A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
20 pág.
Paleolítico Superior

Pré-visualização | Página 1 de 4

O PALEOLÍTICO SUPERIOR1 
Marcel OTTE. 
Concepção 
Na história das civilizações européias, o Paleolítico superior aparece como um fenôme-
no brutal, rápido, profundo e definitivo. Este aspecto é devido às circunstâncias próprias do 
continente europeu, disposto como uma «península» do mundo antigo. Assim, a história das 
pesquisas arqueológicas na Europa acabaram por acentuar a significação evolutiva sobre os 
planos biológicos e culturais. Após dois séculos de pesquisas, uma coincidência marcou esta 
ruptura; o aparecimento de uma nova forma anatômica humana e um novo comportamento. 
Esta coincidência é indicativa de uma migração de populações vindas de fora, como conse-
qüência deste processo, provavelmente fundamental e próprio da espécie humana, fundamen-
tado sobre um desenvolvimento correlato da anatomia e dos aspectos sociais. Tal fenômeno 
foi universal e ocorreu em toda a humanidade, depois que ela se originou mas, nesse caso 
possuindo um aspecto particular devido a ausência de uma transição lenta. Com o Paleolítico 
Superior tratamos com um fenômeno de ordem histórica (o deslocamento de um povo), bioló-
gica (modificações anatômicas secundárias) e antropológica: a adaptação de manifestações 
culturais a seus novos contextos geográficos (a arte rupestre, por exemplo). 
Tradicionalmente, associamos esse período ao homem de Cro Magnon (Les Eyzies, 
Dordonha) descoberto em 1868 que, juntamente com o Homem de Neandertal (1857) garanti-
ram a noção de evolução da nossa espécie, pois já estavam associados a uma civilização mais 
recente. Esta observação «tranqüilizadora» foi, desde então, muitas outras vezes repetida com 
todas as nuances essenciais acerca da determinação taxonômica (classificação das formas de 
vida) que veremos em seus contextos. 
A respeito da técnica de produção de artefatos, o critério mais evidente está na generali-
zação da utilização de lâminas de pedra como suporte para fabricação de ferramentas. Esta 
técnica não era incomum no Paleolítico Médio, mas adquiriu no Superior tal extensão que foi 
muitas vezes utilizada como critério de definição do período. Não é errado admitir que tal 
«explosão de produção de lâminas» possua um sentido histórico preciso, relacionando-a com 
o período aonde sua produção não foi ocasional. Interpreta-se tal sucesso na produção de lâ-
minas como um reflexo da utilização bastante útil do material lítico em função do surgimento 
de uma tecnologia realmente nova, que é a manufatura de artefatos sobre ossos. 
 
1
 OTTE, Marcel. Le Paléolithique Supérieur. in: La Préhistoire. Bruxelles, De Boeck Université, 1999. 123-
154. Tradução Marcus Vinícius Beber, Revisão Jairo Henrique Rogge. 
 
Com efeito, o trabalho em chifre de rena, em marfim ou osso exige um domínio das fer-
ramentas em pedra feitas a partir de lâminas lineares, que permitam a precisão do gesto e a fa-
cilidade de encabamento para acentuar a força transmitida, a regularidade das formas e das 
dimensões das partes da ferramenta em contato com os materiais a serem trabalhados. Desse 
modo a proliferação de lâminas líticas é testemunho indireto de uma modificação muita mais 
profunda das relações estabelecidas entre a tecnologia, o homem e a natureza. Doravante, o 
mundo animal está integrado, tanto quanto um objeto, ao mundo culturalizado pelo homem. 
Assim, no plano arqueológico, irão aparecer desde o início até o final do Paleolítico Superior 
um conjunto de armas de caça feitas em osso, refletindo uma diversidade de fases, etnias e 
funções. 
Os sítios conhecidos ou escavados, relacionados ao Paleolítico Superior, manifestam 
uma densidade demográfica muito maior do que a vista anteriormente na mesma região (Eu-
ropa). Observa-se uma forte variação funcional de um sítio para outro, parecendo que estão 
realmente especializados, sendo que suas atividades aparecem com mais nitidez. Este fato po-
de ser entendido como o surgimento de «estilos étnicos». Devido sua grande extensão (na es-
cala de um continente inteiro) estes estilos implicam em importantes movimentos sazonais, 
uma grande mobilidade dos grupos em geral e do estabelecimento de uma rede de informa-
ções em grande escala. Tal mobilidade, agora mais marcada, pode corresponder a um aumen-
to no número de atividades de um habitat em relação a outro, mesmo que a gama de ativida-
des não tenha, em si, sido tão diferente com relação ao Paleolítico Médio. 
Finalmente, esta nova relação do homem com seu ambiente pode se traduzir também 
pelo domínio da imagem. Doravante um mundo paralelo institui sua própria evolução, feita de 
uma sucessão de formas, cada vez mais autônomo e marcado pelo espírito em transformação. 
A arte aparece na Europa com o Paleolítico Superior em diferentes modalidades, tendo como 
origem a natureza e desdobrando-se em seus substitutos metafóricos: as «imagens» animais 
ou humanas. Estamos frente à reflexos tangíveis de uma mitologia, forte, bem construída, às 
vezes espetacular e atualmente comovente, justamente pelo que pode nos dizer. 
Cronologia e Ambiente 
Climaticamente, o início do Paleolítico Superior corresponde a uma fase «inter-
pleniglacial» (período entre dois momentos de intensa glaciação, em um mesmo período gla-
cial) de Würm (entre 45 e 40 mil anos a.p.) e segue ao longo da fase glacial seguinte (ou «ple-
niglacial B»), a partir de 40 mil anos a.p. até a fase Tardiglacial final, há cerca de 10 mil anos 
a.p. 
Início das Fases Climáticas Principais da Glaciação de Würm: 
• Inter-pleniglacial: 40 a 45 mil anos a.p. 
• Oscilação D' Arcy Kesselt: 28 a 25 mil anos a.p. 
• Pleniglacial B: de 20 a 25 mil anos a.p. 
• Tardiglacial: 15 a 8,5 mil anos a.p. 
• Dryas 1: 14 mil anos a.p. 
• Bölling: 13 a 12 mil anos a.p. 
• Dryas 2: 11 mil anos a.p. 
• Alleröd: 10 a 9 mil anos a.p. 
• Dryas 3: 8,5 mil anos a.p. 
 
• Holoceno: posterior a 10.500 a.p. 
 
Durante esse período, uma grande instabilidade climática foi observada através de estu-
dos de palinologia e de microfauna. Estes episódios foram mais ou menos rigorosos, mas a 
tendência geral foi de um clima frio, seco, mas ensolarado, com uma fase especialmente rude 
entre 20 e 15.000, reconhecido como «marcador» principal por toda a Europa (Figura 1). A-
lém disso, diversas variações regionais se fizeram sentir em função da latitude, altitude ou dis-
tância do mar. 
 
 
Figura 1. Europa durante o máximo glacial, em cerca de 20.000 anos aP. 
A extensão dos glaciares, variáveis segundo a época, determinaram a existência de uma 
certa quantidade de «corredores» entre os Alpes e a Europa do Norte, facilitando os contatos 
ao longo destes eixos. O nível marinho estava bastante abaixo do atual e as plataformas conti-
nentais estavam expostas e os climas notadamente mais secos. Por exemplo, não existia o Ca-
nal da Mancha nem o mar do Norte e uma vasta planície ligava a Inglaterra à Alemanha e à 
França. As «zonas» geográficas se alinhavam em linhas paralelas, estendidas mais ou menos 
na direção norte-sul: 
1. Tundra: área mais setentrional, bordeando os glaciares. Vegetação composta de mus-
gos, liquens e de árvores de pequeno porte; a fauna compreendia a rena e o bisonte; 
2. Taiga ou Estepe arbustiva: área que bordeia a tundra, com vegetação de pinheiros, 
salgueiros e bétulas, com uma fauna de cavalos e antílopes, mamutes e rinocerontes lanudos; 
3. Área Florestada: em regiões mais meridionais, apresentando uma fauna de cavalos, 
javalis e veados; 
4. Zonas Úmidas: com veados; 
5. Zonas Montanhosas: especialmente com cabrito montês. 
Anatomia 
Antes do Cro-Magnon (1858) já haviam sido descobertos restos humanos modernos as-
sociados ao Paleolítico Superior, com a forma Neandertal, mas estas descobertas foram rapi-
damente esquecidas. A "Red Lady" de Paviland, Inglaterra, foi