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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 3 1 CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS, A DISCIPLINA DO DANO MORAL E SUA REPARAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 1916 .................................................. 4 2 INTRODUÇÃO A RESPONSABILIDADE CIVIL ............................................ 7 3 RESPONSABILIDADE CIVIL E RESPONSABILIDADE PENAL ................ 13 4 RESPONSABILIDADE SUBJETIVA E RESPONSABILIDADE OBJETIVA 14 5 ELEMENTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL ......................................... 15 5.1 Conduta humana .......................................................................................... 15 5.2 Dano.. ........................................................................................................... 20 5.3 Nexo causal .................................................................................................. 21 5.3.1 Teoria da equivalência das condições (conditio sine qua non) ..................... 22 5.3.2 Teoria da causalidade adequada.................................................................. 24 5.3.3 Teoria da causalidade direta ou imediata ..................................................... 25 5.3.4 Teoria adotada pelo código civil brasileiro .................................................... 26 5.3.5 Causas concorrentes .................................................................................... 27 5.3.6 Concausas .................................................................................................... 29 5.3.7 A teoria da imputação objetiva e a responsabilidade civil ............................. 30 6 DANO PATRIMONIAL ................................................................................. 31 6.1 Dano emergente e lucro cessante ................................................................ 31 6.2 Interesse negativo e interesse positivo ......................................................... 32 6.3 Dano patrimonial e equivalente pecuniário da prestação ............................. 33 7 DANOS MORAIS ......................................................................................... 35 7.1 Danos morais x transtornos. A perda do tempo e o crescimento da tese da responsabilidade civil sem dano. .................................................................. 37 7.2 Danos morais da pessoa jurídica.................................................................. 39 7.3 Natureza jurídica da indenização por danos morais ..................................... 41 7.4 Tabelamento e critérios para quantificação dos danos morais ..................... 42 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................ 46 INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. 4 1 CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS, A DISCIPLINA DO DANO MORAL E SUA REPARAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 1916 A irreparabilidade do dano moral surge como consequência da dicotomia entre reparação e pena. A pena pecuniária, que anteriormente se dirigia ao ofendido, exercendo a dupla função de reparar e punir, se tornou elemento exclusivo do Direito Penal, dirigindo-se, essa, ao Estado. Nesse sentido, a indenização se referia ao ilícito civil; ao interesse particular de a vítima ter seu dano reparado. Já a punição teria relação com o ilícito criminal; a um interesse geral de repressão do crime, pelo Estado. A quantia indenizatória destinava- se à vítima do dano. As multas ou penas pecuniárias, por sua vez, não poderiam ter natureza reparatória, mas tão somente punitiva, se destinando ao Estado. (TRUGILHO, 2015). Assim, a doutrina afirma que “a indenização deveria basear-se tão somente na extensão do dano sofrido. Entretanto, como o dano moral não é mensurável, o autor baseia sua reparação no valor da multa (penal), coibindo, outrossim, o arbítrio do julgador. ” (BEVILAQUA, apud TRUGILHO. 2015. p. 119) Trugilho (2015) ainda acrescenta alguns comentários sobre Bevilaqua e a disciplina do dano moral: Assim, o jurista se apropria, parcialmente, dos parâmetros de aplicação da multa, disciplinados no Código Penal, e os transfere para o Código Civil, em forma de reparação do dano moral. O próprio autor afirma que a quantia da reparação do dano moral constitui-se em pena civil. O vocábulo “pena”, neste caso, tem fundamento punitivo, diferentemente da actio injuriarum æstimatoria romana. Isto porque, no Direito romano, o escopo da pœna imposta ao ofensor, no contexto dos delitos privados, não era a punição; representava uma sanção legal de natureza pecuniária. “Isto é, uma soma em dinheiro, ou a entrega de objetos”. Na actio injuriarum æstimatoria, a própria vítima ponderava o valor da lesão sofrida, o seu propósito era, pois, substancialmente reparatório. Já o Código Civil de 1916, ao contrário, utiliza o critério de punição do Código Penal, o qual se ampara nas condições do ofensor. Isto é, não se atenta para a situação da vítima e para a amplitude da lesão sofrida, em cada caso concreto; fato 5 que configura, inclusive, um contrassenso no pensamento de Bevilaqua, segundo quem a indenização deve ser baseada na extensão do dano. É importante destacar, por fim, que Bevilaqua é o primeiro dos autores a empregar o termo dano moral. A reparabilidade do dano moral, anterior a promulgação do Código Civil de 1916, já era tema de acirrados debates, tanto em âmbito doutrinário, quanto jurisprudencial. Havia entre renomados autores do período grande divergência nos entendimentos. Sendo Larcerda de Almeida era contrário à reparabilidade do dano moral e Carvalho de Mendonça era favorável. O autor defende, ainda, que a reparação do dano moral não poderia se restringir às hipóteses e valores determinados em lei. Bevilaqua ora diz que as previsões de reparação do dano moral no Código Civil são taxativas, ora diz que são exemplificativas, com base nesse contraditório entendimento pode-se observar a complexidade do tema. Havia grande divergência sendo enfrentada pelos membros do Supremo Tribunal Federal e os tribunais brasileiros, também possuíam grande divergência entre seus membros. As responsabilidades civil e penal por ofensas físicas ou psíquicas ao ser humano surgiram e estiveram unidas durante muito tempo. Dito isso, é evidente que havia confusão entre a reparação da vítima e a punição ao ofensor. A separação entre responsabilidade civil e penal teve início no Direito romano, ocorrendo o efetivo desmembramento das matérias no século XIX, como consequência de ideais jusracionalistas. A intensa sistematização e reestruturação do Direito, entre os séculos XVI e XIX, proporcionada pelo jusracionalismo, tem como um de seus postulados a estrita separação entre matérias cíveis e criminais, a qual se instrumentalizaria, principalmente, por meio da elaboração de códigos distintos: um civil e outro criminal. (TRUGILHO, 2015). direção, o legislador, ao disciplinar a impossibilidade da prestação por culpa de um dos devedores solidários, determinou, no art. 279, que “subsiste para todos o encargo de pagar o equivalente; mas pelas perdas e danos só responde o culpado”. Os dispositivos revelam que a responsabilidade que segue ao inadimplemento do débito é gênero, do qual a responsabilidade civil é espécie. Tratando-se de relação contratual, o pagamento do equivalente exsurge como um dos instrumentos de tutela colocados à disposição do credor, ao lado da resolução da relação obrigacional, diante do inadimplemento absoluto da prestação, nos termos do art. 475 do Código Civil, sem prejuízo da cobrança concomitante de indenização pelas perdas e danos. Cuida- se, com efeito, o pagamento do equivalente e a indenização das perdas e danos, de verbas distintas, com funções diversas, o que impede compreender o equivalente abarcado pelo montante pago a título de dano patrimonial. (TEPEDINO, 2021) 35 7 DANOS MORAIS A reparação dos danos imateriais é consideravelmente nova no ordenamento jurídico brasileiro, sua pacificação tem ocorrido desde a Constituição Federal de 1988, devido a previsão legal expressa no art. 5.º, incs. V e X. A corrente doutrinária (majoritária na doutrina brasileira) que melhor aborda o tema conceitua os danos morais como lesão a direitos da personalidade. Importante ressaltar que para a sua reparação não se requer a determinação de um preço para a dor ou o sofrimento, mas uma forma para que se possa, em parte, reduzir, as consequências do prejuízo imaterial, o que traz o conceito de lenitivo, derivativo ou sucedâneo. Devido ao exposto, que se torna evidente o porquê do uso do termo reparação e não ressarcimento para os danos morais. O dano moral não possui a finalidade de acrescer o patrimônio da vítima, mas sim de compensá-la pelos males suportados. Devido essa característica, não cabe a incidência de imposto de renda sobre o valor recebido a título de indenização por dano moral, essa afirmativa encontra-se consolidada por meio da Súmula 498 do Superior Tribunal de Justiça. Além do pagamento de uma indenização em dinheiro, presente o dano moral, é viável uma compensação in natura, conforme reconhece enunciado nº 589 aprovado na VII Jornada de Direito Civil (2015): “a compensação pecuniária não é o único modo de reparar o dano extrapatrimonial, sendo admitida a reparação in natura, na forma de retração pública ou outro meio”. O enunciado dispõe acerca do direito de resposta no caso de atentado contra a honra praticado por veículo de comunicação. Ressalte- se que o direito de resposta foi regulamentado por lei específica (Lei 13.188, de 11 de novembro de 2015) que regula os procedimentos judiciais para o seu exercício. Seguindo de forma complementar, diversos casos existem em que o magistrado determina ao devedor que substitua o bem que não presta ao fim a que se destina por outra da mesma qualidade, quantidade e espécie que funcione adequadamente ou então em que a decisão judicial determina que o devedor realize alguma atividade a que se obrigou, como a cobertura de tratamento a um consumidor de plano de saúde, a instalação de uma linha telefônica, a pintura de uma fachada, o 36 desfazimento de uma construção. Em todas essas possibilidades, o Estado-juiz objetiva disponibilizar ao interessado a reparação in natura. Para a caracterização do dano moral não se faz obrigatória a presença de sentimentos humanos negativos, conforme enunciado nº 445 aprovado na V Jornada de Direito Civil: “o dano moral indenizável não pressupõe necessariamente a verificação de sentimentos humanos desagradáveis como dor ou sofrimento”. Por exemplo, a Súmula 227 do STJ que reconhece o dano moral da pessoa jurídica, é evidente que a pessoa jurídica não passa por tais situações. Com relação à pessoa natural, o Superior Tribunal de Justiça tem entendido que, nos casos de lesão a valores fundamentais protegidos pela Constituição Federal, o dano moral dispensa a prova dos citados sentimentos humanos desagradáveis, presumindo-se o prejuízo. Feitas as considerações sobre o dano moral, seguimos com a observância de suas principais classificações. Com relação ao sentido da categoria o dano moral pode ser classificado em: Sentido próprio, nesse caso é entendido como aquilo que a pessoa sente (dano moral in natura), causando na pessoa dor, tristeza, vexame, humilhação, amargura, sofrimento, angústia e depressão. Em sentido impróprio ou também denominado em sentido amplo, nesse caso é entendido como qualquer lesão aos direitos da personalidade, como, por exemplo, à opção sexual. Na linha do exposto não necessita da prova do sofrimento em si para a sua caracterização. Quanto à necessidade ou não de prova: Dano moral provado ou dano moral subjetivo, é aquele que necessita ser comprovado pelo autor da demanda, ônus que lhe cabe. Ocorre, por exemplo, nas hipóteses fáticas de acidentes de trânsito, visto que a condenação à compensação de danos morais, nessas hipóteses, depende de comprovação de circunstâncias peculiares que demonstrem o extrapolamento da esfera exclusivamente patrimonial, o que demanda exame de fatos e provas. Dano moral objetivo ou presumido (in re ipsa), não necessita de prova, como nos casos de morte de pessoa da família, lesão estética, lesão a direito fundamental protegido pela Constituição Federal ou uso indevido de imagem para fins lucrativos 37 (Súmula 403 do STJ). Na mesma esteira da sumular, cite-se proposta aprovada na VII Jornada de Direito Civil, evento promovido pelo Conselho da Justiça Federal em 2015, segundo o qual o dano à imagem restará configurado quando presente a utilização indevida desse bem jurídico, independentemente da concomitante lesão a outro direito da personalidade, sendo dispensável a prova do prejuízo do lesado ou do lucro do ofensor para a caracterização do dano, por se tratar de modalidade in re ipsa (Enunciado n. 587). Quanto à pessoa atingida: Dano moral direto, é aquele que atinge a própria pessoa, a sua honra subjetiva (autoestima) ou objetiva (repercussão social da honra). Como exemplo, cita-se os crimes contra a honra, que geram a responsabilidade civil daquele que os pratica, nos termos do art. 953 do Código Civil. Dano moral indireto, também denominado dano moral em ricochete, é aquele que atinge a pessoa de forma reflexa, como nos casos de morte de uma pessoa da família (art. 948, caput, do CC), lesão à personalidade do morto (art. 12, parágrafo único, do CC) e perda de uma coisa de estima, caso de um animal de estimação (art. 952 do CC). Em síntese, trata-se de um dano que atinge uma pessoa ou coisa e ressoa em outra pessoa. É evidente que as suas hipóteses são amplas, atingindo muito além da situação descrita no art. 948 do Código Civil. A legitimidade para o pedido de reparação por danos morais como regra geral é do próprio ofendido, porém, em determinadas situações, são colegitimadas também aquelas pessoas que, sendo muito próximas afetivamente à vítima, são atingidas indiretamente pelo evento danoso, reconhecendo-se, em tais casos, o chamado dano moral reflexo ou em ricochete. (TARTUCE, 2021) Abordadas as classificações seguimos para uma abordagem acerca de algumas questões controvertidas relacionadas ao tema dos danos morais. 7.1 Danos morais x transtornos. A perda do tempo e o crescimento da tese da responsabilidade civil sem dano. A doutrina e a jurisprudência têm se atentado para a concepção do fato de que os danos morais suportados por alguém não se confundem com os meros transtornos 38 ou aborrecimentos que a pessoa sofre no dia a dia. Pois Isso pode ocasionar em um descrédito da própria concepção da responsabilidade civil e do dano moral. O juiz, em análise do caso concreto deve apontar se a reparação imaterial é cabível ou não. Assim, o dano moral não se confunde com os meros aborrecimentos decorrentes de prejuízo material, nesse sentido o Conselho da Justiça Federal aprovou o enunciado nº 159. O Superior Tribunal de Justiça tem entendido de forma reiterada que a mera quebra de um contrato ou o mero descumprimento contratual não gera dano moral. Em síntese, a jurisprudência do STJ tem entendido que o descumprimento do contrato que envolva valores fundamentais protegidos pela CF/1988 pode gerar dano moral presumido ou in re ipsa. Importante ressaltar que, servem como parâmetros para a análise do caso concreto de violação a direitos fundamentais os direitos consagrados pelos artigos 5º ao 7º da CF/1988, que perfazem a concretização da cláusula geral de tutela da pessoa humana (art. 1.º, inc. III, do Texto Maior). Nesse sentido, a V Jornada de Direito Civil, aprovou-se enunciado de nº 411, com seguinte teor: “o descumprimento de um contrato pode gerar dano moral, quando envolver valor fundamental protegido pela Constituição Federal de 1988”. Dando seguimento ao tema, o Superior Tribunal de Justiça sempre entendeu que a simples presença de um corpo estranho, sem o posterior consumo, não geraria a reparação imaterial. Em 2014, surgiu outra tendência no Tribunal da Cidadania, que passou a considerar a reparação de danos imateriais mesmo nos casos em que o produto não é consumido. Inaugurou-se, assim, uma forma de julgar que admite a reparação civil pelo perigo de dano, não mais tratada a hipótese como de mero aborrecimento ou transtorno cotidiano. (TARTUCE, 2021). Vejamos o teor da ementa: “Recurso especial. Direito do consumidor. Ação de compensação por dano moral. Aquisição de garrafa de refrigerante contendo corpo estranho em seu conteúdo. Não ingestão. Exposição do consumidor a risco concreto de lesão à sua saúde e segurança. Fato do produto. Existência de dano moral. Violação do dever de não acarretar riscos ao consumidor. Ofensa ao direito fundamental à alimentação adequada. Artigos analisados: 4.º, 8.º, 12 e 18, CDC, e 2.º, Lei 11.346/2006. 1. Ação de compensação por dano moral, ajuizada em 20.04.2007, da qual foi extraído o presente recurso especial, concluso ao gabinete em 10.06.2013. 2. Discute-se a existência de dano 39 moral na hipótese em que o consumidor adquire garrafa de refrigerante com corpo estranho em seu conteúdo, sem, contudo, ingeri-lo. 3. A aquisição de produto de gênero alimentício contendo em seu interior corpo estranho, expondo o consumidor a risco concreto de lesão à sua saúde e segurança, ainda que não ocorra a ingestão de seu conteúdo, dá direito à compensação por dano moral, dada a ofensa ao direito fundamental à alimentação adequada, corolário do princípio da dignidade da pessoa humana. 4. Hipótese em que se caracteriza defeito do produto (art. 12, CDC), o qual expõe o consumidor a risco concreto de dano à sua saúde e segurança, em clara infringência ao dever legal dirigido ao fornecedor, previsto no art. 8.º do CDC. 5. Recurso especial não provido” (STJ, REsp 1.424.304/SP, 3.ª Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 11.03.2014, DJe 19.05.2014). (STJ, apud TARTUCE, 2021. p. 858). Para Tartuce (2021), trata-se de um caminhar para o reconhecimento da responsabilidade sem dano. 7.2 Danos morais da pessoa jurídica No que se refere ao dano moral da pessoa jurídica, consta a Súmula 227 do Superior Tribunal de Justiça o reconhecimento do dano moral a pessoa jurídica, podendo ser ainda extraído do art. 52 do Código Civil em vigor, pelo qual se aplica à pessoa jurídica, no que couber, o disposto quanto aos direitos da personalidade. Em verdade, o dano moral da pessoa jurídica atinge a sua honra objetiva, que é a repercussão social da honra, sendo certo que uma empresa tem uma reputação perante a coletividade. Não se pode imaginar que o dano moral da pessoa jurídica atinja a sua honra subjetiva, que é a autoestima. Nessa linha, a assertiva n. 10, publicada na Edição n. 125 da ferramenta Jurisprudência em Teses do STJ, do ano de 2019, dedicada à responsabilidade civil e aos danos morais: “a pessoa jurídica pode sofrer dano moral, desde que demonstrada ofensa à sua honra objetiva”. Em síntese, como regra, o dano moral da pessoa jurídica deve ser provado, sendo presumido em algumas situações concretas, como na inscrição indevida do seu nome em cadastro negativo. Porém, ressalte-se que a tese da reparabilidade dos danos morais da pessoa jurídica não é unânime na doutrina nacional. Na IV Jornada de Direito Civil, a comissão da Parte Geral provou o Enunciado nº 286, relativo ao art. 52 do CC, prevendo que “os direitos da personalidade são direitos inerentes e essenciais à pessoa humana, 40 decorrentes de sua dignidade, não sendo as pessoas jurídicas titulares de tais direitos”. O enunciado segue a doutrina, pela qual a pessoa jurídica não pode sofrer danos morais, pois esses constituem lesões à dignidade humana, própria das pessoas naturais. Para essa linha de pensamento, os danos imateriais que atingem a pessoa jurídica seriam danos institucionais. Apesar da polêmica, não há como concordar com o último enunciado doutrinário. Isso porque a pessoa jurídica possui sim alguns direitos da personalidade, tais como direito ao nome, à imagem e à honra objetiva. Em outras palavras, os direitos da personalidade não são exclusivos da pessoa humana. Concluindo, por constituírem os danos morais lesões a esses direitos de personalidade, não se pode negar a reparação a favor das pessoas jurídicas. Reitere-se que como exemplos de hipóteses em que tal dano está presente podem ser citados os casos de abalo de crédito, como na situação em que o nome da pessoa jurídica é inscrito indevidamente em cadastro de inadimplentes. Podem ser mencionadas, ainda, as afirmações difamatórias feitas em órgãos de imprensa, que podem perfeitamente causar danos à imagem de uma empresa. Por fim, vejamos acerca da possibilidade de uma pessoa jurídica de Direito Público pleitear danos morais. O tema já foi objeto de proposta de enunciado doutrinário, não aprovada, quando da V Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em 2011. Imagine, a viabilidade de uma Municipalidade pleitear indenização imaterial de uma pessoa famosa que fez afirmações injuriosas sobre a cidade nos órgãos de imprensa. (TARTUCE, 2021). Isso já foi tema discutido pelo STJ, em ementa publicada no seu Informativo nº 534, vejamos seu conteúdo: “A pessoa jurídica de direito público não tem direito à indenização por danos morais relacionados à violação da honra ou da imagem. A reparação integral do dano moral, a qual transitava de forma hesitante na doutrina e jurisprudência, somente foi acolhida expressamente no ordenamento jurídico brasileiro com a CF/1988, que alçou ao catálogo dos direitos fundamentais aquele relativo à indenização pelo dano moral decorrente de ofensa à honra, imagem, violação da vida privada e intimidade das pessoas (art. 5.º, V e X). Por essa abordagem, no atual cenário constitucional, a indagação sobre a aptidão de alguém de sofrer dano moral passa necessariamente pela investigação da possibilidade teórica de titularização de direitos fundamentais. Ocorre que a inspiração imediata da positivação de direitos fundamentais resulta precipuamente da necessidade de proteção da esfera individual da pessoa humana contra ataques tradicionalmente praticados pelo 41 Estado. Em razão disso, de modo geral, a doutrina e jurisprudência nacionais só têm reconhecido às pessoas jurídicas de direito público direitos fundamentais de caráter processual ou relacionados à proteção constitucional da autonomia, prerrogativas ou competência de entidades e órgãos públicos, ou seja, direitos oponíveis ao próprio Estado, e não ao particular. Porém, em se tratando de direitos fundamentais de natureza material pretensamente oponíveis contra particulares, a jurisprudência do STF nunca referendou a tese de titularização por pessoa jurídica de direito público. Com efeito, o reconhecimento de direitos fundamentais – ou faculdades análogas a eles – a pessoas jurídicas de direito público não pode jamais conduzir à subversão da própria essência desses direitos, que é o feixe de faculdades e garantias exercitáveis principalmente contra o Estado, sob pena de confusão ou de paradoxo consistente em ter, na mesma pessoa, idêntica posição jurídica de titular ativo e passivo, de credor e, a um só tempo, devedor de direitos fundamentais” (STJ, REsp 1.258.389/PB, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 17.12.2013). (STJ, apud TARTUCE, 2021. p. 866). Tartuce (2021) comenta que, de fato, pelos próprios argumentos que constam do julgamento, fica difícil pensar na reparação de danos morais de uma pessoa jurídica de Direito Público. A questão se consolidou de tal forma na Corte Superior que, em 2019, na Edição nº 125 da sua ferramenta Jurisprudência em Teses publicou- se o seguinte: “a pessoa jurídica de direito público não é titular de direito à indenização por dano moral relacionado à ofensa de sua honra ou imagem, porquanto, tratando- se de direito fundamental, seu titular imediato é o particular e o reconhecimento desse direito ao Estado acarreta a subversão da ordem natural dos direitos fundamentais” (tese nº 11). Talvez, além do que consta da última ementa, as melhores soluções para os casos em que as coletividades são atingidas sejam as reparações pelas modalidades dos danos morais coletivos ou dos danos sociais. 7.3 Natureza jurídica da indenização por danos morais Outro ponto importante está no fato de não existir unanimidade a respeito da natureza jurídica da indenização por danos morais, surgindo três correntes doutrinárias e jurisprudenciais relativamente à controvérsia na atualidade: 1.ª Corrente: A indenização por danos morais tem o mero intuito reparatório ou compensatório, sem qualquer caráter disciplinador ou pedagógico. Essa tese encontra-se superada na jurisprudência, pois a indenização deve ser encarada como mais do que uma mera reparação. 42 2.ª Corrente: A indenização tem um caráter punitivo ou disciplinador, tese adotada nos Estados Unidos da América, com o conceito de punitive damages. Essa corrente não vinha sendo bem aceita pela nossa jurisprudência, que identificava perigos na sua aplicação. Entretanto, nos últimos tempos, tem crescido o número de adeptos a essa teoria. 3.ª Corrente: A indenização por dano moral está revestida de um caráter principal reparatório e de um caráter pedagógico ou disciplinador acessório, visando a coibir novas condutas. Mas esse caráter acessório somente existirá se estiver acompanhado do principal. Essa tese ainda tem prevalecido na jurisprudência nacional. Seguindo também a última corrente, é preciso salientar que a reparação deve estar sempre presente, sendo o caráter disciplinador de natureza meramente acessória. Na verdade, existe certa confusão jurisprudencial entre o caráter pedagógico e o punitivo. Em sede doutrinária, a questão não restou clara na IV Jornada de Direito Civil, eis que foi aprovado o Enunciado n. 379 do CJF/STJ, prevendo que “o art. 944, caput, do Código Civil não afasta a possibilidade de se reconhecer a função punitiva ou pedagógica da responsabilidade civil”. A redação assim ficou, pois muitos dos juristas então presentes se declararam adeptos da função punitiva da indenização, o que não é posição pacífica na doutrina. (TARTUCE, 2021). 7.4 Tabelamento e critérios para quantificação dos danos morais Tartuce (2021) filiado à corrente que afirma que qualquer tentativa de tarifação ou tabelamento dos danos morais, mesmo que por lei, é inconstitucional, ainda explica que: Primeiro, por lesão à especialidade, segunda parte da isonomia constitucional (art. 5º, caput, da CF/1988). Segundo, o tabelamento por dano moral viola a cláusula geral de tutela da pessoa humana, retirada do art. 1.º, inc. III, da CF/1988. Devido a proteção da dignidade humana, nem mesmo é recomendável a estipulação de tetos pela legislação infraconstitucional para a referida indenização, o 43 que deve ser tido como incompatível com o Texto Maior. Insta salientar que o próprio STJ através da Súmula 281 declarou que o valor da indenização por dano moral não estaria sujeito à tarifação prevista na Lei de Imprensa. Porém foi declarada sua inconstitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal (cf. Informativo n. 544, do STF, de maio de 2009). No âmbito doutrinário, na VI Jornada de Direito Civil (2013) aprovou-se o enunciado nº 550, que não deixa dúvidas: “a quantificação da reparação por danos extrapatrimoniais não deve estar sujeita a tabelamento ou a valores fixos”. Mediante o exposto, entende a doutrina que os dispositivos da denominada Reforma Trabalhista que objetivam tabelar o dano moral já surgiram eivados de inconstitucionalidade, tratado impropriamente de dano extrapatrimonial, com claro intuito de englobar todos os danos imateriais, em prejuízo do trabalhador e em dissonância com o termo usado pela Constituição e pelo Código Civil. Conforme o art. 223-G, § 1.º, da CLT, introduzido pela Lei 13.467/2017, se julgar procedente o pedido de reparação extrapatrimonial, o juízo do trabalho fixará a indenização a ser paga, a cada um dos ofendidos, em um dos seguintes parâmetros, vedada a acumulação: ofensa de natureza leve, até três vezes o último salário contratual do ofendido; ofensa de natureza média, até cinco vezes o último salário contratual do ofendido; ofensa de natureza grave, até vinte vezes o último salário contratual do ofendido; e ofensa de natureza gravíssima, até cinquenta vezes o último salário contratual do ofendido (art. 223-G, § 1.º, da CLT). Apesar de a lei falar em parâmetros, fica clara a opção do legislador pela tarifação Em complemento, está estabelecido que, se o ofendido for pessoa jurídica, a indenização será fixada com observância desses mesmos parâmetros estabelecidos, mas em relação ao salário contratual do ofensor (art. 223-G, § 2.º, da CLT). Na reincidência entre partes idênticas, o juízo poderá elevar ao dobro o valor da indenização (art. 223-G, § 3.º, da CLT). Tartuce (2021) continua com suas ponderações sobre o tema: acredito que os juízes do trabalho simplesmente não aplicarão essa infeliz tabela, pois distante da nossa realidade jurídica e constitucional. A propósito, quando da II Jornada de Direito Material e Processual do Trabalho, promovida pela ANAMATRA em outubro de 2017, foram aprovados os enunciados aglutinados nº 5, reconhecendo a 44 inconstitucionalidade de todo o art. 223-G da CLT, pelas razões ora desenvolvidas. Além da violação da isonomia, a tarifação adotada está longe da proteção máxima dos trabalhadores, retirada do art. 7.º do Texto Maior. Assim, pensamos que o Tribunal Superior do Trabalho percorrerá o mesmo caminho que fez o Superior Tribunal de Justiça com a Lei de Imprensa, o que culminou com a edição da Súmula 281 do Tribunal da Cidadania Feita tal atualização da obra, tornou-se comum em nosso país a fixação dos danos morais em salários mínimos, diante de parâmetros que constavam da Lei de Imprensa e da Lei de Telecomunicações. O Supremo Tribunal Federal, em 1969, editou a Súmula 490, prevendo que “a pensão correspondente a indenização oriunda de responsabilidade civil deve ser calculada com base no salário mínimo vigente ao tempo da sentença e ajustar-se-á às variações ulteriores”. Produzidos os ensinamentos com base na melhor doutrina e jurisprudência, na fixação da indenização por danos morais, o magistrado deve agir com equidade, analisando: a extensão do dano; as condições socioeconômicas e culturais dos envolvidos; as condições psicológicas das partes; o grau de culpa do agente, de terceiro ou da vítima. Tais critérios podem ser retirados dos arts. 944 e 945 do CC/2002, bem como do entendimento dominante, particularmente do Superior Tribunal de Justiça. Por fim, Tartuce (2021) conclui que fica a dúvida se serão efetivamente aplicados os doze critérios para a quantificação dos danos imateriais, introduzidos pela malfadada Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017), dispositivo influenciado pelo art. 53 da Lei de Imprensa, que teve a sua inconstitucionalidade reconhecida pelo STF. Conforme o novo art. 223-G da CLT, ao apreciar o pedido formulado pelo reclamante da ação de reparação de danos imateriais existentes na relação de trabalho, o juízo considerará: a natureza do bem jurídico tutelado; a intensidade do sofrimento ou da humilhação; a possibilidade de superação física ou psicológica; os reflexos pessoais e sociais da ação ou da omissão; a extensão e a duração dos efeitos da ofensa; as condições em que ocorreu a ofensa ou o prejuízo moral; o grau de dolo ou culpa; a ocorrência de retratação espontânea; o esforço efetivo para minimizar a ofensa; o perdão, tácito ou expresso; a situação social e econômica das partes envolvidas; e o grau de publicidade da ofensa. 45 Ora, qual a razão de se utilizar parâmetros para a quantificação, se a reparação imaterial acabou sendo tabelada? Em reforço, alguns dos parâmetros introduzidos pela Reforma Trabalhista são prejudiciais aos empregados, vítimas do evento danoso, como o perdão tácito, a análise de sua situação econômica e a publicidade da ofensa. Também não faz sentido a menção ao grau de dolo, pois apenas a culpa se gradua. De toda forma, pensamos que o tratamento da responsabilidade civil constante da nova lei é, no todo, um grande desastre técnico. 46 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponível em: . BRASIL. LEI Nº 10.406, DE 10 DE JANEIRO DE 2002. Disponível em: GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil: obrigações – contratos – parte geral – v. 1 / Carlos Roberto Gonçalves coord. Pedro Lenza. – 11. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2021. (Coleção Esquematizado®) e-book Bibliografia 1. Obrigações (Direito) - Brasil. I. Título. II. Lenza, Pedro. STOLZE, Pablo; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Manual de direito civil – volume único / Pablo Stolze; Rodolfo Pamplona Filho. – 4. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. TARTUCE, Flávio Manual de Direito Civil: volume único / Flávio Tartuce. – 11. ed. – Rio de Janeiro, Forense; METODO, 2021 TEPEDINO, Gustavo. Fundamentos do direito civil: responsabilidade civil / Gustavo Tepedino, Aline de Miranda Valverde Terra, Gisela Sampaio da Cruz Guedes – 2. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2021. TRUGILHO, Diogo Lima. A história da reparabilidade do dano moral: de Freitas a Bevilaqua, 1 ed. / Diogo Lima Trugilho. - Belo Horizonte: Initia Via, 2015. inerentes a responsabilidade extracontratual: o ato ilícito e o abuso de direito. Essa inovação se faz importante, pois o Código Civil de 1916 a amparava somente no ato ilícito. Pode-se observar que a responsabilidade civil prevista no Código Civil anterior (1916) era baseada no conceito único de ato ilícito (art. 159). Nesse caso, havia uma única pilastra a sustentar a construção. Por outro lado, a responsabilidade civil, no Código Civil de 2002, é baseada em dois conceitos: o de ato ilícito (art. 186) e o de abuso de direito (art. 187). Importante ressaltar que, a modificação estrutural da matéria de antijuridicidade civil no estudo comparativo das codificações privadas brasileiras também atinge a responsabilidade contratual, pois a aplicação do art. 187 do CC/2002 pode e deve ocorrer em sede de autonomia privada. Trata-se aqui de um dispositivo unificador do sistema de responsabilidade civil, que supera a dicotomia responsabilidade contratual x extracontratual. (TARTUCE, 2021). Seguimos agora com uma análise das categorias de ato ilícito e abuso de direito. O ato ilícito trata-se de um ato que é praticado em desacordo com a ordem jurídica, violando direitos e causando prejuízos a outrem. A norma jurídica cria o dever de reparar o dano caso ocorram esses atos, tornando o ato ilícito fonte do direito obrigacional. Considerado como fato jurídico em sentido amplo, o ato ilícito produz efeitos jurídicos (somente impostos pela lei) que não são desejados pelo agente. O ato ilícito pode ser civil, penal ou administrativo. É fundamental a observância de casos em que a conduta ofende a sociedade (ilícito penal) e o particular (ilícito civil), acarretando dupla responsabilidade. Como por exemplo a ocorrência de um acidente de trânsito pode haver um crime e o dever de indenizar. Mas, prevista no art. 935 do CC como regra geral, a responsabilidade civil independe da criminal. A responsabilidade também pode ser tripla, atingindo a esfera administrativa, como ocorre caso a conduta que cause danos ao meio ambiente, sendo-lhe aplicadas as sanções administrativas, civis e criminais previstas nas Leis 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente) e 9.605/1998 (Crimes Ambientais). 10 Afirma-se que o ato ilícito indenizante, é a conduta humana que fere direitos subjetivos privados, estando em desacordo com a ordem jurídica e causando danos a alguém. (TARTUCE, 2021). O art. 186 do Código Civil em vigência, possui a seguinte redação: “Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. Tartuce (2021) explica que de acordo com a redação atual do art. 186 do CC, o ato ilícito civil relacionado ao dever de indenizar constitui uma soma entre lesão de direitos e dano causado, sendo assim, Ato ilícito = Lesão de direitos + dano. Nessa norma pode-se observar duas importantes diferenças em relação ao art. 159 do Código Civil anterior (1916): “Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano. A verificação da culpa e a avaliação da responsabilidade regulam-se pelo disposto neste Código, artigos 1.518 a 1.532 e 1.537 a 1.553”. A primeira e a mais importante diferença é que o dispositivo anterior utilizava a expressão ou em vez de e, que consta da atual legislação, admitindo o ato ilícito por mera lesão de direitos. Isso não é mais possível. Sendo assim, o dano constitui elemento fundamental para o ato ilícito civil e para o correspondente dever de reparar (art. 927, caput, do CC/2002). A segunda diferença é que a disposição atual permite a reparação do dano moral puro, sem repercussão patrimonial (“dano exclusivamente moral”). Tal reparação já era admitida pela Constituição Federal, no seu art. 5.º, incs. V e X. Como consequência do ato ilícito surge a obrigação de indenizar, de reparar o dano. Seguindo paralelamente com o primeiro conceito de antijuridicidade, o art. 187 do CC traz uma nova dimensão de ilícito, consagrando a teoria do abuso de direito como ato ilícito. A definição de ato ilícito é ampliada nesse caso com vistas a considerar como precursor da responsabilidade civil aquele ato praticado em exercício irregular de direitos, constituindo ato originariamente lícito, pois houve exercício além 11 dos limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé objetiva ou pelos bons costumes. Vejamos a redação do artigo em comento: “Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico e social, pela boa- fé ou pelos bons costumes” Tartuce (2021) segue comentando que esse dispositivo está revolucionando a visualização da responsabilidade civil, trazendo nova modalidade de ilícito, precursora do dever de indenizar. Através da análise do art. 187 do Código Civil atual, A definição de abuso de direito se baseia em quatro conceitos legais indeterminados, cláusulas gerais que devem ser preenchidas pelo juiz caso a caso: fim social; fim econômico; boa-fé; bons costumes. O conceito de abuso de direito é, aberto e dinâmico, estando em consonância com a concepção tridimensional de Miguel Reale, pela qual o Direito é fato, valor e norma. O juiz da causa, deverá ter plena consciência do aspecto social que circunda a lide, para que a aplicação da lei ocorra em conformidade com a sua carga valorativa. Mais do que nunca, com o surgimento e o acatamento do abuso de direito como ato ilícito pelo atual Código Civil, terá força a tese pela qual a atividade do julgador é, sobretudo, ideológica. O conceito de abuso de direito se mantém intimamente relacionado com o princípio da socialidade, em vigor na atual legislação, porque o art. 187 do CC trata do fim social do instituto jurídico violado. O termo bons costumes deve ter sua análise produzida de forma sociológica e temporal. A V Jornada de Direito Civil, seguindo essa linha de raciocínio, aprovou o enunciado nº 413 com o seguinte teor: “os bons costumes previstos no art. 187 do CC possuem natureza subjetiva, destinada ao controle da moralidade social de determinada época; e objetiva, para permitir a sindicância da violação dos negócios jurídicos em questões não abrangidas pela função social e pela boa-fé objetiva”. O abuso de direito também possui interação com o princípio da eticidade, visto que Código Civil prevê as consequências do ato ilícito para a pessoa que age em desrespeito à boa-fé, aqui prevista a boa-fé de natureza objetiva, sua relação encontra-se vinculada com a conduta leal, proba e integradora das relações negociais. A função de controle exercida pela boa-fé objetiva está consagrada no art. 187 do CC, 12 inserindo a presença do abuso de direito na esfera contratual, ou seja, na autonomia privada. O abuso de direito se conceitua como um ato jurídico de objeto lícito, mas cujo exercício, levado a efeito sem a devida regularidade, acarreta um resultado que se considera ilícito. Conclui-se que o abuso de direito é um ato lícito pelo conteúdo, ilícito pelas consequências, caracterizando assim sua natureza jurídica mista – entre o ato jurídico e o ato ilícito. A ilicitude do abuso de direito encontra-se presente na forma de execução do ato, assim é possível concluir que a diferença em relação ao ato ilícito tido como puro reside no fato de que o último é ilícito no todo, quanto ao conteúdo e quanto às consequências. O enunciado nº 539, da VI Jornada de Direito Civil, trata que “o abuso de direito é uma categoria jurídica autônoma em relação à responsabilidade civil. Por isso, o exercício abusivo de posições jurídicas desafia controle independentemente de dano”. De fato, cabem, medidas preventivas em caso de presença do abuso de direito, independentemente da presença do dano. Contudo, para que o abuso de direito seja analisado, o dano deve estar presente, conforme consta o art. 927, caput, do CC, que exige o elemento objetivo do prejuízo para que surja a consequente responsabilidade civil do agente. O abuso de direito se caracteriza, conforme seu atual diploma legal quando determinada conduta seja praticada por pessoa que exceda um direito que possui, atuando em exercício irregular de direito. Conforme disposto, não há que se cogitar o elemento culpa na sua configuração, bastando que a conduta exceda os parâmetros que constam do art. 187 do CC. Portanto, de acordo com o entendimento majoritário da doutrina nacional, presente o abuso de direito, a responsabilidade é objetiva, ou independentemente de culpa. Nesse sentido, os juristas que integraram a I Jornada de Direito Civil organizada pelo Conselho da Justiça Federal, aprovaram o Enunciado nº 37 e que tem a seguinte redação: “Art. 187. A responsabilidade civil decorrente do abuso do direito independe de culpa, e fundamenta-se somente no critério objetivo finalístico”. A V Jornada de Direito Civil, concluiu que o abuso de direito tem fundamento constitucional nos princípios da solidariedade, devido processo legal e proteção da 13 confiança, aplicando-se a todos os ramos do direito (Enunciado n. 414). (TARTUCE, 2021). 3 RESPONSABILIDADE CIVIL E RESPONSABILIDADE PENAL Gonçalves (2021) aduz que a palavra “responsabilidade” possui origem advinda do latim respondere, sendo suas referências inerentes a ideia de segurança ou garantia da restituição ou compensação do bem sacrificado. Possuindo o significado de recomposição, de obrigação de restituir ou ressarcir. A ilicitude é chamada de civil ou penal tendo em vista exclusivamente a norma jurídica que impõe o dever violado pelo agente. O doutrinador sintetiza os principais pontos de distinções: Na responsabilidade penal, o agente infringe uma norma penal de direito público. O interesse lesado é o da sociedade. É pessoal, intransferível. Responde o réu com a privação de sua liberdade, em regra. É pessoal também em outro sentido: a pena não pode ultrapassar a pessoa do delinquente. A tipicidade é um de seus requisitos genéricos. Embora a culpa civil e a culpa penal tenham os mesmos elementos, exige -se, para a condenação criminal, que tenha certo grau ou intensidade. Somente os maiores de 18 anos são responsáveis criminalmente. Já na responsabilidade civil, o interesse diretamente lesado é o privado. O prejudicado poderá pleitear ou não a reparação. Se, ao causar dano, transgride também a lei penal, torna -se, ao mesmo tempo, obrigado civil e penalmente. É patrimonial: é o patrimônio do devedor que responde por suas obrigações. Ninguém pode ser preso por dívida civil, exceto o devedor de pensão alimentícia do direito de família. No cível há várias hipóteses de responsabilidade por ato de outrem (CC, art. 932, p. ex.). Qualquer ação ou omissão pode acarretá-la, desde que viole direito e cause prejuízo a outrem (CC, arts. 186 e 927). 14 A culpa, ainda que levíssima, obriga a indenizar (in lege Aquilia et levissima culpa venit). O menor de 18 anos responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não dispuserem de meios suficientes (CC, art. 928, caput e parágrafo único). 4 RESPONSABILIDADE SUBJETIVA E RESPONSABILIDADE OBJETIVA Responsabilidade subjetiva se trata de uma teoria clássica, conhecida também como teoria da culpa ou subjetiva, essa teoria parte do pressuposto da culpa como fundamento da responsabilidade civil. Sem culpa não há responsabilidade. Diz-se, pois, ser subjetiva a responsabilidade quando esta se ampara na ideia de culpa. A prova da culpa (em sentido lato, abrangendo o dolo ou a culpa em sentido estrito) passa a ser pressuposto necessário do dano indenizável. Já a responsabilidade objetiva é uma teoria que se trata de a lei impor a certas pessoas, em determinadas situações, a reparação de um dano cometido sem culpa. Na ocorrência dessas situações a responsabilidade é legal ou objetiva, pois prescinde da culpa e se satisfaz apenas com o dano e o nexo de causalidade. Também conhecida como objetiva ou do risco, essa teoria tem como postulado que todo dano é indenizável e deve ser reparado por quem a ele se liga por um nexo de causalidade, independentemente de culpa. Nas hipóteses de responsabilidade objetiva, não se faz necessária a exigência de comprovação da culpa do agente como requisito para obriga-lo a reparar o dano. Ela é de todo prescindível (responsabilidade independente de culpa). A teoria do risco busca justificar a responsabilidade objetiva, nela, qualquer pessoa que exerça alguma atividade cria um risco de dano para terceiros e deve ser obrigada a repará-lo mesmo que sua conduta seja isenta de culpa. A responsabilidade civil desloca-se da noção de culpa para a ideia de risco, ora encarada como “risco- proveito”, que se funda no princípio de que é reparável o dano causado a outrem em consequência de uma atividade realizada em benefício do responsável (ubi emolumentum, ibi onus, isto é, quem aufere os cômodos (lucros) deve suportar os incômodos ou riscos); ora mais genericamente como “risco criado”, a que se subordina 15 todo aquele que, sem indagação de culpa, expuser alguém a suportá-lo, em razão de uma atividade perigosa; ora, ainda, como “risco profissional”, decorrente da atividade ou profissão do lesado, como ocorre nos acidentes de trabalho. O Código Civil de 2002 filiou-se à teoria subjetiva. É o que se pode verificar no art. 186, que erigiu o dolo e a culpa como fundamentos para a obrigação de reparar o dano. A responsabilidade subjetiva subsiste como regra necessária, sem prejuízo da adoção da responsabilidade objetiva independentemente de culpa em dispositivos vários e esparsos, como, por exemplo, no art. 933, que trata da responsabilidade por ato de outrem, e no parágrafo único do art. 927, segundo o qual haverá obrigação de indenizar o dano, “independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem”. (GONÇALVES, 2021). 5 ELEMENTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL É correto afirmar juridicamente que a responsabilidade pressupõe a atividade danosa de alguém que, atuando a priori ilicitamente, viola uma norma jurídica preexistente (legal ou contratual), subordinando-se, dessa forma, às consequências do seu ato (obrigação de reparar). A responsabilidade civil advém do dano a um interesse eminentemente particular, estando assim, o infrator sujeito ao pagamento de uma compensação pecuniária à vítima, caso não possa repor in natura o estado anterior de coisas. A responsabilidade civil é composta pelos seguintes elementos: conduta (positiva ou negativa); dano; nexo de causalidade. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). 5.1 Conduta humana A responsabilidade civil constitui em uma expressão obrigacional mais visível da atividade humana. 16 Um fato da natureza, diferentemente, pertencente a uma categoria maior e mais abrangente — de fato jurídico em sentido lato —, a despeito de poder causar dano, não geraria responsabilidade civil, por não poder ser atribuído ao homem. Seguindo a lógica, caberá a responsabilização civil apenas ao homem, por si ou através das pessoas jurídicas que forma. É de fácil entendimento que constitui pressuposto para que se ocorra a responsabilidade civil, a ação (ou omissão) humana voluntária. Trata-se, da conduta humana (positiva ou negativa), guiada pela vontade do agente, que causa o dano ou prejuízo. O núcleo fundamental, portanto, da noção de conduta humana é a voluntariedade, que resulta exatamente da liberdade de escolha do agente imputável, com discernimento necessário para ter consciência daquilo que faz. Por isso, não se pode reconhecer o elemento “conduta humana”, pela ausência do elemento da vontade, não haverá ação voluntária quando faltar domínio da vontade humana, (por exemplo: quando o indivíduo age impelido por forças naturais invencíveis, pessoa ou veículo irresistivelmente projetados por força do vento). Conclui-se que não havendo a voluntariedade não há que se falar em ação humana, e, consequentemente, em responsabilidade civil. Insta salientar, que a voluntariedade da conduta humana ou ação voluntária, elemento essencial da responsabilidade civil, não se define necessariamente como a intenção de causar o dano, mas sim, e tão somente, a consciência daquilo que se está fazendo. E tal ocorre não apenas quando estamos diante de uma situação de responsabilidade subjetiva (calcada na noção de culpa), mas também de responsabilidade objetiva (calcada na ideia de risco), porque em ambas as hipóteses o agente causador do dano deve agir voluntariamente, ou seja, de acordo com a sua livre capacidade de autodeterminação. Com relação a consciência é entendida como o conhecimento dos atos materiais que se está praticando, não se exigindo, necessariamente, a consciência subjetiva da ilicitude do ato. Um exemplo, os pais responsáveis pelos danos causados pelo seu filho menor de 16 anos, que tenha quebrado uma vidraça ao chutar uma bola, a incapacidade absoluta da criança, e sua eventual falta de consciência da ilicitude do ato não 17 excluem a responsabilidade civil, o que poderia ocorrer, todavia, se fosse provado que, embora estivessem na área, a bola teria se deslocado por uma repentina rajada de vento. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). Seguimos com a classificação da manifestação da ação humana voluntária, podendo ser positiva; negativa. A ação humana positiva se define pela prática de um comportamento ativo, positivo, por exemplo, uma pessoa que ao dirigir embriagada causa o dano arremessando o seu veículo contra o muro do vizinho. A ação humana negativa, se trata de uma atuação omissiva ou negativa, geradora de dano. No plano físico, a omissão é entendida como um, um “não fazer”, uma “simples abstenção”, dando seguimento, no plano jurídico, essa omissão pode gerar dano atribuível a pessoa que teve essa conduta omissiva, sendo assim, caberá a responsabilização por ele. O art. 186 atribui a obrigação de indenizar a todos que causem prejuízo a outrem “por ação ou omissão voluntária”. Por exemplo uma enfermeira que deixa de ministrar os medicamentos ao seu patrão, por dolo ou desídia, violando as suas regras de profissão. Entretanto, devemos destacar que também na ação omissiva a voluntariedade da conduta se faz presente, consoante se lê no mesmo artigo de lei (“omissão voluntária”...). Isso porque, se faltar este requisito, haverá ausência de conduta na omissão, inviabilizando, por conseguinte, o reconhecimento da responsabilidade civil. Nas omissões, por vezes, a pessoa não pratica a ação devida por causa de uma incapacidade de conduta: é o caso de quem se acha em meio a uma crise de histeria e não pode gritar para uma pessoa cega que está caminhando para um precipício; daquele que fica paralisado em razão de um choque emocional num acidente e não pode prestar socorro às pessoas etc. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). Stolze; Pamplona (2020) destaca que o atual Código Civil pátrio, disciplina a responsabilidade civil por ato próprio, mas também reconhece espécies de responsabilidade civil indireta, por ato de terceiro ou por fato do animal e da coisa. Nestes casos, poder-se-ia argumentar que inexistiria a conduta voluntária do pretenso responsabilizado. Ledo engano, uma vez que, em tais situações, ocorreriam omissões ligadas a deveres jurídicos de custódia, vigilância ou má eleição de representantes, cuja 18 responsabilização é imposta por norma legal. Vejamos a redação em nosso código civil acerca da responsabilidade civil indireta: Responsabilidade civil por ato de terceiro: “Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil: I — os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; II — o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições; III — o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; IV — os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos; V — os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia”. Responsabilidade civil por fato do animal: “Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior”. Responsabilidade civil por fato da coisa: “Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja necessidade fosse manifesta”. “Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido”. (BRASIL, 2002. Apud STOLZE; PAMPLONA. 2020. p. 1372). Dando seguimento aos estudos, agora sobre a conduta humana e a ilicitude, é comum a ilicitude ser apontada pela doutrina como um aspecto necessário da ação humana voluntária. O ato de vontade, no campo da responsabilidade deve se pautar da ilicitude. Na ilicitude há, geralmente, uma cadeia de atos ilícitos, uma conduta culposa. Raramente, a ilicitude ocorrerá com um único ato. O ato ilícito traduz-se em um comportamento voluntário que transgride um dever. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). Nesse sentido a doutrina segue: “Do conceito de ato ilícito, fundamento da reparação do dano, tal como enunciado no art. 159 do Código Civil, e como vem reproduzido no art. 186 do Projeto n. 634-B de 1975, pode-se enunciar a noção fundamental da responsabilidade civil, em termos consagrados, mutatis mutandis, na generalidade dos civilistas: obrigação de reparar o dano, imposta a todo aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito ou causar dano a outrem”. (CAIO MÁRIO, 2000, p. 35. Apud STOLZE; PAMPLONA. 2020. p. 1374). 19 Visto que a responsabilidade civil transmite a intenção de atribuição das consequências danosas da conduta ao agente infrator, é lógico entender que se faz necessário a atuação lesiva contrária ao direito, ilícita ou antijurídica, para que possa haver a imposição do dever de indenizar. Tendo em vista a antijuridicidade, como regra geral, acompanha a ação humana desencadeadora da responsabilidade, entende-se que a imposição do dever de indenizar poderá existir mesmo quando o sujeito atua licitamente. Diante o exposto, pode-se afirmar que poderá haver responsabilidade civil mesmo na falta de antijuridicidade, mesmo que excepcionalmente, por força de norma legal. Por isso não se pode dizer que a ilicitude acompanha necessariamente a ação humana danosa ensejadora da responsabilização. (STOLZE; PAMPLONA. 2020) Vejamos a redação dos arts. 188, II, e 929 e 930 do atual Código Civil, que adentram ao campo da responsabilidade civil: Art. 188. Não constituem atos ilícitos: I — os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido; II — a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente. Parágrafo único. No caso do inciso II, o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. 188, inciso I). (BRASIL, 2002) Stolze; Pamplona (2020) comenta que a lei traz uma excludente de ilicitude — ou seja, para todos os efeitos, o ato é lícito! — Mas reconhece, mesmo assim, o dever de indenizar. Insta salientar que, como regra geral, porém não absoluta, a antijuridicidade acompanha a ação humana causadora do dano reparável, porém, por se tratar de uma situação excepcional, a responsabilização civil por ato lícito depende sempre de norma legal que a preveja. 20 Por fim, também se faz importante abordar a diferenciação que alguns autores fazem entre o ato ilícito e ato ilegal. Neste último, que não repercutiria na responsabilidade civil, não haveria propriamente uma violação a um interesse jurídico tutelado, mas sim a ausência da realização de condições indispensáveis para a tutela jurídica de um interesse próprio. Seria o caso do ato nulo ou anulável, carecedores dos requisitos necessários para a sua validade. A despeito do interesse teórico do tema, a distinção não é tão significativa, havendo, inclusive, diplomas que a ignoram, considerando os atos nulos e anuláveis — exemplos clássicos de “atos ilegais” — simplesmente atos ilícitos. 5.2 Dano Mais adiante o dano será tratado com maior ênfase, no momento basta entender que o dano é um dos elementos da responsabilidade civil e uma breve conceituação para se abordar sobre o nexo causal em seguida. Tepedino (2021) explica que no campo da responsabilidade civil, o dano apresenta-se como elemento central, sem o qual não se configura o dever de indenizar. A noção jurídica de dano ressarcível, entretanto, nunca coincidiu – nem mesmo poderá coincidir, por ser muito mais restrita – com a acepção corrente ou comum da palavra “dano”, que compreende qualquer forma de modificação pejorativa. Afinal, para o Direito, nem todo dano é ressarcível; nem todo dano é, por assim dizer, injusto. O dano é pautado na ideia de redução do patrimônio, fundada na chamada Teoria da Diferença, essa teoria afirma o dano ser o resultado da diferença entre a situação do lesado antes do evento danoso e aquela que se verifica após a sua ocorrência. Porém essa teoria sofre graves críticas da doutrina pois não é suficiente para explicar todas as categorias de dano, nem mesmo se presta a indicar qual é o dano considerado indenizável pelo ordenamento jurídico. Mais recentemente, esta ideia foi ultrapassada pela noção normativa de dano, pela qual dano é a lesão a qualquer interesse jurídico digno de tutela. O dano passa a ser, então, dimensionado segundo o legítimo interesse daquele que sofreu a 21 repercussão no bem jurídico lesado – interesse este estabelecido nos limites da imputação. O vocábulo dano, nos casos em geral, pode aplicado em duas formas: dano tanto pode significar a lesão, quer de ordem material, quer de ordem moral, como também a consequência jurídica desta lesão. Quando se afirma que uma pessoa sofre um dano, é comum que esteja referindo à lesão, essa pode gerar efeitos patrimoniais ou extrapatrimoniais, conforme o caso. Mas quando se afirma, em complementação, que o dano que a pessoa sofreu é de tal monta, e que este quantum deve ser reparado pelo agente que o causou, faz-se referência ao dano como consequência jurídica (já no plano da reparação). Ambos significados são relevantes porque o Direito se preocupa não só com a atribuição da responsabilidade (quem responde), mas também com a definição das verbas indenizatórias (com quanto responde). Ademais, o progressivo desenvolvimento do Direito Civil e, consequentemente, de um novo panorama metodológico, passou-se a sustentar a inconformidade de a reparação civil estar restrita às hipóteses de violação de modelos legais pré- determinados, deflagrando-se o dever de indenizar da injustiça do dano. Amplia-se, portanto, o conceito de dano ressarcível, que passa a ser todo dano injusto. E essa ampliação ocorre a partir de dois vetores legislativos: a culpa normativa5 e a expansão de hipóteses de responsabilidade objetiva. Além do dano injusto, o ordenamento prevê a figura do abuso do Direito e também reconhece que há situações lícitas que perdem proteção na colisão com outra situação jurídica prevalente no caso concreto. Nesses casos – tanto no de abuso, quanto no de não merecimento de tutela –, poderá não haver propriamente dano injusto, afastando-se a responsabilidade civil, e ainda assim haver antijuridicidade a ser simplesmente apartada. 5.3 Nexo causal Após abordagem sobre os elementos da responsabilidade civil, a conduta humana e o dano, agora será tratado acerca do nexo de causalidade. Também constituindo essencial condição à responsabilidade civil, o nexo causal entre o fato ilícito e o dano por ele produzido, se refere a noção de causa é 22 uma noção que se reveste de um aspecto profundamente filosófico, além das dificuldades de ordem prática, quando os elementos causais, os fatores de produção de um prejuízo, se multiplicam no tempo e no espaço. Assim como no Direito Penal, a investigação deste nexo que liga o resultado danoso ao agente infrator é indispensável para que se possa concluir pela responsabilidade jurídica deste último. Trata-se, pois, do elo etiológico, do liame, que une a conduta do agente (positiva ou negativa) ao dano. Por óbvio, somente se poderá responsabilizar alguém cujo comportamento houvesse dado causa ao prejuízo. Lamentavelmente, entretanto, esta matéria é muito mal compreendida — talvez por ser mal explicada — gerando dúvidas e, frequentemente, levando os tribunais a adotarem posicionamentos confusos em torno do mesmo objeto de investigação, o que só acarreta prejuízo à segurança jurídica e descrédito ao Poder Judiciário. Fundamentalmente, são três as principais teorias que tentam explicar o nexo de causalidade: teoria da equivalência de condições; a teoria da causalidade adequada; a teoria da causalidade direta ou imediata (interrupção do nexo causal). (STOLZE; PAMPLONA. 2020). 5.3.1 Teoria da equivalência das condições (conditio sine qua non) Surgindo na segunda metade do século XIX, esta teoria não apresenta diferenças entre os antecedentes do resultado danoso, de forma que tudo aquilo que concorra para o evento será considerado causa. O nome pelo qual é conhecida “equivalência de condições” advém devido, todos os fatores causais se equivalerem, caso tenham relação com o resultado. Essa teoria em sua essência, sustenta que, havendo culpa, todos os elementos que, de alguma forma concorreram para a sua realização, são considerados como causas, sem a necessidade de determinar, no encadeamento dos fatos que antecederam o evento danoso, qual deles pode ser apontado como o que de modo imediato provocou a efetivação do prejuízo. É considerado de forma ampla todo o elemento causal que tenha de certa forma constituído a cadeia de fatos que ocasionou o dano. 23 Essa teoria segundo a interpretação doutrinária é adotada pelo Código Penal brasileiro, em seu art. 13, caput: “Art. 13. O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se a causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido”. Na última parte do dispositivo, pode-se extrair uma fórmula de eliminação hipotética, segundo a qual causa seria todo o antecedente que, se eliminado, faria com que o resultado desaparecesse. Um exemplo seria um indivíduo que embriagado, arremessa uma garrafa contra um transeunte, causando-lhe a morte. Se for retirada a conduta antecedente (arremesso da garrafa), a morte desaparecerá. Vejamos o exemplo de forma mais sucinta: Arremesso da garrafa = Causa → Morte = Resultado. Porém essa teoria possui um problema, pois ao considerar causa todo o antecedente que contribua para o desfecho danoso, seguindo esse raciocínio a investigação poderia ser prolongada de forma excessivamente extensa. A inconveniência desta teoria, é fundamentada na imensa ampliação, em infinita espiral de concausas, do dever de reparar, imputado a um sem-número de agentes. Seguindo esse raciocínio, se o agente saca a arma e dispara o projétil, matando o seu desafeto, não apenas o disparo seria causa, podendo ser estendido a compra da arma, a sua fabricação, a aquisição do ferro e da pólvora pela indústria, entre outros. Isso causaria em um número ilimitado de agentes na situação de ilicitude. A despeito de tudo isso, grande parte dos penalistas adotou-a, sustentando que a análise do dolo ou da culpa do infrator poderia limitá-la, vale dizer, os agentes que apenas de forma indireta interferiram na cadeia causal por não terem a necessária previsibilidade (dolo ou culpa) da ocorrência do dano, não poderiam ser responsabilizados. O fabricante da arma, por exemplo, ao produzi-la, não poderia imaginar a utilização criminosa do seu produto... Em virtude, talvez, de todos esses inconvenientes e imprecisões, a maior parte dos cultores contemporâneos do Direito Civil não abraçou tal teoria. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). 24 5.3.2 Teoria da causalidade adequada Esta teoria, é mais bem trabalhada que a anterior, por não apresentar algumas de suas inconveniências. Para os adeptos desta teoria, não se poderia considerar causa toda e qualquer condição que haja contribuído para a efetivação do resultado, conforme sustentado pela teoria da equivalência, mas sim, segundo um juízo de probabilidade, apenas o antecedente abstratamente idôneo à produção do efeito danoso, ou, causa, para ela, é o antecedente, não só necessário, mas, também adequado à produção do resultado. Sendo assim, nem todas as condições serão causa, será considerada apenas aquela que for mais apropriada para produzir o evento. Para se considerar uma causa “adequada”, esta deverá, abstratamente, e segundo uma apreciação probabilística, ser apta à efetivação do resultado. Como o exemplo anteriormente elencado sobre do disparo por arma de fogo, a compra da arma e a sua fabricação não seriam “causas adequadas” para a efetivação do evento morte. O principal ponto para que se entenda de forma correta e objetiva esta teoria consiste no fato de que somente o antecedente abstratamente apto à determinação do resultado, segundo um juízo razoável de probabilidade, em que conta a experiência do julgador, poderá ser considerado causa. Se a teoria anterior peca por excesso, admitindo uma ilimitada investigação da cadeia causal, esta outra, a despeito de mais restrita, apresenta o inconveniente de admitir um acentuado grau de discricionariedade do julgador, a quem incumbe avaliar, no plano abstrato, e segundo o curso normal das coisas, se o fato ocorrido no caso concreto pode ser considerado, realmente, causa do resultado danoso. Ademais, esta “abstração” característica da investigação do nexo causal segundo a teoria da causalidade adequada pode conduzir a um afastamento absurdo da situação concreta, posta ao acertamento judicial. Conforme bem advertiu FREITAS GOMES, citando DE PAGE, “a determinação do nexo causal é, antes do mais, uma ‘quaestio facti’, incumbindo ao juiz proceder ‘cum arbitrio boni viri’, sopesando cada caso na balança do equilíbrio e da equidade”. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). 25 5.3.3 Teoria da causalidade direta ou imediata Também conhecida como teoria da interrupção do nexo causal ou teoria da causalidade necessária, menos radical do que as anteriores, foi desenvolvida, no Brasil, por AGOSTINHO ALVIM, em sua clássica obra Da Inexecução das Obrigações e suas Consequências. Para essa teoria a causa seria apenas o antecedente fático que, ligado por um vínculo de necessariedade ao resultado danoso, determinasse este último como uma consequência sua, direta e imediata. Essa corrente está efetivamente de acordo com as fontes históricas da teoria do dano. Suposto certo dano, considera-se causa dele a que lhe é próxima ou remota, mas, com relação a esta última, é necessário que ela se ligue ao dano, diretamente. Mediante isso afirma-se que é indenizável todo dano que se filia a uma causa, ainda que remota, desde que ela lhe seja causa necessária, por não existir outra que explique o mesmo dano. Quer a lei que o dano seja o efeito direto e imediato da execução. Vejamos um clássico exemplo doutrinário, para melhor visualização do conteúdo tratado. Caio é ferido por Tício (lesão corporal), em uma discussão após a final do campeonato de futebol. Caio, então, é socorrido por seu amigo Pedro, que dirige, velozmente, para o hospital da cidade. No trajeto, o veículo capota e Caio falece. Ora, pela morte da vítima, apenas poderá responder Pedro se não for reconhecida alguma excludente em seu favor. Tício, por sua vez, não responderia pelo evento fatídico, uma vez que o seu comportamento determinou, como efeito direto e imediato, apenas a lesão corporal. Note-se, portanto, que a interrupção do nexo causal por uma causa superveniente, ainda que relativamente independente da cadeia dos acontecimentos (capotagem do veículo) impede que se estabeleça o elo entre o resultado morte e o primeiro agente Tício, que não poderá ser responsabilizado. (STOLZE; PAMPLONA. 2020) Com base no que foi apresentado o autor conclui que “a causa relativamente independente é aquela que, em apertada síntese, torna remoto o nexo de causalidade 26 anterior, importando aqui não a distância temporal entre a causa originária e o efeito, mas sim o novo vínculo de necessariedade estabelecido, entre a causa superveniente e o resultado danoso. A causa anterior deixou de ser considerada, menos por ser remota e mais pela interposição de outra causa, responsável pela produção do efeito, estabelecendo-se outro nexo de causalidade”. (TEPEDINO. Apud STOLZE; PAMPLONA. 2020. p.1423) Stolze; Pamplona (2020) explica que o fato de se considerar “reflexo” ou “indireto” o dano não significa dizer que não haverá responsabilidade civil. O objetivo é caracterizar aquela espécie de dano que, tendo existência certa e determinada, atinge pessoas próximas à vitima direta. Este dano, para a pessoa que o sofreu reflexamente (o alimentando que teve o pai morto, por exemplo), é efeito direto e imediato do ato ilícito. O que não podemos confundir é este dano reflexo — consequência inafastável do ilícito — com aquele que não se liga diretamente (por necessariedade) à conduta do agente. 5.3.4 Teoria adotada pelo código civil brasileiro No que se refere ao nexo de causalidade e a teoria adotada pelo Código Civil brasileiro, há uma imprecisão doutrinária. Parte da doutrina, tende a acolher a teoria da causalidade adequada, pois esses doutrinadores julgam se tratar de uma teoria mais satisfatória para a responsabilidade civil. Porém a parte majoritária entende que o Código Civil brasileiro adotou a teoria da causalidade direta ou imediata (teoria da interrupção do nexo causal), na vertente da causalidade necessária. Essa afirmativa é feita a partir da análise do art. 403 do Código Civil de 2002, que dispõe: “Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes, por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual”. CARLOS ROBERTO GONÇALVES, seguindo a mesma linha de pensamento, é contundente ao afirmar que “das várias teorias sobre o nexo causal, o nosso Código 27 adotou, indiscutivelmente, a do dano direto e imediato, como está expresso no art. 403; e das várias escolas que explicam o dano direto e imediato, a mais autorizada é a que se reporta à consequência necessária”. O problema é que, muitas vezes, a jurisprudência e a doutrina, sucumbindo talvez ao caráter sedutoramente empírico do tema, acabam por confundir ambas as teorias, não dispensando, entretanto, em nenhuma hipótese, a investigação da necessariedade da causa. Demonstrando tal assertiva, TEPEDINO, após colacionar jurisprudência do TJRJ, em que se lê a identificação das teorias: “e de acordo com a teoria da causa adequada adotada em sede de responsabilidade civil, também chamada de causa direta ou imediata” (Ac. 1995.001.271), conclui, acertadamente: “Por todas essas circunstâncias, pode-se considerar como prevalentes, no direito brasileiro, as posições doutrinárias que, com base no art. 1.060 do Código Civil Brasileiro, autodenominando-se ora de teoria da interrupção do nexo causal (Supremo Tribunal Federal), ora de teoria da causalidade adequada (STJ e TJRJ), exigem a causalidade necessária entre a causa e o efeito danoso para o estabelecimento da responsabilidade civil”. Portanto, o nosso Código melhor se amolda à teoria da causalidade direta e imediata, somos forçados a reconhecer que, por vezes, a jurisprudência adota a causalidade adequada, no mesmo sentido. (STOLZE; PAMPLONA. 2020) 5.3.5 Causas concorrentes A concorrência de causas ocorre quando a atuação da vítima também favorece a ocorrência do dano, somando-se ao comportamento causal do agente, fala-se em “concorrência de causas ou de culpas”, nessa hipótese a indenização deverá ser reduzida, na medida da contribuição da vítima. A jurisprudência consagra, com efeito, a solução do pagamento pela metade, no caso de culpa de ambas as partes. Neste caso de culpa concorrente, cada um responderá pelo dano na proporção em que concorreu para o evento danoso, o que tem de ser pesado pelo órgão julgador quando da fixação da reparação, uma vez que somente há condenação pela existência da desproporcionalidade da culpa. 28 Sendo assim, o dano advém da atuação de ambos os sujeitos da relação jurídica. Porém esse critério poderá ser relativizado pelo julgador, visto que na apreciação do caso concreto que qualquer das partes contribuiu mais para o desfecho danoso. Neste caso, a sua participação no quantum indenizatório final deverá aumentar. O vigente Código Civil brasileiro, adotou expressamente a culpa concorrente como um critério de quantificação da proporcionalidade da indenização, conforme pode observar na leitura do art. 945: “Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano”. Importante tratar da ressalva no Direito do Consumidor, a teoria da concorrência de causas não tem essa mesma amplitude, porque, nos termos do art. 12, § 3°, III, da Lei n. 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), nesse caso somente a culpa exclusiva da vítima pode interferir na responsabilidade civil do fornecedor, sendo que na hipótese prevista tal responsabilidade será excluída. Sendo assim, também pode concluir que a culpa simplesmente concorrente (de ambos os sujeitos da relação jurídica), por não haver sido prevista pela lei, não exime o fornecedor de produto ou serviço de indenizar integralmente o consumidor. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). Nesse sentido, a doutrina segue: A culpa exclusiva da vítima é inconfundível com a culpa concorrente: no primeiro caso desaparece a relação de causalidade entre o defeito do produto e o evento danoso, dissolvendo-se a própria relação de responsabilidade; no segundo, a responsabilidade se atenua em razão da concorrência de culpa e os aplicadores da norma costumam condenar o agente causador do dano a reparar pela metade o prejuízo, cabendo à vítima arcar com a outra metade. A doutrina, contudo, sem vozes discordantes, tem sustentado o entendimento de que a lei pode eleger a culpa exclusiva como única excludente de responsabilidade, como fez o Código de Defesa do Consumidor nesta passagem. Caracterizada, portanto, a concorrência de culpa, subsiste a responsabilidade integral do fabricante e demais fornecedores arrolados no caput, pela reparação dos danos. (DENARI, 1998, p. 153. Apud STOLZE; PAMPLONA. 2020. p.1428-1429). 29 5.3.6 Concausas Essa expressão é utilizada para caracterizar o acontecimento que, anterior, concomitante ou superveniente ao antecedente que deflagrou a cadeia causal, acrescenta-se a este, em direção ao evento danoso. Trata-se de causa diferente da principal que se juntando, concorre para o resultado. Ela não inicia nem interrompe o nexo causal, apenas o reforça. O grande questionamento que atinge é sobre a circunstância da concausa interromper ou não o processo naturalístico já iniciado, constituindo um novo nexo, caso em que o agente da primeira causa não poderia ser responsabilizado pela segunda. Se esta segunda causa for absolutamente independente em relação à conduta do agente — quer seja preexistente, concomitante ou superveniente — o nexo causal originário estará rompido e o agente não poderá ser responsabilizado. Diferentemente, em se tratando de uma causa relativamente independente — aquela que incide no curso do processo naturalístico causal, somando-se à conduta do agente —, Surge distinguirmos se é preexistente, concomitante ou superveniente. Em geral, essas concausas, quando preexistentes ou concomitantes, não excluem o nexo causal, e, consequentemente, a obrigação de indenizar. Entretanto, ao se tratar de concausa superveniente — ainda que relativamente independente em relação à conduta do sujeito —, o nexo de causalidade poderá ser rompido se esta causa, por si só, determinar a ocorrência do evento danoso. Em conclusão, temos que, apenas se houver determinado, por si só, o resultado danoso, a concausa relativamente independente superveniente haverá rompido o nexo causal, excluindo a responsabilidade do sujeito infrator. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). 30 5.3.7 A teoria da imputação objetiva e a responsabilidade civil A teoria da imputação objetiva do resultado, construção doutrinária referente ao nexo de causalidade, tem ganhado posição de destaque entre os cultores do Direito Penal, porém, essa teoria poderia ser aplicável ao campo da responsabilidade civil? Já houve desenvolvimento por KARL LARENZ sobre a teoria da imputação objetiva para o Direito Civil, visando estabelecer limites entre os fatos próprios e os acontecimentos acidentais. Nessa linha de raciocínio, se alguém cria ou incrementa uma situação de risco não permitido, responderá pelo resultado jurídico causado, a exemplo do que ocorre quando alguém dá causa a um acidente de veículo, por estar embriagado (criação do risco proibido), ou quando se nega a prestar auxílio a alguém que se afoga, podendo fazê-lo, caracterizando a omissão de socorro (incremento do risco). Em todas essas hipóteses, o agente poderá ser responsabilizado penalmente, e, por que não dizer, civilmente, para aqueles que admitem a incidência da teoria no âmbito do Direito Civil. Note-se, entretanto, que, se o “risco criado” é permitido, tolerado, ou insignificante, não haverá imputação objetiva, e, por conseguinte, atribuição causal de resultado. Poderíamos, pois, à vista de todos esses ensinamentos, indagar se essa teoria é a que melhor explica o nexo de causalidade. E são os próprios penalistas que concluem no sentido de que, antes de servir como uma nova teoria, a imputação objetiva serve muito mais como mecanismo científico limitador do nexo de causalidade, para identificar as situações em que o resultado não poderia ser atribuído ao agente. É, portanto, muito mais uma teoria excludente do nexo causal do que propriamente afirmativa da sua existência. E esta última conclusão também serve para o Direito Civil, razão por que não a colocamos ao lado das teorias anteriormente desenvolvidas. (STOLZE; PAMPLONA. 2020). 31 6 DANO PATRIMONIAL Retornando sobre a figura do dano, dessa vez deixando a conceituação de lado, visto que já foi feita anteriormente nosso primeiro tópico é acerca do dano patrimonial. 6.1 Dano emergente e lucro cessante Na esfera patrimonial, a noção jurídica de dano abrange tanto os denominados danos emergentes quanto os lucros cessantes. De forma geral, afirma-se que dano emergente é o que efetivamente se perdeu, mas tal aspecto do dano patrimonial não se reduz à diminuição do ativo, abrangendo também o aumento do passivo. Sendo assim, o dano emergente também é sofrido por aquele que, em razão do fato de terceiro, incide em cláusula penal e fica obrigado a pagar, por ver aumentado o seu passivo. Logo, tanto a diminuição do ativo quanto o aumento do passivo integram a ideia de dano emergente. Sobre os lucros cessantes, esses estão associados a uma noção mais abstrata, representam aquilo que razoavelmente se deixou de lucrar conforme prevê o art. 402 do Código Civil em sua composição. Tradicionalmente, diz-se que, na reparação dos lucros cessantes, tem-se de abstrair de tudo que seria apenas possível, pois é preciso considerar o lucro frustrado tomando-se por base o curso normal das coisas e as circunstâncias especiais, determináveis no caso concreto. Assim, fazendo-se um paralelo com o dano emergente, lucro cessante não é apenas o não aumento do ativo, mas também a não diminuição do passivo: se deixa de aumentar o activo ou de diminuir o passivo, há um lucro cessante (lucrum cessans). Além disso, os lucros cessantes não se resumem àquele ganho que se estancou, mas envolvem também aquilo “que o credor não obterá, ainda que não viesse obtendo antes”. A reparação dos lucros cessantes suscita diversas discussões e está mais sujeita a incertezas, já que não é possível se reconstruir o ciclo do dano, para se chegar aos exatos termos em que se estaria se o evento danoso não tivesse ocorrido. A reparação dos lucros cessantes impõe que o intérprete reconstrua toda a sequência 32 dos acontecimentos, com base em juízo de probabilidade, a fim de verificar qual teria sido a evolução patrimonial provável do prejudicado. Há de se tratar de ganho frustrado que, com certa probabilidade, seria de se esperar do curso normal das coisas ou, pelo menos, das circunstâncias especiais do caso concreto (estas sim, precisam ser comprovadas). É por isso que, enquanto o dano emergente deve ser objetivamente demonstrado, o lucro cessante não comporta essa prova tão precisa, valendo-se normalmente de presunções. Assim, quando se trata de danos emergentes, a qualificação do prejuízo como certo não suscita tantas dúvidas. Isso porque o dano emergente, em regra, é suscetível de quantificação objetiva, já que constitui diminuição do patrimônio do lesado. Impõe-se, então, ao ofendido o ônus de provar a repercussão do evento danoso em seu patrimônio, de modo a transmitir ao julgador a noção exata da extensão do dano. Quando se discute lucro cessante, entretanto, este requisito da certeza encontra-se mitigado. Afinal, referem-se os lucros cessantes a algo que não aconteceu – vantagens que deixaram de ser auferidas em virtude do evento danoso. A indenização deve ser fixada, portanto, conforme o que razoavelmente se deixou de perceber, mas não se reclama certeza, porque a ninguém é dado prever – e, muito menos, comprovar – a sequência futura dos acontecimentos. (TEPEDINO, 2021). 6.2 Interesse negativo e interesse positivo O dano patrimonial causado ao credor através do inadimplemento absoluto ou pela mora no meio das relações contratuais, pode ser calculado por meio de duas diferentes formas: com base no interesse positivo ou o interesse negativo. O interesse a que se referem aquelas expressões é a situação hipotética em que estaria o lesado sem o evento lesivo. O interesse positivo corresponde, então, à situação em que o credor estaria caso o devedor tivesse cumprido perfeitamente sua obrigação. Trata-se, pois, do interesse no cumprimento, consubstanciado no dano surgido em razão do não cumprimento da obrigação, na vantagem proveniente do contrato, na mais valia que aproveita o contratante. O credor que reclama indenização pelo interesse positivo demanda a execução do contrato, o que se verifica nos casos de mora, quando a prestação ainda é possível de ser adimplida pelo devedor e útil 33 para o credor, ou de inadimplemento absoluto quando o credor pretende obter a execução pelo equivalente pecuniário da prestação do devedor. Ao interesse positivo se contrapõe o interesse negativo, correspondente ao dano sofrido com a celebração do contrato. O lesado deve, nesses termos, ser colocado na situação em que estaria caso o contrato não tivesse sido celebrado, sendo-lhe ressarcidas as despesas realizadas para a conclusão do negócio e tornadas inúteis, bem como os lucros que perdeu por ter desviado seus recursos e sua atividade de outras aplicações, de outros contratos, para celebrar o contrato inadimplido. O interesse negativo engloba, com efeito, o prejuízo que o lesado evitaria se não tivesse confiado que a manifestação de vontade do ofensor produziria o efeito que dela se esperava: o adimplemento da obrigação. Não se confunde o interesse negativo com os lucros cessantes. A indenização pelo interesse negativo abrange tanto os danos emergentes quanto os lucros cessantes. O lesado deverá recuperar as diminuições de valores por ele suportadas com a celebração do contrato, bem como os benefícios que por isso deixou de obter. Os danos emergentes correspondem, então, a todas as despesas em que o credor incorreu para celebrar o negócio: em contrato de campanha publicitária, seriam, por exemplo, os gastos com gravações, contratação de atores, projetos, honorários de artistas etc.; em contrato de transporte de coisa, os gastos com seguro, armazenamento e acondicionamento da mercadoria. Os lucros cessantes, por sua vez, não são o que o credor razoavelmente deixou de ganhar com o negócio inadimplido, mas, sim, o que deixou de auferir por ter celebrado dito contrato, vale dizer, o que ele ganharia se tivesse, por exemplo, dado continuidade a outro negócio já em curso, ou, então, com o próprio investimento financeiro do capital. Configura, outrossim, lucros cessantes o valor, devido ao credor, correspondente ao uso do bem por parte do devedor inadimplente, durante a vigência do contrato. (TEPEDINO, 2021). 6.3 Dano patrimonial e equivalente pecuniário da prestação Acerca do equivalente pecuniário da prestação de verba de natureza diversa do dano patrimonial é importante frisar que, por vezes, o legislador utiliza os conceitos 34 de forma distinta, confundindo os institutos. Isso ocorre por exemplo, no art. 182 do Código Civil, segundo o qual anulado o negócio jurídico, restituir-se-ão as partes ao estado em que antes dele se achavam, e, não sendo possível restituí-las, serão indenizadas com o equivalente. A toda evidência, o dispositivo transcrito não está a tratar de eventual efeito indenizatório da anulação do negócio jurídico, mas sim de sub-rogação objetiva, vale dizer, de substituição do bem a ser restituído pelo seu valor pecuniário. Outros dispositivos do Código Civil corroboram referido entendimento, a exemplo dos arts. 234 e 239, que tratam da perda da coisa por culpa do devedor nas obrigações de dar e nas de restituir, respectivamente, nos seguintes termos: “se, no caso do artigo antecedente, a coisa se perder, sem culpa do devedor, antes da tradição, ou pendente a condição suspensiva, fica resolvida a obrigação para ambas as partes; se a perda resultar de culpa do devedor, responderá este pelo equivalente e mais perdas e danos” (art. 234); “se a coisa se perder por culpa do devedor, responderá este pelo equivalente, mais perdas e danos” (art. 239). Na mesma podem ser retirados dos arts. 944 e 945 do CC/2002, bem como do entendimento dominante, particularmente do Superior Tribunal de Justiça. Por fim, Tartuce (2021) conclui que fica a dúvida se serão efetivamente aplicados os doze critérios para a quantificação dos danos imateriais, introduzidos pela malfadada Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017), dispositivo influenciado pelo art. 53 da Lei de Imprensa, que teve a sua inconstitucionalidade reconhecida pelo STF. Conforme o novo art. 223-G da CLT, ao apreciar o pedido formulado pelo reclamante da ação de reparação de danos imateriais existentes na relação de trabalho, o juízo considerará: a natureza do bem jurídico tutelado; a intensidade do sofrimento ou da humilhação; a possibilidade de superação física ou psicológica; os reflexos pessoais e sociais da ação ou da omissão; a extensão e a duração dos efeitos da ofensa; as condições em que ocorreu a ofensa ou o prejuízo moral; o grau de dolo ou culpa; a ocorrência de retratação espontânea; o esforço efetivo para minimizar a ofensa; o perdão, tácito ou expresso; a situação social e econômica das partes envolvidas; e o grau de publicidade da ofensa. 45 Ora, qual a razão de se utilizar parâmetros para a quantificação, se a reparação imaterial acabou sendo tabelada? Em reforço, alguns dos parâmetros introduzidos pela Reforma Trabalhista são prejudiciais aos empregados, vítimas do evento danoso, como o perdão tácito, a análise de sua situação econômica e a publicidade da ofensa. Também não faz sentido a menção ao grau de dolo, pois apenas a culpa se gradua. De toda forma, pensamos que o tratamento da responsabilidade civil constante da nova lei é, no todo, um grande desastre técnico. 46 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. BRASIL. LEI Nº 10.406, DE 10 DE JANEIRO DE 2002. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm> GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil: obrigações – contratos – parte geral – v. 1 / Carlos Roberto Gonçalves coord. Pedro Lenza. – 11. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2021. (Coleção Esquematizado®) e-book Bibliografia 1. Obrigações (Direito) - Brasil. I. Título. II. Lenza, Pedro. STOLZE, Pablo; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Manual de direito civil – volume único / Pablo Stolze; Rodolfo Pamplona Filho. – 4. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. TARTUCE, Flávio Manual de Direito Civil: volume único / Flávio Tartuce. – 11. ed. – Rio de Janeiro, Forense; METODO, 2021 TEPEDINO, Gustavo. Fundamentos do direito civil: responsabilidade civil / Gustavo Tepedino, Aline de Miranda Valverde Terra, Gisela Sampaio da Cruz Guedes – 2. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2021. TRUGILHO, Diogo Lima. A história da reparabilidade do dano moral: de Freitas a Bevilaqua, 1 ed. / Diogo Lima Trugilho. - Belo Horizonte: Initia Via, 2015.