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Fundamento constitucional, conceito, natureza, pressupostos, causas excludentes e outros conceitos relevantes. Direito Civil Responsabilidade Civil Conteudista Responsável: Profª Marlene Lessa cod TGPCDS202502_aUnica Todos os direitos são reservados. É proibida a reprodução, distribuição, disponibilização para download ou qualquer outra forma de compartilhamento, total ou parcial, deste material por quaisquer meios, físicos ou digitais, sem autorização expressa do detentor dos direitos autorais. Uso estritamente pessoal e educacional. 2 Sumário Noção de Responsabilidade e Justiça .............................................................. 3 Fundamento Constitucional .................................................................................. 6 Conceito e Natureza Jurídica da Responsabilidade Civil ..................... 7 Pressupostos Gerais da Responsabilidade Civil ......................................... 8 Causas Excludentes da Responsabilidade Civil ....................................... 18 Responsabilidade Civil Subjetiva ...................................................................... 22 Responsabilidade Civil Objetiva ........................................................................ 24 Indenização ..................................................................................................................... 24 Responsabilidade Civil do Estado .................................................................... 27 3 Noção de Responsabilidade e Justiça Alcançar o equilíbrio das relações jurídicas importa, significativamente, quando se fala em responsabilidade “lato sensu”. Além disso, obter “justiça” também é solução para grande parte dos conflitos sociais. Qual de nós, sofrendo agressão ou algum mal injusto, não tende a reagir? Tão instintiva se delineia tal atitude que, o Direito Romano, apontava a vingança privada como um comportamento espontâneo e natural das pessoas. Move a justiça em sociedade coibir práticas prejudiciais, punir os infratores e restabelecer a paz. Mas, nem sempre foi assim... A “justiça” experimentada pelas comunidades primitivas era, em geral, a de um grupo despojando outro grupo, uma família investindo contra o ato antissocial de um indivíduo. Em palavras simples, uma vingança coletiva, desproporcional e, muitas vezes, cruel. Há lugares onde esta realidade subsiste: redutos onde o Estado não se faz presente. Boaventura de Souza Santos alertou sobre o fato, ao afirmar que “atos de vingança coletiva como a instituição de um poder paralelo buscam agilizar o processo de justiça, pois esta, monopolizada pelo Estado, é lenta e burocratizada”. A cultura grega foi a que discutiu a ideia de “harmonia” e “equidade” (“aequalitas”) como premissas do “justo”. Realmente, a Justiça seria este equilíbrio entre as partes ou, a equivalência das obrigações - como defenderam vários povos. Os latinos entenderam que os institutos que revelavam a justiça eram: o “responsum” e o “Sponsio” (o “sponsor” tinha o dever de responder por uma obrigação assumida). “Responsor” era quem se incumbia de pagar a dívida futura. Dali decorreu nosso “responder”, ou seja, arcar com o ônus do negócio. O pacto era verbal entre o devedor e o credor: “Promete pagar? - Prometo”. E, deste modo, se consolidava o vínculo obrigacional. Imagem: A vingança de Ulisses sobre os pretendentes de Penélope – Pintura de Christoffer Wilhelm Eckesberg (1814) 4 Explica a Profa. Judith Martins Costa em “Os Fundamentos da Responsabilidade Civil1” que “se a Justiça é o equilíbrio, o seu contrário, a injustiça, injuria, será o desequilíbrio. E a função primordial da justiça será a de restabelecer o equilíbrio fraudado. (...) Pouco importa, nesta perspectiva, se o desequilíbrio a corrigir proveio ou não da culpa. A justiça a ser posta em funcionamento terá por causa “um estado de coisas objetivo, a perturbação da ordem que deve ser restabelecida”. (...) Porquanto, não se busca um culpado, mas um responsável pelo próprio fato do desequilíbrio”. (RTJE, Vol. 93, pg. 35.). Em momento posterior, a Lei das XII Tábuas (451 a 449 a. C) inseriu o componente penalização / sanção, para aqueles que, em questões criminais, tivessem que pagar um “quantum” à vítima, foi o que estudiosos2 do Direito Romano revelaram. A Pena de Talião, seria imposta se as partes não chegassem a um consenso: “olho por olho, dente por dente” – “si membrum rupsit, ni cum eo pacit, talio est”3. A Lex Poetelia Papiria abrandou o processo civil romano que, por ser primitivo, mostrava-se extremamente rigoroso, posto que o devedor inadimplente era: i) preso até que alguém pagasse sua dívida; ii) vendido como escravo e, finalmente, se ninguém arcasse com seu débito iii) morto. Somente em 428 a 441 a. C. o processo executivo foi alterado para o corpo do devedor não mais responder pela dívida. Passou a colocar o patrimônio como alvo do credor, em alteração do paradigma do liame obrigacional. A Lex Aquilia (século III a. C.) previa que o dano ocasionado deveria ter um correspondente no valor da reparação ou como uma pena patrimonial (resultado do plebiscito 286/287 a.C). A premissa de não lesionar ninguém, então, se sedimenta (“neminem laedere” - não fazer mal a ninguém). Decorrente do provável nome de um tribuno romano, o termo responsabilidade Aquiliana (extracontratual) encontra sua origem. Explica Maria Helena Diniz que “o Estado passou, então, a intervir nos conflitos privados, deixando o valor dos prejuízos, obrigando a vítima a aceitar a composição, renunciando à vingança. Essa composição permaneceu no direito romano com o caráter de pena privada e como reparação, visto que não havia nítida distinção entre a responsabilidade civil e a penal”. 1 Em RTJE, Vol. 93, pg. 35. 2 Destacam-se: Rossi Masella, Michel Viley, Alexandre Cortez Fernandes. 3 “Se alguém ferir outrem, inexistindo acordo, sofrerá a pena de Talião”… 5 E a relevância da culpa? Ela passa a ter significado em qual momento da história do nosso direito? Esclarece Othon de Azevedo Lopes que “o texto da Lei Aquília não falava de culpa, mas apenas do damnun iniuria datum, ou mais precisamente, dano material à coisa. Ao contrário do que se pode imaginar, o dano iniuria datum não implica nenhuma valoração de origem psicológica. Foi somente no direito justinianeu que a culpa passou a ser um elemento autônomo e, portanto, sobre o qual se discutia o ônus probatório. A inclusão da culpa como pressuposto do delito do damnun iniuria datum foi obra dos compiladores do período pós-clássico. Não foi uma mudança brusca, eis que a terminologia já era utilizada pelos clássicos, mas apenas nas interpolações desse último período, foi que a culpa passou a ter o sentido de falta da devida diligência”. Na verdade, a responsabilidade civil e a penal acabam se distanciando quando se passa a entender que as condutas potencialmente lesivas ao convívio social deveriam ser passíveis de reprimenda maior (penal) por ferirem, de modo drástico, o sentimento de justiça da comunidade, caso o agressor ficasse impune. “Reafirmamos, pois, que é quase o mesmo fundamento da responsabilidade civil e penal. As condições em que surgem é que são diferentes, porque uma é mais exigente do que a outra, quanto ao aperfeiçoamento dos requisitos que devem coincidir para se efetivar. E não pode deixar de ser assim. Tratando-se de pena, atende-se ao princípio nulla poena sine lege, diante do qual só exsurge a responsabilidade penal em sendo violada a norma compendiada na lei; enquanto a responsabilidade civil emerge do simples fato do prejuízo, que viola também o equilíbrio social, mas que, não exige as mesmasmedidas no sentido de restabelecê-lo, mesmo porque outra é a forma de consegui-lo. A reparação civil reintegra, realmente, o prejudicado da situação patrimonial anterior (pelo menos tanto quanto possível, dada a falibilidade da avaliação); a sanção penal não oferece nenhuma possibilidade de recuperação ao prejudicado; sua finalidade é restituir a ordem social ao estado anterior à turbação” – nas palavras de José de Aguiar Dias. Estas considerações demonstram os alicerces históricos da responsabilidade, no âmbito jurídico e, também, o interligam à Justiça, como parte de nós mesmos, serem humanos que somos. 6 Alf Ross4 detalha este fato ao afirmar que “como princípio do direito, a justiça delimita e harmoniza os desejos, pretensões e interesses conflitantes na vida social da comunidade. Uma vez adotada a ideia de que todos os problemas jurídicos são problemas de distribuição, o postulado de justiça equivale a uma exigência de igualdade na distribuição ou partilha de vantagens ou cargas. A justiça é igualdade. Este pensamento foi formulado no século IV a. C. pelos pitagóricos, que simbolizaram a justiça com o número quadrado, no qual o igual está unido ao igual. A ideia da justiça como igualdade, desde então, tem se apresentado sob inúmeras variantes.” Fundamento Constitucional Nossa Carta Republicana, com preocupação de valorizar a pessoa humana e sua a dignidade, deu ênfase constitucional à questão da proteção e responsabilidade civil, sobretudo quanto aos direitos e garantias fundamentais, harmonizando-os com a solidariedade social: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. 4 Ross, Alf. Direito e Justiça – tradução Edson Bini - revisão técnica Alysson Leandro Mascaro – Bauru, SP: EDIPRO, 2000, pg. 313. 7 Conceito e Natureza Jurídica da Responsabilidade Civil Tarefa delegada à doutrina, um dos conceitos do direito francês, formulado por René Savatier, declarou a responsabilidade civil como “obrigação que pode incumbir uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas ou coisas que delas dependem.” A responsabilidade civil, segundo Pablo Stolze Gagliano, deriva da “agressão a um interesse eminentemente particular, sujeitando, assim, o infrator, ao pagamento de uma compensação pecuniária à vítima, caso não possa repor in natura o estado anterior de coisas. É obrigação derivada, um dever jurídico sucessivo, de assumir as consequências jurídicas de um fato”. Outro importante jurista, Sérgio Cavalieri Filho, detalha o termo: “a violação de um dever configura o ilícito, que quase sempre, acarreta dano para outrem, gerando um novo dever jurídico, qual seja, o de reparar o dano. Há, assim, um dever jurídico originário, chamado por alguns de primário, cuja violação gera um dever jurídico sucessivo, também chamado de secundário, que é o de indenizar o prejuízo”. Conceito simples, do Prof. Álvaro Villaça, resume “dever de indenizar o dano (por descumprimento de obrigação contratual ou descumprimento normativo)”. Na mesma esteira, prof. Carlos Alberto Bittar: “dever jurídico de recompor e compensar o dano, por violação de um dever jurídico preexistente (geral ou particular)”. Analisado minuciosamente o conceito, verificamos, que a responsabilidade civil apresenta a característica de ter, independentemente de sua materialização em: sanção, indenização ou compensação pecuniária, a natureza jurídica sancionadora. Explicita, nesse sentido, Pablo Stolze Gagliano que, “realmente, a construção de uma ordem jurídica justa – ideal perseguido, eternamente, pelos grupos sociais – repousa em certas pilastras básicas, em que avulta a máxima de que: a ninguém se deve lesar. Mas, uma vez assumida determinada atitude pelo agente, que vem a causar dano, injustamente, a outrem, cabe-lhe sofrer os ônus relativos, a fim de que possa recompor a posição do lesado, ou mitigar-lhe os efeitos do dano, ao mesmo tempo em que se faça sentir ao lesante o peso da resposta compatível prevista na ordem jurídica”. 8 De fato, ela pretende reprimir condutas idênticas, que são passíveis de causar instabilidade social, ao mesmo tempo que, preocupa-se em prevenir conflitos e reparar o dano sofrido pela vítima. Daí suas três funções. Realmente, desenvolvido o instituto para regular situações inerentes à relação entre indivíduos, a responsabilidade civil acabou ampliada para atingir vários outros horizontes como: direito do consumidor, meio ambiente, relações econômicas, internacionais, direito digital, energia nuclear, entre outros. Atinge, ainda, a órbita dos direitos transindividuais e intersubjetivos, coletivos e difusos. Pressupostos Gerais da Responsabilidade Civil Nos lembra Antônio Herman V. Benjamin5 que o “paradigma tradicional da responsabilidade civil pressupõe a possibilidade do autor definir de maneira clara e precisa, quase matemática, a estrutura quadrangular dano-nexo causal-causador- vítima”. Nosso Código Civil, em seu Título IX, trata da responsabilidade civil. Os artigos 927 a 954 delineiam os pressupostos: • PARTES (AGENTE/VÍTIMA) • CONDUTA • DANO • NEXO CAUSAL 1. PARTES (AGENTE) “Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.” O artigo sob comento indica as partes - como primeiro pressuposto da reparação civil: “Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano à outrem…” 5 Benjamin, Antonio Herman V. – Responsabilidade civil pelo dano ambiental – Revista de direito ambiental. RDA 9/5 – jan-mar/1998. p.85. 9 Quem pratica a conduta lesiva é, a priori, o responsável pela reparação. Esclarece Alexandre Cortez Fernandes: “será considerado autor todo aquele sujeito que perpetra o ato danoso, aquele que age, ou deixa de agir quando não deveria, fazendo com que ocorra o dano”. Surge, do ato danoso, uma relação jurídica obrigacional derivada. Em um polo: o autor e noutro, a vítima. Vejamos em um exemplo triste que, de fato, ocorreu: Uma dona de casa resolve cuidar do filho de sua funcionária, enquanto a mesma deixa o local para realizar outra atividade determinada pela patroa. A criança (menor impúbere) é encontrada caída da janela do edifício e falece, por não ter sido adequadamente supervisionada e assistida por quem se obrigou a fazê-lo. Em paralelo com a responsabilidade penal, há o dever de indenizar (responsabilidade civil) ocasionado pela quebra do dever jurídico de cuidado da patroa para com a criança. A funcionária e sua família estão interligadas pela tragédia (ato danoso) à autora do ato lesivo. A relação jurídica obrigacional se estabelece entre as partes. Imagem: Print da notícia publicada em Correio Braziliense, acesso em 17 de agosto de 2020. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/06/04/interna-brasil,860958/patroa-e-presa- apos-filho-da-empregada-morrer-ao-cair-de-predio-recife.shtml https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/06/04/interna-brasil,860958/patroa-e-presa-apos-filho-da-empregada-morrer-ao-cair-de-predio-recife.shtml https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/06/04/interna-brasil,860958/patroa-e-presa-apos-filho-da-empregada-morrer-ao-cair-de-predio-recife.shtml10 2. CONDUTA/ATO Outro pressuposto, o ato ou conduta, necessita ser analisado: “Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem…” A conduta lesiva pode ser oriunda de uma omissão (ação negativa, “deixar de fazer”) ou comissão (conduta positiva, ação, “fazer”) do agente. Em ambos os casos, há a quebra do dever jurídico de cuidado, do princípio geral de direito e cláusula geral de “não lesar outrem”, motivo que permite a imposição de reprimenda. Vejamos outro exemplo: motorista cansado resolve ultrapassar o sinal vermelho e colide com outro veículo, ocasionando lesão corporal grave a seus ocupantes. Temos, nessa hipótese, uma ação que resulta em ato danoso. Em lição clara, o Prof. Orlando Gomes diz que “o ato ilícito é a ação ou omissão culposa, com a qual se infringe direta e imediatamente, um preceito jurídico do Direito, causando dano a outrem”. A conduta deve ser humana, se há prejuízo devido à queda de meteorito numa propriedade, um descolamento de ribanceira, após chuvas torrenciais em plantação, elevação do nível do mar (que atinge uma pousada), incêndio espontâneo em área de preservação ambiental, todos estes são fatos relevantes ao direito (por causarem prejuízo), mas não podem ser atribuídos à ação do homem e sim, da natureza. A sanção, nestes exemplos, seria inócua, por óbvio. OMISSÃO Deixar de fazer COMISSÃO Ação, “fazer” 11 O ato cometido deve ter sido norteado, guiado, conduzido pela vontade do agente. A voluntariedade é o cerne. A pessoa deve ter tido liberdade para escolher que comportamento seria melhor. A consciência do agente e o discernimento necessário para entender as consequências do ocorrido importam. Para responder pelo dano, o agente deve ser, também, imputável. Acrescenta Rui Stocco apud Caio Mário “voluntariedade não é o propósito ou a consciência do resultado danoso, ou seja, a consciência de causar o prejuízo. Este é um elemento definidor do dolo. A voluntariedade, pressuposto na culpa, é a ação em si mesma”. A voluntariedade envolve a consequência do que está sendo realizado, no momento da conduta omissiva ou comissiva. Ainda, na questão do ato lesivo, é mister discutir que o comportamento pode ter sido realizado por ato próprio: o agente, de per si, ocasionou o dano. Ele mesmo está ligado à conduta omissiva ou comissiva. Por outro lado, a lei encarrega da responsabilidade, aquele que indiretamente se conecta ao fato. É o que determina o artigo 932 do Código Civil: Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil: I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições; III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos; V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia. Estes são os atos de terceiro. No caso, a responsabilidade civil é indireta, porque provém do mandamento legal de cuidar e proteger. 12 Nas lições de Alvino Lima: “A responsabilidade civil pelo fato de outrem se verifica todas as vezes em que alguém responde pelas consequências jurídicas de um ato material de outrem, ocasionando ilegalmente um dano a terceiro. Em matéria de responsabilidade pelo fato de outrem, a reparação do dano cabe a uma pessoa que é materialmente estranha à sua realização”6. Venosa afirma que o responsável pela reparação está ligado ao causador do dano por um liame jurídico, em situação de subordinação ou submissão, em caráter permanente ou eventual, como é o caso do pai ou do empregador (quando da prática de ações de seus pupilos ou subordinados, neste caso, no exercício profissional - sob sua direção ou ordem). No citado artigo, há a responsabilidade civil por necessidade de se cumprir o dever de cuidado, custódia ou vigilância para com os aqueles que se encontram sob a autoridade de outros. Ou ainda, pela culpa ao escolher ou eleger pessoa sem adequado procedimento ou caráter para atuar naquele trabalho (culpa “in eligendo”). Acerca do fato do animal, presente no art. 936 do Código Civil, temos a mesma situação de responsabilização por quebra do princípio de cuidar: Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior. E, ainda, pelo fato da coisa, como o artigo 937 do Código Civil impõe: Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja necessidade fosse manifesta. Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido. Determina, a doutrina, acerca da responsabilidade: “considera-se culpa, na estrutura do ato ilícito, como o descompasso dos elementos subjetivo- psicológicos do ofensor em relação aos deveres jurídicos compreendidos socialmente” (Othon de Azevedo Lopes). 6 LIMA, Alvino apud VENOSA, Silvio de Salvo. Op. Cit. p. 265. 13 O fundamento legal, quando se incide na questão da culpa, é o Código Civil, em seu artigo 186: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. A culpa ingressa na conduta do agente, apenas como um elemento acidental - segundo a doutrina, já que não se prescinde dela, como pressuposto essencial, para a reparação de danos. Ademais, o comportamento antijurídico não é o mesmo que o ilícito e explicamos. A verdadeira ilicitude, para ser caracterizada - conforme diz o artigo 186 do Código Civil, deve ter dois componentes: o objetivo (violar a norma e o direito alheio) e o subjetivo (que é a culpabilidade). Nas palavras de Fernando de Noronha, a “culpabilidade é a possibilidade de imputação do agente do ato praticado à título de culpa ou dolo. Uma pessoa é culpada quando poderia e deveria ter agido em conformidade com a prescrição legal”. Portanto, a culpa, como elemento acidental, na reparação de danos, incide: • pela quebra de dever jurídico “lato sensu”; • pela imperícia - inabilidade para realizar uma atividade, seja de cunho técnico, científico ou profissional – exemplo de um médico que faz cirurgia plástica sem ter realizado curso específico para a especialidade, deixando lesão permanente nos pacientes; • pela imprudência - fazer um ato sem atenção, sem cuidado, sem precaução, de forma impensada e com precipitação – exemplo de alguém que conduz veículo embriagado ou; • pela negligência - omissão, inobservar dever, agir de modo indiferente, com falta de cuidado – exemplo de deixar sem manutenção veículo, causando acidente. A responsabilidade com a violação do artigo 186 do Código Civil, trata, como vimos, da responsabilidade aquiliana ou extracontratual, em que se verifica uma violação da norma legal. 14 3. DANO O terceiro pressuposto para responsabilidade civil: o dano. “Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem…” Certamente é o dano que levará o agente, por sua conduta, a reparar a vítima pelos desgostos sofridos. Qualquer que seja o tipo de responsabilidade envolvida (do Estado, do Consumidor, ambiental, contratual, extracontratual), o dano é indispensável. Diz Fernando de Noronha que o dano “é o prejuízo,de natureza individual ou coletiva, econômico ou não econômico, resultante de ato ou fato jurídico, que viole qualquer valor inerente à pessoa humana ou atinja bem que seja juridicamente tutelado.” Nossa legislação preocupou-se com a proporção da reparação civil em comparação aos danos impingidos à vítima. A importância do dano é real. Diz Sérgio Cavalieri Filho que “o dano é, sem dúvida, o grande vilão da responsabilidade civil. Não haveria que se falar em indenização, nem em ressarcimento, se não houvesse o dano. Pode haver responsabilidade sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem dano”. Ocorre que, para ser indenizável, o dano deve importar em violação a um interesse jurídico. Seja de cunho patrimonial ou extrapatrimonial (tido pela lei como moral), a pessoa jurídica ou física, quando atingida, deve comprovar a lesão. Sem a existência do dano, de modo efetivo, certo e atual, não há reparabilidade. Um dano incerto ou futuro não coaduna com a letra da lei. 15 No caso de danos da esfera econômica da vítima, pode se denominar o dano emergente como aquele efetivo prejuízo experimentado com o ocorrido e, os lucros cessantes como prejuízo razoável, direto e imediato (o que o lesado deixou de ganhar). Em se tratando de dano extrapatrimonial (ou moral) é o comportamento lesivo que atinge a esfera personalíssima do indivíduo, impingindo a este, efeitos psicológicos e, em suas emoções ou sua autoestima, na órbita de sua intimidade, imagem, nome, honra, liberdade, etc. Neste caso, a prova é necessária para caracterizar o comportamento danoso, o qual deverá ser compensado em pecúnia, para com a vítima ou seus familiares. A intenção do legislador foi compensar a dor (permite minimizar os efeitos causados pela tristeza e constrangimento da vítima, ao mesmo tempo em que se pune o responsável). Diz o art. 52 do Código Civil: Art. 52. Aplica-se às pessoas jurídicas, no que couber, a proteção dos direitos da personalidade. Veja que a proteção ao dano extrapatrimonial é aplicável às empresas e pessoas jurídicas em geral, por serem passíveis de campanhas difamatórias online, clonagem de nome, afrontas à sua reputação no mercado de fornecedores, etc. 4. NEXO CAUSAL Enfim, o último pressuposto para configurar a reparação civil é o nexo causal. “Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem…” O nexo de causalidade é o elo de ligação ou liame jurídico que une a conduta do agente ao evento danoso. Diz o Código Civil: Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual. (GN) 16 Várias teorias explicam o instituto. Veremos as mais relevantes: • Teoria da equivalência de condições ou “conditio sine qua non” ou “condição sem a qual não” teria ocorrido o evento danoso. Trata-se daquela prevista no Código Penal, art. 13. Os elementos que concorrem com o resultado são a causa do evento. No caso de uma arma de fogo, quem a disparou e acertou a vítima deu causa ao resultado. Por isso responde pelo delito. O resultado de que depende a existência do crime somente é imputável a quem lhe deu causa. Por isso, considera-se ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. No exemplo dado, se a vítima tivesse ingerido veneno ministrado por um inimigo, dolosamente, mas horas depois tivesse recebido um tiro de outro inimigo - haverá de responder pelo evento (morte) quem lhe deu causa. Prevalece como causa o envenenamento ou o que ato que desferiu tiro - proveniente da arma de fogo? A prova tem que apurar. Se foi o tiro a causa da morte, o envenenador responderá por tentativa de homicídio e o atirador por homicídio consumado ou vice-versa. • Teoria da causalidade adequada. Nesta teoria leva-se em conta a causa que foi apropriada pra produzir o dano. Nas palavras da doutrina a causa do dano é o antecedente necessário e adequado para gerar o resultado. Por exemplo: pessoa vai viajar para outro país. Discute com o vizinho e se atrasa para chegar ao aeroporto. Por este motivo perde o vôo contratado e acaba por ir em um avião que cai. Morrem todos os tripulantes. A discussão entre vizinhos pode ser considerada como causa da morte? Por esta teoria não responde, porque o dano com resultado morte – queda do avião - não foi provocado pela discussão. Não há liame jurídico, não há nexo causal. • Teoria da Causalidade direta ou imediata: defende que o dano decorre ou é efeito direto e imediato da execução da conduta. A causa do prejuízo deve ser aquela que está diretamente conectada ao dano. Por exemplo, um menino que teve o pai morto em acidente de carro provocado por um motorista imprudente. O acidente provocou o prejuízo, já que agora o menino não mais recebe alimentos do pai. É cabível a indenização movida pelo menor contra o motorista, eis que o dano se filiou a uma causa, ainda que remota, mas que foi necessária para relacioná-la ao dano sofrido. O efeito é direto e imediato da execução do comportamento lesivo. A doutrina aponta que esta teoria foi a escolhida pelo Código Civil, no citado artigo 403. 17 Nosso Código também aponta para a questão da causa concorrente, na qual a vítima também colabora para o evento. Por exemplo, o evento morte só ocorreu porque o pai do menino não estava utilizando cinto de segurança. Neste caso há a redução da indenização. É o disposto no artigo 945 do Código Civil: Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano. Outro ponto a se considerar é a denominada concausa. Ela reforça o liame jurídico, porque, em se unindo a uma causa principal concorre para que o resultado aconteça. No exemplo isso fica claro: uma mulher vai ter um bebê prematuro com risco de não sobreviver. É colocada em helicóptero da Polícia para chegar ao hospital rapidamente. No caminho, tiros de uma comunidade atingem o helicóptero que cai, levando à morte todos os tripulantes. A concausa (tiros no helicóptero), reforça a ligação entre o fato e o evento danoso. Porém, a superveniência desta concausa, por si só, determina a ocorrência do resultado. A morte pode ser direta e imediatamente ligada à concausa. Assim, respondem os infratores que atingiram o helicóptero pela morte da mãe e do bebê e, não as complicações do parto. • Teoria da Imputação Objetiva é a que resolve alguns questionamentos que poderiam ser indenizáveis pelas demais teorias e, por justiça, não o são. Defende que: o sujeito só pode ser responsável pelo fato, se ele criou ou incrementou um risco proibido e relevante, através do qual o resultado jurídico ocorreu. É o caso de um motorista, segundo a doutrina, que causa atropelamento de pedestres em ponto de ônibus por estar embriagado. O motorista criou o risco. Deve responder pelas vidas que tirou. Nos casos de risco tolerado pela comunidade, risco insignificante ou risco permitido - não se fala em imputação. Como em lesão decorrente de esportes de contato, cirurgias para salvar vida de doente, etc. 18 Causas Excludentes da Responsabilidade Civil Vamos para mais um ponto de interesse no tema da responsabilidade civil, sobretudo para defesa do agente causador do dano: as causas excludentes de responsabilidade. São as circunstâncias que impactam sobre um dos elementos ou pressupostos gerais da responsabilidade civil. Elas quebram o liame jurídico e o nexo causal, desta forma, impedem a configuração da obrigação de indenizar. O estado de necessidade está previsto no art. 188 do Código Civilque diz: Art. 188. Não constituem atos ilícitos: I - … II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente. O ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. O exemplo da doutrina é o caso do motorista que colide com um muro para evitar atropelamento de criança que está no meio da rua. Se o responsável pela situação de perigo for o dono do muro nada há que se indenizar, com fulcro no estado de necessidade. Assim determinam os artigos 929 e 930 do Código Civil: Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. 188, inciso I). 19 Reconhecem os tribunais: EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - RESPONSABILIDADE OBJETIVA - CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA - EXCLUDENTE DA RESPONSABILIDADE - AUSÊNCIA DE PROVAS DA RESPONSABILIDADE. - A culpa exclusiva da vítima é excludente da responsabilidade civil, mesmo na sua forma objetiva, pois afasta o nexo de causalidade entre a conduta da requerida e o dano, já que este teria sido causado pelo próprio prejudicado. (TJ-MG - AC: 10000220884449001 MG, Relator.: Joemilson Donizetti Lopes (JD Convocado), Data de Julgamento: 07/07/2022, Câmaras Cíveis / 15ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 13/07/2022) EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS MORAIS - ACIDENTE DE TRÂNSITO - CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA (CICLISTA) - AUSÊNCIA DE NEXO DE CAUSALIDADE ENTRE A CONDUTA DO CONDUTOR DO VEÍCULO AUTOMOTOR E OS DANOS SOFRIDOS PELO AUTOR - CAUSA DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE - INEXISTÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR. 1 - Para se reconhecer o dever de reparar, faz-se necessária a prova da culpa, do dano e do nexo de causalidade entre a conduta e o dano (artigos 186 e 927 do Código Civil). 2 - Demonstrada a culpa exclusiva da vítima pelo acidente de trânsito, fica afastada a responsabilidade da empresa ré pelos danos por aquela sofridos, o que redunda na improcedência do pedido reparatório. (TJ-MG - AC: 10000212190409001 MG, Relator.: Claret de Moraes, Data de Julgamento: 12/04/2022, Câmaras Cíveis / 10ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 19/04/2022) A legítima defesa também é outra das causas que excluem a responsabilidade civil, nos termos do artigo 188, I: Art. 188. Não constituem atos ilícitos: I - os praticados em legítima defesa… Trata-se do agente que sofre injusta agressão em situação atual ou iminente, dirigida para si ou terceiro, com o uso de meios moderados de defesa em poder do ofendido. É o caso do motorista que se vê cercado por assaltantes com armas em punho no meio da rua, prestes a lhe desferir balas. É legítima defesa passar por um deles e fugir, sem ter que indenizar a família do ofensor - se este vier a ter sequela ou morte decorrente do atropelamento. 20 Se atropelar um inocente, deverá ser aplicada a regra do art. 930 do Código Civil (ação regressiva contra os culpados). Em caso de defesa putativa (pensar que está em perigo, mas não está), há dever de indenizar, embora o caso, penalmente, seja excludente de culpabilidade (dirimente). O exercício regular de direito e o estrito cumprimento de dever legal também constituem excludentes. É o texto do art. 188, I do Código Civil: Art. 188. Não constituem atos ilícitos: I – …. os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido São exemplos: o auditor que denuncia fraude na empresa e leva à demissão dos responsáveis; policial ou os bombeiros que invadem propriedade para salvar pessoa em perigo; atividades desportivas. Os casos mencionados não são indenizáveis. Sempre deve ser lembrado que devem ser atos praticados proporcionalmente, sem excessos. Se ocorrer ou extrapolar o necessário caberá sanção, já que configuram abuso de direito. O art. 187 do Código Civil prevê o limite: Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes. Merece destaque a questão do abuso de direito. Nesta hipótese, o abuso terá o critério objetivo-finalístico verificado pelo magistrado, ou seja, o exagero na fruição do direito. A responsabilidade é independente da prova da culpa. Serve de exemplo o setor de serviços hospitalares que entra em greve no pico da pandemia. Há abuso em seu direito de manifestação. Outro caso: espancamento de criança pequena sob argumento de correção disciplinar, há abuso de direito, etc. Outras excludentes são o caso fortuito e a força maior. Diz o artigo 393 do Código Civil: 21 Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado. Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. A doutrina diverge sobre os termos, apontando que o primeiro seria a imprevisibilidade pelo homem médio e o outro um acontecimento inevitável. Mas há que se verificar a desnecessidade de distinção, por ser irrelevante na prática. No caso da Covid-19, os inadimplentes dos serviços de luz, água, etc tiveram quebra da sanção (corte de fornecimento) por questão impossível de evitar ou impedir. Assim, excluiu-se a responsabilidade civil durante o período crítico. Outra importante defesa: quebra o nexo causal, e portanto, exclui a responsabilidade civil, a culpa exclusiva da vítima. Isenta a responsabilidade quando o ato ou fato é ocasionado somente pela conduta da vítima. Exemplo: pessoa é atropelada porque se jogou do pontilhão sobre os carros que trafegavam em via rápida. O caso é de culpa exclusiva da vítima, mas o ônus da prova é do agente (réu). Quando o fato (culpa) é de terceiro, há que analisar detidamente o problema da excludente. Deve haver prova de quem foi o efetivo responsável para não se ter que indenizar. O agente, no caso de culpa de terceiro, que aparenta ter gerado o dano é mero instrumento da ação culposa de terceiro. Exemplo do engavetamento. O carro que parou ou o que não frenou é o responsável. Os que são atingidos reflexamente na colisão não tem vinculação direta com o resultado, mas estão no desdobramento do nexo causal. Deve haver cautela na apuração da responsabilidade. Ainda, sobre o tema do direito de regresso, diz a lei: Art. 934. Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houver pago daquele por quem pagou, salvo se o causador do dano for descendente seu, absoluta ou relativamente incapaz. Pode, a pessoa que pagou a indenização, processar o causador do dano para reaver o que pagou. 22 Finalmente, a cláusula de não indenizar, nos casos que envolvam contratos, pode determinar a excludente da responsabilidade. Tudo vai depender do que ficou convencionado pelas partes quando contrataram entre si. Para ser válida a cláusula, as partes devem ter igualdade jurídica e não podem infringir os preceitos de ordem pública. A cláusula de não indenizar que entre em confronto com o Código de Defesa do Consumidor, a justiça distributiva, a boa-fé contratual, não prevalecerá. É o caso do estacionamento que afirma não se responsabilizar por objetos no carro dosclientes. Pode ser questionada sua validade, por estar em disparidade com o Código de Defesa do Consumidor. Responsabilidade Civil Subjetiva Decorre do dano, cujo prejuízo teve origem em um ato culposo ou danoso, segundo o previsto no art. 186 do Código Civil: Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. Para Savatier: “a culpa é a INEXECUÇÃO de um dever que o agente podia conhecer e observar. Se efetivamente o conhecia e deliberadamente o violou ocorre o delito civil, ou em matéria contratual, o dolo contratual. Se a violação do dever, podendo ser conhecida e evitada, é involuntária, constitui culpa simples”. “Quando existe intenção deliberada de ofender o direito, ou de ocasionar prejuízo a outrem, há o dolo, isto é, o pleno conhecimento do mal e o direto propósito de o praticar. Se não houvesse intento deliberado, proposital, mas o prejuízo veio a surgir, por imprudência ou negligência, existe a culpa (stricto sensu)”. Daí a distinção especificada por Rui Stocco. A doutrina, portanto, caracteriza a culpa e seus elementos em: • Voluntariedade do comportamento do agente (escopo ou objetivo do agente é praticar ou deixar de realizar algo, ignorando as consequências); • Previsibilidade; • Violação do dever jurídico de cuidado; 23 Sedimentados, estão, também, os graus de culpa: • Grave (agente atua como se tivesse querido o prejuízo da vítima); • Leve (falta de diligência do homem médio); • Levíssima (inevitável até por alguém cuidadoso e diligente); Seja qual for o grau de culpa, em todas há o dever de indenizar, todavia, pode este critério auxiliar na mensuração do valor devido à vítima. É o que diz o artigo 944 do Código Civil: Art.944. A indenização mede-se pela extensão do dano. Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização 24 Responsabilidade Civil Objetiva Bastante relevante este tipo de responsabilidade, está alicerçada no risco da atividade econômica exercida pelo agente. A pessoa jurídica - escolhendo realizar determinada atividade - assume os efeitos advindos de sua conduta. É o exemplo da mineradora, da empresa de transportes, do fornecedor de produtos ou serviços. Sabe-se que quando exercer suas funções no mercado poderá ferir direitos de outrem, então sua responsabilidade será apurada de modo distinto. Não se verificará a culpa. Mas sim os elementos: dano, nexo causal e a conduta. Aponta o art. 927 do Código Civil: Art. 927 - Parágrafo único - Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. Indenização A indenização ou reparação dos danos decorrentes da responsabilidade civil pode ser: ressarcimento a dano patrimonial ou extrapatrimonial; reparação pecuniária (em dinheiro) e, compensação da vítima pelas lesões sofridas. A finalidade da indenização é: • Integrar o patrimônio da vítima, reembolsando o desfalque sofrido; • Recompor as perdas e danos; • Compensar monetariamente pelo desgosto, vergonha, tristeza (dano extrapatrimonial) – se for o caso. Se a obrigação for indeterminada, aponta o art. 946 do Código Civil a solução para apurar o “quantum”: 25 Art. 949. Se a obrigação for indeterminada, e não houver na lei ou no contrato disposição fixando a indenização devida pelo inadimplente, apurar-se-á o valor das perdas e danos na forma que a lei processual determinar. (grifo nosso) Trata-se do procedimento de liquidação que será realizado, com nomeação de perito ou avaliador para determinar a indenização. O Código de Processo Civil esclarece: Art. 509. Quando a sentença condenar ao pagamento de quantia ilíquida, proceder-se-á à sua liquidação, a requerimento do credor ou do devedor: I - por arbitramento, quando determinado pela sentença, convencionado pelas partes ou exigido pela natureza do objeto da liquidação; II - pelo procedimento comum, quando houver necessidade de alegar e provar fato novo. Art. 510. Na liquidação por arbitramento, o juiz intimará as partes para a apresentação de pareceres ou documentos elucidativos, no prazo que fixar, e, caso não possa decidir de plano, nomeará perito, observando-se, no que couber, o procedimento da prova pericial. O Código Civil apontou diretrizes sobre quais valores poderiam servir de parâmetro para os casos de indenização. Vejamos a seguir os critérios legais: • Homicídio Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações: I - no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da família; II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em conta a duração provável da vida da vítima. Obs. A média pela jurisprudência, para expectativa de vida é de 65 anos. • Lesão Corporal Art. 949. No caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o ofensor indenizará o ofendido das despesas do tratamento e dos lucros cessantes até ao fim da convalescença, além de algum outro prejuízo que o ofendido prove haver sofrido. 26 Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa exercer o seu ofício ou profissão, ou se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização, além das despesas do tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu. Parágrafo único. O prejudicado, se preferir, poderá exigir que a indenização seja arbitrada e paga de uma só vez. Art. 951. O disposto nos arts. 948, 949 e 950 aplica-se ainda no caso de indenização devida por aquele que, no exercício de atividade profissional, por negligência, imprudência ou imperícia, causar a morte do paciente, agravar-lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para o trabalho. • Violação À Honra Art. 953. A indenização por injúria, difamação ou calúnia consistirá na reparação do dano que delas resulte ao ofendido. Parágrafo único. Se o ofendido não puder provar prejuízo material, caberá ao juiz fixar, equitativamente, o valor da indenização, na conformidade das circunstâncias do caso. • Ofensa À Liberdade Pessoal Art. 954. A indenização por ofensa à liberdade pessoal consistirá no pagamento das perdas e danos que sobrevierem ao ofendido, e se este não puder provar prejuízo, tem aplicação o disposto no parágrafo único do artigo antecedente. Parágrafo único. Consideram-se ofensivos da liberdade pessoal: I - o cárcere privado; II - a prisão por queixa ou denúncia falsa e de má-fé; III - a prisão ilegal. • Danos Ao Patrimônio Pessoal Art. 952. Havendo usurpação ou esbulho do alheio, além da restituição da coisa, a indenização consistirá em pagar o valor das suas deteriorações e o devido a título de lucros cessantes; faltando a coisa, dever-se-á reembolsar o seu equivalente ao prejudicado. Parágrafo único. Para se restituir o equivalente, quando não exista a própria coisa, estimar-se-á ela pelo seu preço ordinário e pelo de afeição, contanto que este não se avantaje àquele. 27 Responsabilidade Civil do Estado Finalmente, a responsabilidade civil, especificamente, a do risco administrativo rege a responsabilidade civil da Administração Pública. Está no art. 37 da Constituição Federal a previsão deste instituto:Art. 37, § 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. Os agentes que realizam atividades em nome do Estado podem vir a praticar danos e, por isso, geram a responsabilidade da Administração Pública. O mesmo se diga daqueles prejuízos que só puderam ser produzidos graças ao agente público prevalecer-se dessa condição - o que muito se vê, na mídia, quando noticiam desvio de verbas públicas. Para apurar a condição do agente de “se prevalecer da função” é necessário vincular a qualidade do cargo como determinante para efetivar a conduta lesiva. A Administração Pública, portanto, defere a realização de atividade administrativa a seus servidores e, por este motivo, responde pelos danos que eles, nesta condição, causam a terceiros. A conduta lesiva pode ser resultado de: a) Comportamento comissivo (“facere”). Ex: desviar recursos públicos, espancar preso e causar lesões definitivas. b) Comportamento omissivo (“non facere”). O Estado deveria agir, por imposição legal, não o fez ou agiu deficientemente/ abaixo do padrão normal de eficiência. Ex. Deixar de vistoriar lugar que incendiou, deixar de prestar contas ao Tribunal de Contas. 28 No tange à reparação do dano é importante enfatizar que este deve corresponder à lesão a um direito da vítima. Além de lesão econômica, o prejuízo deve ser jurídico. O dano precisa ser certo e real. A Administração Pública não pode ser obrigada a reparar um dano que ainda não existe (dano futuro). Por se tratar de responsabilidade objetiva, não há necessidade da prova da intenção de lesar, por parte do agente. Basta a prova de dano, o nexo causal entre o ato lesivo e o prejuízo suportado pela vítima/ administrado. É o exemplo da ambulância de hospital público, a caminho de prestar socorro a vítima de acidente, passa na fase vermelha do sinal e danifica um veículo de particular. Diz o Código Civil, em seu artigo: Art. 43. As pessoas jurídicas de direito público interno são civilmente responsáveis por atos dos seus agentes que nessa qualidade causem danos a terceiros, ressalvado direito regressivo contra os causadores do dano, se houver, por parte destes, culpa ou dolo. Na hipótese de ação de regresso contra o agente do Estado, ou em caso de o lesado ingressar com ação contra o funcionário, a responsabilidade passará a ser subjetiva. Isso significa que o lesado escolhendo acionar o motorista da ambulância – e não o Estado, precisará provar a intenção (dolo) ou a negligência, imperícia ou imprudência (culpa) do profissional envolvido.