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Introdução ao Pensamento Epistemológico

Livro: Introdução ao pensamento epistemológico (Hilton P. Japiassu). Apresenta elementos e instrumentos conceituais; capítulos sobre o que é epistemologia, as epistemologias de Piaget, Bachelard, Popper e Foucault, epistemologia crítica, rumo da filosofia e bibliografia.

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 3 
Capa: Ana Maria Silva de Araújo 
 
Impresso no Brasil Printed in Brazil 
 
FICHA CATALOGRÁFICA 
(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do Sindicato Nacional dos Editores de 
Livros, RJ) 
Japiassu, Hilton Peneira, 1934 - Introdução ao pensamento epistemológico. Rio de 
Janeiro, F. Alves, 202 p. 
 
Todos os direitos reservados à 
LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A. 
Rua Sete de Setembro, 177 - Centro 
20.050 Rio de Janeiro, RJ 
 
 
 
 
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 5 
SUMÁRIO 
 
Prefácio................................................................................................................................7 
 
Alguns instrumentos conceituais........................................................................................13 
 
O que é a epistemologia?..................................................................................................21 
 
A epistemologia genética de J. Piaget...............................................................................41 
 
A epistemologia histórica de G. Bachelard........................................................................61 
 
A epistemologia ―racionalista-crítica" de K. Popper...........................................................83 
 
A epistemologia "arqueológica" de M. Foucault...............................................................111 
 
A epistemologia "crítica"...................................................................................................135 
 
Para onde vai a filosofia?.................................................................................................159 
 
Conclusão: um problema em suspenso...........................................................................185 
 
Bibliografia sumária..........................................................................................................195 
 
 
 
 6 
 
 
 
 
 7 
PREFÁCIO 
 
 
 
 8 
 
 
 
 
 9 
Este pequeno livro, como indica seu título, trata do que chamei de "Introdução ao 
Pensamento Epistemológico". Meu propósito foi o de explorar alguns dos caminhos que 
se abrem à epistemologia contemporânea. Os vários capítulos aqui reunidos não têm 
outra pretensão senão a de fornecer um conjunto de Elementos e de Instrumentos de 
reflexão epistemológica sobre os processos de génese, de desenvolvimento, de 
estruturação e de articulação dos conhecimentos científicos. Cada um poderá ser tomado 
como um todo. Não houve, de minha parte, uma preocupação de sistematizar os vários 
temas tratados. Nem tampouco de lhes dar uma ordenação lógica rigorosa. Tentei 
descobrir, nos autores analisados, seu "projeto" fundamental concernente aos problemas 
epistemológicos. Para não sobrecarregar o texto com muitas citações, remeto o leitor à 
bibliografia, onde poderá encontrar os elementos indispensáveis a um maior 
aprofundamento. Não pretendi tanto resolver problemas quanto levantar questões que, 
uma vez examinadas, pó- 
 
 
 
 10 
derão proporcionar outras respostas, eventualmente discordantes. Se isto ocorrer, já está 
justificado meu esforço de propor à reflexão,* de modo simples, mas talvez "polémico", 
tais Elementos e Instrumentos introdutórios ao que hoje se chama de atividade 
epistemológica. 
 
Trata-se, pois, de uma reflexão epistemológica cuja preocupação fundamental é a de 
situar os problemas tais como eles se colocam ou se omitem, se resolvem ou 
desaparecem na prática efetiva' dos cientistas. Todavia, como para situar e formular os 
problemas torna-se indispensável a presença de certos conceitos, tive a preocupação de 
fornecer algumas concepções engajando o tratamento de certos problemas científicos 
pela epistemologia. Sem dúvida, falar do "objeto" dessa disciplina significa falar de um 
problema a ser colocado para, em seguida, ser resolvido. Não tive a pretensão de 
analisar todos os problemas da epistemologia. Nem tampouco foi minha intenção 
apresentar um quadro completo de todas as epistemologias atualmente existentes. Uma 
síntese, certamente, far-me-ia correr o risco de uma exagerada generalidade. Isto não me 
impediu, porém, de dar atenção a certas epistemologias, por vezes em "conflito". Assim, 
quis elucidar algumas "teses" particulares, sem ter a audácia de fazer com que elas se 
beneficiassem de uma demonstração completa. 
 
O termo "conflito" é aqui utilizado no sentido de certos antagonismos fundamentais na 
elucidação, por parte das abordagens epistemológicas analisadas, da atividade científica. 
Cada enfoque epistemológico elucida a atividade científica a seu modo. Cada um tem 
uma concepção particular do que seja a ciência. Evidentemente, as epistemologias aqui 
expostas não podem ser tomadas por cânones. Cada uma tem um valor de tentativa, e 
não de modelo. Foi de propósito que tomei essas modalidades de epistemologia. Todas 
têm em comum, apesar das des- 
 
 
 
 11 
semelhanças quanto aos seus objetos, às suas perspectivas, aos seus métodos e às 
suas influências recíprocas, um caráter deliberadamente não-positivista quanto às suas 
concepções da ciência. Razão pela qual deixei de lado a apresentação desta 
epistemologia tão desenvolvida e rica, com resultados surpreendentes no domínio do 
conhecimento científico, que é a epistemologia lógica, cujos defensores mais notáveis 
encontram-se filiados à corrente de pensamento derivada do empirismo lógico. Portanto, 
não se trata de uma negligência. Simplesmente deixei-a de fora, por tratar-se de um 
domínio epistemológico já bastante explorado. Por outro lado, ele se prende muito mais à 
elucidação da atividade científica através de uma descrição dos métodos, dos resultados, 
e sobretudo, da linguagem da "Ciência" ou da "Razão" nas ciências, do que ao exame 
propriamente crítico desta atividade, que é o objetivo das epistemologias que levei em 
consideração. Estas, com efeito, preocupam-se com a história das ciências, com a 
"história" da inteligência, com a "arqueologia" das ciências e com as relações da ciência 
com a sociedade que a produz, interferindo tanto em sua organização interna quanto em 
suas aplicações. Finalmente, estou consciente de que falar de epistemologia, hoje, já é 
engajar-se num espaço polémico ou conflitante, pois sob este título apresentam-se 
trabalhos que frequentemente nada têm de comum, quando não se excluem 
explicitamente. Não se tratará, pois, aqui, de conciliar, mas, na medida do possível, de 
colocar em ordem e de justificar: um discurso sobre as ciências é um discurso em que a 
teoria se faz estratégia. E é tomando as ciências em sua "historicidade", que se elabora a 
crítica epistemológica da ciência. Por outro lado, como a historicidade não é para a 
filosofia um simples acidente exterior, mas algo que lhe é essencial, da mesma forma a 
história das ciências se liga de muito perto à 
 
 
 
 
 12 
filosofia, pelo menos, através de sua vertente epistemológica. A história das ciências é 
um tecido de juízos implícitos sobre o valor dos pensamentos e das descobertas 
científicas. O papel da epistemologia é de explicitá-los. 
 
Hilton Japiassu 
 
 
 
 
 13 
ALGUNS INSTRUMENTOS CONCEITUAIS 
 
 
 
 14 
 
 
 
 
 15 
I. Saber, ciência, epistemologia 
 
O termo saber tem hoje, por força das coisas e pela realidade do uso, um sentido bem 
mais amplo que o termo ciência. 
 
a) É considerado saber, hoje em dia, todo um conjunto de conhecimentos 
metodicamente adquiridos, mais-ou-menos sistematicamente organizados e 
susceptíveis de serem transmitidos por um processo pedagógico de ensino. Neste 
sentido bastante lato, o conceito de "saber"poderá ser aplicado à aprendizagem de 
ordem prática(saber fazer, saber técnico...) e, ao mesmo tempo, às determinações 
de ordem propriamente intelectual e teórica. É nesse último sentido queexperimentalmente controlável, contanto que se adotem bons 
critérios de experimentação e de controle. Sem dúvida, é muito interessante sabermos 
como uma criança, hoje em dia, chega a conhecer a noção de causalidade. É até muito 
útil para aqueles que se ocupam de psicopedagogia e que se dedicam ao ensino. 
Todavia, podemos perguntar: em que tudo isso pode esclarecer o funcionamento da 
ciência ou da não-ciência? De que adianta o deslocamento do problema para a criança 
"manipuladora"? Rebaixar o problema ao nível da atividade pueril explica tanto quanto 
elevá-lo- o nível da metalinguagem, quer dizer, pouca 
 
 
 
 58 
coisa. Os homens, em suas atividades sociais racionais, não podem ser considerados 
como "crianças grandes", como as crianças não podem ser tratadas como "pequenos 
adultos". Eles são produtos sociais. A cultura não se deixa reduzir, nem pela inscrição 
lógica ou linguística, nem por sua origem biopsicológica. Tanto a epistemologia lógica 
quanto a genética deixam sem solução o problema essencial do conhecimento científico: 
o do lugar e o do funcionamento das pesquisas científicas dentro da "ordem", dentro do 
contexto sócio-cultural vigente, em que se situam as sociedades elaboradoras desse 
conhecimento. Essas pesquisas se integram, de modo disparatado, em iodas as 
formações sociais e em iodos os tipos de poder: elas participam ativamente do 
desenvolvimento sócio-político-econômico (real ou aparente) das forças produtoras e 
formam, assim, o eixo de nossa modernidade, de nossa racionalidade contemporânea. 
 
8. Embora a epistemologia de Piaget seja uma tentativa de superar o positivismo sob 
todas as suas formas, não podemos negar que ela se inscreve no prolongamento da 
tradição positivista que, no domínio da teoria do conhecimento, pretende elaborar uma 
"ciência da ciência" ou uma "ciência" da organização do trabalho científico, batizando com 
o nome de "epistemologia científica" esta teoria do conhecimento preservada de toda 
contaminação filosófica. Ela seria interna, porque nasceria no próprio interior da atividade 
científica. Ora, aceitar a "cientificidade" da epistemologia, é aceitar, conscientemente ou 
não, a possibilidade de se criar uma "ciência da ciência", uma metaciência que se situa 
num nível superior relativamente à ciência que toma por objeto. O pressuposto filosófico, 
presente no projeto de qualquer "ciência da ciência", não pode ser dissimulado: o simples 
fato de se Justificar a utilidade pedagógica e 
 
 
 
 59 
social de uma "epistemologia científica", e de procurar-se definir seu estatuto científico, já 
é uma atividade filosófica. Talvez possamos encontrar aqui a razão pela qual os próprios 
empiristas consideram Piaget, ora como "neomaturacionista", ora como "neo-
ambientalista", porque sua epistemologia ignora, sistematicamente, os fatores sócio-
culturais na determinação das condutas e considera que o desenvolvimento do 
conhecimento se processa unicamente a partir "do interior" da própria ciência. A esta 
acusação, Piaget reage dizendo que não é nem uma coisa nem outra, pois acha que os 
conhecimentos resultam de uma criação contínua de estruturas novas. Quanto às 
condições sócio-culturais influenciando no processo de conhecimento, Piaget estima .que 
elas são apenas "ocasião" de funcionamento dos conhecimentos, portanto, de seu 
desenvolvimento. Para ele, a função primordial da inteligência é de compreender e*de 
inventar, isto é, de construir estruturas, estruturando o real. O problema da inteligência 
liga-se ao problema fundamental da epistemologia: mostrar que os conhecimentos não 
constituem cópias do real (positivismo), mas assimilações do real a estruturas de 
transformação. É por isso que o conhecimento deriva das ações, quer dizer, de uma 
assimilação do real às coordenações necessárias e gerais da ação. Porque conhecer um 
objeto é agir sobre ele e transformá-lo para se descobrir os mecanismos dessa 
transformação, em ligação com as ações transformadoras. Contudo, é um fato que Piaget 
não fornece elementos para se analisar o papel real desempenhado pela ciência nas 
diversas coletividades em que ela se insere. Ele parece considerar a ciência como se 
pudéssemos ter dela uma definição "neutra". Sem dúvida, ela é uma pesquisa metódica 
do saber. Mas também é um modo de se interpretar o mundo. É uma instituição, com 
suas academias, seus grupos de pressão, seus preconceitos e 
 
 
 
 60 
suas recompensas oficiais. Por outro lado, é um métier, exercido em condições do 
trabalho científico onde aparecem problemas sociológicos e políticos. Não há "ciência" 
autónoma, pura, absoluta. Há uma racionalidade científica. Mas a "razão" científica não é 
imutável. Suas normas são históricas e condicionadas e, por isso mesmo, evoluem. O 
cientista também se serve de sua imaginação. E não está absolutamente ao abrigo de 
toda contaminação ideológica, nem tampouco das pressões sociais, dos desvios 
passionais ou das modas. As pesquisas dependem hoje de um ministério, estão 
intimamente ligadas à indústria, são financiadas por organismos não-neutros. Não se 
pode mais fazer ciência com a boa consciência de um filatelista. Nem tampouco se deve 
crer que os problemas "morais" da ciência se reduzem a casos bem delimitados. Não se 
pode negar mais que as pesquisas científicas estão substancialmente integradas à 
Sociedade. Por isso, a questão que se coloca não é mais: "em que pé anda a ciência?", 
mas: "onde está a ciência?" Relata-se, demonstra-se, prova-se, no interior de dispositivos 
já fixos, sendo o critério a alternativa: verdade-falsidade. O problema parece formular-se 
hoje assim: quem diz? quem demonstra? quem prova? por quê? para quê? 
 
 
 
 61 
A EPISTEMOLOGIA HISTÓRICA DE G. BACHELARD 
 
 
 
 62 
 
 
 
 
 63 
Para compreendermos o projeto epistemológico de G. Bachelard, é indispensável que 
situemos seu pensamento dentro do contexto em que se constroem as ciências hoje em 
dia. Porque toda a sua obra está marcada por uma reflexão sobre as filosofias implícitas 
nas práticas efetivas dos cientistas. Numa palavra, o projeto de Bachelard consiste "em 
dar às ciências a filosofia que elas merecem". Não podemos negar que vivemos um 
momento de triunfo da ciência. Por outro lado, assistimos hoje a um verdadeiro 
questionamento da ciência. Poderá ela trazer a felicidade para o homem? Está em 
condições de vencer o sofrimento? Os benefícios que ela proporciona não estariam em 
grande parte anulados pelas desgraças que engendra? Afinal, o que vem a ser a ciência? 
Quais são seus métodos? Qual o valor dos resultados que ela atinge? Não é um fato 
evidente que ela aliena o homem? 
 
Estas e outras questões entram no campo de investigações da epistemologia. Uma 
reflexão séria sobre a 
 
 
 
 64 
ciência não pode deixar de constatar que fazer ciência é algo extremamente difícil: ela se 
desenvolve com uma força explosiva e o homem atual encontra-se, cotidiana-mente, 
diante de técnicas oriundas da ciência "fundamental", e que, fundamentalmente, ele não 
compreende. Isto constitui para ele uma causa de profunda humilhação. O homem 
comum nada sabe do que se passa no reino da ciência, a não ser certas "informações" 
mais ou menos neo-esotéricas que se divulgam em publicações onde encontramos uma 
mescla de magia, de pseudociência e de charlatanismo. E é por causa dessa humilhação 
diante do poder da ciência que o homem comum se entrega a todos os tipos de 
compensações mais ou menos douradas ou rotuladas de científicas. Por outro lado, tudo 
indica que, diante da ciência objetiva, o homem comum é um estrangeiro. E não são 
poucas as teorias científicas que tentam mostrar que o homem ocupa um lugar apenas 
infinitesimal no universo, e que este lugar nem mesmo é necessário, mas apenas casual. 
 
Enfim, podemos constatar um hiato crescente entre o conhecimento objetivo (científico) e 
toda espécie de sentimentos ou deteoria dos valores. Por definição, a ciência ignora os 
valores. Portanto, não pode conhecê-los. Nem tampouco preocupa-se com a imaginação 
criadora. Por isso, não pode haver nem ética, nem estética objetivas. E como a ética e a 
arte são indispensáveis ao homem, são os filósofos e os "literatos" que vão elaborá-las, 
não os cientistas. Neste nível, os cientistas não conseguem propor soluções objetivas 
fundadas na ciência. Todavia, todo conhecimento científico, embora não funde uma ética 
ou uma arte objetiva, funda-se numa ética, cujo critério fundamental não é o homem, mas 
o próprio conhecimento objetivo. E foi esta ética, da felicidade individual e do máximo 
conforto, que criou a ciência moderna. 
 
 
 
 
 65 
Donde a importância da atividade epistemológica, cujo papel é o de refletir sobre os 
métodos, a significação cultural, o lugar, o alcance e os limites do conhecimento 
científico. Diria que uma das funções essenciais da filosofia, hoje em dia, é a de construir 
uma epistemologia. Temos atualmente várias epistemologias."Em primeiro lugar, há toda 
uma corrente epistemológica que poderíamos chamar de lógica: ela visa ao estudo e à 
construção da linguagem científica, bem como uma investigação sobre as regras lógicas 
que presidem a todo enunciado científico correto (positivismo anglo-saxônio). Em 
seguida, há toda uma escola que se propõe a elucidar a atividade científica a partir de 
uma psicologia da inteligência: a epistemologia genética, tal como ela é praticada por 
Piaget. Enfim, há uma corrente que se propõe muito mais a uma análise da história das 
ciências, de suas revoluções, bem como das démarches do espírito científico. É nesta 
última categoria que devemos situar a epistemologia de Bachelard, bem como a de G. 
Canguilhem. 
 
Antes, porém, de entendermos melhor o projeto de Bachelard, vejamos o clima intelectual 
em que ele surgiu. O próprio Bachelard costumava dizer, em seus cursos na Sorbonne, 
que a epistemologia consistia, no fundo, na história da ciência como ela deveria ser feita. 
Queria dizer, com isso, que toda reflexão efetiva, capaz de estabelecer o verdadeiro 
estatuto das ciências formais (lógica e matemática) e das ciências empírico-formais 
(ciências físicas, biológicas e sociais), deve ser necessariamente histórica. Contudo, para 
que esta história possa fornecer uma real inteligibilidade, é preciso que seja regressiva. 
 
Quer dizer, para compreendermos uma ciência do passado, devemos nos situar nos 
pontos de vista ulteriores. Não querendo construir uma epistemologia a priori, dogmática, 
impondo autoritariamente dogmas 
 
 
 
 66 
aos cientistas, Bachelard se opôs a A. Comte, sobretudo quando este pretendeu 
coordenar as diversas ciências e indicar-lhes os caminhos definitivos a seguir. Bachelard 
se propôs a construir uma epistemologia visando à produção dos conhecimentos 
científicos sob todos os seus aspectos: lógico, ideológico, histórico... Para ele, as ciências 
nascem e evoluem em circunstâncias históricas bem determinadas. Por isso, a 
epistemologia deverá interrogar-se sobre as relações susceptíveis de existir entre a 
ciência e a sociedade, entre a ciência, e as diversas instituições científicas ou entre as 
diversas ciências. O que importa é que se descubram a génese, a estrutura e o 
funcionamento dos conhecimentos científicos. Donde a relevância das questões: devem 
as ciências impor-se por si mesmas? Devem afirmar clara e triunfalmente seus 
resultados? São elas a verdade das sociedades atuais? Não seria evidente sua virtude? 
Que necessidade temos de nos interrogar sobre sua significação? 
 
Se tais questões são hoje válidas, é porque o positivismo do século XIX as considerava 
supérfluas. Com efeito, considerava as ciências, tanto em sua forma quanto em seu 
conteúdo, como constituindo a própria verdade. Não poderiam ser julgadas, pois 
justificavam-se a si mesmas. A doutrina positivista, cujo fundador foi A. Comte (1798-
1857), teve profunda influência na ciência posterior. Ela é constantemente retomada sob 
novas formas. Pode ser expressa, de um ponto de vista filosófico, pela confiança 
excessiva que a. sociedade industrial depositou na ciência experimental. Embora 
pretenda negar toda filosofia, ela elabora uma verdadeira filosofia da ciência, cujos 
princípios poderão ser resumidos nas seguintes afirmações: a) as únicas verdades a que 
podemos e devemos nos referir são os enunciados das ciências experimentais: trata-se 
de verdades claras, unívocas e imutáveis; b) todo e qualquer outro tipo de juízo deve 
 
 
 
 67 
ser abandonado como sendo teológico ou filosófico; c) a função das ciências 
experimentais não é a de explicar os fenómenos, mas a de prevê-los, e de prevê-los para 
dominá-los; o que importa não é saber o "porquê", mas o "como" das ciências; d) o 
aparecimento da ciência esboçaria, para a humanidade, um mundo inteiramente novo, 
possibilitando-o viver na "ordem" e no "progresso". Portanto, para Comte, o papel da 
filosofia ficaria reduzido a uma função de> síntese vulgarizadora e de pregação moral. 
Todavia, não tardou a serem mostradas as insuficiências filosóficas do positivismo. A 
primeira reação foi a das teorias espiritualistas, que tentaram estabelecer um modus 
vivendi: a filosofia admitia a validade da atividade científica como conhecimento e como 
dominação da natureza. No entanto, ela se reservaria a outra parte, muito mais "nobre", 
que seria a determinação dos fins em função do conhecimento bem mais profundo que 
ela pretendia fornecer da natureza humana e da espiritualidade real. E foi assim, dentro 
deste contexto, que foi construída o que hoje chamemos de "metodologia das ciências" 
como disciplina universitária: de um lado, situava-se uma lógica geral, que procurava 
atualizar os textos de Aristóteles; do outro, uma explicação passiva da atividade científica. 
 
Daí para cá, houve toda uma tentativa de mostrar que a ciência, em seu projeto unitário 
de "salvar os fenómenos", teve êxitos crescentes, mas que ela continuava incapaz, por 
natureza, de compreender o essencial desses fenómenos. E foi nesta linha que se 
inscreveu Bachelard. Surgiu, assim, a epistemologia como o produto da ciência 
criticando-se a si mesma. Para Bachelard, a verdadeira questão diz respeito à força e aos 
poderes da ação racionalista. Mas, ao mesmo tempo, à força e ao podar da atividade 
criadora e poética. 
 
 
 
 68 
A obra deste filósofo, historiador das ciências e epistemólogo (1884-1962), de formação 
química, tem uma dupla vertente: uma científica, a outra poética. Embora não devam ser 
confundidas, podemos encontrar nelas uma unidade de inspiração, a partir da ideia de 
que o tempo só tem uma realidade: a do instante. O conhecimento é, por essência, uma 
obra temporal. Bachelard retoma a ideia que Bergson se fazia do instante. Este concebia 
o ser como devir, como duração. A duração era a única realidade (substância) 
verdadeira. A duração humana é continuidade. Temos dela uma experiência íntima è 
direta. Assim, somos a cada instante a condensação da história que vivemos. Não há 
esquecimento absoluto. Não há ruptura em nossa vida: o presente é repleto do passado e 
"prenhe" do futuro. Todas as lembranças são conservadas. 
 
Para Bachelard, o instante é algo inteiramente diferente. Ele é trágico, pois só pode 
renascer com a condição de morrer. O instante já é solidão, que nos isola de nós 
mesmos e dos outros, pois rompe com o nosso passado mais caro. E o tempo é a 
consciência dessa solidão. Donde a coragem impor-se como a necessidade de luta 
contra a solidão. É assim que temos acesso aos homens e às coisas. Nós somos nossa 
decisão. Nossos valores se inscrevem no término de uma ação pela qual nós fazemos os 
instantes que vivemos, quer dizer, nosso tempo. Devemos nos definir pela tendência que 
tivermos de nos ultrapassar e de nos transformar. Dois caminhos se apresentam: de um 
lado, a ciênciae a técnica vencem a solidão criando um prolongamento de nós mesmos e 
uma sociedade; do outro, a poesia e a imaginação libertam-nos da servidão da história e 
das referências da memória, para fazer-nos descobrir homens e coisas. O homem é ao 
mesmo tempo Razão e Imaginação. Não há ecletismo, mas dualismo ascético. Por isso, 
a obra de Ba- 
 
 
 
 
 69 
chelard se apresenta como uma dupla pedagogia: da Razão e da Imaginação. Não 
devemos confundir essas pedagogias: há o homem diurno da ciência e o homem noturno 
da poesia. 
 
Da vertente científica da obra de Bachelard, devemos reter que a ciência não é 
representação, mas ato. A noção de espetáculo precisa ser eliminada. Não é 
contemplando, mas construindo, criando, produzindo, retificando, que o espírito chega à 
verdade. É por retificações contínuas, por críticas, por polémicas, que a Razão descobre 
e faz a verdade. Para a ciência, o verdadeiro éo retificado, aquilo que por ela foi feito" 
verdadeiro, aquilo que foi constituído segundo um procedimento de autoconstituição. É 
por isso que a racionalidade científica só pode ser regional, e é por um lento processo de 
integração, pontilhado pelas revoluções científicas, que se constitui o império da Razão. 
Não-platônica e não-kantiana, a filosofia de Bachelard considera a verdade como nosso 
produto, que não faz redundância com um modelo absoluto de verdade, mas que se volta 
para seu animador, levando-o a perceber seus próprios enunciados como obstáculos à 
compreensão. Porque os verdadeiros obstáculos da ciência não são os conhecimentos 
do "senso comum", mas os sistemas relativamente coerentes de pensamentos 
generalizados abusivamente. Um pensamento científico não é um sistema acabado de 
dogmas evidentes, mas uma incerteza generalizada, uma dúvida em despertar, de tal 
forma que o cientista é necessariamente um sujeito descentrado e dividido, ligado à sua 
prática mas, ao mesmo tempo, distanciado dela. 
 
Assim, o conhecimento, deixando de ser "contemplativo", torna-se operativo. Ele é uma 
operação. A ciência cria seus objetos próprios pela destruição dos objetos da percepção 
comum, dos conhecimentos imediatos. E é por ser ação que a ciência é eficaz. Devemos 
passar 
 
 
 
 70 
por ela para agirmos sobre o mundo e podermos transformá-lo. E o progresso do espírito 
científico se faz por rupturas com o senso comum, com as opiniões primeiras ou as pré-
noções de nossa filosofia espontânea. A ciência, como o homem, não é criação da 
necessidade, mas do desejo. Por outro lado, ela é intervencionista. Por isso, deve ser 
feita numa comunidade de pesquisas e de críticas, para não se tornar totalitária. E é por 
isso que Bachelard substitui o Cogito cartesiano por um Cogitamus. Um homem só, diz 
ele, é uma péssima companhia. Aprendemos sempre. E o mestre deve sempre fazer-se 
aluno. Eis o princípio que fundou (1938) aquilo que hoje chamamos de Educação 
permanente: "Uma cultura bloqueada num tempo escolar é a negação mesma da cultura 
científica. Só há ciência por uma Escola permanente. É esta Escola que'a ciência deve 
fundar. Então, os interesses sociais se invertem: a Sociedade será feita para a Escola, e 
não mais a Escola para a Sociedade". 
 
Portanto, a obra de Bachelard é uma dupla revolução: uma visa, a filosofia da descoberta 
científica; a outra, a filosofia da criação artística. Por seu Ensaio sobre o conhecimento 
aproximado (1928), ele funda a epistemologia como "ciência" respeitada, através do 
estudo sistemático do modo como os conceitos de "verdade" e de "realidade" deveriam 
receber um sentido novo. Sua dialética é uma "dialética do não". A negatividade 
identifica-se com o movimento de generalização reorganizadora do saber, pela qual as 
contradições são superadas como ilusões de oposição. Contudo, o que é ilusão de 
oposição conceitual, é um conflito real na prática histórica dos cientistas. A verdade não é 
uma qualidade que pertenceria a esta ou àquela opinião particular, mas o resultado da 
negação mútua das opiniões num conflito entre os produtores de ideias. A ciência é obra 
do homem. Seus objetos são "perspectivas de ideias". Todavia, a 
 
 
 
 71 
ciência engloba seu próprio produtor e faz dele um meio universal. 
O traço mais típico dessa epistemologia consiste em ser ela "polémica". E o princípio 
dessa polémica deve ser buscado nos transtornos e embaraços por que passa a história 
das ciências. Seu objetivo central é a "reformulação" do saber científico e a "reforma" das 
noções filosóficas. Dando-se por objeto o conhecimento em seu movimento, em seu fieri, 
a epistemologia se interessa pela lógica da descoberta científica da verdade como 
polémica contra o erro e como esforço para submeter às verdades aproximadas da 
ciência e os métodos que ela emprega a uma retificação permanente. Em outros termos: 
uma disciplina que toma o conhecimento científico como objeto de investigação deve 
levar em conta a historicidade desse objeto. Melhor ainda: a epistemologia deverá 
aplicar-se, não mais à natureza e ao valor do conhecimento, à ciência feita, realizada e 
verdadeira, da qual se deveria apenas descobrir as condições de possibilidade, de 
coerência ou os títulos de sua legitimidade, mas às ciências em vias de se fazerem e em 
suas condições reais de crescimento. 
 
A filosofia, enquanto comporta uma teoria do conhecimento, deve definir-se por seu lugar 
em relação ao conhecimento científico. Bachelard critica as filosofias que utilizaram 
certos conceitos (de realidade, de espaço, de tempo...) como se as ciências nada 
houvessem dito sobre eles. Por outro lado, ele pensa que a filosofia, quando ela toma a 
ciência por objeto, visa uma ciência ideal, muito diferente das que existem efetivamente. 
Ora, diz ele, a filosofia não tem objeto. Ela tem o objeto dos outros. E é por isso que ela 
deve determinar-se por sua distância relativamente ao conhecimento científico. Este 
desempenha o papel de um eixo das diversas formas de filosofia (no alto: idealismo, 
convencionalismo e forma- 
 
 
 
 72 
lismo; embaixo: positivismo, empirismo e realismo). A essência da filosofia só pode ser 
determinada do ponto de vista do eixo, isto é, de um ponto de vista não-filosófico. Em 
outros termos, é o eixo que dá à filosofia um conteúdo e determina sua natureza. O que 
Bachelard pretende mostrar é que a ciência contemporânea obrigou-nos a renunciar à 
pretensão de um saber universal. O filósofo retoma, de outro modo, o projeto que outrora 
foi o seu: compreender a relação do homem com seu saber. Esta relação é a recorrência 
reflexiva da história do verdadeiro. Meditar sobre a ciência atual, sobre seu movimento 
próprio, também é compreender seus erros do passado. É neste sentido que a verdade 
só adquire seu pleno sentido no término de uma polémica contra os erros passados. E é 
por isso que não há verdade primeira, apenas erros primeiros. 
 
Pela introdução da noção de ruptura epistemológica, Bachelard se opõe às tradições 
positivas. É preciso que se reconheça que, tios fatos, há ciências coexistindo com 
ideologias. Donde a importância de uma filosofia que, longe de ser uma representante 
das ideologias junto às ciências, terá por missão neutralizar os discursas ideológicos e 
impedir, assim, na medida do possível, o aparecimento dos obstáculos. Pelo menos, esta 
filosofia terá por função distinguir, nos discursos científicos, aquilo que pertence à prática 
científica daquilo que provém das ideologias. Donde a função de vigilância, atribuída por 
Bachelard a esta nova epistemologia. Ao acompanhar os progressos do pensamento 
científico, ela terá a preocupação constante de isolar, na prática científica, os interesses 
ideológicos e filosóficos. E o conceito que sustenta todo o "projeto" de Bachelard é o de 
obstáculo epistemológico, que designa os efeitos sobre a prática científica das relações 
que o cientista mantém com ela. O obstáculo aparece no momento daconstituição do co- 
 
 
 
 
 73 
nhecimento sob a forma de um "contrapensamento"; posteriormente, como "parada do 
pensamento", isto é, como uma resistência ou inércia do pensamento ao pensamento. 
Certas filosofias constituíram-se em veículo e em suporte dos obstáculos, pois são elas 
que estruturam a relação do cientista com sua prática. Em outros termos: se o 
pensamento científico é eminentemente progressivo, e se sua démarche é feita através 
de suas próprias reorganizações, diremos que o obstáculo epistemológico aparece todas 
as vezes que uma organização do pensamento preexistente encontra-se ameaçada. 
Por conseguinte, sendo o conhecimento concebido como uma "produção histórica", a 
epistemologia visa um processo. A filosofia aí está presente. Mas é a epistemologia que 
tenta descobrir aquilo que as filosofias dos filósofos teimam em recobrir: os valores 
ideológicos que intervêm na prática científica. Seu papel histórico fundamental consiste 
em "dar à ciência a filosofia que ela merece". Todavia trata-se, agora, de uma filosofia 
aberta e móvel, que renuncia à forma sistemática, a seu espaço fechado e ao imobilismo 
para arriscar-se, ao lado dos cientistas, nos campos novos do pensamento. Donde se 
conclui que o objeto da filosofia das ciências tem que ser um objeto histórico. Toda 
ciência deve produzir, a cada momento de sua história, suas próprias normas de verdade 
e os critérios de sua existência. Isto não significa que todo conhecimento seja relativo, 
mas que a ciência sã constrói através da descoberta de "verdades" constantemente 
retificadas e aproximadas. Resulta, então, que a epistemologia é indissociável da história 
das ciências, quer em seu aspecto "sancionado" (história daquilo que é "científico" na 
prática científica), quer em seu aspecto "superado" (história do "não-científico" .na prática 
das ciências). 
 
É esta nova epistemologia que. Bachelard pretende fundar. Trata-se de uma filosofia das 
ciências que, em 
 
 
 
 
 74 
matéria de teoria do conhecimento, não propõe mais soluções filosóficas para problemas 
científicos já superados. Trata-se de uma filosofia aberta, que não encontra mais em si 
mesma as "verdades primeiras", nem tampouco vê na identidade do espírito a certeza 
que garante um método permanente e definitivo. O que deve ser abandonado é uma 
filosofia que coloca seus princípios como intangíveis e que afirma suas verdades 
primeiras como totais e acabadas. O filósofo não pode ser o homem de uma só doutrina: 
idealista, racionalista ou positivista. Porque a ciência moderna não se deixa enquadrar 
numa doutrina exclusiva. O filósofo não pode ser menos ousado e corajoso que os 
cientistas. O empirismo precisa ser compreendido. Por outro lado, o racionalismo precisa 
ser aplicado. É isto que faz o progresso filosófico relativamente às ciências. Não há 
nenhuma intenção, em Bachelard, de humilhar as filosofias. Ele quer apenas acordá-las 
de seu "sono dogmático", para nelas suscitar o desejo de revalorizar sua situação em 
relação às ciências contemporâneas. Ele quer dar à filosofia a chance de tornar-se 
contemporânea das ciências. Porque a determinação específica da filosofia deve definir-
se por sua relação com as ciências. Ela se define nesta e por esta intervenção, tentando 
descobrir as condições reais e históricas da produção dos conhecimentos científicos. 
 
O que devemos reter da vertente poética da obra de Bachelard? A poesia, ou melhor, as 
poesias, porque há formas de poesia que são outras tantas correspondências antitéticas 
das formas do pensamento racional, são outro modo de se vencer a solidão do instante. 
 
A liberdade poética enraíza-se na necessidade do "eu", da mesma forma como a 
necessidade da "verdade" científica só pode aparecer naquele que tomou uma liberdade, 
uma distância relativamente ao "eu" sonhador. A imaginação não é uma faculdade entre 
outras. Ela é o poder 
 
 
 
 75 
constitutivo radical que nos afirma como sujeitos e os fenómenos como objetos. A 
imaginação é para a poesia o que o trabalho é para o pensamento: sua infra-estrutura 
fundamental. Assim como o trabalho de pesquisa gera o pensamento, da mesma forma a 
imaginação gera o charme poético. Em ambos os casos, a consciência sai da 
inconsciência através da mediação de uma tematização do implícito. A consciência de si 
é nosso retorno finito a nós mesmos pela tematização das imagens simbólicas 
elementares dos objetos da natureza. Ao passo que a consciência exata de objetividade 
é um caminho infinito que nos liga à natureza das coisas pela tematização dos atos 
operatórios, pelos quais garantimos seu estatuto. Todo aquele que se esquece dessa 
tensão e dessa dualidade da imaginação em nós, ou se dedica exclusivamente à poesia, 
apegando-se às formas arcaicas do saber (como os que se ocupam com astrologia ou 
magia), ou então se consola com sua própria ignorância científica, pretendendo que a 
poesia é a mais alta forma de saber. 
 
No entanto, para vencer a solidão do instante, a poesia vai até mais longe do que a 
ciência, pois ela aceita o que ele tem de trágico. Há uma agonia do instante. Agonia que 
é uma exaltação. Contra o tempo horizontal que corre de modo monótono, Bachelard 
escolhe o tempo que se verticaliza na descoberta poética. Ao invés de reter o instante e 
dizer-lhe: "pára, tu és belo", a poesia se exalta com sua deteriorização, pois este é o 
preço da novidade. Desta análise, surgiu toda a crítica literária moderna, crítica criadora. 
Diferentemente das metáforas, que têm por objetivo transmitir um pensamento interior, 
um pensamento já feito, a imagem é criadora de pensamentos. Causa, e não efeito, a 
consciência ima-einadora é uma origem. Ao denunciar o objetivismo que reduz a imagem 
a um retrato em miniatura, Sartre admi- 
 
 
 
 76 
tiu, no entanto, que ela evoca um ser ou um objeto como ausentes. Segundo Bachelard, 
ao contrário, a imaginação é energética: ela é anterior à memória. Sob a imagem, a 
psicanálise procura a realidade. Todavia, ela se esquece da procura inversa: buscar a 
positividade da imagem sobre a realidade. Porque a imagem não pode lembrar antigos 
arquétipos inconscientes. Ela é uma espécie de movimento sem matéria que se enraíza 
na experiência material elementar. Os "elementos", água, ar, terra, fogo, desempenham 
um papel essencial na vida interior do homem e, por conseguinte, em sua expressão 
poética. 
 
É a imaginação que nos faz mergulhar na profundidade das coisas. Ela nos faz descobrir 
as forças vivas da natureza. Ao libertar-nos de tudo o que é convencional, social, 
mundano, superficial, ela nos faz penetrar no interior das coisas. Podemos dizer que ela é 
o espírito, enquanto voltado para o corpo e misturado com o mundo. Daí a razão de ser 
da pergunta: quando um "sonhador" fala, quem fala, ele ou o mundo? De um lado, temos 
a cidade dos conceitos, a Sociedade dos cientistas e o internacionalismo da Ciência; do 
outro, porém, encontramos a solidão do artista que revive, em suas imagens e em seus 
mundos, o drama do mundo. No entanto, é o artista que cria mais: a imaginação começa 
e a razão recomeça. Ambas nos fazem aceder ao universo do espírito, quer dizer, a uma 
realidade superior. Esta pode parecer irreal, mas é porque é negadora da percepção 
comum. Na verdade, ela é mais profundamente sobre-real. O verdadeiro mundo de 
Bachelard é o da sobre-realidade. É por isso que ele diz que o homem é este ser que tem 
o poder de "despertar as fontes". É este poder inesgotável que está na. origem tanto do 
aspecto polémico da razão científica, de uma oposição ao realismo empírico, de sua 
recusa do dado, quanto do aspecto criador da imaginação poética: quando uma criança 
começa a pensar, ela cria um mundo. 
 
 
 
 77 
A sobre-realidade é a própria realidade apreendida em sua maior profundidade: a função 
do irreal é o dinamismo do espírito. Não sonhamos com ideias ensinadas. O mundo ébelo antes de ser verdadeiro. É admirado antes de ser verificado. A obscuridade do "eu 
sinto" deve primar sobre a clareza do "eu vejo". O homem é um ser entreaberto. Quando 
ele cria, desata ansiedades. Criar é superar uma angústia. O belo não é um simples 
arranjo. Tem necessidade de uma conquista. O mundo deixa de ser opaco, quando 
olhado pelo poeta. Este lhe dá mobilidade. O homem é um ser que se oferece à vida, 
deixa-se possuir por ela, para poder possuí-la. Olha o presente como uma promessa de 
futuro. Uma de suas forças é a ingenuidade, que o faz cantar seu próprio futuro. A 
filosofia não nasce de seu passado, dê outra filosofia, mas de um olhar novo sobre o 
mundo, de uma nova maneira de se aceder às coisas. O mundo é a provocação do 
homem. Este se revela criador, fonte única, despertador de mundos: o da ciência e o da 
arte. É o ser que responde a todas as provocações, sobretudo à do instante, pela criação 
e pela invenção. Vivemos num mundo em estado de sono. Precisamos despertá-lo, 
graças ao diálogo com as outras pessoas, de um "encontro" que pode ser considerado 
como a "síntese" do acontecimento e do eterno. Despertar o mundo, eis a coragem da 
existência. E esta coragem é o trabalho da pesquisa e da invenção. O essencial é que 
permaneçamos sempre em estado de apetite. É por isso que Bachelard como que se 
definia a si mesmo, ao formular sua oração cotidiana: "Fome nossa de cada dia nos dai 
hoje". 
 
Bachelard continua ainda bastante incompreendido. Continuamos ainda a aplicar-lhe 
interpretações "redutoras". É por isso que Canguilhem dá pouca importância às etiquetas 
que os amadores de classificações procuram colar sobre o que não é o seu sistema. Por 
exemplo, se 
 
 
 
 78 
os censores de ideologias heterodoxas chamam-no de idealista, porque ela f borda a 
ciência pelos métodos físico-matemáticos, devemos responder: idealismo discursivo, quer 
dizer, elaborado, construído, e não triunfante, sem conhecer obstáculos. Por outro lado, 
se o chamamos de materialista, porque ele valoriza as experiências de laboratório, 
devemos responder: materialismo racional, quer dizer, instruído e não ingênuo, operante 
e não dócil, que não recebe passivamente sua matéria, mês que se dá sua matéria, que a 
constrói (Hommage à G. Bacherlad, P.U.F., p. 11). 
 
A influência de Bachelard, pela equidade do juízo crítico relativamente à criação poética, 
faz dele um dos autores que mais marcaram o último quarto do século. Também ele foi 
um fenomenólogo. Husserl definia a fenomenologia como um "retorno às coisas". Neste 
sentido, Bachelard foi um grande fenomenólogo: de um lado, mostrando que a ciência 
deveria ser uma "fenomenotécnica"; do outro, conduzindo sua reflexão sobre a 
imaginação até o ponto de ela poder manifestar seu poder "ontológico", sua densidade de 
ser. O homem habita poeticamente o mundo, embora seja habitado pelo saber. 
 
Esta filosofia do imaginário marcou também a literatura, a ciência e a filosofia. No campo 
científico, teve o mérito de mostrar aos cientistas que o positivismo ingénuo não poderia 
ser mais a filosofia de sua prática. No campo filosófico, teve o mérito de mostrar aos 
filósofos que sua razão deve ser um produto da reflexividade dos atos, pelos quais o 
homem produz os instrumentos operatórios que são os conceitos. No campo literário, 
teve o mérito de estar na origem do movimento conhecido pelo nome de "nova crítica" 
literária. 
 
A nosso ver, quem melhor retomou o projeto bacheiardiano de "dar à ciência a filosofia 
que ela merece" foi G. Canguilhem. Com efeito, ele contesta tanto as 
 
 
 
 
 79 
"alienações" das filosofias idealistas do conhecimento quanto os exageros "objetivantes" 
das filosofias positivistas. E acredita que, assim como a epistemologia de Bachelard é 
histórica, uma verdadeira história das ciências só pode ser epistemológica. E entre as 
três razões para fazê-la: histórica (extrínseca à ciência: discurso verificado sobre um 
setor da experiência), científica (experimentada pelos cientistas enquanto 
pesquisadores), é a terceira, a razão propriamente filosófica, que é a mais verdadeira: 
"sem referência à epistemologia, uma teoria do conhecimento seria uma meditação sobre 
o vazio; e sem relação à história das ciências, uma epistemologia seria uma réplica 
perfeitamente supérflua da ciência sobre a qual pretenderia discorrer". Por isso, a história 
das ciências de forma alguma pode ser entendida como uma crónica. Pelo contrário, 
consiste em tornar sensível e inteligível, ao mesmo tempo, a edificação difícil, retomada e 
retificada do saber. Por outro lado, ela deve eliminar o "vírus do precursor". A rigor, se 
existisse precursor, a História das ciências perderia todo o seu sentido, pois a própria, 
ciência só teria dimensão histórica na aparência. A complacência em procurar e descobrir 
precursores é o sintoma mais claro de inaptidão à crítica epistemológica. E isto, porque a 
ciência deve ter sua temporalidade específica e proceder sempre por reorganizações, por 
rupturas e mutações, passando pela experiência de acelerações e de recuos. 
 
Segundo Canguilhem, Bachelard revolucionou a epistemologia contemporânea, não 
somente por ter introduzido os conceitos-chave de "Recorrência", "Vigilância", 
"Obstáculo" e "Corte" epistemológicos, mas por ter reconhecido que a "a ciência não é o 
pleonasmo da experiência": ela se faz contra a experiência, contra a percepção e toda 
atividade técnica usual. Sendo uma operação especificamente intelectual, tem uma 
história, mas 
 
 
 
 80 
não tem origens. É a génese do Real, embora sua própria génese não possa ser narrada, 
apenas descrita como recomeço, pois não é a frutificação de um pré-saber. E é para 
provar a coerência desta epistemologia que Canguilhem formula um corpo de axiomas, 
cuja duplicação em código de normas intelectuais revela-nos que sua natureza não é a 
de evidências imediatamente claras, mas a de instruções laboriosamente recolhidas e 
comprovadas. Eis, em síntese, os três axiomas: 
 
1. O primeiro é relativo ao primado teórico do erro.A objetividade de uma ideia será 
mais clara e mais distinta, na medida em que aparecer sobre um fundo deerros 
mais profundos e mais diversos. Em outros termos:para se ressalvar o valor de 
uma ideia objetiva, é preciso recolocá-la dentro do círculo das ilusões imediatas. É 
preciso errar para se atingir um fim. A verdade só adquire seu pleno sentido no 
término de uma polémica. Não pode haver verdade primeira. Só existem erros 
primeiros.Mais lapidarmente, o mesmo axioma se enuncia: "Um verdadeiro sobre 
um fundo de erros, eis a forma do pensamento científico". A primeira e a mais 
essencial função do Sujeito é a de se enganar. Quanto mais complexo for seu erro, 
mais rica será sua experiência. A experiência é precisamente a lembrança dos 
erros retificados. O ser puro é um ser "desiludido". 
 
2. O segundo é relativo à depreciação especulativa da intuição. "As intuições são 
muito úteis: elas servem para ser destruídas." Este axioma é convertido em norma 
de confirmação, segundo duas fórmulas: "Em todas as circunstâncias, o imediato 
deve dar lugar ao construído". "Todo dado deve ser reencontrado como um 
resultado." 
 
 
 3. O terceiro é relativo à posição do objeto como perspectiva das ideias. "Nós 
compreendemos o Real na medida em que a necessidade o organiza... Nosso pen- 
 
 
 
 81 
samento vai ao Real, não parte dele" (in Hommage à G. Bachelard, Paris, 1957, pp. 3-
12). Em outras palavras: "O ponto de vista cria o objeto" (Saussure). Quer dizer: o real 
nunca toma a iniciativa, pois só poderá responder algo quando nós o interrogarmos. Os 
dados só poderão responder completa e adequadamente a questões para as quais e 
pelas quais eles foram construídos: "os fatos não faiam" (Poincaré). A epistemologia de 
Bachelard contribuiu, decididamente, para que se destruísse a crença na "imortalidade 
científica dos fatos"e em sua "imaculada concepção" (Nietzsche). 
 
 
 
 82 
 
 
 
 
 83 
A EPISTEMOLOGIA "RACIONALISTA-CRÍTICA" DE K. POPPER 
 
 
 
 84 
 
 
 
 
 85 
Popper elaborou sua epistemologia ou, mais precisamente, sua "filosofia das ciências", 
ao mesmo tempo dentro e fora da corrente de pensamento chamada de empirismo lógico 
ou de neopositivismo, originada do Círculo de Viena, – fundado em 1924 por Schlick e 
tentando fazer uma síntese entre o empirismo e a logística. Dentro, porque é um de seus 
primeiros integrantes e um dos defensores de suas ideias essenciais; fora, porque 
apresentou-se desde cedo como um dos mais ardorosos dissidentes da "Escola", como o 
mais ilustre representante da "oposição oficial", sobretudo no que diz respeito aos 
critérios da verificação experimental nas ciências. Na Inglaterra, onde passa a ensinar a 
partir de 1946, Popper é considerado como um dos filósofos oficiais da democracia 
liberal, pois tentou aplicar à política uma das ideias fundamentais de sua filosofia das 
ciências: como qualquer outra teoria, a teoria política deve ser testada no contato com os 
fatos. Contudo, testada negativamente, quer dizer, podendo eventualmente ser refutada 
pela 
 
 
 
 86 
experiência, e não, propriamente falando, confirmada por ela. 
 
Por sua obra, Popper é mais conhecido como filósofo político do que como filósofo das 
ciências. Contudo, é de primeira importância sua contribuição no campo da filosofia das 
ciências. Neste domínio, seu pensamento se opõe a duas tendências marcantes da 
epistemologia anglo-saxônia: a do positivismo lógico e a da filosofia "da linguagem". 
Popper combateu vigorosamente os dois movimentos filosóficos que inspiraram, de um 
lado, o neopositivismo lógico e, do outro, a filosofia "linguística" ou "da linguagem 
ordinária". Por isso, convêm situarmos, em suas grandes linhas, pelo menos os 
postulados essenciais ao empirismo que deu origem às críticas de Popper. Em seguida, 
veremos como ele se opõe às concepções empiristas, sobretudo de R. Carnap. 
 
1. Princípio do empirismo 
 
O "empirismo lógico", também chamado de "Movimento para a unidade da ciência", 
surgiu num meio bastante propício à difusão das ideias empiristas. Ele nasceu da 
conjunção de duas correntes aparentemente irreconciliáveis: de um lado, o empirismo 
físico e psicológico de E. Mach, que, na qualidade de físico, insistia sobre o papel das 
"experiências mentais" e da economia do pensamento na dedução das leis e, enquanto 
epistemólogo e psicólogo, buscava reduzir toda experiência a um puro jogo de 
sensações; do outro lado, a logística, devendo desempenhar um papel importante na 
análise dos fundamentos das matemáticas. O mérito de Schlick foi o de tentar a 
conjunção dessas duas correntes, procurando dessolidarizar a logística de seu 
platonismo antigo, e considerando as estruturas lógico-matemáticas 
 
 
 
 
 87 
como simples linguagem tautológica, cuja função essencial seria a de exprimir 
adequadamente as verdades da experiência. 
 
Não vamos analisar aqui o projeto grandioso da Escola de Viena, que foi o de tentar uma 
unificação do saber científico e o de elaborar um método científico comum a todas as 
ciências, de tal forma que fosse não somente uma garantia contra o erro, mas também 
uma garantia contra o acúmulo de conceitos vazios de significação e contra todos os 
pseudoproblemas que tanto atravancaram as discussões epistemológicas. Limitemos 
nosso estudo aos postulados básicos do empirismo lógico, tentando mostrar alguns de 
seus limites. 
 
O esforço inicial do empirismo lógico consistiu em delimitar de modo bastante preciso o 
domínio das linguagens empíricas e em descrever com o, máximo rigor possível o 
estatuto metodológico das ciências positivas. Para tanto, precisou determinar não 
somente os critérios de verdade e de falsidade dos enunciados empíricos, mas os 
critérios de seu sentido. A instauração dos critérios do sentido inspira-se na própria 
prática das ciências: estas desenvolvem um projeto intelectual que é o do empirismo. A 
originalidade do empirismo lógico foi a de formular de modo claro e de levar adiante esse 
projeto. A preocupação fundamental do empirismo consistia em reduzir todo o conteúdo 
do conhecimento a determinações observáveis. Todavia, ao tratar-se de determinar as 
condições de tal "redução", constatou-se que não era possível contentar-se com o 
simples critério da verificabilidade direta. Outro critério precisaria ser levado em conta: o 
das possibilidades introduzidas pelo emprego da linguagem, que vão muito além daquilo 
que é efetivamente observado. Introduz-se, assim, a ideia de confirmação pela realidade, 
que tanto pode ser uma sim- 
 
 
 
 
 88 
ples "confirmabilidade" de princípio ou potencial, quanto uma "confirmabilidade" efetiva ou 
em ato. Esta última estaria fundada sobre procedimentos que podem ser empregados 
concretamente. 
 
Por sua vez, as formas da linguagem têm o caráter de poder permitir-nos preceder à 
experiência. No entanto, elas só têm valor de antecipação a experiências possíveis. Se 
levarmos em conta as ligações lógicas tornando possível a vinculação de uma hipótese a 
outras hipóteses, quer dizer, se considerarmos o caráter quase sempre indireto da 
vinculação com os dados empíricos, somos forçados a admitir, como critério do sentido, o 
critério da tradutibilidade, ou seja, da ligação dedutiva. O importante é que, em qualquer 
hipótese, há sempre uma referência à experiência. E o conteúdo daquilo que é expresso 
na linguagem não chega a ultrapassar aquilo que se anuncia efetivamente na indicação 
das démarches práticas tornando possível a simples constatação. 
 
Por outro lado, além da linguagem descritiva, também podemos 'admitir uma linguagem 
metodológica, cuja função não é a de exprimir o conteúdo da experiência, mas explicar a 
própria démarche científica, tentando elucidar suas condições e seus critérios. Aliás, são 
as possibilidades da linguagem que se prestam a vários mal-entendidos, sobretudo no 
que diz respeito aos problemas filosóficos. Por sua vez, a linguagem metodológica torna-
se, em seu emprego legítimo, o instrumento fundamental da filosofia, sobretudo em sua 
forma válida, isto é, na forma de uma teoria da ciência. Não obstante, a linguagem 
metodológica não comporta proposições sintéticas, pois não afirmam nem negam algo a 
respeito do real. Ela comporta apenas proposições analíticas e proposições descritivas. 
Em outros termos, não introduz nenhum conteúdo de conhecimento capaz de 
transcender o domínio do empiricamente observável. 
 
 
 
 89 
Evidentemente, se o único discurso dotado de sentido reduz-se ao discurso da ciência e 
da metodologia científica, ou então ao discurso das proposições com referência empírica 
ou simplesmente tautológicas, não há nenhuma razão para que tenha validade qualquer 
discurso de ordem filosófica. O problema consiste em saber se o domínio do sentido 
poderá ser circunscrito a esta única forma de discurso. A este respeito, podemos nos 
perguntar: não constitui o postulado empírico um pressuposto injustificado e injustificável? 
Em outras palavras: não haveria um acesso ao sentido que poderia afirmar-se 
independentemente de todo procedimento de verificação, inclusive de confirmação? No 
fundo, trata-se de saber se a interpretação neopositivista do princípio do empirismo está 
em perfeita adequação com a prática efetiva da ciência. Eis o campo da reflexão de 
Popper. Antes, porém, de entrarmos em seu pensamento, façamos ainda algumas 
considerações sobre o princípio do empirismo: 
 
1. Este princípio, em seu sentido lato, significa que não podemos dispor de uma 
experiência que seja inteiramente independente da experiência sensível. Por outro lado, 
não podemos dispor de uma experiência que seja capaz de nos fornecer um verdadeiro 
conhecimento, quer dizer, um conhecimento objetivo e comunicável, podendo fundarum 
saber racional. Aceitar semelhante posição de forma alguma significa negar a 
possibilidade de haver experiências não vinculadas à percepção, nem tampouco que tais 
experiências possam fornecer-nos conhecimentos de outra ordem, mas simplesmente 
recusar que seja possível a construção, sobre tais experiências, de um saber susceptível 
de responder ou corresponder as normas clássicas da ciência. Em síntese, o postulado 
empirista não significa outra coisa senão a impossibilidade de poder existir uma intuição 
intelectual pura. Se por acaso dispuséssemos de tal intuição, certamente podería- 
 
 
 
 
 90 
mos fundar sobre ela um saber racional puro, quer dizer, uma ciência verdadeira, mas 
prescindindo por completo da experiência sensível. Ora, não dispondo de tal visão direta, 
tendo por objetivo a descoberta das ideias ou essências, somos forçados, se quisermos 
conhecer a realidade, a fazer apelo a este tipo de experiência comunicável, que é a 
experiência sensível. 
 
 2. A segunda observação diz respeito ao papel da experiência. Há duas maneiras de 
entendermos este papel: a) Segundo a posição positivista, retomada pelo empirismo 
lógico, aquilo que podemos atingir, através da experiência, é apenas o singular: o único 
conteúdo de conhecimento de que podemos dispor são, pois, as constatações sensíveis; 
b) Todavia, graças às operações intelectuais descritas pela lógica e expressas pela 
linguagem,torna-se possível evidenciarmos, na massa daquilo que é constatável, certas 
regularidades; ademais, podemos estabelecer certas ligações sistemáticas e constituir, 
assim,progressivamente, um saber de tipo universal. A característica essencial desse 
saber é que ele pode ser fundado rigorosamente: de um lado, através do emprego de 
operações definidas pela lógica e praticadas por todos do mesmo modo; do outro, através 
da utilização dos métodos de verificação remetendo a constatações de tipo elementar e 
permitindo um acordo prático quanto ao conteúdo da experiência. O papel da lógica é o 
de colocarem jogo apenas as formas operatórias. Ela não pode fornecer nenhum 
conteúdo real. Mas é graças à intervenção dessas formas que podemos organizar o 
conteúdo de uma ciência. Portanto, este modo de conceber o papel da experiência 
sensível constitui o que podemos chamar de posição empirista no sentido estrito. 
 
 3. Outra maneira de concebermos o papel da experiência sensível é através da 
epistemologia conceitua-lista. Segundo este modo de ver, há um retorno à expe- 
 
 
 
 
 91 
riência sensível. O objetivo, porém, dessa volta é a obtenção de conteúdos de 
conhecimento. Não se fica mais adstrito à simples apreensão do singular. O dado 
perceptivo já engloba um conteúdo de significação. Ele é captado na própria apreensão 
do sensível, mediante uma operação intelectual de tematização. Em outras palavras, há 
uma atividade intelectual que nos permite apreender, através da tessitura dos conteúdos 
sensíveis, as formas inteligíveis por meio das quais esses conteúdos tornam-se 
acessíveis ao conhecimento e significantes para nós. Sendo assim, o domínio dos atos 
intelectuais não se limita às operações descritas pela lógica, mas comporta o domínio da 
atividade conceitualizada do pensamento. É através do conceito que o pensamento 
profere o inteligível que apreende e encontra aquilo que, na experiência sensível, pode 
dar-se a conhecer. Quer interpretemos a relação do conceito com o sensível mediante 
uma teoria da abstração, quer mediante uma teoria da reminiscência, trata-se de uma 
especificação ulterior da posição conceitualista. 
 
4. Se não há intuição intelectual, não podemos fazer a economia da percepção. E se o 
pensamento conceitual nos dá acesso ao inteligível, não é à maneira da ideia pura, pois o 
conceito comporta uma referência à realidade empírica: através do inteligível, ele visa o 
sensível. Portanto, só pode ser utilizado e, consequentemente, abrir a possibilidade de 
uma ciência, na medida em que for restituído à coisa mesma que ele tem por função 
esclarecer. Aliás, a função da proposição consiste em operar tal restituição. Se não temos 
acesso às essências puras, nosso saber não pode consistir numa simples visão de 
formas, mas deverá proceder por divisão e por composição: ele instaura um vaivém entre 
a apreensão sensível e' a apreensão intelectual. E é assim que percebemos a 
necessidade da verificação. Mas esta não tem o 
 
 
 
 
 92 
mesmo sentido que no empirismo lógico. Evidentemente, devemos comprovar o juízo 
pela experiência, pois, em si mesmo, ele não comporta a garantia de sua veracidade. Isto 
seria verdade se o juízo fosse apenas uma relação entre ideias puras, apreendidas por 
intuição. Neste sentido, o juízo seria apenas expressão da intuição, encontrando nela sua 
garantia. No entanto, o juízo é recomposição do pensamento daquilo que dele foi 
separado: ele faz apelo à constatação que irá atestar que a síntese operada pelo espírito 
conforma-se com a situação real. E isto segundo a ambição do pensamento "julgador", 
que só passa pelo juízo para situar o conceito em seu contexto concreto e para permitir-
lhe exercer plenamente sua função cognitiva. 
 
5. É neste contexto que se situa a filosofia das ciências de Karl Popper. No fundo, o que 
ela coloca em jogo é o problema clássico da indução. Trata-se de elucidar duas questões: 
a) como é possível a elaboração de uma teoria científica a partir de observações em 
número sempre finito? b) como é possível o estabelecimento da "verdade" de uma teoria 
(sua aplicabilidade a uma infinidade de casos) apoiando-se apenas em bases 
observacionais? O primeiro problema faz apelo a uma teoria da invenção, cujo objetivo 
consiste em explicar quais são os processos psicológicos e lógicos capazes de permitir a 
formulação das teorias científicas. O segundo, de ordem mais epistemológica, diz 
respeito ao que se convencionou chamar de "valor" das teorias científicas, quer dizer, ao 
grau de confiança que podemos lhes conferir, em função dos dados empíricos de que 
podemos dispor. O que vai nos interessar na filosofia das ciências de Popper é apenas a 
elucidação deste último problema, na medida em que sua posição se opõe às do 
empirismo lógico, notadamente às de Carnap. 
 
 
 
 
 93 
2. Princípio da verificação e da falsificação 
 
A preocupação epistemológica essencial de Popper diz respeito, como vimos, à 
elucidação do "valor" das teorias científicas, ou seja, ao grau de confiança que podemos 
depositar mias, em função dos dados empíricos de que podemos dispor. Neste nível, ele 
deu uma contribuição decisiva para a solução de dois problemas fundamentais e 
estreitamente ligados um ao outro: o primeiro problema é o da demarcação entre ciência 
e metafísica, isto é, entre conhecimentos científicos e conhecimentos de ordem supra 
científica; o segundo é o problema da indução e de seu valor para a ciência. Para 
resolver esses dois problemas, Popper teve que combater veementemente os dois 
dogmas fundamentais das teorias do conhecimento e das epistemologias empiristas 
tradicionais. O primeiro dogma se resume na ideia segundo a qual a ciência deve 
repousar numa base observacional mais ou menos intangível. O segundo dogma está 
contido na ideia segundo a qual a ciência deve utilizar um método indutivo, por oposição 
ao método especulativo das pseudociências e da filosofia. 
 
O problema filosófico clássico da indução pode ser formulado sob a forma de uma 
questão: o que pode justificar nossa crença na possibilidade de o comportamento dos 
fenómenos ser, no futuro, análogo ao seu comportamento no passado? Em outras 
palavras: que tipo de justificação podemos invocar para nossas inferências indutivas em 
geral? Baseando-se na colocação inicial de Hume, Popper discerne, nessas questões, 
dois problemas: um lógico, outro psicológico. O problema lógico da indução consiste em 
saber sobre o que podemos nos basear paratirar, de vários casos particulares 
observados, conclusões relativas aos casos não observados. Por sua vez, 
 
 
 
 
 94 
o problema psicológico consiste em saber por que, sem justificação lógica, os cientistas 
são levados a crer que os casos não observados poderão conformar-se com os que 
foram observados. 
 
Recolocado em sua relação com o conhecimento científico, o problema lógico pode ser 
formulado da seguinte maneira: será que podemos justificar empiricamente, quer dizer, 
segundo a verdade de certos enunciados observacionais, a afirmação segundo a qual 
uma teoria explicativa universal deva ser verdadeira? A esta questão, Popper responde 
dizendo que, por maior que seja o número de enunciados observacionais verificados, não 
temos o direito de concluir pela existência da verdade de uma teoria universal. E a razão 
que ele dá é a seguinte: uma teoria universal afirma algo que ultrapassa, de muito, aquilo 
que pode ser expresso numa enorme quantidade de enunciados observacionais. Todavia, 
se substituirmos o problema da verificação pelo da falsificação, a resposta de Popper é 
positiva, porque a verdade de certos enunciados observacionais pode autorizar-nos a 
decretar a falsidade de uma teoria universal. No sentido técnico da epistemologia de 
Popper, uma proposição torna-se "falsificável" desde o momento em que aparece um 
enunciado observacional capaz de contradizê-la, isto é, a partir do momento em que 
podemos deduzir, desta proposição, a negação de um enunciado observacional. Assim, a 
proposição universal "todos os cisnes são brancos" não é verificável, mas falsificável. Em 
contrapartida, a proposição existencial "há corvos brancos" não é falsificável, mas 
verificável. 
 
Donde se conclui que, entre várias teorias em competição, nossa preferência por uma 
delas pode justificar-se por razões empíricas, porque nossos enunciados observacionais 
podem refutar algumas delas, mas não todas. E quando várias teorias rivais se 
apresentam, devemos preferir aquelas cuja falsidade ainda não está estabele- 
 
 
 
 
 95 
cida. Popper chega a outra conclusão: todas as leis e teorias científicas são, em sua 
essência, hipotéticas e conjecturais. Exemplo: nunca houve uma teoria tão bem 
estabelecida ou confirmada quanto a de Newton. No entanto, a teoria de Einstein veio 
mostrar que a teoria newtoniana não passa de uma hipótese ou conjetura. Ora, se uma 
teoria é; antes de tudo, uma conjetura, e se seu valor se mede sobretudo por sua 
falsificabilidade, não há como negar que, entre teorias rivais, é mais interessante aquela 
que melhor se presta à falsificabilidade ou que é melhor testável. Esta teoria terá maior 
conteúdo informativo e maior fecundidade explicativa. Porque, quanto mais ambiciosas e 
precisas forem as asserções formuladas por uma teoria sobre a realidade, mais eia é 
capaz de nos fornecer os meios de testá-la e as ocasiões de falsificá-la. Esta teoria é 
melhor porque, se é capaz de resistir a todos os testes, pode ser considerada como a 
melhor testada. Contudo, não pode haver uma confirmação positiva de uma teoria pela 
experiência. Dizer que uma teoria é, no momento, tão bem estabelecida quanto possível, 
é reconhecer que ela resiste a todos os testes possíveis de falsificação. Deste ponto de 
vista, Popper não considera como científica a teoria psicanalítica. Mas não é pelo fato de 
ela não poder ser suficientemente verificável ou confirmável, mas porque não podemos 
indicar, a priori, nenhuma experiência e nenhum fato capazes de abalar ou de refutar 
essa teoria. 
 
Popper considera as teorias científicas como livres criações de nosso espírito, como o 
resultado de uma tentativa feita para compreendermos intuitivamente as leis da natureza. 
Contudo, não nos compete impor nossas criações à natureza. Pelo contrário, 
simplesmente a questionamos, e procuramos obter, através dela, respostas negativas 
quanto à verdade de nossas teorias. Não é nosso objetivo demonstrar ou verificar nossas 
teorias. O que pretendemos fazer é testá-las, tentando infirmá-las ou fal- 
 
 
 
 
 96 
sificá-las. Em outras palavras, a intenção de Popper é mostrar que, nas ciências, não há 
indução, consequentemente, não há o problema filosófico do "fundamento" da indução. 
Em segundo lugar, nega que haja realmente, nas ciências, procedimento de verificação, 
porque todos os testes a que são submetidas as teorias não passam de tentativas de 
refutação. Finalmente, mostra que uma teoria, que consideramos como confirmada até 
certo ponto pela experiência, não passa de uma teoria que ainda não conseguimos 
infirmar, apesar dos esforços para consegui-lo. 
 
Esta posição de Popper opõe-se diretamente às concepções oriundas do Círculo de 
Viena. Num certo sentido, foi contra os empiristas lógicos que ele escreveu A lógica da 
descoberta científica (1934). Num primeiro momento, os neopositivistas admitiram que só 
seriam dotados de significação os enunciados empíricos (não lógico-matemáticos) 
capazes, pelo menos em princípio, de serem verificados completamente por uma 
evidência de tipo observacional (princípio da verificação). Os enunciados filosóficos, sem 
nenhum procedimento de verificação, empírica, seriam desprovidos de significação e 
inadequados para a discussão racional. Ora, diz Popper, semelhante posição não 
somente é fatal para a metafísica, mas para a própria ciência. E a razão que ele dá éa 
seguinte: todas as proposições de forma universal, quer dizer, exprimindo leis gerais, são 
proposições que não podem ser validadas inteiramente por nenhum conjunto finito de 
enunciados observacionais. 
 
Os empiristas lógicos viram-se obrigados a mudar o critério da verificabilidade no sentido 
estrito pelo critério da confirmabilidade parcial e, eventualmente, indireta pela evidência 
observacional. Esta foi a solução proposta por Carnap em Testability and meaning 
(1936). Todavia, Carnap não conseguiu desvencilhar-se da con- 
 
 
 
 
 97 
cepção indutivista e da ideia de uma confirmação positiva, pela experiência, das 
hipóteses e teorias científicas. Os partidários da lógica indutiva defendem a seguinte tese: 
as teorias científicas nunca são, propriamente falando, verdadeiras; elas são, isto sim, 
mais ou menos prováveis; o que podemos atribuir-lhes, é um certo grau de confirmação 
ou certa probabilidade, expressos por um número real entre 0 e 1, com base numa 
determinada evidência observacional. 
 
Ora, no dizer de Popper, esta concepção é errónea em seu próprio princípio: "Não creio 
que seja possível construir um conceito da probabilidade de hipóteses capaz de ser 
interpretado como exprimindo um 'grau de validade' da hipótese, de modo análogo ao 
que se passa com os conceitos de 'verdadeiro' e de 'falso' (e que, além do mais, esteja 
estreitamente ligado ao conceito de 'probabilidade objetiva', isto é, à frequência relativa, 
para justificar o emprego do termo 'probabilidade')" (La Logique de la Découverte 
Scientifique, p. 268). Portanto, a crítica feita por Popper à concepção de Carnap pode ser 
resumida em três observações: 
 
 a) aquilo que procuramos nas ciências é um elevado conteúdo de informação e não 
um alto nível de probabilidade; 
 b) o que pretendemos alcançar é um alto grau de confirmação, mas que esteja 
apoiada num elevado conteúdo de informação; 
 c) a busca de uma probabilidade elementar implica a adoção de uma regra que, 
contrariamente a todos os princípios, favoreça sistematicamente as hipóteses ad hoc (cf. 
Conjectures and refutations, p. 287). 
 
Assim, a probabilidade lógica de um enunciado é o inverso de seu grau de 
falsificabilidade: ela aumenta à medida que decresce seu grau de falsificabilidade. As 
 
 
 
 
 98 
proposições logicamente verdadeiras têm um grau de falsificabilidade nulo e uma 
probabilidade igual a 1. Mas elas não têm nenhum Conteúdo informativo, nada nos 
ensinando sobre o mundo. Assim entendida, a probabilidade não podeser o ideal a que 
devem prender-se as teorias científicas. Estas devem ligar-se a proposições dotadas de 
conteúdo empírico* também chamadas de enunciados observacionais. Uma proposição é 
dotada de conteúdo empírico real se, e somente se, seus "falsificadores potenciais" 
pertencerem a uma classe não vazia. O que não é o caso das proposições filosóficas. 
Quanto mais um enunciado excluir eventualidades, mais ele dirá coisas sobre o mundo 
da experiência, e mais rico será seu conteúdo empírico. As leis da natureza, por exemplo, 
são menos descritivas que proscritivas, pois, ao invés de afirmarem a existência de certos 
estados de coisas, elas os proscrevem. A lei da conservação da energia pode ser 
formulada do seguinte modo: "Não há máquina que seja animada de um movimento 
perpétuo" (La Logique..., p. 67). Resulta disso que os enunciados logicamente 
verdadeiros, compatíveis com qualquer estado do mundo, mas não tendo falsificadores 
potenciais, são desprovidos de conteúdo empírico. Ora, os enunciados menos testáveis 
são os mais dificilmente falsificáveis: os que têm o mais fraco conteúdo empírico e a 
maior probabilidade lógica. Em outros termos, ao afirmar que a "preferibilidade" de uma 
hipótese aumenta com o grau de sua "improbabilidade", Popper não quer dizer que a 
hipótese mais vantajosa seja a que maior chance tiver de ser falsa, mas aquela que, por 
sua forma lógica, for capaz de nos fornecer as melhores possibilidades de podermos 
refutá-la e torná-la falsa. 
 
Segundo Popper, não podemos dispor ás uma razão séria para considerar que uma 
teoria seja verdadeira nem tampouco que ela possua um elevado grau de pro- 
 
 
 
 
 99 
babilidade. Aquilo que o grau de confirmação de uma teoria faz intervir são tentativas de 
confirmação negativa realizadas num determinado momento histórico, sem fornecer 
nenhuma garantia quanto ao seu comportamento futuro. "Por grau de confirmação de 
uma teoria, escreve Popper, entendo um relatório conciso avaliando o estado (num certo 
instante í) da discussão crítica de uma teoria, concernente ao modo como ela resolve 
seus problemas; (entendo) seu grau de testabilidade, o rigor dos testes a que ela foi 
submetida e a maneira como ela resiste a esses testes" (Objective Knowledge, p. 18). 
Isto, porém, não o impede de admitir que as teorias científicas aproximam-se mais ou 
menos da verdade, quer dizer, correspondem mais ou menos exatamente aos fatos. Pelo 
menos em certos casos, devemos fornecer razões para justificar que uma teoria nova 
(por exemplo, a teoria einsteiniana) seja considerada melhor que uma teoria antiga (a 
teoria newtoniana), por estar mais próxima da verdade. A fim de exprimir melhor essa 
ideia, Popper introduz o conceito de verossimilitude lógica. 
 
Este conceito nada tem a ver com os conceitos de "verossimilhança", de "probabilidade" 
ou de "plausibilidade". Na verdade, ele combina duas noções: a) a de verdade semântica, 
concebida como uma reconstrução formal da noção de verdade, no sentido de 
"adequação à realidade"; b) e a de conteúdo de um enunciado: todos os enunciados 
contidos neste enunciado. A construção deste conceito de "verossimilitude" é muito 
complexa e exige uma elaboração bastante técnica. Contentemo-nos em mostrar que 
Popper divide o conteúdo total de um enunciado em dois sub-conteúdos: o conteúdo de 
verdade e o conteúdo de falsidade. De modo bastante esquemático, a verossimilitude 
pode ser concebida como o excedente do conteúdo de verdade em relação ao conteúdo 
de falsidade (cf. Conjectures and Refutations, pp. 391- 
 
 
 
 100 
397). De fato, somente em certos casos-limites (por exemplo 0 e 1), podem ser medidos 
com exatidão o grau de verossimilitude, o conteúdo de verdade ou de falsidade, o grau de 
confirmação ou, mesmo, de probabilidade lógica. Muito embora, na teoria, todos os 
conteúdos sejam comparáveis, na prática, devemos limitar-nos aos raros casos 
favoráveis em que teorias rivais fornecem soluções diferentes para os mesmos 
problemas. Popper dá o exemplo da comparabilidade intuitiva da teoria de Einstein (E) e 
da teoria de Newton (N): 
 
 — a toda questão à qual N dá uma resposta, também E fornece uma resposta pelo 
menos tão precisa quanto a de N, quer dizer, o conteúdo de N é menor ou igual ao de E; 
 
— há questões que E pode responder, enquanto N não pode; neste caso, o conteúdo 
de N é menor que o de E. 
 
Donde se pode concluir que a teoria einsteiniana é virtualmente melhor que a 
newtoniana. Porque, antes mesmo de poder ser testada, podemos dizer que, se ela é 
verdadeira, tem um poder explicativo maior, podendo fornecer mais informações sobre os 
fatos. Se quisermos, porém, saber qual de duas teorias rivais (T1 e T2) será efetivamente 
a melhor, num caso particular, devemos recorrer ao seguinte princípio geral: T1 tem uma 
verossimilitude menor se, e somente se: a) seus conteúdos de verdade ou de falsidade 
são comparáveis; b) o conteúdo de verdade (não o de falsidade) de T1 é menor que o de 
T2; c) o conteúdo de verdade de T1 não é maior que o de T2, embora o seja seu 
conteúdo de falsidade. 
 
 
 101 
3. Algumas conclusões: 
 
 1. O que nos interessou na filosofia das ciências de Popper foi, sobretudo, sua 
posição contrária ao "princípio do empirismo" fundando o "verificacionismo" 
epistemológico das teorias científicas: O desacordo de Popper é sobretudo em relação às 
teses defendidas por Carnap. Não se trata de um desacordo quanto ao mecanismo da 
invenção das hipóteses e das teorias científicas, Carnap achando que a lógica indutiva 
poderia explicá-las satisfatoriamente, e Popper negando radicalmente essa possibilidade. 
A teoria de Popper não visa, em absoluto, explicar como as hipóteses e as teorias podem 
ser "livremente" criadas. Também a teoria de Carnap, expressa em sua lógica indutiva, 
não é uma teoria da invenção das hipóteses: o que ela permite saber é até que ponto 
determinada hipótese pode ser considerada como confirmada pela evidência empírica 
disponível. Quanto a Popper, ao elaborar sua lógica das ciências, tenta afastar 
explicitamente a consideração dos ways of discovery, não para defender os ways of 
validation, mas para instaurar os ways of refutation. Em sua opinião, não deve interessar-
nos saber como uma teoria científica é descoberta pela primeira vez. Esta questão 
pertence ao domínio pessoal. O que importa saber é como as teorias se verificam. Não 
há um método lógico para descobrir ideias. Toda descoberta contém, diz Popper, "um 
elemento irracional". 
 
 2. Um segundo elemento da filosofia das ciências de Popper é o seguinte: apoiando-
se na análise lógica das formulações científicas, defende a ideia de que não podemos 
passar, por indução, da observação dos dados empíricos às hipóteses propriamente 
científicas. As similaridades sobre as quais se apoia a indução só surgem, 
 
 
 
 
 102 
no domínio da observação, por referência a um quadro "conjetural" capaz de antecipá-
las: "as teorias científicas não consistem em sumários de observações, mas em 
invenções, isto é, em conjeturas" (Conjectures and Refutations, 1963, pp. 33-39). E ao 
reafirmar a demarcação entre o discurso científico e todos os outros discursos, Popper dá 
primordial importância à ideia segundo a qual uma teoria científica só tem valor quando 
pudermos demonstrar que ela é falsa. Assim, ele faz da "falsificabilidade" de uma teoria o 
próprio princípio de demarcação da ciência. Ademais, ele faz da "falsificabilidade" a 
argumentação lógica capaz de levá-lo a preferir a infirmação à confirmação como forma 
de controle experimental nas ciências. 
 
3. Por outro lado, ao perceber que o critério da objetividade das proposições científicas 
reside no fato de elas se prestarem à "validação intersubjetiva", Popper apresenta a 
comprovação intersubjetiva como um simples caso particular da crítica intersubjetiva, isto 
é, do "controle mútuo pela discussão crítica".Esta posição está bem formulada nas teses 
defendidas por Popper em A lógica das ciências (em La Disputa dei Positivismo en la 
Sociologia Alemana, Grijalbo, 1973). A tese número onze diz: "É absolutamente errôneo 
conjeturar que a objetividade da ciência dependa da objetividade do cientista. E é 
totalmente falso crer que o cientista da natureza seja mais objetivo que o cientista social. 
 
O cientista da natureza é tão partidarista quanto o resto dos homens e, em geral, se não 
pertence ao escasso número daqueles que produzem ideias novas, é extremamente 
unilateral e partidário no que diz respeito às suas próprias ideias" (p. 109). E a tese 
número doze afirma: "O que pode ser qualificado de objetividade científica baseia-se 
única e exclusivamente na tradição crítica... Nessa tradição que permite criticar um 
dogma dominan- 
 
 
 
 
 103 
te. Em outras palavras, a objetividade da ciência não é assunto individual dos diversos 
cientistas, mas o assunto social de sua crítica recíproca... de seu trabalho em equipe e 
também de seu trabalho .por caminhos diferentes, inclusive opostos uns aos outros" (p. 
110). 
 
 4. Entre Popper e o empirismo de Carnap, não há uma divergência real quanto à 
natureza da invenção nas ciências e quanto ao caráter essencialmente conjetural e 
provisório das teorias e leis científicas. A divergência situa-se unicamente no que diz 
respeito à natureza da relação lógica entre os enunciados científico se a evidência 
empírica utilizada para testá-los. Contudo,não basta admitirmos a assimetria radical entre 
o problema da verificação e o da falsificação no caso de uma hipótese ou de uma teoria, 
para termos o problema resolvido. Popper retoma a tese já clássica segundo a qual 
nunca é uma asserção isolada que comparece diante do tribunal da experiência, mas 
todo um sistema de hipóteses e de asserções teóricas. E isto, de tal forma que,em 
presença de uma evidência contrária, sempre possa ser efetuada uma revisão em 
diferentes pontos do sistema, não podendo nenhum elemento do sistema estar, por 
princípio, ao abrigo de uma possível revisão. 
 
 5. Diante da dificuldade de saber em que condições podemos considerar que uma 
observação ou uma experiência entram realmente em contradição com determinada 
teoria, Popper propõe a seguinte solução: não devemos proceder de um modo global, 
mas passo a passo,para podermos atingir a comprovação de nossas explicações 
científicas; ademais, grande número de conhecimentos tradicionais deve ser tomado 
como adquirido cada vez, muito embora nenhum deles possa estar, em si mesmo, ao 
abrigo de uma crítica, não devendo, pois,ser tomado como certo ou como bem 
estabelecido. Quanto à possibilidade de princípio, de se preservar determi- 
 
 
 
 
 104 
nada teoria, apesar de um desmentido infligido pela experiência, através da introdução de 
hipóteses suplementares, a posição de Popper é a seguinte: é absolutamente contrária 
ao espírito da ciência a tentativa de imunizar as teorias contra toda espécie de revisão, 
fazendo-se apelo a "estratagemas convencionais". Em sua opinião, o que caracteriza o 
método científico é justamente o desejo de expor deliberadamente as teorias, de todos os 
modos possíveis, ao crivo da refutação, e não o de procurar defendê-las ou preservá-las 
sistematicamente. 
 
 6. Do ponto de vista epistemológico, Popper se considera ao mesmo tempo um 
racionalista, um empirista e um realista. Apresenta-se, assim, como um inimigo declarado 
de toda espécie de convencionalismo, de pragmatismo e de subjetivismo. Para ele, o 
universo da ciência faz parte daquilo que chama de o terceiro mundo, e não do segundo 
mundo. O terceiro mundo é o mundo das teorias objetivas, dos problemas e dos 
argumentos objetivos, "cortado" do mundo da subjetividade psicológica (segundo mundo). 
E contra todas as tendências irracionalistas de nossa época, Popper sempre proclamou 
sua fé no valor do conhecimento racional e sua convicção de que as teorias científicas 
devem corresponder à realidade. O método empregado para alcançar esses objetivos 
consiste essencialmente na utilização de conjeturas audaciosas, bem como em tentativas 
engenhosas para refutá-las. O método não depende do ideal metodológico, mas da 
realidade. 
 
 7. Ao afirmar claramente que o conhecimento científico não começa nem se 
caracteriza pelas percepções ou pela observação, nem tampouco pela coleta ou re-coleta 
dos dados ou fatos, mas pela colocação e solução de problemas, Popper chega à 
conclusão de que o método das ciências deve consistir em "tentar possíveis soluções 
para seus problemas". As soluções são propostas, mas 
 
 
 
 
 105 
criticadas. Se uma solução não for acessível à crítica objetiva. deve ser excluída como 
não-científica. Se é acessível à crítica, devemos tentar refutá-la. Se uma solução é 
refutada pela crítica, precisamos encontrar outra. Se resiste à crítica, passa a ser aceita 
provisoriamente. Portanto, o método da ciência consiste na tentativa de solução de 
problemas, devendo estar sob o controle crítico. E a objetividade científica se funda na 
objetividade do método crítico: não há teoria "liberada" da crítica. 
 
8. A partir de sua tese sobre o primado do problema, Popper faz uma crítica ao 
cientificismo metodológico que tenta impor às ciências sociais o mesmo método das 
ciências da natureza. Trata-se de um "naturalismo erróneo e equivocado" que tenta impor 
às ciências sociais exigências como essas: "comecem com observações e medições, isto 
é, com levantamentos estatísticos, por exemplo; e avancem indutivamente a possíveis 
generalizações e à formação de teorias. Deste modo, chegarão mais perto do ideal de 
objetividade científica... mas devem estar plenamente conscientes de que, nas ciências 
sociais, é muito mais difícil se atingir a objetividade... porque a objetividade equivale à 
neutralidade valorativa, e somente em casos extremos o cientista social consegue 
emancipar-se das valorações de sua própria roupagem social, para ter acesso a certa 
objetividade e assepsia em relação aos valores". "Na minha opinião", continua Popper, 
"todas essas afirmações são radicalmente falsas e repousam numa compreensão 
equivocada do método científico-natural; ademais, constituem um mito, o mito por demais 
difundido, infelizmente, e influente do caráter indutivo do método das ciências da 
natureza-e do caráter da objetividade científico-natural" (teses 6 e 7, op. cit. pp. 103-105; 
nas teses seguintes, Popper elabora uma crítica ao "erro naturalista"). 
 
 
 
 
 106 
9. Em suma, a epistemologia de Popper pode caracterizar-se como uma crítica 
constante às concepções científicas já existentes, tentando sempre instaurar novas 
hipóteses ou conjeturas ousadas, a fim de atingira explicação científica, jamais definitiva, 
mas sempre aproximada. As ciências não procuram jamais resultados definitivos. As 
teorias científicas irrefutáveis pertencem ao domínio do mito. O que deve caracterizar a 
ciência é a falsificabilidade, pelo menos em princípio, de suas asserções. As asserções 
"inabaláveis" e "irrefutáveis" não são proposições científicas, mas dogmáticas. Aliás, o 
progresso da ciência se deve, em grande parte, ao fato de ela propor soluções 
específicas para problemas específicos, submetendo-as incessantemente ao crivo da 
crítica:esta gera o progresso, ao passo que as verdades "irrefutáveis" geram a 
estagnação. O progresso do conhecimento científico está estreitamente ligado à 
colocação correta dos problemas e às tentativas de dar-lhes soluções. 
 
10. Não foi nossa intenção expor a obra histórica de Popper, nem tampouco traçar um 
perfil completo de sua "filosofia das ciências". Pelo contrário, quisemos simplesmente, de 
modo tão sucinto quanto fiel, contrapor ao princípio da verificabilidade, oriundo do Círculo 
de Viena, o princípio da refutabilidade defendido por Popper, em matéria de metodologia 
científica: do pontotomamos 
o termo "saber". 
 
 b) Por ciência, no sentido atual do termo, deve ser considerado o conjunto das 
aquisições intelectuais, de um lado, das matemáticas, do outro, das disciplinas de 
 
 
 
 16 
investigação do dado natural e empírico, fazendo ou não uso das matemáticas, mas 
tendendo mais ou menos à matematização. 
Hoje em dia, podemos nos servir do termo "saber" para designar uma série de disciplinas 
intelectuais mais ou menos estabelecidas, mas que não podem ser consideradas como 
ciências, no sentido atual do termo: o saber "racional", constituído pela filosofia, ou o 
saber "crente" ou "místico". Entretanto, entre as ciências e os saberes especulativos, 
intercalam-se várias disciplinas cujo estatuto ainda permanece incerto: disciplinas de 
erudição, história, disciplinas jurídicas, etc. Um quadro poderá ilustrar melhor: 
 
SABER EM GERAL 
SABERES "ESPECULATIVOS" (que não são ciências) 
 
A. Racional: Filosofia 
B. Crents ou religioso: Teologia 
 
CIÊNCIAS (que não são saberes "especulativos") 
 
A. Matemáticas 
B. Empíricas e positivas 
 
c) Por epistemologia, no sentido bem amplo do termo, podemos considerar o estudo 
metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de sua formação, de seu 
desenvolvimento, de seu funcionamento e de seus produtos intelectuais. Haveria, assim, 
três tipos de epistemologia: 
 
 — Epistemologia global (geral), quando se trata do saber globalmente considerado, 
com a virtualidade e os problemas do conjunto de sua organização, quer sejam 
"especulativos", quer "científicos". 
 
 — Epistemologia particular, quando se trata de levarem consideração um campo 
particular do saber, quer seja "especulativo", quer "científico". 
 
 
 
 17 
— Epistemologia específica, quando se trata de levar em conta uma disciplina 
intelectualmente constituída em unidade bem definida do saber, e de estudá-la de modo 
próximo, detalhado e técnico, mostrando sua organização, seu funcionamento e as 
possíveis relações que ela mantém com as demais disciplinas. 
Fala-se também, hoje em dia, de epistemologia interna e de epistemologia derivada. A 
epistemologia interna de uma ciência consiste na análise crítica que se faz dos 
procedimentos de conhecimento que ela utiliza, tendo em vista estabelecer os 
fundamentos desta disciplina. Enquanto tenta estabelecer uma teoria dos fundamentos 
de uma ciência, a epistemologia interna tende a integrar seus resultados no domínio da 
ciência analisada. A epistemologia derivada, ao contrário, visa fazer uma análise da 
natureza dos procedimentos de conhecimento de uma ciência, não para fornecer-lhe um 
fundamento ou intervir em seu desenvolvimento, mas para saber como esta forma de 
conhecimento é possível, bem como para determinar a parte que cabe ao Sujeito e a que 
cabe ao objeto no modo particular de conhecimento que caracteriza uma ciência. Donde 
a necessidade de se fazer apelo às outras ciências e às suas epistemologias. É a esta 
epistemologia derivada que chamamos de epistemologia geral. Dizer que esta não tem 
objeto, seria o mesmo que admitir que os cientistas estão conscientes de todos os fatores 
(sociais, culturais, ideológicos, filosóficos, políticos) implicados em sua prática efetiva. 
 
II. Saber e pré-saber 
Antes do surgimento de um saber ou de uma disciplina científica, há sempre uma 
primeira aquisição ainda 
 
 
 
 18 
não científica de estados mentais já formados de modo mais ou menos natural ou 
espontâneo. No nível coletivo, esses estados mentais são constitutivos de uma certa 
cultura. Eles constituem as "opiniões primeiras" ou pré-noções, tendo por função 
reconciliar o pensamento comum consigo mesmo, propondo certas explicações. 
Podemos caracterizar tais pré-noções como um conjunto falsamente sistematizado de 
juízos, constituindo representações esquemáticas e sumárias, formadas pela prática e 
para a prática, obtendo sua evidência e sua "autoridade" das funções sociais que 
desempenham. Como já dizia Aristóteles, "toda disciplina susceptível de se aprender, e 
todo estudo comportando um processo intelectual, constituem-se a partir de um 
conhecimento já presente". 
 
Todo saber humano relaciona-se a um pré-saber. Aliás, a epistemologia contemporânea 
reconhece este fato. Por exemplo, Piaget elabora uma epistemologia genética; Bachelard 
escreve La formation de Vesprit scientifique; M. Foucault, em Lês mots et lês choses, faz 
toda uma "arqueologia" das ciências humanas. Assim, como poderíamos caracterizar 
este pré-saber relativamente ao saber que se procura ou que já foi encontrado? 
 
a) caracterizações pejorativas: opinião, conhecimento comum ou vulgar, etc. 
 
b) caracterizações positivas: empiria, experiência, por vezes "arte", opinião válida, 
etc. 
 
c) caracterização técnica em Foucault: "episteme": infra-estrutura cultural das 
emergências do saber propriamente dito. 
 
O pré-saber, devemos notar, é uma realidade cultural relativa ao saber ou à ciência: é 
relativamente ao sa- 
 
 
 
 19 
ber que há um pré-saber. Trata-se de uma realidade ambígua, comportando 
determinações contrárias ao saber (erro, preconceitos, ideias preconcebidas, etc.) e 
recursos de conhecimento e de atividades mentais indispensáveis ao saber. É em função 
desta relação do saber ao seu pré-saber que vemos definir-se na epistemologia atual 
toda uma série de categorias epistemológicas significativas. Mencionemos as mais 
correntes: 
 
1. Em face da necessidade intelectual do saber e das tentativas de aproximação 
deste saber, temos a categoria de obstáculos epistemológicos (analisada por 
Bachelard em La formation de Vesprit scientifique): "resistência" ou "inércia" do 
pensamento ao pensamento, surgindo no momento da constituição de uma ciência 
como"contra-pensamento", ou num estádio superior de seu desenvolvimento como 
"parada de pensamento". 
 
2. Em face da necessidade intelectual de se definira atitude científica por oposição à 
atitude pré-científica,temos a categoria de corte epistemológico (analisada por 
Bachelard em Lê rationalisme appliqué, cap. VI): trata-se do momento em que uma 
ciência se constitui "cortando" com sua pré-história e com seu meio ambiente 
ideológico; não se trata de uma "quebra" instantânea,trazendo uma novidade 
absoluta, mas de um processo complexo no decorrer do qual se constitui uma 
ordem inédita do saber. 
 
3. Para mantermos o progresso reflexivo da atitude científica, devemos fazer apelo à 
categoria de vigilância epistemológica (Rationalisme appliqué, cap. IV): trata-se de 
uma atitude reflexiva sobre o método científico, isto é, de uma atitude que nos leva 
a apreender alógica do erro, para construir a lógica da descoberta científica como 
polémica contra o erro e como esforço para submeter as verdades aproximadas da 
ciência e os
 
 20 
métodos que ela emprega a uma retificação metódica, a fim de nos libertarmos das 
ideologias, das crenças, das opiniões, das certezas imediatas e chegarmos, assim, 
à objetividade científica; esta não pode repousar num fundamento tão incerto 
quanto a objetividade do cientista (que é sua subjetividade), mas exige o 
estabelecimento das condições de um controle intersubjetivo. 
 
4. Em face da necessidade de explicar o devir de uma ciência, ligando o 
conhecimento de seu passado à análise de seu estado presente, e fazendo 
depender este estado presente de todos os elementos que constituíram sua 
possibilidade, devemos fazer apelo à categoria de recorrência epistemológica. É 
este conceito que torna possível o desenvolvimento de uma história teórica ou de 
um conhecimento teórico da história das ciências. É ele que nos permite 
compreender o devir real de uma ciência, que é o objeto da epistemologia 
histórica. 
 
 
 
 21 
O QUE É A EPISTEMOLOGIA? 
 
 
 
 22 
 
 
 
 
 23 
Devemos dizer, de início, que da epistemologia sabemos muito sobre aquilo que ela não 
é, e pouco sobre aquilode vista lógico, diz Popper, uma lei científica ou os seus enunciados 
empíricos podem ser falsificados de modo conclusivo, mas não podem ser verificados de 
modo conclusivo; do ponto de vista metodológico, porém, é o inverso que ocorre. O que 
importa é que as teorias científicas sejam formuladas do modo mais aberto e menos 
ambíguo possível, a fim de estarem sujeitas ao critério da refutabilidade. E quanto mais 
ousadas forem as teorias formuladas para resolver os problemas colocados, tanto mais 
serão fecundas e se tornarão mais capazes de nos 
 
 
 
 
 107 
fornecer melhores informações sobre seus conteúdos de verdade. Todavia, aumenta 
bastante o risco e as probabilidades de serem falsos os conteúdos dessas teorias. 
 
11. Talvez fosse bastante interessante tentarmos fazer uma aproximação comparativa de 
certas posições de Popper, em matéria de epistemologia, com certas posições 
semelhantes de G. Bachelard. Que eu saiba, um estudo comparativo ainda está por ser 
feito. Não pretendo aqui levá-lo a efeito. Gostaria apenas de sugerir alguns pontos de 
concordância: 
 
a) Tanto a filosofia das ciências de Popper quanto a de Bachelard caracterizam-se 
por serem epistemologias críticas e polémicas, tentando "reformular" os conceitos 
científicos existentes e "reformar" os conceitos filosóficos a respeito da ciência. Ambas as 
filosofias são "anti-empiristas" e racionalistas e defendem a "tese" segundo a qual as 
ciências devem produzir, a cada momento de sua história, suas próprias normas de 
verdade; 
b) Ambas as "filosofias das ciências" estão fundadas no princípio epistemológico de 
base, segundo o qual o conhecimento científico jamais atinge uma verdade objetiva, 
absoluta. A ciência só nos fornece um conhecimento provisório (Popper) e aproximado 
(Bachelard).Ela jamais engloba fatos estabelecidos. Nada há, nela,de inalterável. A 
ciência está em constante modificação (Popper) ou em permanente retificação 
(Bachelard).Não podemos identificar "ciência" e "verdade". Nenhuma teoria científica 
pode ser encarada como verdade final (Popper) ou como saber definitivo (Bachelard). A 
objetividade científica reside única e exclusivamente no trabalho de crítica recíproca dos 
pesquisadores (Popper) ou é o resultado de uma construção, de uma conquista e de uma 
retificação dos fatos da experiência pela Razão (Bachelard). Uma teoria científica se 
coloca perma- 
 
 
 
 
 108 
nentemente em estado de risco (Popper), ou, no dizer de Bachelard, "no reino do 
pensamento, a imprudência é um método"; 
 c) Segundo Popper, "a crença segundo a qual é possível principiar com observações 
puras, sem que elas se façam acompanhar por algo que tenha a natureza de uma teoria, 
é uma crença absurda". Em outras palavras, todas as observações já são interpretações 
de fatos observados à luz de uma teoria. Segundo Bachelard, toda constatação supõe a 
construção; toda prática científica engaja pressupostos teóricos; a teoria científica 
progride por retificações, isto é, pela integração das críticas destruindo a imagem das 
primeiras observações: "O vetor epistemológico vai da Razão à experiência, e não da 
experiência à Razão"; 
 d) Popper admita que, quanto mais específicos forem os enunciados empíricos, mais 
probabilidades eles terão de se revelarem erróneos, mas também, maiores chances de 
fornecerem melhores e mais úteis conteúdos informativos. Por sua vez, a epistemologia 
de Bachelard se caracteriza pelo esforço de apreender a lógica do erro para reconstruir 
uma lógica da descoberta da verdade como polémica contra o erro, como "refutação" dos 
erros,mas também como uma tentativa de submeter as verdades aproximadas (jamais 
inteiramente objetivas) da ciência e os métodos que ela utiliza a uma retificação metódica 
e permanente. Neste particular, Popper não se interessa pela lógica da invenção ou da 
criação. Talvez Bachelard venha completar Popper, ao postular a descoberta metódica, 
na ciência, de uma ars inveniendi, em oposição à ars probandi do empirismo 
epistemológico, elevando a um maior aprofundamento a ars refutandi dePopper. Com 
efeito, a epistemologia de Bachelard se define por ser uma reflexão crítica sobre a 
ciência, não enquanto "estado", mas enquanto "processo", em seu vir- 
 
 
 
 
 109 
a-ser. E ao colocar-se no centro epistemológico das oscilações do pensamento científico, 
quer dizer, entre o poder de retificação das teorias (que é o da experiência) e o poder da 
ruptura e da criação (ruptura com as antigas teorias e criação de novas), que pertence ao 
domínio da Razão, Bachelard também postula, como Popper, um racionalismo. Seu 
racionalismo, porém, chama-se aplicado, pois trata-se de uma filosofia que se atualiza na 
"ação polémica incessante da Razão". Trata-se, ainda, de uma filosofia que se recusa ao 
formalismo e ao fixismo de uma Razão una e indivisível. Ao aceitar como postulado 
primeiro "o primado teórico do erro", a epistemologia de Bachelard define o progresso do 
conhecimento como retificação incessante. Por sua vez, Popper afirma que o 
conhecimento progride quando é retificado pelas críticas a ele dirigidas. Um 
conhecimento que se furta à crítica, consequentemente, à refutação e à "retificação, está 
fadado à estagnação. Tanto Bachelard quanto Popper contestam a epistemologia 
positivista segundo a qual podemos separar a comprovação dos fatos da elaboração 
teórica de que os fatos científicos extraem seu sentido. Segundo eles, se todo sistema de 
enunciados empíricos com pretensões a uma validade científica precisa passar por uma 
comprovação da realidade (Bachelard) ou ser testado por ela (Popper), nem por isso este 
imperativo epistemológico deve ser pura e simplesmente identificado com o imperativo 
tecnológico pretendendo subordinar toda formulação teórica à existência atual de 
técnicas tornando possível verificá-la no momento mesmo em que ela se expressa. 
Nenhum enunciado teórico, em contrapartida, pode ser tido como definitivamente 
estabelecido: permanece a possibilidade teórica de se descobrir novos meios capazes de 
questionar as observações atuais e de rejeitar a teoria que elas validam. 
 
 
 
 
 110 
Obras de K. POPPER: 
 — The Logic of Scientific Discovery, Hutchinson and Co.,Londres, 1959 (1ª edição de 
1934). 
 
 — Misère de l'historicisme (trad. francesa), Plon, Paris,1956. 
 
 — Conjectures and refutations, Routledge and Kegan,Londres, 1963. 
 
 — Objective knowledge, Clarendon Press, Londres, 1972. 
 
 — La lógica de las ciências sociales, na obra coletiva traduzida para o espanhol, La 
disputa dei positivismo en Ia sociologia alemana, Col. "Teoria y realidad", 
Grijalbo,Barcelona — México, 1973. — Ver ainda, nesta obra, as discussões em torno 
das teorias de Popper, por Th. Adorno, Sobre la lógica de las ciências sociales, pp. 121-
146; por J. Habermas, Teoria analítica de la ciência y dialéctica. Apéndice a Ia 
controvérsia entre Popper y Adorno, pp. 147-180; por H. Albert, El mito de Ia razón total, 
pp.181-219; por J. Habermas, Contra un racionalismo menguado de modo positivista, pp. 
221-250. 
N.B. Em português, há uma boa introdução ao pensamento de Popper, de Bryan Magee, 
As ideias de Popper, Editora Cultrix, S. Paulo, 1974. 
 
 
 
 
 111 
A EPISTEMOLOGIA "ARQUEOLÓGICA" DE MICHEL FOUCAULT 
 
 
 
 112 
 
 
 
 
 113 
Não podemos compreender a formação epistemológica representada, atualmente, pelas 
ciências humanas, em busca de um estatuto de positividade ou de cientificidade, sem 
compreender sua relação com esse conjunto subjacente de conhecimentos e de cultura 
que poderá ser denominado "saber pré-científico", "opinião" ou "episteme": infraestrutura 
cultural do saber propriamente dito. A esse trabalho, entregou-se Michel Foucault, 
especialmente em suas obra Les mots et les choses, cujo subtítulo já é sugestivo: 
"arqueologia das ciências humanas". O que pretende Foucault é apresentar um certo 
agenciamentoglobal das ciências humanas no interior daquilo que ele chama de "o 
triedro dos saberes", e que lhe permite definir uma espécie de espaço epistemológico da 
constituição das ciências humanas de caráter racional e científico. 
 
 
 
 114 
1. O sistema das ciências humanas 
 
O triedro do "saber", para Foucault, é um espaço epistemológico de três dimensões. Ele 
se define a partir de três eixos principais da racionalidade organizadora do saber: 1º) o 
eixo das Matemáticas e Psicomatemáticas, ciências exatas e protótipos da cientificidade; 
2º) O eixo das Ciências da Vida, da Produção e da Linguagem: Biologia, Economia e 
Ciências da Linguagem (que são ciências humanas); 3º) O eixo da Reflexão Filosófica 
propriamente dita, desenvolvendo-se como "Pensamento do Mesmo" ou como "Analítica 
da Finitude". 
 
Tomados dois a dois, esses eixos definem três planos: 1º) O plano comum ao eixo das 
Matemáticas e ao das três Ciências da Vida, da Produção e da Linguagem seria o das 
Matemáticas Aplicadas; 2º) o plano comum ao eixo das Matemáticas e ao da Reflexão 
Filosófica seria o da Formalização do pensamento; 3º) O plano comum ao eixo das 
Ciências da Vida, da Produção e da Linguagem e ao da Reflexão Filosófica seria o das 
Ontologias Regionais e das diversas filosofias da vida, do homem alienado e das formas 
simbólicas. Teríamos, assim, o seguinte quadro: 
 
As Ciências Humanas 
Ciências da Linguagem 
Ciências da Vida Produção da Linguagem 
Matemáticas Aplicadas 
Formalização 
 
 
 
 
 115 
Quanto às Ciências Humanas, não podem situar-se sobre nenhum dos três eixos, nem 
tampouco em algum dos planos em questão. Elas são pura e simplesmente excluídas do 
Triedro, pois não podem ser encontradas sobre nenhuma das dimensões nem na 
superfície dos planos. Todavia, poderão ser incluídas no triedro epistemológico. De que 
modo? No interstício desse saber. Mais exatamente: "no volume definido por suas três 
dimensões". É aí, e somente aí, que elas encontrarão seu Lugar. Formam uma espécie 
de nuvem de disciplinas representáveis, no interior do triedro, e participando mais ou 
menos, de modo diversificado, de suas três dimensões. Elas aparecem, em primeiro 
lugar, em conexão com as ciências da Vida, da Produção e da Linguagem. A cada uma 
dessas disciplinas, correspondem "regiões epistemológicas" congregando um grupo de 
ciências humanas com características comuns e certos modelos de organização do 
saber. A primeira região é a das ciências Psicológicas: tomam de empréstimo à Biologia 
um modelo que se equilibra em torno dos conceitos de "função" e de "norma". A segunda 
é a das ciências Sociológicas: tomam de empréstimo à Economia política um modelo 
girando em torno dos conceitos de "conflitos" e de "regras". A terceira, é a das ciências 
Linguísticas e Culturais: tomam de empréstimo à ciência da linguagem um modelo 
organizado em função das ideias de "sentido" e de "sistema". E assim se fecha o sistema 
das ciências humanas nessa tríade de regiões epistemológicas. 
 
Esse sistema, porém, não é tão simples assim. Em primeiro lugar, porque essas regiões 
epistemológicas es- 
 
 
 
 116 
tão inseridas na História que também é ciência humana, e só poderão ser entendidas 
numa compreensão da historicidade que é solidária da inteligência contemporânea da 
história: não somente o ser do homem "tem" em torno de si "História", diz Foucault, mas 
"ele mesmo é, em sua historicidade própria, aquilo através de que se esboça uma história 
da vida humana, uma história da economia, uma história da linguagem". Em segundo 
lugar, cada uma dessas "regiões" aparece como que habitada e abalada por um tipo de 
prática que desempenha o papel de "contraciência": "perpétuo princípio de inquietação, 
de questionamento, de crítica e de contestação daquilo que pôde apresentar-se como 
adquirido". Tal é, para a região psicológica, a psicanálise; para a região sociológica, a 
etnologia; e para a região linguística, uma espécie de forma suprema do pensamento da 
linguagem, no limiar da consciência e da criação literária. Assim, as ciências humanas 
instauram, após a aparência de uma proposição epistemológica positiva, o fenómeno de 
uma dialética epistemológica que não somente perpassa mas arruína a imediata e 
ingénua aparência de solidez que a constituição das diversas regiões sugeriam ao 
espírito. E desse modo, termina o sistema de constituição das ciências humanas proposto 
por M. Foucault. 
 
2. A episteme ocidental antes da idade moderna 
Esse sistema das ciências humanas que, para Foucault, é um resultado, e não um ponto 
de partida, só será entendido pela compreensão dos princípios e das justificativas que ele 
fornece nos nove primeiros capítulos 
 
 
 
 
 117 
de Les mots et les choses. São essas análises que constituem o estudo "arqueológico" 
da episteme ocidental e constituem a arqueologia das ciências humanas, a descoberta, 
por assim dizer, de suas raízes e de seus primeiros germes epistemológicos no solo da 
cultura e do saber antes mesmo que elas' apareçam, que sejam batizadas com suas 
atuais denominações, que se digam e sejam ditas "ciências humanas". 
 
O que Foucault pretende analisar é a episteme ocidental. A palavra "episteme" é a 
simples transliteração do termo grego que quer dizer saber ou ciência. No sentido 
epistemológico antigo, a "episteme" não passa da simples "opinião" ou do mero "saber" 
pré-científico. No século XVII, já sob a influência do cartesianismo filosófico e científico, a 
episteme se apresenta como o pensamento do homem culto, do "homem honesto", com 
tudo o que ela comporta de opinião, de aquisições culturais anteriores à ciência e ao 
Cogito, de hábitos estranhos ou contrários aos do Cogito e aos da ciência, embora já 
impregnados pela emergência do Cogito e das ciência, bem como por sua filosofia e pela 
metodologia da mathesis universalis. Nesse sentido, a episteme vai-se caracterizar, não 
pela pureza do santuário epistemológico, nem pela profanidade daquilo que permanece 
fora do santuário, mas pela exportação, para fora do santuário, dos valores que ele 
encerrava, o que implica uma transgressão dos gestos puros do santuário. Assim, a 
fisionomia da episteme vai depender do estado de suas emergências científicas e 
racionais cuja linguagem todo mundo fala ou pretende falar. 
 
O intuito de Foucault é estudar os momentos sucessivos da episteme ocidental. Quer 
descobrir as etapas de sua progressão, em direção ao triedro dos saberes e do 
agenciamento das ciências humanas. Nesses momentos sucessivos, os germes ou os 
núcleos das três disciplinas; 
 
 
 
 
 118 
que se situam sobre o segundo eixo do saber (ciências da Vida, da Produção e do 
Trabalho, e ciência da Linguagem), são tomados como centros de gravidade de sua 
investigação. Foucault descobre três momentos da episteme: a época da Renascença 
(século XVI); a época clássica da ciência e das Luzes (séculos XVII e XVIII); e o período 
que se inicia com o século XIX (1820) e que vem até nós. Foucault estuda apenas o 
segundo período: a idade clássica, de Descartes até o século XIX. A episteme do século 
XVI serve apenas para introduzir o assunto. A que se segue à idade clássica e que vem 
até.nós, é antes de tudo um segmento aberto, um intervalo ainda não totalizado durante o 
qual surgem novas diferenças que sé instauram e se consolidam, desenvolvem suas 
consequências até o presente estado de coisas. Isso não quer dizer, porém, que o atual 
estado de coisas represente a figura de equilíbrio epistemológico de todo o intervalo. 
Foucault descobre outras tendências. Posições também são tomadas, típicas da filosofia 
do autor. Nada disso, porém, pode levar a um quadro epistemológico seguro e definitivo. 
Fornece-nos apenas um esboço epistemológico ainda sumário, cómodo para fixar as 
ideias, como ponto de partida para o ensino atual sobre a epistemologia das ciências 
humanas. Contudo, não se pode negara considerável contribuição que constitui a 
conexão desse esboço com o olhar investigador proposto por Foucault sobre as 
formações epistemológicas sucessivas de que dependem atualmente a emergência e a 
organização das ciências humanas. 
 
3. A episteme clássica da representação 
São as formas sucessivas da episteme clássica que Foucault estuda de modo mais 
completo e pertinente. 
 
 
 
 
 119 
Ele utiliza, para a caracterização dessa entidade epistemológica, o termo de 
representação. Analisando o uso desse termo na filosofia de Descartes e de Kant, bem 
como a doutrina que sobre ele foi estabelecida por Hegel na Filosofia do Espírito, 
Foucault chega à conclusão de que é preciso situar e caracterizar a representação, não 
somente como um fato mental, mas como um registro epistemológico específico, cuja 
compreensão é necessária à atitude científica (ou racional) de todo um período do 
pensamento e da cultura. 
 
Assim, a representação se caracteriza antes de tudo de modo bastante clássico, tal como 
é proposta por Descartes nas Regulae ad directionem ingenii e como intervém nas 
formas clássicas de constituição da matemática e da física matematizada do século XVII, 
cuja primeira grande obra sintética aparece com Newton: Philosophia naturalis principia 
mathematica. Desse ponto de vista, o sistema newtoniano é constituído pela doutrina das 
ideias claras e distintas de Descartes, que substitui o jogo das identidades e das 
diferenças pelo jogo das similitudes, no momento em que se trata de compreender as 
noções e de constituí-las. Ao se tentar estruturar a compreensão das noções, privilegia-
se os esquemas da ordem e da medida como princípios organizadores do conhecimento 
científico. Este vai buscar seu estímulo, sua animação, seu princípio estruturante e 
organizador na ideia de uma mathesis universalis que deverá fundar-se na prática geral 
da consideração da ordem e do apelo à medida. Todavia, não se reduz a isso, a 
representação como forma da episteme clássica. 
 
Para Foucault, a representação deverá ser entendida a partir da compreensão da função 
do signo. O estatuto do signo, no período da episteme clássica, é uma das diferenças 
mais sintomáticas dessa episteme relativamente à época anterior: "No limiar da idade 
clássica, 
 
 
 
 
 120 
o signo deixa de ser uma figura do mundo;... ele não espera silenciosamente aquele que 
pode reconhecê-lo; jamais se constitui por um ato de conhecimento; servir-se de signos 
não é, como nos séculos precedentes, tentar descobrir por baixo deles o texto primitivo 
de um discurso tido e mantido para sempre; é tentar descobrir a linguagem arbitrária que 
autorizará a manifestação da natureza em seu espaço, os termos últimos de sua análise 
e as Isis de sua composição" (pp. 72-77). Ao mesmo tempo, a lógica do signo muda 
profundamente. E isso, até nossos dias. A antiga economia do signo era ao mesmo 
tempo unitária e tríplice, comportando três elementos distintos: o que era marcado pelo 
signo, o que nele era marcante e o que permitia ver nisto a marca daquilo. Esse sistema 
unitário e tríplice desapareceu ao mesmo tempo que o "pensamento por semelhança". 
Ele foi substituído por uma organização estritamente binária, por um sistema igual ao da 
representação por um quadro: de um lado, aquilo que é representado; de outro, o quadro 
representante. Por sua vez, esse quadro representante é investido da representatividade 
clara e distinta: par significante-significado funcionando indissociavelmente graças à 
natureza da representação. E isso, a tal ponto que "a evidenciação do significado nada 
mais será senão a reflexão sobre os signos que o indicam (...) e que na idade clássica, a 
ciência pura dos signos vale como o discurso imediato do significado" (pp. 80-81). 
 
Em seguida, porém, e levando-se em conta a função mental da imaginação na 
organização da representação, desenvolvem-se certos segmentos de normatividade 
epistemológica que não podem ser ignorados. A ciência clássica (física e matemática) 
organiza-se como a própria mathesis, lugar de conveniência das "naturezas simples", da 
álgebra ou da análise matemática. Todavia, para além do pensamento da ordem, que é a 
própria alma da 
 
 
 
 
 121 
mathesis e o princípio distintivo de toda a economia da representação, surgirão no saber 
dois novos segmentos de organização do conhecimento: o primeiro é o que Foucault 
chama de taxinomia; o segundo, ulterior, de "análise das gêneses" (estudo da ordem das 
produções e dos desenvolvimentos constitutivos no tempo). A taxinomia parece 
corresponder à mathesis como a disciplina das representações complexas. A esse 
respeito, Foucault traça o seguinte diagrama: 
 
CIÊNCIAS GERAIS DA ORDEM 
NATUREZAS SIMPLES 
MATHESIS 
REPRESENTAÇÕES COMPLEXAS 
TAXINOMIA 
ÁLGEBRA 
SIGNOS 
 
Esse diagrama corresponde apenas aos dois primeiros membros do trinômio: mathesis, 
taxinomia e estudo das géneses: "entre a mathesis e a gênese, situa-se a região dos 
signos — dos signos que atravessam todo o domínio da representação empírica, mas 
não a extrapolam jamais. Margeado pelo cálculo e pela génese, é o "espaço do quadro", 
espaço da empiricidade, diz Foucault, que não existiu até o fim da Renascença e que 
está fadado a desaparecer a partir do início do século XIX (pp. 86-87). 
 
4. A arqueologia das ciências humanas 
É justamente no domínio epistemológico constituído por esse "espaço do quadro" situado 
entre o cálculo das igualdades e a génese das representações, que aparecem os 
primeiros núcleos desse saber em referência aos quais começam a se constituir as 
ciências humanas: "É nessa região que se encontra a história natural, ciência 
 
 
 
 
 122 
dos caracteres que articulam a continuidade da natureza e seu entrelaçamento. Também 
é nessa região que se encontra a teoria da moeda e do valor, ciência dos signos que 
autorizam a troca e permitem estabelecer equivalências entre as necessidades e os 
desejos dos homens. Enfim, é aí que se situa a gramática geral, ciência dos signos 
através dos quais os homens reagrupam a singularidade de suas percepções e recortam 
o movimento contínuo de seus pensamentos" (p. 88). 
 
Define-se, assim, na episteme clássica, um lugar epistemológico onde vão congregar-se 
(segundo suas afinidades) e assumir a fisionomia específica de antigos esboços de 
conhecimento: as histórias naturais da Antiguidade, da Idade Média e da Renascença; os 
rudimentos da economia; as gramáticas particulares e as primeiras reflexões filosóficas 
sobre a linguagem. Não se trata ainda dos saberes modernos da Vida, do Trabalho (e da 
produção), da Linguagem e da Cultura. Trata-se de formações de caráter original e de 
duração transitória, mas que deixaram vestígios no tempo, sobretudo nas obras de 
cultura. Donde, num primeiro sentido, o caráter "arqueológico" desse estudo: volta a 
certas obras enquanto monumentos de uma época, mas que atestam o clima geral do 
pensamento e do saber de um período histórico, constituindo, por assim dizer, os 
"arquivos" de uma cultura e de seu saber. Aparece, então, o segundo sentido do caráter 
"arqueológico": pode-se ler, no estado antigo, melhor do que no novo, o que foram os 
começos e os princípios geradores das disciplinas científicas. A volta ao passado 
esclarece o presente e facilita sua leitura em profundidade. A arqueologia, ciência das 
coisas velhas, também é para a ciência, em certa medida, ciência das iniciativas capitais 
e das inspirações fundamentais. Donde a importância de retornar aos estados antigos do 
saber aparentados com os que hoje chamamos de ciências 
 
 
 
 
 123 
humanas, para interrogar, sua constituição e seu funcionamento epistemológicos. 
Não vamos entrar aqui no pormenor das análises feitas por Foucault, concernentes às 
formas clássicas da teoria da linguagem, da história natural e da doutrina das riquezas. 
Basta-nos ver como essa epistemologiada representação pode servir-nos para 
compreender o estádio ulterior da episteme, que surgiu com o século XIX e no qual nos 
encontramos ainda. Ademais, convém notar que essas três modalidades clássicas do 
"saber" não são, para Foucault, ciências humanas, nem tampouco "ciências" precursoras 
de nossas atuais ciências humanas. Ao contrário, não passam de núcleos arcaicos 
dessas disciplinas que situamos no segundo eixo do "triedro dos saberes", muito embora 
conduzam o pensamento à ideia de "homem", tal como ela aparece no século das Luzes, 
com sua antropologia tentando unificar os diversos saberes concernentes à realidade 
humana. 
 
5. O início da era da positividade 
A episteme clássica está hoje encerrada. Seu campo histórico-cultural entra por completo 
no domínio do estudo epistemológico-arqueológico. O mesmo não se dá com a episteme 
que surgiu com o século XIX e que vem até nós. Pode-se detectar facilmente os 
fenómenos iniciais de ruptura. O presente é, até certo ponto, descritível. Todavia, a 
compreensão de conjunto dessa fase cultural permanece ainda em suspenso, e a 
doutrina sobre ela, bastante problemática. 
 
De qualquer forma, a época da transição começa com a Revolução Francesa. Em 1820, 
já estamos diante de uma episteme inteiramente nova. Desmonta-se o sistema clássico 
da representação. Novos campos de estudo 
 
 
 
 
 124 
se instauram. Emerge com muita força a consciência da História: o sentido da 
historicidade do homem, bem como de suas obras e de sua cultura. Também emerge a 
infra-estrutura do trabalho produtivo a título de objeto de saber. E para além do quadro do 
mundo vivo, constata-se a emergência da realidade da vida organizada, com sua 
fisiologia e sua ecologia (objetos da biologia moderna). Enfim, para além das gramáticas 
gerais, surgem as realidades flexionais e vocálicas da linguagem. Em todos esses casos, 
vemos aparecer, por detrás e por baixo do sistema de representação, uma realidade de 
infraestrutura subjacente, aprofundando cada vez mais em direção das últimas raízes da 
positividade empírica. Nesse sentido, a palavra-de-ordem do novo saber, não é mais a 
procura da representação simples e imediata, mas a busca da última positividade do real, 
o esgotamento fenomenológico da coisa em si. 
 
De fato, para as disciplinas que apareceram situadas sobre o segundo eixo do "triedro 
dos saberes", há uma transmutação profunda do núcleo epistemológico clássico: trata-se 
do advento, quase científico, de um novo regime do saber. A história natural transforma-
se em biologia (saber da "Vida", biologia geral e biologia humana). A teoria das riquezas 
e do valor torna-se conhecimento científico do homem trabalhador, produtor e consumidor 
de realidades vendáveis. A doutrina da gramática geral converte-se em ciência da 
linguagem. Portanto, é em torno desses núcleos, transformados epistemologicamente, 
pela passagem do classicismo à época do século XIX e de nossa contemporaneidade, 
que vão aparecer as diversas ciências humanas atuais. Desde o início, elas pretenderam 
associar algo da cientificidade das ciências matemáticas e físicas, algo da coesão 
racional dos saberes da Vida, do Trabalho e da Palavra humana, e algo, enfim, da 
determinação filosófica da 
 
 
 
 
 125 
reflexão e das análises da finitude humana. Podemos dizer que a transformação 
epistemológica realizada com a superação desses três núcleos da idade clássica — 
superação do nível da representação pelos saberes ulteriores da positividade da Vida, do 
Trabalho e do Falar humano — equivale à superação daquilo que G. Bachelard chama de 
"obstáculo epistemológico" opondo-se, no interior do espírito ainda "pré-científico", à 
constituição de uma ciência verdadeira. Uma vez eliminado o obstáculo epistemológico 
de certo desconhecimento da positividade na doutrina clássica da representação, as 
ciências humanas podem constituir-se e aparecer em estado livre no espaço do saber. 
 
Entretanto, isso não se deu sem uma reação exercida sobre os símbolos filosóficos de 
inauguração (Cogito cartesiano) e de recapitulação da episteme clássica. Vejamos a 
reação sobre o símbolo recapitulativo da filosofia das Luzes que é o Homem. Esse 
homem da representação e das Luzes aparece doravante como que retomado por sua 
própria positividade. Ele não passava de uma imagem de sonho. Estava envolto em 
sombras que as "Luzes" vieram dissipar. Vivemos o desfecho da antropologia, a 
desintegração do homem, dois fenómenos epistemologicamente conexos à emergência 
atual de certas disciplinas humanas, que Foucault chama de "contra-ciências": a 
Psicanálise, a Etnologia (de Lévi-Strauss) e um certo saber nos confins da ciência da 
linguagem e da prática literária. Nesse sentido, o Homem, o homem das Luzes, seria o 
último legado da era da representação transmitido filosoficamente à época ulterior: "O 
homem é uma invenção cuja data recente a arqueologia de nossa época mostra 
facilmente. E talvez o fim próximo" (p. 398). 
 
Les mots et les choses são um grande afresco, cativante e bastante instrutivo, da história 
genética das 
 
 
 
 
 126 
ciências humanas; história que culmina num agenciamento global dessas disciplinas. 
Temos aí, sobretudo no capítulo X, um primeiro modelo do estudo da relação de todo o 
conjunto das ciências humanas com um pressuposto de saber e de cultura de que elas 
terminam por emergir com a fisionomia que se apresentam hoje. "Arqueologia", espécie 
de epistemologia à Ia Piaget, mas transportada do elemento do sujeito individual 
estudado em seu devir mental ao elemento do sujeito coletivo representado por uma 
população pensante em devir histórico e por uma espécie de gerações sucessivas 
interessando mais pelas etapas filogenéticas do que pelas ontogêneses individuais da 
formação coletiva do saber. Donde sua importância fundamental para todos aqueles que 
se preocupam com a epistemologia geral das ciências humanas. Essa obra propõe, com 
efeito, no limiar de tal epistemologia, um esquema de reflexão talvez mais unificado do 
que o encontrado na obra também fundamental de G. Gusdorf. Introduction aux sciences 
humaines — essai critique sur leurs origines et leur dévelopment (Paris, Belles Letres, 
1960). 
 
6. Epistemologia arqueológica 
Enquanto epistemologia, a "arqueologia" de Foucault pode colocar-se sob o patrocínio da 
filosofia do conceito, pois sua teoria da episteme outra coisa não é, como ele próprio 
reconhece, senão a teoria de um sistema. Não se trata de uma teoria do método 
científico, mas de uma teoria do dispositivo que funda o sistema das ciências, seu campo 
epistemológico, sua estrutura e sua história. Ele chega ao conceito de episteme por uma 
démarche arqueológica: busca das géneses ideais da época clássica. Diferentemente 
das demais arqueologias (arqueologia 
 
 
 
 
 127 
positiva: que busca a origem do homem e segue o fio de sua história; arqueologia 
ontológica: que remonta ao fundamento, buscando a origem do homem no Ser como 
origem; arqueologia fenomenológica: que busca a origem, no homem, e a origem do 
homem, na Natureza), a arqueologia proposta por Foucault não visa a descoberta da 
origem do homem, mas o fundamento das ciências humanas. O campo epistemológico 
ou o domínio onde ela se situa, não é a ciência, mas o solo sobre o qual se constrói a 
ciência. Trata-se de um sistema, não de códigos de regras relativamente à percepção e à 
palavra, mas de ordem fundamental que deve orientar e reger as ciências, constituindo 
para elas um a priori histórico. É essa experiência da ordem que determina o "espaço 
geral do saber", bem como as afinidades entre as ciências. Também é ela que comanda 
a experiência das coisas. Não são as coisas que constituem problema. Toda a 
problemática é determinada pela "disposição epistemológica" do momento histórico (p. 
357). Para a epistemologia, o importante não é o objeto tratado por uma ciência, mas olugar que esta ou aquela ciência ocupa no espaço do saber. No que diz respeito às 
ciências humanas, "não é o estatuto metafísico ou a indelével transcendência desse 
homem de que elas falam, mas a complexidade da configuração epistemológica em que 
elas se encontram situadas" que explica sua dificuldade, suas incertezas e sua 
precariedade (p. 359). 
 
7. Conclusões 
a) Apesar de seu enorme interesse e de sua importância para o estudo da constituição 
das ciências humanas, em que se mostram insatisfatórias as análises 
 
 
 
 
 128 
de Foucault? Em primeiro lugar, elas são comandadas, epistemologicamente, pelo 
emprego de um método e de um modo de pensar que também não escapam a essa 
episteme que ele descreve como sendo a da representação. Toda a sua abordagem visa 
a propor ao leitor uma representação, um quadro do saber, atualizados com os meios que 
são os da episteme da represenção. Evidentemente, ele fala de um "sistema das 
positividades" que também é um "sistema das simultaneidades" e, enfim, um "sistema 
geral do saber" (p. 77). Foi através dessas noções que ele fez uma leitura dos textos 
filosóficos do passado. Talvez possamos ver nelas a expressão da noção de 
Weltanschauung própria à filosofia da história alemã ou da noção de totalidade cultural 
própria às antropologias que visavam a compreender a solidariedade das instituições e a 
unidade da cultura. No entanto, Foucault tem a pretensão de ser mais rigoroso e mais 
preciso. Mas podemos perguntar se tal rigor não seria devido à fidelidade a uma 
"concepção" espacial substituindo o lugar de uma estrutura topológica. E se tal precisão 
não seria o fruto de uma decisão arbitrária, pois o campo epistemológico fica reduzido ao 
estudo de três positividades : vida, trabalho e linguagem. Será que a física e a 
matemática não exprimiriam também a experiência da ordem? Será que as mutações ou 
as descontinuidades da episteme não seriam menos bruscas e mais compreensíveis se 
fossem resituadas na vida da totalidade cultural? Não seriam essas descontinuidades um 
empecilho à compreensão do progresso do saber? Recusando ao mesmo tempo a 
história e aquilo que assegura a continuidade da história — a permanência de uma 
natureza humana estruturada pelo a priori —, a arqueologia e o a priori histórico de 
Foucault parecem condenar a história, pois não pertencem a um sujeito histórico. Por que 
essas mutações? Por que o a priori é histórico? 
 
 
 
 129 
 b) O que mais se poderia contestar a Foucault é que, para ele, as ciências humanas 
não falam do homem. Na dimensão própria ao inconsciente, elas analisam normas, 
regras, conjuntos significantes que revelam à consciência as condições de suas formas e 
de seus conteúdos. A psicanálise e a etnologia aí ocupam um lugar privilegiado. A 
primeira se esforça por fazer falar, através da consciência, o discurso inconsciente que 
sempre se esquiva, embora esteja sempre presente. Também a segunda não atinge o 
homem, mas a região situada fora do homem e a partir da qual se pode saber 
positivamente aquilo que se dá ou escapa à consciência. 
 
 c) O que se deve entender por "existência" ou "inexistência" do homem? Trata-se 
apenas de um ―conceito" ou da multidão dos homens concretos que encontramos 
diariamente vivendo, agindo, criando e existindo? Em sua significação moderna, o 
"existir" aparece como uma "palavra". Foi assim que Rousseau, traduzindo o Cogito 
cartesiano, o "eu penso, logo existo", afirmou que "o mais útil e menos avançado de 
todos os conhecimentos humanos" residia precisamente no conhecimento do homem. E 
isto, porque os livros científicos nos ensinam apenas a ver os homens tais como eles se 
fizeram. Ora, tais como eles se fizeram, pela cultura, os homens não "existem" mais, 
apenas "aparecem". Por conseguinte, o homem estudado pela ciência não passa de um 
fenómeno humano, fenômeno que se tornou presa de uma linguagem. Como poderia o 
homem voltar a existir no interior da cultura? Foi de certa desconfiança em relação ao 
desenvolvimento da cultura que nasceu o problema da "existência" do homem. Nietzsche 
foi, sem dúvida, o primeiro filósofo que, ao atacar violentamente a ciência, a moral e a. 
metafísica reinantes de seu tempo, chegou à conclusão de que não somente Deus estava 
morto, mas de que o homem estava também morrendo. 
 
 
 
 
 130 
E hoje Foucault retoma a mesma assertiva: "O homem é uma invenção cuja data recente 
a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim próximo" (p. 398). 
No entanto, sempre se falou do homem. Segundo Foucault, uma coisa é certa: o homem 
não é o mais antigo dos problemas nem tampouco o mais constante que se colocou ao 
saber humano. Por outro lado, ele não pode ser o acesso à objetividade daquilo que, 
durante muito tempo, esteve entregue ao domínio das crenças e das filosofias. Talvez 
fosse mais correto dizer que o homem é a onipotência do saber, e que compete à 
arqueologia determinar suas disposições fundamentais. Este saber do homem está 
contido no círculo do saber religioso, filosófico, científico e arqueológico. É neste sentido 
que se pode compreender o êxito de Foucault: os homens atuais estão esmagados pela 
cultura e por seus resultados. O humanismo atual é uma abstração. Todos os gritos do 
coração, as reivindicações da pessoa humana e da existência estão, a seu ver, 
separados do mundo científico e técnico, o único mundo real. Para Foucault, o 
humanismo é um pára-vento por detrás do qual se esconde um pensamento reacionário, 
formado de todo tipo de alianças monstruosas, não se sabe em nome de quê. Em nome 
do homem é que não pode ser, diz Foucault (Quinzaine Uttéraire, maio 66). Porque nossa 
geração não reivindica "o homem contra o saber e contra a técnica". Seu esforço em 
"mostrar que nosso pensamento, nossa vida, nossa maneira de ser, até mesmo nossa 
maneira de ser mais cotidiana, fazem parte da mesma organização sistemática e, 
portanto, dependem das mesmas categorias que regem o mundo científico e técnico. É o 
"coração humano" que é abstrato, e é nossa pesquisa, que quer ligar o homem à sua 
ciência, às suas próprias descobertas, ao seu próprio mundo, que é concreta". 
 
 
 
 
 131 
 d) E o que significa a ciência, de que tanto hoje nos orgulhamos? Ela mais parece um 
acervo de conhecimentos acumulados nos livros do que conhecimentos que, de -fato, 
possuímos em nós e que possamos compreender. A linguística e a etnologia nos 
ensinam, diz Foucault, que estamos submetidos a leis que nos escapam. A psicanálise, 
por sua vez, mostra-nos que somos aquilo que ignoramos ser. Presos entre a 
superlinguagem da ciência e a sublinguagem da comunicação de massa, não sabemos 
mais o que significa verdadeiramente falar. Aqueles que pretendem saber utilizam um 
poder anônimo para conduzir-nos, contra nossa vontade, a um lugar que nos foi como 
que preestabelecido por um destino inelutável. Tudo indica que é a civilização científico-
técnica que elabora, sob medida, as condições "ideais" de nossa existência. O esforço 
do homem reduz-se a uma tentativa de adaptação a essas condições. Nesse sentido, o 
termo "humanismo" passa a significar a instauração de um reino de felicidades anunciado 
e programado pelos tecnocratas. Neste reino, o homem estaria desembaraçado deste 
enfadonho trabalho de pensar. Trata-se de um reino que corresponde a este tipo de 
sociedade sem vida, de que fala Bachelard, onde o homem é livre para fazer tudo, 
embora nada tenha para fazer; onde ele é livre para pensar, muito embora nada mais 
encontre para pensar. A ciência pensará por ele, saberá em seu lugar. Quanto a nós, 
homens, estamos dormindo, num verdadeiro estado de sono antropológico, caracterizado 
pelo que Foucault chama de psicologismo e de sociologismo. 
 
 e) Na filosofia desse pensador, pois, o homem não passa do conceito de homem, de 
uma figura desvanecente num sistema temporário de conceitos: ohomem é, então, um 
ser finito que só existe para o tempo em que o sistema o reivindica, o funda e lhe confere 
um lugar .pri- 
 
 
 
 
 132 
vilegiado. Passado esse tempo de promoção à existência epistemológica, ele volta a ser 
um ser humano, um ser entre os seres, situado em algum lugar do sistema do saber. 
Foucault não considera o homem real, o que se afirma como homem e que defende seus 
interesses, o homem que tem desejos e que realiza. O que importa é que "o pensamento 
seja para ele mesmo saber e modificação daquilo que ele sabe". Contudo, se o 
pensamento "sai de si mesmo", não é para entrar no mundo e marcá-lo com sua 
presença: não há mundo, só há positividade, às quais o sistema liga o destino do homem. 
Todavia, esse homem é recusado como inventor do sistema e como objeto no sistema. É 
o sistema, "feixe único de necessidades" ("conjunto de relações que mantém, se 
transformam independentemente das coisas que essas relações religam") que torna 
possíveis essas individualidades que chamamos de Hobbes ou Berkeley, Hume ou 
Condillac (p. 77). O indivíduo, enquanto tal, só tem opiniões, que não constituem um 
pensamento. É o pensamento imanente ao campo epistemológico que constitui as 
opiniões. As mutações que o animam são "acontecimentos na ordem do saber", 
impessoais e imprevisíveis. Só tem o direito de falar em primeira pessoa aquele que 
pensa o sistema. Tal sistema é anónimo e sem sujeito. O que ele pensa é a descoberta 
do "há": há um "algo" (on) indeterminado, um pensamento anônimo, um saber sem 
sujeito, teórico, sem identidade; em todas as épocas, a maneira como as pessoas 
refletem, escrevem, julgam, falam, experimentam as coisas, todo o seu comportamento é 
dirigido por uma estrutura teórica, por um sistema que muda com as épocas e as 
sociedades. 
 
f) Como podemos notar, o homem é rechaçado ao mesmo tempo como sujeito e como 
objeto do sistema. A filosofia tem algo melhor sobre o que pensar, -do que pensar o 
homem. Aqueles que ainda se obstinam em pen- 
 
 
 
 
 133 
sá-lo, não somente pensam mal, mas são cúmplices de uma mistificação. Porque o 
homem, na perspectiva de Foucault, não é um objeto difícil, por ser simplesmente um 
objeto inexistente. Sem dúvida, há seres humanos, mas o homem não passa de um mito. 
As propriedades e os privilégios que os humanistas atribuíram ao homem, a este 
fantasma, são ilusórios. Uma antropologia digna deste nome é aquela que visa a 
compreender o pensamento, e de forma alguma aquela que tenta interrogar-se sobre o 
homem. Fazendo isto, "o pensamento adormece de um novo sono" (p. 353) e a ciência 
se extravia. Quanto às ciências humanas, elas oscilam entre a ciência empírica, a ciência 
formal e a reflexão filosófica. Por isso mesmo, eles são instáveis, perigosas e estão em 
perigo (p. 359). Torna-se, pois, necessário destruir o mito. E foi para melhor 
desembaraçar-se deste mito, que Foucault tentou analisar as condições de aparecimento 
das ciências humanas. Sua teoria é conhecida: o homem só aparece no campo do saber 
no limiar do século XIX, e está, hoje, fadado a um desaparecimento próximo. Sem dúvida, 
como já dissemos, é o conceito de homem que está em jogo. Foucault fala da imagem 
tradicional que se tinha dó homem e, por conseguinte, de todo o humanismo clássico que 
tentou resolver, mas sem conseguir, em termos de moral, de valores e de reconciliação, 
os problemas das relações do homem com o mundo, os problemas da realidade, da 
criação artística, da felicidade, etc. 
 
g) Situa-se aqui, a nosso ver, a grande ambiguidade da epistemologia de Foucault, se é 
que ela não pode ser definida como uma filosofia ambígua. Porque na medida em que ela 
exclui totalmente o homem real, para considerá-lo apenas como conceito, não 
pertencendo mais a um grupo ou a uma coletividade concreta, mas reduzindo-se a um 
elemento de um sistema, ela ignora por 
 
 
 
 
 134 
completo que o homem é um ser de necessidades e o sujeito da história. Neste sentido, 
poderíamos dizer com Sartre: "O essencial não é o que se fez do homem, mas o que ele 
faz daquilo que fizeram dele". O que fizeram do homem, continua Sartre, "são as 
estruturas, os conjuntos significantes que as ciências humanas estudam. O que ele faz é 
a própria história, a superação real dessas estruturas numa praxis totalizadora" 
(Entrevista a L’arc nº 30). 
 
 
 
 
 135 
A EPISTEMOLOGIA "CRÍTICA" 
 
 
 
 136 
 
 
 
 
 137 
Ao lado das três grandes correntes epistemológicas contemporâneas, cada uma tentando 
entender e explicar a atividade científica, através de uma elucidação das relações entre 
Teoria e Experiência, entre Razão e Fatos, procurando estabelecer o valor e a 
significação dos Métodos, dos Resultados ou da Linguagem das Ciências: 1. a 
epistemologia lógica, visando a um estudo acurado da linguagem científica e uma 
pesquisa metódica das regras lógicas que presidem a todo enunciado correto (empirismo 
ou positivismo lógicos); 2. a epistemologia genética, tentando elucidar a atividade 
científica e partir de uma psicologia da inteligência, culminando num estruturalismo 
genético e construtivista (epistemologia de J. Piaget); 3. a epistemologia histórico-crítica, 
procurando elucidar a produção das teorias e dos conceitos científicos a partir de uma 
análise da própria história das ciências, de suas revoluções e das démarches do espírito 
científico (Bachelard, Canguilhem, Foucault); ao lado, pois, dessas três maneiras de 
abordar a ciência em sua 
 
 
 
 
 138 
atividade, vemos surgir, recentemente, um novo tipo de epistemologia, a epistemologia 
crítica, fruto da reflexão que os próprios cientistas estão fazendo sobre a ciência em si 
mesma. Trata-se de uma reflexão histórica feita pelos cientistas sobre os pressupostos, 
os resultados, a utilização, o lugar, o alcance, os limites e a significação sócio-culturais da 
atividade científica. O que eles pretendem mostrar é que as ciências, hoje em dia, não se 
impõem mais por si mesmas; que seus resultados não poderão mais impor-se de modo 
evidente e triunfante; que as ciências não poderão mais constituir a verdade das 
sociedades atuais; que suas virtudes em nada são evidentes; que os pesquisadores 
precisam interrogar-se sobre a significação da ciência que estão fazendo; que eles não 
poderão mais fazer abstração da maneira como o conjunto da pesquisa científica é 
institucionalizado, organizado, orientado, financiado e utilizado por terceiros; que o 
próprio trabalho científico está profundamente afetado pelas novas condições em que ele 
é realizado na sociedade industrial e tecnicizada; que os pesquisadores devem 
responsabilizar-se pelas consequências que suas descobertas poderão ter sobre a 
sociedade; que eles precisam tomar consciência de que, na vida da ciência, há duas 
séries de forças atuantes: as forças externas, que correspondem aos objetivos da 
sociedade; e as forças internas, que correspondem ao desenvolvimento natural da 
ciência; portanto, precisam tomar consciência de que a ciência está cada vez mais 
integrada num processo social, industrial e político. 
 
A epistemologia crítica, pois, tem por objetivo essencial interrogar-se sobre a 
responsabilidade social dos cientistas e dos técnicos. Esta interrogação torna-se hoje 
uma das questões cruciais de nossa cultura. E foram os próprios cientistas que, em 
primeiro lugar, colocaram este problema. Há algumas décadas atrás, nem mesmo 
 
 
 
 
 139 
os intelectuais mais extremistas, que contestavam todas as instituições existentes, 
ousavam criticar a ciência. Nem tampouco os niilistas mais ferrenhos, ao atacarem todos 
os valores reinantes, colocaram em questão a ciência. Ao contrário, estavam convencidos 
de que a ignorância era a fonte de todos os males, e de que somente a ciência poderia 
resolver todos os problemas e curar todos os males da sociedade. Todavia, tal otimismo 
desapareceu. Muitos cientistas inclinam-sea pensar que a própria ciência está na origem 
de muitos males. Sem dúvida, o espírito da filosofia das Luzes continua bastante vivo. Há 
toda uma mentalidade mais ou menos difusa tendo por fundamento ideológico a fé na 
ciência e em seus resultados: o domínio da natureza, a riqueza material, a organização 
eficaz da vida social, etc. Contudo, paira cada vez mais uma suspeita sobre o número 
crescente de consequências do desenvolvimento científico: a degradação das relações 
individuais nas sociedades industrializadas, a utilização das pesquisas científicas para 
fins destruidores, a possibilidade de manipulação crescente dos indivíduos, a utilização 
maciça dos cientistas, de seus métodos e de seus "produtos" para fins repressivos, a 
obsessão patológica pelo consumo, gerando um esgotamento irracional dos recursos 
naturais e uma poluição praticamente irreversível do meio ambiente, etc. Diante desta 
situação, quê é nova, os cientistas começam a reagir. E é a esta interrogação sobre a 
significação real da ciência que podemos chamar de "epistemologia crítica". Com efeito, a 
ciência, para a opinião pública, apresenta-se como um poder onipotente, como um saber 
mágico, admirado, temido, intervindo em todos os domínios da vida. Podemos dizer que a 
sociedade atual parece venerar uma nova Santíssima Trindade: Ciência-Técnica-
Indústria. Trata-se de um triunvirato do Saber que não pode mais apresentar-se como um 
conhecimen- 
 
 
 
 140 
to puro. imaculado ou aristocrático, como uma contemplação amorosa da Verdade, mas 
como um conhecimento eminentemente tecnicizado, governando de modo quase 
absoluto um gigantesco processo de produção racionalizado e industrializado. Preso no 
feixe das mil solicitações do "ter" e das motivações do chamado establishment, mas 
também submetido às astúcias de um controle social sempre mais insidioso, o homem 
moderno encontra-se como que instalado no conforto prometido por uma tecnonatura 
sempre mais aperfeiçoada. Onde ele pode depositar suas esperanças? Tanto o sonho 
ingénuo do século das Luzes, quanto a mitologia científica do século XIX, prometendo ao 
homem um progresso indefinido da ciência, como motor essencial e incansável da 
felicidade humana, pareceu não mais ter razão de ser. Tudo indica que, hoje em dia, os 
cientistas tornaram-se objeto de propaganda. Quem não os vê sendo exibidos em toda 
parte como vedetes ou campeões? Como se fossem um precioso capital, um alto 
investimento cuja rentabilidade deve ser garantida: uma moeda de troca, uma imagem de 
marca nacional ou ideológica. Num certo sentido, a função do cientista foi teatralizada. 
Ele é uma espécie de iceberg do saber flutuando sobre o oceano de nossas ignorâncias e 
incertezas. Toda a parte oculta e propriamente científica, de seu trabalho parece justificar 
seu estatuto privilegiado, que ninguém parece contestar. No entanto, o cientista não pode 
ser estranho à "sociedade do espetáculo". Nos últimos tempos, ele saiu de sua ficção 
neutralista e, com ele, também a ciência. 
 
Tornou-se famosa, no início da última guerra mundial, a afirmação de Oppenheimer: 
"Quando vocês virem algo de tecnicamente delicioso (sweet), continuem em frente e 
façam-no, sem se perguntarem sobre o que é preciso fazer, a não ser depois que vocês 
tiverem obtido seu sucesso técnico". Como podemos notar, esta tran- 
 
 
 
 
 141 
quila "irresponsabilidade", que faz com que a ciência conserve seu caráter lúdico, não 
somente degrada o cientista, mas revela a impotência da própria sociedade em conceber 
um projeto que seja capaz de finalizar o progresso científico, uma vez que ele estaria 
entregue à anarquia de seu próprio crescimento. Ora, relativamente a este crescimento, é 
claro que o Estado intervém, sobretudo pela limitação dos créditos. Neste sentido, o 
cientista fica submetido a instâncias burocráticas estranhas à atividade propriamente 
racional. Donde a disputa dos cientistas, que se verifica na concorrência em vista da 
obtenção de financiamentos. Por outro lado, enquanto a ciência da ciência permanecer, 
para o cientista, um desejo meramente romântico ou o objeto de uma futurologia vaga, o 
único modo que ele tem para reconquistar sua autonomia consiste em vincular-se ao* 
poder, para que este inspire diretamente uma política da ciência. Todavia, mesmo neste 
caso, semelhante política ainda permanece uma aliança do possível, do provável e do 
desejável: uma mescla de racional e de irracional. De qualquer forma, ao se aproximarem 
do poder político, os cientistas aumentam sua dependência. Sendo assim, teria ainda 
sentido falarmos de neutralidade isolacionista? 
 
Se tomarmos, por exemplo, um acontecimento de alcance universal, cuja causa possa 
ser atribuída à "irresponsabilidade" ou "alienação" dos cientistas, como poderiam eles 
reagir? Há duas possibilidades de tomada de posição: a) ou eles aceitam esta alienação 
como se ela fosse um estado de coisas natural, continuando a estabelecer uma distinção 
nítida entre a responsabilidade da criação e a da utilização do saber; b) ou então, 
revoltam-se contra ela, mas também contra seu estado de produtores "neutros" de 
informações, passando a preocupar se com os objetivos fundamentais da pesquisa, 
 
 
 
 
 142 
onde todo trabalho intelectual deve adquirir sua significação final. Segundo esta hipótese, 
os cientistas deverão modificar sua concepção fundamental da natureza de sua tarefa. 
Por outro lado, deverão abandonar a ideia segundo a qual a ciência sempre é positiva 
(isenta e neutra de qualquer contaminação) para aceitar a ideia de uma ciência crítica, 
capaz de analisar as relações que ela mantém com a sociedade, bem como as 
orientações ou utilizações eventuais que esta sociedade poderá impor-lhe. Fazendo isto, 
os cientistas tomarão consciência de seus descompromissos tradicionais, passando a 
preocupar-se com as utilizações que podem ser feitas de suas descobertas e invenções 
para fins não-humanos. Todavia, segundo a primeira hipótese, os cientistas que 
adotarem tal atitude continuarão a confinar-se numa estreita divisão do trabalho e a fugir 
a toda responsabilidade. O argumento que utilizam, aparentemente irrefutável, concerne 
à objetividade científica: esta nada tem a ver com os engajamentos pessoais. Daí 
poderem os cientistas refugiar-se na ideia segundo a qual, não havendo um trabalho 
eticamente neutro e livre de toda e qualquer referência a um sistema de valores, a ciência 
perderia seu caráter de objetividade, ficando ao sabor das flutuações ideológicas. 
Contudo, é um fato que a imagem da ciência está mudando. As condições materiais e 
sociais da pesquisa chamada de "pura" (teórica ou fundamental) alteraram-se 
substancialmente. Donde a questão: o que vem a ser, hoje, a ciência? E qual é sua 
verdadeira significação? Falar da significação da ciência consiste em elucidar, de um 
lado, o termo "ciência", do outro, o termo "significação". Será que ainda podemos falar de 
a ciência? Não seria melhor e mais correto empregarmos o termo no plural, e dizermos 
as ciências? Quando dizemos a ciência, não estaríamos adotando, de início, um 
 
 
 
 
 143 
ponto de vista idealista? Por outro lado. pelo termo "significação", não estaríamos 
expressando, em primeiro lugar, que a ciência deve ser considerada como uma prática 
humana"? Com efeito, "significação" quer dizer, antes de tudo, a. intenção subjetiva do 
cientista. Esta intenção se caracteriza pela busca do Conhecimento, muito embora tal, 
conhecimento, desde Descartes, esteja fundamentalmente orientado para o que se 
convencionou chamar de "dominação da natureza". Em segundo lugar, o termo 
"significação" serve para evocar as intenções explícitas ou implícitas daqueles que, direta 
ou indiretamente, orientam ou dirigem a política científica. E esta orientação se faz, hoje 
mais do que nunca, para o aumento da produção e para o desenvolvimento tecnológico. 
Todavia, o que a epistemologiacrítica pretende mostrar é que, uma vez que o 
conhecimento científico se torna cada vez mais um poder, é este próprio poder que irá 
constituir, nas sociedades industrializadas, a significação real da ciência. 
Independentemente das motivações subjetivas dos cientistas, a significação da ciência 
deverá ser procurada no poder que o saber hoje em dia confere. 
 
Este "poder" da ciência não se situa fora dela. Nem tampouco é de grande utilidade a 
velha distinção entre ciências fundamentais e ciências aplicadas. Porque é na experiência 
de seu próprio poder que a ciência, mesmo teórica ou fundamental, constitui-se como 
saber. Vejamos, no entanto, os dois polos em que se situa a ciência: de um lado, o polo 
do saber; de outro, o do poder. O saber pelo saber está na base do desenvolvimento da 
ciência. Contudo, não se pode negar que, hoje em dia, ela desempenha um papel tão 
importante no desenvolvimento das forças produtoras, que há uma preeminência do 
saber para o poder. Ninguém contesta que a pesquisa científica, sobretudo em nossos 
dias, comanda cada vez 
 
 
 
 
 144 
mais diretamente todo o desenvolvimento económico. O lugar que a ciência ocupa na 
sociedade atual é tão grande e tão significativo, que ela se torna uma das mais 
importantes atividades humanas, a ponto de constituir-se mesmo numa das formas 
específicas da existência moderna do homem. E é a partir desse fato que parece 
completamente sem significação real a distinção entre ciência desinteressada (teórica ou 
pura) e o que pode ser chamado de ciência-técnica ou aplicada. Na realidade, todo o 
processo científico, da pesquisa fundamental ao crescimento económico, passando pela 
pesquisa aplicada ou de desenvolvimento, está intimamente vinculado ao poder que o 
saber científico confere. Parafraseando Nietzsche, podemos dizer que não é mais 
possível admitirmos a "imaculada concepção da ciência". De há muito que ela perdeu sua 
"inocência" ou sua "candura". De há muito que ela é cúmplice do processo de 
industrialização. Não só ela contribui, mas continua a organizar tal processo, continua a 
racionalizar seu funcionamento e a estabelecer sua soberania. De um lado, ela recebeu 
esta materialidade manifesta de um poder, quer dizer, esta garantia de um poder-fazer; 
do outro, foi levada a multiplicar a estatura de seus próprios empreendimentos, o poder 
de seus instrumentos, a resistência de seus materiais e, por conseguinte, a ampliar o 
campo de suas investigações: do microcosmo (química do ser vivo, física das partículas) 
ao macrocosmo (exploração do espaço). 
 
Com a industrialização, a prática científica mudou de escala como que de natureza. O 
tempo da "ciência académica", autónoma e livre, foi pouco a pouco dando lugar a uma 
ciência dependente do Estado ou da indústria. E hoje, ela entrou no grande jogo 
diplomático das políticas nacionais da ciência. A little science do passado 
 
 
 
 
 145 
cedeu lugar à big science atual. Houve uma invasão da vertigem do quantitativo. A 
pesquisa foi absorvida na espiral do crescimento. Está sempre à cata de créditos. Aceita 
os contratos que lhes são ofertados para subsistir. A corrida armamentista se serve dela. 
Outrora promessa de felicidade, a ciência torna-se ameaça de morte. Está hoje 
subordinada a instâncias burocráticas que são estranhas à atividade "racionalizante". E 
as tomadas de decisão não estão mais submetidas a uma regulamentação propriamente 
científica. 
 
Mas, afinal, o que vem a ser a ciência? Definições, é o que não falta. Muitas são 
demasiadamente amplas, a ponto de não mais distinguirem entre ciência e especulação. 
Outras são por demais restritas, a ponto de reduzirem a ciência ao saber fundado em 
fatos observáveis, traduzidos numa linguagem formalizada e susceptível de uma 
verificação experimental em laboratório. Há uma maneira "idealista" de se conceber a 
ciência: ela seria esta procura desinteressada do Conhecimento ou da Verdade. Por outro 
lado, há um modo realista, porém, ingénuo de concebê-la: ela se confundiria com a 
tecnologia, com o saber meramente operacionalizável, destinado a produzir 
industrialmente. Uma coisa é certa: não podemos definir de modo "neutro" e "objetivo" o 
que vem a ser "a ciência". Se, por um lado, ela é uma pesquisa metódica do saber, por 
outro, podemos considerá-la como uma maneira de interpretar o mundo. Na realidade, 
porém, podemos considerá-la como uma instituição, com suas academias, seus grupos 
de pressão e seu ritual próprio. E seria verdadeiro dizer que ela se torna cada vez mais 
um métier. Basta analisarmos atentamente as condições reais do trabalho científico para 
percebermos que ele está impregnado de problemas sociológicos e políticos. Resulta, 
então, que seria temerário dizer que existe "ciência" autónoma, pura ou absoluta. Pelo 
contrário, 
 
 
 
 
 146 
somos levados a crer que o saber científico não é mais, como outrora, eminentemente 
racional, nem muito menos o detentor de uma "razão" imutável. As normas da ciência são 
históricas e, por isso mesmo, são condicionadas e evoluem. Por outro lado, não podemos 
afirmar com tranquilidade que os cientistas sejam isentos de preconceitos ou de partis-
pris. Eles se servem de sua imaginação. Não estão ao abrigo das ideologias nem das 
pressões sociais. Na medida em que a ciência penetrou na indústria, foi profundamente 
industrializada. Isto não quer dizer que os fins meramente utilitários predominem na 
orientação da ciência, mas que as normas intelectuais e éticas dos cientistas sofreram os 
efeitos de novos imperativos, passando cada vez mais a depender das decisões e dos 
financiamentos externos ao "mundo científico". As escolhas dos cientistas, que a princípio 
eram "livres", tiveram que se dobrar às opções estranhas ao interesse imanente à ciência. 
 
Assim, o que pretende mostrar a epistemologia crítica, é que a verdadeira significação da 
ciência não reside mais no saber enquanto tal, mas no poder que ele efetivamente 
confere. E é na experiência de seu próprio poder que a ciência se constitui como saber. 
Isto se aplica, quer aos conceitos, cujo caráter cada vez mais operatório pressupõe 
sempre uma experimentação (real ou simulada), quer às teorias, pois estas só são 
reconhecidas como verdadeiras na medida em que são verificadas (feitas verdadeiras) 
pela experiência, o que implica uma dupla operacionalidade: a primeira, intrínseca à 
teoria, tenta resolver equações ou fazer funcionar "operadores"; a segunda, de natureza 
experimental, tenta construir dispositivos experimentais e efetuar medidas. E é por isso 
que, na ciência, não se distinguem mais a consciência de saber" e a "consciência de 
poder". Porque, de fato, 
 
 
 
 
 147 
conhecer cientificamente, hoje mais do que nunca, consiste em saber que se sabe fazer. 
 
Por conseguinte, quer no plano teórico, quer no prático, a ciência se justifica por seu 
poder. Aliás, este é um dos argumentos mais utilizados pelos cientistas quando se trata 
de angariar fundos para suas pesquisas: o interesse social ou prático que elas poderão 
proporcionar. E se não fosse assim, qual seria sua importância social? Donde se conclui 
que não há distinção rígida entre "ciência" e "técnica", pois não se pode considerar a 
primeira como um "em-si", independentemente de seu exercício concreto, nem tampouco 
dissociar o discurso científico de sua verificação prática, que implica uma técnica. Com 
efeito, o método experimental e dedutivo, com quatro séculos de sucessos inegáveis, 
aumenta dia a dia seu impacto sobre a vida social e individual, a ponto de quase 
ninguém, no domínio do saber, deixar de apoiar-se em sua eficácia tecnológica. Donde a 
supervalorização da "tecnocracia" que, em última análise, consiste, quer no poder da 
técnica ou da ciência realizada, quer no poder de certos homens, os "tecnocratas". E a 
ideologia que funda a ciência como poder chama-se cientificismo. Razão pela quala 
epistemologia crítica tenta desvendar sua significação atual. 
 
O cientificismo contemporâneo, através de um processo de "anexação imperialista", criou 
uma ideologia que lhe é própria. Essa ideologia tem todas as características de uma 
verdadeira religião. O grande público como que venera e presta culto a esta nova 
divindade do século: a ciência, sobretudo, suas maravilhas tecnológicas. Não há muita 
diferença entre os adeptos da "religião ciência" e os partidários das outras religiões. Até 
podemos nos perguntar se o cienticismo não suplantou as demais religiões tradicionais, 
pelo menos enquanto "religião" assegurando todas as "verdades". Sua influên- 
 
 
 
 
 148 
cia nas mentalidades e na educação em todos os níveis é tão grande, que suas 
"verdades" parecem indiscutíveis ou assemelham-se a dogmas inquestionáveis. E tudo 
isso, apesar de o grande público ser quase analfabeto em matéria de ciência. Neste 
domínio, a ignorância chega a ser estarrecedora. Até mesmo nos meios universitários, a 
ciência quase não é conhecida, pois continua a ser ensinada tão enigmaticamente (como 
previra e ordenara Comte), quase como se ela fosse uma "verdade revelada". 
 
E é por isso que a palavra "ciência" exerce tal fascinação e tal poder na mentalidade do 
homem comum, que chega até a apresentar-se como se tivesse uma essência quase 
mística. Evidentemente, isto é profundamente irracional. Mas nem por isso a grande 
maioria dos homens deixa de ver na ciência uma espécie de "magia negra", tão 
indiscutível e incompreensível é a autoridade de suas "verdades". E é exatamente nisso 
que consiste o caráter "religioso" do cientificismo. Enquanto tal, esta dimensão é 
irracional e emocional em suas motivações. Contudo, por outro lado, em sua prática 
cotidiana, chega a ser profundamente intolerante. Sem falarmos do aspecto de que o 
cientificismo tem a pretensão de ter superado todas as religiões e todos os mitos. 
 
Pretende basear-se única e exclusivamente sobre a Razão. O que nem sempre é 
verdade. Contudo, aos olhos do grande público, as palavras dos tecnólogos, dos 
tecnocratas e dos experts (os novos "pontífices" dessa nova "religião") apresentam-se 
como a última palavra em matéria de verdade a ser criada. A língua dessa "religião" é 
bastante hermética e incompreensível. Aliás, nem chega a ser uma língua, mas um 
conjunto de dialetos, cada um com seu jargão especializado, numa verdadeira "torre de 
Babel" onde ninguém entende ninguém. E toda a realidade, inclusive a experiência e as 
relações humanas, teriam que exprimir-se nesta linguagem cifrada, como se o mundo 
 
 
 
 
 149 
fosse uma estrutura particular no seio das matemáticas. Em suma, a ciência e a 
tecnologia, que dela decorre, resolverão todos os problemas do homem. E somente os 
experts estão habilitados a tomar decisões, pois só eles sabem e, por conseguinte, 
somente têm valor seus pareceres. 
 
Ora, o cientificismo atual, levando ao paroxismo o do século passado, não se apresenta 
com dogmas escritos ou explícitos, muito embora possa ser ilustrado por certas obras, 
por exemplo, O acaso e a necessidade, de J. Monod. Todavia, podemos extrair dele 
certos dogmas, sem termos a pretensão de que eles sejam aceitos por todos os 
cientistas. Tais dogmas constituem um verdadeiro Credo, cujas "verdades" estão 
recobertas de mitos que a epistemologia crítica procura desvendar. Poderíamos sintetizar 
tal Credo nas seguintes "verdades" inconfessadas, implícitas do cientificismo atual. Em 
primeiro lugar, há toda uma mentalidade que só admite como verdadeiro e real o 
conhecimento cientificamente comprovado, isto é, aquilo que pode ser expresso 
quantitativamente, que pode ser formalizado ou ser reproduzido em condições de 
laboratório. O conhecimento que não satisfizer a esses condições, deverá ser tomado 
como falso, irreal ou simplesmente subjetivo. Conhecimento verdadeiro é aquele que é 
universal, quer dizer, válido em todos os tempos e lugares, para todas as pessoas, para 
além das sociedades e das formas de cultura. As sensações, as experiências do amor, 
do prazer, da dor, da emoção, da beleza, etc., devem ser abolidas do dicionário do 
conhecimento verdadeiro. Porque, de fato, só os cientistas conhecem. Só eles sabem. E 
só é objeto de conhecimento, aquilo que pode ser repetido em condições de verificação 
experimental. Em seguida, e em suma, a verdade se identifica com o conhecimento 
científico. Toda realidade, para ser conhecida de modo verdadeiro, 
 
 
 
 
 150 
precisa ser abordada por um método que empregue uma concepção "mecanicista", 
"formalista" ou "analítica". O que é conhecido de outra forma, é desprovido de 
significação cognitiva. 
 
É deste vasto domínio de questões que se ocupa o que hoje se denomina epistemologia 
crítica. Certos cientistas começam a compreender a ambiguidade do papel que 
desempenham ou que são forçados a desempenhar no seio da sociedade. E desejam 
construir uma ciência responsável, não somente consciente de seu papel real e de suas 
funções sociais, mas também preocupada em controlar ou, pelo menos, assumir suas 
próprias atividades dentro dá sociedade. Eles querem avaliar as consequências que 
podem ter, sobre a sociedade e sobre o futuro da humanidade, os resultados de suas 
pesquisas e invenções científicas. Diante delas, não querem permanecer passivos ou 
nesta atitude de "neutralidade" própria a um colecionador de selos, mas não àqueles que 
interferem diretamente, quer queiram, quer não, nas transformações sociais. Ao tentarem 
fazer uma reflexão para descobrir os pressupostos e os condicionamentos sócio-culturais 
de sua atividade científica, os cientistas estão desenvolvendo uma atividade 
epistemológica que nós chamamos de "crítica". Não se trata, de forma alguma, de negar 
a especificidade da ciência. Trata-se de mostrar que ela não constitui um mundo à parte, 
uma espécie de reino isolado onde os cientistas viveriam para o "saber desinteressado". 
Evidentemente, eles constroem um saber rigoroso, governado por normas racionais, 
onde as teorias são confrontadas com as experiências. Todavia, o que a epistemologia 
crítica pretende evidenciar é que, na prática, as coisas se complicam e as pesquisas não 
têm essa transparência e essa objetividade que frequentemente lhes atribuímos. O que 
está em questão é o próprio papel da ciência. Se há uma "crise" da ciên- 
 
 
 151 
cia, é porque há cientistas que se interrogam sobre a significação de seu trabalho, sobre 
a verdadeira significação ou função que a atividade científica deve desempenhar na 
sociedade, e sobre as responsabilidades que eles devem assumir diante daquilo que 
fazem. Por outro lado, se há uma "crise" do meio científico, é porque os efeitos diretos ou 
indiretos da ciência sobre iodos os setores da vida social suscitam reações de temor, de 
medo, de frustração, quando não de rejeição. Sem dúvida, decisões precisam ser 
tomadas. Pena é que não haja um método objetivo e racional para determiná-las. 
Este tipo de análise é desenvolvido por um dos mais ilustres membros da "Escola de 
Frankfurt", J. Habermas (daremos outras ilustrações na bibliografia). Com efeito, em La 
tecnique et Ia science comme "idéologie" (trad. francesa), Habermas faz uma análise 
bastante pertinente do tema "Ciência e Sociedade". Em particular, ele se detém sobre 
essas questões essenciais de que falamos acima. E para abordar o problema das 
relações entre ciência e técnica, por exemplo, bem como entre prática social e política, 
ele distingue três modelos: 1. Segundo o modelo decisionista (que toma de empréstimo a 
M. Weber), há uma subordinação dos especialistas àqueles que decidem politicamente. 
São estes que formulam as opções fundamentais, referindo-se de modo mais ou menos 
"racional" a certos valores; mas são os especialistas que fornecem os "meios racionais" 
de ação; 2. Com o modelo tecnocrático, há uma inversão nas relações entreo 
especialista e o político: o político torna-se apenas o órgão executor de uma intelligentsia 
científica. Ao invés de serem colocados em termos políticos, no sentido clássico do 
termo, os problemas se transformam em questões meramente técnicas. Como tais, 
devem ser resolvidas pelos experts. As questões concernentes à finalidade, aos objetivos 
a serem perseguidos, são elimi- 
 
 
 
 
 152 
nadas. O que se pretende fazer é depender as decisões políticas única e exclusivamente 
da lógica das "coações objetivas". E é por ver em tudo isso uma ilusão perigosa, que o 
autor prefere optar por um terceiro modelo; 3. O modelo pragmático deve ser preferido, 
pois somente ele implica um verdadeiro diálogo entre o especialista e o político. Sendo 
assim, o desenvolvimento das técnicas deve ser orientado em função de um "projeto 
político" que precisa levar em conta as possibilidades técnicas. Somente este modelo 
pode, para Habermas, apresentar um vínculo necessário com a democracia. Atualmente, 
porém, este diálogo não somente é difícil, mas quase impossível, pois. a tecnocracia 
impera e domina. Daí a urgência em se instaurar as condições de um verdadeiro controle 
político, de não mais confundirmos questões técnicas (como fazer?) com questões 
relativas aos fins (qual o tipo de sociedade que queremos?). 
 
Ao retomar o conceito weberiano de "racionalidade", para caracterizar a forma 
"capitalista" de atividade econômica (forma de trocas no nível do direito privado e forma 
burocrática de dominação), Habermas reconhece que, hoje em dia, a "racionalização" 
está profundamente vinculada à institucionalização do progresso científico e técnico. E a 
"racionalidade" científica atual passa a ser apenas uma escolha entre estratégias, quer 
dizer, entre os modos de se utilizar adequadamente as tecnologias e de organizar os 
"sistemas" tendo em vista finalidades preestabelecidas e fixas em situações dadas. No 
entanto, na medida em que esta racionalização se apresenta, sob as aparências de 
reflexão e de reconstrução racional, como um feixe de interesses macroeconômicos, no 
seio do qual são feitas as opções estratégicas e utilizadas as tecnologias, ela se amplia 
inevitavelmente ao domínio da manipulação técnica. Isto vai ter como consequência um 
tipo de atividade de dominação 
 
 
 
 
 153 
sobre a natureza, mas também sobre a sociedade. É neste sentido que a racionalidade, 
por sua própria estrutura, é o exercício de um controle. Donde a identidade entre "ciência" 
e "técnica" e, por conseguinte, entre "técnica" e "dominação". Em virtude de seu próprio 
método e de seus conceitos, a ciência projetou um mundo no interior do qual a 
dominação sobre a natureza converteu-se também em dominação sobre o próprio 
homem. E na medida em que a transformação da natureza implica na dominação do 
homem, o a priori da tecnologia não pode deixar de ser "político", uma vez que ela se 
torna a forma universal da produção material, define uma cultura e projeta, assim, um 
"mundo" inteiramente diferente. 
 
E é exatamente por isso que a imagem de marca do cientista e de suas atividades está 
hoje seriamente comprometida e desvalorizada. A ciência, outrora, por definição, 
apresentava-se como a procura de uma verdade absoluta, racional e universal. Ela se 
distinguia das outras formas de conhecimento (artístico, místico, filosófico) pela 
objetividade de seus teoremas, pela certeza de suas leis e garantia de seus resultados 
experimentais, cuidadosamente estabelecidos e verificados. Ora, a ciência é hoje 
produzida numa sociedade bem determinada, que condiciona seus objetivos, seus 
agentes e seu modo de funcionamento. Ela se torna uma prática social entre outras, 
irremediavelmente marcada pela sociedade em que se insere, apresentando todas as 
marcas dessa sociedade, refletindo todas as suas ambiguidades e contradições, tanto em 
sua organização interna quanto em sua aplicação propriamente tecnológica. 
Assim, o que a epistemologia crítica pretende mostrar é que o poder do conhecimento já 
se transformou, desde algum tempo, em conhecimento do poder. A ciência 
contemporânea, herdeira experimental da religião 
 
 
 
 
 154 
medieval, realiza hoje as mesmas funções que a teologia desempenhava na Idade Média. 
Até parece que seu papel seja o de compensar, com sua inteligência eterna de 
especialistas, os sentimentos de impotência, de frustração e de ignorância do homem 
moderno. Na realidade, porém, ela é a soma organizada e racional de suas limitações, 
para não dizer, de suas alienações. O poder da ciência tornou-se tão espetacular, que ele 
não encontra mais normas exteriores a si mesmo. No domínio das chamadas ciências 
exatas, podemos constatar que a significação do conceito de natureza parece consistir na 
delegação do poder que constitui o processo científico-técnico. O homem moderno 
delegou sua ciência físico-química aos mísseis, mas também, por outro lado, delegou seu 
saber aos computadores, aos programas, aos processos de automação e de cibernética 
social. E, com isso, ele se torna um alienado. No fundo, podemos dizer que ele não 
"sabe" mais aquilo que confia ao processo de que é a origem. Quer dizer: não sabe mais 
aquilo que pode. Portanto, não pode mais aquilo que pode. Porque não é mais ele quem 
pode, mas o próprio poder da ciência realizada em técnica. E a "racionalidade" científica 
transforma-se em ideologia, a partir do momento em que pretende impor-se como a única 
forma de racionalidade possível. Podemos ilustrar isso a partir de uma análise sumária do 
conceito de objetividade. 
 
Quais as características da atividade científica atual, tais como a epistemologia 
contemporânea as percebe? Em primeiro lugar, a epistemologia atual reconhece a 
construção de objetos susceptíveis de compor um feixe de relações mais ou menos 
formalizadas. Esses objetos podem ser puramente ideais (lógicos ou matemáticos). E o 
feixe de dações forma sistemas fechados, regidos por algoritmos definidos a priori. Ou 
então, este feixe de relações pode ser constituído por referência a uma 
 
 
 
 
 155 
realidade, sendo o papel da axiomatização o de reinterpretar dedutivamente o conjunto 
dos resultados adquiridos num domínio limitado; ou então, o de servir de instrumento de 
pesquisa num campo inexplorado onde os dedos de observação não se prestam 
diretamente à hipótese experimental. Em segundo lugar, a epistemologia reconhece as 
operações repetíveis praticadas sobre esses objetos e sobre suas relações. Esta 
repetibilidade pode ser o fato do algoritmo empregado ou o da verificação experimental. É 
dela que deriva a ideia de "controle objetivo" a que deve submeter-se o cientista. 
Finalmente, a epistemologia reconhece a extensão dos conhecimentos (chamada de 
"progresso"): de um lado, visando a construção de objetos novos, de outro, levando em 
conta a fragmentação de um domínio do saber, dando-lugar à ramificação de uma 
ciência-mãe em várias disciplinas novas. 
 
Dessas características, a epistemologia crítica tira as seguintes consequências: 1. "A" 
ciência não existe. Só existem "ciências". Nenhuma delas constitui um sistema definitivo 
do saber; 2. O valor da objetividade científica deve-se ao valor dos objetos construídos, 
ao poder dos modelos empregados relativamente aos dados da experiência, e não a uma 
reprodução fiel da "realidade"; 3. A objetividade científica não está isenta de erros, nem 
tampouco pode eximir-se de uma escolha; 4. Só podemos falar de "verdade" científica no 
sentido de uma conveniência entre os modelos e as predições que eles podem autorizar 
e os fatos realmente pertinentes. Esta conveniência se define, formalmente, por uma não-
contradição; 5. Nas ciências experimentais, a "prova" consiste em mostrar que as 
respostas da experiência às questões que lhe são colocadas, não contradizem uma 
hipótese num conjunto com exclusão das demais; 6. A objetividade se define, em últimaque é ou se torna, uma vez que se trata de uma disciplina recente 
e cuja construção é, por isso mesmo, lenta. Seu estatuto está longe de poder ser bem 
definido, tanto em relação às ciências, entre as quais pretende instalar-se como disciplina 
autónoma, quanto em relação à filosofia, de que insiste em separar-se sem se dar conta 
de que uma de suas razões de ser é postulá-la como uma das exigências fundamentais 
de qualquer olhar crítico e reflexivo sobre as ciências que se vêm criando e 
transformando o mundo através dos produtos que não cessam de lançar em nossa 
cultura. Por isso, definir o estatuto da epistemologia atual é tarefa delicada, pois os limites 
do domínio de investigação dessa disciplina são muito flutuantes. Além disso, não existe 
sequer um acordo quanto à natureza dos problemas que ela deve abordar. Seu campo de 
pesquisa é imenso, supondo grande intimidade com as ciências, cujos princípios e resul- 
 
 
 
 24 
tados ela deveria estar em condições de criticar. Donde a variedade de conceitos de 
epistemologia. 
 
Comecemos pela noção mais simples. "Epistemologia" significa, etimologicamente, 
discurso (logos) sobre a ciência (episteme). Apesar de parecer um termo antigo, sua 
criação é recente, pois surgiu a partir do século XIX no vocabulário filosófico. Daí um 
primeiro problema: se aquilo que está por baixo desse termo (seu conteúdo) só apareceu 
no século passado, a que condições novas, na história das ciências e da filosofia, 
corresponde este aparecimento? Será que este termo surgiu tardiamente para designar 
uma antiga forma de conhecimento, contemporânea da prática dos primeiros sábios e 
filósofos? Em outros termos: teria a epistemologia começado com a filosofia clássica 
(com Platão, por exemplo), ou somente depois dela? 
 
Colocando a questão nestes termos, podemos confinar a epistemologia, desde o início, 
nos limites do discurso filosófico, fazendo dela uma parte deste discurso. Foi assim que 
fizeram todas as epistemologias tradicionais, chamadas de filosofia das ciências ou de 
teoria do conhecimento. Todavia, colocando de outra forma a questão, caracterizaremos 
a epistemologia como um discurso sobre o qual o discurso primeiro da ciência deveria ser 
refletido. Assim, o estatuto do discurso epistemológico, como duplo, é ambíguo: discurso 
sistemático que encontraria na filosofia seus princípios e na ciência seu objeto. Seria um 
discurso dividido entre duas formas de discurso racional. Por esta dupla pertença ou 
filiação, a epistemologia teria por função resolver o problema geral das relações entre 
filosofia e ciências. Trata-se de saber se tal problema é verdadeiro, ou se a epistemologia 
não deve ir procurar suas funções, seus métodos e seu conteúdo fora da perspectiva 
filosófica. 
 
 
 
 25 
Tradicionalmente, a epistemologia é considerada como uma disciplina especial no interior 
da filosofia. Eram os filósofos que faziam as pesquisas em epistemologia. Esta era "para" 
a ciência ou "sobre" a ciência, mas não era obra dos próprios cientistas. Todas as 
filosofias desenvolveram espontaneamente uma teoria do conhecimento e uma filosofia 
das ciências tendo por objetivo quer evidenciar os meios do conhecimento científico, quer 
elucidar os objetos aos quais tal conhecimento se aplica, quer fundar a validade deste 
conhecimento. Como se pode notar, este programa visa a um duplo fim: em primeiro 
lugar, descobrir um conhecimento positivo: de que fala o cientista? Como fala dele? Em 
segundo lugar, visa a ultrapassar os limites dessas questões, fazendo da prática científica 
o objeto de um juízo: o que é uma verdade científica? Em que condições há verdade? Em 
que limites podemos falar de verdade científica? 
 
Esta concepção tradicional de epistemologia está registrada no Vocabulário de Lalande. 
Para este, com efeito, a epistemologia é a filosofia das ciências, mas com um sentido 
mais preciso. Ela não é, propriamente falando, o estudo dos métodos científicos, os quais 
pertencem à metodologia. Também não é uma síntese, ou uma antecipação conjetural 
das leis científicas (à maneira do positivismo ou do evolucionismo). Essencialmente, a 
epistemologia é o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das 
diversas ciências. Semelhante estudo tem por objetivo determinar a origem lógica (não 
psicológica) das ciências, seu valor e seu alcance objetivos. 
 
Como podemos depreender dessa concepção, a epistemologia usaria a ciência como 
simples pretexto para filosofar. A filosofia teria com a ciência uma relação puramente 
interesseira, explorando-a para seus próprios fins. Isto se torna manifesto nas três 
funções clássicas atribuídas à filosofia das ciências: 1. Situar o lugar do 
 
 
 
 26 
conhecimento científico dentro do domínio do saber. Esta atividade, propriamente tópica 
(topos: lugar), é dupla: de um lado, ela distingue as funções e os meios que são 
apropriados às outras formas de conhecimento; do outro, apresenta o sistema geral de 
todas essas funções. Donde o paradoxo do discurso filosófico, que se confere a si 
mesmo um lugar específico no interior deste conjunto, mas permanecendo-lhe estranho, 
pois cabe-lhe designar seu esquema global. Daí a questão: por que a filosofia tem este 
privilégio de distribuir em torno de si os outros discursos? Não poderia o discurso 
científico descobrir por si mesmo seu próprio lugar? Destas questões, podemos deduzir a 
segunda função da filosofia das ciências. 2. Estabelecer os limites do conhecimento 
científico: este não pode tudo conhecer. Tal limitação se exprime numa série de 
oposições: ciência e sabedoria, conhecer e pensar, compreender e conhecer, etc. Estas 
duas atividades, de distinção e de limitação, supõem o uso de uma categoria, que é o 
produto da intervenção filosófica. 3. Buscar a natureza da ciência. Ora, a ciência não 
existe. Do ponto de vista da prática dos cientistas, não há ciência em geral, mas sistemas 
de conhecimentos específicos, em evolução e apropriados a seus objetos. "A" ciência 
não passa de uma ficção. 
 
Ao buscar a natureza do conhecimento científico, a filosofia das ciências não se dá por 
objeto um conhecimento em sua génese e estruturação progressiva, em vias de se fazer 
ou em processo, mas um conhecimento "em si", como fato. Ela se dá um objeto ideal, e 
não esses objetos reais que são as diversas modalidades nas quais os cientistas 
trabalham efetivamente e a partir das quais eles constroem, ao mesmo tempo, o edifício 
de suas teorias e esses elos positivos que permitem seu desenvolvimento. Portanto, 
trata-se de uma modalidade de epistemologia que poderíamos chamar de 
"metacientífica", em 
 
 
 
 27 
oposição às epistemologias ditas "científicas". Ela parte de um postulado: o de que o 
conhecimento é um fato que pode ser estudado em sua natureza própria e nas condições 
prévias de sua existência. As questões colocadas por este tipo de epistemologia referem-
se sobretudo à possibilidade do conhecimento. Ela não se interroga sobre suas 
condições concretas de elaboração, de génese, de organização, de estruturação ou de 
crescimento. Daí as questões fundamentais: "como é possível o conhecimento?", "o que 
é o conhecimento?" 
 
As razões de tal atitude não devem ser procuradas apenas nas doutrinas dos grandes 
filósofos, mas também no próprio pensamento científico, que por muito tempo acreditou 
ter atingido um conjunto de verdades definitivas, embora incompletas, permitindo que se 
interrogasse sobre "o que é o conhecimento". Ora, hoje em dia, o conhecimento passou a 
ser considerado como um processo e não como um dado adquirido uma vez por todas. 
Esta noção de conhecimento foi substituída por outra, que o vê antes de tudo como um 
processo, como uma história que, aos poucos e incessantemente, fazem-nos captar a 
realidade a ser conhecida. Devemos falar hoje de conhecimento-processo e não mais de 
conhecimento-estado. Se nosso conhecimentoanálise, por um respeito às 
 
 
 
 
 156 
regras relativas ao objeto construído e, de forma alguma, por uma vaga adequação da 
Razão à "realidade". 
 
E é por isso que se pode dizer que a objetividade da ciência e da cientista só pode ser 
um valor de ordem ideológica que se acrescenta à atividade científica. Ela é o resultado 
de uma dupla objetivação: de um lado, a do produto desta atividade, cujo 
desenvolvimento conseguimos parar a fim de estabelecermos um saber que reproduza 
"parte" do real; do outro, a do agente detentor do saber, em troca de sua neutralidade e 
de sua submissão ao real. Portanto, a epistemologia crítica não nega que a ciência seja 
objetiva, quer dizer, forneça verdades até certo ponto independentes da história e 
daqueles que a fazem. Também não ignora que o cientista seja objetivo, quer dizer, seja 
capaz de descobrir essas verdades, apagando-se, até certo ponto, diante delas, e 
fazendo abstração de sua subjetividade ou elevando-se acima de suas paixões e 
preconceitos. O que a epistemologia coloca em questão é um tipo de objetividade sem 
suporte epistemológico, que se apresenta como uma racionalização das crenças 
ingénuas ligadas ao prestígio da ciência: crença na. unidade dos conhecimentos, em seu 
caráter absoluto e histórico, na independência da realidade que se pretende conhecer 
relativamente aos meios do conhecimento. É esta imagem da ciência que fornece o 
modelo de objetividade que dá a ilusão de que podemos nos elevar acima das condições 
reais de elaboração da ciência. 
 
Em outras palavras, o objetivo da epistemologia crítica é mostrar que se deve distinguir, 
na ciência atual, dois mitos: de um lado, o mito da Ciência que necessariamente conduz 
ao progresso; do outro, o mito da Ciência-Pura e neutra. O primeiro mito foi aceito por 
muito tempo como uma espécie de dogma absoluto. E até hoje ele ainda serve de 
argumento àqueles que postulam fi- 
 
 
 
 
 157 
nanciamentos. Segundo este modo de pensar, a ciência deve ser julgada pelo valor 
social de seus resultados. O segundo mito, porém, toma a ciência como sendo seu 
próprio fim: ela só deve prestar contas à si mesma. Isto não quer dizer que não possa 
prestar serviços. O importante, porém, é que a Ciência-Pura seja sempre uma busca 
desinteressada do Conhecimento. Este é um bem em si mesmo, sem nenhuma 
significação moral ou política. Ora, é apoiando-se nesse mito que os cientistas afirmam 
que "a ciência" não é responsável pelo mau uso que terceiros possam fazer dela, por 
suas aplicações nocivas ao homem. Os cientistas se limitam à procura metódica e 
desinteressada de um saber sempre maior e mais certo. O físico ou biólogo não deve 
preocupar-se com as eventuais utilizações que poderão ser feitas de seus trabalhos ou 
descobertas. Essas utilizações não podem ser de sua responsabilidade, mas da do poder 
político, sobretudo da. responsabilidade do sistema industrial. Aliás, eles nem poderiam 
prever eventuais utilizações. Estas poderão servir para o bem ou para o mal. Contudo, a 
responsabilidade da utilização não é da alçada do cientista: este seria "neutro" e 
"imparcial". 
 
Semelhante argumentação, à primeira vista, parece inatacável. Contudo, a epistemologia 
crítica vem mostrar que a ciência fornece um saber; que-este saber confere meios de 
ação; e que tais meios, servindo a fins visados, dizem respeito aos cientistas que os 
produzem. Por outro lado, ela vem mostrar que o mito da Ciência-Pura funda, de um lado, 
a irresponsabilidade social dos cientistas, e, do outro, fornece ao Estado uma justificação 
do apolitismo da pesquisa científica. Ora, não se pode negar hoje a dimensão social da 
ciência. Basta abrirmos os olhos para vermos que a pesquisa é substancialmente 
integrada a um sistema sócio-econômico-político militar particular. Enquanto indivíduo, o 
cien- 
 
 
 
 
 158 
tista pode ser movido pela curiosidade intelectual, pelo desejo de fazer descobertas, por 
boas intenções, etc. Todavia, quer e1 e queira, quer não, a ciência tem uma função social 
crescente no desenvolvimento da sociedade e no progresso tecnológico. E isto não 
apresenta nada de escandaloso. Pelo contrário, seria preciso muita ingenuidade ou certa 
candura para se achar que as Instituições financiadoras de "pesquisas puras" gastariam 
somas fabulosas por simples amor à Ciência-Pura, por simples culto ao Saber 
desinteressado. Portanto, o papel da epistemologia crítica consiste em mostrar que os 
cientistas precisam estar ativamente conscientes de todas as implicações de seus 
produtos intelectuais. Ela se interroga sobre as "visões do mundo" que estão implícitas na 
atividade científica, tentando descobrir nela todos os pressupostos e condicionamentos 
possíveis. 
 
Contudo, da ideia segundo a qual as teorias científicas não podem ser deduzidas 
diretamente dos fatos, nem tampouco ser diretamente verificadas por eles, não devemos 
passar à ideia segundo a qual as ciências são construções arbitrárias. Por outro lado, da 
ideia segundo a qual o Método não pode ser absoluto e eterno, não podemos concluir 
que os métodos não tenham valor. A epistemologia crítica não pode constituir-se em 
epistemologia hipercrítica, chegando a negar a especificidade da ciência, ou a afirmar 
uma concepção radicalmente relativista e mesmo "irracional" da ciência. Ela contesta as 
formas ingénuas do cientificismo. Aí se exerce seu papel. E tenta mostrar aos cientistas 
suas filosofias implícitas. Para usarmos uma expressão de Bachelard, ela tem por função 
"dar à ciência a filosofia que ela merece". 
 
 
 
 
 159 
PARA ONDE VAI A FILOSOFIA? 
 
 
 
 160 
 
 
 
 
 161 
Há uma questão que hoje em dia intriga muita gente: Por que e para que os filósofos? Em 
outras palavras: o que eles têm ainda a dizer com seu jargão técnico, quase sempre 
totalmente hermético e incompreensível, sem nenhuma operacionalidade? Tem ainda 
razão de ser esta categoria de "intelectuais" que passam toda sua vida a "pensar" ou a 
"ensinar" a pensar, tentando convencer os outros de que, se não se vive como se pensa, 
termina-se por pensar como se vive? 
 
Quando toda uma "filosofia industrial" se implanta, que necessidade ainda se tem desse 
profissional do "pensar"? Por que seu saber é reduzido e desacreditado? Ele é um 
empregado universitário que não chama muita atenção sobre si. Ou então, um homem 
considerado perigoso. Porque é sempre suspeito de ser um traidor em potencial. Filosofar 
consiste em fazer apelo à reflexão pessoal. E toda sociedade teme a reflexão. Ademais, 
pensar por si mesmo é um perigo não apenas social, mas também individual. Qual o 
homem que não está pronto 
 
 
 
 
 162 
a dedicar horas de trabalho para evitar alguns minutos de reflexão? Em cada um de nós 
há uma resistência ou oposição latentes à reflexão. E hoje, não parece evidente que 
nossa cultura queira tomar consciência de si mesma. O pensar filosófico tem um duplo 
inconveniente: de um lado, ele nos ensina a criticar (não rejeitar, mas passar ao crivo, 
examinar) as opiniões recebidas ou impostas, as tradições transmitidas, as ideias 
admitidas; de outro, ensina-nos a ultrapassar o conformismo e o não-conformismo em 
vista de uma coerência sempre maior do pensamento e da ação. 
 
Todavia, há uma questão muito mais angustiante, porque bem mais fundamental e, ao 
mesmo tempo, radical: Por que a filosofia? Para' que ela serve? Qual sua "utilidade"? 
Como poderá ser utilizada para responder, não somente aos dramas existenciais, mas 
aos problemas colocados pela civilização moderna, em vias de uma tecnocratização 
crescente de seus produtos intelectuais e de uma robotização progressiva do próprio 
homem que a constrói? Será que a filosofia não poderia ser considerada como um tipo de 
conhecimento já inteiramente superado pelos conhecimentos científicos, muito mais 
objetivos, muito mais capazes, não somente de explicar mas de operar e transformararealidade? A filosofia, outrora onipotente como saber, passou por um processo de 
gradativa perda de prestígio social. Um pouco por toda parte, ela se viu expulsa dos 
centros do saber. Pouco a pouco, viu-se reduzida a um ensino académico abstrato, 
idealista ou "espiritualista". Seu lugar foi tomado pelas ciências. Em primeiro lugar, pelas 
ciências naturais. Mais recentemente, pelas ciências humanas. Sua situação atual parece 
ser a seguinte: de um lado, uma filosofia completamente estranha às ciências humanas, 
uma filosofia sem conteúdo, pretendendo ensinar a sabedoria e fornecer a imagem do 
homem sem saber mais o que é 
 
 
 
 
 163 
o homem real; do outro, ciências humanas que fazem um esforço enorme para se 
tornarem ciências, mas que não sabem também o que é o homem, e nem querem saber. 
Outrora, a filosofia controlava a totalidade do saber. 'Mas ela foi forçada a assistir à 
constituição sucessiva de domínios autónomos de conhecimento que escaparam, um a 
um, à sua jurisdição. A matemática, a física, a biologia, a psicologia, a sociologia..., 
afirmaram-se fora da filosofia, isto é, contra ela, na medida em que cada disciplina 
conseguia demonstrar sua ineficácia e sua inutilidade. O domínio da filosofia encurtou-se 
como uma pele de cabrito. E uma vez esvaziado de todo conteúdo, de toda substância, 
esse domínio viu-se reduzido a esta árida paisagem lunar da ontologia dogmática, de 
cuja contemplação passaram a ocupar-se apenas certos professores universitários que, 
para compensar seu sentimento de inferioridade, passaram a gerir o monopólio do 
absoluto que até hoje ninguém lhes contesta. 
 
Este refúgio na segurança do gueto universitário teve por consequência uma revisão 
geral do próprio conceito de filosofia. E foi assim que se processou uma deformação 
sistemática de sua própria história. Muitos foram os que se voltaram para o passado da 
filosofia para nele descobrir o reflexo e a confirmação de suas certezas presentes. 
Consequentemente, muita coisa foi negligenciada; tudo o que não se inscrevia num 
quadro preestabelecido de pensamento. Contudo, essa falsificação foi muito mais 
inconsciente do que o resultado de uma atitude de má-fé. E tudo isso foi agravado pelo 
caráter um tanto corporativo do ensino da filosofia nas universidades. Os professores 
repetiam sempre as mesmas coisas. Tratavam sempre dos mesmos assuntos. 
Abordavam sempre os mesmos livros. Os autores analisados como que se verificavam 
uns aos outros. Fazia-se 
 
 
 
 
 164 
eco numa espécie de círculo vicioso. E foi assim que a filosofia desinteressou-se pelas 
ciências humanas. Através da epistemologia, manteve-se preocupada, por vezes, com 
um deslumbramento injustificado com a física, a matemática e a biologia. Os 
especialistas das ciências humanas não mereceram a atenção da vertente 
epistemológica da filosofia. Continuaram seus trabalhos como que num espírito de 
aventura, o aprofundamento de uma parcela do saber sobre o homem permanecendo 
quase sempre num vazio de significação. E o divórcio entre os dois domínios do saber 
chegou a tal ponto que, sobre o homem, parece que a filosofia nada mais tem a dizer. 
Nada tem a declarar, pois deixou que, em seu desenvolvimento, as ciências 
monopolizassem todo o conhecimento concernente ao homem. Não se compreende 
como a filosofia tenha recusado, por princípio, a hipótese segundo a qual as ciências 
humanas seriam mais essenciais para ela do que a física ou a biologia. 
 
Parece que a profecia de Comte, estabelecendo a carta de fundação do positivismo, mas 
também definindo o programa de um conhecimento pleno do homem pelo homem, não 
somente continua válida, mas lança à filosofia um desafio: ou ela se torna "positiva", no 
sentido de refletir a partir dos conteúdos fornecidos pelas ciências humanas, ou não terá 
mais razão de ser. ―Não é a priori‖, diz Comte, ―em sua natureza, que podemos estudar o 
espírito humano e prescrever regras para suas operações; é unicamente a posteriori, a 
partir de seus resultados, por observações sobre seus fatos, que são as ciências. É 
unicamente por observações bem feitas sobre a maneira geral de proceder em cada 
ciência, sobre as diferentes etapas que seguimos para aceder às descobertas, numa 
palavra, sobre os métodos, que podemos elevar a regras claras e úteis sobre a manei- 
 
 
 
 
 165 
ia de dirigir nosso espírito. Essas regras, esses métodos, esses artifícios compõem, em 
cada ciência, aquilo que eu chamo de sua filosofia. Se houvesse observações desse tipo 
sobre cada uma das ciências reconhecidas como positivas, conservando o que haveria 
de comum em todos os resultados científicos parciais, teríamos a filosofia geral de todas 
as ciências." 
 
Hoje em dia, se o filósofo deixasse de desempenhar o papel de mau aluno na escola das 
ciências humanas contemporâneas; se, em matéria de teoria do conhecimento ou de 
epistemologia, ele não quisesse mais propor soluções filosóficas para problemas 
científicos já superados; se fizesse um esforço para sair da caverna filosófica universitária 
meramente acadêmica; se renunciasse à pretensão de descobrir em si mesmo as 
"verdades primeiras"; se abrisse mão da certeza absoluta quanto à identidade do espírito 
onde pensa poder encontrar a garantia de um método fundamental e definitivo; se 
optasse por fazer uma filosofia aberta onde não haveria mais princípios intangíveis, 
verdades primeiras totais e acabadas; se acordasse de todo e qualquer, sono dogmático 
para tornar a filosofia contemporânea das ciências de seu tempo..., é bem provável que a 
filosofia redescobriria sua missão essencial: a de fornecer os primeiros princípios e os 
fundamentos de uma ciência do homem real. Por permanecer indiferente às ciências do 
homem, a filosofia se vê hostilizada e agredida pelos especialistas dessas disciplinas. 
Este não-reconhecimento mútuo é profundamente pernicioso aos dois setores de 
conhecimento: não somente a filosofia se perde em seus labirintos de abstrações sem 
conteúdo real e sem alcance verdadeiramente cognitivo, como também os especialistas e 
os técnicos do "humano" correm o risco de tornarem-se 
 
 
 
 
 166 
cegos àquilo que fazem, a ponto de não saberem mais o que estão fazendo. 
 
1. A interrogação filosófica 
G. Canguilhem, ao interrogar-se sobre "O que é a psicologia?", afirma que esta questão é 
muito mais embaraçosa para o psicólogo do que, para o filósofo, a questão: "O que é a 
filosofia?" Porque, para a filosofia, a questão de sua essência e de seu sentido a constitui, 
mais do que a define uma resposta a essa questão. Da mesma forma, diz Paul Ricoeur, 
quando colocamos a questão: "Por que a filosofia?", não é o filósofo que está em 
questão, mas aquele que a coloca. Podemos analisar essa questão em três níveis de 
profundidade: o da vida cotidiana, o da vida científica e o da vida propriamente 
raciocinada. 
 
a) O nível da vida cotidiana nos mostra que o filósofo deve ser um homem de seu tempo. 
Deve estar presente ao seu tempo. O velho Sócrates não fez outra coisa, ao defrontar-se 
com os sofistas. Estes tentaram confinar a reflexão dentro de uma alternativa: seguir as 
tradições sem nada compreender, ou simplesmente ser o mais forte e vencer na vida. 
Sócrates recusou-se a ficar preso dentro dessa alternativa. Aos tradicionalistas, aos 
defensores do status quo, dizia: tudo isso deve ser repensado, refletido, criticado, ser 
medido segundo uma norma de verdade e de bem. Aos cínicos, defensores da lei do 
mais forte e do maior acúmulo de bens, respondia: "uma vida que não foi examinada não 
merece ser vivida". A todos, ele propunha um instrumento de reflexão, permitindo abalar 
os valores existentes, colocar tudo em questão. Através da ironia, levava seus 
adversários ao desespero e ao desconforto. Sua meta era chegar a cons- 
 
 
 
 
 167 
truir algo. Ele queria elaborar, na probidade e na clareza, melhores razões para seviver. 
O que significa essa ação raciocinada de vida e de valor empreendida por Sócrates? O 
que ela significa hoje, numa civilização definida por suas técnicas de produção, de 
consumo, que se propõe como objetivo atingir o máximo bem-estar? O que quer isso 
dizer para uma sociedade incerta e insegura de seus próprios objetivos e dos valores que 
eles implicam? 
 
Vivemos numa sociedade cada vez mais racional em seus meios, em suas técnicas, em 
sua organização. Em compensação, sempre mais incerta de seus próprios objetivos. Há 
um abismo de não sentido no cerne de seus conhecimentos de racionalidade. Não 
caberia à filosofia colocar em questão os meios propostos pela sociedade que marcha 
para a abundância crescente? Não seria seu papel propor objetivos ao homem da ciência 
e da técnica, do poder e do máximo consumo? Objetivos que viriam contrapor-se ao não-
sentido e ao desespero? Por outro lado e, ao mesmo tempo, assistimos a uma crescente 
fragmentação do trabalho científico. Fragmentação que leva a uma pulverização, não só 
da atividade humana, mas do próprio saber científico, a ponto de os especialistas de uma 
mesma especialidade não serem mais capazes de se entenderem. Neste domínio, qual 
seria o papel da filosofia? Evidentemente, não é o de criar uma superciência. Trata-se de 
uma tarefa de reflexão. Como? 
 
b) Em primeiro lugar, em face desse modelo de verdade tomado de empréstimo às 
ciências físico-matemáticas, e que tenta impor-se a todos os domínios do saber, o papel 
da reflexão filosófica seria o de compreender sua legitimidade, como também o de 
mostrar seus limites. Quer dizer: devemos compreender aquilo que se presta à medida, à 
análise e à teoria formalizada. Contudo, nem 
 
 
 
 
 168 
tudo se presta ao controle dos instrumentos científicos. Nem tudo pode ser tratado como 
fato observável e submetido a leis rigorosas. Não pretendendo ser nenhuma super ou 
metaciência, a filosofia não pode abdicar de seu papel de situar o conhecimento científico 
em seu verdadeiro lugar. É sua função topológica (topo = lugar): encontrar o lugar 
adequado do conhecimento científico. A filosofia não atinge um super-saber. Ao contrário, 
ela cava suas fundações, para descobrir sobre que solo a ciência se constrói. A presença 
do homem ao mundo é este solo primitivo sobre o qual se edifica a ciência. Estamos 
diante de uma volta ao fundamento, de um retorno às fundações. E é somente depois da 
ciência, que se pode voltar antes da ciência. Em outros termos, é no ponto mais 
avançado de uma ciência que se pode colocar o problema de suas raízes. 
 
Quanto à fragmentação indefinida do saber, a responsabilidade do filósofo não é, como 
propunha Comte, a de fazer um sistema das ciências, mas a de construir uma reflexão 
sobre a linguagem científica. Caberia à filosofia articular a linguagem humana. Ela 
deveria compreender como, na palavra e neste poder de falar que é o homem, estão 
contidas as possibilidades de ramificações de diferentes linguagens. Salvar a unidade da 
linguagem é uma responsabilidade da filosofia. Ela deverá não somente compreender a 
diversidade da linguagem, mas situá-las uma em relação às outras. 
 
Quanto à emergência e ao avanço das ciências humanas, a filosofia deveria fundar uma 
epistemologia da convergência dessas disciplinas. Evidentemente, isto suporia que o 
filósofo não as ignorasse, devesse conhecer ou praticar uma ou outra dessas disciplinas, 
estivesse em contato direto com, pelo menos, uma delas. A rigor, o filósofo poderia 
ignorar a física, a matemática ou a biologia. Mas não pode prescindir da psicologia, da 
sociologia, da psicanálise, etc. que tratam desse homem 
 
 
 
 
 169 
que ela pretende conhecer por reflexão. Por conseguinte, o desafio que representam 
essas ciências relativamente ao conhecimento-de-si feito pelo filósofo, só pode ser 
enfrentado por uma inteligência dessas ciências. E o ponto de junção consiste em 
encontrar esta parte, em nós, que não pode ser objeto de ciência. Há, no homem, todo 
um fundo de existência, um "vivido" que é sujeito e que faz dele um sujeito não-
objetivável pelo conhecimento científico. 
 
Ora, o problema de uma reflexão filosófica sobre o homem é justamente este ponto da 
realidade onde o não-objetivável do sujeito religa-se ao objetivável. A tarefa da filosofia 
não consiste em separar o objetivo do subjetivo, mas em mostrar que o homem é o lugar 
onde os dois se encontram e se entrelaçam. 
 
c) A dupla abordagem precedente, pela vida cotidiana e pela vida científica, leva-nos ao 
nível da vida raciocinada. Toda vida filosófica está às voltas com questões de fundamento 
e de origem. A interrogação filosófica nasceu como o "Ti to on" de Aristóteles: "o que é o 
ser", "o que é que é". No dizer de Heidegger, esta questão foi radicalizada por Leibniz 
quando a formulou de um modo mais dramático: "Por que há algo (o ser) e não antes o 
nada"? Ser filósofo, é ter acesso a este tipo de questão, ignorado pela vida cotidiana e 
pela atividade científica. É este tipo de questão a que leva alguém a penetrar na ordem 
da razão e da interrogação filosófica. Qual o alcance dessa questão no mundo 
contemporâneo? Sabemos que, depois do Cogito cartesiano, ela se dividiu em duas: de 
um lado, a questão do ser, da natureza e de Deus; do outro, a questão do homem. Daí o 
duplo sentido da filosofia posterior, sempre oscilando entre esses dois polos: a questão 
do ser ou de Deus, e a questão do homem. É esta tensão que constitui o caráter 
dramático da filosofia moderna. Há duas possibilidades de existir, de viver, de o homem 
se compreender a si mes- 
 
 
 
 
 170 
mo e de explicar as coisas: ou reagrupamos tudo em torno do único centro que é o 
homem, ou em torno de um polo mais forte e que seria o fundamento de nossa vida. Em 
face desse dilaceramento do campo ontológico, dessa polarização e dessa ruptura na 
questão do ser, há uma tarefa nova para a filosofia relativamente ao ensino tranquilo e 
coerente da filosofia nos tempos passados. Ela deve clarificar, quer dizer, mostrar todas 
as implicações dessa alternativa, não somente para a questão da vida pessoal, mas para 
o diálogo com as ciências. Há momentos, na história da filosofia, que são críticos, e 
outros que são momentos de síntese e de integração. Estamos num período crítico que 
deve ser enfrentado com coragem e lucidez. E a tarefa do filósofo é a de escolher e 
testemunhar sua opção. A filosofia torna-se testemunho e não* mais ensino autoritário e 
dogmático. Quando se testemunha algo, respeita-se e dialoga-se com os que fizeram 
outra opção. Se o testemunho comporta um risco a sei assumido, comporta também um 
desejo modesto de dar razão aos outros e de se explicar a eles. Ora, como a filosofia não 
é discurso fechado sobre si mesmo, um discurso que o filósofo profere a outros filósofos; 
e como a filosofia não pode refletir sobre ideias, mas deve refletir sobre realidades, 
diremos que ela não tem objeto, pois tem o objeto dos outros, reflete sobre os objetos das 
outras disciplinas. E é por isso que ela é sempre uma reflexão com as ciências. Não uma 
reflexão sobre ou para as ciências, mas a partir delas e com elas. 
 
2. Interrogação epistemológica 
Não pretendemos expor os complexos problemas que a epistemologia das ciências 
humanas coloca hoje ao saber filosófico, mas ressaltar algumas razões que poderão 
 
 
 
 
 171 
levar o filósofo a interessar-se por um tipo de análise .epistemológica suscitada por esta 
peripécia intelectual de nossa cultura, que é o advento das ciências humanas, cuja 
originalidade parece ser constituída de uma ambiguidade: de um lado, há uma exigência 
de inteligibilidade ou de transcendência, isto é, de um a priori mais ou menos velado, 
raramente explícito ou declarado; do .outro, uma exigência de positividade que 
dificilmente consegue impor sua pretensão de assegurar controles intersubjetivos 
universais,isto é, uma objetividade fazendo o acordo generalizado dos "espíritos". Assim, 
o problema inicial que deverá presidir às nossas interrogações será o binómio: filosofia e 
ciências humanas. No contexto da epistemologia geral, cremos que a filosofia poderá 
estar presente, poderá operar como parte integrante, como personagem ativo e passivo, 
e não ser colocada entre parênteses e, muito menos ainda, ser previamente tachada de 
invalidez epistemológica. Porque as questões de epistemologia não são pura e 
simplesmente as de lógica ou de metodologia, mas são função da realidade mesma das 
coisas que as ciências humanas investigam. Neste sentido, elas têm sempre uma 
vertente filosófica. 
 
Esta só poderia ser eliminada de modo artificial e arbitrário e, em última análise, 
prejudicial às próprias ciências humanas. 
 
Devemos conceber a epistemologia das ciências humanas como esta disciplina que 
utiliza "grelhas de interpretação", onde aparecem mais ou menos explicitamente 
pressupostos filosóficos, ideológicos ou valorativos. Daí ser ela menos a descrição dos 
métodos, dos resultados ou da linguagem "da" ciência ou "da Razão" nas ciências, do 
que esta reflexão crítica permitindo-nos extrair, em primeiro lugar no sentido de descobrir, 
em seguida de analisar, os problemas tais como eles se colocam ou 
 
 
 
 
 172 
deixam de se colocar, são resolvidos ou desaparecem no processo de génese, de 
estruturação e de desenvolvimento dos conhecimentos científicos. Quer dizer: a 
epistemologia das ciências humanas tem por missão essencial submeter a prática dos 
cientistas a uma reflexão que, diferentemente das teorias clássicas do conhecimento, 
aplica-se, não mais à natureza e ao valor do conhecimento; não mais à ciência feita, 
realizada, à ciência verdadeira, da qual se deveria apenas descobrir as condições de 
possibilidade ("como o conhecimento é possível"?), de coerência ou os títulos de sua 
legitimidade, mas que se aplica às ciências em vias de se fazerem e em suas condições 
reais de realização. 
 
Neste sentido, quais os problemas mais importantes que constituem o objeto de nossa 
disciplina? Com efeito, aquilo pelo que a epistemologia das ciências humanas se 
interessa, aquilo de que ela se ocupa, em conformidade com aquilo que ela visa, consiste 
em saber como se formam, como se desenvolvem, como funcionam ou se articulam os 
conhecimentos: 
 
a) tais como eles estão sendo elaborados pelos especialistas, enquanto estes são ao 
mesmo tempo sujeitos e objetos de conhecimento, enraizados num determinado 
contexto sócio-cultural; 
 
 b) na medida em que, por um lado, as ciências humanas podem ser reagrupadas 
segundo certa comunidade de objetos, de pontos de vista ou de métodos; e na medida 
em que, por outro lado, elas se distinguem das ciências naturais por uma maneira própria 
de atingir a objetividade científica sobre um objeto que, aliás, não é um objeto: o homem. 
Portanto, cremos ser de suma importância mostrar que aquilo que as ciências humanas 
nos ensinam sobre 
 
 
 
 
 173 
o homem é de natureza a nos informar sobre a génese e a estruturação dos 
conhecimentos. Isto significa responder a duas questões. Em primeiro lugar, o que é que, 
de fato, elas nos revelam sobre as condutas humanas? Quer dizer: que aspectos do 
homem podem elas atingir e explicar por seus métodos próprios? A segunda: o que é 
que, no homem, permanece refratário e inacessível a esses métodos? Assim, a 
interrogação epistemológica deverá ser feita, não somente sobre os limites de fato que 
encontram as ciências humanas, mas também sobre seus limites de direito: o que 
resultam das modalidades mesmas do conhecer e dos métodos utilizados. O que significa 
o fato da pluralidade de disciplinas? Como não podemos dominar tudo, precisamos da 
especialização. Contudo, a fragmentação das disciplinas corresponde a uma 
fragmentação do método. O projeto fundamental é o de um discurso crítico. Mas a 
instauração de um saber (discurso crítico) não é o simples reconhecimento de um dado. 
Supõe uma iniciativa e uma decisão concernentes ao método a ser empregado. Uma 
decisão de ordem metodológica é necessária, porque a ideia do saber, enquanto 
conhecimento crítico, engloba o reconhecimento do caráter ilusório da experiência 
imediata: o imediato não é o verdadeiro. Se é assim, só se atinge o saber por um método 
que ultrapasse a experiência imediata. E o método, como se sabe, comporta certo corte 
da realidade, isto é, o emprego de uma abstração adequada, o que leva a uma "redução" 
da realidade, a um esquema ideal, mais ou menos simplificado. Em segundo lugar, 
comporta certos procedimentos de investigação adaptados à realidade assim "reduzida". 
Em terceiro lugar, comporta procedimentos de representação, isto é, uma linguagem 
empírica permitindo exprimir as investigações e seus resultados. Enfim, o método 
comporta procedimentos de explicação, isto é, uma linguagem teórica permitindo re- 
 
 
 
 
 174 
encontrar, por via dedutiva, os dados empíricos e, assim, explicá-los. 
Evidentemente, o objeto a ser estudado deve comandar a escolha do método, embora de 
modo apenas relativo. Nas ciências da natureza, há.um grande acordo quanto aos 
métodos a serem empregados. Nas ciências humanas, porém, a situação metodológica 
apresenta-se muito confusa. Deve-se recorrer aos métodos "redutores", inspirados nos 
das ciências naturais, isto é, à construção de modelos ideais, a métodos de tipo 
puramente matemático, ou a métodos "compreensivos"? Nas ciências humanas, o 
"objeto" não parece recomendar este ou aquele método. Métodos diferentes podem ser 
justificados. A maturação das ciências atuais parece levar-nos à situação em que a 
diferenciação das disciplinas não se faz assim em função dos objetos, mas em função 
dos métodos. Em todo caso, no domínio das ciências humanas, a diferenciação é de 
ordem metodológica: de um lado, recorremos à construção de modelos (o que torna 
possível o emprego de métodos formais); de outro, fazemos apelo à ''compreensão" dos 
fenómenos, isto é, a um método mais hermenêutico. O destino atual da psicologia ilustra 
bem esta dualidade metodológica. 
 
Esta análise parece-nos sumamente importante para compreendermos que os 
conhecimentos sobre o homem, fornecidos pelas diversas disciplinas, devem pressupor 
um conhecimento do homem. Por outro lado, isso nos mostra a possibilidade de as 
ciências humanas poderem, cada uma segundo sua abstração metodológica própria, 
cooperar nesta busca de uma nova consciência-de-si para o homem e constituir, assim, 
uma autêntica antropologia reflexiva, que não seria uma filosofia sintética das ciências 
humanas, mas esta disciplina extracientífica cuja função deveria ser procurada na 
conjunção de seus três papéis: 
 
 
 
 
 175 
1. colaborar com as ciências humanas tendo em vista a elaboração dinâmica de um 
conceito de homem comum às diversas disciplinas em interação; 
 
2. fornecer os elementos indispensáveis de crítica e de justificação dos fundamentos 
das ciências humanas; 
 
 3. coordenar e organizar todas as informações concernentes ao homem, tendo em 
vista responderão desideratum de uma concepção unitária de si mesmo. 
Para se conseguir isto, torna-se necessário, de um lado, analisar a diversificação das 
disciplinas a fim de se compreender sua significação; de outro, tentar compreender por 
que e como se torna imprescindível a recorrência a uma démarche interdisciplinar, cujo 
sentido é o de reconstituir a unidade do objeto que a fragmentação dos métodos esfacela 
inevitavelmente. Não podemos negar este fato: há um conjunto de conhecimentos parcial, 
bastante diversificados e que, de um modo ou de outro, tomam, senão o homem, pelo 
menos os fenómenos humanos como objeto de estudo e de constituição coerente do 
saber, e culminando em técnicas bastante eficazes. A experiência de devir do 
conhecimento impõe-nos o reconhecimento da diversificaçãometodológica como um fato. 
Parece haver contradição entre este fato e a aspiração do projeto do conhecimento, 
projeto de compreensão que visa a unidade do saber (ex. a "mathesis universalis"). 
Contudo, esta aparente contradição indica-nos que devemos renunciar a contentar-nos 
com a ideia tradicional de verdade: adequação entre o conhecimento e o conhecido. 
Correlativamente, o conhecimento é concebido como representação. Na versão 
racionalista, da epistemologia tradicional, esta representação consistia em "ideias" que 
forneceriam os equivalentes 
 
 
 
 
 176 
inteligíveis da realidade exterior. Na versão empirista, ela consistia em "dados sensíveis" 
que forneceriam imagens instantâneas, no nível dos aparelhos sensoriais, da realidade 
exterior. No fundo, essas duas formas de epistemologia se encontram, pois fundam-se 
sobre a ideia de representação. 
 
Portanto, diante do fato da pluralidade de saberes parciais, o problema que se coloca é o 
de sua articulação: como eles se agenciam e se integram? Qual é a disciplina que se 
esforça por totalizar estas diferentes perspectivas? Devemos aceitar a posição segundo a 
qual, no plano dó conhecimento, as ciências humanas se coordenam elas mesmas por 
suas relações interdisciplinares e, no plano de sua utilização, este permaneceria o papel 
da filosofia, mas justamente enquanto "sabedoria coordenadora dos valores", pois o 
terreno da ação ultrapassa o conhecimento e supõe engajamentos pessoais? Ou será 
que podemos recusar esta tendência "tecnocratizante" a constituir uma "ciência da 
ciência", em nome precisamente de uma antropologia reflexiva que não somente pode, 
mas deve desenvolver-se num diálogo vivo e constante com as ciências? Por outro lado, 
precisamos tomar consciência de que a unidade do saber não pode ser dada a priori, pois 
não podemos comparar o objeto real a uma máquina que podemos desmontar e remontar 
à vontade, como se possuíssemos de antemão seu esquema de construção. Nem 
tampouco pode ser dada a posteriori, pois não basta justapormos os dados parciais 
fornecidos pelas ciências para que, como por encanto, vejamos surgir o objeto real em 
sua unidade intrínseca. Portanto, não podemos pensar a unidade à maneira de uma 
síntese, pois não é nem uma lei de construção que podemos conhecer previamente, nem 
tampouco o resultado de uma reconstituição empreendida a partir dos dados. Como 
veremos, a unidade é anterior aos dados, mas na medida apenas em que se apresenta 
como uma exigência, como um princípio de unificação, e não como unidade 
 
 
 
 
 177 
acabada. E é na reflexão filosófica que se manifesta esta exigência. 
Se devemos adotar a segunda posição da alternativa anterior, é para que o homem 
possa tomar uma autêntica consciência-de-si, verdadeiramente apta a fazê-lo superar a 
alienação em que se encontra em face do tipo de racionalidade científica atual. Com 
efeito, já se foi o tempo em que uma antropologia podia constituir-se sobre si mesma, por 
introspecção ou metodologia transcendental. Hoje em dia, estamos acuados pela 
pesquisa interdisciplinar, em que cada ciência, partindo de suas objetividades legítimas, 
aceita fechar um "círculo estrutural reflexivo", praticamente um retorno às suas decisões 
constitutivas para tomar consciência de seus limites de validade. Os sentidos positivos 
elaborados por cada um dos saberes parciais sobre o homem só poderão ser unificados, 
retomados, situados e tornados coerentes, no interior de um esforço de compreensão-de-
si, isto é, de um saber reflexivo do homem sobre si mesmo. 
 
Portanto, é esta vertente epistemológica da filosofia, ou este enfoque filosófico da 
epistemologia, que deverá levar-nos a tomar consciência de que os processos de 
especialização e de diferenciação das ciências humanas são fontes geradoras de 
distâncias e de ignorâncias recíprocas entre os especialistas: eles engendram o 
esmigalhamento das disciplinas pela compartimentação das faculdades universitárias, 
pela criação de uma hierarquização rígida e pela manutenção de uma prudência 
metodológica que freia a pesquisa das interações entre as disciplinas. Por isso, torna-se 
urgente realçar os contatos, as trocas e as relações entre as disciplinas, tendo em vista 
aproximá-las, compará-las, confrontá-las e, na medida do possível, integrá-las. 
Tudo indica que é a análise das relações interdisciplinares que irá permitir-nos extrair 
certo conhecimento 
 
 
 
 
 178 
comum às diferentes disciplinas, fila já nos revela a possibilidade de certa unidade do 
saber sobre o homem. A interdisciplinaridade tem o grande mérito de já ser um princípio 
de organização dos conhecimentos que modifica os conceitos, os princípios e os pontos 
de junção das disciplinas, criando assim uma coordenação dos conhecimentos que elas 
fornecem, tendo em vista uma finalidade conscientemente perseguida, p que implica o 
recurso a princípios normativos ultrapassando, assim, a concepção meramente empírica 
das ciências humanas. O que está em jogo é o agenciamento das disciplinas para uma 
axiomática comum ou. "objetivo de sistema global": pesquisa de valores, de normas ou 
de uma política interdisciplinar que se situa no nível retrospectivo, ou seja, dos saberes já 
constituídos. Torna-se imprescindível, ainda aqui, a intervenção da atividade reflexiva, 
eminentemente crítica, tendo por função não mais agir diretamente sobre o real a ser 
construído ou sobre a história a ser orientada, mas refletir sobre o sentido dessa 
intervenção. Sabemos que a atividade reflexiva isola, provisoriamente, a experiência do 
saber para determinar sua estrutura e relacioná-la com o ato fundador do sentido. Ela 
visa à unidade deste objeto do saber, por uma crítica de suas diferentes apreensões do 
real e por uma reflexão sobre os conceitos e os métodos utilizados. Assim, a filosofia 
torna-se ao mesmo tempo reflexão sobre a linguagem, epistemologia e hermenêutica das 
ciências humanas, procurando desvendar as condições que tornam possível a unidade 
do saber, fornecido por essas disciplinas, tanto do lado do objeto do saber quanto do lado 
do sujeito que o elabora. Certamente, a 'filosofia não constitui o sentido, mas, ao explicitá-
lo, ela o funda, quer dizer, o desvela e o justifica. Todavia, sem o nível prospectivo ou da 
tarefa, a atividade reflexiva estaria fadada à esterilidade e ao impasse. Em contrapartida, 
sem o nível re- 
 
 
 
 
 179 
trospectivo ou da reflexividade, a tarefa interdisciplinar estaria fatalmente condenada ao 
pragmatismo e ao arbítrio. 
 
O que pretendemos mostrar é que as ciências humanas devem hoje representar, para a 
filosofia, uma passagem obrigatória. Se o filósofo quiser conhecer a realidade do homem, 
ele terá que decidir-se: ou a não conhecer nada dessa realidade, ou a conhecer, em 
primeiro lugar, aquilo que dela conhecem os cientistas. Que ele vise ultrapassar o 
conhecimento científico, ou que tente esclarecê-lo pela reflexão, tanto melhor; mas que 
pretenda prescindir dele ou contradizê-lo sem mais, é obstinar-se a construir um sistema 
sem o pensamento e sem o fenómeno. Isto quer dizer que todo discurso sobre o real, 
para ser válido, deve começar por recolher as informações fornecidas pelos cientistas. A 
filosofia, em sua vertente epistemológica, intervirá como uma segunda leitura dessas 
informações, tentando constituir um conjunto coerente. Pois compete-lhe reagrupar o que 
podemos saber sobre a estrutura do real, uma vez para guiar a ação. Aliás, a 
interdisciplinaridade se apresenta como um tríplice protesto: a) contra um "saber em 
migalhas", pulverizado entre uma multidão de especialidades em que cada uma se fecha 
como que para fugir ao verdadeiro conhecimento; b) contra o divórcio crescente entre 
uma universidade cada vez mais compartimentada e a sociedade; mas, simultaneamente, 
contra essa própria sociedade, na medida em que ela limita o indivíduo a uma função 
estreita erepetitiva, impedindo-o de desenvolver todas as suas potencialidades e 
aspirações (cf. a unidimensionalização do homem atual); c) contra o. conformismo das 
"ideias recebidas" e a inércia das situações adquiridas. 
 
 
 
 
 180 
Neste particular, o papel da filosofia torna-se fundamental. Não se trata de arvorar-se em 
instância superior que viria ditar às ciências as leis de seus métodos e de sua fundação. 
A filosofia não tem o direito de trazer de fora a pesquisa interdisciplinar, um conjunto de 
conceitos transdisciplinares já prontos. Aliás, nenhum diktat desta ou daquela filosofia 
poderá ser aceito pelos cientistas. Trata-se, isto sim, de mostrarmos a importância que 
não somente pode, mas deve ter, na pesquisa interdisciplinar, uma filosofia, em trabalho, 
uma filosofia que, sem renunciar ao seu método próprio, procure penetrar no espírito 
científico a fim de que, justamente com os especialistas, e enquanto estes constroem 
criticamente suas ciências, possam ser elaborados conceitos transdisciplinares. O papel 
da filosofia consiste, pois, em se apresentar como instância crítica no interior da 
démarche interdisciplinar (papel hermenêutico) ou, então, como esta instância capaz de 
fazer a unidade do objeto, pois cabe ao filósofo lembrar aos cientistas que eles não 
poderão, com seus saberes positivos, totalizar o sentido: ao contrário, deverão estar 
sempre abertos à história e aos conhecimentos. 
 
Portanto, é dentro de um projeto interdisciplinar que a filosofia deverá exercer um de seus 
papéis essenciais: impedir que uma ciência particular venha a hipertrofiar-se em mito 
totalizante. Na medida, porém, em que este projeto se situa no nível prospectivo ou da 
tarefa, quer dizer, da realidade concreta dos empreendimentos humanos, a 
interdisciplinaridade se realiza entre disciplinas operantes ou cooperantes e, neste 
sentido, a filosofia poderá intervir para ajudar a descobrir o objeto comum às várias 
disciplinas que se interagem: o homem. Com efeito, nenhuma disciplina particular poderá 
descobri-lo isoladamente, pois cada uma já tem seu 
 
 
 
 
 181 
objeto particularizado e, de fato, abstraio. Ou na medida, por outro lado, em que o projeto 
se propõe a ser uma reflexão englobante ou totalizante. E para finalizar, gostaria de 
levantar três temas de reflexão, que me parecem exigir a atenção particular de todos 
aqueles que, hoje, se interessam por pensar filosoficamente: 
 
 1. Em primeiro lugar, creio que devemos reconhecer que a crise atual das ciências 
humanas também é uma crise do homem contemporâneo e de seu pensamento. Por 
outro lado, estou convencido de que o homem deve ser o ponto focal que assegura a 
convergência de todas as disciplinas humanas. A filosofia atual, muito embora na ordem 
da fundação, deve ser solicitada pelas ciências humanas, e na origem 'da concretização, 
tenha necessariamente que passar por elas, parece-me, não digo incapaz, mas 
impotente para responder às questões que lhe são colocadas pelas ciências humanas. 
Por outro lado, podemos igualmente constatar que o domínio ou o quase monopólio da 
racionalidade científica contemporânea sobre o homem é um dos fatos indiscutíveis de 
nossa cultura. Donde a primeira questão: Se a filosofia não optar decididamente por 
refletir a partir dos conteúdos fornecidos pelas ciências humanas, não ficaria o 
conhecimento do homem irremediavelmente e unicamente entregue nas mãos dos 
cientistas? 
 
 2. Em segundo lugar, creio que devemos também reconhecer a necessidade de 
empreendermos uma pesquisa fundamental no quadro das ciências humanas, pesquisa 
esta que ressaltaria a importância e o sentido da unidade humana, e restabeleceria, 
assim, a reflexão filosófica em sua verdadeira vocação. Minha segunda questão é a 
seguinte: 
 
Qual deve ser a posição da filosofia em face, não somente da objetividade legítima das 
ciências humanas, mas também desta vertigem de objetivação ameaçadora 
 
 
 
 
 182 
que consiste no esquecimento progressivo e rápido, entre os cientistas, de seus pontos 
de partida e das decisões constitutivas de seu saber? Em outros termos, como o homem 
contemporâneo pode tomar uma autêntica consciência-de-si suscetível de fazer 
desaparecer sua alienação pela cultura científica, sem, no entanto, correr o risco de criar 
uma antropologia doutrinal a priori e sintética das ciências humanas, uma filosofia a 
mais? 
 
3. No domínio das ciências humanas, creio que devemos compreender o esforço da 
epistemologia como uma tentativa eminentemente interdisciplinar, não somente lançando 
pontes entre as diversas ciências, mas também fazendo um esforço de coordenar suas 
informações no sentido de uma "convergência" dos pontos de vista, dos métodos, dos 
conceitos, das teorias e dos resultados. Trata-se de uma epistemologia estreitamente 
ligada e solidária à história das ciências humanas e, inevitavelmente, à história da própria 
filosofia. Na verdade, neste domínio, a epistemologia leva-nos a negar a divisão do 
trabalho científico, a superar suas fronteiras rígidas, a colocar em questão seus limites e 
seus fundamentos. Ademais, uma das tarefas do conhecimento interdisciplinar é a de 
constituir uma antropologia fundamental que deve reagrupar os dados fornecidos pelas 
disciplinas particulares. Em outros termos, o conhecimento interdisciplinar visa a levar as 
diversas disciplinas ou os setores heterogéneos de uma ciência a colaborarem, havendo 
uma reciprocidade nas trocas, de tal forma que haja um enriquecimento mútuo de cada 
uma. Ora, o saber reflexivo impõe-se, necessariamente, todas as vezes que se pretende 
reconstituir a unidade desta imagem quebrada, dissociada, fragmentada ou dissolvida do 
homem, para que este possa tomar consciência de si mesmo como um ser que tem uma 
identidade pessoal, bem como uma tarefa de existir e de agir. Minha última questão 
assim se for- 
 
 
 
 
 183 
mula: Será que este conhecimento interdisciplinar já não indicaria uma forte tendência à 
"consciência reflexiva"? Em outros termos, será que podemos reconstituir este saber 
reflexivo do homem, independentemente das objetivações constituídas pelas diversas 
ciências humanas? 
 
Se são as ideias que movem as coisas, são os elaboradores de ideias, os que nada 
sabem fazer, senão pensar, que fornecem os mais poderosos instrumentos para que o 
mundo seja feito, refeito ou transformado. Não há soluções, senão quando houver 
problemas: é saber formulá-los. Para formulá-los, é necessário o pensamento. E é o 
pensamento que forja as opiniões e elabora os valores que comandam a ação daqueles 
que encontram as soluções ou tomam as decisões. 
 
 
 
 
 184 
 
 
 
 
 185 
CONCLUSÃO: UM PROBLEMA EM SUSPENSO 
 
 
 
 186 
 
 
 
 
 187 
É difícil e perigoso propor conclusões. Sobretudo, para estudos que pretendem ser 
apenas uma introdução. Todavia, pareceu-me proveitoso reunir certas proposições, 
extraídas de nosso trabalho, e indicar as tarefas que se nos oferecem no momento. É 
nesse espírito que precisamos saber parar. Ou ter a coragem de confessar nossos 
limites. Ou então, nos perguntar: o que resta, no término desse estudo? A que 
pretendemos introduzir a pesquisa epistemológica? Se é verdade que o difícil não é 
resolver os problemas, mas saber colocá-los, damo-nos por satisfeitos se tivermos 
colocado os problemas essenciais das chamadas "epistemologias genéticas". 
Por outro lado, esperamos ter conseguido desvincular a prática científica das imagens 
que dela faziam, tanto os filósofos tradicionais, quanto os cientistas de obediência 
empirista, para situá-la como um ato epistemológico que só adquire seu pleno sentido 
quando inserido no interior de outros atos não menos importantes: a ruptura 
 
 
 
 
 188 
 (os fatos científicos são conquistas contra as evidências do saber imediato e das pré-
noções), a construção (os fatos não se impõem cegamente ao espírito como"dados", 
mas como algo construído) e a constatação (o ato científico não é uma constatação: as 
experimentações devem ser acompanhadas de uma explicação dos pressupostos 
teóricos que fundam a experiência). Mostramos, assim, que o estatuto epistemológico da 
epistemologia é bastante incerto. Porque ela ainda se encontra dividida entre seus 
vínculos filosóficos e seu comércio direto com as ciências. Ela não poderá subtrair-se a 
toda contaminação filosófica, enquanto os cientistas permanecerem em desacordo sobre 
os problemas de ordem extracientífica a que estão engajados: o problema, por exemplo, 
de saber se há ou não "conhecimento" fora da ciência, depende de uma teoria geral do 
conhecimento. Relativamente à ciência, a epistemologia é um discurso segundo, uma 
segunda leitura. Mas os epistemólogos ainda permanecem desunidos quanto à questão 
de sua pretensão filosófica ou científica. 
 
Na verdade, a atitude reflexiva sempre foi considerada como a marca do filósofo. Mas 
nada impede que haja uma reflexão não-filosófica sobre a ciência. A não ser que se faça 
total abstração das coisas que a ciência toma por objeto, para se considerar unicamente 
o discurso científico, entendido como um sistema de signos que se combinam entre si 
segundo certas regras, sem levar em conta aquilo que eles evocam, nenhum outro 
discurso é completamente livre, nem tampouco seus resultados podem ser inteiramente 
objetivos. Isso nos leva a reconhecer que toda pesquisa científica, tanto por seu ponto de 
partida, quanto por seu ponto de chegada, está profundamente marcada por seu 
enquadramento sócio-cultural. Ela se apresenta, pois, sobrecarregada de significação 
ideológica. Deixar de examinar a inserção do conhecimento na 
 
 
 
 
 189 
prática, seria deixar em silêncio aspectos importantes dos problemas concernentes a seu 
método. A análise epistemológica só de modo arbitrário pode dissociar uma ciência 
teórica de sua técnica de aplicação. Elas dão sentido uma à outra. E, em larga escala, 
determinam-se reciprocamente. 
 
Se tomarmos o exemplo das ciências humanas, qual dessas disciplinas não pressupõe 
sempre um quadro teórico utilizando certos conceitos já mais ou menos "contaminados" 
pela ação ou por uma "visão do mundo"? Por mais imparcial que possa parecer, um 
cientista humano já é um "tecnocrata em potencial": da análise "daquilo que é" à 
formulação "daquilo que é desejável", a distância é quase nula. O caso da medicina é 
bem ilustrativo. Ela se apoia sobre uma "ética da saúde", cujo princípio é reconhecido 
como um "valor" evidente. Todavia, pode entrar em choque com outros "valores": 
económicos, demográficos, etc. Enquanto ciência, ela não se sente comprometida por 
suas aplicações, salvo em casos excepcionais: eutanásia, aborto, etc. 
 
O que consideramos "problema em suspenso" consiste precisamente em saber até que 
ponto podemos distinguir claramente uma "epistemologia filosófica", que estaria 
superada, de uma "epistemologia científica", a única séria. Nossa hipótese é a de que, 
aqueles que defendem a "cientificidade" da epistemologia aceitam, quer queiram quer 
não, consciente ou inconscientemente, a ideia segundo a qual haveria uma "ciência da 
ciência". Não são poucos os epistemólogos que tentam construir as categorias de uma 
"filosofia científica", que seria ao mesmo tempo "ciência da ciência" e "crítica científica da 
filosofia", sobre a base dos conceitos lógico-matemáticos. É o caso dos que pretendem 
construir uma "teoria da ciência", melhor ainda, uma "lógica da ciência" fundada, 
unicamente, sobre um conjunto ordenado de proposições 
 
 
 
 
 190 
ou enunciados rigorosamente analisados conforme um método preciso. Todas as 
questões sem conteúdo científico seriam desprovidas de sentido. E isto porque todo 
conhecimento se organiza em relação a dois polos: o abstraio puro (pelo qual extraímos 
as estruturas abstratas do conhecimento, e o concreto puro (pelo qual é assegurado o 
embasamento desse conhecimento na realidade concreta). Todavia, os estudos 
psicogenéticos do conhecimento e a analise histórico-crítica das ciências desmentem a 
dupla pretensão dos neo-empiristas de reduzir, quer as leis lógico-matemáticas a simples 
"regras de linguagem", quer a experiência física à apreensão de um fenómeno anterior a 
toda conceitualização. Porque a leitura da experiência pressupõe sempre a existência de 
estruturas organizadoras no Sujeito. E essas estruturas, como bem mostrou Piaget, são 
anteriores à linguagem, pois vinculam-se à "coordenação das ações". 
 
Portanto, aos defensores da "cientificidade" da epistemologia, visando a resultados 
controláveis e universalmente válidos, pois teríamos uma "ciência da ciência", devemos 
dizer que estão fazendo uso de uma noção ideológica e utilizando um procedimento 
filosófico. O que seria, por exemplo, uma ciência das ciências humanas (visando extrair 
suas estruturas e seus mecanismos comuns), senão uma disciplina que procura mostrar 
a essência comum dessas disciplinas? Ora, se não se trata de uma "essência" das 
ciências, como poderíamos falar de "a" ciência ou de "o" conhecimento científico para, em 
seguida, nos autorizarmos a elaborar uma teoria do conhecimento científico? Por isso, 
devemos mostrar aos defensores da "cientificidade" da epistemologia, que uma "ciência 
da ciência" faz necessariamente apelo a pressupostos filosóficos que, ao mesmo tempo, 
dissimulam e revelam a concepção segundo a qual a ciência poderia manifestar, por 
simples reflexão sobre si mesma, as pró- 
 
 
 
 
 191 
prias leis de sua constituição, de seu desenvolvimento e de seu funcionamento. O 
discurso científico teria que ter o dom de poder enunciar por si mesmo os princípios de 
sua própria teoria. Ademais, seria preciso que ele fosse soberanamente autónomo, capaz 
de determinar por si mesmo o espaço de seu próprio desenrolar. 
 
Ora, vimos que a ciência se impõe como um componente da realidade e da organização 
social e humana; que ela tem uma finalidade extracientífica, não inerente à evolução 
interna da ciência. Até mesmo o positivismo lógico viu-se obrigado a distinguir dos níveis 
em cada ciência: o do registro dos fatos e o de sua tradução em fórmulas lógico-
matemáticas. Hoje em dia, cada ciência duplica-se numa disciplina fundamental 
correspondente que constitui sua metaciência. Esta se apresenta como um estudo vindo 
apôs uma ciência e interroga-se sobre seus princípios, seus fundamentos, suas 
estruturas e suas condições de validade, elevando-se a um nível superior. A filosofia seria 
uma segunda leitura dos procedimentos e dos resultados da experiência científica, pois 
somente à ciência caberia o privilégio de definir a verdade universal. E a metaciência 
mostra uma grande preocupação em transportar para seu domínio o estilo e as 
exigências de rigor da ciência que toma por objeto, devendo, por isso, ser praticada 
unicamente por cientistas. 
 
Ainda aqui, estamos diante de uma tentativa de construir uma "ciência da ciência". Ora, 
"a" ciência não existe. O que existe é um conjunto de disciplinas científicas, cada uma 
com suas características próprias, não formando um todo suscetível de um estatuto 
unitário. Cada uma mostra um aspecto do real. Nem por isso existe uma ciência do real 
integral. E é por esta razão que achamos incorreta a expressão "filosofia da ciência". 
Frequentemente o filósofo generaliza e apresenta como filosofia "da" ciência o que não 
passa da filosofia de uma dis- 
 
 
 
 
 192 
ciplina particular. Nenhuma disciplina tem o privilégio da inteligibilidade. Como a unidade 
das ciências não passa de um sonho, conferir um privilégio absoluto de inteligibilidade a 
uma disciplina é tomar uma posição prévia justificada. 
 
Donde o papel da epistemologia: desmascarar a ilusão dos que pretendem conferir "à" 
ciência uma importância global que suprime a filosofia, uma vez que ela quer ser sua 
própria filosofia,sob as denominações de "metaciência", de "lógica das ciências" ou de 
"epistemologia científica". Mas ela tem uma função complementar: relativizar a filosofia de 
uma ciência, porque esta deve ser questionada, não em sua validade ou em sua eficácia, 
mas em sua inteligibilidade. Cada disciplina tem uma vida e subtrai-se constantemente a 
um conhecimento definitivo. Donde o risco de se pretender dar respostas definitivas aos 
problemas colocados por uma ciência ainda não acabada, quando se quer converter a 
epistemologia em filosofia. Esta não tem o direito de imobilizar um momento do devir 
científico. E é por isso que não devemos falar de "a" ciência, mas "desta" ciência. 
Também é por esta razão que o filósofo precisa renunciar à esperança de algum dia 
estabelecer uma "filosofia da ciência". Porque, ao imobilizar um de seus momentos, a 
filosofia aparece como um "espelho deformador" daquilo que pretende expressar. 
O caso de Kant exemplifica bem o inconveniente de se fundar a filosofia sobre a ciência 
de uma época. Seu olhar não podia ir além da ciência de seu tempo, a física de Newton, 
que foi para ele A Ciência. Kant a tomou como o modelo do conhecimento objetivo e 
verdadeiro. Consequentemente, tomou-a como ponto de referência para julgar todas as 
outras ciências,. Resultado: tendo sido superada e relativizada, a filosofia, que sobre ela 
se fundou, também ficou ultrapassada. Portanto, falsearía- 
 
 
 
 
 193 
mos o problema da filosofia querendo substituí-la por uma démarche científica. Por outro 
lado, é preciso que se diga que nem tudo entra no domínio da ciência, ainda que seja a 
faculdade de dizer não, a recusa da sujeição, e que autorizaria à filosofia uma função, 
pelo menos, de mostrar que a ciência sempre nasce de um limite da ciência. Enfim, 
postular uma epistemologia científica que tenha a pretensão, ainda que implícita, de ser 
uma "ciência da ciência", é retomar um projeto filosófico que acreditamos superado. 
Semelhante epistemologia dissimularia sempre um pressuposto filosófico e ocultaria, por 
isso mesmo, a justificação de sua utilidade pedagógica e social e da definição de seu 
estatuto científico. Aquilo que mais aborrece os cientistas é a pretensão da filosofia de 
dizer a essência (o fundamento do ser). O filósofo faz eco à velha ideia de que o saber 
não se funda sobre si mesmo: deve situar-se na economia do pensamento. E a filosofia é 
a consciência daquilo a partir de que a ciência é possível. S. Breton conta que, ao fim de 
um debate, Piaget lhe afirmava: "De qualquer forma, o senhor não vai me ensinar o que é 
a psicologia!" Evidentemente que vou, respondeu o filósofo, porque a "essência" da 
psicologia não é científica! Relativamente à epistemologia, a filosofia se situa como um 
conjunto em face do qual a epistemologia é um subconjunto. O papel da filosofia é o de 
manter a abertura do espaço mental epistemológico. Ela deve criar um horizonte comum 
que se recuse a todo confinamento. Não pode curvar-se a uma epistemologia qualquer, 
pois deve ser a "epistemologia de todas as epistemologias", isto é, o lugar onde as 
epistemologias se neutralizam umas às outras naquilo que possuem de excessivo. Mas 
também o lugar onde as epistemologias devem fecundar-se mutuamente, não se 
esquecendo jamais de sua obediência ao humano. 
 
 
 
 
 194 
 
 
 
 
 195 
BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA 
 
 
 
 196 
 
 
 
 
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DESCHOUX (M.), Philosophie áu savoir scientifique, P.U.F.,Paris, 1968. 
 
 
 
 
 198 
VIRIEUX-REYMOND (A.), L'épistcmologie, P.U.F., Paris, 1966. 
 
ALTHUSSER (L.1, Pour Marx, Paris, 1966. LACAN (J.), Ecrits, Paris, 1966. 
 
 
2. Epistemologia genética: 
 
PIAGET (J.), Introduction à l'épistémologie genétique, 3 vols., P.U.F., Paris. 1950. 
 
PIAGET (J.), L’epistemologic genétique, P.U.F., Paris, 1972. 
 
PIAGET (J.), L'épistémologic des sciences de l’homme, Gallimard, Paris, 1970. 
 
PIAGET (J.) (sob a direção de), Logique et connaissance scientifique, Gallimard, Paris, 
1967. 
 
PIAGET (J.), Psychologie et epistémologic, P.U.F., Paris, 1970. 
 
 
3. Epistemologia histórica: 
 
BACHELARD (G.), La formation de l'esprit scientifique, Vrin, Paris, 1938. 
 
BACHELARD (G.), La philosophie du non, Paris, 1940. 
 
BACHELARD (G.), Le nouvel esprit scientifique, P.U.F.,Paris, 1940. 
 
BACHELARD (G.), La psychanalyse du feu, Gallimard, Paris, 1938. 
 
BACHELARD (G.), Le rationalisme appliqué, P.U.F., Paris, 1949. 
 
BACHELARD (G.), Le matérialisme rationnel, Paris, 1953. 
 
CANGUILHEM (G.) Êtudes d'histoire et de philosophie des sciences, Vrin, Paris, 1970. 
 
CANGUILHEM (G.) (sob a direção de), Introduction à l’histoire des sciences, 2 vols., 
Hachette, Paris, 1971. 
 
GUSDORF (G.), Introduction aux sciences humaines, Ophrys, Paris, 1974. 
 
GUSDORF (G.), De l’histoire des sciences a l’histoire de Ia pensée, Payot, Paris, 1966. 
 
VEYNE (P.), Comment on écrit l’histoire, Seuil, Paris, 1972. 
 
 
 
 
 199 
4. Epistemologia "arqueológica": 
 
FOUCAULT (M.), Les mots et les choses, Gallimard, Paris,1967. 
 
FOUCAULT (M.), A arqueologia do saber, Vozes, Petrópolis, 1972. 
 
FOUCAULT (M.), Histoire de Ia folie, Plon, Paris. 
 
DUFRENNE (M.), Pour l’homme, Scuil, Paris, 1968. 
 
5. Epistemologia "crítica": 
 
BARNES (B.) (ed.), Sociology of science, Penguin Books, Londres, 1972. 
 
BERNAL (J. D.), The social function of science. MIT Press, Londres, 1967. 
 
BOURDIEU (P.), Le métier de sociologie, Mouton/Bordas, Paris, 1968. 
 
BROWN (M.) (ed.), The social responsability of the scientist, Free Press, Nova Iorque, 
1968. 
 
CLARKE (R.) La course à Ia mort (trad. fr.), Seuil, Paris,1972. 
 
HABERMAS (J.), La technique et Ia science comme "idéologie" (trad. fr.), Gallimard, 
Paris, 1973. 
 
JAUBERT (A.), LÉVY-LEBLOND (sob a direção de), (Auto) critique de Ia science, Seuil, 
Paris, 1973. 
 
MARCUSE (H.), Ideologia da sociedade industrial, Rio, 1969. 
 
ROSE (S.) e H.. Science and society, Penguin Books, 1970. 
 
SALOMON (J. J.), Science et politique, Seuil, Paris, 1970. 
 
SCHATZMAN (E.), Science et société (trad. fr.), Laffont, Paris, 1972. 
 
THUILLIER (P.), Jeux et enjeux de Ia science, Laffont, Paris, 1972. 
 
ZIMAN (J. M.), Public knowledge, the social dimension of science, Cambridge University 
Press, 1968. 
 
 
 
 
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Rio de Janeiro - RJ com filmes fornecidos pelo editorse apresenta em devir, só conhecemos 
realmente quando passamos de um conhecimento menor a um conhecimento maior. A 
tarefa da epistemologia consiste em conhecer este devir e em analisar todas as etapas 
de sua estruturação, chegando sempre a um conhecimento provisório, jamais acabado ou 
definitivo. 
 
É neste sentido que podemos conceituá-la como essa disciplina cuja função essencial 
consiste em submeter a prática dos cientistas a uma reflexão que, diferentemente da 
filosofia clássica do conhecimento, toma por objeto, não mais uma ciência feita, uma 
ciência verda- 
 
 
 
 28 
deira de que deveríamos estabelecer as condições de possibilidade, de coerência ou os 
títulos de legitimidade, mas as ciências em vias de se fazerem, em seu processo de 
génese, de formação e de estruturação progressiva. Seu problema central, e que define 
seu estatuto geral, consiste em estabelecer se o conhecimento poderá ser reduzido a um 
puro registro, pelo Sujeito, dos dados já anteriormente organizados independentemente 
dele num mundo exterior (físico ou ideal), ou se o Sujeito poderá intervir ativamente no 
conhecimento dos Objetos. É da tomada de posição relativamente a este problema, que 
as epistemologias se repartem em duas categorias ou orientações distintas. Portanto, de 
um lado, temos as epistemologias genéticas, para as quais o acordo entre o Sujeito e o 
Objeto deverá ser estabelecido progressivamente: o conhecimento deve ser analisado de 
um ponto de vista dinâmico (na sua formação e em seu desenvolvimento) ou diacrônico, 
quer dizer, em sua estrutura evolutiva. Por outro lado, temos as epistemologias não-
genéticas, para as quais o acordo entre o Sujeito e o Objeto deve ser feito desde a 
origem, não sendo aceita a perspectiva histórica ou temporal: o conhecimento é estudado 
de um ponto de vista estático ou sincrônico, quer dizer, em sua estrutura atual. 
 
É claro que, no interior dessas duas categorias podem ser distinguidas subclasses, 
conforme o acordo suponha um primado do Objeto que se impõe ao espírito 
(conhecimento tirado do objeto), um primado do Sujeito (conhecimento tirado do sujeito) 
que antecede ao objeto, ou uma interação entre o Sujeito e o Objeto. E as epistemologias 
contemporâneas repartem-se segundo confiram o primado ao Sujeito, ao Objeto ou à 
Interação entre ambos. Contudo, as epistemologias atualmente vivas e significativas 
estão centradas sobre as interações do Sujeito e do Objeto: a epistemologia 
fenomenológica, 
 
 
 
 
 29 
ilustrada por Husserl; a epistemologia construtivista e estruturalista, ilustrada por Piaget; a 
epistemologia histórica, ilustrada por Bachelard; a epistemologia "arqueológica", ilustrada 
por Foucault; a epistemologia "racionalista-crítica", ilustrada por Popper. 
É necessário que se compreenda como a epistemologia se situa a si mesma 
relativamente à filosofia das ciências e a outras disciplinas que lhe são mais ou menos 
afins. Em outros termos, a epistemologia se situa na intersecção de preocupações e de 
disciplinas bastante diversas, tanto por seus objetivos quanto por seus métodos. É muito 
difícil encontrar uma lista completa e precisa dessas disciplinas. Limitemo-nos a algumas. 
Trata-se, de fato, de uma divisão nas maneiras de abordar a epistemologia, isto é, de um 
conjunto de vias de acesso a esta disciplina, cada uma com seu tipo próprio de 
inteligibilidade, constituindo uma abordagem que não se impõe às outras. 
 
A. A filosofia das ciências 
 
No pano de fundo de toda abordagem epistemológica, encontramos toda uma tradição 
filosófica. Todos os grandes filósofos também foram teóricos do conhecimento, quer 
dizer, construíram uma teoria do conhecimento fazendo parte integrante de seu sistema 
filosófico. Eles se perguntaram como a ciência é possível. Ao se referirem às ciências, 
tinham em vista duas coisas: quer ultrapassá-las com métodos análogos, quer opor-se a 
elas determinando seus limites e tentando abrir, com essa crítica, outros caminhos 
possíveis. As diversas teorias clássicas do conhecimento eram o produto de uma reflexão 
sobre as ciências, dizendo respeito aos diversos 
 
 
 
 30 
tipos de saber e às suas fontes: razão, imaginação, experiência, etc. No fundo, a questão 
como vinha a significar em que condições. Procuravam-se, pois, as condições ou os 
princípios logicamente exigidos para que a ciência se tornasse possível. Podemos 
chamar essas teorias do conhecimento, partindo de uma reflexão sobre as ciências e 
tentando prolongá-la numa teoria geral do conhecimento, de epistemologias 
"metacientíficas": elas visam a estabelecer a relação que o Sujeito e o Objeto mantêm 
entre si no ato de conhecer, mas tendo em vista determinar o valor e os limites do próprio 
conhecimento, a fim de extrair sua natureza, seu mecanismo geral e seu alcance. 
 
Todas as formas clássicas de epistemologia estiveram sempre, de um modo ou de outro, 
vinculadas ao progresso das ciências. No passado, houve uma solidariedade da filosofia 
com as ciências. Todos os filósofos refletiram sobre aquilo que faziam. E foi assim que se 
constituiu a filosofia das ciências. O problema consiste em saber como ela ainda pode 
justificar-se hoje em dia. Atualmente, são os próprios cientistas que se interessam por 
refletir sobre o que fazem. De uma forma ou de outra, eles se colocam, mesmo que seja 
de modo implícito, questões sobre a razão de ser dos problemas, dos métodos e dos 
conceitos de suas disciplinas. Aliás, há toda uma tendência a fazer a reflexão sobre a 
ciência curvar-se à disciplina científica: de um lado, fazendo-se apelo à linguagem lógica, 
do outro, multiplicando-se os contatos com os fatos. Isto não quer dizer que a 
epistemologia tenha cortado completamente seus laços com a filosofia: em primeiro lugar, 
porque as grandes epistemologias continuam estreitamente associadas a uma filosofia; 
em seguida, porque elas a sugerem ou a confirmam; finalmente, porque acima das 
epistemologias "regionais" ou "internas", há problemas de epistemologia 
 
 
 
 31 
geral que ultrapassam a competência dos especialistas. E mesmo que possamos colocar 
em dúvida a validade atual de uma epistemologia filosófica, não poderíamos negar a 
importância de uma teoria da história das ciências. Esta teoria, muito solidária da 
epistemologia, não perde seu caráter filosófico. Uma teoria das ciências só é 
epistemológica porque a epistemologia é histórica. Assim, a historicidade é essencial ao 
objeto da ciência sobre o qual é estabelecida uma reflexão que podemos chamar de 
"filosofia das ciências" ou epistemologia. E a história das ciências, não sendo ela própria 
uma ciência, e não tendo por isso mesmo um objeto científico, é uma das funções 
principais da epistemologia. 
 
B. A história das ciências 
 
Esta disciplina conheceu um grande desenvolvimento no início do século XX. O grande 
problema que se coloca é o do conhecimento do passado: em que medida podemos 
descrever uma história das ciências sem interpretar os conhecimentos passados através 
dos conhecimentos presentes? Uma história puramente descritiva corre o risco de 
introduzir juízos de valor inoportunos sobre o que os cientistas "deveriam ter feito", sobre 
seus "erros", etc. E hoje sabemos que fazer a história das ciências consiste em fazer a 
história dos conceitos e das teorias científicas, bem como das hesitações do próprio 
teórico. Trata-se de um esforço para se elucidar em que medida as noções, as atitudes 
ou os métodos ultrapassados foram, em sua época, um ultra passatempo. Mais 
profundamente, como nos mostrou Canguilhem, interrogar-se sobre a história das 
ciências consiste em interrogar-se ao mesmo tempo sobre sua finalidade, so- 
 
 
 
 32 
bre seu destino, sobre seu porquê, mas também sobre aquilo pelo que ela se interessa, 
de que ela se ocupa, em conformidade com aquilo que ela visa. Sendo assim, a 
epistemologia não pode deixar de interessar-se pelahistória das ciências. É através da 
epistemologia que os filósofos se interessam por ela, na medida em que esta consciência 
crítica dos métodos atuais de um saber adequado a seu objeto vê-se obrigada a celebrar 
o poder desses métodos, lembrando os embaraços que retardaram sua conquista. Assim, 
entre as razões apresentadas por Canguilhem para se fazer história das ciências: 
histórica (extrínseca à ciência, entendida como discurso verificado sobre determinado 
setor da experiência), científica (realizada pelos cientistas enquanto são pesquisadores e 
não académicos) e filosófica, esta última é a mais importante. Porque, sem referência à 
epistemologia, toda teoria do conhecimento seria uma meditação sobre o vazio. Por outro 
lado, sem relação à história das ciências, a epistemologia seria uma réplica inútil da 
ciência que toma como objeto de discurso. 
 
Portanto, contrariamente aos epistemólogos que se reclamam do empirismo lógico, para 
os quais a história das ciências situa-se fora do campo epistemológico, pois pertenceria 
às ciências empíricas, ligadas ao conhecimento dos fatos, sustentamos que a 
epistemologia é profundamente solidária das ciências, devendo alimentar-se amplamente 
de seus ensinamentos. Na perspectiva positivista, a ciência só é tomada como objeto de 
estudo na medida em que existe a título de fato, isto é, como ciência presente. 
Contrariamente a esta posição, devemos dizer que compete à epistemologia fornecer à 
história das ciências o princípio de um juízo, pois é ela que lhe ensina a última linguagem 
falada por tal ciência, permitindo-lhe, assim, recuar no tempo até o momento em que esta 
linguagem deixa de ser inteligível. É a epis- 
 
 
 
 33 
temologia que nos permite discernir a história dos conhecimentos científicos que já estão 
superados e a dos que permanecem atuais (ou sancionados), porque atuantes e 
colocando em marcha o processo científico. A diferença entre o historiador das ciências e 
o epistemólogo consiste em que o primeiro toma as ideias como fatos, ao passo que o 
segundo toma os fatos como ideias*, inserindo-os num contexto de pensamentos. Em 
outras palavras, o primeiro procede das origens para o presente, de sorte que a ciência 
atual já está sempre anunciada no passado, ao passo que o segundo procede do 
presente para o passado, de sorte que somente uma parte daquilo que ontem era 
considerado como ciência pode hoje ser fundado e justificado cientificamente. 
Resulta que é a epistemologia, enquanto teoria do fundamento da ciência, que faz com 
que o objeto da história das ciências não se identifique com o objeto da ciência e com 
que a história das ciências seja uma tomada de consciência explícita do fato de as 
ciências serem discursos críticos e progressivos para a determinação daquilo que, na 
experiência, deve ser tido por real. É ainda ela que faz com que o objeto da história das 
ciências seja um objeto não dado, mas um objeto construído, um objeto cujo 
inacabamento é essencial. Em suma, da história das ciências, filosoficamente 
questionada, surge uma filosofia das ciências que outra coisa não é senão uma das 
modalidades da epistemologia geral, e que constitui uma das vias de acesso à 
epistemologia, próxima às que passam pela psicologia, pela sociologia e pela 
metodologia dos conhecimentos. 
 
C. A psicologia das ciências 
 
Esta disciplina ainda está em seu início. Mas seu campo de pesquisa é vasto. Há muitas 
questões episte- 
 
 
 
 34 
mológicas que só são resolvidas através de uma psicologia do conhecimento. Por 
exemplo, a seguinte questão: qual é a influência dos processos simbólicos inconscientes 
sobre a produção do pensamento lógico na pesquisa científica? Estamos hoje em 
presença de todo um trabalho que certamente podemos chamar de epistemologia 
psicológica, visando a elucidar como se articulam as diferentes etapas do conhecimento, 
desde a infância até a ciência dos adultos, associando estreitamente a análise lógica à 
análise psicológica. São as pesquisas levadas a efeito por Piaget e sua equipe no Centro 
Internacional de Psicologia Genética, em Genebra. Ao partirem da questão fundamental 
do pensamento kantiano: "como o conhecimento é possível?", acreditam esses autores 
que a psicologia genética foi criada para trazer-lhe uma resposta. Eles mostram toda a 
carência da filosofia tradicional para solucionar este problema, bem como as 
insuficiências, tanto das velhas certezas e respostas do empirismo, quanto das novas 
soluções propostas pelo positivismo lógico. E pretendem instaurar, com a psicologia 
genética, as bases sólidas de uma nova epistemologia. Esta não pode mais contentar-se 
com uma fidelidade às tradições anglo-saxônias, que permanecem orientadas para um 
associacionismo empirista, o que reduziria todo conhecimento a uma aquisição exógena, 
a partir da experiência ou das apresentações verbais ou audiovisuais dirigidas pelos 
adultos. Por outro lado, a epistemologia genética tampouco aceita a solução proposta 
pelo empirismo lógico que, no processo de aquisição dos conhecimentos, continua a 
fazer apelo aos fatores de ineidade e de maturação interna. A nova epistemologia precisa 
ser elaborada a partir de uma concepção construtivista da aquisição dos conhecimentos: 
sem pré-formação, nem exógena (empirismo) nem endógena (ineidade), mas por 
contínuos ultrapassamentos das elaborações sucessivas. 
 
 
 
 35 
Ao partir de sua concepção da psicologia genética, entendida como o estudo do 
desenvolvimento das funções mentais, Piaget mostra que este desenvolvimento pode 
fornecer uma explicação ou, pelo menos, um complemento de informação quanto aos 
mecanismos dessas funções mentais em seu estado acabado. Por outro lado, mostra que 
podemos utilizar a psicologia genética para encontrar a solução dos problemas 
psicológicos gerais e dos problemas do conhecimento. Em suma, é a esta epistemologia 
que devemos a maneira diferente de colocar o problema fundamental do conhecimento: 
ao invés de perguntar "como o conhecimento é possível?", devemos perguntar "como 
crescem os conhecimentos?" Donde podemos identificar a epistemologia da psicologia à 
psicologia do conhecimento científico em geral. 
 
D. A sociologia do conhecimento 
 
Também esta disciplina empreende pesquisas estreitamente ligadas à epistemologia. 
Assinalemos, por exemplo, o lugar que ocupam Marx, Durkheim, M. Weber, Manheim e 
muitos outros sociólogos do conhecimento. É evidente que as tendências manifestadas 
por esses autores em seus trabalhos são bem diferentes. Todavia, todos têm em comum 
uma abordagem global: para eles, os conhecimentos não são considerados como 
construções autónomas e individuais, mas como atividades sociais, inseridas num 
determinado contexto sócio-cultural. O conhecimento científico é sempre tributário de um 
pano de fundo ideológico ou filosófico. Também é tributário da religião, da economia, da 
política e de outros fatores extracientíficos. Sendo assim, o simples fato de concebermos 
a ciência ou um conhecimento científico como possíveis, já é um pressuposto que tem 
origens fi- 
 
 
 
 36 
losóficas ou ideológicas. Por conseguinte, uma sociologia do conhecimento deve ter, 
entre outras funções, a de estabelecer uma ruptura entre os saberes comuns e saber 
científico, interrogando-se sobre as condições sociais que tornam inevitável esta ruptura 
com o conhecimento espontâneo e ideológico. Ela tem a missão de evidenciar os 
pressupostos inconscientes das tradições teóricas. Ora, este fato de encontrar as 
condições históricas e sociais em que se realiza a prática sociológica, para ultrapassá-
las, já é um trabalho específico da crítica epistemológica. 
 
Nas últimas décadas, fala-se também de sociologia da ciência. Distinta da sociologia do 
conhecimento, que guardou um caráter especulativo para estudar o problema de uma 
determinação social do conhecimento, a sociologia da ciência dá preferênciaàs 
pesquisas concretas do condicionamento social e dos fatores não-científicos 
concernentes às diversas descobertas científicas. Ela se interessa sobretudo pelo 
progresso da ciência, mas tentando levar em conta as relações entre a ciência e a 
sociedade: as consequências que decorrem da ciência, de seus progressos e de suas 
realizações para a vida social e sua organização. Não se interessa tanto, como a 
sociologia do conhecimento, pelos sistemas do conhecimento científico, mas pelos 
próprios cientistas, em suas condições sociais reais de trabalho. 
 
Daquilo que já sabemos sobre a "natureza" da epistemologia, podemos tirar algumas 
conclusões: 
 
1. O simples fato de ainda hesitarmos entre duas denominações: filosofia das ciências e 
epistemologia (aliás, há várias denominações: filosofia das ciências, teoria do 
conhecimento, lógica das ciências, epistemologia, etc.), já é revelador da impossibilidade 
de estabelecermos um estatuto preciso e definitivo para a episte- 
 
 
 
 37 
mologia. Ora falamos de epistemologia (termo que tem a vantagem de apresentar uma 
conotação mais "séria" e "científica"), ora falamos de filosofia das ciências (termo que 
apresenta a desvantagem de estar carregado de um sentido menos "sério" ou "literário"). 
No entanto, essas noções são complementares: a epistemologia guarda sua autonomia 
relativamente à filosofia, mas permanecendo solidária a ela numa integração profunda. A 
ideia salutar de autonomia não pode degenerar em preconceito isolacionista, nefasto 
como todo particularismo ou separatismo absolutos. Por outro lado, não devemos 
engajar-nos no sentido oposto, substituindo a autonomia indispensável.por uma 
heteronomia desprovida de sentido. É preciso que confiramos à epistemologia uma 
estrutura e um desenvolvimento específicos enquanto ramo do saber, sem no entanto 
prescindirmos daquilo que ela tem de comum com outras disciplinas, inclusive com a 
filosofia. 
 
 2. Portanto, o conceito de epistemologia não tem uma significação rigorosa e 
unívoca, com um conteúdo definitivo e aceito por todos os que se interrogam como se 
constitui uma teoria científica. Qual é o papel, na prática científica, do contexto social e 
ideológico? Qual é a génese das ciências? Qual é sua estrutura? Como crescem os 
conhecimentos? Não existe um quadro comum, onde viriam articular-se 
harmoniosamente todos os trabalhos dos lógicos, dos psicólogos, dos sociólogos,etc. 
Sua colaboração choca-se quase sempre com obstáculos, sendo o primeiro deles o de 
conceituar sua disciplina. 
 
3. Não é pois inútil que cada especialista se interrogue, antes de tudo, sobre a ideia 
que ele faz de sua disciplina. A este respeito, várias questões se colocam.Por exemplo, 
se queremos conceituar a epistemologia, 
 
 
 
 38 
a questão inicial é a seguinte: de que fazemos a epistemologia? Em seguida, as outras 
questões: Quem vai fazê-la? Por que se faz epistemologia? Como ela é feita? E isto 
porque o objeto de uma disciplina não consiste apenas na matéria própria sobre a qual se 
aplica seu estudo, naquilo pelo que ela se interessa ou naquilo de que ela se ocupa, mas 
em sua intenção, seu desígnio ou seu objetivo, quer dizer, em sua finalidade, em sua 
destinação e em seu porquê. E sabemos que não encontramos hoje a unidade de uma 
disciplina na direção de seu objeto, pois toda ciência se dá mais ou menos o seu objeto: é 
a ciência que constitui e constrói seu objeto pela invenção de um método, apropriando-
se, assim, de seu domínio. 
 
4. O conceito de epistemologia é, pois, empregado de modo bastante flexível. Segundo 
os autores, com seus pressupostos filosóficos ou ideológicos, e em conformidade com os 
países e os costumes, ele serve para designar, quer uma teoria geral do conhecimento 
(de natureza mais ou menos filosófica), quer estudos mais restritos interrogando-se sobre 
a génese e a estrutura das ciências, tentando descobrir as leis de crescimento dos 
conhecimentos, quer uma análise lógica da linguagem científica, quer, enfim, o exame 
das condições reais de produção dos conhecimentos científicos. Qualquer que seja a 
acepção que dermos ao termo "epistemologia", a verdade é que ela não pode e nem 
pretende impor dogmas aos cientistas. Não pretende ser um sistema, a priori, dogmático, 
ditando autoritariamente o que deveria ser o conhecimento científico. Seu papel é o de 
estudar a génese e a estrutura dos conhecimentos científicos. Mais precisamente, o de 
tentar pesquisar as leis reais de produção desses conhecimentos. E ela procura estudar 
esta produção dos conhecimentos, tanto do ponto de vista lógico, quanto dos pontos de 
vista linguístico, sociológico, ideo- 
 
 
 
 39 
lógico, etc. Daí seu caráter de disciplina interdisciplinar. E como as ciências nascem e 
evoluem em circunstâncias históricas bem determinadas, cabe à epistemologia 
perguntar-se pelas relações existentes entre a ciência e a sociedade, entre a ciência e as 
instituições científicas, entre as diversas ciências, etc. 
 
 
 
 40 
 
 
 
 
 41 
A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA DE J. PIAGET 
 
 
 
 42 
 
 
 
 
 43 
Como o esforço da epistemologia global, referente às ciências humanas, está em estreita 
relação com a concepção que Jean Piaget faz da própria epistemologia, parece-nos 
interessante compreender bem qual o sentido e o alcance dessa epistemologia. As ideias 
essenciais da epistemologia genética, tal como ela é praticada por Piaget, estão expostas 
em três obras: Introduction à l'épistémologie génétique (3 volumes, P.U.F., Paris, 1950), 
Logique et connaissance scientifique (Encyclopédie de Ia Plêiade, Gallimard, Paris, 1967) 
e L'épistémologie des sciences de l’homme (Gallimard, Paris, 1970; tradução portuguesa 
da Livraria Bertrand). 
 
Podemos dizer que a epistemologia genética é a extensão, a todo o campo das ciências 
humanas, da metodologia que possibilitou a Piaget a realização de excelentes trabalhos 
sobre o desenvolvimento da criança: a formação do número, o desenvolvimento da 
inteligência, a aquisição da linguagem, a formação do juízo moral, etc. A esta extensão, 
Piaget trabalha há vinte anos, com o 
 
 
 
 44 
Centro Internacional de Epistemologia Genética de Genebra. 
 
A epistemologia pode, então, ser definida como o "estudo da constituição dos 
conhecimentos válidos". O termo "constituição" recobre ao mesmo tempo as "condições 
de acesso", isto é, os processos de aquisição dos conhecimentos, e as "condições 
propriamente constitutivas", quer dizer, as condições formais ou experimentais que dizem 
respeito à validade dos conhecimentos, e as condições que dizem respeito, quer às 
contribuições do sujeito, quer às do objeto no processo de estruturação do conhecimento. 
Portanto, para Piaget, só há ciência quando estiverem reunidos esses três elementos: 1. 
elaboração de "fatos"; 2. formalização lógico-matemática; 3. controle experimental. Por 
conseguinte, ao lado dos métodos de análise direta tentando, por ocasião da crise de um 
saber implicando a reformulação de certos conceitos, extrair as condições de 
conhecimento por simples análise lógica; e ao lado dos métodos de análise normalizante, 
tais como os do empirismo lógico, que examinam a coordenação entre a formalização e a 
experiência, Piaget interessou-se particularmente pelos métodos de análise genética, que 
procuram compreender os processos do conhecimento científico em função de seu 
desenvolvimento e de sua própria formação: quer segundo uma "sociogênese" dos 
conhecimentos, relativa a seu desenvolvimento histórico no interior das sociedades e à 
sua transmissão cultural (métodos histórico-críticos), quer segundo uma "psicogênese" 
das noções e estruturas operatórias elementares constituindo-se no decorrer do 
desenvolvimento dos indivíduos. É sobre este uso reflexivo da psicogênese que mais se 
destacou a contribuição de Piaget: procurando fundar a construção de uma estrutura deconhecimento ou de ação em interação com as atividades do sujeito constituinte, a 
psicogênese cul- 
 
 
 
 45 
mina, de fato, em análises genéticas formalizadas e, por conseguinte, permite a 
descoberta de um estatuto científico para as principais estruturas operatórias das ciências 
humanas. Assim, requer-se sistematicamente a cooperação interdisciplinar dos lógicos, 
dos matemáticos, dos psicólogos e dos especialistas da aplicação técnica das noções 
próprias ao saber em questão. 
 
Desde o início, Piaget recusa uma epistemologia que seja filosófica e pretenda constituir 
uma teoria do conhecimento impondo-se a priori ao sistema das ciências. Para ele, a 
especulação apresenta dois aspectos: a) o primeiro diz respeito à reflexão filosófica. Esta, 
por natureza, é apreciativa, interpretativa, valorizadora. E o homem sempre quer integrar 
os saberes objetivos numa visão de conjunto que lhe indique seu lugar dentro do mundo; 
b) o segundo aspecto diz respeito ao esforço para se criar modelos incertos do existente 
nos domínios em que a ciência se cala. Portanto, a filosofia faz apelo a certas pontes 
provisórias entre os domínios controlados pela ciência. Por sua vez, a ciência procura 
substituir essas pontes, tentando aposentar esse segundo tipo de especulação, que ela 
tenta progressivamente tomar da filosofia. Porque tudo o que devemos dizer do mundo, 
quando isto é possível, deverá ser dito cientificamente, e não especulativamente. Embora 
ligados, esses dois aspectos da especulação devem ser diferenciados, pois só o primeiro 
pode assegurar a perenidade da filosofia como axiologia. 
 
Portanto, Piaget defende a constituição de uma epistemologia científica, livre de toda 
teoria filosófica ou de qualquer contaminação ideológica do conhecimento. Por isso, não 
é tarefa da epistemologia, perguntar-se sobre "o que é o conhecimento", da mesma forma 
como a tarefa da geometria não consiste em se perguntar sobre "o que é o espaço". A 
epistemologia deve, pois, consti- 
 
 
 
 46 
tuir-se cientificamente, procurando situar-se in medias res, isto é, em presença das 
ciências que existem efetivamente. Ora, as ciências estão num constante 
desenvolvimento. E é este próprio desenvolvimento que coloca de modo real a questão 
epistemológica fundamental: como o conhecimento científico, quando bem delimitado, 
procedeu de um estado de menor conhecimento a um estado considerado de maior 
conhecimento? Donde a definição complementar da epistemologia: "o estudo da 
passagem dos estados de menor conhecimento aos estados de conhecimento mais 
desenvolvidos". E esta definição já contém a noção do método genético: toda ciência está 
em desenvolvimento progressivo indefinido de estados sucessivos de conhecimento, isto 
é, deve sempre ser considerado, metodologicamente, como relativo a um certo estado 
anterior de menor conhecimento e como susceptível de constituir este estado anterior em 
referência a um conhecimento melhor elaborado. Segue-se que o método genético tem 
por objetivo estudar os conhecimentos em função de sua construção real, bem como 
considerar todo conhecimento como relativo a um certo nível do mecanismo desta 
construção (Intr., vol. I, pp. 11-13). Ora, quando praticamos o método genético, 
verificamos que é preciso pensar as ciências, não somente de um ponto de vista 
psicológico no sentido estrito, mas também dos pontos de vista análogos aos da biologia 
estudando os seres vivos e o sistema da vida, A epistemologia, então, outra coisa não é 
senão esta espécie de anatomia comparada das estruturas mentais do sujeito 
cognoscente. Assim, o estudo comparado das estruturas mentais que intervém no 
desenvolvimento científico pode organizar-se no que Piaget chama de o método 
"histórico-crítico". Todavia, da mesma forma que a biologia associa à história natural da 
evolução da vida e à descrição da "filogênese" das grandes formas de organiza- 
 
 
 
 47 
ção da vida, uma embriologia que é o estudo da "onto-gênese" individual do organismo 
vivo, assim também a epistemologia genética tem necessidade de acrescentar, ao 
primeiro método, um segundo, cuja função é a de constituir uma embriologia mental. Esta 
embriologia da razão pode desempenhar, relativamente a uma epistemologia genética, o 
mesmo papel que a embriologia do organismo relativamente à anatomia comparada ou 
às teorias da evolução. E é deste ponto de vista que a psicologia científica deve trazer 
uma contribuição essencial à epistemologia. Em última análise, o método completo da 
epistemologia genética é constituído por uma íntima colaboração dos métodos histórico-
críticos e psicogenéticos. O que esta colaboração nós permite extrair, no que diz respeito 
às noções ou conjuntos de operações intelectuais, é uma lei de construção, isto é, o 
sistema operatório em sua constituição progressiva. Ora, diz Piaget, só o método 
psicogenético é capaz de fornecer o conhecimento dos estágios elementares dessa 
constituição progressiva, embora nunca alcance o primeiro. O método histórico-crítico, 
por sua vez, só fornece o conhecimento dos estágios intermediários, porém, superiores, 
embora nunca atinja o último (Ibid., pp. 16-18). 
 
Ao falar deste método psicológico engajado na epistemologia, Piaget faz questão de 
precisar que ele deve ser uma "psicologia da ação", muito mais do que uma "psicologia 
da sensação", isto é, um estudo da génese das operações do pensamento e de sua 
estabilização lógica. É deste modo que a epistemologia e seu método genético poderão 
tratar do problema que Piaget declara estar no centro do método próprio à epistemologia 
genética, a saber, o problema da junção entre ó devir mental e a norma permanente, ou 
entre a exigência de constan- 
 
 
 
 48 
te revisão e a necessidade de apoiar-se em certa estabilidade normativa. Por "norma", 
devemos entender, no caso, aquilo que se impõe como verdade científica e que, a este 
título, deve reger o consentimento e a afirmação dos que são formados na ciência. 
Depois de criticar as concepções puramente contemplativas das normas, apoiadas numa 
verdade divina, transcendental ou intuitiva, Piaget afirma que, do ponto de vista da 
análise genética, a ação precede o pensamento. O pensamento, para ele, consiste numa 
composição sempre mais rica e coerente das operações que prolongam as ações, 
interiorizando-as. Deste ponto de vista, as normas de verdade devem exprimir, antes de 
tudo, a eficácia das ações individuais ou coletivas; em seguida, traduzem a eficácia das 
operações; finalmente, expressam a coerência do pensamento formal. Desta forma, o 
método genético não pode incorrer na censura de ignorar o normativo, pois, desde a ação 
efetiva até as operações mais formalizadas, ele segue passo a passo a constituição de 
normas incessantemente renovadas. Estamos, assim, diante de uma epistemologia 
genética que poderá ser considerada, para retomarmos uma expressão que não é de 
Piaget, como o estudo da ciência e do pensamento enquanto "prática teórica". Porque, 
aquilo que este estudo tem em vista, outra coisa não é senão a ação do pensamento. E é 
como saber da ação (intelectual e pensante) que a epistemologia deve começar a 
"operar". 
 
No entanto, ao recusar uma epistemologia que seja "maculada" pela presença da 
filosofia, Piaget deixa a porta aberta a um momento da epistemologia que, a partir de 
estudos particulares já feitos a propósito das diversas ciências, conduz a uma 
epistemologia geral, que ele chama de "derivada". As epistemologias específicas, 
internas e regionais, devem situar-se umas em relação às outras num campo de conjunto 
de possibilidades da 
 
 
 
 
 49 
epistemologia, mesmo que, sendo constituída uma pluralidade de ciências, se coloque o 
problema de encontrarmos uma "classificação" das disciplinas e de levarmos em 
consideração as interconexões existentes entre as várias ciências, quer dizer, suas 
relações interdisciplinares.Piaget foi levado a propor seu próprio sistema das ciências, tal 
como sua prática epistemológica o levou a construí-lo e a compreendê-lo, comparando-o 
com outras sistematizações do passado ou contemporâneas (Plêiade, pp. 1151-1172). A 
reflexão que ele faz sobre a prática epistemológica, especialmente sobre sua experiência 
de psicólogo estudando a génese das noções fundamentais da lógica e das matemáticas, 
leva-o a reconhecer uma maneira de interconexão cíclica entre as ciências e a propor um 
sistema cíclico das ciências (Ibid., pp. 1172-1224). Eis, em síntese, seu sistema: 
 
 
I LÓGICA E CIÊNCIAS MATEMÁTICAS 
 
 
II CIÊNCIAS DA NATUREZA FÍSICA 
CIÊNCIAS DA IDEALIDADE CIÊNCIAS DA REALIDADE III CIÊNCIAS DA VIDA 
 
 
IV PSICOLOGIA 
 
 
 
A flecha ascendente à direita indica o "círculo epistemológico": a Psicologia pressupõe as 
ciências da vida, as ciências da natureza, etc. Contudo, ao fazer-se epistemólogo, o 
psicólogo deve voltar aos próprios fundamentos de toda ciência, a começar pela Lógica e 
pelas Matemáticas. Porque o círculo é inevitável e natural, nada tendo de vicioso. Ele é, 
no nível da ciência, a transposição e a realização concreta do círculo do conhecimento, 
na medida em que o Sujeito só se conhece por intermé- 
 
 
 
 50 
dio do Objeto, e só conhece o Objeto através de sua atividade de Sujeito. Estamos, 
assim, diante do que Piaget chama de um "círculo vivo". Trata-fie de um tipo de círculo 
que comporta desenvolvimento, crescimento e alargamento indefinidos. Todo o processo 
poderia ser imaginado como uma espécie de espiral. Desta forma, a epistemologia 
genética permanecerá essencialmente "aberta". E são as leis desta construção circular 
de conjunto que constituem o "limite" geral dos desenvolvimentos particulares estudados 
pela epistemologia genética. 
Foram essas considerações que levaram Piaget a distinguir dois tipos de epistemologia: 
epistemologia genética restrita e epistemologia genética generalizada. A primeira consiste 
em fazer uma análise psicogenética ou histórico-crítica sobre os modos de crescimento 
dos conhecimentos, apoiando-se sobre um sistema de referência constituído pelo estado 
do saber admitido no momento considerado. A segunda consiste em estudar o sistema 
de referência, porém situado dentro de um processo genético ou histórico. Esta 
concepção pode ser precisada com exemplos. Com efeito, Piaget, com os recursos de 
seu saber psicológico, estuda, com objetivos claramente epistemológicos, a génese da 
noção de número na criança. Ele faz epistemologia genética no sentido restrito. Michel 
Foucault, ao estudar em Les mots et les choses um momento do devir das ciências 
humanas, faz o estudo da relação existente nos séculos XVII e XVIII entre o estado de 
base dos conhecimentos e da cultura da época e o que se realiza nas ciências humanas. 
E isto, para compreender como, a partir daí, as ciências humanas se constituíram nas 
formas que elas têm presentemente. Seu método, não psicogenético, mas histórico-
crítico (ele prefere chamá-lo de "arqueológico"), pode ser compreendido como um método 
de epistemologia genética "generalizada" (no sentido de Piaget). Porque o 
 
 51 
que ele toma em consideração é o modo pelo qual os textos do século XVII e do século 
XVIII, referentes à economia, à linguagem ..., atestam uma certa visão epistemológica 
desses diversos domínios do saber e que não é mais a nossa. O objetivo de Piaget, 
quando faz certo número de considerações histórico-críticas, é o de reinserir as 
epistemologias regionais e restritas na perspectiva de uma epistemologia "generalizada". 
Esta adquire, cada vez mais, um caráter filosófico ou quase-filosófico. 
Esta apresentação sintética da epistemologia genética possibilita-nos fazer-algumas 
precisões: 
 
1. Toda a obra de Piaget visa a constituição de uma epistemologia capaz de fazer a 
transição entre a Psicologia genética e a Epistemologia geral, que ele espera enriquecer 
pela consideração do desenvolvimento. Sua convicção fundamental é a de que os 
conhecimentos resultam de uma construção. Eles constituem, pois, uma criação contínua 
de estruturas sempre novas. Podemos sintetizar o programa e os métodos dessa 
epistemologia dizendo que ela é comandada por um duplo imperativo: a) de um lado, visa 
a garantir a colaboração entre psicólogos do desenvolvimento, lógicos e especialistas das 
diversas disciplinas científicas que se interessam por problemas de ordem 
epistemológica: ela é essencialmente interdisciplinar; b) do outro, visa a reduzir esses 
problemas a formulações que possam ser tratadas pelos métodos da psicologia 
experimental. Portanto, trata-se de um "projeto" eminentemente interdisciplinar que deve 
substituir todos os tipos de ensinos compartimentados das ciências. Para que seja 
realizado tal empreendimento, é necessário que se estabeleça uma estreita união do 
Ensino e da Pesquisa, especialmente para a solução dos problemas novos. Além disso, é 
indispensável que as pesquisas sejam feitas por uma "equipe interdisciplinar", capaz de 
realizar uma colaboração entre as disciplinas 
 
 
 
 52 
e entre os setores heterogéneos de uma ciência, de tal forma que haja certa 
reciprocidade nas trocas e os pesquisadores venham a enriquecer-se mutuamente. 
Todavia, convém que se distinga um enfoque meramente "multidisciplinar", de que 
dependem as aproximações concretas, das pesquisas propriamente "interdisciplinares? 
 
Estas, segundo Piaget, exigem um nível de abstração muito elevado, pois trata-se de 
extrair das ciências humanas, por exemplo, os seus mecanismos comuns, e não somente 
algumas colaborações episódicas e sem integração metodológica. 
 
2. Não sendo completamente hostil à filosofia, pois compreende sua necessidade como 
reflexão valorizadora da relação homem-mundo, e não nega sua legitimidade ou sua 
importância ("ela é mesmo indispensável a todo homem completo, por mais cientista que 
ele seja"), Piaget fica surpreso com a fraqueza das diversas teorias filosóficas do 
conhecimento, pois em geral elas se contradizem, sem haver nenhum critério objetivo 
que nos permita decidir. Elas permanecem especulativas. Trata-se de refletir sobre a 
ciência de modo objetivo, com critérios permitindo um "controle intersubjetivo". 
Diferentemente do positivismo, que empreende uma cruzada contra todo tipo de 
especulação, e condena em bloco toda filosofia, Piaget acha que o cientista que não 
passa pela filosofia permanece portador de uma ''doença incurável". E é por isso que ele 
se insurge também contra o positivismo, que se prende única e exclusivamente aos fatos 
"observáveis". Insurge-se, também, contra a especulação que não seja capaz de fornecer 
instrumentos de controle e de verificação. 
 
Por isso, Piaget concebe a possibilidade de uma passagem da especulação a uma 
ciência experimental, no domínio da teoria do conhecimento. Entre a reconstituição 
especulativa e a teoria científica, quando se 
 
 
 
 53 
trata de criar um modelo dos mecanismos do conhecimento, ele não vê um abismo, como 
pretende o neopositivismo. Há, isto sim, um limiar a ser transposto, porque a especulação 
se elabora a partir de dados que são tomados de empréstimo a outros domínios. O 
grande mérito de Piaget, e que marca seu nome na história, é o de ter criado uma base 
de experimentação própria para a epistemologia. Ele conseguiu isolar os problemas 
concernentes à articulação de base do crescimento dos conhecimentos, e a formulá-los 
numa linguagem possibilitando o controle experimental. Fazendo isto, conseguiu inventar 
modalidades de experimentação e subtrair a teoria do crescimento dos conhecimentos à 
reconstituição meramente histórico-crítica. Assim, sua psicologia da inteligência, ou da 
criança, por mais importante que ela possa parecer, é apenas um aspecto derivado (e 
secundário) de um empreendimento epistemológico. 
 
3. O que Piaget prova experimentalmente,é que há dois tipos de abstração bem 
diferentes. Em primeiro lugar, há a abstração de tipo aristotélico, que leva em conta 
certos aspectos da realidade e descarta outros: ela dá origem a um esquema do 
existente, mas nunca se transforma em operações de pensamento. Em segundo lugar, há 
a abstração réfléchissante, tendo por função extrair as estruturas do pensamento, os 
esquemas assimiladores e seu funcionamento específico. Este segundo tipo de 
abstração, cujo papel é o de coordenar a organização, liga-se aos dados, da mesma 
forma que o primeiro tipo. Contudo, ao passo que a abstração do primeiro tipo é uma 
assimilação dos dados a estruturas mentais existentes, a abstração réfléchissante é a 
própria organização das estruturas mentais tendo em vista sua acomodação. Uma é 
assimiladora e representa o aspecto estático do conhecimento; a outra é acomodadora e 
representa seu aspecto dinâmico. Nesta última abstra- 
 
 
 
 54 
ção, o Objeto desempenha o papel apenas de "ocasião", quer dizer, não se inscreve tal 
qual, com suas qualidades físicas, neste tipo de abstração, pois esta é uma modalidade 
de organização, de coordenação das abstrações simples. A coordenação das ações do 
Sujeito é de caráter lógico-matemático. Ela se prolonga em "operadores" que efetuam 
uma descentração relativamente ao sujeito individual, dando origem ao sujeito do 
conhecimento, o "Sujeito epistêmico" (aquilo que há de comum nos vários sujeitos 
individuais ou egocêntricos). 
 
4. Piaget estabelece que o ponto de partida do conhecimento é o conhecimento sensorio-
motriz. Quatro níveis irão formar a escala de maturação do esquematismo mental: 1. a 
ausência de diferenciação entre á atividade, real ou imaginária, exercida sobre o objeto 
(reunir, dissociar, ordenar, mudar de ordem, etc.); 2. as operações concretas, com 
diferenciação dos dois aspectos mencionados; 3. as operações formais, com 
diferenciação tão forte que as coordenações extrapolam e precedem a realidade 
experimental, de que se liberam por completo; 4. as construções axiomatizadas, que 
transformam as coordenações reais em simples casos particulares das coordenações 
possíveis. Portanto, a criança adquire seus conhecimentos agindo sobre os objetos. 
Fazendo isto, ela não organiza apenas os objetos, mas (mentalmente e de modo não 
consciente) sua própria atividade. E esta é a fonte de duas espécies de organização: a 
primeira, referente ao objeto, a segunda, a ela mesma. O conhecimento se realiza pela 
dialética dessas duas estruturas de transformação, e são elas que a inteligência elabora 
enquanto é um prolongamento da ação. Por isso, todo conhecimento comporta um 
aspecto de elaboração nova. E o problema da epistemologia consiste em conciliar essas 
criações de novidades com o duplo fato: no plano formal, as novidades são 
acompanhadas de necessidades previa- 
 
 
 
 55 
mente elaboradas; no plano real, elas permitem a conquista do real, quer dizer, da 
objetividade. Portanto, a epistemologia genética visa a remontar às fontes, isto é, à 
própria gênese dos conhecimentos, pois a epistemologia tradicional só conhecia seus 
estados superiores. O próprio da epistemologia genética consiste em procurar descobrir e 
extrair as raízes dos diversos conhecimentos, desde suas formas mais elementares, e 
seguir seu desenvolvimento através dos níveis ulteriores, até o pensamento científico 
inclusive. No fundo, o próprio Piaget confessa que sua epistemologia é "naturalista" sem 
ser "positivista"; que ela evidencia a atividade do sujeito sem ser "idealista"; que ela se 
apoia sobre o objeto, mas considerando-o como um limite. O importante é que ela deve 
ver no conhecimento, sobretudo, uma construção contínua. 
 
5. Diferentemente da epistemologia lógica, que utiliza métodos estritamente 
formalizantes, para fazer um estudo da linguagem científica e uma pesquisa das regras 
lógicas que devem presidir a todo enunciado correto (positivismo anglo-saxônico); e 
diferentemente da epistemologia histórica, que privilegia os métodos histórico-cri ticos 
para a elucidação da atividade científica a partir de uma análise, não só da história das 
ciências e de suas revoluções epistemológicas, mas das próprias dé-marches do espírito 
científico (Bachelard, Canguilhem, Foucault), a epistemologia genética de Piaget tem por 
objetivo central a elucidação da atividade científica a partir de uma psicologia da 
inteligência. Esta orientação epistemológica recebeu por caução uma enorme quantidade 
de pesquisas experimentais acumuladas pelos psicólogos há quase um século. Ela 
encontrou em Piaget e em seus colaboradores de Genebra intérpretes não só 
meticulosos mas realmente competentes. Qual a ótica dessa "escola"? Não se trata, de 
forma alguma, de acei- 
 
 
 
 56 
tar o fato da linguagem científica ou comum, a fim de se medir sua validade relativamente 
à sua simplicidade, à sua coerência, à sua exaustividade ou aceitabilidade banal. A 
epistemologia genética não hesita em perguntar-se como a inteligência se constrói, desde 
os primeiros agenciamentos práticos e perceptivos da criança "trabalhando" sobre um 
objeto ou sobre o domínio de suas coordenações corporais, até a elaboração dos 
conceitos que estão na origem dos conhecimentos da física, da matemática, etc. 
 
6. O que mais poderia ser contestado à epistemologia de Piaget é o fato de ela ser, 
paradoxalmente, profundamente kantiana. Kant, com efeito, para justificar a física 
elaborada por Galileu e Newton, no fim do século XVIII, construiu toda uma teoria do 
conhecimento procurando evidenciar o fato de que o objeto conhecido seria ao mesmo 
tempo um dado e um construído. Na perspectiva kantiana, haveria o dado (o irreversível) 
que somente a experiência podia cernir, sem jamais poder reduzi-lo por completo. Por 
outro lado, haveria também uma organização prévia, a priori, inconsciente deste dado, 
proveniente da natureza mesma do sujeito cognoscente. Ora, o estruturalismo genético e 
construtivista de Piaget parece esforçar-se por determinar experimentalmente as 
condições reais em que se constrói tal sujeito cognoscente. Para tanto, ele luta contra "as 
sabedorias e ilusões da filosofia", pois estas se dão arbitrariamente uma configuração da 
relação Sujeito-Objeto afirmada como eterna, como se ela pertencesse ao mesmo tempo 
a uma ordem preestabelecida da natureza e do próprio homem. Por isso, Piaget tenta 
mostrar como, geração após geração, a filosofia se construiu a partir de uma experiência 
comum elementar. O exemplo que ele toma é a noção de causalidade. Ele afirma 
categoricamente que esta noção não pode ser nem inata, pois não pertence à essência 
 
 
 
 57 
do espírito humano, nem pode ser .o resultado ou efeito que a ordem natural impõe a 
uma consciência autêntica. A causalidade é o resultado de um longo trabalho operado 
pela criança, em seus gestos, em suas palavras, em suas coordenações sensório-
motrizes e, posteriormente, psicolinguísticas. E não são poucas as experiências 
invocadas por Piaget para comprovar este fato. O que ele pretende mostrar é que é a 
inteligência que se monta, que se estrutura a si mesma, na dialética dos ensaios e dos 
erros, nas retificações que introduzem as diferenças, nos fracassos que fazem surgir as 
contradições e nas sínteses que promovem os progressos. E é esta inteligência que está 
na origem mesma da atividade científica. Os conceitos fundamentais da ciência têm por 
causa real os movimentos de exploração da criança. É nesses movimentos que ela 
procura reconhecer-se para definir-se e poder agir. 
 
7. Apesar do número impressionante das experiências, cada uma sendo convincente, 
quando tomada de per si, temos o direito de nos perguntar: afinal de contas, de que se 
trata? E daí? Piaget responde que se trata de mostrar que todos os conceitos 
determinantes das ciências passadas, presentes e futuras devem inscrever-se numa 
necessidade psicológica,

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