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CARTOGRAFIA Prof. Me. Estevão Pastori Garbin Prof. Me. Thiago César Frediani Sant’Ana GRADUAÇÃO Unicesumar Acesse o seu livro também disponível na versão digital. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/754 C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; GARBIN, Estevão Pastori; SANT'ANA, Thiago César Frediani. Cartografia.Estevão Pastori Garbin; Thiago César Frediani Sant’Ana. . Maringá-Pr.: Unicesumar, 2020 200 p. “Graduação - EaD”. 1. Cartografia. 2. Geografia . 3. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-1910-0 CDD - 22 ed. 912 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretoria Executiva Chrystiano Minco� James Prestes Tiago Stachon Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Diretoria de Design Educacional Débora Leite Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho Head de Curadoria e Inovação Tania Cristiane Yoshie Fukushima Gerência de Produção de Conteúdo Diogo Ribeiro Garcia Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey Gerência de Processos Acadêmicos Taessa Penha Shiraishi Vieira Gerência de Curadoria Carolina Abdalla Normann de Freitas Supervisão de Produção de Conteúdo Nádila Toledo Coordenador de Conteúdo Priscilla Campiolo Manesco Paixão Designer Educacional Lilian Vespa Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa Arthur Cantareli Silva Ilustração Capa Bruno Pardinho Editoração Juliana Duenha Qualidade Textual Meyre Barbosa Ilustração Rodrigo Barbosa Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não so- mente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in- tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educa- dores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a quali- dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quan- do investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequente- mente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Crian- do oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógi- ca e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educacional, complemen- tando sua formação profissional, desenvolvendo com- petências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhe- cimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fó- runs e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra dis- ponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. CU RR ÍC U LO Prof. Me. Thiago Cesar Frediani Sant’Ana Possui graduação em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá - UEM, Maringá-PR (2008). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Maringá - UEM (2009-2011), na área de Análise Ambiental. Atualmente, é doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá. Atua como professor no ensino superior nos cursos de Geografia, Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Cartografia Básica. http://lattes.cnpq.br/3767642326547587 Prof. Me. Estevão Pastori Garbin Mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá (2016), com pesquisa na área de Cartografia e Semiótica. Graduado em Geografia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Estadual de Maringá (2013), com estágio na Universidade Técnica de Lisboa em Gestão Urbanística e Planejamento Urbano e Territorial (2012-2013). Atualmente, é aluno do curso de doutorado em Geografia, pela UEM, e professor do curso de Geografia da Unicesumar. Tem experiência nas áreas de ensino de cartografia, semiótica peirceana e avaliação de livros paradidáticos. http://lattes.cnpq.br/7882921634824099j SEJA BEM-VINDO(A)! Caro(a) acadêmico(a), é com grande satisfação que apresentamos esta nova edição do livro da disciplina de Cartografia, revista e ampliada. Nesta obra, sintetizamos e aprimo- ramos os conteúdos fundamentais na formação dos professores de Geografia, de forma alinhada com as principais obras da cartografia nacional e internacional. Na primeira unidade, discutiremos como o saber cartográfico e os mapas estavam pre- sentes nas sociedades antes mesmo da invenção da escrita. Aprenderemos que os ma- pas são formas de comunicação particulares de cada povo, sendo influenciados, dire- tamente, pelo contexto social, cultural e econômico da época. Discutiremos, também, o processo de sistematização da Cartografia em uma ciência autônoma da Geografia, salientando os principais paradigmas que estruturam a agenda de pesquisa dessa ciên- cia nos últimos cinquenta anos. Na segunda unidade, discutiremos os principais produtos cartográficos utilizados na Ge- ografia, as finalidades e características. A partir desses produtos, analisaremos, também, os processos e as etapas que constituem a produção de uma informação cartográfica, salientando a grande influência que o autor de mapas possui na representação espacial. Por fim, estudaremos como esses processos de construção da informação cartográfica são influenciados pela escala cartográfica, discutindo os meios para a realização do seu cálculo e as especificidades da escala gráfica e numérica. Na terceira unidade, estudaremosdo poder em todo o conhecimento, mesmo sendo o poder invisível ou implícito, incluindo o conhecimento particular codificado nos mapas e atlas”. Das ideias de Derrida, ele toma a presença de retórica em todos os textos, o que “demanda uma busca por metáfora e retórica em mapas que antes os pes- quisadores encontravam somente medidas e topografia” (p. 03). Nesse sentido, o mapa é visto como um texto a partir da compreensão de que “‘o que constitui um texto não é a presença de elementos de linguística, mas o ato de construção’, sendo assim os ma- pas, como ‘construções que empregam um sistema de signos convencional’, tornam-se texto” (p. 07). Os mapas são artefatos culturais. A partir desses princípios, o autor propõe que a desconstrução do mapa é uma forma de leitura que Nos leva a ler nas entrelinhas do mapa – “nas margens do texto” – e, atra- vés de suas figurações, a descobrir os silêncios e as contradições que de- safiam a aparente honestidade da imagem. Começamos a aprender que os fatos cartográficos somente são fatos dentro de uma perspectiva cul- tural específica. Começamos a entender como os mapas, assim como a arte, longe de serem “uma abertura transparente para o mundo”, são, no entanto “uma maneira particular do homem... olhar o mundo” (HARLEY, 1989, p. 03, grifo do autor). Neste contexto, a Cartografia é conceituada pelo autor como “um discurso – um sistema que dispõe de um conjunto de regras para a representação do conhecimento intrínseco às imagens que definimos como mapas e atlas” (p. 12). O autor apresenta duas formas de poder na Cartografia: a externa e a interna. Por poder externo, ele entende o poder exercido por alguém sobre o mapeamento; não é o poder intrínseco ao mapa e ao ma- 46 peador, mas sim o poder que é fruto da demanda do contratante para quem o mapa é elaborado. Já o poder interno é o poder próprio do mapa, exercido a partir da seleção e hierarquização dos elementos representados (HARLEY, 1989). Podemos concluir que esses dois poderes são indissociáveis, pois só a partir do poder interno é que o poder externo pode existir, já que é o tratamento das técnicas e dos elementos representados que possibilita diversas expressões de um mesmo espaço. Fonte: adaptado de Girardi ([2019], on-line)⁶. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR O descobrimento da Terra: História e histórias da aventura cartográfica Oswald Dreyer-Eimbcke Editora: Melhoramentos e Edusp Sinopse: este livro mostra que o descobrimento da Terra não foi somente obra de um empreendimento planejado e executado pelas potências marítimas da Europa. Ao contrário: o acaso, mitos, enganos e preconceitos também levaram a muitas descobertas curiosas e originaram surpreendentes representação cartográficas. Baseado na documentação de um grande número de mapas e cartas geográficas, o autor narra a história e as histórias empolgantes do descobrimento da Terra. O site da competição de mapas feitos por crianças em homenagem à Barbara Petchenik mostra uma série de mapas criados por jovens do mundo todo. Eles expressam visões, desejos e medos de centenas de crianças! Web: https://childrensmaps.library.carleton.ca/. REFERÊNCIAS ARCHELA, R. S.; GRATÃO, L. H. B.; TROSTDORF, M. A. S. O lugar dos mapas mentais na representação do lugar Geografia, v. 13, n. 1, p. 127-141, 2004. BOARD, C. Os mapas como modelos. In: HAGGETT, P.; CHORLEY, R. J. (org.). Modelos físicos e de informação em Geografia. Rio de Janeiro: Editora da Universidade de São Paulo, 1975. p. 139-184. CHRISTOFOLETTI, A. As perspectivas dos estudos geográficos. In: CHRISTOFOLETTI, A. Perspectivas da Geografia. São Paulo: Difel, 1982. CLAVAL, P. A revolução pós-funcionalista e as concepções atuais da Geografia. In: MENDONÇA, F.; KOZEL, S. (org.). Elementos de epistemologia da geografia con- temporânea. Curitiba: Editora da UFPR, 2009. p. 11-46. CLAVAL, P. Epistemologia da Geografia. Florianópolis: Editora UFSC, 2011. CORREA, R. L. Reflexões sobre Paradigma, Geografia e Contemporaneidade. Revista da Anpege, v. 7, n. 1, p. 59-65, 2011. CROSBY, A. W. A mensuração da realidade. São Paulo: Editora Unesp, 1999. DENT, B. D. Principles of thematic map design. Massachussetts: Addison-Wesley, 1985. DIBIASE, D. 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No paradigma da comunicação cartográfica, o usuário passa a ser considerado um ente fundamental na construção do mapa, pois se deve compreender quais são as suas necessidades e seu repertório de conhecimento, para que se produ- zam mapas com a menor quantidade de ruídos possíveis. 5. A comunicação cartográfica específica tem quatro papéis no uso dos mapas: exploração, confirmação, síntese e apresentação. Na exploração, o professor po- deria levar rabiscos iniciais de mapas, explorando a relação entre a presença de água contaminada e cólera, por exemplo. Na confirmação, os alunos poderiam ser levados para a sala de informática e confirmarem que existe uma relação entre áreas com relevo acidentado e escorregamentos. Na fase da síntese, os alunos poderiam elaborar um mapa de áreas de risco de tsunamis. Por fim, na apresentação, o professor poderia levar um atlas geográfico. U N ID A D EII Prof. Me. Estevão Pastori Garbin Prof. Me. Thiago César Frediani Sant’Ana ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar os principais produtos cartográficos utilizados na Geografia. ■ Discutir o processo de seleção, generalização e simbolização do projeto cartográfico. ■ Discutir o papel da escala cartográfica. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Os produtos cartográficos básicos ■ As etapas do projeto cartográfico ■ Escala cartográfica INTRODUÇÃO Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 53 INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), embora os mapas estejam cada vez mais presentes em nosso dia a dia, isso não significa que as pessoas tenham facilidade no uso e, princi- palmente, na sua construção. Isso não ocorre apenas pela ausência de domínio das técnicas ou da falta de conhecimento no manuseio de softwares de produção gráfica, mas principalmente pela ausência de conhecimento das implicações que os processos e técnicas de representação podem causar no usuário do produto. Nesse sentido, abordaremos, nesta unidade, quais são os principais produtos cartográficos empregados na Geografia para, posteriormente, discutirmos os pro- cessos e elementos que constituem o mapa. Nosso objetivo é mostrar o motivo de os mapas serem altamente dependentes da capacidade de seus autores e como a ausência de conhecimento sobre alguns procedimentos básicos podem induzir à leitura de mapas de maneira equivocada. Para tanto, trataremos do processo de seleção e generalização cartográfica, discutindo as particularidades que envolvem a sua linguagem. Em seguida, discutiremos os pressupostos básicos da semiologia gráfica, mostrando quais são as maneiras corretas de representarmos as diferentes rela- ções que os dados presentes nos mapas podem apresentar. A semiologia gráfica é uma teoria bem estabelecida, sobretudo, na cartografia temática, sendo consi- derada um verdadeiro referencial para a construção dos produtos cartográficos, mas nem por isso é comumente aplicada – inclusive por órgãos do governo, como o próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por fim, conheceremos como escolher e calcular a escala cartográfica em um mapa – um assunto que desperta certa ansiedade nos alunos de Geografia. A escala está diretamente associada ao nível de detalhamento que um produto cartográfico tem e, diante disso, está diretamente ligada ao processo de defini- ção do projeto de mapas. Esperamos que esta unidade auxilie em sua caminhada como futuro(a) professor(a) de Geografia, pois os conteúdos aqui desenvolvidos possuem uma presença obrigatória no currículo escolar desta disciplina. Bons estudos! ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E54 OS PRODUTOS CARTOGRÁFICOS BÁSICOS Iniciaremos o conteúdo programático desta unidade apresentando o significado – ou, assim como veremos, os problemas envolvidos na definição – dos prin- cipais produtos cartográficos utilizados na Geografia. Além de esclarecermos e distinguirmos alguns conceitos, nosso objetivo é levá-lo a entender as principais diferenças e potencialidades dessas representações. Vamos começar? Mapa e carta O termo mapa, embora seja de uso comum na Cartografia, apresenta alguns problemas de definição se o compararmos ao termo carta, pois, muitas vezes, são tomados como sinônimos. De maneira geral, o termo mapa é reconhecido como uma representação plana de uma grande porção do espaço, mesmo que não exista um limite exato para definir quão grande ou pequena pode ser consi- derada esta porção. O IBGE (1998), por exemplo, define que os mapas delimitam Os Produtos Cartográficos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 55 sua área de interesse com acidentes naturais ou divisões político-administrativas, enquanto as cartas seriam divididas de acordo com os paralelos e meridianos. No entanto, Oliveira (1993) aponta que essa particularidade varia de acordo com o uso corrente do termo em um idioma: no Brasil, os mapas são, geralmente, associados à representação da superfície terrestre e estão pouco associados à navegação ou aos oceanos. Duarte (2002, p. 123), por outro lado, considera que: Há entre nós uma tendência ao uso de mapa como designativo geral, reservando-se carta e planta para espécies de mapas. Parece-nos até ser o modo correto. Assim, podemos fazer, inclusive, um jogo de palavras, dizendo-se que cartas e plantas são mapas, mas nem todo mapa é carta ou planta. Mapa seria o gênero; carta e planta, as espécies. Etimologicamente, a distinção entre mapa e carta parece mais clara, e indica o tipo de material que o produto é confeccionado. No caso, a palavra mapa teria origem cartaginesa, que significa toalha de mesa geralmente, feita em tecido ou pele de animal. Já o termo carta teria origem egípcia e significa papel (OLIVEIRA, 1993). No ensino de Geografia, a distinção entre mapas e cartas pode variar segundo o autor do livro didático. Alguns, por exemplo, utilizam o critério da escala car- tográfica; outros, o nível de detalhamento e precisão usados nos produtos para estabelecer essa distinção terminológica. Embora sejam propostas válidas, res- saltamos que o professor de Geografia deve discutir com seus alunos sobre esse problema nas definições, apresentando as diferentes faces que os mapas e as car- tas assumem ao longo da história. Esse aspecto não pode ser encarado como um problema negativo, mas como um sinal da riqueza e complexidade da história e do uso dos mapas pelos seres humanos. Os mapas e as cartas apresentam várias subcategorias, dentre as quais assi- nalamos algumas: a. Mapa cadastral: mapa com uma escala cartográfica grande (1:500 a 1:25.000), isto é, que representa uma área geográfica pequena. Oferece um nível elevado de detalhamento e é utilizado para demarcações precisas de ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E56 lotes e edificações. De acordo com Gaspar (2005), eles nasceram com pro- pósitos fiscais, constituindo um importante instrumento no ordenamento territorial. Um exemplo de mapa cadastral pode ser visto na Figura 1: Figura 1 - Mapa cadastral de um bairro de Curitiba Descrição de imagem: exemplo de mapa cadastral. Note que a escala cartográfica grande permite um detalhamento das divisões dos lotes, possibilitando que a administração municipal tenha um olhar mais minucioso do território. Fonte: IPPUC ([2019], on-line)1. b. Mapa corográfico: representa os dados estatísticos de vastas regiões, países ou continentes (nesse caso, entende-se que a escala cartográfica é sempre pequena). O termo corográfico deriva das palavras gregas cho- ros (lugar) e pleth (valor), assim como pode ver visto nas Figuras 2 e 3: Os Produtos Cartográficos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 57 Figura 2 - Exemplo de um mapa corográfico da Austrália, indicando as áreas de maior densidade populacional no país Fonte: Wikipedia (2019, on-line)2. Figura 3 - Exemplo de um mapa corográfico do Brasil, indicando as áreas de maior densidade de povoamento Fonte: Wikipedia (2018, on-line)3. ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E58 c. Mapa hipsométrico: representa o terreno ou o relevo submarino em termos de altitude, acima ou abaixode um plano de referência, seja em curvas, em sombreado ou em cores, como expresso na Figura 4: Figura 4 - Exemplo de mapa hipsométrico do Rio Grande do Sul Fonte: Atlas Socioeconômico-RS (2019, on-line)4. d. Mapa-mudo: comumente para uso escolar, não apresenta letreiros ou informações gerais. Geralmente, é um mapa que indica apenas os limi- tes de uma área, assim como exemplificam as Figuras 5 e 6: Os Produtos Cartográficos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 59 Figura 5 - Exemplo de um mapa-mudo do Brasil: note que ele apresenta apenas os limites territoriais, cabendo, ao aluno, a complementação das informações Fonte: IBGE ([2019], on-line)5. Figura 6 - Mapa-mudo dos continentes Fonte: IBGE ([2019], on-line)6. ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E60 e. Mapa turístico: representação espacial cuja função é atender às necessi- dades de turistas. Geralmente, utilizam uma linguagem cartográfica que não exige o conhecimento sistemático das convenções da Cartografia e costumam apresentar um grau relativo de exatidão no posicionamento dos pontos de interesse, assim como exemplificam as Figuras 7 e 8: Figura 7 - Mapa turístico do Rio de Janeiro Fonte: Rio de Janeiro Aqui ([2019], on-line)7. Figura 8 - Mapa turístico da cidade de Curitiba Fonte: Multimídia Turismo ([2019], on-line)8. Os Produtos Cartográficos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 61 Planta Representação espacial que possui uma escala cartográfica muito grande, isto é, compreende áreas muito pequenas e com um nível elevado de detalhamento. Empregada, principalmente, na visualização de detalhes de edificações, assim como mostra a Figura 9: Figura 9 - Exemplo de uma planta cartográfica. Destaque para o elevado número de detalhes evidenciados na representação Existe uma grande diferença entre um mapa e uma fotografia aérea. Em pri- meiro lugar, a fotografia mostra todos os objetos que o sensor fotográfico pode captar, e somente esses; o mapa, por outro lado, mostra uma seleção mais ou menos criteriosa de entidades naturais e artificiais, visíveis e invisí- veis, com maior ou menor detalhamento. Em segundo lugar, estas entida- des são representadas de forma convencional, através de uma simbologia própria, o que não acontece em uma fotografia aérea. Fonte: Gaspar (2005, p. 5). ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E62 Croqui Os croquis podem ser considerados esboços iniciais de mapas, utilizados, prin- cipalmente, em circunstâncias nas quais a representação não precisa apresentar elevado grau de exatidão de uma área ou como ferramenta para organização preliminar de informações coletadas em campo. Os croquis também são deno- minados de esboço, assim como mostra a Figura 10: Figura 10 - Exemplo de croqui ou esboço cartográfico Fonte: Neves (2006, on-line)9. Os Produtos Cartográficos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 63 Globo O globo é uma representação cartográfica da superfície terrestre construída sobre uma esfera. Trata-se de uma solução que causa menos distor- ções se comparada com a projeção em superfícies planas, mas pouco prática para seu transporte e acondicionamento. O primeiro globo que se tem conhecimento foi gerado pelo grego Crates (150 a.C.) e, no Renascimento, destacou-se o globo ter- restre de Martin Behaim, em Nuremberg (1492) (OLIVEIRA, 1993). Mosaico Denominamos mosaico um conjunto de fotos de uma determinada área, recor- tado e montado, técnica e artisticamente, de forma a dar a impressão de que todo o conjunto é uma única fotografia (IBGE, 1998). Esse tipo de produto é, particularmente, usado no planejamento regional, pois oferece uma visão aérea de vastas áreas. Na Figura 12, apresentamos um exemplo de mosaico de parte do rio Amazonas: Figura 11 - Exemplo de globo terrestre ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E64 Figura 12 - Mosaico do rio Amazonas Fonte: INPE (2008, on-line)10. Carta imagem Produto que se constitui de imagens de satélite retificadas e georreferenciadas, super- posta por reticulado da projeção, podendo conter símbolos e toponímias (IBGE, 1998). Figura 13 - Exemplo de uma carta imagem Fonte: Alagoas em dados e informações ([2019], on-line)¹¹. Os Produtos Cartográficos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 65 Ortofotocarta Uma ortofotografia é uma fotografia resultante da transformação de uma foto original, uma perspectiva central do terreno, em uma projeção ortogonal sobre um plano, complementada por símbolos, linhas e georreferenciada, com ou sem legenda, podendo conter informações planimétricas (IBGE, 1998), assim como mostra a Figura 14: Figura 14 - Exemplo de ortofotocarta Fonte: Lira et al. (2017, p. 1564). Ortofotomapa Conjunto de várias ortofotocartas adjacentes de uma determinada região (IBGE, 1998). ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E66 AS ETAPAS DO PROJETO CARTOGRÁFICO Por serem modelos simplificados da realidade, os mapas necessitam passar por uma série de etapas responsáveis pela seleção, tratamento e representação das informações que atenderão as demandas do usuário final. Essas são etapas que independem do tipo ou da categoria a que o mapa pertence, mas que dependem do repertório de conhecimento do seu elaborador, como é o caso do geógrafo. Essa fase inicial, denominada projeto cartográfico, é constituída, sobretudo, pela: (a) definição dos objetivos e do público do mapa; (b) seleção das informações que serão utilizadas; (c) as formas mais adequadas de generalização; e a (d) sim- bolização, atendendo às necessidades do perfil do futuro usuário do mapa, como discutido na Unidade I. Para Sluter (2008, p. 6), O cartógrafo deve, com a ajuda do usuário, relacionar e descrever estas tarefas [que serão desenvolvidas com o mapa], compreender como o usuário de mapas as realizará e como utilizará os mapas para, justa- mente, cumprir as tarefas que lhe são atribuídas. Finalizando essa fase de elencar o perfil do usuário e os usos do mapa, segue-se para a fase de seleção. De acordo com Gaspar (2005, p. 160): As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 67 A fase da seleção consiste, basicamente, em identificar as categorias de informação a incluir no modelo, em função do seu objetivo. Trata-se de um processo estreitamente condicionado pelo propósito da representa- ção, o que significa que dele depende o sucesso ou insucesso da mesma. O que significa identificar as categorias de informação? Como realizar essa seleção? Uma característica curiosa dos mapas e que a maioria das pessoas não per- cebe é que todo fenômeno presente na legenda não representa um fato geográfico singular, único, mas uma classe de fenômenos que compartilha uma mesma carac- terística (GARBIN, 2016; KEATES, 1982). No caso de um curso d’água representado comumente por uma linha azul, todos os cursos d’água que empregam um mesmo símbolo têm o mesmo significado, sendo as coordenadas geográficasas responsáveis por indicarem a localização particular de cada fenômeno, tornando-os singulares. No processo de seleção das informações relevantes para compor o mapa, o autor deve pensar em quais atributos são importantes para facilitar o entendimento do lei- tor: se o objetivo é elaborar uma carta topográfica, serão representados os acidentes topográficos, as redes hidrográficas, a vegetação, as vias de comunicação, os limites administrativos e entre outros. Não se trata de decidir se apenas alguns dos aciden- tes topográficos, cursos d’água ou limites administrativos serão representados, mas decidir quais categorias ou classes de fenômenos serão importantes para compor o mapa, bem como a base cartográfica adequada (GASPAR, 2005). Por base carto- gráfica, compreende-se “o conjunto de todas as informações cartográficas que têm a função de servir como referência espacial ao tema representado” (SLUTER, 2008, p. 7). O terceiro processo presente no projeto cartográfico, sucessivo ao da seleção, é denominado generalização cartográfica. A generalização consiste na adaptação das informações elencadas na fase de seleção, de acordo com as características do leitor de mapas e sua consequente adaptação às circunstâncias técnicas que envolve a confecção do mapa, como o tamanho do papel ou o tipo de material disponível para sua construção. A razão principal para a existência dessa fase é o fato de que os mapas apresentam uma escala menor do que o fenômeno repre- sentado, o que exige que este passe por um tratamento, para que não torne o mapa muito poluído visualmente ou até mesmo ilegível (KEATES, 1989). A generalização, assim como você pode perceber, caro(a) aluno(a), com- parando os mapas em escalas diferentes na Figura 15, pode ser realizada de maneira muito distinta, além de induzir o leitor de mapas a visualizar algumas ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E68 Figura 15 - O papel da escala na generalização cartográfica Descrição de imagem: Implicações da generalização cartográfica com a mudança de escala em um software de mapas digitais. Fonte: adaptada de Brasil (2017, on-line). características de uma área em detrimento de outras. Vamos estudar alguns des- ses procedimentos? ES C A LA C A RT O G RÁ FI C A M en or M ai or As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 69 a. Classificação: o objetivo do procedimento de classificação é a tipificação e o ordenamento da informação que estará presente no mapa. Seu papel é buscar a simplicidade, mesmo que, para isso, agrupe os dados em clas- ses maiores para realçar o fenômeno principal (GASPAR, 2005). Figura 16 - Classificação de lotes distintos em um quarteirão Fonte: os autores. b. Simplificação: seu objetivo é eliminar os pormenores desnecessários ou prejudiciais para a leitura dos fenômenos espaciais. Por vezes, na mudança para uma escala cartográfica menor, alguns símbolos são eliminados ou simplificados geometricamente. Figura 17 - Exemplo de simplificação das feições de uma rede hidrográfica Fonte: os autores. c. Realce: este procedimento tem como objetivo exagerar ou enfatizar elemen- tos relevantes no mapa, para torná-los mais perceptíveis, como avenidas, rodovias e edifícios específicos, por exemplo. ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E70 Figura 18 - Exemplo da operação de realce nas principais vias de circulação d. Simbolização: representação dos fenômenos espaciais por meio de símbo- los. Este procedimento é considerado integrante da generalização quando afeta a dimensão espacial do fenômeno, que pode levar a degradação da sua escala de medida (assim como veremos no tópico seguinte). Você consegue identificar as operações de classificação, simplificação, real- ce e simbolização quando usa o Google Maps ou o Bing Maps? As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 71 Escalas de medida O mapa tem o papel primordial de indicar a localização dos fenômenos no espaço, mas esse não é o único tipo de informação que possui. Um aspecto de grande importância presente no mapa é a natureza e os tipos de relação que os dados estabelecem entre si, denominados escala de medida. De acordo com Dent (1985), o objetivo dessa escala é estruturar formas adequadas na obser- vação da realidade e é organizada em uma hierarquia de quatro níveis, criando formas mais ou menos complexas de medição. Em ordem crescente de comple- xidade, as quatro escalas são: a. Escala nominal: destina-se a identificar fenômenos que pertencem às clas- ses de dados semelhantes ou diferentes. Essas relações estabelecidas entre os dados são qualitativas e, no mapa, apresentam sempre um mesmo sím- bolo. É por meio da escala nominal que se distingue, por exemplo, uma estrada de um rio, os diferentes usos da terra. Contudo, não torna possível estabelecer qualquer tipo de hierarquia ou quantificação (GASPAR, 2005). Figura 19 - Exemplo de aplicação da escala nominal Fonte: A Bacia em Estudo ([2019], on-line)¹². ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E72 b. Escala ordinal: destina-se a ordenar, dentro de uma mesma categoria, os fenômenos representados. Permite verificar em qual ordem hierárquica os fenômenos são representados, embora não permita dizer exatamente quanto um fenômeno é maior ou menor que outro, isto é, não torna pos- sível nenhuma forma de quantificação (GASPAR, 2005). É esta escala que torna possível identificar áreas de maior ou menor susceptibilidade à ero- são, maior ou menor exclusão social, dentre outros. Figura 20 - Exemplo de mapa que utiliza uma escala de mensuração ordinal, criando uma noção de hierarquia Fonte: Prates (2014, on-line)¹³. As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 73 c. Escala de intervalos: destina-se a estabelecer uma sequência numérica com origem arbitrária cujo grau zero não indica a ausência da proprie- dade medida. São exemplos de escala de intervalo, as escalas Celsius e Fahrenheit, bem como as escalas para medir altitude (GASPAR, 2005). Ao contrário da escala ordinal, a escala intervalar permite estabelecer relações numéricas relativas entre duas ou mais classes. Figura 21 - Exemplo de mapa que adota uma escala de mensuração intervalar Fonte: Inmet (2014, p. 3). ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E74 d. Escala absoluta (ou de razão): destina-se a estabelecer uma sequência numérica cujo grau zero indica a ausência de uma propriedade medida. Neste caso, a razão entre dois valores tem um significado intrínseco. Por exemplo: é possível afirmar que se uma cidade “A” é duas vezes mais populosa do que a cidade “B”. Assim, o leitor identificaria que a razão de habitantes é de 2:1 (GASPAR, 2005). Figura 22 - O mapa de população dos Estados em 2010 é um exemplo de escala de mensuração absoluta Fonte: Martinelli (2014). Na literatura cartográfica brasileira, essas quatro escalas de medida são mais fre- quentemente adaptadas em três propriedades perceptivas, que são os tipos de relações que os mapas expressam entre os fenômenos: relação de similaridade/ As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a.A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 75 diferença (corresponde à escala nominal), relação de ordem (corresponde à escala ordinal) e relação de quantidade (corresponde às escalas de intervalo e absoluta). É fundamental ressaltarmos que um dado pertencente à escala absoluta ou intervalar pode ser transformado em um dado ordinal e este, por sua vez, em um dado nominal. O inverso, porém, não é possível. Vejamos isso com o seguinte exemplo: Quadro 1 - Evolução da produção agrícola (em toneladas) no Estado do Paraná PRODUTO 1995 2000 2005 2010 2015 Cana-de-açúcar 20.429.522 23.191.970 29.717.100 48.361.207 47.368.045 Erva mate 20.277 206.188 164.752 123.132 217.851 Soja 5.694.427 7.188.386 9.492.153 14.091.829 17.229.378 Trigo 1.068.689 700.118 2.767.440 3.442.660 3.330.589 Fonte: adaptado de IPARDES ([2019], on-line)¹⁴ A partir do nosso banco de dados exposto no Quadro 1, é possível identificar- mos diferentes tipos de escalas de medida, a depender da natureza da informação do nosso interesse e das perguntas que serão utilizadas para sua seleção. Ao perguntarmos quais sãoos tipos de produtos, estamos adotando uma escala de mensuração nominal, pois não há qualquer medição quantitativa ou hierárquica entre os tipos de produtos agrícolas. Por outro lado, podemos investigar qual é a ordem dos anos em que uma cultura específica apresentou maior ou menor produção: no caso, estamos ado- tando uma escala de mensuração ordinal. Por fim, poderíamos, ainda, questionar quanto exatamente a produção de cana-de-açúcar foi maior do que a produção de soja, sendo uma característica da escala de mensuração absoluta. Saber iden- tificar a natureza dos dados por meio das escalas de medida é uma habilidade fundamental para o geógrafo, pois é por meio desse reconhecimento que serão escolhidos os símbolos para a construção do mapa. ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E76 A contribuição da Semiologia Gráfica para a construção da lin- guagem dos mapas Denominamos linguagem cartográfica ou linguagem dos mapas o conjunto de signos que constitui os produtos cartográficos, permitindo que se represente a localização e os tipos de relações entre os fenômenos espaciais. Na Cartografia, a questão de como construir uma linguagem cartográfica otimizada é de grande interesse, pois sua má utilização pode induzir o usuário de mapas a ter uma leitura equivocada da realidade. As discussões e contribuições mais significativas no campo da linguagem car- tográfica apresentam uma proximidade muito maior com o ramo da Cartografia Temática em relação à Cartografia Sistemática. Isso ocorre por razões históricas, já que é uma cartografia rigorosamente técnica e normatizada pela legislação dos países, sendo, historicamente, anterior à cartografia temática, quando os estudos científicos da linguagem cartográfica foram desenvolvidos a partir da década de 1960 e as normativas técnicas da cartografia de base estavam solidamente estabelecidas. O principal autor que contribuiu com o estudo de uma linguagem dos mapas foi Jacques Bertin (1918-2010), um cartógrafo francês que publicou, em 1967, a obra Semiologia Gráfica. O objetivo de Bertin era desenvolver uma linguagem car- tográfica universal, monossêmica e de rápida apreensão, permitindo que os mapas fossem interpretados corretamente por qualquer pessoa. Para que esse objetivo fosse atingido, a chave seria a eliminação do código no processo comunicativo e a adoção de pressupostos lógicos inerentes à percepção visual humana. Por código, compreendemos todo tipo de regra arbitrária e convencional estabelecida em uma comunidade de falantes, a qual organiza as regras de uso e os significados dos sig- nos (NETTO, 1983). Seu emprego seria descartado quando se compreendessem as relações lógicas entre as variáveis visuais e as propriedades perceptivas. As variáveis visuais (ou variáveis retinianas) são os elementos gráficos que variam visualmente, isto é, o aspecto visível dos símbolos que constituem os mapas. Por outro lado, as propriedades perceptivas são os significados ineren- tes que as variáveis visuais possuem. Na prática, traduzem-se como os tipos de relações que o tema representado no mapa comunica. As três relações que os fenômenos estabelecem entre si são de similaridade/diversidade (≠), ordem (O) e proporcionalidade (Q) (QUEIROZ, 2000). As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 77 No que se refere às variáveis visuais, elas se constituem em sete tipos, se con- siderarmos também as duas dimensões do plano (X, Y) como indicadores da localização do fenômeno. As outras seis são: Tamanho Refere-se à variação da dimensão do símbolo. Esta variável permite que sejam visualizadas informações quantitativas, conforme pode ser visto no mapa sobre a população nas capitais brasileiras em 2010. Esta variável visual permite, ao leitor, uma rápida visualização da distribuição das quantidades de habitantes pela área cartografada, mesmo antes da leitura das informações contidas na legenda do mapa. É a única variável visual que expressa a propriedade de proporcionalidade (Q). Figura 23 - A variável visual tamanho aplicada no mapa da população nas capitais brasileiras em 2010 Fonte: Martinelli (2014). ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E78 Valor Refere-se à variação na tonalidade de uma cor, podendo ser utilizados valores fortes ou fracos (escuros ou claros, respectivamente). No mapa de densidade demográfica no mundo, foi utilizada a variação dos tons para representar os inter- valos matemáticos, sendo adotado o tom mais claro para a menor densidade, o tom mais escuro para a maior densidade e os tons intermediários para as classes existentes entre os extremos. Esta variável visual permite, ao leitor, estabelecer relações entre forte/fraco, mais/menos, maior/menor, mesmo antes da leitura da legenda no mapa, sendo a propriedade perceptiva a ordem (O). Figura 24 - Variável visual “valor”. Fonte: IBGE ([2019], on-line). Granulação Refere-se a uma representação semelhante às hachuras ou pontilhados que dão a noção de claro/escuro ou preenchido/vazio. Nesse mapa de distribuição da população do Brasil, foram adotados pontos que representam dez mil habitantes, As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 79 distribuídos conforme a concentração populacional no território. Com a apli- cação dessa variável visual, o observador consegue enxergar a distribuição do fenômeno/elemento ao longo de toda a área cartografada, estabelecendo a ideia de concentração/dispersão mesmo antes da leitura da legenda no mapa. Figura 25 - Exemplo de aplicação da variável visual “granulação” Fonte: Atlas Socioeconômico-RS (2019, on-line)¹⁵. Cor Trata-se da sensação subjetiva das pessoas em relação à radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda que, ao atingir os cones localizados na retina, dão noções de cores. É uma das formas de representação mais utilizada na cartografia, visto que pode aparecer combinada às outras. Quando utilizada exclusivamente, tem como finalidade diferenciar os elementos cartografados (veja a versão colorida do livro, a qual está disponível no AVA). ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E80 Figura 26 - Aplicação da variável visual cor Fonte: IBGE ([2019], on-line). Nessemapa de cobertura vegetal do Brasil, todos os elementos possuem, em comum, a natureza da informação (vegetação), porém cada formação vegetal possui características únicas, o que não nos permite estabelecer uma ordem, uma dispersão ou uma concentração. Nesse caso, a cor mostra a localização e As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 81 a extensão ocupada pela formação vegetal representada. O observador tem a noção de diferença entre as informações antes da leitura da legenda no mapa. Orientação Trata-se da inclinação dos traços nas representações, podendo ser na posição vertical, oblíqua ou horizontal. Esta variável visual diferencia os elementos car- tografados, conforme a inclinação do traço, o qual precisa manter a mesma espessura, para não passar a percepção de ordem. Figura 27 - Variável visual orientação Fonte: Bertin (1967). Forma Refere-se ao uso de símbolos convencionais, ou não, sejam eles figuras geométri- cas, pictogramas, letras, números e entre outros. Nessa variável visual, trabalha-se com a diferenciação dos elementos representados, pois cada pictograma tem uma origem e um significado diferenciado, o que exige a elaboração de uma extensa legenda que os apresenta de maneira clara. No mapa a seguir, foram utilizados ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E82 diversos pictogramas para representar a distribuição de uma série de minerais brasileiros, sendo necessária uma leitura atenta das representações e da legenda: Figura 28 - A variável visual forma Fonte: IBGE ([2019], on-line). Essa variável visual pode causar erros de leitura quando a série de dados repre- sentados for muito extensa. Recomenda-se a utilização dessa variável visual para mapas ou cartas em que a quantidade de elementos a serem representados for suficiente para uma leitura rápida. As Etapas do Projeto Cartográfico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 83 Modos de implantação das variáveis visuais Além de ficarmos atentos ao tipo de relação que uma variável visual expressa, é fundamental conhecermos os três modos de implantação que podem possuir. O critério para a escolha de um dos modos varia de acordo com a natureza do fenô- meno representado e pode ser alterado com a mudança da escala cartográfica. O modo de implantação pontual é empregado quando as dimensões espaciais do fenômeno não são uma informação de interesse, mas apenas a sua localização. No caso, a escala cartográfica do produto deve ser pequena o suficiente para que o fenômeno representado tenha sua extensão ignorada. Esse tipo de modo de implan- tação é utilizado em mapas cuja função é mostrar a localização real ou aproximada de um fenômeno, como as capitais dos estados ou a localização dos aeroportos. O modo de implantação linear é empregado em fenômenos que se esten- dem de maneira contínua sobre a superfície terrestre cujo comprimento é a única informação útil para a leitura do atributo. São utilizadas linhas contínuas ou pontilhados para representar a extensão desses fenômenos, com espessuras variáveis. Podemos citar, como exemplo, as rodovias, as ferrovias, os cursos hídri- cos, as linhas de transmissão de energia ou de distribuição de água, pois esses elementos se manifestam por uma grande extensão sobre a superfície e descre- vem um trajeto contínuo. O modo de implantação zonal ou areal é empregado para representar fenô- menos cuja dimensão ou extensão é significativa para a escala apresentada no mapa, ou seja, são fenômenos que devem ser desenhados de forma que seja Algumas variáveis visuais apresentam a capacidade de favorecer um agru- pamento de vários símbolos formando uma única imagem ou de favorecer a separação dos elementos do mapa. O nome dessa propriedade de agrupar é associativa, indicada pelo símbolo ≡ , como é o caso das variáveis forma, cor, orientação e granulação. Já as variáveis ordem e tamanho são denomi- nadas dissociativas. Fonte: Martinelli (2014). ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E84 possível ler sua área e sua forma. Podemos citar, como exemplo, os mapas de clima, vegetação e regiões do Brasil. A síntese das variáveis visuais, seus modos de implantação e suas propriedades perceptivas são expressas pela figura a seguir: Figura 29 - Variáveis visuais, modos de implantação e propriedades perceptivas Fonte: adaptada de Bertin (1967). Devemos lembrar que, atualmente, os mapas digitais permitem a alteração ins- tantânea da escala aplicada à representação e, portanto, as formas de implantação são alteradas continuamente nos mapas disponíveis no ambiente virtual. Depois de verificarmos os conceitos mais elementares da cartografia e da leitura carto- gráfica, começaremos a estabelecer relações mais complexas de implantação e leitura, iniciando pela escala cartográfica, que constitui relação matemática fun- damental em uma representação cartográfica. Escala Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 85 ESCALA CARTOGRÁFICA De forma bastante direta, podemos definir escala como a relação da dimensão de um elemento e/ou um objeto apresentado no desenho original para a dimen- são real do mesmo elemento e/ou objeto. Essa relação pode ser apresentada por meio de escala numérica ou por escala gráfica. As escalas podem ser de: redução ( )1: n , em que o objeto é representado com as dimensões reduzidas no desenho; ampliação ( )1: n , em que o objeto é representado com as dimensões ampliadas no desenho, sendo pouco comum na Geografia; ou naturais ( )1:1 , em que o objeto é representado no desenho com as dimensões reais. Nota-se que a escala de redução é a mais utilizada para a representação cartográfica na Geografia, pois os mapas geográficos representam grandes extensões da superfície terrestre. É muito comum referir-se às escalas como “escala grande” ou “escala pequena”; mais comum ainda é a inversão dos seus significados. Uma escala cartográfica é ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E86 considerada grande quando possui um denominador pequeno, visto que, nesse caso, o mapa representará uma área reduzida com mais detalhes. Já uma escala é considerada pequena quando seu denominador é grande: nesse caso, o mapa representará uma área maior, porém com menos detalhes. A seguir, serão apre- sentados dois mapas: um apresenta uma escala pequena - representa uma grande área, em que é possível identificar a localização de Brasília - porém com deta- lhes muito generalizados. Já o outro apresenta uma escala grande - se comparada com a escala do primeiro mapa –, representando uma área menor, porém com maiores detalhes – eixos viários, quadras. Figura 30 - Cidade de Brasília a partir de uma escala cartográfica pequena Fonte: Brasil (2017, on-line). Escala Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 87 Figura 31- Cidade de Brasília a partir de uma escala cartográfica grande Fonte: Brasil (2017, on-line). Os valores escalares são, por convenção, adimensionais, ou seja, não apresentam diretamente uma dimensão (unidade) – ao se escrever 1:100 , lê-se que uma uni- dade no mapa (desenho) corresponde a 100 unidades no terreno real. Portanto, 1 cm no desenho corresponde a 100 cm no terrenoou 1 milímetro do desenho corresponde a 100 milímetros no terreno. Como os mapas, em geral, são medidos com o auxílio de régua, adota-se o centímetro como unidade aplicável na deter- minação das relações matemáticas da escala em um mapa utilizado na Geografia. ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E88 A escala é dada pela relação matemática: 1E M = Sendo: escala 1 uma unidade no mapa denominador da escala - corresponde ao valor real E M = = = Por exemplo, se uma distância entre dois pontos é representada no desenho com um centímetro de comprimento e sabe-se que o comprimento, no terreno, é de 100 m , a proporção escalar utilizada na representação será de 1:10.000 . Quando se realiza a leitura das distâncias no mapa e/ou no terreno real, é pos- sível estabelecer três relações, sendo: 1. Determinação da escala: quando se têm os valores da distância real e sua correspondente distância gráfica: dE D = Sendo: escala distância gráfica distância real E d D = = = Em uma escala de redução, o valor da distância gráfica ( )d deve ser apresentado no valor 1 e a distância real ( )D deve ser equivalente a essa distância gráfica. Escala Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 89 Exemplo: Sabendo-se que a distância entre dois pontos no mapa é de 3 cm e que sua cor- respondente real é de 600 metros , determine a escala do mapa em questão. 1º Passo: coletar as informações disponíveis no enunciado do exercício. E d D = = = ? 3 cm 600 m 2º Passo: caso as medidas da distância real ( )D e distância gráfica d sejam distintas, convertê-las em uma medida comum para cortá-las. E d D � � � ? 3 cm 60000 cm 3º Passo: realizar as operações matemáticas, simplificando o máximo possível o resultado. dE D = 3 3 3 3 1 60000 60000 20000 cm cmE cm cm ÷ ÷= → → Portanto, a escala será de 1: 20.000 (lembre-se de que a representação da escala é adimensional, portanto, não se coloca a unidade). ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E90 2. Determinação da distância real: quando se têm os valores da escala e a distância gráfica entre pontos de interesse: D d M= × Sendo: distância real distância gráfica denominador da escala D d M = = = 3. Determinação da distância gráfica: quando se têm os valores da escala e a distância real entre os pontos de interesse: Dd M = Sendo: distância gráfica distância real denominador da escala d D M = = = Para ter mais informações sobre o conteúdo de como realizar a conversão das unidades de medida, consulte nosso QR Code por meio da sua plataforma. http:// Escala Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 91 Exemplo: Sabendo-se que a distância real entre dois pontos é de 700 m , qual é a distân- cia gráfica, em centímetros, correspondente em um mapa de escala 1:5000 ? 1º Passo: coletar as informações disponíveis no enunciado do exercício. 1 5000 E = 5000 700 M D m = = 2º Passo: caso a medida da distância real ( )D seja distinta da medida que o enunciado pede, realizar a conversão. 1 5000 E = 5000 70000 M D cm = = 3º Passo: realizar as operações matemáticas, simplificando ao máximo possí- vel o resultado. 70000 5000 14 Dd M cmd d cm = = = Portanto, a distância gráfica será de 14 centímetros . As escalas gráficas são constituídas por um segmento de reta dividido de modo a mostrar graficamente a relação entre as dimensões de um objeto no dese- nho e no terreno, conforme ilustra a Figura 32: ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E92 0 1 2 3 0 1 2 3 Km Km Dist. grá�ca Dist. real Dist. real Dist. grá�ca Figura 32 - Estrutura de uma escala gráfica Fonte: os autores. Essa representação escalar facilita a leitura direta da escala em um mapa, pois basta posicionar a régua sobre a linha graduada, como demonstrado na Figura 33: Figura 33 - Procedimento para leitura de uma escala gráfica Fonte: os autores. Escala Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 93 Após o posicionamento, basta ler a distância gráfica no primeiro intervalo: Figura 34 - Procedimento para a leitura da escala gráfica Fonte: os autores. No exemplo ilustrado na Figura 34, verifica-se que o intervalo da escala mede 1 cm gráfico, sendo que esse valor equivale a 136 km no terreno real, embora não seja obrigatório que esse valor seja sempre de 1 cm . A partir dessa leitura direta, faz- -se a leitura da distância gráfica (com a régua) entre os pontos de interesse: ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E94 Figura 35 - Procedimento para leitura da escala gráfica Fonte: os autores. Nesse exemplo, foi obtida a distância em linha reta entre Manaus (AM) e Santarém (PA), sendo que, no mapa utilizado, é de 4,5 cm . Para determinar a distância real entre as duas cidades, basta multiplicar a distância real para 1 cm gráfico, que foi obtida anteriormente, sendo 136 km : 4,5 136 612 D d M D D km = × = × = A escala gráfica ainda tem como vantagem a possibilidade do cálculo da escala em um mapa que foi ampliado ou reduzido, pois o traço e suas divisões são man- tidos durante os processos de ampliação e redução. O uso correto dos produtos cartográficos está associado ao conhecimento dos tipos de representações carto- gráficas, dos modos de implantação e representação da informação e da escala adequada para a temática escolhida. A compreensão dos elementos de representa- ção cartográfica – produtos, símbolos, extensão e proporção – é fundamental para o graduando em Geografia, pois é o nível mais elementar para a compreensão dos dados cartográficos, seja na leitura de um mapa técnico ou em um mapa escolar. CONSIDERAÇÕES FINAIS Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 95 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, foram apresentados alguns elementos essenciais para a leitura cartográfica e, consequentemente, importantes para a correta elaboração dos produtos cartográficos. Discutimos os diferentes produtos cartográficos (globos, mapas, cartas, plantas ou imagens), apresentando as escalas e os detalhamentos dos diversos tipos, além de verificar a aplicação de cada material nas diferen- tes práticas geográficas. Verificamos as formas de representação quantitativas e qualitativas de se cartografar as informações, além de quando e como devem ser aplicadas e lidas para a melhor comunicação possível. Estudamos, também, os três modos de implantação das informações carto- gráficas – linear, pontual e zonal -, e, a partir de exemplos reais, demonstrou-se como e quando se utiliza cada um dos modos. Após discutir e ilustrar os modos de implantação, apresentamos as variáveis visuais que são utilizadas no desenho cartográfico, ressaltando-se que a escolha da variável visual se dá em função da pro- priedade perceptiva que melhor representa os elementos a serem cartografados e do modo de implantação que melhor demonstra a extensão do mesmo elemento. Finalmente, apresentamos a escala cartográfica, que também é um elemento essencial para a representação e para a leitura cartográfica básica, pois estabe- lece a relaçãode proporção entre as dimensões lineares representadas no mapa e as suas correspondentes relações no terreno real. Portanto, nesta segunda uni- dade, foram apresentados os fundamentos elementares da cartografia praticada na Geografia acadêmica e escolar, tanto para a elaboração de produtos quanto na leitura cartográfica. Na próxima unidade, abordaremos os elementos essenciais para a representação plana e digital dos mapas, possibilitando um aprofunda- mento nos conceitos necessários para a boa prática cartográfica. 96 1. Além da mudança das dimensões da área representada, a alteração da escala cartográfica causa outros efeitos na representação dos fenômenos no mapa. Assinale a alternativa que indica o impacto da escala cartográfica na fase do projeto cartográfico: a) A escala cartográfica está relacionada diretamente à etapa de seleção carto- gráfica, que consiste na simplificação dos traços dos fenômenos represen- tados. b) A escala cartográfica é um fator determinante na escolha das propriedades perceptivas escolhidas pelo autor de mapas na construção da simbologia. c) A escala cartográfica altera o tipo de público ao qual o mapa se destina: quanto maior a escala, mais especializados são seus usuários. d) A escala cartográfica está diretamente relacionada à etapa de generaliza- ção, influenciando o grau de detalhamento dos fenômenos. e) O autor de mapas deve escolher a escala cartográfica de acordo com o maior fenômeno representado. 2. Um professor de Geografia decidiu levar para sua aula uma série de mapas para ensinar escala cartográfica para seus alunos. Em certa etapa, sua intenção era a de apresentar os produtos cartográficos de forma a evidenciar uma dimi- nuição de escala. Os produtos cartográficos selecionados foram: 1 - Mapa cadastral, para que os alunos visualizassem os loteamentos do bairro da escola. 2 - Mapa do Brasil, para que os alunos visualizassem as fronteiras do nosso país. 3 - Mapa-mudo do Estado de São Paulo, para que os alunos completassem com as variáveis visuais adequadas a produção industrial anual. 4 - Mapa turístico, para que os alunos explorassem os atrativos turísticos da ci- dade. Organizando os produtos cartográficos da maior para a menor escala, obtém-se a ordem: a) 3, 4, 2, 1. b) 4, 1, 2, 3. c) 1, 4, 3, 2. d) 2, 3, 4, 1. e) 1, 2, 3, 4. 97 3. Considerando o mapa a seguir, julgue as assertivas a seguir com (V) para as Verdadeiras e (F) para as Falsas: Fonte: MARTINELLI, M. Mapas, gráficos e redes: faça você mesmo. São Paulo: Oficina de Textos, 2014. ( ) O mapa apresenta dois modos de implantação de dados: pontual e linear. ( ) A variável visual do mapa é de diversidade/similaridade. ( ) Uma das propriedades perceptivas da variável visual adotada é seu papel associativo. ( ) A escala de medida empregada no mapa é nominal. A sequência correta das afirmações é: a) V, V, V, V. b) F, V, F, F. c) V, F, F, V. d) F, F, F, V. e) F, F, V, V. 98 4. Ao preparar uma aula sobre escala cartográfica, um professor selecionou dois mapas da mesma área com escalas diferentes, sendo as escalas dos respectivos mapas: 1:500 e 1:10.000 . Ao apresentar os mapas para os alunos, foi questio- nado o porquê de o primeiro mapa possuir uma escala considerada maior do que a escala do segundo mapa. Considerando o problema exposto, explique porque o primeiro mapa na escala 1:500 pode ser classificado como de escala grande, quando comparado com o segundo mapa, de escala 1:10.000 . 5. Em um mapa de escala 1:25000 , foi traçada uma reta entre dois pontos com uma distância gráfica de 13 cm . Calcule a distância real dessa linha. 99 Desde os primórdios da humanidade, o uso de representações gráficas faz parte das atividades humanas. Seja como instrumento de orientação espacial, seja como docu- mento para apreensão da realidade dos territórios ou, ainda, para o domínio dos espa- ços conquistados, a cartografia tem servido aos interesses das sociedades humanas. Ao longo do tempo, os saberes cartográficos e geográficos passaram por um acréscimo de conteúdos, os quais contribuem para o conhecimento dos fenômenos naturais e sociais que ocorrem no espaço geográfico. No texto a seguir, é apresentado um breve resgate da integração que vem ocorrendo entre a cartografia e o saber geográfico/ensino da Geografia ao longo do tempo: A Geografia é um vasto conjunto de saberes que existe há séculos. Alguns desses sabe- res são representados por meio de documentos cartográficos, em que são representa- das diferenças físicas e humanas. Mediante cartas, podem ser estabelecidas estratégias de ação. A partir do século XIX, o estudo e a confecção de mapas foram dissociados da Geografia, recebendo a denominação de Cartografia. Nesse período, pesquisadores de diversas áreas (Ciências Humanas e da Terra) começaram a desenvolver cartas temáticas especializadas, como geológicas, botânicas, entre outras. Para Oliveira (1988), “a parti- cipação da Geografia na Cartografia não se restringe somente à elaboração de mapas temáticos. A carta topográfica oriunda de uma cobertura regular de fotografias aéreas é a base inequívoca do binômio Geografia-Cartografia”. Os produtos cartográficos facilitam o ensino da Geografia, uma vez que devem ser em- pregados como forma de despertar a sensibilidade dos aprendizes, como também da- queles a quem o produto seja de interesse. Os mapas são considerados, portanto, como modelos para o desenvolvimento do conhecimento geográfico. Além da falta de habi- lidade, muitos professores de Geografia deparam-se com um sério problema: os mapas são, em geral, idealizados para adultos, e não para crianças, ou seja, são generalizações da realidade que implicam escala, projeção e simbologia, os quais não têm significação nenhuma para os alunos. Fonte: adaptado de Sales e Silva (2007). MATERIAL COMPLEMENTAR Mapas de Geografia e Cartografia Temática Marcelo Martinelli Editora: Contexto Sinopse: esse livro destina-se a estudantes de graduação e pós- graduação, além de pesquisadores e profissionais de Geografia e de outros campos científicos que elejam o mapa como meio de registro, pesquisa e comunicação dos resultados obtidos em seus estudos. O livro introduz o leitor ao domínio das representações gráficas e apresenta os fundamentos metodológicos da cartografia temática da Geografia em bases semiológicas atinentes à comunicação visual. Comentário: este livro está disponível na Biblioteca Virtual Pearson. Este artigo aborda a importância da escala nas representações cartográficas e ainda discute a necessidade da definição de uma escala adequada para a representação dos temas específicos. Disponível em: http://www.rc.unesp.br/igce/planejamento/download/isabel/cartografia_geog_ isabel/Aula2/aula2_escala1.pdf. Acesso em: 17 jul. 2019. REFERÊNCIAS 101 BERTIN, J. Sémiologie graphique. Les diagrammes. Les réseaux. Les cartes. 3. ed. Paris: Les ré-impressions, 1967. BRASIL. Portal de Mapas. IBGE [online], 2017. Disponível em: https://portaldema- pas.ibge.gov.br/portal.php#homepage. Acesso em: 16 jul. 2019. DENT, B. D. Principles of thematic map design. Massachusetts: Addison-Wesley, 1985. DUARTE, P. A. Fundamentos de Cartografia. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2002. GARBIN, E. P. Contribuições da semiótica peirceana para a caracterização da se- miose da carta topográfica. 2016. Dissertação (Mestrado em Geografia), Universi- dade Estadual de Maringá, Maringá. GASPAR, J. A. Cartas e projecções cartográficas. 3. ed. Lisboa: Lidel, 2005. IBGE. Noções básicas de Cartografia. Rio de Janeiro: IBGE, 1998. ______. Densidade demográfica no mundo. IBGE, [2019]. Disponível em: https:// geoftp.ibge.gov.br/produtos_educacionais/atlas_educacionais/atlas_geografico_ escolar/mapas_do_mundo/sociedade_e_economia/mundo_nivel_de_densidade_ demografica.pdf. Acesso em: 12 jun. 2019. ______. Recursos minerais. IBGE, [2019]. Disponível em: https://geoftp.ibge.gov.br/ produtos_educacionais/mapas_tematicos/mapas_do_brasil/mapas_nacionais/in-formacoes_ambientais/recursos_minerais.pdf. Acesso em: 17 jul. 2019. ______. Vegetação. IBGE, [2019]. 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Nessa escala, a proporção entre o objeto real e a representação é de 1 centímetro no mapa e corresponde a 500 centímetro ( 5 metros ) no terreno real. No segundo mapa, a escala 1:10.000 representa uma área maior, porém com um detalhamento pequeno. Nessa escala, cada 1 centímetro no mapa corresponde a 10.000 centímetros (100 metros ) no terreno real. 5. 325000 cm ou 3,25 km . U N ID A D E III Prof. Me. Thiago César Frediani Sant’Ana Prof. Me. Estevão Pastori Garbin OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Objetivos de Aprendizagem ■ Compreender o processo histórico de determinação da forma da Terra. ■ Conhecer as diferentes estratégias para a orientação no espaço geográfico. ■ Compreender a função e o cálculo das coordenadas geográficas. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A forma da Terra ■ Estratégias de orientação no espaço ■ As coordenadas geográficas INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), embora, hoje, seja fácil afirmarmos qual é a verdadeira forma do nosso planeta, devemos ter clareza de que esse tipo de indagação motivou vários povos antigos que não dispunham das ferramentas computacionais que temos hoje, mas que realizaram importantes reflexões sobre essa questão. Nesta unidade, compreenderemos um pouco mais sobre como essa trajetória ocor- reu. Iniciaremos nossos estudos com as contribuições dos gregos, examinando os métodos empregados por eles no estudo da forma da Terra. Esse é um tema importante, porque, a partir do reconhecimento da esferici- dade do nosso planeta, um novo tipo de desafio surgiu no horizonte da Cartografia: o desenvolvimento de estratégias para a representação de uma superfície curva em um plano, desafio que está diretamente ligado à invenção das coordenadas geográficas. Neste sentido, abordaremos como o sistema de coordenadas geográ- ficas se organiza, ressaltando a interdependência com outros meios fundamentais para a representação da superfície terrestre. Também estudaremos quais foram as estratégias historicamente empregadas para a orientação no espaço, discutindo suas limitações, bem como os meios de obtermos os rumos e os azimutes por meio da bússola. A partir desse conteúdo, aprenderemos a realizar a conversão entre essas medidas, ressaltando sua inter- dependência com a rosa-dos-ventos. Essas discussões são fundamentais para os futuros professores de Geografia, porque são conteúdos de presença obrigatória no currículo escolar, além de servi- rem como fundamento no entendimento dos principais desafios na representação do nosso planeta. Esperamos que esta unidade forneça informações necessárias para que, em sua vida profissional, a tomada de decisões no processo de con- fecção de produtos cartográficos (mapas, cartas, plantas etc.) ocorra de maneira prática e suficientemente clara. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 107 OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E108 A FORMA DA TERRA Caro(a) aluno(a), com o desenvolvimento tecnológico que culminou no lan- çamento de satélites artificiais que imageiam o nosso planeta, a popularização dos meios de comunicação em massa e a Internet, o formato visível que a Terra possui vista do espaço é uma imagem comum no imaginário coletivo, mas nem sempre foi assim. Até os últimos sessenta anos, a forma do nosso planeta exigia, dos povos, um complexo raciocínio inferencial, baseado nos indícios que foram aprimorados de maneira relativamente lenta, ao longo da história da humani- dade. Cabe, neste momento, uma pergunta para você responder: qual é a forma da Terra? A resposta para essa questão é: depende. Para as ciências que tratam espe- cificamente da representação do nosso planeta, existem vários modelos que são A Forma da Terra Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 109 adotados para permitir a representação. No entanto,fornecer esses modelos e suas principais características sem recorrer a um breve histórico das principais descobertas é deixar de lado alguns raciocínios que complementam a nossa visão da Geografia. Vamos começar? Nas Unidades I e II, constatamos que a preocupação central da Cartografia é a representação do espaço, sendo, o mapa, seu objeto principal de estudo. O levantamento e a medição do espaço, embora estejam relacionados como etapas antecedentes e necessárias para a coleta dos dados, e, posteriormente, serão repre- sentados no mapa, são o objetos de estudo de outra ciência, denominada Geodésia. De acordo com Oliveira (1993), a Geodésia é uma ciência que se ocupa em deter- minar o tamanho e a figura da Terra por meio de medições, como triangulação, nivelamento e observações gravimétricas, bem como em determinar o campo gra- vitacional externo da Terra e, até certo limite, a estrutura interna. Os métodos e as técnicas para a definição da forma do nosso planeta apri- moraram-se ao longo do tempo, mas têm, como o marco fundador, a medição do raio da Terra estabelecida por Erastótenes (276 - 196 a.C.), a partir da dife- rença angular que os raios solares apresentavam, simultaneamente, em um poço na cidade de Siena e Alexandria. O raciocínio empregado por Erastótenes foi o seguinte: sabendo que a distância entre Siena e Alexandria, que, segundo o que pressupunha o filósofo, compartilhavam uma mesma longitude, era de 800 km, a medição do ângulo formado pela sombra de uma estaca fincada no chão no solstício de verão (21 de junho) indicaria o grau de curvatura da Terra entre os dois pontos. A simples existência da sombra em Alexandria e sua ausência em Siena ao meio-dia era um forte indício da esfericidade do planeta. A partir desse dado, bastaria dividir o ângulo encontrado pelo valor total da circunferência ter- restre (que é 360º) para se determinar o raio planetário. O ângulo formado pela sombra da estaca em Alexandria foi de 7,2º, o que corresponde a uma das cinquenta partes da Terra. A partir da multiplicação da distância conhecida entre as cidades por cinquenta, Erastótenes determinou que a circunferência do planeta era, aproximadamente, 39.250 quilômetros. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E110 NORTE OESTE SUL ESTE Ra io s d o So l Estaca 90° N E o Observação em Alexandria Observação em Siena Ra io s do s ol no p oç o corte s 7°12 Alexandria Siena Rio Nilo 800 km Figura 1 - Método empregado por Erastótenes na medição da Terra Fonte: adaptada de Oliveira (1993). O valor encontrado por Erastótenes e o valor real da circunferência da Terra, na linha do Equador, diferenciam-se em apenas 320 quilômetros. Essa diferença se deu, porque Siena e Alexandria não estavam exatamente na mesma longitude. O levantamento e as medições para a determinação da forma real da Terra tornaram-se secundárias ao longo da Idade Média, mas voltaram a ganhar atenção durante o período das Grandes Navegações, nos séculos XV e XVI, impulsiona- das pela busca de novas terras e riquezas. Nesse período, destacaram-se as ideias de Cristóvão Colombo, que defendeu insistentemente a ideia de uma Terra com a superfície arredondada, e as de Fernão de Magalhães, que realizou a primeira viagem de circum-navegação completa da Terra. A Forma da Terra Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 111 Com o fortalecimento dos impérios coloniais, em meados do século XVII, inúmeras teorias e instrumentos recém-desenvolvidos, juntamente com as des- cobertas realizadas durante as navegações, contribuíram para o amadurecimento das concepções da forma da Terra. O francês Jean Picard (1620-1682) foi quem resgatou e aplicou o método desenvolvido por Eratóstenes e calculou o raio da Terra a partir do arco de circunferência, localizado entre as cidades Paris e Amiens, calculando o valor de 6.372 km. Ainda no século XVII, franceses e ingleses travavam uma batalha científica para determinar a forma e a dimensão exata da Terra. Giovanni Cassini, medindo um arco de meridiano entre as cidades de Dunquerque e Collioure, afirmou que a Terra tinha a forma de um ovo (ovoide), sendo achatada na região do Equador e alongada na direção dos pólos. Isaac Newton, então, pôs em xeque a proposição de Cassini, ao desenvolver, com base em observações pendulares e na gravitação universal, a teoria de que a Terra tem os dois polos achatados e uma dilatação no Equador, o que a tornaria um elipsoide, assim como ilustra a Figura 2. Na primeira metade do século XVIII, a Academia de Ciências de Paris tentou explicar, de forma definitiva, a contradição entre as teorias de Cassini e de Newton e, para isso, foram organizadas duas expedições científicas. A primeira expedi- ção, chefiada por Charles-Marie de la Condamine, foi enviada para a América do Sul, percorrendo o Peru e o Equador, onde se realizou a medição de um grau de arco de meridiano próximo à linha equatorial e obteve, como resultado, que, nessa posição, o grau meridiano media 110.613 metros. A segunda expedição foi chefiada por Pierre Maupertius e enviada para o ártico, onde se mediu um grau de arco de meridiano na Lapônia, ponto próximo ao extremo polo Norte da Terra, e verificou que o arco meridiano, nessa localização, media 111.948 metros, concluindo-se que a Terra é achatada nos polos e dilatada no Equador. Com os resultados obtidos, ficou constatado que a Teoria da Terra Ovoide pro- posta por Cassini estava errada e nosso planeta possui um raio equatorial maior, de acordo com a proposta de Newton. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E112 Modelo de Newton eixo polar eixo polar Modelo de Cassini 1° 1° 1° 1° Figura 2 - Os modelos da forma da Terra propostos por Isaac Newton e Giovanni Cassini Fonte: os autores. É importante ressaltar que os dois modelos ilustrados pela Figura 2 são, didati- camente, exagerados: na realidade, a diferença do eixo equatorial do eixo polar é de apenas 21 quilômetros, aproximadamente. Mesmo com os resultados obtidos pelas expedições francesas, vários esforços foram direcionados para a continuidade dos estudos sobre a forma da Terra em diversas partes da Europa. Assim, físicos e matemáticos dedicavam-se a buscar uma informação mais precisa sobre o assunto. Em 1828, Carl Friedrich Gauss (1777-1855) propôs um modelo físico (e não geométrico) da Terra, baseado na superfície equipotencial do campo de gravi- dade do planeta que coincide com o nível médio não perturbado dos mares. Em 1873, Listing conclui que, se a gravidade exerce força diferente para cada ponto da superfície, a Terra deveria ter uma superfície irregular, como um grande bloco rochoso com uma superfície rugosa, denominando essa forma de Geoide. Esse modelo é considerado referência para os levantamentos planimétricos e altimé- tricos de alta precisão. É importante assinalar que existe uma diferença significativa entre a super- fície topográfica e a superfície do geoide. Podemos considerar como superfície A Forma da Terra Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 113 topográfica todos os aspectos mensuráveis da superfície terrestre, o que inclui as grandes altitudes e grandes depressões: o ponto mais alto dessa superfície no nosso planeta, o Monte Everest, tem uma altitude de 8.840 metros, enquanto o ponto mais baixo, a Fossa das Marianas, tem 11.000 metros de profundi- dade, o que se evidencia uma amplitude topográfica de quase 20 quilômetros. Embora, na escala humana, seja uma diferença considerável, no modelo geoidal, essa amplitudeo processo histórico de determinação da verdadeira forma da Terra. Neste capítulo, verificaremos como os povos antigos realizavam suas in- vestigações para trabalhar com os indícios da esfericidade do nosso planeta e as princi- pais teorias desses pensadores. Aprenderemos, também, como podemos nos orientar no espaço a partir de instrumentos, como a bússola, bem como calcular, de maneira exata, os ângulos para nossa orientação. Por fim, trabalharemos o cálculo das coordenadas geográ- ficas como um meio para realizarmos a localização em qualquer ponto do planeta Terra. Na quarta unidade, discutiremos os desafios envolvidos na construção e escolha das projeções cartográficas. Estudaremos, também, os principais meios no levantamento de dados da paisagem e as formas mais empregadas na representação do relevo, com ênfase nas cartas topográficas. Na última unidade, discutiremos o princípio organizador dos fusos horários, bem como os meios de calcularmos a diferença dos horários entre várias localidades. Encerraremos nossos estudos discutindo os impactos que as novas tecnologias causaram na Cartogra- fia com o desenvolvimento e a popularização dos Sistemas de Informação Geográfica. Esperamos que este livro seja seu companheiro nesta sua trajetória de formação profis- sional. Bons estudos! Prof. Estevão Pastori Garbin Prof. Thiago Cesar Frediani Sant’Ana APRESENTAÇÃO CARTOGRAFIA SUMÁRIO 08 UNIDADE I CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE 15 Introdução 16 O Mapa na História da Humanidade 28 A Ciência Cartográfica 38 As Relações Entre a Cartografia e a Geografia 43 Considerações Finais UNIDADE II ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA 55 Introdução 56 Os Produtos Cartográficos Básicos 68 As Etapas do Projeto Cartográfico 87 Escala Cartográfica 97 Considerações Finais SUMÁRIO 09 UNIDADE III OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA 109 Introdução 110 A Forma da Terra 118 Estratégias de Orientação no Espaço 128 As Coordenadas Geográficas 133 Considerações Finais UNIDADE IV PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO 143 Introdução 144 As Projeções Cartográficas 155 Conhecendo os Principais Métodos para a Realização de Levantamentos Planialtimétricos 159 Representação e Leitura do Relevo na Cartografia 167 Considerações Finais SUMÁRIO 10 UNIDADE V FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA 177 Introdução 178 Fusos Horários 186 O Papel dos Sistemas de Informação Geográfica (Sig) 194 Considerações Finais U N ID A D E I Prof. Me. Estevão Pastori Garbin Prof. Me. Thiago César Frediani Sant’Ana CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar a relação histórica da Cartografia com as diferentes sociedades. ■ Refletir sobre o processo de sistematização da ciência cartográfica. ■ Apresentar as relações entre a Cartografia e a Geografia. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O mapa na história da humanidade ■ A ciência cartográfica ■ As relações entre a Cartografia e a Geografia INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a), iniciaremos nossos estudos sobre a Cartografia discutindo o seu papel ao longo da história da humanidade. Como será visto, embora a prática de mapear o espaço seja anterior à escrita, a sistematização da Cartografia como ciência autônoma é muito recente, remontando-se ao período que sucede a Segunda Guerra Mundial. Nesse sentido, abordaremos a Cartografia em dois momentos distintos, porém complemen- tares: a Cartografia enquanto prática humana inerente à necessidade de compreensão e exploração do espaço; e enquanto ciência autônoma, com paradigmas e linhas de pes- quisa sistematizadas por um amplo corpo de pesquisadores. Este percurso deve estar intimamente desenvolvido na consciência do(a) professor(a) de Geografia, pois a evolução da Cartografia remete a própria com- preensão do espaço. O mapa, muito além de um registro estático da realidade, revela visões de mundo e estratégias cognitivas de compreensão do espaço pelos seres humanos. A Cartografia não deve ser reduzida a um catálogo de conteú- dos a ser transmitido pelo(a) professor(a), mas trabalhada como um saber que será desenvolvido a um só tempo com toda a trajetória do aluno de Geografia. Todavia, como construir uma visão integrada da Cartografia ao conhecimento geográfico? Este é um desafio cotidiano e permanente, tanto do professor quanto do aluno. Nosso objetivo, nesta unidade, é demonstrar como o conhecimento humano na representação do espaço evoluiu e se transformou em um corpo sistematizado de conhecimento, que é a ciência cartográfica. Para tanto, assinalaremos o papel histórico dos mapas como signos do seu tempo e sua valorização com o advento do capitalismo. Em um segundo momento, discutiremos o contexto da transfor- mação da Cartografia em uma ciência autônoma da Geografia e quais foram os principais esforços na construção de uma agenda de pesquisas para essa ciência. Esperamos que essas discussões permitam que você desenvolva uma leitura mais ampla e integrada do papel da Cartografia em nossa sociedade, bem como dos caminhos que essa ciência percorreu até os dias atuais. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 13 CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E14 O MAPA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE Caro(a) aluno(a), você já pensou como seria difícil desenvolver suas ativida- des cotidianas sem conhecer o seu espaço? Desconhecer os principais trajetos da cidade, a disposição das avenidas centrais ou até mesmo a direção correta do nosso destino tornaria a nossa rotina muito mais difícil. É por essa razão prática que o saber geográfico constitui, desde os primórdios da humanidade, uma con- dição para a sobrevivência humana. É por meio desse saber que os seres humanos se orientam e se deslocam no espaço, criam territórios e elaboram estratégias essenciais para a manutenção de sua vida, sendo, o mapa, um importante ins- trumento que auxilia os seres humanos antes mesmo do surgimento da escrita. Segundo Matias (1996), na pré-história, o conhecimento do meio era trans- mitido de forma oral e gestual, e seu registro era realizado por meio de inscrições gráficas em rochas nos interiores das cavernas. O conhecimento era restrito a sua vivência mais imediata e estava associado as atividades essenciais para a manutenção do grupo, tais como a pesca, a caça e a moradia. O gesto, a pintura e a produção de sons, por exemplo, tornam possível que os seres humanos produzam e manipulem elementos mentais que denominaremos representações ou signos. De acordo com Santaella (2012), signo é tudo aquilo que, independente do seu material constituinte O Mapa na História da Humanidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 15 ou da sua forma, representa algum aspecto de algo para alguém. Podemos afirmar, portanto, que as palavras que falamos no nosso dia a dia, os gestos que fazemos no trabalho ou as ideias vagas que temos quando assistimos uma aula são signos, embora o modo com que funcionem sejam diferenciados. O mapa, neste sentido, também pode ser considerado um signo, ou melhor, um complexo sistema de signos que comunica algum aspecto do espaço para outra(s) pessoa(s) ou para nós mesmos. Vale notar que o desenvolvimento de novas técnicas torna possível que os seres humanos criem signos mais elabo- rados, com mais possibilidades de uso – e isso, naturalmente, é válido também para os mapas. Basta imaginarmos como é muito mais fácil identificarmos, hoje, a orientação geográfica de um fenômeno a partir do Googleseria de, no máximo, 110 metros, pois o geoide é obtido a partir dos valores gravimétricos de um ponto, e não de sua altitude. Um exem-plo de como o geoide é caracterizado está expresso na Figura 3: Figura 3 - A Terra a partir da forma de um geoide Fonte: Wikipedia (2012, on-line)1. Por mais precisos, entretanto, que sejam os valores obtidos pela superfície geoi- dal, dependendo da finalidade das atividades desenvolvidas, pode-se adotar formas mais simplificadas para a representação da Terra, nas quais destacam-se o plano, a esfera e o elipsoide. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E114 Plano Esfera Elipsóide Figura 4 - Os três modelos mais comuns para a representação da Terra Fonte: os autores. O modelo plano de representação da superfície terrestre é a estratégia mais sim- ples, usada como superfície de referência para áreas muito limitadas (de até 50 km²). Por serem muito reduzidas, essas áreas não apresentam as deformações observadas na curvatura terrestre, fornecendo maior facilidade na representa- ção e no tratamento dos dados obtidos nos trabalhos de topografia. Já a esfera é a forma geométrica mais conhecida para representar o nosso planeta. Sua adoção pressupõe a eliminação da diferença de tamanho entre os eixos polar e equatorial, bem como a amplitude das altitudes da superfície ter- restre. Ao contrário do modelo plano, as escalas geralmente empregadas nesse tipo de modelo esférico são muito pequenas, de 1:5.000.000 e inferiores. Se é verdade que o modelo esférico é mais aproximado da forma da Terra em relação ao modelo plano, também é verdade que as operações matemáticas necessárias para a obtenção de medidas são mais complexas. Por exemplo: você deve se lembrar, caro(a) aluno(a), de que a menor distância entre dois pontos em um plano é uma reta, certo? Contudo, no caso da esfera, o caminho mais curto é um arco de circunferência. Isso significa que, quanto mais próximo da forma real do planeta, mais difícil é de se trabalhar na realização de operações mate- máticas sobre as representações cartográficas. A Forma da Terra Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 115 O modelo mais complicado para representar a superfície terrestre é o elip- soidal. Ele considera o achatamento que a Terra tem em direção aos pólos e é empregado, principalmente, em levantamentos de alta precisão. É a partir do modelo elipsoidal que são definidas as coordenadas geodésicas elipsoidais. A forma elipsoidal pode apresentar uma grande variedade de aspectos, pois, ao contrário do círculo, seus eixos vertical e horizontal possuem valores distin- tos. Na prática, isso significa que, dependendo da localização da área que será representada, deve-se adotar o elipsoide com as configurações mais adequadas para sua finalidade. Para se estabelecer uma fixação entre o geoide e o elipsoide para uma representação mais fiel possível, é escolhido um datum geodésico. De acordo com Gaspar (2005), o termo datum é empregado na Geodésia para designar um conjunto de parâmetros que constituem a referência de um deter- minado sistema de coordenadas geográficas. Os data (plural de datum) podem ser locais ou globais: no caso do Brasil, desde 2013, utiliza-se o datum geodé- sico SIRGAS 2000, substituindo o datum anterior, o SAD 69. O efeito prático da mudança de um datum é o fato de que, além de permitir uma acurácia maior no posicionamento dos fenômenos no espaço, atribuem-se posições ligeiramente diferentes para valores idênticos das coordenadas geográficas. Por mais importante que seja a adoção de uma superfície de referência para a representação cartográfica do planeta, essa tarefa estaria incompleta sem a articulação com uma estratégia de orientação e localização, assunto tratado nas próximas páginas. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E116 ESTRATÉGIAS DE ORIENTAÇÃO NO ESPAÇO Caro(a) aluno(a), para que possamos nos deslocar no espaço de um ponto a outro, é necessário termos, ao menos, três informações conhecidas: saber onde esta- mos, para onde vamos e o sentido que devemos seguir. Essa pode parecer uma tarefa, aparentemente, simples, quando os lugares são próximos e bem conhe- cidos, mas passam a exigir uma estratégia mais elaborada quando trabalhamos com grandes distâncias e desconhecemos o nosso ponto de chegada. A evolução do raciocínio espacial dos povos antigos demonstra algumas estratégias muito interessantes para resolver essa questão. A estratégia mais primitiva para a apropriação e a orientação dos espaços é a adoção de toponímias, isto é, “batizar” o terreno com algum nome que permite referenciá-lo comunitariamente (CLAVAL, 2011). Logo, torna-se possível criar um ponto de referência e situar os lugares, colocando-os “atrás da colina do castelo”, “à Estratégias de Orientação no Espaço Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 117 direita da Praça dos Três Poderes” e assim por diante. O problema dessa estratégia é que as toponímias não possuem nomes universais, isto é, têm alcance limitado a uma determinada cultura, além do fato de não permitirem que as pessoas que nunca viram esses fatos geográficos os utilizem como um ponto de referência. A solução para a limitação do uso das toponímias foi a utilização de pontos de referência acessíveis a qualquer pessoa, tendo, como base, a observação dos astros celestes, como o Sol, a Lua e outras estrelas. Se pararmos para pensar, qualquer pessoa tem condições de olhar o céu e identificar esses pontos comuns que ser- vem como referência e ajustar a sua direção no deslocamento. A observação desses astros e o conhecimento das trajetórias aparentes na abóboda celeste, como o local onde o Sol nasce e se põe, tornou a tarefa de deslocamento tendo como referência uma grade universal e mais precisa do que o uso dos topônimos. Com o avanço dos conhecimentos das civilizações e com a necessidade cada vez maior de se movimentar por territórios longínquos, surgiu a padronização dos pontos principais de referência, que ficaram conhecidos como pontos car- deais. A forma mais simples de se orientar pelos pontos cardeais era por meio da observação do movimento dos astros, bastando saber que o Sol, a Lua e as estre- las nascem sempre a leste. A rosa-dos-ventos foi criada para indicar exatamente os sentidos dos pontos cardeais e, a partir deles, desenvolveram-se outros pontos de precisão, intermediários entre os pontos cardeais, que são chamados de pon- tos colaterais e, entre esses últimos, foram determinados os pontos subcolaterais. Você já parou para pensar no significado dos nomes dos topônimos do lu- gar onde você mora? OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E118 Figura 6 - A Rosa-dos-ventos e os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais Fonte: Wikipedia (2008, on-line)2. PONTOS CARDEAIS N Norte S Sul E ou L Leste W ou O Oeste PONTOS COLATERAIS NE Nordeste SE Sudeste SO Sudoeste NO Noroeste Estratégias de Orientação no Espaço Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 119 PONTOS SUBCOLATERAIS NNE Nor-Nordeste ENE Lés-Nordeste ESE Lés-Sudeste SSE Sul-Sudeste SSO Sul-Sudoeste OSO Oés-Sudoeste ONO Oés-Noroeste NNO Nor-Noroeste Quadro 1 - Os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais Fonte: os autores. As limitações oriundas da técnica de observação dos astros celestes para deter- minara orientação recaem sobre alguns problemas comuns no nosso dia a dia e que, em situações específicas, causariam sérios problemas para aqueles que dela dependem. Basta imaginar que, durante uma tempestade ou estando um céu com grande nebulosidade, não há a possibilidade de enxergar os astros celestes e um marinheiro ficaria totalmente desorientado. Para isso, buscaram-se alternativas que servissem como meio seguro e mais constante para a orientação no nosso planeta, como é o caso da orientação a partir do campo magnético da Terra. A bússola é o instrumento utilizado para a orientação que funciona a par- tir da atração de uma agulha imantada em relação ao campo magnético da Terra. Foi descoberta pelos chineses, aproximadamente, no ano de 1100 d.C. Além de propor o geoide, também foi Gauss quem realizou os estudos iniciais sistemáticos para compreender a variação desse campo magnético em nível planetário. Dessas pesquisas, verificou-se que 95% desse campo são originados no interior terres- tre, devido à composição rica em ferro. Em outras palavras, ao considerarmos o nosso planeta uma grande esfera, verificamos que, próximo ao seu centro, origina- -se um campo magnético, assim como uma espécie de ímã de barra, denominado OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E120 dípolo. Esse dípolo não está perfeitamente alinhado ao Equador, o que forma um ângulo de, aproximadamente, 11,5°. Por essa razão, a agulha imantada da bússola não aponta para o eixo correspondente aos meridianos, mas ao norte magnético. Esse ângulo de desvio da agulha é denominado declinação magnética (ERNESTO; MARQUES, 2008). Deve-se pontuar que o magnetismo na Terra tem seus valores alterados com o tempo, ou seja, o norte magnético está em um permanente e discreto movimento. É por isso que, para trabalharmos com a orientação, temos que identificar os diferentes nortes que existem, pois variam, a depender do critério que conside-rarmos. Denominamos norte verdadeiro ou norte geográfico, os pontos extremos do alinhamento que coincidem com o eixo de rotação da Terra, sobre o qual se descreve o movimento de rotação diária. A orientação pelo norte verdadeiro ou geográfico é dada por uma linha imaginária, paralela ao eixo de rotação da Terra. A distribuição do campo geomagnético sobre a superfície da Terra é melhor observada em cartas isomagnéticas, isto é, mapas nos quais linhas unem pontos que correspondem a um mesmo valor de um determinado parâme- tro magnético. As linhas isomagnéticas cruzam continentes e oceanos sem distúrbios e não mostram relações óbvias com grandes cadeias de mon- tanhas ou com cadeias submarinas. Esse fato deixa claro que a origem do campo geomagnético, necessariamente, tem de ser profunda. Fonte: Ernesto e Marques (2008, p. 77). Estratégias de Orientação no Espaço Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 121 Pólo Magnético Norte Pólo Magnético Sul Pólo Geográ�co Norte Pólo Geográ�co Sul Figura 7 - Declinação magnética entre o norte verdadeiro e o norte magnético A agulha imantada da bússola, no entanto, que indica o norte, não está orientada em relação ao norte geográfico, mas ao norte magnético da Terra. A ponta da agulha que marca o sentido norte, na verdade, aponta para o sul magnético da Terra, enquanto a extremidade oposta aponta o norte magnético da Terra. Logo, o norte apontado pela agulha da bússola é o norte magnético, mas que corresponde ao sul geográfico. O norte magnético é obtido pelo campo magnético terrestre e apresenta uma diferença de direção em relação ao norte verdadeiro. Além disso, o norte mag- nético não é fixo, pois o campo magnético da Terra está sempre em movimento. Ao longo dos anos, o polo magnético da Terra sofre uma flutuação, alterando sua direção. Em mapeamentos antigos, é necessário verificar qual foi a alteração sofrida pelo norte magnético da Terra no período. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E122 CALCULANDO RUMOS E AZIMUTES Embora os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais ofereçam meios para se deter- minar uma orientação, a trajetória de grandes distâncias necessitam de cálculos matemáticos para se determinar, da forma mais exata possível, a orientação a ser percorrida. Para tanto, são utilizados dois tipos de informações: o azimute e o rumo. Azimute O azimute é o ângulo formado entre o meridiano de origem (linha paralela ao eixo de rotação da Terra) e o alinhamento do ponto de interesse. Sua origem, tanto magnética quanto geográfica, é o norte e a angulação varia de 0° a 360°. N 0°/360° S E 90°W270° 180° Az Az Az Az 4 0 3 2 1 Figura 8 - Exemplo de marcações do azimute Fonte: os autores. Estratégias de Orientação no Espaço Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 123 Rumo O rumo é o menor ângulo entre a meridiana Norte-Sul e o ponto lido. A varia- ção desse ângulo é de 0 a 90°, sendo contado do norte ou do sul para leste ou oeste. Segundo Borges (2013, p. 35), “o rumo de uma linha é o ângulo horizontal entre a direção norte-sul e a linha, medido a partir do norte ou do sul na dire- ção da linha, porém, não ultrapassando 90°”. O rumo é obtido com leituras segmentadas, ou seja, na prática, seria necessário determinar em qual quadrante o objeto ou o caminho que se quer ler está locali- zado. Nesse caso, os quadrantes correspondem a um quarto da rosa dos ventos, sendo que podemos dividir as direções norte, sul, leste e oeste em quatro quadrantes: 1º quadrante = NE 2º quadrante = SE 3º quadrante = SW(SO) 4º quadrante = NW(NO) O valor numérico do rumo sempre deve ser acompanhado de sua orientação, ou seja, de onde partiu a leitura (norte ou sul) e para onde foi girada a bússola (leste ou oeste), como: N S EW90° N W 40° SE 30° NE 50° SW 44° 90° 0° 0° Figura 9 - Leitura do rumo em uma bússola Fonte: os autores. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E124 50°NE – significa que a leitura teve início em norte e que o ponto está a 50º no sentido leste (E). 30°SE : significa que a leitura teve início em sul e que o ponto está a 30º no sen- tido leste (E). 44°NW: significa que a leitura teve início em norte e que o ponto está a 44º no sentido oeste (W). 40°SW: significa que a leitura teve início em sul e que o ponto está a 40º no sen- tido oeste (W). TRANSFORMAÇÕES DE RUMO E AZIMUTE Cada quadrante tem o seu modo de transformar rumo em azimute ou o contrá- rio, como demonstrado a seguir: De Azimute para Rumo: 1° quadrante (NE) Rumo = Az 2° quadrante (SE) Rumo = 180° - Az 3° quadrante (SW) Rumo = Az - 180° 4° quadrante (NW) Rumo= 360° - Az Estratégias de Orientação no Espaço Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 125 De Rumo para Azimute: 1° quadrante Az = Rumo 2° quadrante Az = 180° - Rumo 3° quadrante Az = 180° + Rumo 4° quadrante Az = 360° - Rumo Para representar os dados angulares obtidos a partir de um azimute em uma carta, basta usar um transferidor. Marca-se o ponto de partida da leitura e se coloca a base do transferidor (linha 0º - 180º) paralela ao ponto de referência sobre o ponto a partir do qual pretendemos traçar o azimute. Logo em seguida, marca-se, na carta, junto à marca de graduação do transferidor correspondente ao ângulo do azimute pretendido. Finalmente, é traçada uma linha que passa pelo ponto do ângulo medido e tem a extensão da distância jádeterminada. N Az S E R O N Az S E R O N Az S E R O N Az S E R O 1° Quadrante 2° Quadrante 3° Quadrante 4° Quadrante Figura 10 - Transformação entre rumos e azimutes Fonte: os autores. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E126 AS COORDENADAS GEOGRÁFICAS Os gregos foram os responsáveis pela elaboração dos primeiros sistemas de coor- denadas de latitudes e longitudes. Os paralelos são linhas imaginárias que têm, como origem, a Linha do Equador, a qual divide a Terra nos hemisférios norte e sul. Os paralelos circundam, horizontalmente, o planeta, partindo do 0º na linha do Equador até 90º no Polo Sul e 90º no Polo Norte. Os meridianos são linhas imagi- nárias que tocam os polos da Terra. O meridiano central é denominado Greenwich (0º), o qual divide a Terra nos hemisférios Leste e Oeste e, a partir dele, são contados 180º para leste e 180º para oeste. Figura 11 - Paralelos e Meridianos As Coordenadas Geográficas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 127 O meridiano central foi instituído em 1895, no Congresso Internacional de Geografia, quando todos os países aceitaram que o principal meridiano deve- ria passar sobre Londres. Seu lado oposto, denominado antimeridiano (180º), coincide com a Linha Internacional de Data (LID) e passa justamente sobre o Oceano Pacífico, onde está o fuso internacional do dia. Existem alguns paralelos especiais que têm nome próprio, devido à sua importância para outras áreas de estudos, como a astronomia e a climatolo- gia. São os Trópicos de Câncer e de Capricórnio, localizados, respectivamente, a 23º27’30”N e 23º2730”’S, e os círculos polares Ártico e Antártico, localizados, respectivamente, a 66º33’N e 66º33’S. Figura 12 - Os principais paralelos da Terra Quando os paralelos e os meridianos se cruzam, forma-se o que é denominado coordenada geográfica: cada ponto da superfície terrestre tem a sua coordenada geográfica, formada por uma latitude ( ), que poderá ser norte ou sul – com grau, minuto e segundo de arco – e uma longitude ( ), que pode ser leste ou oeste. OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E128 Figura 13 - A formação das coordenadas geográficas a partir do cruzamento de um paralelo com um meridiano Fonte: Wikipedia (2014, on-line)3. PONTO COORDENADAS GEOGRÁFICAS Latitude (φ) Longitude (λ) A 50° N 100° W B 40° N 80° E C 20° S 40° W D 10° S 20° E Tabela 1- Coordenadas geográficas dos pontos da Figura 13 Fonte: os autores. Um dado importante que Em que ser calculado entre dois pontos a partir de suas coordenadas geográficas é a diferença de latitude e longitude. Para efeitos de cálculo, considera-se que as latitudes do hemisfério norte apresentam um valor positivo, enquanto as do sul, negativo. No caso das longitudes, utilizam-se valores positivos para leste e negativos para oeste do meridiano de Greenwich. Para tanto, empregam-se as fórmulas matemáticas a seguir para se obter essa informação: A Bϕ ϕ ϕ∆ = − As Coordenadas Geográficas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 129 Onde: diferença de latitude diferença do ponto A diferença do ponto B A B ϕ ϕ ϕ ∆ = = = A Bλ λ λ∆ = − Onde: diferença de longitude longitude do ponto A longitude do ponto B A B ϕ ϕ ϕ ∆ = = = Para mostrarmos como se obtêm as diferenças de latitude e longitude entre dois pontos, consideraremos os dados presentes no Quadro 1, levando em conside- ração as coordenadas geográficas dos pontos A (50°N, 100°W), B (40°N, 80°E), C (20°S, 40°W) e D (10°S, 20°E). Para obtermos a diferença de latitude entre os pontos A e B, basta substituirmos os valores da fórmula a seguir pelos valores correspondentes dos pontos: 50 40 10 A Bϕ ϕ ϕ ϕ ϕ ∆ = − ∆ = ° − ° ∆ = ° No caso da diferença de longitude, basta substituirmos os valores da fórmula a seguir pelos valores correspondentes dos pontos: ( )100 80 100 80 180 A Bλ λ λ λ λ λ ∆ = − ∆ = − ° − + ° ∆ = − ° − ° ∆ = − ° OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E130 Nesse exemplo em específico, é válido lembrar que os sinais de positivo e nega- tivo que acompanham os pontos A e B dependem do hemisfério no qual se encontram. Quando dois pontos se encontram com uma diferença de longi- tude de 180°, como foi o caso dos pontos A e B, dizemos que A se encontra no antimeridiano de B. E você, caro(a) aluno(a), saberia calcular a diferença de latitude e longitude entre os pontos C e D? Para ter mais informações sobre o conteúdo e assistir à resolução do exercício proposto, consulte nosso QR Code por meio da sua plataforma. http:// CONSIDERAÇÕES FINAIS Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 131 CONSIDERAÇÕES FINAIS A cartografia é imprescindível para os estudos relacionados aos fenômenos geo- gráficos. Para tanto, é necessário conhecer a superfície cartografada, a melhor forma de representação dos fenômenos que ocorrem no espaço geográfico, além das ferramentas contemporâneas e os novos produtos que podem ser gerados para uma comunicação cartográfica mais eficiente. Nesta unidade, verificamos o processo histórico que culminou com a deter- minação de modelos para representação da forma terrestre, notando que a ciência é incansável na busca dos grandes questionamentos do homem sobre a Terra onde vive e desenvolve suas atividades econômicas, sociais e intelectuais. Ao longo deste capítulo, foram apresentados os principais procedimentos realizados pelos gregos para a determinação da forma da Terra, bem como os argumentos de Newton e Cassini sobre as especificidades dos seus eixos. Discutimos, ainda, os conceitos e os procedimentos de orientação e locali- zação geográfica, os quais são necessários para a compreensão da localização e distribuição dos fenômenos geográficos. A partir dos pontos cardeais, colaterais e subcolaterais, você pôde aprender como se orientar no espaço, bem como obter os valores dos rumos e azimutes para trabalhar com seus alunos em sala de aula. Um dos conteúdos que discutimos nesta unidade foi a compreensão das diferentes formas geométricas utilizadas como modelos para a representação do nosso planeta. Esse tipo de procedimento é fundamental, porque permite tor- nar viável a representação da superfície terrestre, soluções diretamente ligadas à escala e aos propósitos de uso. Por fim, estudamos o princípio que organiza as coordenadas geográficas, discutindo como estabelecer a diferença entre as latitudes e longitudes de dois pontos, aspectos que serão retomados e aprofundados nos próximos capítulos. 132 1. Considerando as diferenças entre o rumo e o azimute, analise as proposições listadas a seguir: I. A orientação dos rumos e dos azimutes tem origem no Norte. II. O valor do rumo deve apresentar o menor ângulo em relação ao eixo norte- -sul e ao ponto subcolateral correspondente. III. Um rumo de 45º NW tem sua origem em norte e vai para oeste. IV. O valor do rumo varia de 0º a 90º e o valor do azimute de 0º a 360º. Está correto apenas o que se afirma em: a) I. b) I e II. c) II e III. d) III e IV. e) II, III e IV. 2. Um professor realizou uma aula prática de orientação com bússola. Para essa aula, ele utilizou um mapa confeccionado com a orientação feita pelo norte verdadeiro da Terra. Durante a prática, os alunos constataram que alguns pon- tos no terreno não estavam na mesma orientaçãomarcada no mapa. Identifi- que a fonte de erro que apareceu durante a aula prática. 3. A representação das formas da Terra envolve uma série de conceitos geomé- tricos, geodésicos e geográficos. Considerando a especificidade desses con- ceitos, julgue as afirmativas a seguir com (V) para as Verdadeiras e (F) para as Falsas: ( ) A forma mais precisa da Terra é denominada geoides. ( ) A Cartografia utiliza vários modelos geométricos para representar o nosso planeta, inclusive o plano. ( ) Ao olharmos uma paisagem pela janela, é possível enxergarmos parte da superfície do geoide. ( ) A função dos data é estabelecer um elo entre o geoide e o elipsoide na re- presentação do espaço. 133 ( ) Se considerarmos uma escala cartográfica muito grande, é possível visuali- zarmos o efeito da curvatura terrestre. A sequência correta é: a) F, F, V, V, F. b) V, V, F, V, V. c) F, V, V, F, V. d) V, F, F, F, V. e) V, V, F, V, F. 4. Durante um trabalho de campo, aos alunos do curso de Geografia, foi solicita- do que determinassem as coordenadas geográficas do ponto A (23°14’25”N; 12°24’12“W). Ao realizar as correções dos resultados, o professor verificou que, embora as coordenadas fossem idênticas, a posição entre os pontos não coin- cidiam, assim como mostra a figura a seguir: Considerando que os equipamentos estavam em perfeitas condições, assinale a alternativa que corresponde ao tipo de informação que o professor deixou de repassar e que determinou a diferença de localização entre os pontos. a) Os valores dos eixos do elipsoide. b) A escala cartográfica. c) A orientação. d) A longitude. e) O datum. 134 5. Os gregos foram os responsáveis por uma série de inovações que até hoje es- tão presentes nas práticas de representação do espaço. Com base nessas con- tribuições estudadas nesta unidade, analise as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I. Uma das maiores descobertas do povo grego foi a utilização dos astros ce- lestes para o desenvolvimento de um sistema de coordenadas geográficas universais. PORQUE II. O uso das toponímias tornava os pontos de referência restritos ao nível local. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é justificativa correta da I. b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é justificativa correta da I. c) A asserção I é proposição verdadeira, e a II é proposição falsa. d) A asserção I é proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são proposições falsas. 135 A orientação com mapa e bússola tornou-se um esporte em franco crescimento na últi- ma década, atualmente, existem vários grupos que são adeptos dessa modalidade ain- da pouco divulgada. A orientação consiste em um desafio de se utilizar uma bússola e uma carta planialtimétrica para se chegar a lugares específicos sem nenhuma referência adicional. O mais comum é a orientação na selva, onde alguns alvos são colocados den- tro de uma extensa área de mata com orientações (azimute/rumo e distâncias), com essas informações, o atleta precisa se deslocar até os alvos. A seguir, é apresentado um texto que relata a breve história dessa modalidade: “Nos primórdios da existência humana, a orientação e a localização espacial eram habi- lidades necessárias para a sobrevivência, principalmente nos deslocamentos terrestres para a busca de refúgios e de alimentos. Ao longo dos séculos, com o conhecimento dos astros, com a invenção da bússola e com o uso dos mapas, a localização e a orientação se tornaram mais precisas, permitindo nortear o deslocamento de exploradores e nave- gadores de terras e mares, além de orientar-se em qualquer momento ou condição do ambiente. Atualmente, temos uma gama de informação sobre qualquer lugar, à disposição de mui- tas pessoas, através do SIG, da rede ciberespacial e do GPS. Entretanto, no meio dessa trajetória, surge uma atividade – a Orientação. A Orientação é uma prática muito antiga na Europa e teve início nos países nórdicos há mais de um século. Em meados do século XIX, militares escandinavos realizavam exercícios de orien- tação com suas tropas, em meio às paisagens naturais, com o objetivo de treinar e de entreter. O Major Ernst Killander, um sueco e líder de escoteiros, conseguiu divulgar e popularizar o esporte. A princípio, constatou que os jovens se afastavam cada vez mais das ativida- des esportivas de corrida e do atletismo e decidiu explorar a paisagem sueca para atrair os jovens corredores. Fixou pontos no meio das florestas, entregou um mapa e uma bússola para os participantes, estabelecendo, assim, uma corrida. A prática da atividade se tornou um grande sucesso e ele foi incentivado a ampliar a orientação para outras pessoas”. Fonte: adaptado de Scherma e Ferreira (2011). MATERIAL COMPLEMENTAR O prêmio da longitude Joan Dash Editora: Companhia das Letras Sinopse: em 1714, depois de muitos naufrágios dos navios da Marinha Real, o Parlamento Britânico instituiu um prêmio milionário para quem descobrisse como determinar a longitude no mar. Para uma potência naval como a Inglaterra, era inadmissível que desastres marítimos continuassem a ocorrer. Cinquenta anos depois, o prêmio continuava sem vencedores. Cientistas consagrados, como Isaac Newton e Edmond Halley, haviam tentado estabelecer um método de calcular a longitude, a partir de experimentos de astronomia, mas sem sucesso. Quem conseguiu descobrir a maneira de medi-la com precisão foi um humilde relojoeiro: John Harrison. Só faltava que a Comissão de Longitude, grupo designado para conceder o prêmio, concordasse em reconhecer que um trabalhador pobre e pouco articulado pudesse ser o vencedor. Tinha início uma briga que ocuparia o resto da vida de Harrison. Numa reportagem minuciosa, que combina história da ciência, diário de bordo e biografia, Joan Dash recria esse conflito e apresenta os detalhes de um personagem central na história da ciência, protagonista de uma corrida que contribuiu, literalmente, para ajudar o homem a descobrir seu lugar no mundo. O link a seguir apresenta um breve vídeo que demonstra de maneira muito simples e prática a utilização das bússolas topográfica e militar para a tomada de dados em campo. Web: https://www.youtube.com/watch?v=z-6UG56NpR8. REFERÊNCIAS 137 BORGES, A. C. Topografia aplicada à Engenharia Civil. São Paulo: Blucher, 2013. CLAVAL, P. Epistemologia da Geografia. Florianópolis: Editora UFSC, 2011. ERNESTO, M.; MARQUES, L. S. Investigando o interior da Terra. In: TEIXEIRA, W.; FAIR- CHILD, T. R.; TOLEDO, M. C. M. de; TAIOLI, F. Decifrando a Terra. São Paulo: Compa- nhia Editora Nacional, 2008. p. 64-82. GASPAR, J. A. Cartas e projecções cartográficas. 3. ed. Lisboa: Lidel, 2005. OLIVEIRA, C. Dicionário cartográfico. 4. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993. SCHERMA, E. P.; FERREIRA, E. R. Ler, analisar e interpretar mapas através das práticas da orientação. Imaginação e Inovação: desafios para a Cartografia Escolar. In: COLÓ- QUIO DE CARTOGRAFIA PARA CRIANÇAS E ESCOLARES, 7., 2011, Vitória. Anais[...]. Vitória: , 2011. p. 230-255. Disponível em:h ttps://cartografiaescolar2011.files.wor- dpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf. Acesso em: 14 jun. 2019. REFERÊNCIAS ON-LINE 1 Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Geoide#/media/File:Geoids_sm.jpg. Acesso em: 18 jul. 2019. 2 Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_dos_ventos#/media/File:Brosen_windro- se_It.svg. Acesso em: 18 jul. 2019. 3 Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mapa_coordenadas_geogr%C3%A1fi- cas_editado.jpg. Acesso em: 14 jun. 2019. https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdfhttps://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf https://cartografiaescolar2011.files.wordpress.com/2012/03/leranalisarinterpretarmapasatravespraticaorientacao.pdf GABARITO 1. D. 2. Trata-se da diferença angular que existe entre o norte verdadeiro e o norte mag- nético da Terra. Essa diferença que gerou o erro de observação é denominada declinação magnética. 3. E. 4. E. 5. A. U N ID A D E IV Prof. Me. Estevão Pastori Garbin Prof. Me. Thiago César Frediani Sant’Ana PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Objetivos de Aprendizagem ■ Identificar as especificidades das projeções cartográficas na representação espacial. ■ Conhecer os principais instrumentos para a obtenção de dados planialtimétricos da paisagem. ■ Conhecer as principais técnicas para a representação cartográfica do relevo. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ As projeções cartográficas ■ Conhecendo os principais métodos para a realização de levantamentos planialtimétricos ■ Representação e leitura do relevo na cartografia INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), nesta unidade, estudaremos quais são as implicações da trans- formação de uma superfície curva em uma superfície plana nas representações cartográficas. As projeções cartográficas formam um importante conjunto de estratégias desenvolvidas e amadurecidas, desde os gregos, para o encontro de soluções na representação da superfície terrestre. Discutiremos as fontes de dis- torções geradas nesse processo. Outro ponto que abordaremos são os principais ramos e métodos para o levantamento de dados do terreno, a partir dos conceitos de altimetria, planime- tria e as relações com a Cartografia. Em seguida, daremos atenção especial aos tipos de soluções historicamente empregadas na representação do relevo, consi- derando as especificidades e potencialidade de cada uma. O nosso foco principal será a leitura das curvas de nível, uma invenção moderna que auxiliou, sobrema- neira, a Cartografia na representação de forma mais fidedigna do relevo. Por fim, aprenderemos como construir e interpretar um recurso muito útil na visualização da altimetria do relevo: os perfis topográficos. Eles são caracte- rizados por uma transposição das informações contidas nas curvas de nível em uma visão lateral, facilitando a visualização dos declives e auxiliando na leitura da paisagem. Estudaremos, passo a passo, como construir um perfil topográ- fico, considerando suas especificidades escalares e as principais estratégias para a transposição das informações presentes em uma carta topográfica. Esperamos que esta unidade forneça as informações necessárias para que, em sua vida profissional, a tomada de decisões no processo de confecção de produtos cartográficos (mapas, cartas, plantas etc.) ocorra de maneira prática e suficientemente clara. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 141 PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E142 AS PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS Um dos maiores desafios decorrentes do conhecimento e da medição da cur- vatura terrestre é a sua transposição para uma superfície plana, como em uma folha de papel, por exemplo, causando as menores deformações possíveis. A transposição de uma superfície curva para uma plana é um tipo de problema recorrente se observarmos o nosso cotidiano, como na construção de uma bola de futebol (Figura 1): Figura 1 - Um tipo de solução para a transformação de um objeto em duas superfícies distintas Fonte: os autores. As Projeções Cartográficas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 143 No caso da bola de futebol, construída a partir de um material bem rígido, são recortados pequenos polígonos que, depois de costurados, possuem suas linhas suavizadas pela pressão do ar do interior da bola. Na Cartografia, adotam-se estratégias engenhosamente semelhantes, mas com uma dificuldade adicional: as distorções causadas na transposição de uma superfície curva para a plana afe- tam, diretamente, algumas características da informação geográfica presente no mapa. Denominamos esse conjunto de soluções empregadas na transposição de um ponto de uma superfície curva para uma superfície plana, bem como na sua materialização, de projeção cartográfica (GASPAR, 2005). Os paralelos e os meridianos cumprem um papel importante na execução das projeções, porque indicam as deformações causadas na transposição carto- gráfica. Isso significa que é a partir de suas trajetórias que identificamos o tipo de projeção utilizada na construção de um mapa, bem como no tipo de proprie- dade que essa projeção conserva ou deforma na representação espacial. Os procedimentos envolvidos na construção de uma projeção cartográfica podem ser divididos em dois principais momentos. O primeiro é caracterizado pela redução escalar do modelo terrestre adotado para a representação do planeta, o que envolve todas as transformações que a mudança de escala pode ocasionar na representação espacial, assim como vimos na Unidade II. O exemplo mais repre- sentativo dessa operação é a construção de um globo terrestre, pouco utilizado no nosso cotidiano pelo seu alto grau de generalização e pela dificuldade em trans- portá-lo. O segundo momento corresponde à transformação da forma dos objetos oriundos da transposição de uma superfície curva para uma superfície plana. A aplicação das projeções cartográficas sempre causa a distorção de algum aspecto no mapa. Nesse sentido, é possível dividirmos as projeções em catego- rias, de acordo com o tipo de distorção ou conservação, quais sejam: a. Projeções conformes Nas projeções conformes, é possível observarmos uma preservação das formas dos objetos pequenos representados nos mapas, mas que sofrem uma mudança de escala quando se prolongam da linha do Equador e se aproximam dos polos. Isso significa que associar o termo conforme com a preservação das formas de objetos grandes, como os continentes, é um entendimento equivocado. Em determinado PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E144 ponto localizado sobre uma projeção conforme, a escala é preservada em todas as direções. No entanto, essa escala pode variar entre dois pontos distintos, assim como ilustra a Figura 2: Figura 2 - Efeito de uma projeção conforme na forma de quatro pontos em latitudes distintas Fonte: adaptada de Gaspar (2005). b. Projeções equivalentes Nas projeções equivalentes, a principal propriedade que se busca conservar são as áreas dos objetos. Esse tipo de propósito é, particularmente, importante na representação dos mapas políticos, pois preservam as dimensões entre os dife- rentes territórios, embora as formas sejam distorcidas pela variação dos ângulos, que não são preservados, assim como mostra a Figura 3: Figura 3 - Transformação de um objeto em diferentes latitudesem uma projeção azimutal equivalente polar Fonte: adaptada de Gaspar (2005). Um exemplo de projeção equivalente é a projeção de Mollweide, em que os meri- dianos são apresentados como linhas curvas, enquanto os paralelos são traçados As Projeções Cartográficas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 145 em linha reta. A área do desenho corresponde à mesma proporção da área ter- restre. As regiões localizadas na área central do mapa possuem menor distorção do que as regiões das extremidades: Figura 4 - Projeção de Mollweide Fonte: Wikimedia Commons (2011, on-line)1. c. Projeções equidistantes Embora seja impossível preservar as distâncias entre todos os pontos da superfície terrestre em um mapa, o objetivo das projeções equidistantes é preservar as distân- cias entre alguns pontos específicos, no sentido leste-oeste, Norte-Sul, por exemplo. d. Projeções azimutais O propósito principal das projeções azimutais, como o nome indica, é preservar os azimutes a partir de um determinado ponto. Ela é utilizada, sobretudo, para a construção de mapas cuja utilização está relacionada diretamente à orientação. e. Projeções afiláticas Nas projeções afiláticas, os ângulos e as áreas são deformados no desenho, mas dentro de um limite de erro. Este tipo de projeção é utilizado, principalmente, para fins didáticos. PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E146 N N S Ângulos Áreas Distâncias Direções S W WE N S W E N S W E A A’ B B’C C’ E A A B B C C d d’A d’B d’C d d Figura 5 - Transformações causadas pelas projeções em um determinado objeto Fonte: adaptada de Gaspar (2005). Além das propriedades conservadas pelas projeções cartográficas, é possível cate- gorizá-las de acordo com a superfície de projeção e a posição dessa superfície em relação ao modelo terrestre, assim como mostra a Figura 5: As Projeções Cartográficas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 147 P P’ P P’ P P’ P P’ P P’ PLANAS CÔNICAS CILINDRICAS POLAR - plano tangente no pólo. EQUATORIAL - plano tangente no equador. HORIZONTAL - plano tangente em um ponto qualquer. HORIZONTAL - eixo do cone inclinado em relação ao eixo da Terra. HORIZONTAL - eixo do cilindro inclinado em relação ao eixo da Terra. TRANSVERSA - eixo do cone perpendicular ao eixo da terra. TRANSVERSA - eixo do cilindro perpendicular ao eixo da Terra NORMAL - eixo do cone paralelo ao eixo da Terra. EQUATORIAL - eixo do cilindro paralelo ao eixo da Terra. P P’ P P’ P P’ P P’ Figura 6 - Classificação das projeções de acordo com a superfície de projeção e sua posição Fonte: IBGE (1998, p. 34) PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E148 No que se refere ao tipo de superfície de projeção, podemos classificar as pro- jeções cartográficas em: a. Projeção cilíndrica Na projeção cilíndrica, a Terra é envolvida por um cilindro, no qual são traçadas as superfícies representadas. Na projeção cilíndrica transversa, os meridianos tocam os dois polos, projetando-se de forma perpendicular sobre a Linha do Equador, enquanto os paralelos apresentam-se com maior espaçamento entre si, à medida que se aproximam dos polos. Portanto, nessa projeção, quanto mais próximas dos polos estiverem as áreas representadas, maior será a deformação encontrada na representação da superfície terrestre. Dizemos que uma projeção cilíndrica é secante quando a superfície de pro- jeção corta o elipsoide em dois pontos ou duas linhas de secância: no caso de cortarem nos paralelos que correspondem à latitude de 70º norte e sul, significa que as distorções entre essas latitudes serão menores. Essa projeção é ampla- mente utilizada para a representação de mapas mundi na forma de planisférios. Figura 7 - Exemplo de projeção cilíndrica equatorial tangente Fonte: Brasil Escola ([2019], on-line)2. As Projeções Cartográficas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 149 Projeção de Mercator Durante o período das grandes navegações, a projeção cilíndrica, elaborada pelo cartógrafo holandês Gerardus Mercator, foi adotada em larga escala pelos navegadores, pois permitia que se traçassem linhas retas para obter a direção a ser tomada. Por ser uma projeção conforme e que representa o mundo sob uma perspectiva europeia, centralizou o continente europeu, aparentando dimensões maiores no desenho. Por isso, é denominada de projeção eurocêntrica: Figura 8 - Projeção cilíndrica transversa de Mercator Na década de 1970, o cartógrafo Arno Peters apresentou sua projeção equivalente. Sua intenção foi contrapor a visão eurocêntrica que existia nos mapas, ainda baseados na projeção de Mercator. A projeção de Peters é cilíndrica, porém as distâncias angulares entre os paralelos diminuem à medida que se afastam do Equador, o que provoca um alongamento nos desenhos dos contornos continentais, distorcendo suas formas, mas mantendo as áreas: PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E150 Figura 9 - Projeção cilíndrica de Peters Fonte: Wikipedia Commons ([2019], on-line)3. b. Projeção cônica Na projeção cônica, a superfície terres- tre é projetada sobre um cone que toca um ponto tangente ou secante à superfície ter- restre. Após a elaboração do desenho, o cone é aberto, formando um plano. Nessa proje- ção, os meridianos convergem para um dos polos, enquanto os paralelos são semicírcu- los concêntricos. Essa projeção possui menor deformação nas áreas de latitudes médias – entre 25º e 65º para norte ou para sul: Figura 10 - Projeção cônica Fonte: Brasil Escola ([2019], on-line)². As Projeções Cartográficas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 151 c. Projeção Azimutal Na projeção azimutal, um plano é colocado tangen- ciando um ponto da superfície. Os meridianos têm, como origem, o ponto de tangência e os paralelos formam círculos concêntricos. A distorção é maior nas áreas mais distantes do ponto de tangência. Essa projeção pode ser Polar (quando o ponto de tan- gência está em um dos polos), Equatorial (quando o ponto de tangência está sobre a linha do Equador) ou Oblíqua (quando o ponto de tangência não está em nenhum dos anteriores). d. Projeção ortográfica Nessa projeção, considera-se que a fonte de projeção está no infinito, ou seja, não toca a superfície. Além disso, apenas um hemisfério poderá ser mostrado e os espaçamentos entre os paralelos diminuem à medida que se localizam próximo ao Equador. Essa projeção é utilizada para destacar alguma região do globo terrestre. e. Projeções interrompidas São denominadas interrompidas, as projeções cartográficas que não apresentam uma continuidade entre as linhas dos paralelos e meridianos. Embora evitem que áreas específicas tenham deformação menor, sua interrupção inviabiliza o Figura 11 - Projeção Azimutal Polar Fonte: Brasil Escola ([2019], on-line)².. PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E152 seu uso na maioria das atividades cotidianas. A projeção interrompida ou des- continuada de Goode, por exemplo, é uma projeção que mostra a equivalência das massas continentais e, para isso, descarta algumas áreas onde predominam as massas oceânicas. Para obter maior precisão,é realizado o alinhamento dos meridianos centrais da projeção aos meridianos dos continentes: Figura 12 - Projeção Descontinuada de Goode Fonte: Wikipedia ([2019], on-line)⁴. A partir do conhecimento sobre as projeções cartográficas, você percebeu que os mapas utilizados em sala de aula não são totalmente fiéis às dimen- sões e às formas reais da Terra. Como podemos trabalhar essa ideia em sala de aula com os alunos? Conhecendo os Principais Métodos para a Realização de Levantamentos Planialtimétricos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 153 CONHECENDO OS PRINCIPAIS MÉTODOS PARA A REALIZAÇÃO DE LEVANTAMENTOS PLANIALTIMÉTRICOS O conhecimento em cartografia envolve, também, as ferramentas de geotecno- logias que são trabalhadas pela topografia, geodésia e geoprocessamento, sendo que o conhecimento básico dessas ferramentas é importante para o graduado em Geografia, na elaboração de cartas ou mapas topográficos e na interpretação deles, sendo desejável a compreensão das informações que esses mapas ou car- tas lhe fornecem para uma correta correlação, análise e síntese da informação. O levantamento de campo conta com técnicas e instrumentos da geotec- nologia para a obtenção da localização plana (X; Y) e altimétrica dos pontos a serem cartografados. É uma parte da Geociência que procura realizar um estudo local sem considerar a curvatura da Terra, trabalhando em um plano tangente à superfície da Terra, de dimensões de, em média 50 km x 50 km, buscando repre- sentar de forma detalhada o que acontece na área estudada, apresentando seu relevo, estradas, construções de divisas, cursos d’água e elementos antrópicos. A técnica de levantamento topográfico tem como objetivo, segundo Borges (2003, p. 1), PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E154 Representar, no papel, a configuração de uma porção de terreno com as benfeitorias que estão em sua superfície. Ela permite a representação, em planta, dos limites de uma propriedade, dos detalhes que estão em seu interior (cercas, construções, campos cultivados e benfeitorias em geral, córregos, vales, espigões etc.). O levantamento dos dados é realizado pela obtenção de distâncias e ângulos, por meio dos quais é possível a determinação dos seguintes dados: ■ Coordenadas (X, Y e Z). ■ Áreas. ■ Volumes. ■ Perímetros. Além disso, os levantamentos podem ser obtidos por meio de métodos plani- métricos ou altimétricos: ■ Levantamento planimétrico É o levantamento da área de estudo para uma representação plana, sem consi- derar o relevo local. Nesse tipo de levantamento, são representados os limites do lote, perímetro, área, construções, estradas, rios etc. Diversos tipos de equi- pamentos e técnicas podem ser utilizados para esse tipo de levantamento cujos dados obtidos são os ângulos horizontais e as distâncias horizontais. A represen- tação dos dados será sempre referente ao plano de estudo perpendicular ao eixo gravitacional terrestre e será, em uma folha, representado um plano, com uma vista superior. As coordenadas trabalhadas, nesse tipo de levantamento, serão referentes apenas aos eixos X e Y. De acordo com Borges (2003, p. 13), na “planimetria são medidas as gran- dezas sobre um plano horizontal. Essas grandezas são as distâncias e os ângulos, portanto, as distâncias horizontais e os ângulos horizontais”. ■ Levantamento altimétrico Na altimetria, o objetivo é determinar os relevos do terreno e obter suas alti- tudes referentes a uma superfície de referência que o profissional adotou, seja por um ponto de altura conhecida, seja por alguma referência necessária para Conhecendo os Principais Métodos para a Realização de Levantamentos Planialtimétricos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 155 a realização de um projeto. Por exemplo, a altura de um meio-fio é importante para o engenheiro saber a que altura tem que ficar o seu projeto. Nesse levan- tamento, são medidas grandezas, como distâncias verticais e ângulos verticais, para uma posterior definição de alturas, diferenças de alturas e cotas. A representação cartográfica da altimetria é feita por meio de isolinhas cha- madas de curvas de nível (Figura 13), que mostram, em um plano, como é a variação do relevo, fornecendo informações que possibilitam verificar os pon- tos mais altos ou mais baixos do terreno em estudo, os pontos de alagamento e as inclinações do relevo. Figura 13 - Curvas de nível Fonte: os autores. As coordenadas trabalhadas nesse tipo de levantamento serão referentes apenas ao eixo da altitude (Z), de acordo com Borges (2003, p. 2): Pela altimetria fazemos as medições das distâncias e dos ângulos verticais que, na planta, não podem ser representados. Por essa razão, a altimetria usa como representação a vista lateral ou perfil, ou corte, ou elevação; os detalhes da altimetria são representados sobre um plano vertical. PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E156 ■ Levantamento planialtimétrico O levantamento planialtimétrico consiste na união dos levantamentos altimétrico e planimétrico, tendo, como objetivo, a determinação das três coordenadas X, Y e Z. No levantamento planialtimétrico, são levantados os valores dos ângulos horizontais, dos ângulos verticais e das distâncias inclinadas. Com esses dados, ainda podemos obter, por meio de cálculos ou equipamentos de medições, as distâncias horizontais e as cotas e diferenças de alturas entre pontos. Esse é o levantamento mais importante para a elaboração de cartas que mostram todas as dimensões possíveis de se cartografar. Com os dados desse tipo de levan- tamento, é possível verificar todo o comportamento do terreno, definir as formas de relevo, definir a declividade do terreno, verificar seu posicionamento dentro da zona de luminosidade, além de possibilitar a determinação da altitude de qualquer ponto dentro da carta/mapa. Ademais, é possível observar a posição dos elemen- tos planimétricos, como rios, estradas, cidades, quadras e entre outros elementos. Representação e Leitura do Relevo na Cartografia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 157 REPRESENTAÇÃO E LEITURA DO RELEVO NA CARTOGRAFIA De acordo com Keates (1989), o relevo é caracterizado pelos valores da altitude e da declividade. A utilização das curvas de nível para a representação dessas carac- terísticas é uma invenção moderna, resultado do avanço científico da Matemática e da Geometria. De acordo com Imhof (2007), o relevo tem sido objeto de repre- sentação na Cartografia desde os mapas mais antigos. De maneira geral, algumas estratégias para representá-lo podem ser sintetizadas pela Figura 14: PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E158 Figura 14 - Formas de representação do relevo Fonte: adaptada de Imhof (2007). As mais antigas e comuns representações de montanhas na Cartografia eram em forma de montes: formas simples, uniformes, mostrando apenas um lado do fenômeno em um domo de forma regular. Quando representadas em fileiras, as montanhas eram orientadas perpendicularmente ao eixo dos vales (IMHOF, 2007). A representação da declividade era simulada por hachuras em manchas, na Idade Média, sem a fidedignidade com as feições encontradas no território. A partir do século XV, o uso de domos regulares começou a ser abandonado e a representação das montanhas começou a ser orientada ao ponto de vista do observador.Os símbolos simplesmente sobrepostos começaram a ser representados como massas montanhosas Representação e Leitura do Relevo na Cartografia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 159 estendidas, as chamadas escamas de peixe. No século XVI, o uso de formas volu- mosas em conjunto com a iluminação tornou-se muito presentes (IMHOF, 2007). As isolinhas de altitude são recursos que demandaram o desenvolvimento da Matemática e da Geometria para o seu desenvolvimento. Elas foram desenvolvidas no século XVII, apesar de somente serem extensivamente utilizadas duzentos anos depois do seu surgimento (IMHOF, 2007). De acordo com DSG (1998), a curva de nível é uma linha contínua e fechada que representa, na carta, a sucessão dos pontos de mesma altitude de uma elevação, referidos ao datum vertical estabelecido. As curvas de nível são mais próximas de onde as declividades forem maiores, de tal modo que, em áreas montanhosas, formarão superfícies mais escurecidas no mapa (RAISZ, 1969). Duas curvas de nível jamais se cruzam: caso isso ocorra, é indicação de erro em sua representação. A Figura 15 ilustra alguns exemplos de como são representadas, em curvas de nível, algumas feições do relevo: Figura 15 - Representação das feições de diferentes relevos pelas curvas de nível Fonte: Linguagem Geográfica (2017, on-line)⁵. PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E160 Uma mesma carta topográfica pode apresentar curvas de nível com espessuras diferentes, o que significa a presença de curvas mestras e ordinárias. As primei- ras aparecem em intervalos maiores, com diferenças de altitudes de 50 em 50 metros ou de 100 em 100 metros. As curvas de menor espessura, com espaça- mento menores, são denominadas ordinárias (SANCHEZ, 1975). CONSTRUÇÃO E LEITURA DE PERFIS TOPOGRÁFICOS O perfil topográfico é um recurso muito útil para visualizar como se comporta o relevo em um determinado corte longitudinal. Como pode ser verificado na figura a seguir, as duas situações apresentam um mesmo desnível de 40 metros, mas o desnível da Situação 1 é muito menos suave, pois essa diferença está dis- tribuída em uma distância mais curta se compararmos à Situação 2. Para os estudos geográficos, essa visualização da declividade do terreno pode ser muito útil, sobretudo para o planejamento ambiental, na análise de áreas de risco para a habitação ou, ainda, para identificar relações entre o tipo de solo e as condi- ções para o desenvolvimento: Situação 1 Situação 2 A 50 50 40 30 20 10 50 40 30 20 10 50 4030 30 2010 10 B C D m A B C D m Figura 16 - Cortes longitudinais expressos em perfis topográficos Fonte: adaptada de Sanchez (1975). Representação e Leitura do Relevo na Cartografia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 161 A construção de um perfil topográfico a partir das curvas de nível exige alguns cuidados, sobretudo na interpretação dos valores altimétricos e na definição do exagero vertical da escala. Contudo, veremos passo a passo de como realizar a construção desse tipo de perfil. A construção de um perfil topográfico exige, evidentemente, que se disponha de alguns instrumentos básicos para a realização da representação. É necessária a utilização de uma régua, lápis (ou, preferencialmente, uma lapiseira de ponta fina), borracha e folha de papel milimetrado. O uso de softwares para a elabo- ração de perfis dispensa esses aparatos analógicos, mas é importante dominar essas técnicas, porque podem ser facilmente replicadas em sala de aula. 1º passo – Identificação e desenho do segmento de reta que será representado A primeira etapa na construção de um perfil topográfico é a determinação do alinhamento que será retratado. A escolha deve ser pautada de acordo com as necessidades do usuário, ou seja, não existe uma regra fixa para determinar o comprimento ou a direção de uma linha. Para fins didáticos, optamos por cons- truir o perfil do alinhamento AB expresso na figura a seguir. Nesse sentido, após a escolha do local a ser representado, trace, com o auxílio de uma régua e do lápis, a trajetória do perfil: Figura 17 - Determinação da linha em que será realizado o perfil Fonte: os autores. PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E162 Perceba, caro(a) aluno(a), que a linha em questão realiza o cruzamento com diversas curvas de nível, sendo a de maior valor a de 980 metros, e a de menor altitude, 880 metros. A amplitude do declive é, portanto, de 100 metros. Se ado- tarmos a escala original da carta, de 1:25.000, para representar esse declive de 100 metros, ele corresponderia a uma distância vertical de 0,4 cm, tornando nosso perfil com uma diferença de altitude muito discreta. O segundo passo, portanto, é encontrar uma escala vertical (para a altitude) diferente da escala horizontal. 2° passo – Definição da escala vertical e do exagero Denominamos exagero da escala vertical a diferença de proporção existente entre essa escala em relação à escala horizontal. Não há uma regra fixa para a determi- nação desse exagero, o que demanda a experiência e o interesse do autor do perfil em definir o seu valor numérico. No caso do exemplo adotado, em que existe uma amplitude de altitude de 100 metros, podemos escolher representar essa ampli- tude em um espaço de 0,5 cm para cada valor de altitude da curva de nível, isto é, a cada 20 metros de diferença, expressa-se em meio centímetro, verticalmente, no papel entre um ponto e outro. Para achar o valor dessa escala vertical, basta utili- zar a fórmula de determinação da escala cartográfica já estudada na Unidade II: 0,5 5 20 20000 4000 dE D cm mm iE m mm = = → → Você pode realizar o download de diversas cartas topográficas, gratuita- mente, no site do IBGE. Basta acessar o link disponível a seguir: https://www. ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/ 15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto. Fonte: os autores. https://www.ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto https://www.ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto https://www.ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto https://www.ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto https://www.ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto https://www.ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto 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https://www.ibge.gov.br/geociencias-novoportal/cartas-e-mapas/folhas-topograficas/15809-folhas-da-carta-do-brasil.html?edicao=16042&t=acesso-ao-produto Representação e Leitura do Relevo na Cartografia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 163 Nesse caso, identificamos que o valor da escala vertical é de 1:4000. Para cal- cular o exagero da escala vertical, basta dividir o valor dos denominadores da escala horizontal pela vertical: 25000 6,25 4000 Exagero = → Portanto, o exagero da escala vertical foi de 6,25. 3° passo – Transposição dos pontos da carta para o perfil Depois de calcular o exagero da escala vertical, a etapa seguinte consiste na trans- posição dos pontos onde ocorreram o cruzamento com alguma curva de nível. No caso, pode-se usar o papel milimetrado para facilitar o procedimento, man- tendo a escala original na transposição do corte AB e estabelecendo a escala vertical de 1:4000, isto é, meio centímetro corresponde a uma variação de 20 metros de altitude, assim como está ilustrado na Figura 18. Muito cuidado neste momento, caro(a) aluno(a), pois os pontos devem ser distribuídos verticalmente na altitude correspondente: Figura 18 - Transposição dos pontos para o papel milimetrado Fonte: os autores. PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E164 4° Passo: Ligar os pontos e complementar as informações do perfil O último passo consiste no traçado das linhas entre os pontos e a complementa- ção das informações do perfil. Nessa etapa final, é muito importante não traçar as linhas de forma muito abrupta entre os pontos, mas simular a suavidade na declinação natural do relevo. É possível, também, indicar na cor azul a posição da lâmina d’água, os valores das escalas e a orientação, assim como mostra a Figura 19: 980 960 940 920 900 880 980 960 940 920 900 880 m et ro s m et ro s Escala vertical: 1:4.000 Escala horizontal: 1:25.000 A B N A B Figura 19 - Finalizando o perfil topográfico Fonte: os autores. Além de indicar a presença de um curso d’água, o perfil topográfico também pode conter informações complementares, como o uso do solo, a indicação dos limites administrativos ou, ainda, o tipo de vegetação existente. Nesse caso, não pode- mos esquecer de indicar, por meio da legenda, os seus respectivos significados. CONSIDERAÇÕES FINAIS Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 165 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, estudamos o que são as projeções cartográficas, quais são suas propriedades e seus papéis no auxílio da Cartografia na representação da super- fície curva do planeta Terra em uma superfície plana. Aprendemos que, a partir da projeção de Mercator, diversas foram as soluções propostas para este pro- blema, cada qual preservando e deformando alguma característica espacial: as formas, os ângulos, as distâncias, as direções ou a distribuição de um erro con- trolado entre todas essas propriedades. Estudamos, também, os meios de classificarmos as projeções cartográfi- cas quanto ao tipo de superfíciede projeção. Ao adotarmos o cone, cilindro ou plano, estamos favorecendo algum tipo de área geográfica, bem como um tipo de distorção que nosso produto cartográfico acarretará em sua representação. Conhecemos, ao longo desta unidade, os principais ramos e as técnicas empre- gadas no levantamento de dados que são representados pela Cartografia para, posteriormente, estudarmos as principais formas de representação do relevo. Na Cartografia, o relevo é representado, sobretudo, no que se refere à sua altitude e declividade, o que motivou o desenvolvimento e o aprimoramento de diversas estratégias por parte dos pesquisadores. A curva de nível é o recurso mais moderno para a representação do relevo, pois permite uma visualização mais exata da superfície terrestre. A partir dela, aprendemos quais são os seus tipos de traçados e como transportá-las para os perfis topográficos, a fim de compreendermos, em uma visão vertical, como a altitude e a declividade se comportam. Esperamos que esta unidade tenha auxiliado no amadurecimento de sua prática profissional e que você possa trabalhar com uma gama maior de recur- sos da Cartografia. 166 1. Em relação às projeções cartográficas e suas propriedades, analise as afirma- ções: I. Na projeção de Goode, as áreas onde predominam as massas oceânicas são descontínuas. II. A projeção de Mercator é considerada afilática, pois os ângulos e a forma são alterados. III. Na projeção cônica, os meridianos convergem para um dos polos e os para- lelos são semicírculos. IV. A projeção cônica é, preferencialmente, utilizada para a representação de todo o globo terrestre, pois não possui distorção. É correto o que se afirma em: a) I e II, apenas. b) I e III, apenas. c) II e III, apenas. d) I, II e III, apenas. e) II, III e IV, apenas. 2. A construção de um perfil topográfico exige, na maioria das vezes, a adoção de um exagero na definição de uma das escalas, para que se visualize adequada- mente a variação altimétrica do relevo. Assinale a alternativa que corresponde ao tipo de escala em questão. a) Escala horizontal. b) Escala de mensuração. c) Escala numérica. d) Escala vertical. e) Escala altimétrica. 3. A partir da representação exposta na figura a seguir, analise as afirmações e as julgue com (V) para as Verdadeiras e (F) para as Falsas: 167 Rio dos Índios A 500 600 642 B N ( ) A curva de nível de maior valor corresponde a de 640 metros. ( ) O fragmento apresenta duas curvas mestras e sete ordinárias. ( ) A amplitude do perfil AB é de 120 metros. ( ) A jusante do Rio dos Índios está orientada para o Sul. ( ) O perfil AB mostraria os mesmos valores das curvas de nível do perfil BA. A sequência correta é: a) V, V, F, V, F. b) F, F, V, V, F. c) V, F. F, V, V. d) F, V, F, F, F. e) V, V, F, F, V. 4. A cartografia busca representar graficamente a superfície terrestre, porém a transformação dessa superfície real curva em uma superfície representada de forma plana acaba gerando uma série de distorções de forma ou de ângulo nos mapas. Para minimizar esses erros, foram criadas as projeções cartográficas, sendo que cada tipo de projeção possui uma propriedade específica quanto ao erro de representação. Liste e explique as propriedades de erros na projeção cartográfica. 5. A representação do relevo é uma das principais preocupações da Cartografia. Considerando as diferentes estratégias adotadas para a sua representação, in- dique três vantagens que o traçado das curvas de nível possui em relação às formas de representação mais antigas. 168 As diferentes e múltiplas Tecnologias de Comunicação e Informação (TCIs) que per- meiam o dia a dia dos educandos, como computador, celular, câmera fotográfica, Inter- net, são tecnologias usadas pelos adolescentes em idade escolar para brincar, jogar, tro- car e receber mensagens dos amigos, o que possibilita, conforme descreve Kenski (2004, p. 100), “outras lógicas de compreensão do mundo, de apropriação das informações, de relacionamento e convívio interpessoal e de participação”. A Cartografia ensinada nas escolas deve ultrapassar a localização dos fenômenos geo- gráficos, tornando-se uma linguagem que desperta interesse e motivação aos alunos para além da sala de aula. A facilidade e o entusiasmo dos alunos em manusear tecno- logias digitais possibilita ao professor utilizar geotecnologias, como imagem de satélite, GPS e SIG e, ainda, recursos de multimídia aplicados a Cartografia para facilitar a identi- ficação, como também relacionar elementos naturais e socioeconômicos presentes na superfície terrestre, o que melhora o entendimento da realidade, da complexidade e do dinamismo do espaço geográfico. É preciso que as metodologias no ensino básico sejam repensadas, de modo que con- templem recursos digitais associados a representação espacial em meio analógico e, com isso, favoreçam a leitura e a construção de representações espaciais a partir da le- genda, orientação, coordenadas geográficas, escala, que são elementos fundamentais para o uso da linguagem gráfica; soma-se a necessidade de proporcionar aos professo- res oportunidades, tanto em termos de cursos de capacitação como infraestrutura nas escolas para trabalhar com essas novas ferramentas. A disponibilidade gratuita na Internet de geotecnologias somada a facilidade, por exem- plo, do educando, para obter foto ou registrar vídeo e som de uma dada área da super- fície terrestre, através dos seus smartphones, contribuem para desenvolver a Educação Ambiental, considerando o aluno como protagonista do processo de ensino-aprendi- zagem, sob a mediação do professor, por meio de atividades que contribuam para a formação de cidadãos conscientes das suas ações e atitudes em meio a degradação e a exaustão dos recursos naturais. O uso da linguagem cartográfica na Educação Ambiental, através da utilização de da- dos e informações obtidas em formato multimídia, observações levantadas em campo, também com o uso do GPS, juntamente com o SIG Web, possibilita ao aluno representar cartograficamente o meio ambiente a partir do contato físico com o meio que se viven- cia e experimenta. A integração entre Meio Ambiente e Cartografia oferece aos alunos possibilidades para representar fenômenos geográficos concomitantemente em seus aspectos físicos e sociais desde a percepção socioambiental do seu cotidiano até a cor- relação com outras escalas espaciais e temporais. Fonte: Sousa e Maio (2014, p. 02). Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Fundamentos de orientação, cartografia e navegação terrestre Raul M. P. Friedmann Editora: Editora UTFPR Sinopse: aprender a usar adequadamente bússolas em qualquer situação “abre muitas portas”. Ler e interpretar mapas dos mais variados tipos “abre muitas outras portas”. Além disso, saber utilizar receptores GPS de qualquer tipo “escancara de uma vez muitas outras mais”. Saber usar tudo isso conjuntamente “descortina tantas e tão variadas possibilidades”, das quais seria difícil fazer uma relação completa. Na obra Fundamentos de Orientação, Cartografia e Navegação Terrestrevocê aprenderá a utilizar instrumentos para sua orientação na exploração do espaço, sejam antigos ou modernos. O site Map Projection Transition apresenta, de forma fácil e prática, como diferentes projeções cartográficas transformam a representação da superfície terrestre. Web: https://www.jasondavies.com/maps/transition/ REFERÊNCIAS BORGES, A. C. Topografia aplicada à Engenharia Civil. São Paulo: Blucher, 2013. DSG. Manual Técnico de Convenções Cartográficas T-34 700. (Primeira Parte). Normas para o emprego dos símbolos. 2. ed. [S.l.: s.n.], 1998. GASPAR, J. A. Cartas e projecções cartográficas. 3. ed. Lisboa: Lidel, 2005. IBGE. Noções Básicas de Cartografia. Rio de Janeiro: IBGE, 1998. IMHOF, E. Cartographic relief presentation. Redlands: ESRI Press, 2007. KEATES, J. Cartographic design and production. 2. ed. New York: Longman Scien- tific & Technical, 1989.Maps se comparar- mos, por exemplo, a um mapa do século XIII. Com o desenvolvimento da técnica, o homem tornou-se capaz de realizar ativi- dades mais complexas e de criar um meio cada vez menos restrito às possibilidades ofertadas pela natureza: o desenvolvimento da agricultura permitiu, aos homens, a sedentarização (e demandou conhecimento de áreas mais próprias para o cultivo), as caravelas permitiram que novos territórios além-mar fossem conquistados (e tornou urgente a confecção de mapas para a navegação), enquanto as Revoluções Industriais criaram novas demandas de recursos energéticos (e o entendimento de sua distribui- ção e localização). Representar o espaço, portanto, sempre foi uma necessidade para o desenvolvimento dos povos. Contudo, assim como afirmamos, toda representação é parcial e limitada na sua função de representar os fenômenos: qual seria o aspecto limitado que os mapas deveriam representar do espaço? Sabemos que a localização é uma preocupação recorrente dos mapas, mas será que é a última? Caro(a) aluno(a), vejamos uma descoberta emblemática que pode nos aju- dar a responder esta questão. Em 1963, durante as escavações arqueológicas em Çatal Höyük, na região centro-ocidental da Turquia, uma equipe de arqueólogos descobriu o que seria o mapa autêntico mais antigo já encontrado, elaborado, apro- ximadamente, 6.000 a.C. Embora este mapa primitivo apresente certas similitudes com as plantas cartográficas modernas, sua utilização era voltada para a realização de um ritual sagrado, muito diferente dos usos dos mapas atuais (HARLEY, 1991). Como você pode notar pela reconstituição do mapa na Figura 1, é possível identifi- carmos o traçado de um povoado neolítico e, ao fundo, o vulcão Hasan Dag em erupção: CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E16 Figura 1 - Reconstituição do mapa de Çatal Höyük, Turquia Fonte: Pour la science (2014, on-line)¹. Figura 2 - Imagens da escavação onde o mapa foi encontrado Fonte: Ancient Wisdom ([2019], on-line)². O reconhecimento de um espectro mais amplo de representações espaciais, como mapas, é um fenômeno recente, resultado da adoção de uma visão menos eurocêntrica e mais universal de como as sociedades humanas entendem e O Mapa na História da Humanidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 17 representam seus espaços. John Brian Harley (1932 - 1991), um dos principais pesquisadores da história da Cartografia, ressalta que os produtos cartográficos que não seguiam os padrões da Cartografia Europeia de exatidão passaram a ser considerados mapas apenas há algumas décadas. Anteriormente, eram tratados apenas como “curiosidades cartográficas” (HARLEY, 1991, p. 5). É esse tipo de mudança de pensamento que tornou possível que, hoje, as representações antigas as quais eram confeccionadas em tiras vegetais, conchas ou até mesmo madeira sejam consideradas mapas antigos. Figura 3 - Mapa indígena das Ilhas Marshall Descrição da imagem: mapa indígena das Ilhas Marshall, construído em tiras vegetais e conchas. O mapa consiste em uma quadrícula ortogonal feita em tiras vegetais representando o mar livre e as tiras vegetais curvas as frentes das ondas próximas às ilhas, representadas pelas conchas. Fonte: Raisz (1969, p. 7). CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E18 Figura 4 - Mapa de Ga-Sur Descrição da imagem: o mapa de Ga-Sur foi confeccionado em uma pequena placa de barro, que representa o rio Eufrates com montanhas em cada lado. Data de, aproximadamente, 2500 a.C. Fonte: Raisz (1969, p. 9). As características selecionadas do espaço para sua representação cartográfica são variáveis, não estando restrita unicamente à localização exata dos fenôme- nos. Ao longo da história da humanidade, os mapas foram empregados para: localizar os fenômenos e para fins ritualísticos; demarcar fronteiras; mapear recursos naturais; expressar visões da organização do próprio mundo e dentre muitos outros papéis. Hoje, a Cartografia é reconhecida como uma linguagem mais universal e mais antiga do que se pensava, e não estamos nos referindo ao termo Cartografia, neste momento, como uma ciência exata, mas como um conjunto de saberes envolvidos na produção de representações do espaço que cada povo desenvol- veu de acordo com suas necessidades. Isso significa que seria um reducionismo irresponsável definir que o conhecimento humano, na construção de mapas, ocor- reu de maneira linear e de acordo com a nossa visão moderna da Cartografia. Vários povos antigos, como os chineses, indianos, gregos e indígenas, por exem- plo, desenvolveram suas cartografias, mas cada um com suas particularidades. O Mapa na História da Humanidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 19 Os gregos são reconhecidos como importantes contribuintes para a formu- lação da Cartografia por diversos motivos: pelo estudo da forma da Terra, pelo emprego da geometria na obtenção das dimensões do nosso planeta, pelo desen- volvimento do princípio do sistema de coordenadas geográficas e, inclusive, pelas discussões sobre as projeções cartográficas. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a ideia da esfericidade da Terra, no mundo grego, não tem origem nas observações astronômicas, mas em argumentos filosóficos: Hecateu (500 a.C.), um geógrafo jônico, considerava que o planeta tinha um formato de disco no qual, ao redor, corriam as águas dos oceanos. Entretanto, a filosofia grega considerava que a esfera era a forma geométrica mais perfeita, o que justificaria que o nosso planeta assumisse uma forma esferoidal, e não plana, justamente por acreditarem que nosso planeta fosse uma obra-prima dos deuses. A hipótese da esfericidade da Terra foi comprovada, posteriormente, pelo povo grego, por meio de observações em campo, além do estabelecimento de conceitos ainda hoje usados como Equador, Polos, Trópicos, Zonas Tórridas, Temperadas e Frias (RAISZ, 1969). Erastótenes de Cirene (276 a 196 a.C.) é um dos grandes nomes da Antiguidade que contribuiu, sobremaneira, na Cartografia. Responsável pela Biblioteca de Alexandria, realizou a medição da Terra a partir de um poço, na cidade de Siena, durante o solstí- cio de verão, e calculou que a sua circunferência era de 46 mil quilômetros, um valor apenas 16% distante do valor real. Além disso, construiu um mapa-múndi do mundo habitado, que contava com paralelos e meridianos para a localização. Outro importante personagem grego foi Cláudio Ptolomeu (90 a 168 d.C.), que desenvolveu um sistema de representação da Terra baseado na utilização de uma grade quadriculada de coordenadas baseadas na posição dos corpos celes- tes (CROSBY, 1999). Sua principal obra é intitulada Geografia, que consistia em oito volumes descrevendo os princípios teóricos empregados nas projeções carto- gráficas e nos mapas presentes em sua coletânea. Embora a base de dados usada por Ptolomeu era oriunda de mapas antigos e relatos de viajantes, seu conjunto de mapas é considerado o primeiro Atlas Universal (RAISZ, 1969). CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E20 Figura 5 - Mapa-múndi gravado por Johannes Schnitzer (1482), a partir da obra de Ptolomeu Fonte: Open Culture (2017, on-line)³. A evolução dos mapas, no entanto, nem sempre apresentou um desenvolvi- mento progressivo e pautado na exatidão das medidas da superfície terrestre. A cartografia romana, por exemplo, não priorizava o aprimoramento do sistema de latitudes e longitudes, as medições astronômicas e as projeções.RAISZ, E. Cartografia Geral. Rio de Janeiro: Científica, 1969. SANCHEZ, M. C. Perfis topográficos: características e técnicas de construção. Notí- cias Geomorfológicas, v. 15, n. 29, p. 67-81, 1975. SOUSA, I. B. de; MAIO, A. C. di. Tecnologias aplicadas a cartografia na educação am- biental: uma experiência no segundo segmento do Ensino Fundamental. In: CON- GRESSO BRASILEIRO DE CARTOGRAFIA, 26., 2014, Gramado. Anais [...]. Gramado: Universidade Federal Fluminense, 2014. REFERÊNCIAS 171 REFERÊNCIAS ON-LINE 1 Em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mollweide_projection_SW.jpg. Acesso em: 19 jul. 2019. 2 Em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/projecoes-cartograficas. Acesso em: 19 jul. 2019. 3 Em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7a/NetzentwuerfePe- ters.png. Acesso em: 19 jul. 2019. 4 Em: http://wikipedia.qwika.com/en2pt/Goode_homolosine_projection. Acesso- em: 19 jul. 2019. 5 Em: http://linguagemgeografica.blogspot.com/2017/07/como-ler-as-curvas-de- -nivel-de-uma.html. Acesso em: 14 jun. 2019. GABARITO 1. B. 2. D. 3. E. 4. As projeções podem ser classificadas, de acordo com os erros, em: conformes, equivalentes, equidistantes e afiláticas. Nas projeções conformes, os ângulos serão conservados, mas as áreas exibirão deformações incompatíveis com a su- perfície terrestre. Já as projeções equivalentes preservam as áreas do desenho, porém os ângulos serão deformados. Nas projeções equidistantes, são preserva- das as distâncias entre alguns pontos. Já nas projeções afiláticas, os ângulos e as áreas são deformados, mas dentro de um limite de erro. 5. Permitem calcular com exatidão a declividade do terreno. Além disso, possibili- tam identificar, com um nível alto de detalhamento, as altitudes do relevo, bem como permitem elaborar representações alternativas, como o perfil topográfico, para complementar a visualização das altitudes. U N ID A D E V Prof. Me. Estevão Pastori Garbin Prof. Me. Thiago César Frediani Sant’Ana FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Objetivos de Aprendizagem ■ Compreender o princípio e o cálculo dos fusos horários. ■ Compreender o papel e as potencialidades dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG). Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Fusos Horários ■ O papel dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG) INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), nesta última unidade, estudaremos dois conteúdos muito pre- sentes no ensino de Geografia e que, pelo crescente processo evolutivo dos meios tecnológicos e de transporte, têm se tornado mais concretos para um número cada vez maior de pessoas: os fusos horários e os Sistemas de Informação Geográfica. Os fusos horários são recursos desenvolvidos e disseminados no século XIX, na Europa e nos Estados Unidos, como uma forma de integrar, em um sistema internacional, os horários e as datas, de acordo com a distância aparente do Sol no horizonte, a fim de facilitar a conversão de horários entre países geografica- mente distantes. Essa necessidade tornou-se latente pela crescente integração da economia mundial, que, desde a Primeira Revolução Industrial, tem experimen- tado um fenômeno de “encurtamento das distâncias” pelos meios de transporte e comunicação, exigindo que os países se organizassem para tornar o horário civil transponível entre as nações. Nesse sentido, vamos aprender como se organizam os fusos horários, como realizar os cálculos para a obtenção das datas e de que forma os meridianos participam desse processo de organização do tempo terrestre. Em seguida, estudaremos os impactos que as tecnologias computacionais trouxeram para a Cartografia, tornando-a digital. Logo, entenderemos o que é o geoprocessamento e quais são as potencialidades ilustradas pelos Sistemas de Informação Geográfica (SIG). Esses sistemas são capazes de armazenar, anali- sar e representar cartograficamente os dados posicionais, estando integrados nas atividades de planejamento urbano, ambiental, de prospecção e afins, como recurso tecnológico indispensável na contemporaneidade. Como resultado, você será capaz de integrar todas as discussões teóricas apreendidas ao longo deste livro e as colocará em uma nova perspectiva, refle- tindo sobre como as tecnologias computacionais podem promover uma nova escala de análise na localização, correlação e síntese de novos conhecimentos. Esperamos que esta unidade seja um diferencial na sua formação acadêmica em Geografia. Bons estudos! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 175 FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E176 FUSOS HORÁRIOS Caro(a) aluno(a),assim como percebemos ao longo das unidades anteriores, a Cartografia é um saber que interfere diretamente no nosso dia a dia. Um dos reflexos do seu uso e que percebemos claramente ao nos deslocarmos pelo espaço em grandes distâncias é a adoção de um sistema de fusos horários, isto é, de par- celas dos territórios brasileiro e mundial que adotam um mesmo horário legal para a organização das atividades diárias. O princípio que justifica a existência de fusos horários é simples: dada a esfe- ricidade da Terra, sua superfície recebe a luz solar de forma desigual e em tempos diferentes ao longo do seu processo de rotação diária. Pelo fato de que nossas socie- dades se organizam para aproveitar ao máximo a luz solar no desenvolvimento das atividades cotidianas e considerando a crescente interação das atividades econômicas, buscou-se organizar um sistema de fusos horários, para que fosse possível calcular o horário legal entre duas regiões distantes ao mesmo tempo. Considerando o fato que a Terra leva, em média, 24 horas para realizar o movimento de rotação completo sobre o próprio eixo, dividiu-se o valor, em Fusos Horários Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 177 graus, da esfera terrestre (360º) pelas 24 horas do dia legal e se determinou que, a cada hora, a Terra realiza um movimento de rotação de, aproximadamente, 15º. Como você deve se lembrar, cada ponto da superfície terrestre que varia no sentido leste-oeste apresenta um valor de longitude diferente, sendo, os fusos horários, formados por intervalos de 15° que variam longitudinalmente, inde- pendentemente do valor da latitude (variação no eixo norte-sul), assim como você pode conferir na Figura 1: 0-1 +1 +2 +3 +4 +5 +6 +7 +8 +9 +10 +11 +12-2-3-4-5-6-7-8-9-10-11-12 0° 60°60° 120°120° 180°180° 0° 30° 30° 60° 60° 90° 90° M er id ia no d e G re en w ic h (G M T) Brasília Buenos Aires Cidade do México Lima Washington Los Angeles Ottawa Paris Madrid Londres Trípole Moscou Argel Reykjavik Adis Abeba Riad Cairo Luanda Nairóbi Niamei Cidade do Cabo Maputo Dacar Melbourne Jacarta Teerã Manila Bucareste Astana Nova Délhi Vancouver Bogotá Georgetown Seul Tóquio BeijingNova Iorque Sydney Hong Kong Berlim Cabo Verde Açores Is. Madeira Is. Canárias Is.Aleutas Is.Tonga Is. Malvinas Is.Havaí Is.Galápagos Is.Pitcairn Is.Fiji Fuso Horário Civil - 2018 www.ibge.gov.br 0800 721 8181 atad ed lanoicanretni ahniLodanoicarf oirároH Fonte: 1. World map of time zones. Taunton: United Kingdom Hydrographic Office, HM Nautical Almanac Office - HMNAO, Aug. 2018. Disponível em: . Acesso em: out. 2018. 2. Atlas geográfico. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1986 PROJEÇÃO DE ROBINSON 70 140km0 Figura 1- Os fusos horários no mundo Fonte: adaptado de IBGE (2018, on-line)1. Como você pode perceber, caro(a) aluno(a), os fusos horários não são estabelecidos de maneira absolutamente linear, sobretudo quando passa poráreas continentais. Isso acontece para facilitar a organização e a sincronicidade dos horários em um mesmo país ou região, pois a divisão de um território nacional, por exemplo, com mais de um horário legal, pode dificultar a dinâmica econômica, espacialmente. Evidentemente, países com grandes dimensões longitudinais, como o Brasil, os Estados Unidos e a Rússia, adotam mais de um fuso horário para seus territórios, para evitar disparidade significativa na posição do sol no horizonte. FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E178 Atualmente, o Brasil apresenta quatro fusos horários em seu território. O pri- meiro fuso horário compreende as ilhas oceânicas à leste da costa brasileira, como é o caso do arquipélago de Fernando de Noronha, por exemplo. O segundo fuso horário compreende as regiões sul, sudeste, nordeste, os estados de Goiás, Tocantins, Pará e Amapá, bem como o Distrito Federal. O terceiro fuso horário compreende os estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e quase todo o estado do Amazonas. Por fim, o quarto fuso horário brasileiro corresponde ao estado do Acre e parte do estado do Amazonas. Ele foi extinto em 2008 e recriado em 2013. Cada país tem autonomia para determinar a quantidade de fusos e qual é o limite exato de um fuso horário em seu território, mas todos os fusos estão organiza- dos dentro de um sistema internacional para a determinação da data. Nesse sistema, considera-se que o meridiano de referência para o cálculo do horário corresponde ao fuso do Meridiano de Greenwich (0º), de tal modo que seu antimeridiano, que cor- responde ao de 180º, seja denominado de Linha Internacional de Mudança de Data. Se nos deslocarmos do meridiano de origem para o sentido leste, convencio- nou-se que as horas legais devem ter uma hora de acréscimo a cada um dos 12 fusos, sendo o número de horas acrescidas após a sigla GMT (Greenwich Mean Time ou Hora Média de Greenwich) com um sinal de “+”. Se nos deslocarmos para oeste, subtrai-se uma hora a cada um dos 12 fusos, indicado pela sigla GMT com um sinal de “-” e a quantidade de fusos percorridos. Logo, percebemos que há um intervalo de 24 horas de um extremo do último fuso de leste (GMT +12) com o último fuso a oeste (GMT -12), cujo limite coincide com a Linha Quando realizamos viagens de longas distâncias, percorrendo mais de dois fusos horários, é comum sentirmos insônia, falta de apetite e irritabilidade. Esses são alguns dos sintomas do Jet Lag, condição causada pelo descom- passo do nosso relógio biológico com a hora local. Fonte: os autores. Fusos Horários Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 179 Internacional de Mudança de Data. Essa linha é fundamental no ordenamento da data, porque, dependendo do sentido na qual é transposta, são acrescentados ou subtraídos vinte e quatro horas para o ajuste da hora legal. No caso do Brasil, por estar a oeste do Meridiano de Greenwich, há uma diminuição de uma hora a cada fuso percorrido no sentido leste-oeste, ou seja, todo o território brasileiro está atrasado em relação ao meridiano de origem do sistema. Entretanto, esse atraso varia, a depender do fuso horário do Brasil: o primeiro está duas horas atrasado em relação ao fuso de origem (GMT -2); o segundo fuso está três horas atrasado (GMT -3); o terceiro, quatro horas (GMT -4), enquanto o quarto fuso está com cinco horas de atraso (GMT -5), assim como mostra a Figura 2: O CEANO ATLÂNTIC O OCEANO ATLÂNTICO O C E A N O PA C ÍF IC O - 4 horas- 5 horas - 3 horas -2 horas 30° O 30° O 40° O 40° O 50° O 50° O 60° O 60° O 70° O 70° O Linha do Equador 0° 10° S 10° S 20° S 20° S 30° S 30° S Trópico de Capricórnio PERU BOLIVIA ARGENTINA CHILE PARAGUAI VENEZUELA COLÔMBIA URUGUAI GUIANA FRANCESA SURINAME GUIANA Arquipélago de São Pedro e São Paulo Arquipélago de Fernando de Noronha Ilha de Trindade Ilha de Martin Vaz Atol das Rocas PARÁAMAZONAS BAHIAMATO GROSSO GOIÁS PIAUÍ MINAS GERAIS ACRE PARANÁ RONDÔNIA MARANHÃO TOCANTINS RORAIMA CEARÁ SÃO PAULO AMAPÁ MATO GROSSO DO SUL RIO GRANDE DO SUL PENAMBUCO PARAÍBA SANTA CATARINA ALAGOAS ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO SERGIPE RIO GRANDE DO NORTE DISTRITO FEDERAL N S LO Projeção Policônica 0 260130 km Fonte: 3. Brasil. Lei n. 12.876, de 30 de outubro de 2013. Altera o decreto n. 2.784, de 18 de junho de 1913, para estabelecer os fusos horários do estado do Acre e de parte do estado do Amazonas, e revoga a lei n. 11.662, de 24 de abril de 2008. Diário Oficial da União, Brasília, DF, ano 150, n. 212, 31 out. 2013. Seção 1, p. 1. Disponível em: . Acesso em: out. 2018. o Fuso horário civil - 2018 www.ibge.gov.br 0800 721 8181 Figura 2- Distribuição dos fusos horários brasileiros Fonte: adaptado de IBGE (2018, on-line)2. O Brasil faz parte do grupo de países que alteram seus fusos horários para maior aproveitamento da luz solar durante os meses do verão. Atualmente, o Horário Brasileiro de Verão pode ser adotado pelos estados e, onde é adotado, tem início no terceiro domingo de outubro e encerra-se no terceiro domingo de fevereiro, FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E180 exceto quando o terceiro domingo de fevereiro coincidir com o domingo de Carnaval, transferindo-o para o domingo seguinte. Nesse período, os relógios devem ser adiantados em uma hora. CALCULANDO OS FUSOS-HORÁRIOS O cálculo do horário legal em fusos horários diferentes não é uma tarefa matemati- camente complexa, mas exige certa atenção e cuidado na interpretação e resolução do problema. Assim, alguns pressupostos básicos devem estar bem fixados: 1. Todas as localidades dentro de um mesmo fuso compartilham um mesmo horário legal. 2. As localidades presentes em fusos a leste sempre terão um horário uni- versal adiantado em relação às localidades em fusos a oeste. 3. Caso a Linha Internacional da Data seja atravessada de leste para oeste, deve-se diminuir um dia. Caso seja atravessada de oeste para leste, deve- -se acrescentar um dia para a determinação da data. Diante desses três pressupostos básicos, analisaremos algumas situações concre- tas para a determinação do horário legal em duas localidades distintas. a. Determinar o horário entre duas localidades O problema mais básico de fuso horário é o cálculo de quantas horas os relógios de duas localidades distintas estão marcando. Para obter o resultado, basta cal- cular quantos fusos horários de diferença estão entre as localidades, bem como Será que os ganhos econômicos causados pelo horário de verão são real- mente significativos nos dias de hoje? Fusos Horários Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 181 a determinação se a segunda localidade está à leste ou oeste. Caso esteja à leste, a diferença dos fusos horários deve ser somada à hora do ponto de origem; caso esteja a oeste do ponto de origem, deve ser feita uma subtração. Por exemplo: considere que são nove horas da manhã no horário local de Brasília (GMT -3). Qual será o horário local em Tóquio (GMT +9)? O primeiro passo é determinar a diferença de fusos horários existentes entre Brasília e Tóquio. Por estarem em hemisférios diferentes (indicado pelo sinal de “positivo” em Tóquio, isto é, à direita de Greenwich e Brasília, e “negativo” indicando oeste), deve-se realizar uma operação de soma dos valores dos fusos em módulo, ou seja, independentemente dos sinais de “+” ou “-” que os acom- panham, obtendo-se o resultado de 12 horas de diferença. Logo,quando, em Brasília, os relógios marcarem 09:00, em Tóquio, será 21:00 (9+12). b. Determinar o horário entre duas localidades, considerando o tempo de realização de uma viagem O segundo tipo de problema mais comum na determinação do horário local é a utilização do tempo transcorrido em uma viagem somada à diferença natural dos fusos horários. A resolução, entretanto, diferencia-se da situação anterior pela soma do tempo de viagem ao horário local do destino. Por exemplo: um viajante saiu às 08:00 de Paris (GMT +1) com destino à cidade de Pequim, na China (GMT +8). Sabendo que o voo terá 10 horas de duração, o viajante deverá ajustar seu relógio para qual horário local no destino? O primeiro passo é determinar a diferença de fusos horários existentes entre Paris e Pequim. Diferente do exemplo anterior, tanto Paris quanto Pequim estão no mesmo hemisfério, logo, deve-se subtrair os valores em módulo das duas loca- lidades (1-8), o que resulta em 7 horas de diferença. Assim, quando o horário local de Paris for 08 horas da manhã, o horário local de Pequim será 15:00 (08h + 7h), pois a cidade de destino está à leste da cidade de origem. O resultado final, entretanto, deve somar o tempo gasto pelo voo do viajante (10 horas), resultando em um horário local do destino em 01:00 do dia seguinte (15h do horário local + 10h de tempo do voo = 25 horas, descontando 24 horas, que é a quantidade de horas em um dia, resultando em 01h do dia seguinte). FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E182 c. Determinar o horário entre duas localidades, considerando a realiza- ção de uma viagem que atravessa a Linha Internacional de Mudança de Data O terceiro e último tipo de exercício mais comum sobre fusos horários envolve a traves- sia da LID, considerando, ou não, o tempo gasto de viagem. Os procedimentos iniciais são idên- ticos aos anteriores, com a diferença que, caso a LID seja atravessada no sentido leste-oeste, deve-se diminuir 1 dia no cálculo da data, ao passo que se for atravessada no sentido oeste- -leste, deve-se acrescentar 1 dia no cálculo da data. No entanto, atenção: lembre-se de que a posição leste e oeste não é organizada entre o ponto de origem e de destino, mas em relação ao Meridiano de Greenwich e hemisférios que variam 180º para leste e 180º para oeste. Por exemplo: observe as localidades A (GMT+12) e B (GMT-12) indicadas no mapa a seguir. Considerando que, na localidade A, são 08:00 do dia 30 de outubro, qual é o horário e a data local do ponto B? Figura 3 - Pontos A e B separados pela Linha Internacional de Mudança da Data Fonte: adaptada de Wikimedia Commons ([2019], on-line)3. Fusos Horários Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 183 O primeiro passo é reconhecer que os pontos A e B estão em hemisférios distin- tos, logo, deve-se somar a diferença dos fusos entre as duas localidades (GMT+12 e GMT-12). O resultado será 24 horas de diferença, pois os valores devem estar em módulo. O segundo procedimento é determinar se a localidade B está a leste ou a oeste de A, para verificar se a diferença de 24 horas deve ser acrescida ou diminuída da hora local do ponto A. Como você deve se lembrar, a LID marca o limite dos hemisférios organizados a partir do Meridiano de Greenwich, logo, o ponto A está com um fuso horário mais adiantado em relação ao ponto B. Nesse caso, deve-se subtrair 24 horas do horário local de A para determinar o horário correspondente em B. Assim, quando, na localidade A, for 08:00 do dia 30 de outubro, na localidade B, será 08:00 do dia 29 de outubro. Caso o exercício coloque em questão o tempo de deslocamento na realiza- ção da viagem, bastaria adicionar o valor ao horário local do destino. FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E184 O PAPEL DOS SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA (SIG) Além da organização e operacionalização dos fusos horários, a Cartografia oferece uma vasta possibilidade na organização e no tratamento das informações geor- referenciadas, isto é, as informações que estão atreladas a um dado posicional. Com o desenvolvimento e a popularização dos computadores, principalmente a partir da década de 1980, a Cartografia experimentou uma verdadeira revolu- ção na capacidade de auxiliar a tomada de decisões espaciais, sendo o principal representante dessas novas potencialidades os Sistemas de Informação Geográfica (SIG) a partir do Geoprocessamento. De acordo com Câmara e Davis (2001, p. 1): Nesse contexto, o termo Geoprocessamento denota a disciplina do co- nhecimento que utiliza técnicas matemáticas e computacionais para o tratamento da informação geográfica e que vem influenciando de ma- neira crescente as áreas de Cartografia, Análise de Recursos Naturais, Transportes, Comunicações, Energia e Planejamento Urbano e Regio- nal. As ferramentas computacionais para Geoprocessamento, chama- das de Sistemas de Informação Geográfica, permitem realizar análises O Papel dos Sistemas de Informação Geográfica (Sig) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 185 complexas, ao integrar dados de diversas fontes e ao criar bancos de dados georreferenciados. Tornam ainda possível automatizar a produ- ção de documentos cartográficos. Os SIGs são sistemas informatizados utilizados para o processamento e a mani- pulação de informações geográficas que utilizam métodos estatísticos e modelos matemáticos para realizar análises complexas e automatizar a elaboração de pro- dutos cartográficos. De acordo com Burrough e McDonnell (1998), os Sistemas de Informação Geográfica podem facilitar a fase da entrada de dados, seu trata- mento ou análise espacial, bem como a produção de mapas. De forma resumida, podemos dizer que um SIG é um: Sistema constituído por um conjunto de programas computacionais, o qual integra dados, equipamentos e pessoas com o objetivo de coletar, ar- mazenar, recuperar, manipular, visualizar e analisar dados espacialmente referenciados a um sistema de coordenadas conhecido (FITZ, 2008, p. 23). De acordo com Simielli (1999), há três níveis de operações desenvolvidas por meio dos mapas, as quais os SIGs podem auxiliar na execução. Embora sejam em quantidades distintas, tais níveis são qualitativamente compatíveis com as quatro etapas propostas por DiBiase (1990), vistas na Unidade I, quais sejam: exploração, confirmação, síntese e apresentação. O primeiro nível de uso do mapa é denominado localização e análise: envolve o domínio, por parte dos usuários, das noções básicas da Cartografia, cujas operações características é a localização dos fenômenos por meio das coordenadas geográficas, bem como a correta leitura da legenda e a definição de sua orientação geográfica. O segundo nível é denominado correlação, caracterizado pela combinação de duas ou mais cartas de análise. Nessa operação, os usuários devem estabelecer relações entre dois ou mais fenômenos, buscando algum tipo de correspondência que possa ser explorada (exploração de hipóteses). Os layers, ou seja, as cama- das de informação, são inseridos de maneira individual no sistema, formando um conjunto de dados que podem ser sobrepostos, conforme a necessidade do trabalho, para favorecer a correlação das informações espaciais. Essas cama- das precisam passar por um processo de adequação, para que todas possuam a mesma referência de superfície e a mesma projeção cartográfica. FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E186 Por fim, o terceiro nível é o de síntese, caracterizadopelas relações explora- das entre os fenômenos correlacionados anteriormente e transformados a partir da geração de novos tipos ou categorias. OS PRINCIPAIS MODELOS DE DADOS ESPACIAIS Os dados espaciais presentes em um SIG podem ser divididos em duas principais categorias, salientando a natureza representacional. Assim, eles podem assumir uma natureza do tipo vetorial ou do tipo matricial. O modelo vetorial é o mais utilizado dentro da Cartografia e consiste em representar os elementos a partir de vetores (indicando a posição e a direção do fenômeno) com o uso de pontos, linhas e áreas, permitindo que as posições e formas sejam as mais exatas possíveis. Já o modelo matricial é caracterizado por condicionar as informações espaciais a uma grade pré-definida por células de tamanhos fixos, limitando que os fenômenos espaciais sejam condicionados as feições das células. Figura 4 - Diferenças entre dados matriciais e vetoriais Fonte: adaptada de Davis (1996). O Papel dos Sistemas de Informação Geográfica (Sig) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 187 No exemplo exposto pela Figura 4, é feita a representação matricial e vetorial de um mesmo recorte espacial. Nota-se que, no modelo matricial, cada célula é pre- enchida com o valor correspondente ao tipo de fenômeno presente. No segundo mapa, as informações são representadas seguindo um modelo vetorial, tornando mais exata, espacialmente, as informações. Além da natureza dos dados espaciais, é possível classificarmos tais dados de acordo com as formas principais. De acordo com Câmara e Monteiro (2001), as cinco formas são: dados temáticos, dados cadastrais, redes, imagens e Modelos Numéricos de Terreno (MNT). Vejamos as características de cada forma de dados cartográficos. Dados Temáticos Os dados temáticos descrevem a distribuição espacial de uma grandeza geo- gráfica, ou seja, a localização espacial de um elemento específico. Não há uma leitura de atributos mais complexos, como área, volume e outros dados cadas- trais. Geralmente, esses dados são obtidos em campo ou de forma automatizada, mediante o processamento de imagens de satélite. Dados Cadastrais Um dado cadastral também descreve a distribuição espacial de uma grandeza geográfica, porém distingue-se de um dado temático, pois cada um dos ele- mentos é um objeto geográfico que possui atributos (em uma tabela de dados) e pode estar associado a várias representações gráficas. Nesse tipo de dado, além da representação gráfica (desenho), é elaborada uma tabela com diversos dados sobre o mesmo elemento, a qual é incorporada à representação, conforme ilus- tra a Figura 5: FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E188 País Brasil Argentina Chile PIB (US$ bn) Pop (milhões) 350 295 45 159 34 14 Figura 5 - Dados temáticos do PIB e da População de alguns países da América do Sul Fonte: Câmara e Davis (2001). Nessa representação, há uma tabela de dados com informações estatísticas ane- xada à representação cartográfica do mapa da América do Sul. A partir dessa tabela, é possível gerar outros mapas, como o mapa do PIB na América do Sul ou o mapa da população da América do Sul. Redes O conceito de rede está relacionado às informações associadas à interligação de elementos que se comportam de maneira integrada, interdependente e continu- amente sobre a superfície terrestre. Podemos verificar esses tipos de informações no mapeamento das redes de distribuição de energia e água, nas redes de drena- gens, como rios e córregos, nos sistemas de transporte e entre outros. Nesse tipo de dado, cada objeto geográfico (cabo telefônico, transformador de rede elétrica, cano de água, rios) possui uma localização geográfica exata e está sempre asso- ciado a atributos descritivos presentes no banco de dados. O Papel dos Sistemas de Informação Geográfica (Sig) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 189 Figura 6 - Exemplo de rede hidrográfica Fonte: Wikimedia Commons ([2019],on-line)⁴. Em geral, nos mapas de hidrografia, é possível verificar que os cursos d’água se conectam, formando a rede de drenagem que flui de forma contínua sobre o território. FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E190 Imagem Obtidas por satélites, fotografias aéreas ou outros sensores aerotransportados, as imagens representam formas de captura indireta de informação espacial. A imagem orbital fornece uma grande quantidade de informações da superfície, como relevo, hidrografia, vegetação, áreas urbanas, áreas agrícolas e entre outras. Todavia, essas informações só se tornam cartográficas após um processo de inter- pretação, análise e desenho, quando as informações que estavam representadas no conjunto da imagem são separadas em camadas distintas. Figura 7- Exemplo de imagem (composição colorida TM/LANDSAT) para a região de Manaus Fonte: Câmara e Davis (2001). O Papel dos Sistemas de Informação Geográfica (Sig) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 191 Modelo Numérico do Terreno (MNT) É utilizado para denotar a representação quantitativa de uma grandeza que varia continuamente no espaço. Entre os usos de modelos numéricos do ter- reno, podemos citar: a. Armazenamento de dados de altimetria para gerar mapas topográficos. b. Análises para projeto de estradas e barragens. c. Cômputo de mapas de declividade e exposição para apoio a análises de geomorfologia e erodibilidade. FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E192 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, estudamos o princípio organizador dos fusos horários, o seu papel na integração das atividades econômicas e as formas de realizar o seu cál- culo. Como percebemos, essa estratégia foi desenvolvida no século XIX como um recurso para compensar as diferenças naturais existentes na posição do sol, que regula as atividades humanas. No caso específico do Brasil, verificamos a coexistência de quatro fusos horários e que todos estão a oeste do Meridiano de Greenwich, isto é, todo o país tem as horas atrasadas em relação ao ponto de origem do sistema. Em seguida, estudamos o papel dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG) como um componente significativo da Cartografia digital, que, desde os anos 1960, tem se aprimorado e ganhado maior relevância nas atividades que envolvem geoinformações. Inicialmente, esses sistemas eram pouco integrados, desempenhando de maneira pouco eficaz suas tarefas, mas apresentou uma forte evolução a partir da década de 1980, sendo capaz de armazenar dados espaciais, realizar análises complexas e produzir mapas em uma velocidade significativa- mente elevada. Embora o geoprocessamento se figure como “a última tendência” nos estudos envolvendo mapas, é importante ressaltar que todo o conhecimento teórico se faz necessário para que essa atividade não seja conduzida de maneira irrespon- sável ou até mesmo errônea. Embora as interfaces de usuário e a popularização dos computadores atraiam um número cada vez maior de usuários para esses softwares, isso não significa que eles saibam os conteúdos básicos para criarem produtos cartográficos corretos e consistentes, tanto do ponto de vista cartomé- trico quanto semântico. Esperamos que essas discussões sejam relevantes para que você, caro(a) aluno(a), possa realizar as análises espaciais com o auxílio de SIGs da melhor maneira possível. 193 1. Para um trabalho de planejamentourbano, foram levantados os dados das quadras de uma cidade, o que gerou um mapa temático de “quadras”. Poste- riormente, foram coletados os dados de número de residências, número de moradores e a área construída de cada quadra. A tabela com esses dados foi anexada aos dados temáticos, gerando uma carta cadastral das “quadras”. Di- ferencie os tipos de informações representadas nas cartas temáticas das infor- mações representadas nas cartas cadastrais. 2. Em um trabalho de pesquisa, um acadêmico precisa elaborar o mapa de um bairro, porém foi solicitado que fosse elaborada a carta vetorial e a matricial da mesma área. Caracterize as formas de representação vetoriais e as formas de representação matricial. 3. Um viajante saiu às 09 h de Brasília (GMT -3) com destino à cidade de Pequim, na China (GMT +8). Sabendo que o voo terá 16 horas de duração, o viajante deverá ajustar seu relógio para qual horário local no destino? a) 11:00. b) 12:00. c) 00:00. d) 10:00. e) 01:00. 4. Um turista brasileiro saiu do Rio de Janeiro às 12 h do dia 7 de dezembro, com destino à cidade de Rio Branco, no Acre. Sabendo que a cidade de origem ado- ta o horário de verão e a viagem durou 6 horas, qual será o horário do desem- barco do turista no destino? a) 17:00. b) 16:00. c) 18:00. d) 19:00. e) 13:00. 194 5. Os fusos horários têm como objetivo organizar o sistema do tempo civil e sur- giu a partir do desenvolvimento dos meios de transporte oriundos da Revo- lução Industrial. Sobre sua organização, julgue as afirmativas a seguir com (V) para as Verdadeiras e (F) para as Falsas: ( ) Os fusos horários variam latitudinalmente. ( ) A Linha Internacional de Mudança da Data corresponde ao antimeridiano de Greenwich. ( ) O Brasil está todo a oeste de Greenwich, isto é, seu horário está sempre atra- sado em relação aos países orientais. ( ) Os fusos horários correspondem a uma convenção humana sem qualquer relação com os movimentos da Terra. ( ) Atravessando a LID no sentido oeste–leste, subtrai-se 1 dia na data A sequência correta é: a) V, F, V, F, V. b) F, V, F, V, F. c) V, V, F, F, F. d) F, F, F, V, V. e) F, V, V, F, F. 195 Numa visão retrospectiva e prospectiva sobre a tecnologia de SIG, os autores conside- ram a existência de três gerações de sistemas. A primeira geração, cujo desenvolvimento se inicia na década de 80, caracteriza-se por sistemas herdeiros da tradição de cartografia automatizada, cujo suporte de bancos de dados é limitado (alguns podem operar em conjunto com SGBD tabulares) e cujo para- digma típico de trabalho é o mapa (chamado de “cobertura” ou de “plano de informa- ção”). Esta primeira geração de sistemas foi desenvolvida inicialmente para ambientes da classe VAX e - a partir de 1985 - para sistemas PC/DOS. A utilização desta classe de sis- temas é principalmente em projetos isolados; os levantamentos de inventário, na maior parte das vezes, não têm a preocupação de gerar arquivos digitais de dados. A segunda geração de SIGs chegou ao mercado no início da década de 90 e caracteri- za-se por sistemas concebidos para uso em conjunto em ambientes cliente-servidor. Usualmente, tais sistemas funcionam acoplados a gerenciadores de bancos de dados relacionais (como ORACLE e INGRES) e incluem pacotes adicionais para processamento de imagens. Esta geração foi tipicamente desenvolvida em ambientes multiplataforma (UNIX, OS/2, Windows) com interfaces baseadas em janelas. Pode-se prever, para o final da década de 90, o aparecimento de uma terceira geração de SIGs. Esta geração será herdeira do enorme interesse dos usuários em redes locais e remotas de computadores, e no uso do WWW (World Wide Web). Para esta terceira geração, o crescimento dos bancos de dados espaciais e a necessidade de seu comparti- lhamento com outras instituições requer o recurso a tecnologias como bancos de dados distribuídos e federativos. Estes sistemas deverão seguir os requisitos de interoperabili- dade, de maneira a permitir o acesso de informações espaciais por SIGs distintos. Fonte: Câmara e Freitas (s. d.). MATERIAL COMPLEMENTAR Fundamentos de Informação Geográfica João Matos Editora: Lidel Sinopse: esta obra destina-se ao apoio no ensino das ciências da informação geográfica ao nível superior e de pós-graduação, podendo servir como referência de conceitos fundamentais para profissionais e utilizadores de sistemas de informação geográfica. O seu conteúdo reflete o corpo de conhecimento associado às ciências da informação geográfica, abrangendo as matérias que são consideradas imprescindíveis para uma boa utilização prática. REFERÊNCIAS 197 BURROUGH, P. A.; MCDONNELL, R. A. Principles of geographical information sys- tems. Oxford: Oxford University Press, 1998. CÂMARA, G.; MEDEIROS, J. S. Princípios Básicos em geoprocessamento In: Sistema de Informações Geográficas: Aplicações na Agricultura. 2. ed. Brasília: Embrapa, 1998. CÂMARA, G.; DAVIS, C. Introdução. In: CÂMARA, G.; DAVIS, C.; MONTEIRO, A. M. V. (org.). Introdução à Ciência da Geoinformação. São José dos Campos: INPE, 2001. p. 1-5. CÂMARA, G; FREITAS, U. M. Perspectivas em Sistemas de Informação Geo- gráfica (SIG). s.d. Disponível em: http://mtc-m12.sid.inpe.br/col/sid.inpe.br/ iris@1912/2005/07.20.05.44/doc/1995_camara.pdf. Acesso em: 12 mar. 2019. CÂMARA, G.; MONTEIRO, A. M. V. Conceitos básicos em ciências da geoinforma- ção. In: CÂMARA, G.; DAVIS, C.; MONTEIRO, A. M. V. (org.). Introdução à Ciência da Geoinformação. São José dos Campos: INPE, 2001. p. 6-35. DAVIS, B. GIS: a visual approach. New York: OnWord Press, 1996. DIBIASE, D. Visualization in the Earth Sciences. Earth and Mineral Science, v. 59, n. 2, p. 13-18, 1990. FITZ, P. R. Geoprocessamento sem complicação. São Paulo: Oficina de Textos, 2008. SIMIELLI, M. E. R. Cartografia no Ensino Fundamental e Médio. In: CARLOS, A. F. A. (org.). A Geografia na Sala de Aula. São Paulo: Contexto, 1999. p. 92-108. REFERÊNCIAS ON-LINE 1 Em: https://atlasescolar.ibge.gov.br/images/atlas/mapas_mundo/mundo_fuso_ hor%C3%A1rio_civil.pdf. Acesso em: 25 jul. 2019. 2 Em: https://atlasescolar.ibge.gov.br/images/atlas/mapas_brasil/brasil_fuso_hora- rio.pdf. Acesso em: 26 jul. 2019. 3 Em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/61/International_ Date_Line.png. Acesso em: 22 jul. 2019. 4 Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bacia_hidrogr%C3%A1fica#/media/File:The_ Source_of_the_Amazon_River.jpg. Acesso em: 22 jul. 2019. GABARITO 1. Nas cartas temáticas, são apresentadas somente as informações de localização e identificação do atributo. Já nas cartas cadastrais, há a inserção de tabelas com dados quantitativos e qualitativos dos elementos cartografados. 2. Os dados vetoriais apresentam a exata localização e forma dos elementos carto- grafados, enquanto, nas representações matriciais, os dados são distribuídos em células formadas por linhas e colunas. Nesse caso, não é possível determinar a exata forma dos dados cartografados. 3. B. 4. A. 5. E. CONCLUSÃO 199 Caro(a) aluno(a), neste livro, estudamos um conjunto de conceitos elementares da Cartografia aplicada à Geografia. Trabalhamos os mais básicos, com a discus- são sobre a história e sua importância, as implicações na compreensão do espaço geográfico, processo de sistematização e principais paradigmas de pesquisa. A discussão buscou gerar um questionamento sobre o porquê da Cartografia no ensino e na prática geográfica, bem como mostrar o papel da comunicação e vi- sualização cartográfica na compreensão dos fenômenos naturais e sociais. Em seguida, apresentamos e qualificamos os principais produtos cartográficos, as formas de representação gráfica e as aplicações para a Geografia. Estudamos as etapas envolvidas no processo de construção da informação cartográfica e estabelecemos as relações matemáticas entre a representação, o mapa e as di- mensões reais dos fenômenos por meio da escala cartográfica. Na terceira unidade, estabelecemos uma relação entrea forma da Terra e os modos de representação dessa superfície. Foi apresentado, ainda, como é uti- lizada a bússola e a rosa dos ventos na orientação e nos cálculos dos rumos e azimutes. Por fim, estudamos o princípio das coordenadas geográficas, sua finalidade e sua aplicação na Cartografia. Na quarta unidade, trabalhamos os métodos e os instrumentos usados para o levantamento em campo dos dados, além das principais projeções cartográ- ficas para transposição da superfície curva da Terra em uma superfície plana analógica. Estudamos os principais meios de representação do relevo terrestre, discutindo as estratégias para a criação de um perfil topográfico. Para fechar nossos estudos, aprendemos como calcular as diferenças de horário entre dois ou mais pontos em fusos distintos no planeta, bem como os concei- tos iniciais para o estudo dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG). Essas discussões são relevantes na medida em que funcionam como uma preparação para o aprofundamento nos estudos sobre Geoprocessamento e para o Senso- riamento Remoto. Esperamos que a disciplina tenha contribuído para melhor compreensão do espaço geográfico e para a prática na elaboração de produtos cartográficos. ANOTAÇÕES _gjdgxs h.gjdgxs h.30j0zll h.1fob9te h.frdwrupej2pu h.p2z2y3nt39ff h.gjdgxs UNIDADE I CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Introdução O Mapa na História da Humanidade A Ciência Cartográfica As Relações Entre a Cartografia e a Geografia CONSIDERAÇÕES FINAIS ELEMENTOS E PROCESSOS FUNDAMENTAIS PARA A COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA INTRODUÇÃO Os Produtos Cartográficos Básicos As Etapas do Projeto Cartográfico Escala Cartográfica CONSIDERAÇÕES FINAIS UNIDADE III OS DESAFIOS DA CARTOGRAFIA NA REPRESENTAÇÃO DA FORMA DA TERRA Introdução A Forma da Terra Estratégias de Orientação no Espaço AS COORDENADAS GEOGRÁFICAS CONSIDERAÇÕES FINAIS UNIDADE IV PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS E REPRESENTAÇÃO DO RELEVO Introdução As Projeções Cartográficas Conhecendo os Principais Métodos para a Realização de Levantamentos Planialtimétricos Representação e Leitura do Relevo na Cartografia CONSIDERAÇÕES FINAIS UNIDADE V FUSOS HORÁRIOS E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Introdução Fusos Horários O Papel dos Sistemas de Informação Geográfica (Sig) CONSIDERAÇÕES FINAIS Botão 1: Botão 2: Botão 3: Botão 4:Seus objeti- vos eram mais práticos, para fins militares e administrativos, o que resultou no resgate de representações mais simples que, assim como os geógrafos jônicos, adotavam mapas que representavam a Terra em formato de disco. Durante a Idade Média, período que se estendeu, na Europa, do século V ao século XV, predominou a visão teológica do universo sob forte influência da Igreja Católica, que estabeleceu um domínio cultural e social no velho continente por dez séculos. O comércio perdeu a importância conquistada na Antiguidade, o que afetou diretamente as estratégias e estilos empregados na confecção de mapas deste período, e um mapa muito representativo da Idade Média é o mapa T-O. Ele demarca uma visão esquemática do mundo, compatível com os preceitos bíblicos de que o mundo era cercado por um grande oceano e entrecortado por três massas continentais que representavam a Europa, Ásia e África, com Jerusalém ocupando, geralmente, o centro. A letra “T”, localizada dentro do círculo, que lembra a letra O Mapa na História da Humanidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 21 “O”, corresponde a três corpos d`água: o rio Nilo, o rio Dom e, na parte inferior, o mar Mediterrâneo, como você pode conferir na Figura 6: Figura 6 - Um típico Mapa T-O Fonte: Raisz (1969). Este mapa é ilustrativo, porque demonstra uma característica que, por vezes, é invi- sível quando olhamos os produtos cartográficos contemporâneos: todo mapa é uma construção social criada a partir de visões de mundo que podem ser muito distin- tas entre os povos ao longo do tempo. Isso não significa que devemos considerar que os mapas são mentirosos ou dispensáveis, ao contrário, este aspecto da parcia- lidade e relatividade do seu conteúdo é inerente a qualquer outra prática humana. Acontece que, com as mudanças das necessidades de uma sociedade, alteram-se suas produções intelectuais, inclusive os mapas. A visão teológica dominante na Idade Média, por exemplo, era insuficiente para outros propósitos, como a nave- gação, o que acabou por impulsionar, no século XIII, o desenvolvimento de um novo estilo de mapa voltado para os navegadores: os mapas portulanos. Como o nome sugere, os mapas portulanos priorizavam a representação mais CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E22 exata dos portos e dos trajetos para o deslocamento nos mares e oceanos. Nesse sentido, elementos familiares, como a rosa-dos-ventos, voltaram a ser emprega- dos na Cartografia, assim como uma crescente preocupação em representar com detalhes os acidentes geográficos litorâneos, embora contassem com pouquíssimas informações das áreas do interior dos continentes. Os portulanos foram conce- bidos para águas cercadas ou quase-cercadas por terras, como o Mediterrâneo, e estiveram associados ao uso da bússola, o que gerava certa independência dos navegadores em relação à visibilidade dos astros celestes para determinar sua orientação (CROSBY, 1999). O problema é que, para a navegação em grandes dis- tâncias, suas distorções eram muito significativas, o que levou a um esforço dos cartógrafos em desenvolver mapas mais precisos e funcionais para a navegação. Figura 7 - Mapa Portulano do século XVII Descrição da imagem: os mapas portulanos eram compostos por um sistema de várias rosa-dos-ventos e rumos para a navegação com a bússola. Eram, geralmente, confeccionados em peles de animais. Fonte: Wikimedia Commons ([2019], on-line)4. A descoberta de um exemplar da obra Geografia, de Ptolomeu, no ano de 1440, em Florença, contribuiu significativamente na transformação da percepção espacial do Ocidente. No século XV, as técnicas de representação cartográfica a O Mapa na História da Humanidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 23 partir do uso de uma grade de coordenadas empregadas por Ptolomeu já esta- vam integradas nas práticas dos cartógrafos europeus. Além disso, a Terra era, frequentemente, representada numa esfera com latitudes e longitudes: sem dúvida, foi uma transformação importante, sobretudo, quando comparamos com os mapas medievais. Com o fim da Idade Média, a Cartografia volta a ganhar importância, espe- cialmente para a delimitação de rotas comerciais, para o registro de novas terras e para o planejamento de estratégias para a expansão dos territórios. Raisz (1969) identifica três principais motivos para a rápida transformação que a Cartografia presenciou neste período, quais sejam: a) a redescoberta e a correção da obra de Ptolomeu, que continha informações exageradas sobre alguns aspectos terrestres; b) o desenvolvimento da imprensa e o consequente aumento na difusão de mapas mais acessíveis, economicamente, ao público; e c) os Grandes Descobrimentos, que geraram novas informações e uma demanda crescente de novos mapas mais precisos. Tudo isso pode ser comprovado por Harvey (2009, p. 221), o qual sus- tenta que “o saber geográfico se tornou uma mercadoria valiosa numa sociedade que assumia uma consciência cada vez maior de lucro”. Ao longo dos séculos XVI e XVII, a Cartografia foi desenvolvida e aprimo- rada por diversas sociedades que a enxergavam como um meio necessário para o crescimento econômico e a conquista de novas terras e mercados. Além dos portugueses, espanhóis e italianos, os holandeses vivenciaram um período de grande destaque na Cartografia, com destaque para Gerhard Kremer, também conhecido por seu nome latinizado, Geraldo Mercator (1512 - 1594). Além do desenvolvimento da projeção cartográfica que leva seu nome, Mercator teve o mérito de revisar os estudos de Ptolomeu sobre Geografia, Astronomia, História Natural e das Ciências Naturais, baseado em relatos de navegantes mais confiáveis e a partir de dados de viagens empreendidas por ele mesmo. Entretanto, havia alguns problemas significativos que assolavam os mapas desse período: em áreas com pouca informação disponível, era comum que fossem preenchidos os espaços em branco dos mapas com informações fic- tícias ou exageradas, para se tornarem mais atrativos comercialmente (RAISZ, 1969), assim como exemplifica a Figura 8: CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E24 Figura 8 - Caspar Plautius (1621): um exemplo de mapa com informações fictícias Fonte: Dreyer-Eimbcke (1996). No século XVIII, a França vivencia um período de forte desenvolvimento cul- tural baseado nos ideais iluministas, o que resultou na produção de mapas que buscassem retratar, de maneira minuciosa e exata, as informações conhecidas dos territórios. Foi a partir desse século que surgiram os Serviços Geográficos Nacionais, responsáveis por realizar o levantamento topográfico dos seus terri- tórios, geralmente empreendido pelo exército. A palavra “atlas”, que hoje utilizamos para designar publicações que reúnem um conjunto de mapas, também nos foi legada por Mercator. Como con- sequência de um trabalho de muitos anos, foram reunidos vários mapas para resultar numa publicação, a qual Mercator chamou de Atlas. Devemos lembrar, entretanto, que a edição só ocorreu em 1595, quatro meses após a morte de Mercator, por iniciativa de seu filho Rumold. O motivo que levou à escolha da palavra atlas, entretanto, ainda gera discussões. Para alguns, foi escolhida como uma homenagem ao rei Atlas (da Mauritânia), para ou- tros, teria sido uma referência à divindade grega Atlas, que, de acordo com a mitologia, tendo tomado o partido dos gigantes contra os deuses e preten- dendo derrubar o céu, fora condenado por Zeus a sustentá-lo nos próprios ombros. Fonte: Duarte (2002). O Mapa na História da Humanidade Re pr oduç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 25 No Renascimento, há uma aproximação muito significativa entre as ativida- des de geógrafos e cartógrafos, isto é, na compreensão e na representação do espaço, porque ainda não havia instrumentos suficientes para a determinação das longitudes, o que exigia que os geógrafos trabalhassem com o levantamento das latitudes a partir da Astronomia e a aproximação das longitudes a partir da interpretação crítica dos relatos de viagens. Esse cenário transformou-se signi- ficativamente com o desenvolvimento do cronômetro marinho e tornou a tarefa de produção de mapas um conhecimento mais familiar aos engenheiros cartó- grafos do que aos geógrafos. Assim como lembra Claval (2009), essa mudança levou os geógrafos a perderem metade de seu campo de atuação para os cartógra- fos, buscando especializar-se nas formas de descrição e interpretação do espaço, ao contrário dos engenheiros cartógrafos, que se especializaram na representa- ção geométrica e na coleta de dados. Embora essa transformação tenha se intensificado a partir do século XVIII, a Cartografia só foi considerada ciência autônoma, com paradigmas e teorias pró- prias, no período que sucede a Segunda Guerra Mundial. Caro(a) aluno(a), vamos compreender o contexto e as implicações dessa institucionalização? A cartografia une o objetivo ao subjetivo, a prática aos valores, o mito ao fato comprovado, a precisão à aproximação. Você consegue identificar esses aspectos aparentemente contraditórios nos mapas que você usa? CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E26 A CIÊNCIA CARTOGRÁFICA Se existe um momento em que o conhecimento do território é uma questão, literalmente, de vida ou morte, este momento é durante uma guerra: com o desenrolar das Primeira e Segunda Guerras Mundiais, no século XX, mapear o território inimigo tornou-se fundamental. Contudo, como criar mapas confi- áveis, eficazes em representar o espaço e de rápido entendimento? Essas eram questões que, durante a Segunda Guerra Mundial, eram urgentes e desafiavam Arthur Robinson, o responsável pela Divisão de Mapas do Escritório de Assuntos Estratégicos dos Estados Unidos da América (MONTELLO, 2002). Robinson amadureceu um repertório de experiências muito significativas durante a guerra, o que motivou a sintetizar suas lições apreendidas em um livro denominado The Look of Maps: an examination of cartographic design, em algo como A aparência dos mapas: um exame do desenho cartográfico, publicado em 1952. A grande inovação desse material foi a apresentação de um estudo siste- mático de como elaborar, adequadamente, um projeto cartográfico, isto é, as diretrizes que deveriam guiar a construção de um mapa cuja chave estaria no entendimento das limitações da percepção visual humana. De acordo com Robinson (1952), a essência da Cartografia é tornar uma infor- mação inteligível para o leitor. Mais do que simplesmente desenhar, a Cartografia A Ciência Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 27 deve pensar em métodos adequados para selecionar, generalizar e representar as informações do espaço para algum usuário de mapas. Nessa obra, Robinson construiu uma aproximação entre a Psicologia e a Cartografia, mais especificamente em um modelo de análise estímulo-resposta conhecido como psicofísico. Basicamente, esse modelo comparava as respostas que os usuários de mapas relatavam na percepção do tamanho e das cores empre- gadas nos símbolos cartográficos, embora não fizesse parte desse programa de pesquisas uma preocupação em entender o porquê determinada sequência de cores, por exemplo, era mais bem avaliada que outra (SANTIL; SLUTER, 2011). Mesmo que não fosse o primeiro a sugerir que a Cartografia deveria se aproxi- mar da Psicologia para compreender como os mapas, efetivamente, funcionavam, Robinson foi o primeiro a publicar um estudo sistemático de mapas que seguiu essa estratégia metodológica (MONTELLO, 2002). The Look of Maps foi responsável por semear um princípio que transformaria a Cartografia nas décadas seguintes: de que os usuários de mapas deveriam ser considerados na definição das proposições do projeto cartográfico, pois o mapa serve como um canal de comunicação entre dois entes: o autor de mapas e o usuário. No caso, se o mapa é um canal de comunicação, sua eficácia só poderia ser avaliada se o destinatário final fosse considerado nessa equação. Essa “cons- trução de princípios” deveria estar alicerçada na pesquisa empírica, com testes laboratoriais, o que, de certa forma, afastou a ideia da Cartografia como uma prática artística e a aproximou de uma prática científica, sistematizada. Evidentemente, separar a ciência da arte e etiquetar um mapa como pertencente apenas a uma dessas categorias é um reducionismo perigoso. Assim, esperamos que nossa breve apresentação da história dos mapas no início deste capítulo tenha deixado claro que essa questão é muito mais complexa. Entretanto, o que gosta- ríamos de pontuar é que foi a partir da publicação da obra de Arthur Robinson que a Cartografia passou a ser abordada como uma ciência que necessitava de testes empíricos para sua evolução, e não apenas impressões estéticas individuais dos seus autores. Didaticamente, podemos dizer que a Cartografia era pensada a partir de um novo paradigma, que denominaremos Comunicação Cartográfica. CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E28 O PARADIGMA DA COMUNICAÇÃO CARTOGRÁFICA Quando afirmamos que uma ciência constrói um paradigma, estamos dizendo que um grupo de pesquisadores compartilham alguns princípios para a inves- tigação e para o entendimento do seu objeto de estudo. De acordo com Correa (2011, p. 60), um paradigma é um “conjunto de ações intelectuais que possibi- litam estabelecer uma dada inteligibilidade à realidade, com base em conexões de ideais de natureza descritiva, explicativa, normativa, preditiva ou compreen- siva”. No caso da ciência cartográfica, o primeiro paradigma que orientou o maior número de programas de pesquisa é denominado comunicação cartográfica O primeiro e principal aspecto desse paradigma foi considerar que todo mapa é constituído por “mensagens” pré-definidas pelo seu autor, de tal modo que a grande tarefa da Cartografia seria investigar quais são as estratégias mais otimi- zadas para se transmitir estas mensagens para um usuário (MACEACHREN, 1995). Essa tentativa de compreender o processo de comunicação entre o autor, o mapa e o usuário deu origem a uma série de modelos esquemáticos para tornar mais inteligível o processo de comunicação cartográfica, sendo o principal deles aprimorado e publicado por Koláčný, em 1969, assim como ilustra a Figura 9: REALIDADE REALIDADE DO CARTÓGRAFO REALIDADE DO USUÁRIO Sobreposição de Realidades Necessidades Objetivas Tarefas Objetivas Conhecimento Experiência Conhecimento Experiência Processos psicológicos Processos psicológicos Efeito da informação cartográ�ca concretizada Concretização da informação cartográ�ca Habilidades Habilidades Conteúdo da mente do Cartógrafo Conteúdo da mente do Usuário Linguagem Cartográ�ca Linguagem Cartográ�ca Ação baseada na leitura da informação cartográ�ca Obse rvaçã o e se leçã o da re alid ade MAPA Figura 9 - Modelo da comunicação cartográfica Descrição de imagem: modelo de comunicação da informação cartográfica proposto por Koláčný em 1969. O modelo se constitui como um fluxo informativo que tem, como origem, a mente do cartógrafo, que se materializa no mapa e é direcionado para o usuário. A comunicação seria bem-sucedida quandouma parcela da realidade do cartógrafo correspondesse ao repertório da realidade do usuário. Fonte: adaptado de MacEachren (1995). A Ciência Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 29 Basicamente, o modelo da comunicação da informação cartográfica se constitui no reconhecimento de que a transmissão de uma informação é sempre relativa ao universo do autor de mapas, que propõe uma mensagem a ser transmitida. Os signos que representam as ideias da mente do cartógrafo e tornam possível a comunicação são materializados na linguagem cartográfica, e a eficácia das escolhas feitas pelo autor dependem de vários fatores, tais como: a experiência profissional de quem produz o mapa, as particularidades dos seus processos psi- cológicos, os meios técnicos para a confecção do produto cartográfico, dentre outros. O mapa, portanto, é apenas um momento de uma cadeia comunicativa de ideias e sua eficácia em transmiti-las depende do esforço dos cartógrafos em realizar a máxima diminuição de ruídos possíveis. Então, o que é um ruído? Vamos imaginar uma situação hipotética, em que estamos conversando por meio de uma ligação telefônica. De repente, um cami- nhão passa ao lado de um dos falantes, impedindo que o ouvinte escute com clareza a mensagem transmitida na conversa. Pode ser, ainda, que um dos tele- fones empregados na conversa tenha um defeito no microfone, o que impede a captação adequada do áudio, ou, ainda, que um dos interlocutores utilize uma expressão verbal desconhecida pelo ouvinte. Temos três exemplos de ruídos que impedem uma comunicação eficaz. No mapa, são considerados ruídos quaisquer elementos que dificultem sua leitura, como a confecção de símbolos muito pequenos, o uso de contraste de cores muito exageradas, a presença de informações irrelevantes que causem distrações no lei- tor ou até mesmo a qualidade gráfica insuficiente da impressão. Nesse sentido, o autor de mapas deve identificar e corrigir os ruídos do mapa, para que a comu- nicação da informação cartográfica seja a mais direta possível (GARBIN, 2016). O segundo domínio do esquema de comunicação cartográfica proposto por Koláčný é relativo ao repertório de conhecimentos pertencentes ao usuário de mapas. É nele que os conteúdos representados pelo mapa serão extraídos e essa tarefa exige que o leitor conheça minimamente as convenções e as caracterís- ticas que estruturam a linguagem cartográfica, bem como tenha as condições ambientais e cognitivas mínimas para que a mensagem obtida seja interpretada. O terceiro aspecto que chama a atenção desse esquema é a sobreposição das realidades do autor de mapas e do usuário. Essa área sobreposta significa que deve CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E30 existir um ponto de contato entre o repertório de conhecimento da linguagem cartográfica entre o emissor e o receptor para que a mensagem seja devidamente compreendida. O mapa, portanto, deve ser construído tendo em vista que pon- tos de contato são esses e a maneira de descobri-los é investigando o perfil do usuário para o qual o mapa se destina. O problema é que, nesse paradigma, os usuários de mapas são considerados meras “caixas pretas” que respondem ao estímulo do mapa, desconsiderando a criatividade, a inventividade, a influência da cultura, o contexto e a subjetividade dos seres humanos na interpretação de um produto cartográfico (KENT, 2018; MACEACHREN, 1995). Embora seja um princípio importante, na prática, os mapas, poucas vezes, apresentam a característica de ter uma mensagem específica construída pelo cartógrafo ou geógrafo. Que tal explorarmos algumas situações para compre- endermos as limitações desse princípio? Considere uma carta topográfica, um dos produtos mais conhecidos da Cartografia: qual é a mensagem que essa carta comunica? Será que é a localização exata das cotas de altitude do terreno? A posi- ção relativa dos cursos d’água? Ou o tamanho das cidades? Figura 10 - Fragmento de uma carta topográfica Fonte: Wikimedia Commons ([2019], on-line)5. A Ciência Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 31 Mesmo se considerarmos que a localização dos fenômenos da paisagem seja a mensagem principal desse produto, essa visão seria ainda incompleta, pois um geólogo poderia encontrar novas informações ou mensagens mais específicas da dinâmica da paisagem se compararmos com a leitura realizada por um engenheiro civil, por exemplo. Além disso, será que quem faz o mapa tem todo o controle e conhecimento das informações que um mapa pode conter? Há, ainda, novos complicadores que não existiam no momento de adoção desse paradigma: será que a disseminação de computadores, que transformam o mapa de maneira ins- tantânea, torna útil esse tipo de modelo de comunicação? Como você, caro(a) aluno(a), pôde perceber, as perguntas são diversas. Para construirmos uma resposta satisfatória, é necessário introduzirmos novos con- ceitos nesta linha do tempo da Cartografia, tratando de uma ação mental que todos nós realizamos e que a ciência cartográfica começou a integrar em suas discussões teóricas: a visualização. A VISUALIZAÇÃO CARTOGRÁFICA Assim como percebemos, a tarefa primordial do paradigma da comunicação car- tográfica foi a de encontrar mapas otimizados e funcionais para a realização de tarefas específicas para cada tipo de usuário. Acontece que, ao longo da década de 80 e 90, a disseminação de computadores para o grande público forçou os car- tógrafos a se depararem com um cenário totalmente novo: pessoas comuns, sem qualquer formação especializada em mapas, tinham acesso a programas computa- cionais cada vez mais amigáveis, o que tornava a produção de mapas uma tarefa cada vez mais corriqueira e não restrita à especialistas e pesquisadores das geociências. Além disso, com a facilidade em compartilhar informações via Internet, um número cada vez maior de usuários tinha acesso a mapas que não necessaria- mente eram voltados para o seu perfil. Será que esses novos usuários que não apenas consumiam, mas produziam seus próprios mapas, buscavam uma for- mação complementar para produzir os seus mapas no dia a dia? Não – e isso levou a comunidade de pesquisadores em Cartografia a repensar alguns princí- pios até então amplamente aceitos. CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E32 O primeiro ponto que gostaríamos de enfatizar é que, independentemente do tipo de uso que os usuários fazem dos mapas, todos eles envolvem uma ação cognitiva que consiste em gerar imagens mentais que denominamos visualiza- ção. Em termos gerais, visualizar significa tornar visível para a mente alguma coisa, o que não, necessariamente, significa restringir essa “imagem mental” ao domínio da visão, mas compreendê-las como signos especiais que facilitam um melhor entendimento da realidade por parte dos seres humanos. A visualização científica refere-se às ações de visualização voltadas a explorar a realidade a par- tir do método científico e, nesse sentido, a Cartografia começou a se debruçar sobre o estudo das diferentes formas de visualizar o espaço – não só entender melhor suas características físicas, mas sociais, econômicas, sanitárias, cultu- rais, dentre outras. O termo empregado para se referir aos modos de visualizar o espaço para a Cartografia é visualização cartográfica ou, ainda, visualização geográfica (ou geovisualização). Para que um mapa gere visualizações, espera-se que seja capaz de facili- tar o entendimento de algum aspecto do espaço - embora isso, de certa forma, seja uma tarefa realizada por qualquer bom mapa.A questão que é posta como desafiadora é que os computadores permitiram que fossem desenvolvidos sof- twares, como os Sistemas de Informação Geográfica (SIGs), que permitem maior interação e, consequentemente, uma transformação do produto cartográfico sem- pre que o usuário precisar. Por exemplo: a possibilidade de escolher, no Google Maps, entre uma camada sombreada do relevo, das vias de circulação ou da ima- gem de satélite permite que o usuário visualize um mesmo espaço da maneira que mais lhe convém. Esse era um cenário inimaginável no contexto anterior à Cartografia digital, pois os mapas eram “congelados” no papel e sua atualização poderia ser custosa e demorada. Para que essas novas características da Cartografia fossem ressaltadas, novos esquemas foram formulados pela comunidade científica, cada qual valorizando um novo cenário das pesquisas sobre mapas. Vejamos dois dos principais modelos: A Ciência Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 33 PENSAMENTO VISUAL COMUNICAÇÃO VISUAL Exploração Con�rmação Síntese Apresentação DOMÍNIO PRIVADO DOMÍNIO PÚBLICO Figura 11 - Os quatro “momentos” do uso do mapa: exploração, confirmação, síntese e apresentação Fonte: adaptada de MacEachren (1995). O primeiro modelo proposto por DiBiase (1990) enfoca os diferentes momentos no uso dos mapas e agrupam seus usuários em duas grandes classes: os especia- listas (domínio privado) e os não-especialistas (domínio público). O domínio privado é composto por pesquisadores ou usuário avançados que utilizam o mapa para gerar um novo conhecimento ou, ainda, confirmar hipóteses explo- ratórias. No caso, os mapas gerados para esse domínio voltado para a exploração e confirmação de hipóteses científicas pode não necessitar de mapas que sigam, rigorosamente, todas as convenções cartográficas, e sua aparência final pode ser, até mesmo, considerada pouco amigável por usuários não-especialistas. Por outro lado, usuários não-especialistas, pertencentes do domínio público, usam mapas em um nível mais elementar para a realização de tarefas mais sim- ples e cotidianas. Basicamente, esses usuários decodificam uma informação já explorada e tratada por algum pesquisador, o que exige que o mapa seja pen- sado – inclusive, esteticamente – para ser amigável a um número maior e menos CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E34 restrito de usuários. Nesse sentido, o paradigma da comunicação cartográfica é mais evidente nesse domínio marcado pela comunicação visual, ao contrário do domínio privado, que é marcado pelo pensamento visual. É fundamental lembrarmos que essas quatro etapas e esses dois domínios não são excludentes, mas predominantes. O que o autor de mapas deve considerar é em qual momento no processo de investigação científica – de exploração, confirmação, síntese ou de apresentação – o mapa em questão será empregado. A capacidade de transformação e adaptação de um mapa ou de um SIG em alterar as formas com que um fenômeno pode ser representado para que novas informações sobre o espaço estudado sejam exploradas ou confirmadas é denominado interatividade. Dentre as características que um produto cartográfico pode oferecer, pode- mos elencar a mudança nos níveis ou camadas de informações, alteração rápida no modo de implantação e representação dos dados, representação de fenômenos em movimento ou, ainda, alteração da escala cartográfica de maneira automá- tica. Essa propriedade de interatividade deve ser sempre considerada de maneira relativa, isto é, os produtos carto- gráficos podem apresentar baixa ou alta interatividade na represen- tação dos fenômenos e não deve ser vista como uma propriedade ou presente ou ausente de um mapa. Essa propriedade, que pode, ou não, favorecer a visualização, é assinalada no esquema desen- volvido por MacEachren (1995) e comumente denominada carto- grafia ao cubo: Co m un ic aç ão Vi su al iz aç ão Público Privado Apresentar o conhecido Revelar o desconhecido Alta interatividade Baixa interatividade Figura 12 - O modelo “cartografia ao cubo” ou “cubo cartográfico” Fonte: adaptada de MacEachren (1995). A Ciência Cartográfica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 35 Esse modelo conceitual demonstra a presença de três parâmetros que caracteri- zam o mapa: o tipo de público atendido, o grau de interatividade do produto e o tipo de função que desempenha. Os vértices opostos, formado nos polos con- trários dos três parâmetros apresentados, indicam a atividade predominante que um produto cartográfico pode desempenhar: produtos com alta interatividade, usados por usuários do domínio privado para explorar novos conhecimentos, priorizam a ação da visualização. Por outro lado, os usuários do domínio público, com acesso aos produtos de baixa interatividade e que usam os mapas para deco- dificar informações já confirmadas cientificamente estão inseridos nas atividades típicas da comunicação cartográfica. Caro(a) aluno(a), para ver, na prática, como o modelo da cartografia ao cubo funciona, acesse o QR Code a seguir: Quais atividades podem ser propostas aos alunos da Educação Básica para que se aprenda as diferentes funções desempenhadas pelos mapas em um processo investigativo? Para ter mais informações sobre o conteúdo cartografia ao cubo, consulte nosso QR Code por meio da sua plataforma. http:// CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E36 AS RELAÇÕES ENTRE A CARTOGRAFIA E A GEOGRAFIA Assim como apresentamos no início deste capítulo, existe uma relação muito próxima entre o desenvolvimento do conhecimento geográfico dos povos e o desen- volvimento de uma cartografia própria. A partir do estabelecimento da ciência como forma prioritária de entender a realidade nos séculos XVIII e XIX, ocu- pando o lugar da visão religiosa que vigorou na Idade Média, tanto a Geografia quanto a Cartografia passaram a apresentar forte reciprocidade. Esta, auxiliando o desenvolvimento do conhecimento geográfico sistematizado, e aquela, por sua vez, promovendo o desenvolvimento de novas formas de representações espaciais. É válido relembrar que há grande variedade de geografias reveladas pela história do pensamento geográfico, cada qual com períodos que valorizavam abordagens, problemas e paradigmas próprios do seu tempo. Da mesma forma, não há apenas uma cartografia, mas várias, assim como veremos nas linhas seguintes. A Cartografia é, atualmente, definida pela Associação Cartográfica Internacional como uma disciplina que envolve a arte, a ciência e a tecnologia na produção de mapas (DENT, 1985). Por mapa, entendemos uma imagem grá- fica que mostra a localização de classes ou categorias de fenômenos no espaço a partir de uma projeção ortogonal (KEATES, 1989). Além dos aspectos mais As Relações Entre a Cartografia e a Geografia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 37 imediatamente tangíveis, a produção de mapas envolve a coleta de dados, seu tra- tamento, sua generalização e sua simbolização. Logo, os desafios da Cartografia não envolvem apenas as preocupações mais materiais, mas também cognitivas no processo de produção e leitura dos produtos cartográficos. De maneira geral, encontramos, na literatura cartográfica, uma classifica- ção básica para os mapas em dois grandes grupos: mapas de referência e mapas temáticos. Caro(a) aluno(a), assim como veremos ao longo deste livro, essa não é a única forma de classificarmos os mapas, mas será o nosso ponto de partida.Podemos definir os mapas de referência (ainda conhecidos como mapas gerais ou mapas de base) como as representações cartográficas que priorizam um alto grau de exatidão na localização dos fenômenos do espaço, tanto naturais quanto culturais. Geralmente, esses mapas são os primeiros gerados pelos Estados para o conhecimento dos recursos naturais dos territórios e para o planejamento, sendo comumente executados pelos exércitos. As escalas cartográficas desses mapas são variadas - entre 1:10.000 e 1:100.000 - e representam os recursos hídricos, as vias de circulação do território, as curvas de nível, o arruamento das cidades, as fronteiras e limites administrativos e outros ele- mentos da paisagem que se encontram ali de maneira permanente. O título desses mapas remete sempre ao nome da localidade principal inserida no recorte espacial feito pelo autor de mapas. Até a metade do século XVIII, este era o tipo de mapa domi- nante, sendo a carta topográfica o seu produto típico (JOLY, 1990; KEATES, 1989). A segunda grande categoria de mapas são os mapas temáticos (também denominados mapas especiais), que têm como objetivo demonstrar a distri- buição espacial de algum fenômeno geográfico específico. O desenvolvimento dos mapas temáticos é posterior ao dos mapas de base, remontando ao século XVIII. Seu surgimento ocorre pela necessidade de novas abordagens científicas do espaço, pois a mera catalogação exaustiva dos aspectos visíveis da paisagem presente na cartografia sistemática tornava-se cada vez menos suficiente para entender os fenômenos e processos naturais “invisíveis”, como a dinâmica da pres- são atmosférica, das chuvas, da temperatura ou até mesmo de algumas doenças. Passava-se, portanto, do estabelecimento de classes eminentemente visuais para categorias mentais dos fenômenos, geralmente, ressaltando sua estrutura (DENT, 1985; MARTINELLI, 2009). Os mapas temáticos podem ter inumeráveis temas, CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E38 mas, geralmente, são divididos em dois subgrupos: os qualitativos (que mostram a distribuição ou localização de algum fenômeno) e os quantitativos (que mostram os aspectos numéricos dos fenômenos especializados). Por desenvolver e dispor de novas técnicas para a representação de uma gama cada vez maior de fenômenos, a Cartografia passou a ganhar um papel cada vez mais relevante na exploração, confirmação, síntese e apresentação do conhecimento geográfico sistematizado. Voltemos à nossa questão inicial: como a Cartografia responde às mudanças de paradigmas da Geografia no estudo do espaço? Seria possível identificarmos tipos privilegiados de mapas nas correntes do pensamento geográfico? Mais do que determinarmos os tipos de mapas que cada momento histórico da Geografia prioriza, devemos entender quais são as maneiras que os geógrafos utilizam os mapas para subsidiar suas investigações. Na Geografia Clássica, por exemplo, que priorizava a catalogação e descrição do espaço, os mapas eram ferramentas usa- das para a indicação da localização dos cursos d’água, a extensão da vegetação ou mesmo das cidades. Na Geografia Regional, os mapas eram empregados para a regionalização e a identificação das particularidades de um determinado recorte espacial tanto para fins acadêmicos quanto para o planejamento do território. No contexto da Nova Geografia, que propõe estudar as organizações espa- ciais por meio do emprego de teorias, modelos e técnicas matemáticas, o mapa passa a ser entendido como um modelo da realidade: É relativamente fácil visualizar os mapas como modelos representativos do mundo real, mas é importante compreender que eles são também modelos conceituais que contêm a essência de generalizações da realidade. Nessa perspectiva, mapas são instrumentos analíticos úteis que ajudam os inves- tigadores a verem o mudo real sob uma nova luz ou até proporcionar-lhes uma visão inteiramente nova da realidade (BOARD, 1975, p. 140). De maneira mais imediata, não há nenhum problema em tratarmos os mapas como modelos quando temos a consciência da sua insuficiência em esgotar toda a dinâ- mica e a complexidade do espaço geográfico. O problema maior, que gerou uma série de críticas a essa Geografia Quantitativa, foi a adoção de técnicas estatísticas para a geração de dados sem um questionamento sobre o significado histórico dos processos que produziram as características do espaço investigado. É válido lem- brar que o mapa nunca pode ser visto como um produto com um fim em si mesmo, isto é, sem um uso que envolva o entendimento de algum aspecto do espaço. As Relações Entre a Cartografia e a Geografia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 39 No período de renovação da Geografia, surgiu uma corrente que, segundo Christofoletti (1982), tem como foco centralizar a experiência individual ou do grupo, na busca da compreensão do comportamento e da percepção das pessoas em relação aos seus lugares. Esse movimento utiliza a fenomenologia existencial para delimitar a noção de espaço como o espaço presente, permeado de senti- mentos, imaginação e subjetividades. Nesse movimento, a Cartografia centra-se nos estudos da percepção do espaço pelo indivíduo e na influência dos elemen- tos cartográficos na percepção das pessoas. Contudo, de que forma? De acordo com Claval (2011), no início dos anos 60, os geógrafos ficaram fascinados com os estudos desenvolvidos por Kevin Lynch sobre a imagem que as pessoas construíam em relação às cidades que habitavam, pedindo para que estas desenhassem, em folhas em branco, mapas espontâneos, também denomi- nados de mapas mentais, que podem ser considerados: Imagens espaciais que as pessoas têm de lugares conhecidos, direta ou indiretamente. As representações espaciais mentais podem ser do es- paço vivido no cotidiano, como por exemplo, os lugares construídos do presente ou do passado; de localidades espaciais distantes, ou ainda, formadas a partir de acontecimentos sociais, culturais, históricos e eco- nômicos, divulgados nos meios de comunicação (ARCHELA; GRA- TÃO; TROSTDORF, 2004, p. 127). Figura 13 - Exemplo de mapa mental desenhado por um adolescente de 14 anos Fonte: Archela, Gratão e Trostdorf (2004). CARTOGRAFIA: PRÁTICA ANTIGA, CIÊNCIA RECENTE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E40 O mapa mental é um elemento intangível, presente na memória dos seres huma- nos, utilizado para a localização, orientação e julgamentos espaciais. Entretanto, esse termo é frequentemente adotado para nomear os desenhos espontâneos, esquemáticos e pouco rigorosos, do ponto de vista matemático, que os seres humanos produzem, geralmente, em folhas de papel. No ensino de Geografia, esse tipo de recurso é muito utilizado nas séries iniciais como recurso para o diagnóstico de apreensões gerais dos alunos e como ponto de partida para ama- durecer uma alfabetização cartográfica. No ensino de Geografia, a Cartografia é considerada uma linguagem impor- tante na promoção do entendimento do espaço geográfico, cujo interesse tem-se mostrado crescente entre os professores desde a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Geografia, na década de 1990. Esse aspecto, todavia, será aprofundado nos próximos capítulos, pois a alfabetização cartográfica exige a adoção de estratégias especiais pelo professor de Geografia. CONSIDERAÇÕES FINAIS Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 41 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), a Cartografia é um conhecimento que sempre esteve presente nas sociedade. Além de ser uma ferramenta para localização e deslocamento dos grupos, os mapas se constituem como formasde ver e entender a realidade, característica cada vez mais valorizada pela Cartografia Histórica. É evidente que, dada a grande variedade de culturas e demandas, seus aspectos são diversos quando olhamos os mapas dos povos antigos, mas todos indicam a necessidade de os seres humanos conhecerem o seu espaço. Embora seja um saber antigo, a sistematização da Cartografia enquanto ciência autônoma é recente, datando após a Segunda Guerra Mundial. Em um primeiro momento, o paradigma vigente na ciência cartográfica considerava o mapa como um canal de informação de uma mensagem pré-determinada, mas esse paradigma mostrou-se insuficiente, pois os mapas não possuem, necessa- riamente, uma quantidade de informação controlada pelo seu autor. O conceito de visualização cartográfica emerge, então, considerando o mapa em sua função mais ampla, de gerar imagens mentais do espaço, o que abriu novas perspec- tivas para que as modernizações tecnológicas – inclusive, a Cartografia Digital – encontrasse um arcabouço teórico consistente. Estabelecer a especificidade do perfil do provável usuário de mapas, embora seja um dado importantíssimo no estabelecimento das diretrizes do projeto car- tográfico, é uma tarefa que exige um cuidado, por parte do autor, ainda maior. Isso ocorre, porque os computadores, dispositivos móveis e a Internet torna- ram as geoinformações mais acessíveis para um número muito maior e diverso de usuários. Podemos afirmar que o saber cartográfico e geográfico, mesmo se concen- trando em campos distintos – o primeiro tendo interesse em representar o espaço, enquanto o segundo preocupa-se em compreendê-lo – estão conectados desde antes da invenção da escrita. Hoje, a Cartografia auxilia a Geografia na geração de visualizações para exploração, confirmação, síntese e apresentação de novos conhecimentos, sendo uma ferramenta importantíssima para o ensino de geo- grafia nas escolas. 42 1. Embora a Cartografia seja uma prática milenar, sua sistematização em uma ci- ência autônoma aconteceu somente após a Segunda Guerra Mundial. Assinale a alternativa que corresponde à principal característica desse reconhecimento: a) O surgimento de uma nova categoria de mapas denominada mapas temáti- cos que reflete o desenvolvimento tecnológico e as novas formas de coletas de dados. b) A adoção de um paradigma científico denominado comunicação cartográfi- ca que orientou as pesquisas em Cartografia. c) O desenvolvimento tecnológico dos computadores e dos mapas digitais. d) O começo da utilização de mapas para a reconstrução das regiões destruí- das pela guerra. e) O amadurecimento da geovisualização como conceito estruturador do pro- jeto cartográfico. 2. A visão moderna da história da Cartografia reconhece um espectro mais am- plo de representações espaciais como mapas legítimos. Um dos motivos dessa mudança de perspectiva é o abandono da visão eurocêntrica como parâmetro único de visão correta do mundo. Considerando essa tendência, analise as afir- mações seguintes: I. A moderna história da Cartografia considera os aspectos cartométricos como balizadores na diferenciação entre um mapa e um desenho qualquer. II. O conceito de visualização cartográfica pode ser empregado na problemati- zação dos mapas pré-históricos. III. Um dos aspectos que diferencia os mapas antigos dos atuais é que estes possuem a preocupação de serem compreendidos pelo maior número de pessoas possível. IV. Até mesmo os povos sem escrita desenvolveram mapas para a realização de itinerários pelo território. É correto o que se afirma em: a) I e II, apenas. b) II e III, apenas. c) IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 43 3. Considerando os mapas apresentados na figura a seguir, julgue as afirmações a seguir com (V) para as Verdadeiras e (F) para as Falsas: Fonte: https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html ( ) A capacidade do usuário de alterar as formas de visualização de um fenôme- no representado é um exemplo de interatividade. ( ) É possível afirmarmos que os dois mapas cumprem, de maneira satisfatória, o mesmo objetivo. ( ) Predominantemente, os usuários que utilizam os dois mapas pertencem ao domínio privado ( ) A vertente psicofísica dos estudos em Cartografia fornece estudos para jus- tificar a escolha do melhor trajeto definido nos mapas. A sequência correta é: a) V, F, F, F. b) V, V, F, F. c) F, V, V, V. d) F, F, F, V. e) V, V, V, F. https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html https://enterprise.google.com.br/intl/pt-BR/maps/products/mapsapi.html 44 4. Todo mapa cumpre uma função, isto é, não pode ser compreendido como um produto isolado com um fim em si mesmo Considerando o primeiro paradig- ma da Cartografia, qual é o papel que o usuário de mapas passa a ter na elabo- ração do projeto cartográfico? 5. O conceito de visualização cartográfica considera que um produto cartográfi- co pode cumprir diferentes papéis na construção do conhecimento científico. Identifique quais papéis são esses e forneça exemplos que poderiam ser leva- dos para os alunos da Educação Básica. 45 Desconstruindo o mapa No final da década de 1980 e início da década de 1990, principalmente na literatura anglo-saxônica, ampliou-se a discussão sobre natureza subjetiva e retórica do mapa. Um dos precursores dessa discussão foi J. Brian Harley, com seu artigo Deconstructing the map, publicado na revista Cartographica em 1989. Harley (1989) propõe uma leitura da natureza da Cartografia a partir da concepção do mapa como uma construção social. Com base principalmente nas obras de Derrida e Foucault, o autor propõe a descons- trução do mapa por meio da análise de sua textualidade e de sua natureza retórica e metafórica. Harley afirma que as análises conceituais usuais da história da Cartografia se baseavam em fundamentos filosóficos que estabeleciam uma leitura pré-moderna ou então moderna do tema e, por isso, era necessário desenvolver uma análise a par- tir de fundamentações filosóficas que permitissem uma leitura pós-moderna. Para isso, Harley afirma que a estratégia de desconstrução seria a chave. O autor apresenta a des- construção como “tática para romper a ligação entre realidade e representação que tem dominado o pensamento cartográfico. [...] o objetivo é sugerir que uma epistemologia alternativa, baseada mais na teoria social do que no positivismo científico, é mais apropria- da para a história da Cartografia (p. 02, grifo do autor). Da teoria de Foucault, Harley (1989) utiliza, para o processo de desconstrução do pensa- mento cartográfico, a ideia da “onipresença