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Kur’yt’yba v.4 n.1 
 
53 
 
VIOLÊNCIA CONTRA LGBT EM PINHAIS – PR 
 
 
Everson Xavier da Silva1, Adilson José de Barros1, Gleidson Brandão 
Oselame1*, Denecir de Almeida Dutra1 
 
RESUMO 
Em 2010, foram registradas no Brasil 260 mortes de gays, travestis e 
lésbicas. Diante deste contexto, o presente estudo teve como objetivo 
realizar um levantamento de dados e traçar um perfil da violência sofrida 
pela população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais 
(LGBT) no município de Pinhais, estado do Paraná. O método empregado 
foi o de revisão, em um primeiro momento, e posteriormente a pesquisa de 
campo, onde se realizou uma entrevista semiestruturada com travestis e 
transexuais. Observou-se que a violência mais incidente é a moral (92%), 
seguida pela sexual e física (83%), havendo uma ligação entre elas, além do 
receio, por parte desses indivíduos, de sofrerem discriminação pelo serviço 
de saúde (52%) e pelos usuários dos serviços de saúde (48%). Constatou-se 
que 50% da amostra possuem orientação sexual travesti e 42% transexual, 
acrescendo-se o fato de que 33% demonstram uma característica flutuante. 
Portanto, ressalta-se a importância da implementação de políticas públicas 
direcionadas à população LGBT e da promoção e disseminação da cultura 
da paz. 
Palavras-chave: Violência de gênero; Travesti; Homofobia; LGBT; 
Políticas Públicas. 
 
1 Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE). *E-mail: 
gleidsonoselame@gmail.com 
Kur’yt’yba v.4 n.1 
 
54 
ABSTRACT 
In Brazil in 2010 were recorded 260 deaths of gays, transvestites and lesbians. 
Given this context, the present study aimed to survey data and draws a profile 
of the violence suffered by LGBT population in the city of Pinhais, Paraná 
state. The method employed was to review at first, and then the field study 
where we conducted a semi-structured interview with transvestites and 
transsexuals. It was observed that more violence incident is the moral (92%), 
followed by sexual and physical (83%) there is a link between them. There is 
the fear of suffering discrimination by health service (52%) and users of health 
services (48%). It was found that 50% of the sample have sexual transvestite 
and transsexual 42%, and demonstrate a characteristic floating a portion of the 
population (33%). Therefore, we emphasize the importance of public policies 
directed to the LGBT polluting and to promote and disseminate the culture of 
peace. 
Keywords: Gender violence; Transvestite, Homophobia, LGBT, Public 
Policy. 
Kur’yt’yba v.4 n.1 
 
55 
INTRODUÇÃO 
 
Para gregos e romanos o termo homossexualidade não tinha muito 
significado e não era visto da mesma maneira como hoje é entendido. A 
tradição judaico-cristã foi a precursora na hostilidade entre gays e lésbicas, 
hostilidade esta fortificada pelo cristianismo, que passa a recriminar atos 
homossexuais e prega que quem os comete ficará fora da salvação 
(BORRILO, 2010). 
Na sociedade em que vivemos, a conjuntura não é muito diferente 
daquela da época Greco romana. Hoje existe uma pequena parcela que não 
é preconceituosa e a outra parcela que, além de preconceituosa, ainda 
pratica violência contra indivíduos de determinada orientação sexual. A 
violência surge do preconceito e da desigualdade entre homens e mulheres 
e, mais especificamente, do preconceito à população de Lésbicas, Gays, 
Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) (RAMOS e CARRARA, 
2006). 
No ano de 2010 foram registradas 260 mortes de gays, travestis e 
lésbicas no Brasil. Esse número, comparado ao registrado nos Estados 
Unidos, por exemplo, país com 100 milhões de habitantes a mais que o 
Brasil, confirma a posição do Brasil como campeão mundial de homicídios 
contra homossexuais. Enquanto nos Estados Unidos foram registrados 14 
casos contra travestis em 2010, no Brasil foram 110. É o que relata o Grupo 
Gay da Bahia (GGB), encarregado de realizar os relatórios anuais de 
assassinatos contra homossexuais (MOTT, 2000). 
A mesma organização não governamental (ONG) traz o perfil do país 
por regiões, sendo notável que a região Nordeste é a que concentra o maior 
Kur’yt’yba v.4 n.1 
 
56 
índice de violência letal, com 43% dos casos de assassinato. Também é a 
região com a maior concentração desta população, seguida pelas regiões 
Sudeste (27%), Centro-Oeste e Norte (10%) e Sul (9%) (MOTT, 2000). 
Os números citados são passiveis de revisão, pois os dados nacionais de 
assassinatos contra esse grupo são recolhidos pela ONG GGB apenas a 
partir de casos noticiados e pelas ONGs existentes no país que atendem 
esse grupo de pessoas (CARRARA e VIANNA, 2006). A ficha de 
notificação contra violência foi implantada no Brasil pelo Ministério da 
Saúde (MS) em 2008, pela Portaria GM/MS nº 104 de 25 de janeiro de 
2011. Dessa forma, a violência passa a ser de notificação compulsória. No 
entanto, não existem dados oficiais registrados no principal instrumento de 
notificação de violência do país, o Sistema de Informação de Agravos de 
Notificação (BRASIL, 2011). Nas fichas apresentadas, notam-se apenas os 
campos genéricos masculino, feminino e ignorado para a identificação de sexo, 
sem a existência de um campo que possibilite o fornecimento da informação 
de que o homem ou mulher pertencem ao grupo de gay, bissexual, lésbica ou 
travesti (BRASIL, 2010). 
A Resolução nº 208/2009 do Conselho Regional de Medicina de São Paulo 
garante às pacientes transexuais e travestis o direito de serem atendidas pelo nome 
social, independentemente do nome e sexo do registro civil, e de adotá-lo nos 
prontuários médicos. Ainda assim, os dados podem ser prejudicados, pois o nome 
está acondicionado ao sexo e não à característica sexual (CRMSP, 2009). 
A população LGBT tem seus direitos à saúde garantidos com base no 
princípio de equidade do Sistema Único de Saúde (SUS), mas para que isso 
aconteça é necessário que ocorra um avanço na democratização dos direitos 
humanos e um reconhecimento de que as pessoas podem exercer sua 
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57 
sexualidade sem preconceitos (LIONCO, 2008). 
O presente estudo, alicerçado no espaço legal relativo à notificação 
contra a violência da população LGBT, objetivou realizar um levantamento 
dos dados indicativos no município de Pinhais (PR), visando traçar o perfil 
desta população e os tipos de violência a que está exposta. 
 
MATERIAIS E MÉTODOS 
 
Trata-se de uma pesquisa de caráter qualiquantitativo exploratório. Tal 
método tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o 
problema e torná-lo mais visível (GIL, 2002). Inicialmente, procedeu-se à 
busca teórica sobre o tema a partir de artigos científicos publicados na base 
eletrônica do Scientific Electronic Library Online (Scielo). Utilizaram-se os 
descritores ‘violência de gênero’, ‘violência contra travesti’, ‘homofobia’ e 
‘LGBT’. A busca resultou em 63 artigos, tendo como método de corte o 
idioma e artigos que continham no título violência, mas que não se 
relacionavam ao público alvo. Desta forma, foram selecionados 11 artigos. 
Contribuíram com dados numéricos o Departamento de Vigilância em 
Saúde (DEVIS), o setor da Vigilância Epidemiológica do município de 
Pinhais, as delegacias da policia Civil e Militar e Guarda Municipal. 
A população de estudo de campo foram travestis – pessoas que, 
biologicamente, pertencem ao sexo masculino ou ao feminino, mas que têm 
sua identidade de gênero oposta ao sexo biológico – e transexuais, que 
independentemente do sexo biológico de nascimento se afirmam como 
tendo identidade oposta (a essas pessoas se relacionam os fatores 
psicológico e cirúrgico para a troca de sexo). Ambos os grupos foram 
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58 
compostos por pessoas com idade superior aos dezoito (18) anos, residentes 
no município de Pinhais ou em municípios próximos. 
Para a coleta dos dados foirealizada uma entrevista semiestruturada em 
que se buscou traçar o perfil, o tipo de violência e os dados relativos ao tipo 
de atendimento recebido pelo sujeito vítima de violência. 
Os dados foram coletados nos dias 26 de julho e 13 de outubro de 2012, 
na abordagem noturna preventiva realizada pelo Centro de Testagem e 
Aconselhamento (CTA) do município. Essa abordagem tem fins de 
distribuição de preservativos e gel lubrificante para a população LGBT, 
além de orientações voltadas para a prevenção de doenças sexualmente 
transmissíveis. 
Participaram voluntariamente do estudo doze travestis que 
concordaram em participar da entrevista. Ao término, os dados foram 
tabulados utilizando-se estatística básica para as questões fechadas e análise 
de conteúdo de Bardin (2004) para as questões abertas. 
Todos os sujeitos assinaram o Termo de Consentimento Livre e 
Esclarecido. O estudo segue o que preconiza a Resolução 196/96 do 
Conselho Nacional de Saúde, que trata sobre pesquisa com Seres Humanos. 
O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres 
Humanos do Centro Universitário Campos de Andrade, sendo aprovado 
pelo Parecer consubstanciado número 000452 no ano de 2012. 
 
RESULTADOS 
 
Dos doze entrevistados que sofreram algum tipo de violência, a faixa 
etária predominou entre 19 e 27 anos. Quanto ao tipo de violência sofrida, 
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59 
constatou-se que prevaleceu moral, atingindo 92%, conforme Tabela 1. 
 
Tabela 1. Tipos de violência sofrida por travestis e transexuais, Pinhais/PR, 2012. 
Tipo de violência sofrida nº % 
Física 10 83 
Sexual 10 83 
Moral 11 92 
 
 
Quanto à orientação sexual das vitimas de violência, os números são 
muito próximos no que se relaciona à orientação travestis ou transexuais, 
como apresentado no Gráfico 1. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gráfico 1. Vítimas de violência segundo orientação sexual, Pinhais/PR, 2012. 
 
 
Com relação ao receio de sofrer discriminação durante o atendimnto 
nos serviço de saúde, seja por profissionais ou pela população que ali se 
encontra, o receio maior é pelo serviço de saúde, conforme demonstra a 
Tabela 2. 
 
 
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60 
Tabela 2. Receio de sofrer discriminação durante o atendimento seja pelo 
profissional do serviço ou pelo usuário, Pinhais/PR, 2012. 
 
Receio de sofrer discriminação nº % 
pelo serviço 7 58 
pelo usuário do serviço 5 42 
pelo usuário e pelo serviço 4 34 
 
Relacionado ao preparo dos profissionais, sejam eles das unidades de 
saúde, delegacias ou pronto atendimento, verificou-se, além do preconceito, 
a falta de preparo e de uma conduta ética e moral, acrescido do tratamento 
com desigualdade, como mostram os depoimentos na Tabela 3. 
 
Tabela 3. Discursos dos sujeitos vítimas de violência e suas justificativas 
em não procurar os serviços de saúde, Pinhais/PR, 2012 
 
Entrevistado Relato 
Travesti 2 
“Não sei nem se tem atendimento. Se você for à delegacia 
vão rir da gente. Se você for ao posto ou no pronto socorro 
é morrer de esperar, fiz curativo eu mesma.” 
Travesti 5 
“Fui chamada pelo meu nome de registro e isso é muito 
chato. Tive três pontos no rosto e só falaram pra eu tirar os 
pontos num postinho de saúde.” 
Travesti 7 
“Os profissionais são maltreinados para nos atender, as 
pessoas nos olham como se fôssemos aliens.” 
Travesti 11 
“No SUS somos tratadas sem respeito e as consultas são 
demoradas. Tenho plano de saúde, e o médico pediu exame 
de sífilis e HIV. Deu remédio pra dor.” 
 
Ainda quanto ao despreparo do profissional da saúde e o não 
cumprimento dos princípios básicos do SUS, como a equidade e a 
integralidade, foi levantado que os entrevistados na sua maioria (58%) 
preferem pagar um plano de saúde para terem melhor atendimento. Quanto 
à procura de atendimento médico-hospitalar referente à violência sofrida, 
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61 
uma minoria (33%) se direciona ao atendimento, buscando somente quando 
é de extrema necessidade. 
O perfil quanto ao local moradia da população LGBT mostra que, em 
sua maioria, é residente no município de Pinhais; no entanto, fatores como 
o medo de ser reconhecida e a discriminação por parte de pessoas 
conhecidas, faz com esta população tenha um caráter flutuante entre 
municípios. O Gráfico 2 especifica detalhadamente este perfil. 
 
 
Gráfico 2. Perfil da população quanto ao município de moradia, 
Pinhais/2012, 2012. 
 
A última característica analisada foi a questão da falta de registro dos 
dados nos órgãos públicos e no sistema de notificação. A presença de 
diversos tipos de violência na população em questão leva a crer que as 
denuncias são baixas ou quase inexistentes, além do fato da subnotificação. 
 
DISCUSSÃO 
 
Embora os números encontrados relativos à quantidade da população 
entrevistada tenham sido menores que os de outros estudos, estes não 
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62 
divergem com os encontrados quando relacionados ao tema. Acabam por 
apontar sempre em uma mesma direção, mostrando que o índice dos vários 
tipos de violência contra a população LGBT atinge altos números e que são 
necessárias as intervenções das políticas públicas neste cenário 
(CARDOSO, 2008). 
Uma pesquisa realizada no estado de São Paulo, durante a parada do 
orgulho Gay, revelou que a maioria de seus 416 entrevistados já sofreram algum 
tipo de violência motivada por sua orientação sexual, que se define como 
preferência sexual por pessoas do mesmo sexo, do sexo oposto ou para ambos 
(BRASIL, 2005). Esses números, comparados aos números encontrados nesta 
pesquisa, mostram que o perfil dos entrevistados não altera e que a violência 
moral ou verbal, aquela que trata da dominação cultural, ofende a dignidade e 
desrespeita os direitos do outro (DEBERT e GREGORI, 2008). Também 
acontece, na maioria dos casos, seguindo uma tendência da violência para 
aqueles que não seguem os padrões da sociedade, trazendo como consequência a 
exclusão (DEBERT e GREGORI, 2008). No que se refere à violência sexual, o 
agressor abusa do poder que tem sobre a vítima para obter gratificação sexual. 
Mesmo sem o seu consentimento, esta é induzida ou obrigada a práticas sexuais 
com ou sem violência física. 
Não raramente a mídia divulga noticias sobre violência física que causa 
ferimentos graves, internações e, por vezes, óbito. Um dos relatos durante a 
entrevista evidencia esta brutalidade, além de outras duas violências 
comuns relacionadas ao gênero: a moral e a psicológica. Esses fatos 
evidenciam a certeza da violação dos direitos humanos, da dignidade, além 
da vulnerabilidade de exposição de LGBT (CARRARA, RAMOS e 
SIMÕES, 2005). O discurso a seguir exemplifica essa questão: “a primeira 
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63 
vez por um cliente que me xingou e bateu e não pagou; a outra, pela 
cafetina que me mordeu e bateu” (Travesti 3). 
À violência contra homossexuais, mais especificamente contra as 
orientações travesti e transexuais, se atribui a maior discriminação sexual 
ou por homofobia no Brasil. Ela está ligada à discriminação e à intolerância 
contra pequenos grupos com identidades minoritárias. O que é menos 
aceitável é que parece existir uma constante de crescimento proporcional, 
pois, conforme esses grupos vão se descobrindo de acordo com sua 
identificação, outros grupos que irão agir com intolerância, preconceito, 
discriminação e violência também vão se formando (CISALVA, 2008). 
A Constituição Brasileira define a saúde como direito fundamental, que 
deve ser garantido a todo o cidadão; não consegue, porém, impedir a 
discriminação que a população em questão sofre ao procurar um serviço de 
saúde, o que leva a um índice baixo de procura por este serviço quando 
sofre violência (33%). A procura pelo serviço só ocorre quando não há 
outra maneira de tratar a violência, ou quando o indivíduo, necessitando de 
um atendimento de emergência, procura o pronto atendimento (MULLERe 
KNAUTH, 2008). Assim relata a travesti 1, quando questionada se tinha 
procurado um serviço de saúde depois de sofrer violência: “Não fui ao 
hospital; as pessoas não têm respeito; eu queria que tivessem mais 
respeito. Somos pessoas também e temos sentimentos. Não é preciso 
ficarem de risinhos. E ainda chamam a gente pelo nome de registro” 
(Travesti 1). 
Fato importante é que 92%, dos entrevistados sofreram violência de 
repetição, ou seja, receberam o ato violento mais de uma vez. Esses 
números, porém, não aparecem, o que leva a crer em uma subnotificação, 
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64 
seja pela marginalização ou pelo medo de sofrer mais discriminação ao 
pedir ajuda (DEBERT e GREGORI, 2008). Este fato vai ao encontro dos 
resultados obtidos na pesquisa, que mostram que a violência moral, física 
ou sexual ocorreu com a maioria dos entrevistados. Porém, quando 
indagados sobre a procura por algum serviço de atendimento pela violência 
sofrida, um grande percentual (66%) declarou não ter procurado 
atendimento, o que torna incontestável a ocultação dos casos. 
A violência contra LGBT, na sua maioria, é praticada por pessoas 
conhecidas – pais, parentes, vizinhos ou companheiros. São agressões, 
humilhações, ameaças e discriminação. O primeiro levantamento de 
violência homofóbica feito pelo governo federal – por denúncias recebidas 
em 2011, principalmente pelo disque 100 – mostrou que 62% das vitimas 
conheciam seus agressores. Esse fato, não raramente, tem como 
conseqüência a saída do agredido do domicilio, a expulsão de casa por 
familiares (CARRARA, RAMOS e SIMÕES, 2005). 
Ressalta-se que 59% dos entrevistados são residentes no município 
estudado e que outros 33% são residentes em município vizinhos, como 
Colombo e Curitiba. Relacionaram-se esses dados pelo fato de a população 
presente no município ter um ponto de moradia, mas fazerem programa em 
locais distantes de suas casas para evitar o constrangimento e as possíveis 
agressões. Daí resulta a denominação de população flutuante, que hora se 
encontra em Pinhais, hora no município de residência, hora em outro 
município, tanto para moradia quanto para trabalho. 
A falta de informações confiáveis é um fator que impede a identificação 
da grandeza das diferentes formas de violência e também a monitorização 
para avaliação de implantação de programas de prevenção e controle. 
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65 
Mesmo com a publicação da Portaria do MS/GM 104 de 2011, no Art. 2º – 
que torna de caráter compulsório, ou seja, obrigatório a notificação de 
violência doméstica, sexual e/ou outras violências, que traz no seu Art. 7º a 
obrigatoriedade da notificação por todos os profissionais de saúde – não 
existem números exatos e uma cobertura ideal sobre a violência sofrida por 
LGBT (BRASIL, 2011). Em primeiro lugar, os profissionais de saúde ainda 
não estão capacitados para o atendimento de pessoas em situação de 
violência e para o correto preenchimento da ficha de notificação. Em 
segundo, o campo número 11 da referida ficha traz apenas a identificação 
do sexo, que se refere ao gênero. 
Para que exista uma melhor coleta de dados e consequentemente um 
melhor levantamento, seria ideal a inclusão, no campo 11 na ficha de 
notificação, de um “subcampo” para a especificação da orientação sexual. 
Nesse sentido, a educação em saúde para todos os profissionais que 
trabalham na área ou possam estar à frente do atendimento de uma pessoa 
em situação de violência se faz necessária, para que eles tenham o preparo 
ideal e possam oferecer o melhor atendimento possível sem expor a vítima 
mais uma vez à violência. Faz-se necessário fortalecer o atendimento em 
rede, interligando todos os setores que trabalham com a violência, 
fornecendo assim um atendimento adequado. Os discursos refletem este 
problema: “o SUS não nos fornece o atendimento necessário, cirurgia, 
medicação. Não estão preparados” (Travesti 10); “implante de silicone e 
medicação hormonal, isso o SUS poderia fornecer pra gente” (Travesti 8). 
Esses relatos – que revelam uma preocupação dos entrevistados quanto 
uso indiscriminado e incorreto de hormônios e silicone industrial para 
terem o corpo de uma mulher – foram obtidos quando solicitada uma 
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66 
sugestão para o aperfeiçoamento das normas de atendimento. O uso de 
silicone industrial, que é impróprio para o uso humano, pode trazer 
consequências como infecções e deformidades, além do óbito. Quanto aos 
hormônios femininos, seu uso está associado a flebites, infarto agudo do 
miocárdio, acidente vascular encefálico, entre outros (BRASIL, 2010). 
Há necessidade de que sejam implementados projetos de atenção à 
saúde, como o Programa Mais Saúde – Direito de todos, com 
direcionamento para esta população, ampliando o acesso a ações e serviços 
de qualidade. Promover a inclusão no processo saúde/doença da polução 
LGBT é fundamental para que ela tenha um atendimento igual, integral e 
universal, respeitando-se o que propõe o SUS (BRASIL, 2005). 
 
CONCLUSÕES 
 
O estudo demonstra que a violência ocorrida em maior número é a 
moral, seguida da sexual e física, e que, pelo receio de sofrerem 
discriminação, existe uma grande resistência por parte de travestis e 
transexuais pela procura de qualquer serviço de ajuda quando sofrem 
violência. 
A notificação por parte dos órgãos de saúde e segurança é baixa, 
evidenciando a necessidade de capacitação profissional de quem os atende. 
Recomenda-se a ampliação do campo 11 da ficha de notificação de 
violências (SINAN), com a inclusão do “subcampo” orientação sexual. Isso 
deve ser levado a efeito para o levantamento de dados fidedignos, que não 
causem dubiedade no formulário, e, dessa forma, colaborem na 
reestruturação ao apoio prestado pela assistência. 
Kur’yt’yba v.4 n.1 
 
67 
Faz-se necessária, portanto, uma política de saúde baseada na educação 
em saúde que vise promover a prevenção contra violência, política esta que 
pode ser iniciada com programas nas escolas, local onde a vivência em 
grupo pode formar um caráter pacifista e multiplicador de uma cultura da 
paz e que motive atitudes que a disseminem. 
 
 
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Kur’yt’yba v.4 n.1 
 
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