Prévia do material em texto
1 2 3 OBSERVAÇÕES INICIAIS A prova objetiva do TJTO foi aplicada dia 29/06/2025. Assim que tivemos acesso ao gabarito preliminar iniciamos a tradicional prova comentada do Mege - nós também ficamos ansiosos, como vocês, e corremos para entregar tudo dentro do prazo recursal. Mais uma vez, missão cumprida! A nossa intenção neste material é auxiliar nossos alunos e seguidores na análise da elaboração de seus recursos, além de possibilitar, em formato conclusivo, a revisão de temas cobrados no certame e verificação de maiores chances de avanço para 2ª fase. Na verdade, esse estudo já virou uma tradição obrigatória para todo concurseiro de magistratura. O arquivo aqui apresentado trata de versão preliminar elaborada com as finalidades informadas e concluído por nosso time específico de 1ª fase de magistratura, sem maiores pretensões de aprofundamento ou trabalho editorial neste momento, que é de puro apoio (e não foca na detectação de questões antecipadas em nossas várias formas de atuação – pois o tempo é curto para tal fim e só, no Clube da Magistratura, o Mege revisa um edital completo em 1 ano de estudo, ou seja, a produção é realmente vasta). O corte, neste momento, segue estimado em 66/67 acertos para ampla concorrência. Os(as) candidatos(as) que concorrem às vagas destinadas ao sistema de cotas, precisam acertar 60 pontos. Os nossos professores entendem que 5 (cinco) questões, em especial, estão envolvidas em maior polêmica a serem apreciadas (25, 38, 49, 51 e 69). Portanto, podem ter suas situações alteradas na fase recursal, o que deixa em aberto a nota de corte para outras possibilidades. É claro que podem ter mais questões que venham a ser anuladas ou alteradas com o gabarito oficial (mas, como a prova foi bem elaborada, não entendemos que a surpresa seja maior que 1 ou 2 a mais que a nossa previsão). De todo modo, levamos esse pensamento de probabilidade no mapa mental dos caminhos indicados, que apresentamos nas páginas seguintes. Diante disso, em nosso sentimento, ainda é possível sonhar com a aprovação na ampla concorrência com a nota 64/65 (tendo como parâmetro o corte atual e uma margem de erro razoável sobre a quantidade de anulações). A sua maior ou menor probabilidade dependerá do aproveitamento das questões mais polêmicas. Trata-se de mera opinião de parâmetro circunstancial de tudo que temos de informação neste momento. Em cotas, deve-se analisar o desempenho nas questões que apontamos com maior probabilidade de mudança, portanto, notas como 55/56 passam a ter chances. Em nossa experiência, constatamos um parâmetro de que a cada 2 (duas) questões anuladas a pontuação oficial de corte aumenta em 1 (um) ponto. Essa dica deve seguir como norte para definição de maiores chances de avanço no certame. Não 4 temos como cravar quantas questões efetivamente serão afetadas, mas guardem esta informação de parâmetro para verificarem suas chances reais! Aos alunos da turma do Mege para o TJTO, pedimos que não deixem de reler os conteúdos das rodadas com temas antecipados na prova. A melhor fixação será importante nos próximos desafios e também para a 2ª fase do concurso. Aos que prosseguirão, já tivemos caso de uma prova discursiva inteira tratada nas rodadas da turma de reta final para prova objetiva. Isso ocorreu, por exemplo, no TJAP, e se repete em praticamente todo TJ (boa parte da prova discursiva já é tratada desde o estudo para 1ª fase com o Mege). Como perceberam, o estudo em sprint final sempre é revertido em pontos decisivos. As turmas de reta final são um sucesso desde nossa primeira edição. O trabalho de pesquisa faz a diferença! É importante mencionar que o Clube da Magistratura, a nossa turma mais completa, é extremamente decisivo em qualquer prova (especialmente por tratar de um edital completo ao longo de 1 ano – e aqui falamos, sem qualquer receio, em todas as fases). Não fizemos maiores apontamentos sobre sua produção neste material por conta do curto tempo de comparativo temático entre a sua produção e as questões de prova (ainda dentro do prazo recursal – objetivo maior). Com a atualização constante de nossos materiais, as questões aqui tratadas já entrarão em rota de menção em nossos próximos materiais. É válido citar que, neste momento, estamos com inscrições abertas para TJCE, além do Clube da Magistratura 2025.2 e TRF1 (2ª fase). Clube da Magistratura 2025.2 CAMINHOS POSSÍVEIS APÓS A PROVA OBJETIVA DO TJTO Em nossa análise, sobre caminhos pós-prova no TJTO, entendemos que esse direcionamento esquematizado pode orientar da melhor forma. Sobre a nota de corte de ampla concorrência (estimada em 66/67 pontos), diante das polêmicas apontadas como possíveis anulações, estimamos que até 64/65 pontos seria possível imaginar uma chance de 2ª fase (com bom aproveitamento de anuladas). Uma vez que 1 ou 2 questões ainda podem ter situações modificadas pela banca (não acreditamos em mais que isso). Em cotas, 55/56 seria esse limite indicado. Na próxima sequência, preparamos um quadro esquematizado com indicações de caminhos. https://lp.mege.com.br/clube-da-magistratura-ate-passar/ 5 SE VOCÊ NÃO FOI TÃO BEM NO TJTO, NÃO SE DESESPERE! O Clube da Magistratura foi pensado para todos os níveis de concurseiro da carreira. Aos colegas que não estão dentro dessas faixas, indicamos, conforme o caso, entrar imediatamente no Clube da Magistratura (turma 2025.2). Nossa turma mais completa para quem se prepara para carreira (inclusive assinante premium ganha acesso a todas as retas finais de magistratura que atuamos). Se você presta concursos de magistratura em outros estados, o Clube da Magistratura conta com tudo que você precisa para preparação em todas as fases do concurso. Em 2025, teremos a sua melhor versão da história! Inclusive com módulo complementar para Magistratura Federal. Uma preparação completa: desde o estudo voltado para 1ª fase até correções de provas de 2ª fase de forma personalizada (com opção de acompanhamento personalizado). Vale a pena conferir! A SEGUNDA FASE É LOGO ALI! Já estamos com inscrições abertas para as turmas de 2ª fase voltadas TJTO (onde contaremos com 2 opções: com correções personalizadas e com correções por IA) focada em uma preparação completa para este desafio. Em nossas atuações vencedoras nas últimas edições de 2ª fase do TJTO (onde nossos alunos dominaram as primeiras colocações), seguimos exatamente a mesma estratégia que adotaremos no atual concurso, onde contaremos com apoio de magistrados do próprio tribunal. 6 Os links para inscrição nas turmas de 2ª fase seguem conforme abaixo (em promoção de lançamento): TJTO (2ª fase - TURMA 1: COM CORREÇÕES PERSONALIZADAS) TJTO (2ª fase - TURMA 2: COM CORREÇÕES POR IA) Agora é com vocês, vamos para análise de tudo que caiu na objetiva do TJTO. Seguiremos firmes em um trabalho realmente específico também para 2ª fase deste desafio! Arnaldo Bruno Oliveira1 Equipe Mege 1 Insta: @prof.arnaldobruno (fiquem à vontade para o envio de mensagens sobre o Mege). https://loja.mege.com.br/proposta/tjse-2025-2a-fase-turma-1-materiais-videoaulas-provas-e-correcoes-01 https://loja.mege.com.br/proposta/tjto-2025-2a-fase-turma-2-correcoes-personalizadas-por-ia 7 SUMÁRIO BLOCO I ..................................................................................................................... 8 DIREITO CIVIL ................................................................................................................ 8 DIREITO PROCESSUAL CIVIL ........................................................................................ 26 DIREITO DO CONSUMIDOR ......................................................................................... 44 DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE .................................................................o juiz da causa a pronunciar a sua revelia e a determinar a remessa dos autos ao curador especial. Na peça de bloqueio ofertada pelo curador especial, foi arguida a questão preliminar de nulidade da citação por hora certa, contestando-se o pleito autoral, já no mérito, por negação geral. Nesse contexto, é CORRETO afirmar que o juiz: (A) acertou ao determinar a remessa dos autos ao curador especial, a quem assistia razão ao arguir a nulidade da citação por hora certa; (B) acertou ao determinar a remessa dos autos ao curador especial, a quem era lícito contestar o pedido por negação geral, mas não arguir a nulidade da citação por hora certa; https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art183%C2%A71 34 (C) errou ao determinar a remessa dos autos ao curador especial, já que a hipótese ensejava o saneamento do feito, com a apreciação da pertinência das provas requeridas na inicial; (D) errou ao determinar a remessa dos autos ao curador especial, já que a hipótese ensejava a extinção do feito, por ausência de pressuposto processual de validade; (E) errou ao determinar a remessa dos autos ao curador especial, já que a hipótese ensejava a imediata prolação de sentença de mérito, com o acolhimento do pedido do autor. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS No caso apresentado, o oficial de justiça descumpriu o teor do art. 252 do CPC, que exige que, por duas vezes, o auxiliar do juízo procure o citando: Art. 252. Quando, por 2 (duas) vezes, o oficial de justiça houver procurado o citando em seu domicílio ou residência sem o encontrar, deverá, havendo suspeita de ocultação, intimar qualquer pessoa da família ou, em sua falta, qualquer vizinho de que, no dia útil imediato, voltará a fim de efetuar a citação, na hora que designar. Corretamente, contudo, determinou-se a intimação da curadoria especial para a defesa de réu revel citado por hora certa: Art. 72. O juiz nomeará curador especial ao: (...) II - réu preso revel, bem como ao réu revel citado por edital ou com hora certa, enquanto não for constituído advogado. Desse modo, o Juiz acertou ao determinar a remessa dos autos ao curador especial, a quem assistia razão ao arguir a nulidade da citação por hora certa. _____________________________________________________________________________ 22. No que se refere ao valor da causa, é CORRETO afirmar que: (A) caso seja retificado pelo juiz, de modo a importar em sua majoração, ficará o autor isento da obrigação de recolher a diferença das despesas processuais porventura apuradas; (B) deverá ser atribuído apenas às ações que tenham conteúdo econômico imediatamente aferível, sendo dispensável a sua atribuição àquelas que não o tenham; (C) deverá ser atribuído apenas às ações, sendo dispensável a sua atribuição às demandas reconvencionais; 35 (D) é dispensável a sua atribuição na petição inicial da ação indenizatória fundada em danos morais; (E) poderá ser impugnado pelo réu, por meio da arguição de preliminar em sua contestação. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS A resposta é extraída da análise conjunta dos arts. 291 a 293 do CPC: Art. 291. A toda causa será atribuído valor certo, ainda que não tenha conteúdo econômico imediatamente aferível. Art. 292. O valor da causa constará da petição inicial ou da reconvenção e será: I - na ação de cobrança de dívida, a soma monetariamente corrigida do principal, dos juros de mora vencidos e de outras penalidades, se houver, até a data de propositura da ação; II - na ação que tiver por objeto a existência, a validade, o cumprimento, a modificação, a resolução, a resilição ou a rescisão de ato jurídico, o valor do ato ou o de sua parte controvertida; III - na ação de alimentos, a soma de 12 (doze) prestações mensais pedidas pelo autor; IV - na ação de divisão, de demarcação e de reivindicação, o valor de avaliação da área ou do bem objeto do pedido; V - na ação indenizatória, inclusive a fundada em dano moral, o valor pretendido; VI - na ação em que há cumulação de pedidos, a quantia correspondente à soma dos valores de todos eles; VII - na ação em que os pedidos são alternativos, o de maior valor; VIII - na ação em que houver pedido subsidiário, o valor do pedido principal. § 1º Quando se pedirem prestações vencidas e vincendas, considerar-se-á o valor de umas e outras. § 2º O valor das prestações vincendas será igual a uma prestação anual, se a obrigação for por tempo indeterminado ou por tempo superior a 1 (um) ano, e, se por tempo inferior, será igual à soma das prestações. § 3º O juiz corrigirá, de ofício e por arbitramento, o valor da causa quando verificar que não corresponde ao conteúdo patrimonial em discussão ou ao proveito econômico perseguido pelo autor, caso em que se procederá ao recolhimento das custas correspondentes. 36 Art. 293. O réu poderá impugnar, em preliminar da contestação, o valor atribuído à causa pelo autor, sob pena de preclusão, e o juiz decidirá a respeito, impondo, se for o caso, a complementação das custas. Desse modo, a única alternativa correta é a letra E, uma vez que o valor da causa poderá ser impugnado pelo réu, por meio da arguição de preliminar em sua contestação, sob pena de preclusão. _____________________________________________________________________________ Texto 1 Um adolescente de 17 anos de idade ajuizou demanda em que pleiteava a condenação da parte ré, uma instituição de ensino superior, a efetivar a sua matrícula no curso universitário para o qual fora aprovado no certame seletivo, bem como a lhe pagar verba indenizatória de danos morais, no montante correspondente a 15 salários mínimos. O autor da ação, em sua petição inicial, alegou que a recusa da ré violava a legislação de regência e que, caso não fosse imediatamente realizada a sua matrícula, perderia todo o semestre de estudos. Apreciando a peça exordial, o juiz entendeu que estavam presentes os requisitos para a concessão da tutela provisória ali requerida. Além disso, o magistrado, atentando-se para os documentos anexados pelo demandante, constatou que o instrumento de mandato ad judicia outorgado ao seu advogado havia sido firmado apenas pelo menor, sem que contivesse a assinatura de pelo menos um de seus representantes legais. 23. No caso da situação relatada no texto 1, deverá o juiz: (A) conceder a tutela provisória e, diante da regularidade da representação processual do autor, proceder ao juízo positivo de admissibilidade da ação, ordenando a citação da parte ré; (B) conceder a tutela provisória, mas, antes do juízo positivo de admissibilidade da ação, determinar a intimação do autor para regularizar a sua representação processual; (C) determinar a intimação do autor para regularizar a sua representação processual e, só após, apreciar o seu requerimento de concessão de tutela provisória; (D) indeferir de plano a petição inicial, diante da irregularidade da representação processual do autor; (E) proceder ao declínio de competência em favor de um dos juizados especiais cíveis da mesma comarca. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS 37 Em regra, o incapaz não dispõe de capacidade de estar em Juízo sem a devida assistência ou representação. É o que se extrai do art. 71 do CPC: “O incapaz será representado ou assistido por seus pais, por tutor ou por curador, na forma da lei”. Antes de determinar, portanto, a regularização da representação processual da parte autora (art. 76 do CPC), deve o Magistrado apreciar a tutela de urgência, a fim de evitar perecimento de direito do autor incapaz, com fundamento no art. 104 do CPC: Art. 104. O advogado não será admitido a postular em juízo sem procuração, salvo para evitar preclusão,decadência ou prescrição, ou para praticar ato considerado urgente. Dessa forma, presentes os requisitos autorizadores da tutela de urgência, cabe ao Juiz conceder a tutela provisória, mas, antes do juízo positivo de admissibilidade da ação, determinar a intimação do autor para regularizar a sua representação processual. _____________________________________________________________________________ 24. No caso da situação relatada no texto 1, a tutela provisória requerida na petição inicial ostenta a natureza da tutela: (A) antecipada de urgência; (B) antecipada de evidência; (C) cautelar de urgência; (D) cautelar de evidência; (E) cautelar satisfativa. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS Prevê o art. 300 do CPC que a tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo. No caso, a tutela é de urgência, e não de evidência, uma vez que há risco concreto de dano ao resultado útil do processo caso não apreciada e deferida de plano pelo Juiz. Pretende o autor, em verdade, antecipar os efeitos de eventual provimento jurisdicional de mérito, notadamente a matrícula, para que não perca o semestre respectivo. Não se busca, pois, assegurar um direito e garantir a sua efetividade (tutela cautelar), mas sim, mediante caráter satisfativo, antecipar os efeitos da decisão final, satisfazendo a totalidade do direito pleiteado (tutela antecipada). O gabarito, portanto, é a letra A, por se tratar de tutela antecipada de urgência. 38 _____________________________________________________________________________ 25. Nos autos físicos de processo relativo a uma ação de reintegração de posse de força nova, o litisconsorte passivo André ofertou a sua contestação no quinto dia do prazo de que dispunha para fazê-lo, tendo invocado teses defensivas de cunho exclusivamente meritório. Mas, no décimo dia do seu prazo, o mesmo réu protocolizou nova petição, na qual requeria a extinção do feito sem resolução do mérito, por não estar presente, em sua ótica, o interesse de agir. Já o outro litisconsorte passivo, Bruno, assistido por patrono diverso, integrante de escritório de advocacia distinto, apresentou peça contestatória, no décimo quinto dia de seu prazo, na qual, do mesmo modo, somente veiculou argumentos afetos ao mérito da causa. Na sequência, o juiz proferiu sentença por meio da qual acolhia o pedido do autor, sem que tivesse apreciado a questão suscitada na segunda petição do réu André. Transcorridos nove dias úteis depois da ultimação do ato intimatório, André interpôs recurso de embargos de declaração, alegando que o órgão judicial havia incorrido em omissão ao não apreciar a questão preliminar de falta de interesse de agir. Após, efetivou-se a intimação do autor para contra-arrazoar os embargos declaratórios. Nesse cenário, os embargos de declaração manejados: (A) não deverão ser conhecidos, dado o seu descabimento em sede de procedimentos especiais; (B) não deverão ser conhecidos, dada a sua intempestividade; (C) deverão ser conhecidos e desprovidos, dada a preclusão consumativa operada em desfavor de André, a impedir que o tema da falta de interesse de agir seja apreciado pelo juiz; (D) deverão ser conhecidos e desprovidos, dada a preclusão lógica operada em desfavor de André, a impedir que o tema da falta de interesse de agir seja apreciado pelo juiz; (E) deverão ser conhecidos e providos, sendo admissível a atribuição de eficácia modificativa ao recurso interposto por André. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE RECURSO. Via de regra, na forma do art. 1.023 do CPC, os embargos serão opostos, no prazo de 5 (cinco) dias, em petição dirigida ao juiz, com indicação do erro, obscuridade, contradição ou omissão, e não se sujeitam a preparo. 39 No caso apresentado, os litisconsortes dispõem de prazo em dobro, por se tratar de processo físico, para todas as manifestações: Art. 229. Os litisconsortes que tiverem diferentes procuradores, de escritórios de advocacia distintos, terão prazos contados em dobro para todas as suas manifestações, em qualquer juízo ou tribunal, independentemente de requerimento. (...) § 2º Não se aplica o disposto no caput aos processos em autos eletrônicos. O recurso de embargos de declaração, portanto, oposto no prazo de nove dias úteis, é tempestivo, porquanto André dispunha de prazo em dobro. Quanto ao mérito do recurso, não há de se afastar preclusão consumativa operada em desfavor de André, que deveria concentrar todas as teses defensivas em uma única peça de defesa. Ao juntar aos autos sua contestação, não lhe é dado complementá-la, por força do instituto da preclusão consumativa. Nesse sentido: REsp 1840561 / SP, DJe 17/05/2022. Por outro lado, à luz do entendimento do STJ, "as matérias de ordem pública (e.g. prescrição, decadência, condições da ação, pressupostos processuais, consectários legais, incompetência absoluta, impenhorabilidade, etc) não se sujeitam à preclusão, podendo/devendo ser apreciadas a qualquer momento e de ofício nas instâncias ordinárias" (REsp 1.809.145/DF, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 19/5/2020, DJe de 27/5/2020). Desse modo, a despeito da preclusão consumativa, o juiz da causa poderia apreciar, de ofício, eventual ausência de condições da ação, notadamente do interesse processual. Não é possível depreender, portanto, que a letra C esteja correta, uma vez que, mesmo com a preclusão consumativa, o tema da falta de interesse de agir pode ser apreciado pelo juiz de ofício. Também não há, contudo, como se reputar correta a letra E, uma vez que não há, propriamente, omissão do juiz em não analisar tese defensiva acobertada pela preclusão consumativa, a despeito de poder apreciar a matéria de ofício. Sendo assim, considerando que a questão dá margem a interpretações variadas e que não há resposta correta, deve ser anulada. _____________________________________________________________________________ 26. Intentada ação em que a parte autora pleiteava a condenação do réu a cumprir uma obrigação contratual, este, depois de validamente citado, apresentou contestação, suscitando questões preliminares e meritórias. Encerrada a fase postulatória, o juiz da causa de imediato procedeu ao julgamento antecipado do mérito, rejeitando os argumentos defensivos do réu e proferindo sentença em que acolhia, na íntegra, o pedido do demandante. Tendo o demandado interposto recurso de apelação, o órgão fracionário do Tribunal dele conheceu, negando-lhe, contudo, provimento, após o que adveio o trânsito em julgado. 40 Instaurada a fase procedimental de cumprimento de sentença, o réu, depois de regularmente intimado, ofertou no prazo legal a sua impugnação, alegando e comprovando que já havia efetuado o pagamento da obrigação cobrada. Acrescentou ele que, embora não tivesse invocado esse argumento defensivo em sua precedente contestação, trata-se de fato extintivo do direito do autor, matéria cognoscível ex officio pelo órgão judicial. Nesse quadro, caberá ao juiz: (A) conhecer da matéria defensiva arguida na impugnação ao cumprimento de sentença, mas rejeitá-la em seu mérito, ressalvando a faculdade do devedor de suscitá-la em sede de embargos à execução; (B) deixar de conhecer da matéria defensiva arguida na impugnação ao cumprimento de sentença, ressalvando a faculdade do devedor de suscitá-la em sede de ação rescisória; (C) deixar de conhecer da matéria defensiva arguida na impugnação ao cumprimento de sentença; (D) conhecer da matéria defensiva arguida na impugnação ao cumprimento de sentença, mas rejeitá-la em seu mérito; (E) conhecer da matéria defensiva arguida na impugnação aocumprimento de sentença, acolhendo-a em seu mérito. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS Conforme previsão do art. 525, §1º, inciso VII, do CPC, Art. 525, §1º, VII, CPC: “Transcorrido o prazo previsto no art. 523 sem o pagamento voluntário, inicia-se o prazo de 15 (quinze) dias para que o executado, independentemente de penhora ou nova intimação, apresente, nos próprios autos, sua impugnação. § 1º Na impugnação, o executado poderá alegar: (...) VII - qualquer causa modificativa ou extintiva da obrigação, como pagamento, novação, compensação, transação ou prescrição, desde que supervenientes à sentença”. Desse modo, considerando que a causa extintiva da obrigação (pagamento) não é superveniente à sentença, não é dado ao executado alegá-la na impugnação ao cumprimento de sentença. A tese, portanto, não deve ser conhecida pelo Juiz. _____________________________________________________________________________ 27. Antônio, munido de um título executivo extrajudicial, ajuizou ação de execução em face de Bernardo. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art523 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art523 41 Tendo o executado se quedado inerte, a despeito da validade de sua citação, Antônio indicou à penhora um imóvel, alegando se tratar de bem de propriedade do demandado, o que foi deferido pelo juiz. Por sua vez, Carlos, tomando ciência do feito executivo, intentou ação de embargos de terceiro, estribando-se no argumento de que era ele o verdadeiro proprietário do imóvel, sendo, portanto, ilegítimo o ato de constrição. Em sua petição inicial, Carlos incluiu no polo passivo da ação Antônio e Bernardo, respectivamente, o demandante e o demandado no processo de execução. Apreciando a peça exordial dos embargos de terceiro, o magistrado, embora tenha procedido ao juízo positivo de admissibilidade da demanda, determinou a exclusão de Bernardo da relação processual. Intimado dessa decisão, Carlos interpôs recurso de agravo de instrumento, pleiteando a sua reforma para o fim de que prevalecesse o entendimento acerca da necessidade da integração de Bernardo ao processo. Nesse contexto, o agravo de instrumento manejado: (A) não deverá ser conhecido pelo órgão ad quem, dada a sua incompatibilidade com o procedimento especial da ação de embargos de terceiro; (B) não deverá ser conhecido pelo órgão ad quem, dado o seu descabimento para impugnar a decisão interlocutória proferida; (C) não deverá ser conhecido pelo órgão ad quem, dada a falta de legitimidade recursal; (D) deverá ser conhecido, porém desprovido pelo órgão ad quem; (E) deverá ser conhecido e provido pelo órgão ad quem. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS No caso apresentado, por se tratar de decisão que determinou a exclusão de litisconsorte, cabe agravo de instrumento para impugná-la: Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre: (...) VII - exclusão de litisconsorte; Ademais, procedeu com acerto o Juiz ao determinar a exclusão de Bernardo do polo passivo, uma vez que o executado não indicou o bem à penhora e, portanto, não deve ser considerado litisconsorte passivo nos embargos de terceiro: Art. 677, § 4º Será legitimado passivo o sujeito a quem o ato de constrição aproveita, assim como o será seu adversário no 42 processo principal quando for sua a indicação do bem para a constrição judicial. O recurso, portanto, deverá ser conhecido, porém desprovido pelo órgão ad quem. _____________________________________________________________________________ 28. A modalidade de intervenção de terceiros por meio da qual se viabiliza ao autor ou ao réu o exercício do direito que lhes assiste, em face do alienante imediato, por conta da evicção, é: (A) chamamento ao processo; (B) assistência simples; (C) assistência litisconsorcial; (D) denunciação da lide; (E) oposição. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS A conceituação diz respeito à denunciação da lide, na forma do art. 125, I, do CPC: Art. 125. É admissível a denunciação da lide, promovida por qualquer das partes: I - ao alienante imediato, no processo relativo à coisa cujo domínio foi transferido ao denunciante, a fim de que possa exercer os direitos que da evicção lhe resultam; II - àquele que estiver obrigado, por lei ou pelo contrato, a indenizar, em ação regressiva, o prejuízo de quem for vencido no processo. _____________________________________________________________________________ 29. Alguns meses depois de ter agredido Caio, causando-lhe graves lesões corporais, Tício foi denunciado pelo órgão do Ministério Público como incurso nas sanções penais correspondentes ao delito praticado. Após a tramitação do processo penal, foi proferida sentença condenatória em desfavor de Tício, a qual, à míngua de interposição de qualquer recurso, transitou em julgado. Uma vez já liquidados, no juízo cível, os valores das verbas indenizatórias a que fazia jus, totalizando a importância de duzentos mil reais, Caio deduziu pretensão de cumprimento de sentença em face de Tício, que, regularmente intimado, não pagou a verba nem indicou bens à penhora. 43 Na sequência, Caio indicou à constrição judicial o imóvel de propriedade de Tício, que, tão logo ciente, invocou a sua impenhorabilidade, alegando, para tanto, tratar-se de bem de família. Após o cotejo entre os argumentos veiculados por ambas as partes, o juiz, verificando que o imóvel indicado por Caio era o único integrante do patrimônio de Tício, servindo- lhe, ademais, de residência, concluiu tratar-se de bem de família. Daí ter o magistrado proferido decisão em que pronunciava a sua impenhorabilidade. Nesse cenário, é CORRETO afirmar que: (A) se, antes do oferecimento da denúncia, Caio tivesse intentado ação civil ex delicto, o juiz, ao ser informado da posterior instauração do processo penal, deveria ter julgado extinto o feito cível, dada a perda superveniente do interesse de agir; (B) o juiz deveria ter indeferido a petição em que se deduziu a pretensão de cumprimento de sentença, já que somente o acórdão penal condenatório constitui título executivo judicial, mas não a sentença penal de primeira instância; (C) a decisão que pronunciou a impenhorabilidade do bem indicado à penhora é impugnável pelo recurso de agravo de instrumento, que, caso seja interposto por Caio, deverá ser provido pelo órgão ad quem; (D) a decisão que pronunciou a impenhorabilidade do bem indicado à penhora é impugnável pelo recurso de apelação, que, caso seja interposto por Caio, deverá ser desprovido pelo órgão ad quem; (E) a decisão que pronunciou a impenhorabilidade do bem indicado à penhora é insuscetível de impugnação por qualquer via recursal típica, podendo Caio valer-se da ação de mandado de segurança para submeter a questão ao órgão ad quem. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Art. 313. Suspende-se o processo: (...) V - quando a sentença de mérito: a) depender do julgamento de outra causa ou da declaração de existência ou de inexistência de relação jurídica que constitua o objeto principal de outro processo pendente; A hipótese, portanto, é de suspensão do processo, e não de sua extinção. (B) INCORRETA. Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar- se-á de acordo com os artigos previstos neste Título: (...) 44 VI - a sentença penal condenatória transitada em julgado; Não há qualquer exigência de que se trate de acórdão, bastando que seja sentença penal condenatória transitada em julgado. (C) CORRETA. O recurso cabível para impugnara decisão, de fato, é o agravo de instrumento, na forma do art. 1015, parágrafo único, do CPC: Também caberá agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e no processo de inventário. O recurso deve ser provido pelo Tribunal, por se tratar de cumprimento de sentença penal condenatória com pleito de ressarcimento de danos causados, a teor do art. 3º, VI, da Lei 8.009/90: Art. 3º A impenhorabilidade é oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal, previdenciária, trabalhista ou de outra natureza, salvo se movido: (...) VI - por ter sido adquirido com produto de crime ou para execução de sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de bens. (D) INCORRETA. Vide alternativa C. (E) INCORRETA. Vide alternativa C. _____________________________________________________________________________ DIREITO DO CONSUMIDOR 30. Em relação à defesa do consumidor em juízo, o Código de Defesa do Consumidor estabelece que: (A) têm legitimidade concorrente para a propositura de ações coletivas as entidades e órgãos com personalidade jurídica da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos pelo Código; (B) a pretensão à reparação civil por danos causados a consumidores fundada em lesão a direitos difusos ou coletivos prescreve em dez anos, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria; (C) na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou de não fazer, a condenação do réu à indenização por perdas e danos exclui a condenação ao pagamento de multa; (D) o Ministério Público poderá ajuizar ação coletiva visando ao controle abstrato e preventivo das cláusulas contratuais gerais que se mostrem abusivas para o consumidor; 45 (E) a ação de regresso proposta por comerciante em face do fabricante poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a possibilidade de prosseguir nos mesmos autos, vedada a denunciação da lide. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. O erro da assertiva está na previsão de entidades e órgãos “com personalidade jurídica”, pois não há essa previsão no art. 82, III, do CDC; Art. 82, III - as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este código; Aparentemente, a assertiva foi escrita de forma dúbia, até parece ter havido erro de redação. De toda forma, como há disparidade literal com a redação do inciso III acima transcrito, entende-se por sua incorreção. (B) INCORRETA. O CDC só prevê um tipo de prazo de prescrição, no art. 27, restrito às pretensões de responsabilidade por fato do produto ou do serviço. Para as ações coletivos, nem o CDC nem a Lei de Ação Civil Pública preveem prazo prescricional específico muito menos único para toda e qualquer lesão a direitos difusos e coletivos. (C) INCORRETA. Na verdade, o art. 84, par. 2º, preceitua que a indenização por perdas e danos não afasta a multa: Art. 84, § 2° A indenização por perdas e danos se fará sem prejuízo da multa (art. 287, do Código de Processo Civil). (D) INCORRETA. Embora o conteúdo em si da assertiva esteja correto, é necessário se ater ao enunciado, que restringe as perguntas: “o Código de Defesa do Consumidor estabelece que”. A possibilidade de o Ministério Público ingressar com ação coletiva para controle abstrato e preventivo de cláusulas contratuais abusivas é construção jurisprudencial: O controle judicial de práticas e cláusulas abusivas faz-se in concreto ou in abstracto. Como o Direito do Consumidor caracteriza-se por axiomática ojeriza à lesão consumada - daí ser disciplina de riscos mais do que disciplina de danos -, a atuação dos órgãos administrativos, do Ministério Público e do próprio Poder Judiciário deve buscar, ao máximo e prioritariamente, evitar que prejuízos efetivos aconteçam, muitos deles dependentes de custosa e difícil, quando não impossível, restauração ao statu quo ante ou indenização. Logo, a implementação do controle abstrato de práticas e cláusulas abusivas independe de reclamação de um ou vários 46 consumidores, já que investigação e eventual acionamento judicial acerca de anomalias negociais precisam se antecipar à consumação do ilícito (modelo de controle preventivo) em vez de esperarem pela materialização dos malefícios (modelo de controle remediador ou, na linguagem popular, modelo do "leite derramado"). (AgInt no AgInt no AREsp n. 2.322.703/RN, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 20/5/2024, DJe de 4/6/2024.) (E) CORRETA. Trata-se de previsão legal expressa conjugada pelos arts. 13, parágrafo único, e 88 do CDC: Art. 13, Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação do evento danoso. Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único deste código, a ação de regresso poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a denunciação da lide. _____________________________________________________________________________ 31. A vigilância sanitária do Estado do Tocantins, após recebimento de denúncias, realizou inspeção nas instalações da fábrica de produção de fertilizantes de Indústrias Químicas Dianópolis S/A e constatou a adição de substâncias proscritas no Brasil no processo de elaboração de alguns fertilizantes para lavouras de cana-de-açúcar e algodão. Diante da narrativa, em relação às sanções administrativas previstas no CDC, é CORRETO afirmar que: (A) as penas de cassação de alvará de licença, de interdição e de suspensão temporária da atividade serão aplicadas mediante procedimento administrativo, assegurada a ampla defesa, tenha ou não havido reincidência do fornecedor; (B) a sanção de proibição de fabricação de produto pode ser aplicada pela autoridade administrativa estadual, inclusive por medida cautelar, antecedente ou incidente de procedimento administrativo; (C) apenas a ANVISA poderá aplicar sanções administrativas à companhia, tendo em vista ser competência exclusiva da União ou de suas autarquias, não concorrente com estados e municípios; (D) a competência originária para aplicar sanções administrativas em face da companhia é do município onde o produto é fabricado e, subsidiariamente, do estado ou da União, de modo concorrente para estes entes; 47 (E) a sanção administrativa de inutilização de produtos pode ser aplicada no momento da autuação, independentemente da instauração de procedimento administrativo, assegurada a ampla defesa. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS Art. 56. As infrações das normas de defesa do consumidor ficam sujeitas, conforme o caso, às seguintes sanções administrativas, sem prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em normas específicas: I - multa; II - apreensão do produto; III - inutilização do produto; IV - cassação do registro do produto junto ao órgão competente; V - proibição de fabricação do produto; VI - suspensão de fornecimento de produtos ou serviço; VII - suspensão temporária de atividade; VIII - revogação de concessão ou permissão de uso; IX - cassação de licença do estabelecimento ou de atividade; X - interdição, total ou parcial, de estabelecimento, de obra ou de atividade; XI - intervenção administrativa; XII - imposição de contrapropaganda. Parágrafo único. As sanções previstas neste artigo serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbitode sua atribuição, podendo ser aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar, antecedente ou incidente de procedimento administrativo. Art. 58. As penas de apreensão, de inutilização de produtos, de proibição de fabricação de produtos, de suspensão do fornecimento de produto ou serviço, de cassação do registro do produto e revogação da concessão ou permissão de uso serão aplicadas pela administração, mediante procedimento administrativo, assegurada ampla defesa, quando forem constatados vícios de quantidade ou de qualidade por inadequação ou insegurança do produto ou serviço. Art. 59. As penas de cassação de alvará de licença, de interdição e de suspensão temporária da atividade, bem como a de intervenção administrativa, serão aplicadas mediante procedimento administrativo, assegurada ampla defesa, 48 quando o fornecedor reincidir na prática das infrações de maior gravidade previstas neste código e na legislação de consumo. § 1° A pena de cassação da concessão será aplicada à concessionária de serviço público, quando violar obrigação legal ou contratual. § 2° A pena de intervenção administrativa será aplicada sempre que as circunstâncias de fato desaconselharem a cassação de licença, a interdição ou suspensão da atividade. § 3° Pendendo ação judicial na qual se discuta a imposição de penalidade administrativa, não haverá reincidência até o trânsito em julgado da sentença. (A) INCORRETA. Art. 59, caput, do CDC. (B) CORRETA. Art. 56, parágrafo único, do CDC. (C) INCORRETA. Art. 56, parágrafo único, do CDC. (D) INCORRETA. Art. 56, parágrafo único, do CDC. (E) INCORRETA. Art. 58 do CDC. _____________________________________________________________________________ 32. Nazaré, na condição de superendividada, requereu a instauração de processo de repactuação de dívidas de consumo. Na audiência conciliatória, a consumidora propôs a dilação de pagamento pelo prazo de cinco anos e considerou o não comprometimento do valor de R$ 600,00 como mínimo existencial. O credor, Banco Itaguatins S/A, impugnou sua inclusão no rol apresentado pela consumidora sob justificativa de ser o crédito proveniente de mútuo garantido pelo penhor de joias. É fato inconteste que o crédito é decorrente de relação de consumo. Considerando-se os fatos narrados, o crédito do Banco Itaguatins deve ser: (A) mantido no rol de credores, em razão de ser decorrente de relação de consumo; (B) excluído do rol de credores, em razão de ser titularizado por instituição financeira; (C) excluído do rol de credores, em razão de estar garantido pelo penhor de joias, mesmo que seja decorrente de relação de consumo; (D) mantido no rol de credores, em razão de ser decorrente de relação de consumo; todavia, o valor reservado a título de mínimo existencial deve ser revisto para o equivalente a 50% do valor do salário mínimo; (E) mantido no rol de credores, em razão de ser decorrente de relação de consumo; todavia, o valor reservado a título de mínimo existencial deve ser revisto para o equivalente a 25% do valor do salário mínimo. _______________________________________________________________________ GABARITO: C 49 COMENTÁRIOS Inicialmente, é imperioso destacar que o penhor é um dos direitos reais, nos termos do art. 1.225, VIII, do Código Civil. Para a resolução da questão, há de se verificar as dívidas excluídas da fase conciliatória do processo de repactuação de dívidas: Art. 104-A. § 1º Excluem-se do processo de repactuação as dívidas, ainda que decorrentes de relações de consumo, oriundas de contratos celebrados dolosamente sem o propósito de realizar pagamento, bem como as dívidas provenientes de contratos de crédito com garantia real, de financiamentos imobiliários e de crédito rural. Correta, assim, alternativa C. _____________________________________________________________________________ 33. Wander adquiriu um veículo automotor novo num estabelecimento da rede de concessionárias do fabricante Bagnole. Decorridos dois meses do início do uso do produto, Wander percebeu um defeito no funcionamento do motor e o reportou ao fabricante. A peça foi substituída pela concessionária após testes com equipamentos do fabricante, mas o problema no motor persistiu. Após tentativas infrutíferas de solução durante seis meses, Wander pleiteou em juízo a restituição do valor pago com juros de mora. Considerando-se a narrativa, é CORRETO afirmar que Wander: (A) não faz jus à restituição ou abatimento do preço porque o defeito foi sanado pela substituição da peça pela concessionária; (B) não faz jus à restituição do preço, e sim à substituição do veículo, pois o produto não se tornou inadequado ao consumo, tanto que foi utilizado após a substituição da peça; (C) tem direito apenas ao abatimento proporcional do preço do veículo, e sem a incidência de juros de mora, em razão de ter continuado a utilizar o veículo após a substituição da peça; (D) tem direito à restituição do preço do veículo, mas sem a incidência de juros de mora, em razão de ter continuado a utilizar o veículo após a substituição da peça, o que compensa qualquer dano; (E) tem direito à restituição do preço do veículo, inclusive com incidência de juros de mora, em razão de o fabricante não ter dado solução definitiva ao problema após o decurso de 30 dias, persistindo o inadimplemento. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS 50 O enunciado veicula uma situação de vício do produto, haja vista que se trata de problema intrínseco, não havendo narrativa de risco à saúde ou à segurança do consumidor. Trata-se de produto durável (veículo automotor) e de vício oculto, dado que apenas foi descoberto após dois meses após o início do uso do produto. Assim, nos termos do art. 26, II e par. 3º, o consumidor procurou o fornecedor para sanar o vício dentro do prazo decadencial. A hipótese acima, assim, aloca-se no art. 18, par. 1º, do CDC. Embora tenha havido a troca inicial do motor, o problema persistiu (não foi sanado), razão pela qual se abriu para o consumidor as alternativas dos seus incisos. A escolha é privativa do consumidor (“pode o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha”). Diante do exposto, estão incorretas as alternativas A, B e C. Segundo o inciso II, o consumidor pode optar pela restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos. Assim, são devidos juros de mora. Correta assertiva E. _____________________________________________________________________________ 34. A Lei nº 9.656/1998, ao regulamentar os planos e seguros privados de assistência à saúde, contempla várias disposições de proteção aos direitos do consumidor, dentre elas: (A) a vedação à exclusão de cobertura às doenças e lesões preexistentes à data de contratação de plano privado de assistência à saúde após 24 meses de vigência do instrumento contratual, cabendo à respectiva operadora o ônus da prova e da demonstração do conhecimento prévio do consumidor ou beneficiário; (B) a garantia da inscrição como segurado de filho adotivo, menor de 18 anos de idade, aproveitando os períodos de carência já cumpridos pelo consumidor adotante; (C) a obrigatoriedade de que a substituição de qualquer prestador de serviço de saúde como contratado, referenciado ou credenciado ao plano de saúde por outro prestador equivalente seja comunicada aos consumidores com 90 dias de antecedência; (D) a exigência de que a marcação de consultas, exames e quaisquer outros procedimentos seja feita de forma a atender às necessidades dos consumidores, privilegiando os casos de emergência ou urgência, assim como as pessoas com mais de 60 anos de idade, as gestantes, lactantes, lactentes e crianças até 2 anos; (E) o entendimento de que os administradores e membros dos conselhos administrativos, deliberativos,consultivos, fiscais e assemelhados das operadoras de plano privado de assistência à saúde respondem objetivamente e subsidiariamente pelos prejuízos causados a terceiros, inclusive aos consumidores de planos privados de assistência à saúde, em consequência do descumprimento de leis, normas e instruções 51 referentes às operações previstas na legislação e, em especial, pela falta de constituição e cobertura das garantias obrigatórias. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS (A) CORRETA. Art. 11. É vedada a exclusão de cobertura às doenças e lesões preexistentes à data de contratação dos produtos de que tratam o inciso I e o § 1o do art. 1º desta Lei após vinte e quatro meses de vigência do aludido instrumento contratual, cabendo à respectiva operadora o ônus da prova e da demonstração do conhecimento prévio do consumidor ou beneficiário. (B) INCORRETA. Art. 12, VII - inscrição de filho adotivo, menor de doze anos de idade, aproveitando os períodos de carência já cumpridos pelo consumidor adotante. (C) INCORRETA. Art. 17. A inclusão de qualquer prestador de serviço de saúde como contratado, referenciado ou credenciado dos produtos de que tratam o inciso I e o § 1o do art. 1o desta Lei implica compromisso com os consumidores quanto à sua manutenção ao longo da vigência dos contratos, permitindo-se sua substituição, desde que seja por outro prestador equivalente e mediante comunicação aos consumidores com 30 (trinta) dias de antecedência. (D) INCORRETA. Art. 18, II - a marcação de consultas, exames e quaisquer outros procedimentos deve ser feita de forma a atender às necessidades dos consumidores, privilegiando os casos de emergência ou urgência, assim como as pessoas com mais de sessenta e cinco anos de idade, as gestantes, lactantes, lactentes e crianças até cinco anos; (E) INCORRETA. Art. 26. Os administradores e membros dos conselhos administrativos, deliberativos, consultivos, fiscais e assemelhados das operadoras de que trata esta Lei respondem solidariamente pelos prejuízos causados a terceiros, inclusive aos acionistas, cotistas, cooperados e consumidores de planos privados de assistência à saúde, conforme o caso, em 52 conseqüência do descumprimento de leis, normas e instruções referentes às operações previstas na legislação e, em especial, pela falta de constituição e cobertura das garantias obrigatórias. _____________________________________________________________________________ 35. Miracema ajuizou ação de indenização em face da Operadora de Planos de Saúde Lajeado Ltda. A autora é associada do plano de saúde desde 07/10/1997 e, nesse interregno, sempre cumpriu com as obrigações contratuais. Em 01/01/2023, por decisão unilateral da operadora, Miracema foi desligada do plano de saúde original e incluída em outro plano, o qual estabelecia, diferentemente do anterior, que a assistência médico- hospitalar seria prestada apenas por estabelecimento da rede fidelizada, e não mais da rede credenciada. Em caso de realização de serviços na rede credenciada, o consumidor deveria efetuar o pagamento parcial das despesas, e o reembolso obedeceria à tabela imposta pela operadora. Em 27/09/2024, Miracema precisou realizar cirurgia de grande porte para tratamento de doença preexistente e foi internada no Hospital Tupiratins Ltda., que integrava a rede credenciada da operadora na data da contratação do plano, mas não integrava a rede fidelizada na época da internação. A operadora negou-se a efetuar os pagamentos integrais, sob a alegação de que o referido nosocômio não fazia parte da relação de estabelecimentos da rede de atendimento aplicável à consumidora para tal fim, prontificando-se a pagar parcialmente os valores referenciados na tabela. Considerando-se os fatos narrados, é CORRETO afirmar que a modificação contratual é: (A) válida e oponível à consumidora porque ela não se manifestou no prazo legal de 30 dias, a contar da vigência do novo plano, no sentido de denunciar o contrato de adesão; (B) nula e abusiva, por restringir o reembolso integral à assistência prestada por estabelecimento fidelizado, de modo que a operadora deve efetuar o pagamento integral; (C) válida, em razão de a doença que motivou a internação da consumidora ser preexistente; portanto, nesse caso, a operadora pode alterar unilateralmente a rede de atendimento; (D) nula, porque não foi dada a oportunidade de a consumidora se manifestar sobre a alteração do plano, de modo que a operadora deve efetuar o pagamento a título de reembolso com base na tabela adotada; (E) válida, pois constou de maneira expressa, clara e objetiva que a consumidora deveria arcar com parte do pagamento se utilizasse serviços médicos em estabelecimento fora da rede fidelizada. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS 53 A questão demanda dispositivos da Lei n. 12.414/2011 (Lei do Cadastro Positivo), notadamente seus arts. 4º e 6º: Art. 4º O gestor está autorizado, nas condições estabelecidas nesta Lei, a: I - abrir cadastro em banco de dados com informações de adimplemento de pessoas naturais e jurídicas; II - fazer anotações no cadastro de que trata o inciso I do caput deste artigo; III - compartilhar as informações cadastrais e de adimplemento armazenadas com outros bancos de dados; e IV - disponibilizar a consulentes: a) a nota ou pontuação de crédito elaborada com base nas informações de adimplemento armazenadas; e b) o histórico de crédito, mediante prévia autorização específica do cadastrado. Art. 6º Ficam os gestores de bancos de dados obrigados, quando solicitados, a fornecer ao cadastrado: IV - indicação de todos os consulentes que tiveram acesso a qualquer informação sobre ele nos 6 (seis) meses anteriores à solicitação. I. INCORRETA. Para a disponibilização de histórico de crédito, o gestor necessita de prévia autorização do cadastrado (art. 4º, IV, b). II. CORRETA. Art. 4º, III. III. INCORRETA. Art. 6º, IV. _____________________________________________________________________________ DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 36. Junior, menor impúbere, devidamente representado, propôs demanda contra o município em que reside, tendo por objeto sua matrícula em creche da rede municipal. O infante foi diagnosticado com transtorno do espectro autista e, atualmente, tem 3 anos de idade. Pleiteia-se o acesso à creche próxima de sua residência, no mesmo estabelecimento frequentado por seu irmão mais novo, Gabriel. Em sua defesa, o município argui preliminar de ilegitimidade passiva e, no mérito, sustenta a impossibilidade de abertura de vagas em creche por restrições orçamentárias. Considerando-se o caso proposto, a jurisprudência dos Tribunais Superiores e a legislação aplicável, é CORRETO afirmar que: (A) prospera a preliminar, pois a obrigação de atender à criança compete ao ente estadual, uma vez que, por força de lei, cabe ao estado a criação de classes específicas para crianças e adolescentes com deficiência em sua rede de ensino; (B) o direito à creche em favor do infante está assegurado por normas constitucionais de eficácia plena e aplicabilidade direta e imediata; 54 (C) a educação infantil, em creche e pré-escola, deve ser prestada pela municipalidade; entretanto, sua implementação estaria condicionada a critérios orçamentários e administrativos, respeitada a discricionariedade do Poder Executivo; (D) a educação é direito subjetivo da criança, sendo dever do estado criar condições para garantir o acesso à educação pública e gratuita, preferencialmente próximo à residência; contudo, não há obrigação da municipalidade de matricular ambos os infantes na mesma unidade educacional; (E) é cabível a condenação do município à obrigação, haja vista serseu dever assegurar o atendimento educacional gratuito aos educandos com deficiência e com transtornos globais do desenvolvimento, preferencialmente em instituições especializadas de ensino, a fim de desenvolverem sua capacidade cognitiva de acordo com suas especificidades. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS Segundo a Corte Suprema, a educação infantil é direito subjetivo assegurado no próprio texto constitucional, mediante norma de aplicabilidade direta e eficácia plena, isto é, sem a necessidade de regulamentação pelo Poder Legislativo. Nesse contexto, os entes municipais, por meio de políticas públicas eficientes, são primariamente responsáveis por proporcionar a concretização da educação infantil mediante a adoção de políticas públicas eficientes, que devem alcançar especialmente a população mais vulnerável. Eventual omissão estatal na matéria revela uma violação direta ao texto constitucional, não se podendo considerar que o oferecimento da educação infantil seja algo que está sujeito a avaliações meramente discricionárias da Administração Pública. Existe, portanto, um dever constitucional de assegurar o atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a cinco anos de idade (art. 208, IV), de sorte que eventual inércia administrativa inaugura a possibilidade de proteção desse direito na via judicial. (STF. Plenário. RE 1008166/SC, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 22/9/2022 (Repercussão Geral – Tema 548) (Info 1069). _____________________________________________________________________________ 37. O Ministério Público, no corrente ano de 2025, propôs ação penal em face de Mévio, imputando-lhe a prática de estupro de vulnerável cometido contra a sua enteada. De acordo com a peça acusatória, Mévio, nos momentos em que sua companheira saía de casa, aproveitava-se para praticar abusos sexuais em desfavor da infante, que, à época dos fatos, tinha 7 anos de idade. A referida ação penal tramitou em uma vara criminal comum, ante a inexistência, na localidade, de Vara Especializada da Criança e do Adolescente vítima, prevista na Lei nº 13.431/2017. A vítima foi ouvida em juízo, nos termos da legislação aplicável, e o seu relato foi corroborado por outros elementos probatórios produzidos em contraditório judicial. Ao final, julgou-se procedente a pretensão punitiva deduzida na denúncia para condenar Mévio. 55 Tendo em vista o caso proposto, as disposições da Lei nº 13.431/2017 e a jurisprudência dos Tribunais Superiores acerca da temática, é CORRETO afirmar que: (A) a oitiva da criança não poderia seguir o rito cautelar de antecipação de prova, em razão da natureza da infração imputada ao réu; (B) a escuta especializada, indicada no caso, é o procedimento de oitiva de criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária; (C) a competência para julgamento da ação, no caso, caberia à vara especializada em violência doméstica; apenas na ausência dessa, a competência seria da vara criminal comum; (D) os Tribunais de Justiça não têm prerrogativa para atribuir aos Juizados da Infância e Juventude competência para julgar crimes contra crianças e adolescentes; (E) o oferecimento da denúncia perante a vara criminal comum foi correto e adequado, observado o fator etário e ante a inexistência de juizado ou vara especializada em crimes contra crianças e adolescentes. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS Art. 23 da Lei 13.431/2017 - Os órgãos responsáveis pela organização judiciária poderão criar juizados ou varas especializadas em crimes contra a criança e o adolescente. Parágrafo único. Até a implementação do disposto no caput deste artigo, o julgamento e a execução das causas decorrentes das práticas de violência ficarão, preferencialmente, a cargo dos juizados ou varas especializadas em violência doméstica e temas afins. (...) 5. Nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, esta Corte já decidiu que "somente nas comarcas em que não houver varas especializadas em violência contra crianças e adolescentes ou juizados/varas de violência doméstica é que poderá a ação tramitar na vara criminal comum." (...) (HC n. 807.617/BA, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 11/4/2023, DJe de 18/4/2023.) _____________________________________________________________________________ 38. O Ministério Público oferece representação em face do adolescente Pedro em razão da prática de ato infracional análogo ao crime de tráfico de drogas. O magistrado recebe a representação em 22/01/2023. O processo segue o seu curso normal e, após a devida instrução, a ação socioeducativa é julgada procedente com a imposição de medida de liberdade assistida cominada com prestação de serviços à comunidade. A sentença é publicada e tanto a defesa técnica quanto o Ministério Público recorrem do referido provimento judicial. Nesse caso, é CORRETO afirmar que: 56 (A) conforme súmula do Superior Tribunal de Justiça, o ato infracional análogo ao crime de tráfico de drogas, por si só, conduz à imposição de medida socioeducativa de internação do adolescente; (B) conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça, o magistrado poderá aplicar a medida de internação ao adolescente infrator tão somente nas hipóteses taxativamente previstas no Art. 122 do ECA; (C) é admitida a aplicação do regime de semiliberdade desde o início ou como forma de transição para o meio aberto, possibilitada a realização de atividades externas, mediante autorização judicial, sendo obrigatórias a escolarização e a profissionalização; (D) de acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a medida socioeducativa de internação que tenha como fundamento o Art. 122, II, do ECA, será aplicada apenas quando o adolescente infrator tiver cometido pelo menos outras duas infrações graves; (E) no caso de improcedência da representação, é admissível a propositura de ação rescisória, proposta pelo Ministério Público, visando à rescisão da coisa julgada absolutória formada no processo de apuração de ato infracional. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE RECURSO. (A) INCORRETA. Súmula 492 do STJ - O ato infracional análogo ao tráfico de drogas, por si só, não conduz obrigatoriamente à imposição de medida socioeducativa de internação do adolescente. (B) CORRETA. O STJ e o STF possuem entendimento de que a internação só é cabível nos casos do art. 122 do ECA. Estatuto da Criança e do Adolescente. Habeas Corpus Incidência da Súmula 691/STF. Ato infracional análogo ao tráfico de drogas. Medida de Internação. Ordem concedida de ofício. 1. Não compete ao Supremo Tribunal Federal examinar questão de direito não apreciada definitivamente pelo Superior Tribunal de Justiça (Súmula 691/STF). 2. A conduta praticada pelo paciente não envolveu violência ou grave ameaça à pessoa. Ademais, não se comprovou o cometimento de outras infrações graves ou mesmo o descumprimento de medida anteriormente imposta. Interpretação do art. 122 do Estatuto da Criança e do Adolescente. 3. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício, exclusivamente com relação ao paciente, para que seja fixada medida socioeducativa diversa da internação. (HC 125016, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Relator(a) p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO, Primeira Turma, julgado em 15/03/2016, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-163 DIVULG 03-08-2016 PUBLIC 04-08-2016) GRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. ATO INFRACIONAL ANÁLOGO AO CRIME DE TRÁFICO DE DROGAS. INTERNAÇÃO. ARTIGO 57 122 DO ECA. ROL TAXATIVO. 1. A medida socioeducativa de internação somente pode ser aplicada quando caracterizada ao menos uma das hipóteses previstas no artigo 122do Estatuto da Criança e do Adolescente e caso não haja outra medida mais adequada e menos onerosa à liberdade do adolescente. 2. O fato de haver sido apreendida uma porção de 22,7 g de cocaína e 130,7 g de maconha, divididas em 14 porções, evidencia a necessidade de aplicação de uma medida intermediária, especialmente à luz da função protetiva e pedagógica das medidas socioeducativas, as quais objetivam especialmente afastar o adolescente da criminalidade e corrigir eventuais desvios em seu comportamento. 3. Agravo regimental não provido. (STJ - AgRg no HC: XXXXX SP XXXXX/XXXXX-0, Relator.: Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Data de Julgamento: 04/09/2014, T6 - SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe 15/09/2014) (C) INCORRETA. Art. 120 do ECA - O regime de semi-liberdade pode ser determinado desde o início, ou como forma de transição para o meio aberto, possibilitada a realização de atividades externas, independentemente de autorização judicial. (D) INCORRETA. Questão passível de recurso, pois o STJ tem entendido que o Estatuto da Criança e do Adolescente não estipulou um número mínimo de atos infracionais graves para justificar a internação do menor infrator com fulcro no art. 122, inciso II, do ECA (reiteração no cometimento de outras infrações graves), cabendo ao Magistrado analisar as peculiaridades de cada caso e as condições específicas do adolescente a fim de melhor aplicar o direito. (HC 332.440/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 24/11/2015, DJe 01/12/2015); (HC 347.434/SP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, Rel. p/ Acórdão Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 27/09/2016, DJe 13/10/2016); e (AgRg no HC 527.658/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 05/03/2020, DJe 16/03/2020) (E) INCORRETA. O STJ entende que, em processo de apuração de ato infracional, é inadmissível ação rescisória proposta pelo Ministério Público visando a desconstituição de coisa julgada absolutória. (REsp n. 1.923.142/DF, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 22/11/2022, DJe de 28/11/2022.) _____________________________________________________________________________ 39. O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) compõem a rede socioassistencial pública no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), na forma da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) – Lei nº 8.742/1993, atuando de forma articulada e complementar na garantia de direitos e na proteção social. Considerando esses importantes equipamentos de política pública socioassistencial, observadas as disposições da Lei nº 8.742/1993, analise as afirmativas a seguir. I. O CREAS é a unidade pública municipal, de base territorial, localizada em áreas com maiores índices de vulnerabilidade e risco social, destinada à articulação dos serviços socioassistenciais no seu território de abrangência e à prestação de serviços, programas e projetos socioassistenciais de proteção social básica às famílias. 58 II. As instalações dos CRAS e dos CREAS devem ser compatíveis com os serviços neles ofertados, com espaços para trabalhos em grupo e ambientes específicos para recepção e atendimento reservado das famílias e indivíduos, assegurada a acessibilidade às pessoas idosas e com deficiência. III. Os CRAS e os CREAS são unidades públicas estatais instituídas no âmbito do SUAS, que possuem interface com as demais políticas públicas e articulam, coordenam e ofertam os serviços, programas, projetos e benefícios da assistência social. Está CORRETO o que se afirma em: (A) I, apenas; (B) I e II, apenas; (C) I e III, apenas; (D) II e III, apenas; (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS I. INCORRETO. Art. 6º-C, § 2º da Lei 8.742/93 - O Creas é a unidade pública de abrangência e gestão municipal, estadual ou regional, destinada à prestação de serviços a indivíduos e famílias que se encontram em situação de risco pessoal ou social, por violação de direitos ou contingência, que demandam intervenções especializadas da proteção social especial. II. CORRETO. Art. 6º-D da Lei 8.742/93 - As instalações dos Cras e dos Creas devem ser compatíveis com os serviços neles ofertados, com espaços para trabalhos em grupo e ambientes específicos para recepção e atendimento reservado das famílias e indivíduos, assegurada a acessibilidade às pessoas idosas e com deficiência. III. CORRETO. Art. 6º-C, § 3º da Lei 8.742/93 - Os Cras e os Creas são unidades públicas estatais instituídas no âmbito do Suas, que possuem interface com as demais políticas públicas e articulam, coordenam e ofertam os serviços, programas, projetos e benefícios da assistência social. _____________________________________________________________________________ 59 40. O Ministério Público promoveu ação civil pública em desfavor da Rede de Televisão Binacional S/A, sob a alegação de que a requerida, por meio de sua programação televisiva, exibiu obra audiovisual em horário inadequado à respectiva classificação indicativa, em desacordo com ato normativo emitido pelo Ministério da Justiça. Em razão disso, pleiteia-se a condenação da emissora ao pagamento de indenização por danos morais coletivos. Considerando-se o caso proposto, as disposições da Lei nº 8.069/1990 e o entendimento dos Tribunais Superiores, é CORRETO afirmar que: (A) com base no princípio da proteção integral e no dever geral de observância aos direitos infantojuvenis, admite-se o controle prévio de viés autorizativo do Estado sobre o conteúdo a ser exibido pelas emissoras de rádio e televisão; (B) a conduta da emissora de transmitir, através de rádio ou televisão, espetáculo em horário diverso do autorizado ou sem aviso de sua classificação se traduz em infração administrativa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, sendo admitidas penas de multa e suspensão da sua programação por até dois dias, em caso de reincidência; (C) a conduta da emissora de transmitir, através de rádio ou televisão, espetáculo em horário diverso do autorizado ou sem aviso de sua classificação se traduz em infração administrativa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, não sendo admitida a suspensão da sua programação por importar em violação à liberdade de expressão; (D) comprovada a grave afronta aos valores e interesses coletivos fundamentais, é possível a condenação da emissora de televisão ao pagamento de indenização por danos morais coletivos, sem que isso configure violação à liberdade de expressão em sua dimensão instrumental; (E) é cabível a condenação da emissora, pois, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, nenhum espetáculo será apresentado ou anunciado sem aviso de sua classificação, antes de sua transmissão, apresentação ou exibição, ressalvados os programas com finalidades meramente educativas. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS Segundo o STJ, emissora de TV pode ser condenada ao pagamento de indenização por danos morais coletivos em razão da exibição de programa fora do horário recomendado pelo Ministério da Justiça. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. LIBERDADE DE COMUNICAÇÃO E PROTEÇÃO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE. RESPONSABILIDADE CIVIL DA EMISSORA DE TELEVISÃO. EXIBIÇÃO DE FILME EM HORÁRIO DIVERSO DAQUELE RECOMENDADO PELA CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA. AUSÊNCIA DE OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA (ADI N. 2.404/DF). DANOS MORAIS COLETIVOS POR ABUSO DE DIREITO. POSSIBILIDADE, EM 60 TESE. HIPÓTESE NÃO VERIFICADA NO CASO DOS AUTOS. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. 1. O propósito recursal cinge-se em saber se é possível a condenação de emissora de televisão ao pagamento de indenização por danos morais coletivos em razão da exibição de filme fora do horário recomendadopelo órgão competente. 2. No julgamento da ADI n. 2.404/DF, o STF reconheceu a inconstitucionalidade da expressão "em horário diverso do autorizado", contida no art. 254 do ECA, asseverando, ainda, que a classificação indicativa não pode ser vista como obrigatória ou como uma censura prévia dos conteúdos veiculados em rádio e televisão, haja vista seu caráter pedagógico e complementar ao auxiliar os pais a definir o que seus filhos podem, ou não, assistir e ouvir. 3. A despeito de ser a classificação da programação apenas indicativa e não proibir a sua veiculação em horários diversos daqueles recomendados, cabe ao Poder Judiciário controlar eventuais abusos e violações ao direito à programação sadia. 4. O dano moral coletivo se dá in re ipsa, contudo, sua configuração somente ocorrerá quando a conduta antijurídica afetar, intoleravelmente, os valores e interesses coletivos fundamentais, mediante conduta maculada de grave lesão, para que o instituto não seja tratado de forma trivial, notadamente em decorrência da sua repercussão social. 5. É possível, em tese, a condenação da emissora de televisão ao pagamento de indenização por danos morais coletivos, quando, ao exibir determinada programação fora do horário recomendado, verificar-se uma conduta que afronte gravemente os valores e interesse coletivos fundamentais. 6. A conduta perpetrada pela ré no caso vertente, a despeito de ser irregular, não foi capaz de abalar, de forma intolerável, a tranquilidade social dos telespectadores, de modo que não está configurado o ato ilícito indenizável. 7. Recurso especial desprovido. (REsp 1840463/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 19/11/2019, DJe 03/12/2019) _____________________________________________________________________________ BLOCO II DIREITO PENAL 41. Sem maiores explicações, João arremessa uma pedra em direção a uma loja de eletrônicos, danificando a vitrine e sendo preso em flagrante. Seus advogados de defesa apresentam diversas circunstâncias relacionadas à sua condição mental no momento e possível embriaguez. Diante das hipóteses indicadas, é CORRETO afirmar que: (A) a comprovação de estado de embriaguez completa tem o condão de excluir a imputabilidade penal; (B) caso reste comprovada a prévia provocação do proprietário do estabelecimento, causando forte emoção em João, ele poderá ser isento de pena; (C) se constatado que João tinha 17 anos à época do fato, ele será considerado penalmente inimputável e poderá receber medida de segurança; 61 (D) a comprovação de perturbação de saúde mental e de que João não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento ensejará a isenção de pena; (E) a embriaguez, se preordenada, configura circunstância que agrava a pena. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Para responder a essa questão, precisamos primeiro entender alguns conceitos importantes, que constam do nosso material de aula. Vou relembrar com você: • Perturbação de saúde mental e semi-imputabilidade Quando a pessoa tem uma perturbação mental que a torna não inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de se determinar de acordo com esse entendimento, estamos diante da semi-imputabilidade (art. 26, parágrafo único, do Código Penal). Nessa situação, o juiz pode reduzir a pena, mas isso não isenta o agente de responsabilidade. Por outro lado, se for comprovado que essa perturbação suprimia totalmente a capacidade de compreensão ou de autodeterminação, a pessoa será considerada inimputável, e nesse caso haverá isenção de pena (art. 26, caput). • Menoridade penal Para quem não completou 18 anos, a lei estabelece inimputabilidade absoluta (art. 228 da Constituição e art. 27 do Código Penal). O adolescente não responde penalmente, mas fica sujeito a medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e não a medidas de segurança. • Embriaguez completa Se a embriaguez for completa e resultado de caso fortuito ou força maior, haverá exclusão da imputabilidade penal. Mas atenção: se a embriaguez for voluntária ou culposa, ela não exclui imputabilidade. E se a pessoa bebeu de propósito para criar coragem e praticar o crime, isso ainda pode agravar a pena. • Estado de emoção ou paixão Mesmo que a emoção ou a paixão sejam intensas, elas não isentam de pena. Servem, no máximo, como uma circunstância atenuante prevista no art. 65, III, “c”, do Código Penal. • Embriaguez preordenada Quando o agente se embriaga propositalmente para cometer o crime, essa é a chamada embriaguez preordenada, que é tratada como circunstância agravante (art. 61, II, “l”, do Código Penal). 62 Vamos então, de posse desses conceitos relembrados, analisar cada alternativa: (A) INCORRETA. Veja bem: no nosso material, aprendemos que nem toda embriaguez completa exclui a imputabilidade. Somente aquela decorrente de caso fortuito ou força maior (por exemplo, a pessoa é obrigada a ingerir álcool ou toma remédio sem saber e fica embriagada). A questão não especifica a causa dessa embriaguez, então a frase fica genérica demais e pode induzir ao erro. Se fosse uma embriaguez voluntária, não excluiria a imputabilidade. Portanto, essa alternativa está incorreta. (B) INCORRETA. Aqui é importante lembrar que o nosso material foi claro: emoção ou paixão, mesmo intensa, não isentam de pena. Elas apenas podem funcionar como atenuante, diminuindo a pena, mas nunca excluindo a responsabilidade penal. Logo, essa alternativa também está incorreta. (C) INCORRETA. Na menoridade penal, a pessoa menor de 18 anos é inimputável, mas nosso material explicou que essa inimputabilidade não leva à medida de segurança. O adolescente vai responder na forma do Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê medidas socioeducativas, e não medidas de segurança como no caso dos inimputáveis adultos. Por isso, essa alternativa está incorreta. (D) INCORRETA. Cuidado aqui: se a pessoa não era inteiramente capaz, estamos diante da hipótese de semi-imputabilidade, que não isenta de pena, apenas autoriza que o juiz possa reduzir a pena. Somente se ele fosse totalmente incapaz de entender ou se determinar é que haveria isenção. Portanto, essa alternativa também está incorreta. (E) CORRETA. Exatamente como vimos no nosso material: quando a embriaguez é preordenada — ou seja, a pessoa bebe de propósito para ter coragem ou diminuir a resistência moral e então cometer o crime — ela é tratada como uma circunstância agravante, prevista no art. 61, II, “l” do Código Penal. Essa é a alternativa correta. _____________________________________________________________________________ 42. Sobre os crimes contra a Administração Pública, é CORRETO afirmar que: (A) comete crime de prevaricação o funcionário público que, por indulgência, deixar de responsabilizar subordinado que tenha cometido infração no exercício do cargo ou, quando lhe falte competência, não tenha levado o fato ao conhecimento da autoridade competente; (B) patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a Administração Pública, valendo-se da qualidade de funcionário, configura o delito de tráfico de influência; (C) não se incluem no conceito de funcionário público para fins penais jurados e mesários eleitorais; (D) não se incluem no conceito de funcionário público para fins penais empregados de empresa contratada que prestam serviço atípico para a Administração Pública; (E) não se aplica o princípio da insignificância nos casos de crimes contra a Administração Pública, em qualquer hipótese. _______________________________________________________________________ 63 GABARITO: D COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Para entender por que essa alternativa está incorreta, é essencial comparar a redação dos artigos: Prevaricação– Art. 319 do Código Penal: Art. 319 – Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. Pena: detenção, de três meses a um ano, e multa. Perceba que na prevaricação: O núcleo do crime é retardar, deixar de praticar ou praticar ato indevido. A motivação deve ser satisfazer interesse ou sentimento pessoal. Condescendência criminosa – Art. 320 do Código Penal: Art. 320 – Deixar o funcionário, por indulgência, de responsabilizar subordinado que cometeu infração no exercício do cargo ou, quando lhe falte competência, não levar o fato ao conhecimento da autoridade competente. Pena: detenção, de quinze dias a um mês, ou multa. Note que aqui: O agente não deixa de agir por interesse ou sentimento pessoal, mas por indulgência, ou seja, tolerância ou benevolência excessiva. A conduta típica é deixar de responsabilizar o subordinado ou não comunicar o fato à autoridade competente. A alternativa A está incorreta, pois descreve exatamente o comportamento previsto no art. 320 (condescendência criminosa), e não no art. 319 (prevaricação). Em resumo: Quando o funcionário deixa de responsabilizar o subordinado por indulgência, responde por condescendência criminosa. Quando o funcionário pratica ou omite ato de ofício para satisfazer interesse ou sentimento pessoal, responde por prevaricação. (B) INCORRETA. Para verificar se essa afirmação está correta, é importante comparar a redação dos artigos: Advocacia Administrativa – Art. 321 do Código Penal: Art. 321 – Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário. Pena: detenção, de um a três meses, ou multa. 64 Parágrafo único – Se o interesse é ilegítimo: Pena: detenção, de três meses a um ano, além da multa. Perceba que aqui, o crime consiste no ato de usar a condição de servidor público para defender ou promover interesses particulares perante a administração. Tráfico de Influência – Art. 332 do Código Penal: Art. 332 – Solicitar, exigir, cobrar ou obter, para si ou para outrem, vantagem ou promessa de vantagem, a pretexto de influir em ato praticado por funcionário público no exercício da função. Pena: reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Parágrafo único – A pena é aumentada da metade, se o agente alega ou insinua que a vantagem é também destinada ao funcionário. Note que aqui, o núcleo do crime é solicitar ou obter vantagem alegando influência sobre ato de outro servidor, e não defender interesse privado usando seu próprio cargo. Por isso, a alternativa B está incorreta, pois quando o funcionário patrocina interesse privado perante a administração, valendo-se da sua função, a conduta se enquadra no crime de advocacia administrativa (art. 321) e não no crime de tráfico de influência (art. 332). Em resumo: Advocacia administrativa é promover interesse privado perante a administração valendo-se da função que ocupa. Tráfico de influência é solicitar ou obter vantagem prometendo influir em ato de outro servidor público. (C) INCORRETA. Para entender por que essa afirmação está incorreta, vejamos o que diz o Código Penal: Art. 327 – Considera-se funcionário público, para os efeitos penais, quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública. § 1º – Equipara-se a funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função em entidade paraestatal, e quem trabalha para empresa prestadora de serviço contratada ou conveniada para a execução de atividade típica da Administração Pública. Note que o caput do artigo 327 é muito claro ao afirmar que mesmo as pessoas que exercem função pública de forma temporária e sem remuneração são consideradas funcionários públicos para fins penais. Isso abrange agentes políticos, servidores estatais e particulares que colaboram com o poder público, como jurados e mesários eleitorais. No caso de jurados e mesários eleitorais, trata-se exatamente de funções públicas exercidas transitoriamente e, muitas vezes, sem qualquer pagamento. Ainda assim, estão abrangidos pelo conceito legal de funcionário público para efeitos penais. Por isso, a alternativa C está incorreta, pois o Código Penal inclui expressamente essas pessoas no conceito penal de funcionário público, pois exercem função pública, ainda que apenas por um período limitado ou sem receber salário. 65 Em resumo: O conceito penal de funcionário público é amplo e alcança qualquer pessoa que exerça, mesmo que de forma temporária e gratuita, funções públicas. (D) CORRETA. A redação do parágrafo primeiro deixa claro que aqueles empregados que desempenham atividades típicas da Administração Pública são equiparados a funcionários públicos para fins penais. Essa equiparação ocorre porque, ao desempenharem atividades típicas da Administração Pública, esses empregados estão sujeitos às mesmas responsabilidades e deveres que os funcionários públicos, especialmente no que diz respeito à proteção da probidade administrativa e ao combate à corrupção. Portanto, eles podem ser responsabilizados por crimes contra a administração pública, como peculato, corrupção passiva, entre outros, quando atuam em conluio com funcionários públicos ou em situações que envolvam a administração pública. Por isso, a alternativa D está correta, pois os empregados de empresa contratada que prestam serviços atípicos não se incluem no conceito penal de funcionário público. Em resumo: Só há equiparação quando o serviço prestado é de natureza típica da atividade administrativa estatal. (E) INCORRETA. A regra geral é que não se aplica o princípio da insignificância aos crimes contra a Administração Pública, como demonstra a Súmula 599 do STJ: Súmula 599-STJ: O princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a Administração Pública. Entretanto, excepcionalmente a jurisprudência admite a insignificância em casos específicos onde a lesão ao bem jurídico tutelado é ínfima. Em tais situações, o STJ já admitiu a aplicação do princípio da insignificância, considerando as peculiaridades do caso concreto, como a mínima ofensividade da conduta, a ausência de periculosidade social e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento. Isso demonstra que, embora a regra geral seja a inaplicabilidade, o princípio pode ser considerado em circunstâncias excepcionais. De acordo com o STJ, “a insignificância nos crimes de descaminho tem colorido próprio, diante das disposições trazidas na Lei n. 10.522/2002”, o que não ocorre com outros delitos, como o peculato etc. (AgRg no REsp 1346879/SC, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 26/11/2013). Por isso, a alternativa E está incorreta, pois afirma que em qualquer hipótese é vedada a aplicação da insignificância, mas a jurisprudência reconhece exceção expressa para o crime de descaminho. Em resumo: Como regra, a insignificância é inaplicável aos crimes contra a Administração Pública, salvo situação excepcional do descaminho, quando presentes os requisitos objetivos e subjetivos previstos em lei e na jurisprudência. _____________________________________________________________________________ 43. Analise as hipóteses a seguir. 66 (i) Pedro, conhecedor de que seu colega de trabalho Renato, 25 anos, está comprando um carro, telefona para este fazendo-se passar por funcionário da loja e oferece um seguro para o veículo novo. Renato aceita a oferta e transfere o valor equivalente ao suposto prêmio para a conta-corrente indicada por Pedro. (ii) Luís Felipe veste um colete da cor da marca de um banco e posiciona-se próximo aos caixas eletrônicos situados na entrada da agência. Aborda Marisa, 73 anos, que está pagando uma conta, apresenta-se como funcionário do banco e oferece ajuda, que é aceita pela vítima. Luís Felipe observa a senha digitada e, terminada a operação,53 BLOCO II .................................................................................................................. 60 DIREITO PENAL ............................................................................................................ 60 DIREITO PROCESSUAL PENAL ...................................................................................... 85 DIREITO CONSTITUCIONAL ....................................................................................... 102 DIREITO ELEITORAL ................................................................................................... 113 BLOCO III ............................................................................................................... 117 DIREITO EMPRESARIAL ............................................................................................. 117 DIREITO TRIBUTÁRIO................................................................................................. 123 DIREITO AMBIENTAL ................................................................................................. 129 DIREITO ADMINISTRATIVO ........................................................................................ 134 NOÇÕES GERAIS DE DIREITO E FORMAÇÃO HUMANÍSTICA ..................................... 149 DIREITOS HUMANOS................................................................................................. 154 8 BLOCO I DIREITO CIVIL 1. Joaquim adquiriu, por contrato de compra e venda com cláusula expressa de garantia por seis meses, uma máquina industrial usada para sua fábrica de beneficiamento de grãos. A entrega ocorreu em 5 de fevereiro de 2023. A máquina operou normalmente até maio de 2023, quando começou a apresentar falhas mecânicas graves, com necessidade de paralisação da produção. Um laudo técnico indicou vício oculto preexistente à entrega, relacionado à estrutura interna do motor. Joaquim notificou o vendedor em 10 de junho de 2023 e, diante da inércia deste, ajuizou ação em 20 de novembro de 2023, pleiteando a redibição do contrato com perdas e danos. O vendedor contestou, afirmando que a máquina foi vendida no estado em que se encontrava, sendo usada, e que não houve má-fé. Com base nos dispositivos legais aplicáveis e na jurisprudência dominante, é CORRETO afirmar que: (A) o vendedor não pode ser responsabilizado, pois, sendo a máquina usada, presume- se que o comprador aceitou o risco de falhas futuras, afastando a responsabilidade por vício oculto; (B) a cláusula de garantia contratual não altera a disciplina legal dos vícios redibitórios, tampouco impede que o adquirente exerça o direito de redibir o contrato; (C) o pedido de redibição só seria admissível se Joaquim demonstrasse que o alienante tinha conhecimento do vício oculto no momento da venda, o que não foi alegado na petição inicial; (D) a responsabilização do vendedor depende de comprovação de culpa, sendo incabível a redibição se ele não agiu com dolo ou negligência; (E) a única pretensão cabível no caso seria o abatimento proporcional do preço, por ser a medida mais adequada à conservação do contrato e menos onerosa ao alienante. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. (B) CORRETA. O Código Civil, em seus artigos 441 a 446, disciplina o instituto dos vícios redibitórios, caracterizados como defeitos ocultos que tornam o bem impróprio ao uso a que se destina ou lhe diminuem significativamente o valor. No caso em análise, o laudo técnico comprovou a existência de vício oculto preexistente à entrega, relacionado à estrutura interna do motor, configurando perfeitamente a hipótese legal de vício redibitório. 9 A responsabilidade do vendedor independe de sua culpa ou conhecimento prévio do defeito. A natureza de bem usado não afasta esta responsabilidade, especialmente quando há garantia contratual expressa, como na situação em questão. Conforme o artigo 444 do Código Civil: "A responsabilidade do alienante subsiste ainda que a coisa pereça em poder do alienatário, se perecer por vício oculto, já existente ao tempo da tradição." Quanto aos prazos, o art. 445 estabelece que, para vícios ocultos, o prazo decadencial começa a fluir do momento em que o defeito se torna evidente. No presente caso, o vício manifestou-se em maio de 2023, a notificação ocorreu em junho do mesmo ano e a ação foi ajuizada em novembro, respeitando o prazo decadencial legal para bens móveis dessa natureza. Importante destacar que, nos termos do artigo 446: "Não correrão os prazos do artigo antecedente na constância de cláusula de garantia; mas o adquirente deve denunciar o defeito ao alienante nos trinta dias seguintes ao seu descobrimento, sob pena de decadência." A jurisprudência consolidada do STJ (REsp 984.106/SC) estabelece que a garantia contratual constitui um benefício adicional à garantia legal, não podendo substituí-la ou reduzir seus efeitos. Assim, a cláusula de garantia de seis meses presente no contrato não restringe, mas complementa os direitos do adquirente previstos em lei. Mesmo que não se demonstre o conhecimento prévio do vício pelo alienante, o artigo 443 do CC assegura: "Se o alienante conhecia o vício ou defeito da coisa, restituirá o que recebeu com perdas e danos; se o não conhecia, tão-somente restituirá o valor recebido, mais as despesas do contrato." Deste modo, Joaquim preserva integralmente seu direito de pleitear a redibição do contrato com perdas e danos, independentemente da cláusula de garantia contratual. (C) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. _____________________________________________________________________________ 2. A Indústria X descobriu a existência de um maquinário com nova tecnologia que poderia quase dobrar sua produção. Contratou então as sociedades A e B para importarem e lhe entregarem o maquinário em questão. Pelo contrato, A e B se obrigavam solidariamente a fazer a entrega até o final daquele ano. Entretanto, a entrega nunca ocorreu, em razão de fato imputável somente à sociedade B, que deixou de apresentar oportunamente documentação necessária à importação. Diante disso, a Indústria X agora pleiteia judicialmente indenização a título de perdas e danos decorrentes do inadimplemento, principalmente lucros cessantes pelo aumento de produtividade que nunca ocorreu. Essa indenização pode ser exigida de: (A) A, apenas; 10 (B) B, apenas; (C) A e B, conjuntamente; (D) A ou B, alternativamente, à escolha de X; (E) A, B ou ambas conjuntamente, à escolha de X. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. (B) CORRETA. A alternativa correta é a (B): "B, apenas". Este é um caso clássico de aplicação do artigo 279 do Código Civil, que estabelece uma importante exceção à regra geral da solidariedade passiva. Embora o contrato estabeleça solidariedade entre as sociedades A e B para a entrega do maquinário, o caso especifica que o inadimplemento ocorreu exclusivamente por fato imputável à sociedade B, que deixou de apresentar oportunamente a documentação necessária à importação. O artigo 279 do Código Civil é cristalino ao dispor que "Impossibilitando-se a prestação por culpa de um dos devedores solidários, subsiste para todos o encargo de pagar o equivalente; mas pelas perdas e danos só responde o culpado.". Esta norma cria uma exceção fundamental ao regime da solidariedade passiva. A solidariedade contratual garantiria a obrigação principal (entrega do maquinário), mas quando se trata de perdas e danos decorrentes do inadimplemento causado exclusivamente por um dos devedores, apenas o culpado responde por essa indenizaçãofica com o cartão da vítima e entrega a ela um cartão semelhante que trazia consigo. A vítima não percebe a troca e vai embora. Obtidos o cartão e a senha, Luís Felipe saca a quantia de R$ 5.000,00 da conta da vítima Marisa. (iii) Durante quinze meses, Conrado, médico plantonista de hospital municipal, registrou o ponto e foi embora sem cumprir a carga horária. Consideradas as hipóteses acima, é correto afirmar, à luz da jurisprudência dos Tribunais Superiores, que: (A) há duas hipóteses que tipificam crimes de ação penal pública incondicionada; (B) todas as hipóteses tipificam o crime de estelionato; (C) a hipótese (i) tipifica crime de ação penal pública incondicionada; (D) na hipótese (ii), se a vítima tivesse menos de 60 anos, o crime seria de ação penal pública condicionada à representação; (E) na hipótese (iii), somente se procede mediante representação do órgão ao qual couber a representação judicial do município. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS Item I Aqui o Pedro ligou para o colega Renato, fingindo que era funcionário da loja, e induziu a vítima a fazer uma transferência de dinheiro. No caso descrito, Pedro utilizou-se de um meio fraudulento ao se passar por funcionário da loja e induziu Renato a erro, levando-o a transferir dinheiro para uma conta sob o pretexto de pagamento de um seguro inexistente. Essa ação preenche os requisitos do tipo penal de estelionato, uma vez que houve a obtenção de vantagem ilícita em prejuízo de Renato, mediante fraude. Só que, o §5º desse artigo diz assim: “Somente se procede mediante representação, salvo se a vítima for: I – a Administração Pública, direta ou indireta; 67 II – criança ou adolescente; III – pessoa com deficiência mental; ou IV – maior de 70 anos de idade ou incapaz.” Note que nenhuma dessas exceções se aplica aqui, pois a vítima tem 25 anos. Por isso, mesmo sendo crime de ação penal pública (conforme o art. 100 do Código Penal: “A ação penal é pública, salvo quando a lei expressamente a declara privativa do ofendido”), essa hipótese exige representação da vítima para que o Ministério Público possa oferecer a denúncia. Então, é ação pública condicionada à representação. Item II No segundo caso, o Luís Felipe se passou por funcionário do banco e trocou o cartão da vítima, que tinha 73 anos. Em seguida, ele sacou dinheiro da conta dela. Aqui também temos estelionato, pois houve fraude para obter vantagem ilícita. No caso descrito, Luís Felipe utilizou-se de um artifício ao vestir um colete da cor da marca do banco e se apresentar como funcionário, induzindo Marisa a erro. Ele obteve o cartão e a senha da vítima de forma fraudulenta e, em seguida, realizou saques na conta dela, causando um prejuízo financeiro significativo. Mas perceba, ainda, um detalhe essencial: a vítima é idosa. Isso ativa a exceção do inciso IV do §5º do art. 171. Portanto, neste caso, a ação penal é pública incondicionada, ou seja, não depende de representação. Além disso, é importante observar que, por se tratar de vítima idosa, incide uma causa de aumento de pena prevista no §4º do art. 171: “§4º – A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é cometido contra idoso ou vulnerável, considerada a relevância do resultado gravoso.” Item III O Conrado, médico plantonista do hospital municipal, registrava o ponto e ia embora sem cumprir a carga horária, recebendo remuneração. Essa situação já foi objeto de debates na doutrina e na jurisprudência. Atualmente, o entendimento mais consolidado no STJ é que a conduta caracteriza estelionato qualificado pelo cargo público. A razão é que o servidor não tinha posse prévia e legítima do dinheiro. Ele cria uma situação falsa (o comparecimento) para induzir a Administração ao erro e obter o pagamento indevido. Por isso, incide o art. 171, §3º, do Código Penal: “§3º – Se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência, aplica-se pena de reclusão de 2 a 6 anos, e multa.” Portanto, trata-se de estelionato qualificado. Em relação à ação penal, como se trata de crime praticado contra a Administração Pública, ela será pública incondicionada, ou seja, o Ministério Público pode oferecer a 68 denúncia independentemente de representação. Isso decorre da regra geral do art. 100 do Código Penal. Como não há nenhuma previsão que condicione a persecução penal à representação da Administração, aplica-se a regra geral, sendo ação penal pública incondicionada. (A) CORRETA. Vamos conferir uma por uma: • Estelionato contra adulto – ação pública condicionada à representação. • Estelionato contra idoso – ação pública incondicionada. • Peculato – ação pública incondicionada. Portanto, de fato, existem duas hipóteses de ação penal pública incondicionada: (ii) e (iii). Essa alternativa está correta. (B) INCORRETA. Vamos checar: • Estelionato simples. • Estelionato simples, com causa de aumento pelo §4º por ter sido praticado contra idoso. • Estelionato qualificado pelo §3º porque foi cometido em prejuízo da Administração Pública. Perceba que todas as hipóteses efetivamente configuram estelionato, embora em formas diferentes (simples, qualificado e majorado). Se a questão perguntasse exclusivamente sobre a tipificação, poderíamos dizer que essa afirmação estaria correta. Mas atenção: o enunciado quer a alternativa que melhor identifica o regime da ação penal e as diferenças entre as hipóteses. E, nesse ponto, a alternativa A é mais completa, porque reconhece o dado específico das ações penais incondicionadas. Por isso, essa alternativa não é a resposta correta da questão, embora a informação sobre a tipificação, isoladamente, esteja certa. (C) INCORRETA. Aqui, a gente precisa lembrar que o §5º do art. 171 determina que o estelionato só é ação penal pública incondicionada se a vítima for: Administração Pública; Criança ou adolescente; Pessoa com deficiência mental; Maior de 70 anos. No caso, Renato tem 25 anos. Então, não se enquadra em nenhuma dessas exceções. Por isso, a ação penal é pública condicionada à representação, e a alternativa está errada. (D) INCORRETA. Vamos pensar juntos: A regra geral do estelionato exige representação (art. 171, §5º), exceto se a vítima estiver em uma das situações que mencionei há pouco. Se Marisa não fosse idosa, não teria essa exceção. Portanto, a ação penal passaria a ser condicionada à representação. 69 Então, isoladamente, essa afirmação está correta. Mas, como a questão quer a alternativa que melhor abrange o conjunto das hipóteses e diferencia as situações de ação penal incondicionada, a letra A continua sendo a mais adequada como gabarito. (E) INCORRETA. Essa alternativa está errada por dois motivos: Primeiro, porque o crime é estelionato qualificado contra a Administração Pública, então a ação penal é pública incondicionada. Segundo, porque não existe exigência de representação do município. O Ministério Público pode oferecer denúncia diretamente, com base no art. 100 do Código Penal. E aqui a lei não traz nenhuma previsão especial que condicione a propositura da ação. _____________________________________________________________________________ 44. Analise as hipóteses a seguir. (i) Ao término de um dia de trabalho, João pega o celular de seu colega Ailton acreditando ser o seu, coloca-o na mochila e vai para casa. Os aparelhos são do mesmo modelo e têm capa de cor idêntica. (ii) Caio resolve matar seu avô Hélio, para ficar com a herança. Certo dia, efetua disparo de arma de fogo contra a vítima, enquanto ela dormia. O exame de necropsia mostra que a morte ocorreu por conta de um infarto e que a vítima já estava morta quando foi atingida. (iii) Aproveitando-se de que Jorge, seu desafeto, não sabe nadar, Juan empurra-o de uma ponteque passa sobre um rio. A vítima bate a cabeça em um dos pilares da ponte, circunstância apontada na necropsia como a causa da morte. (iv) Rodrigo e José discutem em um bar lotado por conta de política. O primeiro saca uma arma de fogo e dispara na direção do segundo. O tiro atinge José de raspão, ricocheteia e atinge Luciano, garçom do bar. José e Luciano têm ferimentos leves. (v) Convicto de que a Suprema Corte de seu país liberou o uso de drogas, Ramiro, estudante universitário, vai a uma festa rave levando consigo dois comprimidos de ecstasy para consumo próprio. A respeito do erro e suas consequências para a responsabilidade penal, é CORRETO afirmar que: (A) há três hipóteses em que não haverá repercussão penal ao agente; (B) a hipótese (i) expressa um erro acidental sobre o objeto; (C) na hipótese (iv), Rodrigo responderá por tentativa de homicídio e lesão corporal culposa, aplicada a regra do crime continuado; (D) na hipótese (v), Ramiro não será punido, porque não existe a previsão do porte culposo de drogas para consumo próprio; (E) na hipótese (iii), não é cabível a imputação do crime de homicídio doloso com a qualificadora relativa à asfixia por afogamento. 70 _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Item I O dolo é composto de consciência e vontade dirigidas ao resultado. Aqui, João não tinha nenhuma vontade de subtrair coisa alheia. Isso se enquadra no erro de tipo essencial, ou seja, ele não teve possibilidade de perceber que estava cometendo um ilícito, não tinha como perceber que o celular era de outra pessoa. Trata-se de hipótese em que o agente não tem e nem pode ter consciência da circunstância que constitui elemento do tipo penal. Quando o erro recai sobre elemento constitutivo do tipo penal e é inevitável, exclui o dolo e também a culpa, salvo previsão legal expressa de modalidade culposa. No furto, não há forma culposa prevista, logo o fato é atípico. Erro sobre elementos do tipo Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. Item II O crime impossível por absoluta impropriedade do objeto está previsto no art. 17 do CP. Crime impossível Art. 17 - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime. A impropriedade absoluta ocorre quando, por circunstâncias conhecidas ou não pelo agente, o resultado é absolutamente impossível. O corpo sem vida é objeto absolutamente impróprio para consumar homicídio, já que a morte da vítima inviabiliza qualquer resultado típico. Portanto, não há tentativa punível, conforme o princípio da inidoneidade absoluta do meio ou impropriedade absoluta do objeto. Item III Aqui ocorreu um desvio causal. Ou seja, ele queria matar por afogamento, mas a morte ocorreu por outro processo causal (traumatismo). Trata-se o fenômeno como aberratio causae, também chamado de desvio de causalidade. Aberratio causae (desvio de causalidade) ocorre quando o resultado almejado pelo agente decorre de uma causa diversa da esperada, mas sem romper o nexo causal entre 71 a conduta e o resultado. O agente responde pelo resultado pretendido, pois subsiste o dolo. Dessa forma, Juan responde por homicídio doloso, mas não cabe a qualificadora de asfixia por afogamento, pois as circunstâncias qualificadoras devem guardar nexo com o resultado. Item IV Aqui ocorre erro na execução com resultado duplo. Rodrigo responde por dois crimes em concurso formal. Quando, por acidente ou erro na execução, ocorre resultado duplo, responde-se pelo crime contra a vítima visada e pelo crime contra a vítima atingida, aplicando-se o concurso formal (art. 70 do CP). Além disso, é importante lembrar que o crime continuado pressupõe pluralidade de condutas e condições semelhantes de execução. Se há unidade de conduta e pluralidade de resultados, trata-se de concurso formal. Isso significa: Rodrigo responde pelo crime que queria cometer contra José (tentativa de homicídio doloso). E responde pelo crime efetivamente cometido contra Luciano (lesão corporal dolosa). Os dois crimes ficam reunidos em concurso formal, porque houve uma só ação e dois resultados. Portanto, não se trata de crime continuado nem de lesão culposa. Item V Trata-se de erro de proibição indireto, que ocorre quando o agente supõe que existe uma causa de exclusão da ilicitude. Se inevitável, afasta a culpabilidade. Se evitável, a pena será reduzida de um sexto a um terço (art. 21 do CP). Erro sobre a ilicitude do fato Art. 21 - O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço. O erro de proibição não afasta a tipicidade, mas pode excluir ou diminuir a culpabilidade, dependendo da possibilidade ou não de conhecimento da ilicitude. Portanto, não é CORRETA dizer que não há punição simplesmente porque não existe previsão de porte culposo — o que se analisa é se o erro era evitável ou inevitável. (A) INCORRETA. Há três hipóteses em que não haverá repercussão penal ao agente (i) erro de tipo essencial inevitável: fato atípico, sem punição. (ii) crime impossível: fato atípico, sem punição. (v) erro de proibição: pode excluir a culpabilidade se inevitável, ou apenas reduzir a pena se evitável. Logo, não é CORRETA afirmar que são três hipóteses sem repercussão penal automática. 72 (B) INCORRETA. Erro acidental ocorre quando o agente quer praticar o crime, mas erra a execução ou o objeto secundário. Diferente do erro essencial, que recai sobre elemento que integra o tipo penal e impede a formação do dolo. João não tinha vontade de subtrair nada — logo, é erro essencial. (C) INCORRET. Crime continuado pressupõe pluralidade de condutas e condições semelhantes de execução. Se há unidade de conduta e pluralidade de resultados, trata- se de concurso formal. Além disso, a lesão não é culposa, mas resultado de erro na execução (aberratio ictus). (D) INCORRETA. O erro de proibição pode excluir ou atenuar a culpabilidade, não afastando a tipicidade. Logo, a ausência de modalidade culposa não é fundamento para exclusão automática da responsabilidade penal. (E) CORRETA. As circunstâncias qualificadoras devem guardar nexo com o resultado. Como a morte ocorreu por traumatismo craniano, não cabe essa qualificadora. _____________________________________________________________________________ 45. Na cidade de Palmas/TO, um motorista dirige sob efeito de álcool e colide com um ciclista que transitava pela via, vindo este a sofrer ferimentos leves. Considerando as disposições da Lei de Trânsito, é CORRETO afirmar que: (A) o motorista poderá ser responsabilizado apenas civilmente pelos danos causados ao ciclista; (B) quando não há danos graves a terceiros, o ato de dirigir sob influência de álcool configura somente infração administrativa; (C) o motorista poderá ser processado criminalmente por lesão corporal culposa de trânsito; (D) o motorista será isento de pena se comprovar que não havia sinais visíveis de embriaguez no momento da abordagem pelos agentes de trânsito; (E) na hipótese de óbito do ciclista em decorrência das lesões, o motorista poderá ser responsabilizado por homicídio doloso de trânsito qualificado pelo uso de álcool. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS A condução de veículo automotor sob influência de álcool ou de qualquer substância psicoativa é conduta tipificada no art. 306 do CTB, que prevê crime de perigo abstrato, bastando a constatação da concentração de álcool no sangue acima do limite legal, independentemente da demonstração de potencial lesivo. 73 Caso o condutor, sob efeito de álcool,venha a praticar crime de lesão corporal culposa (art. 303) ou homicídio culposo (art. 302), incide a causa de aumento de pena prevista no §3º dos referidos artigos, que prevê elevação de 1/3 a 1/2 se o agente estava sob influência de álcool ou substância psicoativa que determine dependência. Assim, dirigir embriagado não é apenas infração administrativa, mas crime autônomo de perigo abstrato (art. 306 CT(B), cumulável com eventuais crimes de dano (lesão corporal ou homicídio culposos) quando houver resultado lesivo. Dessa forma temos que: • Condutor embriagado: tipifica crime do art. 306 CTB. • Ocorrência de lesão corporal leve: tipifica crime do art. 303 CTB. • A embriaguez gera causa de aumento de pena na lesão culposa (§3º). (A) INCORRETA. A responsabilidade civil pelo dano causado no trânsito é independente da esfera penal, mas não exclui a responsabilização criminal, quando presentes os elementos do tipo. Portanto, errada, porque a responsabilidade criminal não é afastada. (B) INCORRETA. O crime de embriaguez ao volante previsto no art. 306 do CTB é de perigo abstrato, bastando a aferição da concentração igual ou superior a 6 decigramas por litro de sangue ou equivalência em ar alveolar, independentemente de dano.” Portanto, mesmo sem dano grave, dirigir alcoolizado configura crime, não só infração administrativa. (C) CORRETA. O art. 303 tipifica a lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, sendo certo que, se o agente estiver sob influência de álcool, incide a causa de aumento de pena. Portanto, o motorista que embriagado causa ferimentos pode ser processado por lesão corporal culposa de trânsito, com aumento de pena, cumulativamente ao art. 306 CTB, se caracterizado. (D) INCORRETA. A embriaguez pode ser comprovada por teste, exame clínico, perícia, vídeos, prova testemunhal ou outros meios de prova em direito admitidos. Logo, a ausência de sinais visíveis não isenta o agente de responsabilidade se houver outros meios de prova (bafômetro, exame de sangue, testemunhas). (E) INCORRETA. A embriaguez ao volante não desloca automaticamente o dolo eventual. O homicídio doloso só é imputado se comprovado que o agente assumiu o risco de produzir o resultado morte. Portanto, a simples embriaguez não qualifica o homicídio como doloso de trânsito, sendo em regra homicídio culposo com causa de aumento (§3º do art. 302 CT(B), salvo prova de dolo eventual (situação excepcional que exige demonstração da assunção do risco). 74 _____________________________________________________________________________ 46. Durante ação de combate ao tráfico de drogas montada na rodoviária, a Polícia Militar encontrou uma cápsula plástica com 0,8g de cloridrato de cocaína, no interior da mochila trazida por Sérgio, que desembarcara de um ônibus vindo de estado vizinho. Considerando a situação descrita e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, é CORRETO afirmar que: (A) trata-se de comportamento atípico, mas com repercussões na esfera extrapenal; (B) eventual transação penal em virtude da prática do crime previsto no Art. 28 da Lei nº 11.343/2006, firmada nos cinco anos anteriores ao fato, impede o reconhecimento da atipicidade da conduta; (C) para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância, ao local e às condições da ação e às circunstâncias pessoais de Sérgio; (D) está vedada a imposição a Sérgio da pena de prestação de serviços à comunidade; (E) há uma presunção absoluta de que Sérgio é usuário. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O porte de drogas para consumo pessoal está previsto no art. 28 da Lei nº 11.343/2006, e que não se trata de hipótese de atipicidade, pois a conduta continua sendo crime, embora despenalizada em parte (não tem pena privativa de liberdade). O art. 28 da Lei de Drogas estabelece crime de mera conduta e perigo abstrato, cujo objeto jurídico é a saúde pública. A punição é limitada a penas alternativas (advertência, prestação de serviços à comunidade e medida educativa), não cabendo prisão. O art. 28, §2º, da Lei nº 11.343/06, estabelece que o juiz, para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. A análise da questão não se baseia em presunção absoluta, mas em uma apreciação conjunta desses fatores. (A) INCORRETA. O porte de droga para uso pessoal continua sendo crime, mesmo que despenalizado em parte (sem prisão). O STF decidiu isso no RE 635.659, que foi mencionado expressamente: “O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 635.659, concluiu que o porte de drogas para consumo pessoal é crime de perigo abstrato e declarou constitucional o dispositivo, mantendo a subsistência da infração penal.” 75 Então não é comportamento atípico. Continua típico, ilícito e sujeito a sanções penais alternativas. (B) INCORRETA. Aqui há dois problemas. Primeiro, o próprio enunciado fala em “impedir o reconhecimento da atipicidade”, mas a conduta já é típica. A transação penal não torna atípico ou típico o fato. A reincidência ou o cometimento reiterado não tornam a conduta atípica. O art. 28, §4º, dispõe que, em caso de reincidência específica, o juiz poderá substituir a medida por tratamento especializado. Mas isso não implica reconhecimento de atipicidade. Ou seja, a prática anterior só influencia na resposta penal (por exemplo, substituindo a medida educativa), mas não afeta a natureza típica do fato. Logo, transação penal prévia não interfere na análise da tipicidade. (C) CORRETA. O art. 28, §2º, estabelece que o juiz, para definir se a droga era para uso pessoal, atenderá cumulativamente: natureza e quantidade, local e condições da ação, circunstâncias sociais e pessoais, conduta e antecedentes. (D) INCORRETA. A prestação de serviços é uma das penas do art. 28. Literalmente: “As penas cominadas ao art. 28 incluem: I – advertência; II – prestação de serviços à comunidade; III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.” Então ela não está vedada — pelo contrário, é prevista expressamente. (E) INCORRETA. Errada porque não existe essa presunção. O juiz tem que avaliar vários elementos, não só a quantidade. Para determinar se a droga se destinava a consumo pessoal, o juiz deve atender cumulativamente aos fatores previstos no art. 28, §2º. Ou seja, não existe presunção absoluta. A avaliação é feita caso a caso. _____________________________________________________________________________ 47. Analise as hipóteses a seguir. (i) Felício, inconformado com o fim de seu casamento, efetua disparo de arma de fogo contra sua ex-esposa, que sobrevive. (ii) João, ao descobrir que sua ex-namorada tem um novo relacionamento amoroso, envia-lhe uma mensagem de WhatsApp com a foto de um punhal e a seguinte legenda: “Se você não for minha, não vai ser de mais ninguém”. (iii) Mariana, durante uma discussão motivada por ciúmes, dá um soco em sua namorada, causando-lhe lesões corporais. (iv) José, durante uma discussão motivada por dívida, dá um soco em sua irmã, causando-lhe lesões corporais. Consideradas as hipóteses acima, é CORRETO afirmar, à luz dos dispositivos legais aplicáveis e da jurisprudência dos Tribunais Superiores, que: 76 (A) em caso de condenação, o efeito da perda do cargo, função pública ou mandato eletivo será automático apenas nas hipóteses (i), (iii) e (iv); (B) a Lei nº 11.340/2006 aplica-se apenas a três hipóteses; (C) todas as hipóteses tipificam crimes de ação penal pública incondicionada; (D) em caso de condenação, Felício poderá obter livramento condicional, depois de cumprir 55% da pena; (E) em caso de condenação,somente Felício não poderá usufruir do direito à visita íntima ou conjugal. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS Item I - tentativa de feminicídio (homicídio doloso tentado). Aplica-se a Lei Maria da Penha, pois se trata de relação íntima anterior e violência contra mulher. Item II - crime de ameaça no contexto de violência doméstica (relação íntima de afeto e violência psicológica – art. 7º, II). Item III - lesão corporal decorrente de violência doméstica contra mulher, relação homoafetiva, aplica-se a Lei Maria da Penha (art. 5º e jurisprudência do STJ). “A proteção se estende a relações homoafetivas e a mulheres trans em situação de violência doméstica” (REsp 1.977.124-SP). Item IV - lesão corporal contra irmã, que pode configurar violência doméstica. A vulnerabilidade e a hipossuficiência da mulher são presumidas, tornando desnecessária a prova de motivação específica baseada no gênero: “É desnecessária a demonstração específica da subjugação feminina para aplicar o sistema protetivo da Lei Maria da Penha, pois a organização social brasileira ainda é fundada em um sistema hierárquico de poder baseado no gênero.” (AgRg no REsp 2.080.317-GO) Portanto, mesmo em situações envolvendo discussão por outros motivos, há presunção da vulnerabilidade feminina e a aplicação da Lei Maria da Penha. (A) INCORRETA. A perda do cargo, função pública ou mandato não é efeito automático da condenação, dependendo de fundamentação expressa na sentença (art. 92 do CP). (B) INCORRETA. A jurisprudência mais recente do STJ (AgRg no REsp 2.080.317-GO) deixou claro que não se exige prova da motivação de gênero, pois a vulnerabilidade é presumida. Ou seja, todas as hipóteses (inclusive a agressão entre irmãos) podem estar cobertas pela Lei Maria da Penha. (C) CORRETA. 77 • Tentativa de homicídio é ação pública incondicionada. • Lesão corporal em contexto de violência doméstica é pública incondicionada (ADI 4424 e Súmula 542 do STJ). • Ameaça em violência doméstica também é pública incondicionada (art. 41). Logo, todas as situações se enquadram nessa regra. (D) INCORRETA. O crime de homicídio qualificado tentado é hediondo. Para crimes hediondos, o Código Penal, em seu artigo 83, inciso V, estabelece que o condenado pode obter livramento condicional após cumprir dois terços (2/3) da pena, desde que não seja reincidente específico em crimes hediondos. (E) INCORRETA. A restrição de visitas depende de decisão judicial específica ou regra disciplinar do sistema prisional, não sendo efeito automático da condenação. A Lei Maria da Penha não cria regra que suprima automaticamente o direito à visita íntima. Se houver risco concreto à vítima, o juiz pode restringir visitas como medida de proteção, mas isso é analisado caso a caso, mediante fundamentação. _____________________________________________________________________________ 48. Sobre os crimes contra a dignidade sexual, é CORRETO afirmar que: (A) nos crimes sexuais cometidos contra vítima em situação de vulnerabilidade temporária, a ação penal é pública incondicionada, ainda que o fato tenha sido praticado na vigência da redação dada ao Art. 225 do CP pela Lei nº 12.015/2009; (B) com base no princípio da ampla defesa, é facultado à defesa técnica invocar, em audiências, elementos sobre a vida sexual pregressa ou modo de vida da vítima; (C) o delito de assédio sexual previsto pelo Código Penal não se configura na hipótese de constrangimento, com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, praticado por um estagiário contra a coordenadora da seção em que trabalha; (D) configura contravenção penal o ato de produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado sem autorização dos participantes; (E) o crime de estupro de vulnerável se configura com a conjunção carnal ou a prática de ato libidinoso com pessoa menor de 14 anos, podendo ser afastada a imputação do resultado na hipótese de comprovação de consentimento da vítima, de sua experiência sexual anterior ou da existência de relacionamento amoroso com o agente. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. A ação penal nos crimes contra a liberdade sexual é, em regra, pública condicionada à representação da vítima, exceto quando a vítima for menor de 18 anos, 78 pessoa com enfermidade ou deficiência mental ou quando houver violência real, casos em que será pública incondicionada. Além disso, a alteração do art. 225 reduziu as hipóteses de ação penal pública incondicionada, excluindo a previsão genérica de vulnerabilidade temporária. Ou seja, a vulnerabilidade temporária, por si só, não torna a ação incondicionada se não houver violência real ou incapacidade permanente. É preciso violência real ou incapacidade. (B) INCORRETA. O art. 212, §1º, do CPP, com redação dada pela Lei nº 13.431/2017, veda perguntas sobre a vida sexual pregressa da vítima, salvo quando estritamente relevante à causa. Ou seja, não é facultado de forma ampla invocar a vida sexual pregressa — é proibido, salvo se demonstrada relevância objetiva para a defesa. (C) CORRETA. Assédio sexual é o constrangimento cometido por alguém que prevalece da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerente ao exercício de emprego, cargo ou função, com o fim de obter vantagem ou favorecimento sexual. Nesse caso, quem pratica o constrangimento é o estagiário (subordinado) contra a coordenadora (superior). Portanto, não há relação de superior hierárquico ou ascendência que caracterize assédio sexual. (D) INCORRETA. O art. 216-B do Código Penal, incluído pela Lei nº 13.772/2018, criou o crime de registro não autorizado de intimidade sexual, com pena de reclusão de 6 meses a 1 ano e multa. Portanto, essa conduta é crime, não contravenção penal. (E) INCORRETA. O estupro de vulnerável (art. 217- A) é crime de natureza formal e de proteção absoluta, não se admitindo consentimento, experiência sexual prévia ou relacionamento como causas de exclusão da tipicidade. Ademais, a jurisprudência do STJ e STF consolidou entendimento de que tais circunstâncias não descaracterizam o crime. Súmula 593-STJ: O crime de estupro de vulnerável se configura com a conjunção carnal ou prática de ato libidinoso com menor de 14 anos, sendo irrelevante eventual consentimento da vítima para a prática do ato, sua experiência sexual anterior ou existência de relacionamento amoroso com o agente. Em situações excepcionais, pode haver uma análise diferenciada, mas a regra geral é a aplicação da presunção absoluta de vulnerabilidade para menores de 14 anos. _____________________________________________________________________________ 49. Sobre a disciplina jurídica da reincidência no direito penal brasileiro, analise as afirmativas a seguir. I. A reincidência não se comunica aos corréus nos casos de concurso de pessoas. II. É admissível a fixação de regime inicial semiaberto a reincidentes em crimes dolosos, a depender da pena aplicada e das circunstâncias judiciais. 79 III. A condenação por crimes políticos e militares não gera reincidência. Está CORRETO o que se afirma em: (A) I, apenas; (B) I e II, apenas; (C) I e III, apenas; (D) II e III, apenas; (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE RECURSO. I. CORRETO. A reincidência é uma circunstância de caráter pessoal, conforme a regra do art. 30 do Código Penal: Art. 30 - As circunstâncias de caráter pessoal não se comunicam aos corréus, salvo quando elementares do crime. A reincidência é considerada uma circunstância pessoal, portanto não se comunica aos demais envolvidos. II. CORRETO. O art. 33, §2º, alínea‘b’ do CP prevê que, quando o condenado for reincidente, a pena deverá ser cumprida em regime fechado. Todavia, o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça já assentaram que esta regra não tem caráter absoluto (HC 136385/SC). O juiz pode fixar regime mais brando (semiaberto), desde que apresente fundamentação concreta que demonstre circunstâncias judiciais favoráveis. Por isso, é sim admissível o regime semiaberto para reincidentes, em situações excepcionais e fundamentadas. III. CORRETO. “O Código Penal, no art. 64, inciso II, dispõe expressamente que não se consideram para efeito de reincidência as condenações anteriores por crimes militares próprios e por crimes políticos. Art. 64 - Para efeito de reincidência: II - não se consideram os crimes militares próprios e políticos. Em que pese não gerar reincidência, essas condenações podem sim ser valoradas como maus antecedentes. Ou seja: Não contam para efeito de reincidência técnica (que gera agravamento automático e impede alguns benefícios), mas podem influenciar a análise do histórico do réu na primeira fase da dosimetria, ao fixar a pena-base. Assim, essa afirmativa está correta. 80 Acredita-se que a Banca tenha incorrido em erro, pois todas os itens estão corretos. Desse modo, a alternativa a ser assinalada seria a “Letra E” e não a “Letra B”. _____________________________________________________________________________ 50. Analise as hipóteses a seguir. (i) Mariana vai à festa de aniversário de uma amiga, ingere bebida alcoólica e, ao retornar para casa, na condução de seu veículo, abalroa a traseira do carro de Fernanda, que sofre ferimentos graves, mas sobrevive. (ii) João decide matar Mário, seu opositor político, e planeja provocar um acidente de carro, aproveitando-se de que a vítima e seu motorista Fábio rotineiramente trafegam por uma estrada à beira de um penhasco. Certo dia, João executa o plano e o acidente provocado causa a morte de Mário e Fábio. (iii) Patrício decide matar Renata, sua ex-esposa, por conta de desavenças relativas à pensão alimentícia. Para assegurar o êxito da missão, acopla um kit rajadas a sua pistola. No dia escolhido para o crime, Patrício, em uma motocicleta, segue o veículo de Renata e vê quando Mara, colega de trabalho da vítima, entra no carro. Patrício emparelha com o carro, mira na cabeça de Renata e dispara. Mara também é atingida e ambas morrem. Consideradas as hipóteses acima, a respeito do dolo, é correto afirmar, à luz da doutrina e da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, que: (A) há dolo indireto na hipótese (i) e nas mortes de Fábio e de Mara; (B) na hipótese (i), a embriaguez não é suficiente para justificar a imputação de tentativa de homicídio com dolo eventual; (C) na hipótese (i), não se admite o dolo eventual, haja vista a incompatibilidade entre este e a tentativa; (D) há dolo direto nas mortes de Fábio e de Mara; (E) há dolo de segundo grau na morte de Mara. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS Nos termos do art. 18 do Código Penal, diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis o resultado (dolo direto) ou assumiu o risco de produzi-lo (dolo eventual). Assim, temos: • Dolo direto (determinado ou imediato):É a vontade dirigida especificamente à produção do resultado típico. O dolo direto se subdivide em: o Dolo direto de primeiro grau o Dolo direto de segundo grau 81 • Dolo indireto (indeterminado): Divide-se em: o Dolo eventual (de consequências possíveis): O agente direciona sua conduta à produção de um resultado, mas assume o risco de causar um resultado diverso. o Dolo alternativo: Significa a vontade de atingir, indistintamente, um ou outro resultado (alternatividade objetiva) ou uma outra vítima (alternatividade subjetiva). Nos termos do art. 18 do Código Penal, diz-se o crime culposo: II – culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia. Assim, temos: • Culpa consciente (com previsão ou ex lascivia): O agente prevê o resultado (há efetiva previsão, e não mera previsibilidade), mas espera sinceramente que ele não ocorra, pois supõe poder evitá-lo, utilizando suas habilidades ou contando com a sorte. Na culpa consciente, mais do que previsibilidade, existe previsão. No dolo eventual, o agente prevê o resultado e não se importa que ele venha a acontecer. O agente assume o risco do resultado, que lhe é indiferente (num linguajar simples: “dane-se”). Na culpa consciente, o agente, embora prevendo o resultado, espera sinceramente que ele não ocorra, acreditando que sua habilidade fará com que ele não se produza (num linguajar simples: “danou-se”). • Culpa inconsciente (sem previsão ou ex ignorantia): O agente não prevê o resultado, que, entretanto, era previsível. Neste caso, qualquer outra pessoa, nas mesmas circunstâncias, poderia prever a ocorrência daquele resultado. Item I A questão sobre se um acidente de trânsito causado por um motorista embriagado, configurando dolo eventual ou culpa, é complexa e depende das circunstâncias específicas de cada caso. A jurisprudência brasileira tem se debruçado sobre esse tema, e há decisões que apontam em diferentes direções. No caso concreto, Mariana foi à festa de aniversário de uma amiga, ingeriu bebida alcoólica e, ao retornar para casa, na condução de seu veículo, abalroou a traseira do carro de Fernanda, que sofreu ferimentos graves, mas sobreviveu. Este contexto, por si só, não permite afirmar de forma automática que Mariana agiu com dolo eventual. Isso porque, conforme entendimento consolidado do Superior Tribunal de Justiça, a embriaguez ao volante, isoladamente considerada, não basta para presumir dolo eventual. Conforme decidido pelo Superior Tribunal de Justiça: “A embriaguez do agente condutor do automóvel, por si só, não pode servir de premissa bastante para a afirmação do dolo eventual em acidente de trânsito com resultado morte. A 82 embriaguez, sem o acréscimo de outras peculiaridades, não pode servir como presunção de que houve dolo eventual.” STJ. 6ª Turma. REsp 1689173-SC, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 21/11/2017 (Informativo 623). Por outro lado, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal reconhece que, quando a embriaguez está acompanhada de circunstâncias qualificadoras — como dirigir em contramão, em alta velocidade ou em local de grande risco — pode-se caracterizar o dolo eventual: “Verifica-se a existência de dolo eventual no ato de dirigir veículo automotor sob a influência de álcool, além de fazê-lo na contramão. Esse é, portanto, um caso específico que evidencia a diferença entre a culpa consciente e o dolo eventual.” STF. 1ª Turma. HC 124687/MS, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgado em 29/5/2018 (Informativo 904). No caso de Mariana, até onde relatado, não há menção a outros fatores agravantes — como alta velocidade, direção em contramão, histórico de infrações graves ou absoluto desprezo às regras de cuidado — que pudessem demonstrar que ela previu claramente o resultado e aceitou sua ocorrência. Assim, em princípio, a conduta estaria mais próxima da culpa consciente (quando há previsão do risco, mas expectativa sincera de que o resultado não ocorra) ou da culpa inconsciente (se não houver prova de que ela sequer previu a possibilidade do acidente). Item II A questão sobre a caracterização do elemento subjetivo em crimes praticados mediante acidente de trânsito requer a análise dos conceitos de dolo direto, dolo eventual e culpa, conforme previstos no Código Penal. No caso concreto, João decidiu matar Mário, seu opositor político, e planejou provocar um acidente de carro, ciente de que Mário e seu motorista, Fábio, trafegavam habitualmente por estrada à beira de um penhasco. Ao executar seu plano, provocou o acidente que resultouna morte de ambos. Diante dessas circunstâncias, verifica-se que João dirigiu sua vontade diretamente à produção do resultado morte. Há aqui o dolo direto de primeiro grau em relação a Mário, já que ele desejava matá-lo de forma deliberada e consciente. No tocante ao motorista Fábio, que também veio a óbito em decorrência da ação, há hipótese de dolo direto de segundo grau. Isso porque a morte de Fábio foi consequência certa e previsível do plano executado por João, ainda que não fosse o objetivo primário de sua conduta. Portanto, nesta hipótese, não se cogita dolo eventual ou qualquer forma de culpa, uma vez que João quis matar Mário de forma premeditada e assumiu, como consequência necessária e diretamente relacionada ao seu plano, a morte de Fábio. Trata-se de conduta dolosa com desígnios específicos. 83 Item III A questão sobre a caracterização do elemento subjetivo em crimes dolosos contra a vida, especialmente quando há vítimas adicionais atingidas, requer a análise dos conceitos de dolo direto, dolo eventual e culpa, conforme previstos no Código Penal. No caso concreto, Patrício decidiu matar Renata, sua ex-esposa, por conta de desavenças relacionadas à pensão alimentícia, tendo planejado a execução com a utilização de um kit rajadas acoplado à pistola. Ao seguir o veículo da vítima e visualizar que Mara, colega de trabalho de Renata, também se encontrava no carro, Patrício mesmo assim emparelhou com o automóvel, mirou na cabeça de Renata e efetuou diversos disparos, atingindo ambas, que morreram. Em tais circunstâncias, evidencia-se que Patrício dirigiu sua vontade diretamente à eliminação da vida de Renata. Trata-se de dolo direto de primeiro grau em relação à vítima visada. No que concerne à morte de Mara, há duas possíveis interpretações jurídicas. Uma delas é a configuração do dolo direto de segundo grau, uma vez que Patrício sabia que, ao descarregar rajadas em direção ao interior do veículo, assumia como consequência necessária e previsível a morte de qualquer ocupante. Outra possibilidade é a caracterização de dolo alternativo, pois, ao escolher atirar contra o carro ocupado, Patrício aceitou indistintamente matar Renata ou outra pessoa que viesse a ser atingida. Assim, a conduta de Patrício configura homicídio doloso consumado em relação a ambas as vítimas, não havendo que se falar em culpa consciente ou dolo eventual, tendo em vista que ele agiu com vontade dirigida a suprimir a vida e aceitou como consequência natural a morte da segunda vítima. (A) INCORRETA. Na hipótese (i) (Mariana, motorista embriagada), não há dolo indireto — pois a mera embriaguez, sem outras circunstâncias, não autoriza a imputação de dolo eventual. Nas mortes de Fábio e de Mara, praticadas em contextos de vontade dirigida ao resultado principal, pode-se reconhecer dolo indireto: Morte de Fábio: dolo direto de segundo grau (resultado necessário e previsível). Morte de Mara: dolo alternativo ou dolo direto de segundo grau (resultado previsível e aceito). Logo, o item só estaria CORRETA quanto a Fábio e Mara. (B) CORRETA. O entendimento do STJ, expresso no REsp 1689173-SC (Informativo 623), aplica-se tanto ao homicídio consumado quanto ao tentado. Se a embriaguez isoladamente não é suficiente para caracterizar dolo eventual quando o resultado ocorre, também não seria bastante, por si só, para fundamentar tentativa de homicídio com dolo eventual, já que o elemento subjetivo é o mesmo em ambos os casos. Nesse sentido, a assertiva foi corretamente considerada correta pela banca, pois afirma apenas que a embriaguez sozinha não basta para imputar tentativa de homicídio com dolo eventual. Importante destacar que isso não significa que a embriaguez ao volante nunca possa ensejar a responsabilização por dolo eventual. A caracterização depende da existência 84 de outras circunstâncias que demonstrem que o agente assumiu o risco de produzir o resultado (por exemplo, dirigir em alta velocidade, na contramão ou em locais de grande circulação). Portanto, se a assertiva tivesse negado de forma absoluta qualquer possibilidade de imputação de dolo eventual em situações de embriaguez combinada com fatores agravantes, estaria incorreta. Como ela apenas apontou que a embriaguez isolada não justifica por si só essa imputação, sua correção se alinha ao entendimento consolidado pelo STJ. (C) INCORRETA. A possibilidade de coexistência entre dolo eventual e tentativa é tema que suscita debates na doutrina e na jurisprudência pátria. De forma geral, prevalece o entendimento de que não há incompatibilidade lógica ou jurídica entre tais figuras, na medida em que o dolo eventual, embora caracterizado pela assunção do risco de produzir o resultado, pode coexistir com a não consumação por circunstâncias alheias à vontade do agente (art. 14, II, CP). No âmbito jurisprudencial, não há Súmula ou Informativo de jurisprudência vinculante do STF ou do STJ que consolide a questão. Entretanto, existem precedentes de tribunais estaduais que expressamente reconhecem a compatibilidade. No STJ e no STF, embora não se encontrem decisões vinculantes, há acórdãos que não excluem a possibilidade e examinam o dolo eventual como elemento subjetivo inclusive em fases de pronúncia e instrução processual, o que revela aceitação indireta da compatibilidade. Assim, a alternativa está incorreta porque a maior parte da doutrina e a jurisprudência não reconhecem qualquer incompatibilidade entre tentativa e dolo eventual. Como crime doloso que é, o dolo eventual admite a forma tentada, desde que o resultado não se consume por circunstâncias alheias à vontade do agente (D) INCORRETA. Na morte de Fábio, configura-se dolo direto de segundo grau, pois sua morte foi consequência necessária e previsível da ação dolosa principal. No caso de Mara, também se pode falar em dolo direto de segundo grau, já que Patrício sabia que ela seria atingida, ou eventualmente em dolo alternativo, porque aceitou indistintamente o risco de matar qualquer ocupante. A assertiva está correta ao apontar dolo direto como gênero, mas peca por não especificar que se trata de dolo de segundo grau, e não dolo direto de primeiro grau (vontade imediata de eliminar a vítima). Em síntese, embora não houvesse intenção específica de matar Fábio e Mara, sua morte decorreu de forma inevitável da conduta inicialmente dirigida contra Mário e Renata. (E) INCORRETA. A assertiva disse somente que havia dolo de segundo grau, como se fosse a única e inequívoca classificação. Mas a classificação tecnicamente mais adequada (ou pelo menos mais aceita) é o dolo alternativo, pois não havia certeza de que a morte de Mara ocorreria como consequência necessária. Em outras palavras: Dolo de segundo grau = resultado secundário inevitável. 85 Dolo alternativo = resultado aceito indiferentemente. Como a morte de Mara não era inevitável, mas apenas tolerada como possibilidade, não se pode afirmar que era dolo direto de segundo grau de forma correta e exclusiva. _____________________________________________________________________________ DIREITO PROCESSUAL PENAL 51. Arnaldo e Armindo foram condenados a nove anos de reclusão pela prática do crime de estupro contra Arlete, tendo o Ministério Público interposto recurso total em face da condenação. Arnaldo, por sua vez, interpôs recurso de apelação visando a anular o feito, alegando suspeição do juiz e falta de imparcialidade deste. Já Armindo deixou transcorrer o prazo recursal, não interpondo o recurso competente. Arlete, mesmo não habilitada como assistente, interpôs recurso de apelação, visando ao aumento da pena dos condenados, 15 dias após transcorrido o prazo do Ministério Público. Diante desse cenário, é CORRETO afirmar que o recurso de: (A) Arlete não poderá ser conhecido, pois intempestivo; (B) Arnaldo, se provido, não poderá aproveitar a Armindo, em razão da reformatio in pejus; (C) Arletenão poderá ser conhecido, pois ela não se habilitou como assistente; (D) Arlete poderá ser conhecido, pois atende aos pressupostos do cabimento e da tempestividade; (E) Arnaldo, se provido, não poderá aproveitar a Armindo, pois este não recorreu. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE RECURSO. Dispõe o art. 577 do CPP que recurso poderá ser interposto: a) pelo Ministério Público; b) ou pelo querelante; c) ou pelo réu, seu procurador ou seu defensor. A ausência do assistente de acusação no rol de legitimados do art. 577 do CPP não decorreu de impropriedade legislativa tampouco de um descuido do legislador. 86 Em verdade, o assistente de acusação não está previsto no referido dispositivo como legitimado recursal, porque nele estão arrolados os sujeitos processuais que podem ingressar com qualquer recurso entre os previstos em lei. São os chamados legitimados gerais, nos quais não se enquadra o assistente do Ministério Público, cuja legitimidade é restrita e subsidiária (supletiva). Diz-se restrita a legitimação do assistente, porque, em tese, somente poderá ele recorrer nos casos expressamente previstos em lei, quais sejam: a) Apelar da sentença, com fundamento no art. 598 do CPP; Art. 598. Nos crimes de competência do Tribunal do Júri, ou do juiz singular, SE DA SENTENÇA NÃO FOR INTERPOSTA APELAÇÃO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO no prazo legal, o OFENDIDO ou qualquer das pessoas enumeradas no art. 31, AINDA QUE NÃO SE TENHA HABILITADO COMO ASSISTENTE, poderá interpor apelação, que não terá, porém, efeito suspensivo. Parágrafo único. O prazo para interposição desse recurso será DE QUINZE DIAS e correrá do dia em que terminar o do Ministério Público. b) Apelar da decisão de impronúncia, com fundamento no art. 584, § 1.º, c/c os arts. 416 e 598 do CPP; c) Recorrer em sentido estrito da decisão que julgar extinta a punibilidade pela prescrição ou outra causa, com base no art. 584, § 1.º, c/c o art. 598 do CPP. Diz-se subsidiária ou supletiva a legitimidade recursal do assistente porque, mesmo nas hipóteses em que pode se insurgir, fica ele condicionado a que NÃO TENHA O MINISTÉRIO PÚBLICO RECORRIDO DA RESPECTIVA DECISÃO. Tal como o caso narrado no enunciado. Se o Ministério Público interpuser recurso contra a decisão judicial, é necessário distinguir duas situações: 1)Sendo parcial o recurso do Ministério Público Poderá o assistente insurgir-se em relação à parte da decisão não abrangida pela impugnação do Promotor de Justiça. 2)Abrangendo o recurso ministerial toda a decisão recorrida Apenas poderá o assistente arrazoar tal insurgência. Neste caso, o recurso do Ministério Público terá duas razões recursais: as oferecidas pelo próprio promotor de justiça recorrente e aquelas deduzidas pelo assistente. Isto se extrai da parte final do art. 271 do CPP, quando refere que o assistente poderá “arrazoar os recursos 87 interpostos pelo Ministério Público, ou por ele próprio, nos casos dos arts. 584, § 1.º, e 598”. Este artigo nos permite concluir que o assistente de acusação poderá arrazoar todo e qualquer recurso interposto pelo Ministério Público, mas, quanto aos por ele próprio interpostos, apenas poderá oferecer razões nas hipóteses dos arts. 584, § 1.º, e 598, porque, simplesmente, apenas nestes casos é que pode ele recorrer. Nesse contexto, observa-se que o Ministério Público interpôs recurso de apelação abrangendo integralmente a sentença condenatória. Diante disso, Arlete, na condição de vítima, não poderia ter apresentado recurso próprio, mas apenas ofertado razões no bojo do recurso interposto pelo Ministério Público. (A) INCORRETA. O recurso de Arlete foi interposto dentro do prazo de 15 dias contado do fim do prazo do Ministério Público (art. 598, § único, CPP). Todavia, não se trata de intempestividade: o ofendido só pode apelar se o MP não interpuser apelação. Como o MP recorreu, Arlete não tem interesse processual para recorrer (falta-lhe legitimação ativa nesta hipótese). (B) INCORRETA. A reformatio in pejus veda agravamento de quem não recorreu, mas não impede que seja beneficiado por nulidades que favoreçam ambos. Art. 580 do CPP dispõe que, no concurso de agentes, a decisão favorável a um dos réus “aproveitará aos outros” quando o motivo não for estritamente pessoal. Assim, o art. 580 permite o aproveitamento se o fundamento não for pessoal, como seria o caso de suspeição baseada em elementos objetivos (não relacionados apenas a Arnaldo). (C) INCORRETA. O art. 598 do CPP expressamente autoriza que o ofendido recorra “ainda que não se tenha habilitado como assistente”, desde que o MP não tenha apelação pendente. Aqui, o óbice não é a habilitação, mas o fato de o MP já ter recorrido, excluindo a cabimento de recurso próprio de Arlete. (D) INCORRETA. Embora tempestivo, o recurso é incabível em face de apelação já interposta pelo MP: inexistem interesse e legitimação para recurso do ofendido nestas condições (art. 598, caput, CPP). (E) INCORRETA. Assim, o art. 580 permite o aproveitamento se o fundamento não for pessoal, como seria o caso de suspeição baseada em elementos objetivos (não relacionados apenas a Arnaldo). _____________________________________________________________________________ 88 52. Luís foi preso e autuado em flagrante pelo crime de furto simples. Na audiência de custódia, diante de seus 11 antecedentes criminais relativos a crimes patrimoniais e em razão de não possuir residência fixa no distrito da culpa, o Ministério Público requereu a conversão de sua prisão em flagrante em prisão preventiva, para garantia da ordem pública e para assegurar a aplicação da lei penal. Diante desse contexto, é CORRETO afirmar que o juiz: (A) não poderá decretar a prisão preventiva de Luís, mas poderá decretar medida cautelar de comparecimento periódico em juízo para justificar suas atividades; (B) poderá decretar a prisão preventiva e substituí-la por prisão domiciliar se Luís declarar endereço no distrito da culpa; (C) não poderá decretar a prisão preventiva de Luís, mas poderá decretar a sua prisão temporária para assegurar a aplicação da lei penal; (D) não poderá decretar a prisão preventiva de Luís, devendo oferecer a este acordo de não persecução penal; (E) poderá decretar a prisão preventiva de Luís para assegurar a ordem pública e impedir a reiteração criminosa. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS (A) CORRETA. Literalidade do CPP. Art. 282. As medidas cautelares previstas neste Título deverão ser aplicadas observando-se a: I - necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação ou a instrução criminal e, nos casos expressamente previstos, para evitar a prática de infrações penais; II - adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do indiciado ou acusado. § 1o As medidas cautelares poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente. Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão: I - comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; (B) e (E) INCORRETAS. A prisão preventiva não é cabível nos crimes dolosos cuja pena privativa de liberdade máxima NÃO ULTRAPASSE QUATRO ANOS, como ocorre no caso do furto simples, cuja sanção máxima prevista é de quatro anos de reclusão, além de multa. 89 Principais considerações sobre a prisão preventiva De acordo com o art. 312 do CPP, só é possível a prisão preventiva se, no caso concreto, houver indícios suficientes de autoria, prova da materialidade do crime, e agora, também, o perigo gerado pelo estado de liberdade do indivíduo, conforme acréscimo trazido pela Lei nº 13.964/2019. Epara tanto, a exposição do atendimento desses pressupostos deverá, em atendimento aos princípios da fundamentação das decisões judiciais e da congruência/adstrição, ser realizada em decisão devidamente motivada e fundamentada. Fundamentos De acordo com o art. 312, caput e parágrafo único, do CPP, a prisão preventiva pode ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, para assegurar a aplicação da lei penal ou em caso de descumprimento das obrigações impostas por força de outras medidas cautelares. Garantia da ordem pública para o STF, a garantia da ordem pública é visualizada pela probabilidade do cometimento de novas infrações. Assim, o clamor público ou a comoção social, por si só, não justificam a prisão preventiva (Info 913). Contudo, de acordo com Nucci, extrai-se da jurisprudência o seguinte conjunto de causas viáveis para autorizar a prisão preventiva com base na garantia da ordem pública: i) gravidade concreta do crime; ii) envolvimento com o crime organizado; ii) reincidência ou maus antecedentes do agente e periculosidade; iv) particular e anormal modo de execução do delito; v) repercussão efetiva em sociedade, gerando real clamor público. Ainda segundo Nucci, o ideal é a associação de, pelo menos, dois desses fatores. Garantia da ordem econômica prevalece que a ordem econômica é uma espécie do gênero ordem pública, que estaria relacionada com os crimes previstos nas Leis 1.521/51 (Crimes Contra a Economia Popular), 7.492/86 (Crimes Contra o SFN), 8.078/90 (CDC), 8.137/90 (Crimes Contra a Ordem Tributária, Econômica e Relações de Consumo), 8.176/91 (Crimes Contra a Ordem Econômica), 9.279/96 (Crimes 90 Contra a Propriedade Industrial) e 9.613/98 (Lavagem de Dinheiro). Conveniência da instrução criminal é decretada, por exemplo, quando o agente, em liberdade, ameaça testemunhas ou a vítima para que prestem depoimento favorável a ele em juízo ou quando está forjando ou destruindo provas em seu favor. Garantia da futura aplicação da lei penal baseia-se na existência de indícios de que o acusado está prestes a se evadir ou de que já fugiu para furtar-se ao cumprimento da pena em caso de condenação. Descumprimento de obrigações impostas por força de outras medidas cautelares Pacelli afirma que para a decretação da prisão preventiva com fundamento no descumprimento de medida cautelar, não se exige a presença das hipóteses do art. 313. Assim, não importa se o crime é doloso, nem a quantidade da PPL, nem se o agente é reincidente em outro crime doloso, nem se o crime é cometido mediante violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência. Condições de admissibilidade O art. 313 do CPP esclarece que não basta a presença de um dos fundamentos da prisão preventiva, só podendo ela ser decretada em determinadas espécies de infração penal ou sob certas circunstâncias. Com efeito, referido dispositivo só permite a preventiva: 1. Nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade MÁXIMA SUPERIOR A 4 ANOS. As contravenções penais, os crimes culposos e as infrações penais de menor potencial ofensivo não admitem a prisão preventiva. 2. Se o réu ostentar CONDENAÇÃO ANTERIOR DEFINITIVA POR OUTRO CRIME DOLOSO no prazo de 5 anos da reincidência. Vindo a praticar um novo crime doloso, antes de passados 5 anos do cumprimento ou extinção da pena aplicada na primeira infração, mesmo que o novo crime seja apenado com PPL igual ou inferior a 4 anos, caberá a prisão preventiva. 91 3. Se o crime envolver VIOLÊNCIA DOMÉSTICA OU FAMILIAR CONTRA A MULHER, CRIANÇA, ADOLESCENTE, IDOSO, ENFERMO OU PESSOA COM Deficiência, quando houver necessidade de garantir a execução de medidas protetivas de urgência. Apesar de não fazer referência ao elemento subjetivo, este crime deve ser doloso, pois a prisão preventiva não se compatibiliza com os crimes culposos. Além disso, não importará a quantidade de PPL. 4. Se houver dúvida quanto à identificação civil do acusado e este se recusar a esclarecê-la ATENÇÃO! Esses requisitos de admissibilidade NÃO SÃO CUMULATIVOS, basta a presença de ao menos uma das hipóteses elencadas no art. 313 do CPP. (C) INCORRETA O Supremo Tribunal Federal decidiu que o rol previsto no inciso III do art. 1º da Lei nº 7.960/89 é taxativo. Trata-se de uma escolha legítima do Poder Legislativo, que, no exercício de sua competência constitucional, optou por dar tratamento mais rigoroso a determinados crimes, considerados mais graves ou socialmente relevantes. Essa opção legislativa é compatível com a Constituição Federal. Importante destacar que o crime de furto não está incluído nesse rol. Art. 1° Caberá prisão temporária: (...) III - quando houver fundadas razões, de acordo com qualquer prova admitida na legislação penal, de autoria ou participação do indiciado nos seguintes crimes: a) homicídio doloso (art. 121, caput, e seu § 2°); b) seqüestro ou cárcere privado (art. 148, caput, e seus §§ 1° e 2°); c) roubo (art. 157, caput, e seus §§ 1°, 2° e 3°); d) extorsão (art. 158, caput, e seus §§ 1° e 2°); e) extorsão mediante seqüestro (art. 159, caput, e seus §§ 1°, 2° e 3°); f) estupro (art. 213, caput, e sua combinação com o art. 223, caput, e parágrafo único); g) atentado violento ao pudor (art. 214, caput, e sua combinação com o art. 223, caput, e parágrafo único); (Vide Decreto-Lei nº 2.848, de 1940) h) rapto violento (art. 219, e sua combinação com o art. 223 caput, e parágrafo único); i) epidemia com resultado de morte (art. 267, § 1°); https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art121 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art148 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art148 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art157 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art158 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art159 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art159 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art213. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art223 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art223 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art214 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art223 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art223 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art223 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art219 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art223 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art223 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art267%C2%A71 92 j) envenenamento de água potável ou substância alimentícia ou medicinal qualificado pela morte (art. 270, caput, combinado com art. 285); l) quadrilha ou bando (art. 288), todos do Código Penal; m) genocídio (arts. 1°, 2° e 3° da Lei n° 2.889, de 1° de outubro de 1956), em qualquer de sua formas típicas; n) tráfico de drogas (art. 12 da Lei n° 6.368, de 21 de outubro de 1976); o) crimes contra o sistema financeiro (Lei n° 7.492, de 16 de junho de 1986). p) crimes previstos na Lei de Terrorismo. (D) INCORRETA. A assertiva não trouxe informações acerca dos requisitos para a propositura do ANPP. _____________________________________________________________________________ 53. Carlos atira em Ian, com animus necandi, mas não consegue atingi-lo. Instaurado o inquérito policial, para apurar a tentativa incruenta, sua tramitação vem sendo acompanhada por Ian, por meio de advogado contratado para tanto. Os autos do inquérito policial encontram-separalisados no Ministério Público por seis meses. Diante disso, o advogado de Ian: (A) pode requerer ao delegado de polícia que indicie Carlos; (B) pode requerer ao juiz de garantias que denuncie Carlos; (C) pode oferecer denúncia contra Carlos, pois o Ministério Público está inerte; (D) pode oferecer queixa contra Carlos, pois o Ministério Público está inerte; (E) nada pode fazer, pois o homicídio desafia ação penal pública incondicionada. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O animus necandi traduz a intenção de matar, elemento que, no caso narrado, configura a prática de tentativa de homicídio. Trata-se de crime cuja persecução se dá por meio de ação penal pública incondicionada. Decorrido o prazo legal sem que o Ministério Público ofereça a denúncia, inicia-se o prazo de seis meses para que o ofendido ou seu representante legal proponha a ação penal privada subsidiária da pública, por meio da queixa-crime endereçada ao juízo criminal competente — hipótese verificada na situação em análise. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art270 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art285 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art288 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L2889.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L2889.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L2889.htm#art3 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L2889.htm#art3 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6368.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6368.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7492.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7492.htm 93 Importante destacar que o descumprimento desse prazo não acarreta a extinção da punibilidade, pois se trata de uma decadência imprópria. O efeito dessa omissão restringe-se à perda da legitimidade ativa do particular, sem impedir que o Ministério Público, enquanto titular da ação penal pública, ofereça a denúncia posteriormente. Dessa forma, o prazo de seis meses não limita o exercício da ação penal pelo Estado, que mantém seu dever de atuar até o advento da prescrição, configurando-se, nesse cenário, uma hipótese de legitimidade concorrente, nos termos do art. 29 do Código de Processo Penal. Art. 29. Será admitida ação privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal, cabendo ao Ministério Público aditar a queixa, repudiá-la e oferecer denúncia substitutiva, intervir em todos os termos do processo, fornecer elementos de prova, interpor recurso e, a todo tempo, no caso de negligência do querelante, retomar a ação como parte principal. Do mesmo modo dispõe o art. 5º inciso LIX da CF. _____________________________________________________________________________ 54. Rafael e Leonardo, réus em ações penais distintas, instauradas pela prática do crime de estelionato, foram absolvidos por ambas as sentenças. Quanto a Rafael, o fundamento da sentença que o absolveu foi a inexistência, nos autos, de provas suficientes para sua condenação. Já relativamente a Leonardo, o fundamento foi o fato de que o que lhe foi imputado não constitui crime. Considerando que ambas as sentenças absolutórias transitaram em julgado, é CORRETO afirmar que a absolvição de: (A) Rafael e a de Leonardo não impedem a propositura de ação civil por parte dos ofendidos; (B) Rafael, mas não a de Leonardo, impede a propositura de ação civil por parte do ofendido; (C) Leonardo, mas não a de Rafael, impede a propositura de ação civil por parte do ofendido; (D) Leonardo, mas não a de Rafael, impede a propositura de ação civil pelo Ministério Público; (E) Rafael e a de Leonardo impedem a propositura de ação civil por parte dos ofendidos. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS 94 No caso apresentado, Rafael e Leonardo foram absolvidos em ações penais distintas. A sentença absolutória de Rafael teve como fundamento a ausência de provas suficientes para sua condenação. Já a sentença de Leonardo reconheceu que o fato imputado não constitui crime. Ambas as decisões transitaram em julgado. Nos termos do artigo 66 do Código de Processo Penal, "não obstante a sentença absolutória no juízo criminal, a ação civil poderá ser proposta quando não tiver sido, categoricamente, reconhecida a inexistência material do fato". Assim, a absolvição de Rafael por insuficiência probatória não impede a propositura da ação civil ex delicto, uma vez que a sentença não afirmou a inexistência do fato, mas apenas a ausência de provas para a responsabilização penal. Quanto à sentença de Leonardo, o artigo 67, inciso III, do mesmo diploma legal dispõe que "não impedirão igualmente a propositura da ação civil: (...) III - a sentença absolutória que decidir que o fato imputado não constitui crime". Dessa forma, ainda que o juízo criminal tenha reconhecido a atipicidade da conduta, isso não obsta a responsabilização civil pelos danos eventualmente causados, desde que demonstrado o ilícito civil, que possui critérios próprios de configuração, distintos do ilícito penal. Portanto, tanto no caso de Rafael quanto no de Leonardo, a sentença penal absolutória não impede o ajuizamento de ação civil por parte do ofendido, sendo possível a responsabilização por eventuais danos causados, desde que preenchidos os requisitos da responsabilidade civil. _____________________________________________________________________________ 55. Marcela e Margareth foram indiciadas pela prática dos crimes de tráfico ilícito de entorpecentes, de associação para o tráfico e de lavagem de dinheiro, tendo o Ministério Público requerido ao juízo o sequestro do veículo de propriedade de Margareth apreendido no transporte das drogas ilícitas, bem como de vários relógios e joias apreendidos em poder de Marcela, que supostamente constituíam proveitos dos referidos crimes. Após decretado o sequestro, ambas as indiciadas requereram a liberação dos respectivos bens e a consequente produção de provas acerca de sua possível origem lícita. Nessa hipótese, é CORRETO afirmar que: (A) o juiz poderá, provada a origem lícita dos bens, decidir no sentido de sua liberação, seja no caso dos bens de Marcela, seja no caso do veículo de Margareth; (B) o Ministério Público poderá, provada a origem ilícita dos bens de Marcela, requerer a conversão do sequestro decretado em sequestro alargado; (C) o juiz poderá, provada a origem lícita dos bens, decidir no sentido da liberação do veículo de Margareth, mas não dos bens de Marcela; (D) o Ministério Público poderá, provada a origem ilícita do veículo de Margareth, requerer a conversão do sequestro decretado em sequestro alargado; (E) o juiz poderá, provada a origem lícita dos bens, decidir no sentido da liberação dos bens de Marcela, mas não do veículo de Margareth. 95 _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Conforme o § 5º do art. 60 da Lei nº 11.343/2006, decretado o sequestro, o acusado tem prazo de cinco dias para apresentar provas acerca da origem lícita dos bens, e o § 6º dispõe que, comprovada essa origem, o juiz deve liberar os bens, “exceto no caso de veículo apreendido em transporte de droga ilícita, cuja destinação observará o disposto nos arts. 61 e 62”. Logo, só os relógios e joias apreendidos em poder de Marcela podem ser liberados após demonstração de origem lícita, permanecendo o veículo de Margareth sujeito às regras específicas de perdimento ou utilização previstas nos arts. 61 e 62, não havendo liberação automática. ATENÇÃO! A banca FGV utiliza deliberadamente o termo “sequestro alargado” com o propósito de induzir em erro os candidatos. Na realidade, não existe, no ordenamento jurídico, modalidade cautelar ou penalcom essa nomenclatura. O instituto correto, previsto no Código Penal, é o confisco alargado (art. 91-A), que integra os efeitos da condenação criminal e exige expressa declaração de perdimento na sentença, visando neutralizar os lucros do crime e restaurar o patrimônio ao estado anterior à prática delitiva. O Código Penal distingue três espécies de confisco: 1. Genérico (art. 91, II); 2. Por equivalente (art. 91, §§ 1º e 2º); 3. Alargado (art. 91-A). Em contraste, o sequestro é medida cautelar — prevista na Lei de Drogas e no Código de Processo Penal — destinada à retenção, ainda em poder de terceiros, de bens adquiridos com recursos ilícitos, a fim de impedir sua dissipação durante o processo penal e assegurar eventual reparação do dano ou o ressarcimento à vítima. Portanto, “sequestro alargado” não passa de artifício da banca; a nomenclatura correta é confisco alargado, instituto diverso e autônomo em relação ao sequestro cautelar. _____________________________________________________________________________ 56. Paulo, senador, foi preso em flagrante, por policiais militares, haja vista ter cometido crime de receptação, pois dirigia veículo com chassi raspado, que sabia ser produto de furto. Levado à delegacia de polícia, o delegado lavrou o auto de prisão em flagrante e o recolheu ao cárcere. 96 Nesse contexto, é CORRETO afirmar que a atitude do delegado foi: (A) correta, pois qualquer cidadão, preso em flagrante, deve ser recolhido ao cárcere; (B) correta, pois, ao vislumbrar o descabimento de fiança, lhe competia recolher o senador ao cárcere; (C) incorreta, pois se trata de caso em que o arbitramento de fiança é obrigatório; (D) incorreta, pois os policiais militares não poderiam ter efetuado a prisão sem mandado; (E) incorreta, pois senadores, durante o mandato, só podem ser presos em flagrante por crime inafiançável. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Deputados Federais e Senadores podem ser presos em flagrante apenas por crime inafiançável (imunidade prisional ou freedom from arrest). Na dicção constitucional, eles não podem sofrer prisões preventiva e temporária. As imunidades parlamentares constituem garantias institucionais essenciais ao funcionamento do sistema democrático, assegurando a independência e autonomia do Poder Legislativo. Baseiam-se no princípio da separação dos poderes e na necessidade de proteger o livre exercício do mandato parlamentar, apresentando dupla dimensão constitucional que merece análise pormenorizada. A primeira dimensão corresponde à imunidade material ou inviolabilidade, prevista no caput do artigo 53 da Constituição Federal de 1988, que estabelece proteção absoluta aos parlamentares por suas opiniões, palavras e votos. Esta garantia possui natureza de causa excludente de ilicitude e caráter permanente, mantendo-se mesmo após o término do mandato, visando assegurar a liberdade de expressão e deliberação parlamentar sem temor de perseguição posterior. A segunda dimensão refere-se à imunidade formal ou processual, disciplinada nos parágrafos do mesmo dispositivo constitucional, que estabelece limitações ao processo penal e à prisão de parlamentares. Esta prerrogativa possui natureza temporal, vigendo durante o mandato, e inclui tanto a prerrogativa de foro quanto restrições específicas às medidas constritivas da liberdade. Dentre as imunidades formais, destaca-se a imunidade prisional, também denominada freedom from arrest, prevista no parágrafo segundo do artigo 53 da Constituição Federal. Este dispositivo estabelece que "desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão." 97 O marco temporal da proteção inicia-se com a expedição do diploma, não com a posse, estendendo-se até o final do mandato. Esta proteção veda expressamente a prisão preventiva, a prisão temporária e, por interpretação sistemática, a prisão civil, estabelecendo como única exceção o flagrante de crime inafiançável. _____________________________________________________________________________ 57. João e Ana, que comemoravam bodas de prata, zarparam do porto do Rio de Janeiro, rumo à Argentina, no transatlântico Golfinho Dourado. Logo na saída, ainda em águas brasileiras, João, que é vereador na cidade do Rio de Janeiro, agrediu Ana, violentamente, causando-lhe lesões graves. Diante disso, o comandante regressou ao porto, e João foi preso em flagrante. Nesse caso, é competente para o julgamento da respectiva ação penal: (A) a justiça estadual do Rio de Janeiro; (B) a justiça argentina; (C) o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, haja vista João ser vereador; (D) a justiça federal do Rio de Janeiro; (E) a justiça eleitoral do Rio de Janeiro, haja vista João ser vereador. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS Inicialmente, é importante destacar que o art. 109, inciso IX, da Constituição Federal estabelece a competência da Justiça Federal para julgar crimes praticados a bordo de navios ou aeronaves. Segundo entendimento do Superior Tribunal de Justiça, o termo "navio" deve ser interpretado como embarcação de grande porte, com capacidade para navegação em águas internacionais. No caso em análise, trata-se de um transatlântico — navio de grande porte com aptidão para deslocamento em águas internacionais —, o que atrai a competência da Justiça Federal para o processamento e julgamento do feito. Ademais, conforme o art. 89 do CPP, se o crime for praticado a bordo de embarcação nas águas territoriais brasileiras, a competência será da Justiça do primeiro porto brasileiro em que tocar a embarcação após o crime, ou seja, Rio de Janeiro, que é o local onde o navio retornou após o fato. Portanto, a Justiça Federal do Rio de Janeiro é competente. ATENÇÃO! A Constituição Federal não confere foro por prerrogativa de função a vereadores, o que já foi afirmado expressamente pelo STF, inclusive declarando 98 a inconstitucionalidade de normas estaduais que prevejam tal prerrogativa (ADI 558/RJ, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 22/04/2021). Portanto, João, por ser vereador, não possui foro especial, e a competência não será do Tribunal de Justiça, e sim do juízo de primeiro grau, no âmbito da Justiça Federal. _____________________________________________________________________________ 58. Fernando, Luiz, Carlos, Roberto e Paulo foram indiciados pela autoridade policial pelo fato de constituírem organização criminosa para a prática de crimes de extorsão, de roubo e de tráfico de armas. A autoridade policial representou no sentido da infiltração de agentes na organização criminosa, tendo o juiz deferido a medida sem a oitiva prévia do Ministério Público. Após realizada a diligência, a autoridade policial realizou ação controlada consistente no retardamento da intervenção policial com vistas à concretização da diligência de apreensão de armas no momento mais eficaz para a obtenção de elementos de prova, não tendo comunicado previamente ao juiz nem ao Ministério Público. Diante desse contexto, é CORRETO afirmar que: (A) a ação controlada deve ser previamente comunicada ao Ministério Público, e este, se for o caso, estabelecerá seus limites e comunicará ao juiz; (B) a decretação, pelo juiz, da infiltração de agentes, no caso de representação do delegado de polícia, dispensa a oitiva prévia do Ministério Público; (C) a ação controlada deve ser previamente comunicada ao juiz, e este, se for o caso, estabelecerá seus limites e comunicará ao Ministério Público; (D) a ação controlada e a infiltração de agentes, na hipótese, são válidas e obedeceramespecífica, no caso, a sociedade B. A aplicação deste dispositivo legal representa um equilíbrio entre a segurança jurídica proporcionada pela solidariedade e a justiça na atribuição de responsabilidade, evitando que um devedor não culpado seja obrigado a arcar com prejuízos causados exclusivamente por outro. Assim, a Indústria X somente poderá exigir a indenização por perdas e danos, especialmente os lucros cessantes pelo aumento de produtividade que não ocorreu, da sociedade B, que foi a única responsável pelo inadimplemento, conforme determina expressamente o artigo 279 do Código Civil. (C) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa B. _____________________________________________________________________________ 11 3. Manuela era locadora de um imóvel na cidade de Araguaína, pelo qual percebia a quantia de R$ 4.000,00. O locatário, no entanto, não havia pagado o aluguel que venceu em fevereiro de 2024. Ocorre que Manuela faleceu em maio de 2024, sem propor a ação de cobrança, e deixou como único herdeiro Davi, seu filho que completara 12 anos no dia da morte da mãe. Considerando-se o prazo de três anos para o exercício da pretensão relativa a aluguéis de prédios urbanos ou rústicos, Davi pode cobrar o aluguel até: (A) fevereiro de 2027; (B) maio de 2027; (C) fevereiro de 2031; (D) maio de 2031; (E) fevereiro de 2033. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários alternativa C. (B) INCORRETA. Vide comentários alternativa C. (C) CORRETA. De acordo com o Código Civil, a pretensão para cobrança de aluguéis de prédios urbanos ou rústicos prescreve em 3 anos (art. 206, §3º, I, CC). O prazo prescricional começa a correr da data em que a obrigação se tornou exigível, ou seja, fevereiro de 2024, quando o aluguel não foi pago. No entanto, o art. 198, I, do Código Civil estabelece que a prescrição não corre contra os absolutamente incapazes. Como Davi tinha 12 anos de idade quando herdou o direito à cobrança (maio de 2024), ele é considerado absolutamente incapaz perante a lei civil (art. 3º, CC), e permanecerá nessa condição até completar 16 anos. Quando Davi completar 16 anos, passará a ser relativamente incapaz, condição em que a prescrição corre normalmente contra ele. Considerando que ele tinha 12 anos em maio de 2024, completará 16 anos em maio de 2028. Assim, o prazo prescricional de 3 anos começará a correr somente a partir de maio de 2028, quando Davi deixar de ser absolutamente incapaz, e se encerrará em maio de 2031. Entretanto, como o aluguel era devido desde fevereiro de 2024, e mantendo-se a referência ao mês original, o prazo final seria fevereiro de 2031. Desse modo, a alternativa correta é a (C). (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa C. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa C. 12 _____________________________________________________________________________ 4. Alan herdou um imóvel no interior do estado que é objeto de significativas disputas de terras. Ansioso por se livrar do bem, vendeu-o para Bruna por preço inferior ao seu valor de mercado, em troca de fazer constar na venda cláusula de renúncia à garantia por evicção. Pouco após a aquisição do bem, Bruna foi desapropriada dele pelo poder público, que tinha o projeto de construir uma usina hidrelétrica na região, o que era desconhecido por ambos. Diante do ocorrido, Bruna: (A) nada pode exigir de Alan, pois sabia que a coisa era litigiosa; (B) nada pode exigir de Alan, pois é válida a cláusula de renúncia à garantia por evicção; (C) pode exigir de Alan a restituição do preço pago, pois, embora válida a renúncia, não sabia do risco da desapropriação; (D) pode exigir de Alan a restituição do preço pago, além de indenização pelos prejuízos resultantes da evicção; (E) pode exigir de Alan o valor do imóvel quando se evenceu, além de indenização pelos prejuízos resultantes da evicção. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. (B) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. (C) CORRETA. A questão trata de um caso de evicção, que ocorre quando o adquirente de um bem perde a sua posse ou propriedade em virtude de decisão judicial que reconhece que o alienante não era seu legítimo proprietário ou não podia dispor dele. No caso em análise, a evicção ocorreu em razão de desapropriação pelo poder público. O Código Civil, em seu art. 448, permite que as partes, por cláusula expressa, reforcem, diminuam ou excluam a responsabilidade pela evicção. Portanto, a cláusula de renúncia à garantia por evicção é, em princípio, válida. No entanto, o art. 449 do mesmo Código estabelece uma importante exceção: "Não obstante a cláusula que exclui a garantia contra a evicção, se esta se der, tem direito o evicto a receber o preço que pagou pela coisa evicta, se não soube do risco da evicção, ou, dele informado, não o assumiu." No caso apresentado, Bruna não sabia do risco específico da desapropriação pelo poder público para construção de usina hidrelétrica. Embora soubesse que havia disputas de terras (por isso o preço reduzido e a cláusula de renúncia), o risco concreto que gerou a evicção era desconhecido por ambas as partes. 13 Deste modo, aplica-se a proteção legal mínima do art. 449 do CC, que permite a Bruna exigir a restituição do preço pago, mesmo havendo cláusula de renúncia à garantia por evicção, já que ela não tinha conhecimento específico do risco de desapropriação. (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. _____________________________________________________________________________ 5. Quando sua mãe faleceu, Regiane herdou as roupas que pertenciam a ela. Contratou então um brechó em frente à sua casa para que elas fossem vendidas. De imediato, fez a entrega das vestimentas, estabelecendo prazo, findo o qual o brechó ou devolveria as roupas, ou pagaria a Regiane o preço estimado entre as partes, na modalidade de “venda sob consignação” (contrato estimatório). Sobre o contrato, é CORRETO afirmar que: (A) durante o prazo contratual, Regiane pode vender as roupas a terceiro, contanto que o brechó ainda não as tenha vendido e ela dê a este aviso prévio; (B) se as roupas vierem a se perder em um incêndio, por fato não imputável ao brechó, fica este liberado de pagar a Regiane o preço estimado; (C) mesmo que não venda as roupas, pode o brechó escolher pagar a Regiane o preço estimado ao final do prazo, para permanecer com as roupas; (D) o brechó não pode vender as roupas por preço superior àquele que se comprometeu a pagar a Regiane no contrato firmado entre as partes; (E) o brechó recebe a propriedade das roupas para poder vendê-las, de modo que há o risco de elas serem penhoradas por credores do brechó. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. (B) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. (C) CORRETA. O contrato estimatório ou de consignação, disciplinado nos artigos 534 a 537 do Código Civil brasileiro, constitui negócio jurídico pelo qual uma pessoa (consignante) entrega bens móveis a outra (consignatário), transferindo-lhe poderes para vendê-los e facultando-lhe a alternativa de restituí-los ou pagar o preço ajustado ao final do prazo convencionado. No caso em análise, Regiane (consignante) entregou as roupas herdadas de sua mãe ao brechó (consignatário), estabelecendo um prazo determinado. Ao término deste período, o brechó dispõe de duas opções legítimas: devolver as vestimentas não comercializadas ou, independentemente de tê-las vendido ou não, pagar a Regiane oàs disposições legais que regem a matéria; (E) a infiltração de agentes, na hipótese, obedeceu às disposições legais que regem a matéria, o que não ocorreu no caso da ação controlada. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. A ação controlada consiste no retardamento da intervenção policial ou administrativa relacionada a atos praticados por organização criminosa ou a ela vinculada, desde que tais atos permaneçam sob observação e acompanhamento, a fim de que a medida ocorra no momento mais eficaz para a colheita de provas e obtenção de informações. Contudo, nos termos do art. 8º, § 1º, da Lei nº 12.850/2013, o retardamento da intervenção deverá ser previamente comunicado ao juiz competente, o qual poderá fixar os limites da medida e comunicará o Ministério Público. Assim, a questão está incorreta ao afirmar que é o Ministério Público quem deve ser comunicado previamente ao juiz, quando, na realidade, ocorre o inverso. 99 ATENÇÃO! Se a ação controlada envolver crimes: DA LEI DE DROGAS OU DE LAVAGEM DE DINHEIRO Será necessária prévia autorização judicial PRATICADOS POR ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA Neste caso será necessário apenas que a autoridade (policial ou administrativa) COMUNIQUE o juiz que irá realização ação controlada (B) INCORRETA. A infiltração de agentes é um meio de obtenção de prova. Trata-se de uma técnica especial de investigação na qual um policial, ocultando sua verdadeira identidade, se infiltra como integrante de uma organização criminosa. Essa prática permite a obtenção de informações relevantes sobre os crimes cometidos, a identificação dos membros do grupo, suas formas de atuação, locais de operação, bens adquiridos ilegalmente e outras provas essenciais para o desmantelamento da organização e sua utilização em processos penais. A doutrina identifica três características fundamentais da infiltração de agentes: • Dissimulação: Ocultação da identidade oficial e das intenções reais do agente. • Engano: Construção de uma encenação para ganhar a confiança dos suspeitos. • Interação: Relação direta e pessoal entre o agente infiltrado e os potenciais autores dos crimes. Conforme o art. 10 da Lei nº 12.850/2013, depende de autorização judicial prévia, que deve ser circunstanciada, motivada e sigilosa, estabelecendo os limites da atuação. Nos termos do § 1º do referido artigo, quando a representação for feita pelo delegado de polícia, o juiz, antes de decidir, deverá ouvir o Ministério Público. Logo, não se pode considerar válida a infiltração de agentes quando não observada essa exigência legal. Essa técnica está prevista em diversos diplomas normativos e pode ser aplicada não apenas a crimes definidos na Lei de Organização Criminosa, mas também a outras infrações previstas em legislações específicas, tais como: • Art. 53, I, da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas); • Arts. 190-A a 190-E do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), inseridos pela Lei nº 13.441/2017; • Art. 1º, § 6º, da Lei nº 9.613/98 (Lei de Lavagem de Dinheiro), incluído pela Lei nº 13.964/2019. 100 INFILTRAÇÃO DE AGENTES NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Lei de Drogas (art. 53, I) Lei do Crime Organizado (arts. 10 a 14) ECA (arts. 190-A a 190- E) Lei de Lavagem de Dinheiro (art. 1º, § 6º) Principais características: • Não prevê prazo máximo. • Não disciplina procedimento a ser adotado. Principais características: • Prazo de 6 meses, podendo ser sucessivamente prorrogada. • Só poderá ser adotada se a prova não puder ser produzida por outros meios disponíveis. Principais características: • Prazo de 90 dias, sendo permitidas renovações, mas o prazo total da infiltração não poderá exceder 720 dias. • Só poderá ser adotada se a prova não puder ser produzida por outros meios disponíveis. • A infiltração de agentes ocorre apenas na internet. A Lei nº 13.964/2019 inseriu dispositivo na Lei de Lavagem prevendo o seguinte: Art. 1º (...) § 6º Para a apuração do crime de que trata este artigo, admite-se a utilização da ação controlada e da infiltração de agentes. (C) CORRETA. Nos termos do art. 8º da Lei nº 12.850/2013, a ação controlada consiste no retardamento da atuação estatal sobre conduta praticada por organização criminosa ou a ela vinculada, devendo ser mantida sob vigilância e acompanhamento. O § 1º do mesmo dispositivo exige que o juiz seja previamente comunicado, cabendo-lhe, se necessário, estabelecer os limites da medida e, então, comunicar o Ministério Público. Portanto, a assertiva está correta ao descrever a forma legal de implementação da ação controlada. (D) INCORRETA. A assertiva está incorreta por dois fundamentos: em primeiro lugar, porque a ação controlada, nos termos da Lei nº 12.850/2013, exige comunicação prévia ao juiz competente, o que não ocorreu na hipótese apresentada; em segundo lugar, porque a infiltração de agentes pressupõe autorização judicial prévia, motivada e sigilosa, sendo obrigatória, quando houver representação do delegado de polícia, a oitiva do Ministério Público antes da decisão judicial, conforme dispõe o art. 10, § 1º, da referida norma. (E) INCORRETA. Pelos fundamentos já expostos nas assertivas anteriores, a alternativa está equivocada. 101 Infiltração de Agentes EXIGE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL PRÉVIA, motivada e sigilosa. No caso de representação pelo delegado, o juiz deve ouvir o MINISTÉRIO PÚBLICO ANTES da decisão. Ação Controlada Exige APENAS COMUNICAÇÃO PRÉVIA ao juiz competente, que poderá estabelecer limites e comunicará o Ministério Público. OBS: Lei de Drogas ou Lavagem exige autorização judicial prévia. (E) INCORRETA. Vide comentários anteriores. _____________________________________________________________________________ 59. Em processo no Juizado Especial Criminal por crime de lesão corporal leve, o ofendido e o autor do fato chegaram à composição civil dos danos. Contudo, o Ministério Público opinou pela não homologação do acordo por entendê-lo inadequado à hipótese e ofertou transação penal ao autor do fato consistente no pagamento de multa e prestação de serviços. O juiz, por sua vez, contrariando o parecer do Ministério Público, homologou o acordo civil. Nessa hipótese, é CORRETO afirmar que o juiz: (A) deveria ter rejeitado a homologação do acordo, pois o Ministério Público, como titular da ação penal, deve decidir qual a medida adequada; (B) poderia ter homologado o acordo civil, a despeito do parecer contrário do Ministério Público, e homologado, em seguida, a transação penal; (C) deve decretar a extinção do feito com a homologação do acordo civil, pois houve renúncia ao direito de representação por parte do ofendido; (D) poderia ter homologado o acordo civil, a despeito do parecer contrário do Ministério Público, e submetido o autor do fato a período de prova; (E) deve prosseguir com o feito, rejeitando a homologação do acordo civil e da transação penal, pois ambos não são cabíveis na hipótese. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS Trata-se de hipótese envolvendo crime de lesão corporal leve, cuja natureza jurídica é de ação penal pública condicionada à representação. Nos termos da Lei nº 9.099/1995, especificamente em seu art. 74, §1º, quando as partes — autor do fato e vítima — celebram composição civil dos danos na audiência preliminar, e essa composição 102 é homologada pelo juiz, opera-se automaticamente a renúncia ao direito de representação por parte do ofendido, nos casos de ação penal pública condicionada. Importa destacar que, nessa fase pré-processual, o Ministério Público ainda não atua como parte titular da ação penal, pois esta sequer se iniciou formalmente. A audiência preliminar tem como finalidade buscar formas consensuais desolução do conflito, sem a intervenção do MP no momento da composição. A atuação ministerial se restringe, nessa etapa, a eventual oferta de transação penal, caso não haja composição, e desde que a vítima ofereça representação ou se trate de crime de ação penal incondicionada. Assim, mesmo havendo parecer contrário do MP à homologação da composição, o juiz pode e deve homologar o acordo se ele estiver formalmente em conformidade com a lei, já que esse controle é jurisdicional e a composição, uma vez homologada, constitui título executivo judicial e gera efeito penal relevante: a extinção da punibilidade. Com isso, não há espaço para proposta de transação penal após a homologação da composição civil, pois a punibilidade já se encontra extinta em razão da renúncia à representação, inviabilizando o prosseguimento do feito. Logo, a atitude correta do juiz é extinguir o feito, sendo irrelevante, nesse ponto, o posicionamento do Ministério Público quanto à conveniência do acordo, uma vez que a vítima, ao compor civilmente, renuncia ao direito de representação e impede o início da persecução penal. Dessa forma, à luz da sistemática da Lei dos Juizados e da natureza da ação penal no caso concreto, a alternativa correta é a letra C. _____________________________________________________________________________ DIREITO CONSTITUCIONAL 60. Em razão de uma grande mobilização da sociedade civil organizada, um grupo de parlamentares apresentou projeto de lei, que veio a ser aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado Alfa, daí resultando a publicação da Lei Estadual nº X. Por meio desse diploma normativo, foi declarado o tombamento de determinado imóvel, no qual funcionou uma instituição educacional de destacada importância para a coletividade. Na justificativa ao projeto, foi informado ter sido requerida, pelos proprietários, autorização para demolição do prédio. Irresignados com a declaração de tombamento, os proprietários do imóvel ingressaram com ação judicial para que fossem desobrigados de observar as limitações administrativas provisórias decorrentes da referida declaração, embasando-se na inconstitucionalidade da Lei Estadual nº X. O magistrado competente, ao apreciar a questão, observou corretamente que, na perspectiva da Constituição Federal de 1988: (A) há vício de iniciativa na Lei Estadual nº X, sendo, portanto, inconstitucional; (B) a matéria não poderia ser disciplinada por lei, por consubstanciar ato próprio do Poder Executivo; logo, a Lei Estadual nº X é inconstitucional; 103 (C) a Lei Estadual nº X somente deve ser considerada constitucional caso haja lei complementar federal autorizando a sua edição pelo Estado Alfa; (D) a preservação da cultura é matéria de competência comum; logo, o Estado Alfa tem competência para legislar sobre a matéria, sendo a Lei Estadual nº X constitucional; (E) o tombamento está associado a um interesse local, o que atrai a competência dos municípios para dispor sobre a matéria, sendo a Lei Estadual nº X inconstitucional. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS A proteção de bens de valor histórico, artístico e cultural é hipótese de competência material entre União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, na forma do art. 23, inciso III, da CF/88: Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: (...) III - proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos; O Estado Alfa, portanto, dispõe de competência para legislar sobre a matéria, conforme previsão do art. 24, inciso VII, do texto constitucional: Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: (...) VII - proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico; Desse modo, conquanto, em regra, o tombamento seja ultimado mediante ato administrativo, não há óbice a que seja levado a efeito por lei em sentido formal, sendo certo que, no caso apresentado, o Estado Alfa tem competência para legislar sobre a matéria, sendo a Lei Estadual nº X constitucional. _____________________________________________________________________________ 61. A Comissão Mista Permanente do Congresso Nacional (CMPCN), competente para examinar e emitir parecer sobre os projetos afetos às normas orçamentárias, durante as pesquisas promovidas com o objetivo de analisar o projeto de lei orçamentária anual para o próximo exercício financeiro, constatou que no presente exercício estariam sendo realizadas, por determinado órgão governamental, despesas não autorizadas pela lei orçamentária vigente, o que estaria ocorrendo sob a forma de investimentos não programados. 104 À luz da sistemática constitucional vigente, é CORRETO afirmar que a referida CMPCN deve: (A) solicitar os esclarecimentos necessários e, caso não prestados ou considerados insuficientes, decidir pela sustação do ato; (B) encaminhar as informações à comissão competente, no âmbito do Congresso Nacional, para fiscalizar a execução orçamentária; (C) remeter as informações obtidas ao Tribunal de Contas da União, que decidirá sobre sua juridicidade e eventual sustação do ato; (D) submeter a matéria ao plenário do Congresso Nacional, que decidirá pela juridicidade, ou não, do ato, após solicitar os esclarecimentos necessários; (E) solicitar os esclarecimentos necessários e, caso não prestados ou considerados insuficientes, solicitar pronunciamento conclusivo ao Tribunal de Contas da União. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS A resposta é extraída dos arts. 72 e 166, §1º, da CF/88: Art. 72. A Comissão mista permanente a que se refere o art. 166, §1º, diante de indícios de despesas não autorizadas, ainda que sob a forma de investimentos não programados ou de subsídios não aprovados, poderá solicitar à autoridade governamental responsável que, no prazo de cinco dias, preste os esclarecimentos necessários. § 1º Não prestados os esclarecimentos, ou considerados estes insuficientes, a Comissão solicitará ao Tribunal pronunciamento conclusivo sobre a matéria, no prazo de trinta dias. § 2º Entendendo o Tribunal irregular a despesa, a Comissão, se julgar que o gasto possa causar dano irreparável ou grave lesão à economia pública, proporá ao Congresso Nacional sua sustação. Art. 166. Os projetos de lei relativos ao plano plurianual, às diretrizes orçamentárias, ao orçamento anual e aos créditos adicionais serão apreciados pelas duas Casas do Congresso Nacional, na forma do regimento comum. § 1º Caberá a uma Comissão mista permanente de Senadores e Deputados: I - examinar e emitir parecer sobre os projetos referidos neste artigo e sobre as contas apresentadas anualmente pelo Presidente da República; 105 II - examinar e emitir parecer sobre os planos e programas nacionais, regionais e setoriais previstos nesta Constituição e exercer o acompanhamento e a fiscalização orçamentária, sem prejuízo da atuação das demais comissões do Congresso Nacional e de suas Casas, criadas de acordo com o art. 58. No caso apresentado, portanto, a CMPCN deve solicitar os esclarecimentos necessários e, caso não prestados ou considerados insuficientes, solicitar pronunciamento conclusivo ao Tribunal de Contas da União. _____________________________________________________________________________ 62. O presidente da República editou a Medida Provisória nº X (MPX), que dispõe sobre requisitos a serem observados na celebração do contrato de alienação fiduciária em garantia, considerando os impactos econômicos que esses ajustes estavam acarretando no respectivo momento histórico. Decorrido o prazo de 45 dias, contados da publicação daMPX, que ocorrera no mês de março do ano ZZ, foi estabelecido regime de urgência e determinado o sobrestamento das demais proposições legislativas em tramitação na Casa Legislativa em que a medida provisória se encontrava pendente de apreciação, vale dizer, na Câmara dos Deputados. As referidas proposições abrangiam todas as espécies legislativas elencadas no Art. 59 da Constituição da República. A MPX veio a ser aprovada, sem alterações, em ambas as Casas do Congresso Nacional, 120 dias após a sua publicação, sendo convertida na Lei nº Y, promulgada pelo presidente da Mesa do Congresso Nacional. À luz da sistemática constitucional, é CORRETO afirmar que a narrativa: (A) não apresenta incorreção; (B) somente apresenta incorreção em relação ao objeto da MPX; (C) somente apresenta incorreção em relação à promulgação da Lei nº Y; (D) somente apresenta incorreção em relação ao momento de decretação do regime de urgência; (E) somente apresenta incorreção em relação às proposições legislativas que foram sobrestadas. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Entende o Supremo Tribunal Federal que o trancamento da pauta por conta de MPs não votadas no prazo de 45 dias só alcança projetos de lei que versem sobre temas passíveis de serem tratados por MP (MS 27931, Relator(a): CELSO DE MELLO, Tribunal Pleno, julgado em 29/06/2017, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-172 DIVULG 07-07-2020 PUBLIC 08- 07-2020). 106 Para a Suprema Corte, “o regime de urgência previsto no art. 62, § 6º, da Constituição da República – que impõe o sobrestamento das deliberações legislativas das Casas do Congresso Nacional – incide, tão-somente, sobre aquelas matérias que se mostram passíveis de regramento por medida provisória, excluídos, em consequência, do bloqueio procedimental imposto por mencionado preceito constitucional as propostas de emenda à Constituição e os projetos de lei complementar, de decreto legislativo, de resolução e, até mesmo, tratando-se de projetos de lei ordinária, aqueles que veiculem temas pré-excluídos do âmbito de incidência das medidas provisórias (CF, art. 62, § 1º, I, II e IV). – Essa fórmula interpretativa constitui reação legítima ao inadmissível controle hegemônico, pelo Presidente da República, do poder de agenda do Congresso Nacional, pois tem a virtude de devolver às Casas legislativas esse mesmo poder de agenda, que traduz prerrogativa institucional das mais relevantes, capaz de permitir à instituição parlamentar – livre da indevida ingerência de práticas de cesarismo governamental pelo Chefe do Executivo (representadas pelo exercício compulsivo da edição de medidas provisórias) – o poder de selecionar e de apreciar, de modo inteiramente autônomo, as matérias que considere revestidas de importância política, social, cultural, econômica e jurídica para a vida do País, o que ensejará – na visão e na perspectiva do Poder Legislativo (e não na vontade unilateral do Presidente da República) – a formulação e a concretização, pelo Parlamento, de uma pauta temática própria.” Desse modo, a narrativa apenas apresenta incorreção em relação às proposições legislativas que foram sobrestadas, uma vez que o trancamento da pauta por conta de MPs não votadas no prazo de 45 dias só alcança projetos de lei que versem sobre temas passíveis de serem tratados por MP. _____________________________________________________________________________ 63. Após ampla mobilização de diversos correligionários do Partido Político Alfa, foi elaborada proposta de alteração do seu estatuto, que passaria a dispor que os órgãos provisórios poderiam viger por até oito anos, bem como que a duração dos mandatos dos dirigentes de Alfa se estenderia por período equivalente a três legislaturas. A proposta, no entanto, foi duramente criticada por outras forças políticas do partido político, que a consideravam incompatível com a ordem jurídica. À luz da sistemática vigente, é CORRETO afirmar, em relação à compatibilidade da proposta com a ordem jurídica, que ela é: (A) compatível apenas em relação à disciplina dos mandatos dos dirigentes; (B) compatível apenas em relação à disciplina dos órgãos provisórios; (C) incompatível, considerando a extensão dos lapsos temporais que pretende fixar; (D) incompatível, pois os lapsos temporais que pretende disciplinar estão detalhados em lei; (E) compatível, pois Alfa tem autonomia para editar o seu estatuto e disciplinar o funcionamento dos seus órgãos. _______________________________________________________________________ 107 GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. O STF decidiu que os partidos políticos devem realizar eleições periódicas para os mandatos de seus dirigentes em prazos razoáveis, observando a alternância de poder e evitando a perpetuação dos mandatos. Três legislaturas seriam aproximadamente 12 anos, contrariando este entendimento, portanto (Ac.-STF, de 8.8.2022, na ADI nº 6230). Lei 9.096/95 Art. 3º, § 2º É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir o prazo de duração dos mandatos dos membros dos seus órgãos partidários permanentes ou provisórios. Ac.-STF, de 8/8/2022, na ADI n. 6230: interpretação conforme a CF/1988 dada a este parágrafo para assentar que os partidos políticos têm autonomia para estabelecer a duração dos mandatos de seus dirigentes, mas devem assegurar a alternância de poder por meio de eleições periódicas. (B) INCORRETA. Com relação aos órgãos provisórios, o STF declarou a inconstitucionalidade do § 3º do art. 3º da Lei dos Partidos Políticos que permitia prazo de vigência dos órgãos provisórios de até 8 anos, com efeitos a partir de janeiro de 2023 (Ac.-STF, de 8.8.2022, na ADI nº 6230). (C) CORRETA. Conforme mencionado nas alternativas acima, ambos os prazos (8 anos para órgãos provisórios e três legislaturas para mandatos) são excessivos e incompatíveis com os princípios constitucionais da alternância de poder e da natureza provisória dos órgãos. (D) INCORRETA. Os prazos não estão detalhados em lei, haja vista a declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, §3º da Lei dos Partidos Políticos. No entanto, devem pautar-se nos princípios constitucionais, consoante já mencionado. (E) INCORRETA. Embora os partidos tenham autonomia, esta deve observar os limites constitucionais e a jurisprudência. Ac.-TSE, de 20.2.2018, no RPP nº 141796: caráter não absoluto da autonomia dos partidos para estabelecer a duração dos seus órgãos provisórios (art. 17, § 1º, da CF/1988), devendo resguardar o regime democrático previsto no caput daquele artigo. _____________________________________________________________________________ 64. O Estado Alfa, com base em uma análise econômica do direito, editou a Lei Estadual nº Z, dispondo que os débitos tributários inscritos em dívida ativa estadual ou municipal, de valor inferior a X (valor correspondente a menos de 30% do salário mínimo nacional), não deveriam ser cobrados com o ajuizamento de execução fiscal, mas, sim, por meios administrativos, incluindo o possível protesto. Em sede de embargos à execução, um 108 devedor do imposto sobre a propriedade territorial e predial urbana invocou o disposto na Lei Estadual nº Z, requerendo a extinção da execução fiscal ajuizada pelo Município Beta em razão da falta de interesse de agir. Já o Município Beta sustentou que a Lei Estadual nº Z seria inconstitucional. O magistrado competente, ao analisar a causa, observou corretamente que a Lei Estadual nº Z é: (A) constitucional, caso a União, por meio de lei complementar, tenha autorizado a sua edição; (B) constitucional, pois os estados possuem competência para legislar sobre procedimentos; (C) inconstitucional, pois os estados não possuem competência para legislar sobre direito financeiro; (D) inconstitucional, pois afronta a competência do MunicípioBeta para instituir o tributo e eventuais desonerações; (E) constitucional, pois os estados possuem competência para suplementar a legislação federal em matéria de direito financeiro. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS Conforme entendimento do STF em repercussão geral (Tema 109), “lei estadual autorizadora da não inscrição em dívida ativa e do não ajuizamento de débitos de pequeno valor é insuscetível de aplicação a Município e, consequentemente, não serve de fundamento para a extinção das execuções fiscais que promova, sob pena de violação à sua competência tributária. Embora seja de competência legislativa concorrente da União, aos Estados e ao Distrito Federal tratar sobre direito tributário e financeiro, entende o STF que há afronta ao pacto federativo e à competência tributária municipal se lei estadual autorizativa de não inscrição em dívida ativa e do não ajuizamento de débitos de pequeno valor for imposta a Município. _____________________________________________________________________________ 65. Em ação ajuizada em face de ente federativo subnacional, o demandante alicerçou sua pretensão em preceito constitucional que abrigava direito fundamental de primeira dimensão, sustentando que a essencialidade desses direitos lhes conferia uma posição de preeminência no sistema, de modo que os seus efeitos jurídicos não poderiam ser afastados ou amenizados pela necessidade de proteção de outros bens e valores constitucionais. O ente demandado, por sua vez, sustentou que nenhum preceito constitucional pode ser interpretado de forma dissociada da situação concreta e da base de valores que lhe dá sustentação, as quais podem afastar o alicerce semiótico utilizado 109 no início do processo de interpretação, de modo que o intérprete delineie a norma que realize a justiça na situação sub judice. Ao proferir sua sentença, o magistrado observou corretamente que os argumentos do: (A) demandado são refratários à tópica pura; (B) demandado se ajustam às concepções originalistas; (C) demandado são compatíveis com o realismo jurídico; (D) demandante se ajustam à teoria externa dos direitos fundamentais; (E) demandante se harmonizam com a concepção de que os direitos fundamentais apresentam um conteúdo prima facie. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O realismo jurídico consiste em uma relevante corrente de pensamento na filosofia do direito que realça que a aplicação e a interpretação do direito dependem de fatores práticos e sociais, cabendo aos juízes aplicar a norma jurídica a partir da interpretação e da análise do caso concreto. No caso apresentado, o ente demandado advogou a tese de que que nenhum preceito constitucional pode ser interpretado de forma dissociada da situação concreta e da base de valores que lhe dá sustentação, em consonância com o realismo jurídico, sendo correta, portanto, a alternativa C. _____________________________________________________________________________ 66. João está inelegível para concorrer a um mandato eletivo em todos os níveis federativos, o que decorreu de sua condenação judicial pela prática de ato de improbidade administrativa. À luz dessas informações e da sistemática estabelecida na Lei Complementar nº 64/1990, é necessário que: (A) a decisão que condenou João tenha transitado em julgado; (B) uma das sanções aplicadas a João tenha sido a perda da função pública; (C) a sanção de suspensão dos direitos políticos tenha sido aplicada a João; (D) ao menos dois órgãos jurisdicionais colegiados tenham decidido pela condenação de João; (E) o ato de improbidade administrativa praticado por João tenha importado em enriquecimento ilícito ou em dano ao patrimônio público. _______________________________________________________________________ 110 GABARITO: C COMENTÁRIOS A Lei Complementar nº 64/1990, em seu artigo 1º, inciso I, alínea "l", estabelece que são inelegíveis: "Os que forem condenados à suspensão dos direitos políticos, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, por ato de improbidade administrativa que importe lesão ao patrimônio público e enriquecimento ilícito, desde a condenação ou o trânsito em julgado até o transcurso do prazo de 8 (oito) anos após o cumprimento da pena." Ac.-TSE, de 21/2/2017, no REspe n. 10049: requisitos de incidência desta alínea: a) condenação por ato de improbidade administrativa que importe, simultaneamente, lesão ao patrimônio público e enriquecimento ilícito; b) presença de dolo; c) decisão definitiva ou proferida por órgão judicial colegiado; e d) sanção de suspensão dos direitos políticos. (A) INCORRETA. A lei não exige necessariamente o trânsito em julgado. A inelegibilidade pode decorrer também de decisão proferida por órgão judicial colegiado. (B) INCORRETA. A perda da função pública não é requisito para a inelegibilidade. O que importa é a suspensão dos direitos políticos. (C) CORRETA. De acordo com a lei e a jurisprudência do TSE, deve necessariamente haver sanção de suspensão dos direitos políticos. (D) INCORRETA. Não há exigência de que dois órgãos colegiados decidam. Basta uma decisão de órgão colegiado ou decisão transitada em julgado. (E) INCORRETA. A conjunção “ou” torna a questão errada. De acordo com o TSE: Ac.-TSE, de 18.10.2016, no REspe nº 4932 e, de 10.12.2013, no RO nº 67938: a condenação por ato doloso de improbidade administrativa deve implicar, concomitantemente, lesão ao Erário e enriquecimento ilícito. _____________________________________________________________________________ 67. A Lei Complementar Federal nº X veiculou normas gerais de organização, de funcionamento e de responsabilidade na gestão dos regimes próprios de previdência social preexistentes à sua edição, tendo ainda cominado sanção para o ente subnacional que não as observasse, consistente na vedação de figurar como beneficiário de transferências voluntárias de origem federal. Além disso, vedou a instituição de regime dessa natureza. À luz da sistemática constitucional, é CORRETO afirmar, na perspectiva da competência da União, que a Lei Complementar Federal nº X é: (A) inconstitucional, por imiscuir-se em matéria afeta a cada ente subnacional no exercício de sua autonomia política; 111 (B) apenas parcialmente inconstitucional, ao cominar sanções para a inobservância das normas gerais que veicula, o que afronta o pacto federativo; (C) apenas parcialmente inconstitucional, ao vedar que o ente subnacional venha a instituir o regime próprio, em afronta à sua autonomia política; (D) constitucional, pois a criação de regimes próprios decorre de permissivo contido em lei complementar da União, sendo-lhe permitido estabelecer regras e cominar sanções, ou mesmo vedar a sua instituição; (E) constitucional, pois a União tem competência legislativa para a edição das normas gerais e para fiscalizar os regimes próprios, além de a vedação à instituição de novos regimes dessa natureza decorrer da própria ordem constitucional. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O STF, sob a sistemática da repercussão geral (Tema 968), sedimentou as seguintes teses jurídicas vinculantes: “1. É constitucional a previsão, em lei federal, de medidas sancionatórias ao ente federativo que descumprir os critérios e exigências aplicáveis aos regimes próprios de previdência social. 2. Admite-se o controle judicial das exigências feitas pela União no exercício da fiscalização desses regimes. Nesse caso, o ente fiscalizado deverá demonstrar, de forma técnica: (i) a inexistência do déficit atuarial apontado; ou, (ii) caso reconheça o desequilíbrio, a impertinência das medidas impostas pela União e a existência de plano alternativocapaz de assegurar, de maneira equivalente, a sustentabilidade do regime.” Tal previsão em lei federal encontra consonância com o texto constitucional, por se tratar de normas gerais em matéria de previdência social, na forma do artigo 24, inciso XII, §§ 1º e 2º, da CF/88. Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: (...) XII - previdência social, proteção e defesa da saúde; § 1º No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais. § 2º A competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados. O gabarito, portanto, é a letra E. _____________________________________________________________________________ 112 68. O Estado Alfa editou a Lei Estadual nº X, que veio a ser objeto de ação direta de inconstitucionalidade (ADI) perante o Supremo Tribunal Federal. Após o voto do relator, que se inclinou pela declaração de inconstitucionalidade, foi requerida vista do processo objetivo. Antes que o processo fosse reinserido em pauta, foi editada a Lei Estadual nº Y, que revogou a congênere nº X e passou a disciplinar a matéria. À luz da sistemática vigente, é CORRETO afirmar que a ADI, na situação indicada: (A) pode vir a ser julgada no mérito; (B) deve ser extinta sem apreciação do mérito, salvo se a petição inicial for aditada para incluir a Lei Estadual nº Y; (C) não pode vir a ser julgada no mérito, salvo se tiver sido deferido provimento cautelar suspendendo a sua eficácia; (D) deve ser extinta sem apreciação do mérito, não sendo admitido o aditamento da petição inicial para incluir a Lei Estadual nº Y; (E) pode vir a ser julgada no mérito, desde que haja a manifestação favorável de dois terços dos membros do Tribunal em questão de ordem. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS Em regra, se o ato normativo que estava sendo impugnado na ADI for revogado antes do julgamento da ação, haverá perda superveniente do objeto e a ADI não deverá ser conhecida (STF ADI 1203). O STF, contudo, trabalha com algumas exceções: Exceção 1: não haverá perda do objeto e a ADI deverá ser conhecida e julgada caso fique demonstrado que houve "fraude processual", ou seja, que a norma foi revogada de forma proposital a fim de evitar que o STF a declarasse inconstitucional e anulasse os efeitos por ela produzidos (STF ADI 3306). Exceção 2: não haverá perda do objeto se ficar demonstrado que o conteúdo do ato impugnado foi repetido, em sua essência, em outro diploma normativo. Neste caso, como não houve desatualização significativa no conteúdo do instituto, não há obstáculo para o conhecimento da ação (ADI 2418/DF). Exceção 3: caso o STF tenha julgado o mérito da ação sem ter sido comunicado previamente que houve a revogação da norma atacada. Nesta hipótese, não será possível reconhecer, após o julgamento, a prejudicialidade da ADI já apreciada. STF. Plenário. ADI 2418/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 4/5/2016 (Info 824). STF. Plenário. ADI 951 ED/SC, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 27/10/2016 (Info 845). 113 Diante das diversas exceções reconhecidas pelo STF e a partir dos fatos narrados no enunciado, é possível reputar correta a alternativa A, a qual indica que a ADI pode vir a ser julgada no mérito, caso a Suprema Corte entenda que uma das exceções esteja presente. _____________________________________________________________________________ DIREITO ELEITORAL 69. Após regular convenção partidária, Caio foi escolhido como candidato do partido Alfa, procedendo-se ao encaminhamento do pedido de seu registro, que foi autuado e distribuído pelo processo judicial eletrônico na classe Registro de Candidatura. Anexos ao pedido de registro, vieram os documentos que comprovavam a adequação do candidato, do partido e da federação ao estatuto jurídico eleitoral, entre esses, certidão de quitação eleitoral e certidões criminais. Durante a análise do procedimento, o Ministério Público questionou a regularidade das certidões acostadas. Considerando a legislação em vigor e o posicionamento do Tribunal Superior Eleitoral, é CORRETO afirmar que: (A) a emissão de certidão de quitação eleitoral fica impossibilitada caso as contas de campanha tenham sido desaprovadas; (B) a decisão que julga não prestadas as contas de campanha não impede o candidato de obter a certidão de quitação eleitoral; (C) multa eleitoral, paga antes do julgamento do pedido de registro, enseja quitação; (D) as certidões criminais emitidas sem finalidade eleitoral devem ser aceitas, em respeito ao princípio da celeridade; (E) o registro será inevitavelmente indeferido caso seja positiva a certidão criminal. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE RECURSO. (A) INCORRETA. Lei 9.504/97 Art. 11, § 7º A certidão de quitação eleitoral abrangerá exclusivamente a plenitude do gozo dos direitos políticos, o regular exercício do voto, o atendimento a convocações da Justiça Eleitoral para auxiliar os trabalhos relativos ao pleito, a inexistência de multas aplicadas, em caráter 114 definitivo, pela Justiça Eleitoral e não remitidas, e a apresentação de contas de campanha eleitoral. De acordo com o TSE, “a apresentação das contas de campanha é suficiente para a obtenção da quitação eleitoral, nos termos da nova redação conferida ao art. 11, § 7º, da Lei nº 9.504/97, pela Lei nº 12.034/2009” (Súmula 57). Assim, a desaprovação das contas de campanha, por si só, não impede automaticamente a emissão da certidão de quitação eleitoral. O candidato pode quitar os débitos apurados e obter a certidão. A jurisprudência do TSE é pacífica no sentido de que a quitação pode ser obtida mesmo após desaprovação, desde que cumpridas as obrigações decorrentes. (B) INCORRETA. Súmula 42 TSE: A decisão que julga não prestadas as contas de campanha impede o candidato de obter a certidão de quitação eleitoral durante o curso do mandato ao qual concorreu, persistindo esses efeitos, após esse período, até a efetiva apresentação das contas. (C) CORRETA. Súmula 50 TSE: O pagamento da multa eleitoral pelo candidato ou a comprovação do cumprimento regular de seu parcelamento após o pedido de registro, mas antes do julgamento respectivo, afasta a ausência de quitação eleitoral. Resolução TSE 23.609/2019 Art. 28, § 3º O pagamento da multa eleitoral pela candidata ou pelo candidato ou a comprovação do cumprimento regular de seu parcelamento após o pedido de registro, mas antes do julgamento respectivo, afasta a ausência de quitação eleitoral (D) INCORRETA. É necessário que as certidões sejam para fins eleitorais, conforme resolução vigente sobre o assunto. Resolução TSE 23.609/2019 Art. 27, III - certidões criminais para fins eleitorais fornecidas (Lei nº 9.504/1997, art. 11, § 1º, VII) : a) pela Justiça Federal de 1º e 2º graus da circunscrição na qual a candidata ou o candidato tenha o seu domicílio eleitoral; b) pela Justiça Estadual de 1º e 2º graus da circunscrição na qual a candidata ou o candidato tenha o seu domicílio eleitoral; c) pelos tribunais competentes, quando as candidatas ou os candidatos gozarem de foro por prerrogativa de função; (E) INCORRETA. Resolução TSE 23.609/2019 Art. 28, § 6º Quando as certidões criminais eleitorais a que se refere o caput forem positivas, o RRC deverá ser instruído com http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9504.htm#art11 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9504.htm#art11 115 as respectivas certidões de objeto e pé atualizadas de cada um dos processos indicados, bem como das certidões de execuções criminais, quando for o caso. Isso porque nem toda condenação criminal é capaz de gerar a inelegibilidade,devendo- se aferir se há trânsito em julgado, se o prazo de inelegibilidade já expirou, enquadramento na LC 64/90, dentre outros. Assim, não é correto afirmar de forma peremptória que o registro será INEVITAVELMENTE indeferido, caso seja positiva a condenação criminal. Sugerimos recurso para alteração de gabarito dessa questão, portanto. _____________________________________________________________________________ 70. Tício, vereador, candidato a prefeito no Município X, durante campanha eleitoral, afirmou falsamente que Caio, atual prefeito, não candidato à reeleição, teria celebrado contratação de pessoa jurídica, no âmbito da educação, com superfaturamento, beneficiando indevidamente sociedade empresária. Afirmou, ainda, que Caio teria recebido parte do valor superfaturado em retribuição à sua conduta. Considerando a doutrina pátria e a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral, é CORRETO afirmar que: (A) não se configura, na hipótese em apreço, crime de calúnia eleitoral, uma vez que Caio não é candidato à reeleição, devendo o fato ser julgado pela justiça comum; (B) o crime de calúnia eleitoral poderá ser imputado a Tício ainda que posteriormente se demonstre que ele não tinha consciência de que o fato criminoso era inverídico; (C) na qualidade de vereador, Tício pode se valer de sua garantia constitucional de imunidade parlamentar, não lhe sendo imputável o crime de calúnia eleitoral; (D) configurando-se a hipótese de imputação falsa de fato ofensivo à reputação de outrem, constata-se a prática de crime de calúnia eleitoral; (E) admitida a exceção da verdade, após a instrução, os autos serão remetidos ao juízo competente originariamente para o julgamento do prefeito Caio. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Art. 324. Caluniar alguém, na propaganda eleitoral, ou visando fins de propaganda, imputando-lhe falsamente fato definido como crime: Pena – detenção de seis meses a dois anos e pagamento de 10 a 40 dias-multa. 116 O tipo penal não exige, necessariamente, que a vítima da calúnia seja candidato. A competência da Justiça Eleitoral decorre do contexto eleitoral (campanha), não da condição de candidato da vítima (B) INCORRETA. Art. 324. Caluniar alguém, na propaganda eleitoral, ou visando fins de propaganda, imputando-lhe falsamente fato definido como crime: É necessário que haja o dolo de caluniar, que só estará presente com a consciência da falsidade. Os requisitos da calúnia eleitoral são os mesmos da calúnia prevista no art. 138 do Código Penal, mudando apenas a especialidade/finalidade eleitoral. (C) INCORRETA. A imunidade parlamentar, prevista nos artigos 29, VIII e 53, CF não se aplicam à campanha eleitoral. De acordo com o TSE: Ac.-TSE, de 2.9.2021, no AgR-REspEl nº 1053: a imunidade parlamentar não alcança os fatos relacionados à campanha eleitoral. Ac.-TSE, de 15.10.2015, no REspe nº 1063 e, de 7.8.2014, no R-Rp nº 38029: a imunidade parlamentar não constitui princípio absoluto ou irrestrito e não pode ser invocada para se sobrepor ao evidente exercício abusivo do mandato eletivo nem ser aplicada para configurar prática de crime contra a honra no processo eleitoral, a fim de beneficiar ou prejudicar determinado candidato. (D) INCORRETA. A questão está incompleta, embora presentes os elementos necessários à caracterização do crime de calúnia eleitoral – falsidade da imputação, contexto de propaganda eleitoral e ofensa à reputação. Registre-se que para que a conduta seja caracterizada como calúnia, é necessário que a imputação seja de um fato determinado, definido como crime. (E) CORRETA. No campo do procedimento, o Código Eleitoral estabelece as regras básicas para o processamento dos crimes eleitorais, todos eles de ação pública, nos arts. 355 a 364. No entanto, não existe nenhuma regra relativa à exceção da verdade. Por outro lado, o art. 364 do mesmo Estatuto dispõe que o Código de Processo Penal se aplica como lei subsidiária ou supletiva. Vale dizer, pois, que, não existindo no Código Eleitoral regra de processamento para a exceção da verdade, deve ela ser buscada no CPP. Se a exceção da verdade for ADMITIDA, significa que o prefeito Caio, em tese, cometeu o crime do qual Tício o acusara, e deverá ser processado por isso. Registre-se que Prefeitos possuem prerrogativa de foro e, por isso, Caio não poderá ser julgado pelo juiz eleitoral, que deverá remeter os autos à Competência Originária Criminal. De acordo com a Constituição Estadual do Tocantins: Art. 48. Compete privativamente ao Tribunal de Justiça: § 1º Compete ao Tribunal de Justiça, além de outras atribuições previstas nesta Constituição, processar e julgar, originariamente: 117 VI - os Prefeitos Municipais. _____________________________________________________________________________ BLOCO III DIREITO EMPRESARIAL 71. Fátima de Oliveira propôs ação para suspender a realização da assembleia de sócios de Armazém Cachoeirinha Ltda. por supostas irregularidades. A autora, sócia minoritária titular de quotas representativas de 24,8% do capital, alega que a assembleia foi convocada para o dia 22 de março de 2025 e que tal data ultrapassa o limite para a realização, considerando que o exercício social coincide com o ano civil. Em acréscimo, aponta a autora que a documentação referente à prestação de contas dos administradores e aos balanços patrimonial e de resultado econômico somente foram disponibilizados no dia 08 de março de 2025. Considerando-se a narrativa da sócia e as formalidades preliminares à realização da assembleia anual de sócios, é CORRETO afirmar que: (A) inexiste qualquer irregularidade, seja na convocação, seja na disponibilização dos documentos da administração e dos balanços obrigatórios, pois foi respeitado o prazo de antecedência de cinco dias antes da assembleia e a data de sua realização está abrangida nos seis meses seguintes ao término do exercício social; (B) inexiste qualquer irregularidade, pois não é obrigatória a disponibilização aos sócios dos documentos da administração e dos balanços obrigatórios antes da assembleia, e a data de sua realização está abrangida nos três meses seguintes ao término do exercício social; (C) há irregularidade no tocante à disponibilização dos documentos da administração e dos balanços obrigatórios em prazo inferior a 30 dias, mas não há irregularidade quanto à data de realização da assembleia, por estar abrangida nos quatro meses seguintes ao término do exercício social; (D) inexiste irregularidade no tocante à disponibilização dos documentos da administração e dos balanços obrigatórios em prazo inferior a 30 dias, mas há irregularidade quanto à data da realização da assembleia, por não estar abrangida nos 30 dias seguintes ao término do exercício social; (E) há irregularidade tanto em relação à disponibilização dos documentos da administração e dos balanços obrigatórios em prazo inferior a 15 dias, quanto em relação à data da realização da assembleia, por não estar abrangida nos 60 dias seguintes ao término do exercício social. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS 118 A presente questão exige do candidato conhecimento de aspectos legais atinentes à sociedade limitada, nos termos do Código Civil. Com efeito, a questão trata de situação hipotética de ação que visa suspender a realização da assembleia anual de sócios por supostas irregularidades. A autora da ação, sócia minoritária, apontou a seguintes irregularidades: (i) a data da convocação da assembleia e (ii) a data da disponibilização da documentação a ser votada. O tratamento da questão é feito pelo art. 1.078, caput, inciso I e §1º, do Código Civil: Art. 1.078. A assembleia dos sócios deve realizar-se ao menos uma vez por ano, nos quatro meses seguintes ao términodo exercício social, com o objetivo de: I - tomar as contas dos administradores e deliberar sobre o balanço patrimonial e o de resultado econômico; § 1 o Até trinta dias antes da data marcada para a assembleia, os documentos referidos no inciso I deste artigo devem ser postos, por escrito, e com a prova do respectivo recebimento, à disposição dos sócios que não exerçam a administração. _____________________________________________________________________________ 72. Em relação ao aval prestado por pessoa física em cédula de crédito rural, é CORRETO afirmar que: (A) não há nulidade no aval prestado por pessoa física em cédula de crédito rural, seja ou não o avalista integrante do quadro societário do emitente; (B) é nulo o aval prestado por pessoa física em cédula de crédito rural, exceto quando o avalista for sócio da sociedade emitente; (C) não há nulidade no aval prestado por pessoa física em cédula de crédito rural, exceto se o avalista for sócio da sociedade emitente; (D) é nulo o aval prestado por pessoa física em cédula de crédito rural, tal qual ocorre em relação à nota promissória rural e duplicata rural; (E) não há nulidade no aval prestado por pessoa física em cédula de crédito rural, tal qual ocorre em relação à nota promissória rural e duplicata rural. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS A presente questão exige do candidato conhecimentos acerca dos títulos do agronegócio, mais especificamente sobre as Cédulas de Produto Rural e a questão do aval nestes títulos. Com efeito, a Cédula de Produto Rural se encontra regulamentada pela Lei nº 8.929/94 e pelo Decreto-Lei nº 167/67. 119 Com efeito, tanto o art. 10, da Lei nº 8.929/94, quanto o art. 60, do Decreto-Lei nº 167/67, estabelecem como regência supletiva as normas de Direito Cambial, onde se tem regulamentado o aval. O cerne da discussão, porém, vai de encontro ao que prevê, o art. 60, §2º, do Decreto-Lei nº 167/67: § 2º É nulo o aval dado em Nota Promissória Rural ou Duplicata Rural, salvo quando dado pelas pessoas físicas participantes da empresa emitente ou por outras pessoas jurídicas. Note que a norma é expressa em estabelecer nulidade ao aval apenas para a Nota Promissória Rural e a Duplicata Rural, não abarcando a Cédula de Produto Rural, que por sua vez, não encontra limites ou restrições para o aval dado por pessoa física. Este é inclusive o entendimento do STJ. Senão vejamos: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS À EXECUÇÃO. CÉDULA RURAL PIGNORATÍCIA. ALONGAMENTO DA DÍVIDA. REQUISITOS. VERIFICAÇÃO. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICO-PROBATÓRIA. SÚMULA 7/STJ. DECRETO-LEI 167/67, ART. 60, §§ 1º, 2º E 3º. TEOR NORMATIVO ESPECÍFICO ÀS CAMBIAIS. GARANTIA DADA POR TERCEIROS EM CCR. VALIDADE. AGRAVO DESPROVIDO. 1. A modificação do entendimento firmado nas instâncias ordinárias, quanto à ausência dos requisitos que autorizariam o alongamento da dívida rural, demanda, na hipótese dos autos, o revolvimento de matéria fático-probatória. 2. Diversamente da nota promissória rural e da duplicata rural, que são emitidas pelo comprador da produção agrícola e representam o preço de venda a prazo de bens de natureza agrícola, em geral cedidas pelo produtor rural nas operações de desconto bancário, a cédula de crédito rural corresponde a financiamento obtido para viabilizar a produção agrícola. 3. "As mudanças no Decreto-lei n.167/67 não tiveram como alvo as cédulas de crédito rural. Por isso elas nem sequer foram mencionadas nas proposições que culminaram com a aprovação da Lei nº 6.754/79, que alterou o Decreto-lei referido. A interpretação sistemática do art. 60 do Decreto-lei nº 167/67 permite inferir que o significado da expressão 'também são nulas outras garantias, reais ou pessoais', disposta no seu § 3º, refere- se diretamente ao § 2º, ou seja, não se dirige às cédulas de crédito rural, mas apenas às notas e duplicatas rurais" (REsp 1.483.853/MS, TERCEIRA TURMA, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, julgado em 4/11/2014, DJe de 18/11/2014). 4. O Decreto-Lei 167/67, em seu art. 60, §§ 2º e 3º, determina a nulidade do aval e de outras garantias, reais ou pessoais, referindo-se apenas à nota promissória rural e à duplicata rural 120 endossadas, ressalvando a validade das garantias nestes títulos quando prestadas por pessoas físicas participantes de sociedade empresária emitente, por esta ou por outras pessoas jurídicas. 5. Tal nulidade, portanto, não atinge a cédula de crédito rural, porque esta corresponde a um financiamento bancário, negócio jurídico, de natureza contratual, em que há a participação direta de instituição de crédito. Trata-se de operação diversa das referentes às notas promissórias e duplicatas rurais, nas quais o banco não participa da relação jurídica subjacente, ingressando na relação cambial apenas durante o ciclo de circulação do título. 6. Dada a natureza de financiamento bancário, inexiste óbice à prestação de quaisquer garantias na cédula de crédito rural, sendo válidas mesmo as dadas por terceiro pessoa física, cumprindo-se assim a função social dessa espécie contratual. 7. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n. 1.622.258/MG, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 16/5/2022, DJe de 14/6/2022.) _____________________________________________________________________________ 73. Após a decretação de falência da sociedade Cerealista Palmas do Paranã Ltda., o juiz instaurou, de ofício, incidente para efeito de habilitação e classificação de créditos de direito público constantes da relação de credores apresentada pela falida. A Fazenda Pública do Estado do Tocantins apresentou, tempestivamente, a relação de créditos inscritos em dívida ativa e não relacionados pela falida. Após o fim do prazo para habilitação: (A) é expressamente proibido que os créditos não definitivamente constituídos, não inscritos em dívida ativa ou com exigibilidade suspensa sejam informados posteriormente pela Fazenda Pública; (B) o falido, os demais credores e o administrador judicial disporão do prazo de 15 dias para manifestar objeções, limitadamente, sobre os cálculos e a classificação; (C) os créditos incontroversos e exigíveis serão incluídos no quadro geral de credores, observada a sua classificação, após a manifestação do comitê de credores no prazo de dez dias; (D) a Fazenda Pública, após a manifestação da falida, será intimada para prestar, no prazo de 15 dias, eventuais esclarecimentos sobre objeções apresentadas; (E) havendo questionamento sobre os cálculos apresentados pela Fazenda Pública para apuração do valor atualizado dos créditos, o juiz remeterá as partes ao juízo da execução fiscal, a quem cabe decidir sobre tal matéria. _______________________________________________________________________ 121 GABARITO: B COMENTÁRIOS A presente questão exige do candidato conhecimentos acerca do incidente de classificação do crédito público, previsto no art. 7º-A, da Lei nº 11.101/05, inserido pela reforma promovida pela Lei nº 14.112/20. Responde a presente questão o inciso I, do §3º, do art. 7º-A, da Lei nº 11.101/05: § 3º Encerrado o prazo de que trata o caput deste artigo: I - o falido, os demais credores e o administrador judicial disporão do prazo de 15 (quinze) dias para manifestar objeções, limitadamente, sobre os cálculos e a classificação para os fins desta Lei; _____________________________________________________________________________ 74. A legislação falimentar nacional confere legitimidade ativa tanto a qualquer credor quanto ao próprio devedor, hipótese conhecida como pedido de autofalência. Sobre tal pedido, é CORRETO afirmar que: (A) ele somente se aplica ao empresário individual, sendo competente para decretar a falência o juiz do lugar em que o devedor se encontre, tratando-se de empresário de espetáculos públicos;(B) o devedor deverá requerer sua falência no prazo de 30 dias a partir do vencimento de qualquer obrigação líquida; (C) os empresários individuais sem registro e as sociedades empresárias sem ato constitutivo arquivado na Junta Comercial não podem se valer da autofalência; (D) devem ser apresentadas as demonstrações contábeis referentes ao último exercício social e as levantadas especialmente para instruir o pedido; (E) as sociedades empresárias devem apresentar a relação de seus administradores nos últimos cinco anos, com os respectivos endereços, suas funções e participação societária. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS A questão exige do candidato conhecimentos acerca do pedido de autofalência que é o pedido de falência requerido pelo próprio devedor. Responde a presente questão, o art. 105, da Lei nº 11.101/05: 122 Art. 105. O devedor em crise econômico-financeira que julgue não atender aos requisitos para pleitear sua recuperação judicial deverá requerer ao juízo sua falência, expondo as razões da impossibilidade de prosseguimento da atividade empresarial, acompanhadas dos seguintes documentos: I – demonstrações contábeis referentes aos 3 (três) últimos exercícios sociais e as levantadas especialmente para instruir o pedido, confeccionadas com estrita observância da legislação societária aplicável e compostas obrigatoriamente de: a) balanço patrimonial; b) demonstração de resultados acumulados; c) demonstração do resultado desde o último exercício social; d) relatório do fluxo de caixa; II – relação nominal dos credores, indicando endereço, importância, natureza e classificação dos respectivos créditos; III – relação dos bens e direitos que compõem o ativo, com a respectiva estimativa de valor e documentos comprobatórios de propriedade; IV – prova da condição de empresário, contrato social ou estatuto em vigor ou, se não houver, a indicação de todos os sócios, seus endereços e a relação de seus bens pessoais; V – os livros obrigatórios e documentos contábeis que lhe forem exigidos por lei; VI – relação de seus administradores nos últimos 5 (cinco) anos, com os respectivos endereços, suas funções e participação societária. Das alternativas apresentadas na questão, apenas, a letra E está correta. _____________________________________________________________________________ 75. A sociedade Laticínios Colmeia da Natividade Ltda., em recuperação judicial, teve deferido o processamento de sua recuperação judicial. O plano de recuperação judicial foi apresentado no prazo legal, mas ainda não foi apreciado pela assembleia de credores mesmo após o fim do prazo de suspensão da prescrição e das execuções em face da devedora. Considerando-se tal cenário e as disposições da Lei nº 11.101/2005, é CORRETO afirmar que: (A) os credores poderão apresentar plano alternativo ao do devedor no prazo de 30 dias, contado do final do prazo de suspensão; (B) as execuções em face do devedor serão retomadas, mas persistirá a proibição de qualquer forma de retenção ou ato de constrição judicial ou extrajudicial sobre os bens do devedor; (C) o juiz decretará a convolação da recuperação judicial em falência diante da ausência de deliberação dos credores sobre o plano de recuperação judicial; 123 (D) o juiz deverá convocar assembleia de credores para deliberar sobre a convolação da recuperação judicial em falência, a ser realizada em até 30 dias, contados do final do prazo de suspensão; (E) o devedor poderá apresentar termo de adesão dos credores, substitutivo da deliberação assemblear, no prazo de 15 dias, contado do final do prazo de suspensão. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS A questão retrata situação hipotética de um processo de recuperação judicial, onde foi apresentado um plano de recuperação judicial, mas passado o prazo do período de stay (art. 6º, §4º), o plano não foi apreciado pela assembleia de credores. Na forma do art. 6º, §4º-A, I, que estabelece que após tal período, é facultado aos credores apresentarem um plano alternativo em até 30 dias, ocasião não qual seria prorrogado um o período de stay. _____________________________________________________________________________ DIREITO TRIBUTÁRIO 76. Determinada lei estadual, editada no mês de agosto de 2024, estabeleceu alíquotas menores para o IPVA incidente sobre a propriedade de veículos elétricos, em relação às alíquotas do imposto fixadas para os demais veículos, com o objetivo de promover a sustentabilidade ambiental. À luz da Constituição Federal de 1988 (CF/1988), a aludida lei estadual, em tese, se revela materialmente: (A) constitucional, pois a CF/1988 autoriza a fixação de alíquotas diferenciadas do IPVA em função do impacto ambiental do veículo, com o propósito de promover a finalidade parafiscal da tributação; (B) constitucional, porquanto a CF/1988 permite a fixação de alíquotas diferenciadas do IPVA em razão do impacto ambiental do veículo, no intuito de promover a finalidade extrafiscal da tributação; (C) inconstitucional, haja vista que a CF/1988 não permite a fixação de alíquotas diferenciadas do IPVA em virtude do impacto ambiental do veículo, não podendo a lei estadual desbordar da moldura constitucional, ainda que sob o pretexto de promover a sustentabilidade ambiental; (D) constitucional, na medida em que, embora a CF/1988 não autorize expressamente o estabelecimento de alíquotas diferenciadas do IPVA de acordo com o impacto ambiental do veículo, a defesa do meio ambiente foi erigida à categoria de direito fundamental e de princípio geral da atividade econômica, a legitimar o ato normativo mencionado; 124 (E) constitucional, uma vez que, embora a CF/1988 não autorize expressamente o estabelecimento de alíquotas diferenciadas do IPVA de acordo com o impacto ambiental do veículo, a Emenda Constitucional nº 132/2023 trouxe o princípio da defesa do meio ambiente como um dos vetores do Sistema Tributário Nacional, a legitimar o ato normativo mencionado. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Função parafiscal refere-se à utilização dos tributos não apenas para arrecadar recursos financeiros (função fiscal), como também para destinar sua arrecadação ao custeio de atividades paraestatais. O IPVA é predominantemente fiscal e não tem característica parafiscal. (B) CORRETA. Tributos extrafiscais são aqueles que possuem finalidades que ultrapassam o caráter meramente arrecadatório da tributação. Em que pese o IPVA seja predominantemente fiscal, possui outras finalidades previstas constitucionalmente, como a promoção do meio ambiente. É o que se verifica do art. 155, §6º, II, da CR: Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: III - propriedade de veículos automotores. § 6º O imposto previsto no inciso III: II - poderá ter alíquotas diferenciadas em função do tipo, do valor, da utilização e do impacto ambiental; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 132, de 2023) (C) INCORRETA. Em desconformidade com o art. 155, §6º, da CR. (D) INCORRETA. Em desconformidade com o art. 155, §6º, II, da CR, que expressamente autoriza o estabelecimento de alíquota diferenciada em função do impacto ambiental. (E) INCORRETA. Em desconformidade com o art. 155, §6º, II, da CR, que expressamente autoriza o estabelecimento de alíquota diferenciada em função do impacto ambiental. _____________________________________________________________________________ 77. Suponha que determinado bem imóvel de titularidade da União, que se encontrava afetado à atividade de administração de infraestrutura aeroportuária exercida pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), tenha sido objeto de concessãode uso junto à sociedade empresária ABC, que desempenha atividade de revenda de veículos automotores. 125 Considere, ademais, que, no contrato de concessão de uso firmado com a sociedade empresária ABC, constava expressamente que esta seria responsável pelo pagamento dos tributos municipais incidentes sobre o bem. Diante do contexto apresentado, o Município Alfa iniciou a cobrança de IPTU em face da sociedade empresária ABC. De acordo com a Constituição Federal de 1988 e com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal acerca da matéria, a referida cobrança se afigura: (A) devida, uma vez que a imunidade tributária recíproca não alcança a sociedade empresária ABC, a qual explora atividade econômica com fins lucrativos, sendo certo que o imóvel concedido se encontra desvinculado de finalidade estatal; (B) indevida, haja vista que a sociedade empresária ABC não é proprietária do imóvel, mas mera detentora de posse precária e desdobrada decorrente de contrato de concessão de uso, não podendo, portanto, figurar como sujeito passivo da obrigação tributária; (C) indevida, porquanto a celebração do contrato de concessão de uso com a sociedade empresária ABC não descaracteriza a natureza de bem público do imóvel, independentemente da finalidade a ele atribuída, motivo pelo qual deve incidir a imunidade tributária recíproca; (D) indevida, na medida em que a previsão contratual relativa à responsabilidade pelo pagamento de tributos não pode ser oposta à Fazenda Pública Municipal para modificar a definição legal do sujeito passivo da obrigação tributária, salvo disposição de lei em contrário; (E) devida, pois a imunidade tributária recíproca não alcança a Infraero, tampouco a concessionária que explora comercialmente o imóvel objeto do contrato de concessão de uso, sob pena de violação aos princípios da livre concorrência e do exercício de atividade profissional ou econômica lícita. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS A imunidade recíproca está prevista no art. 150, VI, ‘a’ da CR e veda a tributação de impostos sobre o patrimônio, renda ou serviços entre entes federados. Tem por finalidade proteger o princípio federativo, impedindo que os tributos sejam usados como formas de pressões políticas. O STF, ao analisar a imunidade recíproca, adota o princípio da livre concorrência (art. 173, §1º, II) como diretriz hermenêutica, do que resulta a não aplicação da imunidade recíproca extensiva quando dela puder resultar concorrência deslegal com a iniciativa privada. No caso em tela, em que pese o imóvel seja de propriedade da União, há contrato de concessão de uso firmado com a sociedade empresária ABC, que o utiliza para fins empresariais (atividade de revenda de veículos automotores). Além disso, o 126 IPTU pode ser exigido não somente do proprietário do imóvel, mas também do possuidor: CTN, Art. 32. O imposto, de competência dos Municípios, sobre a propriedade predial e territorial urbana tem como fato gerador a propriedade, o domínio útil ou a posse de bem imóvel por natureza ou por acessão física, como definido na lei civil, localizado na zona urbana do Município. Além disso, é necessário o conhecimento do Tema 385 da Repercussão geral: A imunidade recíproca, prevista no art. 150, VI, a, da Constituição não se estende a empresa privada arrendatária de imóvel público, quando seja ela exploradora de atividade econômica com fins lucrativos. Nessa hipótese é constitucional a cobrança do IPTU pelo Município. Assim, a imunidade tributária recíproca não alcança o imóvel em questão, sendo devida a exigência do IPTU, o que torna incorretas as alternativas B, C e D. A alternativa E também está incorreta, pois o conteúdo do contrato de concessão de uso não é irrelevante: veja que a imunidade foi afastada exatamente em razão do uso do imóvel para fins empresariais (atividade de revenda de veículos automotores). Assim, a única resposta correta é a alternativa A. _____________________________________________________________________________ 78. João adquiriu a propriedade de determinado imóvel fruto de parcelamento do solo urbano. Como o novo imóvel não estava previsto na Planta Genérica de Valores, o Município Alfa realizou a avaliação individualizada do referido bem, com base nos critérios previstos em lei municipal, após o que apurou o valor venal do imóvel e procedeu ao lançamento do IPTU respectivo. João, então, ajuizou ação anulatória com o objetivo de desconstituir o lançamento mencionado, sob a alegação de violação ao princípio da legalidade tributária. Tendo em conta as disposições da Constituição Federal de 1988 e do Código Tributário Nacional (CTN), assim como a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal acerca do tema, o pedido formulado na mencionada ação anulatória deverá ser julgado: (A) procedente, na medida em que a aferição do valor venal do imóvel, por constituir a base de cálculo do IPTU, depende de previsão na Planta Genérica de Valores ou da edição de lei específica para tal fim, inclusive na hipótese de imóvel novo oriundo de parcelamento de solo urbano, em observância ao princípio da reserva legal em matéria tributária; (B) procedente, visto que a fixação ou a majoração do valor venal do imóvel para efeito de cobrança do IPTU não prescinde da edição de lei em sentido formal, exigência que somente pode ser afastada quando a atualização não exceder os índices oficiais de correção monetária, sendo irrelevante, para fins tributários, o fato de o imóvel possuir matrícula nova; 127 (C) improcedente, porquanto a apuração do valor venal de imóvel novo não previsto na Planta Genérica de Valores, em decorrência de parcelamento do solo urbano, pode ser realizada mediante avaliação técnica individualizada, desde que obedecidos os critérios fixados em lei e garantido ao contribuinte o direito ao contraditório; (D) procedente, uma vez que é inconstitucional a lei municipal que delega ao Poder Executivo a avaliação individualizada de imóvel para fins de cobrança do IPTU, pois a fixação ou a majoração da base de cálculo do tributo exige lei em sentido estrito, admitida apenas a atualização monetária por ato infralegal em conformidade com os índices oficiais de correção monetária; (E) improcedente, haja vista que é possível a realização de avaliação técnica individualizada para a aferição do valor venal de imóvel novo, desde que observados os critérios previstos em lei e efetuado o lançamento por arbitramento, na forma do Art. 148 do CTN, devendo, ademais, ser o aludido imóvel incluído na Planta Genérica de Valores para a cobrança dos próximos IPTUs. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS A questão exigia o conhecimento do seguinte entendimento fixado no Tema 1084 da Repercussão Geral: É constitucional a lei municipal que delega ao Poder Executivo a avaliação individualizada, para fins de cobrança do IPTU de imóvel novo não previsto na Planta Genérica de Valores, desde que fixados em lei os critérios para a avaliação técnica e assegurado ao contribuinte o direito ao contraditório. STF. Plenário. ARE 1.245.097/PR, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 5/6/2023 (Repercussão Geral – Tema 1084) (Info 1098). _____________________________________________________________________________ 79. João, engenheiro residente no Estado Alfa, mudou-se com sua família para o Estado Beta em razão de novo vínculo empregatício, alterando também seus domicílios civil e tributário. Pouco antes da mudança, havia adquirido, no Estado Alfa, um veículo automotor do tipo SUV para uso particular, aproveitando o benefício de emplacamento gratuito oferecido pela concessionária e a alíquota de IPVA reduzida praticada pelo Estado Alfa. Algum tempo depois, foi surpreendido com uma notificação do Estado Beta, exigindo o pagamento do IPVArelativo ao exercício anterior, com fundamento em legislação estadual e na propriedade do veículo enquanto domiciliado em seu território. Sentindo- se injustiçado, pois já havia recolhido o imposto ao Estado Alfa no exercício em questão, João, por meio de advogado, ajuizou ação declaratória de inexistência de relação jurídico-tributária em face da Fazenda Pública do Estado Beta. 128 Com base na jurisprudência dos Tribunais Superiores, é CORRETO afirmar que a ação intentada por João: (A) não irá prosperar, pois uma ação de consignação de pagamento em face das Fazendas Públicas de Alfa e de Beta é mais adequada ao caso narrado; (B) não irá prosperar, pois a Constituição autoriza a cobrança do tributo somente pelo Estado Beta, por ser o local em que João mantém seu domicílio tributário; (C) irá prosperar, pois o local de licenciamento do veículo, feito no Estado Alfa, determina o sujeito ativo da relação jurídico-tributária do IPVA; (D) irá prosperar, pois o ajuizamento de uma ação de repetição de indébito em face da Fazenda Pública de Alfa revela-se inviável; (E) não irá prosperar, pois ambos os Estados, Alfa e Beta, podem exigir o IPVA em razão da ausência de lei complementar que discipline nacionalmente a competência tributária do imposto. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS A questão exigia o conhecimento do seguinte entendimento fixado no Tema 708 da Repercussão Geral: A cobrança do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) somente pode ser realizada pelo Estado em que o contribuinte mantém sua sede ou domicílio tributário. STF. Plenário. RE 1016605, Redator do acórdão Min. Alexandre de Moraes, julgado em 16/09/2020 (Repercussão Geral – Tema 708). _____________________________________________________________________________ 80. Vocacionada à produção de materiais médicos destinados à exportação, a empresa Gamma Ltda. contratou serviço de transporte, por sua conta e ordem, para movimentar mercadorias de sua fábrica, situada no Município Alfa, até o porto localizado no Município Beta, ambos no Estado ABC. O transporte foi realizado com o objetivo de posterior embarque das mercadorias ao exterior, sendo todas as mercadorias vendidas a um único comprador sediado na Ásia. Em seguida, a empresa foi autuada pela Fazenda Estadual de ABC para pagamento de ICMS sobre o serviço de transporte intermunicipal, sob o argumento de inexistir imunidade tributária incidente ou regra de isenção prevista na legislação estadual ou nacional aplicável ao transporte interno no Estado ABC. Considerando a legislação aplicável ao ICMS e a jurisprudência dos Tribunais Superiores, é CORRETO afirmar que: 129 (A) o transporte intermunicipal de mercadorias destinadas à exportação não usufrui de isenção de ICMS, pois a desoneração se restringe às operações de transporte interestadual; (B) a incidência do ICMS é legítima, pois a legislação nacional aplicável limita a isenção apenas à saída da mercadoria para o exterior, e não a etapas anteriores; (C) a Fazenda Estadual pode exigir o ICMS sobre o transporte de mercadorias, cabendo à empresa Gamma posteriormente pleitear a repetição do indébito após a comprovação da exportação; (D) a incidência do ICMS no transporte intermunicipal é obrigatória na ausência de autorização expressa em convênio do Confaz dispensando o tributo; (E) não incide ICMS sobre o transporte intermunicipal de mercadorias destinadas à exportação, pois a isenção alcança toda a cadeia logística vinculada à operação de exportação. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS É necessário o conhecimento da Súmula 649 do STJ e entendimento que determina sua incidência também no transporte intermunicipal de mercadorias destinadas à exportação: Súmula 649 STJ: Não incide ICMS sobre o serviço de transporte interestadual de mercadorias destinadas ao exterior. A isenção prevista no art. 3º, II, da LC 87/1996 aplica-se a toda a cadeia de exportação, incluindo o transporte interestadual e também o intermunicipal, mesmo que anteceda a saída da mercadoria ao exterior, pois visa assegurar a competitividade do produto nacional. STJ. 2ª Turma. AREsp 2.607.634-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 18/2/2025 (Info 842). _____________________________________________________________________________ DIREITO AMBIENTAL 81. O Município XYZ, localizado em região de expansão agrícola, recebeu requerimento para instalação de um empreendimento de pequeno porte com potencial impacto ambiental local. Contudo, o município não possui órgão ambiental capacitado nem conselho de meio ambiente constituído. O estado onde está localizado o município, por sua vez, também não conta com estrutura técnico-administrativa suficiente para conduzir o processo de licenciamento ambiental. 130 Diante dessa situação, foi encaminhado pedido à União para que atue no licenciamento da atividade. Com base nas disposições da Lei Complementar nº 140/2011, é CORRETO afirmar que: (A) a União poderá desempenhar as ações administrativas de licenciamento ambiental, em caráter supletivo, em razão da inexistência de órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no estado e no município; (B) a exigência de licenciamento ambiental é afastada em se tratando de empreendimento de pequeno porte e de inexistência de estrutura municipal e estadual, ficando, assim, dispensada a atuação de qualquer ente federativo; (C) a atuação da União como substituta do estado e do município independe de requerimento formal, podendo ser instaurada de ofício nos casos de urgência ambiental; (D) o estado poderá licenciar o empreendimento desde que o município solicite formalmente apoio, ainda que possua conselho de meio ambiente, mas sem corpo técnico ambiental; (E) a União atuará em cooperação com o Estado, mas apenas no fornecimento de recursos financeiros, sendo vedado apoio técnico ou científico nas hipóteses de atuação supletiva. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS Art. 15 da LC 140/2011 - Os entes federativos devem atuar em caráter SUPLETIVO nas ações administrativas de licenciamento e na autorização ambiental, nas seguintes hipóteses: I - inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado ou no Distrito Federal, a União deve desempenhar as ações administrativas estaduais ou distritais até a sua criação; II - inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Município, o Estado deve desempenhar as ações administrativas municipais até a sua criação; e III - inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado e no Município, a União deve desempenhar as ações administrativas até a sua criação em um daqueles entes federativos. _____________________________________________________________________________ 82. Durante operação de fiscalização ambiental, um grupo foi flagrado praticando pesca predatória em área de preservação permanente. Considerando a Lei nº 9.605/1998, uma circunstância legalmente prevista como agravante da pena no caso narrado é a seguinte: 131 (A) a utilização de máquinas e equipamentos de alto valor agregado na atividade ilegal; (B) o cometimento do crime durante a fase de reprodução natural dos peixes, em período de defeso; (C) a ocorrência da infração em unidade de conservação de proteção integral nos últimos 90 dias do ano civil; (D) a participação de mais de cinco pessoas na execução da atividade pesqueira irregular; (E) o uso de redes de pesca com malhas que não atendem aos padrões técnicos recomendados. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS Art. 15 da Lei de Crimes Ambientais - São circunstâncias14 preço previamente acordado entre as partes e manter os bens para si. Esta faculdade constitui elemento essencial desta modalidade contratual, consagrada expressamente no art. 534 do Código Civil, que estabelece: "Pelo contrato estimatório, o consignante entrega bens móveis ao consignatário, que fica autorizado a vendê-los, pagando àquele o preço ajustado, salvo se preferir, no prazo estabelecido, restituir-lhe a coisa consignada." Assim, resta evidente a possibilidade de o brechó, mesmo não tendo comercializado as roupas durante o período contratual, optar por adquiri-las mediante o pagamento do valor estimado. Ressalte-se que os credores do estabelecimento de brechó não podem efetuar a penhora das roupas recebidas em consignação, uma vez que estas não integram efetivamente o patrimônio do consignatário. O Código Civil é explícito ao proteger os bens consignados contra eventuais execuções promovidas pelos credores do estabelecimento comercial. Conforme estabelece o artigo 536: "A coisa consignada não pode ser objeto de penhora ou sequestro pelos credores do consignatário, enquanto não pago integralmente o preço." (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa “C”. _____________________________________________________________________________ 6. Isaías redigiu seu testamento particular, figurando como testemunhas Xisto, Zuleide e Yvone. Isaías então manifestou a intenção de beneficiar, com legados: a) Adamantina, irmã de Xisto; b) Benedita, sobrinha de Isaías, interditada por vício em tóxicos; c) Célia, filha de Isaías em um relacionamento extraconjugal; d) a Fundação Diamante, cuja criação e organização foi determinada por Isaías no próprio testamento; e e) o primeiro filho que vier a nascer de Eleutério, neto de Isaías, já nascido e ainda vivo. Está impedido(a) de figurar como legatário(a) nesse testamento: (A) Adamantina; (B) Benedita; (C) Célia; (D) a Fundação Diamante; (E) o primeiro filho que vier a nascer de Eleutério. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS (A) CORRETA. O Código Civil estabelece uma série de regras sobre a validade de disposições testamentárias e impedimentos para figurar como beneficiário em testamentos. Analisando cada uma das opções: 15 Adamantina é irmã de Xisto, que é testemunha do testamento. Conforme o art. 1.801, inciso II, do Código Civil, não pode ser nomeados herdeiros nem legatários "as testemunhas do testamento" e também, de acordo com o mesmo dispositivo, inciso I, não podem ser nomeados " a pessoa que, a rogo, escreveu o testamento, nem o seu cônjuge ou companheiro, ou os seus ascendentes e irmãos", o que inclui os irmãos da testemunha testamentária. Logo, Adamantina está impedida de ser legatária. O Código Civil invalida disposições testamentárias em favor de pessoas não legitimadas a suceder, mesmo quando disfarçadas por contratos onerosos ou realizadas via interposta pessoa. O parágrafo único do artigo 1.802 estabelece uma presunção de interposição quanto aos familiares próximos do não legitimado (ascendentes, descendentes, irmãos, cônjuge ou companheiro). Complementarmente, o artigo 1.900, inciso V, declara nulas quaisquer disposições que favoreçam estas pessoas, formando um sistema de proteção contra fraudes no âmbito sucessório. Embora Benedita seja interditada por vício em tóxicos, não há impedimento legal para que um relativamente incapaz receba legado em testamento. A interdição por toxicomania gera incapacidade relativa (art. 4º, II, CC), não impedindo a pessoa de ser beneficiária em testamento. Célia, filha extraconjugal de Isaías, não existe impedimento legal para que o testador beneficie seus filhos, independentemente da natureza da filiação. O art. 1.596 do CC estabelece a igualdade entre filhos, proibindo qualquer discriminação. O art. 62 do CC permite expressamente que se institua fundação por testamento. O fato de a fundação ser determinada no próprio testamento não a impede de figurar como legatária. O art. 1.799, I, do CC permite a nomeação como legatário da "I - os filhos, ainda não concebidos, de pessoas indicadas pelo testador, desde que vivas estas ao abrir-se a sucessão;". Como Eleutério já é nascido e vivo, seu futuro filho (prole eventual) pode ser validamente contemplado no testamento. Assim sendo, a única pessoa impedida de ser legatária é Adamantina (alternativa A), por ser irmã de uma testemunha testamentária. (B) INCORRETA. Vide comentários alternativa “A”. (C) INCORRETA. Vide comentários alternativa “A”. (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa “A”. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa “A”. _____________________________________________________________________________ 7. Celina, viúva de 83 anos, reside sozinha em imóvel de sua propriedade, localizado em área urbana valorizada. Nos últimos anos, passou a apresentar sinais progressivos de comprometimento cognitivo, embora ainda consiga realizar algumas atividades do dia a dia com a ajuda de vizinhos. Seu único filho, Roberto, reside em outro estado e, embora legalmente responsável, tem se mantido distante da mãe, delegando a terceiros a supervisão da idosa. Recentemente, Roberto, sem consultar Celina, contratou uma empresa para vender o imóvel da mãe, alegando a necessidade de levantar recursos para 16 custear cuidados futuros, e firmou contrato de compra e venda com cláusula de irrevogabilidade. O negócio foi contestado pelo Ministério Público, após denúncia de uma vizinha, com fundamento em possível abuso patrimonial. À luz do Estatuto da Pessoa Idosa, é CORRETO afirmar que: (A) a atuação de Roberto é legítima, pois o Art. 5º do Estatuto da Pessoa Idosa permite que familiares promovam atos em nome da pessoa idosa visando à sua proteção, ainda que sem consentimento expresso; (B) a alienação do imóvel sem consentimento da idosa vulnerável pode configurar abuso patrimonial, atraindo as medidas de proteção ao idoso, nos termos do Art. 43 do Estatuto da Pessoa Idosa, independentemente de prévia interdição judicial; (C) a atuação do Ministério Público é indevida, pois o Estatuto da Pessoa Idosa exige a existência de processo judicial em curso para sua intervenção em defesa patrimonial do idoso; (D) a cláusula de irrevogabilidade no contrato firmado por Roberto protege o negócio jurídico contra qualquer questionamento, conforme o Art. 4º do Estatuto da Pessoa Idosa; (E) a iniciativa de Roberto encontra respaldo no dever legal da família de zelar pelos bens do idoso, previsto no Art. 3º do Estatuto da Pessoa Idosa, sendo suficiente sua alegação de intenção protetiva para convalidar a venda. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários alternativa “B”. (B) CORRETA. A alternativa correta é a (B): a alienação do imóvel sem consentimento da idosa vulnerável pode configurar abuso patrimonial, atraindo as medidas de proteção ao idoso, nos termos do Art. 43 do Estatuto da Pessoa Idosa, independentemente de prévia interdição judicial. O Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece diversas proteções contra abusos patrimoniais, sendo que o Art. 43 prevê expressamente a aplicação de medidas específicas de proteção quando os direitos da pessoa idosa forem ameaçados ou violados por ação ou omissão da família ou de terceiros. A situação descrita apresenta vários elementos preocupantes: Celina, mesmo com comprometimento cognitivo, ainda possui capacidade civil não sendo declarada interditada; Roberto agiu unilateralmente, sem consultar a mãe sobre a venda de um bem que é de propriedade exclusiva dela; e a alegação de "levantar recursos para cuidados futuros" enquanto se mantém distante, delegando a terceiros a supervisão da mãe, sugere possível desinteresse genuíno no bem-estar da idosa.que agravam a pena, quando não constituem ou qualificam o crime: (...) II - ter o agente cometido a infração: (...) g) em período de defeso à fauna; (...) _____________________________________________________________________________ 83. João, proprietário de uma pequena propriedade rural, foi autuado por cortar algumas árvores nativas em sua terra sem a devida autorização ambiental. O corte das árvores não causou danos significativos ao meio ambiente, sendo considerado um crime de menor potencial ofensivo. No processo judicial, o Ministério Público propôs a suspensão condicional do processo, conforme o Art. 89 da Lei nº 9.099/1995, com a condição de que João reparasse o dano ambiental causado. Com base na Lei nº 9.605/1998, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, é CORRETO afirmar que: (A) a suspensão condicional do processo não pode ser concedida em crimes ambientais, independentemente da reparação do dano; (B) a reparação do dano ambiental não é condição necessária para a concessão da suspensão condicional do processo em crimes de menor potencial ofensivo; (C) a suspensão condicional do processo pode ser concedida em crimes ambientais de menor potencial ofensivo, desde que haja a prévia composição do dano ambiental, salvo comprovada impossibilidade; 132 (D) a suspensão condicional do processo em crimes ambientais de menor potencial ofensivo depende exclusivamente da aceitação do acusado, independentemente da reparação do dano; (E) a suspensão condicional do processo é aplicável apenas a crimes ambientais que não envolvam flora ou fauna silvestre. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS Art. 89 da Lei 9.099/95 - Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não por esta Lei, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo, por dois a quatro anos, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal). § 1º Aceita a proposta pelo acusado e seu defensor, na presença do Juiz, este, recebendo a denúncia, poderá suspender o processo, submetendo o acusado a período de prova, sob as seguintes condições: I - reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo; Art. 28 da Lei de Crimes Ambientais - As disposições do art. 89 da Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, aplicam-se aos crimes de menor potencial ofensivo definidos nesta Lei, com as seguintes modificações: I - a declaração de extinção de punibilidade, de que trata o § 5° do artigo referido no caput, dependerá de laudo de constatação de reparação do dano ambiental, ressalvada a impossibilidade prevista no inciso I do § 1° do mesmo artigo; _____________________________________________________________________________ 84. Um pequeno produtor rural necessita acessar diariamente uma Área de Preservação Permanente (APP) às margens de um rio em sua propriedade para levar o gado até o ponto de água e realizar atividades de manejo sustentável. Considerando o disposto na Lei nº 12.651/2012 (Código Florestal), é CORRETO afirmar, em relação às condições legais para esse acesso, que: (A) o acesso é permitido mediante prévia autorização do órgão ambiental competente, que deverá avaliar um plano de manejo específico para a área; https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9099.htm#art89 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9099.htm#art89 133 (B) é admitido o acesso desde que o proprietário comprove a manutenção de 50% da vegetação nativa em toda a extensão da APP afetada pelo trânsito dos animais; (C) a lei permite o acesso de pessoas e animais à APP para obtenção de água e realização de atividades de baixo impacto ambiental, sem outras exigências específicas; (D) o acesso só é viável após a assinatura de termo de compromisso ambiental com obrigação de recomposição vegetal nas áreas de passagem; (E) é permitido o acesso desde que limitado a 5 animais por vez e mediante instalação de cercas que direcionem o trajeto específico até o ponto de água. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS Art. 9º do Código Florestal - É permitido o acesso de pessoas e animais às Áreas de Preservação Permanente para obtenção de água e para realização de atividades de baixo impacto ambiental. Art. 3º Para os efeitos desta Lei, entende-se por: (...) X - atividades eventuais ou de baixo impacto ambiental: a) abertura de pequenas vias de acesso interno e suas pontes e pontilhões, quando necessárias à travessia de um curso d’água, ao acesso de pessoas e animais para a obtenção de água ou à retirada de produtos oriundos das atividades de manejo agroflorestal sustentável; _____________________________________________________________________________ 85. Considere a seguinte situação hipotética: o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) está analisando medidas para enfrentar o aumento da poluição atmosférica em grandes centros urbanos. Nesse contexto, com base na Lei de Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981), é CORRETO afirmar que compete ao CONAMA: (A) fiscalizar diretamente os estabelecimentos industriais potencialmente poluidores, aplicando multas e sanções administrativas quando constatadas irregularidades; (B) estabelecer normas e padrões nacionais de controle da poluição por veículos automotores, após ouvir os ministérios competentes; (C) determinar a interdição imediata de atividades econômicas em áreas urbanas que apresentem índices críticos de poluição do ar; (D) exigir a realização de auditorias ambientais trimestrais em todas as indústrias localizadas em regiões metropolitanas; (E) criar programas de compensação financeira obrigatória para populações afetadas pela poluição atmosférica. 134 _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS Art. 8º da Lei 6.938/91 - Compete ao CONAMA: (...) VI - estabelecer, privativamente, normas e padrões nacionais de controle da poluição por veículos automotores, aeronaves e embarcações, mediante audiência dos Ministérios competentes; _____________________________________________________________________________ DIREITO ADMINISTRATIVO 86. Visando à otimização dos serviços de atenção básica, três entes federados decidiram celebrar um consórcio público, nos termos da Lei Federal nº 11.107/2005, para a implementação e administração conjunta de um programa de saúde. No contrato de consórcio público, foram definidos os objetivos comuns, a forma de representação, os critérios de rateio das despesas e receitas, bem como a autonomia administrativa e financeira dos entes participantes. Nessa situação, é CORRETO afirmar que: (A) o consórcio público em questão poderá ser composto pela União e por dois municípios, sendo facultada a participação dos estados em cujos territórios esses municípios estejam situados; (B) a contratação do consórcio público pela administração direta ou indireta dos entes da Federação consorciados depende de prévia licitação; (C) a outorga, pelo consórcio público, de concessão, permissão ou autorização de obras ou serviços públicos é vedada, devendo o contrato de consórcio público atribuir a prática desses atos administrativos a cada ente participante; (D) o consórcio público em questão deverá obedecer ao disposto no respectivo contrato quando houver conflito com as normas que regulam o Sistema Único de Saúde, ante o critério da especialidade; (E) o consórcio público em questão possui personalidade jurídica própria, além de autonomia administrativa, financeira e orçamentária. _______________________________________________________________________GABARITO: E COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. 135 Art. 1º, § 2º. Lei Federal n.º 11.107/2005: “A União somente participará de consórcios públicos em que também façam parte todos os Estados em cujos territórios estejam situados os Municípios consorciados.”. (B) INCORRETA. Art. 3º: “O consórcio público será constituído por contrato cuja celebração dependerá da prévia subscrição de protocolo de intenções.”. Art. 5º: “Art. 5º O contrato de consórcio público será celebrado com a ratificação, mediante lei, do protocolo de intenções.”. (C) INCORRETA. Art. 2º, § 3º: “Os consórcios públicos poderão outorgar concessão, permissão ou autorização de obras ou serviços públicos mediante autorização prevista no contrato de consórcio público, que deverá indicar de forma específica o objeto da concessão, permissão ou autorização e as condições a que deverá atender, observada a legislação de normas gerais em vigor.”. (D) INCORRETA. Art. 1º, § 3º: “Os consórcios públicos, na área de saúde, deverão obedecer aos princípios, diretrizes e normas que regulam o Sistema Único de Saúde – SUS.”. (E) CORRETA. Art. 6º O consórcio público adquirirá personalidade jurídica: I – de direito público, no caso de constituir associação pública, mediante a vigência das leis de ratificação do protocolo de intenções; II – de direito privado, mediante o atendimento dos requisitos da legislação civil. _____________________________________________________________________________ 87. Determinado órgão público estadual celebrou contrato administrativo pelo regime de empreitada integral para a renovação do sistema de esgotamento sanitário de sua sede. No curso da execução da obra, foram identificadas fissuras nas fossas que não haviam sido antevistas por ocasião da elaboração do projeto, motivo pelo qual passou a ser necessária a completa desativação do sistema de esgoto durante os trabalhos. Para não interromper o funcionamento do prédio público, o poder público considerou essencial incluir no projeto a instalação de um sistema de esgotamento provisório, de modo a operar em paralelo às obras de renovação do sistema já existente. Nessa situação, à luz da Lei nº 14.133/2021, é CORRETO afirmar que: (A) a contratada pode ser remunerada pelo poder público com base em sistemática orientada por preços unitários ou referenciada pela execução de quantidades de itens unitários; 136 (B) as obras para manter o funcionamento do prédio público devem ser interrompidas até a formalização do termo aditivo referente à execução, pelo contratado, da instalação do sistema de esgotamento provisório; (C) a contratada, independentemente do valor acrescido pela modificação do projeto, não é obrigada a aceitar o acréscimo referente à instalação do sistema de esgotamento provisório, ainda que mantidas as mesmas condições contratuais; (D) a contratada poderá executar a instalação do sistema de esgotamento provisório sem a prévia assinatura do termo aditivo, ante a justificada necessidade de antecipação de seus efeitos, mas a sua formalização deverá ocorrer no prazo máximo de um mês; (E) a contratada deve ser remunerada pelo poder público com base em sistemática orientada por preços unitários ou referenciada pela execução de quantidades de itens unitários. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS No regime de execução (indireta) da empreitada integral, há a “contratação de empreendimento em sua integralidade, compreendida a totalidade das etapas de obras, serviços e instalações necessárias, sob inteira responsabilidade do contratado até sua entrega ao contratante em condições de entrada em operação, com características adequadas às finalidades para as quais foi contratado e atendidos os requisitos técnicos e legais para sua utilização com segurança estrutural e operacional (art. 6º, XXX Lei Federal n.º 8.666/1993). Além disso, “Nas licitações de obras ou serviços de engenharia, após o julgamento, o licitante vencedor deverá reelaborar e apresentar à Administração, por meio eletrônico, as planilhas com indicação dos quantitativos e dos custos unitários, bem como com detalhamento das Bonificações e Despesas Indiretas (BDI) e dos Encargos Sociais (ES), com os respectivos valores adequados ao valor final da proposta vencedora, admitida a utilização dos preços unitários, no caso de empreitada por preço global, empreitada integral, contratação semi-integrada e contratação integrada, exclusivamente para eventuais adequações indispensáveis no cronograma físico-financeiro e para balizar excepcional aditamento posterior do contrato (art. 56. § 5º). (A) INCORRETA. Como visto, a utilização dos preços unitários somente pode ser feita para eventuais adequações indispensáveis no cronograma físico-financeiro e para balizar excepcional aditamento posterior do contrato. (B) INCORRETA. Nos termos do art. 132 da Lei, “A formalização do termo aditivo é condição para a execução, pelo contratado, das prestações determinadas pela Administração no curso da execução do contrato, salvo nos casos de justificada necessidade de antecipação de seus efeitos, hipótese em que a formalização deverá ocorrer no prazo máximo de 1 (um) mês.”. Dessa forma, salvo antecipação excepcional dos efeitos, as obras do sistema de esgotamento provisório somente podem ser iniciadas após a formalização do aditivo. Entretanto, o novo sistema de esgotamento sanitário 137 deve continuar a ser construído em paralelo, sem solução de continuidade, como expressamente consignou o enunciado da questão. (C) INCORRETA. Nos termos do art. 125, por se tratar de obra ou serviço de engenharia, a contratada é obrigada a aceitar o acréscimo de até 50%, mas sempre com o restabelecimento do equilíbrio econômico-financeiro inicial do contrato (art. 130) . (D) CORRETA. Vide comentário à letra “B”. (E) INCORRETA. Vide comentário à letra “A”. _____________________________________________________________________________ 88. Adamastor ajuizou ação popular imputando ao secretário municipal de educação de uma cidade vizinha àquela em que reside a prática de ato lesivo à moralidade administrativa. Nessa situação, acerca da ação popular em questão, é CORRETO afirmar que: (A) não dependerá o seu cabimento da demonstração, por Adamastor, de qualquer prejuízo material aos cofres públicos; (B) pode conter causa de pedir ou pedido próprios de ação direta de inconstitucionalidade por omissão de medidas administrativas; (C) não poderá conter pedidos de índole, ao mesmo tempo, preventiva e repressiva ou corretiva, tendo em vista que a lesividade do ato é condição para o cabimento da ação; (D) será cabível ainda que o ato lesivo à moralidade administrativa tenha caráter normativo, sendo dotado de generalidade e abstração; (E) será competente para dela conhecer o foro do município em que o secretário de educação exerce suas funções, não sendo lícito o ajuizamento da demanda no foro do domicílio de Adamastor. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS (A) CORRETA. O STJ possui firme orientação de que um dos pressupostos da Ação Popular é a lesão ao patrimônio público. Ocorre que a Lei nº 4.717/65 deve ser interpretada de forma a possibilitar, por meio de Ação Popular, a mais ampla proteção aos bens e direitos associados ao patrimônio público, em suas várias dimensões (cofres públicos, meio ambiente, moralidade administrativa, patrimônio artístico, estético, histórico e turístico). Para o cabimento da Ação Popular, basta a ilegalidade do ato administrativo por ofensa a normas específicas ou desvios dos princípios da Administração Pública, dispensando- se a demonstração de prejuízo material (STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 949.377/MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 09/03/2017; STF. Plenário. ARE 824781 RG. Rel. Min. Dias Toffoli,j. 27/08/2015, Repercussão Geral - Tema 836). 138 (B) INCORRETA. De acordo com o STJ, a ação popular destina-se ao controle de atos administrativos lesivos ao patrimônio público, sendo inviável a sua propositura para obtenção da declaração de inconstitucionalidade de lei. A ação popular não é remédio processual hábil para controverter lei em tese, não sendo sucedâneo da ação direta de inconstitucionalidade, devendo ser mantida a sentença que concluiu pela extinção do feito por carência de ação pela inadequação da via eleita. Eis precedentes didáticos do STJ: PROCESSUAL CIVIL – VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC – INEXISTÊNCIA – VIOLAÇÃO DE DISPOSITIVO CONSTITUCIONAL – VETADA A ANÁLISE EM SEDE DE RECURSO ESPECIAL – COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL – ART. 38 DA LEI N. 6.830/80 – AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO – SÚMULA 211/STJ – AÇÃO POPULAR – IPTU – ALÍQUOTAS PROGRESSIVAS – INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI MUNICIPAL N. 691/84 – INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA.(...) 2. Não cabe a esta Corte analisar dispositivos constitucionais, sob pena de usurpar a competência do Supremo Tribunal Federal. (...) 4. No caso dos autos, a ação popular foi proposta pelo recorrente, objetivando a declaração de nulidade de todas as certidões de dívidas ativas do município do Rio de Janeiro, referentes a IPTU lançados a partir de 2000, com fundamento no art. 67 da Lei municipal n. 691/84 ante a inconstitucionalidade das alíquotas progressivas de IPTU. 5. O STJ vem firmando o entendimento de que é possível a declaração de inconstitucionalidade incidenter tantum de lei ou ato normativo federal ou local em sede de ação coletiva. Todavia, in casu, a dita imoralidade perpetrada pelo recorrente equivale à inconstitucionalidade da Lei municipal n. 691/84, sendo certo que a ação popular é via imprópria para o controle da constitucionalidade de leis. 6. O reconhecimento da inconstitucionalidade alegada, mesmo em decisão de primeira instância, terá eficácia erga omnes, com efeito geral e abstrato, abrangendo todos os contribuintes de IPTU do município do Rio de Janeiro, "subvertendo todo o sistema de controle de constitucionalidade adotado pela legislação brasileira". Inadequação da via eleita. Recurso especial conhecido em parte e nesta improvido. ( REsp 1195516/RJ, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 05/08/2010, DJe 19/08/2010). REMESSA NECESSÁRIA. AÇÃO POPULAR. INDEFERIMENTO DA INICIAL. EXTINÇÃO. AUSÊNCIA DE REQUISITOS OU PRESSUPOSTOS. INSURGÊNCIA CONTRA LEI EM TESE. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES DO STJ. ACERTO DA DECISÃO RECORRIDA. DESPROVIMENTO. Segundo firmes precedentes jurisprudenciais oriundos do Superior Tribunal de Justiça, a Ação Popular não é a via adequada para questionar Lei em tese, pois 139 ela não é sucedâneo de Ação Direta de Inconstitucionalidade. Vistos, relatados e discutidos estes autos acima identificados: ACORDA a Primeira Câmara Cível do Tribunal de Justiça da Paraíba, por unanimidade, em DESPROVER a Remessa Necessária, nos termos do voto do Relator e da certidão de julgamento. ( 0800119-83.2017.8.15.0471, Rel. Des. Leandro dos Santos, REMESSA NECESSáRIA CíVEL, 1ª Câmara Cível, juntado em 12/09/2018) Por outro lado, é possível a declaração incidental de inconstitucionalidade em Ação Popular, desde que a controvérsia constitucional não figure como pedido, mas sim como causa de pedir, fundamento ou simples questão prejudicial, indispensável à resolução do litígio principal, em torno da tutela do interesse público (STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1352498/DF, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 05/06/2018). (C) INCORRETA. A ação popular pode ser preventiva ou repressiva. Será preventiva quando for ajuizada antes da efetivação dos efeitos ofensivos. Será repressiva quando o objetivo for anular os atos lesivos, conseguir o ressarcimento dos danos causados e a recomposição do patrimônio público lesado. A ação popular é, pois, perfeitamente compatível com a tutela inibitória. Inclusive, nos termos do art. 22 da Lei de Ação Popular, aplicam-se-lhe as disposições do CPC naquilo que não for incompatível. Ainda, a tutela preventiva está prevista expressamente na Lei de Ação Civil Pública, aplicável em respeito ao microssistema de tutela coletiva. (D) INCORRETA. Como visto, a ação popular não se destina a combater lei em tese. Contra lei ou ato normativo em tese, cabe ação direta de inconstitucionalidade. (E) INCORRETA. O art. 5º da Lei nº 4.717/65 trata sobre a competência da ação popular, mas não traz nenhuma regra sobre a competência territorial. O art. 22 da Lei afirma que devem ser aplicadas, subsidiariamente, as regras do CPC, naquilo que não contrariar os dispositivos da lei nem a natureza específica da ação. De acordo com o STJ, regra geral, o autor pode ajuizar a ação popular no foro de seu domicílio, mesmo que o dano tenha ocorrido em outro local. Isso porque como a ação popular representa um direito político fundamental, deve-se facilitar o seu exercício. No entanto, o STJ entendeu que o caso concreto envolvendo Brumadinho era excepcional com inegáveis peculiaridades que impõem a adoção de uma solução diferente para evitar tumulto processual. Em face da magnitude econômica, social e ambiental do caso concreto, é possível a fixação do juízo do local do fato para o julgamento de ação popular que concorre com diversas outras ações individuais, populares e civis públicas decorrentes do mesmo dano ambiental (STJ. 1ª Seção. CC 164362-MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 12/06/2019, Info 662). _____________________________________________________________________________ 89. A pessoa jurídica Alfa é proprietária de enorme terreno no qual pretendia construir diversas habitações. O imóvel foi declarado área de preservação permanente, sendo impedidas as construções planejadas, motivo pelo qual a pessoa jurídica ajuizou ação contra o Estado X, alegando a ocorrência de desapropriação indireta e pleiteando indenização. O pedido foi julgado procedente, reconhecendo-se o direito à indenização. O pagamento foi efetuado e a área passou formalmente para o Estado X. Tempos depois, constatou-se que não houve desocupação da área nem sua recuperação ambiental, o 140 que ensejou o ajuizamento de ação civil pública pelo Ministério Público em face da pessoa jurídica Alfa e do Estado X, pugnando-se pelo cumprimento das obrigações de desocupação e restauração ambiental da área, bem como dos custos da medida. A sentença determinou que o Estado X removesse os ocupantes e promovesse a recuperação ambiental, e que a pessoa jurídica Alfa arcasse com os custos das medidas. A decisão transitou em julgado. Com base no entendimento atual do Superior Tribunal de Justiça e na legislação em vigor, é CORRETO afirmar que: (A) a legitimidade para o ajuizamento de cumprimento de sentença da obrigação de pagar é exclusiva do Estado X, sendo ele o efetivo beneficiário do ressarcimento devido; (B) há legitimidade concorrente entre o Ministério Público e o Estado X para exigir o cumprimento da obrigação de pagar, mesmo sem o cumprimento da obrigação de fazer; (C) há legitimidade suplementar do Estado X para exigir o cumprimento da obrigação de pagar, uma vez descumprida a obrigação de fazer pelo ente estadual; (D) há legitimidade concorrente entre o Ministério Público e o Estado X para exigir o cumprimento da obrigação de pagar, uma vez cumprida a obrigação de fazer pelo ente estadual; (E) a legitimidade do Ministério Público para demandar o cumprimento da obrigação de pagar é exclusiva, uma vez que atuou como parte autora na ação civil pública. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O STJ reconheceu a legitimidade do MP para promover a execução da sentença, pois o caso envolve direitos difusos, como a proteção ambiental. A inércia do Estado em cumprir suas obrigações reforça o interesse do MP na execuçãoda decisão. No entanto, o MP só poderá exigir o cumprimento da obrigação de pagar após a efetivação da obrigação de fazer pelo Estado. Assim, foi garantida a continuidade da atuação do MP no cumprimento da sentença. (STJ. 2ª Turma. AREsp 2.072.862-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 4/2/2025, Info 839). _____________________________________________________________________________ 90. Em razão do surto de sarampo no país, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pretende editar norma regulatória a fim de flexibilizar os procedimentos e testes de novas vacinas para garantir cobertura vacinal suficiente à população nacional. Diante da obrigatoriedade da AIR (análise de impacto regulatório) e à luz da teoria do consequencialismo, é CORRETO afirmar que: 141 (A) nesse caso de urgência evidente, não há necessidade de AIR, tampouco de ARR (avaliação de resultado regulatório), tudo na forma da Lei nº 13.848/2019 e do Decreto nº 10.411/2020; (B) no referido caso, a AIR deverá ser elaborada pelo Ministério da Saúde, uma vez que não é mera alteração ou revogação de norma, e sim a criação de nova norma regulatória, tudo na forma da Lei nº 13.848/2019 e do Decreto nº 10.411/2020; (C) no referido caso de flexibilização de exigências normativas, é imprescindível a AIR; a Anvisa deverá, em conjunto com o Ministério da Saúde, elaborar a referida análise 30 dias após a edição do novo ato normativo; (D) a Anvisa, como agência reguladora, tem competência para fiscalizar e sancionar agentes do setor regulado de vigilância sanitária, sendo desprovida de competência normativa; no referido caso, compete ao Congresso Nacional editar a nova norma e ao Ministério da Saúde, elaborar a AIR; (E) a AIR poderá ser dispensada, desde que devidamente motivada e tecnicamente fundamentada pela urgência existente e assegurada a realização de ARR (avaliação de resultado regulatório) até três anos após a edição do ato normativo, tudo na forma da Lei nº 13.848/2019 e do Decreto nº 10.411/2020. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Nos termos do art. 6º da Lei Federal n.º 13.848/2019 – Lei das Agências Reguladoras, “A adoção e as propostas de alteração de atos normativos de interesse geral dos agentes econômicos, consumidores ou usuários dos serviços prestados serão, nos termos de regulamento, precedidas da realização de Análise de Impacto Regulatório (AIR), que conterá informações e dados sobre os possíveis efeitos do ato normativo.”. Complementarmente, o § 1º estabelece que “Regulamento disporá sobre o conteúdo e a metodologia da AIR, sobre os quesitos mínimos a serem objeto de exame, bem como sobre os casos em que será obrigatória sua realização e aqueles em que poderá ser dispensada.”. Finalmente, o § 5º fixa que, “Nos casos em que não for realizada a AIR, deverá ser disponibilizada, no mínimo, nota técnica ou documento equivalente que tenha fundamentado a proposta de decisão.”. Essa AIR foi regulamentada pelo Decreto Federal n.º 10.411/2020, cujo art. 4º prevê as hipóteses em que ela poderá ser dispensada: I - urgência; II - ato normativo destinado a disciplinar direitos ou obrigações definidos em norma hierarquicamente superior que não permita, técnica ou juridicamente, diferentes alternativas regulatórias; III - ato normativo considerado de baixo impacto; IV - ato normativo que vise à atualização ou à revogação de normas consideradas obsoletas, sem alteração de mérito; 142 V - ato normativo que vise a preservar liquidez, solvência ou higidez: a) dos mercados de seguro, de resseguro, de capitalização e de previdência complementar; b) dos mercados financeiros, de capitais e de câmbio; ou c) dos sistemas de pagamentos; VI - ato normativo que vise a manter a convergência a padrões internacionais; VII - ato normativo que reduza exigências, obrigações, restrições, requerimentos ou especificações com o objetivo de diminuir os custos regulatórios; e VIII - ato normativo que revise normas desatualizadas para adequá-las ao desenvolvimento tecnológico consolidado internacionalmente, nos termos do disposto no Decreto nº 10.229, de 5 de fevereiro de 2020. A avaliação de resultado regulatório - ARR está prevista no inciso III do art. 2º do Decreto, conceituada como “verificação dos efeitos decorrentes da edição de ato normativo, considerados o alcance dos objetivos originalmente pretendidos e os demais impactos observados sobre o mercado e a sociedade, em decorrência de sua implementação”. Note que a AIR é prévia à edição do ato normativo (de interesse geral dos agentes econômicos, consumidores ou usuários dos serviços prestados), ao passo que o ARR é posterior à sua implementação. Nos termos do art. 12 do Decreto, “Os atos normativos cuja AIR tenha sido dispensada em razão de urgência serão objeto de ARR no prazo de três anos, contado da data de sua entrada em vigor.”. Além disso, segundo o art. 14 do Decreto, “Os órgãos e as entidades implementarão estratégias para integrar a ARR à atividade de elaboração normativa com vistas a, de forma isolada ou em conjunto, proceder à verificação dos efeitos obtidos pelos atos normativos de interesse geral de agentes econômicos ou de usuários dos serviços prestados.”. Complementar seu § 4º que “Os órgãos e as entidades divulgarão, no primeiro ano de cada mandato presidencial, em seu sítio eletrônico, a agenda de ARR, que deverá ser concluída até o último ano daquele mandato e conter a relação de atos normativos submetidos à ARR, a justificativa para sua escolha e o seu cronograma para elaboração da ARR.”. _____________________________________________________________________________ 91. O contrato de concessão rodoviária firmado em 2018, entre o Estado do Tocantins e a concessionária ABC, tem vigência até 2048. Acontece que, desde a época da pandemia de covid-19 (caso fortuito e força maior), a concessionária vem suportando prejuízo econômico e está em dificuldades para manter a operação rodoviária. Considerando o estímulo à consensualidade administrativa e a Lei nº 13.448/2017, é CORRETO afirmar que: (A) deve ocorrer a caducidade da concessão e ser realizada uma nova licitação pública para exploração do serviço público; (B) o pleito de reequilíbrio econômico-financeiro deverá ser homologado na via judicial e o contrato, prorrogado antecipadamente por mais 30 anos; 143 (C) o estado deve encampar o serviço concedido, sendo dispensados o pagamento de indenização ao concessionário e a exigência de autorização legislativa; (D) o concessionário pode requerer a extinção do contrato de concessão e o estado, promover a relicitação, na forma da Lei nº 13.448/2017; (E) o poder concedente deve subvencionar o contrato e promover a prorrogação antecipada da concessão por mais 30 anos, transferindo a titularidade do serviço para a empresa subcontratada, na forma da Lei nº 13.448/2017. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS Os institutos da relicitação e da prorrogação antecipada vêm assim conceituados na Lei Federal n.º 13.448/2017: Art. 4º Para os fins desta Lei, considera-se: I - prorrogação contratual: alteração do prazo de vigência do contrato de parceria, expressamente admitida no respectivo edital ou no instrumento contratual original, realizada a critério do órgão ou da entidade competente e de comum acordo com o contratado, em razão do término da vigência do ajuste; II - prorrogação antecipada: alteração do prazo de vigência do contrato de parceria, quando expressamente admitida a prorrogação contratual no respectivo edital ou no instrumento contratual original, realizada a critério do órgão ou da entidade competente e de comum acordo com o contratado, produzindo efeitos antes do término da vigência do ajuste; III - relicitação: procedimento que compreende a extinção amigável do contratode parceria e a celebração de novo ajuste negocial para o empreendimento, em novas condições contratuais e com novos contratados, mediante licitação promovida para esse fim. (A) INCORRETA. A caducidade é forma de extinção da concessão por culta do contratado, em caso de inexecução total ou parcial do contrato (art. 38, Lei Federal n.º 8.987/1995 – Lei Geral de Concessões). Diferentemente, a Lei Federal n.º 13.448/2017 prevê a relicitação no caso de o contratado demonstrar incapacidade de adimplir as obrigações contratuais ou financeiras assumidas originalmente, justamente como alternativa à declaração de caducidade e aplicação de sanções ao contratado (os processos de caducidade e aplicação de sanções ficam sobrestados), extinguindo-se a concessão amigavelmente, realizando-se nova licitação com novos interessados (o atual contratado não poderá participar). (B) INCORRETA. A prorrogação antecipada somente poderá ocorrer se o contrato não tiver sido prorrogado anteriormente e por período igual ou inferior ao prazo de prorrogação originalmente fixado ou admitido no contrato (art. 5º, § 3º, Lei Federal n.º 144 13.448/2017). Embora o prazo de 30 anos esteja respeitado (entre 2018 e 2048), a prorrogação antecipada é uma possibilidade, estando sujeita à discricionariedade do órgão ou entidade competente (§ 1º). Não existe exigência de homologação judicial alguma de eventual pleito de reequilíbrio econômico-financeiro. (C) INCORRETA. Nos termos do art. 37 da Lei Federal n.º 8.987/1995, “Considera-se encampação a retomada do serviço pelo poder concedente durante o prazo da concessão, por motivo de interesse público, mediante lei autorizativa específica e após prévio pagamento da indenização, na forma do artigo anterior.”. (D) CORRETA. Vide comentário à letra “A”. (E) INCORRETA. Vide comentários às letras “A” e “B”. _____________________________________________________________________________ 92. A empresa ABC, após causar prejuízo financeiro de R$ 250.000,00 ao Município Alfa, foi impedida, mediante prévio processo administrativo e pelo prazo de três anos, de participar de novas licitações e de ser novamente contratada pela referida entidade federativa municipal. Com o advento da Lei nº 14.133/2021 e à luz da natureza jurídica contemporânea da sanção administrativa, é CORRETO afirmar que: (A) a administração local lesada, mediante juízo discricionário e a fim de atender ao interesse público, poderá afastar a referida sanção administrativa; (B) desde que cumpridos os requisitos legais previstos na Lei nº 14.133/2021 (Art. 163), a empresa ABC poderá ser reabilitada e ter a sanção administrativa afastada; (C) em razão da natureza da infração cometida e considerando a correspondente sanção penal aplicada, o impedimento deve ser integralmente cumprido pela empresa ABC e observado pelo Município Alfa; (D) apenas a declaração de inidoneidade (sanção de natureza mais branda) comportaria, desde que cumpridos os requisitos legais (Art. 163 da Lei nº 14.133/2021), a reabilitação do agente econômico infrator; (E) dada a natureza jurídica da infração e o valor do dano causado, o parecer prévio da assessoria jurídica e a existência de programa de integridade (Art. 163 da Lei nº 14.133/2021) são legalmente dispensáveis, e a reabilitação do agente poderá ocorrer a critério discricionário do Município Alfa. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. A Lei 14.133/2021 estabelece um rol de sanções administrativas, incluindo advertência, multa, impedimento de licitar e contratar, e declaração de inidoneidade, devendo a Administração Pública aplicar as sanções previstas na lei 145 quando constatada a prática de infrações por parte de licitantes ou contratados, conforme os artigos 155 e seguintes da lei. A aplicação das sanções visa garantir a probidade administrativa, a segurança jurídica e a eficiência nas contratações públicas, além de proteger o interesse público. (B) CORRETA. Lei 14.133/21 - Art. 163. É admitida a reabilitação do licitante ou contratado perante a própria autoridade que aplicou a penalidade, exigidos, cumulativamente: I - reparação integral do dano causado à Administração Pública; II - pagamento da multa; III - transcurso do prazo mínimo de 1 (um) ano da aplicação da penalidade, no caso de impedimento de licitar e contratar, ou de 3 (três) anos da aplicação da penalidade, no caso de declaração de inidoneidade; IV - cumprimento das condições de reabilitação definidas no ato punitivo; V - análise jurídica prévia, com posicionamento conclusivo quanto ao cumprimento dos requisitos definidos neste artigo. Parágrafo único. A sanção pelas infrações previstas nos incisos VIII e XII do caput do art. 155 desta Lei exigirá, como condição de reabilitação do licitante ou contratado, a implantação ou aperfeiçoamento de programa de integridade pelo responsável. (C) INCORRETA. Vide comentário à letra “B”. (D) INCORRETA. Nos termos do art. 163, III, da lei 14.133/2021, acima colacionado, se depreende, também, que a reabilitação cabe tanto para a sanção de impedimento de licitar e contratar, quanto para a sanção de declaração de inidoneidade. (E) INCORRETA. Nos termos do art. 163, da lei 14.133/2021, acima colacionado, os requisitos previstos em seus incisos devem ser atendidos cumulativamente, assim a análise jurídica prévia, com posicionamento conclusivo quanto ao cumprimento dos requisitos necessários à reabilitação não poderá ser dispensada. _____________________________________________________________________________ 93. A sociedade empresária Alfa foi investigada em razão da suposta prática de diversos crimes, entre eles, fraude a licitação. O Ministério Público ajuizou ação civil pública em seu desfavor, imputando-lhe condutas previstas na Lei nº 12.846/2013 (Lei Anticorrupção), bem como na Lei nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa). No curso do processo foi ventilada a possibilidade de celebração de acordo de não persecução cível. À luz do ordenamento jurídico em vigor e da jurisprudência atualizada do Superior Tribunal de Justiça, é CORRETO afirmar que: (A) a inicial não pode ser recebida, uma vez que a utilização conjunta da Lei de Improbidade Administrativa e da Lei Anticorrupção para fundamentar uma mesma ação civil configura violação ao princípio do non bis in idem; https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm#art155viii https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm#art155viii https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm#art155xii 146 (B) a utilização concomitante das duas legislações para fundamentar a mesma ação não é viável, fato que deve ser analisado em fase de sentença, quando da análise do mérito e da natureza das infrações; (C) o acordo de não persecução cível não seria mais possível, visto já ter sido ajuizada ação civil, cabendo acordo de leniência; (D) a exigência da demonstração do efetivo prejuízo, em relação a ato de improbidade administrativa que cause lesão ao erário, se aplica aos processos ainda em curso, não mais se admitindo a teoria do dano in re ipsa; (E) o acordo de não persecução cível não seria mais possível, visto já ter sido ajuizada ação civil, cabendo acordo de colaboração premiada. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. A Lei Anticorrupção e a Lei de Improbidade Administrativa podem ser usadas simultaneamente para fundamentar uma ação civil pública, desde que não resultem em punições idênticas pelos mesmos fatos. Em julgamento do REsp 2.107.398, em 18 de fevereiro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça destacou que o Pacto de San José da Costa Rica não se aplica a pessoas jurídicas e que princípio do non bis in idem só é violado se houver duplicidadede sanções idênticas pelos mesmos atos. Ou seja, o simples uso conjunto das leis não configura violação ao princípio, sendo que a análise sobre eventual sobreposição de penalidades deve ser feita na sentença, e não na fase inicial do processo. (B) INCORRETA. Vide comentário à letra “A”. (C) INCORRETA. O acordo de não persecução cível pode ser celebrado mesmo após o ajuizamento da ação de improbidade administrativa, podendo ocorrer tanto na fase de investigação quanto na fase processual, inclusive em grau recursal. A Lei nº 14.230/2021, que alterou a Lei de Improbidade Administrativa, trouxe previsão expressa sobre a possibilidade do acordo de não persecução civil, inclusive na fase de execução da sentença: Art. 17-B. O Ministério Público poderá, conforme as circunstâncias do caso concreto, celebrar acordo de não persecução civil, desde que dele advenham, ao menos, os seguintes resultados: I - o integral ressarcimento do dano; II - a reversão à pessoa jurídica lesada da vantagem indevida obtida, ainda que oriunda de agentes privados. § 1º A celebração do acordo a que se refere o caput deste artigo dependerá, cumulativamente: 147 I - da oitiva do ente federativo lesado, em momento anterior ou posterior à propositura da ação; II - de aprovação, no prazo de até 60 (sessenta) dias, pelo órgão do Ministério Público competente para apreciar as promoções de arquivamento de inquéritos civis, se anterior ao ajuizamento da ação; III - de homologação judicial, independentemente de o acordo ocorrer antes ou depois do ajuizamento da ação de improbidade administrativa. § 2º Em qualquer caso, a celebração do acordo a que se refere o caput deste artigo considerará a personalidade do agente, a natureza, as circunstâncias, a gravidade e a repercussão social do ato de improbidade, bem como as vantagens, para o interesse público, da rápida solução do caso. § 3º Para fins de apuração do valor do dano a ser ressarcido, deverá ser realizada a oitiva do Tribunal de Contas competente, que se manifestará, com indicação dos parâmetros utilizados, no prazo de 90 (noventa) dias. § 4º O acordo a que se refere o caput deste artigo poderá ser celebrado no curso da investigação de apuração do ilícito, no curso da ação de improbidade ou no momento da execução da sentença condenatória. § 5º As negociações para a celebração do acordo a que se refere o caput deste artigo ocorrerão entre o Ministério Público, de um lado, e, de outro, o investigado ou demandado e o seu defensor. § 6º O acordo a que se refere o caput deste artigo poderá contemplar a adoção de mecanismos e procedimentos internos de integridade, de auditoria e de incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica, se for o caso, bem como de outras medidas em favor do interesse público e de boas práticas administrativas. § 7º Em caso de descumprimento do acordo a que se refere o caput deste artigo, o investigado ou o demandado ficará impedido de celebrar novo acordo pelo prazo de 5 (cinco) anos, contado do conhecimento pelo Ministério Público do efetivo descumprimento. (D) CORRETA. A exigência do efetivo prejuízo, em relação ao ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário, prevista no art. 10, caput, da Lei nº 8.429/92 (com redação dada pela Lei nº 14.230/2021) se aplica aos processos ainda em curso.” (STJ. 1ª Turma. REsp 1.929.685-TO, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 27/8/2024). (E) INCORRETA. Vide comentário à letra “C”. _____________________________________________________________________________ 94. No Município X, foi promulgada uma lei municipal que atribuiu à Guarda Civil Metropolitana atividades de policiamento preventivo e comunitário, permitindo-lhe 148 exercer, no âmbito do ente federativo, ações de segurança urbana. O procurador-geral de Justiça ajuizou representação pela inconstitucionalidade da lei municipal, perante o Tribunal de Justiça, aduzindo que as atribuições previstas ultrapassavam os limites constitucionais impostos ao papel das guardas municipais. À luz do entendimento do Supremo Tribunal Federal e dos termos da Lei Federal nº 13.022/2014, é CORRETO afirmar que: (A) a lei municipal em comento é inconstitucional, visto que as funções por ela conferidas aos guardas municipais se confundem com atividades de segurança pública, cuja competência é atribuída às polícias civil e militar; (B) lei municipal não pode dispor sobre tema que não se relacione com a proteção de bens, serviços, logradouros públicos municipais e instalações do município, cabendo à lei federal estabelecer outras funções às guardas municipais; (C) é constitucional, no âmbito dos municípios, o exercício de ações de segurança urbana pelas guardas municipais, inclusive policiamento ostensivo e comunitário, respeitadas as atribuições dos demais órgãos de segurança pública; (D) a guarda municipal não faz parte do Sistema Único de Segurança Pública, motivo pelo qual legislação municipal somente pode dispor sobre atribuição da guarda municipal relacionada à proteção do patrimônio físico dos municípios; (E) nos termos da Lei Federal nº 13.022/2014, são competências específicas das guardas municipais zelar pelos bens, equipamentos e prédios públicos do município e indiciar autor de infração em flagrante delito. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentário à letra “C”. (B) INCORRETA. Vide comentário à letra “C”. (C) CORRETA. É constitucional, no âmbito dos municípios, o exercício de ações de segurança urbana pelas Guardas Municipais, inclusive policiamento ostensivo e comunitário, respeitadas as atribuições dos demais órgãos de segurança pública previstos no art. 144 da Constituição Federal e excluída qualquer atividade de polícia judiciária, sendo submetidas ao controle externo da atividade policial pelo Ministério Público, nos termos do artigo 129, inciso VII, da CF. Conforme o art. 144, § 8º, da Constituição Federal, as leis municipais devem observar as normas gerais fixadas pelo Congresso Nacional.” (STF. Plenário. RE 608.588/SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 20/02/2025 (Repercussão geral – Tema 656). (D) INCORRETA. As guardas civis municipais integram o Sistema único de Segurança Pública, conforme disposição expressa da Lei Federal nº 13.675/18, que disciplina a organização e o funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública. 149 Art. 9º É instituído o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), que tem como órgão central o Ministério Extraordinário da Segurança Pública e é integrado pelos órgãos de que trata o art. 144 da Constituição Federal , pelos agentes penitenciários, pelas guardas municipais e pelos demais integrantes estratégicos e operacionais, que atuarão nos limites de suas competências, de forma cooperativa, sistêmica e harmônica. (E) INCORRETA. A Lei Federal nº 13.022/14, que dispõe sobre o Estatuto Geral das Guardas Municipais, ao definir as competências específicas em seu art. 5º, estabelece caber às guardas municipais “I - zelar pelos bens, equipamentos e prédios públicos do Município” e XIV - encaminhar ao delegado de polícia, diante de flagrante delito, o autor da infração, preservando o local do crime, quando possível e sempre que necessário”. _____________________________________________________________________________ NOÇÕES GERAIS DE DIREITO E FORMAÇÃO HUMANÍSTICA 95. Ao apresentar sua contestação, o demandado sustentou que os argumentos usados pelo demandante para alicerçar a pretensão deduzida em juízo estavam baseados em um conteúdo normativo que destoava da lógica do razoável. Assim ocorria, ainda segundo o demandado, porque, na perspectiva desse método, padrões normativos cumprem a funcionalidade de estabilizar as relações sociais, coadunando-se com o referencial de previsibilidade,o que exige que o seu conteúdo apresente uma relação de sobreposição com o denominado programa da norma. Com isso, o intérprete se afasta de uma atividade criativa, que seria potencializada caso se admitisse a influência de referenciais axiológicos. O magistrado competente, ao analisar a visão do demandado na perspectiva da lógica do razoável, observou corretamente que: (A) a lógica formal é sempre preferível à lógica do problema concreto; (B) a função do intérprete é a de individualizar o sentido imanente da norma; (C) somente referenciais deônticos devem ser considerados pelo intérprete, não referenciais axiológicos; (D) a exatidão própria das proposições matemáticas não pode ser transposta para os conteúdos normativos; (E) juízos de fato, direcionados pelos referenciais de neutralidade e tolerância, norteiam a atividade do intérprete, não juízos de valor. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm#art144 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm#art144 150 Conforme a doutrina de José Afonso da Silva e Gilmar Mendes, a interpretação jurídica guiada pela lógica do razoável não se vincula a uma rigidez formal, típica da lógica matemática. Ao contrário, ela considera as complexidades e pluralidades dos casos concretos, promovendo uma racionalidade prática que permite alcançar soluções equitativas e juridicamente adequadas. Trata-se de uma lógica que reconhece o caráter aberto e valorativo dos textos normativos, permitindo que o intérprete leve em consideração elementos axiológicos, sociais e culturais relevantes. 1. Inadequação da lógica formal exata: o O conteúdo normativo não se reduz a enunciados fechados com única resposta correta a partir de silogismos formais. Essa visão ignora a dimensão principiológica, valorativa e teleológica do Direito. o Assim, a exatidão matemática não pode ser aplicada aos conteúdos normativos, pois eles não comportam a mesma rigidez lógica. _____________________________________________________________________________ 96. Em determinada relação processual, o demandante argumentou que celebrara com o demandado um contrato inteligente, tendo informado ao juízo que o ajuste deveria ser assim considerado por ter três características: I. parte do contrato é executada a partir de uma cadeia digital de blocos interligados; II. as informações são conectadas com o uso de criptografia; III. está lastreado em uma tecnologia de base de dados centralizada. O magistrado competente, ao analisar as características expostas pelo demandante, concluiu corretamente, em relação à sua correspondência a um contrato inteligente, que está(ão) enquadrada(s) nessa categoria: (A) I, apenas; (B) III, apenas; (C) I e II, apenas; (D) II e III, apenas; (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O contrato inteligente (smart contract), conforme definido na doutrina jurídica e na literatura técnica sobre tecnologia blockchain, possui as seguintes características essenciais: 151 1. Execução automatizada com base em blockchain (cadeia digital de blocos interligados) o A característica fundamental do contrato inteligente é a sua execução automática por meio de códigos de programação inseridos em uma blockchain. o Trata-se de um contrato cujas cláusulas são transformadas em código e executadas automaticamente quando determinadas condições são verificadas na rede. 2. Uso de criptografia para segurança das informações o A criptografia é elemento essencial da tecnologia blockchain, garantindo a integridade e a segurança dos dados, bem como a imutabilidade dos registros. o Assim, é correto afirmar que contratos inteligentes utilizam criptografia como parte de sua estrutura técnica. 3. Base de dados descentralizada o A blockchain é, por definição, uma tecnologia de base de dados descentralizada, na qual os registros são distribuídos entre vários nós da rede. o Essa descentralização é precisamente o que garante a confiabilidade do sistema, evitando a dependência de uma única entidade controladora. _____________________________________________________________________________ 97. Ao julgar uma demanda coletiva, que surgiu a partir do ajuizamento de ação civil pública em prol de determinado interesse transindividual benéfico a um grupo passível de ser individualizado, o magistrado competente se deparou com o argumento de que a sentença deveria ser sensível a um referencial de predição, que integra a análise econômica do direito. Ao refletir sobre o referido argumento, o magistrado observou corretamente que, em uma perspectiva econômica, a sentença deve: (A) promover a ponderação das consequências que advirão do acolhimento da pretensão formulada, considerando os diversos aspectos econômicos envolvidos; (B) ater-se ao direito, não avançando em juízos de prognose próprios das estruturas estatais de poder que possuem legitimidade e expertise para a sua realização; (C) apenas explicar a forma de atendimento ao interesse coletivo em um ambiente de escassez, considerando a situação factual de insuficiência que ensejou a demanda; (D) realizar a ponderação dos interesses a serem atendidos com aqueles que serão preteridos no momento do julgamento, considerada a limitação dos recursos existentes; (E) promover a interpretação do direito em uma perspectiva pragmática, de modo a alcançar os resultados economicamente mais eficientes no momento atual. 152 _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS A Análise Econômica do Direito (AED), conforme difundida por autores como Richard Posner, propõe que o julgador leve em consideração não apenas a literalidade da norma, mas também as consequências práticas e econômicas de sua aplicação, buscando maximizar a eficiência alocativa dos recursos sociais. No contexto de uma ação civil pública, voltada à tutela de direitos coletivos ou difusos, essa análise é ainda mais relevante, pois: • Os efeitos da decisão judicial tendem a se espraiar para toda a coletividade afetada; • Há, muitas vezes, envolvimento de recursos públicos e impactos econômicos relevantes, exigindo do julgador atenção à eficiência e aos custos sociais da decisão. A alternativa (A) reflete com precisão a proposta da AED ao sugerir que o magistrado deve: "promover a ponderação das consequências que advirão do acolhimento da pretensão formulada, considerando os diversos aspectos econômicos envolvidos." Isso está em linha com a ideia de decisões judiciais prospectivas, que avaliam os efeitos futuros de suas determinações. (B) INCORRETA. Afirma uma neutralidade excessiva, desconsiderando o papel do magistrado na ponderação dos impactos de sua decisão. (C) INCORRETA. Reduz o problema ao conceito de escassez, sem contemplar os critérios de eficiência ou externalidades econômicas. (D) INCORRETA. Ainda que mencione a ponderação, foca apenas na limitação de recursos, não abrangendo o critério mais amplo de consequências econômicas. (E) INCORRETA. A eficiência é relevante, mas a AED não se limita a resultados "no momento atual", e sim à eficiência intertemporal e impactos futuros. _____________________________________________________________________________ 98. O setor de tecnologia da informação do Poder Executivo do Município Alfa promoveu o uso compartilhado de dados pessoais mantidos por esse ente federativo com uma pessoa jurídica de direito privado. Ao tomar conhecimento desse fato, Maria, cidadã residente no território de Alfa, ajuizou ação popular na qual sustentou a ilicitude desse proceder à luz da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. O magistrado competente, ao analisar a tese de Maria, concluiu corretamente,em relação ao referido uso compartilhado, que ele: (A) é expressamente vedado; 153 (B) está sujeito apenas ao juízo de conveniência e oportunidade da Administração Pública; (C) somente é admitido quando a transferência for respaldada em contrato, convênio ou instrumento congênere; (D) deve ser informado à autoridade nacional, na forma de regulamento, e depende do consentimento do titular, excetuadas apenas as situações indicadas em lei; (E) sempre necessita do consentimento do titular, que pode ser afastado quando o interesse público o exigir, devendo ser realizada a imediata comunicação à autoridade nacional. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018) estabelece normas “rigorosas” para o tratamento de dados pessoais por agentes públicos e privados, especialmente no tocante ao compartilhamento de tais dados. No caso da Administração Pública, o compartilhamento com pessoas jurídicas de direito privado exige, em regra, o consentimento do titular e a comunicação à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), salvo hipóteses legais expressamente previstas. Assim, ao analisar a controvérsia apresentada na ação popular ajuizada por Maria, o magistrado deve considerar o regramento específico da LGPD, sobretudo o disposto no art. 26, § 1º. A seguir, analisam-se individualmente as alternativas apresentadas. (A) INCORRETA. Essa alternativa está incorreta, pois o compartilhamento de dados pessoais pelo Poder Público com entidades privadas não é proibido pela LGPD, mas sim condicionado a determinados requisitos legais. O art. 26, § 1º, admite expressamente o compartilhamento, desde que haja consentimento do titular e comunicação à ANPD, salvo exceções legais. Portanto, afirmar que é "expressamente vedado" revela desconhecimento do regime jurídico da matéria. (B) INCORRETA. Essa alternativa também é incorreta, pois o compartilhamento de dados não é uma questão de simples discricionariedade administrativa. A LGPD impõe limites e condições legais objetivas, como a exigência de consentimento do titular e a necessidade de comunicação à ANPD. O juízo de conveniência e oportunidade não pode se sobrepor aos preceitos legais que regem a proteção de dados pessoais. (C) INCORRETA. Apesar de contratos e convênios poderem formalizar o compartilhamento, essa não é uma condição suficiente ou exclusiva prevista na LGPD. O que a lei exige, de forma clara, é o consentimento do titular e a comunicação à ANPD, salvo nas hipóteses legais de dispensa. Assim, essa alternativa reduz indevidamente os requisitos legais ao aspecto meramente formal do instrumento jurídico. (D) CORRETA. Esta é a alternativa correta, pois está integralmente de acordo com o art. 26, § 1º, da LGPD. A norma estabelece que o compartilhamento de dados pelo Poder Público com pessoas de direito privado deve ser informado à ANPD e depender do 154 consentimento do titular, salvo nas hipóteses de dispensa expressamente previstas em lei. Trata-se de regra fundamental para garantir a transparência, a segurança jurídica e a proteção dos direitos dos titulares. (E) INCORRETA. Embora pareça próxima da correta, essa alternativa incorre ao afirmar que o consentimento pode ser afastado com base genérica em “interesse público”, o que não está conforme a LGPD. A dispensa do consentimento não decorre de uma cláusula aberta, mas sim de hipóteses taxativamente previstas na própria lei (Arts. 7º e 11). Ademais, a exigência de “imediata comunicação” à ANPD não está assim redigida na norma, que apenas prevê a necessidade de comunicação "na forma do regulamento". Portanto, a alternativa não reflete com precisão os comandos legais. _____________________________________________________________________________ DIREITOS HUMANOS 99. O sistema regional interamericano de proteção dos direitos humanos envolve um conjunto de normas importantes para dar cabo a tal desiderato. Regramento vital é a Convenção Americana sobre Direitos Humanos que traz dois atores competentes para conhecer dos assuntos relacionados com o cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados-Partes nessa Convenção. A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta de sete juízes, eleitos a título pessoal dentre juristas da mais alta autoridade moral, de reconhecida competência em matéria de direitos humanos, que reúnam as condições requeridas para o exercício das mais elevadas funções judiciais, de acordo com a lei do Estado do qual sejam nacionais ou do Estado que os propuser como candidatos. Quanto aos efeitos das decisões da mencionada Corte, é CORRETO afirmar que: (A) não é dado à Corte reconhecer o pagamento de indenização à parte lesada, muito embora seja possível reconhecer a violação a direitos previstos na Convenção; (B) é facultativo ao Estado-Parte do caso submetido à Corte o cumprimento das decisões, porque esta exerce apenas e tão somente função consultiva à Comissão Interamericana de Direitos Humanos; (C) é possível que a Corte determine a reforma da legislação ordinária do Estado-Parte, mas jamais a mudança da respectiva Constituição, porquanto só se permite a análise das normas infraconstitucionais; (D) é conferido à Corte, dentre seus atributos, nulificar ou mesmo derrogar normas internas de Estados-Partes, não estando em sua prática a declaração de não aplicação de normas com efeito erga omnes para todos os poderes públicos; (E) existe força obrigatória dos precedentes da Corte, o que significa haver eficácia vinculante dos fundamentos determinantes das suas decisões, fazendo com que os juízes do Estado subscritor da Convenção se submetam à interpretação da Corte em relação à Convenção. _______________________________________________________________________ 155 GABARITO: E COMENTÁRIOS O Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos, consolidado a partir da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH), estrutura-se em torno de dois órgãos principais: a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. A Corte, com sede em San José, Costa Rica, tem função jurisdicional e consultiva e suas decisões possuem força vinculante nos casos em que os Estados-Partes tenham reconhecido sua jurisdição contenciosa. Com base na normativa vigente (Convenção Americana e regulamentações correlatas) e na doutrina consolidada, analisam-se abaixo as alternativas apresentadas quanto aos efeitos das decisões da Corte. (A) CORRETA. Essa alternativa está em desacordo com o texto expresso da Convenção Americana. Nos termos do art. 63.1 da CADH, “quando decidir que houve violação de um direito ou liberdade protegidos pela Convenção, a Corte disporá que se assegure à parte lesada o gozo do seu direito ou liberdade violados. Além disso, se for o caso, disporá que se repare as consequências da medida ou situação que configurou a violação desses direitos e o pagamento de uma indenização justa à parte lesada.” Assim, está pacificado que a Corte pode e deve reconhecer e determinar indenizações, o que invalida completamente a assertiva da alternativa A. (B) CORRETA. A Corte Interamericana exerce função jurisdicional e consultiva, conforme o art. 62 da CADH. Quando um Estado reconhece a jurisdição contenciosa da Corte (como o Brasil o fez por meio do Decreto Legislativo nº 89/1998 e do Decreto nº 4.463/2002), ele se obriga a cumprir as decisões proferidas nos casos em que figure como parte. O art. 68.1 da CADH é claro: “Os Estados Partes na Convenção comprometem-se a cumprir a decisão da Corte em todo caso em que forem partes.” Portanto, o cumprimento das decisões não é facultativo, sendo obrigatório para os Estados jurisdicionados. (C) CORRETA. A alternativa C incorre em erro ao limitar a autoridade da Corte à legislação ordinária. A jurisprudência consolidada da CorteInteramericana, inclusive com precedentes envolvendo o Brasil, admite que normas constitucionais também podem ser incompatíveis com a Convenção. No caso “Trabajadores Cesados del Congreso (Peru) vs. Peru” (2006), e no caso “Gomes Lund e outros vs. Brasil” (2010), a Corte afirmou que todas as normas internas, inclusive constitucionais, devem ser compatibilizadas com a CADH. A doutrina de Valerio Mazzuoli reforça que o controle de convencionalidade se impõe inclusive sobre normas constitucionais, sob pena de responsabilidade internacional do Estado. (D) CORRETA. A Corte não tem competência para “nulificar” ou “derrogar” normas internas, pois não atua como corte constitucional nacional. No entanto, ao exercer o controle de convencionalidade, a Corte pode declarar que determinada norma não deve ser aplicada por ser incompatível com a Convenção, o que gera efeitos obrigatórios para o Estado-Parte no caso concreto. Esse controle não possui efeito erga omnes automático, mas vincula o Estado no caso julgado e serve como parâmetro interpretativo para 156 decisões futuras, conforme reconhecido em diversos julgados, como “Gelman vs. Uruguai” (2011). (E) INCORRETA. A Corte IDH já afirmou reiteradamente que suas decisões possuem efeito vinculante para os Estados-Partes, inclusive quanto à interpretação da Convenção. No caso “Almonacid Arellano vs. Chile” (2006), estabeleceu-se que os juízes internos devem interpretar a legislação nacional em conformidade com a jurisprudência da Corte, respeitando seus fundamentos determinantes. A doutrina de Flávia Piovesan confirma esse entendimento, destacando que o controle de convencionalidade deve ser exercido por todos os poderes do Estado, inclusive o Judiciário, em consonância com a jurisprudência da Corte Interamericana. _____________________________________________________________________________ 100. Em 2021, seguindo o procedimento detalhado pela Constituição Federal para tratados internacionais de Direitos Humanos, o Brasil ratificou a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância. Trata-se de instrumento legal que estabelece tanto direitos que devem ser garantidos a todos quanto deveres que os Estados-membros devem cumprir para combater o racismo e outras formas de discriminação e intolerância. De acordo com essa Convenção, caso tenha sido vítima de uma violação dos direitos ali previstos, um brasileiro poderá apresentar uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, desde que: (A) tenha recebido um parecer favorável da Procuradoria-Geral da República; (B) não tenha sido suscitado o incidente de deslocamento de competência no plano doméstico; (C) a matéria da denúncia não esteja pendente de outro processo de solução internacional; (D) seja representado por advogado ou advogada inscrito(a) na Ordem dos Advogados do Brasil ou por defensor(a) público(a); (E) o Ministério da Igualdade Racial, ou órgão equivalente, tenha restado inerte ou omisso frente à violação pelo prazo de seis meses. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS A Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, ratificada pelo Brasil com status de norma constitucional em 2021 (Decreto Legislativo nº 1/2021 e Decreto nº 10.932/2022), integra o corpo normativo interamericano de direitos humanos. Como todo tratado de direitos humanos submetido à jurisdição do Sistema Interamericano, a sua aplicação admite, nos termos da Convenção Americana sobre Direitos Humanos e do Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a apresentação de petições individuais à 157 Comissão. Essa possibilidade está condicionada ao preenchimento de certos requisitos de admissibilidade, conforme exposto abaixo. (A) INCORRETA. O procedimento de admissibilidade de petições individuais no Sistema Interamericano não exige manifestação de autoridades nacionais, como a Procuradoria- Geral da República. Trata-se de uma instância autônoma de proteção internacional subsidiária, acessível diretamente pelo indivíduo ou grupo lesado, desde que respeitados os requisitos fixados no art. 46 da Convenção Americana e no Regulamento da Comissão. A exigência de parecer da PGR é estranha ao sistema e não encontra respaldo em norma vigente ou prática institucional da OEA. (B) INCORRETA. O incidente de deslocamento de competência (IDC), previsto no art. 109, § 5º, da Constituição Federal, refere-se ao deslocamento da persecução penal da justiça estadual para a federal em casos de graves violações de direitos humanos. Tal instituto é interno ao ordenamento jurídico brasileiro e não condiciona a admissibilidade de petições perante a Comissão Interamericana, que examina exclusivamente os critérios de sua própria normativa. (C) CORRETA. Essa é a alternativa correta, conforme estabelece o art. 46, inciso 1, alínea c, da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Tal dispositivo determina que uma petição não será admitida se estiver pendente de outro procedimento internacional de investigação ou solução, com o objetivo de evitar duplicidade de foros internacionais. Essa regra, consagrada também no Regulamento da Comissão, visa garantir a coerência e a segurança jurídica do sistema internacional de proteção. (D) INCORRETA. A exigência prevista nessa alternativa é inexistente no sistema interamericano. A Comissão Interamericana não restringe a representação a advogados com inscrição na OAB ou a defensores públicos. A própria vítima, um representante legal ou qualquer pessoa ou grupo de pessoas pode apresentar petição, inclusive sem necessidade de advogado, conforme disposto no art. 23 do Regulamento da Comissão. Tal liberalidade visa facilitar o acesso à justiça internacional. (E) INCORRETA. Não há qualquer exigência na Convenção ou nos regulamentos interamericanos que condicione a admissibilidade da denúncia à omissão de um órgão específico do Poder Executivo. O prazo de seis meses a que a Convenção Americana se refere (art. 46.1.b) diz respeito à contagem do tempo a partir da decisão definitiva no âmbito interno, e não à atuação ou inércia de um ministério. _____________________________________________________________________________17 O Art. 102 do Estatuto da Pessoa Idosa tipifica "apropriar-se de ou desviar bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação diversa da de sua finalidade". A venda do imóvel sem o consentimento da idosa proprietária pode configurar esta conduta, ainda que não tenha havido prévia interdição judicial. A alternativa (A) não procede, uma vez que o artigo 5º do Estatuto da Pessoa Idosa não confere aos familiares autorização para dispor dos bens do idoso sem seu consentimento. A conduta de Roberto constitui abuso contra pessoa idosa, enquadrando-se precisamente no disposto pelo artigo 43 do Estatuto. A alternativa (C) é incorreta, pois o Ministério Público possui legitimidade para atuar na defesa dos direitos do idoso independentemente de processo judicial prévio. Esta prerrogativa encontra respaldo explícito no caput do artigo 45 do Estatuto da Pessoa Idosa. A (D) é falsa, pois nenhuma cláusula contratual pode impedir a proteção de direitos fundamentais do idoso. A (E) é incorreta, pois a intenção protetiva alegada não é suficiente para convalidar a alienação não autorizada de bem de propriedade da idosa. (C) INCORRETA. Vide comentários alternativa “B”. (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa “B”. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa “B”. _____________________________________________________________________________ 8. Em 2012, Álvaro, empresário de 73 anos, casou-se com Elisa, então com 35 anos, sem lavratura de pacto antenupcial. Durante o casamento, Álvaro continuou a gerir sozinho seu patrimônio, que incluía imóveis urbanos, ações e cotas de uma sociedade empresária. Em 2017, adquiriu, com recursos próprios, um apartamento no litoral, que passou a ser utilizado pelo casal como residência de veraneio. O imóvel foi registrado apenas em nome de Álvaro. Em 2023, Álvaro faleceu, deixando Elisa e dois filhos de casamento anterior. No inventário, Elisa alegou direito à meação do apartamento e, subsidiariamente, à herança. Os filhos contestaram ambos os pedidos, afirmando que o casal era casado sob o regime de separação obrigatória de bens e que o imóvel fora adquirido exclusivamente por Álvaro. Considerando a situação descrita e o entendimento atual do STF e do STJ sobre o tema, é CORRETO afirmar que Elisa: (A) tem direito à meação do imóvel, pois a ausência de pacto antenupcial impõe a aplicação do regime da comunhão parcial de bens; (B) tem direito à meação do imóvel porque, embora o casamento tenha se dado sob separação obrigatória, o bem foi adquirido na constância do casamento e houve esforço comum; (C) não tem direito à meação, mas é herdeira de Álvaro, concorrendo com os descendentes, conforme o Art. 1.829 do Código Civil; 18 (D) não tem direito à meação nem à herança, pois o casamento foi celebrado sob o regime de separação obrigatória de bens e Álvaro deixou descendentes; (E) é meeira do imóvel porque ele se destinava à residência do casal, sendo bem de uso comum, o que excepciona a regra da separação obrigatória. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários item “D”. (B) INCORRETA. Vide comentários item “D”. (C) INCORRETA. Vide comentários item “D”. (D) CORRETA. O caso envolve um casamento entre Álvaro, empresário de 73 anos, e Elisa, de 35 anos, realizado em 2012, sem pacto antenupcial. Nesta situação, aplica-se o regime da separação obrigatória de bens, conforme determina o artigo 1.641, inciso II, do Código Civil, que impõe este regime aos nubentes maiores de 70 anos (à época do casamento, o limite era 60 anos, alterado pela Lei nº 12.344/2010). Embora o apartamento tenha sido adquirido durante o casamento, foi comprado exclusivamente com recursos de Álvaro e registrado somente em seu nome. Não havendo comprovação de esforço comum de Elisa na aquisição do bem, torna-se inaplicável a Súmula 377 do STF, que prevê a comunicação de bens adquiridos na constância do matrimônio sob o regime de separação legal. Quanto ao direito sucessório, o cônjuge casado sob o regime da separação obrigatória de bens não figura como herdeiro necessário quando concorre com descendentes do falecido, conforme interpretação do artigo 1.829, inciso I, do Código Civil. A alternativa A está incorreta porque não é possível afastar o regime de separação obrigatória pela ausência de pacto antenupcial. O STF apenas em 2024 alterou este entendimento (ARE 1.309.642/SP, Tema 1236), permitindo a escolha mediante escritura pública, mas o casamento ocorreu em 2012 e a morte em 2023, antes dessa mudança jurisprudencial. A alternativa B está incorreta porque não houve comprovação de esforço comum para aplicação da Súmula 377 do STF. A alternativa C está incorreta porque o artigo 1.829, I, do CC exclui expressamente o cônjuge da sucessão quando casado no regime da separação obrigatória de bens. A alternativa E está incorreta porque a destinação do imóvel como residência de veraneio não excepciona a regra da separação obrigatória de bens. Assim, Elisa não tem direito à meação nem à herança, conforme corretamente indicado na alternativa D. (E) INCORRETA. Vide comentários item “D”. 19 _____________________________________________________________________________ 9. A Madeireira ABC Ltda. celebrou contrato com o Hotel XYZ Ltda., comprometendo-se a entregar no início do inverno toda a madeira necessária para a temporada, de modo que as lareiras do hotel ficassem abastecidas. De acordo com a situação hipotética apresentada, o elemento acidental presente no caso é o seguinte: (A) encargo; (B) condição resolutiva; (C) termo incerto; (D) condição suspensiva; (E) termo certo. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários item “E”. (B) INCORRETA. Vide comentários item “E”. (C) INCORRETA. (D) INCORRETA. Vide comentários item “E”. (E) CORRETA. A alternativa (E) é a correta porque o caso apresenta um termo certo como elemento acidental do negócio jurídico. No contrato entre a Madeireira ABC Ltda. e o Hotel XYZ Ltda., foi estabelecido que a entrega da madeira deveria ocorrer "no início do inverno". Esta estipulação caracteriza um termo certo, pois trata-se de um evento futuro e certo, com data determinável pelo calendário (o início da estação do inverno). O termo, conforme o artigo 131 do Código Civil, é um elemento acidental do negócio jurídico que "suspende o exercício, mas não a aquisição do direito". Difere da condição porque esta se refere a um evento futuro e incerto (art. 121 CC), enquanto o termo se refere a um evento futuro e certo. Não se trata de condição suspensiva ou resolutiva (alternativas B e D), pois não há incerteza quanto à ocorrência do evento - o inverno certamente chegará. Também não é um encargo (alternativa A), que seria uma obrigação acessória imposta ao beneficiário de uma liberalidade. E não constitui termo incerto (alternativa C), pois o início do inverno tem data predeterminada no calendário. 20 Assim, ao estabelecer o início do inverno como momento para a entrega da madeira, as partes fixaram um termo certo para o cumprimento da obrigação, caracterizando corretamente a alternativa (E). _____________________________________________________________________________ 10. Roberto e Mônica, casados, faleceram em um acidente de carro juntamente com seu único filho, João, de apenas 4 anos. Mônica deixou como herdeiras sua mãe Vera e sua irmã Betânia. Já Roberto deixou como herdeiros seus pais, Bento e Laura, além de seus irmãos Pedro e Thiago. Não foi possível determinar qual deles faleceu primeiro no acidente. Diante da situação hipotética apresentada, o juiz da causa deve adotar a: (A) premoriência, determinando que Vera receba a herança; (B) premoriência, determinando que Bento e Laura recebama herança; (C) premoriência, determinando que Vera e Betânia recebam a herança; (D) comoriência, determinando que Vera, Bento e Laura recebam a herança; (E) comoriência, determinando que Betânia, Pedro e Thiago recebam a herança. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários item “D”. (B) INCORRETA. Vide comentários item “D”. (C) INCORRETA. Vide comentários item “D”. (D) CORRETA. No caso apresentado, Roberto, Mônica e seu filho João faleceram em um mesmo acidente, não sendo possível determinar quem faleceu primeiro. Esta situação caracteriza a comoriência, prevista no art. 8º do Código Civil: "Se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião, não se podendo averiguar se algum dos comorientes precedeu aos outros, presumir-se-ão simultaneamente mortos." Aplicando-se a comoriência, considera-se que Roberto, Mônica e João faleceram ao mesmo tempo, o que significa que não houve transmissão de herança entre eles. João, sendo filho de Roberto e Mônica e tendo falecido simultaneamente aos pais, não herda deles, assim como Roberto não herda de Mônica e vice-versa. Os bens de Roberto serão transmitidos aos seus ascendentes, que são seus pais Bento e Laura, conforme o art. 1.829, II, do Código Civil. Os irmãos Pedro e Thiago não herdam neste caso, pois sendo colaterais, só seriam chamados à sucessão na ausência de descendentes e ascendentes. Quanto aos bens de Mônica, estes serão transmitidos à sua mãe Vera, que é ascendente de primeiro grau. A irmã Betânia não herda neste caso, pois havendo ascendente, os 21 colaterais não são chamados à sucessão, de acordo com a ordem de vocação hereditária prevista no art. 1.829 do Código Civil. Portanto, aplicando-se a comoriência e as regras da sucessão legítima, os herdeiros serão Vera (mãe de Mônica) e Bento e Laura (pais de Roberto), o que corresponde à alternativa (D). (E) INCORRETA. Vide comentários item “D”. _____________________________________________________________________________ 11. Em um contrato de prestação de serviços, foi estipulada cláusula penal no valor de R$ 100.000,00 para o caso de inadimplemento total da obrigação. O contratado deixou de prestar os serviços por culpa exclusiva sua. O contratante, insatisfeito, ajuizou ação exigindo o pagamento da cláusula penal e, cumulativamente, indenização suplementar por lucros cessantes de R$ 300.000,00, sem que o contrato previsse expressamente essa possibilidade. Considerando as disposições do Código Civil acerca da cláusula penal, é CORRETO afirmar que: (A) o contratante poderá exigir tanto a cláusula penal quanto a indenização suplementar, desde que comprove a extensão do prejuízo sofrido, independentemente de cláusula contratual autorizando a cumulação; (B) o inadimplemento total da obrigação afasta a aplicação da cláusula penal, sendo cabível apenas a indenização por perdas e danos, nos termos gerais do Código Civil; (C) a cláusula penal estipulada para o caso de inadimplemento total da obrigação converte-se em obrigação alternativa, a benefício do credor; (D) a cláusula penal, por expressa disposição legal, não é exigível quando o inadimplemento decorrer de culpa do devedor, mas apenas quando houver dolo; (E) caso o valor da cláusula penal seja considerado excessivo, não poderá o juiz reduzi- la, por se tratar de manifestação da autonomia privada e da livre estipulação contratual. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários item “C”. (B) INCORRETA. Vide comentários item “C”. (C) CORRETA. A alternativa (C) é a correta porque a cláusula penal estipulada para o caso de inadimplemento total da obrigação converte-se em obrigação alternativa, benefício do credor. De acordo com o artigo 410 do Código Civil, "quando se estipular a cláusula penal para o caso de total inadimplemento da obrigação, esta converter-se-á em alternativa a 22 benefício do credor". Esta disposição legal significa que, em caso de inadimplemento total, o credor pode escolher entre exigir o cumprimento da obrigação principal ou a cláusula penal, configurando assim uma obrigação alternativa. No caso apresentado, o contratado deixou de prestar integralmente os serviços contratados por culpa exclusiva sua, caracterizando um inadimplemento total. Diante dessa situação, e considerando a cláusula penal de R$ 100.000,00 prevista no contrato, o credor (contratante) passa a ter o direito de escolher entre exigir o cumprimento da obrigação principal ou o pagamento da multa estipulada. As demais alternativas apresentam incorreções: a alternativa (A) contraria o artigo 416, parágrafo único, do Código Civil, que exige previsão contratual expressa para a cumulação de indenização suplementar com a cláusula penal; a alternativa (B) contradiz a própria função da cláusula penal, que é justamente garantir o adimplemento; a alternativa (D) é incorreta porque a cláusula penal é exigível tanto em caso de culpa quanto de dolo; e a alternativa (E) contraria o artigo 413 do Código Civil, que autoriza o juiz a reduzir equitativamente a cláusula penal considerada excessiva. Portanto, a alternativa (C) está correta ao afirmar que a cláusula penal se converte em obrigação alternativa a benefício do credor, conforme estabelece expressamente o artigo 410 do Código Civil. (D) INCORRETA. Vide comentários item “C”. (E) INCORRETA. Vide comentários item “C”. _____________________________________________________________________________ 12. Gabriela, maior de idade e regularmente identificada em seus documentos civis com o nome “Gabriela Silva Souza”, compareceu ao cartório de registro civil com o objetivo de alterar seu prenome para “Isadora”, alegando razões pessoais e de identidade subjetiva. O pedido foi deferido e o novo assento lavrado. Seis meses depois, Gabriela, agora identificada como Isadora, solicitou novo pedido extrajudicial ao mesmo cartório para retomar o nome anterior. O oficial indeferiu o pedido, afirmando que somente decisão judicial poderia permitir nova modificação. Inconformada, Gabriela questionou a exigência, argumentando que se tratava de exercício legítimo da sua autonomia da vontade. Com base na legislação vigente e no entendimento doutrinário e jurisprudencial sobre o tema, é CORRETO afirmar que: (A) o pedido de Gabriela deve ser acolhido, pois a alteração do prenome por maior de idade independe de motivação e pode ser feita extrajudicialmente quantas vezes forem necessárias; (B) o indeferimento do oficial está correto, pois, após a primeira alteração extrajudicial imotivada do prenome, o retorno ao nome anterior só pode ocorrer mediante autorização judicial; (C) a segunda alteração do prenome poderia ser feita extrajudicialmente, desde que Gabriela apresentasse justificativa fundamentada perante o registrador civil; 23 (D) o retorno ao nome anterior pode ser feito livremente pela interessada, desde que o prazo entre as alterações não exceda a um ano; (E) o prenome não pode ser alterado por via extrajudicial se a pessoa já tiver utilizado documentos com o nome anterior, pois isso comprometeria a segurança jurídica. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários item “B”. (B) CORRETA. A Lei nº 14.382/2022 modificou a Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/1973), acrescentando o art. 56, que estabelece que: "Art. 56. A pessoa registrada poderá, após ter atingido a maioridade civil, requerer pessoalmente e imotivadamente a alteração de seu prenome, independentemente de decisão judicial, e a alteração será averbada e publicada em meio eletrônico. § 1º A alteração imotivada de prenome poderá ser feita na via extrajudicial apenas 1 (uma) vez, e sua desconstituição dependerá de sentençajudicial. § 2º A averbação de alteração de prenome conterá, obrigatoriamente, o prenome anterior, os números de documento de identidade, de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil, de passaporte e de título de eleitor do registrado, dados esses que deverão constar expressamente de todas as certidões solicitadas. § 3º Finalizado o procedimento de alteração no assento, o ofício de registro civil de pessoas naturais no qual se processou a alteração, a expensas do requerente, comunicará o ato oficialmente aos órgãos expedidores do documento de identidade, do CPF e do passaporte, bem como ao Tribunal Superior Eleitoral, preferencialmente por meio eletrônico. § 4º Se suspeitar de fraude, falsidade, má-fé, vício de vontade ou simulação quanto à real intenção da pessoa requerente, o oficial de registro civil fundamentadamente recusará a retificação." No caso em questão, Gabriela realizou a primeira alteração de seu prenome para "Isadora" por via extrajudicial, exercendo o direito previsto no art. 56. Contudo, ao solicitar o retorno ao nome anterior após apenas seis meses, ela se enquadra exatamente na hipótese que exige decisão judicial para o retorno ao nome original após uma alteração imotivada. 24 Assim, o indeferimento do oficial do cartório está correto, pois a legislação vigente exige autorização judicial para a segunda alteração quando esta representa um retorno ao nome original, o que torna a alternativa (B) a correta. (C) INCORRETA. Vide comentários item “B”. (D) INCORRETA. Vide comentários item “B”. (E) INCORRETA. Vide comentários item “B”. _____________________________________________________________________________ 13. Sara e Jorge, ambos na faixa dos 60 anos de idade, desejam se casar, mas querem deixar as questões patrimoniais bem decididas por meio de pacto antenupcial. Para isso, consultam uma advogada e informam a ela que desejam que o regime escolhido permita (i) que a alienação de bens imóveis particulares seja convencionada sem a vênia conjugal e (ii) que integrem o patrimônio próprio de cada cônjuge os bens que ele possua ao casar e os que por ele forem adquiridos, a qualquer título, na constância do casamento. De acordo com a situação hipotética narrada, para adequar-se ao pedido de Sara e Jorge, somente cabe adotar o(s) regime(s) de: (A) separação convencional de bens; (B) participação final nos aquestos; (C) separação obrigatória de bens e separação convencional de bens; (D) separação obrigatória de bens e participação final nos aquestos; (E) separação convencional de bens e participação final nos aquestos. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários item “E”. (B) INCORRETA. Vide comentários item “E”. (C) INCORRETA. Vide comentários item “E”. (D) INCORRETA. Vide comentários item “E”. (E) CORRETA. A alternativa (E) é correta porque tanto o regime de separação convencional de bens quanto o de participação final nos aquestos atendem às exigências de Sara e Jorge. O casal deseja um regime que permita a alienação de bens imóveis particulares sem vênia conjugal e que mantenha como patrimônio próprio de cada cônjuge tanto os bens anteriores ao casamento quanto os adquiridos durante a união. 25 O regime de separação convencional (art. 1.687 e 1.688 do CC) satisfaz ambos os requisitos, pois cada cônjuge administra exclusivamente seus bens, podendo aliená-los livremente, e mantém como próprios tanto os bens anteriores quanto os adquiridos na constância do casamento. Igualmente, o regime de participação final nos aquestos (art. 1.672 a 1.686 do CC) atende às necessidades do casal. Durante o casamento, vigora a separação patrimonial (art. 1.673), permitindo a disposição dos bens imóveis particulares sem autorização do cônjuge, quando convencionado, e cada um mantém patrimônio próprio constituído pelos bens anteriores e pelos adquiridos durante o matrimônio. Os demais regimes não atendem às exigências: a comunhão parcial comunica os bens adquiridos durante o casamento; a comunhão universal comunica todos os bens; e a separação obrigatória é imposta por lei, não sendo de livre escolha. _____________________________________________________________________________ 14. Elias trabalhou muitos anos na área rural de Araguatins, particularmente a serviço de Pedro, embora residisse em outro município. Depois que encerrou seu contrato com o Elias, em vista do apreço que desenvolveu por ele, e vendo sua dificuldade de deslocamento entre sua casa e o trabalho, Pedro cedeu a ele a posse de um terreno com um casebre, de sua propriedade, que se encontrava desocupado. No imóvel, Elias fez a instalação de rede elétrica, que até então não havia, e reparou o telhado, que ameaçava desabar. Menos de um ano depois, todavia, Pedro faleceu e seus herdeiros exigiram de Elias o imóvel de volta. Mesmo depois de intimado judicialmente, Elias recusou-se à restituição e ainda fez uma obra para instalar água encanada no imóvel, que também não tinha. Afinal, foi o imóvel desocupado com o uso de força policial. Nesse caso, Elias faz jus ao ressarcimento dos gastos apenas com: (A) a instalação de rede elétrica; (B) a instalação de rede elétrica e o conserto do telhado; (C) a instalação de rede elétrica e de água encanada; (D) o conserto do telhado; (E) a instalação de água encanada. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Vide comentários item “B”. (B) CORRETA. No caso apresentado, Elias recebeu a posse do imóvel por cessão gratuita de Pedro, caracterizando um comodato. Elias realizou três benfeitorias no imóvel: instalação de rede elétrica, reparo do telhado e instalação de água encanada, sendo esta última realizada após ter sido intimado judicialmente a restituir o imóvel. 26 O Código Civil, em seus artigos 1.219 e 1.220, estabelece as regras sobre o direito ao ressarcimento por benfeitorias realizadas pelo possuidor. De acordo com esses dispositivos, o possuidor de boa-fé tem direito à indenização pelas benfeitorias necessárias e úteis. Benfeitorias necessárias são aquelas indispensáveis para conservar o bem ou evitar que se deteriore. O conserto do telhado que "ameaçava desabar" enquadra-se claramente como benfeitoria necessária, pois visava impedir a deterioração do imóvel. Benfeitorias úteis são as que aumentam ou facilitam o uso do bem. A instalação de rede elétrica pode ser considerada uma benfeitoria útil, pois aumenta a utilidade do imóvel, tornando-o mais adequado ao uso. Já a instalação de água encanada, embora também seja uma benfeitoria útil, foi realizada após Elias ter sido intimado judicialmente a restituir o imóvel. O artigo 1.220 do Código Civil determina que "ao possuidor de má-fé serão ressarcidas somente as benfeitorias necessárias". Após a intimação judicial, Elias passou a ser considerado possuidor de má-fé, perdendo o direito ao ressarcimento por benfeitorias úteis realizadas a partir desse momento. Elias, portanto, faz jus ao ressarcimento apenas pela instalação de rede elétrica (benfeitoria útil realizada quando era possuidor de boa-fé) e pelo conserto do telhado (benfeitoria necessária, ressarcível mesmo ao possuidor de má-fé), o que corresponde à alternativa (B). (C) INCORRETA. Vide comentários item “B”. (D) INCORRETA. Vide comentários item “B”. (E) INCORRETA. Vide comentários item “B”. _____________________________________________________________________________ DIREITO PROCESSUAL CIVIL 15. A Papelaria ABC foi contratada pela sociedade de advogados XYZ para fornecer cartões de visita, pastas e papéis timbrados com a logomarca do escritório até o final do mês. Constava do contrato a previsão de vultosa multa em caso de descumprimento do avençado, não obstantea natureza e a finalidade da obrigação não justificassem esse montante. Ademais, pelo contrato, a ABC renunciava à faculdade de pleitear a redução judicial da multa. Quando o contrato foi descumprido, a XYZ ajuizou ação em face da ABC pretendendo receber a multa, e a ABC, em sua defesa, não alegou seu excesso manifesto. Diante disso, com relação à redução judicial da multa por excesso manifesto, o magistrado: (A) pode reduzir equitativamente a multa, pois a norma é cogente e pode ser aplicada de ofício pelo magistrado, contanto que instaure debate prévio com contraditório; (B) pode reduzir equitativamente a multa, mas somente se houver intervenção do Ministério Público no processo, como fiscal da lei; 27 (C) não pode reduzir equitativamente a multa, pois, embora ele pudesse conhecer de ofício a excessividade, a norma foi afastada pela vontade das partes; (D) não pode reduzir equitativamente a multa, pois, embora a norma seja cogente, ele não pode conhecer de ofício a excessividade; (E) não pode reduzir equitativamente a multa, pois, além de a norma ter sido afastada pela vontade das partes, ele não pode conhecer de ofício a excessividade. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS Conforme entendimento sedimentado do STJ, “verificando que o caso se enquadra nas hipóteses previstas no art. 413 do Código Civil, não há qualquer ilegalidade na redução da cláusula penal de ofício pela Corte local, conforme entendimento pacífico do Superior Tribunal de Justiça” (REsp 1888028 / SP, TERCEIRA TURMA, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, DJe 24/08/2022). Com efeito, "no atual Código Civil, o abrandamento do valor da cláusula penal em caso de adimplemento parcial é norma cogente e de ordem pública, consistindo em dever do juiz e direito do devedor a aplicação dos princípios da função social do contrato, da boa- fé objetiva e do equilíbrio econômico entre as prestações, os quais convivem harmonicamente com a autonomia da vontade e o princípio pacta sunt servanda" (REsp 1.898.738/SP, Relatora a Ministra Nancy Andrighi, DJe de 26/3/2021). A exigência de contraditório é extraída do princípio da não surpresa, contemplado no Art. 10. “O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício”. _____________________________________________________________________________ 16. No que se refere à ação monitória, é CORRETO afirmar que: (A) deve estar arrimada em prova escrita, sem eficácia de título executivo, representativa de crédito de quantia em dinheiro ou coisa fungível, mas não de obrigações de fazer e não fazer; (B) pode ser ajuizada em face de devedor capaz, mas não de incapaz; (C) pode ser ajuizada em face de devedor que seja particular, mas não quando for a Fazenda Pública; (D) desde que haja prévia segurança do juízo, o réu poderá opor embargos à ação monitória; (E) é inadmissível o oferecimento, pela parte ré, de reconvenção. _______________________________________________________________________ 28 GABARITO: B COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. Art. 700. A ação monitória pode ser proposta por aquele que afirmar, com base em prova escrita sem eficácia de título executivo, ter direito de exigir do devedor capaz: I - o pagamento de quantia em dinheiro; II - a entrega de coisa fungível ou infungível ou de bem móvel ou imóvel; III - o adimplemento de obrigação de fazer ou de não fazer. (B) CORRETA. Vide alternativa anterior. De acordo com caput do art. 700 do CPC, apenas pode ser demandado em ação monitória o devedor capaz. (C) INCORRETA. Art. 700, § 6º É admissível ação monitória em face da Fazenda Pública. (D) INCORRETA. Art. 702. Independentemente de prévia segurança do juízo, o réu poderá opor, nos próprios autos, no prazo previsto no art. 701 , embargos à ação monitória. (E) INCORRETA. Art. 702, § 6º Na ação monitória admite-se a reconvenção, sendo vedado o oferecimento de reconvenção à reconvenção. _____________________________________________________________________________ 17. Nos autos de uma ação de mandado de segurança da competência originária de um órgão fracionário do Tribunal, o desembargador relator, apreciando a petição inicial, indeferiu a medida liminar requerida pelo impetrante, embora tenha procedido ao juízo positivo de admissibilidade da demanda. Depois de ofertadas as informações, pela autoridade impetrada, a peça impugnativa, pela pessoa jurídica de direito público, e o parecer conclusivo, pelo Ministério Público, o órgão julgador, em violação a um dispositivo da lei que disciplina o procedimento do mandado de segurança, proferiu acórdão por meio do qual julgava extinto o feito sem resolução do mérito, por haver concluído, equivocadamente, pela ausência de condição para o regular exercício da ação. Nesse quadro, é CORRETO afirmar que: (A) a decisão relatorial de indeferimento da medida liminar é insuscetível de impugnação por qualquer via recursal típica; https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art701 29 (B) a decisão relatorial de indeferimento da medida liminar é impugnável pelo recurso de agravo interno; (C) a decisão relatorial de indeferimento da medida liminar é impugnável pelo recurso ordinário; (D) o acórdão que extinguiu o feito sem resolução do mérito é impugnável pelo recurso especial; (E) o acórdão que extinguiu o feito sem resolução do mérito é impugnável pelo recurso extraordinário. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS A resposta é extraída do art. 16, parágrafo único, da Lei 12.016/2009: Art. 16. Nos casos de competência originária dos tribunais, caberá ao relator a instrução do processo, sendo assegurada a defesa oral na sessão do julgamento do mérito ou do pedido liminar. Parágrafo único. Da decisão do relator que conceder ou denegar a medida liminar caberá agravo ao órgão competente do tribunal que integre. No que se refere à impugnação do acórdão que extinguiu o feito sem resolução do mérito, não é hipótese de cabimento de recurso especial e de recurso extraordinário, uma vez que apenas podem ser interpostos nas hipóteses taxativas dos arts. 102, III e 105, III, ambos da CF/88: Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe: (...) III - julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida: a) contrariar dispositivo desta Constituição; b) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; c) julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face desta Constituição. d) julgar válida lei local contestada em face de lei federal. Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: (...) III - julgar, em recurso especial, as causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos 30 tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando a decisão recorrida: a) contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência; b) julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal; c) der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal. Correta, portanto, a alternativa B. _____________________________________________________________________________ 18. Nos autos de uma ação de procedimento comum em cuja petição inicial haviam sido formulados dois pedidos, o juiz, depois de ofertada a réplica, procedeu ao julgamento antecipado parcial do mérito. Em sua decisão, o magistrado acolheu a primeira pretensão deduzida pelo demandante e condenouo réu, a quem havia sido concedido o benefício da gratuidade de justiça, ao pagamento das custas processuais e dos honorários do advogado do autor, tão logo adviesse o trânsito em julgado. Sem prejuízo, o juiz da causa determinou o prosseguimento do feito, rumo à fase da instrução probatória, de modo a viabilizar o posterior julgamento do segundo pedido veiculado na peça exordial. A parte ré não se valeu, no prazo legal, de qualquer via recursal para questionar o acerto do ato decisório que havia acolhido o primeiro pedido do autor. Nesse cenário, é CORRETO afirmar que essa decisão: (A) pode ser impugnada por ação rescisória; (B) pode ser impugnada por recurso de apelação; (C) pode ser impugnada por mandado de segurança; (D) pode ser impugnada por reclamação; (E) não mais pode ser impugnada por qualquer via processual. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS Prevê o art. 356 do CPC que o juiz decidirá parcialmente o mérito quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela deles mostrar-se incontroverso ou I estiver em condições de imediato julgamento, nos termos do art. 355 do CPC. Em regra, a decisão proferida com base neste artigo é impugnável por agravo de instrumento (art. 356, §5º, do CPC). 31 Não interposto recurso no prazo legal, opera-se a coisa julgada material, podendo o interessado se valer da ação rescisória, desde que presentes uma das hipóteses do art. 966 do CPC, sendo certo que a ação rescisória pode ter por objeto apenas 1 (um) capítulo da decisão (art. 966, §3º, do CPC). _____________________________________________________________________________ 19. Em um processo relativo a ação de usucapião, tendo por objeto unidade autônoma de condomínio edilício, o autor, em sua petição inicial, incluiu no polo passivo da demanda não só a pessoa em cujo nome o imóvel estava registrado na serventia imobiliária, como também os titulares dos imóveis confinantes, o que resultava num total de quinze litisconsortes passivos. Apreciando a petição inicial, o magistrado procedeu ao juízo positivo de admissibilidade da ação e, sem designar audiência de conciliação, ordenou a citação dos quinze litisconsortes passivos, alguns dos quais não seriam encontrados. Percebendo que a apuração do paradeiro desses réus retardaria sobremaneira a marcha processual, o autor requereu ao juiz da causa a limitação do litisconsórcio, alegando que este, tal como originalmente formado, comprometeria a rápida solução do litígio. Nesse contexto, caberá ao juiz: (A) indeferir o pleito do autor, que, ao ter incluído no polo passivo da ação quinze litisconsortes, permitiu que a preclusão lógica operasse em seu desfavor; (B) indeferir o pleito do autor, já que o litisconsórcio passivo formado é necessário, não podendo, portanto, ser limitado; (C) deferir o pleito do autor, já que o litisconsórcio passivo formado é facultativo, podendo, portanto, ser limitado; (D) aguardar o exaurimento das tentativas de localização de todos os réus e, com ou sem êxito, apreciar o pleito de limitação do litisconsórcio; (E) pronunciar a falta de legitimidade dos litisconsortes passivos que sejam titulares dos imóveis confinantes, determinando a sua exclusão do processo. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS A única alternativa correta é a letra E. De acordo com o teor do art. 246, § 3º, do CPC, “na ação de usucapião de imóvel, os confinantes serão citados pessoalmente, exceto quando tiver por objeto unidade autônoma de prédio em condomínio, caso em que tal citação é dispensada”. Desse modo, tendo em conta se tratar de unidade autônoma em condomínio edilício, cabe ao Juiz pronunciar a falta de legitimidade dos litisconsortes passivos que sejam 32 titulares dos imóveis confinantes, determinando a sua exclusão do processo, na forma do artigo acima referido. _____________________________________________________________________________ 20. Nos autos de uma ação de procedimento comum, depois de oferecida pelo réu a contestação, na qual havia sido arguida somente defesa direta de mérito, o juiz determinou a intimação do órgão da Defensoria Pública, que patrocinava a causa da parte autora, para apresentar a sua réplica. A peça processual, contudo, não foi oferecida, conforme certificado pela serventia, fato que levou o juiz a ordenar a intimação da Defensoria Pública para que promovesse o andamento do feito. Sem que qualquer outra petição tivesse sido ofertada, o magistrado proferiu sentença por meio da qual julgava extinto o processo, sem resolução do mérito, por ter reputado configurado o abandono unilateral da causa. Inconformado, o defensor público protocolizou recurso de apelação, tendo-o feito quando já decorridos 20 dias úteis, a partir de sua intimação pessoal. No que concerne à sentença terminativa proferida, ela está: (A) correta, razão pela qual não merece ser provida a apelação do autor; (B) errada, embora a apelação do autor não mereça ser conhecida, haja vista a sua intempestividade; (C) errada, embora a apelação do autor não mereça ser conhecida, haja vista a falta de interesse recursal; (D) errada, devendo ser dado provimento à apelação do autor, caso o juiz não se retrate de seu ato decisório; (E) errada, devendo ser dado provimento à apelação do autor, não sendo possível ao juiz retratar-se de seu ato decisório. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS Conforme previsão do art. 485, III e 1º, do CPC, só é possível ao Juiz proceder à prolação de sentença terminativa por abandono das partes se houver prévia intimação pessoal, o que não ocorreu no caso: Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando: (...) III - por não promover os atos e as diligências que lhe incumbir, o autor abandonar a causa por mais de 30 (trinta) dias; 33 § 1º Nas hipóteses descritas nos incisos II e III, a parte será intimada pessoalmente para suprir a falta no prazo de 5 (cinco) dias. Sabe-se, ademais, que a Defensoria Pública gozará de prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais, contados de sua intimação pessoal: Art. 186. A Defensoria Pública gozará de prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais. § 1º O prazo tem início com a intimação pessoal do defensor público, nos termos do art. 183, § 1º . Considerando que o prazo para a interposição de recurso de apelação é de 15 dias úteis (arts. 212 e art. 1003, §5º, do CPC), contados em dobro para a Defensoria Pública, é tempestivo o recurso no caso apresentado. É cabível, por fim, o exercício de juízo de retratação, na forma do art. 485, §7º, do CPC. Sendo assim, deve ser dado provimento à apelação do autor, caso o juiz não se retrate de seu ato decisório. _____________________________________________________________________________ 21. Em um determinado processo, no qual o juiz, sem designar audiência de conciliação, determinou a citação do réu, o oficial de justiça incumbido da diligência compareceu ao seu endereço residencial e, não o tendo encontrado, de imediato suspeitou que estaria ele se ocultando. Logo após, o auxiliar da justiça intimou um vizinho do citando, informando-lhe que, no dia útil imediato, voltaria ao local, em determinado horário, para efetivar o ato citatório. No dia e hora designados, o oficial de justiça retornou à residência do citando e, sem tê- lo encontrado, deu por feita a citação, exarando certidão da ocorrência e deixando contrafé com uma das pessoas que se encontravam no local. Efetivada, então, a citação por hora certa, e decorridos 15 dias após a juntada aos autos do correspondente mandado, o escrivão enviou telegrama ao citando, dando-lhe ciência de tudo. Transcorrido o prazo legal, o réu não apresentou contestação, o que levou