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DIFICULDADES DE APRENDIZAGENS AULA 4 Abertura Currículo e dificuldade de aprendizagem Olá, Você já havia parado para pensar sobre como as escolas decidem o que será aprendido por seus alunos em cada etapa de sua formação? Pois o currículo escolar é, em linhas gerais, justamente isso, a distribuição dos conteúdos a serem estudados e as atividades a serem executadas pelos estudantes em todo o seu percurso pelo ensino básico. Aliás, a própria palavra currículo, que vem do latim curriculum, significa basicamente caminho. Trata-se, portanto, da trajetória que deve ser percorrida por todo aluno do primeiro ano do ensino infantil ao terceiro do ensino médio. Isso inclui as matérias a serem ensinadas a cada período letivo, os tópicos que serão abordados em cada matéria, as competências que o estudante deve dominar ao final de cada etapa e muito mais. Nesta aula, analisaremos a importância do currículo escolar e a necessidade de transformações neste para que se adeque às dificuldades de aprendizagem, sempre que necessário. Bons Estudos Referencial Teórico O livro "Políticas curriculares: referenciais para análise" dá a você o acesso a uma importante reflexão sobre políticas curriculares e educacionais. Inicie seus estudos em Políticas curriculares e siga até Políticas educacionais. Ao final desta aula, você será capaz de: • Reconhecer a necessidade de um currículo escolar inclusivo. • Identificar algumas perspectivas sobre as quais o currículo deve ser construído • Construir propostas de diagnóstico de dificuldades de aprendizagem. Boa leitura. O LADO POLÍTICO POLÍTICAS CURRICULARES ontrariamente ao que Ralph Tyler (1949) formulara, James Macdonald (1995, p. 149) proclama que o parâmetro principal do currículo não é o aluno, nem a sociedade, nem a herança cultural, mas o processo político de escolaridade. Assim, pretendo dizer que o processo político é a rede de estruturas, papéis, normas e rela- ções interpessoais que operam no processo de escolaridade. A consideração do currículo, e inerentemente a da educação, como uma construção política, parte do pressuposto de que a escola, nas palavras de Dwayne Huebner (1975, p. 273), é o veículo dessa atividade política, ou seja, um modo particular de organizar o poder e as influências que se encon- tram nas suas práticas cotidianas. Porém, reduzir o currículo a uma ativida- de política é considerá-lo um texto institucionalizado (Pinar e Reynalds, 1995, p. 149-152), legitimado por uma função burocrática direcionada para a efi- ciência e melhoria constante. Insere-se nessa argumentação a definição de currículo proposta por Ulf Lundgren (1997, p. 22): Defino currículo como a solução necessária ao problema da representação e o problema da representação como o objeto do discurso pedagógico. O objeto do discurso coloca-se como um domínio do pensamento e da construção de reali- dades sociais quando a produção social e a reprodução se separam entre si. Nesse caso, o currículo é um texto de solução do problema da repre- sentação, que interliga os processos de produção e de reprodução, abar- C 1 14 • JOSÉ AUGUSTO PACHECO cando a seleção de conteúdos, a organização de conhecimentos e destrezas e a orientação de métodos de transmissão (Lundgren, 1997, p. 20).1 Para Dennis Carlson (1998, p. 279) “se, tal como sugere Michel Fou- cault, poder e conhecimento são inseparáveis, então, o currículo deve ser estudado pelas relações de poder não só que o constituem, mas também pelas quais é constituído”. Sendo uma lógica do poder educativo, o currí- culo não pode ser separado nem do contexto amplo que o define no tempo e no espaço nem da organização escolar que o concretiza. Por ser a política uma necessidade para a vida humana, tanto individual como social (Arendt, 1997, p. 67), a política curricular representa a racio- nalização do processo de desenvolvimento do currículo nomeadamente com a regulação do conhecimento, que é a face visível da realidade escolar, e com o papel desempenhado por cada ator educativo dentro de uma dada estrutu- ra de decisões relativas à construção do projeto formativo. Em termos formais, a política curricular corresponde ao conjunto de leis e regulamentações que dizem respeito ao que deve ser ensinado nas escolas (Elmore e Sykes, 1992, p. 186). Do mesmo modo, José Gimeno (1988, p. 129-130) define a política curricular como: toda a decisão ou o condicionamento dos conteúdos e da prática de desenvol- vimento do currículo, desde os contextos de decisão política e administrativa, que estabelece as regras de jogo do sistema curricular. Planeja parâmetros de atuação com um grau de flexibilidade para os diferentes agentes que moldam o currículo. Na medida em que o regula, a política é o primeiro condicionante direto do currículo e, indiretamente, é através da sua ação que outros agentes são moldados. Nessa perspectiva, a política curricular é uma ação simbólica, represen- tando uma ideologia para a organização da autoridade e que abrange tanto as decisões das instâncias da administração central como as decisões dos contextos escolares (Elmore e Sykes, 1992, p. 186), sendo implementada por intermédio de três tipos de instrumentos: normativos explícitos e objeti- vos (leis, decretos-leis, portarias, despachos normativos); normativos inter- pretativos e subjetivos (circulares e ofícios circulares); documentos de orien- tação e apoio (textos de apoio, documentos internos da escola). Se, no sentido primitivo do termo, a lei significa a fisionomia dos habi- tantes da cidade, mediante a qual se distinguem das outras cidades e dos outros habitantes,2 Hannah Arendt (1997, p. 121) sustenta que a lei pro- duz o espaço do político e que a política encerra uma finalidade e um sentido de ação. À lei associa-se, por isso, a regra que não é mais do que o POLÍTICAS CURRICULARES • 15 “código moral genérico” (Barry, 1995, p. 23) a que todas as sociedades aspiram apesar das diferenças que as caracterizam. Assim, a política é, ao mesmo tempo, processo e produto, envolvendo tanto a produção de intenções, ou de textos, como a realização de práticas, ou de ações concretas, ou ainda, de acordo com o pensamento de Stephen Ball (1997, p. 15), de texto e discurso: Eu partilho duas concepções de política. Por enquanto, apelidarei essas concep- ções de política como texto e política como discurso. De um modo muito sim- ples, poderíamos dizer que as diferenças entre essas duas concepções são bas- tante dramáticas e, em termos sociológicos, algo antiquadas e tradicionais. Mas tendo a aproximar-me da idéia de que a política não é nem um nem outro, mas ambos: estão implícitos um no outro. Como a política não se reduz a um simples texto e o Estado é apenas um dos teorizadores (Cood, 1988), os textos curriculares, oriundos da admi- nistração central, são documentos de trabalho que simbolizam o discurso oficial do Estado que agrega interesses diversos e alianças elaboradas a diversos níveis de ação. No entanto, são textos macropolíticos que se inse- rem em uma linha de racionalidade técnica quando os contextos de micro- decisão política são marginalizados. Reconhecer-se-á, assim, que as deci- sões políticas curriculares são fragmentadas e multicentradas. Há, não obstante, outros discursos que também legitimam a política cur- ricular e que são produzidos no contexto das diferentes práticas curriculares, pois “a ação pode ser determinada de modo diferente, mas não é determinada pela política” (Ball, 1997, p. 19). Nesse caso, os atores curriculares, sobretudo aqueles que se situam no contexto da escola, são produtores de discursos po- líticos que legitimam e dão significado ao cotidiano escolar. No modelo que propõem sobre o papel dos professores na formulação das políticas educati- vas, Paul Croll e colaboradores (1994) afirmam que os professores atuam, na escola e na sala de aula, como decisores políticos. Essas formas de poder explícitas ou implícitas dos atores que partici- pam na construção do currículo devem ser analisadas nos contextosdas macro e micropolíticas,3 correspondentes, respectivamente, às intenções e à prática. No plano das macropolíticas,4 questionam-se os aspectos da fun- damentação e organização dos poderes não só expressos nos documentos oficiais, mas também nos momentos de produção desses textos.5 Nesse sentido, reconhece-se o peso dos grupos socioeconômicos nas práticas de influenciação6 e, mais ainda, o papel marcante da administração. O Estado 16 • JOSÉ AUGUSTO PACHECO não é uma unidade unitária, mas uma estrutura complexa (Taylor, 1997, p. 29) que existe em função de processos que legitimam diferenças de opi- nião e converte a administração, depois de elaborado o corpus legislativo, no seu veículo de regulação da política curricular. Por outro lado, no plano das micropolíticas, aborda-se o lugar das es- colas, dos professores e dos alunos na configuração prática do currículo, lugares que nem sempre são controlados totalmente pela administração. Aliás, como reconhece Stephen Ball (1997, p. 10), uma teoria da política da educação não pode ser limitada à perspectiva do controle do Estado porque as políticas são imperfeitas e simples, enquanto que a prática é sofisticada, contingente, complexa e instável, o que equivale dizer que nes- se plano existem estruturas de poder, redes informais de decisão e práticas discursivas que intervêm de modo ativo na decisão curricular. A reconceitualização das questões das micropolíticas, cujo quadro de análise se tem fundamentado na dicotomia entre estrutura e agência, des- taca as dinâmicas e estratégias de interação dos professores enquanto ato- res (Reay, 1998). Efetivamente, as políticas curriculares são decididas e construídas em espa- ços e vertentes que envolvem lutas e alianças7 e que de forma alguma se res- tringem ao conceito racional e operativo da linearidade política: o papel da administração na prescrição curricular, tanto por meio de uma estratégia top- down quanto de uma estratégia de negociação8 com vista à recentralização. A política curricular não se traduz, assim, em uma decisão central substanciada a partir de parâmetros e critérios de âmbito nacional e de formas concretas de regulação da construção cotidiana do currículo. Pelo contrário, a política cur- ricular decide-se e aplica-se em uma perspectiva interpretativa e menos deter- minista (Elmore e Skyes, 1992) ou em um conjunto complexo de relações entre a escola, a experiência individual e a vida pública (Page, 1990, apud Slattery, 1995, p. 5), ou, ainda, em um espaço de reconstrução de valores, experiências e interesses, dado que a política não pode esgotar-se no momen- to normativo como se o político fosse o ator por excelência na construção do currículo (Pacheco e Paraskeva, 1999). Ao contrário da perspectiva prescritiva, em que a política se processa em distintas fases lineares, desde a formulação até a avaliação, Sandra Taylor e colaboradores (1997, p. 25) conceitualizam a política como um processo complexo, interativo, multifacetado, desarticulado e menos racio- nal. Desse modo, as políticas curriculares, enquanto elos de ligação às po- líticas educacionais, pois são um seu subconjunto,9 não são decididas em um ciclo prescritivo, mas (Ball, 1997, p. 26)10 em um ciclo constituído por contextos interligados de uma forma não-hierárquica: POLÍTICAS CURRICULARES • 17 • Contexto de influência: momento da construção dos discursos políti- cos ao nível dos principais grupos de pressão, dos organismos e dos contextos locais. • Contexto de produção do texto político: engloba a produção de di- versos textos – normativos, documentos, pareceres, discursos oficiais, intervenção da mídia que, forçosamente, é contraditória e incoerente, na medida em que representa diversas opiniões e alianças. • Contexto da prática: inclui o terreno da intervenção dos práticos, razão pela qual muitos dos textos curriculares são rejeitados, ignorados e distorci- dos sempre que não correspondam às experiências, aos valores, aos propó- sitos e aos interesses dos professores, aos alunos e demais atores. • Contexto dos resultados: diz respeito aos efeitos das políticas tanto nas estruturas e práticas quanto no impacto dessas mudanças nos pa- drões de igualdade, liberdade e justiça social. • Contexto da estratégia política: engloba as atividades sociais e polí- ticas de modo a contribuir para a resolução/atenuação das desigual- dades, no fundo, a base da investigação social crítica. POLÍTICAS EDUCACIONAIS As políticas de educação refletem, necessariamente, uma variedade de conceitos e abordagens (Berkhout e Wielemans, 1999),11 sendo a sua ori- gem situada na universidade, na 1a metade do século XX,12 com a realiza- ção de estudos sobre o poder das comunidades. Porém, e dado que o seu âmbito abarca todos os níveis de governo e tomadas de decisão, a emer- gência das políticas de educação como campo de estudo “foi mais associa- do ao desenvolvimento de uma política educacional que a distintos aspec- tos de teoria e metodologia” (Campbell et al, 1965). Essa natureza mais política e menos teórica faz com que as políticas de educação sejam referenciadas pela descrição de conceitos e pelo reconheci- mento da subjetividade dos seus pressupostos. Daí que o conceito de tomada de decisão lhe esteja associado: o processo de tomada de decisão foi primei- ramente estudado em nível local para se concluir que a política e a educação são interligadas pelas elites informais, pelos grupos de interesses e pelas interações formais (Kimbrough, 1964). De um modo mais sistematizado, e partindo da noção de políticas “como um conjunto de interações que influenciam e determinam a alocação autori- 18 • JOSÉ AUGUSTO PACHECO tária e os valores”, Scribner e Englert (1977, p. 22) definem quatro conceitos fundamentais: governo, poder, conflito e orientação política. A noção de governo, ou de Estado, inclui todos os aspectos legais da política educativa e que se estendem por territórios delimitados; à noção de poder agregam-se os de controle, autoridade e influência. A noção de orientação política conjuga-se com todos os poderes de diplomacia, fazendo prevalecer que tanto as intenções e os discursos quan- to as práticas não sejam realidades isomórficas. Efetivamente, a política educacional não pode ser conceitualizada a partir de duas categorias analíticas autônomas ou justapostas: uma, o nível da concep- ção, a outra, o momento da implementação. Se em uma política tradicional esses dois momentos são cruciais, a passagem para o momento da prática, no entanto, faz-se por meio de inúmeros filtros que não só determinam o percurso das intenções como também acrescentam diversas leituras, uma vez que a cons- trução de significados depende dos contextos em que se inserem. Assim, a polí- tica contém contradições, omissões e significados divergentemente estrutura- dos que produzem diferentes efeitos (Burkhout e Wielemans, 1999). Um dos mais eficazes filtros é o da gestão e administração das escolas que, com o seu “olho interno”, determina, muitas vezes, o que conta como evento em uma realidade socialmente construída. Dessa forma, a política educacional não pode ser entendida exclusivamente nos fatos isolados da administração, como a produção e regulação dos textos normativos, mas sim como um sistema e uma cultura. A aceitação do modelo que contempla as abordagens macro e micro con- tém a idéia implícita de que a regulação administrativa é uma forma de governo que contribui para reduzir os decisores (White, 1976), além de confirmar a política como processo simbólico de manutenção da ordem social. Desse modo, a noção de conflito, decorrente das pressões formais e informais sobre os deciso- res e das relações que se estabelecem a partir de um determinado sistema de alocação de valores, torna-se central no estudo das políticas educacionais. Nesse aspecto, a teoria de alocação é a que melhor explica os conflitos que se geram ao nível dos grupos e dos sujeitos intervenientes no processo de decisão,14 pois a educação, apesar de ser reconhecida como um direitoconstitucional, é forte- mente intersectada por opções políticas que obedecem a lógicas de poder muito díspares e que são a expressão de conflitos. As longas raízes da teoria do conflito encontram-se nos trabalhos de Karl Marx e Max Weber (Karabel e Halsey, 1977), cujas perspectivas políti- cas e sociais são diferentes de uma visão consensual da sociedade que não pode ser reduzida a perspectivas meramente técnicas. A esse respeito, A. Gouldner (1973) contrasta a teoria social técnica (dominada pelos câno- POLÍTICAS CURRICULARES • 19 nes da lógica e evidência para a análise dos dados) com a infra-estrutura da teoria social (composta por sentimentos e concepções da realidade me- diadas pela experiência pessoal). O pessoal, o subjetivo e a opinião são uma realidade intrínseca à decisão educativa, e não reconhecê-los equiva- leria a lutar por processos de racionalidade técnica que fazem do sujeito um elemento que deve agir em conformidade com aquilo que “cientifica- mente” os especialistas decidem. Randall Collins (1993, p. 195-208) segue a idéia de Max Weber para propor uma teoria do conflito em educação. Atacando a teoria funciona- lista da estratificação educativa,15 orientada para o consenso e não para o conflito, argumenta que a expansão do sistema educativo norte-america- no reflete mais as necessidades técnicas da economia do que os efeitos da competição dos status groups pela saúde, pelo poder e pelo prestígio. Po- rém, e dado que o poder é um elemento crucial no sistema educativo, reforça, ainda, que a noção de educação serve para reafirmar o status cultural, protegendo os que a dominam e impondo barreiras aos que se encontram no seu exterior, embora, no centro desse conflito baseado no status, esteja o mercado. A noção de conflito é reforçada tanto por Samuel Bowles e Herbert Gintis como por Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron quando reali- zam os primeiros trabalhos de aplicação do estruturalismo à educação. Quanto ao trabalho de Samuel Bowles e Herbert Gintis, o sistema educa- tivo é um elemento crucial na reprodução do mundo de trabalho e é também uma reflexão sobre a hegemonia da classe capitalista, consta- tando que há um princípio de correspondência entre escolaridade e rela- ções sociais de trabalho. Correspondência e contradição são duas pala- vras-chave e, na teoria de reprodução, identificam três instituições fun- damentais que se encontram interligadas: família, escola e mundo do trabalho. No que diz respeito a Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, a reprodução social está relacionada com a reprodução cultural, que é a expressão de uma cultura dominante ou de um capital cultural que faz parte do domínio simbólico, ou seja, a cultura oficial é aquela que está identificada com os valores e comportamentos da classe dominante e que possibilita a reprodução cultural pela exclusão.16 Como as escolas criam desigualdades (Kerckhoff, 1991), onde os funcionalistas freqüentemente viam o sistema educativo oferecer opor- tunidades para a mobilidade dos indivíduos, os teóricos do conflito têm desta- cado, de modo geral, o papel da educação na manutenção de um sistema social de desigualdade. (Karabel e Halsey, 1977, p. 35) 20 • JOSÉ AUGUSTO PACHECO O grande parâmetro, hoje em dia, das políticas de educação é a ques- tão da igualdade (Paquette, 1998), e, acerca dessa questão, o consenso torna-se impossível, sobretudo quando existe um questionamento constante das políticas sobre a igualdade que permi- tem que um considerável número de alunos deixe o ensino superior, com ou sem diploma, não tendo as destrezas básicas, os bons hábitos de trabalho ou a preparação para o emprego.17 O questionamento da desigualdade é muito relacionada com o lugar da educação vocacional na escolaridade do aluno, principalmente se a educa- ção vocacional for apresentada, como o faz Theodore Lewis (1998), como uma educação geral, pressupondo a negociação de um conjunto nuclear de aprendizagens que criativamente integrem o acadêmico e o vocacional. Dis- cordando dessa solução, Michael Apple (1998) pergunta o que significa a palavra negociação ou o que conta realmente como negociação. O consenso não é fácil, sobretudo quando a existência de um bem comum não pode ser presumido. O consenso é sempre deliberado por meio de um processo que se submete aos efeitos da dominação e subordinação. Por isso, sustenta (Apple, 1998, p. 335): Penso que temos de ser extremamente cautelosos ao transferirmos para o nosso debate o que poderão ser assunções injustificadas sobre a igualdade de pode- res, um consenso atingível que todos partilham, e um universo educacional em que os conflitos que são verdadeiramente constitutivos e estruturais podem ser “negociados” e postos de lado através daquilo que poderíamos chamar de “cura através da fala”. Não estou, de modo algum, confiante nessa idéia. A noção de consenso integra a sensibilidade requerida para a apreensão de fatos e julgamentos relativos à sua significação e ordem (sensus) e o caráter público que implica envolvimento (con), podendo-se afirmar que existem, quan- do estão salvaguardados, os princípios da responsabilidade distribuída, da responsabilidade delegada, da participação administrativa, da multiplicação de alternativas e da diversidade sensível/estimada, entre outros (Schawb, 1957, p. 408-413). Por outro lado, a sua existência torna possível o surgimento de uma consciência comum que torne aconselhável e necessária a criação de “uma ponte conceitual entre os discursos individuais, entre os discursos das pessoas e das instituições, entre as forças sociais e organizacionais e entre a ação política e técnica” (Macdonald e Zaret, 1975, p. 2). POLÍTICAS CURRICULARES • 21 Em termos políticos, o consenso refere-se a um tipo de acordo acerca dos fins e valores que envolve aspectos econômicos, políticos e sociais (Barry, 1987, p. 408-413) e que é característico de um pensamento conservador apoiado nos princípios defendidos pelos liberais clássicos. Nesse caso, o liberalismo tem sido associado a questões do consenso quando pressupõe o livre mercado e o individualismo nas questões econômicas, encontrando- se bem presente no Estado-providência social.18 Portfólio ATIVIDADE Luciana é pedagoga em uma escola de ensino fundamental e médio, localizada em uma capital na região Sul do Brasil, trata-se de uma escola pública, funcionando nos três turnos, essa escola realiza suas atividades profissionais no Serviço de Orientação Educacional (SOE) e no Serviço de Supervisão Escolar (SSE). No momento, a escola encontra-se em uma atividade muito importante, que é a revisitação do currículo escolar. Um grupo de professores está reunido, aproveitando o recesso escolar, para elaborar os instrumentos de mapeamento das dificuldades de aprendizagem. Com base nesse instrumento, será possível um estudo detalhado a respeito das necessidades curriculares apresentadas pela escola. TAREFA Considere que você faz parte do quadro docente dessa escola e participe ativamente do processo de mapeamento criando o instrumento para observação e coleta de dados. Sua tarefa será a de auxiliar Luciana e o grupo de professores na construção desse instrumento. Lembre-se de que seu material poderá ser utilizado por seus colegas professores. Logo, deverá ser o mais detalhado possível, favorecendo a coleta e a categorização de dados para o estudo docente. Pesquisa AUTOESTUDO Acesse o artigo Educação infantil: saberes e práticas da inclusão: dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento. 4. ed. Brasília: MEC, Secretaria de Educação Especial, 2006. ACESSE - ARTIGO 01 - 035 - AULA 04 4.pdf Página em branco Página em branco Página em branco