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Fármacos antiparasitários 1. Introdução aos Antiprotozoários - Comuns em países tropicais e subtropicais subdesenvolvidos. - Associadas a más condições sanitárias, práticas de higiene inadequadas e ausência de controle vetorial. - Globalização e viagens internacionais contribuíram para a expansão dessas doenças para outras regiões. - Protozoários são eucariontes unicelulares com metabolismo semelhante ao humano, dificultando o tratamento. - Tratamento de protozoários é mais difícil do que bactérias (que são procariontes e são mais simples) por semelhança com as nossas células. - Antiprotozoários podem ser tóxicos e são, na maioria, contraindicados na gestação. - A eliminação de protozoários requer tratamentos prolongados (3 a 6 meses), ao contrário de antibióticos (7 dias). - São doenças negligenciadas de pouco interesse da indústria farmacêutica, apesar de haver mais pesquisas atualmente. - Diferenças: fungos têm ergosterol e parede celular, humanos têm colesterol. 2. Amebíase (Entamoeba histolytica) - Formas clínicas: assintomática, diarreia leve e disenteria fulminante. - Diagnóstico: isolamento do parasita nas fezes. - Tratamento também é indicado em casos assintomáticos para evitar recorrência e transmissão. - No ciclo: cistos ingeridos → passam pelo estômago → trofozoítos no íleo → lúmen intestinal ou invadem cólon e fígado. - Cistos são infectantes; trofozoítos não. - Fármacos classificados como: Luminais: agem no lúmen intestinal. Sistêmicos: agem em infecções extraintestinais. Mistos: atuam em ambos. - Amebicidas Mistos Metronidazol - Também eficaz contra Giardia lamblia, Trichomonas vaginalis, bactérias anaeróbias, Clostridium difficile. - Mecanismo: captação de elétrons via ferredoxina, formando compostos citotóxicos que causam lise proteica e de DNA dos trofozoítos. - Efeitos colaterais gastrointestinais. - Radicais livres ajudam a eliminar o parasita. - 500mg 4x/dia de 5 a 10 dias Tinidazol - Nitroimidazol de 2ª geração. - Atua contra a amebíase intestinal e abscesso hepático, giardíase e tricomoníase. - Tratamento mais curto que o metronidazol, porém com custo mais elevado. - Também causa efeitos adversos gastrointestinais. - Deve-se evitar álcool pois impede a quebra de acetaldeído em acetato. - Dose única diária 2 g por 2 a 3 dias consecutivos. - Amebicidas Luminais Iodoquinol - Atua contra trofozoítos e cistos luminais de E. histolytica. - Efeitos adversos: urticária, diarreia, neuropatia periférica (dose-dependente), neurite óptica (rara). - Evitar uso prolongado. Paromomicina - Aminoglicosídeo não absorvido no TGI. - Atua contra formas intestinais de E. histolytica. - Ação dupla: amebicida direto e redutor da flora intestinal. - Alternativa contra criptosporidiose e giardíase. - Efeitos adversos: desconforto gastrointestinal, diarreia. - Tratamento geralmente exige associação de mais de um fármaco com base nos sintomas. Nitazoxanida - Geralmente é indicado para uso pediátrico (dose: 0,375mL/Kg/dose de 12/12h). - 500mg de 12/12h por 3 dias. - Amebicidas Sistêmicos - Mais específica que os mistos. - Em sua maioria, causam toxicidade e consequências diversas, como oculares. Cloroquina - Associada ao metronidazol para abscesso hepático amebiano. - Elimina trofozoítos no fígado, mas não atua no lúmen intestinal. - Requer uso subsequente de amebicida luminal. - Também usada contra malária. Desidroemetina - Alternativa ao metronidazol. - Mecanismo: inibição da síntese proteica (bloqueio do alongamento da cadeia). - Uso preferencial: intramuscular (oral é irritante). - Alta toxicidade: dor local, náusea, tontura, urticária, cardiotoxicidade (arritmias, insuficiência cardíaca), fraqueza neuromuscular. - Empregada como medicamento alternativo, em casos específicos. 3. Malária (Plasmodium spp.) - Transmissão: fêmea do mosquito Anopheles. - Espécies: P. falciparum: mais grave, febre persistente, risco de morte. P. vivax: mais branda. P. malariae: comum em áreas tropicais. P. ovale: rara. - Desafios: resistência do parasita e do vetor aos medicamentos e inseticidas. Primaquina - Derivado da 8-aminoquinolina. - Único eficaz contra formas hepáticas (exoeritrocíticas) de P. vivax e P. ovale. - Previne recaídas. - Elimina formas gametocidas, interrompendo a transmissão. - Contraindicado na gestação e em deficiência de G6PD (risco de anemia hemolítica). - Efeitos adversos: desconforto abdominal, anemia hemolítica, metemoglobinemia. - Mecanismo: gera metabólitos oxidantes que causam lesão oxidativa nas hemácias. Cloroquina - Fármaco de escolha para formas eritrocíticas por cepas sensíveis de P. falciparum. - Também usada na amebíase extraintestinal. - Mecanismo: impede a polimerização do heme → acúmulo tóxico de heme livre → lesão oxidativa do eritrócito e morte do parasita. - Contraindicada em psoríase, porfiria, distúrbios neurológicos e hepáticos graves. - Alta resistência em regiões da África, Ásia e América Latina. - Alta distribuição nos tecidos, atravessa placenta. Atovaquona + Proguanil - Uso: malária resistente por P. falciparum. - Atovaquona: inibe mitocôndria do parasita. - Proguanil: inibe síntese de DNA. - Efeitos: náuseas, dor abdominal, tontura. - Tomar com alimentos para diminuir os efeitos colaterais. Mefloquina - Uso profilático e terapêutico em formas multirresistentes. - Ação desconhecida. - Meia-vida longa (20 dias). - Efeitos: náusea, alucinação, depressão. - Evitar uso com quinina/quinidina (risco cardíaco). Quinina - Casos graves e resistentes (geralmente associada a antibióticos). - Inibe a polimerização do heme. - Efeitos: cinchonismo (zumbido, náusea, vertigem). - Interações: aumenta digoxina, reduz com antiácidos. Artemisininas - 1ª linha no tratamento da malária por P. falciparum. - Liberação de radicais livres que danificam o parasita. - Sempre combinadas com outros fármacos. - Efeitos: náuseas, diarreia, prolongamento do intervalo QT. - Não usar isoladamente ou como profilaxia. Pirimetamina - Esquizonticida e esporonticida contra P. falciparum. - Inibe a di-hidrofolato redutase (síntese de DNA). - Geralmente usada em combinação (ex: com sulfadoxina). 4. Tripanossomíase Doença do Sono (Africana) - Agentes: Trypanosoma brucei gambiense e T. brucei rhodesiense. - Evolução: inicia no sangue e invade o SNC. - Sintomas: inflamação cerebral, sonolência intensa, letargia. Doença de Chagas (Americana) - Agente: Trypanosoma cruzi. - Endêmica na América Central e América do Sul. - Fármacos Antitripanossomíase Pentamidina - Usado no 1º estágio da tripanossomíase africana (T. brucei gambiense). - Alternativa para Pneumocystis jirovecii e leishmaniose. - Entra por transporte ativo e inibe síntese de RNA, DNA e proteínas. - Administração: IM/IV (tripanossomíase); nebulização (profilaxia de P. jirovecii). - Não atravessa o líquido cerebrospinal → ineficaz no 2º estágio. - Efeitos adversos: disfunção renal reversível, alterações glicêmicas, hipotensão, pancreatite. - Tóxico para o rim. Suramina - Usada no 1º estágio da forma por T. brucei rhodesiense, sem envolvimento do SNC. - Inibe enzimas do metabolismo energético do parasita. - Administração IV. Não atravessa bem a barreira hematoencefálica. - Meia-vida longa (>40h), excreção renal. Melarsoprol - Usado no 2º estágio (com envolvimento do SNC), especialmente T. brucei rhodesiense. - Reage com grupos sulfidrila de enzimas do parasita e do hospedeiro. - Administração IV lenta, eficaz no LCS. - Rápida oxidação a formas menos tóxicas, meia-vida curta, excreção urinária. Nifurtimox - Usado na Doença de Chagas (T. cruzi). - Mecanismo: formação de radicais livres tóxicos ao parasita. - Administração oral, biotransformação, excreção urinária. - Efeitos adversos com uso crônico: hipersensibilidade (anafilaxia, dermatite), problemas gastrointestinais com perda de peso, neuropatia periférica, cefaleia, tontura. - Proibida venda comercial no Brasil devido alta toxicidade.Benznidazol - Derivado nitroimidazol com mecanismo semelhante ao nifurtimox. - Melhor tolerância, alternativa eficaz para a Doença de Chagas. - Efeitos adversos: dermatite, neuropatia periférica, insônia, anorexia. 5. Leishmaniose - Tipos: Cutânea Mucocutânea Visceral (mais grave – afeta fígado e baço) - Transmissão: picada de mosquito infectado. - Diagnóstico: identificação do parasita em biópsias ou lesões. - A escolha do fármaco depende da espécie de Leishmania, do paciente e da resistência local. - Fármacos Anfotericina B - É também antifúngico e antibiótico - Muito tóxica. Estibogliconato de sódio: - Uso parenteral. - Excreção renal, pouca biotransformação. - Possível ação após conversão para forma trivalente. - Efeitos adversos: dor local, pancreatite, alterações hepáticas, gastrointestinais e cardíacas. - Monitorar função hepática e renal. Miltefosina: - Primeiro fármaco oral para leishmaniose visceral. - Também eficaz para formas cutânea e mucocutânea. - Atua na membrana do parasita, induzindo apoptose. - Efeitos adversos: náuseas, vômitos. - Contraindicado na gestação (teratogênico). Alternativos: Pentamidina e paromomicina 6. Toxoplasmose - Agente: Toxoplasma gondii. - Transmissão: carne crua ou mal cozida, contato com fezes de gatos. - Gestantes podem transmitir ao feto. - Tratamento principal Sulfadiazina + Pirimetamina + Ácido folínico - O ácido folínico protege contra deficiência de folato induzida pela pirimetamina. - Em caso de urticária, suspender a pirimetamina (risco de hipersensibilidade grave). - Alternativas Pirimetamina + Clindamicina Sulfametoxazol + Trimetoprima (SMZ + TMP) - Profilaxia em imunocomprometidos Sulfametoxazol + Trimetoprima 7. Giardíase - Agente: Giardia lamblia - Parasita intestinal mais comum nos EUA. - Ciclos: trofozoíto (forma ativa) e cisto (forma resistente). - Transmissão: ingestão de água contaminada. - Trofozoítos vivem no intestino delgado; cistos são eliminados nas fezes. - Sintomas: diarreia intensa (principalmente em imunocomprometidos); pode ser assintomática. Metronidazol (5 dias, via oral) Tinidazol (dose única) Nitazoxanida (3 dias) – também trata criptosporidiose Albendazol e Paromomicina – recomendados para gestantes 8. Tricomoníase - Agente: Trichomonas vaginalis - Infecção sexual não viral mais transmitida. - Sintomas mais comuns em mulheres: corrimento vaginal, prurido, dor ao urinar ou durante relações sexuais. - Homens geralmente são assintomáticos. Metronidazol - Classificado como amebicida misto. - Também eficaz contra Giardia lamblia, Entamoeba histolytica e anaeróbios. - Mecanismo: captação de elétrons via ferredoxina do parasita → gera compostos citotóxicos → lesão de proteínas e DNA → morte do protozoário. - Efeitos colaterais: gastrointestinais (náuseas, gosto metálico, vômito). - Dose única 2g ou 250 mg 2x/dia por 10 dias. Tinidazol - Nitroimidazol de 2ª geração, semelhante ao metronidazol. - Igualmente eficaz na tricomoníase, amebíase e giardíase. - Dose única 2g. Anti-helmínticos - Os helmintos que infectam humanos pertencem a três grupos principais: Nematódeos (vermes redondos) Trematódeos (vermes achatados em forma de folha) Cestódeos (tênias, segmentadas) - Anti-helmínticos atuam em alvos metabólicos específicos dos parasitas, ausentes ou diferentes nos hospedeiros. Os objetivos principais são: Eliminar os parasitas - Controlar a propagação da infecção - Alta incidência de infecções por helmintos no mundo. 9. Nematódeos Mebendazol - Fármaco de escolha para Trichuris trichiura, Enterobius vermicularis, Necator americanus, Ancylostoma duodenale, Ascaris lumbricoides. - Mecanismo: inibe microtúbulos, bloqueando captação de dextrose → parasitas não conseguem manter metabolismo → são expulsos. - Efeitos adversos: dor abdominal, diarreia. - Contraindicado na gestação, exceto em programas de tratamento em massa no 2º e 3º trimestres. Pamoato de Pirantel: - Atua contra Ascaris lumbricoides, Enterobius vermicularis, Necator americanus, Ancylostoma duodenale. - Pouca absorção oral → ação restrita ao intestino. - Mecanismo: bloqueador neuromuscular despolarizante → libera acetilcolina e inibe colinesterase → paralisia do verme → eliminação pelas fezes. - Efeitos leves: náusea, vômito, diarreia. Tiabendazol - Benzimidazólico sintético. - Anti-helmíntico potente e de amplo espectro. - Uso atual: principalmente tópico para larva migrans cutânea (bicho geográfico). - Uso sistêmico limitado devido à toxicidade → substituído por outros fármacos. Ivermectina - Indicada para: Larva migrans cutânea, Estrongiloidíase, Oncocercose (mata microfilárias, não vermes adultos). - Mecanismo: atua em canais de cloro ativados por glutamato → paralisia do helminto. - Via oral; não atravessa bem a barreira hematoencefálica. - Contraindicada na gestação. - Pode causar reação de Mazzotti na oncocercose: febre, cefaleia, tontura (tratar com anti-histamínicos ou corticoides). - Doses: 15–24 kg: ½ comprimido 25–35 kg: 1 comprimido 36–50 kg: 1½ comprimido 51–65 kg: 2 comprimidos 66–79 kg: 2½ comprimidos Acima de 80 kg: 200 mcg/kg Dietilcarbamazina - Usada contra filariose (Wuchereria bancrofti e Brugia malayi). - Mata microfilárias e vermes adultos. - Boa absorção oral, excreção urinária. - Efeitos adversos: febre, náusea, artralgia, cefaleia. - Contraindicada na oncocercose: risco elevado de reação de Mazzotti e cegueira. 10. Trematódeos - Vermes achatados que podem infectar: fígado, pulmões, intestinos, sangue, [...]. Praziquantel - Tratamento de escolha para esquistossomose e outras infecções por trematódeos e cestódeos (ex.: teníase). - Usado também para cisticercose, exceto ocular (risco de lesão irreversível). - Mecanismo: aumenta a permeabilidade ao cálcio → paralisia do parasita. - Boa absorção oral, atinge o líquido cerebrospinal (LCS). - Efeitos adversos: tontura, mal-estar, anorexia, distúrbios gastrointestinais. - Interações medicamentosas que reduzem sua ação: dexametasona, fenitoína, rifampicina, carbamazepina. 11. Cestódeos (Tênias) - Vermes segmentados e achatados, fixam-se no intestino. - Sem boca ou trato digestivo: absorvem nutrientes pela superfície corporal. Niclosamida - Alternativa ao praziquantel para teníase, difilobotríase e outras infecções por cestódeos. - Mecanismo: Inibe fosforilação mitocondrial do ADP → ação letal sobre escólex e segmentos. - Não atua sobre ovos. - Pode inibir metabolismo anaeróbico do parasita. - Recomenda-se uso de laxante antes da administração oral para eliminar segmentos mortos. - Evitar consumo de álcool 1 dia antes do tratamento. Albendazol - Benzimidazólico que inibe síntese de microtúbulos e captação de glicose. - Absorção aumentada com alimentos gordurosos. - Ampla distribuição, inclusive no líquido cerebrospinal. - Metabolizado no fígado, excreção urinária. - Efeitos leves em uso curto: cefaleia, náusea. - Em uso prolongado (ex: hidatidose) pode causar hepatotoxicidade e supressão medular - Na neurocisticercose: pode gerar reação inflamatória (cefaleia, febre, convulsões)