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Prévia do material em texto

EDITOR:
Marcos Marcionilo MÁRIO A. PERINI
EDITORES CIENTIFICOS:
Tommaso Raso [UFMG]
Celso Ferrarezi Jr. [UNIFAL-MG]
CONSELHO EDITORIAL:
Ana Stahl Zilles [Unisinos]
Angela Paiva Dionisio [UFPE]
Carlos Alberto Faraco [UFPR]
Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP]
Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela]
José Ribamar Lopes Batista Jr. [UFPI/CTF/LPT]
Kanavillil Rajagopalan [UNICAMP]
Marcos Bagno [UnB]
Maria Marta Pereira Scherre rUFES]
Roberto Mulinacci [Universidade de Bolonha]
Roxane Rojo [UNICAMP]
Salma Tannus Muchail [PUC-SP]
Sírio Possenti [UNICAMP]
Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB]
Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva [UFMG/CNPq] u~
1)1"'~,lll ANI'IIII~ ~·tI·,I(>IH"
ldltot('\ tll'>lllfl(o~: r"MMA\O HAlolurMGJ
CII I[) rlllHAIUli JH. [UNIFAl·MGl
Dlagramação e capa: T[lMA CU;TÓO>O
Revisão: KAYAAou PEREIRA
Sumário
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
P522s
Perini, Mário Alberto
Sintaxe / Mário Alberto Perini : editores científicos Tommaso Raso,
Celso Ferrarezi Jr. - 1. ed. - São Paulo: Parábola, 2019.
168 p. ; 23 em. (Linguística para o ensino superior; 4)
Primeiras palavras 9
ISBN 978-85-7934-165·6 Apresentasão 11
1. Língua portuguesa - Sintaxe. I. Raso, Tommaso. 11.Ferrarezi Jr.,
Celso. 111.Título. IV. Série. Abreviaturas e símbolos 15
19-56430 COO:469.5
COU: 811.134.3'367 Prefácio 17
Vanessa Mafra Xavier Salgado - Bibliotecária - CRB-7/6644
CAPiTULO 1 - O que é sintaxe? 21
1.1 Relação forma / significado 21
1.2 Descrição sintática 22
1.3 Crítica da análise tradicionaL.. 24
Direitos reservados à
PARÁBOLA EDITORIAL
Rua Dr. Mário Vicente, 394 -Ipiranga
04270-000 São Paulo, SP
pabx: [11) 5061-926215061-80751 fax: [11) 2589-9263
home page: www.parabolaeditoriaLcom.br
e-mail: parabola@parabolaeditoriaLcom.br
CAPiTULO 2 - Constituintes 29
2.1 Cortando frases 29
2.2 Constituintes na gramática 31
2.3 Semântica dos constituintes 33
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reprodu-
zida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou
mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema
ou banco de dados sem permissão por escrito da Parábola Editorial Ltda.
CAPiTULO 3 - Forma e significado 37
3.1 Sintaxe como estudo da forma 37
3.2 Sintaxe determinada pelo significado 39
3.3 Espaços: formal, semântico e simbólico 41
3.4 A noção de "pessoa": formal e semântica 42
ISBN: 978-85-7934-165-6
l' edição - i- reimpressão: outubro de 2019
© do texto: Mário A. Perini, 2019.
© da edição: Parábola Editorial, São Paulo, 2019.
CAPíTULO 4 - Funsões sintáticas e papéis semânticos 45
4.1 Funções sintáticas 45
4.2 Funções semânticas 46
5
11('11Ul () 'j Funções e classes 51
!i. I Funções 51
5.2 Classes 52
5.3 Classe e funções de uma palavra 53
5.4 O que classificar? 54
(11rITUlO 6 - Construções 57
6.1 A construção C1 57
).2 Outras construções do português 58
).3 Relação complexa entre sintaxe e papel semântico 59
).4 Sumário: algumas construções 61
nrll UlO 7 - Tipos de sintagmas 63
7.1 Sintagma nominal 63
7.2 Sintagma adjetivo e sintagma adverbial 65
7.3 Filtragem semântica do SAdj e do SAdv 66
CAPiTULO 8 - Estrutura sintática das orações 67
8.1 Termos da oração 67
8.2 Complementos e adjuntos 69
CAPiTULO 9 - Papéis semânticos 73
9.1 Complexidade do componente semântico das construções 73
9.2 Lista de papéis semânticos 73
9.3 Papéis semânticos na construção 77
CAPiTULO 10 - Valência 79
10.1 Simplificando a notação 79
10.2 O que é valência verbal.. 80
10.3 Levantando as valências dos verbos 82
CAPiTULO 11 - Notação das construções 85
11.1 Sintagmas preposicionados 85
11.2 Sintaxe 86
11.3 Verbo auxiliar 87
11.4 Sujeito 88
11.5 Sujeito valencial 90
11.6 Orações sem sujeito 92
CAPiTULO 12 - Regras de protótipo e filtros cognitivos 93
12.1 Regras de protótipo 93
1'1. 'I. 1'111111\ coglliLivos 95
12.3 Componentes da compreensão 96
12.4 Marca de excepcionalidade 97
CAPiTULO 13 - Fatores de aceitabilidade 99
13.1 Fatores Iinguísticos e extralinguísticos 99
13.2 Violação da gramática 100
13.3 Má formação semântica 102
CAPiTULO 14 - Hierarquia de constituintes 105
14.1 Estrutura de constituintes 105
14.2 O que o diagrama nos diz 106
CAPiTULO 15 - Construindo diagramas 111
15.1 Constituintes imediatos 111
15.2 Segmentar orações e outros sintagmas 112
CAPiTULO 16 - Funções sintáticas no SN 117
16.1 OqueéoSN 117
16.2 Núcleo do SN 118
16.3 Outros termos do SN 121
16.4 "Adjunto adnominal" 123
CAPiTULO 17 - Funções semânticas no SN 125
17.1 Seis funções no SN 125
17.2 Restrição de referência 126
17.3 Completando a lista de funções semânticas no SN 128
CAPiTULO 18 - Período composto 131
18.1 Período simples e período composto 131
18.2 Controle de modo na oração subordinada 133
18.3 Complementizadores 134
18.4 Tipos de oração subordinada 136
18.5 Omissões 137
CAPiTULO 19 - Construções relativas 139
19.1 Modificadores oracionais 139
19.2 Restritivos e não-restritivos 140
19.3 Relativas livres 142
19.4 O que universal 143
SUMARIO
7
(lll'11 UI () eU) Constituintes no período composto 145
0.1 () período composto na árvore 145
20.2 Síntagmas prcposiclonados e construções relativas 147
20.3 Infinitivos e gerúndios 149
CRPITUlO 21 - O léxico 151
21.1 Constituintes do SN 151
21.2 Armazenamento de palavras no léxico 153
21.3 Um exemplo: o verbo bater 154
21.4 Papel do léxico no uso da língua 156
CAPiTULO 22 - Para finalizar 157
22.1 Sintaxe, língua e linguagem 157
22.2 A gramática é feita de hipóteses 159
leitura complementar 165
Primeiras palavras
Uma das principais missões da Associação Brasileira de Linguística [ABRALlN]
é divulgar o conhecimento da área em camadas cada vez mais amplas da po-
pulação, tentando se fazer presente na sociedade como agente de educação
completo, não apenas como órgão de debates acadêmicos internos.
Essamissão tem se realizado pelo recurso a instrumentos e canais variados,
mediante iniciativas de diferentes naturezas, entre as quais a promoção de
redes internacionais, a produção de eventos em sedes tradicionalmente
afastadas dos principais centros acadêmicos, o uso de mídia alternativa ao
texto escrito para popularizar as diferentes disciplinas da área e um empe-
nho social articulado com outras instâncias acadêmico-sociais.
A Coleção Linguística para o ensino superior, da Parábola Editorial, editada
por Tommaso Raso e Celso Ferrarezi, apresenta-se como uma iniciativa am-
pla, especificamente pensada para oferecer aos alunos do ensino superior
um quadro completo das disciplinas linguísticas, com um olhar para o pa-
norama internacional da área e meios de divulgação adequados aos nossos
tempos. Por essa razão, a coleção tem a chancela da ABRALlN.
Faltava ao panorama editorial e educacional do país um instrumento
como este, capaz de aproximar ainda mais o Brasil do padrão vigente em
meios universitários internacionais. A ABRALlN, sempre atenta aos meios
necessários para o fortalecimento da área no País, sem nunca perder de
vista o compromisso com a qualidade, apoia e parabeniza a iniciativa da
Parábola Editorial.
MIGUEL OLIVEIRA JR.
Presidente da ABRALlN
9
rrcas t'spcrtl'icas. Cremos que a escolha til' um arcabouço teórico
específico [gcrauvismo, cognitivismo, estruturalismo, otimalismo
ou arcabouços específicos de matriz funcionalista) seja um passo
que s6 deve ser dado pelos alunos depois de eles construírem uma
sólida base conceitual e metodológica na disciplina e de terem to-
mado conhecimento da variedade e da riqueza do panorama teóri-
co disponível em cada disciplina e das motivações dessa varieda-
de. Dessa forma, no caso dos volumes desta coleção, os conceitos
e as explicações sobre a área indicada no título são aqueles que
se consolidaram ao longo da linguística moderna como sendo os
mais aceitos nas diversas vertentes, sempre que isso for possível,
e, quando oportuno, mostrando possíveis abordagens diferentes às
questões tratadas.
Como editores científicos da coleção, cremos que organizar e dis-
ponibilizar um sólidocaso são os traços classificatórios; são eles
que descrevem o comportamento gramatical de cada unidade. As-
sim, ao sabermos que a palavra corremos é um verbo, e é de primei-
ra pessoa do plural, ficamos sabendo que pode ocorrer na oração
em certas posições, em outras não:
FUNÇÕES E CLASSES
55
Construções
6.1 A construção (1
Vamos agora considerar a sentença analisada no capítulo 4:
[1] (sentença)
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
Os passarinhos atacaram a cobra.
sujeito verbo objeto
Agente Ação Paciente
A mesma análise se aplica a muitas outras frases, como
[2] A cobra atacou os passarinhos.
[3] Mamãe fritava os pastéis.
[4] Eu vou pintar essa parede.
São frases bastante diferentes, mas todas elas contêm um sujeito que
exprime o Agente; um verbo que exprime a Ação e um objeto que expri-
me o Paciente. Vamos dizer então que todas essas frases (e muitíssimas
outras) são realizações da mesma construção, que se define assim:
[5] Construção C11
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
sujeito
Agente
verbo
Ação
objeto
Paciente
I C1 é uma designação arbitrária, usada no Dicionário de valências verbais do português (em
elaboração); vamos chamar cada construção por seu código, ou seja, C mais um número.
57
8
E fácil verificar que as frases [1], [2], l3J e l4] correspondem todas
a essa análise. No caso de [4], temos uma sequência vou pintar, que
para nossos objetivos funciona como se fosse um verbo apenas; na
notação simplificada usada aqui não é preciso levar em conta o ver-
bo auxiliar, vou.
A construção Cl, como todas as construções da língua, se define em
termos de uma análise sintática - aqui sujeito, verbo, objeto; mais
uma análise semântica, aqui Agente, Ação, Paciente. Por isso a de-
finição acima é uma fórmula simbólica, porque exprime um aspecto
da relação forma/significado.
6.2 Outras construções do português
C'l, claro, não é a única construção do português; vamos ver mais
algumas, começando com as mais parecidas com C1. Por exemplo, a
sentença
[6] O Felipe ama a Ivone. (amar no sentido de "ter afeição ali)
não pode ser realização de Cl., porque, apesar de ter sujeito, verbo
e objeto, o sujeito não é Agente: o Felipe não está fazendo nada, mas
tendo uma experiência (um sentimento). Igualmente, a lvone, em-
bora seja objeto, não é Paciente, porque não sofre nada (não muda
de estado, como o objeto de [3], por exemplo). Ivone é apresentada
como a causadora do sentimento que existe em Felipe. Isso quer di-
zer que precisamos de papéis semânticos diferentes aqui, já que os
aspectos semânticos são diferentes. Vamos chamar o papel semânti-
co de o Felipe Experienciador, e o de a lvone Estímulo. O Experien-
ciador é a entidade da qual se descreve um estado interno (mental,
emocional...), e o Estímulo é a entidade que causa esse estado inter-
no. Assim, [6] se analisa como
[7] (sentença) O Felipe
FUNÇÕES SINTÁTICAS sujeito
PAPÉIS SEMÂNTICOS Experienciador
ama a Ivone.
verbo objeto
Experiência Estímulo
J\gol'Cl JlOdl'lIlUS formular a construç.io que é realizada pela frase [6J:
[8] Construção C39
FUNÇÕES SINTÁTICAS sujeito
PAPÉIS SEMÂNTICOS Experienciador
verbo objeto
Experiência Estímulo
C39 é sintaticamente idêntica a Cl; mas é uma nova construção por-
que sua semântica (a atribuição de papéis semânticos a diferentes
constituintes) é diferente.
Existem também construções semanticamente idênticas a Cl - ou
seja, com Agente, Ação, Paciente -, mas que apresentam diferença
na sintaxe. Um exemplo é a construção realizada pela frase
[9] O Fred bateu no Bruno.
Aqui temos Agente (o Fred), Ação (bateu) e Paciente (no Bruno). Mas
não temos sujeito + verbo + objeto, porque o constituinte final, no
Bruno, não é um sintagma nominal - por exemplo, não poderia ser
sujeito. Assim, Cl não descreve corretamente a estrutura simbólica
de [9]; em vez disso, precisamos de
[10] Construção C79
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
sujeito
Agente
verbo
Ação
emSN
Paciente
Temos, então, até o momento, três construções do português: CI, C39
e C79. Há muitas mais, mas vamos ficar com essas três por ora, para
examinar o que é que elas nos dizem sobre a estrutura da nossa língua.
6.3 Relação complexa entre sintaxe e papel semântico
Uma coisa que se vê de imediato é que nem sempre o sujeito é Agen-
te; ou, ainda, que não parece existir uma conexão geral entre função
sintática e papel semântico. Uma conexão na verdade existe, mas não
é simples; veremos no capítulo 12 que há algumas generalizações
(0NSTRl"çOEs 59
vv
que afetam a realização do papel semântico Agente, mas por ora fi-
que a observação de que o sujeito pode ter mais de um papel semân-
tico. O mesmo vale para o objeto, que pode ser Paciente ou Estímulo
(e ainda outras coisas).
O sujeito pode inclusive ser Paciente, em frases como
[11] Oleite esquentou.
onde evidentemente o leite não pode ser Agente - é Paciente, ou
seja, o mesmo papel semântico do objeto na frase
[12] O cozinheiro esquentou o leite.
Tanto em [11] quanto em [12], o leite sofre o efeito do evento de es-
quentar e muda de estado em consequência (passa de frio a quente).
Portanto, [11] realiza outra construção, a saber,
[13] Construção C4
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
sujeito
Paciente
verbo
Evento
Veremos mais adiante alguns aspectos da relação complexa existen-
te entre função sintática e papel semântico; ela depende da constru-
ção, e as construções são muitas e bem variadas.
Para resumir: nos aspectos que nos interessam, cada sentença pode
ser analisada em termos de uma estrutura sintática associada a um
conjunto de papéis semânticos. Essa não é, claro, uma análise sintá-
tica, nem semântica, mas simbólica: representações como
[1] (sentença)
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
Os passarinhos atacaram a cobra.
sujeito verbo objeto
Agente Ação Paciente
expressam a relação existente entre a estrutura sintática e a semân-
tica da sentença. Dessa maneira, explicam como podemos, a partir
de uma sequência fonética ou gráfica, chegar a alguns aspectos fun-
dall1l:llt:IÍS do significado. Uma construção é, portanto, a expressão
de um conjunto de relações simbólicas que ocorrem em uma estru-
tura (nos nossos exemplos, na sentença).
6.4 Sumário: algumas construções
Sumariando, vimos neste capítulo as seguintes construções:
Construção C1
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
Exemplo:
[3] Mamãe fritava os pastéis.
Construção C4
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
Exemplo:
sujeito
Agente
verbo
Ação
objeto
Paciente
sujeito
Paciente
verbo
Evento
[11] O leite esquentou.
Construção C39
FUNÇÕES SINTÁTICAS sujeito verbo objeto
PAPÉIS SEMÂNTICOS Experienciador Experiência Estímulo
Exemplo:
[6] O Felipe ama a Ivone.
Construção C79
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
Exemplo:
[9] O Fred bateu no Bruno.
CONSTAL.ÇCEna análise.
Primeiro, é preciso observar que sintagma nominal não é uma fun-
ção sintática, mas uma classe; e uma classe se entende como um
conjunto de formas que podem ter as mesmas funções, ou seja, têm o
mesmo potencial funcional (a importância da distinção entre classes
e funções foi vista no capítulo 5). Todo sintagma nominal pode ser
sujeito', e todo sujeito precisa ser um sintagma nominal. Assim, for-
mas como eu, Portugal, o jorginho, as janelas do terceiro andar, o nos-
so professor de português etc. são sintagmas nominais. Sintaticamen-
te, o sintagma nominal tem uma estrutura interna bem complexa e
variada, como esses poucos exemplos mostram; semanticamente, o
sintagma nominal (que podemos chamar abreviadamente SN) tem
uma propriedade básica: pode referir-se a uma coisa.
"Coisa" aqui deve ser entendida como um termo técnico: é qualquer
objeto, real ou imaginário, que se entende como existente - ao con-
trário de relações entre objetos. Por exemplo, na frase
I Há exceções, mas muito poucas: apenas os pronomes oblíquos, como me, mim, -migo etc.
63
64
111 Aqucl.i menina do terceiro andar tclclonnu .igora para você.
são coisas: aquela menina do terceiro andar; o terceiro andar; você.
Como se vê, uma coisa pode ser também uma pessoa. Agora, há for-
mas em [1] que não designam coisas: telefonou, agora, para, aquela.
As formas que designam coisas são sintagmas nominais (este é um
ponto em que a semântica e a sintaxe andam juntas) e podem ser
sujeito de uma frase, por exemplo:
[2] O terceiro andar está todo sujo.
[3] Você não está colaborando.
A coisa denotada por um SN não precisa ser concreta. Não precisa
nem existir de fato:
[4] A tristeza de Maria comoveu todo mundo.
[5] Ninguém acertou a resposta da pergunta 2.
[6] Ele parece um lobisomem.
Nessas frases os constituintes sublinhados são SNs; outros SNs aí
são todo mundo, ninguém e ele.
Como se pode ver nos exemplos, o SN pode ser sujeito ou objeto;
temos SN objeto em [4], todo mundo; [5], a resposta da pergunta 2;
e em [6], um lobisomem. No último exemplo, a gramática tradicional
analisa esse SN como "predicativo": mas para nós precisa ser objeto,
porque já definimos objeto como qualquer SN que não seja sujeito.
Isso na verdade não traz nenhum inconveniente para a análise, por-
que a diferença (tradicional) entre objeto e predicativo é semântica,
e aqui estamos falando de funções sintáticas.
Além de ser sujeito e objeto, o SN pode ser complemento de uma
preposição; por exemplo, de Maria não é um SN, mas uma sequência
de preposição mais um SN (Maria). Essas três funções (sujeito, obje-
to e complemento de preposição) definem a classe a que chamamos
sintagma nominal (SN).
7.2 Sintagma adjetivo e sintagma adverbial
Além do SN, lemos ainda dois tipos importantes de sintagmas: o sin-
tagma adjetivo e o sintagma adverbial. Por exemplo, na frase
[7] Serginho está na sala.
o constituinte na sala tem o papel semântico Lugar (e Serginho é a
Coisa.localizada). Nessa mesma posição da frase podemos encontrar
diversas estruturas diferentes:
[8] Serginho está gordo.
[9] Serginho está com raiva.
[10] Serginho está aqui.
[11] Serginho está de férias.
Sintaticamente, esses constituintes têm estrutura interna bastante
parecida: ou um sintagma com preposição (na sala, com raiva, de fé-
rias) ou uma palavra apenas, sem preposição (gordo, aqui). Já o papel
semântico deriva do potencial de cada uma dessas palavras: aqui é
Lugar, não por causa da função sintática do constituinte, mas pelas
propriedades semânticas dessa palavra; e com raiva é Qualidade,
não Lugar, porque a preposição com nunca marca Lugar. Analisamos
esses constituintes como sintagmas adverbiais (SAdv) ou síntag-
mas adjetivos (SAdj), conforme o caso.
Na verdade, a diferença entre esses dois tipos de sintagmas é difícil
de definir em termos de sintaxe. A diferença tradicional parece ser
semântica: o SAdj exprime uma Qualidade, o SAdv outro tipo de re-
lação, como Lugar, Tempo ou Causa. Mas há suspeitas de que o sin-
tagma adverbial e o sintagma adjetivo sejam apenas sintagmas pre-
posicionados ou palavras simples capazes de exprimir certos papéis
semânticos especiais. Assim, um sintagma (qualquer que seja sua
forma sintática) que tenha o papel Tempo (como amanhã em [2])
acaba sendo chamado de "adverbial", embora não possua uma forma
sintática específica. Por exemplo, amanhã em vou telefonar amanhã
pode ser substituído por um sintagma preposicionado (à tarde), ou
65
T F(l' IXum ingrediente semântico que pode ser
expresso informalmente como "não é verdade que ...".Assim, [7] se in-
terpreta como "não é verdade que a Maria comeu a maçã", e a maçã
continua sendo Paciente, a Maria Agente, e comeu Ação, embora nada
disso se realize, segundo a asserção da frase. Desse modo, não precisa-
mos alterar as atribuições de papéis semânticos em frases negativas.
O mesmo raciocínio se aplica a frases interrogativas como
[8] Mamãe vai fritar os pastéis.
[9] Os pastéis, mamãe vai fritar.
Novamente temos a mesma informação básica, mas com certas di-
ferenças - uma delas é que em [9] entende-se que se está falando
principalmente dos pastéis; por isso se diz que os pastéis é o tópico
da sentença. O sujeito continua em sua posição mais comum, que é
logo antes do verbo.
Outros termos da oração podem ser topicalizados:
[10] A Solange chegou ontem.
[11] Ontem a Solange chegou.
[12] A Solange é bonita.
[13] Bonita, a Solange é.
[5] A Maria comeu a maçã? As diferenças de significado causadas pela topicalização variam e
não podem ser estudadas aqui; mas a mensagem básica não muda:
por exemplo, em [8] e também em [9] Mamãe é Agente, e os pastéis
é Paciente.
onde a interrogação acrescenta "por favor me diga se é verdade
que ...",mais a representação semântica correspondente à frase afir-
mativa: [8] se entende como "por favor me diga se é verdade que a
Maria comeu a maçã".
E outro fator que precisa ser levado em conta é 8.2 Complementos e adjuntos
a ordem dos sintagmas dentro da construção Como se vê, o componente sintático das orações é bastante simples.
Muitos linguistas acrescentam outra distinção entre os constituintes
que acompanham o verbo em uma oração: a distinção entre comple-
mentos e adjuntos. Essa distinção tem alguma razão de ser, mas as
definições encontradas na gramática tradicional não são adequadas.
Vamos examinar a proposta tradicional, criticando-a para chegar a
uma concepção melhor dessa oposição.
Por exemplo, o sujeito tende a aparecer logo antes do verbo, mas isso
não é uma regra geral:
[6] As encomendas chegaram.
[7] Chegaram as encomendas.
ESTRUTURR SINTÁTICA DAS ORAÇÕES
69
A gralllúllclI tradicional dístinguo os doi., tipos muitas vezes sem
justificaçao teórica nenhuma; ou entao distingue três tipos, a saber,
"termos essenciais", "termos integrantes" e "termos acessórios", no-
vamente às vezes sem explicação satisfatória. Uma justificativa que se
levanta ocasionalmente é que os adjuntos poderiam ser suprimidos
sem prejudicar o significado básico da sentença. Isso não se susten-
ta, porque (para dar apenas um exemplo) o sujeito, analisado como
"termo essencial", pode ser suprimido sem mudança de significado:
() ol>Jt'tn pc"II' t.unbém ser aRcf, que se lê "allu rctcrcncial" c designa
o nu-nthru dl' uma igualdade, como em
[20] Vlad é o vampiro.
[14] Eu cheguei ontem de Belérn.
[15] Cheguei ontem de Belém.
porque o verbo ser envolve (em uma de suas acepções) a asserção de
igualdade entre duas entidades. Nesse exemplo, dizemos que tanto
Vlad quanto o vampiro têm o papel semântico aRef, o que equivale à
informação de que "Vlad e o vampiro são a mesma entidade".
Estou analisando o vampiro em [20] como objeto, mas a análise
tradicional é "predicatívo" A razão da mudança é que não há (em
português brasileiro falado) nenhuma diferença sintática entre o
objeto (direto) e o predicativo; a diferença que há é semântica, e
fica adequadamente expressa quando se atribui papel semântico a
cada caso. Assim o vampiro em [20] é, para nós, simplesmente um
objeto com o papel semântico de aRef; nada mais precisa ser dito
para descrever o comportamento gramatical desse complemento
dentro da frase [20].
Como se vê, o objeto (nessas frases pelo menos) tem um papel se-
mântico que depende do verbo da oração. Isso é reconhecido por
certos gramáticos, como Bechara, que diz desses termos (chamados
"nucleares") que
E há casos de adjuntos (ou termos acessórios) que não podem ser
suprimidos; um bom exemplo é dado para o espanhol por Ignacio
Bosque", e funciona para o português:
[16] As igrejas dos países escandinavos são de madeira.
[17] *As igrejas dos países são de madeira.
Aqui escandinavos, adjunto ou termo acessório, é essencial para a
compreensão da sentença, e mesmo para sua aceitabilidade. Isso mos-
tra que a omissão de constituintes depende (pelo menos em alguns
casos) de fatores diferentes de seu "status" como complemento ou ad-
junto. Não é possível levar adiante a discussão neste livro; vou apenas
saltar para uma concepção mais adequada, e que me parece capturar
o essencial da distinção tradicional entre adjuntos e complementos.
Observa-se que certos complementos da oração têm papel semân-
tico dependente do verbo. Assim, o objeto o vampiro é Paciente em
estão intimamente ligados à relação predícatíva".
[18] O herói matou o vampiro.
Utilizando o critério do papel semântico, dizemos o mesmo de ma-
neira mais clara: esses termos têm um papel semântico que depende
do verbo da oração em que ocorrem.
Já outros termos têm papel semântico autônomo, não dependendo
do verbo da oração em que ocorrem. É o caso de imediatamente, que
sempre denota um evento que se inicia sem que passe nenhum tem-
po após outro evento, e isso em qualquer frase onde ocorra:
mas é Estímulo em
[19] O herói percebeu o vampiro.
isso por causa de traços semânticos do verbo de cada sentença: ma-
tar envolve um Agente e um Paciente, mas perceber envolve um Ex-
perienciador e um Estímulo.
[21] O herói matou o vampiro imediatamente.
[22] O herói percebeu o vampiro imediatamente.
2 Ignacio Bosque (1989). Las cateqorias qramaticales: relaciones y diferencias. Madrid: Síntesis.
3 Evanildo Bechara (2009). Moderna qramâtica portuguesa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.
ESTRUTURAsaída, enfrentamos a dificuldade de ninguém saber qual
é a lista completa dos papéis semânticos que podem aparecer
ligados aos constituintes; até aqui vimos uns poucos, como o
Agente, o Paciente, o Experienciador e o Estímulo (além de Ação
e Experiência, que só se ligam a verbos). Mas existem muitos
outros, alguns dos quais serão vistos aqui; mas é bom deixar
claro que esse é um setor da descrição linguística que está em
investigação, com propostas e contrapropostas aparecendo a
todo momento.
9.2 lista de papéis semânticos
Para nossos objetivos, um pequeno conjunto de papéis semânticos
vai bastar. Os constituintes da sentença podem ter o papel de:
73
,..
Rgent 1'110 Jun:w .unn .t Célia.
É a entidade que pratica uma ação, ou seja, seu iniciador imediato:
e também em
[1] O cachorro comeu toda a ração.
Paciente
[5] O Jorge viu a Célia.
[6] A Célia impressionou o Jorge.
É a entidade que sofre a ação e que normalmente muda de estado em
consequência do evento relatado: Fonte
É o ponto de início de um movimento:
[1] O cachorro comeu toda a ração.
[7] A dona Teresa veio de Belém.
Existente
É o elemento cuja existência se afirma, como em Instrumento
[2] Tem quatro carros na garagem.
[8] Quebrei a janela com um tijolo.
Causa Coisa. localizada
[3] Até hoje a Cláudia chora por causa do Abílio. É o elemento cuja localização é descrita:
Estímulo
[9] Essas árvores ficam na praça.
É o desencadeador de um estado interno, como em lugar
[4] Jorge ama a Célia. [10] Essas árvores ficam na praça.
e também em Meta
[5] Jorge viu a Célia.
[6] A Célia impressionou o Jorge.
É o ponto final de um movimento:
[11] Finalmente eu cheguei em São Luís.
Experienciador
É o elemento que experimenta um fenômeno interno (psicológico ou
sensorial), como em
Tempo
[12] Ela nasceu em 2001.
PAPÉIS SEMANTICOS 75
10
Oplnador
É O agente de uma ação mental:
[13] Eu considero o Guga o maior tenista do mundo.
Coisa.possuída
É o elemento que se afirma como sendo posse de alguém:
[14] A minha prima tem dois carros.
Possuidor
[15] A minha prima tem dois carros.
Coisa.qualificada
É o elemento ao qual se atribui uma qualidade:
[16] A Letícia é muito bonita.
Qualidade
[17] A Letícia é muito bonita.
Tema
É o elemento que se movimenta, voluntariamente ou não:
[18] A dona Teresa / a encomenda foi para Belém.
Mensagem
É o conteúdo de uma mensagem:
[19] Mamãe me contou uma novidade.
aRe' (alra rendal)
É um elemento que se compara a outro, afirmando-se que se trata do
mesmo elemento:
[20] Aquele baixinho é o professor de Física.
PRS
Ou seja, participante de relação social:
[21] A Helena namorou com o Paulo.
A lista contém vinte e um papéis, mas há provavelmente muitos ou-
tros. Os papéis semânticos estão longe de ser bem compreendidos e
são ainda objeto de pesquisa. Para nós, basta conhecer a lista acima,
que nos permitirá analisar boa parte das sentenças da língua.
Observe-se que nos dois últimos casos, ARef e PRS, a frase inclui duas
ocorrências do mesmo papel; isso vem da própria definição desses
papéis semânticos e se denomina emparelhamento. Assim, sempre
que ocorre, por exemplo, ARef em uma sentença, o papel precisa ser
associado a dois constituintes, porque a construção afirma que eles
são idênticos.
Há também emparelhamento de papéis diferentes; por exemplo,
sempre que temos um Possuidor precisamos ter também uma Coisa.
possuída.
9.3 Papéis semânticos na construção
Em princípio, todos os constituintes de uma construção têm papel
semântico. Os papéis da lista acima se associam a sintagmas nomi-
nais, sintagmas preposicionados, sintagmas adverbiais e sintagmas
adjetivos; mas também se pode dizer que o próprio verbo (isto é,
o núcleo do predicado) tem papel semântico, que pode ser Ação,
Experiência, Estado etc.
PAPÉIS SEMANTICOS
77
A marca de negaçao (por exemplo.uoo) tamhcm u-m li 111a rclaç.io se-
mântica com a sentença, embora nem sempre com um de seus mem-
bros individualmente. Assim, em
[22] A Maria não comeu a maçã.
a negação se aplica a toda a oração, que acaba afirmando que o que
está dito ali não é verdadeiro. Já em
[23] A Maria comeu não a maçã, mas o abacaxi.
nega-se apenas o SN a maçã. Isso não é tradicionalmente chamado
de papel semântico, mas é uma relação análoga, pois contribui para o
complexo de relações que faz da oração o veículo de uma predicação
particular.
Dentro do SN (que é também uma construção), há também papéis
semânticos. Alguns deles ocorrem também na oração, como o Agen-
te e o Paciente, respectivamente em
[24] A decisão do presidente (Agente)
[25] O assassinato do presidente (Paciente)
e também a Qualidade, como em
[26] Um mecânico brilhante (Qualidade)
O levantamento dos papéis semânticos dentro do SN ainda está por
ser feito em detalhe.
Valência
10.1 Simplificando a notação
Antes de passar ao estudo da valência, vamos introduzir uma simpli-
ficação na notação que vimos empregando para as construções. Até o
momento, notamos as construções seguindo o modelo abaixo:
[1]
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
sujeito
Coisa.localizada
v SAdv
Lugar
ou então
[2]
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
sujeito
Coisa. qualificada
v SAdj
Qualidade
[1] é a construção realizada por o meu cachorro está na sala; e [2] é a
realizada por o meu cachorro é barulhento.
Fórmulas como [1] e [2] são meio desajeitadas para se lidar, e por
isso vamos adotar a partir de agora um formato mais compacto. As-
sim, [1] pode também ser expressa por
[3] Sujeito>Coisa.localizada v SAdv>Lugar
79
cl2lv:lisel
[4] Sujeito>Coisa.qualificada v SAdj>Qualidade
muitu Il'nh;lIho. Vai ser preciso ma IH';tr o conjunto dos verbos da IIn-
gua, p:!r;1 explicitar as propriedades de cada um deles. Mas alguma
coisa já se sabe, e aqui veremos que linhas estão sendo seguidas para
construir essa lista de verbos com suas propriedades.
Ao analisarmos os verbos, verificamos que cada um pode ocorrer em
algumas das construções da língua, mas não em outras. Por exemplo,
o verbo comer pode ocorrer em duas construções diferentes, exem-
plificadas por
e vamos entender que os termos em itálico são semânticos, e os ou-
tros são sintáticos (designam funções sintáticas ou classes de uni-
dades). [3] diz o mesmo que [1], e [4] diz o mesmo que [2], mas [3]
e [4] são mais fáceis de ler e de escrever; vamos usar essa notação
daqui em diante.
10.2 O que é valência verbal
[8] Os meninos comeram a pizza.
[9] Os meninos comeram.
As construções definem quais frases são aceitáveis em português e
quais não são; por exemplo, a frase
[5] *Serginho caiu o prato.
[8] tem objeto, [9] não. O conjunto de todas as construções em que
um verbo pode ocorrer é a sua valência.
Agora podemos exprimir mais exatamente o que está errado em
não é aceitável porque não corresponde a nenhuma construção da
língua. Mas acontece que existem frases com a mesma estrutura de
[5] e que são aceitáveis, como
[5] *Serginho caiu o prato.
É que essa frase se analisa como Cl:
[6] Serginho lavou o prato. C1 Sujeito>Agente V SN>Paciente
Tanto [5] quanto [6] podem ser analisadas como e o verbo cair não tem Cl em sua valência. Por outro lado, tem C4:
[7] Sujeito>Agente V SN>Paciente C4 Sujeito>Paciente V
Por que, então, só [6] é aceitável? É porque ainda falta levar em conta
um fator fundamental na estrutura das sentenças: as propriedades
do verbo que ocorre em cada uma.
O fenômeno, basicamente, é simples: [5] é inaceitável porque o ver-
bo cair não cabe em uma construção como [7]; e [6] é aceitável por-
que lavar cabe. Ou seja, é preciso levar em conta as propriedades de
cada verbo individual para se avaliar a possibilidade ou não de pro-
duzir uma construção aceitável. Se considerarmos que a língua tem
alguns milhares de verbos, é fácil ver que temos aqui material para
como se pode verificar pela aceitabilidade de
[10] O prato caiu. (ou então Serginho caiu)
Aqui temos um sujeito Paciente, e nenhum outro complemento -
isso corresponde a C4, que portanto faz parte da valência de cair.
Uma observação que pode ser importante: comose vê, a valência
corresponde à noção tradicional de "transitívidade verbal". A análi-
se tradicional é simples, e apenas considera cinco tipos de verbos,
VALENCIA 81
desse ponto de vlst.r: "Intrunsittvo", "11'~II\.;iliv() drrt-Iu", "trausltivo
indireto", "transitivo direto e indireto" e "d(' "g,,~'.lO".Mas a pesqui-
sa tem revelado que há muitos outros tipos que precisam ser in-
cluídos, de modo que se tornou necessário introduzir a noção de
valência. Valência é o termo normalmente usado pelos linguistas;
em trabalhos recentes de linguística, "transitívidade" é usado em
outro sentido (ou melhor, outros sentidos), e prefiro evitar esse
termo aqui.
C1 Sujeito>Agente V SN>Paciente
C2 Sujeito>Agente V
C4 Sujeito>Paciente V
Como se vê, não incluí o papel do verbo (abreviado como 'V'); vamos
considerar as construções em sua formulação mais simples.
Agora vejamos a valência de alguns verbos, levando em consideração
apenas as três construções vistas.
10.3 levantando as valências dos verbos
comentar, concretizar, confiscar
C1Precisamos então estabelecer que construções figuram na valência
de cada verbo da língua. As construções existentes em português são
muitas (mais de duzentas), mas, para começar, vamos trabalhar ape-
nas com três que são particularmente importantes, a saber:
[14] O professor comento~ / confiscou meus apontamentos. C1
[15] A prefeitura não concretizou as promessas do candidato. C1
C1 Sujeito>Agente V SN>Paciente comer, aplaudir
C1,C2
[11] O cachorro comeu a ração.
C2 Sujeito>Agente V
[16] O público aplaudiu as meninas. C1
[17] Esse menino já comeu. C2
[12] Os meninos comeram. O constituinte já não faz parte da construção, pois é de ocorrência
livre - seria portanto um adjunto.
C4 Sujeito>Paciente V
[13] A sopa esfriou.
cair, morrer, desmaiar
C4
Observe-se em particular C4, com sujeito Paciente e sem objeto. [12]
não é uma realização dessa construção, porque o sujeito de [12] é
Agente: a sintaxe é a mesma de C4, mas os papéis semânticos dife-
rem; portanto, [12] realiza C2, e [13] realiza C4.
Agora, de posse dessas três construções, que repito abaixo em qua-
dro para facilidade de referência, podemos fazer uma análise parcial
da valência de diversos verbos:
[18] O cavalo caiu / morreu / desmaiou.
aumentar, começar
C1,C4
[19] A ventania aumentou o frio. C1
[20] O frio aumentou. C4
VALÊNCIA
83
ts4
1csfrlar; esquentar, arranhar, cansar
C1,C2,C4
[21] Você cansou a turma. Cl
[22] Essa aula cansa. C2
[23] Os alunos cansaram. C4
Notação
das construções
Por outro lado, as construções que não são dadas ao lado de cada
verbo não os comportam; por exemplo, não podemos dizer
[24] *0 bolo já comeu. (C4, significando que o bolo foi comido)
[25] *Ele morreu o cavalo. (Cl, significando que ele matou o cavalo) 11.1 Sintagmas preposicionados
Esses exemplos mostram que comer não tem C4 em sua valêncía, e
morrer não tem C1. Estar aparece em frases de estrutura sintática
idêntica a [21], como
Já vimos que as construções são formuladas mostrando sua estrutu-
ra sintática e os papéis semânticos de seus complementos:
Cl Sujeito>Agente V SN>Paciente
[26] Bia está uma fera.
mas não se trata de C1 porque os papéis semânticos não conferem:
Bia não é Agente, nem uma fera Paciente. Assim, para cada verbo,
temos que levantar as construções em que ocorre, e a partir desse
levantamento formular sua valência completa.
O resultado de um levantamento como esse (mas incluindo um nú-
mero bem maior de construções, e todos os verbos da língua) é uma
divisão dos verbos em classes. E cada classe se define pelo conjunto
de construções em que o verbo pode ocorrer. No exemplo acima, te-
mos 14 verbos e 3 construções; esses 14 verbos se dividem (conside-
rando apenas essas construções) em 5 classes.
Mas, em certos casos, o complemento não-sujeito pode ter uma for-
ma diferente: é precedido de uma preposição, o que define um sin-
tagma preposicionado; este se define apenas como uma sequência
de preposição + SN.Um exemplo é
[1] A menina bateu no cachorro.
O Agente é o sujeito, mas o Paciente é expresso por um sintagma
preposicionado (no cachorro, isto é, em+o cachorro). Isso, eviden-
temente, precisa figurar na valência de bater, que nesse aspecto se
distingue de, por exemplo, acariciar, que tem Paciente expresso
por SN:
[2] A menina acariciou o cachorro.
A construção exemplificada em [1] é portanto
C79 Sujeito>Agente V em SN>Paciente
85
Ao contrárto dt- C I, C7CJsó OCOI'J'l' (0111 1111•.• !l0llLOS verbos; outro
exemplo é caprichar, como em
[3] Ele caprichou na pintura.
onde na pintura expressa o Paciente.
Na formulação de C79, encontramos não um símbolo "Sf'rep" (sín-
tagma preposicionado), mas a própria preposição, em. Isso é neces-
sário porque a preposição não é sempre a mesma; cada verbo tem
suas preferências, como se vê pelos exemplos abaixo:
[4] [úlia gostou de você.
[5] [úlia contava com você.
[6] O armário está cheirando a mofo.
Por isso a preposição específica precisa figurar na formulação de
cada construção.
11.2 Sintaxe
A sintaxe utilizada na notação das construções inclui os seguintes
elementos:
uma função sintática, o Sujeito;
quatro símbolos de classes, V (verbo), SN (sintagma nominal),
SAdj (sintagma adjetivo) e SAdv (sintagma adverbial);
preposições (não todas; apenas aparecem: em, a, com, de, por).
O componente sintático é, portanto, bastante simples; alguns exem-
plos de frases analisadas quanto a sua sintaxe são:
[1] A menina bateu no cachorro.
Sujeito V emSN
[2] A menina acariciou o cachorro.
Sujeito V SN
131 Eh'
Sujeito
caprlchou na pintura.
V emSN
[4] [úlia gostou de você.
Sujeito V de SN
[5] [úlia contava com você.
Sujeito V comSN
[6] O armário estava cheirando a mofo.
Sujeito V aSN
11.3 Verbo auxiliar
Na frase
[6] O armário estava cheirando a mofo.
Sujeito V a SN
temos duas formas verbais, um verbo auxiliar está e um verbo prin-
cipal cheirando, e no entanto a fórmula só mostra um V. É claro que
uma análise completa teria que distinguir as duas formas verbais:
[7] O armário estava cheirando a mofo.
Sujeito VAux VPrinc a SN
No entanto, estamos aqui usando uma notação para descrever a va-
lência. Acontece que verbos auxiliares não contam para efeito de va-
lência. A razão é a seguinte: a valência de um verbo vale para todas
as suas formas. Ou seja, se o verbo está no presente, no futuro ou
em algum tempo composto, a valência não muda. Por exemplo, se
dizemos júlia gostou de você, temos que dizer igualmente júlia gosta
de você,júlia gostava de você,júlia gostaria de você etc., para todas as
formas, inclusive as formas com auxiliares, como júlia vai gostar de
você e júlia tinha gostado de você. Os mesmos complementos, com a
mesma forma sintática (aqui, sujeito e de SN) e os mesmos papéis
NOTRÇAo DAS CONSTRUÇÕES
87
scmánttros. Por isso, para efeitos de dl'Sni~,lo da valência, podemos
tratar uma scquência de verbo auxiliar + verbo principal como s
fosse apenas uma forma verbal': o acréscimo ou retirada do auxiliar
não afeta a valência. Daí analisarmos a frase como está em [6] acima,
e não como está em [7]. Note-se, finalmente, que se o objetivo descri-
tivo for outro, poderemos ter que levar em conta o auxiliar.
menina doi mesma maneira nessas orações, porque há diferenças sin-
táticas (concordância com o verbo) e semânticas (papel semântico).
Note-se que o sujeito não é apenas o SN que fica logo antes do verbo.
Ele pode, em certas circunstâncias, aparecer depois:
[10] Vieram muitos turistas.
11.4 Sujeito Sabemos que muitos turistas é o sujeito pela concordância. Em ou-
tros contextos, o sujeito não pode aparecer depois do verbo:
Pode-se perguntar então: já que o sujeito é sempre um SN,por que mar-
car sua função? Por que não deixar simplesmente a designação da clas-
se, ou seja, em vez de Sujeito V SN, registrar a análise como SN V SN?
Acontece que o sujeito não se comporta como qualquer outro SN.
Primeiro, como sabemos, ele está em relação de concordância com o
verbo, de modo a podermos dizer o jogo acabou e os jogos acabaram,
mas não*0 jogo acabaram nem *os jogos acabou. Os outros SNs que
podem aparecer na oração não mostram essa relação.
Até aí a sintaxe; mas essa diferença entre o sujeito e os outros SNs
tem uma consequência semântica importante. Em uma frase como
[11] *Acariciou a menina a vovó.
[8] A menina acariciou a vovó.
Neste caso, a ordem dos SNs em relação ao verbo é determinante do
sujeito, já que o verbo poderia estar concordando com a menina em
[9]. E a frase [10] precisa ser analisada como V Sujeito, e não V SN.
Assim, para encontrar o sujeito, o usuário da língua precisa aplicar
uma regra relativamente complexa, que leva em conta a ordenação
com respeito ao verbo, mas também outros fatores. Para nossos ob-
jetivos imediatos, a regra pode ser a seguinte:
Regra para identificar o sujeito
(a) O sujeito precisa estar em relação de concordância com o
verbo;
(b) se a oração contém mais de um SN, o sujeito é o que vem
logo antes do verbo;
(c) se a oração contém um pronome c1ítico (me, te, nos, se,
lhe) o sujeito é o SN que vem logo antes do c1ítico; ou seja,
os c1íticos não contam na aplicação do quesito (b).
A regra acaba dizendo que se só houver um SN na oração, ele é o
sujeito se houver relação de concordância, mas não é sujeito se não
houver; isso se verifica em
o verbo exprime uma ação que envolve dois participantes: o que aca-
ricia e o que é acariciado. Mas qual é qual? Como ficamos sabendo
que foi a menina que fez a carícia, mas não a vovó (o que também se-
ria possível)? A resposta, de certo modo, é fácil: sabemos que quem
fez a carícia foi a menina porque é o sujeito; se invertermos as fun-
ções, a mensagem muda de acordo:
[9] A vovó acariciou a menina.
Isso mostra que a função sintática - ser ou não sujeito - é relevante
para a compreensão da frase. Assim, não podemos analisar a vovó e a
[10] Vieram muitos turistas.
[12] *Viemos muitos turistas.
J Isso é, de certa forma, reconhecido nas gramáticas que analisam vou fazer, tinha feito etc.
como tempos compostos.
[12] tem um SN para o qual não há análise possível, porque o verbo
vir não aceita objeto. Ou, em termos mais exatos, [12] é inaceitável
uçOEs 89
90
porque ll1'io existe na valência de chegar uma construção que corres-
ponda a essa frase. Se o verbo for ajudar, a frase será aceitável:
[13] Ajudamos muitos turistas.
porque ajudar tem uma valência diferente, que inclui uma constru-
ção dessa forma, a saber,
Cl Sujeito>Agente V SN>Pacíente
11.5 Sujeito valencial
Mas onde está o sujeito de [13], que é exigido por C1? O sujeito, sabe-
mos, é um SN, e em [13] só há um SN, que é o objeto. Evidentemente,
ainda há alguma coisa a explicar aqui.
Primeiro, vamos considerar que, desde que definimos o sujeito como
sendo um SN presente na oração, temos que reconhecer que [13]
não tem sujeito:
[13] Ajudamos muitos turistas.
Não há aí nenhum SN além do objeto muitos turistas. O sujeito foi
definido como uma função sintática, isto é, formal; e esta função (ou
o constituinte que a possui) não existe na oração [13].
Por outro lado, [13] significa o mesmo que
[14] Nós ajudamos muitos turistas.
onde há um sujeito, o SN nós. Essas duas frases são semanticamente
idênticas (sinônimas), mas formalmente diferentes (uma tem sujei-
to, a outra não). Não há contradição aqui: ambas têm Agente, só uma
tem sujeito; e sujeito não é a mesma coisa que Agente.
No entanto, o paralelismo semântico das duas frases precisa ser ex-
presso e atribuído a algum traço formal; só que não pode ser um
traço único, que não existe. A solução é a seguinte: vamos usar o
termo sujeito valencial como uma abreviatura de três situações
sintáticas, a saber:
(a) a presença de um sujeito; ou
(b) a presença de uma marca de pessoa-número (nos exemplos
acima, o sufixo -mos) ou
(c) as duas coisas.
Temos o sufixo em [13]; temos sujeito e o sufixo em [14]; e temos
apenas o sujeito em
[15] Nós ajudando muitos turistas, acabamos ganhando a gratidão
de todos.
Em todos os três casos, se entende que o Agente é "nós" - não a
palavra nós, mas a referência ao falante.
Essa situação ocorre com todos os verbos, em todas as construções
da língua; não há nenhum caso em que o sujeito indique um papel
semântico e o sufixo de pessoa-número indique outro. Por isso, é se-
guro formular as construções com referência não ao sujeito, mas ao
sujeito valencial; a construção exemplificada em [13], [14] e na parte
em negrito de [15] pode ser então
Cl SujeitoV>Agente V SN>Pacíente
onde sujeitoV significa sujeito valencial. Isso pode ser feito em
todas as construções da língua. Agora entendemos a fórmula de C1
como a abreviatura de três fórmulas, a saber,
Cla V+sufixo de PN>Agente SN>Pacíente (= [13])
Clb Sujeito>Agente V+sufixo de PN>Agente SN>Paciente (= [14])
Cle Sujeito>Agente V SN>Pacíente (=[15])
Note-se que no caso de C1b a identificação do Agente aparece duas
vezes. E é isso mesmo: uma frase como
NOTAÇAO Dfl'i CONqAUÇÕES 91
92
[141 Nós ajudamos multes turlst.ts,
fornece duas (não apenas uma) indicação de quem é o Agente: pri-
meiro, através do sujeito, nós; e depois através do sufixo -mos. Essa
é uma característica da gramática portuguesa, e é na verdade o que
está por trás do fenômeno da concordância verbal.
Fique entendido, então, que em todas as formulações de construções,
onde estiver Sujeito deve-se entender sujeito valencial (SujV).
11.6 Orações sem sujeito
Para finalizar, vamos ver mais alguns exemplos de orações sem
sujeito:
[16] Cheguei atrasado.
Essa oração não tem sujeito porque não há nenhum SN com que
o verbo concorde (na verdade, não há nenhum SN na oração). Isso
não quer dizer que não sabemos quem foi que chegou: fui eu. Só que
o sujeito de chegar não é a pessoa que chegou, mas um SN que a de-
signa; e isso, repito, não existe em [16]. Podemos colocar um sujeito
ali, e o resultado vai ser
[17] Eu cheguei atrasado.
o sujeito é eu, que designa o Tema, que como vimos no capítulo 9, é
o elemento que se movimenta. E o sufixo do verbo, -ei, repete essa
informação. Em [17] essa informação vem de duas fontes, redundan-
temente; em [16], vem apenas do sufixo. Isso é uma consequência do
fato de que definimos o sujeito como uma função sintática; já o Tema
é um papel semântico.
Outros casos de oração sem sujeito são:
[18] Choveu ontem.
[19] Moramos em Recife mais de cinco anos.
[20] Sujaram o meu carro.
1
Regras de protótipo
e filtros cognitivos
12.1 Regras de protótipo
Uma pergunta que pode ser feita agora é: existe alguma relação cons-
tante entre função sintática e papel semântico? Por exemplo, vimos
que o sujeito é Agente nas construções Cl, C2 e C79; será essa uma
regra geral?
Não pode ser uma regra sem exceção, por causa de C4, onde o sujeito
é Paciente:
C4 Sujeito>Paciente V
Outras construções não incluem nenhum Agente, logo o sujeito pre-
cisa ter outro papel. Assim, não se pode dizer que o sujeito é sem-
pre Agente. Mas podemos então inverter a pergunta: será que todo
Agente é sujeito? Por enquanto, todas as construções vistas seguem
essa regra: se há um Agente, ele é sujeito (só que nem sempre há um
Agente, claro).
Essa regra, de fato, funciona na imensa maioria dos casos; mas ainda
aqui há exceções, embora poucas. Por exemplo, na frase
[1] O menino apanhou daquele valentão.
há um Agente, representado não pelo sujeito (que é o Paciente), mas
por um sintagma preposicionado, daquele valentão. Essa construção
ocorre na valência de apanhar, e de nenhum outro verbo da língua.
93
o outro exemplo que se conhece é o d,\l'OIISIIUc,:,\O passiva, cxernpli-
flcada por
[2] A velhinha foi ajudada pelos rapazes.
onde o sujeito é Paciente e o Agente é representado por um sintagma
com a preposição por (pelos rapazes). Fora essas duas construções,
sempre funciona a regra de que o Agente, quando presente, é o sujei-
to - as duas únicas exceções conhecidas são as duas mencionadas
acima. Isso é, portanto, um traço que precisa aparecer na gramática
do português; em outras palavras, é parte do nosso conhecimento da
língua portuguesa.
Outro exemplo são os papéis semânticosexpressos por algumas pre-
posições. Por exemplo, a preposição com pode exprimir Companhia,
[3] Viajei para o Rio com minha esposa.
ou Instrumento,
[4] O assaltante abriu a porta com um pé-de-cabra.
ou ainda Modo,
[5] Fechei a porta com muito cuidado.
Esses três papéis cobrem a maior parte das ocorrências de sintagmas
introduzidos por com. Aqui também há exceções, mas são poucas, e pa-
recem se limitar principalmente a casos em que a preposição não tem
significado, sendo apenas uma exigência da valência do verbo, como em
[6] Eu conto com o seu auxílio.
[7] Os desordeiros acabaram com a festa.
De modo que podemos dizer que, em geral, com exprime um dos pa-
péis semânticos Companhia, Instrumento ou Modo. Essa é outra re-
gra que precisa aparecer na gramática, pois é parte do conhecimento
dos falantes.
Regrds Ih:.'isl· upo, que exprimem relações importantes embora não
válidas em lodos os casos, são chamadas regras de protótipo. Dize-
mos, então, que o Agente é prototipicamente expresso pelo sujeito e
que com prototipicamente exprime Companhia, Instrumento ou Modo.
Finalmente, há casos em que a relação é única e válida para todos os ca-
sos; isso se vê em particular com preposições como por causa de (sem-
pre Causa), desde (sempre Fonte), durante (sempre Tempo) e outras.
Voltando então à nossa pergunta inicial: existe alguma relação mais
geral entre função sintática e papel semântico? Podemos responder
que existe, mas que nem sempre é categórica: há casos em que a rela-
ção simplesmente funciona em uma maioria dos exemplos, havendo
também exceções. Os casos conhecidos têm a ver com o papel se-
mântico associado a funções sintáticas (o Agente é quase sempre o
sujeito) e a preposições.
12.2 Filtros cognitivos
Vamos voltar agora aos papéis semânticos veiculados pela preposi-
ção com; como vimos, são três, o que suscita a pergunta: como é que
o falante sabe, em cada frase que ouve, qual é o papel semântico cor-
reto? Afinal de contas, as frases
[3]Viajei para o Rio com minha esposa.
[4] O assaltante abriu a porta com um pé-de-cabra.
[5] Fechei a porta com muito cuidado.
não são ambíguas. Como explicar isso, em vista da regra de protótipo
que atribui três papéis semânticos à preposição com?
A resposta não é propriamente linguística. Vamos admitir que essas
frases são ambíguas; por exemplo, em [4] com um pé-de-cabra pode
ser Companhia, Instrumento ou Modo. Isso é o que a língua estipula.
No entanto, se entendermos esse sintagma como Companhia, o resul-
tado vai ser muito estranho, face ao nosso conhecimento do mundo
- como é que um pé-de-cabra pode ser Companhia? Se a frase fosse
[8] O assaltante abriu a porta com dois cúmplices.
REGRRS DE PROTÓTIPO E FILTROS COGNITIVOS
95
96
poderíamos entender com SN como Companhia. Isso, evidentemen-
te, vem do que sabemos sobre pés-de-cabra (ferramentas) e sobre
cúmplices (pessoas). Não tem nada a ver com nosso conhecimento
da estrutura do português, mas com nosso conhecimento do mundo.
Daí podemos explicar a não ambiguidade dessas frases: minha es-
posa pode ser Companhia em uma viagem, mas nunca Instrumento,
nem Modo; e muito cuidado é um Modo de fechar uma porta - não
uma Companhia ou um Instrumento.
Em alguns casos, relativamente raros, a ambiguidade pode aparecer,
como em
[9] Fui para o câmpus com a Mercedes.
Aqui podemos entender Mercedes como o nome de uma pessoa - e
aí com a Mercedes vai ser Companhia; ou como uma marca de carro, e
aí vai ser Instrumento. A ambiguidade dessa frase mostra claramen-
te que aqui estamos lidando com detalhes do nosso conhecimento
do mundo, e não com regras da língua.
12.3 Componentes da compreensão
o funcionamento das regras de protótipo ilustra um fenômeno que é
geral na linguagem: a interação entre conhecimento da língua e co-
nhecimento do mundo, que resulta no que chamamos compreensão.
Essa interação se dá de maneira muito complexa, mesmo porque en-
volve, em princípio, a totalidade do "mapa" da realidade que temos
armazenado em nossa memória.
Pode-se entender esse processo como uma série de controles de
qualidade: primeiro, controle gramatical, que inspeciona cada
enunciado para verificar se está de acordo com as regras da lín-
gua - fonológicas, morfológicas, sintáticas, lexicais. Depois, um
segundo sistema procura encontrar casos de má formação semân-
tica - em particular, elementos de significado que não façam sen-
tido, ou que sejam tão implausíveis que acabam sendo excluídos.
Só depois de passar por todos esses controles é que um enunciado
- uma sentença, por exemplo - é reconhecido pelos usuários da
língua como aceitável.
E Ill'('l'",,:'lrln, portanto, entender o papel da estrutura lexical e gra-
matical dentro do contexto desse sistema de avaliação; a sintaxe, em
particular, é uma parte desse sistema, uma parte importante, mas
não única. Voltaremos a esse ponto no capítulo 13.
12.4 Marca de excepcionalidade
Finalmente, precisamos considerar como se representa na gramá-
tica o fato de que, por exemplo, com denota prototipicamente Com-
panhia, Instrumento ou Modo, mas em certos casos pode introduzir
outro papel, como um Paciente em
[7] Os desordeiros acabaram com a festa.
A resposta é que [7] realiza a construção
C47 Sujeito>Agente V com SN>Paciente
C47 existe na valência do verbo acabar, e mais uns poucos verbos (co-
meçar, sumir, consumir); com a imensa maioria dos verbos, o comple-
mento introduzido por com tem um de seus significados prototípicos.
Para dar conta desse fenômeno, vamos adotar a convenção de que
uma regra de protótipo se aplica aos casos não previamente
abrangidos por alguma construção.
Desse modo, estipulamos que as construções constantes na valência
dos verbos têm preferência para se aplicarem a casos particulares.
Assim, em [7] com a festa é Paciente, de acordo com a formulação
de C47 - isso porque o verbo dessa frase, acabar, tem C47 em sua
valência. Mas em
[5] Fechei a porta com muito cuidado.
como o verbo fechar não tem C47 em sua valência, aplica-se a regra
de protótipo, o que, depois do filtro cognitivo, dá como resultado que
o complemento tem o papel semântico Modo.
REGRI~') )E )(10róTIPO E FILTROS COGNITIVOS
97
1--- ---
1
Fatores de
aceitabilidade
13.1 Fatores linguísticos e extralinguísticos
Nos capítulos anteriores, tivemos de levar em consideração certas
frases que não são aceitáveis - isto é, frases que os falantes reco-
nhecem como sendo malformadas. E acabamos de ver que nem sem-
pre as razões de aceitabilidade ou inaceitabilidade de uma senten-
ça são de ordem linguística: há razões gramaticais, razões lexicais
e ainda razões relativas ao conhecimento do mundo. Estabelecer a
distinção entre esses diversos fatores é uma das funções principais
da gramática: uma frase ou outra estrutura precisa estar de acordo
com as regras da língua para ser aceitável. Mas isso não basta, por-
que nem só a gramática está envolvida no processo.
Vamos usar uma analogia com os produtos de uma indústria. Para
garantir que os objetos produzidos sejam adequados, eles passam
por uma série de controles de qualidade: um carro, por exemplo, é
examinado do ponto de vista do funcionamento do motor, dos freios
e das fechaduras, e também da qualidade da pintura, do estofamento
dos bancos etc. Só depois de passar todos esses controles é que o
carro sai da fábrica para ser encaminhado aos consumidores.
Com as expressões linguísticas ocorre uma coisa parecida. Uma frase
é aceita como normal pelos falantes quando passa com sucesso por
todos os controles. Por exemplo, as seguintes frases são todas pelo
menos um pouco estranhas:
99
111 + Eu gosto goiabada.
[2J *0 janela está aberto.
[3] *0 prato meu chão caiu no.
[4] *0 gato estamos no telhado.
[5] *Mandei as encomendas para a teoria gramatical.
[6] *Voulimpar a pia com esses cachorros.
Vamosexaminar cada uma delas para ver o que está errado em cada uma.
13.2 Violação da gramática
A frase
[1] *Eugosto goiabada.
é inaceitável por uma razão valencial bastante simples: o verbo gos-
tar ocorre em uma construção em que oEstímulo é expresso por um
sintagma introduzido pela preposição de:
[7] Eu gosto de goiabada.
Mas [1] corresponderia a uma construção com o Estímulo expresso
por um SN (sem preposição), e isso não existe na valência de gostar.
Existe na valência de adorar, e é por isso que podemos dizer
[8] Eu adoro goiabada.
onde os papéis semânticos são os mesmos, mas a forma do comple-
mento final é diferente. Portanto, a inaceitabilidade de [1] se deve a
uma violação da valência do verbo.
Passemos agora ao exemplo
[2] *0 janela está aberto.
Aqui é claro que o problema está em que janela é feminino, mas os
termos que deveriam concordar com essa palavra, o e aberto, estão
IlO 1Il:l-;CIIIIIICl. toi violada uma regra que estabelece que certos ele-
mentos do SN c também do restante da sentença devem concordar
em gênero com o núcleo do SN. Aqui temos uma razão puramente
morfossintática para a inaceitabilidade da frase.
A frase
[9] *Viemos as encomendas.
é inaceitável porque:
(a) as encomendas não pode ser sujeito, porque não há correspon-
dência entre o sufixo de pessoa-número e o único SN disponí-
vel: as encomendas é de terceira pessoa, e o verbo está na pri-
meira pessoa. Logo, as encomendas precisa ser objeto; mas
(b) o verbo vir não tem em sua valência nenhuma construção
com objeto.
Oresultado é que [9] é gramaticalmente malformada, logo, inaceitável.
Outro exemplo:
[10] *Nós gostaram da festa.
Nós não pode ser sujeito por causa da falta de concordância comgos-
taram. E não pode ser objeto por duas razões:
(c) o verbo gostar não aceita objeto (em vez, tem um complemen-
to regido pela preposição de); e
(d) a palavra nós é uma das poucas do português que têm uma
forma especial quando é objeto: precisa ser nos.
Outras palavras com forma especial de objeto são eu (objeto me),
você (objeto te; mas também você); chamam-se "pronomes pessoais"
na gramática tradicional, e, aqui, anafóricos.
Outro exemplo de inaceitabilidade por razões gramaticais é:
[11] *Oscachorros comeram com a ração.
101
FATORES DE ACEITABILlDADE
l'IllI>OJ'iI Sl' pOSSil dizer
[12J Os cachorros acabaram com a ração.
A razão aqui é que acabar pode aparecer na construção
C47 SujV>Agente V com SN>Paciente
mas comer não; comer ocorre em Cl,
C1 SujV>Agente V SN>Paciente
resultando em
[13] Os cachorros comeram a ração.
Em outras palavras, acabartem C47 (e Cl também) em sua valência,
mas comer só tem Cl, não C47. Na verdade, C47 é uma construção
bem minoritária, e ocorre na valência de poucos verbos: acabar, co-
meçar, consumir, sumir e alguns outros:
[14] O vizinho começou com o barulho.
[15] Ela sumiu com meu relógio.
Já Cl, como é fácil verificar, ocorre com centenas de verbos e é uma
das construções mais frequentes da língua. Assim vemos que, para
uma sentença ser aceitável, uma condição é que as exigências valen-
ciais de seu verbo estejam satisfeitas.
13.3 Má formação semântica
Vimos vários exemplos em que a inaceitabilidade de uma frase se
deve a razões lexicais e gramaticais, incluindo detalhes formais da
valência dos verbos envolvidos. Uma frase precisa estar de acordo
com as regras sintáticas da língua, e respeitar a valência dos verbos
que contém. Mas não basta isso; há outras condições que precisam
ser ;lI(·IHlidd". Multo em especial, uma frase só é aceitável se for pos-
sível coustruír; a partir dela, uma representação mental que faça sen-
tido. É por isso que rejeitamos
[16] *Meu relógio decorreu calmamente.
ou, para tomar um exemplo clássico",
[17] *Ideias verdes incolores dormem furiosamente.
Essas sentenças são corretamente estruturadas do ponto de vista
lexical e gramatical; ou seja, não há nada de errado com elas, linguis-
ticamente. O problema está em seu significado: por exemplo, nosso
conceito de "decorrer" se refere necessariamente a um período de
tempo, ou a alguma coisa considerada sob a perspectiva de sua dura-
ção. Assim, são aceitáveis frases como
[18] A semana decorreu calmamente.
[19] A cerimônia decorreu calmamente.
mas um relógio não "decorre", de modo que [16] não diz nada de
coerente. O resultado é que essa frase é inaceitável. Mas a razão para
isso não tem a ver com a língua portuguesa: relógios não poderem
decorrer não é um traço da estrutura da língua, mas um detalhe do
nosso conhecimento do mundo.
Tudo isso é bastante claro, mas causa um problema metodológico:
como distinguir inaceitabilidades decorrentes de violações da gra-
mática e do léxico de inaceitabilidades decorrentes de violações do
conhecimento do mundo? Note-se que isso é importante porque o
que queremos, ao fazer sintaxe, é explicitar parte da estrutura da
língua, não descrever nosso conhecimento do mundo. Quando uma
frase é julgada inaceitável pelos usuários da língua, não faz diferença
o fator responsável por essa inaceitabilidade: tanto [11] quanto [16]
z Tradução de colorless green ideas sleep [uriously, exemplo de N. Chomsky (1957) Syntactic
structures. The Hague: Mouton, p. 15.
FATOf"\ES DE ACEITABILlDADE
103
suo rejeitadas como malforrnadas, e o usu.uio u.io tem acesso dírcto
às razões desse julgamento.
Esse problema não é de fácil solução, e na verdade já foi respondido
de várias maneiras conflitantes por linguistas dos últimos tempos.
Aqui vou propor um critério bem simples, para efeitos desta intro-
dução; mas fique claro que o problema está ainda à espera de solu-
ção definitiva.
Vamos atribuir a inaceitabilidade de frases como [16] ou [17] a ra-
zões que possam ser formuladas sem referência a categorias grama-
ticais de nenhuma espécie. Assim, o que está errado em [17] é que
ideias não têm cor, não dormem, e "furiosamente" é um conceito que
pode se aplicar a ações (abriu a porta furiosamente), mas não a um
evento involuntário como "dormir". Mas o que está errado em
[1] *Eu gosto goiabada.
não é que nós não podemos "gostar" (podemos), ou que goiabada
não possa ser o Estímulo de uma sensação agradável: é que o ver-
bo gostar (note-se: o verbo, não o conceito de "gostar") requer uma
preposição, de, antes de seu complemento. [1] pode ser entendida
sem dificuldade (dita por um estrangeiro ou por uma criança, por
exemplo), mas sua estrutura gramatical está incorreta.
Esse critério não é suficiente para resolver todos os casos com clare-
za; mas vai ter que nos servir por ora, e espero que fique claro como
fatores linguísticos e não linguísticos colaboram para efetuar o con-
trole de qualidade das frases e outras estruturas, marcando algumas
delas como malformadas.
1
Hierarquia
de constituintes
14.1 Estrutura de constituintes
Vamos voltar agora à estrutura de constituintes, já examinada no ca-
pítulo 2. Um dos exemplos examinados ali foi
[1] O carro de Luísa é azul.
que vimos que se estrutura em constituintes da seguinte maneira:
[4] [O carro de Luísa] [é azul]
Já sabemos que o carro de Luísa é um sintagma nominal (SN); é azul
é um sintagma verbal (SV). No entanto, Luísa é também um SN, e
poderia ser sujeito de uma oração:
[1] [Luísa] trabalha na prefeitura.
Ou seja, o SN o carro de Luísa contém outro SN, Luísa, como uma de
suas partes. Veremos aqui que esse fenômeno de sintagmas dentro
de sintagmas é um traço muito frequente e importante da estrutu-
ra dos constituintes. Para ver isso, vamos considerar um caso mais
complicado:
[2] [A porta do carro de Luísa] é azul.
105
IUO
Tanto II sintaxe quanto a semântica deixam r1.l1'O que a porta do carro
de Luisa é um SN e tem a função de sujeito dessa oração. Mas esse SN
é o resultado da montagem de diversos SNs, a saber:
[a porta do carro de Luísa]SNl
[o carro de Luísa]SN2
[Luísa ]SN3
Quando são todos montados em um só SN complexo, o resultado é
[a porta d [o carro de [Luísa]SN3]SN2]SNl
Mas como esse tipo de notação fica muito confuso de ler, em geral se
representa a mesma coisa através de um diagrama em árvore, assim:
[3] SN1
~
Art Nom SAdj
~
Prep ~
Art Nom SAdj
~
Prep SN3
I I
de Luísaa porta de o carro
14.2 O que o diagrama nos diz
Vamos examinar esse diagrama e ver exatamente o que está repre-
sentado nele.
Primeiro, odiagrama mostra que há SNs dentro de SNs: o SN1 é a
sequência completa, a porta do carro de Luísa; SN2 é outro sintagma
nominal, mas que faz parte de SN1, a saber, o carro de Luísa; e SN3 é
parte de SN2- e portanto também de SNl1 a saber, Luísa.
DepOIS, c"d,l um dos nódulos do diagrama (isto é, os pontos rotu-
lados como SN, Art, SAdj, Prep e Nom) representa uma classe de
formas: SN, claro; mas também nosso conhecido SAdj (aqui repre-
sentado por uma sequência de preposição mais SN), que tem um po-
tencial funcional próprio - por exemplo, pode aparecer depois de
um nominal, na função de modificador (relembro que o potencial
funcional de uma unidade é o conjunto de todas as funções que essa
unidade pode desempenhar). E classes representadas por palavras
individuais: nominal (tradicionalmente chamado "substantivo"), ar-
tigo e preposição.
Finalmente, o diagrama mostra como todas essas classes se estru-
turam em constituintes, uns dentro de outros de acordo com regras
específicas: uma sequência de artigo + nominal + SAdj (ou então
apenas um nominal) forma um SN; uma sequência de preposição +
SN forma um SAdj.
Tanto o SN quanto o SAdj podem ter estruturas diferentes dessas;
por exemplo, um SN pode ser composto de:
[4] artígo+nomínal+Sád]: o carro de Luísa ou um carro japonês
artigo+nominal: o carro
nominal: Luísa
artigo+SAdj+nominal: um lindo carro
artigo+SAdj+nominal+SAdj: um lindo carro japonês
artigo+SAdj+nominal+SAdj+SAdj: um lindo carro japonês de
quatro portas
Há ainda várias outras estruturas internas possíveis para o SN;
mas em todos os casos o potencial funcional é o mesmo: qualquer
uma dessas estruturas pode ser sujeito, objeto ou complemento
de preposição, e é isso que define todas elas como SNs. Assim, po-
demos dizer
[5] O carro de Luísa está no pátio. (sujeito)
[6] Encontrei o carro de Luísa, (objeto)
[7 Esta é a foto do carro de Luísa, (complemento da preposição de)
HIERARQUIA DE CONSTITUINTES
107
Você mesmo pode verificar que todas ,IS:
V SAdj
I I
é azul
O diagrama mostra apenas as unidades sintáticas que compõem a
oração, mas estas correspondem de perto a suas partes semânticas.
Assim, o fato de que porta do, Luísa é azul etc. não são parte do sig-
nificado total dessa oração - ao contrário de de Luísa, a porta do
carro de Luísa e é azul, que representam componentes semânticos
da oração - se correlaciona com o fato de que só os constituintes
recebem interpretação semântica coerente. Nesse exemplo, e quase
sempre na língua, a semântica segue bem de perto a sintaxe no que
se refere à definição de suas subpartes.
Note-se que a porta não é um constituinte aqui (não estamos falando
da porta, mas da porta do carro de Luísa); mas poderia ser um cons-
tituinte em outra oração, como em
Em [2], temos uma oração completa, composta de um SN (com a fun-
ção de sujeito) e um sintagma verbal (SV, com a função de predica-
do). Isso pode igualmente ser mostrado em diagrama, a saber
SN
~
Art Nom SAdj
..:>:
Prep ~
Nom SAdjno
significado: cada constituinte tem um significado coerente, e pode
muitas vezes ser substituído por uma palavra única. Assim, a se-
quência a porta do seu carro denota claramente um objeto; e pode
ser slIh.;tituid.\ por um anafórico (ela). COIIIII/C'(C/I//('lIle aberta dono-
ta o estado da porta, e pode ser substituído pelo anafórico assim, ou
simplesmente por aberta.
Agora vamos considerar o sintagma a porta do seu carro: ele também
precisa ser dividido em constituintes imediatos. Como fazer isso?
Uma coisa que se pode observar é que o seu carro é um SN; sabemos dis-
so porque essa sequência tem um significado coerente, e pode ocorrer
em funções típicas dos SNs: pode ser sujeito (o seu carro está sujo); obje-
to (estacionei o seu carro); e pode ocorrer regido de preposição (a porta
do seu carro;fui ao jogo com o seu carro etc.). Assim, podemos acrescen-
tar essa informação à árvore (a estrutura interna do SN o seu carro é
mostrada de forma abreviada, mas terá que ser explicitada mais tarde):
[5] O
SN
~
V SAdv
SN
I
a porta d o seu carro está completamente aberta
Quando uma preposição ocorre seguida de um SN, o conjunto é tam-
bém um constituinte, e pode ser um SAdj ou um SAdv. Neste caso, é
um SAdj, porque é constituinte imediato de outro SN (a porta do seu
carro); assim, podemos passar para
[6] O
SN V SAdj
SAdj
~
Prep SN
I I
a porta d o seu carro está completamente aberta
CONSTAUINDO DIAGAAMAS 113
Ilq
Antes de passar adiante, vamos ver exatamente ()que é que a árvore 16]
nos diz acerca da oração a porta do seu carro está completamente aberta.
Primeiro, ela nos mostra as partes em que se divide a oração. Como já
vimos, uma oração não é simplesmente uma sequência de palavras,
mas de constituintes. Isso é um fato, não apenas gramatical, mas psi-
cologicamente real. Qualquer falante da língua tem condições de de-
tectar os limites dos constituintes. Um teste bastante simples mostra
isso com clareza; digamos que alguém pergunte a um falante se é
possível em português a sequência seguinte:
[7] Paulinho correram
A resposta vai ser provavelmente "não"; podemos dizer Paulinho cor-
reu, ou então Paulinho e Vânia correram, mas não Paulinho correram.
No entanto, essa sequência pode perfeitamente ocorrer em portu-
guês, como mostra a frase
[8] Os amigos de Paulinho correram para o campo.
Por que tendemos a dizer que a sequência não pode ocorrer? É sim-
plesmente porque essa sequência nunca forma um constituinte; a
frase [8] tem os seguintes constituintes:
[9] [os amigos de Paulinho] [correram] [para o campo]
Como se vê, Paulinho correram não é um constituinte. E, o que é im-
portante, não temos consciência de sua ocorrência na língua, porque
nosso acesso é aos constituintes (palavras, sintagmas, orações) e não
simplesmente a sequências de palavras; é por isso que se diz que as
frases não são compostas simplesmente de palavras. E é por isso que
nunca se diz, em gramática, que a frase [1]
[1] A porta do seu carro está completamente aberta.
é composta das palavras a, porta, do, seu etc. Em vez disso, dizemos
que ela é composta dos constituintes a porta do seu carro, está e com-
pletamente aberta.
Um,1 .11 VOI'l' como l6J representa justamente a estrutura de consti-
tuintes da frase [1]. E a frase [8] pode ser representada pela árvore
[10] O
SN V
I I
SAdv
I
os amigos de Paulinho correram para o campo
mais a representação da estrutura interna do SN e do SAdv, que estão
abreviadas no esquema.
Só para dar mais um exemplo, seja a frase
[11] Os amigos de Paulinho sujaram a sala.
que corresponde a
[12] O
SN V
I I
os amigos de Paulinho sujaram
SN
I
a sala
Como se vê, os dois SNs (sujeito e objeto) são representados da mes-
ma maneira, embora tenham funções diferentes. Isso porque uma
árvore é especializada em representar a estrutura de constituintes,
mas deixa outros fatores de fora, como as funções sintáticas.
CONSTAUINDO DIAGAAMAS 115
6
Funções sintáticas no SN
16.1 o que é o SN
Vamos agora nos deter um pouco na análise do sintagma nominal
(SN), que como vimos é uma unidade muito importante na sintaxe
da língua.
Primeiro, vamos relembrar o que é que define um SN. Trata-se de
uma classe, e como todas as classes se define por seu potencial fun-
cional - ou seja, o conjunto de funções que pode desempenhar. No
caso do SN, trata-se basicamente das funções de sujeito, objeto e
complemento de preposição. Assim, aquele elefante é um SN, porque
pode aparecer nessas funções:
[1] Aquele elefante pisou no meu pé. (sujeito)
[2] Vou fotografar aquele elefante. (objeto)
[3] O menino deu amendoim para aquele elefante. (complemento
de preposição)
Mas chegou atrasado não é um SN, porque não pode aparecer nesse
conjunto de funções. Trata-se de um sintagma verbal (SV), e apare-
ce em outras funções; na verdade, apenas em uma: predicado. Essa
função única é a que define o SV.
Uma vez estabelecido o que é um sintagma nominal, verificamos
que muitas estruturas diferentes correspondem à definição dada;
isso não é problema, porque essas estruturas têm todas o mesmo
117
118
potencial funcional, embora internamente sejam diferentes. Al-
guns exemplos:
[4] Aquele elefante
[5] Você
[6] Um rapaz de Recife
[7] O pai da noiva do meu cunhado Júlio
É fácil verificar que todos esses sintagmas cabem nas três funções
que definem o SN; logo, são SNs. Mas têm estrutura interna variada,
e neste capítulo vamos estudar essa estrutura interna dos SNs.
16.2 Núcleo do SN
Um fator muito importante dentro do SN é a ordem dos termos. Por
outro lado, o SN tem um núcleo, que não pode ser definido pela or-
dem em que aparece. Vamos tentar definir a função núcleo do SN.
Essa função ilustra bem o grau de finura da interação entre forma e
significado: veremos que, embora a distinção forma/significado se
mantenha válida em todos os pontos, a função de núcleo do SN é na
verdade simbólica, ou seja, depende tanto de informação sintática
quanto de informação semântica. Mais precisamente: a identificação
do núcleo depende do potencial semântico dos itens lexicais envolvi-
dos, mas uma vez identificado ele determina a forma de outros ter-
mos do SN na sequência formal.
Explicando melhor, vamos considerar o seguinte SN:
[8] A mesa quadrada
Temos que encontrar o núcleo desse SN. Na verdade, como falantes
do português, já temos a resposta: é mesa. Mas a questão é como
sabemos isso, mesmo se for a primeira vez na vida que vemos essa
sequência de palavras.
Para chegar a uma resposta, temos que levar em conta o potencial se-
mântico de cada uma dessas palavras - em particular, sua proprie-
(bdt' dl' dl'~lglhlr uma coisa. O sintagma pode ser novo, mas todas as
palavras sao nossas conhecidas, e sabemos que a não pode designar
uma coisa, nem quadrada (quadrado pode, mas não quadrada). Em
outras palavras, não existe nenhuma coisa chamada a, nem quadra-
da. Mas mesa é certamente o nome de uma coisa. E acontece que o
núcleo de um SN tem que designar uma coisa, porque é para isso que
os SNs servem: para se referir a coisas. Assim, temos que concluir
que o núcleo de [8] é a palavra mesa. O primeiro efeito disso é que
entendemos [8] como uma forma de nos referirmos a uma coisa cha-
mada mesa; os outros elementos (a, quadrada) servem para especi-
ficar de que mesa se trata.
Agora vamos examinar um SN um pouco mais complicado:
[9] A mesa quadrada do salão
Aqui temos um problema: tanto mesa quanto salão são nomes de coi-
sas; apesar disso, [9] se refere a uma mesa, não a um salão. Como é
que ficamos sabendo disso?
Aqui se aplica uma regra que estipula que um sintagma preposicionado
nunca se refere a uma coisa: o salão é uma coisa, mas do salão não é.
Logo, no SN [9] o núcleo tem que ser mesa, não salão. Ou seja, nosso co-
nhecimento do potencial de cada palavra do sintagma, mais nosso co-
nhecimento da regra que não permite que um sintagma preposiciona-
do seja núcleo, é que nos permite identificar o núcleo de [9], e portanto
ficar sabendo que estamos falando de uma mesa, não de um salão.
Mais um exemplo: seja o sintagmae abrangente conjunto de conhecimentos de
referência não é tolher os horizontes dos estudantes ou eliminar o
objetivo das disciplinas. Ao contrário disso, é proporcionar-lhes uma
formação de base aberta e livre, oferecendo-lhes formas de avanço
mais sólidas e mais cientificamente produtivas.
Com esse mesmo objetivo, os volumes apresentam sempre uma se-
ção final, intitulada "Para saber mais". Nela, o leitor encontrará ex-
tensas indicações para o aprofundamento bibliográfico, organizadas
de forma temática e com comentários para cada obra indicada. São
apresentadas obras de referência em português e em outras línguas,
com um duplo objetivo: por um lado, introduzir os leitores aos clás-
sicos e às principais novidades do panorama internacional; por ou-
tro, estirnulá-los ao aprofundamento conceitual e metodológico.
Mas, as obras de nossa coleção não terminam nos volumes físicos.
A Parábola manterá uma página na internet associada a cada volu-
me para abrigar materiais complementares escolhidos pelos auto-
res. Nela, estarão presentes exercícios e, frequentemente, materiais
adicionais e de natureza multimidiática: textos de aprofundamento,
bibliografia suplementar, arquivos de áudio e vídeo, imagens e ou-
tros formatos compatíveis com os objetivos da coleção. Essas pági-
nas serão alimentadas periodicamente, mantendo o trabalho vivo ao
longo do It'III!l0' No caso em que aprofundamcnlos já tenham sido
previstos desde a elaboração do volume, o símbolo E.!B avisa o leitor
de que há mais material no site para o tema em estudo.
Todo esse esforço, que envolveu uma grande equipe de trabalho entre
autores, organizadores e a Parábola, é uma tentativa de fornecer a alu-
nos e docentes um material consistente, e, a despeito de todas as difi-
culdades, de ampliar os horizontes da moderna linguística no Brasil.
Desejamos a todos uma excelente leitura!
Tommaso RASO [UFMG]
Celso FERRAREZI JR. (UNIFAL-MG]
13
APRESENTAÇAO
.. "" """""""...." ,,,... . ... ~
*
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Art
CR
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Dx
Modif
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Num
PB
Predet
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Prep
PRS
Ql
Qt
RR
SAdj
SAdv
SN
Suj
SujeitoV
SV
V
aRef
Abreviaturas
e símbolos
forma inaceitável: *nós chegaram
"recebe o papel semântico X":SN>Paciente
artigo (classe de palavras)
centro de referência (papel semântico)
determinante (função sintática)
dêitico (papel semântico)
modificador (função sintática)
núcleo do predicado (função sintática)
nominal (classe)
numeral (função sintática)
português falado do Brasil
predeterminante (função sintática)
pré-núcleo (função sintática)
preposição (classe)
participante de relação social (papel semântico)
qualidade (papel semântico)
quantificação (papel semântico)
restrição de referência (papel semântico)
sintagma adjetivo (função sintática)
sintagma adverbial (função sintática)
sintagma nominal (classe)
sujeito (função sintática)
sujeito valencial (função sintática)
sintagma verbal (classe)
verbo (classe)
membro de uma igualdade (papel semântico)
lS
lista de construções
C t SIIJl'110 .Agc/lte
C2 SujeiLO>Agente
4 Sujeito>Paciente
5 Sujeito>Coisa.localizada
15 Sujeito>Tema
39 Sujeito>Experienciador
47 Sujeito>Agente
C79 Sujeito>Agente
C83 SujV>Agente
v
v
v
v
v
v
v
v
v
SN>Paciente
em SN>Lugar
SAdv>Meta
SN>Estímulo
com SN>Paciente
em SN>Paciente
SN>Mensagem
A numeração utilizada (C1, C47 ete.) é a do Dicionário de valências verbais do portu-
guês brasileiro (em elaboração).
Prefácio
A sintaxe é uma área em crise, e várias definições são atualmente pro-
postas, às vezes seriamente conflitantes umas com as outras. Neste li-
vro, procuro basear a exposição em uma série de fenômenos tradicio-
nalmente tratados como sintáticos, mas abordando-os de acordo com
minha posição atual e experiência em pesquisa. Assim, incluo tópicos
como estrutura de constituintes, funções sintáticas, construções, or-
dem dos termos, classes de sintagmas etc. Mas não pude deixar de
incluir fatores de significado que, a meu ver, se inserem no estudo
desses tópicos de maneira inevitável: muito em particular, os papéis
semânticos, ingrediente fundamental da definição das construções,
assim como a semântica das diferentes classes de sintagmas. Nas
páginas que se seguem, ofereço uma análise desses fenômenos tais
como os vejo atualmente; acredito que essa análise é mais reveladora,
empiricamente mais adequada e, em geral, mais interessante do que
o estudo puramente formal dos fenômenos sintáticos, que na verdade
poucos linguistas levam a efeito consistentemente hoje em dia.
Isso não quer dizer que não continue sendo essencial uma distinção
clara entre fatos de forma e fatos de significado. Como deixo claro no
texto, é necessário manter essa distinção, porque a tarefa principal
da linguística (já assim definida por Saussure) é explicitar a relação
entre forma e significado; e isso só se pode realizar se tivermos uma
descrição prévia claramente separada desses dois espaços. Sigo,
nesse particular, a posição de muitos linguistas atuais, resumida na
afirmação de Anna Wierzbicka de que
17
prer ISO incluir tl descrição de diversos pontos importantes da estru-
tura da luiguu, e nisso segui a orientação de meus trabalhos recentes'.
Se se pode indicar uma orientação teórica para a exposição ofereci-
da neste livro, é a de Culicover & [ackendoff em seu livro de 20054,
e trabalhos subsequentes nessa linha. Utilizo também a noção de
construção, análoga à proposta de Goldberg, mas sem a seguir es-
tritamente em todos os detalhes", Um fator que me parece muito
relevante, e que tive de levar em conta aqui, é o efeito de traços do
contexto e/ou do conhecimento extralinguístico na geração e no jul-
gamento das estruturas sintáticas e em sua interpretação semânti-
ca. Nosso objeto de estudo é a sentença (oração), mas nossos dados
não são apenas constituídos de sentenças; e acho desejável explicitar
esse fato. Nesse ponto me afasto (juntamente com boa parte dos lin-
guistas atuais) das posições mais puramente estruturais exemplifi-
cadas pelas teorias descendentes do gerativismo.
Não existe um sistema único de nomenclatura utilizado por todos os
linguistas. Apesar de haver termos de aceitação mais ou menos uni-
versal, como oração, sintagma nominal, concordância, sujeito etc.,
em outros setores da descrição, há uma variedade muito incômoda,
em particular quando se tenta elaborar um texto introdutório como
este. Assim, tive de seguir um dos usos existentes, e optei pelo ado-
tado em meus livros anteriores. Em muitos casos, adoto a nomencla-
tura dos cognitivistas atuais (construção, relação simbólica) e em
outros tive que inovar, para evitar confusões com terminologias tra-
dicionais. Por isso defino a função sintática objeto como "qualquer
sintagma nominal que não seja sujeito" - o que, como se vê, inclui
o predicativo tradicional. Isso não traz inconveniente, porque a dife-
rença entre objeto (direto) e predicativo em português é semântica,
e não sintática. Uso também modíflcador, predeterminante, deter-
1\ linguilgt'nl é 1II11instrumento p.lI.1 rumunlcar significado. A cstru
tura c\PSS(' instrumento reflete SU.l função, e ele só pode ser adequa-
damente compreendido em termos de sua função".
A ênfase central do livro não está na análise propriamente dita,
mas nos processos de raciocínio que a fundamentam e justificam;
a ideia não é passar um corpo de conhecimento, ou uma teoria já
pronta, mas desenvolver as habilidades de observação e elaboração
de hipóteses que podem ser úteis aos estudantes em seus estudos
subsequentes de linguística. Acredito que uma grande deficiência
do ensino de linguística entre nós é justamente a falta de atenção a
questões de metodologia e ao papel do trabalho empírico como fun-
damentação de teorias e hipóteses; o resultado, com frequência, é a
aquisição detalhada de propostas teóricas (em geral de vida curta),
sem uma conscientização sólida de sua adequação aos fatos da lín-
gua'. No presente livro, procurei dar razões empíricas para cada uma
das categorias teóricas descritas.
Não pude escapar de alguma simplificação, algo inevitável, que ca-
racteriza[10] Uma mesa laranja
Agora parece haver um problema: tanto mesa quanto laranja são no-
mes de coisas; laranja é, além disso, uma qualidade (uma cor). Como
sabemos que [10] se refere a uma mesa, e não a uma laranja? A res-
posta é que se laranja for o núcleo, mesa vai ficar sobrando, porque
essa palavra não pode exprimir uma qualidade. Se no lugar de mesa
tivéssemos uma palavra qualificativa, o núcleo seria laranja:
FUNÇÕES SINTATICAS NO SN
119
I~U
l'llllJllhl deliciosa laranja
Mas se laranja em [10] fosse o núcleo, teríamos um constituinte
(mesa) para o qual não haveria função semântica (papel semântico)
disponível: teria que ser Qualidade, mas mesa não tem esse papel se-
mântico em seu potencial funcional. Logo, se laranja fosse o núcleo,
mesa ficaria sem função semântica no SN, e isso não é permitido;
como resultado, o SN [10] com núcleo laranja é malformado. Mas
como podemos entender mesa como o núcleo, e como laranja (ao
contrário de mesa) pode exprimir Qualidade, o resultado é que [10]
é bem formado porque todos os seus constituintes encontram lugar
na semântica da frase.
É através dessa computação de significados possíveis que identifica-
mos o núcleo de cada SN que ouvimos. E é bom observar que identi-
ficar o núcleo é essencial para que se possa entender o sintagma; em
[12] Tem uma mesa laranja na cozinha.
estamos falando de uma mesa - não de uma laranja, nem de uma
cozinha.
Finalmente, o que acontece se dois elementos do sintagma puderem
ser tanto nomes de coisas quanto qualidades? Nesses casos é de es-
perar que o sintagma admita as duas interpretações, e seja ambíguo.
E é com efeito o que acontece, como no exemplo
[13] Um velho palhaço
que pode significar "um idoso que se comporta comicamente", ou en-
tão "um palhaço idoso".
O processo de identificação do núcleo tem outras complicações, mas
vamos ficar somente com o que está acima; é suficiente para dar uma
ideia de como utilizamos nosso conhecimento semântico (laranja é
nome de coisa ou de qualidade, mesa só de coisa etc.) e simbólico (de
SN não pode ser o nome de uma coisa) para identificar o núcleo, e
portanto compreender o que cada SN quer dizer.
16.3 Outros termos do SN
Mas um SN não é só o núcleo. Voltando a
[8] A mesa quadrada
vemos que há uma palavra antes e outra depois do núcleo mesa. A pa-
lavra que vem antes é um artigo, a, e tem a função de determinante.
O determinante se define como sendo o elemento que aparece obriga-
toriamente em primeiro lugar no SN (com uma pequena exceção, que
veremos logo a seguir) - ou seja, esse termo pode, ao contrário do
núcleo, ser definido por sua posição na sequência. Essa função pode ser
ocupada por um pequeno número de itens, como o artigo (o e suas va-
riantes de gênero e número), um, esse, aquele, este, esse, aquele, algum,
nenhum, cada, qualquer e os exclamativos/interrogativos que e quanto:
[14] Uma mesa quadrada / aquela mesa quadrada / nenhuma mesa
quadrada / que mesa quadrada?
Como só há um determinante por SN, não é possível colocar mais de
um membro dessa lista lado a lado:
[15J "Urna essa mesa quadrada / *a qualquer mesa quadrada etc.
O determinante é o primeiro elemento do SN quando ocorre; mas há
SNs sem determinante, como
[16] Mesas quadradas / Sônia / pão com manteiga
Assim, o SN
[8] A mesa quadrada
se analisa como uma sequência de determinante + núcleo + um ter-
mo que ainda não examinamos. Esse termo, aqui representado pela
palavra quadrada, se denomina modificador, e como se vê aparece
depois do núcleo. Assim, a sintaxe de [8] fica assim:
FUNÇÕEStalhes, temos os seguintes entre os papéis semânticos presentes em
[3J: Centro.de.referência (CR), Quantificação (Qt) e Restrição.
de. referência (RR). Vamos examinar cada um deles.
125
o Ccnlro.dl'.l'l'I'l'l'l'ncia é o papel semântico slslt'\1wlicé.ll11enle atribui-
do ao núcleo do SN. Essa associação descreve nossa capacidade de
identificar, para cada SN, a que ele se refere. Assim, o SN [2] se refere
a filhotes (não a uma girafa). Outros exemplos:
[4] Esse carro vermelho CR= "carro"
[5] O vermelho desse carro CR= "vermelho"
A palavra vermelho, como esses exemplos mostram, pode exprimir
uma qualidade ou então uma coisa. Em [5], vermelho precisa ser oCR,
em virtude da proibição que a língua estipula de sintagmas preposi-
cionados serem CR. Consequentemente, vermelho em [5] se refere à
cor vermelha. Mas, em [4], carro precisa ser o núcleo, pois não poderia
ser modificador por causa de seu potencial semântico: é o nome de
uma coisa, e não designa uma qualidade. Daí se deduz que carro é o
CR; vermelho, que como vimos pode ser tanto nome de uma coisa (a
cor vermelha) quanto uma qualidade, em [4] precisa ser o modificado r
e, portanto, exprime qualificação. Mas como os sintagmas se encaixam
uns dentro dos outros (como vimos no capítulo 13), em [5], temos um
SN encaixado (o termo técnico é subordinado) dentro do SN maior:
o SN subordinado é esse carro, que aparece ali precedido por preposi-
ção. Nesse SN subordinado, o núcleo e, portanto, o CR, é carro.
Esse SN subordinado é mencionado dentro de um sintagma prepo-
sicionado cuja função semântica é qualificar o núcleo vermelho; ou
seja, tem uma função análoga à de um adjetivo como em
[6] Esse vermelho berrante
Não se trata de uma cor vermelha qualquer, mas de um vermelho
berrante (em [6]) e em [5] não se menciona uma cor qualquer, mas
a cor desse carro.
17.2 Restri~ão de referência
Isso nos leva à função principal desses constituintes: eles funcionam
para restringir a referência inicialmente evocada pelo núcleo. Quan-
do Qt Det>Dx Num>Qt PreN>QI Núcleo>CR Mod>RR
oSN
[7] Aquela menina de camisa preta
representa
[15] Det>Dx Núcleo>CR Mod>RR
e o SN
[16] Pedrinha
representa
[17] Núcleo>CR
que é, digamos, um SN mínimo.
FUNÇÕES SEMANTICAS NO SN
129
1\ cstrutur.r interu.t do SN é muito variada: lIJlI SN pode mesmo con-
ter uma oração, como em
[18] Aquele médico que mora no apartamento 405
o que todos os SNs têm em comum é, sintaticamente, a possibilida-
de de serem sujeitos ou complementos de preposição; e, semantica-
mente, a possibilidade de se referirem a uma coisa.
1
Período composto
18.1 Período simples e período composto
Todos os exemplos estudados até agora têm uma única oração
e são conhecidos tecnicamente como períodos simples. Mas
acontece que muitas sentenças têm mais de uma oração; em-
bora não haja espaço neste livro para estudar essas sentenças
(períodos compostos) em detalhe, vamos ver alguns exemplos
neste capítulo.
A diferença entre o período simples e o composto fica clara quando
comparamos sentenças como
[1] O Samuca disse uma verdade.
[2] O Samuca disse que a Selma comprou um apartamento.
A frase [1] é bastante simples, sendo composta de sujeito + verbo +
objeto. A frase [2] tem, na verdade, a mesma estrutura, porque o ob-
jeto é que a Selma comprou um apartamento. Só que esse objeto tem,
por sua vez, um sujeito (a Selma), um verbo (comprou) e um objeto
(um apartamento). Se retirarmos essa sequência do contexto de [2],
teremos um período simples, a saber
[3] A Selma comprou um apartamento.
A frase [2] tem a seguinte estrutura:131
1410 SoIlllllra disse [que {a Selma compruu um .rp.irtamcnto} 1
sujeito V SN
o SN objeto é composto de que mais uma oração, que é a Selma com-
prou um apartamento. Esse é um dos mecanismos de montagem de
períodos compostos: a palavra que, seguida de uma oração, forma
um SN. E, uma vez assim estruturado, esse SN se comporta como
qualquer outro SN. Por exemplo, pode ser sujeito de uma oração:
[5] Que a Selma comprou um apartamento é a grande novidade do dia.
sujeito
e pode ser complemento de uma preposição, formando um sintagma
que pode ser por exemplo um modificador:
[6] Chegou agora a notícia de que a Selma comprou um apartamento.
modificado r
Isso significa que, em determinado nível de análise, um período com-
posto pode ser analisado seguindo as mesmas linhas utilizadas para
o período simples. Diferenças existem, e são importantes, mas o pri-
meiro passo é o mesmo nos dois casos.
Semanticamente, há também um paralelo; assim, o exemplo
[1] O Samuca disse uma verdade.
se analisa, incluindo papéis semânticos, como
C83 SujV>Agente V SN>Mensagem
e a mesma análise vale para
[2] O Samuca disse que a Selma comprou um apartamento.
onde o SN que a Selma comprou um apartamento tem o papel semân-
tico de Mensagem, e o Samuca é o Agente.
Al(' ,11 11'lllO'i semelhanças: embora neste livro não possamos en-
trar no importante estudo do período composto, vou apenas citar e
exemplificar algumas das diferenças, isto é, fenômenos gramaticais
que só ocorrem em períodos compostos.
18.2 Controle de modo na oração subordinada
A oração que aparece dentro de outra se chama subordinada; e a
oração que a contém é a principal. Assim, em
[4] O Samuca disse que a Selma comprou um apartamento.
a oração subordinada é a Selma comprou um apartamento, e a princi-
pal é o Samuca disse que a Selma comprou um apartamento (ou seja, a
frase inteira). Notar como a subordinada fica dentro da principal, ou
seja, é um dos seus constituintes. É por isso que podemos dizer que
o SN que a Selma comprou um apartamento é o objeto da frase [4].
A inserção de uma oração dentro de outra pode ser representada
graficamente assim:
O Samuca disse que a Selma comprou um apartamento
Isso estabelecido, vamos ver alguns fenômenos gramaticais que ocor-
rem na oração subordinada. Um deles é o modo em que o verbo fica.
Em [4] tanto o verbo da principal, disse, quanto o da subordinada, com-
prou, estão no modo indicativo. Isso é devido a propriedades do verbo
da principal: o verbo dizer determina que uma oração subordinada
fique no modo indicativo. Mas com querer as coisas são diferentes:
[7] O Samuca queria que a Selma comprasse um apartamento.
Aqui o verbo da subordinada não poderia estar no indicativo:
[8] *0 Samuca queria que a Selma comprou um apartamento.
PEAIODO COMf'OSTO
133
13Lr
Ou seja, o verbo da oração principal controla o modo do ver-
bo da oração subordinada. Isso significa que, para cada verbo,
o falante precisa saber qual o modo que precisa aparecer na
oração subordinada.
Em outros casos (sim, a coisa é complicada) o verbo da principal ad-
mite indicativo ou subjuntivo, mas com uma diferença de significado.
Assim, podemos dizer
[9] Eu olhava TV quando tinha tempo.
[10] Eu olharia TV quando tivesse tempo.
Como se vê, em [9], com indicatívo, a referência é a um evento que
realmente ocorria; mas em [10], com subjuntivo, não há a afirmação
de que eu tinha de fato tempo: é apenas uma condição, que pode até
não se realizar.
Certos modos são especializados na ocorrência em orações subor-
dinadas: o subjuntivo, o infinitivo e o gerúndío, que raramente ocor-
rem em orações principais. Em geral se pode dizer que as orações
principais ocorrem no indicativo ou no imperativo. As aparentes ex-
ceções (venha cá) são por causa da identidade de algumas formas de
imperativo com as correspondentes do subjuntivo.
18.3 Complementizadores
A palavra que encontrada em
[4] O Samuca disse que a Selma comprou um apartamento.
[7] O Samuca queria que a Selma comprasse um apartamento.
é um complernentízador, e tem a função de criar um novo sintag-
ma (aqui, um SN) a partir de uma oração. Há vários complementi-
zadores em português, e nem sempre o resultado é um SN. Assim,
quando mais uma oração é um sintagma adverbial, com o papel se-
mântico Tempo:
1'1:J ITil i;1 chora quando nós cantamos essa canção.
Se também é complementizador e apresenta alguma complexidade.
Em certos casos, corresponde a que quando a oração principal deno-
ta dúvida:
[12] Eu não sei se vai chover.
Aqui se introduz um SN. Em outros casos se introduz um sintagma
adverbial, com o significado de I/hipótese":
[13] Se chover, cancelamos a ida à praia.
Esses complementizadores se chamam tradicionalmente conjun-
ções; uma conjunção se define como uma palavra que, colocada
antes de uma oração, forma um sintagma adverbial ou nominal+ _
é, portanto, um dos tipos de complementizador. Outra maneira de
encaixar uma oração subordinada é colocando seu verbo em certas
formas, a saber, no infinitivo ou no gerúndio. Quando é o infinltivo, o
resultado é um SN:
[14] Caminhar depois do almoço faz bem à saúde.
Aqui, caminhar depois do almoço é o sujeito da oração principal.
Já quando o verbo subordinado fica no gerúndio, o resultado vai ser
um sintagma adverbial:
[15] Ela trabalha socorrendo os pobres.
O papel semântico de socorrendo os pobres é Modo. Nesses casos
pode-se dizer que o complementizador é a marca de infinitivo (-r)
ou de gerúndio (-ndo).
4 Essa é a definição com que vamos trabalhar. A noção de conjunção na gramática tradicional
não tem coerência.
PERloDO COMPOSTO 135
136
18.4 Tipos de oração subordinada
Temos, portanto, os seguintes tipos principais de oração subordina-
da em português:
A: Classificação quanto à classe da subordinada
orações encaixadas em um SN (também chamadas orações
substantivas)
[4] O Samuca disse [que a Selma comprou um apartamentoj.,
[7] OSamuca queria [que a Selma comprasse um apartamento ]SN
[14] [Caminhar depois do almoçoj., faz bem à saúde.
orações encaixadas em um SAdv (também chamadas ora-
ções adverbiais)
[11] Titia chora [quando nós cantamos essa canção]sAdv
[13] [Se chover]sAdv,cancelamos a ida à praia.
[15] Ela trabalha [socorrendo os pobres]sAdv
B: Classificação quanto ao modo da subordinada
oração subordinada de indicativo
[4] O Samuca disse que a Selma comprou um apartamento.
oração subordinada de subjuntivo
[7] O Samuca queria que a Selma comprasse um apartamento.
oração subordinada de infinitivo
[14] Caminhar depois do almoço faz bem à saúde.
oração subordinada de gerúndio
[I !i I Wn t 1':III:1ll1a socorrendo os pobres.
É bom deixar claro que as orações subordinadas não incluem o com-
plementizador. Assim, [4] se analisa como
[4] O Samuca disse [que {a Selma comprou um apartamento}, ]SN
onde a oração subordinada está entre chaves, { }; o que está entre
colchetes, [ ], é o SN objeto da oração principal. Nos casos de ora-
ção de infinitivo e gerúndio, teríamos que excluir as desinências (-r;
-ndo), o que nos levaria a uma análise morfológica que ultrapassa os
limites deste livro.
Apesar do que se diz em algumas gramáticas, não há em português
atual orações subordinadas de particípio.
18.5 Omissões
Quando um período é composto, há vários mecanismos que evitam a
repetição de termos. Assim, em
[15] Ela trabalha socorrendo os pobres.
o Agente de trabalha é ela; mas se entende que o Agente de socorren-
do é igualmente "ela" (o conceito, não a palavra), e não há necessida-
de de repetir o pronome ela.
Existem regras precisas sobre onde podem ocorrer essas omissões,
de modo que o ouvinte possa localizá-Ias sem problemas. Aprincipal
dessas regras é que a omissão (chamada lacuna anafórica) ocorre
na subordinada, não na principal. Assim, se dissermos
[16] A Marília disse que vai fugir de casa.
entendemos que a Marília vale também como Agente de fugir. A la-
cuna pode ocorrer antes na sequência, desde que sempre na subor-
dinada; é o caso de
"fRIOiJ,J (C'MPOSTO
137
I.lU
1171 Beber demais levou Abelao hosplral.
onde se entende que Abel é Agente de beber, além de ser Paciente d
levou. Neste caso, como se vê, a lacuna ocorre antes do antecedente,
mas sempre na subordinada.
Em um caso como [16] a percepção da lacuna depende da identi-
ficação da pessoa do verbo subordinado como idêntica à do verbo
principal. Assim, não há lacuna em
[18] A Marília disse que vamos fugir de casa.
e os dois verbos têm Agentes diferentes.
Com o verbo dizer, a lacuna não é obrigatória, e podemos ter sujeitos
(idênticos) nas duas orações:
[19] A Marília disse que ela vai fugir de casa.
Essa frase é ambígua, e ela pode se referir à própria Marília ou a ou-
tra pessoa. Isso é geralmente desambiguado em contexto, como em
[20] A Bárbara não gosta de morar aqui; a Marília disse que ela vai
fugir de casa.
Aqui ela se entende como referindo-se a Bárbara. Como se vê, tanto
as lacunas quanto palavras como ela têm função anafórica.
As regras não param aqui, e são bastante complexas. Mas esses
exemplos devem ser suficientes para dar uma ideia do fenômeno das
lacunas anafóricas.
Construções relativas
19.1 Modificadores oracionais
Há ainda um tipo importante de oração subordinada, a saber, aque-
las que pertencem a uma construção de função adjetiva (ou seja, fun-
cionam como modificadores dentro de um SN). Por exemplo,
[1] O rapaz que tocou no meu casamento telefonou hoje.
A sequência o rapaz que tocou no meu casamento é um SN - o sujeito
da oração. Mas esse SN contém algo que parece uma oração incom-
pleta, a saber, tocou no meu casamento. Essa oração não tem um su-
jeito evidente, mas sabemos, pela semântica, que o Agente de tocou
deve ser o rapaz; no lugar do sujeito temos aquele que ali no meio.
Esse que tem uma dupla função: primeiro, é um complementizador,
pois serve para inserir uma oração dentro de outra; e, depois, é um
anafórico, pois evita a repetição de o rapaz, e funciona como sujeito
da oração subordinada. Consequentemente, o rapaz precisa ser en-
tendido como Agente de telefonou e também de tocou; a palavra que
-tradicionalmente denominada pronome relativo - marca essa
duplicidade de funções. A sequência de que mais a oração pode ser
chamada construção relativa.
Uma construção relativa tem a seguinte estrutura:
./ uma oração aparece dentro de um SN;
139
v" issa oruçao tem um de seus termos substituído por um prono-
me relativo;
semanticamente, esse pronome relativo remete ao núcleo do SN.v"
o termo substituído pelo pronome relativo não precisa ser o sujeito;
pode ser o objeto, como em
[2] O rapaz que eu contratei telefonou hoje.
Em [1], a construção relativa corresponde semanticamente a "o ra-
paz tocou no meu casamento"; em [2], corresponde a "eu contratei
o rapaz". Como "o rapaz" ocorre como núcleo do SN,temos duas re-
ferências a ele: em [1], o rapaz tocou no meu casamento e também o
rapaz telefonou hoje; em [2], eu contratei o rapaz e o rapaz telefonou
hoje. Em cada caso, a construção relativa é uma maneira de encai-
xar essas duas informações em um SN que compreende uma oração
subordinada - mas que, no mais, funciona como qualquer outro SN.
Além de sujeito e objeto, o pronome relativo pode substituir outros
termos da oração, como por exemplo
[3] A casa onde eu morava já foi demolida.
Aqui a construção relativa corresponde a "eu morava na casa"; portan-
to, onde funciona como um complemento com o papel semântico Lugar.
Esse exemplo mostra que há outros pronomes relativos além de que;
em [3] temos onde, e há também o qual, que aparece com ou sem pre-
posição conforme a função sintática e o papel semântico que veicula:
[4] O rapaz do qual eu falei telefonou hoje.
Aqui do qual (preposição + pronome relativo o qual) é um comple-
mento com o papel semântico Mensagem.
19.2 Restritivos e não-restritivos
o qual sem preposição aparece em construções relativas não-restri-
tivas, como no exemplo
[51 Os vizinhos do 502, os quais aliás nunca aparecem, devem morar
em outra cidade.
Aqui temos um tipo especial de construção relativa, que se caracteri-
za pela presença do pronome relativo o qual (ou também que), e na
escrita pela vírgula que a separa do resto da oração. Semanticamen-
te, se caracteriza por não restringir a referência do SN.
Vamos ver melhor o que é isso. Uma construção relativa como a en-
contrada em
[1] O rapaz que tocou no meu casamento telefonou hoje.
funciona como modificador, e uma de suas funções semânticas é res-
tringir a referência do SN:ou seja, o rapaz se refere a um rapaz qual-
quer, mas o rapaz que tocou no meu casamento se refere a um rapaz
específico, do qual estamos falando. Um exemplo talvez mais claro é
[6] Os restaurantes que têm manobrista são muito caros.
Note-se que não se trata de qualquer restaurante, mas apenas da-
queles que têm manobrista. Isso se chama restringir a referência
de um SN,o que (como vimos no capítulo 15) é função típica do mo-
dificador, mesmo quando ele contém uma construção relativa:
[7] Os restaurantes mais elegantes são muito caros.
A referência de restaurantes é restringida pelo modificador mais ele-
gantes.
Por isso a construção relativa encontrada em [1] e [6] se chama res-
tritiva. Mas é possível também usar um tipo de modificador não-
-restritivo, ou seja, que não afeta a referência do SN.Um exemplo é
[8] Os restaurantes do centro, mais elegantes, são muito caros.
Note-se que aqui estamos falando de todos os restaurantes do centro
(são todos caros), acrescentando a informação de que eles (todos)
CONSTRUÇÕES RELATIVAS
141
sao mais elegantes. Assim, não há referêncru ,11I1I1Ou seja, o complemento preposicionado fica na posição em que esta-
ria se a construção não fosse relativa,
[21] Eu falei com ela.
CONSTRUÇÕES RELATIVAS
143
• a construçao rclatlva é marcada com um simples que, que recebe o
nome (um pouco pomposo) de que universal. Outros exemplos de
construção relativa com que universal são:
[22] (escrita) O carro para o qual você comprou a peça é aquele
vermelho ali.
[23] (fala) O carro que você comprou a peça para ele é aquele
vermelho ali.
[24] (escrita) O professor com quem a Sônia namorou é um
gordinho.
[25] (fala) Oprofessor que a Sônia namorou com ele é um gordinho.
Em alguns casos, o complemento preposicionado é simplesmente
omitido, ficando por conta do ouvinte determinar o papel semântico
do antecedente dentro da relativa:
[26] (escrita) O auditório do qual eu falei fica no primeiro andar.
[27] (fala) O auditório que eu falei fica no primeiro andar.
A gente esperaria o auditório que eu falei dele, mas neste caso em
geral se usa a forma mais breve exemplificada em [27]. Não se sabe
ainda exatamente em que casos isso pode acontecer. Na minha in-
tuição, eu diria que se eu tivesse falado no auditório, seria preferível
manter o sintagma preposicionado: o auditório que eu falei nele ...
Mas mesmo aqui, se o contexto deixar claro do que se trata, acho que
se poderia usar [27], sem perigo de inaceitabilidade.
Há mais o que estudar a respeito das construções relativas. Aqui va-
mos ficar com essas noções básicas, que servem de início para quem
quiser realizar maiores estudos nessa área. Termino com uma lista
dos pronomes relativos mais comuns na língua:
que, o qual, quem, o que, onde
Destes, quem e o que só aparecem precedidos de preposição ou em
relativa livre; e o qual só com preposição ou então em construção
relativa não-restritíva. O pronome relativo cujo é raramente usado,
e apenas na escrita.
Constituintes no
período composto
20.1 o período composto na árvore
Vimos no capítulo 18 alguns exemplos de períodos compostos um
exemplo foi [2], que como sabemos tem uma estrutura imediata se-
melhante à de [1]:
[1] O Samuca disse uma verdade.
[2] O Samuca disse que a Selma comprou um apartamento.
Recapitulando: tanto [1] quanto [2] são compostas de um SN (o su-
jeito), mais um verbo, mais outro SN (o objeto, ou seja, um SN não
sujeito). Só que em [2] esse SN objeto contém uma oração inteira, a
Selma comprou um apartamento. Como vai ficar isso na árvore?
O elemento que permite a subordinação de uma oração dentro de
um SN é (como vimos no capítulo 18) um complementizador; em
[2], o complementizador é a palavra que. Ou seja, a sequência de que
mais uma oração compõe um SN:
[3] SN
que O
I
a Selma comprou um apartamento
145
1'+0
A oração a Selma comprou um apartamento (subordinada) pode ago-
ra ser analisada em termos de seus constituintes, o que se faz da ma-
neira usual:
[4] SN
que o
~
SN V SN
I I I
a Selma comprou um apartamento
Agora só falta encaixar esse SN complexo dentro da árvore corres-
pondente à frase [2], o que dá
[5] O
s~
SN
O
SN V SN
I I I
o Samuca disse que a Selma comprou um apartamento
Note-se que, no nível da oração principal, a estrutura de [2] (mos-
trada na árvore [4]) é idêntica à de [1]. A diferença está apenas na
composição interna do objeto, que em [1] é um SN simples, e em [2]
é um SN que contém uma oração.
O mesmo procedimento funciona para outros complementizadores,
como por exemplo
[6] Eles riram quando eu contei meus problemas.
que corresponde à árvore
171 O
s~
SAdv
O
SN V SN
I I I
riram quando eu contei meus problemaseles
20.2 Sintagmas preposicionados
e construções relativas
A inserção de sintagmas preposicionados em uma árvore não apre-
senta dificuldade; basta considerar que um sintagma preposiciona-
do (analisado como sintagma adjetivo ou sintagma adverbial) é com-
posto de uma preposição mais um SN, como em
[8] A casa de Nancy.
Temos aqui um SN, que inclui um sintagma adjetivo (de Nancy), que
por sua vez contém um SN (Nancy). Isso pode ser representado no
diagrama assim:
[9] SN
SAdj
a casa de
SN
I
Nancy
Vejamos agora como colocar em uma árvore uma construção relativa,
tal como as estudadas no capítulo 19. Um dos exemplos dados ali foi
[10] O rapaz que tocou no meu casamento telefonou hoje.
CONSTITUINTES NO PERfoDO COMPOSTO
147
148
o problema que surge ao representar a estrutura de constituin-
tes nessa frase é que o relativo que tem uma função dupla: marca
o início de uma oração subordinada (função análoga à dos com-
plementizadores), mas ao mesmo tempo ocupa o lugar do sujei-
to de tocou. Acontece que uma árvore, tal como normalmente se
entende, não pode representar essa função dupla; trata-se pro-
vavelmente de uma limitação desse tipo de diagrama, e teríamos
que introduzir uma nova dimensão para mostrar graficamente as
duas funções do relativo. Aqui não poderemos discutir essa ques-
tão, que nos levaria muito longe, e por isso vamos representar a
estrutura de [10] assim:
SVr-.
V SAdv
ti
o rapaz que tocou em o meu casamento telefonou ontem
[11] o
SN SAdvV
SAdj
Note-se que tocou no meu casamento acaba sendo analisado como
sintagma verbal (SV), e não oração (O), porque fica faltando o
sujeito, que está incluído no que. Essa estranha palavra acumula
as funções de complementizador (marcando a inserção de uma
oração dentro de outra) e anafórico (pois remete ao núcleo do
SN, rapaz). Por ora, vamos deixar assim a questão da represen-
tação em árvore das construções relativas, que apresentam pro-
blemas próprios.
0.3 Inrlnitivos e gerúndios
Finalmente temos as chamadas orações de infinitivo e de gerúndio.
Deixando de lado certos problemas relativos às infinitivas, sua re-
presentação em árvore pode ser baseada na informação de que as
infinitivas são SNs, e as gerundivas são SAdvs. Por exemplo,
[12] Passear na chuva é agradável.
É fácil verificar que a oração de infinitivo passear na chuva é o sujeito
da oração principal [12], e deve portanto ser um SN (como todos os
sujeitos). A representação fica então assim:
[13] o
SN V SA~
I I I
passear na chuva é agradável
Como representação básica, [13] é adequada para [12].
Uma frase que inclui oração gerundiva é
[14] D. Pedro abdicando, seu filho será o Imperador.
Podemos analisar D. Pedro abdicando como um sintagma adverbial,
o que nos dará
[15] o
SAdv
I
D. Pedro abdicando
SN
I
seu filho será
SN
I
o Imperador
Árvores como as apresentadas aqui deixam de lado muitos detalhes
importantes; mas são em geral adequadas para mostrar a estrutura
de constituintes em que se dividem as orações da língua.
CONSTITUINTES NO PERfoDO COMPOSTO 149
o léxico
o estudo das classes, como se viu, depende do estudo das funções e
requer a realização de levantamentos muito amplos das unidades da
língua. Em particular, nos interessa aqui o levantamento das proprie-
dades das palavras, cujo conjunto pertence ao léxico. Neste capítulo
veremos alguns exemplos de como o léxico se integra com o resto
da estrutura da língua, com especial atenção aos aspectos sintáticos.
21.1 Constituintes do SN
Vamos começar com a estrutura do SN. Vimos no capítulo 15 que
o SN é composto de uma série de constituintes, cada um deles com
uma função própria, em geral relativa a sua posição na sequência.
Assim, no SN
[1] Todas essas pequenas dificuldades de relacionamento
podemos distinguir pelo menos cinco funções sintáticas: predeter-
minante, determinante, pré-núcleo, núcleo e modificador:
[2] [Todas] [essas] [pequenas] [dificuldades] [de relacionamento]
predet det preN núcleo modif
Cada uma dessas funções determina uma classe: uma palavra que
pode aparecer em uma função muitas vezes não pode aparecer em
151
1.-......1~..:rTJ...:JJ:..:IJ:..:I...;LI-LLLLi·~~~~-""'-'~.
outra, o que distingue os itens em diversas d".,se." Por exemplo, to
das pode aparecer, como se vê em [2], como prcdcterrninante, mas
nunca pode ser determinante. Esse traço, na verdade, singulariza to-
das (e suas formas masculina e plural) como a única palavra que pode
ser predeterminanteem português falado atual. Todas pode aparecer
no SN antes de um determinante. A função de determinante se define
como sendo necessariamente o primeiro constituinte do SN, com a
única exceção do predeterminante, que pode aparecer antes dele. As
palavras que podem ser determinantes em português são o, um, este,
esse, aquele e mais algumas. Temos aqui uma pequena classe de itens,
definida pela propriedade de poderem ser determinantes.
Quando chegamos aos pré-núcleos e modificadores, as classes são
muito maiores. Vamos definir (provisoriamente) o pré-núcleo como
o elemento que pode ocorrer logo antes do núcleo, e depois de um de-
terminante; isso define uma classe bem grande, que inclui entre ou-
tras as palavras pequeno, grande, simples, lindo, rico, baita e incrível:
[3] Um grande problema
[4] Esse simples expediente
[5] Um lindo dia
[6] Aqueles ricos países
[7] Um baita salário
Mas essas palavras não são todas iguais; apenas, todas podem ser
pré-núcleos. A maioria também pode ser modificador:
[8] Um problema grande / esse expediente simples / um dia lindo /
aqueles países ricos
mas baita só pode ser pré-núcleo: *um salário baita.
Além disso, rico pode também núcleo do SN, como em
[9] Os ricos
mas baita e incrível não podem ser núcleos.
OU M'/", ,I., palavras incrível, rico c balui, embora possuiu Sl'I' prc
-núcleos, têm na verdade potenciais funcionais distintos: acresren-
tando salário, temos o seguinte quadro, para os três traços "ocorrên-
cia como pré-núcleo', "ocorrência como modificador" e "ocorrência
como núcleo do SN":
preN modif núdeodoSN
incrível + +
rico + + +
baita +
salário - +
No quadro, '+' significa que a palavra pode ocorrer na função mos-
trada, e '-' significa que não pode. Como se vê, não há duas palavras
iguais: quatro itens lexicais, quatro potenciais funcionais diferentes.
Os potenciais mostrado no quadro são parciais, claro; há muitas ou-
tras funções que podem ser levadas em conta.
21.2 Armazenamento de palavras no léxico
Essas palavras são armazenadas no léxico mais ou menos como está
acima, ou seja, cada uma com seu potencial funcional. Naturalmente,
há muito mais: em particular, cada palavra se associa, no léxico, com
seu significado próprio, que inclui, entre muitas outras coisas, traços
semânticos como [R], [Q] etc. O resultado é uma lista de milhares de
itens, cada qual com bom número de traços (ninguém sabe quantos),
ou seja, uma estrutura de complexidade imensa. Não obstante, te-
mos essa estrutura toda em nossa memória, e é ela que nos permite
inserir cada palavra em um contexto aceitável, ou seja, sintaticamen-
te correto e cognitivamente bem formado.
Dessa forma, o léxico se integra com a gramática: cada item lexical é
armazenado na memória juntamente com os traços que descrevem
suas possibilidades de comportamento gramatical. Desses traços,
provavelmente os mais importantes são aqueles que definem as cha-
madas classes de palavras: assim, recebemos é marcado como verbo,
o lÉXICO 153
I..) •.•.
em oposição a salário, que é um nominal, c 1111/, que é um artigo.
Cada uma dessas classes é definida em termos de um potencial fun-
cional: um verbo é uma palavra que pode ocorrer como núcleo do
predicado, como em
[10] Nós recebemos um salário miserável.
o verbo (ou melhor, as formas finitas do verbo) tem um potencial
funcional muito simples: só pode ocorrer na função de núcleo do
predicado. Já a palavra miserável aparece em mais de uma função: é
modificador em [10], mas pode ser ainda
[11] Nós recebemos um miserável salário de mil reais por mês.
(pré- núcleo)
[12] Aqueles miseráveis não têm quem os ajude. (núcleo do SN)
Palavras como miserável, que aliás são muito numerosas em portu-
guês, não cabem nem na classe tradicional dos "substantivos" (por-
que podem ser modificadores), nem na dos "adjetivos" (porque po-
dem ser núcleos de SNs). A única maneira rigorosa e correta de dar
a classe dessa palavra é citar seu potencial funcional. Isso acarreta a
existência de um grande número de classes de palavras, muito mais
do que as dez reconhecidas nas gramáticas escolares.
21.3 Um exemplo: o verbo bater
o verbo, apesar de sua simplicidade sintática, é de todas as classes
de palavras a que apresenta maior complexidade dos pontos de vista
morfológico e semântico. Vamos ver aqui um exemplo, o verbo bater.
Esse verbo é armazenado no léxico conforme suas propriedades (ou
traços), a saber:
Traços morlológicos
Bater é um verbo regular, da 2" conjugação.
mântlcos
Bater pode significar 'espancar', 'chocar-se', 'aparecer', 'atingir', 'der-
rotar' e provavelmente ainda outras coisas.
Traços valenciais
(isto é, a valência de bater)
Bater pode ocorrer em diversas construções, listadas abaixo com
exemplos:
C1 Sujeito>Agente V SN>Paciente
[13] O Atlético bateu o Flamengo. ('derrotar')
C4 Sujeito>Paciente V
[14] Meu carro bateu. ('chocar-se')
C5 Sujeito>Coisa.localizada V emSN>Lugar
[15] O cabelo dela batia na cintura. ('atingir')
C79 Sujeito>Agente V em SN>Paciente
[16] O canalha bateu no meu cachorro. ('espancar')
C93 Sujeito> Tema V em SN>Meta
[17] O carro bateu no poste. ('chocar-se']
[18] A Letícia bateu lá em casa de manhã cedo. ('aparecer')
o LÉXICO 155
Dentro do léxico, bater tem essas caracterlstlcas. entre outras. E,
além do mais, esse verbo se relaciona com outros de maneiras com-
plexas. Assim, pegando as valências, bater ocorre na construção Cl
juntamente com comer e fechar. Ocorre na C4 juntamente com fechar
(mas não comer); e na C93 juntamente com chegar; e assim por dian-
te. Morfologicamente, bater partilha seus traços com todos os verbos
regulares da segunda conjugação: comer, temer, vender etc. E seman-
ticamente, é um verbo de ação (como comer, mas não ser).
21.4 Papel do léxico no uso da língua
Os traços morfológicos, semânticos e sintáticos vistos não esgotam
as propriedades dos verbos. E, no entanto, temos tudo isso em nossa
memória, e são eles que nos permitem usar corretamente o verbo
bater ao falarmos português. O léxico, como se vê, se compõe de um
grande conjunto de relações entre itens individuais (para nós, pala-
vras) e propriedades gramaticais e cognitivas. O léxico, de certa for-
ma, faz a ponte entre esses itens e a estrutura da língua; para cada
item, o léxico fornece a resposta à pergunta "Como se pode usar essa
palavra para construir sentenças do português que sejam gramati-
calmente corretas e que façam sentido?"
Para finalizar
22.1 Sintaxe, língua e linguagem
Acabamos de ver um panorama da sintaxe, parte importante da es-
trutura da língua. E vimos que a sintaxe desempenha parte da função
básica da língua: relacionar formas e significados. Antes de encerrar
o livro, entretanto, é preciso deixar claro que a sintaxe só é respon-
sável por parte desse relacionamento - embora seja uma parte es-
sencial e importante.
Para ver como funciona o sistema, vamos começar com um exemplo:
digamos que eu diga
[1] Alguém abriu a porta.
Aqui temos uma realização da construção Cl, a saber,
C1 Sujeito>Agente V SN>Paciente
Mas a informação contida nessa fórmula não é suficiente para explicar
tudo o que entendemos ao ouvir [1]. Sem falar de elementos semânti-
cos como o tempo do verbo (passado), há ainda o significado de cada
item lexical e a relação de cada um com o verbo e com outros itens: o
sujeito é Agente, e é uma pessoa não identificada (alguém). O paciente
é uma porta, mas não qualquer uma: deve estar presente no momento
da enunciação, ou então foi mencionada anteriormente no discurso:
157
[2] A sala tinha duas janelas e uma porta; alguém abriu a porta.
Isso se tira da estrutura lexical e gramatical da sentença. Mas ainda
há mais coisas que se pode entender ao ouvir [1]. Se estiver ventan-
do muito, uma pessoa pode usar [1] para se queixar de que a porta
está aberta. E pode ainda perguntar:
[3] Alguém pode fechar a porta?
Temos aí uma pergunta, que pode ser parafraseada como "há alguém
em condições de fechar a porta?". Mas é bem provável que o falante
não queira dizer nada disso; na verdade, ele estápedindo que a porta
seja fechada.
Para chegar a essa interpretação, o ouvinte precisa lançar mão de in-
formação que não está na sentença, além de efetuar certas operações
cognitivas baseadas em seu conhecimento do mundo. Para [3], pode
ser um raciocínio mais ou menos assim:
(a) ele perguntou se alguém pode fechar a porta;
(b) ele não deve estar querendo saber se alguém tem força para
isso, porque é óbvio que qualquer um dos presentes pode fe-
char a porta;
(c) está ventando muito frio aqui dentro;
(d) se a porta for fechada, o vento vai parar e vamos ficar mais
confortáveis;
logo,
(e) ele quer que a porta seja fechada.
O passo (a) desse processo depende da interpretação da frase [3] em
termos de sua sintaxe e semântica; mas os passos seguintes depen-
dem de outro tipo de informação, que não se pode chamar estrita-
mente de "línguístíca"
Esse exemplo mostra como a sintaxe (e o resto da estrutura linguísti-
ca, como a morfologia e a fonologia) só é responsável por uma parte
do processo da compreensão. Em outras palavras, o objetivo funda-
mental da atividade linguística é atingido pondo em jogo conheci-
mcntov ti h.ibilidades linguístlcas stricto sensu [isto 6, gramaucals c
lexicais), mais conhecimentos e habilidades extralinguísLicas, rela-
tivas ao conhecimento do mundo que temos programado em nossa
mente. Assim, temos de concluir que
./
./
a sintaxe é apenas uma parte da língua;
a língua é apenas uma parte do sistema que nos permite che-
gar dos sinais sonoros à representação cognítiva, ou seja, à
compreensão final do que ouvimos ou lemos.
A sintaxe é, no entanto, um componente essencial desse processo, e
os outros componentes funcionam em grande parte a partir da in-
formação sintática disponível. Voltando ao exemplo acima, se não se
estabelecer previamente que alguém é o Agente, não será possível
chegar à compreensão; e se não se estabelecer que alguém é o sujeito
da oração, não poderemos estabelecer que é o Agente. Assim se inte-
gra a informação gramatical, lexical e cognitiva para permitir a cons-
trução da representação cognitiva e tornar possível a comunicação.
22.2 A gramática é feita de hipóteses
Vamos fechar o livro com uma avaliação final: o que é que estamos
fazendo quando construímos uma gramática?
Neste livro (e em muitos outros), encontramos inovações. Por exem-
plo, aqui não se faz diferença sintática entre "objeto direto" e "pre-
dicativo do sujeito" (quando este é um SN); ou seja, analisamos sin-
taticamente o sintagma em negrito como tendo a mesma função em
[4] Esses cachorros comeram a ração.
eem
[5] Esses cachorros são um problema.
Mas como podemos fazer isso, se vai contra o que está escrito nas
gramáticas? Afinal de contas, um problema em [5] é predicativo!
Como pode um indivíduo qualquer chegar e dizer que é objeto? A
PARA FINRLlZRR 159
resposta é que esse constituinte não é nem 1I1ll.' coisa nem outra.
Uma análise linguística é basicamente hipotética; e uma hipótes
pode ser mudada sempre que se demonstrar que ela é inadequada.
A gramática é toda feita de hipóteses, embora necessariamente ba-
seadas na observação de fatos. Aqui temos fatos como: tanto a ração
em [4] quanto um problema em [5] têm propriedades comuns, a sa-
ber: ocorrem depois do verbo; são compostos de SNs, ou seja, pode-
riam ser sujeito em outras frases; não estão em relação de concor-
dância com o verbo. Falando em termos de sintaxe, não há diferenças
importantes entre eles, de modo que os analisamos como tendo a
mesma função na oração. Eles são semanticamente diferentes, mas
isso é outra coisa; no momento estamos falando de sintaxe, ou seja,
de unidades e relações formais.
A análise tradicional, que diferencia o objeto em [4] do predicativo
em [5], na verdade tem motivação semântica; isso se pode ver em
definições como a seguinte:
quando a informação que se dá acerca do sujeito [ ...] está contida
num NOME [ ... ] ou pronome, que se denomina PREDlCATIVO [ ... ]5
Aqui não se fala de posição na sequência, nem de concordância,
mas da informação que o termo fornece a respeito do sujeito. Isso é
um traço semântico e precisa ser expresso, mas não através de uma
função sintática. Como estamos separando estritamente os dois es-
paços, vamos dizer que um problema é objeto na frase [5] - isso
em termos de sintaxe - e acrescentamos que fornece informação
relativa ao sujeito - o que é verdade, mas se expressa através do
papel semântico atribuído a um problema (que é Qualidade, sen-
do o sujeito esses cachorros a Coisa.qualificada). Como se vê, ao
mudarmos as hipóteses iniciais, a análise correspondentemente
precisa mudar também. E as duas frases podem ser analisadas da
seguinte maneira:
[6] Esses cachorros comeram a ração.
Sujeito>Agente V SN>Paciente
5 Adriano Gama Kury (1985). Novas lições de análise sintática. São Paulo: Ática, p. 26.
17/ ESSl'S cachorros
Sujeito>Coisa.qualificada
sao um problema.
V SN>Qualidad
Como se vê, as frases têm realmente análise diferente, mas não na sinta-
xe, que é a mesma para os dois casos: Sujeito V SN.A diferença aparece
na semântica, ou seja, nos papéis semânticos do sujeito e do objeto.
E aqui se pode perguntar: mas como vamos escolher entre as duas
análises? A resposta é que arribas, a tradicional e a que é oferecida
neste livro, são baseadas em hipóteses. Portanto, temos que avaliar
as hipóteses de uma e de outra; cada hipótese é avaliada em termos
de qualidades como as seguintes:
./
coerência interna e consistência das noções utilizadas
Por exemplo, cada função sintática é definida da mesma forma em
todas as suas ocorrências? Isso para evitar inconsistências como a
que mencionamos no capítulo 1, onde o sujeito é definido como "o
elemento que pratica a ação" (semântica), ou "o elemento do qual se
fala" (semântica), e também como "o elemento com o qual o verbo
concorda" (sintaxe), conforme o momento. Note-se, aliás, que a pa-
lavra elemento se refere a coisas do mundo nas duas primeiras defi-
nições, mas a um sintagma na terceira. Isso vem da confusão entre
fatos de forma e fatos de significado, ou seja, de uma hipótese inicial
que não tem o cuidado de fazer essa distinção; é essencial diferen-
ciar o sintagma o cachorro do animal propriamente dito, ou mesmo
do conceito desse animal. Um verbo pode concordar com um sintag-
ma, mas não com um cachorro.
./
utilidade das hipóteses na análise das estruturas da língua
Uma hipótese importante, que já conhecemos, é a de que as funções
sintáticas (por exemplo, sujeito) e as funções semânticas (por exem-
plo, Agente) devem ser cuidadosamente separadas. Uma razão é que
elas não vêm sempre juntas: em Vânia lavou o prato o sujeito é Agen-
te; mas em Vânia emagreceu o sujeito é Paciente; e em o cachorro
apanhou de Vânia o Agente é um complemento preposicionado, sen-
AA FIt-flU2AR 161
do que o sujeito é Paciente; e em Vânia é bonita o sujeito não é nem
Agente nem Paciente, mas a Coisa.qualificada.
À medida que analisamos mais e mais estruturas da língua, vamos
verificando se as hipóteses adota das funcionam satisfatoriamente
ou não; e se não funcionarem, temos de reforrnulá-las, de modo
que a análise fique coerente e adequada aos fatos observados. A
análise, por melhor que seja, é sempre provisória, porque não há
garantia de que alguém não possa inventar uma melhor a qual-
quer momento. Isso é uma condição do trabalho científico, e não
dá para escapar.
Portanto, se você pretende ser um linguista (ou apenas um cida-
dão bem informado sobre a sua língua), vai ter que se libertar de
alguns preconceitos muito espalhados e fortemente enraizados.
O principal desses preconceitos é o de que as afirmações encon-
tradas em uma gramática são todas fatuais e, portanto, incontes-
táveis. Algumas afirmações realmente expressam fatos, como por
exemplo a de que o passado de corro é corri. Mas outras são hipó-
teses, que podem ou não ser adequadas. Assim, se em uma gramá-
tica encontramos a afirmação de que "os pronomes possessivos
meu, seu, nosso, seguidos de substantivo, podem vir ou não pre-
cedidos de artigo definido",isso pode ser testado. Se verificarmos
que os falantes realmente aceitam sequências como o meu pai, a
nossa casa, e também meu pai, nossa casa, então a hipótese está
confirmada; se os falantes rejeitarem algumas dessas sequências,
então a hipótese precisa ser rejeitada ou pelo menos modificada
para dar conta dos dados.
E essa é a função das hipóteses: dar conta dos fatos. Isso quer di-
zer que elas substituem uma lista completa dos dados. Essa lista
seria impossível de elaborar, claro, porque os dados são em nú-
mero indeterminado - não é possível estabelecer quantas frases
existem em português, muito menos fazer a lista delas. Por isso,
construímos hipóteses, em forma de classes, funções e regras gra-
maticais, e essas hipóteses nos dizem antecipadamente o que va-
mos encontrar na língua. Em vez de dar uma lista de sequências
possíveis como a aba, o abacate, ... a zebra, o zurro, e sequências
impossíveis como *0 aba, *a abacate etc., construímos lima hipó
tese, dizendo que
../
os substantivos se dividem em masculinos e femininos; os
femininos aceitam o artigo a, e os masculinos o artigo o.
Essa hipótese tem a forma de uma regra. Ela se baseia em pelo me-
nos uma outra hipótese, que é a da existência de uma classe dos
substantivos, que deve estar devidamente definida em alguma par-
te da gramática. Mas todas as hipóteses precisam estar justificadas
(em termos de sua utilidade na descrição) e cuidadosamente funda-
mentadas nos fatos, isto é, nas ocorrências de formas da língua tais
como se observam na realidade.
PARR FINALlZAA 163
leitura complementar
A bibliografia existente sobre sintaxe é enorme; dou aqui apenas uma
breve seleção de obras relevantes para quem deseja aprofundar seus es-
tudos de sintaxe do português, seguindo mais ou menos as linhas utiliza-
das no presente livro.
Gostaria de enfatizar que todas as obras mencionadas devem ser lidas cri-
ticamente - isto é, com a preocupação constante de avaliar até que ponto
as ideias ali expressas fornecem a base para uma análise adequada dos
dados da língua (o mesmo se aplica ao presente livro, evidentemente).
BAGNO, Marcos (2012). Gramática pedagógica do português brasileiro.
São Paulo: Parábola.
Ver em especial o Livro IV (capítulos 9 a 20).
CASTILHO, Ataliba T.(2010). Nova gramática do português brasileiro. São
Paulo: Contexto.
Uma das obras que, a partir de 2002, vêm tentando renovar as ideias gra-
maticais, procurando maior coerência teórica e adequação aos fatos da
língua.
CASTILHO, Ataliba T.(org.) Gramática do português culto falado no Brasil.
Trata-se de uma importante coleção de estudos sobre vários aspectos do
português. Não são de leitura muito fácil, mas representam uma contri-
buição importante ao conhecimento da estrutura da língua. Para sintaxe,
recomenda-se em especial os seguintes volumes:
165
166
KATO, Mary Kato; NASCIMENTO, Milton do (orgs.) (2015). A cons-
trução da sentença. São Paulo: Contexto.
MOURA NEVES, Maria H. (org.) (2016). A construção das orações
complexas. São Paulo: Contexto.
Para a área especial de classes de palavras, ler:
ILARI, Rodolfo (org.) (2014). Palavras de classe aberta. São Paulo:
Contexto.
ILARI, Rodolfo (org.) (2015). Palavras de classefechada. São Paulo:
Contexto.
HUDDLESTON, Rodney (1984). Introduction to the Grammar of English.
Cambridge: Cambridge University Press.
Excelente exposição dos principais problemas relativos à descrição lin-
guística, com especial ênfase na sintaxe. Altamente recomendado como
leitura e como obra de referência.
OTHERO, Gabriel de A; KENEDY, Eduardo (orgs.) (2015). Sintaxe, sinta-
xes: uma introdução. São Paulo: Contexto
Apresentação sintética de várias correntes atuais na área da sintaxe.
PERINI, Mário A (2002). Modern Portuguese: a reference grammar. New
Haven: Vale University Press.
A primeira gramática do português brasileiro falado a ser publicada. Diri-
gida de preferência ao ensino da língua a falantes de inglês.
PERINI, Mário A (2006). Princípios de Iinguística descritiva: introdução
ao pensamento gramatical. São Paulo: Parábola.
Introdução geral à linguística, com ênfase em sintaxe e semântica.
PERINI, Mário A. (2016).Gramática descritiva do português brasileiro. Pe-
trópolis: Vozes.
Descrição da estrutura do português brasileiro falado. Indicado para de-
senvolver as ideias básicas encontradas no presente volume. Esta Gra-
mática procura colocar a descrição do português em linha com as ideias
atuais, tanto no que se refere à orientação teórica quanto no que se refere
à adequação aos fatos da língua.
llNGuíSTICA
PARA O ENSINO SUPERIOR
1. Morf%gia - Carlos Alexandre Gonçalves
2. Prosódia - Plínio A. Barbosa
3. História do português - Carlos Alberto Faraco
4. Sintaxe - Mário A. Perini
S. Libras - Ronice Müller de Quadros
6. Semântica - Celso Ferrarezi Jr.
7. Anólise do discurso - Sebastião Josué Votre
8. Descrição do português brasileiro - Renato Miguel Basso
Esta obra foi composta em Cambria 11/15
e impressa em papel Lux Cream 609
para a Parábola Editorial em outubro de 2019.
Impressão e acabamento:
Mundial Gráficaobras introdutórias de qualquer ciência. Não tive, portanto,
a preocupação de descrever um modelo de análise completo; mas,
naquilo que foi incluído, procurei manter a coerência em todos os de-
talhes, de modo a passar a mensagem de que uma análise linguística
é uma forma de descrever, de maneira bem motivada, fatos obser-
váveis da língua. Dentro dessa perspectiva, concentrei a exposição
na estrutura da oração simples, com relativamente pouca menção ao
período composto; isso se tornou necessário em vista das restrições
de espaço da presente coleção.
O objetivo do volume pode ser sumariado em três pontos: primeiro,
mostrar e ilustrar o tipo de raciocínio que subjaz a qualquer estudo de
sintaxe; segundo, sustentar que esse raciocínio se fundamenta neces-
sariamente na observação ampla e sistemática dos fatos da língua; e,
finalmente, deixar claro que a sintaxe do português (e de qualquer ou-
tra língua) é um imenso território a explorar. Paralelamente, claro, foi
1 Anna Wierzbicka (1996). Semantics: Primes and universais. Oxford-New York: University of
Oxford Press [tradução minha].
2 Ouvi de meu professor David DeCamp (c. 1972) o seguinte comentário: "Enquanto as teorias
vão e vêm, tudo o que fica é o estilo de raciocínio".
3 Principalmente Mário A. Perini (2016). Gramática descritiva do português brasileiro. Petró-
polis: Vozes.
4 Peter Culicover; Ray S. jackendoff (2005). Simpler syntax. Oxford-New York: Oxford Univer-
sity Press.
5 Adele Goldberg (1995). Constructions - a Construction Grammar Approach to Argument
Structure. Chicago-London: The University of Chicago Press; Adele Goldberg (2006). Construc-
tions at work. Oxford-New York: Oxford University Press. As razões para as diferenças na noção
de construção são explica das em meu livro Describing verb valency - practical and theoretical
issues. Cham: Springer, 2015.
PREFACIO
19
o
1mlnante {' algumas outras funções poli" as qu.ils nau existe dcnorni-
naçao usual, mas que são suficientemente motivadas pela pesquisa
recente. No texto, tenho o cuidado de definir todos os termos à me-
dida que são introduzidos, de modo que essas novidades não devem
representar dificuldade especial para a compreensão do texto.
A linguagem utilizada como fonte de exemplos é o português padrão
escrito, tal como se encontra na imprensa brasileira atual. Essa não é a
variedade principal do português brasileiro - o português brasileiro
falado, em geral chamado o PB, tem uma importância social muitís-
simo maior, por ser a língua falada pela totalidade dos habitantes do
nosso país; no entanto. me pareceu indicado usar, nesta introdução, a
variedade que se encontra na maioria das gramáticas usuais, inclusi-
ve todas as que são adotadas na escola. Quanto ao estudo do PB, que
considero fundamental para futuros professores e pesquisadores da
língua, ele pode ser desenvolvido com base na bibliografia disponível,
que cresceu muito nos últimos anos. Nas indicações bibliográficas do
fim do volume, menciono os trabalhos mais importantes e facilmente
acessíveis que devem fundamentar tais estudos.
A abordagem gramatical aqui oferecida é estritamente sincrônica;
ou seja, descreve-se a língua tal como existe e funciona no atual
momento. Considerações de ordem diacrônica não têm cabimento
em um estudo descritivo da língua como instrumento de comuni-
cação em uma sociedade em determinada época. O estudo histórico
tem, evidentemente, seu lugar, mas em uma obra especial, como por
exemplo em um dos outros volumes desta coleção.
Para terminar, gostaria de agradecer a alguns colegas que contri-
buíram de várias maneiras para a realização deste livro. Primeiro,
agradeço a Tommaso Raso e Celso Ferrarezi [r., que me convidaram
a integrar a equipe que escreveu a presente série e que contribuíram
com valiosas sugestões para melhorar o texto. E agradeço muito es-
pecialmente a Lúcia Fulgêncio, por sua leitura crítica, que muito me
ajudou a dar ao texto um caráter mais prático, de modo a torná-lo um
instrumento mais útil no estudo da sintaxe.
o que é sintaxe?
1.1 Relação forma/significado
Vamos começar com uma observação bastante óbvia: uma língua é
um sistema que relaciona sequências de sons (ou letras, na escrita)
e estruturas de significado. Um exemplo muito simples é a sequência
sonora ['gatu], ou a sequência gráfica gato, que associamos ao con-
ceito de uma espécie de animal. Conseguimos comunicar-nos por-
que adquirimos um grande número dessas associações; o conjunto
completo dessas associações se chama língua portuguesa.
O exemplo dado acima é muito simples, mas as associações som/sig-
nificado podem ser muito mais complexas. Por exemplo, a sequência
[1] O gato arranhou a menina.
nos fornece muito mais do que simplesmente uma referência a um
tipo de animal e a um ser humano. Aqui temos uma sequência formal
muito mais complexa, usada para transmitir, entre outras, a infor-
mação de que foi o gato que arranhou a menina (se fosse o contrá-
rio, teríamos a menina arranhou ogato). Transmitir essa informação
depende de uma associação convencional entre forma e significado.
Vamos examinar mais de perto essa associação. Na frase [i], temos
uma correlação entre a ordem dos termos e o significado: entre os
termos o gato e a menina, o que aparece no início é o que pratica a
ação de arranhar e o que aparece no final é o que acaba arranhado. A
21
ordem dos lermos pertence à sintaxe, IlltlS, (.'01ll0 se vê, conta apenas
parte da história - ou seja, o falante pode manipular a ordem dos
termos (ou seja, a sintaxe) para controlar a mensagem que preten-
de transmitir. A ordem dos termos nos diz apenas que tanto o gato
arranhou a menina quanto a menina arranhou o gato são frases do
português (ao contrário de *arranhou o gato a menina), mas ainda
não nos diz nada sobre a maneira como associamos sons e significa-
dos neste caso particular (o asterisco, *, serve para marcar formas
inaceitáveis na língua). É quando acrescentamos o significado dessas
frases que podemos dizer alguma coisa de interesse sobre a língua:
por exemplo, podemos dizer que, em frases desse tipo, o Agente (en-
tidade que pratica uma ação) vem antes do verbo (aqui, arranhou),
e o Paciente (entidade que sofre a ação) vem depois do verbo. E,
naturalmente, o verbo arranhou nos informa de que tipo de ação se
trata. Essas correlações exprimem uma pequena parte do sistema de
associações que chamamos de "língua portuguesa".
1.2 Descrição sintática
Para alguns linguistas, a sintaxe se resume à exposição dos arranjos
formais possíveis em uma língua, sem referência a seu significado.
Mas essa posição é mais adotada em princípio do que na prática; fa-
zer sintaxe sem levar em conta alguns aspectos do significado acaba
restringindo a descrição gramatical a afirmações como a de que tan-
to [1] quanto [2]
[2] A menina arranhou o gato.
são frases bem formadas em português. Isso deixa de lado o mais
importante: essas frases representam mensagens distintas, no que
se refere a quem arranhou quem - ou seja, deixa de considerar
a função básica da língua, que, como vimos, é a de relacionar se-
quências de sons com estruturas de significado. Por isso devemos
admitir que estudar os arranjos formais se faz em conexão com o
estudo de certos aspectos das mensagens que esses arranjos trans-
mitem. Assim, na frase [1], o fato formal "ocorrer antes do verbo" se
·OITCl.u 101101('0111 () fato de significado "praticar a ação". Em termos
técnicos, ().c/oLo, que aparece antes do verbo, tem a função sintática
de sujeito; e a menina, que aparece depois do verbo, é o objeto.
Dizemos, então, que quando o verbo é arranhar o sujeito expressa
o elemento que pratica a ação (chamado o Agente) e o objeto o que
sofre a ação (o Paciente).
Mas é preciso manter a distinção entre os fatos formais e os fatos de
significado (que podemos chamar de fatos semânticos). São dois ti-
pos de fatos bem distintos, e sua associação é realizada pela língua de
maneira a permitir a transmissão da mensagem. Fatos de significado
constituem a informação transmitida e fatos formaissão o instru-
mento para a transmissão dessa informação. Confundí-los equivale a
confundir a informação "estacionamento proibido" com a placa que
dá a informação: seu material (lata, tinta) e sua forma (uma letra E
com uma barra vermelha).
Para dar mais alguns exemplos: na frase
[3] Carol está bonita.
são fatos formais: Carol vem logo antes do verbo; o verbo é está; esse
verbo está no presente (em oposição a estava, que tem outra ter-
minação); bonita está no feminino singular (terminação -a). E são
fatos semânticos: bonita exprime uma qualidade; essa qualidade é
atribuída a Carol; a situação descrita é válida no presente (em opo-
sição a Carol estava bonita, que descreve uma situação passada). Em
particular: notar como é preciso distinguir o tempo verbal (está em
oposição a estava), que é um traço formal do verbo, da referência
temporal (presente em oposição a passado), que é um detalhe da
mensagem transmitida, e é, portanto, um traço semântico. Em portu-
guês, a terminação do verbo pode exprimir o momento do tempo em
que uma afirmação é válida; a terminação também exprime outros
traços semânticos, que vamos deixar de lado por ora.
Outro exemplo:
[4] Carol pensou em você.
o QUE É SINTAXE?
23
Aqul lemos, de novo, Coral antes do verbo; este é pensou, com uma
terminação de perfeito; e há ainda um complemento, introduzido
pela preposição em. Semanticamente, entende-se que Carol teve um
pensamento (uma espécie de atividade mental); que esse evento se
deu no passado; e que o objeto do pensamento (aquilo que surgiu
na mente de Carol) foi você. Note-se ainda como, ao mudar o verbo
(pensar em vez de arranhar) as relações atribuídas aos diferentes
complementos (sujeito etc.) também mudam; trataremos desse fe-
nômeno mais adiante (capítulo 9).
,
1.3 Crítica da análise tradicional
As gramáticas usuais frequentemente confundem os planos formal
e semântico, como por exemplo quando se referem ao sujeito como
"o elemento que pratica a ação", ou "do qual se fala" (semântica), e
também como "o elemento com o qual o verbo concorda" (sintaxe):
aqui temos uma definição mista de sujeito, parte semântica e parte
formal. Isso mistura os dois planos, além de nem sequer ser verda-
deiro: veremos que o elemento que pratica a ação pode ser expresso
por outros termos que não o sujeito, e o sujeito nem sempre expres-
sa o elemento que pratica a ação. Por isso, vamos fazer uma distinção
necessária: o elemento que pratica a ação será para nós o Agente; e o
elemento com o qual o verbo concorda, e que frequentemente (nem
sempre!) aparece antes do verbo chamaremos de sujeito. Agente é
uma função semântica, e sujeito é uma função sintática. Só manten-
do essa distinção é que podemos fazer afirmações gramaticais im-
portantes, como por exemplo a de que quando o verbo é arranhar o
sujeito exprime o Agente.
Outra fonte de confusão aparece quando se utiliza o mesmo termo
para noções semânticas e formais. Assim, chama-se "pessoa" duas
coisas muito diferentes: primeiro, determinados sufixos verbais,
como o de penso em oposição a pensa e pensamos - aqui temos um
traço formal. Depois, chama-se igualmente de "pessoa" a distinção
entre participantes de um discurso: a primeira pessoa é o falante, a
segunda o ouvinte e a terceira outra pessoa ou coisa qualquer. Mas
aqui temos um traço semântico, que mereceria uma designação se-
pararl.t NI'de sua
promoção. Exemplos como esses mostram que a própria noção de
objeto indireto, tal como a encontramos nas gramáticas escolares,
carece de significação gramatical - o que encontramos na língua é,
de um lado, a sequência de uma preposição (a) mais um sintagma
nominal; e, de outro lado, relações semânticas como "destinatário"
e "beneficiárío", E nem sempre há correspondência entre esses dois
elementos, como os exemplos mostram.
Devo esclarecer que a crítica feita neste livro a diversos aspectos da
gramática tradicional se dirige à tradição gramatical e suas inade-
quações. Não há implicação de que os autores examinados sejam in-
competentes ou mal informados: eles simplesmente trabalham den-
tro de um esquema teórico deficiente, o que os impede de chegar a
uma análise correta dos fatos da língua. É para evitar situações como
essa que dou atenção especial neste livro aos pressupostos teóricos
que norteiam a análise da língua. A gramática de Bechara (2009) é
tomada como exemplo, por ser de ampla adoção nas escolas e por
ser, dentro dos limites da gramática tradicional, uma das melhores
atualmente disponíveis.
o QUE É SINTAXE?
27
Constituintes
"
2.1 Cortando frases
Uma frase não é simplesmente uma sequência de palavras; as pa-
lavras se agrupam de várias maneiras, que correspondem a seus
componentes de significado. Para ver isso mais claramente, vamos
começar com um exemplo:
[1] O carro de Luísa é azul.
Podemos dividir essa frase de várias maneiras, obtendo partes como:
o carro de Luisa
Luisa
Luisa é azul
de Luisa é
e assim por diante. Mas algumas dessas partes não parecem certas
dentro dessa frase. O carro de Lulsa e Luisa parecem satisfatórios e
seu significado contribui para o significado total da frase; ou seja,
estam os falando do carro de Luísa e também de Luísa (como dona
do carro). Mas Luisa é azul diz uma coisa que a frase [1] não diz; e de
Luisa é não chega nem a dizer alguma coisa, parecendo uma sequên-
cia de pedaços que não se juntam. Como se vê, temos acesso intuitivo
às partes da frase, e isso não depende simplesmente de essas partes
corresponderem a sequências de palavras presentes ali: há algo mais
a ser levado em conta.
29
o
Outra Indlcação é que existe a possibilidade, em certos casos, de
transportar parte da frase, de modo a mudar a ordem dos elementos;
isso se aplica a algumas partes, não a outras; assim, podemos dizer
[2] É azul, o carro de Luísa.
A slnt.rx« 1l';lIlitlha basicamente com ()S constituintes. Por exemplo,
em 111 .1 suquência o carro de Luisa pertence a uma classe: é um sin-
tagma nominal e tem uma função sintática: é o sujeito. Mas a se-
quência Luísa é azul, nessa frase, não é nada: não pertence a uma clas-
se nem tem função sintática. Poderia ser um constituinte em outra
frase, como em
mas nunca
[3] *Luísa é azul, o carro de. [6] Ela disse que Luísa é azul.
Ou seja, a frase [1] se segmenta da seguinte forma:
.. mas não em [1]. E de Luisa é não é, nem poderia ser, um constituinte
em nenhuma frase da língua .
[4] [O carro de Luísa] [é azul]
[5] *[0 carro de] [Luísa é azul]
Sintagma nominal é o nome de um tipo de constituinte, que es-
tudaremos mais adiante (capítulo 16); e sujeito é uma função
sintática, que veremos no capítulo 4. As sequências que formam
constituintes se chamam sintagmas; há constituintes que não são
sintagmas, mas não são estudados na sintaxe e não nos interes-
sam aqui. Aqui me refiro principalmente aos morfemas, como em
cheq+ou; estes são objeto de estudo da morfologia, tratada em ou-
tro volume desta coleção",
Se fizéssemos a segmentação de outra forma, por exemplo
teríamos não apenas uma sequência (Luísa é azul) que, embora pos-
sa ter significado, não corresponde ao que a frase [1] está dizendo,
mas também uma sequência, o carro de, à qual é difícil atribuir algum
significado e que, além disso, não pode ocorrer em outras posições.
As partes da sentença que recebem significado coerente, e que po-
dem às vezes aparecer em outras posições na sentença, se chamam
constituintes. A sintaxe se ocupa de diversos aspectos dos consti-
tuintes: sua posição na sequência, as relações gramaticais que cada
um tem com seus companheiros de frase etc. Já as sequências que
não são constituintes não são levadas em conta pela sintaxe e são
consideradas puramente acidentais. Assim, a primeira operação em
uma análise sintática consiste em distinguir quais são os constituin-
tes da frase em estudo. Para determinar os constituintes de uma sen-
tença (ou outra unidade), temos dois testes:
(a) a possibilidade de colocar a sequência em outras posições;
(b) a possibilidade de atribuir um significado único à sequência.
É bom notar que nenhum desses testes é infalível: o primeiro (colo-
cação em outras posições) muitas vezes não funciona; o segundo é
mais confiável.
2.2 Constituintes na gramática
Um constituinte - digamos a sequência o carro de Luisa em [1] -
tem então propriedades formais e também semânticas, que preci-
sam ser distinguidas mas que estão em correlação umas com as ou-
tras. O carro de Luisa é um sintagma nominal e, como tal, tem entre
outras as seguintes propriedades:
Propriedades semânticas
./ forma uma unidade de significado;
./ refere-se a uma coisa.
1 Carlos Alexandre Gonçalves (2019). Morfoloqia para o ensino superior. São Paulo: Parábola
Editorial.
CONSTITUINTES
31
Propriedades slntótlcas Por ora, V;1I110S ficar apenas com tl advertência de que a confusão
terminulógica entre referências a fatos formais e fatos semânticos é
muito comum nas gramáticas; precisamos ter cuidado a cada passo
para não perder o rumo .
Já a sequência de Luísa é. que não forma constituinte, não tem um
significado unificado; não tem função sintática (não é sujeito, nem
nada mais, da oração a que pertence); não tem gênero, nem número.
Voltando então aos constituintes da sentença: na frase
./ é masculino (por isso podemos dizer o carro de Luísa é
vermelho, não *0 carro de Luísa é vermelha);
./ é o sujeito da frase [1] (por isso o verbo precisa ser é, não
sou ou são).
Note-se que o fato de esse sintagma ser masculino não é uma pro-
priedade semântica, porque não corresponde a nada no plano do
significado. Os sintagmas geralmente se dividem em masculinos e
femininos de maneira arbitrária: por que é que o carro é masculino
e a casa é feminino? Trata-se de um traço formal da língua, na maio-~
ria dos casos sem correlato com nenhuma diferença sistemática no
mundo real.
[7] Ocarro de Luís é branco.
os constituintes são
Como na língua as coisas costumam ser complexas, existem casos
em que essa correlação existe: a gata não apenas é feminino, mas
se refere a um ser do sexo feminino, em oposição ao masculino o
gato. Mas, mesmo nesse caso, a correlação é mais aparente do que
real: podemos nos referir à gata dizendo esse animal, que é mas-
culino. Aqui também é importante distinguir cuidadosamente os
fatos de forma dos fatos de significado: a gata é gramaticalmente
feminino e se refere a um ser feminino; esse animal é gramatical-
mente masculino, mas pode se referir (conforme o contexto) a um
ser feminino.
[8] [Ocarro de Luís] [é branco]
A confusão vem de usarmos as mesmas palavras, masculino e femi-
nino, para designar coisas muito diferentes: uma palavra ou um sin-
tagma é feminino quando determina o uso de certas outras palavras
com determinada flexão: casa coocorre com amarela, feia, pequena
etc. E um ser é feminino quando pertence ao sexo feminino - nesse
sentido, claro, casa não é nem feminino nem masculino. São coisas
muito diferentes e mereceriam ser chamadas com palavras diferen-
tes; mas, como temos de estudar a todo momento textos que seguem
a (confusa) nomenclatura tradicional, é importante ter em mente
que palavras como masculino e feminino significam duas coisas dis-
tintas. Ocorreto seria falar aqui de gênero gramatical e gênero na-
tural; mas não é esse o costume, e precisamos evitar introduzir mui-
tos termos novos, o que pode deixar o texto difícil de acompanhar.
O constituinte o carro de Luís tem várias propriedades sintáticas:uma
delas é ser masculino; outra é ser singular; e outra é ser o sujeito da frase.
É masculino não por alguma característica do seu significado (car-
ros não têm sexo), mas porque uma palavra que o qualifique fica na
forma que chamamos "masculina": daí, branco, e não branca, e tam-
bém o e não a. É singular não porque seja um carro só, mas porque
o qualificativo é branco e não brancos. Isso porque há casos em que
uma palavra é singular (gramaticalmente) e significa mais de um
ser, ou vice-versa. O primeiro caso se vê em aquela multidão, onde
a referência é a um número grande de pessoas; e o segundo é o de
minhas costas, que se refere a uma parte apenas do corpo. E o carro
de Luís em [8] é sujeito não porque estamos falando dele, ou outra
razão semântica qualquer: é porque o verbo precisa ter a forma é, e
não somos, sou ou são. Como se vê, estamos falando aqui de traços de
forma, não de significado.
2.3 Semântica dos constituintes
Por outro lado, os constituintes de uma sentença têm também uma
face semântica. A mais evidente é a seguinte: sequências que não
CONSTITUINTES
33
formam constituintes n50 formam tamboru unid.ulcs de significado.
Pegando novamente o exemplo [1],
[1] O carro de Luísa é azul.
vemos que há uma afirmação ("é azul") aplicada a uma coisa ("o
carro de LUÍsa"); e essas unidades de significado correspondem
exatamente às unidades sintáticas o carro de Luisa (sujeito da fra-
se) e é azul (tradicionalmente, o predicado da frase). A sequência
Luisa é azul, que também está em [1], mas não forma constituinte,
não significa. nada nessa sentença. Como vemos, existe uma cor-
relação entre a forma e o significado das sentenças. É bom avisar
desde já que essa correlação não é direta nem simples; mas disso
trataremos em outra oportunidade.
Outra característica semântica dos constituintes é que muitos deles
podem ser mencionados uma segunda vez, utilizando-se um tipo de
palavra especial, que tem a função de designar alguma coisa presen-
te em outro lugar na sentença. Assim, podemos dizer
[9] O carro de Luísa é azul; ele está um pouco sujo.
Aqui fazemos duas afirmações a respeito do carro de Luísa: é azul e
está um pouco sujo. Mas não repetimos o sintagma o carro de Luisa:
da segunda vez, podemos utilizar a palavra ele, que se refere ao carro
sem repetir o que já se disse. Esse fenômeno se denomina anáfora, e
palavras como ele podem ser denominadas anafóricos. Nas gramá-
ticas usuais, ele é classificado como "pronome"; mas essa palavra é
tão mal definida que vai ser evitada aqui. Há inclusive anafóricos que
não são chamados pronomes na gramática tradicional- por exem-
plo, também no próximo exemplo.
Por ora, observemos que um anafórico só pode retomar um consti-
tuinte. Voltando a nossa frase, é azul pode ser retomado pelo anafó-
rico também:
[10] O carro de Luísa é azul, e a minha moto também.
'/(111111/:/11, 11I,,;.,a11\.se, significa "6 azul", e 6 usado para evitar uma
rcpctlcao desse constituinte. Mas não há meio de retomar anafori-
camentc uma sequência como Luisa é azul - isso porque não é um
constituinte, não é uma parte legítima da estrutura, e não tem signi-
ficado coerente.
Esses exemplos mostram como a definição dos constituintes de uma
sentença é uma etapa fundamental em sua análise.
35
CONSTl~UINT~S
Forma e significado
3.1 Sintaxe como estudo da forma
Vimos, no capítulo anterior, que certas categorias gramaticais, como
as orações, têm uma face formal e uma face semântica. Essa é uma
distinção a ser levada em conta a cada passo ao se estudar sintaxe.
Relembrando, chamamos de formais as regras e outras afirmações
que descrevem a maneira como se organizam os elementos dire-
tamente perceptíveis, pelo som ou pela representação gráfica - e
mesmo pela representação tátil, como no caso do alfabeto Braille, ou
ainda por gestos, como em Libras; o que importa é serem sensorial-
mente perceptíveis. E chamamos de semânticos os elementos que
daí depreendemos e representamos mentalmente.
Pode-se entender a sintaxe como o estudo da face formal das senten-
ças; assim, em uma frase como
[1] Os meus alunos ajudavam a diretora.
dizemos que o sujeito (os meus alunos) vem antes do verbo, que o
verbo concorda com o sujeito (ajudavam, e não ajudava ou ajudáva-
mos), que o artigo (os) concorda com o núcleo do sintagma nominal
(alunos) etc. Esses são fatos formais, que podem ser verificados sim-
plesmente olhando para a frase e suas partes.
As definições de sintaxe encontradas na literatura costumam enfatizar
o aspecto formal, em geral de maneira implícita. Assim, a sintaxe seria
37
o
() ramo da gramáuca que trata tia ()l'g.IIIII..l~.i() das palavras em es
truturas maiores, em particular em sentenças; equivalentemente, o
estudo da estrutura da sentença.
Termo tradicional para o estudo das REGRAS que regem a maneira como
as PALAVRAS se combinam para formar as sentenças de uma língua'.
ro CIII \'t' I:OIII/)///('/, 'computador' l' pcn 'canela', o que não prejudica
as possibilidades de comunicação nessa língua. O russo, por outro
lado, divide os substantivos em três gêneros, não apenas dois: dom
'casa' é masculino, okno 'janela' é neutro, e kniga 'livro' é feminino;
novamente, trata-se de uma exigência arbitrária da língua, sem con-
sequência para o significado - o que não impede que em russo seja
totalmente inaceitável dizer *etot okno, com o determinante etot no
masculino; é tão inaceitável quanto dizer em português *essejanela.
Finalmente, em português, leite é masculino, mas em espanhol seu
cognato leche é feminino.
É interessante notar que essas definições não limitam a sintaxe ex-
clusivamente aos aspectos formais; por exemplo, Crystal fala apenas
da maneira como as palavras se combinam para formar sentenças,
sem explicitar que tipos de regras realizam essa tarefa. Mas a com-
binação das palavras na sentença não depende apenas de fatores
formais: há também correlações semânticas. Um exemplo é a organi-
zação de constituintes, que, como vimos no capítulo 2, corresponde
a unidades de significado. É possível que mesmo a concordância do
verbo seja no fundo um fenômeno semântico-.
Esses pontos em que há correlação entre forma e significado são
especialmente relevantes porque estão entre os responsáveis pelo
fato de, ao ouvirmos uma sentença, conseguirmos compreender o
que ela quer dizer. Esses são os aspectos da estrutura que contri-
buem para levar a efeito o objetivo básico da linguagem, que é o de
transmitir significados.
Já os aspectos formais que não têm correlato semântico não são im-
portantes nesse sentido e podem ser considerados parte do ruído
da comunicação. Por exemplo, o fato de computador ser masculino
e caneta, feminino não ajuda em nada na compreensão dessas pala-
vras, ou das sentenças em que elas ocorrem; é apenas uma exigência
arbitrária da língua. Isso não quer dizer que tais traços não sejam
parte da estrutura da língua - sabemos muito bem que não é acei-
tável dizer *uma computador ou *0 caneta. É que as línguas não são
instrumentos maximamente eficientes em sua tarefa de sinalizar
significados. Aliás, se fossem, todas as línguas teriam gramáticas se-
melhantes, o que não é verdade: em inglês não há diferença de gêne-
3.2 Sintaxe determinada pelo significado
Vamos pegar agora um fenômeno em que um traço formal tem cor-
relato semântico: a ordem adjetivo/substantivo (ou, melhor dizendo,
modificador /núcleo) dentro do sintagma nominal. Sabemos que essa
ordem pode variar; temos o adjetivo depois do substantivo, como em
[2] Um dia lindo
subst adj
e também a ordem oposta, como em
[3] Um lindo dia
adj subst
Nesse exemplo, a ordem não acarreta grande diferença de significa-
do: os sintagmas [2] e [3] são ambos aceitáveis e significam a mesma
coisa. Mas em outros casos só uma das ordens ocorre:
[4] Um relógio japonês
[5] *Um japonês relógio
I A primeira citação é de R. L. Trask (1992). A Dictionary ofGrammatical Terms in Linguistics.
London: Routledge. A segunda é de D. Crystal (1988). Dicionário de linguística e fonética. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar.2 Sobre isso ver M. A. Perini (2016). Gramática descritiva do português brasileiro. Petrópolis:
Vozes.
O que nos interessa aqui é que essa proibição da ordem mostra-
da em [5] tem um correlato semântico. A regra é que adjetivos que
denotam origem nacional ou regional (denominados proventivos)
FORMA E SIGNIFICADO
39
v
I1U/H"1 podem ocorrer antepostos; d.l í ;1 I/ldee/ tabilidade de [SJ,
e também de "brasileiros produtos, "baiana culinária etc. As con-
dições que governam a colocação do adjetivo não são totalmente
conhecidas, mas essa pelo menos é clara, e sem exceções. Quando
ocorre um sintagma como
[6] A britânica pontualidade de Eduardo
de p.tpel' !! WI/II paper 'papel de parede'; nessas scquências, o último
elemento l' () núcleo (ou seja, no primeiro caso estamos falando da
parede, no segundo do papel). Essa regra funciona em inglês para
todos os casos onde há propriamente uma sequência de nominais; as
exceções são expressões idiomáticas, não sequências sintáticas: heir
apparent, attorney general.
com o modificador antes do núcleo, não se trata de uma pontuali-
dade proveniente da Grã-Bretanha, mas de uma qualidade que, por
alguma outra razão, chamamos britânica - ou seja, não se trata de
um proventivo. A regra que proíbe os proventivos de ocorrerem an-
tepostos continua valendo.
Em outros casos, a posição acarreta uma diferença clara de significa-
do; é o caso de
3.3 Espaços: formal, semântico e simbólico
Temos então de observar três tipos de fatos:
(a) fatos formais - por exemplo, na frase
[10] Esses gatos arranharam o meu cachorro.
[7] Um simples secretário
[8] Um secretário simples
o constituinte esses gatos vem em primeiro lugar, logo antes de arra-
nharam; e os dois concordam em número de pessoa (terceira pessoa
do plural).
(b) Fatos semânticos - essa mesma frase relata que uma entida-
de pratica a ação de "arranhar", e outra sofre essa ação.
(c) Fatos simbólicos, ou seja, relações entre fatos formais e fatos
semânticos - na frase [10], o constituinte que aparece antes
do verbo, e em relação de concordância com ele, exprime a en-
tidade que pratica a ação.
Esse fenômeno é frequentemente mencionado como a manifestação
de três espaços da língua: o formal (sintático, morfológico e fonoló-
gico), o semântico e o simbólico.
Os fatos simbólicos são os que nos interessam principalmente, já
que são eles que exprimem a relação entre forma e significado de
que se falou no capítulo 1. Mas para formulá-Ias é essencial man-
ter, em um primeiro momento, estritamente separados os outros
dois tipos de fatos, formais e semânticos. É necessário, antes de
tudo, evitar definir fatos formais em termos semânticos, ou vice-
-versa; e esse é um problema que se encontra com frequência nas
gramáticas atuais.
Aqui, novamente, precisamos lançar mão do significado do adjetivo
para saber em que posição ele vai ocorrer.
E, finalmente, existem adjetivos de posição fixa, sem que se conheça ra-
zão semântica para isso. Assim, baita, mero, reles só ocorrem antepostos:
[9] Um baita salário (cf. "um salário baita)
Aqui a regra precisa mencionar a palavra, sem consideração de seu
significado.
A ordem das palavras é, tradicionalmente, considerada parte da sin-
taxe; mas, como acabamos de ver, a ordem depende em certos casos
de fatores formais (baita), em outros, de fatores semânticos ijapo-
nês, simples). Isso faz com que seja difícil, ou pelo menos pouco inte-
ressante, estudar a sintaxe como um fenômeno puramente formal.
Outro exemplo envolvendo funções sintáticas - novamente, a ordem
dos termos - é o de sequências inglesas como paper wall 'parede
FORMA E SIGNIFICADO
41
3.4 A noção de "pessoa": formal e semântica
Vamos examinar um exemplo, relativo a um fenômeno da língua já
mencionado anteriormente. Uma gramática recente traz a seguinte
informação, referente ao pronome você e outros semelhantes":
Existem [...] formas de tratamento indireto de 2a pessoa que levam o
verbo para a 3a pessoa. [p. 165]
Ou seja, a palavra você é de "2a pessoa", mas o verbo concorda com
ela na "3a pessoa". Afirmações semelhantes se encontram em pra-
ticamente todas as gramáticas atuais. Mas cabe a pergunta: o que,
exatamente, é uma "pessoa"? Trata-se de uma categoria formal ou
semântica? Como é que uma forma pode ser ao mesmo tempo de 2a
e de 3a pessoa?
O próprio autor fornece uma definição de "pessoa": é a categoria gra-
matical que
[...] determina a relação dos participantes no acontecimento comu-
nicado com os participantes do ato de fala. [...] segunda pessoa: coin-
cidência [do participante no acontecimento] com o ouvinte; terceira
pessoa: [o participante] não coincide com nenhuma das duas pes-
soas. [p. 212]
Bom, se é isso, então você precisa ser de segunda pessoa: refere-se
ao ouvinte, como em
[11] Você pisou no meu pé.
Mas como é que você leva o verbo para a 3a pessoa? O verbo em [11]
se refere ao ouvinte, tal como o pronome; onde é que entra a terceira
pessoa aqui?
Acontece que essas afirmações (ambas encontradas na mesma gra-
mática) utilizam duas definições de "pessoa": formal e semântica.
Semanticamente, "pessoa" identifica os participantes de um ato de
fala: o falante (1 a pessoa), o ouvinte, ou seja, aquele a quem se fala (2a
pessoa), e qualquer outra entidade (3a pessoa). Mas o mesmo termo
3 Evanildo Bechara (2009). Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
"peSS(I:( (. 11I ilizado para identificar formas do verbo, indcpcnden-
temente d(' seu significado: pisei é 1" pessoa, pisaste é 2", pisou é 3"
pessoa. Em outras palavras, estamos misturando forma e significado
no conceito de "pessoa". Note-se, aliás, que a definição dada é semân-
tica; mas não é respeitada quando se diz que pisou em [11] é de 3a
pessoa, apesar de se referir ao ouvinte.
O que temos aqui, na verdade, é uma relação bastante complexa que
existe em português entre formas verbais e referência a participan-
tes do discurso. Um detalhe dessa relação é que em certos casos um
pronome que se refere ao interlocutor concorda com uma forma ver-
bal que, em outros casos, se refere a um terceiro participante; assim,
tanto temos você pisou quanto ela pisou. Nesses casos, a identifica-
ção do participante mencionado depende inteiramente do pronome:
o verbo não ajuda. Essa situação contrasta com a de eu pisei, onde
o participante (aqui, o próprio falante) é identificado, redundante-
mente, pelo pronome e pela forma verbal: eu nos diz quem é que
pisou e pisei repete a mesma informação.
Esse é um fato importante da língua portuguesa: a identificação de
um participante no contexto da conversação pode ser feita através
do pronome, ou da forma verbal, ou ainda (em eu pisei, nós pisamos)
através do pronome mais a forma verbal, que nos informam duas
vezes a mesma coisa. Mas esse traço da língua só pode ser expresso
se for estabelecida uma distinção precisa entre fatos de forma e fa-
tos de significado; a confusão encontrada na gramática vem de que
ambos os tipos de fatos recebem a mesma designação, "pessoa". Ou
seja, chamamos de "3a pessoa" tanto a referência do pronome você
quanto a forma verbal pisou - ao passo que no primeiro caso temos
um fato de significado, e no segundo um fato de forma (a ocorrência
de um sufixo, -ou). Daí chegarmos a afirmações confusas como a de
que um pronome de 2a pessoa pode ocorrer com uma forma verbal
de 3a pessoa; e em outros casos um pronome de 3a pessoa ocorre
com uma forma verbal igualmente de 3a pessoa. Isso estabelece uma
séria confusão quanto ao que vem a ser uma "pessoa".
Digamos então que vamos distinguir os dois espaços: chamaremos
pessoa do discurso os participantes de um ato de fala: o falan-
43
FORMA E SIGNIFICRDO
tt' (1" pessoa do discurso), o destinutário (2.' IH'SSO;) do discurso)
e () assunto do qual se trata (3" pessoa do discurso). E chamare-
mos pessoa gramatical determinadas formas verbais, como pisei
(P pessoa gramatical), pisaste (2" pessoa gramatical) e pisou (3" pes-
soa gramatical]". Note-se que a pessoa gramatical não tem nada a ver
diretamente com o significado:trata-se apenas de formas do verbo,
caracterizadas por certos sufixos.
Agora é possível fazer uma tabela de correspondências forma/signi-
ficado, que descreve com clareza a situação na línguas:
Funções sintáticas,. -..e popers sernõntícos
Significado: pessoa do discurso
H o próprio falante
+-+ o destinatário
+-+ (a) um terceiro participante, que não
é nem o falante nem o destinatário
ou
+-+ (b) o destinatário
Na 3' pessoa gramatical, o significado é o destinatário se o sujeito for você; caso contrário, o
significado é o terceiro participante.
4.1 Funções sintáticas
Forma: pessoa gramatical
l' pessoa gramatical (pisei, piso, pisava)
2'pessoa gramatical (pisaste, pisas, pisavas)
3' pessoa gramatical (pisou, pisa, pisava)
Vimos, no capítulo anterior, a importância de definir separadamente
fatos semânticos e fatos formais. Agora vamos estudar com maior
detalhe um aspecto desse fenômeno, que é importante na análise
das sentenças. Vamos começar com o exemplo
E esse quadro ainda não diz tudo, por causa de frases onde um sin-
tagma de terceira pessoa gramatical se refere ao falante; vimos um
exemplo no capítulo 1, a saber,
[1] Os passarinhos atacaram a cobra.
[12] Agora o menino vai dormir porque a mamãe precisa descansar.
Podemos observar nessa frase alguns aspectos formais:
(a) o constituinte os passarinhos aparece em primeiro lugar, logo antes
do verbo (vamos admitir que já sabemos que atacaram é o verbo);
(b) o constituinte a cobra aparece depois do verbo;
(c) o verbo concorda em número e pessoa com o constituinte os
passarinhos.
Esses traços definem o que se chama funções sintáticas: o consti-
tuinte que vem logo antes do verbo, e com o qual o verbo concor-
da, é o sujeito; ao outro constituinte vamos chamar simplesmente
objeto', Este poderia ser o sujeito em outra frase, e os passarinhos
poderia ser o objeto; mas nesse caso a concordância tem que mudar,
porque a cobra é singular:
É realmente um tanto complicado; mas a complicação está na língua,
e precisa ser descrita. E só pode ser descrita corretamente se man-
tivermos, como está acima, a separação estrita dos aspectos formal
e semântico - só assim podemos representar a maneira pela qual
o português relaciona suas formas aos significados a serem veicula-
dos. A tabela só faz sentido porque definimos e nomeamos separa-
damente dois traços que são, de fato, muito diferentes: as diversas
formas do verbo (pessoas gramaticais) e a referência aos diferentes
participantes da cena descrita pela frase.
• o uso do termo pessoa nos dois casos é uma desvantagem, e contribui para a confusão geral;
mas como está consagrado, vamos mantê-Ia aqui.
5 A tabela é simplificada; poderia incluir outros pronomes como vossa excelência, o senhor,
que se comportam como você.
[2] A cobra atacou os passarinhos.
, Tradicionalmente, objeto direto.
45
o
COIllO Sl' vê, as íunçocs sintáticas suo 1I.1ll(' do .rspccto formal da
sentença.
131 Os P:lss;lI·illho$ atacaram a cobra.
ujeito verbo objeto
4.2 Fun~õessemânticas
Por outro lado, sabemos que semanticamente os passarinhos é o
Agente a cobra é o Paciente; atacaram, claro, é a Ação. Assim, pode-
mos analisar a mesma frase comoAgora vamos observar alguns aspectos semânticos da frase [1]:
(d) o constituinte os passarinhos indica a entidade que pratica a
ação denotada pelo verbo;
(e) o verbo denota uma ação;
(f) o constituinte a cobra indica a entidade que sofre a ação, isto é,
a que é atacada.
Para usar termos técnicos, diremos que em [1] os passarinhos é o
Agente, e a cobra é o Paciente. Esses termos são definidos seman-
ticamente: o Agente é a função semântica da entidade que pratica a
ação, o Paciente a da entidade que sofre a ação.
[4] Os passarinhos atacaram a cobra.
Agente Ação Paciente
Ou seja, em vez de uma, temos duas análises para a mesma frase.
Isso é correto: estamos mantendo a distinção entre os planos formal
e semântico; em outras palavras, [3] representa a estrutura for-
mal (sintática) da frase [i], e [4] representa sua estrutura semântica.
Podemos combinar as duas em uma representação simbólica, mas
sempre mantendo a distinção, assim:
4.3 Interação entre funções sintáticas e papéis semônticos
Uma vez entendidos esses fatos relativos à frase [1], vamos voltar à
distinção entre forma e significado. Como já sabemos, a gramática
precisa lidar, em um primeiro momento, com fatos de forma e fatos
de significado definidos separadamente. Somente a partir dessa des-
crição separada é que podemos relacionar uns com os outros. Então,
o que é, por exemplo, o sujeito de uma sentença? Uma coisa que não
podemos fazer é definir o sujeito em termos de significado e ao mes-
mo tempo como um traço de forma. Vamos optar por definir o sujeito
formalmente; assim, o sujeito, para nós, é
[5] Os passarinhos atacaram a cobra.
sujeito verbo objeto
Agente Ação Paciente
Essa representação dá uma resposta a perguntas como:
(a) como sabemos que essa frase tem a ver com um evento de ata-
que, e não um de, digamos, chute ou mordida?
(b) como sabemos, ao ouvir [1], que foram os passarinhos que ata-
caram a cobra, e não o contrário?
o constituinte que vem logo antes do verbo, e com o qual este
concorda.
A resposta à pergunta (a) é que o verbo é atacar, e não chutar ou
morder. E a resposta à pergunta (b) é que em [1] os passarinhos é o
sujeito da oração, e com o verbo atacar o sujeito é o Agente. Dessa
maneira descrevemos, para esse exemplo, a relação que precisa ser
sempre estabeleci da entre a forma e o significado.
Vamos examinar primeiro as funções sintáticas representadas em [3]:
Essa definição é parcial e vale para os exemplos vistos neste capítulo;
mas servirá para efeitos da presente exposição. No capítulo 11, vol-
tamos à definição de sujeito.
Em [i], o sujeito é os passarinhos, e em [2] é a cobra. O objeto será,
simplificando, o constituinte que vem depois do verbo. Assim a frase
[1] se analisa (formalmente, isto é, sintaticamente) como
[3] Os passarinhos atacaram a cobra.
sujeito verbo objeto
FUNÇÓES SINTÁTICAS E PAPÉIS SEMÂNTICOS
47
Já definimos provisoriamente o sujeito corno um constituinte que
ocorre logo antes do verbo e com o qual o verbo concorda. A con-
cordância pode ser verificada mudando o número ou a pessoa desse
constituinte; nota-se que o verbo muda de acordo com a pessoa ou o
número do sujeito:
[6] O passarinho atacou a cobra.
[7] Nós atacamos a cobra.
Isso vale para qualquer sentença do português, e vai ser a base de
nossa definição de sujeito. Quanto ao objeto, podemos defini-Ia sim-
plesmente como um sintagma nominal que não é o sujeito; e o sin-
tagma nominal vai ser qualquer constituinte que possa ser sujeito
em alguma frase.
Sujeito e objeto são funções sintáticas - isto é, funções definidas
em termos formais. Há várias outras funções sintáticas, que veremos
mais tarde, mas todas elas têm a característica de serem definidas
em termos de forma, sem referência ao significado.
Agora vejamos as funções semânticas representadas em
[4] Os passarinhos atacaram a cobra.
Agente Ação Paciente
Agora estamos falando de significado. O Agente se define como a enti-
dade que pratica uma ação (ou seja, aquele que "faz" alguma coisa); e
o Paciente vai ser a entidade que sofre essa ação. No caso, respectiva-
mente, os passarinhos e a cobra. O verbo exprime a própria Ação. Essas
funções que representam o significado se denominam papéis semânti-
cos. Agora podemos completar a representação simbólica de [5] assim:
[8] (sentença)
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
Os passarinhos atacaram a cobra.
sujeito verbo objeto
Agente Ação Paciente
Essa é a análise simbólica da sentença [1], compreendendo as fun-
ções sintáticas e os papéis semânticos que a integram como uma es-
trutura d;\ 11111-\11 •• , rum um signif icado próprio. IUI representa uma
parte import.mte da estrutura sintática e semântica de uma senten-
ça; por exemplo, representa o fato de que, ao ouvirmos essa senten-
ça, ficamos sabendo que os passarinhos atacaram a cobra, e não que
a cobra atacou os passarinhos. Esta últimainformação teria que ser
comunicada através de
[2] A cobra atacou os passarinhos.
que se analisa como
[9] (sentença)
FUNÇÕES SINTÁTICAS
PAPÉIS SEMÂNTICOS
A cobra
sujeito
Agente
os passarinhos.
objeto
Paciente
atacou
verbo
Ação
Note-se que as funções sintáticas e os papéis semânticos são os mes-
mos que em [8] e aparecem nas mesmas posições. Mas agora são atri-
buídos a constituintes diferentes: agora a cobra é o sujeito, portanto,
tem de ser entendida como sendo o Agente, e assim por diante. Em
termos mais técnicos, a estrutura simbólica é a mesma, mas as vincu-
lações mudaram: agora a cobra, que em [1] vincula o objeto Paciente,
em [2] vincula o sujeito Agente; e o oposto para os passarinhos.
Estritamente falando, apenas as funções sintáticas é que seriam
parte da sintaxe, logo, objeto deste livro. Mas, como se pode ver, as
funções sintáticas se relacionam de maneira imediata com papéis
semânticos, e é esse relacionamento que possibilita a ligação entre
forma e significado: o receptor de uma sentença precisa identificar
as funções sintáticas (entre outras coisas, como veremos) e ligar
cada uma delas a um papel semântico, o que constitui parte de sua
compreensão da sentença - levando a efeito assim o objetivo da
língua, que, como sabemos, é o de relacionar sequências formais e
estruturas de significado. Das frases vistas acima, podemos deduzir
algumas regras de interpretação, como:
o sujeito exprime o Agente
o objeto exprime o Paciente
49
FUNÇõEs SINTATICAS E PAPÉIS SEMANTICOS
Essas regras funcionam nas frases vistas. Vt>I'l'IlIOS, u seu tempo, que
há outras regras e que o sistema é muito complexo. Mas o princípio
é esse aí: da estrutura formal (sintática) chegamos, através de um
sistema de regras que inclui as propriedades do verbo que ocorre na
sentença, à estrutura semântica, que nos exemplos dados acima se
limita aos papéis semânticos de cada constituinte.
Por ora, só vimos duas funções sintáticas (além do verbo) e dois pa-
péis semânticos; há outras funções sintáticas e outros papéis semân-
ticos, que veremos mais adiante.
Funções e classes
5.1 Funções
Vimos nos capítulos precedentes dois tipos principais de funções:
funções sintáticas (por exemplo, sujeito) e funções semânticas
(papéis semânticos, por exemplo, Paciente). Vamos agora examinar
mais de perto a noção de função, que é básica em linguística; na se-
quência, examinaremos as relações entre funções e classes, outra
noção fundamental da análise linguística.
As funções têm uma característica em comum, que é importante: são
relações entre dois ou mais elementos presentes em uma mesma
sentença. Assim, na frase
[1] A dentista consertou meu molar com muito cuidado.
temos funções sintáticas como: a dentista é sujeito; meu molar é ob-
jeto e vem depois do verbo; meu está antes de molar e dentro do
mesmo constituinte. E temos funções semânticas como: a dentista
tem o papel semântico de Agente da ação expressa pelo verbo; meu
molar é Paciente da mesma ação; com muito cuidado é Modo, idem.
Há outras funções semânticas, mas neste livro só tratamos dos pa-
péis semânticos.
De qualquer maneira, é importante observar que uma função só
faz sentido no contexto: não se pode dizer que a dentista é Agente,
pronto; ou que é sujeito, e pronto. Esse sintagma é Agente e sujeito
51
na frase 111, mas poderia ler outra 1\l1l~"() '.llIt;'llica e papel semân-
tico, como em
[2] O barulho atrapalhou a dentista em seu trabalho.
onde a dentista é objeto e Paciente. Vamos, então, estabelecer o se-
guinte princípio, que vai ser importante para nós:
Uma função se define em relação a um contexto
Uma função é a expressão de uma relação entre elementos da mesma
frase, e é responsável pelo fato de que uma frase não é simplesmente
uma sequência de palavras, mas antes uma sequência de constituin-
tes ligados por determinadas conexões sintáticas e semânticas.
5.2 Classes
A palavra dentista pode ter a função de núcleo do SN, como em [1] e
[2]; e pode também ser modificado r, como em
[3] A Regina tem uma filha dentista.
Mas não pode ser núcleo do predicado (coisa que só verbos podem
ser). Ou seja, a palavra dentista tem um conjunto de funções sintá-
ticas que pode desempenhar, assim como um conjunto de funções
que não pode desempenhar. O conjunto de funções que essa palavra
pode ter se chama seu potencial funcional (no caso, sintático).
Existe também o potencial funcional semântico, definido como os
papéis semânticos que uma palavra ou sintagma pode ter. Dentista
pode ser Agente e Paciente, mas não Lugar ou Modo; depois do almo-
ço só pode ser Tempo; por causa de você só pode ser Causa; cuidado-
samente só pode ser Modo; e comemos só pode ser Ação.
Ao contrário das funções,
uma classe se define fora de contexto
OU, t;IIVt~~ 11,,11'. rlaramcntc,
uma classe se define em termos de contextos potenciais.
Por isso, pode-se responder uma pergunta como "a que classe per-
tence a palavra Regina?": a resposta (tradicional) seria "substantivo".
Mas não se pode responder a pergunta "que função tem a palavra
. Regina"? Aqui a resposta só é possível se mencionarmos a frase em
que ocorre: por exemplo, Regina é sujeito em
[4] Regina é minha vizinha.
e é objeto em
[5] Encontrei Regina ali na praça.
A classe a que pertence uma palavra se define por seu potencial
funcional, ou seja, pelo conjunto de funções (sintáticas e semân-
ticas) que ela pode desempenhar na língua. Cada palavra é ar-
mazenada na memória juntamente com seu potencial funcional,
e é por isso que é possível responder a primeira das perguntas
feitas acima.
5.3 Classe e funções de uma palavra
Isso tem uma consequência importante:
Não se pode dizer que uma palavra pertence a uma clas-
se em um contexto e a outra em outro contexto.
Assim, é incorreto afirmar que "amiga é substantivo em [6] e adjeti-
vo em [7]":
[6] Minha amiga mora a dois quarteirões daqui.
[7] Ele sempre vem com uma palavra amiga.
fUNÇOEs E CLASSES
53
o potencial da palavra é sempre o mesmo: pode ser núcleo de um SN,
como em [6], ou modificador, como em [7]. Ou seja, as funções va-
riam, mas a classe é sempre a mesma, porque a classe se define pelo
potencial, e o potencial não varia conforme a frase. Outra maneira
de dizer o mesmo é que uma palavra pode ter várias funções, mas só
pertence a uma classe.
Também isso é reconhecido, mas só em alguns casos, pela análise
tradicional. Assim, diz-se (com razão) que perder é um verbo irre-
gular, porque tem formas irregulares como perco (em vez do que se
esperaria, *perdo). Mas nunca se diz que perder é regular em
l101 Nús un muos até o quintal.
[l1J "Eu corremos até o quintal.
[12] *Nós fomos até o corremos.
[8] Eu perdi meu anel.
[11] é malformada porque o sujeito não é de primeira pessoa do plu-
ral, e o verbo é; e [12] é malformada porque corremos não pode ser
núcleo de um SN; se colocarmos ali quintal, que pode ser núcleo do
SN, a frase fica aceitável.
Assim, grande parte da gramática se baseia na classificação das uni-
dades que formam as expressões linguísticas. Cada unidade (pala-
vras, sintagmas, morfemas etc.) tem um conjunto de propriedades
(traços distintivos), que define seu comportamento dentro da estru-
tura da língua. Em outras palavras, cada unidade pode ocorrer em
um conjunto de funções; esse conjunto é o seu potencial funcional;
e uma classe é um conjunto de unidades (por exemplo, palavras)
que têm o mesmo potencial funcional.
e irregular em
[9] De vez em quando eu perco alguma coisa.
Claro que o verbo é irregular mesmo em [8], porque "verbo irregu-
lar" é uma classe de palavras, o que não depende do contexto em que
ela ocorre.
5.4 O que classificar?
Todas as unidades gramaticais se classificam - o que equivale a dizer
que todas têm propriedades gramaticais, o que é mais ou menos óbvio.
Assim, exemplificando com traços formais, é necessário classificar:
morfemas (prefixos e sufixos; sufixos verbais, nominais ...)
palavras (nominais, preposições, verbos etc.)
sintagmas (SN, sintagma adjetivo, sintagma verbal, oração)
O que interessa em cada

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