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MUSICOTERAPIA E ARTETERAPIA AULA 2 Prof. José Augusto Pereira Navarro Lins 2 CONVERSA INICIAL Após o primeiro contato com alguns aspectos da prática profissional musicoterapêutica, conheceremos um pouco a respeito das experiências musicais e os efeitos que essas experiências podem gerar no nosso organismo. Novamente, tomaremos como base o livro Definindo musicoterapia, de Bruscia (2016), dialogando com artigos, teses e dissertações que contribuam para uma compreensão contextualizada do tema. Também seremos provocados a refletir a respeito de mais alguns aspectos das relações entre o homem e a música. Considerando a natureza polissêmica (com vários significados) e transdisciplinar da música, no Tema 1 teremos contato com a experiência musical, analisando seus diferentes prismas, sempre partindo de um olhar musicoterapêutico. Já no Tema 2, observaremos os níveis de experiência musical e como esta qualidade influi na abordagem musicoterapêutica. No Tema 3, apresentaremos alguns efeitos biológicos da música e de que maneira estes podem estar relacionados à prática musicoterapêutica. Continuaremos nossos estudos, conhecendo alguns efeitos psicoemocionais da música no Tema 4 e efeitos intelectuais no Tema 5. Vale lembrar que o objetivo desta leitura não é habilitar à prática musicoterapêutica, mas sim ampliar a forma de concepção do leitor a respeito da música e da experiência musical, bem como conhecer algumas de suas aplicabilidades musicoterapêuticas. TEMA 1 – EXPERIÊNCIA MUSICAL Primeiramente, é importante esclarecer que utilizamos o termo experiência musical assim como é trazido por Bruscia (2016, p. 119), já que “o agente da terapia é entendido não apenas como a música (i.e., um agente externo ao cliente), mas também como a experiência do cliente com a música (i.e., a interação entre pessoa, processo, produto e contexto, e a interação entre as pessoas)”. Isso quer dizer que o cliente acessa, aborda, elabora, recria situações e resolve diferentes questões terapêuticas diretamente por meio da experiência que tem com a música. No livro Definindo musicoterapia, Kenneth Bruscia (2016, p. 125) escreve que “existem quatro tipos de experiências distintas: improvisar, recriar (ou executar), compor e ouvir. Cada um desses tipos de experiência musical tem 3 suas próprias e únicas características, e cada uma é definida por seus próprios processos específicos de envolvimento”. O autor define e discorre a respeito do tema, partindo do ponto de vista do terapeuta, pensando nessas experiências musicais como potenciais ferramentas para o trabalho musicoterapêutico – este será também o nosso prisma principal. No entanto é impossível pensar na experiência musical sem considerar a individualidade de cada pessoa que se permite às diferentes formas de experimentar a música. Para pensarmos em como esta individualidade influencia toda a experiência de cada indivíduo, vamos trazer uma reflexão baseada em conceitos da fenomenologia, a qual foi postulada em textos elaborados por Immanuel Kant (1724-1804). De uma forma bastante simplificada, com um olhar fenomenológico, a capacidade humana de conhecer a realidade integral do mundo é limitada. Assim, uma pessoa é capaz de compreender a realidade em função daquilo que lhe é acessível ao seu intelecto. Assim, não sendo possível acessar o conhecimento em sua integralidade, a consciência humana aprende apenas os fenômenos acessíveis pelos sentidos (Scruton, 1983, citado por Malaquias, 2020, p. 51). Nossos sentidos podem ser entendidos como nossos receptores que geram mobilizações neurais e intelectuais que são processadas e chegam a um conceito, ideia, memória etc. Esse aspecto da percepção humana nos leva à individualidade das pessoas, pois cada um percebe o mundo por meio dos seus órgãos dos sentidos, com base nas experiências prévias com o fenômeno. A natureza dessas experiências prévias pode influenciar diretamente em toda a experiência. Se pensarmos nos contatos prévios que o paciente possa ter com a música, por exemplo, podemos imaginar um indivíduo que domine a linguagem musical pode ter sua escuta e expressão sonoro-musical determinada por certos regramentos da linguagem musical (pulso, ritmo, tonalidades, harmonias, melodias etc.), percebendo muitos signos e significados musicais que talvez um leigo completo a respeito da linguagem não venha a perceber. É muito importante atentar que esta afirmação não tem julgamento de valor, não é melhor ou pior. Essa característica da experiência musical é do indivíduo e é contextualizada no processo musicoterapêutico, bem como nos objetivos terapêuticos delineados pelas partes envolvidas (musicoterapeuta e cliente). O que tentamos expor é que aspectos individuais, como o conhecimento prévio em música, pode influenciar a experiência musical. Um exemplo extremo, 4 contraditório e provocativo: imagine a experiência musical de um paciente inconsciente em um hospital. Como será essa percepção? Podemos estender a reflexão para aspectos relacionados às crenças, valores e preconceitos, aspectos comportamentais e emocionais, a saúde mental... novamente, o que vale é a reflexão sobre a forma como aspectos individuais influenciam as experiências musicais e não conjecturar conceitos e julgamentos. Saiba mais Verifique a atividade prática 1 – Cada um escuta com o ouvido que tem. Assim, é imprescindível termos em mente os níveis da experiência musical do cliente, para entendermos como as experiências musicais se caracterizam como o caminho do processo musicoterapêutico, ou como ferramenta do musicoterapeuta em diferentes contextos profissionais. TEMA 2 – NÍVEIS DE EXPERIÊNCIA Para pensarmos nos níveis de experiência que as pessoas possam ter com a música, devemos compreender que nem sempre a experiência gera produção sonora musical, compreensão de conceitos e conteúdos musicais. Bruscia (2016, p. 119) traz que: a experiência do cliente pode ser pré-musical, musical, extramusical ou mesmo não musical, dependendo do quanto a “música” está envolvida nas experiências. Qualquer uma dessas experiências pode ser terapêutica. Assim, dizer que a musicoterapia envolve apenas o uso da música, ignorando todos os outros possíveis componentes da experiência musical, é negar totalmente a riqueza da experiência musical e sua miríade de potenciais terapêuticos. O autor atenta para o fato de que, em musicoterapia, não somente o produto sonoro produzido (música) é o que importa, não é uma questão de estética musical, mas sim a experiência do cliente com aquela vivência. As mobilizações internas que essas experiências lhe proporcionam, as elaborações mentais, emocionais, as relações sociais e interpessoais, enfim... Antes de mergulharmos conceitualmente nos níveis de experiência musical, os quais os pacientes e demais pessoas podem experimentar em musicoterapia, devemos compreender que as experiências musicais possuem duas naturezas principais de relação: os processos receptivos e os processos ativos. De acordo com Bruscia (2016, p. 121), eles se definem da seguinte maneira: 5 • Processos ativos: esses processos podem ser vivenciados pelo cliente (quando ele improvisa, compõe, canta ou toca um instrumento, com ou sem o auxílio do terapeuta); também pode ser vivenciado pelo terapeuta, (quando este improvisa, compõe, canta ou toca um instrumento, com ou sem o cliente); nas duas situações, são sempre os contextos terapêuticos e o andamento do processo terapêutico do cliente quem determinará a natureza da experiência proposta; • Processos receptivos: estes processos também podem ser vivenciados pelo cliente (quando ele ouve, percebe e interpreta as produções musicais apresentadas ou criadas pelo terapeuta, quando ouve suas próprias produções ou suas produções criadasem parceria com o terapeuta); também pode ser vivenciado pelo terapeuta (quando este ouve, percebe e interpreta as produções musicais apresentadas ou criadas pelo cliente, criada por si próprio ou em parceria com o cliente). É importante perceber que esses dois processos não possuem uma relação antagônica ou oposta, uma vez que a escolha dos termos ativa e receptiva foi feita justamente para demonstrar que, em música, não existe um processo passivo de experiência, já que, ao ouvir música, mergulhamos em uma experiência sonora que invariavelmente nos estimula os pensamentos, reações neurológicas, mentais, psicológicas, reações emocionais e respostas corporais. Saiba mais Verifique a atividade prática 2 – Pulsação, ciranda e questão. 2.1 Pré-musical (Bruscia, 2016, p. 121) Produções pré-musicais são aquelas que são insuficientemente desenvolvidas, organizadas ou completas para serem consideradas intrinsicamente musicais; também pode ser uma produção cuja função é mais sinal comunicativo do que propriamente uma expressão musical. Como exemplo, podemos incluir vibrações aleatórias, formas vibratórias, sinais elétricos musicais, ritmos motores, ritmos visuais, sons naturais ou ambientais, sons de animais, sons instrumentais ou corporais desorganizados, vocalizações aleatórias, balbucios ou prosódias. 6 2.2 Musical (Bruscia, 2016, p. 121-122) São produções cujas sonoridades são suficientemente controladas ou organizadas de forma a criar relações que são musicalmente significativas. Embora essa sonoridade possa representar, descrever ou referir-se a algo além dela própria, seu significado primário apoia-se nas relações musicais existentes entre os sons simultâneos e sucessivos. Isso fica claro quando percebemos que essas produções são organizadas de acordo com elementos musicais básicos (pulsação, ritmo, escala, tonalidade, melodia, harmonia, textura, timbre, dinâmica etc.), bem como quando essas produções criam formas musicais como temas, frases, improvisos, composições, execuções etc. É importante saber que os esforços intencionais de ouvir ou escutar música é considerada uma experiência musical, pois é feito um esforço cognitivo e intelectual para perceber, apreender e experiências as relações e os significados intrínsecos da música, envolvendo a espera, a percepção, discriminação e análise sonora, a avaliação e a interpretação musical, a memorização e a relembrança, o sentir, o preferir etc. 2.3 Extramusical (Bruscia, 2016, p. 122) As produções extramusicais são entendidas como os aspectos não musicais da música ou da experiência musical que se originam, afetam ou retiram o seu significado. Podemos pensar na letra, em histórias ou dramas representados na música. Estes elementos podem possuir significado por si próprios ou podem depender da música para lhes dar significado. A música é independente dos elementos extramusicais para que se perceba seu significado essencial, apesar de esse significado ser intensificado ou ampliado por causa dos elementos extramusicais. Por conta dessa dupla camada de significados, o ouvinte pode colocar a música no primeiro plano da experiência, mantendo os elementos extramusicais em segundo plano, ou fazer o inverso, centrando-se nos elementos extramusicais para obtenção de significados. Como exemplos desses processos, temos comportamentos e reações à música que não envolvem fazer música, mas que se originam da experiência musical vivenciada. Realizar movimentos e mímicas, dramatizando, 7 desenhando, pintando, esculpindo, imaginando, fantasiando, falando ou escrevendo são tipos de respostas extramusicais. No entanto, é importante notar que, para perceber se tais respostas estão centradas na música ou nos elementos extramusicais, o terapeuta deve conhecer a música que conduz à experiência, bem como ter um olhar ou escuta clínica apurada para conseguir ler os comportamentos e respostas de seu cliente/paciente. 2.4 Paramusical (Bruscia, 2016, p. 123) Estas são produções cujos aspectos do ambiente musical se impõem ao indivíduo enquanto ele ouve ou faz música e não se relacionam intrinsecamente com a música, não dependendo dela para obter significado. São comportamentos ou reações que ocorrem dentro do contexto da atividade musical, mas que não são musicais em sua intenção ou conteúdo. Essas respostas podem surgir quando a música está presente no ambiente, no entanto não dependem da música para obter-se significado: distrair-se, sonhar acordado, conversar algo que não seja a música, praticar outra atividade com fundo musical podem ser exemplos desse tipo de produção. 2.5 Não musical (Bruscia, 2016, p. 123) São produções do cliente que não possuem significado se levarmos em conta os estímulos ou as respostas surgidas por meio da música. Pensamento, comportamentos ou reações que não possuem intenção ou significado musical que não se derivam, afetam ou retiram seu significado de uma atividade musical. 2.6 Concluindo Como acabamos de ler, esses níveis de experiência musical são percebidos pelo musicoterapeuta ao observar, escutar e analisar as diferentes naturezas de produções de seu cliente quando de uma experiência musical musicoterapêutica. Essa capacidade de avaliar e perceber o cliente é desenvolvida tanto com o desenvolvimento da percepção musical do terapeuta quanto com o treinamento da postura musicoterapêutica desenvolvida durante os estágios, supervisões e práticas profissionais dos musicoterapeutas. Por isso é que salientamos ainda mais a importância de se saber que a musicoterapia é 8 uma prática profissional que deve ser exercida por profissionais habilitados e capacitados para o seu exercício. TEMA 3 – EFEITOS BIOLÓGICOS DA MÚSICA A experiência musical, receptiva ou ativa é uma experiência física. As vibrações sonoras oriundas da música entram em todas as partes do corpo de qualquer ser vivo que esteja em sua presença. Não se limita apenas ao caminho que se inicia no nosso ouvido e chega até o nosso cérebro, onde são processados e transmitidos ao longo de todo o sistema nervoso; ela adentra os organismos via outros sentidos e pele para todos os ossos, tecidos, órgãos internos, músculos e assim por diante (Bruscia, 2016, p. 135). Assim, é impossível compreender a natureza dos efeitos da música nos indivíduos isoladamente. Os efeitos biológicos acontecem simultaneamente às mobilizações psicoemocionais e intelectuais da música, além de poder estar relacionada a uma prática em grupo, envolvendo a socialização. Entretanto, podemos observar alguns aspectos neurológicos e achados clínicos que contribuem para uma abordagem biológica sobre os efeitos da música. Nobre et al. (2012, p. 630) discutem a respeito das funções musicais e contribuem para nossa reflexão, apontando que as funções musicais são complexas, múltiplas e de localização assimétricas, envolvendo o hemisfério direito para altura, timbre e discriminação melódica e o hemisfério esquerdo para ritmos, identificação semântica de melodias, senso de familiaridade, processamento temporal e sequencial dos sons. No entanto, a lateralização das funções musicais pode ser diferente em músicos, comparado aos indivíduos sem treinamento musical, o que sugere um papel da música na chamada plasticidade cerebral. Nessa colocação, já temos alguns dos efeitos neurológicos da música que surgem pela sua natureza de ação e processamento orgânico e, assim, quando contextualizado dentro de uma prática terapêutica, encontramos entrelaces da estimulação musical e a plasticidade cerebral, muito discutida nos dias atuais. A seguir, teremos alguns trabalhos que nos ajudam a perceber as possibilidades clínicas desses efeitos. 3.1 Possibilidades clínicas As ondas sonoras já foram associadas ao tratamento das dores físicas, possuindo efeito analgésico e até mesmo anestésico(Bontempo, 1992, p. 11). 9 Além disso, pacientes que escutam melodias relaxantes antes de uma cirurgia costumam experimentar menos temor e necessitam, portanto, de uma dose menor de anestésico. Isso já foi e é associado à prática odontológica, em procedimentos nos quais a anestesia é renunciada porque a música que o paciente escuta pelos fones de ouvido consegue acalmá-lo e, por vezes, até impor-se ao ruído irritante da broca (Adams et al., 2001, p. 175). Diversos autores apontam para os efeitos clínicos do tratamento vibroacústico, que se caracteriza por uma aplicação de vibrações sonoras, produzidas por harpas, mesas vibroacústicas, entre outras ferramentas que geram vibrações de frequências pré-concebidas a fim de atingir determinadas regiões do corpo, produzindo efeitos benéficos aos pacientes. Desde a ação no tônus muscular em pacientes paralíticos cerebrais, produzindo relaxamento muscular e menor intensidade de espasmos musculares. Quando associada à fisioterapia, o tratamento vibro-acústico promoveu ampliação do movimento em pacientes idosos submetidos a cirurgias ortopédicas; alívio da dor causada por condições como poliatrite, reumatismo, cólicas, fibromialgia, entre outras (Teixeira, 2019, p. 31-32). Em uma revisão bibliográfica a respeito dos benefícios do uso da música no setor da saúde, Oliveira et al. (2014, p. 872) apontam resultados dos efeitos da utilização da música no contexto da ginecologia, obstetrícia e neonatologia que já foram constados em diferentes pesquisas, dentre os quais a minimização dos desconfortos do parto, a melhora na adaptação do bebê nos primeiros meses de vida, influindo inclusive em lactentes, havendo resultados benéficos como ganho de peso, melhora na saturação de oxigênio, regulação da frequência cardíaca, respiratória e na temperatura corporal. No setor da nefrologia, pesquisas nacionais apontaram para os benefícios de indivíduos que realizavam hemodiálise, dentre os quais estavam o relaxamento e a ausência de alguns sintomas (Oliveira et al., 2014, p. 873). A música demonstra influência no sistema cardiovascular, o que envolve desde a regulação da frequência cardíaca ao controle da pressão arterial (Oliveira, 2014, p. 874). Por outro lado, estudos apontam que o aumento da velocidade das pulsações musicais (andamento) gerou efeito excitatório, aumentando o ritmo respiratório, aumentando a pressão arterial e da frequência cardíaca em resposta à ativação do sistema nervoso simpático (Bernardi, 2006, citado por Nobre et al., 2012, p. 626). 10 Em um estudo em que se avaliou o efeito da música sobre a sensação de náuseas e vômitos associados à quimioterapia, Silva (2014, p. 634) aponta que com relação ao escore de náusea e vômito houve redução estatisticamente significativa, assim como em outro estudo que utilizou também técnica não farmacológica para controle desses sintomas, evidenciando que apenas a abordagem farmacológica não é suficiente para o controle total dos mesmos em pacientes submetidos à quimioterapia de alto e moderado potencial emético [...], confirmando a hipótese dos autores de que tais efeitos poderiam ser reduzidos com as experiências musicais. Estudos demonstraram que sujeitos que realizaram um treinamento de caminhada em grupo acompanhado de fundo musical sincronizado às passadas tiveram significativa melhora na coordenação motora se comparado com o grupo controle (Shauer; Mauritz, 2003, citados por Souza; Silva, 2010, p. 37). Sobre os efeitos da música no contexto neurológico, o pesquisador, neurologista e escritor Oliver Sacks já mencionou diversos efeitos, considerados milagres da música em relação a pacientes com Doença de Parkinson: em 1991, Dr. Sacks depôs perante o Comitê Especial para o Envelhecimento do Senado dos Estados Unidos sobre o poder terapêutico da música no tratamento de problemas neurológicos. Em seu testemunho, descreveu o caso de Rosalie, uma doente do Beth Abraham com Doença de Parkinson, que permanecia paralisada, completamente imóvel, a maior parte do dia, normalmente com um dedo sobre os óculos. “Mas ela toca piano muito bem e durante horas, quando toca, os sintomas da doença desaparecem e ela tem fluência, facilidade, liberdade e normalidade”, declarou Sacks ao comitê (Campbell, 2001, citado por Corte; Lodovici Neto, 2009, p. 2300) Finalizando, esses são alguns dos efeitos biológicos da música comprovados cientificamente a partir de dados clínicos e pesquisas acadêmicas. No entanto, devemos ter em mente que, como uma área nova na história da humanidade, a musicoterapia, aliada às ciências biológicas e médicas ainda irá nos apontar outras possibilidades e ações que até então são desconhecidas. TEMA 4 – EFEITOS PSICOEMOCIONAIS DA MÚSICA Antes de pensarmos nos efeitos psicológicos e emocionais da experiência musical, devemos ter em mente que características individuais dos sujeitos que vivenciam a música influem e até mesmo determinam a natureza da ação e resposta ao estímulo musical. Basta pensarmos nas experiências anteriores das pessoas com determinados gêneros musicais para percebermos como o gosto por um determinado gênero pode criar reações positivas ou negativas em 11 relação à experiência. Aspectos culturais como os valores religiosos, filosóficos e ideológicos podem determinar uma abertura ou fechamento para determinado tipo de experiência musical. Imagine de que maneira um canto sagrado indígena, um hino nacional, um samba de terreiro, um funk proibidão podem soar nos ouvidos de pessoas diferentes com conceitos e níveis de tolerância diversos... Concluindo, o que traremos agora são algumas pontuações teóricas a respeito da música e da mente, música e emoção, bem como alguns estudos práticos que comprovam sua utilização e efeitos clínicos. Os pesquisadores de Sá e Mendes (2017, p. 112), ao revisarem a literatura brasileira a respeito dos temas psicologia e música, concluem que “a música transmite ideias e ideais, possibilitando o indivíduo se relacionar consigo mesmo, com os outros e com o todo que o circunda, ou seja, o mundo ou a sociedade. A Psicologia com igual finalidade ainda permite a reflexão dos ideais do mesmo e que, em determinados casos, são corroborados pela música”. De alguma maneira, a musicoterapia voltada à praticas psicoterapêuticas se relaciona com essa forma de entender os efeitos e possibilidades da música e psicologia. Isso porque, de maneira geral, a musicopsicoterapia visa ajudar os clientes a encontrar significado e completude em suas vidas, já que a música pode favorecer a promoção de maior autoconsciência, bem como a resolução de conflitos internos pode canalizar e possibilitar a liberação emocional e a autoexpressão. Ainda nesse contexto, a música pode promover transformações nas emoções e atitudes, bem como pode estar associada à promoção de experiência que provoquem uma melhoria nas habilidades interpessoais, resolvendo problemas, auxiliando no desenvolvimento de relacionamentos saudáveis, bem como a cura para traumas emocionais. Pode auxiliar o cliente a conduzir sua busca por uma compreensão interna mais profunda, uma orientação à realidade ou reestruturação cognitiva, como também à mudança de comportamentos (Bruscia, 2016, p. 206). Todas essas possibilidades de relação entre a experiência musical e os aspectos psicológicos estão vinculados à natureza dos processos perceptivos, cognitivos, motores, emocionais e psicossociais envolvidos nessa experiência. Pesquisas apontam que a exposição à música estimula a atividade cognitiva, atuando também sobre áreas cerebrais afetadas por derrame, auxiliando ainda na atenuação da depressão nesses pacientes (Antunha, 2010, p. 239). 12 Outras pesquisas apontam a experiência musical gerando sensações de bem-estar, de alegria e felicidade, de realização, de geração de condutas (Sá; Mendes, 2017,p. 99). Neste mesmo trabalho de revisão, os autores apontam que “as ondas sonoras musicais podem estimular ou alterar o funcionamento das ondas cerebrais, sendo um possível instrumento de intervenção clínica” (Sá; Mendes, 2017, p. 100). Eles prosseguem com a reflexão apontando estudos que trazem a música “como um amparo significativo para a redução ou alívio da tensão emocional vivenciada pelo indivíduo, o que possibilitará que este supere dificuldades, propiciando vivências satisfatórias de eventos ou situações anteriormente vistas como um momento difícil” (Sá; Mendes, 2017, p. 102). Ainda sobre a música e os processos psicoemocionais, Muszkat (2012, citado por Soares e Rubio, 2012, p. 6) afirma que a educação musical favorece a ativação dos neurônios espelho, que são um grupo de células que parecem estar relacionadas com os comportamentos empáticos, sociais e os imitativos. Sua missão é refletir a atividade que nós estamos observando. Tais neurônios são essenciais para a cognição social humana, que é formada por um conjunto de processos cognitivos e emocionais responsáveis pelas funções de empatia, ressonância afetiva e compreensão de ambiguidades na linguagem verbal e não verbal. De acordo com este autor, a música tem potencial para reorganizar e redimensionar o cérebro. Percebemos como a experiência musical atua tanto fisiológica quanto psicologicamente, tendo reflexos nas áreas do comportamento, afetividade e comunicação. Além disso, Weigsding e Barbosa (2014, p. 48) contribuem com a discussão ao afirmarem que a música tem uma representação neuropsicológica extensa, com acesso direto à afetividade, controle de impulsos, emoções e motivação. Ela pode estimular a memória não verbal por meio das áreas associativas secundárias as quais permitem acesso direto ao sistema de percepções integradas ligadas às áreas associativas de confluência cerebral que unificam as várias sensações. Exemplo pode ser dado referindo-se à sensação gustativa, olfatória, visual e proprioceptiva as quais dependem da integração de várias impressões sensoriais num mesmo instante, como a lembrança de um cheiro ou de imagens após ouvir determinado som ou determinada música. O conjunto dessas atividades motoras e cognitivas envolvidas no processamento da música é chamado de função cerebral. Percebemos como a experiência musical se relaciona direta e indiretamente com o funcionamento psíquico dos seres humanos. Muitos desses efeitos possuem ação em diferentes aspectos do desenvolvimento humano. O próximo tema nos trará os efeitos intelectuais da música e será importante perceber como todos esses efeitos biológicos, psicoemocionais e intelectuais da 13 música não podem ser compreendidos de maneira isolada, havemos de considerar ações cruzadas e efeitos múltiplos da música em diferentes contextos. Saiba mais Verifique a atividade prática 3 – Um teste de tolerância. TEMA 5 – EFEITOS INTELECTUAIS DA MÚSICA De acordo com o dicionário Michaelis Online ([S.d.]), o intelecto pode ser definido como a “faculdade do entendimento humano, do raciocínio e da compreensão, da inteligência”. Além disso, o dicionário traz uma definição baseando-se num prisma filosófico e, segundo a filosofia aristotélica, o intelecto é “aquilo que transforma as sensações em percepções abstratas, levando-as a um conceito” (Michaelis Online, [S.d.]). Portanto, temos aqui dois aspectos principais que se relacionam com a prática musicoterapêutica e os efeitos intelectuais da música: o raciocínio e a transformação das sensações em percepções e conhecimento. Talvez, possamos pensar nos processos de aprendizagem como processos em que o intelecto humano mais trabalha e, sendo assim, a música pode contribuir com a aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento cognitivo/ linguístico, psicomotor e socioafetivo da criança, pois, já que estão todos correlacionadas, as áreas indissociáveis formam um único ser provido de necessidades, seja social, seja afetiva (Soares; Rubio, 2012, p. 1). Howard Gardner, psicólogo e pesquisador de cognição e educação, trouxe contribuições para esse entendimento em sua teoria das inteligências múltiplas, que compreende que o ser humano possui várias maneiras diferentes de processar informações, havendo assim, diferentes facetas da inteligência e, portanto, diferentes formas de desenvolver o intelecto humano. De acordo com Cazé (2018, p. 19-20), Gardner define nove inteligências distintas: Linguística: é o tipo de capacidade exibida em sua forma mais complexa, talvez pelos poetas. Lógico-matemática: como o nome implica, é a capacidade lógica e matemática, assim como a capacidade cientifica. Espacial: é a capacidade de formar um modelo mental de um mundo espacial e de ser capaz de manobrar e operar utilizando esses modelos. Musical: é a quarta categoria identificada. Leonard Bernstein a possuía em alto grau, Mozart presumivelmente ainda mais. 14 Corporal-cenestésica: é a capacidade de resolver problemas, ou de elaborar produtos usando o corpo inteiro, ou partes do corpo. Interpessoal: é a capacidade de compreender as outras pessoas: o que as motivam, como elas trabalham, como trabalhar cooperativamente com elas. Intrapessoal: um sétimo tipo de inteligência, é a capacidade correlativa voltada pra dentro. É a capacidade de formar um modelo acurado e verídico de si mesmo e utilizar esse modelo para operar efetivamente na vida. Natural: sensibilidade com a natureza, para o entendimento da mesma e desenvolvimento de habilidades biológicas. Personalidade famosa com esse tipo de inteligência: Charles Darwin, Richard Dawkins. Existencial: capacidades filosóficas, refletir sobre a existência e a vida. Personalidade famosa com esse tipo de inteligência: Nietzsche, Descartes Com base nessa forma de compreensão da inteligência, percebemos que os efeitos da experiência musical, seja ela ativa ou receptiva, não se limitam a um aspecto do intelecto humano. Para compreendermos de que maneira a música influencia em seu desenvolvimento, Beatriz Ilari (2003, p. 9-10) organiza oito sistemas do neurodesenvolvimento que podem nos auxiliar: 1. Sistema de controle da atenção – responsável pelo direcionamento e distribuição da energia mental dentro do cérebro. É esse controle que mantém a criança concentrada, permitindo que dê atenção exclusiva a uma determinada tarefa e ignore as distrações. 2. Sistema da memória – responsável pelo armazenamento de informações, é importantíssimo no aprendizado de qualquer disciplina. Devido ao fato de a música ser uma arte temporal (isto é, que existe num determinado tempo e espaço), o sistema da memória tem uma importância fundamental para a educação musical. 3. Sistema da linguagem – responsável pela detecção dos diferentes sons de uma língua, pela habilidade de compreender, lembrar e utilizar um vocabulário novo, pela capacidade de expressão de pensamentos na forma da fala ou escrita, e pelo ritmo de compreensão com que o indivíduo atende às explicações e instruções verbais. 4. Sistema de orientação espacial – responsável pela capacitação do indivíduo para lidar ou criar informações organizadas em Gestalt, em padrões visuais ou em configurações específicas. A orientação espacial nos permite perceber que várias partes se encaixam em um todo, como num quebra-cabeça. 5. Sistema de ordenação sequencial – responsável pela capacitação do indivíduo para lidar com as cadeias de informação que têm uma ordem ou sequência. No caso da música, é esse sistema que permite ao aluno compreender o conceito de escalas e sequência musical. 6. Sistema motor – responsável pelas conexões entre o cérebro e os diversos músculos do corpo humano. Por exemplo, o sistema motor possibilita que uma determinada criança toque violino ou pratique um esporte. 7. Sistema do pensamento superior – responsável pelo raciocínio lógico, pela resolução de problemas, pela formaçãoe utilização de conceitos, pela compreensão de como e onde as regras são aplicadas e válidas, e pela percepção do ponto central de uma ideia complexa. 8. Sistema do pensamento social – responsável pela capacidade de interagir através de relações interpessoais e de pertencimento em um grupo. Na educação musical, é o sistema de pensamento social que permite que as crianças façam música de câmara ou cantem juntas em um coral. 15 Esses sistemas são criados desde o nascimento de um indivíduo, e tudo indica que, do nascimento até os 10 anos de idade, o cérebro está em pleno desenvolvimento, apresentando as melhores condições de aprendizado, o que é chamado de janelas de oportunidades. O desenvolvimento desses sistemas, por sua vez, auxilia no desenvolvimento das diversas inteligências, sendo que os estímulos, desde que não em demasia, podem beneficiar o neurodesenvolvimento para o cérebro como um todo (Ilari, 2003, p. 14). As experiências musicais são capazes de estimular diversos, senão todos esses sistemas, inter-relacionando os processamentos intelectuais, tendo efeito sobre diferentes formas de inteligência. Por exemplo, cantar auxilia no aprendizado musical, no desenvolvimento da afetividade e na socialização, e também no progresso da aquisição da linguagem (Ilari, 2003, p. 14). Quando esse cantar é acompanhado por gestos e movimentos corporais, pode estimular os sistemas da linguagem, da memória e de ordenação sequencial por meio do canto e desenvolver os sistemas de orientação espacial e sistema motor, além de desenvolver o sistema do pensamento social (Ilari, 2003, p. 15). Sobre os jogos musicais, a autora comenta que: os jogos acontecem em aulas coletivas, o que obviamente visa a estimulação dos sistemas de orientação espacial e do pensamento social. Jogos de memória de timbres, notas e instrumentos, dominós de células rítmicas ou instrumentos musicais e brincadeiras de solfejo podem ativar os sistemas de controle de atenção, da memória, da linguagem, de ordenação sequencial e do pensamento superior. Já os jogos que utilizam o corpo, tais como mímica de sons imaginários, brincadeira da cadeira, cantigas de roda, encenações musicais e pequenas danças podem incentivar o sistema da memória, de orientação espacial, motor e de pensamento social, entre outras (Ilari, 2003, p. 15) Aprender a tocar um instrumento musical é, além de um prazer, um processo cognitivo que envolve diferentes facetas da nossa inteligência. Envolve desde o sistema de atenção e memorização, orientação espacial, ordenação sequencial, coordenação motora, pensamentos superiores, socialização. Já o ato de compor e improvisar, envolve a experimentação com sons, a utilização do ouvido interno e a resolução de problemas. Ao compor uma música, são mobilizados os sistemas de controle da atenção, da memória, da linguagem, de ordenação sequencial e de pensamento superior, entre outros (Ilari, 2003, p. 15). Apesar de a autora estar referenciando a prática didática da música dentro do contexto escolar, em termos de experiência musical, a prática musicoterapêutica envolve os pacientes em vivências da mesma natureza, com 16 objetivos e contextos diferentes. Para compreendermos isso, basta imaginar a seguinte situação: uma prática de escuta musical (uma obra de Johann Sebastian Bach), em que os participantes irão ouvir a obra sentados ou deitados, depois conversam sobre o que ouviram, relatam suas percepções e suas sensações. Então ouvem novamente, agora buscando lembrar e identificar os elementos abordados pelo grupo. Por fim, ouvem a música enquanto se movimentam, buscando representar esses elementos. Agora, refletindo superficialmente sobre a natureza dessa prática, essa proposta dentro de uma escola pode ter inúmeros objetivos e conteúdos pedagógicos e musicais a serem desenvolvidos com os alunos. Escuta musical, atenção auditiva, distinção de timbres, percepção musical, gêneros musicais, compositores influentes, coordenação motora, trabalho com a percussão corporal, trabalhos de grupo, enfim, uma infinidade de objetivos que estão relacionados a diferentes formas da inteligência e do conhecimento. Esta mesma experiência em um grupo de idosos de uma casa de repouso ou lar de idosos pode ganhar outros significados, já que são outras pessoas, com outros objetivos. Os efeitos da música sobre os processos intelectuais neste segundo contexto nos aproximam da reabilitação cognitiva, estimulação de movimentos corporais, estímulo a memória, ao pensamento, a socialização etc. Independente da área de atuação do profissional, as experiências musicais se apresentam como um agente terapêutico ou uma terapia auxiliar que pode trazer inúmeros benefícios à saúde das pessoas. NA PRÁTICA Prática 1 – Cada um escuta com o ouvido que tem Esta é uma proposta de escuta musical. Como se trata de uma proposta de escuta, será necessário ter um dispositivo de reprodução de áudio e um fone de ouvido, ou caixas de som com boa qualidade de som. A obra sugerida é Japurá River, uma composição de Philip Glass para o grupo brasileiro Uakti, registrada no álbum Águas da Amazônia. 17 Saiba mais GLASS: Águas da Amazônia – Japurá River. Uakti – Tema, 30 jul. 2018. Disponível em: . Acesso em: 21 jul. 2021. Também está disponível em perfis de streaming de música do grupo Uakti (Spotify, Deezer, Apple Music, YouTube Music etc.). Com o áudio preparado: 1. posicione-se confortavelmente para escutar a música; 2. ao término, questione-se ou questione o grupo de estudo: o que ouvimos? – esta pergunta tem um caráter aberto, não é necessário fazer direcionamentos temáticos (percepção musical, mobilizações emocionais, pensamentos e sensações, memórias etc.). O importante é que emane dos ouvintes a sua percepção primária a respeito da música; 3. posicione-se confortavelmente para escutar a música novamente; 4. então direcione uma outra pergunta ao grupo ou a si próprio: quais foram suas percepções musicais da obra? 5. para encerrar, refletir sobre como cada um percebe e conceitua a música de formas diferentes, a partir de suas referências. Pense a respeito da individualidade. Prática 2 – Pulsação, ciranda e questão Esta é uma proposta de prática musical (percussão corporal e improviso) com base em uma pulsação, um batimento regular que sustenta a música. O pulso é um elemento musical percebido por meio dos sentidos; é derivado dos ritmos naturais dos movimentos corporais e que guiam a música e a dança. A ciranda é uma dança e um ritmo tradicional de muitos estados brasileiros, sobretudo em Pernambuco e na Paraíba. Em uma análise superficial, ela se caracteriza como uma dança circular com coreografia relativamente simples, em que os brincantes acompanham o compasso da música, marcada com um tambor (alfaia, bumbo, zabumba). Cada tempo do compasso é um passo que é dado. Inicia-se com o pé esquerdo, girando a roda para a direita. A seguir, uma partitura rítmica que demonstra a pulsação em um compasso de quatro tempos, com a acentuação no primeiro tempo. 18 Figura 1 – Partitura rítmica A proposta deve ser realizada em duas ou mais pessoas e consiste em: 1. todos juntos, marcar este compasso de quatro tempos com palmas, contando a pulsação (1-2-3-4); 2. todos juntos, marcar o compasso, acentuando o primeiro tempo (1-2-3-4), com uma palma mais forte; 3. individualmente, um de cada vez irá improvisar um ritmo enquanto os demais continuam marcando o compasso e sua acentuação; 4. após todos improvisarem, refletirem e conversarem a respeito dos seguintes aspectos: a. qual o nível de experiência cada um teve no primeiro momento (1.)? Pré-musical, musical, extramusical, paramusical, não musical? b. qual o nível de experiência cada um teve no segundo momento (2.)? Pré-musical,musical, extramusical, paramusical, não musical? c. qual o nível de experiência cada um teve no terceiro momento (3.)? Pré- musical, musical, extramusical, paramusical, não musical? É importante saber que avaliar os níveis de experiência musical requer um profissional habilitado com treinamento auditivo, percepção musical, conhecimento da linguagem musical, dinâmicas de grupo, atenção e capacidade de discernimento. Um músico, um professor de música, um musicoterapeuta podem ser capazes de fazê-lo. Contextualizar essa experiência musical em um processo terapêutico, buscando ajudar ao cliente a encontrar significados e possibilidades de mobilizações internas e aprofundar essas experiências em um processo contínuo é papel do musicoterapeuta. Mesmo assim, essa proposta tem sua validade para os demais interessados, já que seu objetivo não é realizar uma avaliação musicoterapêutica do nível de experiência musical de cada participante, mas sim promover um contato com esse processo de percepção da sua própria produção sonora. 19 Prática 3 – Um teste de tolerância Essa é uma proposta de audição musical em que teremos a oportunidade de abordar gêneros musicais que costumam gerar reações psicoemocionais variadas, bem como os valores individuais de cada pessoa podem trazer ao setting musicoterapêutico diferentes questionamentos. A primeira audição será a canção Aleluia, interpretada por Mariage Coral & Orquestra. Logo após essa audição, será proposta a escuta da canção Amor de quê, de Pabllo Vittar. Saiba mais ALELUIA. Mariage Coral & Orquestra, 23 dez. 2013. Disponível em: . Acesso em: 21 jul. 2021. PABLLO Vittar – Amor de quê (Official Music Video). Pabllo Vittar, 4 dez. 2019. Disponível em: . Acesso em: 21 jul. 2021. Ao término das audições, discuta sobre as mobilizações emocionais e o estado mental influenciado por cada canção. FINALIZANDO Assim, tendo conhecido a natureza das experiências musicais, seus efeitos sobre aspectos biológicos, psicoemocionais, intelectuais e sociais, podemos perceber como a prática profissional musicoterapêutica pode ter inúmeras formas de ação sobre a saúde humana, o que nos aproxima do próximo assunto que abordaremos: as diferentes áreas de atuação dos profissionais musicoterapeutas que invariavelmente irá nos relembrar das informações e experiências que apreendemos até agora. 20 REFERÊNCIAS ADAMS, A. et al. O maravilhoso corpo humano: esse fascinante prodígio da natureza. Rio de Janeiro: Reader's Digest Brasil Ltda., 2001. ANTUNHA, E. L. G. Música e mente. Boletim da Academia Paulista de Psicologia, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 237-240, jun. 2010 . BONTEMPO, D. M. Medicina natural: musicoterapia, geoterapia e fisiognomonia. São Paulo: Nova Cultural Ltda, 1992. 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