Prévia do material em texto
Cefaleias [1] Definição e Classificação • Definição: sensação dolorosa na cabeça, couro cabeludo ou região cervical superior • Classificação (ICHD-3, 2018): o Primárias → disfunção funcional sem causa subjacente: ▪ Enxaqueca ▪ Cefaleia Tensional ▪ Cefaleias Trigeminais Autonômicas (TACs): cefaleia em salvas, hemicrania paroxística, SUNCT/SUNA o Secundárias → associadas a doenças estruturais: ▪ Trauma ▪ Infecção ▪ Vascular ▪ Metabólica ▪ Neoplásica o Neuralgias cranianas e outras dores faciais [2] Epidemiologia • Alta prevalência global • Enxaqueca: 12-15% → predomínio em mulheres (3:1), faixa etária 25-55 anos • Cefaleia tensional: mais comum, até 78% • Cefaleia em salvas: 0,1%, predominante em homens jovens (20-40 anos) • Impacto socioeconômico: absenteísmo, perda de produtividade, custos elevados [3] Etiopatogenia • Enxaqueca: o Hiperexcitabilidade cortical → Depressão Alastrante Cortical (CSD) o Ativação do sistema trigeminovascular → liberação de CGRP, Substância P → vasodilatação e neuroinflamação o Sensibilização central → persistência e cronificação da dor • Cefaleia Tensional: o Tensão muscular craniocervical o Disfunção na modulação descendente da dor • Cefaleias Trigeminais Autonômicas (TACs): o Disfunção hipotalâmica o Ativação do sistema trigeminal autonômico → lacrimejamento, congestão nasal, ptose • Secundárias: o Compressão neural o Inflamação (meningite , arterite temporal ) o Isquemia ou hemorragia (AVC, HSA ) o Aumento da PIC → cefaleia postural [4] Fatores de Risco • Genéticos: histórico familiar, principalmente na enxaqueca • Ambientais: estresse, privação de sono, jejum, estímulos sensoriais (luz, cheiros) • Fatores farmacológicos: uso excessivo de analgésicos → cefaleia por abuso • Estilo de vida: tabagismo, álcool, sedentarismo • Psiquiátricos: ansiedade, depressão, distúrbios do sono [5] Fisiopatologia Avançada • Sensibilização periférica → aumento da excitabilidade de nociceptores na dura- máter • Sensibilização central → amplificação e manutenção da dor, mesmo após remoção do estímulo • Disfunção do tronco encefálico e sistema serotoninérgico → alterações na modulação da dor Neurotransmissores envolvidos: • CGRP: vasodilatação e inflamação • Substância P: vasodilatação e extravasamento plasmático • Serotonina: disfunção do sistema inibitório da dor • Dopamina: pródromos (bocejos, alterações de humor) [6] Quadro Clínico • Enxaqueca o Fases: ▪ Pródromo → alterações humorais, irritabilidade, bocejos ▪ Aura (30%) → sintomas neurológicos focais: escotomas, parestesias ▪ Dor → unilateral, pulsátil , moderada-intensa, com náuseas , fotofobia , fonofobia ▪ Pósdromo → fadiga, dificuldade de concentração • Cefaleia Tensional o Dor em pressão/aperto , bilateral , leve a moderada, sem agravamento por esforço o Ausência de náuseas/vômitos importantes • Cefaleia em salvas o Dor intensa, unilateral, periorbitária o Curta duração (15-180 min), múltiplos episódios diários o Sintomas autonômicos ipsilaterais → lacrimejamento , congestão nasal , ptose Sinais de Alarme (Red Flags): • Cefaleia em trovoada • Déficit neurológico focal • Alteração no padrão habitual • Idade >50 anos • Imunossupressão [7] Anamnese Estruturada • Início, frequência, duração, evolução • Localização e irradiação • Qualidade: pulsátil, opressiva • Sintomas associados: náuseas, vômitos, fotofobia, fonofobia, sinais autonômicos • Fatores precipitantes: esforço, jejum, estresse • História familiar • Uso de medicamentos → risco de cefaleia por abuso [8] Exames Complementares: Quando e por quê? Exame Indicação Exame neurológico Avaliar sinais focais, déficits sensitivo-motores Exame Indicação TC de crânio Suspeita de HSA , tumor, hidrocefalia, efeito de massa RM cerebral Lesões estruturais, tumores, malformações vasculares Punção Lombar Suspeita de HSA com TC negativa, meningite, hipertensão intracraniana idiopática Exames laboratoriais VHS e PCR: arterite temporal; coagulograma: distúrbios hemorrágicos Fundoscopia Papiledema → HIC Diário de cefaleia Identificar padrão, frequência, intensidade e gatilhos [9] Diagnóstico • Fundamentado em critérios clínicos (ICHD-3) • Exclusão rigorosa de causas secundárias com base em anamnese e exame físico • Exames complementares conforme red flags [10] Diagnóstico Diferencial Diagnóstico Características HSA Cefaleia súbita, intensa, máxima em segundos (“em trovoada”) Tumores intracranianos Cefaleia progressiva, pior matinal, com sinais focais e crise epiléptica Meningite Febre , rigidez nucal , sinais meníngeos Glaucoma agudo Dor ocular severa , midríase fixa, perda visual Hipertensão intracraniana idiopática Papiledema , cefaleia postural, diplopia [11] Tratamento na Emergência Objetivos: • Alívio rápido • Exclusão de causas graves Enxaqueca: • AINEs: ibuprofeno 400-800 mg VO/IV; naproxeno 500 mg VO • Triptanos: sumatriptano 6 mg SC ou 50- 100 mg VO • Antieméticos: metoclopramida 10 mg IV/VO • Corticosteroides: dexametasona 10-24 mg IV → prevenção de recorrência Opioides não são recomendados! [12] Tratamento Ambulatorial e Profilático Enxaqueca: • Agudo: AINEs, triptanos, antieméticos • Profilático (≥4 crises/mês ou impacto funcional significativo): o Propranolol: 80-160 mg/d o Amitriptilina: 10-75 mg/noite o Topiramato: 25-100 mg/d o Anti-CGRP (erenumabe, fremanezumabe) → terapia especializada Cefaleia Tensional: • Analgésicos simples • Terapias não farmacológicas: fisioterapia, acupuntura, terapia cognitivo- comportamental • Amitriptilina se crônica Cefaleia em Salvas: • Aguda: O2 a 100%, 12 L/min via máscara não reinalante + sumatriptano 6 mg SC • Profilática: Verapamil 240-360 mg/d (ECG de controle), corticoides como ponte terapêutica