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GESTALT-TERAPIA
técnicas e intervenções
Perspectivas Fenomenológicas, Existenciais e Humanistas
Prof. Mestra Thais Rodrigues
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A relação terapêutica
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
PRESENÇA
Estar inteiro no momento da sessão.
Escutar com o corpo, com o olhar, com a energia e não só com os ouvidos.
Não se esconder atrás da neutralidade, mas ser um ser humano que responde ao outro.
Referência: Perls, Hefferline e Goodman (1951); Perls (1969) : "Tornar-se o que se é"
“A terapia começa quando o terapeuta está presente.”
(Fritz Perls)
Exemplo clínico:
O cliente diz: “Não sei por onde começar hoje.” O terapeuta, ao invés de buscar um tema, pode responder: “Percebi que você estava com os olhos cheio de lágrimas quando disse isso. O que está acontecendo aí com você agora?”
Isso é presença. É estar atento à experiência emergente.
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
AUTENTICIDADE
O terapeuta não é um "sabe-tudo", nem um "espelho em branco".
Pode se emocionar, pode se surpreender, pode dizer “eu não sei”.
Terapia como um encontro real, não um papel técnico.
“A terapia começa quando o terapeuta está presente.”
(Fritz Perls)
Fritz Perls dizia que o terapeuta não deve manipular nem consertar o cliente, mas sim se encontrar com ele, tal como ele é.
Exemplo clínico:
Cliente: “Acho que você não está entendendo o que eu sinto.”
Terapeuta: “É possível. Eu fico desconfortável ouvindo isso. Vamos explorar juntos o que talvez eu esteja perdendo?”
ENTAO O TERAPEUTA PODE CHORAR: não é necessariamente ruim que o terapeuta se emocione ou até chore na Gestalt. Na verdade, dependendo do contexto e da qualidade do contato, isso pode até ser um gesto profundamente autêntico e transformador.
o terapeuta não se esconde atrás de máscaras profissionais, mas se implica na relação com o outro.
Laura Perls escreveu:
“O terapeuta não pode ser neutro. Ele está na relação tanto quanto o paciente.”
Um terapeuta que se emociona com o sofrimento do paciente, que deixa uma lágrima escapar diante de algo profundamente tocante, está dizendo com o corpo e a presença:
“Eu estou aqui com você. Eu também sinto. Você não está só.”
“Fui profundamente tocado pelo que você compartilhou agora. Estou sentindo uma emoção forte aqui.”
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
ESCUTA ATIVA
Escutar com interesse, sem julgamento.
Estar atento ao que é dito e ao que não é dito.
Escutar o tom de voz, o corpo, o ritmo da respiração, o silêncio...
“A terapia começa quando o terapeuta está presente.”
(Fritz Perls)
Lembrem do nosso exercício da aula de ACP sobre ESTAR PRESENTE. Na Gestalt-Terapia também funciona desta forma.
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
NA GESTALT-TERAPIA, O AQUI E AGORA SERÁ SEMPRE O MOMENTO DE MAIOR IMPORTÂNCIA; MESMO QUE O PACIENTE ESTEJA FALANDO SOBRE O PASSADO.
Exemplo clínico:
Cliente: “Quando eu era criança, meu pai gritava comigo.”
Terapeuta: “Enquanto você me conta isso agora... Onde sente isso no corpo?”
A experiência é atualizada no presente, e então pode ser transformada.
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HORA DA PRÁTICA*:
Façam uma breve pausa agora e pensem em algum momento do passado que marcou você (pode ser um momento doloroso, divertido; desde a realização de um sonho até um dia de sofrimento muito grande).
Escreva no formulário anônimo a respeito daquilo que você gostaria de compartilhar e perceba seu corpo e suas emoções enquanto relembra e escreve.
Vou deixar vocês livres por 15 minutos para viver a experiência e depois retornamos para conversar.
*essa não é uma atividade obrigatória
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
DIÁLOGO EU-TU (BUBER)
Eu–Tu: relação autêntica, direta, com presença e abertura.
Eu–Isso: relação funcional, onde o outro é um meio para um fim (ex: médico que vê o paciente apenas como um diagnóstico).
Na Gestalt, o terapeuta busca sustentar o encontro Eu–Tu, onde o cliente é visto como um ser humano inteiro e não um “caso clínico”.
“Na relação Eu-Tu, o outro deixa de ser objeto e se torna um encontro.”
Martin Buber
Adolescente: “Acho que ninguém me entende.”
Terapeuta (Eu–Tu): “Eu não sou você, mas eu quero muito te compreender. Me ajuda a entrar um pouco no seu mundo?”
Isso sustenta um espaço de encontro real, respeitoso e sensível.
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
“Na relação Eu-Tu, o outro deixa de ser objeto e se torna um encontro.”
Martin Buber
Eu–Tu Eu–Isso
Encontro real Relação funcional
Presença e escuta Diagnóstico ou julgamento
Acolhimento do outro como um ser Uso do outro como meio
Não há controle Há análise, controle ou manipulação
Disponibilidade afetiva Distanciamento emocional
Características centrais do Eu–Tu
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
DIÁLOGO EU-TU (BUBER)
“Na relação Eu-Tu, o outro deixa de ser objeto e se torna um encontro.”
Martin Buber
Cliente: “Sinto que não faço nada certo.”
Terapeuta (em Eu–Isso): “Isso é uma distorção cognitiva chamada generalização.”
(Relação técnica, objetiva, explicativa, sem presença afetiva.)
Terapeuta (em Eu–Tu): “Enquanto você diz isso, me sinto tocado… parece muito doloroso. Você consegue sentir isso agora comigo?”
(Aqui o terapeuta se envolve, se emociona, reconhece o sofrimento do outro como pessoa, e não como diagnóstico.)
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O ESTILO TERAPÊUTICO GESTALTICO
DIÁLOGO EU-TU (BUBER)
“Na relação Eu-Tu, o outro deixa de ser objeto e se torna um encontro.”
Martin Buber
Na amizade ou vínculo afetivo
Amiga A (Eu–Isso): “Se você tá triste, vai ver um filme, distrai a cabeça.”
Tentativa de “resolver” o problema, sem acolher.
Amiga B (Eu–Tu): “Tô aqui com você. Quer só chorar comigo um pouco?”
Não há intenção de consertar — há presença, escuta, vínculo autêntico.
Entre mãe e bebê
Quando uma mãe ou pai olha nos olhos do bebê, o acolhe no colo e apenas o sustenta com afeto, sem pressa nem distrações, esse é um momento Eu–Tu.
A criança sente que existe e é reconhecida em sua inteireza.
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As técnicas da Gestalt-Terapia
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
Qual a função das técnicas na Gestalt-Terapia?
As técnicas na Gestalt não são um “recurso” separado da relação terapêutica. Elas existem para aprofundar o awareness (consciência), facilitar o contato e promover a autorregulação. Como afirma Perls:
“As técnicas não são mágicas. Elas são uma forma de chamar atenção para o que está vivo agora.”
(Perls, Hefferline & Goodman, 1951)
Auérenes
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
1. Amplificação da awareness
Objetivo: Expandir a consciência do cliente sobre o que ele sente, pensa e faz no momento presente.
a) Perguntas fenomenológicas:
Baseadas na descrição da experiência, sem interpretações.
O foco é no "como" algo é vivido e não no "porquê".
auérenes
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
1. Amplificação da awareness
Exemplo:
Terapeuta: “O que você está sentindo agora ao falar disso?”
Terapeuta: “Onde no corpo você percebe essa tensão?”
Terapeuta: “Como é para você estar dizendo isso para mim agora?”
Essa forma de perguntar evita explicações causais e convida o cliente a entrar em contato com o que está presente no aqui-e-agora.
Auérenes.
COMO VOCÊ SE VE NESSA SITUAÇAO? (Idiota, burro..)
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
1. Amplificação da awareness
b) Devoluções (feedbacks fenomenológicos)
O terapeuta oferece ao cliente percepções do que observa: tom de voz, postura, incoerências, emoções não verbalizadas.
Não são julgamentos, mas observações que convidam à exploração.
Exemplo clínico:
Cliente diz: “Está tudo bem”, mas cruza os braços e olha para baixo.
Terapeuta: “Quando você diz que está tudo bem, percebo que seus ombros estão tensos e você evita meu olhar. Como é isso para você?”
uérenes
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Objetivo: Levar o cliente a viver, no aqui-e-agora, partes de si mesmo que estão reprimidas, divididas ou inconscientes.
a) Cadeira vazia
Utilizada para promover o diálogo entre partes do self, conflitos internos, ou com figuras significativas (pais, parceiros, etc.).
O cliente fala para a cadeira como se a outra pessoa estivesse ali e depois troca de lugar pararesponder.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
Nao visa reviver um trauma sim focar em como o paciente se sente a respeiro no aqui e agora.
“O que sente neste momento, ao olhar para essa cadeira?”
“Você está aqui, comigo, agora. O que mais está presente além da dor?”
Se, no meio da técnica, o cliente se desorganiza emocionalmente, o terapeuta pode interromper com cuidado, acolher, e voltar a trabalhar com os recursos disponíveis:
“Vamos parar por aqui. Isso foi intenso. Você não está sozinho. O que você precisa agora?”
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a) Cadeira vazia
Avaliação da prontidão do cliente
Antes de iniciar, avalie se o cliente está emocionalmente preparado para entrar em contato com o conteúdo que será trabalhado (conflito interno, figura significativa, emoção reprimida).
Exemplo:
“Você sente que consegue falar com essa pessoa agora, mesmo que ela não esteja aqui fisicamente?”
Apresentação da proposta
Explique de forma breve e clara o que será feito.
Exemplo:
“Gostaria de propor um experimento. Podemos usar essa cadeira aqui como se fosse a pessoa com quem você tem algo a dizer. Tudo bem para você?”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
Nem sempre o paciente precisa de mais uma explicacao, mas de uma experiencia,
Exemplo clínico:
Uma paciente quer terminar um relacionamento, mas teme ficar sozinha. Ela sente que uma parte dela diz "vai embora", e outra diz "fique, você não sabe viver sem ele".
O terapeuta pode propor a cadeira vazia: uma parte fala com a outra, e ela vai trocando de lugar para escutar e responder. Isso ajuda a integrar os lados conflitantes.
Nao muda o que aconteceu mas muda o significado
Um otimo experiment para trabalhar questoes inacabadas.
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a) Cadeira vazia
Posicionar a cadeira vazia
Coloque a cadeira à frente do cliente, a uma distância confortável.
Oriente o cliente a olhar para a cadeira e imaginar ali a figura ou a parte de si mesmo com a qual deseja se comunicar.
Início do diálogo
Convide o cliente a falar diretamente com a figura ou parte interna representada.
Use frases diretas:
“Fale como se ela estivesse aqui. O que você quer dizer para ela?”
Use o nome da pessoa. Diga diretamente, por exemplo: ‘Pai, eu...”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
Apresente a cadeir e pede para que o cliente explique como ele esta vendo a cadeira (ela é fria, confortavel, desconfortavel…)
Em seguida, vamos pedir para o paciente imaginar a pessoa com quem ele deseja falar na cadeira.
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Alternância de papéis
Após a primeira parte do discurso, convide o cliente a trocar de cadeira.
Agora, ele assume o papel da outra pessoa (ou parte interna) e responde.
Frases de condução:
“Agora troque de lugar e responda como se fosse essa pessoa. O que ela diria a você?”
“Tente entrar no lugar dela e responder.”
Revezamento entre as partes
O processo pode ser repetido algumas vezes, dependendo do fluxo emocional, da clareza que vai surgindo e da energia disponível.
O terapeuta acompanha ativamente, mas sem dirigir o conteúdo.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
Peça para ele descrever como esta vestido o pai e como ele mesmo esta vestido, como é o posicionamento do corpo.
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Observação fenomenológica durante o experimento
Durante o exercício, observe expressões faciais, respiração, tom de voz, corpo.
Pode pontuar com perguntas como:
“O que está sentindo agora, ao dizer isso?”
“O que mudou em você ao trocar de cadeira?”
Retorno e integração
No final, peça ao cliente que volte à sua cadeira inicial. Pergunte o que ele percebeu, sentiu, aprendeu com o exercício.
Frases de condução:
“Como foi para você fazer esse experimento?”
“O que mudou ao dizer o que você precisava dizer?”
“O que você leva disso agora?”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
TECNICA DO LUGAR SEGURO PARA EMOCOES INTENSAS.
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Maria tem 30 anos e expressa arrependimento por ter rompido, aos 18 anos, com sua melhor amiga de forma impulsiva e agressiva. Ela diz que sente vergonha da sua atitude e não consegue perdoar aquela versão de si mesma. O tema surge com frequência nas sessões.
Terapeuta:
“Maria, percebo que quando você fala sobre o que aconteceu com sua amiga, há uma mistura de tristeza, arrependimento e até raiva de você mesma. Que tal fazermos um experimento? Podemos conversar com essa sua parte de 18 anos... com o que ela sabia, com o que ela sentia na época. Como você se sente com essa ideia?”
Maria:
“Não sei... me dá um pouco de vergonha. Mas eu queria conseguir lidar melhor com isso.”
Terapeuta:
“Podemos ir devagar. Nada será forçado. Você topa experimentar, e se for demais, a gente para?”
Maria:
“Tá bom. Vamos tentar.”
EXEMPLO: EXPERIMENTO DA CADEIRA VAZIA
TECNICA DO LUGAR SEGURO PARA EMOCOES INTENSAS.
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Terapeuta:
“Quero que você olhe para essa cadeira aqui à sua frente e imagine que ali está a Maria de 18 anos. Tente visualizá-la como era naquela época... sua roupa, seu jeito de sentar, sua expressão.”
(Pausa. Maria respira e observa a cadeira.)
Terapeuta:
“O que você sente ao vê-la aí?”
Maria:
“Um misto de raiva e pena. Ela era tão imatura... mas também tão perdida.”
EXEMPLO: EXPERIMENTO DA CADEIRA VAZIA
TECNICA DO LUGAR SEGURO PARA EMOCOES INTENSAS.
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Terapeuta:
“Você pode dizer isso diretamente pra ela. Fale com ela na primeira pessoa, como se ela realmente estivesse ali.”
Maria (olhando para a cadeira):
“Maria... eu te olho agora e sinto tanta vergonha do que você fez. Você foi tão estúpida com a Carla... Ela era sua melhor amiga e você a humilhou. Por quê? O que você queria provar?”
Terapeuta:
“Agora, se você quiser, pode mudar de cadeira e responder como a Maria de 18 anos. Permita-se entrar nessa parte sua. Fale o que ela diria hoje, naquele momento.”
(Maria troca de cadeira. Muda a postura, suaviza o olhar.)
Maria (como Maria de 18 anos):
“Eu só queria ser respeitada. Eu me sentia ignorada por todo mundo... até por ela. Eu tava cansada de ser a boazinha. Achei que se eu falasse daquele jeito, iam me levar a sério.”
EXEMPLO: EXPERIMENTO DA CADEIRA VAZIA
TECNICA DO LUGAR SEGURO PARA EMOCOES INTENSAS.
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Terapeuta:
“Volte para o seu lugar de hoje. Escutou o que ela te disse? Como foi ouvir isso?”
Maria:
“É estranho... mas eu entendo. Na época, eu me sentia muito sozinha. Acho que ela só queria ser notada. Nunca tinha pensado nisso assim.”
Terapeuta:
“Se quiser, pode dizer isso pra ela. Ou algo que você gostaria que ela tivesse escutado naquela época.”
Maria (olhando para a cadeira):
“Eu entendo agora... você só estava tentando sobreviver. Talvez você não tivesse outra forma. Eu te julguei muito duro esses anos todos. Mas você era só uma menina tentando lidar com o mundo.”
(Maria começa a se emocionar.)
EXEMPLO: EXPERIMENTO DA CADEIRA VAZIA
TECNICA DO LUGAR SEGURO PARA EMOCOES INTENSAS.
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Terapeuta:
“Você trouxe muita honestidade nesse encontro. O que sente agora?”
Maria:
“Mais leveza. É como se eu tivesse finalmente olhado pra ela... com menos raiva. Talvez eu possa começar a perdoá-la.”
Terapeuta:
“Isso é muito importante. Não se trata de aprovar o que foi feito, mas de reconhecer quem você foi, com compaixão. Esse é um passo de integração e cura.”
EXEMPLO: EXPERIMENTO DA CADEIRA VAZIA
TECNICA DO LUGAR SEGURO PARA EMOCOES INTENSAS.
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A técnica foi usada não como dramatização, mas como diálogo interno consciente, para promover integração de polaridades (culpa × compreensão).
O terapeuta atuou com apoio contínuo, fazendo perguntas fenomenológicas e criando espaço seguro.
O foco não foi o fato em si, mas o que está vivo no presente em relação àquilo.
Ao final, promoveu-se autossuporte emocional e awareness
EXEMPLO: EXPERIMENTO DA CADEIRA VAZIA
TECNICA DO LUGAR SEGURO PARA EMOCOES INTENSAS.
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b) Dramatizações e Encenações
As dramatizações e encenações estão profundamente ancoradas na visão fenomenológica-existencial da Gestalt. Isso significa que o sentido não está nos fatos passados em si, mas na forma como a pessoa os vive no presente: o “aqui-e-agora”
O cliente podeser convidado a reviver uma cena específica ou imaginar como gostaria que algo tivesse acontecido.
Funciona bem com memórias traumáticas, fantasias ou sonhos.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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b) Dramatizações e Encenações
A dramatização é uma forma de intensificar a consciência (awareness).Quando o cliente encena ou representa uma situação, ele não apenas lembra ou descreve cognitivamente. Ele vive essa situação no presente, o que permite o surgimento de novas compreensões e emoções antes bloqueadas ou evitadas.
Se um cliente sempre fala com distanciamento sobre a raiva que sente do pai, ao ser convidado a "encenar a conversa", ele pode acessar partes do seu self que estão reprimidas (como a agressividade, o medo, o desejo de ser visto).
Isso ativa o ciclo de contato e favorece a integração de polaridades.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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b) Dramatizações e Encenações
Exemplo Clínico:
Cliente de 30 anos, mulher, vem trazendo sofrimento em relação ao vínculo com a mãe. Sente-se cobrada e culpada, como se nunca fosse suficiente. Já tentou conversar com a mãe, mas não consegue se expressar. Apresenta sintomas de ansiedade e dificuldade de se posicionar em outras relações também.
Intervenção terapêutica (sessão com dramatização):
Terapeuta: "Percebo que há muita coisa que você gostaria de dizer à sua mãe e não conseguiu. Podemos tentar fazer uma dramatização? Você pode escolher representar você mesma e eu posso representar sua mãe, ou podemos inverter, se preferir. Que tal experimentarmos isso?"
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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Preparação:
Pede que a cliente se posicione como ela mesma e o terapeuta assume o papel da mãe.
Cena inicial:
Terapeuta (como mãe): "Filha, você tem se afastado de mim. Eu sinto sua ausência. Por que está assim?”
Cliente (como ela mesma): hesita, respira fundo, lágrimas vêm aos olhos. "Porque eu me sinto sufocada. Eu nunca me sinto boa o bastante com você.”
Continuação da cena e acompanhamento fenomenológico:
O terapeuta devolve observações fenomenológicas sutis (“Você franziu a testa agora, o que veio à tona?”) ou sugere explorar o tom emocional (“O que você sente nesse momento ao me dizer isso?”).
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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Troca de papéis (opcional):
A cliente é convidada a assumir o papel da mãe e responder. Isso a leva a acessar fantasias, expectativas e dores internalizadas da mãe, ampliando a compreensão da relação.
Retorno e integração:
A cliente volta ao seu lugar e o terapeuta pergunta:
"Como foi para você dizer isso olhando para sua mãe?"
"O que você sentiu ao tentar estar no lugar dela?"
"O que mudou ou apareceu em você nesse experimento?"
Resultados esperados:
Ampliação da awareness, contato com emoções bloqueadas, reorganização interna da relação, construção de autossuporte para posicionamento futuro.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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EXEMPLO 02:
Terapeuta:
“Letícia, percebo que há muita coisa não dita entre você e sua mãe. Gostaria de propor uma experiência diferente hoje. Que tal fazermos uma encenação? Você pode assumir o papel da sua mãe, e eu vou assumir o seu lugar. Assim, poderemos explorar esse diálogo que talvez nunca aconteceu, mas que você gostaria que tivesse acontecido.”
Letícia:
“Tá bom... Mas eu nunca falei isso com ela...”
Terapeuta:
“Não precisa ser exato, nem perfeito. Só precisamos de sinceridade. Você pode me dizer quando eu estiver parecendo com o que você sente e pensa.”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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(Terapeuta assume o papel de Letícia; Letícia assume o papel da mãe)
Terapeuta (como Letícia):
“Mãe, por que você nunca esteve presente quando eu precisava de você? Quando eu chorava, você dizia que era drama... Isso ainda dói muito.”
Letícia (como mãe):
“Você sempre foi muito sensível... Eu não queria te mimar. Eu achava que era melhor você ser forte.”
Terapeuta (como Letícia):
“Mas eu era só uma criança... Eu não precisava ser forte. Eu só queria colo. Queria ser ouvida... Eu ainda sinto falta disso.”
Letícia (como mãe):
“Eu não sabia o que fazer. Fui criada assim, sem muita conversa, sem carinho. Talvez eu tenha repetido isso com você...”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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Terapeuta (voltando ao papel de terapeuta): “Letícia, como foi para você estar no lugar da sua mãe agora e dizer essas palavras?”
Letícia: “Eu senti uma mistura estranha... raiva, mas também um pouco de compaixão... talvez ela realmente não soubesse como fazer diferente.”
Terapeuta: “E como foi me ouvir dizendo aquelas coisas no seu lugar?”
Letícia: “Foi difícil... mas me deu vontade de chorar. É como se eu finalmente tivesse dito algo que estava preso há muito tempo.”
Terapeuta: “Essa é a força da encenação: você consegue dar forma ao que estava bloqueado. E ao experimentar os dois lados, você amplia sua consciência. Você não precisa perdoar nem justificar agora, mas talvez possa começar a reconhecer o que sentiu, e o que ainda sente.”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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c) Uso de objetos simbólicos
Quando o cliente tem dificuldade de simbolizar emoções, o terapeuta pode utilizar objetos (almofadas, pedras, bonecos) para representar partes internas, figuras importantes ou emoções.
Exemplo:
Uma cliente descreve um conflito entre “a parte que quer cuidar de todos” e “a parte exausta”.
Terapeuta convida: “Escolha dois objetos para representar essas partes. Onde você colocaria cada um? Como eles interagem?”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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Exemplo 02:
Situação: Cliente quer compreender fases importantes da sua vida e perceber padrões repetitivos.
Intervenção:
O terapeuta oferece uma variedade de objetos (pedras, fios, papéis coloridos).
Cliente constrói uma linha do tempo no chão ou na mesa, com um objeto para cada fase.
Cada objeto é descrito:
“Esse aqui representa minha adolescência, era escuro, pesado, mas com brilho.”
“Esse representa meu casamento, parece bonito, mas é frágil.”
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
2. Experimentações
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
3. Trabalho com sonhos
Na Gestalt o sonho é uma experiência que contém aspectos do próprio sonhador: todas as figuras e elementos do sonho são partes do self.
a) Reviver o sonho no aqui-e-agora
O cliente narra o sonho no tempo presente (“Estou caminhando por uma floresta escura...”), trazendo a vivência de volta.
O terapeuta convida o cliente a se tornar diferentes partes do sonho, assumindo seus papéis.
os sonhos são considerados expressões valiosas da totalidade da pessoa, e sim, revelam aspectos do psicológico que precisam (ou desejam) ser integrados e elaborados. Dar forma a conflitos internos, medos, desejos, e polaridades.
Na Gestalt, não se fala em inconsciente como uma estrutura reprimida a ser interpretada. O termo mais comum seria “fora da awareness”. Ou seja: conteúdos não conscientes no momento — mas que podem ser trazidos à consciência pela ampliação da awareness (consciência fenomenológica do aqui-e-agora).
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
3. Trabalho com sonhos
Exemplo:
Cliente sonha com um pássaro preso numa gaiola.
Terapeuta: “Seja o pássaro. O que você sente preso aí?”
Depois: “Seja a gaiola. Qual seu papel nesse sonho?”
Esse método convida o cliente a entrar em contato com aspectos dissociados ou negados do self.
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
3. Trabalho com sonhos
Cliente sonha que está voando e depois cai
Sonho narrado:
“Sonhei que estava voando acima das nuvens. Me sentia livre. Mas depois comecei a cair e acordei assustado.”
Trabalho gestáltico:
O terapeuta explora as polaridades do sonho:
“Fale como quem está voando: ‘Sou o voo. Eu te ofereço…’”
“Fale como a queda: ‘Sou a queda. Eu te mostro que…’”
Exploração de polaridades:
“Sou o voo. Te ofereço liberdade, leveza, sonho.”
“Sou a queda. Te trago pro chão, pra realidade que você quer evitar.”
O cliente percebe:
Uma polaridade entredesejo de liberdade e medo da frustração.
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
3. Trabalho com sonhos
O trabalho com sonhos não visa interpretar com base em significados simbólicos fixos, mas experienciar e dar voz a cada fragmento, como se ele fosse uma parte real do cliente que precisa ser reintegrada.
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AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
3. Trabalho com sonhos
Como aplicar em sessão:
Peça ao cliente para relatar o sonho no presente ("Estou entrando na casa...", "Vejo o leão...").
Convide-o a se tornar os elementos do sonho, dando-lhes voz ("Eu sou a porta", "Eu sou a árvore").
Estimule a expressão emocional e sensorial ("Como é ser essa figura? O que você sente agora?").
Promova o diálogo entre as partes ("O que o leão diria para o homem?").
Estimule a integração: “O que você percebe agora sobre si mesmo?”
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As técnicas corporais visam trazer o cliente para a experiência integrada do aqui-e-agora, permitindo que ele tome consciência dos bloqueios emocionais e expressivos que se manifestam corporalmente, muitas vezes de maneira automática e inconsciente.
Na visão gestáltica, corpo e mente não são separados, mas diferentes expressões da totalidade do self. O corpo não apenas “revela” emoções, ele vive as emoções.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
4. Técnicas Corporais
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“Se você não estiver em contato com seu corpo, não estará em contato com o presente.”
(Fritz Perls, em "Gestalt Therapy Verbatim”)
Laura Perls, com sua formação em dança e interesse profundo pelo corpo, afirmava que o corpo é o ponto de ancoragem da experiência vivida e que o processo terapêutico deve passar pela consciência corporal, pois é nela que a experiência se dá.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
4. Técnicas Corporais
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Exploração de Sensações Físicas
Consiste em convidar o cliente a voltar sua atenção plena ao corpo (respiração, tensões, gestos repetitivos, movimentos sutis ou posturas). A escuta terapêutica se estende ao que o corpo está dizendo, mesmo que não tenha sido verbalizado ainda.
Exemplos de intervenção
“Você percebe que está com o maxilar contraído? O que acontece aí?”
“Notei que, ao falar disso, você cruzou os braços e se inclinou para trás. Como se sente agora, nessa posição?”
“Sua respiração ficou mais curta quando você falou do seu pai. O que você percebe agora?”
Essas perguntas são fenomenológicas, ou seja, descritivas do que se observa, sem julgamento ou interpretação.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
4. Técnicas Corporais
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A) Exploração das Sensações Físicas:
Ajudam o cliente a:
Trazer para a consciência sensações que estão em segundo plano (fundo).
Reconhecer os ajustes criativos automáticos feitos pelo corpo para se proteger.
Abrir espaço para a vivência emocional autêntica, muitas vezes interrompida ou anestesiada.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
4. Técnicas Corporais
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B) Localização Emocional no Corpo
Consiste em ajudar o cliente a localizar fisicamente no corpo as emoções que está vivenciando. A emoção, como experiência encarnada, quase sempre possui um correlato somático: um aperto no peito, uma tensão nos ombros, uma dor na barriga.
Exemplos de intervenção
“Onde você sente essa tristeza no corpo?”
“Se essa angústia tivesse um peso, qual seria?”
“Essa raiva parece estar em que parte do seu corpo?”
“Se essa sensação tivesse uma cor, um som, uma textura… como seria?”
Essas perguntas facilitam o diálogo criativo com a emoção corporalizada, permitindo que o cliente a nomeie, a explore, e muitas vezes, a libere.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
4. Técnicas Corporais
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B) Localização Emocional no Corpo
Exemplo clínico
Uma paciente fala de forma muito racional sobre um término de relacionamento. O terapeuta percebe sua postura rígida e respiração contida.
Intervenção:
Terapeuta: “Você pode voltar a atenção para seu corpo agora? O que está sentindo?”
Cliente: “Acho que nada… talvez um aperto aqui [aponta para o peito].”
Terapeuta: “Foque nesse aperto. Se ele pudesse falar, o que diria?”
Cliente: “Diria que estou me segurando. Que dói.”
Terapeuta: “Dê voz a essa dor. O que ela quer?”
Essa condução permite que o cliente aceda à experiência emocional viva, saindo do discurso mentalizado para um contato genuíno com seu sofrimento.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
4. Técnicas Corporais
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Laura Perls enfatizou a importância da corporeidade na experiência da awareness. Segundo ela, o corpo não é apenas um objeto a ser observado, mas o meio pelo qual o mundo é sentido, conhecido e transformado.
Para Fritz Perls, os bloqueios corporais eram formas fixas de autorregulação interrompida. Ao observar padrões corporais (como respiração curta, rigidez, evasão do olhar), o terapeuta acessa interrupções do contato.
O corpo é onde se manifesta a zona de fronteira entre o self e o ambiente. Qualquer interrupção de contato aparece também corporalmente.
AS TÉCNICAS DA GESTALT-TERAPIA
4. Técnicas Corporais
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Outros recursos e perguntas úteis nas técnicas corporais
“Você está presente nesse corpo agora?”
“Fique nessa sensação por um momento. O que emerge?”
“Essa tensão tem alguma mensagem para você?”
“Há uma imagem que surge quando você sente isso?”
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4. Técnicas Corporais
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“Sentir é melhor do que entender. No sentimento está a cura.”
(Fritz Perls)
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REFERÊNCIAS
PERLS, F. Tornar-se o que se é. Summus, 1981.
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia: Excitação e crescimento na personalidade humana.Summus, 1997.
BUBER, M. Eu e Tu. Centauro, 2001.
SCHOLEM, G. O Pensamento de Martin Buber. Perspectiva, 1983.
SALAMA, B. Gestalt-terapia: Fundamentos epistemológicos e clínicos. Vozes, 2004.
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