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GEOGRAFIA DA MUNDIALIZAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar os tipos de corporações internacionais e seus objetivos. > Descrever a estratégia tecnofinanceira das grandes corporações. > Reconhecer os tipos de investimentos feitos em países emergentes da Amé- rica do Sul, África e Ásia. Introdução Neste capítulo, você vai estudar a dinâmica econômica e financeira atual, com base na atuação das grandes corporações, e a dinâmica social e produtiva, a partir das ações dos organismos internacionais. Além disso, vai conhecer as características da fase do capitalismo financeiro, o papel das corporações e exemplos das es- tratégias de internacionalização, inovação, fusão e aquisição dessas empresas. Também serão tratadas questões sobre investimentos e aplicações produtivas e financeiras (desembolsos e empréstimos) feitos por organismos internacio- nais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), nos países subdesenvolvidos/em desenvolvimento e nos países emergentes. Por fim, você vai ver as implicações e os desdobramentos sociais e econômicos dessas ações nesses países. Corporações e organismos internacionais Francielly Naves Fagundes Contexto e categorização de empresas e organismos internacionais Hoje, mundialmente, se configura uma nova organização socioespacial nos países, do ponto de vista organizacional e empresarial: o sistema econô- mico capitalista. Após a Segunda Guerra Mundial, em razão dos problemas decorrentes das guerras, os países, principalmente os da Europa e da Ásia, demandaram auxílios e acordos cooperativos. Eles tinham o objetivo de reestruturar e reconstruir seus territórios e sua população, devastados pelos conflitos. Assim, emergiu a necessidade de criar organismos internacionais que pudessem impulsionar acordos de paz e amparar economicamente os países do mundo. Como exemplos, temos a Organização das Nações Unidas (ONU) e o FMI, cada um com seus respectivos objetivos em relação à segurança e à economia (CHESNAIS, 1996). Em termos empresariais, hoje prevalecem as trocas econômicas-financeiras a partir de transações bancárias virtuais. Isso acontece em razão da fase do capitalismo que vivemos atualmente: o capitalismo financeiro. Segundo Bezerra (2021), são características dessa fase: � ampliação do crescimento econômico e da concorrência internacional entre empresas; � ampliação do mercado e dos produtos financeiros; � controle da economia por parte dos bancos e das grandes empresas (empréstimos, financiamentos bancários); � surgimento de empresas transnacionais e multinacionais; � negociações em bolsas de valores (ações e títulos de empresas). As empresas buscaram alavancar seu capital a partir de mecanismos disponibilizados por órgãos internacionais e da aquisição de empresas es- tatais, o que, em países em desenvolvimento, também significa o advento de intensas políticas de desestatização. O surgimento de grandes empresas (corporações) com operações em siste- mas de mercados de mais de um país, com atuação e expansão internacional, é uma característica da globalização e da mundialização. As empresas se organizam e atuam como mercados de oligopólio, em que poucas empresas detêm o controle do mercado de um segmento produtivo, ou de monopólio, em que esse controle é de apenas uma empresa. Essas corporações são chamadas de empresas multinacionais, quando atuam em mercados no ex- terior, fora dos limites territoriais de seu país de origem, e de transnacionais, Corporações e organismos internacionais2 quando têm sócios e donos de vários países, com destaque para os países desenvolvidos e altamente industrializados (FRANCISCO, [202-?]). As corporações, por meio de estratégias de marketing poderosas, atuam na divulgação incessante de suas marcas, impulsionando a criação e a manu- tenção de uma sociedade de consumo, ou seja, de um ambiente que demanda, a todo momento, a aquisição de bens de consumo. É possível apontar nomes e marcas de grandes empresas de vários tipos e segmentos setoriais; veja a seguir alguns exemplos. � Do ramo de tecnologia: Apple, Microsoft, Google, Amazon, Facebook, Samsung. � Do setor bancário: bancos privados da China e dos Estados Unidos (EUA). � Do ramo automobilístico: Toyota, Hyundai, General Motors, Honda, Volkswagen. � Do setor alimentício: Coca-Cola, McDonald’s, Nestlé, Danone. � Do ramo de vestuário: Nike, Adidas, GAP, Puma. � Do setor de bens de consumo diversos e limpeza: Unilever. No capitalismo financeiro, o bancário é um setor expoente, pois atua em moldes rentistas. Isso significa que ele não se reproduz com a criação de bens de consumo, como as empresas industriais, mas por rendimentos financeiros e especulativos. É importante ressaltar o papel do FMI e do Banco Mundial, organismos internacionais vinculados ao rol de agências da ONU. Eles se voltam para o desenvolvimento e o financiamento de países que se encontram em difi- culdades financeiras, com o intuito de gerar um ambiente governamental saudável para as negociações entre países. Diferentemente dos bancos privados, que buscam o máximo de lucro em seus empréstimos, o FMI e o Banco Mundial são considerados bancos de desenvolvimento. Eles foram criados após a Segunda Guerra Mundial, na década de 1940, com o objetivo, a princípio, de colaborar para a reconstrução econômica dos países devastados pelas guerras. Isso, na realidade, não aconteceu. Segundo o The World Bank Group (2021), o Banco Mundial é como uma cooperativa formada por 189 países membros. Esses países são acionistas e, portanto, são os principais formuladores de políticas do banco, que tem como objetivo elaborar soluções sustentáveis para reduzir a pobreza e criar prosperidade compartilhada nos países em desenvolvimento. Corporações e organismos internacionais 3 Nas próximas seções, veremos as movimentações financeiras (emprés- timos) do FMI e do Banco Mundial a países como o Brasil e as implicações decorrentes dessa ajuda financeira, que se torna uma dívida externa. Estratégias tecnológicas e financeiras das corporações As corporações utilizam o desenvolvimento dos setores de comunicação e de informação como forma de diminuir o tempo gasto em atividades financeiras e de criar dinâmicas financeiras que propiciam maiores ganhos e lucros a curto prazo. As trocas financeiras ganham maior agilidade em escala global, permitindo que as corporações trabalhem em diversas localidades e com diferentes formas de ação, de acordo com as especificidades territoriais e socioeconômicas dos países e regiões. Com a mundialização e a globalização, as corporações passaram a adotar medidas cada vez mais competitivas, para atingir um patamar mais vantajoso no mercado, nas trocas comerciais e nos negócios. Essa competitividade está pautada na adequação das estratégias de empresas individuais ao padrão de concorrência vigente (interação entre estruturas e condutas dominantes) de um mercado específico (FERRAZ; HAGUENAUER; KUPFER, 1996). Sobre a postura das corporações nesse novo cenário mundial, Ferraz, Haguenauer e Kupfer (1996, p. 7) destacam que: As empresas buscariam adotar, em cada instante, estratégias (gastos em aumen- to da eficiência produtiva, qualidade, inovação, marketing, etc.) voltadas para capacitá-los a concorrer em preço, esforço de venda e diferenciação de produtos em consonância com o padrão de concorrência vigente no seu mercado. As corporações, em razão da acirrada concorrência, optam pela estratégia do desempenho competitivo, condicionado por fatores internos da empresa, como inovação, recursos humanos e produção, fatores estruturais, como mercado, setor e concorrência, e fatores sistêmicos, como macroeconomia, políticos, instituições e questões regulatórias (COUTINHO; FERRAZ, 1993). As corporações atuam em um jogo de ações e competições, priorizando e planejando a inovação de produtos, a internacionalização de mercados e a ampliação de poder por meio de fusões e aquisições comoutras empresas. Essas práticas têm como objetivo criar vantagens competitivas para as empresas que, uma vez predominantes no mercado, buscam adquirir outras empresas já existentes. Assim, ganham o mercado ou as fatias de mercado já constituídos. Corporações e organismos internacionais4 A conduta ligada à inovação surge como um dos meios desencadeadores de estratégias competitivas de corporações. As empresas buscam novos produtos para o seu mercado de atuação por meio de combinações mais eficientes dos fatores de produção ou pela aplicação prática de alguma invenção ou inovação tecnológica (SCHUMPETER, 1997). Em decorrência da velocidade do desenvolvimento tecnológico, rapidamente os produtos tornam- -se ultrapassados, exigindo que as empresas inovem. A estratégia das corporações em relação à prática das fusões e aquisições (F&A) é frequente na atualidade. A aquisição (compra) visa a ganhar mercado e a diminuir sua concorrência (por exemplo, com fornecedores). A fusão (li- gamento) com outra empresa ou grupo tem como objetivo aumentar a fatia de mercado disponível, com possibilidade de ganhos em escala e melhor aproveitamento de mão de obra. As F&A alteram a concorrência, pois redu- zem — ou anulam — a oportunidade de expansão das pequenas empresas e indústrias e aumentam a taxa de crescimento e o poder de atuação das grandes empresas que se juntaram. Em alguns casos, isso gera anomalias que afetam a concorrência no mercado como um todo (COUTINHO; FERRAZ, 1993). No Brasil, as F&A são regulamentadas pelo Conselho Administrativo de Defesa (CADE), uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Justiça. O CADE analisa e autoriza essas práticas e é responsável por investigar, decidir, fomentar e disseminar a cultura da livre concorrência (BRASIL, 2021). Para saber mais sobre as F&A, assista à entrevista “Fusões, Aquisições e Avaliações das Empresas”, no canal Fipe, no YouTube. No vídeo, o Prof. Dr. Eduardo Luzio fala sobre os objetivos que impulsionam essas estratégias de mercado e dá exemplos de empresas e marcas que foram vendidas e fundidas. A estratégia da internacionalização dos mercados, a princípio, é vista como positiva, pois apenas a entrada de empresas de capital multinacional e transnacional nos países gera empregos e impulsiona rendas e a circula- ção da economia de uma localidade. No entanto, é importante entender as desvantagens da internacionalização, afinal, os lucros voltam ao país de origem (i.e., à matriz), e existe muita exploração de mão de obra, recursos e terras. Assim, de um lado, há a geração de empregos, mas, de outro, há uma descapitalização dos países-sede em razão da fuga de capitais (mão de obra e recursos), o que costuma empobrecer o país. É válido ressaltar a importância das empresas brasileiras que se interna- cionalizaram, como a Petrobras, a Embraer, a Vale do Rio Doce, entre outras. Corporações e organismos internacionais 5 Por meio das exportações, essas empresas atuam em mercados de outros países, possibilitando a geração de riquezas que retornam ao território e à sociedade brasileira. Como visto, as estratégias tecnofinanceira das grandes corporações de- sencadeiam uma corrida desenfreada por retorno financeiro e pelo lucro, dois agentes que ditam as relações de poder. Aplicações nos países emergentes Os países emergentes são aqueles classificados como subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, mas que apresentam um relativo desenvolvimento econômico e social em comparação aos países mais pobres do mundo. Essa comparação é feita em relação a patamares médios de Índice de Desenvol- vimento Humano (IDH), industrialização recente e crescimento da economia (PENA, [202-?]b). Conforme destaca Pena ([202-?]b), o desenvolvimento industrial nos países subdesenvolvidos/em desenvolvimento e emergentes se deu pela massiva entrada de empresas estrangeiras com matriz em países desenvolvidos. Essas corporações são atraídas a esses países em razão das vantagens locacionais, decorrentes da matéria-prima, da mão de obra, das condições de transporte e do mercado consumidor. As grandes empresas transnacionais ampliaram sua participação nesses locais por meio da implantação de empresas filiais e investimentos produtivos (infraestrutura). Esse movimento de expansão corporativa está associado, sobretudo, à ação financeira de organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial, que atuam no fornecimento de desembolsos e empréstimos. Contudo, esses empréstimos, que servem para impulsionar a instalação de empresas e so- lucionar crises financeiras nos países, desencadeiam a formação de dívidas exorbitantes, em razão dos juros excessivos. Além disso, os incontáveis benefícios concedidos às empresas, como isenções fiscais e de impostos, não retornam como deveriam, ou seja, na forma de benefícios aos trabalhadores e aos países. Pelo contrário, a sociedade “paga” para ter esses supostos investimentos. Segundo Santos (2020), a dívida externa dos países é decorrente dos empréstimos e financiamentos contraídos no exterior pelos governos dos países e por empresas estatais ou privadas. Eles advêm de recursos de or- ganismos internacionais, como o FMI ou o Banco Mundial, mas também de outros bancos e empresas privadas financeiras. Corporações e organismos internacionais6 No caso do Brasil, tendo como base a carta de intenção e os dados do Banco Central, foram efetuados empréstimos com o intuito de impulsionar a economia nacional. No entanto, apesar das transferências financeiras, não foi possível solucionar os problemas econômicos, como a inflação da moeda (SANTOS; SANTOS, 2019). Vale destacar quatro cartas de intenções feitas pelo Brasil no cenário contemporâneo. Veremos mais sobre elas a seguir. A primeira carta é do início do governo Fernando Henrique Cardoso, em 1998, com recursos de 18 bilhões de dólares. Ela seria a primeira stand-by, nome dado a empréstimos com longo tempo de carência (no caso dessa, 36 meses). Na época, o Brasil passava por um momento de intenso déficit fiscal, gerado por uma crise de endividamento público, que teve reflexo em toda a América Latina. O país necessitava de ajuda internacional e recorreu ao FMI, se comprometendo a assumir uma postura de responsabilidade fiscal, diminuição de impostos e maior comprometimento com a diminuição dos gastos públicos (SANTOS; SANTOS, 2019). O segundo acordo, composto por duas cartas de intenção, foi no ano 2000. As cartas, divididas em dois momentos, demonstravam o compromisso do governo brasileiro na época com o controle inflacionário e a preocupação com a retomada do PIB. O Brasil, em um primeiro momento, na carta do primeiro trimestre de 2000, buscou afirmar seu compromisso com a manutenção dos gastos públicos (controle fiscal), a diminuição dos juros (cenário para inves- timentos) e a redução inflacionária (melhora industrial). Com essas metas, na terceira carta (segunda do ano 2000), o Brasil apresentou uma melhora na geração de empregos e na retomada do crescimento do PIB. Na quarta carta, o Brasil demonstrou que, apesar de caminhar para uma retomada do PIB e uma tentativa de controle da inflação, não conseguiu combater o baixo índice de industrialização se comparado ao que se esperava com os empréstimos e propostas anteriores (SANTOS; SANTOS, 2019). Com base nessas cartas de intenção, podemos constatar que, apesar de os empréstimos oriundos do FMI gerarem maior confiança no mercado, isso não se refletiu, a longo prazo, em um aumento no nível de desenvolvimento industrial e no controle inflacionário. Voltando à atuação das corporações, é importante destacar os motivos que favorecem a transnacionalidade das empresas e a sua instalação e expansão em países subdesenvolvidos/em desenvolvimento e emergentes da América do Sul, África e Ásia. Veja a seguir. � Incentivos fiscais, como doação de terrenos para instalação de parques industriais e fábricas. Corporações e organismos internacionais 7 � Isenção de impostospor um recorte de tempo (alguns anos). � Grande quantidade de mão de obra. � Exploração de recursos naturais (minerais, hídricos e florestais) a preços baixos. Em relação à mão de obra, as corporações, por vezes, atuam de forma ilegal. Em razão do elevado índice de desemprego, os trabalhadores se sujeitam a condições de trabalho inadequadas, com baixos salários, insalubridade e não garantia de direitos trabalhistas. Veja a seguir exemplos de países emergentes com índices consideráveis de industrialização (PENA, [202-?]b). � Na América Latina: o Brasil, a Argentina e o México. � Na Ásia: a Índia, os Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura) e os Novos Tigres (Tailândia e Indonésia). � Na África: a África do Sul. Segundo Pena ([202-?]a), na industrialização tardia baseada na substituição de importações, as limitações econômicas e sociais dos países em desenvolvi- mento existem, principalmente, por causa da dominação colonial — a maioria desses países foram, por séculos, colônias de exploração de países europeus —, da dependência econômica de investimentos e dos problemas sociais. Os problemas sociais e econômicos estão se ampliando cada vez mais no mundo, mesmo com o investimento econômico dos países desenvolvidos nos países subdesenvolvidos/em desenvolvimento e emergentes ou com os empréstimos de organismos internacionais. Os problemas da má distribuição de renda, da ausência da garantia de qualidade de vida e bem-estar aos trabalhadores e do baixo desenvolvimento humano não foram sanados, apesar dos acordos colaborativos. Portanto, existe uma reflexão socioeconômica sobre essa situação, em que as corporações lucram de forma extraordinária sob a exploração de trabalhadores e de recursos dos territórios. Os organismos internacionais, que, a princípio, têm objetivos colaborativos em muitos países, não são capazes de romper com as limitações econômicas, financeiras e estruturais que ali existem. Corporações e organismos internacionais8 Referências BEZERRA, J. Capitalismo financeiro. Toda Matéria, 2021. Disponível em: https://www. todamateria.com.br/capitalismo-financeiro/. Acesso em: 14 fev. 2021. BRASIL. Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Brasília: CADE, 2021. Disponível em: http://antigo.cade.gov.br/acesso-a-informacao/institucional. Acesso em: 14 fev. 2021. CHESNAIS, F. 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Disponível em: https://forbes.com.br/listas/2020/05/global-2000-os-maiores-bancos-do-mundo- -em-2020/. Acesso em: 14 fev. 2021. Corporações e organismos internacionais 9 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Corporações e organismos internacionais10