Prévia do material em texto
Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 1 STAPHYLOCOCCUS Os Staphylococcus habitam a nasofaringe, a mucosa vaginal, e ocasionalmente podem colonizar a orofaringe, devido à proximidade com a nasofaringe; podem causar tanto doenças infecciosas quanto não infecciosas. Causam doença infecciosa quando colonizam algum sitio no hospedeiro e causam manifestações clínicas devido aos seus fatores de virulência. O Staphylococcus faz parte da microbiota indígena, mas ocasionalmente, se eles saírem desses sítios e penetrarem em outros sítios eles podem causar doença. - Enterotoxinas: Os Staphylococcus produzem uma enterotoxina (que é uma exotoxina), que pode contaminar alimentos causando distúrbio intestinal. Os distúrbios intestinais causados por enterotoxinas são de caráter não-infeccioso, porque não há a necessidade da presença do micro-organismo para produzir a doença. O Staphylococcus aureus é a espécie típica patogênica do gênero. • Características gerais do gênero Staphylococcus - Cocos Gram-positivos - Arranjo em cachos de uva - São imóveis, não têm flagelos. Invadem os tecidos causando furunculose, que são abscessos. Como não tem flagelos, eles invadem o tecido pela ação de uma enzima chamada hialuronidase que degrada o ácido hialurônico do tecido conjuntivo. A presença da hialuronidase pode ser considerada um fator de virulência. - Não são esporulados. Apesar de não serem esporulados, eles são muito resistentes às intempéries do ambiente. Isso facilita a contaminação. - Podem ter ou não cápsula. A espécie S. aureus tem cápsula, em sua grande maioria, mas isso vai depender do ambiente onde eles colonizam no hospedeiro; se for um ambiente que favorece que ele sinalize o gene da produção de cápsula, ele a produz. A principal função dessa cápsula é a evasão da fagocitose. Pode servir de nutriente para o micro-organismo. • Características fisiológicas - São anaeróbios facultativos, conseguindo sobreviver em ambientes com ausência ou presença de oxigênio - Atividade metabólica oxidativa (em ambiente aeróbico) e fermentativa (em ambiente anaeróbico). No processo de fermentação, o rendimento energético é muito menor que na respiração aeróbica. - Relativamente resistentes ao calor → 63ºC durante 30 minutos. São resistentes à pasteurização (que é um método de desinfeção). Obviamente, não resistem à fervura. - Toleram altas concentrações de solutos – 10%NaCl. Porém, encontra-se na literatura amostras de Staphylococcus aureus que resistem a 20% de NaCl. São micro-organismos praticamente halofílicos. As doenças causadas por Staphylococcus são de origem endógena, natureza infecciosa e etiologia polimicrobiana. Por isso são classificados como micro- organismos anfibiônticos: em condições de equilíbrio, esses micro-organismos ocupam os sítios do organismo formando uma barreira, mas em condições de desequilíbrio, onde ocorre a quebra da homeostasia, eles passam a ser patógenos, colonizando os sítios que não são próprios deles. • Características de cultivo - São fáceis de cultivar, não são fastidiosos. Pouco exigentes. - Crescem em meios de cultura simples, em meios de cultura suplementados (5% sangue) e em meios de cultura seletivos (hipertônico manita 7,5% NaCl). O meio seletivo é usado para eliminar os competidores do meio. Além de seletivo (por conter 7,5% de NaCl), ele é um meio indicador porque tem o Vermelho de Fenol na sua composição. O carboidrato presente no meio é o manitol. Quando o manitol é fermentado criando condições ácidas, o Vermelho de Fenol vira para amarelo. Quando o pH é alcalino, o meio continua rosa. O Streptococcus aureus não é o único que fermenta o manitol, então em caso de multiplicação de colônias no meio, é necessário fazer provas de identificação para ter certeza de qual espécie se trata. As colônias de Staphylococcus aureus quando cultivadas em meio de ágar simples na presença de ar atmosférico durante tempo prolongado, produzem o pigmento caroteno, se mostrando amarelas, daí o nome “aureus”. • Provas de identificação complementares A mudança de cor do indicador é uma indicação prévia/preliminar, mas não da a certeza da classificação do Streptococcus aureus. São necessárias várias provas complementares: - Prova da Catalase: A catalase é uma enzima produzida por todas as espécies de Staphylococcus. A prova é feita da seguinte maneira: pega-se uma porção da colônia com a alça e coloca sobre uma lamina de vidro; goteja-se peróxido de hidrogênio (água oxigenada) por sobre a lâmina. A reação da catalase faz com que o peroxido de hidrogênio borbulhe, porque a catalase reage com o peroxido de hidrogênio produzindo duas moléculas de H2O e uma de O2. Todos os micro-organismos do gênero Staphylococcus são Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 2 catalase positiva; logo essa prova é uma prova para identificação de gênero. A prova da catalase é necessária porque no meio de hipertônico manita crescem micro-organismos (Enterococcus fecalis) que não são do gênero Staphylococcus, e também fermentam o manitol; porém, o teste da catalase para esta espécie é negativo porque ele não produz catalase. - Prova da coagulase: usa-se plasma. A coagulase é uma enzima que é produzida pelo Staphylococcus aureus, S. hyicus e S. intermedius. A prova é feita da seguinte maneira: pega-se com a alça uma porção da colônia que fermentou o manitol e coloca dentro de um tubo de ensaio contendo plasma diluído em solução salina (1:3 ou 1:5). O plasma é encubado a 37ºC por duas horas. A amostra que é coagulase positiva produz a enzima coagulase e coagula o plasma dentro do tubo de ensaio. A amostra que é coagulase positiva obrigatoriamente deve fermentar manitol quando colocado em meio de hipertônico manita; há espécies, como os Enterococcus fecalis que fermentam o manitol, mas são coagulase negativo; não há coagulase positivo que não fermente manitol. A prova da coagulase é uma prova feita para separar espécies dentro do gênero Staphylococcus; separa Staphylococcus aureus, S. hyicus e S. intermedius das demais espécies no gênero (normalmente Staphylococcus saprophyticus e S. epidermidis). - Prova da DNAse: A DNAse é uma enzima que degrada o DNA da célula. A DNAse serve como um fator de identificação microbiana, pois só a espécie S. aureus vai produzir a DNAse. É pela ação da DNAse que essa espécie é capaz de formar furúnculos, associada à ação da hialuronidase. O meio de DNAse é feito com a adição de DNA de Drosophyla ao meio de cultura. Para o teste devemos fazer dois spots na placa: em um lado inocular a colônia que não fermenta o manitol e é coagulase negativa (controle negativo), e do outro lado inocular a colônia que é manitol positiva, catalase positiva e coagulase positiva. A placa é encubada a 37º por 24h. Passado o tempo de coagulação, inundamos a placa com HCl diluído na superfície do meio. O ácido clorídrico se complexa com as moléculas de DNA íntegras adquirindo uma cor turva, e as que foram degradadas pela DNAse continuam da cor do ágar, porque não tem mais DNA para se associar ao HCl. Forma-se na placa um halo de ausência de partículas de DNA em volta da colônia DNAse positiva. O teste da DNAse tem função de separar a espécie Staphylococcus aureus das demais, portanto separa espécies dentro do mesmo gênero (prova interespécie). - Provas bioquímicas: usa carboidratos como indicadores e identifica espécies de acordo com sua capacidade de fermentar os carboidratos. - Fagotipagem: usa um vírus bacteriófago para fazer um teste de inibição da bactéria. • Ecologia Habitam ambientes variados devido à sua característica de resistência às intempéries do ambiente. No hospedeiro, são comumente encontrados nas mucosas oral e vaginal, nasofaringe e pele. Esses sítios normalmente são ocupados pela microbiota indígena, e em desequilíbrio podem ser colonizados peloou Tetraciclina a 1%. → Exame A coleta de material com swab, ou a secreção, é carregada de neutrófilos. As bactérias são vistas com o Gram como diplococos Gram-negativos. O exame tem alta especificidade em homens, mas em mulheres tem uma especificidade muito menor, porque as mulheres têm outros diplococos Gram-negativos na sua microbiota indígena no trato vaginal e cervical. Se a quantidade de bactérias for muito grande, da pra visualizar com o Gram. Existem outros testes, como a degradação de carboidratos, detecção de antígenos gonocócicos, PCR, que são mais caros e complicados. O mais sensível e específico é o PCR. • Chlamydia trachomatis Gram-negativas e pleomórficas. Causadora de uretrites e cervicites não-gonocócicas. Na infecção por Chlamydia, na lâmina com o exame do corrimento, vemos apenas células e não visualizamos bactérias. Pode ocorrer complicações como salpingite (inflamação nas trompas de falópio), linfogranuloma venéreo (lesão visível) A Chlamydia que causa corrimento é diferente da Chlamydia que causa o linfogranuloma, que é uma lesão. São quadros diferentes, com bactérias distintas. Uma das complicações da clamídia é a presença da infecção ocular em recém-nascidos, conjuntivite, que pode evoluir e se transformar em infecção nasofaríngea, podendo chegar até uma pneumonia. - Síndrome de Reiter: conjunto das diversas manifestações da infecção; uretrite, cervicite, poliartrite e lesões mucocutâneas. → Ciclo de vida da Chlamydia A Chlamydia é parasita intracelular obrigatória. Se ela não parasitar as células, ela não é capaz de provocar a lesão. A bactéria tem duas formas: uma que vai entrar na célula, e após entrar irá se transformar e então multiplicar. Depois ela volta a sua forma anterior e sai da célula. A bactéria entra na sua célula quando está na sua forma denominada corpo elementar. Esse corpo elementar se transforma no corpo reticular e se multiplica. Após a multiplicação, se transforma novamente no corpo elementar, que é liberado e é mais resistente às intempéries do meio externo. O início da infecção pode muitas vezes passar despercebido, porque o volume do corrimento é muito pequeno. Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 18 → Manifestações clínicas O tempo de incubação é mais longo, de 10 a 20 dias. A pessoa demora a notar que está com uma infecção, pelo tempo de incubação e pela sintomatologia mais branda. Os sintomas são inflamação da uretra, com dor ao urinar, secreção purulenta ou mucopurulenta (na mulher) e piúria estéril (secreção sem a presença da bactéria de forma visível; só é possível ver os neutrófilos; o agente causador não é visto). Causa infecções agudas, persistentes ou subclínicas. Existem mais de 13 sorotipos associados ao quadro de clamídia, então a gravidade das manifestações depende da agressividade do agente. Essas manifestações são tratáveis, mas podem ser subclínicas/assintomáticas, principalmente em mulheres. O quadro causado por Chlamydia trachomatis é muito parecido com o quadro causado por Neisseria gonorrheae. Por isso na presença de sintomas, deve fazer a pesquisa pelas duas bactérias, que podem inclusive aparecer juntas no mesmo quadro. → Diagnóstico Coleta das células parasitadas com swab ou escova e faz cultura em monocamada de células. Ou então pode ser feito o PCR do plasmídeo críptico direto, sem a cultura. Manifestações clínicas e complicações de Neisseria gonorrheae e de Chlamydia trachomatis Homem Mulher Local acometido Uretra Endocérvice Corrimento Corrimento purulento. Na gonorreia vem acompanhado de bactéria, na clamídia não. Mucopurulento. Na gonorreia vem acompanhado de bactéria, na clamídia não. Urina Disúria. Mais agravada na gonorreia. Disúria. Mais agravada na gonorreia. Sintomas Menos casos assintomáticos Maior frequência de casos assintomáticos, principalmente de Clamídia. Infecções Infecções ascendentes - prostatite - epididimite Infecções ascendentes - doença inflamatória pélvica - esterilidade -gravidez ectopica **Como a clamídia tem maior numero de casos assintomáticos, ela causa quadros secundários com maior frequência. • Comparação entre uretrites e cervicites gonocócicas X não gonocócicas Gonocócica Não gonocócica Incubação 2-8 dias 10-20 dias Sintomas Abrupto Gradual Disúria Positivo Variável Secreção Branco purulento (bactéria+célula) Branco claro (só célula) LESÕES GENITAIS São visíveis. • Linfogranuloma venéreo Causado por Chlamydia trachomatis serovars de diferentes sorogrupos, sendo os mais agressivos L1, L2, L2a e L3. Eles parasitam células da mucosa (macrófagos), chegam até os linfonodos. Primeiramente provocam a lesão, depois provocam alteração do linfonodo regional, principalmente unilateral. Causam a chamada adenopatia satélite, que são os múltiplos gânglios inflamados. Muito comum o sinal do sulco quando os linfonodos regionais estão aumentados e o ligamento inguinal está separando; a virilha se mostra inchada. Quando ocorre um aumento muito grande do linfonodo, ele pode abrir, liberando o material inflamatório que está contido nele, causando a chamada supuração em chuveiro, que forma pequenas úlceras. A lesão inicial é pequena e indolor e pode passar despercebida, pelo fato de não doer. • Cancro Mole ou Cancróide Caudada por Haemophilus ducreyi. Tem uma lesão inicial dolorosa; a bactéria provoca destruição tecidual local, e o tecido destruído provoca mal cheiro; o odor fétido é característico da infecção por Haemophilus ducreyi. Essas bactérias são bastonetes Gram-negativos, pleomórficas e cocobacilares. São imóveis, sem cápsula e não esporulados. Exigentes para o crescimento e cultivo. Se apresentam em colônias pequenas com cor cinza ou castanho-amareladas. O tempo de incubação da doença é pequeno, de 3 a 5 dias. Entra na pele ou na mucosa através de um sítio traumatizado (que ocorre durante o ato sexual pelo atrito de mucosa). A lesão é dolorosa, com propagação acelerada e auto- inoculável (a própria pessoa espalha as lesões no corpo). A lesão não desaparece nem cicatriza espontaneamente. → Linfoadenite Inflamação dos linfonodos inguinais no quadro de cancro mole. Os linfonodos ficam de tamanho médio (bubão), é unilateral, doloroso, aderente aos tecidos Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 19 vizinhos e ocorre supuração em 50% dos casos → Diagnóstico Retirada de material da lesão ou do bubão para fazer a pesquisa da bactéria. Na pesquisa com a coloração de Gram aparecem como bacilos Gram-negativos formando cadeias paralelas. Na sífilis, a diferença é que não dói e some sozinho. • Sífilis: Treponema pallidum Não pode ser cultivada in vitro. É uma bactéria muito delicada, que pode ser morta facilmente. Muitas pessoas adquirem a bactéria e a eliminam. Apenas 1/3 das pessoas evoluem para a forma grave da doença. São bastonetes helicoidais Gram-negativos, microaerófilos. O Treponema é um filamento rotatório com motilidade. Ele gira em torno do próprio eixo e tem direcionamento, com propulsão em líquidos densos. Ele tem endoflagelos que realizam esse movimento. Possui de 4 a 14 espiras. Essa motilidade capacita a bactéria a invadir mucosas íntegras. Seu tempo de geração é longo, cerca de 30 horas. Possui enzima hialuronidase. Ausência do ciclo de ácido tricarboxílico (purinas, pirimidinas e aminoácidos), o que representa uma limitação para a bactéria. Como é microaerófilo, não tem catalase nem superóxido dismutase. O Treponema pallidum é sensível a desinfetantes, calor e dessecação. → Sífilis Doença de vasos sanguíneos e áreas perivasculares. Transmitida pelo contato sexual direto com indivíduos apresentando lesão sifilítica primária ou secundária. A sífilis tem 3 estágios: primário, secundário e terciário, sendo o primário e secundário ricos em bactérias,considerados transmissores. O estagio terciário é transmitido por transfusão sanguínea. Os locais mais comuns de inoculação são os órgãos genitais. A sífilis pode sofrer transmissão transplacentária para o feto em qualquer fase da gestação; pode causar o aborto e a natimortalidade. - Fases: Primária: recente. Aparecimento do cancro duro, rico em bactérias. Não tem mal cheiro e não doi. É o local onde o Treponema entrou. Lesão ulcerosa indolor, bordas elevadas, recoberta por um exsudato límpido e seroso e não purulento (sem neutrófilos). Adenopatias inguinais laterais que dificilmente supuram. Secundária: recente. A lesão desaparece sozinha, mas volta depois de alguns meses. O micro-organismo sofre generalização. A manifestação é diferente, aparecendo as roséolas sifilíticas, que são erupções maculares ou papulares ricas em treponema, por todo o corpo. Pode ocorrer febre e linfadenopatia generalizada. Terciária: tardia. Manifesta-se anos depois com sintomas muito graves. O Treponema pallidum se dissemina para qualquer parte do organismo, sendo os mais comuns o coração (sífilis cardiovascular) e o SNC (neurosífilis). Quanto mais tardias as lesões, mais graves se apresentam. Desde lesões cutâneas de evolução benigna até lesões em outros órgãos. Micro-organismos são raros. Pode formar lesões granulomatosa na pele. - Sífilis congênita Precoce ou Tardia: Dentes de Huchtinson. Dentes sem forma. Ocorrência de molares em amora ou a dilaceração da raiz. Outros distúrbios podem ser a cegueira, surdez e paralisia. → Diagnóstico Nas formas primária e secundária, o diagnóstico é feito recolhendo o material do fundo ou dos lados das lesões. Quando é usado o material de lesões orais, o diagnostico não é muito especifico porque podem aparecer outras espiroquetas, mascarando o diagnóstico. O método mais sensível é o exame microscópico de campo escuro. Existem ainda, testes sorológicos, como os não- treponêmicos, que pesquisa a presença dos anticorpos contra o Treponema; quando positivos, são realizados testes treponêmicos em seguida para pesquisar a presença da própria bactéria. → Tratamento Penicilina. FAMÍLIA ENTEROBACTERIACEAE (aula mais bagunçada da vida; a prof disse que cobrará KPC e “um V ou F bem bobinho”) Tem diversos gêneros com espécies importantes. São micro-organismos que fazem parte da microbiota humana intestinal, e alguns são patógenos muito importantes. São bactérias Gram-negativas, que contém LPS em sua membrana, que pode causar choque séptico. São não esporuladas; algumas espécies causam diarreia, mas o processamento correto dos alimentos é capaz de mata-las. São bactérias anaeróbias facultativas. Fermentam glicose. Fazem parte da microbiota indígena do colón humano e de animais. Alguns gêneros são patógenos de plantas, e são amplamente distribuídas pela natureza: solo, água, alimentos. Podem fazer parte da microbiota indígena sendo um patógeno oportunista, causando doenças oportunistas ou em sítios extra-intestinais. Podem ser patógenos Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 20 primários que causam diarreia e não são da microbiota indígena. Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae podem ser patógenos ou não; fazem parte da microbiota humana, mas causam doenças sérias. Bacteremia: Salmonella typhi, Escherichia coli, Klebsiella, Proteus podem chegar à corrente sanguínea a partir do intestino. Abscesso de fígado: Klebsiella Ferida abdominal: Escherichia coli e Klebsiella Meningite: Escherichia coli Trato respiratório inferior: Klebsiella e Enterobacter Diarreia: Salmonessa, Shigella, Escherichia coli Infecção urinaria: E. coli, Protheus, Klebsiella PATÓGENOS EXTRA-INTESTINAIS A microbiota intestinal quando coloniza outros sítios anatômicos, causa infecções como: infecções do SNC como a meningite em recém-nato (E. coli), vias aéreas inferiores e corrente sanguínea (Escherichia, Klebsiella, Enterobacter), infecções do trato urinário e infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) ou infecções hospitalares. As E. coli que causam doença, são diferentes das intestinais. Normalmente possuem fatores de virulência que as intestinais não possuem. INFECÇÕES RELACIONADAS À ASSISTÊNCIA À SAÚDE (IRAS) Infecção hospitalar ou nosocomial. Adquirida durante a hospitalização e que não estava presente e nem em período de incubação antes da admissão do paciente. As infecções mais comuns são as do trato urinário, trato respiratório e feridas cirúrgicas. As linhagens hospitalares contaminam prontamente o intestino de quem está em uso de antimicrobianos. Tem marcante capacidade de abrigar e dispersar genes de resistência a drogas antimicrobianas (β-lactamases de espectro amplo) Contaminam soluções, equipamentos e utensílios, além das mãos do profissional. INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO Pode ser adquirido no hospital ou na comunidade. As vias de infecção podem ser: - Ascendente: via mais comum. São as bactérias do trato gastrointestinal e principalmente nas fezes, ou as bactérias da pele da região próxima da uretra. Essa bactéria coloniza uretra e vai para a bexiga. Na bexiga, a bactéria deve se aderir (senão é removida pelo fluxo de urina). Depois de aderir elas colonizam a bexiga, causando cistite. - Hematogênica: quando a pessoa tem uma doença sistêmica, a bactéria cai na corrente sanguínea, e os rins filtram esse sangue. É menos comum. Essa infecção forma um biofilme monomicrobiano. • Classificação - Anatômica: baixa (na uretra-uretrite ou na bexiga- cistite) ou alta (nos rins-pielonefrite) - Evolução clínica: complicada e não-complicada. - Adquirida na comunidade ou IRAS Pode ser adquirida após uso de sonda vesical de demora, obstrução ou anormalidades do trato urinário, uso de antimicrobianos, quimioterapia antineoplásica, imunodepressão. • E. coli uropatogênica Principal associada à infecções urinárias. Adquire fatores de virulência através de transposons, bacteriófagos e plasmídios. Possuem adesinas por fimbrias e afimbriais, hemolisinas que causam dano renal. • Protheus Alcaliniza a urina porque produz uréase, e isso leva à formação de cálculos. - Biofilme: ureia → amônia → alcalinização da urina → cálculos renais (fosfato de amônio e magnésio) → danos às células epiteliais do trato urinário RESISTENCIA AOS ANTIMICROBIANOS É o grande problema dessa família. Quando lidamos com essas bactérias, devemos obrigatoriamente fazer um antibiograma. As β-lactamases degradam o anel β-lactamico, inativando-o. As β-lactamases inativavam apenas penicilinas, e depois passaram a ser de espectro estendido, passando a degradar cefalosporinas. Recentemente, um novo tipo de β-lactamase, tem sido produzida por bactérias, que são as carbapenemases (KPC) que clivam os carbapenêmicos (são antimicrobianos hospitalares). KLEIBSIELLA PINEUMONIAE CARBAPENEMASE (KPC) A carbapenemase é chamada de KPC, porque foi descrita em uma Kleibsiella pneumoniae. A KPC é uma β-lactamase que confere resistência todos os β-lactamicos: penicilinas, cefalosporinas e carbapenemicos. Ocorre em algumas espécies da família Enterobacteriaceae, mais comum em Kleibsiella pneumoniae, K. oxytoca, Citrobacter freundii, E. coli, Enterobacter, Salmonella e Serratia. CONTROLE DAS SUPER-BACTÉRIAS Usar corretamente os antimicrobianos, isolamento de contato. Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 21 O perfil do paciente é aquele que está doente e internado, principalmente em UTI. PATOGENOS INTESTINAIS Muitos dos patógenos que causam diarreia são da família Enterobacteriaceae. As principais são Escherichia coli, Salmonella, Shigella, Yersinia. A família Enterobacteriaceae é transmitida por bactérias no alimento ou por água contaminados por fezes de animais. Uma doença transmitida por alimentos são episódios no qual duas ou mais pessoas apresentam, num determinadoperíodo de tempo, sinais e sintomas semelhantes, ingestão de um mesmo alimento considerado contaminado por evidencia clínica, epidemiológica e ou laboratorial. DIARREIA INFECCIOSA AGUDA X INTOXICAÇÃO ALIMENTAR - Intoxicação alimentar não ocorre colonização do trato gastrointestinal. A bactéria multiplica-se no alimento e produz sua exotoxina. O alimento é ingerido e provoca os sinais e sintomas, como diarreias, vômitos e em casos extremos, doença sistêmica. As intoxicações têm uma ação rápida e um período de duração curto. Nenhuma espécie Enterobacteriaceae causa intoxicação alimentar, os melhores exemplos são o Staphylococcus aureus e o Clostridium botulinum. - A diarreia infecciosa aguda é a principal causa de doença diarreica no mundo, e acomete todas as faixas etárias e todas as camadas sociais; incidência elevada em países em desenvolvimento. É responsável por altas taxas de morbidade e mortalidade. Pode-se definir a diarreia infecciosa aguda como a eliminação de fezes líquidas e aumento de peso nas fezes, usualmente associada com o aumento da frequência: 3 ou mais vezes ou pelo menos 200g de fezes por dia. Tem duração de até 14 dias e pode ocorrer dor abdominal, tenesmo, náuseas, vômitos, febre, desidratação e manifestações sistêmicas. A causa mais comum é microbiana. A bactéria coloniza o intestino e produz sua toxina dentro do intestino do hospedeiro. • Colonização - Intestino delgado → produção de enterotoxina e diarreia não inflamatória aquosa. - Intestino delgado/grosso → aderência intima e transdução de sinais e diarreia inflamatória/não inflamatória - Intestino grosso → invasão e diarreia inflamatória/desinteria SALMONELLA É uma zoonose que infecta animais em geral. Pode ser transmitida de pessoa à pessoa através de água e alimentos contaminados. A salmonela é ingerida pela ave e pode sair nas fezes, na membrana do ovo ou no interior do ovo. COLIFORMES E SAÚDE PUBLICA Alguns gêneros da família Enterobacteriaceae são chamados de coliformes totais, como Escherichia, Klebsiella, Enterobacter, Serratia e Citrobacter. Destes 5 gêneros, apenas a E. coli é encontrada exclusivamente na microbiota do cólon de homem e animais. Os outros gêneros podem ser também encontrados em plantas e solo. A E. coli é usada como indicador de contaminação. Devem ser quantificados os coliformes totais, e coliformes fecais ou termotolerantes (E. coli) PROFILAXIA DE DOENÇAS DIARREICAS - Lavagem de mãos - Controle de moscas - Controle de saúde animal - Controle de qualidade microbiológica de alimentos - Educação sanitáriaStaphylococcus aureus causando doença. Em algumas pessoas podem estar presentes na microbiota sem causar dano. • Fatores de patogenicidade → Componentes estruturais (celulares) - Mureína (peptideoglicano): causa síndrome do choque toxico e resposta inflamatória - Ácido lipoteicoico: polissacarídeo A, que compõe a parede de peptideoglicano, servindo como fator de adesão às células do hospedeiro - Cápsula (polissacarídea): antifagocitária. - Proteína A: muito usada para fazer teste sorológico. Serve para bloquear a fagocitose. Encontra-se na parede da célula. → Toxinas - Toxinas α, β, γ e δ (hemolisinas): causam lesão na membrana celular das células do hospedeiro - Leucocidinas: ação sobre fagócitos, lesando sua membrana e impedindo a fagocitose da bactéria - Toxina esfoliativa (ssss): causa a síndrome da pele escaldada, frequente em recém nascidos em berçários de maternidades infectadas por Staphylococcus. - Toxina da síndrome do choque tóxico (TSST1), que são as enterotoxinas, que vão de A até H. Essas toxinas contaminam alimentos, sem alterar seu sabor nem cheiro. Essas toxinas são estáveis a 100ºC durante 30 minutos e são resistentes à hidrólise por enzimas gástricas jejunais. Os Staphylococcus produzem enterotoxinas (que são exotoxinas) que causam diarreia intensa, com perda de Na e K (desidratação). → Enzimas - Catalase: destruição intrafagocitária mediada por radicais tóxicos de O2. Degradação tecidual. - Coagulase: quando o micro-organismo está no sangue, forma um coágulo intravenoso para se protegerem da ação dos fagócitos. Esse trombo pode migrar para vários órgãos, incluindo o cérebro. - Hialuronidase: degrada o ácido hialurônico do tecido conjuntivo aumentando o poder invasivo. Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 3 - Fibrinolisina: formação de microcoágulo - Lipase: fosfolipases e esterases, que degradam os ácidos graxos cutâneos. - Beta Lactamases: enzimas que degradam o anel β- lactâmico das penicilinas. 80% das espécies de Staphylococcus incluindo o S. aureus já são resistentes às penicilinas. As penicilinas são as mais usadas porque são as mais seletivas, agindo na parede celular do micro- organismo. • Infecções estafilocócicas - Enfermidades purulentas primárias: Foliculite, furunculose, impetigo, paroníquia (unheiro), mastite e infecções de feridas e queimaduras. - Enfermidades purulentas secundárias: osteomielite, artrite, abscesso cerebral, meningite - Septicemias: endocardites - Enfermidades por toxinas: síndrome da pele escaldada, toxinfecção alimentar, síndrome do choque tóxico. - Enfermidades odontológicas: infecções odontogênicas, infecções da polpa e do periápice, osteomielite maxilares. • Membros da microbiota indígena - Staphylococcus epidermidis: endocardite, infecções de cateteres, infecções urinárias, infecções de próteses articulares, infecções em pacientes imunodeprimidos. - Staphylococcus saprophyticus: infecções urinárias STREPTOCOCCUS • Características gerais - Cocos Gram-positivos - Arranjo em cadeia - Imóveis - Não esporulados - Catalase negativo - Não resistem ao NaCl - Presença de cápsula (produzem mais que os Staphylococcus) • Cultivo Não cresce em meio simples. - Meio ágar-sangue (5% de sangue desfibrinado de carneiro) - Meios complexos (sem adição de sangue, mas o ágar sangue é preferível) O ágar sangue é necessário para o cultivo em vitro dos Streptococcus porque o micro-organismo é fastidioso. Em segundo lugar, a classificação laboratorial dos Streptococcus é baseada no grau de hemólise. O gênero Streptococcus tem várias espécies patogênicas; uma típica doença infecciosa causada por Streptococcus é a faringite, que é causada pelo Streptococcus pyogenes, e se ela for frequente ou não curada, causa doenças pós-estreptocócicas. Ela produz um anticorpo que age contra nossas próprias células; é uma doença autoimune, pode levar à febre reumática. Doenças pós-estreptocócicas: a doença não é causada pelo micro-organismo. É causada por uma hemolisina, que é a estreptolisina O, que o micro- organismo que colonizou produziu; é antigênica (produz anticorpos no hospedeiro que se complexa com nossas células) e causa doenças autoimunes: febre reumática e glomerulonefrite aguda. Produz lisinas S e O. A lisina S é a que faz atividade hemolítica in vitro em aerobiose, mas não é antigênica; e a O é sensível ao oxigênio e é o tipo antigênico. A lisina O se complexa com os tecidos do coração causando Endocartite bacteriana (febre reumática) ou Glomerulonefrite Aguda. A única espécie que produz essas hemolisinas é o Streptococcus pyogenes, que é um Streptococcus β- hemolítico do grupo A. • Classificação - Quanto à atividade hemolítica Tipos de hemolisina: α → hemólise parcial, viridans, não classificados no grupo de Lancefield β → hemólise total, não-viridans, pertencem ao grupo de Lancefield γ → não é visível; pode enganar e se passar como não- hemolítica, mas ao microscópio é visível a sua hemólise - Quanto à estrutura antigênica Grupos de Lancefield, que vai de A até W. Todos os Streptococcus que fazem hemólise β em ágar sangue pertencem à essa classificação. O grupo A é exatamente o Streptococcus pyogenes, também chamado de Streptococcus β-hemolítico do grupo A. Causa a faringite, entre outras doenças e produz as duas hemolisinas, S e O. A hemolisina S não é antigênica e não é sensível à ação do oxigênio molecular, ao contrário da O. A hemolisina O, in vitro, só se expressa se o meio for encubado em anaerobiose. Obs.: todos os Streptococcus do grupo A (Streptococcus pyogenes) são sensíveis à penicilina, sendo tratado com Benzetasil. O antimicrobiano mata os micro-organismos produtores da estreptolisina O, que causa altos níveis de anti-O no organismo, Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 4 caracterizando uma doença pós-estreptocócica. Para identificar dentro do grupo de Lancefield os micro-organismos do gupo A, que são os Streptococcus pyogenes, pega-se a colônia que realizou hemólise total no ágar sangue e transfere para outro meio de cultura. Coloca-se um disco de bacitracina sobre a inoculação da colônia. Se depois de encubado apresentar um halo de inibição em torno do disco de bacitracina, indica que o Streptococcus é do grupo A, porque o Streptococcus pyogenes sempre é sensível à bacitracina. - Streptococcus viridans não viridans Os Streptococcus viridans são os α-hemolíticos, que fazem a chamada hemólise parcial, porque quando lisam a hemácia, liberam a hemoglobina para o meio externo, fazendo o halo de hemólise na placa ficar esverdeado. Streptococcus pyogenes, do grupo A são não-viridans. Os β-hemolíticos, quando fazem hemólise, liberam hemoglobina e a consomem; por isso produzem um halo transparente de hemólise total na placa e são classificados como não-viridans. Os Streptococcus da cárie, que são as espécies S. mutans ou S. sobrinus quando semeados em ágar sangue, apresentam hemólise α, porque não são do grupo de Lancefield. Portanto, são classificados como viridans. Qualquer Streptococcus que não pertence ao grupo de Lancefield é considerado α-hemolítico. • Fatores de patogenicidade → Componentes estruturais: - Proteína M: principal fator de virulência dos Streptococcus β-hemolíticos do grupo A. Essa proteína reveste as fímbrias dos Streptococcus. Existem vários tipos de proteína M (M1, M2, M3...), e elas são imunizantes para o hospedeiro. Porém, como é muito mutável, a imunização não é muito efetiva; existem mais de 80 tipos de proteína M. - Fímbrias: função de adesão às células do hospedeiro - Cápsula: composta de ácido hialurônico, antifagocitária - Ácido lipoteicoico: adesina – interação com as proteínas de superfícies das células do hospedeiro - Polissacarídeo C: determina o grupo de Streptococcus β-hemolíticos → Toxinas - EstreptolisinasO (antigênica e anaeróbia) e S - Toxina eritrogênica – age nos eritrócitos - Exotoxina A pirogênica (TSST) - Exotoxina B (protease) – causa a Fasceite necrosante → Enzimas - Estreptoquinase: degradam fibrinas facilitando a invasão - Hialuronidase: degrada o ácido hialurônico facilitando a invasão - Nucleases: degradam o DNA - Proteases: degradam proteínas • Diagnóstico: Microscopia (cocos Gram-positivos em cadeia), cultura (grau de hemólise), teste de sensibilidade à bacitracina, titulação de anticorpo anti-estreptolisina O, detecção de antígenos específicos. STAPHYLOCOCCUS: ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS E DIAGNÓSTICO DE INTOXICAÇÃO ALIMENTAR O Staphylococcus faz parte da microbiota indígena na ordem de 30 a 40%, principalmente na região das fossas nasais e mãos. Essas bactérias são capazes de produzir substâncias tóxicas que são responsáveis por quadros de intoxicação alimentar. O Staphylococcus é o principal agente associado à intoxicação associado à ingestão de alimentos, e a Salmonella é o principal agente de infecção. CARACTERÍSTICAS DO GÊNERO STAPHYLOCOCCUS São cocos Gram-positivos que tem grande importância na área clínica, como agente de infecção, e também associado às intoxicações alimentares. O Staphylococcus recebe este nome devido ao seu plano de divisão celular. - Imóveis - Não esporulados - Resiste a altas concentrações de sal – osmofílicas (10% NaCl) - Crescem em baixa umidade - Sobrevivem em variação grande de pH (de 4,0 a 10,0, sendo o pH ótimo = 7,0) • Fatores de virulência Capacidade de o micro-organismo se instalar em um foco infeccioso, se multiplicar, escapar da resposta imunológica e produzir danos ao hospedeiro. - Coagulase: a bactéria forma um coagulo em volta de sua célula dificultando a fagocitose - Proteína A: faz com que o anticorpo se ligue à célula bacteriana de forma invertida, ou seja, se liga pela fração Fc em vez de se ligar pela fração Fab; isso Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 5 atrapalha a resposta imunológica - Enzimas capazes de degradar antimicrobianos, como as β-lactamases. • Staphylococcus aureus Representante do gênero como um dos principais patógenos. Recebe esse nome porque tem a habilidade de produzir um pigmento amarelo-ouro na colônia quando cultivado em meio simples. Esse pigmento não é produzido por todas as espécies de Staphylococcus e é modulado de acordo com a temperatura. • Habitat No hospedeiro, encontramos o Staphylococcus na região das mãos e fossas nasais; somos portadores assintomáticos. Nas indústrias de alimentos, o manipulador pode ser o foco de Staphylococcus contaminando o produto. - Animais: em bovinos, o Staphylococcus causa mastite animal. O leite obtido de uma vaca com mastite é usado para produção de queijo; normalmente o queijo é obtido pela produção com o leite cru (principalmente em Minas Gerais). • Taxonomia Família: Staphylococcaceae Gênero: Staphylococcus: 52 especies e 8 subespécies As espécies mais comuns e de preocupação clínica são Staphylococcus hycus, S. intermedius, S. delphini, S. saprophyticus, S. epidermidis e S. aureus. O Staphylococcus produz hemólise em ágar sangue, e isso é usado como método de diagnóstico. Isso significa que em um processo infeccioso, in vivo, ele causa hemólise nas hemácias do hospedeiro. • Atividade lítica Existe relação entre a produção da enzima coagulase e das toxinas envolvidas nos surtos. O teste da coagulase, então é um indicador de fator de virulência (produção de enterotoxinas). Existem várias espécies coagulase positivas; isso significa que há necessidade de fazer provas bioquímicas adicionais para chegar à espécie. - Espécies de Staphylococcus coagulase positiva: S. aureus, S. intermedius, S. hycus, S. delphini, S. scheleiferi. ENFERMIDADES ASSOCIADAS À STAPHYLOCOCCUS O Staphylococcus é um agente de intoxicação e um agente de infecção. A diferença entre a intoxicação e a infecção nos sinais clínicos do paciente é que a infecção apresenta febre. A intoxicação apresenta sinais como diarreia e ausência de febre. Na infecção, é observado um período de incubação maior, superior à 12h. A intoxicação manifesta-se mais rápido, de 30min a 6h. • Infecções em seres humanos Somos todos portadores assintomáticos. A infecção é sinônimo de colonização e não de doença; a doença é a presença de alterações em virtude da colonização. Uma síndrome é o conjunto de sinais e sintomas característicos de uma doença. - Período de incubação: período compreendido entre a ingestão do alimento até o aparecimento dos sinais e sintomas. Nas intoxicações por Staphylococcus varia de 30 minutos a 6h. - Dose infectante X dose tóxica: o alimento não é estéril. Para que o micro-organismo seja patogênico, é preciso uma carga microbiana suficiente para romper as barreiras naturais do organismo. Se a dose for baixa, o paciente pode entrar em contato com o patógeno e não adoecer. A dose infectante seria a quantidade de micro-organismo necessária para causar danos, e ela varia de acordo com os fatores de virulência que o micro-organismo apresenta. Quanto maior a carga microbiana e quanto mais fatores de virulência o micro-organismo apresentar, maiores são as chances de o indivíduo adoecer. - Imunidade do hospedeiro: em casos de surto, quem mais sofre são crianças e idosos, que têm o sistema imunológico menos eficaz. • Fatores de virulência Os fatores de virulência são determinantes para o quadro infeccioso. Os Staphylococcos tem estratégia de adesão celular, captação de nutrientes e evasão do sistema imunológico, o que se relaciona com sua capacidade de colonização. Os Staphylococcus secretam ou produzem 30 ou mais fatores de patogenicidade. Fatores de virulência do Staphylococcus aureus Componentes estruturais Cápsula Reduz quimiotaxia e fagocitose Peptideoglicano Pirógeno exógeno, quimioatraente de neutrófilos e reduz a fagocitose Proteína A Quimioatraente de neutrófilos Ácido teicoico Imunogênico quando associado à proteína carreadora Toxinas Citotoxinas Destruição celular Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 6 Toxina esfoliativa SuperAg de células T. Rompe o musculo liso vascular Toxina 1 da síndrome do choque tóxico SuperAg de células T. Cliva desmossomos na epiderme Enterotoxinas A a E SuperAg de células T Enzimas Coagulase Converte fibrinogênio em fibrina Catalase Transforma H2O2 em 2H2O e O2 Hialuronidase Degrada acido hialurônico Fibrinolisina Dissolve os coágulos de fibrina Lipases Hidrolisa lipídios Nucleases Hidrolisa DNA Penicilinases Hidrolisa penicilinas * O super-antígeno ativa uma resposta muito intensa e exacerbada do sistema imune, levando a choque tóxico, pela quantidade de células recrutadas e de citocinas liberadas na resposta, podendo até matar o paciente. • Enfermidades associadas à Staphylococcus - Infecções cutâneas: foliculite, piodermite, imperdigo, furúnculo e abcessos. - Doenças toxigênicas: síndrome estafilocíccica da pele escaldada, síndrome do choque toxico e intoxicações alimentares. - Infecções sistêmicas: pneumonia, bacteremia, osteomielite, endocardite, artrite e meningite. • Importância para a indústria de alimentos e ambientes hospitalares - Formação de biofilmes: os biofilmes são agregados de micro-organismos embebidos em uma matriz polimérica e aderidos a uma superfície sólida, formando uma estrutura porosa e altamente hidratada contendo exopolissacarídeos e pequenos canais, abertos por entre as colônias. Os biofilmes fornecem proteção contra adversidades, desidratação, colonização por bacteriófagos e resistência a antimicrobianos. Na odontologia, um foco de infecção imperceptível é a água usada no ambiente clínico, que se estiver contaminada, pode contaminar o paciente. - Mastite não contagiosa (período seco): causada pormicro-organismos do ambiente (ex.: coliformes). Infecção de curta duração. - Mastite contagiosa (período de lactação): inflamação da glândula mamaria resultante de infecção microbiana, isto é, da penetração e multiplicação de micro-organismos na glândula mamária. Desenvolvimento de infecção persistente. CURVA DE CRESCIMENTO A fase log é a fase de crescimento exponencial. Ao final de 7 horas, foram produzidas 106 células. No final da fase Log é quando a bactéria libera a toxina. A refrigeração é uma forma de impedir que isso aconteça. INTOXICAÇÃO A intoxicação alimentar por Staphylococcus é caracterizada pela liberação de uma exotoxina que age no trato entérico. A enterotoxina é uma proteína de cadeia polipeptídica simples e curta. Sua estrutura compacta permite que ela resista a enzimas proteolíticas presentes no trato gastrointestinal. Então, ela é absorvida na mucosa e desencadeia os sinais e sintomas. A enterotoxina também tem resistência térmica, de forma que os produtos pasteurizados não estão isentos da presença da toxina. - Mecanismo de ação: a toxina é absorvida no intestino e chega ao nervo vago. Através do nervo vago, ativa o centro do vomito no SNC causando retroperistaltia do estômago e do intestino delgado. Ativa também o mecanismo secretor de Na e Cl, causando diarreia. Causa inflamação e irritação da mucosa gástrica e do intestino delgado. - A intoxicação pode ser branda, moderada ou severa, dependendo da quantidade de toxina que foi consumida. Os sintomas são náuseas, vômito, mal estar e debilidade geral, diarreia aquosa não sanguinolenta e dor abdominal. Pode ocorrer desidratação resultante de significativa perda de liquido, sudorese e cefaleia, mas não se observa febre elevada. O período de incubação é de uma a seis horas após a ingestão de enterotoxina produzida no alimento. SINTOMAS Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 7 O início dos sintomas depende do grau de sensibilidade e peso do indivíduo, da concentração da enterotoxina no alimento e da quantidade do alimento consumido. Os sintomas são mais graves em crianças, idosos e pessoas acometidas de doenças crônicas imunossupressoras. As enterotoxinas não alteram o alimento em nenhum aspecto notável, pois não tem cheiro, nem sabor e nem cor. QUORUM SENSING: influência do ambiente sobre a expressão de algum gene. Para que o alimento seja capaz de produzir intoxicação alimentar é necessário ter uma população bacteriana na ordem de 105 células. Quando tem um grande numero de células, essas células liberam um peptídeo que atua nas outras células vizinhas e fazem-nas liberarem toxina. Um alimento de base proteica fora da geladeira chega à dose toxica em torno de 7h. • Alimentos de alto risco: são os alimentos perecíveis e com alta quantidade de água livre e disponível. CORYNEBACTERIUM Existe um numero significativo de espécies do gênero Corynebacterium. São 60 espécies, sendo que destas, 40 são potencialmente patogênicas. Esses micro-organismos fazem parte da microbiota normal do homem e animais, e são ubíquos, podendo ser encontrados também em plantas, no solo e na água. De maneira geral, são chamados de difteroides. - São bacilos aeróbios ou anaeróbios facultativos, mas crescem melhor em ambiente de microaerofilia. - Presença de ácido micólico, que está presente em numero reduzido de micro-organismos. As cadeias de sua parede são mais curtas, apresentando em torno de 30 unidades de carbono. - Lipofílica: a presença de lipídios no meio favorece seu crescimento e seu isolamento. - Presença de açúcares favorece o crescimento Das espécies de Corynebacterium, as mais relevantes são: - Corynebacterium diphteriae: causa a difteria, antigamente chamada crupe. Hoje existe vacina contra a difteria. Já é uma doença erradicada em países de primeiro mundo. A doença é consequência da ação de uma exotoxina, ou seja, é causada pelo fator de virulência da bactéria. - C. jeikeium: infecções oportunistas em pacientes que usam cateteres e drenos. O gênero Corynebacterium está constantemente associado a infecções pulmonares - C. ulcerans: faringite e mastite em bovinos - C. pseudotuberculosis: patógeno de animais Ambos produzem a toxina que é agente causador da difteria, sendo capazes de causar uma patogênese no ser humano. DIFTERIA Patogenia: a toxina produz uma resposta inflamatória com a liberação de exsudato e necrose de células epiteliais, que forma uma pseudomembrana na região de orofaringe, que pode obstruir a passagem do ar. Os principais sítios da difteria são no trato respiratório superior (amigdalas, faringe e laringe). Porém a difteria pode causar lesões em outros sítios do organismo, e os efeitos relativos à presença desta toxina podem aparecer no coração, visto que a toxina tem a capacidade de alcançar a corrente sanguínea. A doença começa no trato respiratório superior e então pode evoluir para uma laringite. Se houver a remoção dessa pseudomembrana e ela se deslocar ao longo do trato respiratório, a pessoa pode morrer por asfixia mecânica. • Exotoxina: É o grande agente desse quadro. O gene responsável pela produção dessa toxina não faz parte do genoma de Corynebacterium. Esse gene está presente em um fago lisogênico que vai se inserir no material genético da bactéria, e é transcrito, produzindo a exotoxina. A Corynebacterium sem o fago não é capaz de causar a difteria. Esse gene é chamado gene tox. - Gene tox: inserido no cromossomo de Corynebacterium, e codifica uma proteína de 58Kda, que tem cadeias A e B, ligadas entre si. A expressão dessa proteína é regulada pela presença de Fe3+ no meio; quando os níveis de Fe3+ caem no ambiente, essa bactéria expressa a proteína, porque precisa captar Fe para seu metabolismo. O pH mais alcalino e a redução de O2 também são fatores que ativam a expressão da proteína. - Efeito tóxico: bloqueio da síntese proteica decorrente da ação sobre o fator de alongamento EF-2, de formação da cadeia polipeptídica no ribossomo. - Características da produção da exotoxina: a bactéria deve estar parasitada pelo fago; age impedindo a síntese proteica e é expressa quando há baixa concentração de Fe3+. - Fragmentos: Fragmento A: peptídeo ativo. Impede a transcrição da sequencia genica para o gene tox porque impede o alongamento da cadeia polipeptídica, porque inibe o EF-2. Para chegar ate os ribossomos, tem que entrar na célula. Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 8 Fragmento B: se liga aos receptores na superfície das células, o receptor para fator de crescimento epidérmico ligante de heparina, que está presente em praticamente todas as células do organismo, e facilita o transporte do Fragmento A para dentro da célula. → o resultado da ação desses dois fragmentos é a inibição da síntese proteica. O gene do fago pode ser passado de bactéria para bactéria. A difteria pode ser transmitida de uma pessoa para outra através de perdigotos. Essa infecção pode demorar de 2 a 5 dias para apresentar sinais clínicos. Porém, é um processo agudo e grave que tem que ser reconhecido o mais cedo possível. O hospedeiro natural é o homem. A difteria é mais comum nos meses de inverno. Pode afetar pessoas de qualquer idade ou sexo, mas acomete principalmente crianças de 1 a 4 anos. Com o advento da vacinação, esses casos se tornaram mais escassos em crianças e se tornando mais frequente em pessoas adultas. É transmitida pelas secreções da rinofaringe ou pelo contato direto ou indireto com as lesões na pele causadas pela doença. A pseudomembrana formada contém alta quantidade do micro-organismo. Bacteremia não é comum nos casos de difteria, porque ela não alcança o sangue; normalmente apenas a toxina chega ao sangue. O período de incubação é considerado curto, de 1 a 6 dias. O tratamento deve, em primeiro lugar, impedir aação da toxina usando uma anti-toxina. • Sintomas: - Formação da pseudomembrana branco-acinzentada nas amígdalas firmemente aderidas à mucosa. - Piora do estado geral, prostração e palidez, dor de garganta discreta, dor na deglutição, febre baixa - Hálito característico com cheiro doce - A irritação na garganta merece atenção, pois pode ser causada por uma linhagem de Corynebacterium diphteriae que não produz a toxina. FORMAS CLÍNICAS • Faringite diftérica: mais comum. Aumento das amígdalas e hiperemia da faringe. Pseudomembranas aderentes e invasivas, atingindo a úvula, palato mole e a retrofaringe. • Rinite diftérica: forma latente. Concomitante com a faringite diftérica. Secreção serossanguinolenta, unilateral ou bilateral. Lesões nas bordas do nariz. • Laringite diftérica: início na orofaringe. Dificuldade respiratória até insuficiência respiratória aguda. Pode evoluir para asfixia mecânica aguda. • Difteria hipertóxica (difteria maligna): quadro grave, muito toxico. Depende da interação parasita- hospedeiro e de uma linhagem que produz uma grande quantidade de toxina concomitante a um hospedeiro que não consegue ter uma resposta à altura. Ocorre a formação de placas de aspecto necrótico, com evolução muito rápida, podendo levar ao óbito. • Difteria cutânea: formação de úlceras cutâneas que podem ser foco de transmissão da bactéria pelo contato. É menos frequente. A Laringite diftérica é a mais comum, seguida pela Difteria cutânea. Como o sistema imune produz imunoglobulinas para combater a toxina, ocorre o aumento dos linfonodos regionais. Pode ocorrer uma linfoadenopatia no sítio, dando à pessoa o aspecto de pescoço taurino. Ocorre intenso edema do pescoço e aumento dos gânglios linfáticos dessa área, e edema periganglionar nas cadeias cervicais e submandibulares. COMPLICAÇÕES As complicações dependem da localização e extensão da membrana, da quantidade de toxina absorvida, do estado imunitário do paciente, da demora no diagnostico e início do tratamento. Dependendo do tempo pode evoluir para: - Complicações miocárdicas: ação da toxina no miocárdio causando endocardite - Complicações neurológicas: ação da exotoxina no sistema nervoso periférico e paralização da musculatura do palato mole e dificuldade de deglutição. - Complicações renais TRATAMENTO • Aplicação de anti-toxina (soro antidiftérico): para eliminar os efeitos da toxina circulante no organismo. • Antibioticoterapia: para reduzir a carga bacteriana e concomitantemente a produção de toxina. Deve ser usado associado a uma antitoxina, pois apenas o antimicrobiano não combate os efeitos da toxina no organismo. • Tratamento sintomático: tratamento das complicações decorrentes da ação da toxina. PROFILAXIA Forma de impedir a ação da toxina: • Imunização ativa: - Vacina pentavalente (difteria, tétano, coqueluche, Hib e Hepatite B) - Vacina tríplice (difteria, coqueluche e tétano) Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 9 - DT (difteria e tétano) • Imunização passiva: administração de antitoxina diftérica • Antibioticoterapia em comunicantes DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Coleta-se o material da borda da pseudomembrana, onde as bactérias estão produzindo a toxina. Faz-se um exame bacterioscópico para pesquisar a presença da bactéria. Pesquisa-se a toxigenicidade, para saber se a bactéria tem o gene tox e produz a toxina. • Exame bacterioscópico São bacilos pleomórficos Gram-positivos, podendo ser vistos retos ou em forma de clava. Elas estão dispostas em paliçada ou agrupadas formando letras chinesas, em consequência da presença do acido micólico em sua parede. Essa bactéria se cora irregularmente porque tem acúmulos de fosfato no interior dessas células, que são os grânulos de Babés-Ernst (granulações metacromáticas), vistos quando se usa a coloração do Azul de metileno. Para cultura, exigem meios mais ricos como ágar sangue ou chocolate, formando pequena área de hemólise. A fermentação de açúcares também é uma forma de identificar a bactéria. A Corynebacterium diphteriae não consegue hidrolisar ureia, fermenta muito bem glicose e maltose e fermenta pouco a sacarose. BACTÉRIAS ANAERÓBIAS São muito comuns em doenças oportunistas. Tem muito potencial para agredir. Para tratar bactérias anaeróbias, precisamos saber quais bactérias fazem parte da microbiota do sitio afetado, e entre elas, quais têm a capacidade de causar a doença observada. As bactérias anaeróbias são bactérias que só crescem em condições de concentrações reduzidas de O2. Os micro-organismos podem ser separados em grupos de acordo com algumas características: - Condições de cultivo: podem ser aeróbias (presença de O2) ou anaeróbias (condições reduzidas de O2) Aeróbias facultativas: podem viver na presença ou ausência de O2. Podem ser oxibionticas ou anoxibiôticas dependendo das condições do meio. Se elas puderem escolher entre a respiração e a fermentação, elas escolhem a respiração, porque a geração de energia é maior. Em algumas condições, as bactérias anaeróbias facultativas preparam o meio para as anaeróbias se multiplicarem, porque primeiro elas vão consumir o oxigênio do meio, e quando não houver mais oxigênio disponível, os anaeróbios que estão por perto terão oportunidade de se instalarem e multiplicarem. - Obtenção de energia: oxibiônticas (obtêm energia através da cadeia respiratória e o aceptor final de elétrons é O2) e anoxibionticas (obtém energia pela fermentação). Os anaeróbios obrigatórios são anoxibiônticos e os aeróbios obrigatórios são oxibiônticos. SENSIBILIDADE AO O2 • Aeróbios - Aeróbios estritos: dependem do oxigênio para sobreviver. Ex.: Pseudomonas aeruginosa. - Microaerófilos: aqueles que vivem em condições reduzidas de O2 - Aeróbios facultativos: se multiplica tanto na presença quanto na ausência de O2. Como a respiração aeróbia produz mais energia, se um aeróbio facultativo for encubado em anaerobiose, sua velocidade de multiplicação é muito maior do que se for encubado em anaerobiose. • Anaeróbios obrigatórios - Estritos: não sobrevivem na presença de O2 - Moderados: tem sobrevida na presença de O2, mas não clonam; são preservados. - Aerotolerantes: toleram um tempo maior de exposição ao O2. Não multiplicam. LETALIDADE DO O2 Os anaeróbios não tem resposta contra os produtos intermediários da formação do O2. A redução da molécula de H2O não representa nenhum problema para os micro-organismos; porém, a via de formação de O2 até a H2O forma espécies reativas de oxigênio sendo liberadas, os radicais livres. Esses radicais livres podem ser: - Hidroxila (OH) - Peróxido de hidrogênio (H2O2) - Ânion superóxido (O2 -) Esses radicais livres são tóxicos para a célula anaeróbia, e são toxicas para as células humanas também. As bactérias aeróbias têm defesas contra os radicais livres, que são produzidos o tempo todo; porém os anaeróbios não tem defesa. Essas defesas podem ser: - contra o ânion superóxido → enzima superóxido dismutase que dismuta o ânion superóxido em água e peróxido de hidrogênio Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 10 - contra o peróxido de hidrogênio → catalases, que degradam o peroxido de hidrogênio em água (2H2O) e oxigênio (O2), e peroxidases. - Uma vez que a célula já tem essas duas defesas, o radical hidroxila não é formado. O radical hidroxila é o mais tóxico contra as bactérias. • Efeito na célula anaeróbia: oxidação de lipídios, proteínas, DNA e morte celular. Em aeróbios e procariotos não acontece nada pelas estratégias de defesa com mecanismos anti-oxidantes. Na resposta do hospedeiro a bactéria encontra situação de espécies reativas de oxigênio sendo formadas. Quando o fagócito fagocita a bactéria, no fagolisossomo contém peroxido de hidrogênio que tem a finalidade de eliminar a bactéria. Se a bactéria tem defesacontra o peroxido de hidrogênio, tem melhores condições de sobreviver dentro do fagócito. Existem alguns estudos afirmando que os aeróbios tem atividade catalase, peroxidase e superóxido dismutase. Por isso eles conseguem sobreviver na presença de oxigênio. Já os anaeróbios moderados e aerotolerantes tem moderada atividade de superóxido dismutase e de catalase. Os anaeróbios extremamente sensíveis têm baixa ou nenhuma atividade catalase/peroxidase. OCORRÊNCIA Diversos ecossistemas, como solo, plantas, sedimento de lagos e rios, esgotos. No homem, habitam o TGI, trato geniturinário, pele (em especial folículos pilosos e acne), cavidade oral (placa subgengival), mucosa e superfície dentária. Sua ocorrência se relaciona ao crescimento em condições de baixo potencial redox, relacionado com reduzida concentração de oxigênio → condição ideal para a bactéria multiplicar. COLETA - Pode ser feita com seringa e agulha, porque normalmente os sítios infectados formam abscessos, sendo possível aspirar. - amostra de tecido – biópsia - swab de lesão: deve ser desencorajado, porque o swab tem uma superfície de oxigênio muito grande e a quantidade de amostra clinica é muito pequena • Transporte: precisa de um meio de transporte apropriado; não pode ser apenas um frasco estéril. O frasco usado deve ter barreira à entrada de oxigênio e ter concentração reduzida no seu interior. Depende do volume de amostra, mas evitar extremos de temperatura e evitar transportar em seringa e agulha. O meio de transporte adequado é um frasco vedado com condições reduzidas de oxigênio, contendo uma salina reduzida em seu interior, que regula o pH em torno de 7. Para injetar a amostra no frasco, basta perfurar a rolha (após eliminar o oxigênio contido na ponta da seringa) e injetar o material. O meio de transporte tem um indicador de aerobiose. Se entrar oxigênio, o indicador fica rosa. • Meio de cultura: deve ser rico para dar a oportunidade de todos os micro-organismos anaeróbios crescerem. Meios de cultura seletivos, direcionados para os micro-organismos que sabidamente habitam o sítio infectado. • Encubação: jarra anaeróbia e câmara anaeróbia. O fato de as bactérias crescerEm dentro da câmara anaeróbia não quer dizer que elas são anaeróbias obrigatórias. Elas podem ser anaeróbias facultativas. Teste respiratório: quando crescem vários morfotipos diferentes em uma placa em condições de anaerobiose, e deseja-se identificar qual deles é anaeróbio obrigatório. Fazemos 3 placas iguais, com todos os morfotipos encontrados; mantemos uma em anaerobiose, uma em aerobiose, uma em microaerofilia. Avalia-se as colônias que morreram em cada situação. Serve para definir se a bactéria é aeróbia, anaeróbia ou microaerófila. CARACTERÍSTICAS DE QUADROS CLINICOS ENVOLVENDO BACTÉRIAS ANAERÓBIAS • Natureza - Infecciosa: a bactéria está presente no sítio multiplicando, causando dano celular e expressando todos os seus fatores de virulência. - Não infecciosa: não necessariamente a bactéria está presente. Pode ser causada pela ação da toxina pré- formada da bactéria. Normalmente envolve resposta inflamatória. • Origem - Microbiota indígena: são a maioria - Microbiota exógena: não indígena, por exemplo, Clostridium • Etiologia - Monomicrobiana - Polimicrobiana INSTALAÇÃO DOS PROCESSOS INFECCIOSOS “Os maiores oportunistas são aqueles que estão perto” – Dodora, o mito. Normalmente as infecções de origem endógena são causadas por micro-organismos que habitam o sitio Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 11 onde a infecção se instalou - Sítios colonizados: microbiota indígena ou exógena. Os fatores que favorecem a infecção por uma bactéria são o desequilíbrio da microbiota ou do sitio anatômico e a colonização por bactérias de outro sítio ou exógenas. O desequilíbrio da microbiota normal pode ocorrer, por exemplo, na administração de antimicrobianos de espectro amplo, que agem em vários sítios além do sítio da infecção, matando as bactérias que são sensíveis, e favorecendo que outras cresçam demais. • Fatores predisponentes de infecção por bactérias anaeróbias: diabetes, imunossupressão, drogas citotóxicas, esplenectomia. - Fatores que causam queda do potencial redox naquele sítio → deficiência no suprimento sanguíneo, necrose tissular, multiplicação de aeróbios - Situções clínicas específicas → ruptura de barreiras mucosas e cutânea (cirurgias), mordidas humanas e de outros animais. • Primeira linha de defesa: pele intacta, membranas mucosas e secreções, imunoglobulina A, microbiota indígena equilibrada, sistema imune funcional Uma vez que os laboratórios de rotina não fazem testes com anaeróbios, estas infecções são tratadas empiricamente, baseadas em estudos que são divulgados esporadicamente. • Indícios da participação de anaeróbios: supuração com odor fétido ou pútrido; infecção na proximidade da mucosa; necrose/gangrena; gás nos tecidos ou supuração; infecção associada a tumores malignos; infecções secundárias no contato de alguns animais; infecções originadas do uso de alguns antimicrobianos; tromboflebite séptica; morfologia variada no Gram; ausência de crescimento em cultura de rotina; presença de gás livre; presença de condições anóxicas que resultam na formação de tecidos necróticos. AGRESSÃO MICROBIANA • Produção de toxinas - Exotoxinas: polipeptídeos sintetizados e secretados para fora da célula - Endotoxina: LPS (Gram-negativos) • Invasão tissular - Fatores que favoreçam a adesão: fímbrias, cápsula (mucopolissacarídea) - Enzimas: hialuronidase e outras que auxiliam na degradação do tecido - Cápsula: evasão da fagocitose ENVOLVIMENTO DE ANAERÓBIOS EM PROCESSOS INFECCIOSOS • Frequência muito alta: gangrena gasosa; ulceras de pé de pacientes diabéticos; processo após remoção de apêndice; doenças intestinais, etc. Muito frequente em doenças que acometem a região abdominal, porque envolvem o Trato Gastrointestinal. • Frequência alta: pneumonia, abscessos, infecções periodontais, sinusites crônicas • Frequência baixa: osteomielite e bacteremia (frequência baixa porque o sangue tem oxigênio) • Muito raro: processos infecciosos no trato urinário BACTEROIDES Anaeróbios obrigatórios, sendo o mais importante do gênero, o Bacteroides fragilis. São pleomórficos. São cultivados em um meio seletivo Ágar Bile Esculina que contém Bile; são os únicos que crescem nesse meio. Além de crescer, o Bacteroides fragilis hidrolisa a esculina e a esculetina do meio de cultura formando pigmento negro. Então, se o micro-organismo se multiplica em meio de Agar Bile Esculina, podemos afirmar que é do gênero Bacteroides, e se ele produz o pigmento, afirmamos que é a espécie Bacteroides fragilis. São micro-organismos bastante virulentos e com uma resistência considerável aos antimicrobianos. BACTÉRIAS PIGMENTADAS Em geral Prevotella e Porphyromonas, que usam o ferro do meio no seu metabolismo e formam um pigmento negro. Ainda produzem hemólise β (completa). No Gram são vistos como cocobacilos. MORDIDAS NO SER HUMANO Dependendo do dente, afiado ou não, está inoculando bactérias na pele da pessoa. Infecções são as complicações mais comuns associados a mordidas, com patógenos oriundos da pele da vítima ou da microbiota oral do agressor ou do ambiente. Normalmente tem envolvimento de anaeróbios: Ex.: mordidas humanas, de cães e de gatos. As mordidas de animais frequentemente afetam as mãos e as extremidades. GENERO CLOSTRIDIUM Gram-positivos, esporulados, morfologia colonial variada, mas são de natureza bacilos. • Fatores de virulência: - Toxinas: neurotóxicas, necrosantes, hemolíticas e tem propriedades letais. - Enzimas Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 12 - Cápsula → Espécies relacionadas à produção de toxinas neurotóxicas: C. tetani e C. botulinum → Espéciesrelacionadas à produção de toxinas enterotóxicas: C. perfringens e C. difficile (presente na microbiota normal do intestino) Uso de antimicrobianos: reduzem a população normal bacteriana e as que são resistentes à antibioticoterapia irão crescer e aumentar de quantidade. • Doenças associadas: - C. perfringens: bacteremia, gangrena gasosa, infecções diversas e intoxicação alimentar. - C. botulinum: toxina botulínica, intoxicação alimentar e infecção de feridas. Produz toxinas A, B e raramente a F. Sua toxina é usada como potente arma biológica e como uso medicinal. Todas as doenças causadas por essa toxina estão relacionadas à paralisia flácida. A toxina botulínica bloqueia a liberação de acetilcolina inibindo a contração muscular. No alimento, o que ocorre é que a bactéria contamina, se multiplica e produz toxinas; na maioria dos casos, por uma diversidade de processos, a bactéria se torna inviável e a toxina continua no alimento contaminado; ao ingerir o alimento com toxina, ela cai na circulação e resulta em paralisia flácida. Pode ser ingerido o esporo bacteriano também, o que é comum no mel; dessa forma, a bactéria vai produzir a toxina quando já estiver no trato gastrointestinal. Através de lesões abertas, acontece quando caem esporos da bactéria nas feridas, que germinam, e produzem a toxina que também vai para a corrente sanguínea. O resultado sempre vai ser a produção de toxina que cai na corrente sanguínea e leva à paralisia flácida. - C. dificile: diarreia, principalmente associada aos pacientes que tomam antimicrobianos por longo período de tempo, internados em unidades de terapia intensiva. Causador de colite pseudomembranosa; esse micro- organismo existe no intestino normalmente; a colite pseudomembranosa normalmente surge em pacientes que estão internados e fazendo uso de antimicrobianos para infecções distintas, e normalmente esse paciente tem uma doença de base. O antimicrobiano desequilibra a microbiota intestinal, mas como o Clostridium é resistente, ele não é eliminado. Isso provoca o aumento exagerado na população de Clostridium. Esse aumento provoca uma reação inflamatória que vai formar uma membrana. Essa membrana é uma membrana que forma uma barreira para a absorção de nutrientes e reações inflamatórias. Pode levar o paciente a óbito. O uso indiscriminado de antimicrobianos causa o aumento do índice de mortalidade por doenças diarreicas causadas por C. difficile. Colite é uma das doenças nosocomiais mais comuns. É resistente à maioria dos antimicrobianos de amplo espectro, sendo selecionadas. Associado a surtos com crescente morbidade. - C. tetanum: introdução dos esporos após ferimentos traumáticos diversos. Germinação dos esporos e desenvolvimento do micro-organismo no interior da ferida. Uma vez que o micro-organismo volta à sua forma vegetativa, pode produzir toxinas como tetanoplasminas, que são liberadas no sistema nervoso central levando à manifestações clínicas. O tétano pode ser localizado ou generalizado. Tétano generalizado é o mais comum. Acomete todos os músculos e o prognóstico é muito ruim. O localizado tem um melhor prognostico dependendo do local. Tétano neonatal: tétano generalizado em recém nascidos de mães que não foram imunizadas. Pode acontecer contaminação do cordão umbilical usando esterco e fumo para “curar” o umbigo. Processo de gangrena gasosa: injuria tissular → infecção com a presença de anaeróbios obrigatórios (Clostridium) → produção de toxinas → toxinas alcançam a corrente sanguínea → óbito do paciente MYCOBACTERIUM As duas espécies de maior importância dentro do gênero são Mycobacterium tuberculosis e Mycobacterium leprae. Porém, existem mais de 150 espécies dentro do gênero. Estas outras bactérias, que não são de nenhuma das duas espécies citadas, são chamadas de “Mycobacterium não da tuberculose”; eventualmente podem até causar um quadro semelhante ao Mycobacterium tuberculosis. Não existe nenhuma outra Mycobacterium além da Mycobacterium tuberculosis que pode causar tuberculose; elas podem causar infecção no pulmão. - Mycobacterium não pode ser classificada com a coloração de Gram em Gram-positivo ou Gram- negativo por causa da composição da sua parede celular. - São bastonetes retos, ligeiramente curvos, imóveis, que não formam esporos e nem cápsula. - São aeróbias e tem crescimento lento (> 7dias). - São pouco exigentes quanto ao cultivo, mas é bom que o meio tenha uma concentração maior de lipídios - São bem resistentes Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 13 - Tempo de duplicação de cerca de 26 horas • Parede celular: composta por peptideoglicano com alto conteúdo de lipídios (cerca de 60% do peso seco). Essa parede celular composta por cadeias longas (com até 90 unidades de carbono) confere à bactéria resistência ao meio externo. Tem a presença do ácido micólico. Essa composição diferente da parede faz com que essa bactéria seja resistente à coloração, não se corando pelo método de Gram. Por essa característica, é chamada de bacilo álcool-ácido-resistente (BAAR). Se cora pelo método Ziehl-Neelsen: seu primeiro componente, que é a fucsina, que precisa ser aquecida no fogo para que possa penetrar na parede espessa da bactéria. Depois que entra o primeiro corante, o álcool-ácido não consegue descorar a bactéria (não é o mesmo descolorante do Gram, que é um éter- acetona); o álcool-ácido retira o corante de todas as outras bactérias, mas o da Mycobacterium permanece corado. - Composição da parede: a galactose e a arabnose formam um dissacarídeo. Esse dissacarídeo se liga ao peptideoglicano. O ácido micólico é a porção que faz a ligação e funciona como a sustentação da parede. O complexo peptideoglicano-dissacarideo-acido micolico, forma a estrutura que da a característica de resistência à Mycobacterium, tanto no meio externo, quanto no organismo, sendo capaz de resistir até à ação de fagócitos. Contém ainda Lipoarabinomanana, que é um polissacáride, que comporta-se como se fosse uma endotoxina (mas não é uma endotoxina verdadeira, porque só encontramos endotoxinas em Gram- negativo) sendo associada ao processo de inflamação inicial. Todas as Mycobacterium apresentam esta mesma estrutura de composição da parede, variando apenas as moléculas de superfície. Escape da morte mediada por macrófagos devido à composição da parede. Nos pulmões, as partículas menores, que conseguem alcançar os alvéolos, encontram os macrófagos residentes; não são todas as partículas que escapam, mas as que conseguem sobreviver são as que vão dar continuidade ao processo da doença. Outra característica conferida pela parede celular é a capacidade de viver dentro de macrófagos, ganhando um tempo e se multiplicando dentro deles. Uma vez que ela parasita a célula e está em um processo crônico, ela provoca uma reação e hipersensibilidade do tipo tardio (tipo IV). Portanto, as imunoglobulinas não tem importância na defesa contra Mycobacterium, porque a resposta imune desencadeada por ela é do tipo celular. Causa uma resposta granulomatosa, que pode ocorrer em diversos órgãos do corpo dependendo de onde o micro- organismo está. Essa resposta do organismo tenta conter a bactéria. MYCOBACTERIUM TUBERCULOSIS A tuberculose é a doença infecciosa com maior numero de mortes. Mata cerca de 3 pessoas por minuto. Existem condições de maior risco, mas todos expostos ao bacilo estão sujeitos. Grávidas e recém-nascidos compõem o grupo de risco. O grande problema atualmente é o aumento significativo no número de linhagens que apresentam resistência a drogas. O tratamento da tuberculose é complexo, havendo muitas Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 14 pessoas que abandonam o tratamento. Se a pessoa abandona o tratamento, cria uma brecha para dar à bactéria resistência às drogas usadas. A vacina BCGé administrada para melhorar essas condições. - BCG: feita com o Mycobacterium bovis, é atenuada. Em contato com o sistema imune, desencadeia resposta imune do tipo celular, e forma a cicatriz no braço (que é um exemplo da resposta granulomatosa). No caso de infecções no pulmão, o mesmo tipo de cicatriz é formado. • Interação parasita-hospedeiro O Mycobacterium tuberculosis é mais comumente transmitido através de secreções do trato respiratório superior: perdigotos eliminados com a tosse, fala, espirro. Existem outras fontes de infecção, como nos casos que a bactéria se instala nas meninges, ou nos rins. A transmissão pelo sangue, urina, liquor são casos raros, que acontecem apenas em pessoas hospitalizadas. As partículas que entram pelas vias aéreas, são em sua maioria barradas no sistema respiratório superior, principalmente as maiores, pelas células ciliadas, a mucosa, as imunoglobulinas. Há o impedimento da passagem se a partícula for grande. Perdigotos muito pequenos podem alcançar os alvéolos pulmonares, onde encontram os macrófagos residentes, que encontram várias partículas constantemente, e por isso já estão pré-ativados. Os macrófagos reconhecem esses antígenos de Mycobacterium e fagocitam. Esse é o primeiro estágio. Não são todos que irão progredir, mas aqueles que conseguirem chegar até os linfonodos vão desencadear a resposta imune celular. - Crescimento intracelular nos mononucleares: mononucleares são os macrófagos; mas quando os mononucleares saem dos linfonodos, eles ainda são monócitos, células imaturas. Os monócitos se dirigem ao local da infecção para fagocitar o Mycobacterium; como ainda são células imaturas, o micro-organismo fica dentro da célula e se multiplica. Isso causa a demora na detecção de lesões primárias, que pode levar até 12 semanas. Os linfócitos são os responsáveis por construir a resposta imune celular, com a liberação de citocinas, característica da agressão por Mycobacterium. A partir daí, começa a resposta granulomatosa e começa a ser formado o granuloma. Forma-se um granuloma com células modificadas e envolto por uma cápsula de fibrina. Esse processo de formação do granuloma caracteriza a primo-infecção ou infecção primária. A primo-infecção significa que o paciente possui o bacilo, e a doença está em uma forma latente. A forma latente precisa ser tratada também, porque em qualquer situação que ocorra uma imunossupressão, a doença progride para a doença ativa. Apenas a doença ativa é transmissora do bacilo. A doença ativa é a forma secundária. Cerca de 90% das pessoas que tem o bacilo da tuberculose barram a progressão da doença. A pessoa pode inclusive eliminar o bacilo antes de ele causar qualquer dano. A progressão ou reativação da doença é quando o granuloma se abre no trato respiratório liberando o bacilo, transformando a doença latente em doença ativa. Assim como toda infecção no pulmão, a tuberculose é uma pneumonia na sua forma crônica. - Doença ativa: grande eliminação de bacilos. Disseminação com cavitação, pneumonia tuberculosa, tuberculose miliar. Presença de necrose caseosa e de cavidades que se rompem nos vasos sanguíneos e nas vias aéreas. Após o primeiro contato, tem pessoas que progridem diretamente para a doença ativa, e depois pode ocorrer a eliminação da bactéria. Se a pessoa não é imunizada (tuberculino negativo), quando encontra um Mycobacterium tuberculosis, tem a forma primária da doença, e se torna um tuberculino positivo. 90% da população ficam no estágio de tuberculose paralisada/tuberculino positivo. O tuberculino positivo tem o Mycobacterium tuberculosis, mas não está com a doença ativa, liberando bacilos. Os outros 10% da população evoluem para a progressão da doença, que pode ser ativada e se espalhar para outros órgãos. Se uma pessoa teve o contato, ela pode ficar com a bactéria ou eliminar toda a carga bacteriana. • Características da doença ativa Tosse por período prolongado, hemoptise (fragmentos de sangue no escarro da tosse), febre baixa vespertina, fadiga, sudorese noturna. Apresenta manifestações bucais, possuindo predileção por mucosas; a base da língua é o local mais comum. • Diagnóstico da tuberculose É necessário fazer: - Pesquisa do bacilo/exame específico: baciloscopia e cultura (feito com a coleta do escarro, em 3 amostras diferentes). É a forma mais simples, mais barata e mais fácil. Não é a forma mais sensível. - Exame radiológico - Prova tuberculínica PPD: Injeta-se o PPD na pese do paciente. Tuberculina é um preparado proteico que utiliza a bactéria. Esse preparado é reconhecido pelas células T; elas formam um granuloma no local onde o PPD é inoculado na pele. Esse sítio endurecido é medido e avaliado. É desejável que tenhamos uma resposta Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 15 menor de 10mm; uma resposta maior que 10mm significa que a pessoa tem o Mycobacterium tuberculosis. Se o PPD der positivo em uma pessoa assintomática, significa que ela tem a forma primária da doença, que deve ser tratada. Uma pessoa vacinada, que faz o PPD tem resposta negativa (até 10mm). - Biópsia (anatomo-patológico) - Bioquímico - Biologia molecular: gene xpert; diagnóstico em duas horas. Identifica fragmentos do DNA de micobactéria no escarro. Além de mostrar a presença do bacilo da tuberculose, mostra se a espécie tem resistência ao medicamento utilizado para o tratamento. - Meios de cultivo: demora cerca de 15 dias para o diagnóstico → Pesquisa de bacilos álcool-ácido-resistentes Amostras usadas para a pesquisa de BAAR: escarro, urina, LCR, biópsias, etc. - Escarro: baciloscopia direta; profundidade do tórax, tosse profunda. Deve ser coletado 3 amostras diferentes, depois de eliminar a saliva e fazer uma limpeza nasal. As porções purulentas ou contendo partículas sólidas serão usadas para o preparo de lâminas, onde se faz a pesquisa de BAAR após a coloração. Por causa do alto teor de lipídios, os bacilos aparecem juntos na lâmina, aglomerados. Com a evolução do tratamento, elas começam a aparecer separadamente. • Drogas usadas no tratamento O grande problema do tratamento é a longa duração. A rifampicina é uma das drogas de referência quando serão tratadas pessoas sem complicação. A terapia mais utilizada se dá pela associação de 4 drogas: isoniazida, rifampicina, pirazinamida e etambutol. Existe uma pílula disponível para o tratamento, que tem essas 4 drogas combinadas, que recebe o nome de Dose Fixa Cominada. Essas 4 drogas são usadas durante um período de 2 meses. Depois, nos últimos 4 meses são usadas apenas a isoniazida e a rifampicina. A resistência à rifampicina é um problema no combate à tuberculose. - TDO – tratamento direto observado. É determinante, pois é necessária a manutenção e conclusão do tratamento. Muitas vezes, depois de alguns meses os sintomas ficam retardados, a pessoa se julga curada e abandona o tratamento. As drogas mais usadas causam efeitos colaterais desagradáveis, como neuropatia periférica, náuseas, vômitos, icterícia, urticaria, hemorragias, artralgia. O aparecimento de espécies de Mycobacterium tuberculosis multirresistente tem aumentado muito, aparecendo até bactérias resistentes a antimicrobianos de segunda geração. Qual é a diferença entre o portador e o doente ativo? O portador é diagnosticado pelo PPD, e o doente ativo é identificado na pesquisa pela lamina, pelo raio-x e pela biologia molecular • Fatores predisponentes Qualquer fator que altere a resposta imune: AIDS, debilidade do sistema imune, nutrição inadequada, câncer, envelhecimento, uso inadequado de antibióticos. • Profilaxia Detecção precoce das fontes de infecção, quimioprofilaxia (isoniazida), vacinação e erradicação da tuberculose bovina. MYCOBACTERIUM LEPRAE Sabe-se muito pouco a respeito dessa espécie, pois não conseguimos cultivá-lo in vitro, tornando difícil o estudo daespécie. Isso é uma limitação para o conhecimento de seus fatores de virulência. É uma bactéria muito lenta, com um tempo de duplicação de 14 dias. O tempo de manifestação da doença pode demorar até 20 anos. - Dispostos em feixes paralelos ou em aglomerados de raspados de pele ou mucosa. Não se sabe como essa bactéria é transmitida; acredita-se que seja pelo trato respiratório superior e pela pele com feridas. - Encontradas no interior de células endoteliais dos vasos sanguíneos e de células mononucleares - Apenas metade do genoma de Mycobacterium leprae contém genes funcionais. - As lesões acontecem nos tecidos mais frios do organismo, ou seja, as extremidades: pele, membranas do nariz, faringe, laringe e nervos periféricos. Isso acontece porque ocorre uma alteração no sistema nervoso periférico, com infiltração e espessamento dos nervos, alterando o funcionamento do sistema nervoso. O Glicolipídio da bactéria se liga à cadeia da laminina basal do complexo axônio-célula de Schwann, causando infecção progressiva e lenta, afetando os nervos periféricos e resultando em deformidades. Altera a função do sistema nervoso. • Formas da hanseníase - Forma tuberculoide: evolução benigna. Lesão de pele e nervos periféricos. Áreas de anestesia. A pessoa pode evoluir para a cura espontânea, para o controle do bacilo. São poucos bacilos e a imunidade celular está integra. Nas lesões tuberculoides na pele, a produção de melanina está alterada e são lesões alteradas; a área não apresenta sensibilidade. Quando a pessoa tem até 5 lesões, é considerada forma benigna; é necessário o acompanhamento para detectar possível progressão. As lesões intermediárias são paucibacilares; podem aparecer múltiplos nódulos, mostrando que a resposta é Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 16 do tipo granulomatosa. A forma dimorfa da lesão tuberculoide apresenta várias lesões eritematosas, bem definidas, bordas definidas, granulosas e elevadas, pequenas lesões satélites e são anestésicas. - Forma lepromatosa: progressão lenta, maligna e se não tratada pode ser fatal. Lesões de pele, membranas mucosas e dano progressivo dos nervos. Lesões de destruição do septo nasal. Deformidades nasal e facial. Abundância de bacilos. Contagiosa. Imunidade celular comprometida. Também chamada de forma Virchowiana, a forma grave. • Manifestações da doença A doença pode permanecer assintomática por muitos anos. Apresentam manifestações bucais e tem predileção por mucosas. Úlceras, nódulos, manchas, placas e alterações gengivais. Lábio, palato mole e úvula podem ser afetados. Ulceração. Outros locais de manifestação: mobilidade dos incisivos superiores, ulceração nódulos palatais e já foram relatados bacilos na polpa dentária. • Diagnóstico da Hanseníase Quando a pessoa não tem a manifestação da doença, a coleta é feita nos lóbulos auriculares e nos cotovelos, que são as extremidades com maior chance de encontrar a bactéria. Quando tem a lesão ativa a coleta é feita nas áreas com alteração de sensibilidade, lóbulos auriculares e cotovelos. Nssas lesões na pele, na forma tuberculoide, os bacilos são raros, e na forma lepromatosa são abundantes. Na ausência de uma lesão evidente pode se fazer raspados da pele ou da mucosa nasal e biopsia da orelha. • Tratamento Tratamento muito longo, podendo chegar até 12 meses. Combinação de drogas Dapsona e Rifampicina na forma tuberculoide. A forma lepromatosa é tratada com a combinação de Dapsona, rifampicina e clofazimina. • Prevenção e controle Drogas quimioprofiláticas à crianças expostas à forma lepromatosa. ASPECTOS MICROBIOLÓGICOS DAS DSTs Agentes etiológicos: bactérias, vírus, protozoários e ectoparasitas. AGENTES BACTERIANOS DE DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS - Gonorréia: Neisseria gonorrheae - Uretrites e cervicites não gonocócicas: Chlamydia trachomatis (a gonorreia também é uma uretrite, por isso estas são denominadas não gonocócicas. A uretrite causada por Chlamydia é mais comum) - Linfogranuloma venéreo: Chlamydia trachromatis - Cancro mole ou cancroide: Haemophilus ducreyi - Sífilis: Treponema pallidum - Granuloma inguinal ou donovanose: Calymmatobacterium granulomatis **A C. trachomatis causa tanto uretrites e cervicites quanto o Linfogranuloma venéreo. URETRITES E CERVICITES São causadas por Neisseria gonorrheae e Chlamydia trachomatis. São reações inflamatórias da uretra e do endocérvix. As uretrites e cervicites podem ser divididas em específicas ou gonocócicas, que são causadas pelo gonococo (Neisseria gonorrheae); e as inespecíficas ou não gonocócicas, que são causadas por outra bactéria, que não o gonococo. Tem algumas bactérias que são capazes de causar uretrites e cervicites inespecíficas ou não gonocócicas, mas a mais comum e prevalente é a Chlamydia trachomatis. O sinal das uretrites e cervicites é a presença de corrimento, que é mais exuberante nos quadros de gonorreia. • Neisseria gonorrheae Agente da gonorreia ou glenorragia. São diplococos Gram-negativos. É uma bactéria que não tem cápsula e não faz parte da microbiota indígena; uma vez identificada no hospedeiro, deve ser eliminada. Apresenta predileção por mucosas, sendo encontradas nas membranas mucosas dos tratos respiratório e genital quando presentes. No hospedeiro, são encontradas no interior ou associadas a células polimorfonucleares, associados a respostas agudas inflamatórias (neutrófilos). Não existe vacina para esta bactéria, nem imunização pela contaminação com a bactéria em sua forma ativa. → Fatores de virulência Uma vez que é uma bactéria Gram-negativa, apresenta em sua parede o LPS (ou lipooligossacáride). Tem pilus (ou fímbrias), porina e OPA (molécula que confere opacidade à parede da bactéria; normalmente ela é mais invasiva quando apresenta esta opacidade). Além disso, para ser capaz de parasitar mucosas, a bactéria tem uma protease contra IgA, que a cliva e inativa, para se defender dessas imunoglobulinas. O lipooligossacáride produz a reação inflamatória característica da gonorreia: reação inflamatória aguda e forte, além de produzir o dano tissular e impedir a fagocitose. Como é uma bactéria que necessita de ferro, ela possui lactoferrina para captação de Fe. Prova 3 Microbiologia aplicada à odontologia – Teórica Karolina Viana 17 Carrega plasmídios com genes de resistência a antimicrobianos, como o gene da β-lactamase. Tem capacidade de variar a composição de suas moléculas de superfície: pilina, OPA e lipooligossacáride. Por isso não existe vacinação contra gonorreia, pois em uma infecção posterior com a mesma espécie, os antígenos serão diferentes. Não adianta o hospedeiro desenvolver resposta imune contra uma linhagem, pois existem inúmeras. → Manifestações clínicas Ataca as células epiteliais do trato cervical e geniturinário, provocando uma inflamação, que se for persistente, pode ocorrer uma área de fibrose. A incubação é rápida, de 2 a 6 dias. Grande produção de corrimento, que é o exsudato, resultado da reação inflamatória; é um material rico em bactérias e em células de defesa, o que lhe confere cor amarelada intensa. A pessoa fica com o tecido lesado, podendo sentir ardor ao urinar; quando isso acontece, a pessoa passa a espaçar a micção e a reter a urina; dizemos que a pessoa está em um quadro de disúria, que é a dificuldade de urinar. Neisseria gonorrheae é um parasita de mucosa, transmitida pelo contato mucosa-mucosa. → Prevenção A criança que nasce de uma mãe infectada com esta bactéria pode nascer com um quadro de inflamação aguda no olho; é um quadro de instalação da Neisseria gonorrheae na conjuntiva ocular. Se a reação inflamatória progredir, evolui para a cegueira. Por causa disso, quando a criança nasce, é administrado algum colírio na primeira hora após o nascimento: nitrato de prata a 1% (método de Credé), Eritromicina a 0,5%