura, ambiente com ruído constante, postura exigida para a realização da atividade ser considerada penosa etc. • Antecedentes-variações: são consideradas as condições não habituais oumodifi cações momentâneas que variaram do ambiente habitual de funcionamento. Esses antecedentes são representados por um círculo dentro da árvore de causas. Ex.: modifi cação temporária de um processo, alteração da matéria-prima devido à ausência da habitual, substituição de colaborador etc. O acidente é um processo que se inicia pela perturbação de um elemento do sistema que, passando por uma cadeia de incidentes intermediários, evolui até ocasionar um dano material (lesão) ao trabalhador. Importante ressaltar que a explicação para a ocorrência do acidente só é possível se pelo menos um elemento do sistema for modifi cado da sua situação habitual. Para se montar uma árvore de causas, devem ser observadas quatro regras básicas, a saber: 1. Iniciar a investigação logo após a ocorrência do acidente e no próprio local onde o fato ocorreu. Envolver, se for possível, a participação do profi ssional que sofreu o acidente, incluir os profi ssionais próximos, colegas e técnicos que tenham conhecimento da rotina e do tipo de trabalho executado, colocando as seguintes questões para todos os incluídos na análise: quem, onde, quando, como e por que, de modo a obter todas as possíveis informações a respeito da ocorrência. 2. Evitar interpretações e juízos de valor, fazendo uso apenas de fatos objetivos na descrição do acidente. Nessa etapa, o desencadeamento lógico e cronológico dos fatos que foram coletados na etapa 1 deve ser registrado. 3. Considerando que, para que tenha ocorrido um acidente, alguma coisa mudou ou variou do modo habitual, deve-se pesquisar o modo normal de trabalho (modo habitual) para verifi car o que variou. 4. Investigar os fatos (permanentes e das variações) segundo os quatro componentes I; T; M; e MT. A seguir, na Figura 15, será apresentado um exemplo do método de árvore de causas em um esquema de acidente de trabalho típico com tombamento de empilhadeira. 155 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 FIGURA 15 – EXEMPLO DO MODELO DE MÉTODO DE ÁRVORE DE CAUSAS FONTE: Binder (1997, p. 20) marcha à ré Lembrando que a árvore começa com o acidente e os fatos a ele relacionados. O método faz a reconstrução do acidente a partir da lesão até os mais remotos fatores relacionados a sua origem. Veja um exemplo da aplicação do método de árvore de causas/ falhas em: https://www.scielo.br/j/csp/a/hqZRZbwhqTYmTYMPV84gQCq/? format=pdf&lang=pt. ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 Sobre acidente de trabalho, marque V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 156 Administração APlicada À Engenharia de Segurança ( ) Um acidente ocorrido fora do local de trabalho jamais poderá ser considerado como acidente de trabalho. ( ) Em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo, quando fi nanciada por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão de obra, independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive veículo de propriedade do segurado. ( ) No percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado. ( ) O acidente sofrido pelo segurado, ainda que fora do local e horário de trabalho, independentemente das circunstâncias. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) F – F – V – F. ( ) V – F – F – V. ( ) F – V – V – F. ( ) F – V – V – V. 2 Sobre as doenças de trabalho, entendidas como as doenças adquiridas ou desencadeadas em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacionem diretamente, assinale a alternativa CORRETA: a) Doenças degenerativas são consideradas doenças de trabalho. b) Pneumonia é considerada doença de trabalho. c) HIV é considerada doença de trabalho. d) São excluídas do rol das doenças de trabalho as inerentes a grupo etário, como osteoporose e Mal de Alzheimer, por exemplo. 3 Sobre os tipos de acidentes, é CORRETO afi rmar que: a) São divididos em três tipos: acidente de trajeto, trajetória e percurso. b) São classifi cados em acidentes típicos e de trajeto. c) Não possuem classifi cação defi nida. d) São defi nidos de acordo com a atividade exercida pelo trabalhador. 4 Sobre o afastamento do trabalho, podemos afi rmar que: a) Existe apenas o afastamento por 5 dias. b) Pode ser com tempo inferior a 15 dias, em que a empresa arca com os vencimentos. 157 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 c) Pode ser com tempo inferior a 15 dias, em que quem arca com os vencimentos é o INSS. d) Em qualquer tipo de afastamento, a empresa nunca arca com os vencimentos do funcionário. 5 Sobre a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho, podemos afi rmar: a) É obrigatória a emissão em casos de acidente de trabalho, independentemente da sua gravidade e do afastamento do trabalhador. b) Só deve ser emitida quando o trabalhador se afasta das suas atividades. c) A emissão é facultada ao trabalhador. d) Só quem pode emitir é o supervisor direto do funcionário acidentado. 6 Sobre o modelo de acidentes sequenciais da Teoria do Dominó de Heinrich, para que ocorra a lesão, faz-se necessário o encadeamento sequencial de quantos fatores? a) 2. b) 10. c) Nenhum. d) 5. 7 O modelo em que há uma série de barreiras em que o acidente só ocorre se todas elas forem penetradas é: a) Teoria do Queijo Padrão. b) Teoria do Dominó. c) Teoria do Queijo Suíço. d) Modelo Sociotécnico. 8 Os acidentes de trabalho nos quais não há qualquer dano pessoal também devem ser investigados e analisados pela empresa. A esse tipo de acidente, dá-se o nome de: a) Incidente. b) Acidente de trajeto. c) Acidente típico. d) Acidente ocasional. e) Doença do trabalho. 158 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 9 As doenças ocupacionais estão associadas ao ofício do trabalhador e às condições de trabalho. Assim, a doença ocupacional caracterizada pela contínua postura inadequada, causando dor crônica, e cuja ocorrência está associada apenas à função laboral, é conhecida como: a) DORT. b) Hérnia de disco. c) Tendinite. d) Dermatose ocupacional. e) Artrose. 10 Analise as afi rmativas a seguir referentes aos conceitos para a realização de uma boa avaliação de riscos: I - Não haverá risco sem que se identifi que a exposição de trabalhadores e a de outras pessoas: se não há exposição, não há risco, embora o perigo possa existir. II - A eliminação do risco somente é possível caso ocorra a eliminação do perigo. III - A ausência de um plano de implementação das melhorias identifi cadas, bem como o seu monitoramento, compromete muito a efi ciência da gestão de segurança. Está CORRETO o que se afi rma em: a) I, apenas. b) I e II. c) I e III. d) II e III. e) I, II e III. 11 Quais são as etapas fundamentais de uma boa avaliação de riscos presentes no ambiente de trabalho para a segurança e a saúde dos trabalhadores? a) Identifi cação dos riscos, graduação dos riscos, estabelecimento de medidas de controle, monitoramento de implementação dessas medidas e comunicação aos trabalhadores. b) Identifi cação dos riscos, estabelecimento de medidas de controle, comunicação aos trabalhadores e treinamento. 159 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 c) Identifi cação dos riscos, comunicação dos riscos aos trabalhadores e aplicação de treinamentos necessários. d) Identifi cação dos riscos existentes, graduação dos riscos e comunicação aos trabalhadores. e) Estabelecimento de medidas de controle, graduação dos riscos após o estabelecimento dessas medidas e treinamento dos trabalhadores. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Ao longo deste capítulo, observamos que diversos fatores podem estar associados à ocorrência do acidente de trabalho, principalmente os atos e as condições inseguras que, muitas vezes, são negligenciados pelos trabalhadores e empresas. O afastamento do trabalhador, independentementedo seu motivo, é sempre prejudicial para o produto ou o serviço que é oferecido pela empresa. Do ponto de vista do trabalhador, seu afastamento ocasiona incapacidade temporária ou permanente que, a depender da lesão, afetará inclusive a sua rotina na residência. Já para a sociedade, os afastamentos geram prejuízos, considerando que, após 15 dias de incapacidade e afastamento do trabalhador, seu salário será pago através dos recursos do INSS que, por sua vez, se referem à arrecadação dos nossos impostos. Vimos, através de números atuais e disponíveis no site do Ministério do Trabalho e Emprego, a quantidade de registros de acidentes de trabalho em âmbito nacional, em que só a região Sudeste é responsável por mais de 50% dos registros. Os conceitos e as condições para que o trabalhador passe a ter direito aos benefícios, em caso de afastamento ou doença, foram esclarecidos ao longo do capítulo, em que observamos que o simples fato de registrar um acidente de trabalho não lhe garante a estabilidade temporária. Aprendemos que todo e qualquer acidente deve ser registrado, seja para fi ns estatísticos ou para futuras ações judiciais, em casos de doenças atribuídas às atividades laborais. O instrumento legal para essa fi nalidade é a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). 160 Administração APlicada À Engenharia de Segurança As principais causas relacionadas aos acidentes de trabalho geralmente são associadas a falhas humanas, todavia, quando pensamos nas diversas etapas que compõem o trabalho, difi cilmente conseguimos dissociar a presença humana, seja ela na confecção do sistema, na manutenção das máquinas ou no gerenciamento. Ações mitigadoras dos riscos de acidente podem ser alcançadas através de constantes treinamentos, que devem sempre ser fi nalizados, inclusive nas simulações. Já no que se refere aos modelos de prevenção e análise de acidentes, estudamos as principais características dos modelos sequenciais, epidemiológicos e de ressonância funcional. Além disso, foi apresentada uma breve descrição de diversos outros modelos de investigação de acidentes. Por fi m, foi escolhido o método de árvore de causas como o exemplo prático a ser apresentado. Vimos que tal modelo é baseado na teoria de sistemas e é tema de aplicação em diversas áreas. Assim, encerramos o último capítulo do livro, ratifi cando que nenhum acidente deve ser negligenciado e que mesmo com as diversas barreiras propostas para impedir a ocorrência do acidente, devemos sempre atuar com responsabilidade, evitar adaptações e registar todo e qualquer evento que não faça parte das condições normais de operação. REFERÊNCIAS ALMEIDA, I. M. de. Análise de barreiras e o modelo de ressonância funcional de acidentes de Erik Hollnagel. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, [s. l], v. 33, p. 17-31, 2008. BINDER, M. C. P. O uso do método de árvore de causas na investigação de acidentes do trabalho típicos. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, [s. l], v. 23, n. 87-88, p. 69-92, 1997. BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 25 jul. 1991. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm. Acesso em: 10 abr. 2022. 161 TEORIAS E MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES Capítulo 3 BRASIL. Decreto nº 8.691, de 14 de março de 2016. Altera o Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 15 mar. 2016. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/decreto/ d8691.htm. Acesso em: 18 abr. 2022. BRISTOT, V. M. Introdução à engenharia de segurança do trabalho. Criciúma, SC: UNESC, 2019. p. 259. COOPER, D. Improving safety culture: a prectical guide. London: Wiley, 1998. HEINRICH, W. H. Industrial Accident Prevention. New York: McGraw-Hill, 1941. HOLLNAGEL, E. (ed.). Handbook of cognitive task design. Boca Raton: CRC Press, 2003. HOLLNAGEL, E. FRAM: the functional resonance analysis method: modelling complex socio-technical systems. Farnham: Ashgate, 2012. HOLLNAGEL, E.; GOTEMAN, O. The functional resonance accident model. Proceedings of cognitive system engineering in process plant, [s. l.], p. 155-161, 2004. HOLLNAGEL, E.; SPEZIALI, J. Study on Developments in Accident Investigation Methods: A Survey of the 'State-of-the-Art'. SKI Report, Stockholm, n. 50, p. 1-42, 2008. HYATT, N. Incident Investigation and Accident Prevention in the Process and Allied Industries. Boca Raton: CRC Press, 2018. MAURER, R. A. Análise causal de acidentes como ferramenta para melhorias nas condições de segurança em uma construtora de pequeno porte. 2011. 74 f. Dissertação (Bacharelado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal do Pampa, Bagé, 2011. Disponível em: https://wp.ufpel. edu.br/labserg/fi les/2014/02/o_maurer_20111.pdf. Acesso em: 23 maio 2022. REASON, J. Human Error. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. REASON, J. Managing the Risks of Organizational Accidents. Burlington: Ashgate, 1997. 252 p. 162 Administração APlicada À Engenharia de Segurança REASON, J. Human error: models and management. Bmj, [s. l.], v. 320, n. 7237, p. 768-770, 2000. SAURIN, T. A. et al. An algorithm for classifying error types or front-line workers based on the SKR framework. International Journal of Industrial Ergonomics, Amsterdam, v. 38, 2008. VAN ELSLANDE, P.; ALBERTON, L. L’Accident de la Route: Chercher l’ Erreur. Securité et Cognition. Paris: Hermes, 1999.de todas as habilidades é fundamental e, para serem colocadas em ação com êxito, requerem certas competências pessoais. “As competências – qualidades de quem é capaz de analisar uma situação, apresentar soluções e resolver assuntos ou problemas – são o maior patrimônio pessoal do administrador – seu capital intelectual, sua maior riqueza” (CHIAVENATO, 2014, p. 10). A administração está dentro do campo das ciências sociais, que estudam e sistematizam conceitos e práticas usados para administrar (ROSSÉS, 2014). Por ser uma ciência inexata, as tomadas de decisões dos administradores são baseadas em informações que proporcionam o desenvolvimento de habilidades humanas, conceituais, comportamentais, técnicas, organizacionais e de planejamento, visando aprimorar as práticas da administração e gestão. Pela sua complexidade, a administração contempla simultaneamente ciência, tecnologia e arte: • Como ciência: através das teorias, metodologias e fundamentos científi cos, além das análises dos fatos e evidências experimentadas e testadas na prática cotidiana. Faz relação de causa e efeito, estuda e defi ne o que, por que e quando causa determinadas relações. • Como tecnologia: através de técnicas, ferramentas conceituais e teorias científi cas, com medição dos seus resultados. • Como arte: requer criatividade do administrador com inovação para a resolução de problemas, utilizando-se principalmente da arte de criar, inovar, mudar e transformar as organizações. Na medida em que novos desafi os são identifi cados, as doutrinas e as teorias administrativas precisam ser adaptadas ou modifi cadas para continuar sendo úteis e aplicáveis. Com isso, outras abordagens foram surgindo com o decorrer do tempo. 18 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2.6 ADMINISTRAÇÃO: ABORDAGEM CLÁSSICA Dentro da abordagem clássica da administração, você conhecerá, nesta seção, a administração científi ca e a teoria clássica. Esse modo de abordagem foi a primeira tentativa em se considerar, de forma analítica, os problemas organizacionais de maior complexidade. A organização era tradicionalmente vista com um meio racional para a realização de metas e objetivos. Embora esse entendimento não seja errado, há uma tendência em não se perceber os propósitos e os trabalhos internos realizados na própria organização. Como vimos anteriormente, a administração científi ca teve sua origem dentro do período da Revolução Industrial, tendo seus princípios baseados na estrutura formal e nos processos da organização, em que as pessoas eram utilizadas para o alcance da efi ciência dentro da organização, sendo vistas como instrumentos de produção. Acreditava-se que as pessoas deveriam estar sob um sistema de autoridade. A construção da administração científi ca requeria a construção de uma estrutura formal, a qual o trabalho era dividido em pequenas unidades, com a realização de tarefas simples por parte dos trabalhadores, sendo colocadas em um sistema coordenado visando à racionalização do trabalho. Dentro da abordagem clássica da administração há dois movimentos, conforme ilustrado na Figura 2: • Por Taylor (caracterizado pela racionalização do trabalho com vistas ao aumento da efi ciência). • Por Fayol (aplicação de princípios gerais da administração em bases científi cas visando ao aumento da efi ciência da empresa). FIGURA 2 – ABORDAGEM CLÁSSICA DA ADMINISTRAÇÃO – DESDOBRAMENTO FONTE: Chiavenato (2000, p. 46) 19 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 2.7 ABORDAGEM CLÁSSICA DA ADMINISTRAÇÃO: SUAS ORIGENS Para discutirmos as origens da abordagem clássica da administração, é necessário que recordemos detalhes das fases da Revolução Industrial, assim como as consequências geradas. Relembrando: durante o processo da Revolução Industrial ocorreram transições nos processos de fabricação, que inicialmente utilizavam métodos artesanais, passando para uma produção realizada por máquinas, cujo fornecimento de energia advinha basicamente do carvão. Diversos aspectos do cotidiano foram infl uenciados pela Revolução Industrial, que foi considerada um divisor de águas na história da civilização. Nesse sentido, a abordagem clássica da administração surge principalmente pelo advento da Revolução Industrial. Dois fatores podem ser destacados de forma resumida, a saber: • O crescimento acelerado e desorganizado das empresas: até então, o que prevalecia dentro das instituições era pautado em improvisação e empirismo. O acelerado crescimento das empresas exigia cada vez mais uma mudança que substituísse a forma improvisada e empírica por uma abordagem mais científi ca. O aumento do tamanho das empresas e a sua complexidade levaram à substituição de teorias tradicionais (de caráter totalizante e global) por teorias que visam ao planejamento da produção e demais aspectos industriais (teorias microindustriais). • A necessidade de aumentar a efi ciência e a competência das organizações: este fator visava à obtenção de melhores resultados com maior efi ciência e efi cácia devido à grande concorrência e competitividade entre as empresas, que não parava de crescer. Com a substituição do capitalismo liberal pelos monopólios, instala-se a produção em massa, aumentando, consequentemente, o número de assalariados nas indústrias. Com isso, torna-se mister reduzir o desperdício e economizar mão de obra. Dessa forma, surgiu a divisão de trabalho entre os que pensam (gerentes), que defi nem padrões de produção, estudam normas de trabalho e métodos de administração, e os que executam (trabalhadores). Essas condições técnicas e econômicas foram determinantes para o surgimento das teorias de Taylor (Administração Científi ca) e Fayol (Teoria Clássica), as quais veremos a seguir. 20 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2.8 ADMINISTRAÇÃO CIENTÍFICA – TAYLOR Nascido na Filadélfi a, nos Estados Unidos da América, Frederick Winslow Taylor (1856-1915), fundador da Administração Científi ca, iniciou sua carreira como operário, passando a capataz até se formar engenheiro. Naquela época, o sistema de remuneração vigente era o pagamento por peça ou tarefa executada. Com este sistema, os patrões, no momento de fi xar o preço da tarefa, procuravam ganhar o máximo possível, em contrapartida, o ritmo de produção era reduzido pelos operários, a fi m de contrabalancear os valores pagos pelos patrões por peças produzidas. Com isso, o êxito dependia quase que inteiramente da iniciativa do operário, que raramente era alcançada. Ao observar este fato, Taylor começou a estudar o problema de produção na tentativa de propor uma solução que atendesse tanto aos patrões quanto aos empregados. No primeiro período, correspondente à publicação do seu livro Shop Management (1903), Taylor analisou, no nível de execução, junto aos operários, a operação de cada um, decompondo seus movimentos e processos de trabalho para aperfeiçoá-los e racionalizá-los. Nesse nível de execução, constatou que um operário com produção média e com o equipamento disponível produzia bem menos do que era potencialmente capaz. Com esse fato, concluiu que, quando o operário mais produtivo percebe que sua remuneração é similar à do seu colega menos produtivo, sua tendência é de acomodação, perdendo seu interesse e produzindo aquém de suas condições produtivas. A necessidade de criar condições de remuneração diferenciada, de acordo com a sua produção, traz que: • O objetivo da Administração é pagar salários melhores e reduzir custos unitários de produção. • Para realizar tal objetivo, a Administração deve aplicar métodos científi cos de pesquisa e experimentos para formular princípios e estabelecer processos padronizados que permitam o controle das operações fabris. • Os empregados devem ser cientifi camente selecionados e colocados em seus postos com condições de trabalho adequadas para que as normaspossam ser cumpridas. • Os empregados devem ser cientifi camente treinados para aperfeiçoar suas aptidões e executar uma tarefa para que a produção normal seja cumprida. • A Administração precisa criar uma atmosfera de íntima e cordial cooperação com os trabalhadores para garantir a permanência desse ambiente psicológico (TAYLOR, 2008). 21 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 No segundo período, correspondente à publicação do seu livro The Principles of Scientifi c Management (1911), Taylor concluiu que, para tornar coerente a aplicação dos seus princípios na empresa, a racionalização do trabalho operário deveria ser acompanhada de uma estruturação geral. A partir daí, desenvolveu estudos sobre a Administração geral, a qual denominou de Administração Científi ca, mantendo-se a preocupação quanto à tarefa do operário (TAYLOR, 1990). Nas indústrias da época, Taylor acreditava que havia três males: vadiagem sistemática dos operários, com redução da capacidade produtiva para evitar a redução das tarifas e salários; desconhecimento dos gerentes das rotinas de trabalho e tempo para execução de uma tarefa; e a ausência de uniformidade dos métodos e técnicas aplicados no trabalho. A administração científi ca, idealizada por Taylor, visa sanar esses três males (TAYLOR, 1990). Para evitar alterações bruscas, que causem descontentamento por parte dos empregados e prejuízo aos patrões, Taylor salienta que a implantação da Administração Científi ca deve ser gradual e obedecer a um período de quatro a cinco anos (TAYLOR, 1990). A teoria proposta por Taylor é centrada na crença de que fazer com que as pessoas trabalhem o máximo possível não é tão efi ciente quanto a otimização da maneira como o trabalho era realizado, consistindo em saber exatamente o que os funcionários devem fazer (arte do conhecimento) e confi rmar que eles façam isso da maneira mais efi ciente e barata. Taylor (1990) considerava também que os trabalhadores eram motivados por dinheiro, promovendo a ideia de um salário justo por dia de trabalho também justo, ou seja, o trabalhador que não alcançasse um desempenho satisfatório e sufi ciente em um dia, não mereceria receber o mesmo valor que outro trabalhador com alta produção. Nesse sentido, o operário que produz pouco ganha pouco e o que produz mais, ganha proporcional a sua produção. De forma sumarizada, para Taylor (1990), a administração científi ca não constitui elemento simples, mas uma combinação global, conforme se observa a seguir: 1. Ciência, em lugar do empirismo. 2. Harmonia, em vez de discórdia. 3. Cooperação, não individualismo. 4. Rendimento máximo, em lugar de produção reduzida. 5. Desenvolvimento de cada homem, no sentido de alcançar maior efi ciência e prosperidade. 22 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Ao sistema proposto por Taylor, as críticas podem ser resumidas em dois grupos (SILVA, 2008, p. 122). 1- Mecanização: desestimula a iniciativa pessoal do operário, tornando-o ‘parte da máquina’, não considerando os seus aspectos psicossociais. 2- Esgotamento físico: resultado frequente da ânsia do operário em realizar mais do que o previsto, para aumentar seu pagamento. Quem popularizou e é considerado o pai da teoria da administração científi ca foi Frederick Winslow Taylor. Devido a isso, a teoria também é conhecida como “taylorismo”. Sua teoria tem maior abrangência para os trabalhos realizados em chão de fábrica, não levando em consideração os demais setores. Utiliza métodos científi cos cujo objetivo é aumentar a produção dentro das organizações e aperfeiçoar a efi ciência dos trabalhadores. Tem foco na padronização dos métodos de trabalho, em que busca a efi ciência através da racionalização do trabalho do operário e do somatório da efi ciência total, não exigindo que individualmente cada operário realize tarefas complexas para a solução de problemas. Traz uma visão mecanicista, que não considera características emotivas e psicológicas, focando apenas nas tarefas e funções a serem executadas. Considera o trabalhador como responsável por uma parte do processo e não do todo e analisa a empresa como uma organização isolada do seu ambiente. Assista ao vídeo Virtudes e defeitos do taylorismo na atualidade, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=N3FAPQOPW2A. 23 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 2.9 TEORIA CLÁSSICA – FAYOL Enquanto nos Estados Unidos Taylor e outros engenheiros desenvolviam a administração científi ca, na França, em 1916, surgia a teoria clássica da administração. Embora ambas tenham como objetivo a efi ciência das organizações, a administração científi ca se caracteriza pela ênfase na tarefa realizada pelo operário, enquanto que, na teoria clássica, a ênfase é na estrutura que a organização necessita para atingir a efi ciência. Em outras palavras, o foco da Administração Científi ca está na execução das tarefas, enquanto o foco da Teoria Clássica da Administração está na estrutura organizacional. Na teoria clássica, fundada por Henri Fayol (1841-1925), partia-se da estrutura organizacional para garantir a efi ciência de todas as partes envolvidas, podendo essas partes serem órgãos, como seções ou departamentos, ou pessoas, como executores de tarefas e ocupantes de cargos. A teoria clássica da administração, proposta por Fayol, partiu de uma abordagem mais ampla, com abordagem sintética e universal da empresa, para uma abordagem anatômica e estrutural, que rapidamente superou a abordagem de Taylor, que tinha característica analítica e concreta. Para Fayol (1989), o ato de administrar se defi ne como: prever, organizar, comandar, coordenar e controlar, que envolvem as funções do administrador, constituindo os processos administrativos, a saber: 1. Prever. Visualizar o futuro e traçar o programa de ação. 2. Organizar. Constituir o duplo organismo material e social da empresa. 3. Comandar. Dirigir e orientar o pessoal. 4. Coordenar. Ligar, unir e harmonizar todos os atos e esforços coletivos. 5. Controlar. Verifi car que tudo ocorra de acordo com as regras estabelecidas e as ordens dadas (CHIAVENATO, 2014). Dentre as funções básicas da empresa, Fayol apresenta seis funções, representadas na Figura 3. 24 Administração APlicada À Engenharia de Segurança FIGURA 3 – AS SEIS FUNÇÕES BÁSICAS DA EMPRESA PARA FAYOL FONTE: Chiavenato (2014, p. 87) Já começamos a perceber que Fayol separa habilidade administrativa do conhecimento técnico. Ele observou que, sobre as atividades do negócio, o efeito exercido pela administração muitas vezes não era completamente compreendido e que as recomendações da área técnica poderiam ser completamente destruídas devido a equivocados procedimentos administrativos. Depois, concluiu que mais valia a empresa possuir um bom administrador como líder, mas com fracos conhecimentos técnicos do que um brilhante técnico, mas com medíocres conhecimentos administrativos (FAYOL, 1989). O líder com mais conhecimentos e habilidades administrativas e menos técnicas é mais útil à empresa do que o oposto. Com isso, conclui que o sucesso organizacional tem maior dependência das habilidades administrativas dos seus líderes do que de suas habilidades técnicas (FAYOL, 1989). Era defendido por Fayol que, independentemente do ramo de atividade, qualquer organização necessitava de administração, existindo, em qualquer condição, uma função administrativa a ser empenhada, ressaltando a necessidade da profi ssionalização e do ensino da administração. Em qualquer empresa, seja ela pequena, grande, simples ou complexa, há seis grupos de operações ou funções considerados essenciais: 1. Operações técnicas: produção, fabricação, transformação. 2. Operações comerciais: compras, vendas, permutas. 3. Operações fi nanceiras: procura e gerência de capitais. 4. Operaçõesde segurança: proteção de bens e de pessoas. 5. Operações de contabilidade: inventários, balanços, preços de custo, estatística etc. 25 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 6. Operações administrativas: previsão, organização, direção, coordenação e controle (FAYOL, 1989, p. 23). Embora a operação administrativa esteja descrita como um item destacado, assim como as demais operações, o ato de administrar não está relacionado ao encargo pessoal do chefe ou dos dirigentes da empresa, tampouco é um privilégio exclusivo; é considerada uma função que deve ser repartida, como as demais funções essenciais, entre todos. Nesse sentido, mesmo que esteja destacada das outras cinco funções, não deve ser confundida com a direção da organização. Dirigir está relacionado à condução da empresa, considerando os fi ns almejados, procurando a obtenção das maiores vantagens dentro dos recursos disponíveis. É assegurar a condução das seis funções descritas anteriormente. Fayol (1989) também defi niu cinco pilares referentes às funções para a realização das atividades administrativas sob a responsabilidade do administrador: o POCCC. Administrar é prever, organizar, comandar, coordenar e controlar. • Prever: tentar conhecer o futuro e traçar um programa de ação. • Organizar: construir o duplo organismo material e social da empresa. • Comandar: dirigir o pessoal. • Coordenar: ligar, unir e harmonizar todos os atos e reforços. • Controlar: verifi car que tudo ocorra de acordo com as regras estabelecidas e as ordens dadas. Para a administração, por ser uma ciência social aplicada, ou seja, não é uma ciência exata, algumas condições precisam ser satisfeitas para o bom funcionamento da saúde e do corpo social de uma organização. Em matéria administrativa, não existe nada muito rígido nem absoluto. Veremos alguns princípios da administração aplicados por Fayol, os quais são maleáveis e suscetíveis de adaptação para as necessidades reais. O número dos princípios de administração não é limitado, podendo-se alinhar com outros princípios, regras ou instrumentos administrativos que fortaleçam o corpo social ou facilitem seu funcionamento. A seguir, alguns dos princípios propostos por Fayol (1989) e aplicados com maior frequência. 1. A divisão do trabalho Finalidade de produzir mais e melhor com o mesmo esforço. Permite reduzir o número de objetivos sobre os quais a atenção e os esforços devem ser aplicados. Não se limita apenas às tarefas de ordem técnica, aplica-se a todos os trabalhos, sem exceção. Tem como tendência a especialização das funções e a separação dos poderes. 26 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 2. Autoridade e responsabilidade Consiste no direito de mandar e no poder de se fazer obedecer. Para o exercício do poder, não é concebida a autoridade sem a responsabilidade. Em qualquer lugar em que se exerça a autoridade, haverá uma responsabilidade. Geralmente, a responsabilidade é tão temida quanto a autoridade é cobiçada e, muitas vezes, o temor da responsabilidade acaba por paralisar diversas iniciativas que, por consequência, acabam por afetar a qualidade. 3. Disciplina Consiste em sua essência na obediência, na assiduidade e no respeito estabelecido entre a empresa e os seus empregados. De maneira ordenada, signifi ca a necessidade de os trabalhadores realizarem um esforço comum e, no caso das punições, deveriam ser aplicadas com critério, com vistas a incentivar esse esforço comum. 4. Unidade de comando A regra associada à unidade de comando é que um agente, para a execução de um ato qualquer, deve receber ordens somente de um chefe. Quando dois chefes exercem autoridade e comando sobre o mesmo agente, estabelece-se uma situação de mal-estar, trazendo como consequência a anulação de um dos chefes. A dualidade de comando não produzirá adaptação do organismo social em nenhum caso, considerando que o ser humano não suporta essa dualidade. Quando tal cenário persiste, os resultados produzidos tendem a ser insatisfatórios em todas as empresas. 5. Unidade de direção “Esse princípio pode ser assim expresso: um só chefe e um só programa para um conjunto de operações que visam ao mesmo objetivo” (FAYOL, 1989, p. 49). Devemos tomar cuidado para não confundir a relação de um só chefe e um só programa (unidade de direção) com o fato de a ordem ser dada por apenas um chefe para um agente (unidade de comando). O direcionamento da empresa deve ser único e alinhado com todos os agentes, de forma a se atingir o mesmo objetivo. 6. Subordinação do interesse particular ao interesse geral Não deve prevalecer o interesse individual ou de um grupo de agentes sobre o interesse da empresa, assim como deve o interesse do Estado sobrepor o de um cidadão ou grupo de cidadãos. Tal conceito, embora pareça ser desnecessária a sua lembrança, devido à ignorância, à indiferença, ao egoísmo, às fraquezas e às ambições, tende a fazer com que indivíduos percam de vista o interesse geral em proveito do interesse particular. 27 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 7. Remuneração do pessoal Deve, sempre que possível, ser equitativo, buscando satisfazer tanto o interesse pessoal (empregado) quanto o da empresa (empregador). A marcha dos negócios pode ser infl uenciada pelo modo de retribuição do pessoal, sendo relevante a sua escolha. Como exemplos dos modos de retribuição, temos: pagamento por dia, por tarefa e por peça. Há outras formas e variedades de remuneração extra, como prêmios e participação nos lucros, assim como as contribuições para o bem-estar do empregado, como higiene e conforto, acesso à moradia, à alimentação e à educação. 8. Centralização A centralização, embora não seja um sistema de administração, pode existir em maior ou menor grau, podendo ser adotada ou rejeitada a critério dos dirigentes e de acordo com as circunstâncias, sendo uma questão de medida a centralização ou a descentralização, devendo-se encontrar o limite que seja favorável à empresa. 9. Hierarquia Basicamente, constitui-se na série de autoridades (chefes), que vai da autoridade superior até os agentes da base. As comunicações partem da autoridade superior e passam por todos os graus da hierarquia, atendendo ao mesmo tempo a necessidade de uma transmissão segura e pela unidade de comando. A depender do tamanho da empresa, esse caminho pode ser muito moroso. 10. Ordem Aqui destacamos dois tipos de ordem: material e social. A fórmula da ordem material poderia ser resumida em: um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar. Já a da ordem social seria: um lugar para cada pessoa e cada pessoa em seu lugar. O resultado da ordem deve ser a redução de perdas materiais e de tempo. Para atingir esses objetivos, é preciso ir além de somente garantir que tudo esteja no seu lugar, mas também que a escolha do lugar facilite, tanto quanto possível, todas as operações para que a ordem não seja apenas aparente. 11. Equidade Os desejos de igualdade são aspirações que devem existir muito no trato pessoal. O chefe deve ter a constante preocupação de introduzir em todos os níveis da hierarquia o sentimento de equidade. Há uma combinação entre justiça e benevolência que colabora para o bom desempenho dos agentes. 12. Estabilidade do pessoal Para que um agente desempenhe suas funções de forma satisfatória, há a necessidade de um tempo para se adaptar a essa nova função. Quando há 28 Administração APlicada À Engenharia de Segurança um constante deslocamento de atividades do agente, e considerando o tempo necessário para ocorrer o ciclo de aprendizagem, neste cenário a função jamais será bem desempenhada. Mudanças são inevitáveis, mas a estabilidade nas funções é próspera. É infi nitamente preferível um chefe com capacidade mediana, mas estável, a outro com alta capacidade, mas instável. Em determinadoscargos, a exemplo das chefi as, o processo de aprendizagem e conhecimento que inspire confi ança aos outros geralmente é longa nas grandes empresas. 13. Iniciativa Chamamos de iniciativa a concepção de um plano conjuntamente com sua execução. A iniciativa tende a aumentar as atividades e o zelo dos agentes em todos os níveis sociais. Encorajar e desenvolver essa faculdade é necessário. Um chefe que sabe induzir o espírito de iniciativa na sua equipe é infi nitamente superior ao que não sabe. 14. União do pessoal Em uma empresa, a harmonia e a união das pessoas são de grande vitalidade. Dividir o pessoal deve ser utilizado apenas nos casos em que se queira enfraquecer eventuais forças inimigas para enfraquecê-las, mas a divisão do seu próprio pessoal é considerada falta grave contra a empresa. Outro destaque é a forma de comunicação. Sempre que for possível, deve-se utilizar uma orientação ou ordem de forma verbal, considerando ser mais simples e rápida e eventuais confl itos ou divergências de entendimentos poderiam ser resolvidos na conversa. Com isso, ganha-se em rapidez, clareza e harmonia. Os princípios de Fayol se encerram aqui, mas não porque tenham se esgotado. Não há um limite preciso para os princípios, assim como não existe rigidez ou absolutismo, sendo tudo uma questão de proporção. Eles servem para nortear ações de gestores ou empreendedores, permitindo também seu aperfeiçoamento. Saiba mais em: Os 14 Princípios da Administração Geral – Henry Fayol, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TC0bGPkpx6w. 29 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 Ao sistema proposto por Fayol, as críticas podem ser resumidas em seis pontos (CHIAVENATO, 2004). 1. Abordagem simplifi cada da organização formal. 2. Ausência de trabalhos experimentais. 3. Extremo racionalismo na concepção da administração. 4. Teoria da máquina. 5. Abordagem incompleta da organização. 6. Abordagem de sistema fechado. Mesmo com todas as críticas à teoria clássica, esta abordagem é ainda a mais utilizada para os iniciantes da administração. Permite uma visão simples e ordenada, que proporciona ao administrador, através de seus princípios, um guia geral de manipulação dos deveres do cotidiano do trabalho e ainda disseca em categorias compreensíveis e úteis o trabalho organizacional. Essa teoria é indispensável para a compreensão das bases da moderna administração. Assista ao vídeo Taylor x Fayol, que faz uma comparação em uma linha de produção, disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=WQWrItnxHAQ. Nesta primeira seção, aprendemos os princípios da Administração, identifi camos os principais fi lósofos e suas contribuições para o campo da Administração. Além da contribuição dos fi lósofos, conseguimos identifi car que o pensamento administrativo também sofreu infl uência e contribuição tanto religiosa (igreja católica) quanto dos militares (organizações). Ao longo do tempo, percebemos que a concepção de trabalho foi se modifi cando, criando-se, assim, novos conceitos e abordagens na Administração. ATIVIDADES DE ESTUDO: 1 De acordo com Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), a organização do Estado pode ser caracterizada de três formas. Assinale a alternativa CORRETA: 30 Administração APlicada À Engenharia de Segurança a) Oligarquia, tirania e monarquia. b) Democracia, anarquia e sistema legislativo. c) Monarquia, aristocracia e democracia. d) Legislativo, executivo e judiciário. 2 A respeito do papel gerencial dentro de uma organização, marque V para as afi rmativas verdadeiras e F para as falsas: ( ) As habilidades do gerente não mudam conforme o nível. ( ) No nível institucional (nível mais alto), as habilidades exigidas são mais conceituais. ( ) No nível intermediário, a habilidade conceitual é a mais importante na condução do trabalho. ( ) As habilidades técnicas são mais exigidas no nível institucional (nível mais alto). Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) V – V – V – V. b) F – V – F – F. c) V – F – F – F. d) F – V – F – V. 3 Com relação à abordagem clássica da Administração, a Teoria Clássica e a Administração Científi ca foram construídas, respectivamente, por: a) Taylor e Chiavenato. b) Fayol e Sócrates. c) Aristóteles e Platão. d) Fayol e Taylor. 4 Fayol defi niu alguns pilares referentes às funções que estão sob a responsabilidade do administrador para a realização de atividades administrativas. Sobre essas funções, analise as opções a seguir: I- Prever. II- Organizar. III- Comandar. IV- Coordenar. V- Controlar. 31 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 Assinale a alternativa CORRETA: ( ) As afi rmativas I, II, IV e V estão corretas. ( ) As afi rmativas II, III e V estão corretas. ( ) As afi rmativas I, III e IV estão corretas. ( ) Todas as afi rmativas estão corretas. 3 PRINCIPAIS TEORIAS DA ADMINISTRAÇÃO Na seção anterior, estudamos as principais teorias basilares da administração. Estas teorias, com abordagem científi ca e clássica, criadas por Taylor e Fayol, respectivamente, são consideradas os pilares da administração. A partir deste ponto, veremos outras teorias relacionadas à administração, conforme ilustrado no Quadro 2: QUADRO 2 – RESUMO DAS PRINCIPAIS TEORIAS DA ADMINISTRAÇÃO Ano Teoria ABORDAGEM “CLÁSSICA” 1903 Administração Científi ca 1909 Teoria da Burocracia 1916 Teoria Clássica 1932 Teoria das Relações Humanas 1947 Teoria Estruturalista 1951 Teoria dos Sistemas ABORDAGEM CONTEMPORÂNEA 1954 Teoria Neoclássica 1957 Teoria Comportamental 1962 Desenvolvimento Organizacional 1972 Teoria da Contingência 1990 Novas Abordagens (Era da Informação) FONTE: Chiavenato (2004, p. 13) 3.1 TEORIA DA BUROCRACIA Por volta da década de 1940, a teoria da burocracia se desenvolveu na administração após críticas feitas tanto a teoria clássica, pelo seu mecanicismo, quanto a teoria das relações humanas, que veremos mais adiante, por seu romantismo ingênuo. Foram apontadas ausência de solidez nas teorias das organizações que viabilizassem a orientação do trabalho do administrador. 32 Administração APlicada À Engenharia de Segurança Através das obras do sociólogo e economista Max Weber, estudiosos foram buscar inspiração para essa nova teoria da organização, surgindo, então, a teoria da burocracia da administração. Diferente das demais teorias da administração, o conceito da teoria da burocracia é póstumo, já que foi desenvolvida antes de 1920, ano em que faleceu Max Weber, todavia, os escritos feitos por ele só foram localizados após a década de 1940. Quando falamos ou pensamos no conceito de burocracia, popularmente pensamos em algo emperrado, trabalhoso e com muita papelada, inviabilizando soluções rápidas e efi cientes, causando consequente inefi ciência à organização. Com isso, o termo burocracia passa a estar associado às disfunções (defeitos) agregados ao sistema, e não ao sistema em si mesmo. Não existe um único tipo de burocracia, mas sim graus variados de burocratização, ou seja, não se defi ne a burocracia como ausente ou presente. Embora este seja o conceito popularmente associado à burocracia, Weber defendia exatamente o oposto disso. Para ele, burocracia é a efi ciência da organização por excelência. Para atingir a efi ciência, a burocracia deve ter as características a seguir (CHIAVENATO, 2004): • Caráter legal das normas e regulamentos Organização baseada em uma legislação própria, em que antecipadamente são defi nidas as regras para o seu funcionamento, abrangendo todas as suas áreas, prevendo todas as ocorrências e esquemas capazes de regular tudo o que ocorre dentro da organização. • Caráter formal das comunicações Traz o caráter formal da burocracia com ações e procedimentos que proporcionam a comprovação e a documentação adequadas, assim como asseguram que não ocorra interpretação ambíguanas comunicações. • Caráter racional e divisão do trabalho Sistemática divisão do trabalho que atenda a uma racionalidade que é adequada para se atingir os objetivos da organização com efi ciência. • Impessoalidade nas relações As atividades são distribuídas de forma impessoal, sem considerar as pessoas como pessoas, mas como ocupantes de cargos e funções. 33 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 • Hierarquia da autoridade Estabelece cargos de acordo com o princípio da hierarquia, em que o cargo inferior deve estar sob supervisão e controle de um posto superior, não fi cando nenhum cargo sem controle ou supervisão. • Rotinas e procedimentos padronizados Regras e normas técnicas são fi xadas para o desempenho de cada cargo, impedindo que o funcionário execute suas tarefas por livre-arbítrio, mas sim o que a burocracia impõe que ele faça. • Competência técnica e meritocracia A escolha das pessoas não é pautada em preferências pessoais, mas baseada no mérito e na competência técnica. • Especialização da administração Baseia-se na separação entre a propriedade e a administração. Os membros do corpo administrativo estão separados da propriedade dos meios de produção, ou seja, os administradores da burocracia não são seus donos, acionistas ou proprietários. • Profi ssionalização dos participantes Separa cada profi ssional de acordo com a sua profi ssionalização, defi nindo algumas categorias, como especialista, assalariado, ocupante de cargo, nomeado pelo superior hierárquico, mandato por tempo indeterminado, entre outras. • Completa previsibilidade do funcionamento Pressupõe que o comportamento dos membros da organização é perfeitamente previsível; o comportamento de todos os funcionários deve estar de acordo com as normas e regulamentos da organização para que se atinja a máxima efi ciência possível. O conceito da racionalidade está muito presente na teoria da burocracia proposta por Weber, que implica na adequação dos meios aos fi ns, ou seja, se os meios mais efi cientes são escolhidos com vistas à implementação das metas, a organização é racional. Weber notou fragilidade na estrutura burocrática. “A capacidade para aceitar ordens e regras como legítimas, principalmente quando repugnam os desejos da pessoa, exige um nível de renúncia que é difícil de se manter. Assim, as organizações burocráticas apresentam uma tendência a se desfazerem” (COLTRO, 2005, p. 18). 34 Administração APlicada À Engenharia de Segurança 3.2 TEORIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Como um movimento de reação e oposição à Teoria Clássica da Administração, a Teoria das Relações Humanas surgiu nos Estados Unidos como consequência das conclusões da Experiência de Hawthorne, desenvolvida por Elton Mayo e colaboradores. Experiência de Hawthorne Elton Mayo, em 1927, coordenou uma pesquisa em uma fábrica para avaliar a correlação entre iluminação e efi ciência dos operários, medida por meio da produção, estendendo-se à fadiga, aos acidentes no trabalho, à rotatividade do pessoal (turnover) e ao efeito das condições de trabalho sobre a produtividade do pessoal. A experiência foi dividida em quatro fases. Na primeira fase, foram observados dois grupos que executavam o mesmo trabalho, mas com iluminações diferentes. Identifi caram o fator psicológico como uma variável e de difícil isolamento. Quando se aumentava a iluminação, a produção era maior e, quando se diminuía, a produção também caía, demonstrando que os trabalhadores se julgavam na obrigação de produzir mais quando a intensidade de iluminação aumentava e o oposto quando diminuía. Na segunda fase, os pesquisadores alteraram o local e também as condições de trabalho, estabelecendo períodos de descanso, lanches nos intervalos e redução da carga horária. Foi observado também que, o fator psicológico, identifi cado na etapa anterior, permanecia presente. Houve um aumento na produção associado à satisfação dos trabalhadores por estarem em um ambiente amistoso e sem pressão. Na terceira fase, os pesquisadores fi xaram o estudo das relações humanas, afastando-se do objetivo inicial de verifi car as condições físicas do trabalho. Realizaram entrevistas para conhecer suas atitudes e sentimentos, ouvir suas opiniões quanto ao trabalho e ao tratamento que recebiam, bem como ouvir sugestões a respeito do treinamento dos supervisores, permitindo com que os entrevistados falassem livremente sem a imposição de um roteiro prévio. Descobriram que com a organização informal os trabalhadores eram mantidos por laços de lealdade. Na quarta fase, os pesquisadores analisaram a organização informal, adotando um sistema de pagamento de acordo com a produção do grupo e não 35 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 mais individualmente. Com isso, perceberam que os trabalhadores apresentaram certa uniformidade de sentimentos e maior solidariedade. Por motivos fi nanceiros, a experiência de Hawthorne foi suspensa em 1932. Os resultados infl uenciaram a teoria administrativa, abalando os princípios básicos da até então dominante teoria clássica. As experiências comprovaram que a medição do nível de produção não é determinada, como se afi rmava na teoria clássica, através da capacidade física ou fi siológica do trabalhador, mas por normas sociais e expectativa do grupo, assim como pelos benefícios oferecidos pela organização. Ofertar um ambiente que propicie maior integração social no grupo de trabalho aumenta a capacidade de produção. A fi m de resgatar os conhecimentos já aprendidos, apresentaremos o Quadro 3 com o comparativo entre as duas teorias. QUADRO 3 – COMPARATIVO ENTRE A TEORIA CLÁSSICA E A TEORIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Teoria Clássica Teoria das Relações Humanas Trata a organização como máquina Trata a organização como grupos de pessoas Enfatiza as tarefas ou a tecnologia Enfatiza as pessoas Inspirada em sistemas de engenharia Inspirada em sistemas de psicologia Autoridade centralizada Delegação de autoridade Linhas claras de autoridade Autonomia do empregado Especialização e competência técnica Confi ança e abertura Divisão acentuada do trabalho Ênfase nas relações entre as pessoas Confi ança nas regras e nos regulamentos Confi ança nas pessoas Clara separação entre linha e staff Dinâmica grupal e interpessoal FONTE: . Acesso em: 20 maio 2022. 3.3 TEORIA ESTRUTURALISTA Com o declínio da teoria das relações humanas ao fi nal da década de 1950, após apontar lacunas da teoria clássica, mas sem proporcionar bases adequadas para uma nova teoria, foi criado um impasse dentro da Administração que a teoria da burocracia não teve condições de solucionar. Como um desdobramento da teoria da burocracia e uma pequena aproximação da teoria das relações humanas, surge a teoria estruturalista, com uma visão crítica da organização formal. As origens da teoria estruturalista são 36 Administração APlicada À Engenharia de Segurança resumidas, segundo Chiavenato (2014), em quatro causas: • A oposição surgida entre a Teoria Tradicional e a Teoria das Relações Humanas. • A necessidade de visualizar a organização como uma unidade social. • A infl uência do estruturalismo nas ciências sociais. • O novo conceito de estrutura. A teoria estruturalista está centrada no estudo das organizações, considerando sua estrutura interna e interações com as demais organizações. As ideias centrais dessa teoria são: a sociedade de organizações e o homem organizacional. As organizações, tais como corporações, exércitos, escolas, hospitais, igrejas e prisões, são concebidas como unidades sociais (ou agrupamentos humanos) que, a fi m de atingir objetivos específi cos, são intencionalmente construídas e reconstruídas. O homem organizacional refl ete uma personalidade cooperativae coletivista, que pode variar de acordo com o tipo de organização e o cargo ocupado. Essa é uma teoria de transição e mudança, cujo campo está em constante crescimento e desenvolvimento. Embora o estruturalismo não constitua uma teoria própria e distinta, trouxe consideráveis contribuições. O estruturalismo muda o foco para a estrutura da organização como um todo, interessando-se pela organização de forma integral como um sistema social onde se deve estudar a estrutura em si mesma e não no indivíduo, como na teoria clássica, nem no grupo, como na teoria das relações humanas. 3.4 TEORIA DE SISTEMAS A partir da década de 1960, a abordagem sistêmica da teoria de sistemas chegou à teoria geral de sistemas como ramo específi co. A teoria geral de sistemas surgiu com os trabalhos de Ludwig von Bertalanffy (1901-1972). Essa teoria não tem como propósito solucionar problemas ou tentar soluções práticas, mas produzir teorias e formulações conceituais para aplicações na realidade empírica (CHIAVENATO, 2014). 37 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 As divisões das diferentes áreas, como física, química, biologia etc., são consideradas divisões arbitrárias, que possuem suas fronteiras bem defi nidas e diversas lacunas entre elas. Deve-se, portanto, estudar os sistemas de forma global, envolvendo todas as suas partes e interdependências. Há uma grande variedade de sistemas e tipologias para classifi cá-los, sendo os seus tipos classifi cados quanto a sua constituição (físicos ou abstratos) e sua natureza (abertos ou fechados). Uma ideia importante resultante do enfoque sistêmico é a defi nição da organização como sistema: uma organização é um sistema composto de elementos ou componentes interdependentes. Não é uma entidade monolítica. • O sistema técnico é formado por recursos e componentes físicos e abstratos, e que, até certo ponto, independem das pessoas: objetivos, divisão do trabalho, tecnologia, instalações, duração das tarefas, procedimentos. • O sistema social é formado por todas as manifestações do comportamento dos indivíduos e dos grupos: relações sociais, grupos informais, cultura, clima, atitudes e motivação. • A compreensão dos elementos que interagem nas organizações é uma habilidade básica para os gestores (MAXIMIANO, 2020, s.p.). Essa teoria tem por característica ser demasiadamente conceitual e abstrata e, por isso, de difícil aplicação em situações de práticas gerenciais. Com sua abordagem sistêmica, cobre amplamente todos os fenômenos organizacionais. 3.5 TEORIA NEOCLÁSSICA Baseada nos princípios da teoria clássica estudada por Taylor e Fayol, a teoria clássica da administração surgiu na década de 1950. Diversos autores neoclássicos não formam propriamente uma escola com defi nições precisas, mas sim um movimento heterogêneo, cujas denominações são as mais variadas. A Teoria Neoclássica tem como características principais: • Ênfase na prática da administração: a teoria somente tem valor quando operacionalizada na prática. • Reafi rmação relativa dos postulados clássicos: retoma grande parte do material desenvolvido pela Teoria Clássica, redimensionando-a e reestruturando-a de acordo com as contingências da época atual, dando- lhe uma confi guração mais ampla e fl exível. • Ênfase nos princípios gerais de administração: os princípios de administração que os clássicos utilizavam como leis científi cas são 38 Administração APlicada À Engenharia de Segurança retomados pelos neoclássicos como critérios elásticos para a busca de soluções administrativas práticas. • Ênfase nos objetivos e nos resultados: toda organização existe não para si mesma, mas para alcançar objetivos e produzir resultados. • Ecletismo nos conceitos: absorção de conteúdo de outras teorias administrativas mais recentes. A literatura neoclássica trata de como explicar as funções administrativas no processo administrativo. No mundo em que constantemente estamos vendo transformações e mudanças, o processo administrativo mostra ser, nas mais variadas situações e circunstâncias, fl exível, maleável e adaptável. Nesse sentido, o processo administrativo não é apenas o núcleo da teoria neoclássica, mas o que fundamentará a administração moderna. 3.6 TEORIA COMPORTAMENTAL A teoria comportamental da administração, ou Teoria Behaviorista, surgiu no fi nal da década de 1940 como uma oposição e também representando um desdobramento da teoria das relações humanas, com uma total redefi nição dos principais conceitos administrativos. Fundamenta-se no comportamento individual das pessoas para explicar o comportamento organizacional, sendo a motivação humana um dos temas fundamentais da teoria. Utiliza-se da compreensão do comportamento humano e de suas necessidades para melhorar a qualidade de vida dentro das organizações. A ênfase, que antes era dada à estrutura organizacional, marcada pela infl uência da teoria clássica, neoclássica e burocrática, é transferida para a ênfase nas pessoas. A modifi cação no foco, que antes estava nos aspectos estruturais e estáticos, passa a ser os aspectos comportamentais e dinâmicos. Pode-se dizer que essa teoria buscou atender às necessidades básicas do indivíduo para uma qualidade de vida melhor. Independentemente das críticas que foram atribuídas à teoria comportamental, pode-se dizer que seu conteúdo e abordagem deram novos rumos e dimensões para a teoria geral da administração, e seus conceitos são os mais populares e conhecidos de toda a teoria administrativa. 39 ADMINISTRAÇÃO E ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO – CONTEXTO HISTÓRICO Capítulo 1 3.7 TEORIA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL Como um conjunto de ideias a respeito do homem, da organização e do ambiente, este movimento surgiu a partir de 1962, no intuito de facilitar o crescimento e o desenvolvimento das organizações, podendo ser considerado um desdobramento prático e operacional da Teoria Comportamental em direção à abordagem sistêmica. Seu conceito se relaciona às mudanças e à capacidade adaptativa da organização às alterações que ocorrem no ambiente, levando a um novo conceito de organização e de cultura organizacional. Com a fi nalidade de efetuar transações planejadas com o ambiente, a organização é a coordenação de diferentes atividades de contribuintes individuais. Já o conjunto de hábitos, crenças, valores, tradições, interações e relacionamentos sociais típicos de cada organização está relacionado à cultura organizacional. Cada organização tem sua própria cultura organizacional ou corporativa. O principal foco do desenvolvimento organizacional está na mudança tanto das pessoas quanto em sua natureza e qualidade das relações de trabalho, com ênfase na mudança da cultura organizacional devidamente planejada. Bauer (1999) descreve os objetivos comuns de um programa de desenvolvimento organizacional como: • Criação de um senso de identidade das pessoas em relação à organização. Busca-se a motivação juntamente ao comprometimento, ao compartilhamento de objetivos comuns e ao aumento de lealdade. • Desenvolvimento do espírito de equipe por meio da integração e da interação das pessoas. • Aprimoramento da percepção comum sobre o ambiente externo a fi m de facilitar a adaptação de toda a organização. Em muitos casos, o desenvolvimento organizacional tem sido utilizado como instrumento para assegurar alguns objetivos, como manter ou melhorar sua posição como dirigente ou então para a promoção pessoal. Sua utilização visa mais a legitimação externa e seus efeitos sobre a imagem pública da organização do que propriamente a legitimação interna. Entretanto, na prática, os métodos aplicados nessa teoria não são considerados novos nem cientifi camente válidos e não se comprovou cientifi camente que a aplicação das técnicas melhora a capacidade da organização no que tange ao alcance dos seus objetivos. 40