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Língua Portuguesa - Morfossintaxe I
Prof.ª Ma. Carina Adriele Duarte de Melo
1ª Edição
Gestão da Educação a Distância
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Autoria
Currículo Lattes:
Prof.ª Ma.
Carina Adriele Duarte de Melo
Doutoranda em Ciências da Linguagem, concluiu o Mestrado em Letras (Linguagem, Cul-
tura e Discurso) em 2008 e graduação também em Letras em 2005. Foi professora efetiva na rede
pública de ensino de 2006 a 2009 e no Centro Tecnológico de Minas Gerais - CEFET/Varginha, no
período de 2014 a 2015. Atualmente, é coordenadora no curso de Letras no Centro Universitário
Sul de Minas - UNIS/MG, instituição na qual também leciona em diversos cursos desde 2009. Possui
experiência na área de Letras, com ênfase em Língua e Literatura Portuguesas, desenvolve pesquisas
sobre língua, literatura, discurso, memória e história.
Autoria
Currículo Lattes:
Prof.o Esp.
Roberto Silva
Licenciado em Letras pela UEMG-FEPESMIG (1997). Especialista em Língua Portuguesa pela
UEMG-FEPESMIG (2000). Especialista em Literatura Brasileira pela PUC-MG (2001). Atualmente
está concluindo a especialização em Docência em Educação a Distância pelo UNIS-MG. Participou,
como tutor, do Projeto VEREDAS – FORMAÇÃO SUPERIOR DE PROFESSORES pelo UNIS-MG.
É professor de Língua Portuguesa e Metodologia Científica do Colégio Pio XII, mantido pela FEPES-
MIG.
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MELO, Carina Adriele Duarte. SILVA, Roberto. Língua Portuguesa -
Morfossintaxe. I. Varginha: GEaD-UNIS/MG, 2018.
62 p.
1. Morfossintaxe; 2. Termos linguísticos; 3. Estruturação; 4. Período Sim-
ples.
“Com sua capacidade para ver e sentir as coisas, as crianças brincam com as palavras como
brincam com objetos. Gostam de repetir seguidamente uma palavra até que ela “perca o
jeito” – isto é, deixe de significar alguma coisa. Não só as crianças, mas qualquer pessoa
que se detenha a observar as palavras, desde que não tenha perdido aquela capacidade
poética de senti-las.”
Flávia de Barros Carone
Caro(a) cursista,
Nesta disciplina vamos adentrar no universo das palavras, mais especificamente, a forma
com que elas se relacionam. Faço-lhe um convite: deixe-me levá-lo(a) à toque de passeio por esta
instituição linguística entreposta, cidadela de verbos e nomes e “súditos”. Chama-se, ela, morfossin-
taxe. O sítio em que as palavras de todas as classes e as classes de todas as palavras se combinam
harmoniosamente em arranjos funcionais e (valha-nos a rima!) competentes.
Venha conosco estudar essa combinação de forma e função. Venha conosco montar e des-
montar arranjos de frases ou orações ou períodos. Sintagmas interagidos. O verbo. Mas o verbo
em sua essência: palavra-revelação, relato de tudo o que no mundo, real ou imaginário, tenha sido
existido.
Um grande abraço,
Roberto Silva e Carina Duarte.
Ementa
Orientações
Palavras-chave
Morfossintaxe do português: o sistema de relação e determinação entre os termos
linguísticos e a estruturação do período simples.
Morfossintaxe; Termos linguísticos; Estruturação; Período Simples.
Ver Plano de Estudos da disciplina, disponível no ambiente virtual.
Unidade I
1.1. Aspectos Introdutórios 13
1.2. Análise Morfossintática 14
Unidade II
2.1 Frase, oração, período 21
2.1.1. Frase 21
2.1.2. Oração ou frase oracional 22
2.1.3. Período 24
Unidade III
3. A estrutura interna da frase oracional simples 27
3.1. Constituintes oracionais: os sintagmas 27
3.2. O sintagma nominal 29
3.3. O sintagma adjetival 31
3.4. O sintagma verbal 32
3.5. O sintagma adverbial 32
Unidade IV
4. A análise sintática através dos diagramas arbóreos 36
4.1. Hierarquia na estrutura da frase oracional 37
Unidade V
5. Funções sintáticas na frase oracional 41
5.1. O sujeito 41
5.2. O predicado 42
5.3. Termos da oração ligados ao verbo 44
5.4. Termos da oração ligados aos nomes 47
Referências Bibliográficas 62
Objetivos da Unidade
- Diferenciar e compreender as relações entre morfologia e sinta-
xe;
- Entender como é feita uma análise morfossintática.
I Unidade I -
A Análise
Morfossintática
13
1.1. Aspectos Introdutórios
Toda sintaxe é morfologia e toda morfologia é sintaxe.
Hjelmslev
A gramática tradicional costuma dividir morfologia e sintaxe em áreas distintas. A primeira
cuida da formação, flexão e classificação das palavras. A segunda promove o estudo da frase e sua
organização. Não é isso o que se observa ao estudarmos uma gramática?
Para melhor compreender esta separação, é necessário analisá-la como um recurso didáti-
co, uma forma de conduzir o aluno por partes. Vários aspectos da gramática conectam morfologia
e sintaxe. Vejamos, por exemplo, o fenômeno linguístico da concordância, tanto nominal quanto
verbal. É um fenômeno que ocorre na forma das palavras que se flexionam. Portanto, é um fato
morfológico. Porém, esse fenômeno só acontece entre palavras que carregam consigo uma função
ao se conectarem sintaticamente. Como se vê, é um fato sintático também. Conforme diz Carone
(1991), “a concordância é a manifestação mórfica de uma relação sintática”.
A partir desta concepção, e considerando que selecionar e combinar palavras é uma estra-
tégia discursiva que se realiza ao mesmo tempo nos atos da fala e da escrita, podemos dizer que
o estudo da língua exige uma análise da perspectiva morfossintática. Isto é, existe algo que leva em
consideração, simultaneamente, as relações morfológicas e sintáticas entre as palavras.
Isso mesmo! Não se pode desvincular a morfologia da sintaxe, e vice-versa, porque
forma (artigo, substantivo, verbo, adjetivo, advérbio, pronome etc.) e função (sujeito, objeto
direto, adjunto adnominal etc.) coexistem e seus papéis só se definem no contexto em que
estiverem inseridas. As palavras são grupos morfológicos e, ao serem combinadas em frases,
ganham uma dimensão sintática. Sobre isso, Inez Sautchuk discursa em sua obra “Prática de
Morfossintaxe - Como e por que aprender análise morfo(sintática)”:
14
[...] Não se pode separar o conhecimento morfológico do sintático, pois o
primeiro propicia muito mais segurança na determinação das funções sintáti-
cas dos termos da oração: a base ou a natureza morfológica de um sintagma
(constituinte imediato das orações) determina ou autoriza sua função sintática.
E a respeito de sintagmas, mostro que, aprendendo a reconhecê-los e decom-
pô-los, a tarefa de observar-lhes as funções sintáticas fica extremamente mais
fácil. Aí, sim, podem ser abordados todos os termos da oração, em um método
muito prático e seguro de análise, até chegar a um verdadeiro quadro morfos-
sintático desses termos. (SAUTCHUK, p. XVIII)
Você sabe o que significa fazer uma análise? E, mais especificamente, o que
significa fazer a análise morfossintática de uma palavra?
Para responder ao primeiro questionamento, leia o texto a seguir. Certamente ele também
será útil a você em outros momentos de sua vida acadêmica.
1.2. Análise Morfossintática
O QUE SIGNIFICA FAZER UMA ANÁLISE?
Quantas vezes, ao realizar exercícios em aula ou ao responder a perguntas em provas, você
foi solicitado a analisar alguma questão? Inúmeras vezes, não é mesmo? Agora, pergunte-se algo dife-
rente: será que, da primeira vez em que você foi solicitado a realizar uma análise, alguém lhe explicou
o significado dessa palavra? Provavelmente não... O termo análise é tão utilizado no contexto escolar
que as pessoas assumem que todos conhecem o seu significado.
A situação fica um pouconominal
3.3. O sintagma adjetival
3.4. O sintagma verbal
3.5. O sintagma adverbial
4. A análise sintática através dos diagramas arbóreos
4.1. Hierarquia na estrutura da frase oracional
5. Funções sintáticas na frase oracional
5.1. O sujeito
5.2. O predicado
5.3. Termos da oração ligados ao verbo
5.4. Termos da oração ligados aos nomes
Referências Bibliográficasembaraçosa porque você, se não sabe o que deve fazer quando
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é solicitado a analisar algo, provavelmente sente-se constrangido em perguntar algo que parece tão
óbvio. Afinal, se não fosse óbvio, alguém teria explicado ou algum outro colega teria perguntado o
que era para ser feito... Como provavelmente nenhuma das duas coisas aconteceu, você imagina que
é o único a desconhecer o significado da palavra e tem vergonha de perguntar algo a respeito.
Os anos passam e você continua “fazendo” análises sem saber exatamente como deve
proceder. Nas provas, responde às questões com base no que estudou e espera que seja suficiente.
Quando não é, há sempre algo que o professor pode aproveitar e assim os anos vão passando e
você continua sem saber exatamente o que significa o exercício da análise.
Ao produzir textos escritos, porém, saber quais procedimentos devem ser adotados para
produzir uma análise, é algo fundamental. E, nesse caso, não há “matéria” cujo estudo pode ajudá
-lo(a) a realizar a tarefa analítica.
Pois bem, vamos começar do início: a definição do substantivo análise encontrada no Novo
dicionário Aurélio da língua portuguesa.
Análise: Do gr. análysis. S.F.
1. Ato ou efeito de analisar.
2. Decomposição de um todo em suas partes constituintes (...)
3. Exame de cada parte de um todo, tendo em vista conhecer sua natureza, suas proporções,
suas funções, suas relações, etc. (...)
4. Estudo pormenorizado, exame, crítica (...)
Paramos por aqui, porque o dicionário continua com uma série de definições para tipos
específicos de análises: a matemática, a filosófica, a lógica, a gramatical, etc. Aliás, o simples fato de
existirem tantas “análises” particulares deveria chamar sua atenção. Isso demonstra que o conceito
estudado está relacionado a práticas muito comuns a diversas áreas do conhecimento humano. Por
isso é tão importante saber fazer uma boa análise.
Voltando à definição, vimos que fazer uma análise significa refletir sobre todas as caracterís-
ticas e fatores relativos a uma determinada questão. Em outras palavras, quando analisamos algo,
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estamos em busca da verdade. Como seria de esperar, o conceito de análise originou-se na Grécia,
com o filósofo Aristóteles, que deu a esse procedimento o nome de analítica. Os estoicos, que nos
ensinaram a aceitar as coisas da maneira como se apresentam, desenvolveram o conceito de analí-
tica aristotélica para criar a sua definição de lógica:
As coisas singulares se imprimem em nós por meio da percepção ou da representação;
sobre elas, formulamos os juízos e os exprimimos em proposições verdadeiras ou falsas, cabendo à
lógica duas tarefas:
1. determinar os critérios pelos quais uma proposição pode ser considerada verdadeira ou falsa;
2. estabelecer as condições para o encadeamento verdadeiro de proposições, isto é, o raciocínio
como ligação entre proposições singulares.
Marilena Chauí. Convite à filosofia
Podemos concluir, então, que, ao desenvolvermos uma análise cuidadosa sobre determinada
questão, além de compreender o que se está analisando, precisamos ser capazes de explicitar, por
meio de palavras, o resultado dessa análise.
Os procedimentos analíticos já foram expostos na definição citada acima. O exercício da
análise exigirá que tenhamos o cuidado de observar o objeto de nossa análise em todas as suas
partes. Para fazer isso, primeiro precisamos identificar as partes que o constituem. Uma vez identifi-
cadas e devidamente separadas, as partes podem passar a ser estudadas de tal modo que possamos
conhecer sua natureza, suas proporções, suas funções, a relações que estabelecem entre si. Esse é
o processo analítico.
Uma vez concluído, teremos condições de nos pronunciar com segurança sobre o que ana-
lisamos, porque conheceremos todas as suas características e propriedades. Sabemos quais são as
suas funções, caso as tenha; saberemos também que tipo de consequências pode desencadear. (...)
ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela Nogueira. Português: volume único. 1ª ed.
São Paulo: Moderna, 1999. (Fragmento)
17
Após esta leitura, ficou mais fácil entender o que é uma análise. E considerando que você já
conhece o significado da palavra morfossintática, atualizo aqui a segunda pergunta:
O que significa fazer a análise morfossintática de uma palavra? Vamos tentar colocar isso no
papel?
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Fazer a análise morfossintática de uma palavra significa decompor um todo linguístico em
suas partes constituintes, analisar atentamente suas particularidades, identificar o objeto e reconhe-
cer a classe gramatical a que pertence e, concomitantemente, a função sintática que desempenha no
contexto da oração. Simples, não?
Mas afinal, qual a relevância da análise morfossintática para você,
aluno do curso de Licenciatura em Letras?!
Para nos ajudar a compreender tal questão, citaremos o depoimen-
to de Inez Sautchuk, presente na apresentação de seu livro “Prática de
Morfossintaxe – Como e por que aprender análise morfo(sintática)”.
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Insatisfeita com a limitação dos próprios exercícios e com a redundância e a ineficiência de
‘macetes’ para encontrar o sujeito ou objeto direto de uma oração, ou classificar este ou
aquele verbo como transitivo ou intransitivo, compartilhava, secretamente, com a maioria
de meus alunos, certa aversão por esse tipo de estudo.
Ao mesmo tempo, irritavam-me as constantes imperfeições com que os alunos se ex-
pressavam por escrito. Por que períodos tão confusos ou tão obscuros? Por que tanta
incapacidade de se expressarem com clareza e eficiência em suas redações? Não lhes eram
suficientes as tantas regras de gramática e as tantas aulas e exercícios de análise sintática
que os vinham perseguindo por anos a fio?
[...] Cada vez mais eu ia deixando uma gramática da frase para ocupar-me com uma gra-
mática do texto: o objetivo maior das aulas de Língua Portuguesa deveria ser sempre
ensinar ao aluno tudo aquilo que ele pudesse, efetivamente, usar com a finalidade primeira
de melhorar sua capacidade de expressão e de comunicação na língua materna, em sua
modalidade oral ou escrita.
[...] Se um texto deve pautar-se por regras específicas de textualidade e de textualização, as
unidades que o compõem – as frases – aceitam uma combinação múltipla de constituintes
do sistema linguístico, visando a uma relevância comunicativa, isto é, preenchendo também
uma condição de textualidade. O sentido de cada uma dessas unidades é realizado formal-
mente na língua por meio da escolha e do arranjo de seus constituintes hierarquicamente
combinados.
Submetem-se, ainda, à força das leis que regem essa organização sintática: “é inerente à
própria linguagem, que a ideia não toma forma senão num arranjo sintagmático”. Era im-
prescindível considerar os mecanismos sintáticos como uma espécie de matriz responsável
pela força que desencadeia e que imprime, na superfície do enunciado, as marcas de sua
textualidade. As aulas de análise sintática deveriam ter um objetivo extremamente impor-
tante nesse processo: é preciso realmente dominar a sintaxe como instrumento necessário
para o próprio aperfeiçoamento de nossa capacidade de produzir textos (SAUTCHUK,
p.XV e XVIII).
Portanto, caro(a) aluno(a), fica claro que é imprescindível reconhecer aimportância do refle-
xo dos estudos morfossintáticos na escrita.
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Baseando-se nos estudos que fizemos até aqui, escreva um texto crítico e reflexivo sobre a
relação:
- Ensino da Gramática x Dificuldade na escrita
A partir da leitura dos aspectos introdutórios da disciplina de Morfossintaxe, pudemos compre-
ender melhor as divisões e relações que a gramática tradicional estabelece entre morfologia e sintaxe.
Assimilar estas relações existentes entre morfologia e sintaxe nos permite entender que as
palavras carregam consigo uma função ao se conectarem sintaticamente. E como vimos, as conexões
entre as palavras estabelecem os fatos sintáticos e os fatos morfológicos no processo de construção de
sentido. Ou seja, baseando-se nesses fenômenos citados e entendendo que a construção de sentido se
estabelece nos atos da fala e da escrita, necessariamente o estudo da linguagem deve passar por uma
análise morfossintática.
Neste processo de conhecimento dos fenômenos da linguagem, refletimos também sobre o
que é fazer uma análise morfossintática. Vimos que é necessário decompor um todo linguístico em suas
partes constituintes, analisar atentamente suas particularidades, identificar o objeto e reconhecer a classe
gramatical a que pertence e, concomitantemente, a função sintática que desempenha no contexto da
oração. Feito isso, é importante também que, ao desenvolvermos uma análise cuidadosa sobre determi-
nada questão, além de compreender o que se está analisando, precisamos ser capazes de explicitar, por
meio de palavras, o resultado dessa análise.
Enfim, avaliando a importância da morfossintaxe aplicada ao ensino da Língua Portuguesa em sala
de aula, concluímos, apoiados sobre as ideias de SAUTCHUK, que as aulas de análise sintática devem ter
um objetivo extremamente importante nesse processo: é preciso realmente dominar a sintaxe como
instrumento necessário para o próprio aperfeiçoamento de nossa capacidade de produzir textos.
A seguir vamos conhecer os diferentes tipos de frases oracionais e não oracionais e estruturar
melhor os conceitos de oração.
Objetivos da Unidade
II Unidade II -
A Frase
Operacional
- Construir um conceito de frase;
- Reconhecer os diferentes tipos de frases oracionais (período sim-
ples) e não oracionais;
- Construir o conceito de constituinte imediato da oração;
- Explicar os critérios de distinção entre os sintagmas;
- Posicionar-se criticamente diante da análise sintática e da gramá-
tica sintagmática;
- Responsabilizar-se por sua própria formação como leitor e como
autor de textos.
21
2.1 Frase, oração, período
2.1.1. Frase
Em sua vida escolar, com certeza cansou de ouvir o termo frase. “Grife a frase abaixo”,
“escreva a seguinte frase”, “releia a frase tal” são algumas possíveis lembranças que compõem sua
memória escolar. Com efeito, o termo frase é largamente utilizado de maneira geral para designar
uma unidade do discurso, como diria Perini, bastante difícil de definir. Para melhor compreendermos
a ideia, leia a seguinte definição:
Frase é a unidade discursiva que, numa situação de comunicação, é
capaz de transmitir um pensamento completo.
Na escrita, a delimitação da frase é marcada por uma letra maiúscula no início e por um sinal
de pontuação no final, isto é, ponto final, ponto de exclamação, ponto de interrogação ou reticên-
cias.
A frase é uma estrutura, e como tal, abriga uma combinação de componentes linguísticos
que se conectam segundo certos princípios de organização textual.
Normalmente, esse tipo de estrutura apresenta, pelo menos, um verbo. Nesse caso, chama-
mos de frase oracional. Quando isso não acontece, ou seja, quando ela não se organiza em torno de
pelo menos um verbo, dizemos que ela é uma frase nominal ou não oracional. Ou seja, uma frase
que se organiza em torno de nomes (substantivo, adjetivo, pronome ou outra palavra com essa
função) e não de verbos.
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- A meninice brincou nos olhos dela. (frase oracional)
- Maria foi ao supermercado, mas não comprou nada. (frase oracional)
- Próxima parada, Estação Mariana. (frase nominal)
- Deus e o diabo na terra do sol. (frase nominal)
2.1.2. Oração ou frase oracional
Neste Guia de Estudos, para estudar os processos sintáticos de combinação de palavras, va-
mos trabalhar, especialmente, um paradigma de frase: a frase oracional. Como vimos anteriormente,
no primeiro tópico desta unidade, as frases oracionais são estruturas que se organizam a partir de
um ou mais verbos.
O linguista Mário Perini (1996) diz que “oração é uma frase que apresenta determinado
tipo de estrutura interna, incluindo sempre um predicado e frequentemente um sujeito, assim como
vários outros termos”. Conclui-se, portanto, que o predicado é a base da oração em português.
Cada verbo (ou locução verbal) corresponde a uma oração ou sintagma verbal. “Sintagma”
é um termo que será conceituado logo mais à frente.
- A menina chorou copiosamente.
(Frase oracional constituída de uma única oração, pois possui apenas um
verbo.)
- Maria foi ao supermercado, mas não comprou nada.
(Frase oracional constituída de duas orações, pois se organiza em torno de dois verbos).
23
Você saberia dizer o que é uma locução verbal? Então, vamos lá:
corra atrás. Pesquise!
Na abertura desta subseção, apresentamos que iríamos trabalhar a
frase oracional para estudarmos a morfossintaxe. Isso não significa, todavia,
que as frases não oracionais ou nominais deixem de ter estrutura analisá-
vel. Pelo contrário, de uma forma geral, é facilmente observado que elas
são organizadas por meio da combinação de elementos que também ocorrem dentro de
orações, isto é, são como se fossem fragmentos de orações.
Segundo Perini (1996), há cinco tipos de orações:
- As imperativas, que se caracterizam por apresentarem uma forma particular do verbo, o impe-
rativo; e expressarem ordem, pedido.
Ex.: Frite um ovo para o doutor.
- As interrogativas, que se caracterizam por conterem um elemento interrogativo (que, quem,
quando, como etc.); e (quando não subordinadas) apresentarem um ponto de interrogação.
Ex.: Quem a Renata vai escolher para padrinho?
- As exclamativas, que apresentam estrutura semelhante a das interrogativas, entretanto não são
marcadas com ponto de interrogação. E que são seguidas, na escrita, de ponto de exclamação,
expressando surpresa, espanto, exclamação etc.
Ex.: Como você é incompetente!
24
- As declarativas, que apresentam estruturas bem variadas e que, tipicamente, são usadas para
expressar declarações.
Ex.: O seu bode comeu minha camisa. / Minha camisa, o seu bode comeu.
- As optativas, que se caracterizam por frequentemente serem introduzidas pelo exclamativo
que, podendo ser marcadas com ponto de exclamação, e por expressarem desejo.
Ex.: Deus me ajude!/ Que a sorte o acompanhe!
2.1.3. Período
A gramática tradicional propõe que, quando a frase oracional tem apenas uma oração, é
chamada de período simples; quando tem mais de uma oração, período composto.
O poeta contemplava a branca lua.
(Como essa frase possui apenas um verbo, isto é, tem apenas uma oração;
diz-se que é um período simples.)
Sinto que você não se lembra mais de mim.
(Diferente é esse caso, pois há a coexistência de dois verbos na frase. Então, diz-se que é
um período composto.)
Para se dividir um período composto em orações, o primeiro passo é identificar os verbos.
Pode-se dizer, em regra, que cada verbo corresponde a uma oração. Aqui, o cuidado é com os
tempos compostos (ter ou haver + particípio) e com as locuções verbais, pois estes também devem
ser considerados na análise. Eles têm o mesmo sujeito e formam um único predicado. Logo, como
você mesmo(a) pode concluir, formam uma só oração.
25
No decorrer da leitura desta unidade aprendemos a construir o conceito defrase e reco-
nhecer os seus diferentes tipos de classificação. Definimos que frase é a unidade discursiva que,
numa situação de comunicação, é capaz de transmitir um pensamento completo.
A partir da concepção dos conceitos de frase, chegamos a conclusão que podemos classificá
-las de acordo com a existência ou não de verbos. As frases que não são estruturadas em torno de
um verbo são denominadas frases não oracionais ou nominais. Por outro lado, as frases que contém
pelo menos um verbo, independentemente da flexão, são denominadas frases oracionais.
De forma simples e resumida podemos dizer que existência dos verbos determina a oração.
Conhecemos também as orações imperativas, interrogativas, exclamativas, declarativas e optativas.
Estudamos também que as frases estruturadas em torno dos verbos constituem os períodos.
Aprendemos que a gramática tradicional propõe que, quando a frase oracional tem apenas uma
oração, é chamada de período simples; quando tem mais de uma oração, período composto.
A partir da próxima unidade estudaremos mais detalhadamente os sintagmas e a estrutura
das orações. Vamos lá?!
Objetivos da Unidade
III Unidade III
- Conhecer detalhadamente as estruturas das orações;
- Reconhecer os sintagmas nas orações;
- Diferenciar os sintagmas nominais, verbais, adjetivais e adverbiais.
27
3. A estrutura interna da frase oracional simples
Convido você agora para começarmos a estudar as orações mais detalhadamente. É inte-
ressante, antes de mais nada, observar que elas nos possibilitam desmontá-las, à maneira de como
fazemos com um velho brinquedo de montar, à maneira de como fizemos com a estrutura das
palavras no Guia de estudo – Língua Portuguesa – Morfologia.
O estudo dessa estrutura oracional é que recebe o tradicional e conhecido nome de análise
sintática.
3.1. Constituintes oracionais: os sintagmas
Ela | comprou um belo vestido.
(A palavra ela constitui um sintagma, posto que desempenha a função de
sujeito dentro da oração.)
Minha filha | saiu-se bem na prova.
(Já nesse exemplo, o sintagma destacado é formado por um conjunto de palavras – minha e
filha – que desempenham, juntas, uma função sintática. Novamente, a de sujeito da oração.)
Quando o sintagma apresenta um conjunto de elementos, estes mantêm entre si relações
de dependência e ordem; e organizam-se em torno de um elemento fundamental, o núcleo. É bom
observar que – quando o sintagma é formado só por uma palavra, como no primeiro exemplo – ela,
por si só, é o núcleo.
A denominação do sintagma depende da função do elemento que constitui seu núcleo.
Dessa forma, é que poderei falar em sintagma nominal (SN), sintagma verbal (SV), sintagma adjetival
(SAdj), sintagma adverbial (SAdv).
28
Na estrutura da oração, o SN e o SV são considerados como
constituintes obrigatórios.
Você deve ter questionado essa afirmação. E provavelmente se perguntou: “Mas, e quando
a oração é sem sujeito?“. É que, nas regras de reescritura, o SN sujeito existe como posição estrutu-
ral. Assim, mesmo quando esse elemento não se atualize, isto é, sua posição não seja lexicalmente
preenchida, sua posição existe na estrutura.
A estrutura da frase oracional pode ser representada graficamente em forma de caixas ou
por meio de diagramas arbóreos ou marcadores sintagmáticos. Estes nada mais são que uma ten-
tativa de reconstrução linguística das instituições do usuário da língua com relação à segmentação
das frases. Veja:
Figura I -
Fonte; Adaptado dos Autores por Design Unis EaD
29
3.2. O sintagma nominal
O sintagma nominal (SN) pode ter como núcleo um nome ou um pronome ou numeral
substantivo. O pronome pode ser qualquer um dos seis tipos existentes. Neste caso, o pronome
por si só será o elemento constituinte do sintagma.
No caso de ser um nome, este poderá ocorrer sozinho, ou antecedido de um determinante
e/ou seguido de um modificador:
a) Determinante (Det): pode ser representado pelo artigo, numeral ou pronome adjetivo.
Quando simples, é constituído de um desses elementos. Veja o exemplo:
Quando complexo, é constituído de mais de um desses elementos:
b) Modificador (Mod): pode ser constituído de um sintagma adjetival (SAdj). Ex.:
30
As classes de palavras não participam na formação dos sintagmas
de maneira igualitária. Algumas funcionam como núcleos; outras como
determinantes ou modificadores de núcleo. Tudo depende do tipo de
sintagma e do nível de análise.
Determinantes e modificadores são o que as gramáticas tradicionais denominam de adjunto
adnominal, isto é, elementos que acompanham o nome e estabelecem com ele um pacto de con-
cordância.
O que é pronome adjetivo e pronome substantivo? Não sabe?
Está é uma boa oportunidade para você aprender. Pesquise!
Se você observar, constatará que os substantivos ou equivalentes, isto é, pronomes ou nu-
merais substantivos, exercem, com frequência, a função de núcleo de sintagmas nominais que são
constituintes imediatos da oração, ou seja, funcionam como sujeito, objeto direto, objeto indireto,
agente da passiva, aposto e predicativo.
Na estrutura da frase oracional, todos esses constituintes imediatos podem, entretanto,
apresentar constituintes menores, subordinados ao núcleo substantivo, encerrando um profundo
jogo morfossintático.
Esse jogo, porém, apresenta marcas funcionais distintas. Se entre o substantivo subordinante
e o sintagma menor houver uma relação de argumento-alvo, isto é, se o termo subordinado com-
plementar o sentido do nome impreciso, o sintagma menor funcionará como complemento
31
3.3. O sintagma adjetival
O sintagma adjetival tem como núcleo adjetivo, locução e expressões adjetivas e oração
adjetiva. Tal sintagma pode vir sozinho ou acompanhado de outros elementos.
Se o sintagma adjetival se relacionar com sintagmas nominais por meio de verbo, ele será
um constituinte imediato da oração, cuja função será a de predicativo – ou do sujeito ou do objeto
direto, depende do contexto. Se, porém, estiver encaixado em sintagmas nominais que lhe são su-
periores dentro da hierarquia da oração, será adjunto adnominal.
O sintagma adjetival pode vir modificado por sintagma adverbial (adjunto adverbial) ou,
ainda, por sintagma nominal preposicionado que estabeleça com ele uma relação sintática de argu-
mento-alvo (complemento nominal).
Neste caso, cansadas é predicativo do sujeito de As crianças.
32
Aqui, bom é adjunto adnominal de caráter.
Nesse exemplo, extremamente é adjunto adverbial intensificador do adjetivo linda.
3.4. O sintagma verbal
Anteriormente vimos que o sintagma verbal é um dos elementos básicos da oração. Ele,
assim como o próprio nome diz, é constituído pelo verbo, cuja forma pode ser composta de um só
vocábulo (tempos verbais simples) ou de vários vocábulos (tempos verbais compostos ou locuções
verbais). É sempre um constituinte imediato da oração.
Acima, morreu exemplifica um tempo verbal simples; e vai jogar, logo abaixo, uma locução
verbal.
3.5. O sintagma adverbial
O sintagma adverbial pode ser constituído por advérbio, locução ou expressão adverbial
(preposicionada) e oração adverbial (frase oracional complexa). Funcionalmente, pode modificar
sintagmas adjetivais, verbais e até os adverbiais.
O sintagma adverbial desempenha papel de adjunto adverbial, quando encaixado em SAdj
33
ou SAdv que lhe são hierarquicamente superiores na estrutura da frase oracional.
Quando se estabelece relação com o verbo da oração, funciona como seu complemento
circunstancial ou como seu adjunto adverbial. Essa dupla classificação depende de estabelecer ou
não relação argumental com o verbo.
Acima, o termo destacado é complemento de lugar do verbo ir. No exemplo abaixo, temos,
destacados,dois adjuntos adverbiais
No decorrer do estudo da Unidade III conhecemos a estrutura interna das frases oracionais
e descobrimos que este processo de análise e decomposição das orações em unidades menores
é chamada de análise sintática. Para este processo de análise usamos, normalmente, os diagramas
arbóreos.
Aprendemos que a unidade significativa formada por uma ou mais palavras que, juntas,
desempenham uma função sintática dentro da oração é o sintagma. E a denominação do sintagma
depende da função do elemento que constitui seu núcleo.
Estudamos o sintagma nominal (que tem como núcleo um nome ou um pronome ou nume-
ral substantivo), o sintagma adjetival (que tem como núcleo adjetivo, locução e expressões adjetivas
e oração adjetiva), o sintagma verbal (que contém o verbo), o sintagma adverbial (que pode ser
34
constituído por advérbio, locução ou expressão adverbial preposicionada e oração adverbial).
A partir do estudo e conhecimento dos sintagmas, conseguimos avançar no processo de
análise sintática, sabendo diferenciar as estruturas nominais, das verbais, das adverbiais e das adjeti-
vais.
Na sequência de nossos estudos, aprofundaremos na análise sintática através dos diagramas
arbóreos.
Objetivos da Unidade
IV Unidade IV
- Compreender a importância da representação dos diagramas ar-
bóreos e marcadores sintagmáticos;
- Conhecer a hierarquia das estruturas oracionais;
- Reconhecer as conexões entre as funções sintáticas na frase ora-
cional.
36
4. A análise sintática através dos diagramas arbóreos
Anteriormente vimos que a frase oracional pode ser representada através de diagramas
arbóreos ou marcadores sintagmáticos. Inclusive, vimos um modelo a título de exemplo.
Vamos visitar o que alguns autores dizem a respeito desse assunto? Como amostra, vejamos
o que estes dois têm a dizer: Adriano da Gama Kury e Miriam Lemle. Os dois, aliás, têm opiniões
contrárias. Julgo isso suficiente para as pretensões desse nosso breve estudo.
Kury (1993:5), por exemplo, não vê nenhuma vantagem. O autor é um fervoroso defensor
da análise sintática tradicional de cunho saussuriano. Em sua opinião, “ela tem se revelado, no curso
dos anos, sólida e consistente. Resistiu incólume às novidades em voga na década de 70; e mantêm-
se como o método mais adequado ao exame da estrutura da frase”. Entre essas novidades “em voga
na década de 70”, encontrava-se a análise sintagmática, que tem suas origens na esteira dos estudos
do linguista americano Noam Chomsky.
Lemle (1984:95) aponta vantagens em se usar os marcadores sintagmáticos. Transcrevo, a
seguir, um fragmento de sua obra:
A representação gráfica da estrutura sentencial através dos diagramas em árvore tem a van-
tagem de reunir, numa só imagem, dois tipos de informação: os nós terminais da árvore fornecem a
categoria lexical de cada uma das palavras da sentença e os nós não-terminais descrevem a maneira
pela qual as palavras se ligam umas às outras, formando camadas de sintagmas cada vez mais abran-
gentes.
Na prática escolar tradicional, essas duas facetas da análise gramatical costumam ficar sepa-
radas. A tarefa da identificação das categorias das palavras não é necessariamente acompanhada da
tarefa de verificação dos agrupamentos sintagmáticos e vice-versa, a tarefa da análise sintática – a
separação e classificação das palavras, orações e locuções – não desce necessariamente até o nível
da palavra.
O diagrama em árvore associa automaticamente essas duas facetas da tarefa analítica, e tem
a vantagem adicional de servir de base a identificação das relações funcionais relevantes – sujeito,
37
predicado, objeto, complemento, modificador – que, como mostrou Chomsky (1965), são noções
deriváveis da própria configuração da árvore. (...)
LEMLE, Miriam. Análise sintática: teoria geral e descrição do português. São Paulo: Ática,
1984. p. 95
4.1. Hierarquia na estrutura da frase oracional
Ficou explicitado em mais de uma passagem deste nosso guia de estudo que há uma hie-
rarquia na estrutura da frase oracional, ou seja, a oração apresenta constituintes que contêm outros
constituintes, num franco jogo de encaixe. Dessa maneira, é possível montar estruturas mais com-
plexas, com base em processos de ampliação, a partir de estruturas sintáticas simples.
Leia a seguir o que o linguista Mário Perini, já citado em outras oportunidades, fala a respeito
disso. Procure construir seu conhecimento a partir da linha de análise da oração proposta no texto.
A hierarquia dos constituintes
A oração se estrutura de maneira hierárquica, isto é, contém constituintes que, por sua vez,
contêm outros constituintes. É preciso levar esse fato em conta ao se fazer a análise. Por exemplo,
digamos que se vai analisar a oração
Meus vizinhos arranjaram um cachorro horrivelmente barulhento.
Podemos fazer um primeiro corte, definindo os grandes constituintes (ou sintagmas) da ora-
ção, da seguinte forma:
[Meus vizinhos] – [arranjaram] – [um cachorro horrivelmente barulhento]
Esses são os constituintes imediatos da oração; cada um deles terá uma função especial (es-
sas funções se denominam, na ordem: “sujeito”, “predicado” e “objeto direto”).
Mas é fácil verificar que alguns desses constituintes têm, por sua vez, uma estrutura interna
sintaticamente caracterizável. Assim, meus vizinhos se divide em meus e vizinhos, e cada uma dessas
palavras tem sua função sintática dentro do sintagma meus vizinhos (chamo a essas funções, res-
pectivamente, “possessivo” e “núcleo do sintagma nominal”). O constituinte arranjaram é sintatica-
38
mente simples, por ser formado de uma única palavra, e, portanto, não pode ser mais analisado em
termos sintáticos (pode sê-lo em termos morfológicos). O constituinte um cachorro horrivelmente
barulhento, por sua vez, é complexo, e precisa ser analisado. Conforme veremos, ele se analisa em
um “determinante” (um), “um núcleo do sintagma nominal” (cachorro) e um modificador (horri-
velmente barulhento). Esses três termos são os constituintes imediatos do sintagma nominal um ca-
chorro horrivelmente barulhento. Finalmente, o constituinte que funciona como modificador desse
sintagma, horrivelmente barulhento, ainda pode ser analisado sintaticamente; proporei adiante que
se divida em um “intensificador” (horrivelmente) e em “núcleo do sintagma adjetivo” (barulhento).
Observe-se agora a hierarquia na estruturação da oração: o termo meus vizinhos é o sujeito
da oração; mas o termo meus não é o possessivo da oração; é o possessivo do sintagma nominal
meus vizinhos. Meus só é parte da oração indiretamente, porque faz parte de um sintagma que, por
sua vez, faz parte da oração. Da mesma forma, horrivelmente não é intensificador da oração, nem
do sintagma nominal um cachorro horrivelmente barulhento; é o intensificador do sintagma adjetivo
horrivelmente barulhento. Esse sintagma adjetivo faz parte do sintagma nominal um cachorro horri-
velmente barulhento, e esse sintagma nominal faz parte da oração.
Essa estruturação hierárquica é muitas vezes apresentada em forma de árvore, conforme
abaixo.
Alguns módulos da árvore estão sem nome; isso não tem importância no momento, pois só
nos interessa apresentar visualmente a estruturação hierárquica dos constituintes da oração.
PERRINI, Mário. Gramática descritiva do português. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1996. p. 68.
39
Oração
SN
SN
...
... N SAdj
Adj
...
N
Meus vizinhos arranjaram um cachorro horrivelmente barulhento
Nos estudos da unidade 4, vimos a importância de se representar a análise sintática através
dos diagramas arbóreos ou marcadores sintagmáticos, porque este esquema traz clareza para en-
tendermos como os vocábulos (ou a união deles) se relacionamnas orações.
Neste contexto, estudamos que existe uma relação de hierarquia entre os elementos ora-
cionais. Ou seja, existem constituintes da oração que contêm outros constituintes, o que nos permi-
te formar estruturas mais complexas de análise.
Finalmente, uma vez que tomamos conhecimento destas relações entre os elementos, pu-
demos reconhecer as conexões entre as funções sintáticas na frase, associando cada uma ao seu
campo de análise, dentro da produção de sentido.
Na próxima unidade veremos, especificamente, cada função sintática na frase oracional. Va-
mos em frente!?
Objetivos da Unidade
V Unidade V
- Reconhecer as funções sintáticas das orações;
- Identificar e classificar os tipos de sujeitos e predicados;
- Reconhecer os termos da oração ligados aos verbos;
- Reconhecer os termos da oração ligados aos nomes;
- Realizar análises sintáticas;
- Identificar as diferenças entre sintaxe e concordância.
41
5. Funções sintáticas na frase oracional
Veremos agora as várias funções que os constituintes imediatos podem desempenhar den-
tro da estrutura da oração. O estudo dessa estrutura é o que se chama tradicionalmente de análise
sintática.
Não pretendemos nos ater a classificações, posto que não é o objetivo deste estudo. Nossa
intenção é apenas apontar funções que auxiliarão você em suas análises morfossintáticas futuras.
Logo, ficaremos apenas nas cercanias das definições, do reconhecimento e das caracterizações.
Por razões didáticas, as denominações das funções que mencionarei obedecem àquelas que
fazem parte da tradição. Mas, quando possível, inserirei comentários alicerçados em estudos linguís-
ticos recentes. A bem da verdade, aqui só tenho um real compromisso: ser mero mediador na sua
construção de conhecimento.
Como sabemos, uma frase oracional se organiza a partir da combinação de vários constituin-
tes ou termos. Começarei por aqueles que são considerados como os essenciais, pois aparecerem
na maioria dos enunciados. Refiro-me ao sujeito e ao predicado.
5.1. O sujeito
O sujeito é o termo da oração que está em relação de concordância com o verbo. É notó-
rio que ele não é tão essencial assim, posto que há oração em que não está presente. Mas quando
está, é o assunto central da oração. É sobre ele que se está falando.
O sujeito habita o SN e tem como núcleo um substantivo, um pronome ou uma palavra que
ganhou status de substantivo ao receber um artigo como determinante.
42
A menina é o sujeito da oração acima. Seu núcleo é o substantivo menina.
De, no enunciado acima, ganhou status de substantivo e é o núcleo do sujeito O de.
5.2. O predicado
O predicado é o termo da frase oracional que apresenta um verbo. É todo comentário que,
a partir do processo verbal, se faz sobre o sujeito.
O predicado tem como núcleo um verbo. Perini (1996:71) afirma que “o verbo desempe-
nha na oração unicamente a função de núcleo do predicado; essa é a única função que um verbo
desempenha, e somente um verbo pode ser núcleo do predicado”. Parece-me sensata essa sua
colocação. Se a oração se organiza a partir do verbo, não há por que considerar, por exemplo, uma
oração com dois núcleos: um verbal e um nominal, como rezam as gramáticas tradicionais.
O termo Mariana é o sujeito da oração acima. Comprou sapatos novos constitui o predica-
do da oração. É o comentário que se fez sobre o sujeito e possui um núcleo que estabeleceu uma
relação de concordância com o sujeito.
Note que, neste exemplo, o predicado está estruturado por dois sintagmas: um de natureza
verbal e outro de natureza adjetival.
Analise agora comigo este outro exemplo:
43
Esse exemplo nos permite constatar que é muito bonito é o predicado. Esse predicado apre-
senta dois sintagmas: um verbal, que nos apresenta o núcleo é; o outro, adjetival, que é constituído
do predicativo do sujeito bonito intensificado pelo adjunto adverbial muito. Pela análise tradicional,
o resultado do exame seria diferente: o núcleo seria o adjetivo bonito e não o verbo, pois a tradição
considera, por critérios semânticos, que os verbos de ligação não têm competência para serem nú-
cleo. Isso implicaria considerar um caso de predicado nominal. Entretanto, aqui o que nos interessa
é a estrutura da frase oracional.
Vamos fazer uma breve pausa em nossa caminhada pelas funções sintáticas para vermos
como ficariam, no diagrama de árvore, algumas orações vistas acima?
44
5.3. Termos da oração ligados ao verbo
Veremos agora os termos ligados ao verbo, ou seja: o objeto direto, o objeto indireto, o
adjunto adverbial e o agente da passiva.
Belo “quarteto fantástico”, não?! Mas, brincadeiras de lado, você saberia
dizer um traço que esses quatro constituintes da frase oracional têm em
comum?
Como sabemos, o verbo é o elemento estruturador da oração. Nessa condição, ele não só
estabelece relação com o sujeito como também, dependendo do arranjo sintático, promove, diga-
mos, íntimas relações com alguns termos do predicado. Esses termos são: o objeto direto, o objeto
indireto, o adjunto adverbial e o agente da passiva.
O objeto direto é o termo que se liga diretamente a um verbo transitivo direto, isto é, a um
verbo que se relaciona com seu complemento sem a intermediação de uma preposição. Em outras
palavras a ligação é direta, não há nenhuma preposição no meio do caminho.
No exemplo dado, o termo a conta complementa o sentido do verbo pagou que é transitivo
direto. Logo, ele é um objeto direto.
O objeto indireto, por sua vez, é o termo que se liga diretamente a um verbo transitivo
indireto, isto é, a um verbo que se relaciona com seu complemento por meio da intermediação
obrigatória de uma preposição.
45
O termo de maçã complementa o sentido do verbo gosta que é transitivo indireto. Note
que entre o verbo e o substantivo maçã existe a preposição de intermediando obrigatoriamente a
relação de ambos.
É importante saber que há verbos que são transitivos diretos e indiretos, ou seja, relacionam-
se a dois complementos. Um deles obrigatoriamente preposicionado; o outro, sem preposição.
O verbo desejo é transitivo direto e indireto. No exemplo acima, constatamos um OI, inter-
mediado pela preposição a, e um OD, obviamente sem preposição.
MORFOSSINTAXE DOS OBJETOS
O objeto direto e o objeto indireto podem ser encenados por substan-
tivo, pronome substantivo, numeral, palavra ou expressão substantivada.
Na frase Eu desejo a você muitas felicidades, por exemplo, você é prono-
me; muitas e felicidades são, respectivamente, adjetivo e substantivo.
O adjunto adverbial pode se relacionar com o verbo para indicar circunstâncias do processo,
como, por exemplo, modo, lugar, causa, intensidade, afirmação, etc.
46
O termo de madrugada constitui um adjunto adverbial. Ele está acrescentado ao verbo en-
tregou uma circunstância temporal.
Os adjuntos adverbiais intensificadores, além de se ligarem ao
verbo, podem também acompanhar substantivos, adjetivos e advérbios.
Como, por exemplo, no enunciado Maria está muito feliz, em que advér-
bio muito intensifica o adjetivo feliz.
MORFOSSINTAXE DO ADJUNTO ADVERBIAL
O adjunto adverbial pode ser encenado por advérbio, locução adverbial e oração
subordinada adverbial. O termo de madrugada, p. ex., da frase O leiteiro entregou o leite de
madruga é uma locução adverbial.
Procure saber o que é voz passiva analítica.
MORFOSSINTAXE DO AGENTE DA PASSIVA
O agente da passiva pode ser representado por um substantivo
ou uma palavra substantivada, pronome ou numeral. No exemplo dado
acima, a representação ocorre por meio do substantivo homem.
Por fim, o agente da passiva relaciona-se com o verbo ao indicar o agente do processo ver-
bal quando o verbo está na voz passiva analítica.
47
O termopelo homem é o agente da passiva do processo verbal foi morto.
5.4. Termos da oração ligados aos nomes
As classes dos substantivos, dos adjetivos e dos advérbios recebem genericamente a deno-
minação de nomes. Sabe por quê? Para diferenciá-los dos verbos. Bem, mas o que nos interessa
verdadeiramente neste momento é o relacionamento deles com outras palavras e expressões na
frase. Tal relação tem a propriedade de suscitar novos termos da oração, a saber: o predicativo do
sujeito, o predicativo do objeto, o adjunto adnominal, o complemento nominal e o aposto.
O predicativo do sujeito é o termo que atribui características, qualidade, defeito ou estado
ao sujeito. E a ligação com este se dá por meio de um verbo. Na gramática tradicional, é o núcleo
do predicado nominal e do predicado verbo-nominal.
Neste exemplo, o termo emocionada é predicativo do sujeito Hortência. Perceba que essa
relação implica a concordância de gênero e número entre o adjetivo e o nome que ele modifica.
O predicativo do objeto, por sua vez, atribui característica, qualidade, defeito ou estado ao
objeto direto ou ao objeto indireto.
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Neste caso, observe a maneira como o adjetivo entusiasmada se relaciona com o objeto
direto a torcida, modificando-o e com ele concordando em gênero e número.
MORFOSSINTAXE DO PREDICATIVO
O predicativo do sujeito pode ser encenado por substantivo ou
expressão substantivada, por adjetivo ou locução adjetiva e por pronome
e numeral. Em A noite é uma criança, por exemplo, sua representação se
dá por intermédio do substantivo criança.
Substantivo, adjetivo ou locução adjetiva são atores passíveis de representar o papel
de predicativo do objeto. Em Marina o encontrou ensanguentado, em pânico, por ex., atuam
um adjetivo e uma locução adjetiva, respectivamente: ensanguentado e em pânico.
O adjunto adnominal é o termo da frase oracional que acompanha e modifica um substan-
tivo, qualquer que seja sua função sintática, sem a mediação do processo verbal.
No exemplo supracitado, todos os itens realçados constituem adjuntos adnominais. Note
como eles não abandonam as cercanias do nome, ora determinando-o, ora modificando-o. No nível
sintagmático, não deixe de observar que os dois sintagmas nominais apontados trazem, em seu in-
terior, sintagmas adjetivais (caçula e de português) que são constituintes imediatos deles dentro da
hierarquia oracional.
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MORFOSSINTAXE DO ADJUNTO ADNOMINAL
O adjunto adnominal é representado por artigos, pronomes, ad-
jetivos, numerais, locuções adjetivas. No exemplo analisado acima, temos
amostra de pronome (meu), adjetivo (caçula), artigo (a) e locução adjetiva
(de português).
O complemento nominal é o termo que completa o sentido de substantivos (abstratos),
adjetivos e advérbios. Tem como característica básica vir sempre regido por uma preposição.
O termo acima realçado completa o sentido do substantivo abstrato medo. Logo, é um
complemento nominal cujo núcleo é outro substantivo.
Se você tem dificuldade de discernir complemento nominal de adjunto adnominal,
saiba que isso é muito comum. Sugiro, então, que leia a explanação que Cereja e Magalhães
fazem acerca desse assunto na Gramática reflexiva: texto, semântica e interação (1999:261).
MORFOSSINTAXE DO COMPLEMENTO NOMINAL
O complemento nominal pode apresentar como núcleo substantivo ou
palavra substantivada, pronome e numeral. O termo de avião da amostra
realizada acima tem como núcleo, por exemplo, o substantivo avião.
50
O aposto é o termo da frase oracional que se refere a um substantivo, a um pronome ou a
uma oração, para explicá-los, ampliá-los, resumi-los ou identificá-los. Um traço sintático marcante do
aposto é que entre ele e o termo a que se refere geralmente, na escrita, há uma vírgula. Ou ainda:
dois-pontos, travessão ou parênteses.
MORFOSSINTAXE DO APOSTO
O aposto pode ser encenado por substantivo, pronome e oração
subordinada substantiva. Observe:
Casa, comida, roupa lavada, nada convenceu João a ficar.
O pronome nada, no enunciado acima, atua como aposto resumidor dos substan-
tivos que o antecederam.
Na amostra acima, o termo a rainha da primavera constitui um aposto, pois identifica o subs-
tantivo Mariana.
Caro(a) cursista, além desses componentes da frase oracional examinados até aqui, há o vo-
cativo que é o termo da oração que tem a função de nomear o interlocutor a quem nos dirigimos.
Aliás, não foi por acaso que iniciei este parágrafo com um sonoro caro(a) cursista. Considere-o meu
exemplo de vocativo.
Embora seja tão importante quanto os outros, ele é considerado um termo à parte. A razão
é simples: é independente sintaticamente tanto do verbo quanto dos nomes. Por isso, inclusive, é
que ele aparece isolado por vírgulas ou por sinalização de final de período.
Perini concorda com essa análise tradicional de estranhamento ao vocativo. O autor afirma
que
a análise por traços sintáticos não se aplica a ele, porque sua conexão com a oração não
51
é propriamente sintática. (...) a ligação entre o vocativo e a oração junto à qual ele pode
ocorrer não tem a ver com a estrutura da própria oração, mas com a organização do dis-
curso. (1996:91)
Usando argumentos convincentes, o linguista apresenta indícios de que o vocativo pode, por
si só, ser uma frase independente.
Sem querer atualizar o “Samba do crioulo doido”, vou colocar em único quadro um pouco
do que vimos até agora. Farei a análise morfossintática, tanto tradicional quanto sintagmática, da frase
Meu filho caçula leu a apostila de português.
Como se vê, na parte superior da oração acima, temos a análise sintática através do diagrama
em árvore ou marcador sintagmático. Além de descrever a forma como as palavras se ligam uma às
outras e fornecer a categoria lexical delas, note como esse tipo de análise nos permite visualizar o
aprofundamento da estrutura da frase.
Na parte inferior, a análise morfossintática linear tradicional oferece para você o elenco das
classes de palavras e das funções sintáticas oracionais que atuaram na peça linguística Meu filho ca-
çula leu a apostila de português.
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Agora é a sua vez de fazer sozinho(a). Realize a análise morfossintática – sintagmática e linear – da
oração Mariana, a rainha da primavera, namora Francisco.
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Sintaxe x Concordância: dúvidas frequentes
A. Se na frase (sujeito + verbo “ser” + predicativo) houver nome próprio ou pronome
pessoal reto, o verbo concordará com a pessoa ou o pronome; se houver nome próprio
e pronome, e um dos termos estiver no plural, a concordância será feita com o termo que
estiver no plural:
Marlene era só dores.
O Brasil somos nós.
B. Quando não houver nome próprio, e o sujeito ou o predicativo estiver no plural, o verbo
vai para o plural:
O pior foram suas acusações.
53
O resto são lembranças.
Suas certezas são o problema.
C. Em suma, o verbo de ligação concorda primeiro com a pessoa e depois com o plural, não
importa qual for o sujeito ou predicativo.
D. Se houver expressões de distância, peso, preço, quantidade (é bom, é demais, é muito, é
pouco e outras), o verbo permanece invariável:
“Três metros é muito para o sofá.”
“Dois quilos é pouco para a feijoada.”E. Em expressões de data, distância e tempo, o verbo concorda com o predicativo:
Hoje são 9 de novembro.
Em: Hoje é 9 de novembro - (supõe-se a elipse de “dia”).
Daqui lá são 12km.
Com horário fracionado, o verbo concorda com a unidade.
É 1 hora e 30.
In: Revista Língua Portuguesa, nº 75, Jan/ 2012.
Durante o estudo da unidade 5, vimos que uma frase oracional se organiza a partir da com-
binação de vários constituintes ou termos.
Começamos pelo estudo e classificação dos tipos de sujeitos e predicados. Aprendemos que
o sujeito é o termo da oração que concorda com o verbo e o predicado é o termo que contém o
verbo.
54
A partir das definições de sujeito e predicado, estudamos os elementos que se ligam aos verbos e
os que se ligam aos nomes.
Sobre os termos que se ligam aos verbos, temos o objeto direto é o termo que se liga
diretamente a um verbo transitivo direto. O objeto indireto, por sua vez, é o termo que se liga dire-
tamente a um verbo transitivo indireto, isto é, a um verbo que se relaciona com seu complemento
por meio da intermediação obrigatória de uma preposição.
Aprendemos, também, a indicar as circunstâncias do processo, como, por exemplo, modo,
lugar, causa, intensidade, afirmação etc., a partir da relação que o adjunto adverbiar tem com o
verbo. Dentro do contexto dos termos da oração, estudamos, por fim, o agente da passiva que é
aquele relacionado ao verbo para indicar o agente do processo verbal quando o verbo está na voz
passiva analítica.
Por outro lado, conhecemos os termos ligados aos nomes, a saber: o predicativo do sujei-
to, o predicativo do objeto, o adjunto adnominal, o complemento nominal e o aposto. Em que o
predicativo do sujeito é o termo que atribui características, qualidade, defeito ou estado ao sujeito.
O predicativo do objeto, por sua vez, atribui característica, qualidade, defeito ou estado ao objeto
direto ou ao objeto indireto. O adjunto adnominal é o termo da frase oracional que acompanha e
modifica um substantivo, qualquer que seja sua função sintática, sem a mediação do processo verbal.
O complemento nominal é o termo que completa o sentido de substantivos (abstratos), ad-
jetivos e advérbios. E, por fim, o aposto é o termo da frase oracional que se refere a um substantivo,
a um pronome ou a uma oração, para explicá-los, ampliá-los, resumi-los ou identificá-los.
A partir do estudo e reconhecimento de todos os termos, realizar a análise sintática ficou
bem mais fácil, não é?! Uma vez a análise sequencial, na ordem proposta, de cada um dos elementos,
basta organizá-los para visualização no diagrama arbóreo.
Para finalizar, fizemos algumas reflexões acerca das diferenças entre sintaxe e concordância,
assunto este bastante conflituoso na percepção da maioria dos alunos.
Enfim, esperamos que ao final deste guia você tenha sido capaz de assimilar os aspectos
iniciais do estudo da morfossintaxe, além, é claro, de compreender como estas análises são úteis
para o entendimento da significação de cada sintagma. No nosso próximo encontro, na disciplina
55
de Morfossintaxe II, debruçaremos nossas análises sobre outros elementos e estudaremos novas
construções da Língua Portuguesa.
Por enquanto é isso... obrigada a todos! Bons estudos!
Texto Complementar
Mudanças inconscientes
Sem consciência de fazê-lo, português do Brasil deriva para sintaxe que preenche o lado
esquerdo da frase
Sírio Possenti
Sempre que me refiro a Ruy Castro, começo dizendo que seus textos estão entre os me-
lhores dos jornais e das revistas. Às vezes, acrescento que as biografias que escreveu também são
trabalhos exemplares. Mas combato algumas posições dele sobre língua. É que, ao contrário do tra-
balho que faz quando trata de outras questões, quando fala de língua seu brilho diminui. Ou some.
Vou comentar dois fatos de ordem gramatical que encontrei em um texto dele - também
muito bom. É um pretexto para falar de mudança linguística. Trata-se de matéria sobre a revista
Senhor, comentando a edição que a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo lança em julho, com
seleção de materiais editados na revista (Folha de S.Paulo, Ilustríssima, 20/5/2012, pp. 4-5).
Um dos parágrafos começa assim: "Basta consultar o expediente para se ver como, desde
sua estreia, Senhor continha...". Um pouco adiante: "Daí que os homens que se sucederam na sua
condução pelos cinco anos de existência da revista puderam fazê-lo sem traumas - todos sabiam do
que Senhor se tratava" (os grifos são meus).
Acho que sou menos conservador do que ele em questões linguísticas. Mas, paradoxalmen-
te, ele usa em um parágrafo duas construções que nunca uso:
56
a) "se" como sujeito indeterminado antes de infinitivo;
b) a construção "x se trata", em que x é um nome ou pronome (cada vez mais comum).
O primeiro caso talvez seja o melhor exemplo de que o português do Brasil deriva para uma
sintaxe que preenche cada vez mais o lado esquerdo da frase. Faz isso valendo-se de recursos como
as construções de tópico ("os juros, eles são muito altos") e o preenchimento de posições que eram
ou podiam ser vazias, das quais o caso mencionado é exemplo. É tendência, uma deriva; não se trata
de regras categóricas.
É doutrina das gramáticas tradicionais que o infinitivo pessoal não flexionado é uma forma
de deixar o sujeito indeterminado (em "Comer fora é caro" e "Navegar é preciso" não se explicita
o sujeito de "comer" e "navegar"). Por isso, colunistas andaram criticando uma propaganda que
sugeria um lugar "para se morar bem". Alegavam que a construção "correta" é "para morar bem".
Luis Fernando Veríssimo publicou Comédias para se ler na escola, mas o livro que seguiu a este se
chamou Mais comédias para ler na escola. Alguém deve ter soprado que aquele título estava errado,
especialmente para se ler na escola.
Lado esquerdo
Outro exemplo de preenchimento do lado esquerdo da frase tem a ver com o que acon-
tece com os pronomes ditos pessoais. "Antigamente" (espero que compreendam as aspas), apren-
dia-se a escrever eliminando pronomes sujeitos (em vez de "eles foram" ou "nós vamos", "foram" e
"vamos").
Era uma sugestão estilística. A flexão verbal deixava claro que o sujeito era "eu", "tu", "ele"
(nunca "ela") ou "nós" etc., porque as formas verbais eram "lavo", "lavas", "lava", "lavamos" etc. Mas
hoje não se sabe se o sujeito de "lava" é "você", "ele/a" ou "a gente". Consequência: a língua impõe
que o sujeito seja explicitado.
Não é que isso seja ensinado, que os falantes sejam obrigados a seguir essa regra. A questão
nem é tratada nos livros didáticos. Segue-se esta regra por pressão da língua. Os falantes são seus
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próprios gramáticos.
Então, perguntará alguém, a construção encontrada no texto de Ruy Castro está errada?
Seria bobagem dizer isso. A posição mais conservadora sobre a questão do erro e do acerto é a
seguinte: é certo o que os escritores escrevem (poderíamos substituir "escritores" por "pessoas letra-
das"). Então, se pessoas como Ruy Castro usam (escrevendo formalmente!) "se" antes de infinitivo,
este é um forte sinal de que a construção é considerada correta.
Aliás, ninguém consegue corrigi-la, porque não se vê mais como erro o que antes assim se
via. Só profissionais dedicados ao ramo percebem o "problema" - mas esses não se dão conta de
que há uma história ocorrendo debaixo do nariz. São eles que dizem que os donos da língua são as
pessoas cultas (não conseguem dizer que é "o povo"). Ora, deveriam seguir suas diretrizes.
Antigo
Então, perguntará o leitor, por que eu não adoto "se" nessa posição sintática? Respondo:
porque sou mais antigo. No caso, a questão não é "eu escrevo certo e Ruy Castro e os jovens, não",
ou vice-versa. A divisão correta é "eu escrevo à moda antigae eles seguem regra nova". Uma regra
da norma culta, insisto.
Outra pergunta interessante: como é que Ruy Castro adotou essa forma (mesmo que não
o faça em todos os casos)? A resposta é dividida em partes. Compreender isso é fundamental para
que se entenda ("para entender" ou "para se entender") como as línguas mudam:
a) as mudanças são inconscientes;
b) as mudanças não são isoladas (são sistemáticas);
c) as mudanças são lentas.
Ruy escreveu o que escreveu sem saber que estava fazendo uma concessão à nova regra.
Assim as mudanças ocorrem: são inconscientes. Quando alguém se dá conta (e principalmente
quando não se dá), já segue a regra nova, falando ou escrevendo de um jeito que condena(va). Ou
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condenaria, caso se desse conta!
O preenchimento do lado esquerdo da frase é consequência também da diminuição de
flexões verbais. É exemplo de mudança do sistema. O fenômeno é acompanhado do esvaziamento
do lado direito da frase. As análises de corpora extensos da língua mostram que, quando o objeto
pode ser recuperado no contexto (o que é questão textual, não sintática), o objeto (complemento
verbal) é cada vez menos repetido - ou mais elíptico. Um exemplo como o seguinte é típico, e não
fenômeno isolado:
- Você comeu bolo?
- (Eu) comi.
Na falta de consciência da mudança, o que acontece com "se ver" acontece com "se tratava".
Com a diferença de que não se trata (sem nome ou pronome antes de "se trata", em meu estilo) de
questão estrutural mais ampla, mas de reinterpretação da valência verbal (isto é, dos "acompanhan-
tes" do verbo).
Menos flexões
Tradicionalmente, esta construção supunha que o tema ou tópico fosse mencionado an-
teriormente. A oração do verbo "tratar(-se)" deixava o tema elíptico. Acima, usei uma construção
"antiga": "O que acontece com... acontece com ... Com a diferença de que não se trata...". Esta oração
pressupõe "isso", "esse fato". Hoje, diriam: "Com a diferença de que isso (esse fato) não se trata".
Cada vez mais, um sujeito surge explicitamente antes (ou depois) do verbo: "isso não se
trata" de questão estrutural (Ruy: de que "Senhor se tratava"). Um verbo impessoal passou a pessoal.
Inconscientemente.
Na verdade, tem mais: a partir dessa estrutura, há a hipercorreção, que se espalha: se tópico,
tema ou assunto for um plural, o verbo assume flexão correspondente, como nas previsões astro-
lógicas para nascidos de Touro (O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 26/5/2012): "...a natureza de seus
melhores planos. Isso faria com que inúmeras pessoas começassem a dar palpites sem, no entanto,
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entender direito de que se tratavam esses melhores planos".
Texto disponível em:
Se você eliminar algumas das palavras em destaque nas frases abai-
xo, obterá ainda uma frase compreensível (não necessariamente com o
mesmo sentido). Faça você mesmo(a) o teste:
O cristal reflete as mesmas sete cores fundamentais do arco-íris.
O mês passado recebemos uma conta telefônica astronomicamente alta.
Branca de Neve foi socorrida por sete anões que viviam na floresta e trabalhavam nas minas
de diamantes.
Dessa vez, voltando à repartição, fui atendido por uma outra funcionária, bem mais
qualificada do que o contínuo com quem eu tinha falado da primeira vez. (ILARI, 2002, p.
70)
http://revistalingua.uol.com.br/textos/81/mudancas-inconscientes-262396-1.asp
http://revistalingua.uol.com.br/textos/81/mudancas-inconscientes-262396-1.asp
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1. Todas as alternativas contêm trechos que, no texto, apresentam imprecisão do agente da ação
verbal, exceto:
a. Já não basta os prefeitos, como imperadores, tentarem mudar o nome de avenidas cruciais [...]?
b. Já não basta mudarem toda hora as teorias sobre o que engorda e o que emagrece?
c. Já não basta ficarem mexendo toda hora no valor e no nome do dinheiro?
2. Imagine a manchete:
Macumbeiro joga galinha preta em lanchonete sem um olho direto
Do modo como foi redigida a manchete, observa-se um problema de:
a. Concisão: “joga galinha” já pressupõe “sem olho”.
b. Ordem das palavras: a locução adverbial “em lanchonete” refere-se a “Macumbeiro” e não a
“galinha preta”.
c. Redundância: “em lanchonete” e “sem olho” são termos que se excluem.
d. Sonoridade: “sem olho” quebra a sonoridade da frase.
e. Coesão: a colocação dos termos gera ambiguidade.
>> Após assinalar a alternativa correta, justifique sua resposta.
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3. As palavras assim, também e fazer o mesmo são às vezes usadas para evitar a repetição de um
constituinte. Diga que constituinte se evitou repetir nas frases que seguem:
a. Meu irmãozinho gosta de batatas com ketchup pingando. Mas eu não gosto assim.
b. Meu irmãozinho gosta de batatas com ketchup. Mas eu não gosto assim.
c. Todo mundo estava tirando o sapato e eu fiz o mesmo.
d. Todo mundo estava tirando o sapato, e eu fiz o mesmo com a blusa.
e. Muita gente abastece o carro nesse posto, e eu também faço isso.
f. Muita gente abastece o carro nesse posto, e eu faço isso com o caminhão.
g. Ele viaja com o caminhão descoberto. Assim ele vai pegar uma bela multa.
h. O caminhão voltou sem lona, mas não tinha saído assim.
PORTAL DE SAÍDA
Afirmamos que o vocativo é um termo tão importante quanto os outros. Tomamos essa
afirmação como ponto de partida de nossas considerações finais nesta disciplina. A nosso ver, to-
dos os termos ou todas as palavras de um enunciado têm a sua importância. O usuário da língua,
em uma situação comunicativa, faz seu arranjo frasal de acordo com as suas necessidades naquele
momento único é intransferível. Diante disso, todos os elementos concorrem, cada qual com sua
particularidade, para dar sentido e coesão à unidade discursiva.
Ora, portanto, todas as palavras e todos os termos estão em pé de igualdade a serviço de
uma única senhora: a comunicação. Nenhum deles é mais importante que o outro. Todos são im-
portantes, ainda que haja um ou outro elemento, digamos, notadamente nuclear.
Aliás, consideramos que essa história de a gramática tradicional dividir os termos da oração
em essenciais, integrantes e acessórios nada mais é do que o reflexo de sua essência puramente
elitista e... Opa! Talvez nós não consigamos resolver satisfatoriamente bem isso; e, a bem da verdade,
talvez nem seja assunto para este momento.
Outro grande abraço,
Carina e Roberto.
Referências Bibliográficas
BASILIO, Margarida. Teoria Lexical. São Paulo: Ática, 2007.
CARONE, Flávia de Barros. Morfossintaxe do português. São Paulo. Ática, 1988.
KURY, Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática. 9 ed.. São Paulo: Ática, 2008.
BERTUCCI, Roberlei Alves. Introdução à análise da língua portuguesa: processos sintáticos e semân-
ticos. Curitiba: InterSaberes, 2015.
GAVIOLI-PRESTES, Cindy Mery. Introdução à sintaxe e à semântica da língua portuguesa. Curitiba:
InterSaberes, 2015.
MUSSALIN, Fernanda e BENTES, Anna C. Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. 3 ed.. São
Paulo: Cortez, 2003.
PERINI, Mário. Sintaxe Portuguesa: metodologia e funções. 2 ed.. São Paulo: Ática, 1994.
SAUTCHUK, Inez. Prática em Morfossintaxe: como e por que aprender análise (morfo)sintática - 2ª
edição. Barueri - SP: Manole, 2010.
1.1. Aspectos Introdutórios
1.2. Análise Morfossintática
2.1 Frase, oração, período
2.1.1. Frase
2.1.2. Oração ou frase oracional
2.1.3. Período
3. A estrutura interna da frase oracional simples
3.1. Constituintes oracionais: os sintagmas
3.2. O sintagma