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Autonomia começa com uma dependência saudável Já repararam como os bebês ficam satisfeitos quando conseguem realizar algo “por conta própria”? Parece adquirirem um brilho especial nos olhos, uma alegria genuína... São cordiais, tranquilos, aprendem com facilidade... E, ao contrário, quando não tem espaço para o seu fazer pessoal? Parecem que se tornam bebês mais acomodados, manhosos, ou mesmo autoritários e superexigentes... Em minha coluna desse mês vamos refletir sobre a conquista dessa autonomia. Autonomia começa com uma dependência saudável O bebê inicia seu processo de desenvolvimento psíquico desde antes do nascimento. Existe uma unidade mãe-bebê que funciona agindo e reagindo mutuamente. O clima emocional e psíquico, além das condições de nutrição e saúde da mãe e do bebê, é um fator de especial atenção durante a gravidez. Quando nasce, o bebê ainda não tem consciência de que é um individuo, permanecendo simbioticamente ligado à sua mãe. Essa unidade psíquica é tudo o que o bebê vivencia inicialmente. Após o nascimento, o bebê, obedecendo à sua natureza de crescimento e desenvolvimento, vai paulatinamente separando-se da mãe. De modo crescente ele vai descobrindo que a mãe é uma-outra-que-não-ele-mesmo. E, ao mesmo tempo, descobrindo que existe algo mais além daquela dualidade. Vivendo a maternidade em sua plenitude, a mãe oferecerá ao bebê as condições necessárias para a separação dessa união simbiótica, gerando condições para a conquista da autonomia gradativa. É fundamental que mães e pais estejam bastante conscientes de que seus filhos, desde muita tenra idade, necessitam constituir essa autonomia e singularidade. Ele necessitará dessa base psíquica como componente fundamental da sua saúde emocional em todas as fases de sua vida: Na primeira infância - socialização. Na escolarização - aprendizagem. Na adolescência - conquista da liberdade. Na idade adulta - segurança íntima e confiança em si. Vamos ver 10 tópicos que podem nos ajudar a pensar na conquista dessa autonomia: 1. O bebê permanecerá totalmente dependente da mãe durante algum tempo. É importante que essa fase seja vivida com plenitude pela mãe. Dedicando-se de forma absoluta ao bebê nos primeiros meses de vida, o bebê adquirirá o sentido de segurança e acolhimento, além do pertencimento, fundamental para o Ser. 2. Uma mãe saudável retomará aos poucos os interesses pessoais (estudos, trabalho, vida social). Não há saúde psíquica sem esse distanciamento (nem para a mãe, nem para o bebê). Isso será a base que todo Ser necessita para assumir seus desejos, seus interesses pessoais, sem as angústias da culpa, seja nos processos primários vividos nessa primeira fase do desenvolvimento, quanto no futuro, quando for adulto. 3. O desenvolvimento psíquico saudável dependerá da "saúde psíquica" da mãe e da saúde do ambiente. O conceito de "mãe suficientemente boa", apresentado por Winnicott*, traz em si a ideia de uma mãe que confia em si mesma, em sua sabedoria materna, e que pode exercer a maternidade livremente, sem deixar-se atropelar pelas pressões do ambiente. Uma mãe incapaz de oferecer ao bebê essa separação gradual e espontânea provavelmente vivenciará esse processo permeado pela culpa e o remorso, o que pode vir a interferir na conquista da autonomia pelo bebê. 4. O distanciamento não significa abandonar o bebê, muito menos deixar de assisti-lo em suas necessidades. Significa que, mesmo cuidando dele da melhor forma possível, pais e/ou cuidadores não serão capazes de suprir “tudo” o que um ser humano em formação precisa. Ele necessita alcançar o mundo! 5. A mãe é o primeiro “objeto” do mundo, conhecido pelo bebê. É com ela que ele realizará infinitas experiências, fazendo emergir dessa relação o seu próprio eu. Porém chegará o momento em que o bebê estará pronto para realizar algo independente dela, e é preciso compreender e estar atento a isto. 6. Podendo desfrutar de momentos de encontro com seu novo “eu”, o bebê inicia a exploração do seu corpo e do ambiente circundante. Progressivamente, se tornará capaz de estar sozinho, mesmo que na presença de alguém. Isso significa uma evolução psíquica que lhe permitirá constituir sua singularidade. 7. Ao mesmo tempo, outros objetos vão criando um lugar nessas experiências, até que o bebê possa iniciar uma relação com algo da realidade compartilhada. É uma primeira incursão do Ser para fora da relação mãe- bebê. Ele adotará esse objeto, que chamamos de objeto transicional , como se fizesse parte de si mesmo e ao mesmo tempo algo do mundo. Muitos bebês adotam as “naninhas” como esse objeto. Dormem, acordam, mamam, brincam, sempre de posse dela como condição fundamental de tranquilidade e bem estar do bebê, ou como objeto de experimentações nos momentos de excitação. Quando o bebê abandonará este objeto? Quando ele não precisar mais dele como um intermediário. Dizemos que o objeto não é deixado, mas esquecido gradualmente... 8. Atravessando a fase de total dependência, chegando a uma dependência relativa e rumando para a independência (que nunca é absoluta, mas interdependente dos outros), o bebê vai constituindo sua psique – é a formação da sua personalidade. 9. A dependência excessiva e o excesso de mimos e estimulações precoces atrofiam ou sufocam o gesto espontâneo e a possibilidade do bebê lançar as bases do “cuidar de si mesmo e estar sozinho na presença de alguém”. O bebê torna-se inseguro a respeito dos próprios processos e conquistas, como se o mundo o invadisse antes de que ele tenha tempo para processar o este mesmo mundo de acordo com suas capacidades. 10. O bebê num ambiente onde sente que não pode exercer sua autonomia pode tornar-se uma criança excessivamente apegada, manhosa, entristecida, ou ainda uma “máquina de fazer gracinhas” respondendo à demandas e comandos externos, deixando em segundo plano as próprias demandas de desenvolvimento e autonomia – fique atento! Com esses tópicos não pretendo esgotar o tema, ao contrário, somente levantar a discussão de um tema complexo, e que requer o cuidado e atenção dos pais para a saúde dos bebês! Um abraço e até a próxima! Autora: Andréa Tarazona – Psicóloga – Psicoterapeuta de Adultos, Casais, Adolescentes. Orientação a Gestantes, Mães e Pais Pesquisa: Winnicott, D. W. – Pediatra e Psicanalista inglês