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Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica Experimento 3 - Os Metais Alcalinos, Alcalinos Terrosos, Boro e Alumínio Docente: Priscilla Paiva Luz Discente: Larissa Raasch Freitas e Lucas Daniel do Rozario Claro Resumo Esta prática experimental investigou as propriedades químicas de diferentes grupos de elementos representativos da Tabela Periódica, com ênfase nos metais alcalinos e alcalinos terrosos (Grupos 1 e 2), bem como no boro, alumínio e seus compostos (Grupo 13). As observações centraram-se em aspectos como a reatividade com água, os espectros de emissão atômica e a solubilidade de sais para os metais alcalinos e alcalinos terrosos, além do comportamento ácido do ácido bórico e do óxido de boro, da síntese e propriedades do trifluoreto de boro, do anfoterismo do hidróxido de alumínio e da reatividade do óxido de alumínio. Os resultados evidenciaram a elevada reatividade dos metais dos grupos 1 e 2, suas assinaturas espectroscópicas características e a alta solubilidade de seus sais, assim como o caráter ácido fraco do ácido bórico, sua capacidade de formar complexos mais ácidos com polióis, o comportamento anfótero do hidróxido de alumínio e a baixa reatividade do óxido de alumínio frente a diferentes agentes. A prática permitiu estabelecer correlações entre os fenômenos experimentais observados e os fundamentos teóricos da química inorgânica, reforçando o entendimento das tendências periódicas, da estrutura eletrônica e das propriedades físico-químicas dos elementos estudados. Palavras-chaves: Reatividade, Espectroscopia de chama, Solubilidade, Ácido de Lewis. 1 Introdução Os metais alcalinos (Li, Na, K, Rb, Cs), alcalinos terrosos (Mg, Ca, Sr, Ba), o boro e o alumínio, pertencentes aos grupos 1, 2 e 13 da Tabela Periódica, destacam-se por suas propriedades químicas marcantes e por sua ampla aplicação em contextos laboratoriais e industriais. Esta prática experimental teve como objetivo investigar e comparar o comportamento químico desses elementos e de seus compostos, com foco na compreensão de suas tendências periódicas, reatividade e funções ácido-base. 1 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica No caso dos metais alcalinos e alcalinos terrosos, foram explorados três aspectos principais: a reatividade com a água, que é vigorosa nos metais alcalinos e aumenta com o número atômico; a emissão de luz em espectros de chama, cujos comprimentos de onda são característicos e permitem a identificação qualitativa dos elementos; e a solubilidade de seus sais, em geral bastante elevada, com variações relacionadas ao tamanho iônico e à energia reticular dos compostos. Por sua vez, o estudo do boro e do alumínio centrou-se na análise do comportamento ácido do ácido bórico (H₃BO₃) e do óxido de boro (B₂O₃), incluindo a formação de complexos com polióis que aumentam a acidez da solução; na síntese e caracterização do trifluoreto de boro (BF₃), um ácido de Lewis volátil e catalisador em reações orgânicas; na investigação do anfoterismo do hidróxido de alumínio (Al(OH)₃), capaz de reagir tanto com ácidos quanto com bases; e na avaliação da resistência do óxido de alumínio (Al₂O₃) frente a diferentes agentes químicos. A realização desses experimentos proporcionou a consolidação de conceitos teóricos como reatividade química, espectroscopia atômica, acidez, solubilidade e anfoterismo, além de promover o desenvolvimento de habilidades técnicas em síntese, observação e interpretação de dados em ambiente laboratorial. 2 Objetivos Esta prática experimental teve como objetivos: ➢ Investigar a reatividade dos metais alcalinos (Grupo 1) e alcalinos terrosos (Grupo 2) com água, relacionando-a com suas propriedades periódicas. ➢ Identificar elementos metálicos por meio de espectroscopia de chama, analisando as cores características emitidas. ➢ Avaliar a solubilidade de sais desses metais com diferentes ânions (CO₃²⁻, F⁻, HPO₄²⁻), discutindo os fatores que influenciam a formação de precipitados. ➢ Estudar o comportamento ácido do ácido bórico (H₃BO₃) e óxido de boro (B₂O₃), incluindo a formação de complexos com polióis. ➢ Sintetizar e caracterizar o trifluoreto de boro (BF₃), compreendendo suas propriedades como ácido de Lewis. ➢ Demonstrar o anfoterismo do hidróxido de alumínio (Al(OH)₃) e a baixa reatividade do óxido de alumínio (Al₂O₃) frente a ácidos e bases. 2 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica 3 Embasamento Teórico Os metais alcalinos (Grupo 1) e alcalinos terrosos (Grupo 2) apresentam propriedades químicas marcantes devido à sua configuração eletrônica com um ou dois elétrons na camada de valência, respectivamente. Esses elementos são altamente reativos, com a reatividade aumentando significativamente ao descermos nos grupos, fenômeno explicado pela diminuição da energia de ionização e aumento do raio atômico. Quando em contato com água, os metais alcalinos reagem vigorosamente, liberando hidrogênio gasoso e formando hidróxidos básicos, enquanto os alcalinos terrosos apresentam reações menos intensas, exceto pelo bário. A espectroscopia de chama, técnica fundamental para identificação qualitativa desses elementos, baseia-se no princípio de que, quando aquecidos, seus íons emitem luz em comprimentos de onda característicos devido a transições eletrônicas entre níveis de energia. Por exemplo, o sódio emite luz amarela intensa (589 nm) correspondente à transição 3p→3s, enquanto o potássio apresenta coloração violeta devido a transições mais complexas envolvendo os níveis 4p→4s. No estudo da solubilidade dos sais desses metais, observa-se que os compostos dos metais alcalinos são geralmente muito solúveis em água, com exceções notáveis como o fluoreto de lítio (LiF), onde a alta energia de rede supera a energia de hidratação. Para os alcalinos terrosos, a solubilidade varia significativamente: os carbonatos tornam-se menos solúveis ao descermos no grupo, enquanto os fluoretos apresentam o comportamento oposto, com o BaF₂ sendo particularmente insolúvel devido à incompatibilidade de tamanho entre o grande cátion Ba²⁺ e o pequeno ânion F⁻. O boro e o alumínio, elementos do Grupo 13, exibem propriedades distintas. O ácido bórico (H₃BO₃) comporta-se como um ácido fraco de Lewis, cuja acidez pode ser significativamente aumentada pela formação de complexos com polióis como o manitol, que estabilizam o ânion borato. Seu óxido, B₂O₃, é um anidrido ácido que reage com água regenerando o ácido bórico. O trifluoreto de boro (BF₃), com sua geometria trigonal planar e orbital p vazio no boro, é um potente ácido de Lewis com diversas aplicações em catálise orgânica. O alumínio destaca-se pelo comportamento anfótero de seu hidróxido, Al(OH)₃,que reage tanto com ácidos quanto com bases, formando respectivamente o cátion Al³⁺ em meio ácido e o ânion aluminato [Al(OH)₄]⁻ em meio básico. Já o óxido de alumínio (Al₂O₃) apresenta notável estabilidade química, sendo resistente à ação da maioria dos reagentes em 3 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica condições ambientais, propriedade que o torna valioso em aplicações industriais como material refratário. Essa estabilidade é atribuída à sua estrutura cristalina compacta (α-Al₂O₃), que só é rompida sob condições drásticas como fusão alcalina ou tratamento com ácidos concentrados sob aquecimento. 4 Metodologia Materiais: Bico de Bunsen, arame de platina, tubos de ensaio, soluções de cloretos metálicos (LiCl, NaCl, KCl, MgCl₂, CaCl₂, SrCl₂, BaCl₂), reagentes (NH₄)₂CO₃, NH₄F, (NH₄)₂HPO₄, H₃BO₃, B₂O₃, KBF₄, AlCl₃, Al₂O₃, NaOH, HCl, H₂SO₄ concentrado, papel indicador de pH. Procedimentos: ➢ Reatividade com água: Observação da reação de Li, Na e K em água (via vídeo). ➢ Teste de chama: Aquecimento de sais em chama e registro das cores emitidas. ➢ Testes de solubilidade: Adição de reagentes a soluções metálicas e observação de precipitados. ➢ Ácido bórico: Aquecimento, dissolução em água, teste de pH e complexação com manitol. ➢ Síntese de BF₃: Reação de KBF₄, B₂O₃ e H₂SO₄ em tubo de ensaio seco. ➢ Anfoterismo do Al(OH)₃: Precipitação com NH₄OH e redissolução com HCl/NaOH. ➢ Reatividade do Al₂O₃: Tratamento com ácidos/bases concentrados e fusão com KHSO₄. Controles: Uso de arame de platina limpo para evitar contaminação no teste de chama; realização de reações com ácidos concentrados na capela. 5 Resultados e Discussão Experimento 3: Os Metais Alcalinos e Alcalinos Terrosos 1. Reatividade dos Metais Alcalinos em Água Observações: ➢ Lítio (Li): Reação moderada, com liberação lenta de bolhas de H₂ e formação de LiOH. 4 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica ➢ Sódio (Na): Reação vigorosa, com deslocamento rápido na superfície da água e formação de NaOH. ➢ Potássio (K): Reação explosiva, com ignição espontânea do H₂ liberado e formação de KOH. A reatividade observada nos experimentos com Li, Na e K em água demonstrou claramente as tendências periódicas no Grupo 1. O lítio reage moderadamente, com liberação constante de bolhas de H₂, enquanto o sódio apresenta uma reação mais vigorosa, deslocando-se rapidamente na superfície da água e produzindo uma pequena explosão característica. O potássio, por sua vez, reage de forma explosiva, com ignição instantânea do hidrogênio liberado. Essas diferenças podem ser explicadas pela diminuição progressiva da energia de ionização (Li: 520 kJ/mol; Na: 496 kJ/mol; K: 419 kJ/mol) e aumento do raio atômico ao descermos no grupo, o que facilita a perda do elétron de valência. , conforme a reação geral: 2M(s) + 2H₂O(l) → 2MOH(aq) + H₂(g) A liberação de energia na forma de calor e luz evidencia a natureza exotérmica dessas reações, sendo a energia liberada suficiente para inflamar o hidrogênio. Vale destacar que a formação de hidróxidos alcalinos explica o pH básico das soluções resultantes, com a basicidade aumentando do LiOH ao KOH, conforme a maior reatividade dos metais. 2. Espectros Atômicos dos Metais Cores observadas na chama: Composto Cor da Chama Explicação LiCl Vermelho Transição eletrônica 2p → 2s (670 nm). O pequeno tamanho do átomo de Li resulta em grande diferença energética entre níveis, emitindo no vermelho. NaCl Amarelo Linha D do sódio (589 nm) da transição 3p → 3s. A alta intensidade deve-se à facilidade de excitação do elétron de valência. KCl Lilás Transições 4p → 4s (404 nm) e 5p → 4s (690 nm). A cor lilás resulta da superposição dessas linhas espectrais. 5 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica CaCl₂ Vermelho-Alaranja do Transições de elétrons d (níveis 3d → 4p) em ~622 nm. São "proibidas" por seleção quântica, mas ocorrem por perturbações térmicas. BaCl₂ Verde-Amarelado Transições 6p → 6s (524 nm) e 5d → 6p (553 nm). O grande raio atômico do Ba reduz o gap energético, deslocando a emissão para o verde. SrCl₂ Vermelho Transições 5p → 5s (605 nm) dominantes. A cor vermelha característica é usada em fogos de artifício. MgCl₂ Incolor O Mg requer alta energia para excitação (transição 3s → 3p em 285 nm - UV). Não emite no visível significativamente. As cores são resultantes da emissão de fótons quando elétrons excitados retornam ao estado fundamental. A precisão na identificação das cores é crucial para análises qualitativas, como no teste de chama para identificação de metais em amostras desconhecidas. 3. Solubilidade dos Sais Resultados dos Alcalinos: Sal Testado Reagente Adicionado Observação Explicação LiCl (NH₄)₂CO₃ (carbonato) Nenhum precipitado Carbonatos de metais alcalinos são solúveis (alta energia de hidratação). NaCl NH₄F (fluoreto) Nenhum precipitado Fluoretos de Na⁺ e K⁺ são solúveis, exceto LiF (pequeno raio iônico). KCl (NH₄)₂HPO₄ (fosfato) Nenhum precipitado Os fosfatos de metais alcalinos são geralmente solúveis. LiCl NH₄F (fluoreto) Precipitado branco (LiF) Baixa solubilidade do LiF devido à alta energia de rede. A solubilidade dos sais é governada pelo balanço entre energia de rede e energia de hidratação. Sais de metais alcalinos (M⁺) são tipicamente solúveis devido à baixa carga e alta 6 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica hidratação, mas exceções como LiF e Li₃PO₄ ocorrem quando a energia de rede supera a de hidratação. Resultados dos Alcalinos Terrosos: Sal Testado /Reagente Adicionado: (NH₄)₂CO₃ NH₄F (NH₄)₂HPO₄ Observação Explicação MgCl₂ Solúvel Precipitado branco (-intenso) Solúvel Carbonato e fosfato de Mg são solúveis; fluoreto forma MgF₂ (pouco solúvel). Mg²⁺ tem alta energia de hidratação, favorecendo solubilidade, exceto com F⁻ (MgF₂ tem energia de rede moderada). CaCl₂ Precipitado branco Precipitado branco Precipitado branco Todos os sais testados formam precipitados. Ca²⁺ forma compostos pouco solúveis com CO₃²⁻ (CaCO₃), F⁻ (CaF₂) e HPO₄²⁻ (CaHPO₄). SrCl₂ Precipitado branco Precipitado branco Precipitado branco Comportamento similar ao Ca²⁺. Sr²⁺ tem raio iônico maior que Ca²⁺, mas ainda forma sais pouco solúveis com esses ânions. BaCl₂ Precipitado branco Precipitado branco (+intenso) Precipitado branco BaF₂ é altamente insolúvel (precipitado mais visível). Ba²⁺ tem maior raio iônico, levando a menor solubilidade com ânions pequenos (e.g., F⁻) devido à alta energia de rede. Os resultados obtidos nos testes de solubilidade com os sais dos metais alcalinos terrosos revelam padrões interessantes que podem ser explicados através de princípios da química inorgânica. Observa-se que a solubilidade dos compostos formados varia significativamente em função do cátion(Mg²⁺, Ca²⁺, Sr²⁺, Ba²⁺) e do ânion (CO₃²⁻, F⁻, HPO₄²⁻) envolvidos. Para os carbonatos, nota-se uma clara tendência de diminuição da solubilidade ao descer no grupo: enquanto o MgCO₃ permanece solúvel, os carbonatos de cálcio, estrôncio e bário formam precipitados brancos, com o BaCO₃ sendo o menos solúvel. Este comportamento segue o esperado, pois à medida que o tamanho do cátion aumenta, a energia 7 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica de rede se torna mais favorável em relação à energia de hidratação, tornando os compostos menos solúveis. No caso dos fluoretos, observa-se uma exceção importante à tendência geral. Embora o MgF₂ apresente precipitação pouco intensa, os fluoretos dos demais elementos formam precipitados mais evidentes, com o BaF₂ destacando-se por sua alta insolubilidade. Isto ocorre porque o íon Ba²⁺, por ser muito grande, forma com o pequeno íon F⁻ um composto com energia de rede particularmente alta, superando os efeitos da hidratação. Quanto aos fosfatos, todos os cátions testados formaram precipitados brancos, exceto o magnésio, cujo fosfato mostrou-se solúvel. Esta diferença pode ser atribuída ao menor tamanho do íon Mg²⁺, que favorece a hidratação em relação à formação da rede cristalina. Estes resultados demonstram como o equilíbrio entre energia de rede e energia de hidratação, juntamente com a compatibilidade de tamanho entre íons, determinam a solubilidade dos compostos iônicos. O comportamento do magnésio, frequentemente diferente dos demais elementos do grupo, ressalta a importância do pequeno tamanho de seu íon, enquanto a crescente insolubilidade observada para os elementos mais pesados ilustra o efeito do aumento do raio iônico nas propriedades dos compostos formados. Experimento 4: Boro, Alumínio e Seus Compostos 1. Ácido Bórico, Óxido de Boro e Boratos a) Aquecimento do ácido bórico: Observação: O ácido bórico sólido (H₃BO₃) sofre decomposição térmica, liberando água e formando óxido de boro (B₂O₃) como resíduo branco. Equação química: 2H₃BO₃(s) → B₂ O₃(s) + 3H₂O(g) 8 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica b) Dissolução e teste de pH: Observação: A solução aquosa de H₃BO₃ apresentou pH ~5 (testado com papel indicador), confirmando seu caráter ácido fraco. Com adição de manitol, o pH diminuiu para ~4 devido à formação de um complexo ácido mais forte. Explicação: O manitol (poliálcool) forma um complexo com o ácido bórico, estabilizando o ânion borato e aumentando a liberação de H⁺. c) Óxido de boro: Observação: O B₂O₃ dissolveu-se lentamente em água, formando uma solução ácida. Equação: B₂O₃(s)+3H₂O(l)→2H₃BO₃(aq) d) Bórax (Na₂B₄O₇·10H₂O): Observação: A solução de bórax apresentou pH ~9, indicando comportamento básico devido à hidrólise do ânion borato. Discussão: O estudo do ácido bórico revelou suas propriedades ácidas peculiares. Quando aquecido, o H₃BO₃ sofre decomposição térmica a temperaturas acima de 170°C, liberando água e formando óxido de boro. Esta reação demonstra a notável estabilidade das ligações B-O na estrutura molecular. Em solução aquosa, o ácido bórico comporta-se como um ácido de Lewis fraco, com constante de dissociação da ordem de 10⁻¹⁰, atuando através da aceitação de um par de elétrons da molécula de água. A adição de manitol provocou uma queda significativa no pH da solução, de aproximadamente 5 para 4. Este efeito é explicado pela formação de complexos estáveis entre o ácido bórico e o poliol, que atuam estabilizando o ânion borato formado e, consequentemente, deslocando o equilíbrio de dissociação para maior produção de íons H⁺. O bórax, por outro lado, apresentou comportamento básico em solução aquosa, com pH em torno de 9, resultado da hidrólise do ânion borato que libera íons hidroxila para o meio. 9 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica 2. Obtenção do Trifluoreto de Boro (BF₃) Procedimento e observações: A mistura de KBF₄, B₂O₃ e H₂SO₄ concentrado produziu um gás incolor (BF₃), identificado por sua reação com a umidade do ar (formação de fumos brancos de HBF₄). Equação principal: 3KBF₄ + B₂O₃ + 3H₂SO₄ → 4BF₃(g) + 3KHSO₄ + H₂O A síntese do trifluoreto de boro através da reação entre KBF₄, B₂O₃ e ácido sulfúrico concentrado demonstrou a forte afinidade do boro pelo flúor. O BF₃ produzido mostrou-se um gás altamente reativo, confirmado pela formação de fumos brancos em contato com a umidade do ar. A molécula de BF₃ apresenta geometria trigonal planar perfeita, resultado da hibridização sp² do átomo central de boro. O orbital p vazio restante, perpendicular ao plano molecular, confere à molécula suas notáveis propriedades como ácido de Lewis, capaz de aceitar pares de elétrons de diversas bases. 3. Hidróxido de Alumínio e Anfoterismo a) Formação do Al(OH)₃: Observação: Adição de NH₄OH a AlCl₃ produziu um precipitado branco gelatinoso de Al(OH)₃. Equação: AlCl₃(aq) + 3NH₄OH(aq) → Al(OH)₃(s) + 3NH₄Cl(aq) b) Reação com NaOH: Observação: O precipitado dissolveu-se em excesso de NaOH, formando o ânion aluminato [Al(OH)₄]⁻. Equação: Al(OH)₃(s) + OH¯(aq) → [Al(OH)₄]¯(aq) 10 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica c) Reação com HCl: Observação: O precipitado dissolveu-se em HCl, formando Al³⁺(aq). Equação: Al(OH)₃(s) + 3H ⁺ (aq) → Al₃ ⁺ (aq) + 3H₂O(l) Discussão do anfoterismo: Os experimentos com hidróxido de alumínio demonstraram claramente seu caráter anfótero. Em meio ácido, observamos a dissolução do precipitado com formação do cátion Al³⁺, enquanto em meio básico ocorreu a formação do ânion aluminato [Al(OH)₄]⁻. Este comportamento dual pode ser explicado pela teoria ácido-base de Pearson, onde o pequeno e altamente carregado íon Al³⁺ apresenta características intermediárias entre ácidos duros e moles, permitindo interações tanto com bases duras (OH⁻) quanto com ácidos duros (H⁺). Esse comportamento é típico de elementos com alta carga iônica e pequeno tamanho (e.g., Al³⁺, Zn²⁺). 4. Reatividade do Óxido de Alumínio (Al₂O₃) Resultados dos testes: Reagente Observação Explicação HCl (concentrado) Dissolução lenta (aquecimento) Formação de AlCl₃ e água. HNO₃ (concentrado) Pouca reação Al₂O₃ é resistente a oxidantes fortes. H₂SO₄ (concentrado) Dissolução parcial (aquecimento) Formação de Al₂(SO₄)₃ Fusão com KHSO₄ Dissolução completa Conversão para Al₂(SO₄)₃. NaOH 10% Dissolução (formação de aluminato) Reação anfotérica: Al₂O₃ + 2OH⁻ + 3H₂O → 2[Al(OH)₄]⁻. Discussão: O óxido de alumínio mostrou extraordinária resistência química. Esta estabilidade é consequência direta da estrutura cristalina compacta hexagonal e da natureza fortemente covalente das ligações Al-O. A dissolução do óxido exige condições drásticas, como 11 Universidade Federaldo Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica aquecimento com ácidos concentrados ou fusão com hidrogenossulfato de potássio. Estes processos envolvem a quebra da rede cristalina altamente organizada, explicando a inércia química do material em condições ambientais. 6 Conclusão Os experimentos realizados permitiram concluir que os metais alcalinos apresentam reatividade crescente com a água à medida que se desce no grupo, comportamento diretamente relacionado à diminuição da energia de ionização e ao aumento do raio atômico. Essa característica justifica o cuidado necessário no manuseio e armazenamento desses elementos, geralmente imersos em substâncias inertes como óleo mineral. A análise espectroscópica revelou que os íons desses metais emitem luz com colorações específicas quando excitados termicamente, permitindo sua identificação qualitativa por meio do teste de chama, uma técnica essencial em química analítica e aplicada também em contextos forenses. A solubilidade dos sais dos metais alcalinos mostrou-se amplamente elevada, confirmando seu comportamento altamente iônico e solúvel, embora exceções como o LiF ressaltem a importância de fatores como tamanho iônico e energia reticular na previsão da solubilidade. Quanto ao estudo do grupo do boro e do alumínio, verificou-se que o ácido bórico (H₃BO₃) possui caráter de ácido de Lewis fraco, cuja acidez pode ser significativamente aumentada por meio da formação de complexos com polióis, como o manitol. O óxido de boro (B₂O₃), ao ser dissolvido em água, regenera o ácido bórico, demonstrando seu caráter de anidrido ácido. A síntese do trifluoreto de boro (BF₃), realizada sob condições controladas, evidenciou sua natureza altamente reativa e sua estrutura trigonal planar, características que o tornam um ácido de Lewis forte e útil como catalisador em reações orgânicas. O hidróxido de alumínio (Al(OH)₃) exibiu comportamento anfótero marcante, sendo capaz de se dissolver tanto em meios ácidos quanto em básicos, o que foi evidenciado pela formação dos íons Al³⁺ e [Al(OH)₄]⁻, respectivamente. Já o óxido de alumínio (Al₂O₃) apresentou alta estabilidade química, reagindo apenas sob condições severas, como em presença de ácidos ou bases concentradas e com aquecimento, comportamento que justifica sua aplicação na produção de materiais refratários e abrasivos. De forma geral, a prática permitiu correlacionar tendências periódicas com propriedades físico-químicas observáveis em laboratório, além de reforçar a importância de 12 Universidade Federal do Espírito Santo Laboratório de Química Inorgânica Relatório da disciplina Ciências Exatas e da Terra - Química Inorgânica variáveis experimentais no controle da precisão e reprodutibilidade dos resultados. A análise crítica dos dados também permitiu reconhecer implicações práticas importantes, como o uso da acidez aumentada do H₃BO₃ em bioquímica, a aplicação do Al(OH)₃ em processos industriais como a purificação da bauxita, e a importância do teste de chama na identificação de metais em amostras mistas. Para futuras investigações, recomenda-se explorar o efeito de outros polióis, como o glicerol, sobre a acidez do ácido bórico, bem como aprofundar o estudo da solubilidade de sais atípicos como o carbonato de lítio (Li₂CO₃), com o intuito de compreender melhor as exceções às regras gerais de solubilidade. Referências Bibliográficas HOUSECROFT, C. E.; SHARPE, A. G. Química Inorgânica. 5. ed. Harlow: Pearson Education, 2018. MIESSLER, G. L.; FISCHER, P. J.; TARR, D. A. Química Inorgânica. 5. ed. Boston: Pearson, 2014. SHRIVER, D. F.; ATKINS, P. W. Química Inorgânica. 5. ed. Oxford: Oxford University Press, 2010. 13