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PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO – ADULTO AULA 2 Prof. Rafael A. Cazuza 2 CONVERSA INICIAL Como vimos em momento anterior, a psicologia do desenvolvimento estuda como, onde e por que ocorrem as mudanças psicológicas que ocorrem ao longo da vida do ser humano. Dessa forma, podemos dizer que a psicologia do desenvolvimento é um ramo complexo e interdisciplinar que se preocupa com fatores de normalidade e adoecimento, aprendizagem, memória, afeto, envelhecimento e morte. Além disso, uma perspectiva interdisciplinar é essencial para a compreensão do desenvolvimento. Ainda, o desenvolvimento é um processo constante, existindo peculiaridades tanto no desenvolvimento infantil quanto no adulto. A vida humana oferece diversos desafios em seu percurso, apresentando questões existenciais e sociais complexas que envolvem habilidades cognitivas e afetivas na tomada de decisão e motivação. Nesta aula, abordaremos os principais aspectos do desenvolvimento na vida adulta. Abordaremos como as relações afetivas, sociais, de trabalho e produtividade afetam o ciclo vital na fase adulta. O objetivo desta aula será o de apresentar os diversos aspectos da vida adulta de modo que seja possível identificar como estressores relacionados a esses aspectos podem prejudicar o ciclo vital normal no adulto, afetando cada fase de desenvolvimento. Não trataremos especificamente de nenhum tipo de transtorno, o objetivo é o destacar alguns dos obstáculos presentes na vida adulta que podem prejudicar a saúde mental do indivíduo. TEMA 1 – O QUE É A VIDA ADULTA? Como abordamos em momento anterior, algumas teorias modernas tentam especificamente lidar com a problemática do que é a vida adulta e como esta se desenvolve no ciclo vital. A ideia de estágios na idade adulta ou mesmo estruturas no desenvolvimento como sugeria Piaget são difíceis de defender e encontram inúmeros problemas. Neste tema, discutiremos um pouco mais sobre isso. 1.1 Vida adulta a começar da adolescência Abordamos em momento anterior que Levinson (1986) sugere que a fase adulta é dividida em era, separadas por períodos de transição entre elas. Nessa 3 perspectiva, o primeiro estágio adulto é identificado aos 22 anos, logo após o período pós-adolescência (até 17 anos) e pré-adulto (de 17 a 22). A fase adulta jovem iria então de 22 a 45 anos aproximadamente, com uma transição de 40 a 45. A meia idade partiria daí até 65 anos e de 65 em diante seria considerado a fase final do desenvolvimento adulto. 1.2 Fases da vida adulta e a problemática dos estágios Para Levinson (1986), a concepção de desenvolvimento adulto é possível e apresenta evidentes características relacionadas à idade e ao envelhecimento no ciclo vital, entretanto, com algumas considerações em relação à definição de estruturas nos estágios. Ele as enumera como seis grandes questões. 1. Quais são as formas alternativas de definir uma estrutura de estágio ou período? 2. Que ênfase relativa é dada às estruturas e períodos ou fases de construção de estruturas, em comparação com os períodos de transição e de mudança de estrutura? 3. Como podemos fazer o melhor uso da distinção entre níveis hierárquicos e épocas de desenvolvimento? 4. Existem períodos de desenvolvimento ligados à idade na fase adulta? 5. Quais são os méritos e limitações relativos de vários métodos de pesquisa? 6. Como podemos unir a perspectiva desenvolvimentista e a perspectiva social? Seguindo esses questionamentos, Levinson propõe uma concepção de desenvolvimento adulto que ainda carece de evidências experimentais e confirmação filosófica para que se torne uma teoria concreta. Respondendo a cada problema, ele faz as proposições a seguir. 1. Contrapondo-se à ideia inicial de Piaget, é difícil propor que haja estruturas de estágios na idade adulta. Para isso, necessitamos buscar formas alternativas de explicar as mudanças que ocorrem na fase adulta. O autor sugere que definamos cada estágio por suas tarefas exigidas em cada fase da vida adulta (trabalho e produtividade, habilidades com criação de filhos etc.). 4 2. Nesse ponto, o autor propõe um olhar mais cuidadoso pelos períodos de transição mais que pelos períodos em si. Dessa forma, se foca nas problemáticas de aprendizado em crises vitais que nas próprias características de cada fase. 3. Geralmente utilizam-se de hierarquias nas fases do desenvolvimento infantil em que cada fase é superior à outra em níveis de habilidades. Para Levinson, cada fase estaria diferenciada somente em nível qualitativo e não hierárquica. 4. O autor argumenta sobre a dificuldade de encontrar relação entre a idade e a fase do desenvolvimento, propondo que essas mudanças estariam mais associadas aos papéis sociais em uma ordem de desenvolvimento. Isso estaria associado a mudanças na personalidade, eventos isolados da vida, biologia e cultura. 5. Nesse aspecto, aborda as dificuldades metodológicas no estudo do desenvolvimento adulto, sugerindo uma interseção entre métodos longitudinais (coleta de dados em tempos diferentes ao longo da vida) e o método biográfico, baseado em entrevistas sobre a vida pregressa do indivíduo. 6. Nesse último ponto, é interessante ressaltar o contraponto entre perspectivas ontológicas e perspectivas socioconstrutivistas. O autor tenta propor uma teoria integral e multifatorial em que aspectos ontogenéticos relacionados à maturação epigenética é multiafetada pela composição social do contexto em que se insere o indivíduo. Dessa maneira, a evolução do fluxo vital segue uma afetação do meio social sobre características intrínsecas a cada indivíduo adulto. Abordamos também em momento anterior a proposta de Dale Dannefer (1984) para uma perspectiva sociogenética do desenvolvimento adulto. Nesse sentido, há uma concordância com a teoria anteriormente citada já que Dannefer propõe um modelo biopsicossocial no desenvolvimento adulto. Além disso, outras abordagens trouxeram considerações sobre o desenvolvimento adulto, como vimos anteriormente. O ponto de partida teórico que tomaremos ao longo dos próximos temas será o de que existem papéis sociais e exigências ambientais específicas de cada etapa da vida adulta (jovem adulto, meia-idade e fase adulta tardia). 5 Segundo Schaie, há estágios identificáveis de desenvolvimento na idade adulta e que são separados pelos níveis de capacidade exigidas por cada período (Schaie; Parham, 1977). Essas habilidades exigidas pelo meio não se diferenciam em nível quantitativo, como propunha Piaget, mas em nível qualitativo. As cinco fases – aquisitivo, realizador, responsável, executivo e reintegrativo – são conectadas por períodos intervalares e apresentam características próprias. De maneira mais específica, Papalia e Feldman (2013) apresentam o modelo mais atualizado da teoria de Schaie dos estágios da vida adulta. 1. Estágio aquisitivo (infância e adolescência). As crianças e os adolescentes adquirem informação e habilidades principalmente por seu próprio valor ou como preparação para participação na sociedade. 2. Estágio realizador (final da adolescência ou início dos 20 anos até o início dos 30). Os jovens adultos não adquirem mais o conhecimento por seu próprio valor: utilizam o que sabem para atingir metas como carreira profissional e família. 3. Estágio responsável (final dos 30 anos até início dos 60). As pessoas de meia-idade utilizam a mente para resolver problemas práticos associados a responsabilidades com os outros, como os membros da família ou empregados. 4. Estágio executivo (dos 30 ou 40 anos até a meia-idade). As pessoas no estágio executivo, que pode sobrepor-se aos estágios realizador e responsável, são responsáveis por sistemas sociais (organizações governamentais ou comerciais) ou movimentos sociais. Lidam com relacionamentoscomplexos em múltiplos níveis. 5. Estágio reorganizativo (final da meia-idade e início da vida adulta tardia). As pessoas que entram na aposentadoria reorganizam suas vidas e energias intelectuais em torno de propósitos significativos que ocupem o lugar do trabalho remunerado. 6. Estágio reintegrativo (vida adulta tardia). Adultos mais velhos podem estar vivenciando mudanças biológicas e cognitivas e tendem a ser mais seletivos em relação às tarefas a que dedicarão esforço. Concentram-se no propósito do que fazem e nas tarefas que têm mais significado para eles. 7. Estágio de criação de herança (velhice avançada). Próximo do fim da vida, tão logo a reintegração tenha sido concluída (ou juntamente com ela), as pessoas muito idosas podem criar instruções para a distribuição das posses de valor, tomar providências para o funeral, contar histórias oralmente ou escrever a autobiografia como um legado para seus entes queridos. Nesse modelo atualizado, mesmo que encontremos falta de evidências experimentais sobre o modelo, é evidente que o ser humano adulto apresenta claras questões que são singulares a cada período da vida adulta. Utilizaremos cada fase dessas mais adiante enquanto tratamos de questões de sexualidade, trabalho e envelhecimento. 6 TEMA 2 – RELAÇÕES AFETIVAS E SEXUALIDADE NA VIDA ADULTA As relações de afeto são fatores de extrema importância no desenvolvimento saudável do ser humano tanto na infância quanto na fase adulta. As relações de afetos são o que constroem a sociedade humana tal qual a vemos hoje em dia. Desde o cuidado parental e amizades até relações afetivo- sexuais é o que mantém a sobrevivência da espécie humana ao longo dos séculos. Além disso, a sexualidade e o afeto são fatores de extrema importância na constituição da identidade pessoal e desenvolvimento saudável tanto para adultos jovens quanto idosos (Papalia; Feldman, 2013). Ao longo deste tema, abordaremos as principais questões relacionadas ao afeto familiar e não familiar e a sexualidade na vida do adulto jovem e de meia-idade. 2.1 Afetividade na formação da personalidade Os relacionamentos íntimos fazem parte do desenvolvimento humano e exigem uma diversidade de habilidades para adquiri-los e mantê-los, como autoconsciência, empatia, comunicação, controle emocional, resolução de conflitos, decisão sexual, entre muitos outros (Lambeth; Hallett, 2002). Sendo assim, a formação de vínculos exige capacidades e habilidades intrínsecas de um adulto ou jovem adulto que são de extrema importância para a formação da sua personalidade. Ainda, a formação da personalidade pela formação de vínculos afetivos também pode afetar os próprios vínculos em uma lógica circular (Neyer; Lehnart, 2007). Um vínculo importante para a vida adulta é a amizade. Elas contribuem tanto para o bem-estar e a colaboração como para a própria formação de personalidade na vida do jovem adulto (Hartup, 1996). O número de amigos e a quantidade de tempo passado com eles geralmente diminuem no decorrer do período adulto jovem. As amizades são importantes tanto para os adultos jovens quanto para os adultos mais velhos. A quantidade de amizades tende a se reduzir ao longo da vida do adulto, mantendo somente os amigos mais próximos (Hartup; Stevens, 1999). 2.2 Fator sexualidade no desenvolvimento adulto O entendimento de si mesmo como um corpo sexual e o reconhecimento da própria orientação e expressão sexual fazem parte do primeiro passo para a 7 formação de vínculos afetivo-sexuais na vida adulta e da própria identidade e personalidade. A sexualidade também está associada ao bem-estar com a autoimagem e com a formação de relacionamentos saudáveis. Além disso, assim como outros fatores da vida adulta, a sexualidade é multiafetada, estando sujeita a determinações biológicas, históricas e culturais (Papalia; Feldman, 2013). Apesar das relações afetivas começarem muito precocemente na vida humana, a vida sexual ativa começa no final da adolescência e início da vida adulta, como vimos no modelo de desenvolvimento adulto de Schaie. Entretanto, o desenvolvimento cognitivo do adulto ocorre posteriormente ao desenvolvimento sexual, estando em desacordo a compreensão de sua sexualidade da expressão da sexualidade em si. Na era contemporânea, temos a prevalência do sexo casual, o que impacta na formação de personalidade e conhecimento de si. Jovens adultos cada vez mais se abrem à possibilidade do sexo casual, sem, no entanto, formar relações de afetos. Entretanto, ainda há uma prevalência de um duplo padrão na sociedade que inclui uma expectativa de que homens tenham mais liberdade sexual e que as mulheres se preservem a menos parceiros sexuais ou de preferência somente um (Papalia; Feldman, 2013). A sexualidade se expressa de múltiplas formas e a orientação sexual é uma delas. A diferença entre a escolha pelo parceiro sexual também faz parte do desenvolvimento humano e da identidade pessoal (Papalia; Feldman, 2013). Nessa perspectiva, o desenvolvimento sexual apresenta variações tanto normais quanto patológicas. Comportamentos sexuais humanos são diversos e podem incluir tanto questões comuns de orientação sexual como parafilias, definidas como interesse focal de maneira igual a um interesse normofílico (comportamento sexual genital) (Lopes, 2018). Ainda, o manual de medicina diagnóstica define o transtorno parafílico como uma parafilia que causa prejuízos a si ou danos pessoais a outros (APA, 2014). Nesse aspecto, o psicólogo deve ter ferramentas de identificação do que é normal e patológico em uma espécie que apresenta um comportamento sexual tão diverso, separando bem o que é um comportamento sexual parafílico variado ou um transtorno parafílico. Importante ressaltar que todo transtorno parafílico se refere a uma parafilia, mas nem toda parafilia pode se enquadrar como transtorno (Lopes, 2018). 8 Na vida adulta tardia, a sexualidade ainda se expressa como forma de bem-estar e identidade. Sabe-se que, a partir dos 45-50 anos, existe uma limitação biológica ao corpo humano em relação à produção hormonal tanto para homens quando para mulheres. Para as mulheres, a fase da menopausa é uma crise vital muito importante que representa não somente um impacto reprodutivo, mas sexual. Para os homens, há uma queda de testosterona que provoca diversos efeitos sobre a libido e desempenho sexual (Papalia; Feldman, 2013). Essas alterações hormonais e corporais levam a diversas crises na percepção de si como corpo sexual. O manejo dessas situações e o amortecimento do impacto que as mudanças com a idade provocam são essenciais para a manutenção da saúde mental e do bem-estar. TEMA 3 – RELAÇÕES SOCIAIS As relações sociais parecem ser vitais para a saúde e o bem-estar. O ser humano é um ser social. Relações de trabalho, afetivas, de amizade ou sexuais também são relações sociais. Entretanto, neste tema abordaremos a função do ser humano adulto em sua comunidade, como impacto socializante e socializado. A integração social e apoio social são grandes promotores de saúde e bem-estar (Cohen, 2004). Ou seja, desempenhar papéis sociais saudáveis, como amigo, marido e afins, promove a integração do indivíduo e acesso ao suporte social. Além disso, a rede de apoio social ou redes colaborativas são amplamente associadas à sobrevivência do ser humano, reduzindo índices de mortalidade (Berkman et al., 2000). Nesse sentido, uma rede de apoio social bem articulada e ampla pode reduzir a probabilidade de transtornos ansiosos ou depressivos (Cohen; Gottlieb; Underwood, 2000). Redes de apoio social englobam uma variedade de recursos materiais e de suporte à saúde física e mental em que o objetivo é reduzir a exposição a estressores ou dar suporte médico e social a quem sofre de algum transtorno. Sendo assim, o suporte social funciona como uma redeprotetora da saúde mental do indivíduo e um propulsor de bem-estar (Cohen, 2004). 9 TEMA 4 – TRABALHO E PRODUTIVIDADE O envelhecimento e desenvolvimento adulto trazem desafios de características sociais, entre eles, a relação com o trabalho de produtividade. Podemos dizer que a personalidade é afetada pelo trabalho e pelo que a pessoa produz como adulto. Além disso, a complexidade do trabalho parece exercer um papel fundamental no desenvolvimento intelectual adulto (Kohn, 1980). De maneira bem curiosa, o adulto jovem em início de idade produtiva acaba por desenvolver os lobos frontais do cérebro, contribuindo para uma grande capacidade intelectual e reflexiva em relação ao trabalho (Luciana, 2010). Teorias sobre o desenvolvimento adulto propõem que determinadas fases podem estimular a motivação ao trabalho. No modelo de Kanfer e Ackerman (2004) há fases no desenvolvimento adulto e que alguns podem estar relacionados à motivação ao trabalho e produtividade. A perda está associada ao declínio das capacidades cognitivas com o envelhecimento; o crescimento associado à aquisição de conhecimento com o tempo; a reorganização se refere à mudança qualitativa de personalidade e emoções ao longo da vida adulta, incluindo as motivações de cada ação; e por fim, a troca que se refere ao autoconhecimento, traços de personalidade e aspectos emocionais na tomada de decisão ao longo da vida. Todas essas teorias modernas propõem interessantes aspectos que possibilitam a compreensão mais detalhada sobre o desenvolvimento adulto, e as tomaremos por base em aulas futuras. Por fim, um aspecto importante relacionado ao trabalho é a aposentadoria, que está relacionada diretamente à redução da produtividade. Segundo o discutimos no parágrafo anterior, o adulto mais velho é mais expert que o mais jovem em um modelo ideal hipotético. O que acontece é que, quanto mais velho, mais especialista, mas com uma redução grande no desempenho do produto final, mesmo que o alcance com muito menos esforço intelectual (Kanfer; Ackerman, 2004). Além disso, discutimos que o trabalho é um grande formador intelectual e de personalidade e que o desenvolvimento é um processo constante. Entretanto, o envelhecimento acarreta uma queda intelectual e de produtividade, o que sugere que o desenvolvimento não é uma evolução majorante, e que pode ter decréscimos. Nesse sentido, é importante comentar que a saída de uma atividade executada ao longo da vida, que formou sua personalidade, pode gerar efeitos deletérios importantes (Papila; Feldman, 10 2013). Em momentos futuros, abordaremos o tema da aposentadoria e seus impactos para a saúde mental. TEMA 5 – CLASSES SOCIAIS E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS As relações sociais tem grande impacto na formação da personalidade e suporte social, como discutimos anteriormente. Nesse contexto, as relações étnico-raciais apresentam características próprias que devemos abordar no meio social. Ainda, a sociedade desigual promove diferentes tipos de abordagens de apoio e cuidado com classes sociais menos favorecidas economicamente. Fazer parte de uma comunidade étnico-racial produz implicações identitárias muito singulares. Identidade étnica é definida como a “identidade da pessoa como membro de um determinado grupo étnico” (Papila; Feldman, 2013) e é parte da identidade social mais ampla de um indivíduo. Em países desiguais, grupos étnico-raciais se apresentam como minorias mesmo que ainda sejam maioria numérica (Sodré, 2005). Isso significa dizer que, mesmo numericamente superiores, a concentração de recursos econômicos se encontra sob controle de outros grupos sociais. Os efeitos econômicos e sociais que ocorrem sobre esses grupos étnico- raciais acabam por impactar o desenvolvimento normal no ciclo vital adulto. Entretanto, outros fatores se apresentam nessas relações como questões de identidade especiais relativas à sua etnia (Phinney, 2006). Como discutimos na em momento anterior, o contexto histórico-cultural pode causar diversos efeitos sobre a formação do pensamento e linguagem, o que justifica grandes alterações sobre populações distintas. Além de grupos étnicos que costumam estar em desvantagem social, outras classes sociais também se encontram em situação similar. Em relação às classes sociais, as camadas mais pobres da população geralmente estão mais susceptíveis a ambientes de risco. A pobreza produz restrições econômicas, baixo nível de escolaridade e desemprego que, por sua vez, contribuem para o aparecimento de transtornos mentais comuns que interferem diretamente na economia geral do país pelo impacto na saúde pública. No Brasil, mulheres sofrem com maior prevalência de transtornos mentais comuns, com grande contribuição de fatores como a baixa escolaridade associada à pobreza (Silva; Santana, 2012). Sendo assim, o desenvolvimento de políticas públicas de saúde voltadas à prevenção deve levar em consideração 11 as peculiaridades de grupos menos favorecidos economicamente e a questão de gênero associada a fatores de risco. NA PRÁTICA A vida adulta é multiafetada. Fatores de relacionamento, sexo, trabalho e relações sociais fazem parte da vida adulta e moldam a nossa personalidade e cognição como adultos. É evidente diversos exemplos práticos quando o assunto são os fatores que fazem parte do desenvolvimeto adulto. Na prática, a identificação da contribuição de cada fator é de extrema importância na manutenção da saúde mental,visto que o bem-estar e garantia dos direitos humanos dependem dessa análise. O uso prático dessas análises se apresenta no tratamento de um paciente adulto hipotético que apresenta alguma queixa de sofrimento de maneira genérica. O psicólogo na sua profissão consegue identificar que diversos aspectos da vida desse paciente podem ser causadores de angustia e sofrimento. Ainda, fatores podem se interrelacionar. Fatores sexuais podem afetar a vida no trabalho ou na família, e vice-versa. Nesse sentido, cabe ao psicólogo compreender as múltiplas facetas da vida adulta para identificar surgimento de relações patológicas em algum dos fatores abordados. Além disso, a prevenção do aparecimento de transtornos mentais se baseia nessas análises. Alguns fatores de risco associados a aspectos da vida adulta podem ter sua gênese nas relações com o meio. Sendo assim, questões de identidade sexual, satisfação com o trabalho ou o padrão de relação social e familiar devem ser abordadas de forma a promover a saúde mental e a qualidade de vida. Por exemplo, uma mulher de meia-idade passando por período de menopausa, sendo hipertensa e se preparando para a aposentadoria apresenta questões pertinentes ao seu desenvolvimento em seu contexto que são diferentes da de um jovem adulto que começou a vida sexual recentemente, está em fase reprodutiva e precisa pensar no fim da faculdade e na entrada no mercado de trabalho. O conhecimento dessas peculiaridades pessoais, contextuais e biológicas são essenciais na compreensão do desenvolvimento adulto de maneira integral. 12 FINALIZANDO Nesta aula, abordamos diversos aspectos do desenvolvimento na vida adulta. Abordamos os principais fatores que impactam questões no ciclo vital adulto. Além disso, vimos que é importante a compreensão multifatorial de afetações e a abordagem interdisciplinar, incluindo estudos de sociologia, neurobiologia e psicologia no desenvolvimento humano no adulto. Vimos ainda que há aspectos intrínsecos à vida adulta, como o desenvolvimento sexual, as relações com o trabalho e produtividade, vida social e relações de afetos. Nesse sentido, retomamos algumas teorias modernas do desenvolvimento adulto para compreender e justificar essas mudanças. O adulto tem períodos em que são necessárias determinadas habilidades que se dividem de forma qualitativa e não quantitativa. Em relaçãoao aspecto sexual, vimos que a expressão da sexualidade é de extrema importância na formação do adulto, tanto nos estágios iniciais quando na terceira idade. Vimos que a sexualidade é variada na espécie humana e pode se desenvolver de forma saudável ou patológica (parafilias). Além disso, tem grande papel na função reprodutiva e de formação de identidade. Sobre o aspecto afetivo, vimos que está presente desde as fases iniciais da vida até a morte, bem como se inicia principalmente com a família até a relação com o meio social, amizades e parceiros sexuais. O afeto é importante na saúde e no bem-estar, estando associado ao suporte social e ao desenvolvimento saudável. Ainda, assumimos que o afeto contribui para a formação da personalidade, identidade e relações que o indivíduo mantêm com a sociedade. Quanto ao trabalho, vimos que é uma parte importante na vida adulta desde os estágios iniciais até a aposentadoria. Discutiremos futuramente com mais detalhes a questão da aposentadoria, entretando, o que se pode afirmar é que a atividade produtiva na vida adulta é de extrema importância na formação de identidade, qualidade de vida, suporte social e saúde mental. Por fim, no que se refere às relações étnico-raciais e diferença de classes sociais, estas impactam fortemente na formação do “Eu” e fazem parte de políticas de garantias de direitos humanos. É de extrema importância a análise de variações étnicas e sociais no sentido de identificar variabilidades no desenvolvimento e possível exposição de grupos menos favorecidos a um 13 ambiente saudável. Vimos que populações minoritárias expostas a riscos de saúde e físicos podem apresentar graves problemas na vida social adulta e em seu desenvolvimento saudável, visto que isso impacta diretamente na saúde mental e na qualidade de vida. 14 REFERÊNCIAS APA – AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2015. BERKMAN, L. F. et al. Social integration, social networks, social support, and health. Social epidemiology, v. 1, n. 6, p. 137-173, 2000. COHEN, S. Social relationships and health. American Psychologist, v. 59, p. 676-684, 2004. COHEN, S.; GOTTLIEB, B.; UNDERWOOD, L. Social relationships and health. In: COHEN, S.; UNDERWOOD, L.; GOTTLIEB, B. (Ed.). Measuring and intervening in social support. 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